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PEDÁGIO

SEM PAGAR NÃO PASSA ENTREVISTA

COM A PALAVRA, O TRAFICANTE GOVERNO X PROFESSOREA

COMPANHEIROS, COMPANHEIROS. GRVES À PARTE

SEGURANÇA PÚBLICA

NO CALABAR, VERSÃO BAIANA DE UPP CARIOCA 1


DECRETO DO GOVERNO WAGNER GERA CRISE COM PROFESSORES DAS UNIVERSIDADES ESTADUAIS

ELTON CARLOS

PROFESSORES PRESSIONAM GOVERNO DO ESTADO POR MELHORIA DAS CONDIÇÕES DE TRABALHO E AUMENTO SALARIAL

Amana Dultra Daniele Rodrigues

A EXPEDIENTE JORNAL DA FACOM - UFBA JORNAL LABORATÓRIO DA FACULDADE DE COMUNICAÇÃO DA UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA

POLÍCIA PARA QUEM? Malu Fontes

EDITOR RESPONSÁVEL

Malu Fontes, professora DRT-BA 1.480

N

o Brasil, a história das relações enRua Barão de Geremoabo, s/n, Campus tre os menos privilegiados e o braço de Ondina. CEP.: 40.750-115 Salvador - BA armado do Estado, do qual a polícia é a SECRETÁRIO DE REDAÇÃO face mais visível, sempre foi marcada por Genilson Alves desconfiança, violência e medo. Os críticos SUBEDITOR dos modelos de segurança pública vigentes Gilberto Rios no país até aqui volta e meia reiteram o EDITORA DE IMAGEM que consideram ser o papel da polícia: proAmana Dultra teger os mais ricos das ameaças dos mais PROJETO FRÁFICO E ILUSTRAÇÕES pobres. Recentemente, grandes metrópoles Tainá Moraes brasileiras, como o Rio de Janeiro e São PRODUÇÃO DA DISCIPLINA OFICINA DE JORNAISMO IMPRESSO, SEMESTRE 2011.1 Paulo, vêm anunciando mudanças na conAmana Dultra, Ana Paula Lima, Daniele duta e na prática de suas polícias visando Rodrigues, Débora Borja, Eduardo Coutin- aproximá-las da população mais carente ho, Genilson Alves, Gilberto Rios, Giltem- que, cansada de ser vista como ameaça, berg Santos, Luana Oliveira, Marco Antônio Cruz, Monique Aguiar, Natália Reis, finalmente parece começar a ser escutada sob a condição que reivindica: a de tamRafel Barreto, Raquel Santana, Raulino Júnior, Rita Babosa, Tais Santana, Tayse bém vítima da violência, e ainda em grau Argôlo, Tunísia Cores, Vanice da Mata, muito mais acentuado que os mais ricos. Weldell Wagner, Yuri Girardi Com base nas mudanças propostas por TIRAGEM políticas públicas em suas polícias, as duas 5000 exemplares maiores cidades brasileiras têm anunciado ENDEREÇOS

DISTRIBUIÇÃO GRATUITA

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nos últimos meses quedas significativas no número de homicídios. Em Salvador, onde o número de assassinatos a cada final de semana a eleva para fazer companhia às capitais hoje mais violentas do país, políticas públicas visando a aproximação entre a polícia e os bairros pobres começaram a ser anunciadas, primeiro no Calabar e, em fase de planejamento, no Nordeste de Amaralina. Trazendo na capa a chegada do que promete ser uma polícia diferente no Calabar, o Jornal da Facom relata essa aproximação. Ainda no terreno da segurança e da relação entre polícia e população, esta edição aborda as medidas que vem sendo adotadas pela UFBA para enfrentar o problema da violência. Para contemplar o contraditório e abordar um dos temas hoje mais caros à sociedade brasileira, a questão das drogas, o FJ entrevistou um traficante. BOA LEITURA

greve das quatro universidades estaduais da Bahia (UEBAs) durou 65 dias, com 5 mil professores em paralisação e 60 mil estudantes sem aula. As principais reivindicações dos docentes foram a revogação do Decreto 12.583/11, que reduz os recursos repassados pelo Governo para as UEBAs e responsabiliza as Secretarias de Administração (SAEB), da Fazenda (SEFAZ) e de Planejamento (SEPLAN) pela análise das demandas financeiras das universidades, e também a incorporação da gratificação por CET (Condições Especiais de Trabalho), que aumentaria de forma gradual, entre 2011 e 2014, os salários em 18%. Esta incorporação faz parte do acordo salarial estabelecido entre o Governo e os professores em novembro de 2010, e é fruto da luta sindical do mesmo ano. O impasse que tem inviabilizado a concretização deste acordo é o acréscimo feito pelo Governo, em dezembro, de uma cláusula que determina que os professores concordem em não reivindicar novos aumentos salariais até 2015. O acirramento das negociações aconteceu quando os professores exigiram a retirada desta cláusula e o Governo se mostrou inflexível. Segundo Jucelho Dantas, professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS) e diretor da Associação dos Docentes da Universidade Estadual de Feira de Santana (ADUFS), as novas redações da cláusula propostas pelo Governo eram semelhantes em conteúdo, sendo modificadas apenas questões de vocabulário. Apesar

dos docentes terem se mostrado dispostos a negociar o tempo de congelamento dos salários, o Governo retirou a proposta na sexta-feira, 27 de Maio, afirmando que não iria recuar. Os docentes e estudantes ocuparam a Assembleia Legislativa para pressionar os deputados Zé Neto, Waldenor Pereira e Marcelo Nilo a cobrar do Governador que incorpore a gratificação por CET, como foi acordado em novembro de 2010, quando os três deputados foram testemunhas da assinatura de um termo de compromisso, antes da inclusão da nova cláusula. O Deputado Zé Neto afirma que a Assembleia Legislativa é uma casa de Governo e estará defendendo os interesses do Governo, por uma questão de fidelidade democrática. Ele diz ainda que tem atuado fortemente para reativar as negociações. O responsável pela Coordenação de Desenvolvimento do Ensino Superior (CODES), Clóvis Caribé, afirma que o Governo entende não haver mais nenhuma pendência com o movimento docente e que os professores não têm novas pautas, o que justificaria a ausência de negociações por quatro anos. Como acusa Dantas, “o Governo Wagner se caracteriza como tirano, pois encerrou as negociações. Além disso, não respeita o direito de greve, cortou os salários, não pagou pelos dias trabalhados no mês e não cumpriu as liminares da justiça que preveem o pagamento imediato dos salários”.

bunal de Justiça concedeu liminar favorável ao movimento grevista, em resposta ao mandado de segurança da Associação de Docentes da Universidade Estadual da Bahia (ADUNEB) contra o Governo Estadual, e determinou que o Governador deve pagar o salário dos docentes. No entanto, o governo não obedeceu e recorreu à decisão. As assessorias jurídicas dos sindicatos das outras UEBAs também entraram com um processo para que o governo devolva imediatamente os salários. O salário dos docentes das UEBAs é o segundo menor do Nordeste e é em média 20% menor do que nas universidades federais, considerando titulação e regime de trabalho. Segundo Maslowa Freitas, docente da UEFS e secretária da Regional Nordeste III ANDES-SN (Associação Nacional dos Docentes do Ensino Superior), “o governo afirma que os salários das UEBAs e das Universidades Federais são equivalentes, mas isto é uma meia verdade, pois apenas é válido para os professores que só têm Especialização, que estão em início de carreira”. O Governo não apenas cortou os salários, como através do Decreto 2583/11, cortou também as verbas destinadas às UEBAs. Jean Afonso, professor da UNEB e membro do Comando de Greve, afirma que o Decreto proíbe a contratação ou concurso para docentes e restringe a concessão de licença de docentes para cursar pós-graduação.

“O GOVERNO WAGNER DESRESPEITA O DIREITO DE GREVE” JUCELHO DANTAS PROFESSOR DA UEFS E DIRETOR DA ADUFS

AUTONOMIA “O objetivo do Decreto é limitar o orçamento da Universidade e regular como ele deve ser gasto, burocratizando processos importantes”, afirma Freitas. Além disso, para a sindicalista, o decreto fere profundamente o exercício da autonomia financeira e didático-científica da universidade, garantida pela Constituição. Ainda segundo os grevistas, o Decreto desrespeita direitos trabalhistas previstos no Estatuto do Magistério Superior, conquistado com a greve de 2002, pois retira do âmbito da universidade decisões relativas a processos internos, como mudanças de regime de trabalho dos docentes, que agora passam a ser avaliados CORTE DE SALÁRIO e supervisionados pela SAEB, SEPLAN e E VERBAS SEFAZ. “A universidade pública não pode Em 28 de abril, o Governador cortou o passar a ser subserviente e subordinada ao salário dos professores, que estavam há 21 Governo do Estado, pois é a autonomia que dias em greve. No dia 17 de maio, o Tri- garante a pluralidade”, avalia a docente. 3


PEDÁGIO POR TODOS OS LADOS A TENDÊNCIA NACIONAL DE PEDAGIAR ESTRADAS CHEGA À BAHIA, PRIVATIZANDO AS PRINCIPAIS SAÍDAS DE SALVADOR Daniele Rodrigues Luana Oliveira

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stima-se que no máximo em um ano 13 praças de pedágios estarão em pleno funcionamento nas estradas da Bahia, sendo que destas, sete ligam cidades da região metropolitana de Salvador. Desde 2000, a Linha Verde, que liga Salvador a Sergipe, está pedagiada. Em 2011, já se tem pedágios nas estradas que ligam a capital a Simões Filho, Feira de Santana, Candeias, Pojuca e Camaçari, as principais vias de comércio e indústria do Estado. Salvador tem basicamente três vias de acesso, excluindo-se a travessia Salvador/ Mar Grande pelo ferry-boat: BR 324, BA 526 (Cia-Aeroporto) e a BA 099 (Linha Verde). As mesmas estão sob concessão das empresas Via Bahia, Bahia Norte e Litoral Norte (CLN), respectivamente. Essas rodovias ligam Salvador ao Porto de Aratu, ao Pólo Petroquímico e ao CIA (Centro Industrial de Aratu) e formam o principal entroncamento para a circulação e distribuição de produtos e serviços, além de ligar a capital às cidades do interior baiano e a outros estados. Essas estradas são o caminho de escoamento para uma produção que corresponde, segundo a Secretaria Estadual de Infraestrutura (Seinfra), a 60% do PIB baiano. Em breve, estas rodovias que levam ao núcleo industrial, comercial e financeiro da Bahia, estarão pedagiadas, com tarifas que variam de R$1,60 até R$ 15,80, a depender do veículo. “JÁ PENSOU SE TIVESSE ALGUÉM COBRANDO PARA VOCÊ ENTRAR EM CASA? PAGAMOS PARA CONSTRUIR A NOSSA CASA, AINDA TEMOS QUE PAGAR PRA ENTRAR?!” PAULO LOBO USUÁRIO DAS RODOVIAS

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PEDAGIAR COMO SOLUÇÃO PARA INFRAESTRUTURA DE ESTRADAS

Segundo a assessoria do DERBA (Departamento de Infraestrutura de Transportes da Bahia), as condições das estradas baianas estão avaliadas de média a boa, embora apenas 64% das rodovias sejam pavimentadas e, destas, 74,8% estejam em boas condições. Eduardo Pessoa, diretor executivo da AGERBA (Agencia Estadual de Regulação de Serviços Públicos de Energia, Transportes e Comunicações da Bahia), admite que embora haja melhoras, devido a investimentos internacionais, a situação das rodovias continua precária. Para manter as estradas de forma satisfatória é necessária uma arrecadação de pelo menos 100 milhões de reais, verba advinda da CIDE (tributo que incide sobre a comercialização de combustíveis), dos repasses do governo estadual e de parte do montante arrecadado com multas de trânsito. O fluxo e, consequentemente, o desgaste das estradas baianas tem aumentado graças ao crescimento industrial, comercial e populacional no estado. Segundo Pessoa, a arrecadação do Estado é pequena para dar suporte a esse desenvolvimento. “É necessário investimento pesado, então o pedagiamento passa a ser a alternativa mais viável”, argumenta. “Essa não é uma escolha apenas do governo baiano, é uma posição nacional. A grande malha rodoviária de São Paulo, por exemplo, já é pedagiada e é caríssima! Na Bahia, só temos duas”, conclui Pessoa, se referindo à quantidade de praças de pedágio em pleno funcionamento atualmente. Embora pareça uma tendência nacional, não há consenso sobre a necessidade de pedágios, e tampouco sobre a sua eficácia. Usuários, como o empresário Paulo Lobo, 55 anos, afirmam que as melhoras são ínfimas. “Trafeguei no início de abril pela BR 116, já pedagiada, e a estrada continuava esburacada, cheia de remendos. Nós pagamos imposto para manter as estradas, então o

governo tem a obrigação de oferecê-las em boas condições e sem pedágio”. O Fórum Popular Contra o Pedágio, organização nacional representada em Salvador por Tagner Oliveira, trabalha contra a política de pedágios e afirma que esta fere o direito básico de ir e vir dos cidadãos.

e da faixa de domínio e implementação dos serviços de atendimento médico e mecânico. Nesse processo foram gastos cerca de 90 milhões de reais”. O usuário Paulo Lobo é dono de uma distribuidora e afirma que “além de não haver grandes melhoras nas estradas, as obras tem causado engarrafamentos e acidentes”. Ele tenta hoje conseguir na justiça que os carros da sua empresa, cerca de dez trafegando somente no trecho CIA-Aeroporto, sejam isentos do pedágio. O Fórum Popular Contra o Pedágio, após debater com a própria Bahia Norte, conseguiu a isenção para moto-táxistas na Via Parafuso que leva a Camaçari.

CONCESSIONÁRIAS COMEÇAM COBRANÇA DE TARIFAS

A concessionária Via Bahia, formada por três grupos empresariais do Brasil e do exterior (Isolux Corsán Concesiones, Engevix e Grupo Encalso), administra desde outubro de 2009 o trecho da BR 324, que liga Salvador a Feira de Santana, além da BR 116, que liga Feira à divisa com Minas Gerais, totalizando 680 km de estradas pedagiadas. Serão sete praças de pedágios distribuídas entre Simões Filho e Vitória da Conquista. No trecho da BR 324 de 113 km, o valor da tarifa é de R$ 1,60 para carros de passeio e varia de R$3,20 a R$14,20 para caminhões, conforme os números de eixos. Já na BR 116, a tarifa é de R$ 2,80 para carros e pode chegar até R$ 24,90 para caminhões. A Bahia Norte é responsável pelo complexo viário BA 093, formado pelas BAs 093, 512, 521, 524, 526 e 535, que somam 121 km sob administração da empresa. Está prevista a instalação de cinco praças de pedágio até julho de 2011, sendo que destas três já estão em funcionamento: na Via Parafuso (BA 535), em Simões Filho (BA 093) e no Canal de Tráfego (BA 524). O governo do Estado fez um leilão e o ganhador foi a empresa que ofereceu a tarifa mais baixa, dentro de um teto máximo e mínimo, no valor de R$ 2,60 para carros de passeio. Segundo a assessoria da Bahia Norte, já foram feitas “obras de recuperação emergencial das rodovias com serviços de tapaburacos, substituição e complementação de placas de sinalização danificadas, limpeza do sistema de drenagem, dos acostamentos

A concessão da Bahia Norte está prevista para os próximos 25 anos e é papel do Estado, mais especificamente da AGERBA, fiscalizar e punir em caso de não execução do que está previsto no contrato. Segundo Eduardo Pessoa, “as punições variam de uma advertência, diferentes valores de multas até chegar a um ponto em que se inviabilize o convênio, rescindindo-o”. ESTRANGULAMENTO NAS RODOVIAS DE SALVADOR

Até março desse ano, quem precisava fazer o trajeto Salvador-Camaçari poderia usar a via Parafuso para escapar do pedágio da Linha Verde. Agora, essa via também está pedagiada. As duas principais vias até Simões Filho, a BR 324 e a BA 093, também estão

privatizadas. Ir do aeroporto de Salvador até Feira de Santana significa pagar dois pedá- PARA MANTER A ESTRADAS gios: um da Bahia Norte na Cia-Aeroporto DE FORMA SATISFATÓRIA e outro da Via Bahia na altura de Amélia SERIA NECESSÁRIO UMA Rodrigues. “Já pensou se tivesse alguém cob- ARRECADAÇÃO DE PELO rando para você entrar na sua casa? Pagamos MENOS 100 MILHÕES DE para construir a nossa casa, ainda temos que REAIS”. pagar pra entrar?!” ironiza Paulo Lobo, considerando que essas vias são as entradas para a capital. CLN QUER APROXIMAR PEDÁGIO Eduardo Pessoa enfatiza que no Complexo DE LAURO DE FREITAS da BA 093 não há rotas de fuga previstas A Concessionária Litoral Norte foi a prie explica que “inclusive, um dos grandes meira a implantar uma praça de pedágio na problemas hoje com a Linha Verde são duas Bahia, cuja tarifa varia de R$4,60, nos dias úteis, para R$ 6,90 nos finais de semana e feriados. O trecho que compreende pouco mais de 200 km liga Salvador ao estado de Sergipe e atualmente transitam pela via uma média de 13 mil veículos por dia. Recentemente, a CLN propôs a AGERBA que houvesse uma mudança na localização de sua praça de pedágio, trazendo-a para mais perto de Lauro de Freitas e privatizando uma via alternativa do aeroporto até a Linha Verde. Entretanto, há uma mobilização da população para que essa mudança não aconteça: “Estamos também nesta luta para que não mude a praça da CLN. Caso isto aconteça, Camaçari ficaria completamente ilhada”, explica Tagner Oliveira, representante do Fórum Popular Contra o Pedágio em Salvador. “A empresa CLN se nega o tempo todo a dialogar com o movimento”, afirma. A este respeito, o diretor executivo da AGERBA, Eduardo Pessoa, conclui “Essa rotas alternativas em que a CLN alega uma nova via é uma vantagem que a CLN apreperda de 40% da sua receita. Uma alterna- senta, pois diminuiria bastante em tempo a tiva às rodivias pedagiadas é a ponte Salva- viagem. Mas não há nenhum estudo conda AGERBA nem da Secretaria de dor-Itaparica que, ao contrário do que se clusivo possa pensar, não tem um foco só turístico, Infraestrutura. Estamos analisando.”. mas também o objetivo de abrir uma nova PESANDO NO BOLSO saída de Salvador”, afirma. Paulo Lobo indo de Salvador pela CiaNão havendo alternativa para não passar Aeroporto até Feira de Santana gastaria, pelas vias pedagiadas, a população que vive para percorrer 110 km de estrada, R$ 8,40 nos limites da praça de pedágio tenta usar de ida e volta. Já um estudante que more do beneficio de morador para não pagá-lo. em Simões Filho, mas sua escola esteja em Contudo, nem todos conseguem. Segundo Salvador, trafegando pela BR 324 gastará Eduardo Pessoa as concessionárias não fa- R$3,20; indo pela Cia-Aeroporto gastará zem um estudo para prever quantas pes- R$ 5,20. No trajeto de cerca de 50 km ensoas devem ser isentas. Ele considera isso tre Candeias e Pojuca existem duas praças positivo e argumenta que se as empresas de pedágio, ou seja, uma viagem de uma contassem com não-pagadores a tarifa seria hora custará ao motorista R$ 11,40 para ir e voltar. mais alta. 5


CARROS: SOLUÇÃO PARA UNS

PROBLEMAS PARA TODOS

RUAS DE SALVADOR GANHARAM MAIS DE 152 MIL VEÍCULOS EM POUCO MAIS DE QUATRO ANOS

Genilson Alves Daniele Rodrigues

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o longo dos últimos anos, Salvador tem aumentado consideravelmente a sua frota. No entanto, as malhas viárias da cidade não evoluíram o bastante para fazer com que os veículos circulem livremente, resultando em engarrafamentos que se estendem por quilômetros e prejudicam os soteropolitanos, mesmo fora dos horários de pico. A terceira maior cidade do país cresce num ritmo acelerado, o que pode ser registrado através da sua população. Segundo o último censo do IBGE, Salvador conta com 2.675.656 habitantes, um crescimento de cerca de 230 mil habitantes se comparado com o censo do ano 2000. Junto com a população, aumenta o número de veículos circulando pela cidade, mas, apesar disso, as vias da capital baiana não têm recebido os investimentos necessários para atender a esse avanço. Segundo o DETRAN/BA, 739.695 veículos circulam por Salvador atualmente, um número relativamente pequeno se comparado ao de outras metrópoles brasileiras como São Paulo, cuja frota ultrapassou os sete milhões de veículos em março deste ano. Contudo, a frota de Salvador já se configura como um problema para a cidade, uma vez que os engarrafamentos estão cada vez mais constantes. Já não é mais possível dizer em quais vias da capital baiana os congestionamentos se concentram, mas sim, em quais eles se acentuam. De acordo com a Secretaria de Transportes e Infraestrutura (SETIN), órgão da Prefeitura responsável pelo planejamento das políticas de trânsito da cidade, as vias que registram os piores índices de engarrafamentos são: 6

Avenida ACM, Juracy Magalhães Jr., Paralela e Vale do Bonocô, por onde circulam, respectivamente, 45 mil, 50 mil, 120 mil e 58 mil veículos por sentido. Ainda segundo a Secretaria, os horários de pico (em que os congestionamentos atingem seu ápice) dessas vias são de 07h às 09h, das 12h às 13h30min e das 17h30min às 19h. AVENIDA PARALELA, UM CASO À PARTE

A Avenida Luís Viana Filho, mais conhecida como Avenida Paralela, foi construída na

“SEGUNDO O DETRAN/BA, ATUALMENTE 739.695 VEÍCULOS CIRCULAM POR SALVADOR.” década de 1970 como uma via expressa para ligar os municípios de Salvador e Lauro de Freitas. Na via, não existiam instrumentos de retenção de tráfego, permitindo que os veículos andassem à alta velocidade, evitando congestionamentos na área. Entretanto, o atual cenário em nada lembra a antiga Paralela, que hoje conta com vários semáforos, radares redutores de velocidade, passarelas e muitos empreendimentos comerciais, empresariais e áreas residenciais. Todos estes fatores contribuem para que a Luís Viana Filho registre altos índices de congestionamentos de Salvador, situação que piora quando acontecem eventos como jogos de futebol no Estádio de Pituaçu ou

apresentações como os ensaios de verão nas casas de show da região. Segundo a SETIN, nestes casos, há um aumento de 16% no fluxo de veículos no trecho. Questionado sobre a atual configuração da via, a assessoria do órgão afirmou que esta possui uma configuração arterial, porém, com a conclusão das obras do BRT (Bus Rapid Transit) e das passarelas, a Paralela continuará como uma via expressa. Ainda sobre os jogos de futebol que acontecem em dias úteis no Estádio de Pituaçu, é possível detectar outras consequências ligadas ao trânsito nas imediações. A falta de estacionamento no estádio faz com que os torcedores estacionem nos canteiros centrais das avenidas Paralela e Pinto de Aguiar, por onde passam vários ônibus com passageiros que estão voltando do trabalho para casa. Ao estacionar nestes locais, os motoristas estão infringindo leis do Código de Trânsito, tendo como punição a aplicação de multas, cujos valores variam de acordo com a infração cometida. Para a SETIN, as únicas soluções para este problema são a educação dos motoristas, através de campanhas educativas, e o aumento da fiscalização e da aplicação das leis. UM PROBLEMA QUE NÃO É SÓ NOSSO

O problema do trânsito não é uma exclusividade de Salvador, mas uma realidade das grandes cidades que não conseguem acompanhar o ritmo de crescimento da sua população e economia, uma vez que não investem o necessário em obras de infraestrutura e modernização do transporte e do trânsito. Só na capital paulista, o número de carros pequenos usados para transporte individual

ou da família fica acima dos cinco milhões, numa cidade composta por uma frota de sete milhões de automóveis. Segundo uma pesquisa do Citigroup feita em 2008, esse caos no trânsito do país pode provocar nele uma perda de 5% em produtividade, o que se reflete em números da nossa economia. Nesse quesito, ficamos atrás apenas do México, cuja perda chega a 5,1%. Além dos prejuízos financeiros, os congestionamentos também comprometem a qualidade de vida das pessoas que passam por situações de estresse, presas durante muito tempo nas vias dos centros urbanos, prejudicando-as tanto em suas vidas profissional quanto na pessoal. Estudos já comprovaram que o estresse provoca problemas na saúde como obesidade e mau desempenho do sistema imunológico; digestivo e cardiovascular. O estresse pode provocar ainda problemas ligados ao desempenho sexual. Os cobradores ou motoristas de ônibus sofrem com o caos do tráfego na cidade tanto quanto os passageiros. Em alguns casos se submetem a um estresse ainda maior. Para Jeferson Santos de Jesus, 45 anos, cobrador que trabalha na empresa Vitral (linha Trobogy/ Comércio Lapa, 1302), o serviço de moto-táxi deveria ser legalizado pois ajuda muitas pessoas que precisam se locomover pela cidade e que não podem perder tanto tempo dentro dos ônibus. Jeferson, inclusive, se confessa um usuário desse serviço na volta para a casa. “DOS 60 MIL NOVOS CARROS QUE CIRCULAM POR ANO PELA CAPITAL DA BAHIA, MUITOS CIRCULAM COM APENAS UM PASSAGEIRO EM MÉDIA.” RODÍZIO FUNCIONA?

Em abril deste ano, o vereador Carlos Alberto Batista Neves (PMDB), anunciou que pretende incluir o rodízio de carros, medida que restringe a circulação dos veículos de acordo com a numeração da placa deste, em Salvador. Segundo o parlamentar, dos 60 mil novos carros que circulam por ano pela capital da Bahia, muitos circulam com apenas um passageiro em média. Em seu projeto, o vereador faz questão de especificar que o rodízio não se aplicaria às motocicletas. O projeto de lei 86/11 divide opiniões, uma vez que a tentativa paulista não obteve o sucesso esperado pois muitos motoristas da classe alta compraram mais veículos, que, por sua vez, possuem placas diferentes das cadastradas no rodízio. Isso não só tornou o rodízio ineficaz, como contestou a sua validade por aumentar o número de veículos nas ruas ao invés de diminuí-lo. Segundo especialistas, as medidas tomadas para pôr fim aos engarrafamentos devem atingir pontos mais críticos e cruciais como a oferta de transporte público de qualidade e campanhas de educação para os motoristas.

EDUCAR ATRAVÉS DA ARTE COM RECURSOS VINDOS DA ITÁLIA, ESCOLA DE ARTE PODE INTERROMPER AÇÃO EM SALVADOR POR FALTA DE APOIO LOCAL

Gilberto Rios e Taís Santana

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ducar pessoas e formar profissionais através da arte é a proposta da Escola Arte e Lavoro, fundada em 2006, na Mata Escura, bairro da periferia de Salvador, pelo arquiteto italiano Roberto Corradini. A escola, que atualmente ensina técnicas de mosaico, cerâmica e pintura a cerca de 210 jovens e crianças carentes integrados aos projetos Pau da Lima e Acupe de Santo Amaro, não possui instalações próprias e tem suas aulas ministradas justamente nos locais que dão nome aos projetos. A sede, por sua vez, está provisoriamente localizada na Igreja de Santo Antônio Além do Carmo, Centro Histórico, onde são formados os professores de mosaico e tomadas as decisões administrativas. O maior desafio da instituição ainda é conseguir apoio financeiro no Brasil, já que a sua maior fonte de recursos vem da Itália. A Arte e Lavoro é fruto da Associação Meu Brasil ONLUS, Organização Não Governamental italiana que viabiliza os trabalhos da instituição no Brasil e que deu origem à Associação Meu Brasil ONG, criada unicamente para abrigar a escola. Essa iniciativa tem entre seus objetivos a criação um lugar de aprendizado contínuo para jovens carentes das periferias soteropolitanas, um espaço em que cada um deles aprenda a ser responsável, cidadão, a respeitar os outros e fazer com que todos os alunos saiam da escola com uma profissão baseada em diferentes expressões artísticas. Por esses motivos, já foram dadas na Arte e Lavoro, além dos cursos de mosaico, pintura e de escultura com cerâmica, aulas de dança e teatro. Embora desenvolvido aqui e direcionado para o benefício de crianças brasileiras, o trabalho da Arte e Lavoro não é reconhecido no país. Ao longo dos seis anos de existência da escola, a única parceria estabelecida com algum órgão público brasileiro foi através da FAPESB, entre 2009 e 2010, através de um edital, para a implantação do projeto “Educação e Empreendedorismo”. Vanderlei Cerqueira, diretor da Arte e Lavoro, diz que faz parte da sua rotina inscrever a instituição em editais de arte e cultura, mas reclama da burocracia e da dificuldade de encontrar parceiros no mercado. O diretor também disse ter enviado, em 2007, uma carta para o prefeito de Salvador, João Henrique, oferecendo a instalação gratuita de um painel de mosaico em uma das estações de metrô. Nunca recebeu resposta. A falta de apoio no Brasil, público e privado, constitui empecilhos aos trabalhos desenvolvidos pela escola Arte e Lavoro, ao mesmo tempo em que atesta a falta de interesse do

poder público brasileiro em projetos sem cunho político. Ainda hoje, a maioria dos cursos oferecidos pela escola é custeada principalmente pelo governo e cidadãos italianos e pelos recursos obtidos com a venda de peças de mosaico produzidas pelos próprios alunos da escola e divulgadas através de exposições. Mesmo com o Brasil alcançando o posto de 7ª economia mundial, a iniciativa de governos estrangeiros em auxiliar pessoas carentes no país é muito grande. Um dos maiores temores de Vanderlei é que esse interesse acabe: “Os países europeus desde a década de 60 sempre ajudaram os países emergentes. Além de apoio financeiro a determinados projetos, eles enviavam pessoas para ajudar na formação técnica e profissional. É algo que pode parar de acontecer, pois na Europa, o Brasil já é considerado um país rico. A tendência é de que os recursos parem de vir pra cá e comecem a ir pra outros países.” Caso não possa mais contar com o dinheiro que vem da Itália, Vanderlei não sabe como fará para manter a instituição. Por enquanto, pensa em criar uma escola fixa e única no centro da cidade, para oferecer cursos pagos para todos os públicos e, com a renda, manter a escola para jovens carentes, única forma de continuar desenvolvendo os projetos. A dimensão do trabalho da Arte e Lavoro pode ser percebida pelas obras de arte espalhadas por Salvador e diversas outras cidades do Brasil e do mundo, como São Paulo, Belém, Milão, Veneza, Brescia e Bruxelas. Incentivados pela escola, vários jovens ingressaram em faculdades de Belas Artes, Dança, Teatro e Pedagogia. Outros têm sido encaminhados diretamente para o mercado de trabalho ou estão ensinando em outras instituições o que aprenderam nas aulas. Na escola, muitos alunos são selecionados para confeccionar mosaicos em residências, ruas e igrejas e recebem em média dois salários mínimos por mês. Em 2007, a Associação Meu Brasil foi reconhecida pelo “Sole 24 ore”, jornal italiano de negócios, como uma das 10 associações mais virtuosas sem fins lucrativos com despesas operacionais muito baixas. Uma questão que aumentou a visibilidade do grupo está relacionada ao envolvimento do jogador ítaloganês Mario Balotelli, que em 2007 e 2008, enquanto jogava na Internazionale de Milão, esteve em Salvador e se envolveu, por intermédio do irmão Giovanni, com a Associação Meu Brasil ONG. Ajudou na divulgação da instituição, levando um mosaico para o presidente da Internazionale, Massimo Moratti. Às pessoas interessadas em ajudar, o e-mail da instituição é meubrasil@hotmail.com. 7


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Genilson Alves Daniele Rodrigues

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o longo dos últimos anos, Salvador tem aumentado consideravelmente a sua frota. No entanto, as malhas viárias da cidade não evoluíram o bastante para fazer com que os veículos circulem livremente, resultando em engarrafamentos que se estendem por quilômetros e prejudicam os soteropolitanos, mesmo fora dos horários de pico. A terceira maior cidade do país cresce num ritmo acelerado, o que pode ser registrado através da sua população. Segundo o último censo do IBGE, Salvador conta com 2.675.656 habitantes, um crescimento de cerca de 230 mil habitantes se comparado com o censo do ano 2000. Junto com a população, aumenta o número de veículos circulando pela cidade, mas, apesar disso, as vias da capital baiana não têm recebido os investimentos necessários para atender a esse avanço. Segundo o DETRAN/BA, 739.695 veículos circulam por Salvador atualmente, um número relativamente pequeno se comparado ao de outras metrópoles brasileiras como São Paulo, cuja frota ultrapassou os sete milhões de veículos em março deste ano. Contudo, a frota de Salvador já se configura como um problema para a cidade, uma vez que os engarrafamentos estão cada vez mais constantes. Já não é mais possível dizer em quais vias da capital baiana os congestionamentos se concentram, mas sim, em quais eles se acentuam. De acordo com a Secretaria de Transportes e Infraestrutura (SETIN), órgão da Prefeitura responsável pelo planejamento das políticas de trânsito da cidade, as vias que registram os piores índices de engarrafamentos são: 6

Avenida ACM, Juracy Magalhães Jr., Paralela e Vale do Bonocô, por onde circulam, respectivamente, 45 mil, 50 mil, 120 mil e 58 mil veículos por sentido. Ainda segundo a Secretaria, os horários de pico (em que os congestionamentos atingem seu ápice) dessas vias são de 07h às 09h, das 12h às 13h30min e das 17h30min às 19h. AVENIDA PARALELA, UM CASO À PARTE

A Avenida Luís Viana Filho, mais conhecida como Avenida Paralela, foi construída na

“SEGUNDO O DETRAN/BA, ATUALMENTE 739.695 VEÍCULOS CIRCULAM POR SALVADOR.” década de 1970 como uma via expressa para ligar os municípios de Salvador e Lauro de Freitas. Na via, não existiam instrumentos de retenção de tráfego, permitindo que os veículos andassem à alta velocidade, evitando congestionamentos na área. Entretanto, o atual cenário em nada lembra a antiga Paralela, que hoje conta com vários semáforos, radares redutores de velocidade, passarelas e muitos empreendimentos comerciais, empresariais e áreas residenciais. Todos estes fatores contribuem para que a Luís Viana Filho registre altos índices de congestionamentos de Salvador, situação que piora quando acontecem eventos como jogos de futebol no Estádio de Pituaçu ou

apresentações como os ensaios de verão nas casas de show da região. Segundo a SETIN, nestes casos, há um aumento de 16% no fluxo de veículos no trecho. Questionado sobre a atual configuração da via, a assessoria do órgão afirmou que esta possui uma configuração arterial, porém, com a conclusão das obras do BRT (Bus Rapid Transit) e das passarelas, a Paralela continuará como uma via expressa. Ainda sobre os jogos de futebol que acontecem em dias úteis no Estádio de Pituaçu, é possível detectar outras consequências ligadas ao trânsito nas imediações. A falta de estacionamento no estádio faz com que os torcedores estacionem nos canteiros centrais das avenidas Paralela e Pinto de Aguiar, por onde passam vários ônibus com passageiros que estão voltando do trabalho para casa. Ao estacionar nestes locais, os motoristas estão infringindo leis do Código de Trânsito, tendo como punição a aplicação de multas, cujos valores variam de acordo com a infração cometida. Para a SETIN, as únicas soluções para este problema são a educação dos motoristas, através de campanhas educativas, e o aumento da fiscalização e da aplicação das leis. UM PROBLEMA QUE NÃO É SÓ NOSSO

O problema do trânsito não é uma exclusividade de Salvador, mas uma realidade das grandes cidades que não conseguem acompanhar o ritmo de crescimento da sua população e economia, uma vez que não investem o necessário em obras de infraestrutura e modernização do transporte e do trânsito. Só na capital paulista, o número de carros pequenos usados para transporte individual

ou da família fica acima dos cinco milhões, numa cidade composta por uma frota de sete milhões de automóveis. Segundo uma pesquisa do Citigroup feita em 2008, esse caos no trânsito do país pode provocar nele uma perda de 5% em produtividade, o que se reflete em números da nossa economia. Nesse quesito, ficamos atrás apenas do México, cuja perda chega a 5,1%. Além dos prejuízos financeiros, os congestionamentos também comprometem a qualidade de vida das pessoas que passam por situações de estresse, presas durante muito tempo nas vias dos centros urbanos, prejudicando-as tanto em suas vidas profissional quanto na pessoal. Estudos já comprovaram que o estresse provoca problemas na saúde como obesidade e mau desempenho do sistema imunológico; digestivo e cardiovascular. O estresse pode provocar ainda problemas ligados ao desempenho sexual. Os cobradores ou motoristas de ônibus sofrem com o caos do tráfego na cidade tanto quanto os passageiros. Em alguns casos se submetem a um estresse ainda maior. Para Jeferson Santos de Jesus, 45 anos, cobrador que trabalha na empresa Vitral (linha Trobogy/ Comércio Lapa, 1302), o serviço de moto-táxi deveria ser legalizado pois ajuda muitas pessoas que precisam se locomover pela cidade e que não podem perder tanto tempo dentro dos ônibus. Jeferson, inclusive, se confessa um usuário desse serviço na volta para a casa. “DOS 60 MIL NOVOS CARROS QUE CIRCULAM POR ANO PELA CAPITAL DA BAHIA, MUITOS CIRCULAM COM APENAS UM PASSAGEIRO EM MÉDIA.” RODÍZIO FUNCIONA?

Em abril deste ano, o vereador Carlos Alberto Batista Neves (PMDB), anunciou que pretende incluir o rodízio de carros, medida que restringe a circulação dos veículos de acordo com a numeração da placa deste, em Salvador. Segundo o parlamentar, dos 60 mil novos carros que circulam por ano pela capital da Bahia, muitos circulam com apenas um passageiro em média. Em seu projeto, o vereador faz questão de especificar que o rodízio não se aplicaria às motocicletas. O projeto de lei 86/11 divide opiniões, uma vez que a tentativa paulista não obteve o sucesso esperado pois muitos motoristas da classe alta compraram mais veículos, que, por sua vez, possuem placas diferentes das cadastradas no rodízio. Isso não só tornou o rodízio ineficaz, como contestou a sua validade por aumentar o número de veículos nas ruas ao invés de diminuí-lo. Segundo especialistas, as medidas tomadas para pôr fim aos engarrafamentos devem atingir pontos mais críticos e cruciais como a oferta de transporte público de qualidade e campanhas de educação para os motoristas.

EDUCAR ATRAVÉS DA ARTE COM RECURSOS VINDOS DA ITÁLIA, ESCOLA DE ARTE PODE INTERROMPER AÇÃO EM SALVADOR POR FALTA DE APOIO LOCAL

Gilberto Rios e Taís Santana

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ducar pessoas e formar profissionais através da arte é a proposta da Escola Arte e Lavoro, fundada em 2006, na Mata Escura, bairro da periferia de Salvador, pelo arquiteto italiano Roberto Corradini. A escola, que atualmente ensina técnicas de mosaico, cerâmica e pintura a cerca de 210 jovens e crianças carentes integrados aos projetos Pau da Lima e Acupe de Santo Amaro, não possui instalações próprias e tem suas aulas ministradas justamente nos locais que dão nome aos projetos. A sede, por sua vez, está provisoriamente localizada na Igreja de Santo Antônio Além do Carmo, Centro Histórico, onde são formados os professores de mosaico e tomadas as decisões administrativas. O maior desafio da instituição ainda é conseguir apoio financeiro no Brasil, já que a sua maior fonte de recursos vem da Itália. A Arte e Lavoro é fruto da Associação Meu Brasil ONLUS, Organização Não Governamental italiana que viabiliza os trabalhos da instituição no Brasil e que deu origem à Associação Meu Brasil ONG, criada unicamente para abrigar a escola. Essa iniciativa tem entre seus objetivos a criação um lugar de aprendizado contínuo para jovens carentes das periferias soteropolitanas, um espaço em que cada um deles aprenda a ser responsável, cidadão, a respeitar os outros e fazer com que todos os alunos saiam da escola com uma profissão baseada em diferentes expressões artísticas. Por esses motivos, já foram dadas na Arte e Lavoro, além dos cursos de mosaico, pintura e de escultura com cerâmica, aulas de dança e teatro. Embora desenvolvido aqui e direcionado para o benefício de crianças brasileiras, o trabalho da Arte e Lavoro não é reconhecido no país. Ao longo dos seis anos de existência da escola, a única parceria estabelecida com algum órgão público brasileiro foi através da FAPESB, entre 2009 e 2010, através de um edital, para a implantação do projeto “Educação e Empreendedorismo”. Vanderlei Cerqueira, diretor da Arte e Lavoro, diz que faz parte da sua rotina inscrever a instituição em editais de arte e cultura, mas reclama da burocracia e da dificuldade de encontrar parceiros no mercado. O diretor também disse ter enviado, em 2007, uma carta para o prefeito de Salvador, João Henrique, oferecendo a instalação gratuita de um painel de mosaico em uma das estações de metrô. Nunca recebeu resposta. A falta de apoio no Brasil, público e privado, constitui empecilhos aos trabalhos desenvolvidos pela escola Arte e Lavoro, ao mesmo tempo em que atesta a falta de interesse do

poder público brasileiro em projetos sem cunho político. Ainda hoje, a maioria dos cursos oferecidos pela escola é custeada principalmente pelo governo e cidadãos italianos e pelos recursos obtidos com a venda de peças de mosaico produzidas pelos próprios alunos da escola e divulgadas através de exposições. Mesmo com o Brasil alcançando o posto de 7ª economia mundial, a iniciativa de governos estrangeiros em auxiliar pessoas carentes no país é muito grande. Um dos maiores temores de Vanderlei é que esse interesse acabe: “Os países europeus desde a década de 60 sempre ajudaram os países emergentes. Além de apoio financeiro a determinados projetos, eles enviavam pessoas para ajudar na formação técnica e profissional. É algo que pode parar de acontecer, pois na Europa, o Brasil já é considerado um país rico. A tendência é de que os recursos parem de vir pra cá e comecem a ir pra outros países.” Caso não possa mais contar com o dinheiro que vem da Itália, Vanderlei não sabe como fará para manter a instituição. Por enquanto, pensa em criar uma escola fixa e única no centro da cidade, para oferecer cursos pagos para todos os públicos e, com a renda, manter a escola para jovens carentes, única forma de continuar desenvolvendo os projetos. A dimensão do trabalho da Arte e Lavoro pode ser percebida pelas obras de arte espalhadas por Salvador e diversas outras cidades do Brasil e do mundo, como São Paulo, Belém, Milão, Veneza, Brescia e Bruxelas. Incentivados pela escola, vários jovens ingressaram em faculdades de Belas Artes, Dança, Teatro e Pedagogia. Outros têm sido encaminhados diretamente para o mercado de trabalho ou estão ensinando em outras instituições o que aprenderam nas aulas. Na escola, muitos alunos são selecionados para confeccionar mosaicos em residências, ruas e igrejas e recebem em média dois salários mínimos por mês. Em 2007, a Associação Meu Brasil foi reconhecida pelo “Sole 24 ore”, jornal italiano de negócios, como uma das 10 associações mais virtuosas sem fins lucrativos com despesas operacionais muito baixas. Uma questão que aumentou a visibilidade do grupo está relacionada ao envolvimento do jogador ítaloganês Mario Balotelli, que em 2007 e 2008, enquanto jogava na Internazionale de Milão, esteve em Salvador e se envolveu, por intermédio do irmão Giovanni, com a Associação Meu Brasil ONG. Ajudou na divulgação da instituição, levando um mosaico para o presidente da Internazionale, Massimo Moratti. Às pessoas interessadas em ajudar, o e-mail da instituição é meubrasil@hotmail.com. 7


DE QUEM É NOSSA PRAÇA? PROJETO DA PREFEITURA JUNTO A INICIATIVA PRIVADA ACREDITA RESOLVER OS PROBLEMAS DE URBANISMO NA CIDADE. Gilberto Rios e Taís Santana

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Prefeitura de Salvador, sob o comando de João Henrique Carneiro, deu início ao Programa Nossa Praça a partir de uma iniciativa público-privada em 2005. O programa objetiva reduzir a deficiência urbanística de áreas públicas na cidade através da adoção de espaços por empresas ou grupos sociais organizados que estejam interessados. Reformulado em 2009, o programa sofreu modificações em sua gestão. “O Programa Nossa Praça foi desenvolvido pela Prefeitura da cidade através do Decreto de nº 15.629, em 2 de maio de 2005, para atender as praças de Salvador que necessitassem de reforma”, informa Fagner Dantas, 34, chefe do Setor de Aplicação dos Instrumentos de Política Urbana da Sedham (Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano, Habitação e Meio Ambiente). Segundo Dantas, a prefeitura dispõe de orçamento reduzido para manutenção e conservação das áreas verdes e essa parceria com a iniciativa privada, através do programa, contribui para a sustentação desses espaços. Entretanto, conforme a Setin (Secretaria Municipal dos Transportes e Infraestrutura), apesar de ter a terceira maior população do país (cerca de três milhões de habitantes), Salvador tem a 25ª receita pública per capita do país (R$ 983,00), tem o 7º orçamento do país (R$ 2,9 bilhões) e ocupa o primeiro lugar em densidade populacional, com 9.089 habitantes/km². 8

Como conta a professora Rosali Braga Fernandes, mestra em Arquitetura e Urbanismo e doutora em Geografia Humana, em seu artigo “Processos recentes de urbanização”, Salvador passou por um processo de expansão populacional por conta da migração da população do campo para o meio urbano em meados do século XX. Em decorrência disso, houve um inchaço urbano acompanhado de uma população socialmente desigual. “É evidente que tal panorama aponta para a necessidade de grandes intervenções públicas em todos os setores”, observa a professora. O arquiteto e professor do departamento de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal da Bahia, Heliodoro Sampaio, 66, acredita que é essa desigualdade social, acompanha da negligência da Prefeitura, que antecede os demais problemas de ordem pública, consequentemente refletidos na questão dos espaços públicos de convivência social. Nesses espaços, essa diferença se mostra na presença de depredadores, que destroem os materiais e monumentos de propriedade pública, na utilização do espaço por vendedores ambulantes que, de forma desorganizada, ocupam praças e canteiros da cidade e por fim, na presença de desabrigados, os quais reforçam o cenário de desordem por não encontrarem outros espaços para morar.

FALTA DE ASSISTÊNCIA Em 2006, a Faculdade da Cidade adotou a Praça da Inglaterra interessada em contribuir com a revitalização do bairro do Comércio. A adoção da praça constitui em uma reforma e manutenção realizada pela faculdade. Acontece em freqüência semestral, com pintura, arborização e varrição do local. Segundo o Supervisor do Campus, Albérico Machado, 58, “os usuários da praça não zelam pelo patrimônio público, sujando e degradando com frequência o espaço”. Machado continua: a Faculdade da Cidade também solicita auxílio constante da prefeitura de Salvador para a retirada de moradores de rua da praça e quanto à presença de ambulantes desordenados do ambiente. Mas, atualmente, a prefeitura não tem realizado ações de nenhuma natureza para a melhoria do espaço de convivência além do projeto. O que se observa hoje na Praça da Inglaterra, que é um espaço de interação para os trabalhadores daquela área é a presença ainda de árvores bem podadas e lixeiras, ainda que danificadas, e um monumento já bastante desgastado devido à ação do tempo. Poucos usuários se arriscam a parar na praça, como acontecia anteriormente. Devido a sensação de insegurança, a maioria agora é apenas pessoas passantes. Restos de cartazes colados em estruturas de concreto empobrecem o visual local.

BUROCRACIA A adoção se dá mediante a manifestação do interesse da empresa ou entidade organizada em revitalizar uma praça ou área verde já existente. A instituição pode apresentar um projeto à Sedham ou solicitá-lo à Fundação Mário Leal Ferreira, sob sua responsabilidade para a execução. Com o projeto definido, uma Comissão Especial faz a análise da possível adotante e faz um comparativo com a necessidade de reestruturação urbanística da área verde indicada. Sendo atendidos os requisitos mínimos para a adoção, um contrato é assinado e o processo, por fim, formalizado. É de responsabilidade da adotante revitalizar o espaço e fazer manutenções constantes durante o período de adoção caso estabelecido no contrato. Toda modificação feita no espaço, passa a ser patrimônio público, não podendo o então responsável solicitar ressarcimento em outro tempo qualquer. O acompanhamento da revitalização e a fiscalização acontecem através da Sucop – Superintendência de Conservação e Obras Públicas de Salvador, recentemente incorporada à Setin – que inspeciona a área no início e ao final do termo contratual. Contudo, durante o prazo de manutenção da praça adotada, não há fiscalização por parte do órgão, o que não permite garantia que a praça esteja sendo mantida pelo adotante. Apenas haverá vistoria caso haja denúncia pelos usuários da área verde, feita através do número 156 ou diretamente à Setin ou à Sedham. Ainda segundo Dantas, “a responsável não se beneficia diretamente com adesão ao programa, mas ao realizar uma parceria com o poder público, a instituição terá “crédito” em programas de incentivo e se diferenciará das instituições que não efetivam essa parceria”. Entretanto, conforme o decreto, há também como benefício a veiculação de um espaço de divulgação para veiculação de material da instituição de dimensões pré-estabelecidas no decreto. DESIGUALDADE SOCIAL E INSEGURANÇA Heliodoro acrescenta que o problema da insegurança social é mais agravado na cidade. Ele diz: Hoje, especialmente na gestão do atual pre-

feito, situações inusitadas em meio a áreas públicas, menos vistas antigamente, parecem ter se banalizado na cidade, como é o caso do Campo Grande, onde se tem muitos moradores de rua e usuários de drogas a depender do horário. Esses espaços parecem ter virado pólo atrativo para agrupamentos sociais marginais. Isso cria insegurança quanto ao uso dessas áreas, já que elas são ocupadas de uma forma “irregular”. Sampaio enfatiza: Espaços públicos, como o próprio nome já denota, deveriam servir como um espaço de convivência. As praças, por exemplo, têm funções diferentes. Existem as praças centrais e as dos bairros. As centrais exigem limpezas e supervisões diferenciadas, uma vez que elas são as que concentram maior número de passantes. Essas áreas tendem a se degradar com mais facilidade, tanto por estarem mais expostas aos mais diversos tipos de usuários, quanto por serem as que acumulam maior quantidade de lixo. Já as praças de bairro vêm a ser aquelas utilizadas pelo morador local. A

“A PREFEITURA DISPÕE DE ORÇAMENTO REDUZIDO PARA MANUTENÇÃO E CONSERVAÇÃO DAS ÁREAS VERDES” FAGNER DANTAS SEDHAM

função delas está diretamente voltada às práticas de convivência entre os moradores. Ambas têm importância muito grande, portanto elas merecem manutenção regular. A manutenção é a responsável por fazer o usuário do espaço público tê-lo como um ambiente adequado para o seu uso, independente da sua beleza, mas pelo conforto proporcionado. Ao ser questionado sobre a parceria da Prefeitura com a iniciativa privada em prol da construção e manutenção de espaços públicos, o professor reconhece que isso vem sendo adotado em vários lugares, inclusive em outros

países. Em alguns casos, é bem-sucedido, diferentemente de outros. Para ele, é uma estratégia da Prefeitura para dar suporte a seu trabalho, desde que os termos do contrato público-privado sejam razoáveis. Finalmente, ele se mostra mais favorável ao programa, desde que a Prefeitura não creia que a responsabilidade fique inteira para a iniciativa privada, mas que haja, minimamente, vistorias regulares para avaliação daquele espaço. E ele continua: Contemporaneamente, o que se pode observar é que a legislação urbana tem sido conivente com uma prática quem vem uma tendência no mercado imobiliário: criar espaços segregados com todas as comodidades que não costumavam ser próprios de condomínios residenciais. Hoje, não é raro nós vermos que prédios ou condomínios residenciais tenham suas próprias academias, quadras de esporte, clubes e, em casos mais extremos, escolas, torres empresariais etc. Mas, para Marlene Luz, gerente de atendimento ao cliente da Sertenge, 46, a indexação de espaços de lazer e convivências nas áreas residenciais tem duas frentes. De fato há o expurgo do convívio público, mas oferecer ao morador de um empreendimento uma comodidade é fator importante. Outro ponto que Marlene enfatiza é a malha viária da cidade, que devido a sua deficiência sofre cada vez mais como os engarrafamentos, fato que dificulta o deslocamento dos moradores da cidade para as áreas públicas. Para Marlene, Salvador não possui espaços públicos que ofereçam conforto aos usuários. Sobre isso, o professor Heliodoro afirma que isso tem duas implicações. Primeiro, há a desvalorização crescente do espaço público, uma vez que os moradores desses condomínios tendem a deixar de ser usuários da área pública, então não se vai cobrar a limpeza da praça coletiva, já que eles já possuem uma praça própria; Segundo, contribui-se, ainda mais, para a segregação social. Ele conclui que se esses empreendimentos apresentam a proposta de uma vida segura, esse discurso logo cairá, já que esses moradores terão que se submeter às ruas em algum momento. Essa ideia de segurança é, portanto, ilusória. 9


DÉBORA BORJA TAYSE ARGÔLO VANICE DA MATA

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a madrugada de 29 de março de 2011, as comunidades do Alto das Pombas e do Calabar foram ocupadas por 350 policiais, sendo 228 militares, 60 civis, somados aos integrantes do Centro de Operações Especiais (COE) e do Batalhão de Choque. Em visita ao local, uma semana antes, o Secretário de Segurança Pública, Maurício Barbosa, anunciou a intervenção policial como medida do Projeto Pacto pela Vida, do Governo da Bahia. A principal motivação para a escolha desse local como o primeiro a receber a Base Comunitária de Segurança em Salvador foi, segundo a Secretaria de Segurança Pública, a expansão do tráfico de drogas. A intervenção policial foi previamente avisada e discutida, em duas reuniões de representantes da PM com algumas lideranças comunitárias da região, e incluiu helicópteros, armamentos e 14 mandados de prisão, o que assustou os moradores, estimados em 30 mil pela PM. Para Fátima Gavião, presidente da Sociedade Beneficente e Recreativa do Calabar (SBRC), “o primeiro contato foi de pânico, eu pensei que a comunidade não suportaria aquela operação de guerra”. Os resultados da operação apresentados pelos policiais foram o cumprimento de quatro mandados de prisão e nenhum tiro disparado. De acordo com o Major Guerra, da Polícia Militar “a operação obteve êxito completo e teve apoio massivo da comunidade. Nós tivemos também a credibilidade de sermos ajudados, através do Disk Denúncia, sobre a localização dos traficantes”. A intervenção foi seguida de uma ocupação policial temporária, de 70 homens por dia, que se estendeu até a implantação da primeira Base Comunitária de Segurança, em 25 de abril, comandada pela capitã militar Maria Oliveira. BASE COMUNITÁRIA, UPP OU KOBAN?

O conceito de base comunitária não é algo inédito, mas uma importação de uma filosofia implantada no Japão há mais de 100 anos, onde as bases eram chamadas de Koban, quando em área urbana, e Chuzaisho em área rural. A proposta envolve a capacitação dos policiais que atuarão na comuni-

ALTO DAS POMBAS

E CALABAR POLÍCIA E MORADORES: UMA CONVIVÊNCIA DELICADA

NA PRIMEIRA REGIÃO DE SALVADOR A ABRIGAR UMA BASE COMUNITÁRIA DE SEGURANÇA, COMUNIDADE AINDA TEM DÚVIDAS QUANTO A SEUS BENEFÍCIOS

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A PROXIMIDADE DE ÁREAS NOBRES EXPLICA OS ALTOS ÍNDICES DE TRÁFICO DE DROGAS NO ALTO DAS POMBAS E CALABAR, “POIS AS COMUNIDADES ABASTECEM AS CAMADAS SOCIAIS MAIS ALTAS, E SÃO ESTAS QUE MOVEM A FÁBRICA DO TRÁFICO” CORONEL MOZART

dade, iniciada em 11 de abril com um curso de qualificação de operador de polícia comunitária. A aproximação da comunidade com o policial militar, transformando este em parceiro dos moradores, é um dos principais embasamentos dessa filosofia, para que os policiais também possam administrar crises e solucionar problemas locais. De acordo com o comandante da operação iniciada no Calabar e chefe do policiamento da Região do Atlântico (que inclui todos os bairros da orla marítima, de Itapuã à Barra, e mais localidades adjacentes), o Coronel da PM, Mozart Santos Lima, o modelo planejado para Salvador é semelhante ao que existe em São Paulo e sua atuação se diferencia das Unidades de Polícia Pacificadora (UPP’s) do Rio de Janeiro, pois aqui não há comunidades dominadas por agentes do tráfico de drogas. Alguns oficiais da PM foram ao Japão com o objetivo de conhecer mais de perto essa estratégia de policiamento. Para o Coronel Mozart, “esse processo de introdução necessita de muitos cuidados, pois a cultura japonesa é muito diferente. Aqui há uma questão de desigualdade social muito intensa e altos índices de marginalidade, por isso, antes de implantar as bases é necessário fazer um processo de limpeza, assepsia (sic), do espaço em termos de delinquência”. De acordo com o planejamento da Polícia Militar, a base foi instalada provisoriamente no prédio do centro comunitário do Calabar e terá o efetivo de 120 policiais militares, três carros e três motos. Posteriormente, a base ocupará o espaço do atual posto policial, vizinho ao centro comunitário. Laboratório Durante a primeira semana após a intervenção, a principal pergunta feita pelos meios de comunicação refletia um questionamento recorrente na sociedade: “por que realizar essa ação no Calabar, se existem, em Salvador, regiões mais violentas e perigosas?”. Defender que essa região foi escolhida por ser territorialmente pequena e possuir grande valor simbólico devido ao quilombo que deu origem às comunidades, formadas pelo povo africano Kalabari, mostrou-se uma justificativa insuficiente e incompleta. Para um integrante da Polícia Militar, que não quis se identificar, tal justificativa não pode ser considerada mentira. No entanto, admitiu: “o Calabar está próximo de áreas nobres e eu aprendi que a primeira ordem é do dinheiro”. O Coronel Mozart alega que, além de ser uma região pequena, o que possibilita a essa primeira ocupação o caráter de laboratório para a implantação das Bases Comunitárias em áreas maiores, o Alto das Pombas e o Calabar foram destacados, pelo núcleo de inteligência da PM como comunidades que apresentavam alto índice de tráfico de drogas. A proximidade de áreas nobres, como Barra, Ondina, Graça e Jardim Apipema, explica esses índices, “pois as comunidades abastecem as camadas sociais mais altas, e são estas que movem a fábrica do tráfico”, esclarece o Coronel, para quem o combate ao tráfico de drogas é o principal meio de reduzir os números de homicídios em Salvador. “De todos os homicídios que eu acompanho na Região do Atlântico, a maior parte está vinculada às drogas”, explica, apresentando os

É UM EQUÍVOCO PENSAR QUE O CALABAR ESTEVE SUFOCADO PELO TRÁFICO DE DROGAS E SOMENTE RECUPEROU SUA LIBERDADE COM A AÇÃO POLICIAL números do primeiro trimestre de 2011: 74 homicídios nessa região, dos quais, 40 relacionados ao uso e ao tráfico de drogas. MORADORES

Em meio às justificativas, os moradores consideram válido o processo de ocupação, mesmo reconhecendo a existência de áreas mais perigosas que o Alto das Pombas e o Calabar. “Diante da situação de turbulência e perdas que a comunidade estava vivendo, a ação policial no Calabar foi necessária”, afirma Lindalva Amorim, 58 anos, presidente da Associação dos Educadores das Escolas Comunitárias da Bahia, sem entrar em detalhes. Mesmo admitindo os resultados positivos da ocupação, surgem dúvidas: “por que houve esse acordar para o Calabar agora? Nesse momento de preparativos para a Copa?”, questiona Fátima Gavião. Sobre a situação do tráfico de drogas, que dividiu o Calabar entre as regiões do Bomba e do Camarão, alguns moradores ainda receiam falar, afirmando apenas que “está tudo ótimo”, como garantiu Domingos dos Santos, de 57 anos, pintor: “por aqui está tudo bem, esses dias com a polícia estão sendo ótimos.” De acordo com Fátima Gavião, a “rixa” entre os traficantes afetava a liberdade dos moradores de transitar entre todas as áreas do Calabar, mas não os impedia. Ela afirma que os moradores de áreas distintas já se sentiam desiguais devido à distribuição espacial de espaços importantes para a comunidade. O posto de saúde, a quadra de esportes, a rádio comunitária do Calabar e a sede da associação de moradores, estão localizados na região do Camarão, cuja entrada, na Avenida Centenário, passou a ser constantemente guardada por uma viatura da PM, após a ocupação. “Mesmo com o tráfico, algumas pessoas andavam pelas duas áreas, e hoje, depois da ocupação, ainda tem quem não se sinta seguro para ir ao posto de saúde”, esclarece a presidente da SBRC, para quem a comunidade, predominantemente de trabalhadores, registrava índices de violência, mas vivia normalmente, afirmando a incoerência da ideia de que o Calabar esteve sufocado pelo tráfico de drogas e somente recuperou sua liberdade com a ação policial. Sobre esta ideia, os moradores afirmam ainda que os serviços como coleta de lixo, entrega de correspondências e encomendas sempre funcionaram na comunidade. PÓS INTERVENÇÃO

A maior expectativa de grande parte da população do Calabar era que, com a in11


tervenção, fossem criadas e efetivadas novas políticas públicas e iniciativas sociais, resolvendo demandas constantes do bairro, como a insuficiência das áreas da saúde, educação, saneamento básico, esporte, cultura, lazer, emprego e renda. Com a ocupação policial foi estabelecido um diálogo entre as diversas secretarias do Governo do Estado e as lideranças comunitárias, com o intuito de planejar e executar medidas públicas que fazem parte da proposta do Pacto pela Vida. Participa dessa iniciativa, como liderança das demais secretarias, a SEDES (Secretaria do Desenvolvimento Social e Combate à Pobreza) que, como afirma o titular da pasta, Carlos Brasileiro, ficou responsável por coordenar as ações sociais e as atividades que serão desempenhadas pelas demais secretarias estaduais, a exemplo da SETRE (Secretaria do Trabalho, Emprego, Renda e Esporte), SEPROMI (Secretaria de Promoção da Igualdade), SECULT (Secretaria de Cultura), SECJUST (Secretaria da Justiça, Cidadania e Direitos Humanos), Secretaria de Educação e SESAB (Secretaria da Saúde). Segundo Brasileiro, segurança não é só a proteção policial: “queremos discutir com a comunidade para constituir um projeto que seja viável para ser implantado logo, daqui a 30 dias”. Representantes do Governo do Estado têm se reunido com lideranças para discutir políticas públicas para os bairros. No entanto, um mês após a ocupação, os moradores se queixam de que embora as conversas tenham progredido, ainda não há resultados concretos. Durante as reuniões, a falta de área física para a construção de espaços de sociabilidade, como quadras esportivas e praças, foi destacado como o principal obstáculo. POSSE DA TERRA

As reinvindicações dos moradores remetem também a questões mais antigas tanto do Alto das Pombas, quanto do Calabar, como a questão fundiária, pois eles não possuem título de propriedade de terra. “Precisamos deste documento para evitar que a especulação imobiliária que está em nosso entorno tome a nossa comunidade. O Calabar é uma área nobre”, frisa o tesoureiro da SBRC, Ciba. Em setembro de 2006, a Santa Casa de Misericórdia, proprietária de terrenos da região, assinou convênio com a Prefeitura de Salvador, veiculado pelo Diário Oficial do Município, em que doaria as terras às comunidades em troca da regularização junto à Secretaria da Fazenda. No entanto, como conta Ciba, devido a problemas com o re-

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passe da verba de R$500.000,00 (quinhentos mil reais) pela prefeitura, disponibilizada pelo Ministério das Cidades para cobrir custos do processo, essa reinvindicação perdura. A localização dos contêineres de lixo é outra das reclamações dos moradores, por ficarem muito próximos à escola e ao posto de saúde, prejudicando estudantes, médicos e pacientes. Os moradores exigem ainda o fortalecimento de grupos locais. “Temos grupos de capoeira, basquete, futebol masculino e feminino, dança. São grupos que existem há anos e que sobrevivem graças ao esforço de seus mentores”, afirma Fátima Gavião. Na busca por parceiros para apoiar a educação de crianças e jovens, a UNEB já se mostrou interessada. Enquanto isso, alguns moradores se queixam da apatia da UFBA, vizinha do Calabar, em relação às questões do bairro. “Eu acho que a UFBA trabalha internamente e não apoia as comunidades de Salvador que poderiam ser beneficiadas. A UFBA simplesmente se fecha”, queixa-se Derval Pereira. Como a comunidade tem apenas uma quadra poliesportiva e não há espaço físico disponível para a construção de outras, há uma reinvindicação para que a Universidade desenvolva atividades de educação física nas quadras do campus de Ondina. INICIATIVA PRIVADA

A reforma do prédio do Centro Comunitário é uma exceção às queixas dos moradores sobre a demora na concretização dos planos idealizados para a região, pois as obras foram realizadas rapidamente por funcionários de uma construtora privada, para possibilitar o alojamento provisório da Base Comunitária de Segurança. De acordo com James Correia, secretário do Comércio, Indústria e Mineração, “não haverá dificuldades para realizar obras em nenhuma área que tiver Base Comunitária de Segurança, pois há uma grande mobilização da classe empresarial e é a ADEMI (Associação de Dirigentes de Empresas do Mercado Imobiliário) que está apoiando tudo”. Para o secretário, a doação por parte dos empresários é a melhor opção, pois “o processo do governo é lento e com licitação e toda a burocracia demoraria mais de um ano para uma obra sair”. No caso da empresa privada de construção civil, a construtora disponibilizou mão de obra e materiais para a reforma. Contudo esse aparente engajamento social é contestado pelos moradores. Fátima Gavião relata um episódio em que, ao sugerir a um funcionário da construtora que disponibilizasse roupas adequadas para “os meninos que estavam limpando um tel-

PARA MUITO ALÉM DA OPERAÇÃO POLICIAL VANICE DA MATA

DE ACORDO COM FÁTIMA GAVIÃO, A “RIXA” ENTRE OS TRAFICANTES AFETAVA A LIBERDADE DOS MORADORES DE TRANSITAR ENTRE TODAS AS ÁREAS DO CALABAR, MAS NÃO OS IMPEDIA hado” da Associação, esse teria respondido grosseiramente: “nós estamos dando esmola e vocês ainda vem reclamar”. Muitos moradores da região assumiram uma postura otimista em relação à instalação das bases, com esperanças de que a ação fosse resolver as carências da comunidade. “Nós temos visto muita conversa e poucas ações práticas que a comunidade precisa. Nós queremos que os jovens façam coisas boas e não pensem nas besteiras que faziam antes, quando se envolviam com drogas. Mente vazia é oficina do diabo”, conclui Derval Pereira, presidente da Associação de Moradores do Alto das Pombas. O delegado da Polícia Federal e chefe da Superintendência de Gestão Tecnológica e Organizacional (SGTO), Expedito Teixeira, ressalta que “há mais de 40 anos o Calabar está nessa situação de descaso. Não dá para resolver todos os problemas da noite para o dia”. Para Vírginia Garcez, diretora presidente da UNIPAZ Bahia (Universidade da Paz), que esteve presente em reuniões entre a comunidade e os representantes do Estado, mesmo com a demora na resolução de políticas públicas, “o que está acontecendo no Calabar é único. Nunca houve essa interação entre a Prefeitura, o Governo do Estado e a comunidade”.

uando menina, tinha medo de escuro. Só ainda não estão bem certos se o mesmo radores daquela localidade. São inúmeras as Q Em meu quarto, à noite, vivia assus- vale para a Polícia. A criançada, cujo único lutas e seus heróis, via de regra inominados, tada com um suposto monstro cuja morada medo que não cede é o do escuro, vestiu escrevem uma história registrada ainda em era debaixo de minha cama. Como antídoto, uma prece à Nossa Senhora “do Perpétuo Socorro”, a quem também chamava de minha mãe. O tempo passa. Os medos, nem tanto. Da comunidade carente em que vivi parte gostosa, ma non troppo, de minha vida, perdi alguns poucos amigos. Como consolo, gosto de acreditar que foram generosos comigo para que novos pudessem chegar. Imagino os meninos do Alto das Pombas e Calabar rezando e orando para que a operação policial que aconteceu no último aniversário da cidade de Salvador não entrasse pela porta de sua casa adentro e fizesse como refém seu pai, mãe e, principalmente, eles mesmos. Tudo isso, em uma data que coincidia com o dia de nascimento de mais um menino assustado pelos seus monstros. Ali, parecia que a tal figura disforme saíra debaixo da cama e passara a andar pelas ruas em sol a pino, com os rostos encobertos, fossem da polícia ou fossem do tráfico – às vezes, a mesma face de uma moeda. Naquele dia, não teve bolo de parabéns para o ‘menino assustado’, como era de praxe em todos os outros 29 de março. Mais tarde, veio a cúpula e iluminou o terreiro, em companhia do Excelentíssimo Senhor Prefeito. Ofereceram um prato à comunidade. Feijão, de longe, é melhor do que bala (e felizmente, naquela operação, nenhuma foi deflagrada). Essa simples atitude da polícia foi capaz de dar um freio no abuso do poder do tráfico naqueles bairros - é verdade! A comunidade, apesar de compreensivelmente desconfiada, afirma: “também precisamos de segurança”.

quepe e brincou de polícia naquele dia. Na brincadeira, fez questão de esquecer o papel do bandido. Vai que “os home” levassem a sério? A mãe do tal menino assustado comeu a feijoada no dia em que a iguaria, agora chique, foi servida pelas autoridades. Mas, é historicamente dificultado àquela mulher o acesso ao exercício diário desta mesma au-

NA BRINCADEIRA, FEZ QUESTÃO DE ESQUECER O PAPEL DO BANDIDO. VAI QUE “OS HOME” LEVASSEM A SÉRIO? toridade quando o assunto é por a comida na mesa de sua própria casa. O mesmo se dá no que se refere à dignidade de medicar seu filho “dengoso”, por conta de pneus com que as crianças da comunidade possam vir a brincar, enchidos de chuva e, por isso, transformados em criatório do mosquito de origem africana. O brinquedo cresceu e hoje ele é outro. É de verdade, e mata. Mas, vamos acreditar na polícia: o brinquedo “fora” de verdade. E “matara”. Pretérito mais que perfeito conjugado, o futuro vem rallentando para os mo-

poucos papéis. Por conta disso, a comunidade pode cansar de esperar as tão reivindicadas políticas públicas, direito de todo e qualquer cidadão brasileiro. “A violência é um grave problema de saúde pública mundial”, dispôs a 49ª reunião da assembléia mundial da Organização Mundial da Saúde (OMS). Isso em maio de 1996. De lá prá cá, o conjunto de secretarias do Estado baiano resolve que, finalmente, em 2011 era hora de entrar no Alto das Pombas e Calabar. Não fosse esse “delta tempo” a nossa nação poderia ter criado mais Julianos Moreiras, Manuéis Querinos, Antonios Sampaios da vida... Eles mesmos, da cor de seus pais, avós, bisavós, africanos escravizados no nosso distante e dicotomicamente presente Brasil. Publicação do Instituto Sangari demonstra: o Brasil continua a naturalizar a morte de sua população jovem, negra e sobretudo masculina. A Bahia e Salvador, tristemente, repetem esta equação. Ou seja: continuamos a dar tiro no nosso próprio pé, dando margem à comunidade internacional de nos cartãopostalizar como algo mundialmente démodé (ainda que cascas de bananas lançadas nos campos de futebol pelo mundo afora possam ser indício de exatamente o contrário). O tempo trouxe aos habitantes desta cidade que canta e dança a oportunidade de (re?)viver uma experiência coletiva de solidariedade. Se vamos saber aproveitar, não sei. Tenho saudades de quando monstro era, exclusivamente, morador imaginário habitante do escuro embaixo da cama. Este, sim, nunca nos tirou vidas. 13


tervenção, fossem criadas e efetivadas novas políticas públicas e iniciativas sociais, resolvendo demandas constantes do bairro, como a insuficiência das áreas da saúde, educação, saneamento básico, esporte, cultura, lazer, emprego e renda. Com a ocupação policial foi estabelecido um diálogo entre as diversas secretarias do Governo do Estado e as lideranças comunitárias, com o intuito de planejar e executar medidas públicas que fazem parte da proposta do Pacto pela Vida. Participa dessa iniciativa, como liderança das demais secretarias, a SEDES (Secretaria do Desenvolvimento Social e Combate à Pobreza) que, como afirma o titular da pasta, Carlos Brasileiro, ficou responsável por coordenar as ações sociais e as atividades que serão desempenhadas pelas demais secretarias estaduais, a exemplo da SETRE (Secretaria do Trabalho, Emprego, Renda e Esporte), SEPROMI (Secretaria de Promoção da Igualdade), SECULT (Secretaria de Cultura), SECJUST (Secretaria da Justiça, Cidadania e Direitos Humanos), Secretaria de Educação e SESAB (Secretaria da Saúde). Segundo Brasileiro, segurança não é só a proteção policial: “queremos discutir com a comunidade para constituir um projeto que seja viável para ser implantado logo, daqui a 30 dias”. Representantes do Governo do Estado têm se reunido com lideranças para discutir políticas públicas para os bairros. No entanto, um mês após a ocupação, os moradores se queixam de que embora as conversas tenham progredido, ainda não há resultados concretos. Durante as reuniões, a falta de área física para a construção de espaços de sociabilidade, como quadras esportivas e praças, foi destacado como o principal obstáculo. POSSE DA TERRA

As reinvindicações dos moradores remetem também a questões mais antigas tanto do Alto das Pombas, quanto do Calabar, como a questão fundiária, pois eles não possuem título de propriedade de terra. “Precisamos deste documento para evitar que a especulação imobiliária que está em nosso entorno tome a nossa comunidade. O Calabar é uma área nobre”, frisa o tesoureiro da SBRC, Ciba. Em setembro de 2006, a Santa Casa de Misericórdia, proprietária de terrenos da região, assinou convênio com a Prefeitura de Salvador, veiculado pelo Diário Oficial do Município, em que doaria as terras às comunidades em troca da regularização junto à Secretaria da Fazenda. No entanto, como conta Ciba, devido a problemas com o re-

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passe da verba de R$500.000,00 (quinhentos mil reais) pela prefeitura, disponibilizada pelo Ministério das Cidades para cobrir custos do processo, essa reinvindicação perdura. A localização dos contêineres de lixo é outra das reclamações dos moradores, por ficarem muito próximos à escola e ao posto de saúde, prejudicando estudantes, médicos e pacientes. Os moradores exigem ainda o fortalecimento de grupos locais. “Temos grupos de capoeira, basquete, futebol masculino e feminino, dança. São grupos que existem há anos e que sobrevivem graças ao esforço de seus mentores”, afirma Fátima Gavião. Na busca por parceiros para apoiar a educação de crianças e jovens, a UNEB já se mostrou interessada. Enquanto isso, alguns moradores se queixam da apatia da UFBA, vizinha do Calabar, em relação às questões do bairro. “Eu acho que a UFBA trabalha internamente e não apoia as comunidades de Salvador que poderiam ser beneficiadas. A UFBA simplesmente se fecha”, queixa-se Derval Pereira. Como a comunidade tem apenas uma quadra poliesportiva e não há espaço físico disponível para a construção de outras, há uma reinvindicação para que a Universidade desenvolva atividades de educação física nas quadras do campus de Ondina. INICIATIVA PRIVADA

A reforma do prédio do Centro Comunitário é uma exceção às queixas dos moradores sobre a demora na concretização dos planos idealizados para a região, pois as obras foram realizadas rapidamente por funcionários de uma construtora privada, para possibilitar o alojamento provisório da Base Comunitária de Segurança. De acordo com James Correia, secretário do Comércio, Indústria e Mineração, “não haverá dificuldades para realizar obras em nenhuma área que tiver Base Comunitária de Segurança, pois há uma grande mobilização da classe empresarial e é a ADEMI (Associação de Dirigentes de Empresas do Mercado Imobiliário) que está apoiando tudo”. Para o secretário, a doação por parte dos empresários é a melhor opção, pois “o processo do governo é lento e com licitação e toda a burocracia demoraria mais de um ano para uma obra sair”. No caso da empresa privada de construção civil, a construtora disponibilizou mão de obra e materiais para a reforma. Contudo esse aparente engajamento social é contestado pelos moradores. Fátima Gavião relata um episódio em que, ao sugerir a um funcionário da construtora que disponibilizasse roupas adequadas para “os meninos que estavam limpando um tel-

PARA MUITO ALÉM DA OPERAÇÃO POLICIAL VANICE DA MATA

DE ACORDO COM FÁTIMA GAVIÃO, A “RIXA” ENTRE OS TRAFICANTES AFETAVA A LIBERDADE DOS MORADORES DE TRANSITAR ENTRE TODAS AS ÁREAS DO CALABAR, MAS NÃO OS IMPEDIA hado” da Associação, esse teria respondido grosseiramente: “nós estamos dando esmola e vocês ainda vem reclamar”. Muitos moradores da região assumiram uma postura otimista em relação à instalação das bases, com esperanças de que a ação fosse resolver as carências da comunidade. “Nós temos visto muita conversa e poucas ações práticas que a comunidade precisa. Nós queremos que os jovens façam coisas boas e não pensem nas besteiras que faziam antes, quando se envolviam com drogas. Mente vazia é oficina do diabo”, conclui Derval Pereira, presidente da Associação de Moradores do Alto das Pombas. O delegado da Polícia Federal e chefe da Superintendência de Gestão Tecnológica e Organizacional (SGTO), Expedito Teixeira, ressalta que “há mais de 40 anos o Calabar está nessa situação de descaso. Não dá para resolver todos os problemas da noite para o dia”. Para Vírginia Garcez, diretora presidente da UNIPAZ Bahia (Universidade da Paz), que esteve presente em reuniões entre a comunidade e os representantes do Estado, mesmo com a demora na resolução de políticas públicas, “o que está acontecendo no Calabar é único. Nunca houve essa interação entre a Prefeitura, o Governo do Estado e a comunidade”.

uando menina, tinha medo de escuro. Só ainda não estão bem certos se o mesmo radores daquela localidade. São inúmeras as Q Em meu quarto, à noite, vivia assus- vale para a Polícia. A criançada, cujo único lutas e seus heróis, via de regra inominados, tada com um suposto monstro cuja morada medo que não cede é o do escuro, vestiu escrevem uma história registrada ainda em era debaixo de minha cama. Como antídoto, uma prece à Nossa Senhora “do Perpétuo Socorro”, a quem também chamava de minha mãe. O tempo passa. Os medos, nem tanto. Da comunidade carente em que vivi parte gostosa, ma non troppo, de minha vida, perdi alguns poucos amigos. Como consolo, gosto de acreditar que foram generosos comigo para que novos pudessem chegar. Imagino os meninos do Alto das Pombas e Calabar rezando e orando para que a operação policial que aconteceu no último aniversário da cidade de Salvador não entrasse pela porta de sua casa adentro e fizesse como refém seu pai, mãe e, principalmente, eles mesmos. Tudo isso, em uma data que coincidia com o dia de nascimento de mais um menino assustado pelos seus monstros. Ali, parecia que a tal figura disforme saíra debaixo da cama e passara a andar pelas ruas em sol a pino, com os rostos encobertos, fossem da polícia ou fossem do tráfico – às vezes, a mesma face de uma moeda. Naquele dia, não teve bolo de parabéns para o ‘menino assustado’, como era de praxe em todos os outros 29 de março. Mais tarde, veio a cúpula e iluminou o terreiro, em companhia do Excelentíssimo Senhor Prefeito. Ofereceram um prato à comunidade. Feijão, de longe, é melhor do que bala (e felizmente, naquela operação, nenhuma foi deflagrada). Essa simples atitude da polícia foi capaz de dar um freio no abuso do poder do tráfico naqueles bairros - é verdade! A comunidade, apesar de compreensivelmente desconfiada, afirma: “também precisamos de segurança”.

quepe e brincou de polícia naquele dia. Na brincadeira, fez questão de esquecer o papel do bandido. Vai que “os home” levassem a sério? A mãe do tal menino assustado comeu a feijoada no dia em que a iguaria, agora chique, foi servida pelas autoridades. Mas, é historicamente dificultado àquela mulher o acesso ao exercício diário desta mesma au-

NA BRINCADEIRA, FEZ QUESTÃO DE ESQUECER O PAPEL DO BANDIDO. VAI QUE “OS HOME” LEVASSEM A SÉRIO? toridade quando o assunto é por a comida na mesa de sua própria casa. O mesmo se dá no que se refere à dignidade de medicar seu filho “dengoso”, por conta de pneus com que as crianças da comunidade possam vir a brincar, enchidos de chuva e, por isso, transformados em criatório do mosquito de origem africana. O brinquedo cresceu e hoje ele é outro. É de verdade, e mata. Mas, vamos acreditar na polícia: o brinquedo “fora” de verdade. E “matara”. Pretérito mais que perfeito conjugado, o futuro vem rallentando para os mo-

poucos papéis. Por conta disso, a comunidade pode cansar de esperar as tão reivindicadas políticas públicas, direito de todo e qualquer cidadão brasileiro. “A violência é um grave problema de saúde pública mundial”, dispôs a 49ª reunião da assembléia mundial da Organização Mundial da Saúde (OMS). Isso em maio de 1996. De lá prá cá, o conjunto de secretarias do Estado baiano resolve que, finalmente, em 2011 era hora de entrar no Alto das Pombas e Calabar. Não fosse esse “delta tempo” a nossa nação poderia ter criado mais Julianos Moreiras, Manuéis Querinos, Antonios Sampaios da vida... Eles mesmos, da cor de seus pais, avós, bisavós, africanos escravizados no nosso distante e dicotomicamente presente Brasil. Publicação do Instituto Sangari demonstra: o Brasil continua a naturalizar a morte de sua população jovem, negra e sobretudo masculina. A Bahia e Salvador, tristemente, repetem esta equação. Ou seja: continuamos a dar tiro no nosso próprio pé, dando margem à comunidade internacional de nos cartãopostalizar como algo mundialmente démodé (ainda que cascas de bananas lançadas nos campos de futebol pelo mundo afora possam ser indício de exatamente o contrário). O tempo trouxe aos habitantes desta cidade que canta e dança a oportunidade de (re?)viver uma experiência coletiva de solidariedade. Se vamos saber aproveitar, não sei. Tenho saudades de quando monstro era, exclusivamente, morador imaginário habitante do escuro embaixo da cama. Este, sim, nunca nos tirou vidas. 13


uma época e deixei o ‘negócio em paralelo’, mas o patrão queria me esculachar, aí eu pensei: “que nada, não preciso me submeter a isso”. Eu só estava ali pra causar uma boa impressão pra minha mãe e pra comunidade, pra saberem que eu tava trabalhando. Aí me demiti. Mas isso porque eu tinha outro “negócio”. Chego a tirar entre 1 mil e 2 mil por mês, se não ia ter que baixar a cabeça, levar bronca e pedir desculpas. Eu tenho alguns amigos que também entraram no tráfico. A cada dez, dois entraram, mais ou menos. O que é muito. JF: Você já teve problemas com a polícia? T: Uma vez eu “rodei” com 50g da massa(2),

tinha problema. Mas o chefe do Camarão se coligou com um traficante fornecedor de fora daqui e apresentou ele aos caras do Bomba. Só que alguém do Camarão pegou uma arma desse fornecedor dizendo que ele tava tirando onda no bairro e que, se ele quisesse de volta, iria tomar tiro. Então o fornecedor se coligou com os caras do Bomba e eles já queriam fazer a cobrança da arma. Acabaram matando um cara do Camarão que era só usuário, aí começou a guerra toda. Antes eu falava com todo mundo, mas quando começou a guerra ficou barril(6) pra mim e para outros moradores que não têm nada a ver com o tráfico. Hoje em dia, quem é do Bomba não entra no Camarão e vice-versa, a não ser em poucos casos. Mas a galera prefere evitar. O pior é que os caras guerreiam e nem têm dinheiro. Só quem tem é o patrão, que pega na mão do fornecedor. Os pequenos não têm dinheiro nem pra pegar um táxi, gastam tudo com mulher e droga. Alguns acabam fazendo dívida da própria droga, por que a

pra consumo próprio, uma quantia alta de dinheiro, que eu ia usar pra comprar 50g da bixa(3). A polícia me parou em uma blitz próxima à boca(4) e quando acharam a grana queriam me levar até a boca e dizer pros donos que eu tinha dedurado eles, para eles me matarem. Eu disse a um deles: “seu trabalho não é esse, é me levar para o delegado”. Aí ele me algemou e me deu “EU APOIO A INSTALAÇÃO DA muita cacetada... Me bateu tanto que eu BASE COMUNITÁRIA DE acabei tendo que dizer que o dinheiro era pra tráfico mesmo. Quando cheguei na del- SEGURANÇA PRINCIPALMENTE PORQUE A GALERA QUE NÃO egacia todos os policiais ‘cresceram o olho’ TEM NADA A VER COM A na grana. Depois de muitas perguntas eles GUERRA VAI PODER ANDAR viram que eu não traficava naquela área e ‘DE BOA’, SÓ NÃO APOIO disseram que iam me entregar pro delegado como usuário, mas em troca iam ficar o dinO ABUSO POLICIAL.” heiro. Assinei um documento, fui liberado e os policiais ficaram com o dinheiro. Depois galera cheira muito pó. Mas, mesmo para os tive que cumprir pena alternativa... que são da mesma facção, quem não pagar JF: Você acha que há diferença no trato da morre...

polícia em relação ao usuário de drogas pobre JF: Como funciona a distribuição e a estrue ao rico, e entre traficante da favela e trafi- tura de poder no tráfico? T: Tem o patrão, que comanda os soldados cante playboy? T: A diferença é brutal. Para invadir o apar- que vendem pra ele. Só que por traz desse

COM A PALAVRA, O TRAFICANTE O JF ENTREVISTA UM PERSONAGEM RARAMENTE OUVIDO FORA DO AMBIENTE JURÍDICO E POLICIAL NO QUE SE REFERE AO COMÉRCIO DE DROGAS

DE QUEM?

O

traficante, um personagem que está no centro da questão do comércio ilegal de drogas no Brasil, é geralmente silenciado pelo estigma que carrega. Sua ‘atuação’ continua sendo altamente demonizada pela sociedade, mas é importante lembrar os riscos da história única e dar a palavra a quem raramente é ouvido fora do ambiente jurídico e policial. Apesar da intensificação do debate sobre drogas no Brasil e reformas na legislação brasileira em relação à flexibilização de pena para usuários de drogas, não há sinais de mudanças de tratamento legal em relação ao traficante considerado de pequeno porte. Ao defender a possibilidade de penas alternativas tanto para usuários quanto para pequenos traficantes, desde que o réu fosse primário,

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Pedro Abromovay, que havia assumido no início do ano a Senad (Secretaria Nacional de Políticas Sobre Drogas), deixou o cargo após retaliações do planalto e do Ministério da Justiça. Considerando a importância de veicular os aspectos contraditórios que sempre envolvem as notícias, o JF, sobretudo no atual contexto da ocupação policial do Calabar e do Alto das Pombas, iniciada na última semana de março, e da implantação da primeira Base Comunitária de Segurança de Salvador, entrevistou um personagem singular do bairro. Com 25 anos e autodeclarado traficante de drogas, o entrevistado destas páginas, por razões óbvias, não terá seu nome revelado e será identificado apenas como T. Paradoxal ou não, T. é a favor da implantação da Base Comunitária de Segurança. Nesta entrevista, ele revela aspectos de como a guerra entre as áreas da comunidade (Ca-

marão e Bomba) foi iniciada e as consequências desse confronto armado para os moradores. T. fala ainda sobre as razões que o levaram a ingressar no tráfico, o funcionamento e estrutura do comércio das drogas, o abuso do poder policial e sobre a sua vontade de sair do tráfico. JORNAL DA FACOM: O que o levou a entrar no tráfico? Isso aconteceu com muitos conhecidos seus? T : Primeiro foi falta de oportunidade, mas

depois me viciei na venda. Dinheiro fácil, ser meu próprio patrão... Se eu tivesse um emprego nem ia conhecer esse lado. Mas pra correr atrás de emprego e não achar... O cara vai crescendo, quer sair com a namorada, se vestir bem... Não posso ficar duro e também não vou me humilhar, pedir esmola, ou ficar num trampo(1) escravo e ganhando mal. Cheguei até a arrumar um trabalho durante

tamento do playboy só com mandato policial. Hoje na favela não tem isso, se rolar denúncia, a polícia mete o pé na porta mesmo. Qual é o policial que vai chegar na casa de um playboy e falar para a mãe dele: “cadê seu filho, se não eu vou te matar”. Um policial falou isso ontem (1º dia da ocupação da polícia no Calabar) pra uma mãe de um traficante. Ela ficou com medo com aquela pressão psicológica e disse onde o filho tava. Depois ela tentou se matar com chumbinho, não sei se pelo constrangimento ou porque dedurou o filho, mas a filha viu e impediu... Em relação ao tratamento com o usuário, a diferença existe, mas não é tão grande. Tem muito policial que não gosta de playboy. Se o playboy der mole, ele esculacha. Mas entre os traficantes os policiais esculacham bem mais o preto e pobre.

patrão tem outro, o que passa a droga pra ele. Quem tem o canal de pegar a quantidade maior é que tem mais poder. Então ele passa a droga pra quem não tem o canal ficar subordinado a ele. Aí ele já cria poder, compra armas, mata. A galera fica submissa a ele por medo. Antigamente, todo mundo pegava na ‘central distribuidora’ e vendia por si, mas “PARA INVADIR O APARTAMENTO DO PLAYBOY SÓ COM MANDATO POLICIAL. HOJE NA FAVELA NÃO TEM ISSO, SE ROLAR DENÚNCIA, A POLÍCIA METE O PÉ NA PORTA MESMO.”

começou isso de um querer vender sozinho e

JF: Como você se vê no papel de ‘comer- não deixar os outros venderem. Tem fornececiante’ de drogas, sendo esta uma posição de- dor que mata quem não quer vender pra ele... monizada? T: Rapaz, eu não telefono pra ninguém ofer- JF: E existe algum tipo de “proteção” aos moecendo, a galera é que me procura. Essa ideia radores da comunidade, proporcionado pelo negativa é porque tem muito traficante que tráfico? toca o terror mesmo, e todos acabam levando T:Eles acham que protegem a galera do lado

a fama. Aqui na área mesmo os cara tão guerreando por causa das drogas, matando gente inocente... Mas não são todos iguais. Tem uns caras que fazem ‘o adianto’(5), ficam na deles, trabalham e ninguém desconfia.

mas quando rolava assalto, a polícia aparecia, ia atrás do ladrão e acabava prendendo o traficante. Quando viram que não valia à pena, proibiram o roubo. Se alguém roubar e a polícia chegar lá nas áreas, os caras procuram saber quem foi e matam, mesmo que seja alguém do lado deles. JF: Você é a favor da legalização das drogas? T: Da maconha sim, mas do resto não. Porque

com a química a galera fica transtornada. O cara fuma um baseado e fica ‘de boa’, curtindo a onda dele. Já com o pó, o cara não consegue se controlar, o pó que controla o cara. Um fator que me levou a vender pó foi não usar a droga. Tem muita gente que usa e vende, mas ai não consegue juntar dinheiro. E com o crack, piorou... JF: Como você se sente tendo a consciência de que a droga química traz esses prejuízos? T: Eu tenho consciência de que é errado.

Várias vezes eu me perguntei sobre isso, mas aí penso: “eu não roubo, não mato, só faço adiantar a droga, então não pega nada”. Só que quem usa, tá se acabando, tirando dinheiro de onde não pode. Então, o mais certo mesmo é o cara se sair, arrumar um trabalho... JF: Como você está vendo a implantação da primeira Base Comunitária de Segurança de Salvador no Calabar? T: Em certo termo é bom, por que vai acabar

a guerra, a troca de tiro. Não é a toa que os que não foram presos já saíram da área. Tão implantando essa base mais por causa da guerra. Se todo mundo tivesse vendendo sua ‘paradinha’ de boa, não ia ter nada disso. Eu apoio, principalmente, porque a galera que não tem nada a ver com a guerra vai poder andar ‘de boa’, só não apoio o abuso policial. Uma vez, fui numa delegacia e o policial disse: “todo mundo que mora no Calabar não tem jeito”. Rola discriminação em alta. O policial tem que pegar traficante, e não sair invadindo a casa de qualquer um pra mostrar serviço pro secretário de segurança, ou o secretario de segurança querer mostrar serviço ao governo. Pegar os traficantes que andam trocando tiro, isso eu apoio. Aí os moradores vão poder transitar ‘de boa’... Vai ser bom pra galera no futuro, os “pivetinhos” não vão mais se espelhar no tráfico, vão querer ganhar dinheiro trabalhando... JF: É verdade que traficante morre cedo? Quais as suas perspectivas para o futuro? T: É verdade. Se o cara não tiver uma malicia,

morre mesmo. Eu já vi vários, bem mais novos do que eu, morrerem. Mas isso, porque os caras têm ‘boca’, tem arma. Eu nunca tive uma arma, se andasse armado, ou eu tava morto, ou tava preso. Quis fazer uma coisa sem ponto fixo. Isso me ajudou a viver mais. Eu também não ando de galera, não ando de boné, corrente de prata, tudo isso chama a atenção da polícia. Mas hoje tá difícil, é muita denúncia... No futuro, quero trabalhar e sair do tráfico porque o “círculo tá fechando”. Quero fazer um curso profissionalizante, pra conseguir um emprego mais fácil. Já ‘adiantei’ o que tinha que adiantar...

deles, mas os moradores não acham assim. Por causa deles, ninguém pode passar tranquilamente de um lado para o outro da comunidade. Não é à toa que a comunidade, apesar de ter medo, denuncia eles. Em relação a roubo e assalto, parou mesmo. Há JF: Como começou a guerra entre o Ca- um tempo atrás os caras roubavam na pista GLOSSÁRIO marão e o Bomba? mesmo [Av. Centenário] e vendiam pro trafi- (1) Trabalho; (2) Maconha; (3) Cocaína; T: Começou há uns três ou quatro anos atrás. cante, ou trocavam pela droga. No começo Antes, cada uma vendia sua ‘parada’ e não os traficantes achavam o negócio lucrativo, (4) Ponto de droga; (5) Comercialização de drogas; (6) Difícil; complicado

*****

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VOCÊ ESTÁ SEGURO NA UFBA? CONHEÇA MELHOR O SISTEMA DE SEGURANÇA DA SUA UNIVERSIDADE

“NO ENTANTO, ISSO DEMONSTRA QUE EXISTE UM DESCONHECIMENTO DA RELAÇÃO COM ESPAÇOS FEDERAIS POR PARTE DA PRÓPRIA POLÍCIA”. DELEGA CARAVANS

Amana Dultra Eduardo Coutinho

o dia 4 de Abril, a revista alemã Der N Spiegel publicou em seu site a reportagem “Estudos nas favelas – Invasões no cam-

pus do paraíso”, sobre a falta de segurança nos campi da UFBA. A matéria assinada por Christhop Wöhrle, traça um cenário de medo e afirma que a UFBA é atualmente a universidade mais perigosa do Brasil e, possivelmente, do mundo. A afirmação, no entanto, não traz dados que a comprovem. O chefe da Coordenação de Segurança dos Campi (COSEC), Coronel José Soares, afirma que não foi procurado por Wöhrle para falar sobre o assunto. “Na UFBA, a maioria das ocorrências são casos de furto. Poucas são de violência”. De acordo com os dados da COSEC, em 2010, foram registrados sete casos de furto e dois casos de roubo de bens privados. O Coronel ressalta que esta estatística é feita com os números que chegam até à COSEC, através dos relatórios feitos pelas unidades ou por queixas prestadas 16

por vítimas. “É possível que o número seja maior”, admite o Coronel. A diferença entre roubo e furto se dá pela presença ou ausência de ameaça à integridade física. Enquanto o furto acontece sem o conhecimento da vítima, o roubo ou assalto é caracterizado pela abordagem direta. Pâmela Brandão, estudante do terceiro semestre de Letras, afirma que nunca foi abordada, mas conhece casos de assalto na universidade. Cinco exemplos desses casos foram narrados por Wohrle, no site da revista Der Spiegel, dando ênfase à angústia e à sensação de insegurança dos estudantes que foram roubados. Os estudantes da UFBA se dividem nesta questão, pois, alguns só se sentem inseguros à noite. Daniela Trindade, 22 anos, estudante de Estatística, faz parte do grupo que se sente seguro nas proximidades e dentro da unidade em que estuda, mas diz que não se arrisca a andar pelas áreas menos movimentadas. No entanto, há um consenso entre os alunos quanto às deficiências das políticas de segurança em vigor. “Não me sinto segura

dentro da UFBA, pois não existe uma segurança eficiente para a quantidade de pessoas que frequentam, por exemplo, o campus de Ondina”, afirma Manuela Moreira, estudante de Letras. VIGILANTES: NÚMEROS, PORTE DE ARMAS.

DEVERES

E

Atualmente, os campi da UFBA em Salvador têm 213 vigilantes terceirizados, contratados através de uma empresa de segurança privada, o que equivale a um vigilante para cada 97 mil metros quadrados, ou nove campos de futebol, aproximadamente. Esta proporção é ilustrativa, pois os 213 vigilantes não trabalham ao mesmo tempo, eles dividem-se em turnos. No turno matutino (das 7h às 15h) 25 vigilantes trabalham em todos os campi soteropolitanos da UFBA. No turno vespertino (das 15h às 22h) são 36 vigilantes. No período noturno (das 19h às 7h) são 87 trabalhadores. Além deles, existem 65 seguranças que trabalham em regime de alternância, com diária de 12 horas, das 7h às 19h. “As pessoas não sabem o que os seguranças podem fazer. A impressão que se tem é que eles não podem fazer nada”, afirma Renato Oselame, estudante de Jornalismo. O Coronel Soares explica que os vigilantes têm o dever de prender um infrator, pois eles assumem a tutela da população, fazendo o papel do policial. “Depois do flagrante, o vigilante deve chamar a polícia”, completa. “Os poucos vigilantes que temos na UFBA são seguranças do patrimônio da universidade. Hoje, existe uma política de segurança patrimonialista”, afirma Lucia Neco, estudante de Biologia. O Coronel Soares explica que parte dos vigilantes é responsável pela segurança do patrimônio, enquanto outra é responsável apenas por cuidar das pessoas, tendo seu posto em lugares como a escada da Politécnica. No entanto, durante a elaboração desta matéria, não foi visto nenhum segurança neste ponto da UFBA. Delzuíta Soares de Oliveira, 70, mais conhecida como Tia Del, é dona da cantina da Faculdade de Comunicação, que, há seis anos, deixou de funcionar à noite. Ela não acredita na eficiência de um vigilante desarmado. “Do que adianta se o assaltante usa armas?”, questiona. O Coronel Soares afirma que, hoje, cerca de 20 armas estão sendo utilizadas pelos vigilantes da UFBA, estando o porte dentro das unidades sujeito à aprovação dos diretores. “O artigo 19, da Lei 7102, assegura que o vigilante, no posto de serviço, pode andar armado, e isso inclui os seguranças que trabalham na UFBA”, alega o Coronel. Ele acredita que todos os vigilantes deveriam andar armados e que a pouca quantidade de armas disponibilizada pela empresa contratada é um problema. UFBA à noite e os aparatos de segurança dos campi

Apesar de a Facom ter aulas noturnas, Delzuíta Oliveira recusa-se a manter a cantina em funcionamento durante a noite. Ela afirma que só volta a trabalhar nesse horário quando houver mais vigilantes dentro da faculdade. O agravamento da insegurança durante a noite, não é um problema exclusivo da Faculdade de Comunicação. Amanda Freire, 19, estuda Arquitetura durante a noite e reclama da falta de iluminação na escada que liga a Federação à Ondina. Outro problema apontado pela estudante é a situação vulnerável enfrentada pelos alunos que esperam pelo ônibus. “Depois que as aulas terminam, por volta das 22h30, os portões da faculdade são fechados e os estudantes ficam na rua, que está deserta nesse horário”, queixa-se Freire. O diretor da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFBA, João Carlos Salles, afirma que a falta de iluminação e de segurança também afeta o campus de São Lázaro e impossibilita o funcionamento da faculdade durante a noite. “É preciso um planejamento para iluminar bem o espaço, além de maior número e melhor preparo de vigilantes”. Embora João Salles tenha sido uma das fontes citadas pela reportagem da Der Spiegel, ele afirma que São Lázaro não vive o clima de insegurança que a reportagem retrata. “Os estudantes aqui não estão aterrorizados”, completa. No momento, o campus de São Lázaro está sendo cercado, em uma tentativa de melhorar a segurança do local. Hoje, este é o único campus da universidade que ainda não é totalmente cercado. Salles ressalta que a faculdade não quer o isolamento das comunidades do entorno. “Não consideramos estas comunidades nossas inimigas e não compreendemos a universidade como um shopping center, mas como um lugar que se enriquece na relação com a comunidade”, afirma o diretor. “Você não pode pensar a faculdade como se fosse separada da situação de Salvador. A universidade não é tranquila como não é tranquila a cidade”, complementa. Em 2010 foram registrados dois roubos de bens públicos e 21 ocorrências de furtos, contabilizando a perda de 32 bens da universidade, entre eles, nove datashows, cinco câmeras fotográficas e sete notebooks. Além disso, em 2010, foram registradas dez ocorrências de perdas por roubo ou furto de objetos como cadeiras e botijões de gás, totalizando mais 16 itens. No dia 02 de Março de 2011, a Faculdade de Comunicação foi vítima de um furto, em que o infrator levou dois datashows, das salas 08 e 09. Na ocasião, o corredor onde ficam estas salas não estava equipado com câmeras por causa das obras realizadas no andar, o que dificultou a apuração do caso. Mesmo assim, as imagens das câmeras localizadas nas duas saídas da faculdade foram disponibilizadas para a investigação. Além das câmeras, outro aparato de segurança da UFBA são as rondas. Dos 213 vigilantes, 56 são responsáveis pelas rondas, sendo 44 no campus de Ondina e 12 no Canela, segundo dados da COSEC. O Comandante Soares informa que no campus de Ondina há uma viatura que trabalha 24h e

“VOCÊ NÃO PODE PENSAR A FACULDADE COMO SE FOSSE SEPARADA DA SITUAÇÃO DE SALVADOR. A UNIVERSIDADE NÃO É TRANQUILA COMO NÃO É TRANQUILA A CIDADE” JOÃO CARLOS SALLES

duas motos, que trabalham das 7 às 23h. “Já nos outros campi, estão previstas duas motos e uma viatura”, afirma o Comandante. Ele explica que é preciso avaliar bem o espaço, para saber que tipo de ronda fazer. “Nos espaços pequenos, utilizamos ronda a pé”, como no Hospital Universitário Professor Edgard Santos (HUPES). ACONTECEU NA FACOM: O QUE FAZER QUANDO UM ALUNO OU INSTITUTO É VÍTIMA

Há muitas dúvidas sobre como proceder após ser vítima de roubo ou furto dentro da universidade. O delegado João Caravans, titular da 14ª delegacia da Polícia Civil, responsável pelo campus de Ondina da UFBA, afirma que quando o crime é cometido contra pessoa física ou bem privado, a vítima deve se dirigir até a delegacia da Polícia Civil para registrar ocorrência. Caso seja contra instituição ou bem públicos, é a Polícia Federal que deve ser acionada. No dia 29 de Setembro de 2010, o estudante de Produção Cultural Darlan Caires teve o seu notebook roubado na varanda da Faculdade de Comunicação. A primeira instrução recebida por ele foi procurar o diretor da Facom, Giovandro Ferreira. Depois, foi encaminhado à COSEC, para registrar a ocorrência. Ao se dirigir à 14ª delegacia da Polícia Civil, porém, o delegado em exercício negou-se a fazer o registro, e indicou a Polícia Federal. “No entanto, isso demonstra que existe um desconhecimento da relação com espaços federais por parte da própria polícia”, afirma o atual delegado Caravans.

Já no caso dos furtos dos datashows na Facom, por tratar-se do patrimônio da União, o primeiro passo para solucionar o caso foi comunicá-lo à Polícia Federal e solicitar a abertura da investigação. Paralelamente a isto, foi criada uma comissão interna de investigação responsável por acompanhar o caso, integrada pelo Chefe de Departamento, José Severino, Guido Araújo e Bárbara Camera. Maurício Tavares, vice-diretor da Facom, conta também que, durante a perícia, a Polícia Federal coletou material das paredes das salas furtadas, para averiguar a possível existência de digitais. O vice-diretor da faculdade questiona, porém, a agilidade da resolução do caso, afirmando acreditar que, entre os processos, a Polícia Federal provavelmente dá prioridade a outros casos. O próximo passo da direção da Faculdade foi procurar a Coordenação de Segurança dos Campi (COSEC), prestar queixa e solicitar o extrato das filmagens das câmeras de segurança no período em que se acredita que o delito aconteceu. Segundo o professor Maurício Tavares, a responsabilidade da comissão interna é assistir a estas horas de filmagem, conversar com os principais suspeitos e com os porteiros e vigilantes que guardam as saídas da Facom. O Coronel Soares ratifica que se o bem furtado ou roubado for da União, é a Polícia Federal que deve ser acionada. “A unidade, além de comunicar à PF, vai instalar a sindicância para apurar as circunstâncias da perda do bem, e isto é responsabilidade da comissão interna”, complementa. 17


NÃO É MEGA, É MEU! “CABELO, CABELEIRA, CABELUDA, DESCABELADA...” ARNALDO ANTUNES

Para o bailarino e atendente de telemarketing, Davi Araújo, 25 anos, homossexual, manter um cabelo crespo e cacheado, sem química, é o que há de mais fashion em sua vida. Após participar da gravação de um clipe da banda Parangolé, garante que é reconhecido nas ruas por conta dos seus cachos. Davi, que adota artisticamente o nome de David Kadore, diz que cuidar dos cabelos não tem preço. Dono de uma coleção de xampus e cremes, declara que, se surge um produto novo e que garanta inovação, corre e compra. Por conta dessa mania, já adquiriu muitos produtos com resultados ineficazes. Kadore vende seus cabelos sempre que estes alcançam um tamanho ideal para venda e não cobra menos que R$350,00. Ele afirma que a vitalidade e força de seus cabelos garantem um bom preço no mercado. “Meu cabelo é tudo. Por onde passo, ave Maria!

“A DISCRIMINAÇÃO AINDA É PESADA CONTRA OS DREADS. É MUITO DIFÍCIL TER CABELO CRESPO NATURAL”

nos seus, ou simplesmente compram cabelos lisos e os “encrespam”. Encrespar, nesse uem anda pelas ruas de Salvador já per- caso, significa implementar cachos e onducebeu o crescente número de cabeças lações em fios onde antes eles não existiam. com cabeleiras crespas. Mas este acontecimento não se refere somente ao fato de CADA UM DO SEU JEITO tratar-se da cidade mais negra do Brasil e Com o avanço da estética afro na cabeça sim ao crescente número de apliques de ca- das baianas, muitos salões especializaram-se belos crespos e tratamentos relacionados à em tratamentos anunciados como só seus. estética afro-baiana. O que antes podia ser Não adianta ter o cabelo crespo. Tem que definido como a estética dos blocos afros de ter um tratamento diferenciado. Enquanto Salvador, atualmente incentiva a economia o Salão Yalodê, situado no bairro do Toe transforma a cabeça de muitos soteropoli- roró, disponibiliza a informação de que sua linha de tratamento traz como carro chefe o tanos. “É certo! Posso até ficar sem comer, mas tratamento intitulado Espuma Black, outros meu cabelo tem que estar ajeitado. Meu mega salões, como o Beleza Natural, uma rede nacustou caro.” Declara Ana Cristina Oliveira, cional de tratamento para cabelos crespos, 32 anos, caixa e recepcionista. Para ela, cui- não informa sobre seus produtos e serviços, dar dos seus cabelos é mais que um procedi- limitando-se a declarar que faz mento estético, trata-se de uma atividade su- São diversos os procedimentos capilares perior às necessidades vitais. Pra quem pensa e salões de beleza que se dedicam ao trataque cabelo “ruim” nasce aos montes, enga- mento exclusivo da estética afro baiana. No na-se. Ter um cabelo crespo e bonito não é entanto, muitos são os segredos que cada obra pura e exclusiva da natureza. As pessoas salão garante possuir nas suas linhas de pagam por cabelos crespos e os implantam tratamentos e que, também garantem, são RITA BARBOSA

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criações exclusivas. Segundo Bárbara Aguiar, 30 anos, dona do Salão Yalodê, a divulgação do seu estabelecimento é feita boca a boca. Ela garante que, ao sair do seu salão após um tratamento, o cliente irá retornar. COISA DE NEGÃO

Nem só de mulheres vive um salão de beleza. No entanto, a procura masculina por um cabelo afro vai além do corte. Atualmente, cabelos crespos compridos são usados soltos ou com dreads. Independentemente de sua opção sexual, os homens baianos cada vez mais buscam cabelos afros crespos e naturais. Para o estudante de filosofia, Ygor Borba, 26 anos, heterossexual, conseguir manter um cabelo crespo e grande é muito mais que uma questão estética. É uma questão ideológica. Atento para o preconceito sofrido ao procurar emprego e até mesmo em sua família, que não aceita a estética afro em sua cabeça, Borba garante que conseguirá permanecer com seus cabelo comprido e crespo por muito tempo e não cogita a ideia de cortá-lo.

foram aplicados em outras cabeças. Esses cabelos sofrem uma desvalorização em virtude do uso. No entanto, muitos “arranjos” são formados na tentativa de realizar o sonho de ter um cabelo maior. Nessa tentativa de formar um aplique, muitos cabelos de diferentes chegam a ser misturados para formar um aplique único. Para Manuela Jesus dos Prazeres,19 anos, cabeleireira e depiladora, o seu cabelo é bonito, mas com um mega fica muito mais. Ela usa um aplique de 45 centímetros e diz que prefere implantar cabelos mesmo sabendo que está adquirindo fios já utilizado antes. “Esse eu comprei de uma menina e custou R$350,00. A pessoa que me vendeu pagou por ele R$850,00. Quando eu for vender, venderei pelo mesmo preço. Ela tava tirando aqui no salão e eu perguntei se ela queria vender. O cabelo dos meus sonhos custa quase dois mil reais”, explica Manuela. O CABELO PERFEITO

A natureza muitas vezes não possibilita a estética que as pessoas gostariam de ter. Nas mulheres, principalmente, isso ocorre frequentemente no que tange aos cabelos. Desde as brincadeiras de infância as meninas já põem uma toalha na cabeça para indicar que aquele é o cabelo que gostariam de ter. Na vida adulta, os apliques de hoje são o que de ELÍSIA KADORE mais moderno a indústria estética disponibiliza para as meninas já crescidas de cabelos curtos ou não tão longos. “Meu cabelo nunca teve um bom crescimento. Como eu gosto O povo para logo e fala: nossa, que cabelo de cabelo comprido, resolvi por um mega e lindo”, orgulha-se Kadore. já uso há anos”, conta Monalisa Rodrigues, A TELEVISÃO DITA A MODA 28 anos, estudante de Direito, para quem Durante a exibição da novela Viver a Vida, aumentar o tamanho dos cabelos é uma rena Rede Globo de Televisão, muitas mul- alização pessoal. heres afro-descendentes buscavam cabelos semelhantes ou iguais ao da protagonista Helena, interpretada pela atriz Taís Araújo, “MEU CABELO É 33 anos. Como conseqüência dessa busca, o aplique de cabelos crespos cresceu e virou TUDO. POR ONDE carro chefe de salões de beleza que cuidam PASSO, AVE MARIA! da estética afro baiana, gerando um boom no mercado de vendar de cabelos. Para C.F.S, O POVO PARA LOGO 31 anos e vendedora de cabelos numa loja E FALA: NOSSA, QUE do Orixás Center, no bairro do Politeama, CABELO LINDO” a venda de cabelos é um negócio rentável e rende um bom salário. Segundo ela, as mulheres que compram cabelos tornam-se dependentes dos apliques afros e chegam a LOJA VIRTUAL gastar até 3.000 reais para usar cabelo longo, A estética capilar não traduz apenas uma seja liso ou encaracolado. moda, mas uma reflexão social. Enquanto, “Aqui na loja, a cliente chega e quanto antes, a moda convencional em Salvador era maior o cabelo que ela vê, mais empolgada única e exclusivamente a do cabelo liso e ela fica. Acaba dividindo o cabelo em até 10 escovado, atualmente os dreads, blacks e cavezes no cartão, mas leva o cabelo dos seus chos naturais são a sensação. O cabelo pode sonhos”, afirma a vendedora. Após a compra ser entendido como o primeiro cartão de do cabelo, a cliente vai até um salão para visitas de um indivíduo e é tido como a priadquirir o serviço de aplicação do mega hair. meira imagem que o indivíduo disponibiliza Nessa etapa o custo cresce e pode chegar a para o outro. R$ 300,00. Além do aplique, o salão trata o A socióloga e dona do Salão Rosas Negras, cabelo antes, sendo esse tratamento ao gosto Elísia Santos, 26 anos, decidiu investir no da cliente: alisar, encrespar, pintar, etc. ramo de cabelos afros por ter identificado uma carência de empreendimentos com essa O NEGÓCIO INFORMAL especialidade. Elísia afirma que não se trata Nem só de cabelos comprados em lojas de uma moda, e sim uma questão de idensustenta-se o mercado de apliques em Salva- tidade. Ela explica que moda passa com o dor. Engana-se quem pensa que o estoque de tempo, já a estética afro é uma questão de cabelo das lojas é o único disponível para o pertencimento. Segundo Elísia, a sociedade bolso dos interessados. Assim como diversos brasileira ainda não está aberta para o cabelo outros produtos em Salvador, o cabelo tam- natural afro: “A discriminação ainda é pesabém é ofertado no mercado paralelo. Mui- da contra os dreads. A pessoa com cabelo tas pessoas, por não poderem custear um crespo natural que vem ao meu salão é, na mega-hair acabam comprando cabelos que já maioria, militante do movimento negro, pes-

soas que já possuem sua identidade formada. É muito difícil ter cabelo crespo natural e quem tem é sempre associado a uma pessoa desleixada, suja e que não sabe se arrumar”. DO SONHO AO PESADELO

Nem sempre o resultado de um tratamento nos cabelos é o esperado. Muitas mulheres que recorrem a cuidados de salões pouco qualificados podem ter sérios problemas estéticos e de saúde. Um aplique mal colocado, uma química que cause reações alérgicas ou um profissional mal preparado podem causar efeitos colaterais sem solução. O trauma causado por um dano capilar pode trazer reações físicas e psicológicas irreversíveis. Quedas, coceiras, caspas, seborréias e perda do couro cabeludo são alguns dos possíveis danos que um tratamento ou aplique pode causar no couro cabeludo. I.C.C, 49 anos, estudante de Filosofia, já sentiu literalmente na pele a experiência de ter mais de 50% do cabelo perdido. Após aplicação de uma química inadequada para o seu tipo de cabelo, perdeu mais da metade dos fios e teve diversas escoriações no couro cabeludo. Agora, possuidora de um cabelo estilo black power, a estudante afirma que, além de perder os cachos, sua auto estima foi completamente abalada durante o tempo em que seu visual era composto por chapéus e lenços na cabeça. Com tantos modelos e possibilidades possíveis, o cabelo crespo revigorou a auto-estima da estética afro-baiana. Não importa o corte, o volume, os cachos ou o tamanho do aplique. Hoje, o cabelo black ultrapassa questões como a cor da pele, a classe social e os espaços de convivência. Ainda assim, a aceitação do cabelo não pode ser tida como uma vivência sem discriminações. Ainda há distanciamento entre o ‘ser black’ e o ‘usar o black’. Logo, a canção de Arnaldo Antunes traduz o sentimento e desejo das pessoas que trazem nos cabelos a primeira relação com o seu eu: ‘cabelo vem lá de dentro, cabelo é como pensamento’.

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NÃO É MEGA, É MEU! “CABELO, CABELEIRA, CABELUDA, DESCABELADA...” ARNALDO ANTUNES

Para o bailarino e atendente de telemarketing, Davi Araújo, 25 anos, homossexual, manter um cabelo crespo e cacheado, sem química, é o que há de mais fashion em sua vida. Após participar da gravação de um clipe da banda Parangolé, garante que é reconhecido nas ruas por conta dos seus cachos. Davi, que adota artisticamente o nome de David Kadore, diz que cuidar dos cabelos não tem preço. Dono de uma coleção de xampus e cremes, declara que, se surge um produto novo e que garanta inovação, corre e compra. Por conta dessa mania, já adquiriu muitos produtos com resultados ineficazes. Kadore vende seus cabelos sempre que estes alcançam um tamanho ideal para venda e não cobra menos que R$350,00. Ele afirma que a vitalidade e força de seus cabelos garantem um bom preço no mercado. “Meu cabelo é tudo. Por onde passo, ave Maria!

“A DISCRIMINAÇÃO AINDA É PESADA CONTRA OS DREADS. É MUITO DIFÍCIL TER CABELO CRESPO NATURAL”

nos seus, ou simplesmente compram cabelos lisos e os “encrespam”. Encrespar, nesse uem anda pelas ruas de Salvador já per- caso, significa implementar cachos e onducebeu o crescente número de cabeças lações em fios onde antes eles não existiam. com cabeleiras crespas. Mas este acontecimento não se refere somente ao fato de CADA UM DO SEU JEITO tratar-se da cidade mais negra do Brasil e Com o avanço da estética afro na cabeça sim ao crescente número de apliques de ca- das baianas, muitos salões especializaram-se belos crespos e tratamentos relacionados à em tratamentos anunciados como só seus. estética afro-baiana. O que antes podia ser Não adianta ter o cabelo crespo. Tem que definido como a estética dos blocos afros de ter um tratamento diferenciado. Enquanto Salvador, atualmente incentiva a economia o Salão Yalodê, situado no bairro do Toe transforma a cabeça de muitos soteropoli- roró, disponibiliza a informação de que sua linha de tratamento traz como carro chefe o tanos. “É certo! Posso até ficar sem comer, mas tratamento intitulado Espuma Black, outros meu cabelo tem que estar ajeitado. Meu mega salões, como o Beleza Natural, uma rede nacustou caro.” Declara Ana Cristina Oliveira, cional de tratamento para cabelos crespos, 32 anos, caixa e recepcionista. Para ela, cui- não informa sobre seus produtos e serviços, dar dos seus cabelos é mais que um procedi- limitando-se a declarar que faz mento estético, trata-se de uma atividade su- São diversos os procedimentos capilares perior às necessidades vitais. Pra quem pensa e salões de beleza que se dedicam ao trataque cabelo “ruim” nasce aos montes, enga- mento exclusivo da estética afro baiana. No na-se. Ter um cabelo crespo e bonito não é entanto, muitos são os segredos que cada obra pura e exclusiva da natureza. As pessoas salão garante possuir nas suas linhas de pagam por cabelos crespos e os implantam tratamentos e que, também garantem, são RITA BARBOSA

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criações exclusivas. Segundo Bárbara Aguiar, 30 anos, dona do Salão Yalodê, a divulgação do seu estabelecimento é feita boca a boca. Ela garante que, ao sair do seu salão após um tratamento, o cliente irá retornar. COISA DE NEGÃO

Nem só de mulheres vive um salão de beleza. No entanto, a procura masculina por um cabelo afro vai além do corte. Atualmente, cabelos crespos compridos são usados soltos ou com dreads. Independentemente de sua opção sexual, os homens baianos cada vez mais buscam cabelos afros crespos e naturais. Para o estudante de filosofia, Ygor Borba, 26 anos, heterossexual, conseguir manter um cabelo crespo e grande é muito mais que uma questão estética. É uma questão ideológica. Atento para o preconceito sofrido ao procurar emprego e até mesmo em sua família, que não aceita a estética afro em sua cabeça, Borba garante que conseguirá permanecer com seus cabelo comprido e crespo por muito tempo e não cogita a ideia de cortá-lo.

foram aplicados em outras cabeças. Esses cabelos sofrem uma desvalorização em virtude do uso. No entanto, muitos “arranjos” são formados na tentativa de realizar o sonho de ter um cabelo maior. Nessa tentativa de formar um aplique, muitos cabelos de diferentes chegam a ser misturados para formar um aplique único. Para Manuela Jesus dos Prazeres,19 anos, cabeleireira e depiladora, o seu cabelo é bonito, mas com um mega fica muito mais. Ela usa um aplique de 45 centímetros e diz que prefere implantar cabelos mesmo sabendo que está adquirindo fios já utilizado antes. “Esse eu comprei de uma menina e custou R$350,00. A pessoa que me vendeu pagou por ele R$850,00. Quando eu for vender, venderei pelo mesmo preço. Ela tava tirando aqui no salão e eu perguntei se ela queria vender. O cabelo dos meus sonhos custa quase dois mil reais”, explica Manuela. O CABELO PERFEITO

A natureza muitas vezes não possibilita a estética que as pessoas gostariam de ter. Nas mulheres, principalmente, isso ocorre frequentemente no que tange aos cabelos. Desde as brincadeiras de infância as meninas já põem uma toalha na cabeça para indicar que aquele é o cabelo que gostariam de ter. Na vida adulta, os apliques de hoje são o que de ELÍSIA KADORE mais moderno a indústria estética disponibiliza para as meninas já crescidas de cabelos curtos ou não tão longos. “Meu cabelo nunca teve um bom crescimento. Como eu gosto O povo para logo e fala: nossa, que cabelo de cabelo comprido, resolvi por um mega e lindo”, orgulha-se Kadore. já uso há anos”, conta Monalisa Rodrigues, A TELEVISÃO DITA A MODA 28 anos, estudante de Direito, para quem Durante a exibição da novela Viver a Vida, aumentar o tamanho dos cabelos é uma rena Rede Globo de Televisão, muitas mul- alização pessoal. heres afro-descendentes buscavam cabelos semelhantes ou iguais ao da protagonista Helena, interpretada pela atriz Taís Araújo, “MEU CABELO É 33 anos. Como conseqüência dessa busca, o aplique de cabelos crespos cresceu e virou TUDO. POR ONDE carro chefe de salões de beleza que cuidam PASSO, AVE MARIA! da estética afro baiana, gerando um boom no mercado de vendar de cabelos. Para C.F.S, O POVO PARA LOGO 31 anos e vendedora de cabelos numa loja E FALA: NOSSA, QUE do Orixás Center, no bairro do Politeama, CABELO LINDO” a venda de cabelos é um negócio rentável e rende um bom salário. Segundo ela, as mulheres que compram cabelos tornam-se dependentes dos apliques afros e chegam a LOJA VIRTUAL gastar até 3.000 reais para usar cabelo longo, A estética capilar não traduz apenas uma seja liso ou encaracolado. moda, mas uma reflexão social. Enquanto, “Aqui na loja, a cliente chega e quanto antes, a moda convencional em Salvador era maior o cabelo que ela vê, mais empolgada única e exclusivamente a do cabelo liso e ela fica. Acaba dividindo o cabelo em até 10 escovado, atualmente os dreads, blacks e cavezes no cartão, mas leva o cabelo dos seus chos naturais são a sensação. O cabelo pode sonhos”, afirma a vendedora. Após a compra ser entendido como o primeiro cartão de do cabelo, a cliente vai até um salão para visitas de um indivíduo e é tido como a priadquirir o serviço de aplicação do mega hair. meira imagem que o indivíduo disponibiliza Nessa etapa o custo cresce e pode chegar a para o outro. R$ 300,00. Além do aplique, o salão trata o A socióloga e dona do Salão Rosas Negras, cabelo antes, sendo esse tratamento ao gosto Elísia Santos, 26 anos, decidiu investir no da cliente: alisar, encrespar, pintar, etc. ramo de cabelos afros por ter identificado uma carência de empreendimentos com essa O NEGÓCIO INFORMAL especialidade. Elísia afirma que não se trata Nem só de cabelos comprados em lojas de uma moda, e sim uma questão de idensustenta-se o mercado de apliques em Salva- tidade. Ela explica que moda passa com o dor. Engana-se quem pensa que o estoque de tempo, já a estética afro é uma questão de cabelo das lojas é o único disponível para o pertencimento. Segundo Elísia, a sociedade bolso dos interessados. Assim como diversos brasileira ainda não está aberta para o cabelo outros produtos em Salvador, o cabelo tam- natural afro: “A discriminação ainda é pesabém é ofertado no mercado paralelo. Mui- da contra os dreads. A pessoa com cabelo tas pessoas, por não poderem custear um crespo natural que vem ao meu salão é, na mega-hair acabam comprando cabelos que já maioria, militante do movimento negro, pes-

soas que já possuem sua identidade formada. É muito difícil ter cabelo crespo natural e quem tem é sempre associado a uma pessoa desleixada, suja e que não sabe se arrumar”. DO SONHO AO PESADELO

Nem sempre o resultado de um tratamento nos cabelos é o esperado. Muitas mulheres que recorrem a cuidados de salões pouco qualificados podem ter sérios problemas estéticos e de saúde. Um aplique mal colocado, uma química que cause reações alérgicas ou um profissional mal preparado podem causar efeitos colaterais sem solução. O trauma causado por um dano capilar pode trazer reações físicas e psicológicas irreversíveis. Quedas, coceiras, caspas, seborréias e perda do couro cabeludo são alguns dos possíveis danos que um tratamento ou aplique pode causar no couro cabeludo. I.C.C, 49 anos, estudante de Filosofia, já sentiu literalmente na pele a experiência de ter mais de 50% do cabelo perdido. Após aplicação de uma química inadequada para o seu tipo de cabelo, perdeu mais da metade dos fios e teve diversas escoriações no couro cabeludo. Agora, possuidora de um cabelo estilo black power, a estudante afirma que, além de perder os cachos, sua auto estima foi completamente abalada durante o tempo em que seu visual era composto por chapéus e lenços na cabeça. Com tantos modelos e possibilidades possíveis, o cabelo crespo revigorou a auto-estima da estética afro-baiana. Não importa o corte, o volume, os cachos ou o tamanho do aplique. Hoje, o cabelo black ultrapassa questões como a cor da pele, a classe social e os espaços de convivência. Ainda assim, a aceitação do cabelo não pode ser tida como uma vivência sem discriminações. Ainda há distanciamento entre o ‘ser black’ e o ‘usar o black’. Logo, a canção de Arnaldo Antunes traduz o sentimento e desejo das pessoas que trazem nos cabelos a primeira relação com o seu eu: ‘cabelo vem lá de dentro, cabelo é como pensamento’.

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FOTOGRAFIAS E MÚSICA EM MESA DE BAR O PROJETO OLHOS DA RUA ACONTECE SEMPRE NA ÚLTIMA TERÇA-FEIRA DO MÊS

TCA PARA TODOS TEATRO BAIANO CHEGA AO GRANDE PÚBLICO COM APRESENTAÇÕES GRATUITAS E PREÇOS POPULARES

Wendell Wagner

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Wendell Wagner

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ma vez por mês, o bairro do Santo Antônio Além do Carmo se torna ponto de encontro para fotógrafos, curiosos e apreciadores de fotografia e música. Fruto da parceria entre o Laboratório de Fotografia (Labfoto) UFBA, o Instituto Casa da Photografia, do fotógrafo Élcio Carriço, e Tuesday Autonomous Zone (TAZ), o projeto Olhos da Rua acontece sempre na última terça-feira de cada mês, a partir das 19 horas, no Bar do Ulisses. A proposta do evento consiste em que fotógrafos, profissionais ou amadores, e coletivos fotográficos enviem de cinco a dez imagens sobre um tema previamente estabelecido pela comissão organizadora ou sugerido pelo público. A cada edição são convidados três curadores para selecionar as melhores imagens que farão parte da projeção. Caso alguém se identifique em alguma das fotos projetadas, recebe-a impressa e autografada pelo autor. Idealizado por Élcio Carriço, fotógrafo paulista premiado internacionalmente, o projeto Olhos da Rua está em seu quinto mês de realização e já apresentou temas como Iemanjá, Gente, Carnaval, Salvador e Fé. “A idéia surgiu da necessidade de criar um espaço para a fotografia que possa agregar e trazer para a rua o trabalho de 20

vários fotógrafos, pois a cada dia há menos lugares destinados a essa arte em Salvador, como galerias e museus, além de ser muito difícil montar exposições nesses lugares”, afirma Carriço. São recebidas de 500 a 600 imagens por edição, com participação média de 60 fotógrafos, baianos em sua maioria, além de artistas de outros estados, como Walter Firmo e de outros países, como o fotojornalista espanhol David Airob, que participaram na edição de “O OLHOS DA RUA TEM O INTUITO DE VALORIZAR A PRESENÇA DO PÚBLICO NO ESPAÇO QUE CABE A ELE E MOSTRAR ÀS PESSOAS QUE O LUGAR QUE ELAS VIVEM É MAIS BELO COM A PRESENÇA DELAS” ÉLCIO CARRIÇO

março, que trazia como temática a cidade de Salvador. “O Olhos da Rua tem o intuito de valorizar a presença do público no espaço que cabe a ele e mostrar às pessoas que o lugar que elas vivem é mais belo com a presença delas”, pontuou José Mamede, coordenador do Labfoto e um dos organizadores do projeto.

MÚSICA E IMPRESSÕES

O grupo de DJs do TAZ já fazia apresentações todas as terças no Bar do Ulisses e aceitou a proposta da organização de unir os dois projetos passando a ambientar musicalmente as noites do evento. Inicialmente, o Olhos da Rua foi pensado para acontecer em um lugar maior, como o Largo de Santana no bairro do Rio Vermelho, porém foi inviabilizado por questões burocráticas. A estudante de Jornalismo e fotógrafa Agnes Cajaíba (22) destacou a importância desse tipo de projeto para os fotógrafos. “É bom ter oportunidade de participar de eventos como esse, conhecer o trabalho de outros artistas, interagir com eles e mostrar o nosso. Ao mesmo tempo é mais democrático por estar na rua e entrar no cotidiano da comunidade e dos passantes, que acabam parando para ver as projeções sem precisar se programar para ver uma exposição”. Pensado inicialmente para ser realizado até o fim do mês de abril, o projeto teve boa receptividade, e a promessa é de vida longa. Informações sobre a próxima edição do Olhos da Rua podem ser obtidas por meio do endereço eletrônico do Labfoto: www. labfoto.ufba.br.

eja graças aos preços, ainda considerados altos para os padrões baianos, ou por causa das dificuldades de transporte, na hora de gastar com cultura e entretenimento os baianos tem dado preferencia à música e ao cinema, deixando o teatro como uma terceira opção. Na tentativa de conquistar o público, vários projetos de incentivo vêm sendo realizados no cenário do teatro baiano nos últimos quatro anos. Estes projetos caracterizam-se pela junção de várias ações que buscam permitir o acesso à arte e à cultura para uma parcela maior da população. O Domingo no TCA, as apresentações gratuitas do Balé do Teatro Castro Alves (BTCA) e as Cameratas da Orquestra Sinfônica da Bahia (OSBA) são exemplos disso. Teatro a 1 real O Domingo no TCA foi implantado em março de 2007 e consiste em uma apresentação mensal (numa manhã de domingo) cujos ingressos são vendidos a R$ 1,00 (inteira) e R$0,50 (meia). De 2007 pra cá, o projeto contou com 44 edições registrando um público de mais de 52 mil espectadores, consolidando-se como um caso de sucesso, que atraiu muitas pessoas que nunca tinham entrado em um teatro. “A escolha dos espetáculos busca aliar qualidade, oportunidade e diversidade, além, é claro, da disponibilidade do mesmo na época desejada. Existe também uma preocupação em se garantir a diversidade de linguagens artísticas: música, teatro, dança, cinema, circo, infantil, adulto, etc.” Afirma Moacyr Gramacho, diretor geral do TCA. Peças como “Cuida bem de mim”, “Os Cafajestes”, “Jeremias, Profeta da chuva”, “O sapato do meu tio”, as montagens “O pedido de casamento” e “O urso”, do projeto Teatro NU Cinema, shows como os de Mariene de Castro, Moraes Moreira, Tetê Espíndola, Carlos Pitta, coreografias como “Isadora” e “Áfrika” com o BTCA, a exibição do documentário Simonal – Ninguém sabe o duro que dei, e apresentações da Orquestra Sinfônica Juvenil 2 de Julho são alguns exemplos deste trabalho.

sentações gratuitas em diversos locais como museus, escolas, universidades, centros comunitários, igrejas e municípios do interior da Bahia, alcançando, desta forma, diferentes públicos. A Osba desenvolve também o projeto “Concertos Didáticos” que consiste em apresentações gratuitas realizadas à tarde na Sala Principal do teatro, voltadas para estudantes do ensino fundamental e médio. Entre 2007 e 2010, a orquestra inovou com a série “Mozart nas Igrejas”, levando concertos gratuitos às igrejas de Salvador. A partir de 2011, esta série foi substituída pela série Manuel Inácio da Costa, batizada em homenagem a um dos maiores escultores do barroco na Bahia. As Cameratas realizaram entre 2007 e 2010 cerca de 380 apresentações para mais de 50 mil pessoas. Já a Osba, realizou mais de 200 concertos, no mesmo período, para um público superior a 74 mil espectadores. E o BTCA nestes últimos quatro anos promoveu quase 450 atividades (entre espetáculos, oficinas, aulas, ensaios etc.), atingindo um público de mais de 47 mil pessoas. Estes projetos, idealizados e organizados pelos Diretores do TCA e pelos gestores do BTCA e da Osba, recebem apoio e orientação jurídica da Fundação Cultural do Estado da Bahia (FUNCEB) e da SECULT (Secretaria de Cultura do Estado da Bahia), e permitem o acesso de uma grande parte da população a linguagens e espaços artísticos dos quais por muito tempo foram culturalmente e/ou economicamente excluídas. RESULTADOS

De acordo com a assessoria do TCA, esses projetos têm contribuído para o aumento do público das peças regulares produzidas por eles. Porém, boa parte das apresentações que acontecem no teatro são, na verdade, real-

“A ESCOLHA DOS ESPETÁCULOS BUSCA ALIAR QUALIDADE, OPORTUNIDADE E DIVERSIDADE, ALÉM, É CLARO, DA DISPONIBILIDADE DO MESMO NA ÉPOCA DESEJADA. EXISTE TAMBÉM UMA PREOCUPAÇÃO EM SE GARANTIR A DIVERSIDADE DE LINGUAGENS ARTÍSTICAS: MÚSICA, TEATRO, DANÇA, CINEMA, CIRCO, INFANTIL, ADULTO ETC.” MOACYR GRAMACHO DIRETOR GERAL DO TCA

izadas por produtores externos que locam as dependências do teatro para seus eventos. Desta forma, o TCA não tem como controlar o valor dos ingressos dessas apresentações, que muitas vezes acaba sendo alto, o que resulta no afastamento de uma parcela do público interessado. Mesmo com a dificuldade em precisar os dados, a assessoria do teatro especula que o público dos projetos como o Domingo no TCA seja tipicamente familiar, contemplando de crianças a idosos. O TCA realiza também o projeto, igualmente gratuito, Conversas Plugadas. Criado em 2007, o Conversas Plugadas tem como objetivo reunir profissionais de destaque no cenário artístico nacional e internacional para uma troca de experiências com o corpo técnico do TCA e com o público em geral. O projeto é uma oportunidade para pessoas que já tem interesse na área entrarem em contato umas com as outras e discutirem arte e cultura na Bahia.

OUTROS PROJETOS

Além disso, o Balé Teatro Castro Alves (BTCA), além das apresentações na Sala Principal e Sala do Coro do TCA, desenvolve ações como aulas e ensaios abertos, mostras coreográficas e apresentações no interior da Bahia, que, em seu conjunto, reforçam o processo de formação de plateia, já que quase na totalidade essas atividades são gratuitas, processo contínuo de popularização do BTCA que vem sendo reforçado nos últimos anos. Já as Cameratas da Osba, formadas por pequenos grupos de músicos da Orquestra Sinfônica da Bahia (Osba), realizam apre21


PIMENTAS PELEMANIA

Um tiro no pé. Uma marca de calçados brasileira lançou recentemente uma coleção batizada de Pelemania, cujos produtos eram feitos à base de pele de raposas e coelhos. Depois de uma avalanche de críticas de ativistas e ecochatos nas redes sociais, a marca decidiu recolher das lojas a nova linha. Tudo bem que as roupas de oncinha e de zebra nunca saem de moda, mas daí a apostar em uma clientela pele-maníaca e associar-se ao TWB CHABU Após o acidente no último este verão envol- sacrifício de bichos em tempos ecologicavendo o Ferry Boat Ana Nery, garoto-propa- mente corretos, é, sim, uma tamancada de ganda da campanha “Agora Vai”, da TWB, marketing. quando o carro do delegado de Itaparica, José Magalhães, foi literalmente água abaixo JORNALISMO MARROM do ferry, transformando o próprio Magal- Um colunista baiano desses especializados hães e seus dois caronas em náufragos, fi- nos bastidores da Axé Music cometeu vários cou claro como nunca o quanto a empresa erros ortográficos em texto recente. Além de e sua imagem vão de mal a pior. Um mês escrever saída em vez de saída, artistica em depois desse incidente, um outro ferry da vez de artística, bem humorado em vez de frota TWB, o Agenor Gordilho, deu mostras bem-humorado, clausulas em vez de cláude que está pra lá de ferry velho, ao ficar à sulas, inicio em vez de início, competência deriva na Baía de Todos os Santos durante em vez de competência, impossivel em vez boa parte de uma noite. Não bastasse, a es- de impossível, arriscou uma inovação até na trela da frota, o ferry Ivete Sangalo, e o Pin- língua alheia: ao invés de teenager, escreveu heiro também já deram chabu e deixaram teneeager. Mas pela grafia da última palavra passageiros em apuros. tá perdoado. Se já escorrega no Português... TWB MULTAS

A TWB venceu em 2006 a licitação para explorar o sistema de ferries entre Salvador e Itaparica por 25 anos. Somente em 2011 já acumulou 38 multas, em um total de R$ 76.179, a maioria por não cumprimento de horário e falta de conservação da embarcação. A agência do governo do estado responsável pela regulação do serviço, AGERBA, garante que novas multas serão aplicadas todas as vezes que a TWB deixar de prestar um serviço eficiente aos usuários. Assim, a observar-se a qualidade do serviço, o risco de falência por multas é iminente, livrando a população de sofrer mais 20 anos com as agruras da travessia. PÃO E CIRCO

Tem coisas que acontecem e parecem mentira. E quando ocorrem no dia primeiro de abril, fica ainda mais difícil acreditar. Se for na Bahia, então... Pois, foi no dia 1º de abril que policiais militares e civis se reuniram no bairro do Calabar para almoçar juntos entre si e com os moradores, para comemorar a suposta expulsão do tráfico do bairro. No cardápio, feijoada. Até aí, quase tudo bem, não fosse o fato de que essa comemoração acontecer apenas três dias após a ocupação do bairro pela Polícia. A operação, iniciada no dia 29 de março, já tinha sucesso confirmado no dia primeiro de abril. E como não se deve perder tempo, que venha uma feijoada para comemorar a libertação da população. Não deixa de ser uma nova versão miraculosa da política do pão e circo. 22

DESCULPE O TRANSTORNO, ESTAMOS EM OBRAS

As obras do tão sonhado Metrô de Salvador são motivo de chacota até em anúncios publicitários. Assim o fez a agência de publicidade Boa Nova Propaganda, estampando o seguinte slogan, em comemoração aos seis anos da agência, em outdoors na cidade: “Boas idéias são como as obras do metrô: duram para sempre”. Após 11 anos do início das obras da primeira etapa, o metrô de Salvador está mais para a maior e mais cara intervenção artística urbana disforme do que para um meio de transporte que vai melhor o tráfego. WET’N WILD NA CALOUROSA 2011

A Calourosa já é uma festa tradicional realizada anualmente pela UFBA para promover a integração entre os calouros e os veteranos. Este ano, no entanto, quem passou na porta do PAF I, no Campus de Ondina, durante a festa, poderia jurar que se tratava de apenas mais um pagodão. Carros com os portamalas abertos reproduziam o pior do pagode baiano, coisas do tipo ‘amasse a latinha com a bunda”. Na fila enorme que se formou para entrar na Calourosa, um evento gratuito, alguns cambistas gritavam: Ó o ingresso, o ingresso, o ingresso... Ao lado, dezenas de barraquinhas com churrasquinho de gato, salgados e cachorro-quente. Quem comprava alegava que os preços da comida e da bebida dentro do Campus eram dignos dos praticados na Praia do Forte: quatro reais por um beiju pequeno e dois reais por uma água mineral de 330ml.

CHOQUE

Essa é para chocar mesmo. No dia 11 de abril deste ano, o professor Newton Barros de Oliveira, do Instituo de Física, levou um violento choque no estacionamento do PAF I. Não, desta vez ele não estava sendo roubado ou pego de surpresa ao ver o desmatamento no Campus de Ondina. Foi choque de verdade. Elétrico! Como bom cientista, Newton (não o inglês, o brasileiro mesmo) investigou a estrutura dos postes do Campus de Ondina e, para sua surpresa, descobriu que a maioria não tem aterramento. Para o leitor que não era muito apaixonado por Ciências no colégio, vai aí a explicação: o aterramento é necessário para canalizar a eletricidade para a terra, impedindo que seja conduzida por algum corpo que entre em contato com o poste. Em outras palavras, como os postes de iluminação do Campus da UFBA de Ondina não têm o fio-terra, como é popularmente conhecido o aterramento, qualquer um que tocá-los está sujeito à eletrocução. Sorte de Newton (agora sim, o da maçã e da gravidade) que estudou em Cambridge. COPA ATROPELADA

O clube de futebol espanhol Real Madrid demorou 18 anos para conseguir conquistar o décimo-oitavo título da Copa do Rei da Espanha. O título foi decidido em um clássico contra o grande e badalado rival catalão, o Barcelona, time que o Real Madrid não vencia havia seis partidas consecutivas. Motivo para comemorar, certo? Certo, mas foi durante a esperada celebração que Sergio Ramos, lateral-direito do time, aparentemente contente demais com a vitória, derrubou a taça enquanto os jogadores desfilavam em cima de um ônibus. Resultado: o motorista não parou e o carro passou por cima do troféu. Vários rumores surgiram em relação à motivação do acontecimento. O autor do crime disse em seu twitter que a Copa (sic) pulou ao ver tantos torcedores reunidos. A torcida do Barcelona diz que a taça estava em mãos erradas e queria se livrar dos madridistas. Engraçadinhos da internet afirmam que é a falta de costume de levantar troféus. Mas todos chegaram à mesma conclusão: o motorista do ônibus não estava nada contente com o resultado do jogo. OBRA SEM FIM

Técnicos da Sucom, Ibama e Crea, além de engenheiros e arquitetos também responsáveis pelo andamento das obras para a Copa de 2014 no Brasil, vistoriaram as obras da Arena Fonte Nova e do Metrô de Salvador na primeira semana de abril. Segundo o site de notícias G1 Bahia, o chefe de gabinete do Crea-Ba, Giesi Nascimento, disse que as informações sobre o metrô ainda não são conclusivas. Alguma novidade? Sabe-se que, de conclusivo, o metrô soteropolitano não tem nada.

OS SEM-LEITURA André Setaro

om a transferência da Biblioteca CenC tral da UFBA (que ficava no Canela, no mesmo prédio onde a Facom se instalara em 1985) para o campus de Ondina, houve também uma outra transferência: a das bibliotecas de todas as unidades para a Biblioteca Central, numa das decisões mais equivocadas de toda a história dessa prestigiada instituição. Uma decisão mais que equivocada, porque privou os alunos das unidades de ter a seu alcance qualquer resquício de papel impresso. Os estudantes que desejam tirar livros emprestados devem se dirigir à Biblioteca Central, inexistindo, em suas unidades, bibliotecas, pois todas concentradas numa única. Com o advento do império do audiovisual e da cultura internética, desaparecida a cultura literária de tempos idos, há uma espécie de preguiça para a leitura, que se restringe, hoje, aos textos comentados em aulas pelos professores, que são devidamente xerocados para os trabalhos escolares. “Quem não lê, mal fala, mal ouve, mal vê”, dizia um ditado de minha época. E, verdade seja dita, excetuando-se os monossílabos dos msns da vida, os poucos caracteres do Twitter e Facebook e assemelhados, poucos são os alunos que gostam de ler, que possuem o prazer da leitura. Quem, atualmente, está a ler os grandes romances da literatura? Você que me lê, por exemplo, já leu Os irmãos Karamazóvi, de Fiodor Dostoievski,

ou Memórias póstumas de Brás Cubas, do grande Machado de Assis? A transferência das bibliotecas das unidades para uma centralizada, como aconteceu, ainda mais quando se considera a substituição da leitura essencial pela navegação no espaço virtual, sobre ser um erro estratégico, principalmente em se tratando de uma instituição universitária, contribuiu para a abdicação de muitos estudantes na procura de livros para ler. Antes, quando se tinha uma biblioteca em cada unidade, ao se entrar nela, além das obras essenciais, ainda que à falta de recursos para a sempre necessária atualização bibliográfica, podia se encontrar, no balcão, todos os jornais soteropolitanos, além dos principais do eixo Rio-São Paulo. Atualmente, e não somente o dito faconiano, os alunos não encontram nada para ler durante os intervalos da aula. Excetuando-se o jornal da casa (este Jornal da Facom, por exemplo), a única coisa impressa que se pode encontrar talvez seja o jornal que enrola os restos de lixo da cantina de Dona Del. Não haveria uma maneira de descentralizar o mal feito? A Facom, à guisa de exemplo, está em franco processo de expansão e melhoramento de suas salas. Não teria como abrigar uma boa biblioteca? São perguntas que não querem calar nessa apressada apreciação de um assunto grave e virulento para a educação e o crescimento intelectual dos estudantes, pois, como se disse acima, quem não lê, mal fala, mal ouve, mal vê. Triste panorama os tempos dos Sem-Leitura!

AGRURAS DE UM GP EM LONDRES Maurício Tavares

U

m aviso aos amantes de automobilismo: o GP do título não tem nada a ver com Gran Prix. GP é a forma carinhosa que usamos para abreviar Garoto de Programa. Como moro no Porto da Barra, há bastante tempo, acabei me tornando uma espécie de consultor dessa fauna buliçosa que pulula nas areias e calçadas do famoso balneário. Eles me chamam de professor e sempre me lembro do polêmico filme “Ao mestre com carinho”. Um dos clientes dessa minha consultoria (informal e gratuita) viajou recentemente pra Londres com sua namorada inglesa e tem usado meus serviços via redes sociais. O rapaz ,que se autoclassifica como Guia de Turismo, antes de ir to London (“Oh, my eyes...”) só tinha feito uma grande viagem. Pra Ribeira do Pombal. È natural, portanto, que ele tenha dificuldades, além da língua, pra decifrar esse novo/velho mundo. Logo na primeira semana ele se sentiu muito desconfortável porque no dia de um importante jogo do Bahia ninguém naquela cidade gélida deu a mínima pro acontecimento. Não ouviu ninguém bradar “Vam-

bora, Bahêa minha porra!”. Ou pelo menos sua tradução em inglês ”Let’s GO, Bahea Holly shit!”. Pra ele foi um choque. Como assim, a Bahia não é o centro do mundo? O consolei dizendo que talvez as pessoas estivessem preocupadas com as novas contratações do Manchester United. Não sei se colou. O segundo choque que ele teve foi com a comida. “aqui eles só comem curry, a comida típica de Londres”. Mas como assim, disse eu, curry não é o molho básico da culinária indiana? Ou ouviu dizer que Bombaim é Liverpool? Lá vou eu falar das ex-colônias britânicas e explicar que os indianos talvez sejam o maior grupo de imigrantes no país dos Beatles e de Joss Stone. E por fim, ele ficou extremamente chocado porque lá as pessoas não comemoram a semana santa. “Aqui o povo não acredita em Deus. E eu não comi nem um pedaço de peixe na sexta-feira santa!”. Desisti de responder e fiquei na dúvida se deveria sugerir que ele fizesse um curso de História das Religiões. Vai que ele volta ateu, torcedor do Manchester, comedor de Frango com Curry e dublador de Carmem Miranda: “Disseram que voltei...”

PERFIL

UM “MIUDIN”

MUITO GRANDE

Raulino Júnior

s caminhos da arte e os de Caio MuO niz se cruzaram desde muito cedo, quando ele ainda era criança. A paixão

por desenhos e por formas geométricas começou com uma coleção de histórias em quadrinhos. O fascínio foi tão grande que, em pouco tempo, ele já inventava as próprias histórias e as vendia a preços irrisórios aos colegas. Estimulado pela família, o designer, formado pela Universidade do Estado da Bahia (Uneb), sempre teve o universo artístico na sua vida e soube aproveitar todas as oportunidades. O pai, Francisco Carlos Muniz, é jornalista e escritor; a mãe, Ana Beatriz Cavalcante Muniz, é artesã e professora de português aposentada. Aos 30 anos, Caio é, hoje, um dos artistas plásticos mais requisitados do mercado baiano por ter criado um nicho pouco explorado na região. Sua arte consiste em criar miniaturas caricaturadas de anônimos, famosos e de personagens de filmes, quadrinhos e desenhos animados, usando epóxi, porcelana fria, biscuit e verniz como matérias-primas. A novidade artística de Caio deu vida ao projeto Miudins, idealizado em 2009. Dentre as personalidades que já foram transformadas em Miudins estão Bel Borba, Carla Visi, Lázaro Ramos, Wagner Moura, João Ubaldo Ribeiro, Maria Gadú, Glória Pires, Daniela Mercury, Vanessa da Matta, Elisa Lucinda, Jau, Adelmo Casé, Netinho, Scheila Carvalho, Djavan, Danilo Gentili e Luiz Caldas. “O projeto surgiu como uma fonte de renda alternativa, mas hoje é a minha fonte principal”, reconhece. Além de artista plástico e designer, Caio trabalha como ator, ilustrador, mestre de cerimônias e animador. MIUDINS

Caio Muniz se considera um privilegiado quando o assunto é profissão. Como ele mesmo pontua, “brinca de trabalhar e trabalha brincando”. Isso se dá pelo caráter lúdico presente na confecção das miniaturas e porque os seus Miudins, além de garantirem uma boa renda mensal e fazer com que ele se sinta artisticamente realizado, proporcionam momentos inesquecíveis na sua vida. “Quando entreguei o da Maria Gadú a ela, foi muito marcante, pois foi a primeira vez que ela se apresentou em Salvador, no auge da carreira. A receptividade 23


da cantora foi surpreendente pra mim. Ali, eu percebi a alegria que a minha arte podia me trazer”, destaca. A propósito, Caio faz questão de homenagear artistas que admira através de seus Miudins. Nesse sentido, ele sempre dá um jeito de entregar, pessoalmente, o objeto para o homenageado. Mas há critérios para que um artista receba tal honraria. “Eu só presto homenagem a pessoas que, de fato, admiro, pois acredito em energia”. A única restrição do artista é em homenagear políticos e religiosos. “Mexer com questões ideológicas pode impedir que eu tenha oportunidades de trabalho”, afirma. As influências no trabalho de Caio são muitas, dentre elas a de Max Porto, vencedor do Big Brother Brasil 9, também artista plástico. “Tive influência direta dele. Hoje, ele me admira e me chama de pupilo”, envaidece-se. Na Bahia, Bel Borba e Denissena são exemplos de artistas que serviram de referência para Caio. O nome “Miudins” foi dado pelo próprio artista e nada tem a ver com a sua estatura, de 1,58m: “Estava buscando um nome forte e pequeno, que remetesse ao Nordeste. Como faço miniaturas, me veio logo ‘Miudins’”. Os Miudins de Caio são solicitados por casais de namorados, cônjuges e por pessoas que querem reverenciar amigos e parentes. Os fãs de artistas famosos também procuram o trabalho do designer a fim de surpreender os seus ídolos. Por mês, Caio recebe cerca de 25 a 40 pedidos e cada miniatura custa R$ 100, preço que, segundo o artista, será repensado. “A demanda é muito grande. No Sudeste, trabalho semelhante ao meu custa em torno de R$ 700 a R$ 800”, se queixa. MULTIFACETADO

Caio afirma que, se não fosse artista plástico, seria ator, poeta ou cantor. De certa forma, ele acabou passeando por todas essas outras áreas artísticas. Explica-se: começou a fazer teatro em 1993 e protagonizou, em 2009, o espetáculo Pluft, o Fantasminha. A boa atuação na montagem foi reconhecida ao ser indicado na categoria “revelação” do Prêmio Braskem de Teatro. “O teatro, além do prazer que me proporciona, é uma válvula de escape”, confidencia. Além disso, ele mantém na internet o blogue Albergue Mental, onde mostra sua face de poeta. “Desde pequeno, convivo com a poesia. Meu pai é poeta e já fez poesias para mim e para as minhas irmãs. Na verdade, me considero um cara que brinca com as palavras”, diz. EXPOSIÇÃO

Para este ano, Caio tem como projeto fazer uma exposição de suas miniaturas. Ainda está definindo o local, mas quer que seja um lugar onde pessoas de todas as classes sociais se sintam bem. Questionado sobre o objetivo de sua arte, não titubeia: “Quero levar alegria para o povo. A única obrigação que a gente tem na vida é a de ser feliz. Todo o resto é contornável. Vim ao mundo para ser feliz. Meu objetivo na vida é esse”, enfatiza. Alguém dúvida que o objetivo artístico de Caio já foi alcançado?

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O ATO DE QUATRO EM EVIDÊNCIA

Tunísia Cores e Maíra Guimarães

Ato de Quatro, o mais importante proO jeto de pesquisa e extensão da Escola de Teatro da UFBA, sofre interferências devido às instalações precárias da sala 05. Fundado há 15 anos na Escola de teatro da UFBA, o Ato de Quatro é um projeto que tem por objetivo estimular os alunos da Escola a realizar experimentações através da disponibilização de um espaço para apresentação de quatro cenas independentes – cada uma de 15 minutos – todas as segundas feiras, às 19hs. Esse projeto de pesquisa e extensão está passando por dificuldades que envolvem desde as instalações até o desgaste dos equipamentos do espaço. Apesar dos entraves, os alunos levam o projeto adiante devido à importância do espaço para a graduação dos estudantes da ETUFBA. PANORAMA ESTRUTURAL

Antes de ser utilizada para as apresentações do Ato, a sala 05 situava-se em um galpão correspondente à garagem da Escola de Teatro, mas a construção do Pavilhão de Aulas, em 1994, deslocou-a para o primeiro andar. Entretanto, esta transferência não foi acompanhada de reestruturação da sala atual. A arquibancada instalada após a sua mudança foi erguida com madeirite e, ao sentar-se, é possível ouvir o ranger do material, o qual se encontra desgastado pelo tempo e sob a ação dos cupins. A acústica da sala representou um problema por muito tempo, pois não possuía isolamento sonoro. Durante os anos de 2006 e 2007 isto causou transtornos à escola, visto que era complicado realizar atividades simultâneas no Teatro Martim Gonçalves e na sala 05 devido à reverberação do som nos dois locais. A reforma ocorrida na sala entre 2008 e 2009 solucionou o problema da acústica, mas os equipamentos desgastados foram mantidos e a arquibancada não se encaixou perfeitamente na parede do local, formando um depósito de objetos perdidos. “No ano passado, fui pegar um celular que caiu ali dentro e encontrei um registro de matrícula de uma garota do ano de 2006”, afirma Fred Alvin, aluno de Interpretação Teatral. A arquibancada é apenas um dos problemas da sala 05. As varas que sustentam os refletores deveriam ser fixas, mas é possível movimentá-las em rotação, os parafusos estão cedendo, as instalações elétricas estão ultrapassadas e, às vezes, o ar condicionado quebra por carência de manutenção. A situação precária da sala não é atual. Segundo o diretor Daniel Marques, “a estrutura da sala

05 já estava ultrapassada desde o momento da construção”. Ele afirma que o comprometimento dos equipamentos deve-se, principalmente, às instalações elétricas e, por isso, os novos equipamentos não são implantados. “Temos que reformar as instalações elétricas da sala, pois ela está sobrecarregada e desgasta muito rapidamente os aparelhos”, complementa. Pelas condições atuais da sala 5, há consenso de que a sua reforma viria para torná-la mais habilitada para o desenvolvimento das atividades propostas pelo Ato. Entretanto, para que ela aconteça é necessário que haja um projeto com datas, orçamentos e todas as informações necessárias para a sua realização, e não há. Não há projetos. Não há datas. Não há previsões. A diretoria afirma que já está estabelecendo o contato com possíveis realizadores dessa reforma, mas ressalta fatores que dificultam a sua realização. “Em Salvador temos pouquíssimas pessoas que trabalham com isso. É preciso alguém que entenda de iluminação de teatro e, mais do que isto, de instalações elétricas.”, argumenta. Os equipamentos presentes na sala 05 estão desgastados, mas o diretor Daniel Marques diz que parte dos novos instrumentos já está em posse da ETUFBA, aguardando apenas a reforma do ambiente para que sejam instalados. “Tem uma mesa de luz nova e refletores. As arquibancadas serão moveis e uma já está aqui, mas as outras três estão para chegar.” IMPORTÂNCIA

Apesar das barreiras impostas pelas limitações do espaço, há motivação para levá-lo à frente. “Estamos aqui para aprender e cada um oferece o melhor de si, ajuda os outros e participa da construção das cenas. Não é um ato benevolente participar da equipe, mas há amor pelo espaço”, afirma Fred Alvin, também o atual coordenador do projeto. Não por acaso, espetáculos reconhecidos no cenário nacional e premiados em atuação ou direção teatral, como Barrela e Deus Danado, surgiram no Ato de Quatro. No espaço, é possível aprender toda a parte técnica da produção teatral, e para o estudante de Licenciatura em Teatro, Maruan Sarraf, este “é um espaço para obter respostas, observar as possíveis modificações da cena”. As opiniões entre alunos e professores convergem no que diz respeito à relevância do projeto. Entretanto, a sala 05 apresenta diversos problemas que se revelam como fatores cruciais para que o Ato de Quatro atinja seus objetivos de incentivar os alunos a expor ao público as suas atuações e capacitá-los para os diversos setores da produção teatral.

Jornal da Facom  

Jornal produzido pelos estudantes de jornalismo do 3º semestre em 2011.1

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