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EDITORIAL

DOCES E SAUDOSAS LEMBRANÇAS Quem não tem saudades das brincadeiras de roda, das fogueiras de São João, das divertidas rodas de contação de estórias, das rezas e especialmente dos cantadores de Cururu e Siriri? Com o passar dos anos, nossas origens foram se perdendo na poeira do tempo. As mangueiras e palmeiras, de nossa terra calcada pelo casco dos cavalos, têm perdido espaço para a civilização que chega sorrateiramente com o concreto. As crianças trocaram a bola de bexiga de porco por outros brinquedos e os jovens, livros por equipamentos eletrônicos. Mas o tempo, que mudou tanta coisa, não pode eliminar as lembranças, nem a história de dezenas de brasileiros que fazem de Mimoso uma cidade histórica por natureza. A história de nossa terra está intimamente ligada à história de desenvolvimento e progresso do Brasil. Cândido Mariano da Silva Rondon, mais conhecido como Marechal Rondon, nasceu e cresceu nas férteis terras de Mimoso, e sempre teve orgulho disso. Depois dele, outros

homens e mulheres de fibra e coragem também nasceram e cresceram por aqui, como é meu caso, Sebastião Ferreira Leite, o Juruna. Por amar tanto esse lugar e reconhecer a importância de nosso povoado para a construção do Brasil, realizo um grande sonho pessoal, imortalizar minhas origens por meio desse projeto. É com espírito de festa e alegria que apresento à população brasileira a primeira edição da Revista “Mimoso: a Terra de Rondon”. Aqui, você, morador mimoseano, vai relembrar e reviver um pouco da nossa história por meio de causos antigos, velhas rezas e boas lembranças da comunidade pantaneira. E você leitor, vai conhecer a história de um povo que guarda com carinho e respeito suas origens e seus princípios. Convido você para uma viagem à historia da minha terra. Sebastião Ferreira Leite - Juruna Filho de Mimoso

EXPEDIENTE

Rua Joaquim Pedro Vaz, nº 843 - Bairro Central 75400-000 - Inhumas - Goiás

CÂNDIDO MARIANO DA SILVA RONDON PATRONO DAS COMUNICAÇÕES NO BRASIL

Idealizador: Sebastião Ferreira Leite Edição: Ademir Lima Fotografia: Rodrigo Soares, Jean Cláudio, Armando Dall Pizzolo

Produção: Mariley Carneiro Redação: Patrícia Santana Diagramação e Arte: Leonardo Vasconcelos Revisão: Marcelo Machado

Todas as informações contidas neste material são de responsabilidade de Sebastião Ferreira Leite – ´Juruna´

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História RONDON, O MIMOSEANO QUE SE TORNOU MARECHAL

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Cândido Mariano da Silva, mais conhecido como Marechal Rondon, foi o brasileiro que mais recebeu condecorações de instituições nacionais e internacionais, pela sua vasta contribuição ao conhecimento científico do Brasil. É o filho mais ilustre e condecorado do povoado de Mimoso, descendente de índios terena, bororo e guaná. Nasceu em 1865, e ainda menino perdeu os pais (Cândido Mariano e Claudina Lucas Evangelista). Foi criado por um tio de sobrenome Rondon. Assim, Cândido Mariano herdou o sobrenome do tio, com autorização do Ministério da Guerra. Sua carreira no Exército começou em 1881, onde assumiu papel ativo no movimento pela proclamação da República. Em 1890, se graduou como bacharel em Matemática e em Ciências Físicas e Naturais. Nosso conterrâneo foi aluno de Benjamim Constant, e a ideologia positivista que o guiou por toda a vida está inserida na história de Mimoso. Em 1892, Rondon assumiu a chefia do distrito telegráfico de Mato Grosso e, desde então, chefiou várias comissões para instalar linhas telegráficas no interior do Brasil. Ele se destacou pela instalação de milhares de quilômetros de linhas telegráficas interligando as linhas já existentes no Rio de Janeiro, em São Paulo e no Triângulo Mineiro com os pontos mais distantes do País, entre eles, Mato Grosso. Nas expedições para a integração nacional através das comunicações, o Marechal mimoseano fazia levantamentos car-tográficos, topográficos, zoológicos, botânicos, etnográficos e linguísticos da região percorrida. 4

Registrou novos rios, corrigiu o traçado de outros no mapa brasileiro e ainda entrou em contato com numerosas sociedades indígenas, sempre de forma pacífica. O que o levou a ser o primeiro brasileiro a dirigir o Serviço de Proteção aos Índios e Localização dos Trabalhadores Nacionais (SPI), criado em 1910. Nesta função, comandou e traçou o roteiro da expedição que o ex-presidente dos Estados Unidos Theodore Roosevelt, Prêmio Nobel da Paz em 1906, realizou pelo interior bra-

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sileiro entre 1913 e 1914, a Expedição Roosevelt-Rondon. Incansável defensor dos povos indígenas do Brasil, ficou famoso pela frase: “Morrer, se preciso for. Matar, nunca.” Em 1952 criou e encaminhou o Projeto de Lei de criação do Parque Indígena do Xingu ao presidente da República, Getúlio Vargas. Três anos mais tarde Cândido Rondon recebeu a patente de Marechal pelo Congresso Nacional. Já cego, faleceu no Rio de Janeiro, em 19 de janeiro de 1958, com quase 93 anos. Para homenagear, reverenciar e eternizar os feitos desse grande desbravador, o governo do Estado de Mato Grosso está construindo um memorial para expor a história de coragem e determinação traçada por esse homem que nos dá a honra de chamá-lo irmão.

Cândido Mariano da Silva recebeu condecorações de instituições nacionais e internacionais pela sua vasta contribuição ao conhecimento científico do Brasil. Podemos dizer que nosso conterrâneo foi o Rei das Comunicações

Rondon, em um dos inúmeros acampamentos: fotograma de documentário da comissão (sem data)

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História UMA VISÃO SINGULAR DO MUNDO

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imoso é uma pequena comunidade na região pantaneira do Estado de Mato Grosso. Recebeu esse nome em função de sua vasta vegetação constituída pelo macio capim-mimoso (Axonopus purpusii). Foi palco de muitas guerras no passado e guarda na memória, com bastante honra, nascimento e infância do Marechal Rondon. O vilarejo de Mimoso começou a ser formado com o núcleo de sesmaria de Morro Redondo, ao pé do morro, em 1806. A partir daquela época, foram construídos a Igreja de Santo Antônio, padroeiro de Mimoso; a Escola Santa Claudina, em homenagem à mãe de Rondon; o posto telefônico; um conjunto com cerca de 30 moradias; um pequeno comércio local. É importante ressaltar que essas construções existem até hoje. O povoado está localizado em uma área de planícies sazonalmente inundadas pelas cheias. O centro de Mimoso ainda é a Escola Santa Claudina, que agrega as lideranças comunitárias, jovens e pessoas da comunidade, além de ser local de festas e ricas tradições culturais. Até meados da década de 50, a localidade era isolada de Cuiabá, da mesma forma como Mato Grosso esteve isolado do restante do Brasil. A ocupação do Estado ocorreu com a preção (escravidão) dos índios e com a exploração mineral, culminando na descoberta de ouro, no século 18. O povoado de Mimoso constitui uma diversidade particular dentro dos pantanais, cortados por ricos mananciais hídricos que correm entre a morraria, sustentando uma ampla diversidade de animais e plantas. Resta ao povo pantaneiro guardar o reconhecido patrimônio histórico e cultural da comunidade mimoseana, que detém conhecimentos próprios num entrelaçamento inseparável da biodiversidade com a cultura.

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Mimoso no século 21 A população de Mimoso é formada por um povo humilde que sofre a crise do desemprego, das desigualdades sociais e dos impactos ambientais, causados principalmente por pescadores predatórios que visam ao lazer sem nenhum cuidado ecológico ou cultural, contribuindo para o trabalho escravo e causando graves danos à rica diversidade ambiental e social. Mesmo com a devastação, a paisagem natural se mostra exuberante e ainda conserva aspectos belíssimos do ambiente pantaneiro. Nos últimos anos, somada à generalizada falta de perspectivas de trabalho, a população enfrenta a perda de sua tradicional fonte de renda, a pesca. Essa perda é motiva pelos efeitos danosos de construções de barragens hidrelétricas. Apesar dos problemas, surge uma vaga esperança de mudanças num futuro próximo, com a perspectiva de construção do Memorial Rondon, que atrairá visitantes para a região. Assim, entendemos ser este o momento de se criar oportunidades para reflexões sobre a situação ambiental e econômica no Pantanal, e particularmente nesta comunidade. É preciso pensar mecanismos de agregação de valor aos produtos da terra e de sensibilização da população local para a valorização dos patrimônios culturais e naturais para sair da estagnação econômica a que a comunidade está sujeita.

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A principal referência cultural mimoseana é as tradicionais festas religiosas que cultuam Santo Antônio, o padroeiro da comunidade; São Sebastião, meu padroeiro; e Nossa Senhora da Guia. Essa devoção é mantida por mais de 200 anos

Dedicada ao padroeiro de Mimoso, esta é a Igreja de Santo Antônio

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História O nome da escola homenageia a mãe do ilustre Marechal Rondon

O comércio de Mimoso vem resistindo há muitas décadas

A natureza da região do pantanal é riquíssima em beleza

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Cultura e valores HISTÓRIA DE UM POVO DE FÉ E CRENÇA

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riqueza étnica e linguística da comunidade mimoseana criou uma cultura própria e singular a partir da miscigenação do índio bororo, do branco e do negro, criando seu próprio espaço, tempo e uma singular visão do mundo. E a partir das relações sociais e culturais, convivem entre si, na base da solidariedade e da reciprocidade, que por sua vez, estenderam-se à convivência com seu território espacial e natural. Em Mimoso, além do padroeiro Santo Antônio, cada família tem seu santo de devoção. Em cada casa tem um nicho, um altar enfeitado com flores e velas. O culto ao santo padroeiro da comunidade ressalta a fé e a devoção das famílias, o que envolve toda a comunidade em uma celebração cultural e religiosa. Essa devoção é mantida há mais de 200 anos por homens e mulheres que mantêm a tradição passando seus conhecimentos e crenças de geração a geração. Como principal referência cultural mimoseana, podemos citar as tradicionais festas religiosas. Esse é um momento especial para quem reencontra parentes e amigos em uma descontraída roda de conversa onde trocam informações, namoram, dançam, cantam e, principalmente, resgatam valores nas rodas de cururu e siriri, onde ocorrem duelos entre os cantadores que reverenciam o santo festejado. Tradicionalmente, a disputa entre cantadores implicava em fama e vantagem, pois para conquistar namoradas, levava vantagem um bom cururueiro. Mimoso é terra de gente solidária e receptiva, que mesmo com o passar dos anos ainda mantém a essência e a identidade de um povo guerreiro e ordeiro que acredita em sua identidade e aposta num futuro melhor, valorizando os recursos naturais e a figura histórica de seu filho mais ilustre, o Marechal Cândido Rondon.

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Em Mimoso, Ainda é comum o testemunharfamiliar patrimônio as érevoadas passadode decardeais, geração asgeração. a ninhadasAde tradição etuiuiús, o modo ossimples passeios da ver de mãee capivara enfrentar a com são vida os filhotes, repassados as brincadeiras de ascendentes dosa jacarés e os reflexos descendentes. Por solares isso, comprei que conferem as belezaque terras às águas. eram de meus avós

A crença e as tradições enriquecem a cultura da comunidade e fortalecem os laços da família mimoseana. Nos detalhes, estão Domingos e Nhanhá Joana, avós de Sebastião Ferreira Leite

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Causos, estórias e dizeres COMO A FAMÍLIA DE ‘JURUNA’ FOI PARAR NO PANTANAL MIMOSEANO

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m 1927 os avós paternos de Juruna, Domingos Ferreira Leite e Joana de Mattos Ferreira, foram morar na Fazenda Anhumas (hoje Rondonópolis), de propriedade de Cândido Rondon. Alguns anos mais tarde, Vovô Domingos, como era conhecido, foi trabalhar na Fazenda Pouso Lindo, de propriedade de Seo Carlinhos Reinners. Por essas terras, a família Ferreira Leite começou a ser formada e disseminada em meio às morrarias mimoseanas do pantanal mato-grossense. “Meu avô Domingos é filho de Vitalina Maria Ferreira e Antônio Ferreira Leite, e minha avó, a Nhanhá Joana, filha de Clara Ferreira Leite e João Pinto de Mattos, um baiano arretado, parente do Cel. Horácio de Mattos, que escapou da guerra entre Morbeck e Carvalhinho, na região de Poxoréu, e foi parar em Porto Pinto e, posteriormente, em Mimoso. Seus restos mortais estão na Fazenda Pouso Lindo. Seus pais são José Silvério de Mattos e Francisca Marcolina de Mattos.” A família era absolutamente matriarcal. Vitalina da Silva teve seis filhos e quatro maridos. Sua tataravó era irmã da mãe de Rondon, Claudina Lucas Evangelista. “O pai de meu avô era Antonio Ferreira Leite, filho de Benedito Ferreira Leite (vovô Didi), de saudosa memória, e de Bartolina Lucas Ferreira. Era também pai de Domingos Ferreira Leite e Clara Ferreira Leite, pais da minha bisavó, portanto, meus tataravós.” Do lado materno, o avô Virgílio Teixeira da Silva nasceu em 28 de fevereiro de 1989, filho de Ma-

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riana Teixeira da Silva e Caetano Leite de Sá. Minha bisavó era negra e Caetano Leite de Sá era filho de tradicional família mimoseana. A avó, Maria Umbelina das Neves, nasceu em 29 de janeiro de 1910. Belina, como todos a conheciam, nasceu de Antônia Rosa e Antonio das Neves. É importante lembrar que Vitalina e Antônia Rosa, bisavós de Juruna, eram primas-irmãs de Cândido Rondon. A religião sempre foi um forte do povo mimoseano, em sua maioria, devotos de São Sebastião. Uma imagem antiga de São Sebastião, que era da avó Belina, hoje está sob os cuidados de Juruna, que tem como missão não apenas zelar da imagem, mas também da tradição. “Em razão da morte de tio Biu, pedi a minha avó para deixar eu zelar da imagem e da tradição de São Sebastião. Com os testemunhos de minha madrinha e de tio Guaraci, ganhei a responsabilidade. Mandei restaurar a imagem em Trindade e descobri que a argila tinha mais de 200 anos.” Assim como o patrimônio familiar é passado de geração a geração, a tradição e o modo simples de ver e enfrentar a vida são repassados de ascendentes a descendentes como patrimônio familiar agregador das relações, onde a principal característica da comunidade é manter a terra como garantia de manutenção da comunidade. Por isso comprei as terras que eram de meus avós, tinham sido vendidas. “Não tenho e nunca tive a intenção de ser o dono desse paraíso, apenas não quero deixar morrer a minha história, a história do meu povo.”

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Meus avós Ainda é comum paternos, testemunhar Domingos Ferreira as revoadas Leite e Joana de cardeais, de as ninhadas Mattos Ferreira, de tuiuiús, os passeios formaram uma das da mãe capivara primeiras famílias com a se instalar os filhotes, em as brincadeiras Mimoso. A falta dos de jacarés eos recursos osforçou reflexos a solares que conferem permanecer por aqui ebeleza disseminar às águas. suas raízes

Edjane, Meroca, Chanô, Mariana, Marina, Belina-Avó, Mary, Angélica, Alessandra e Tiago

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Causos, estórias e dizeres AS ORIGENS DA FAMÍLIA DE ‘JURUNA’

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ebastião Ferreira Leite, mais conhecido como Juruna, nasceu em Mimoso, no dia 3 de fevereiro de 1964, de uma gestação precoce de 7 meses. O parto foi feito pela tia-avó Mana Jorgina, que era benzedeira. Ao lado de seis irmãos, sendo um de criação, Juruna cresceu em meio à natureza exuberante do pantanal mato-grossense. Sua mãe, Adiles Teixeira Leite, faleceu em 19 de julho de 2012, aos 72 anos de idade. Quando criança, estudou na Escola Rural Mista de Lagoa, com a Professora Maria Diva das Neves Pereira. Em 1972, fez a primeira série na Escola Santa Claudina, em Mimoso, com a Professora Creuza Ribeiro de Almeida. Mesmo tendo saído de Mimoso ainda muito jovem para realizar um sonho de seus pais (se tornar doutor), nunca perdeu as origens mimoseanas. “Gosto e admiro o estilo de vida cuiabano, especialmente a comida cuiabana. Gosto de cavalos, gado. Adoro cozinhar, conversar, falar mal dos outros, dançar rasqueado, siriri e até cantar cururu. Pense num homem animado.” Mesmo com muitas dificuldades, seus pais, Arnaldo Ferreira Leite e Adiles Teixeira Leite, formaram quatro, dos seis filhos, com curso superior. Depois de formado, Juruna passou a dividir a vida de advogado com a vida simples e sossegada do pantanal mimoseano. “Todos os anos, nas férias, deixo o tribunal para comer paçoca, deitar na rede, andar a cavalo, ouvir os pássaros e apreciar as piúcas rosas e roxas, os carambazais amarelos dos campos e as flores d´água. Sem falar no canto das anhumas e dos araquãs, que me deixam fascinado.”

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A vida simples de Mimoso proporciona harmonia total com a natureza do pantanal e com as tradições sertanejas

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Tenho éorgulho Ainda comumde testemunhar dizer que meuaspai, revoadasFerreira Arnaldo de cardeais, as ninhadas Leite, que ainda de vive tuiuiús, na comunidade, os passeios da mãe em formou capivara curso com os filhotes, superior quatro de as brincadeiras seus seis filhos, doscom o jacarésdee minha apoio os reflexos mãe, solaresTeixeira Adiles que conferem Leite, beleza a qual nos às águas. deixou há um ano

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Causos, estórias e dizeres

“Eu não falo de ninguém, muitos falam de meu Só eu que tenho essa opinião, não mal emprego vida eu acho que é até inveja que muitos falam de meu até a pessoa que eu não esperava já falaro mal de Ramiro, filho de Mana Jorgina, esta gerada por Mariana Teixeira da Silva, também, mãe de Virgílio Caetano, Pedro Alexandrino, Brasilina e Delfina, fez uma cantoria sobre um romance amoroso secreto cuja letra assim expressava: “Tô procurando saber o caso daquele dia. Fica quieto, não fala nada, esse negócio escondido... não quero que ninguém saiba nossa amizade como é que é.”

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Lauro da Silva Rosa, o maior e melhor dos cantadores de Mimoso deixou inúmeras toadas, em uma delas lamenta a incompreensão de um de seus amigos: nome. alheia, nome, mim!”

O maior parceiro de Lauro da Silva Rosa foi meu tio Guaraci Queiroz das Neves, que escreveu assim: “Oi, já tô fazendo minha despedida, já vou simbora. Eu vou embora daqui, aqui eu não posso morar. Eu quero deixar saudade, pra meus amigos algum dia há de lembrar de mim.”

De Ramiro é a autoria desta outra pérola: “Eu vou passear cumprindo com a minha sorte, quem não arrisca no mundo, Siá Dona, não perde e não ganha nada.”

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De outra feita, criticava quem mudava de religião: “Já vieram me falar pra eu mudar de religião Eu não troco Hei de acompanhar a religião que eu achei.”

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lheres de diferentes gerações há centenas de anos. Como forma de resgate desses valores e histórias, Sebastião Ferreira Leite, um mimoseano legítimo, recorreu a livros, jornais, redes sociais, anotações e, claro, ao caderno de catecismo de sua mãe para relembrar rezas, terços e orações do pantaneiro.

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vida simples do povo de Mimoso releva riquezas culturais, religiosas e sociais imensuráveis e inesquecíveis. Esse espaço da revista foi reservado especialmente para resgatar os principais contos, cantos, rezas e estórias contadas e cantadas por homens e mu-

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UMA VIAGEM QUE TRANSCENDE AO TEMPO

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“Vestido Tubinho é bonito, mas só orna pra moça gorda, aquelas que são mais magras é a coisa mais indecente, parece figura na parede.”

Nesta, ele puxava a fila de um lado e Nhazinha a das mulheres, numa emocionante roda de siriri, eis a letra: “São Gonçalo de Amarante, São Gonçalo de Amarante, Ai, casamenteiro das velhas, Casamenteiro das velhas, ai.”

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Me lembro de um trecho de uma outra toada de Emiliano: “Dão, dão, dão, pelas notícias que corre, Quem não te conhece que te compra...”

Quando pequeno, eu era muito curioso e prestava atenção em tudo. Em uma reza na casa de Tio Dicó/Maria, ouvi esta pérola de Titi João Grande: “Cadê Estrela Daiva (SIC) faz tempo que não lhe vejo faz tempo que não lhe vejo, venha conversar comigo. Essas mocinhas d'agora não repara qualidade, vai casando com caiqué um.”

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Meu avô Virgílio, conhecido também como Gica, cantou uma toada para Ninfa de Renato, por estar muito exibida: “Carro não anda sem boi, ai ai, Eu não canto sem beber, tanto bem que eu lhe queria, mas hoje eu não quero mais, porque você é ingrata. Mas desse jeito, morena, você perde merecimento e ainda fica sem casar. Glorioso pai do mundo, ai, pai de todos pecadores, tanto bem que eu lhe queria...”

Nas homenagens aos santos, é incomparável esta de Tio Ninito, em tom de desafio: “Olalalão, olalalão, mas eu queria saber como São Pedro Morreu... Numa Cruz crucificado de cabeça para baixo.”

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De outra feita, quem ficou muito zangada foi minha madrinha Beni, com uma toada de Durico Preto, eis a letra:

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Emiliano, filho de xá Dita de Cridio, neto de Agostinho e bisneto de Fava, que segundo me disse minha avó Belina foi o responsável por levar Cândido Mariano da Silva Rondon para Cuiabá, para casa de seu tio Manoel Rondon, retirando-o da casa de seu avô João Lucas Evangelista, era um grande cantador e tirador de reza de São Gonçalo.

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A de tio Erão sobre cabelo fofo: “Não sei que mal que eu fiz que até trocaram meu nome. Tô sabendo por notícia que eu chamo cabelo fofo É mentira, é seu engano, morena, Eu chamo é mata saudade.”

Tio João Paes de Barros foi casado com Tia Ana Maria, com quem teve 22 filhos. Destes, 17 sobreviveram. Fora do casamento, teve outros 13. Sua principal atração era a voz e a viola. Eis algumas das suas modas: “Meu compadre Guaraci, ai ai, Você diz que vai embora deixando saudade pra gente daqui. Você vai morar tão longe Onde nós custa encontrá Leva meu coração e deixa o seu pra mim.”

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Num belo dia, Darião foi pescar. Não tinha canoa e apanhou a de Virgílio José, tido como muito franco. Nesse dia, Tio Virgílio José também foi pescar. Arrumou seu sapicuá, o baquité com as traias, o remo, os anzóis e a espingarda. Ficou esperando. Quando Dario chegou, com o cano da espingarda foi tirando os peixes e falando, “esse é meu, esse é meu, esse é meu...” Dario pediu: “Oh, tio Virgílio, deixa um peixe pra eu fazer um caldinho?” Tirou o menor pacú e sentenciou: “Pega esse, pro cê aprendê a não pescar com canoa dos outros.”

Lauro da Silva Rosa fez jus ao ensinado para Cora Coralina, ao dizer que o saber se aprende nos livros e com os mestres, a sabedoria com a vida e os humildes, ao responder a um amigo sobre uma carta que pegou para ler, mesmo sendo desprovido do ato de leitura:

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“São Sebastião, quando fez dezoito anos, na casa de quem que ele entrou?” Como ninguém sabia, foi expulso e meu padrinho conseguiu a resposta, que bastava responder que “entrou na casa dos 19”. A casa significava idade.

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Meu padrinho José conta que, em uma dessas trovas, Dito Paca foi expulso da roda porque perguntava:

“...Após pedir para ler a carta, o interlocutor perguntou: “Já leu, seo Lauro?” Resposta: “Lim, sim sinhô!” Interlocutor: “Mas tá de cabeça pra baixo. Resposta: “Estou deslendo.”

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Ivo de Lauro morreu cedo e foi um grande cantador: Menina, já descobri Você anda falando E desconjurando um filho alheio Num falo com soberbia Tenho medo de pagar Pra mim amar seus carinhos Só se for para pagar pecado, Só se Deus me castigar.

Gi de Hipólito fez uma toada muito boa: Tão me chamando de soberbo, Mas é engano, Faço agrado Pra quem merece. Se for pra me querer bem No meio da falsidade, Mais antes me querer mal, E não se alembra de meu nome.

Sebastião Gonçalves fez uma de ponto para seu irmão: “Só eu que não tive sorte neste mundo, Pessoa que eu quero bem é o primeiro a me desprezar, Nem tanto pelo desprezo, como tiraram minha razão, Pra dar pra certas pessoas desconhecidas que vêm aqui!”

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Rezas mimoseanas Deus nos salve Deus vos salve Deus vos, vos salve, Maria filha de, Deus padre. Deus vos, vos salve, Maria mãe de, Deus filho. Deus vos, vos salve, Maria esposa do Espírito Santo. Deus vos, vos salve, Maria templo e sacrário da Santíssima Trindade. Deus vos, vos salve, Maria concebida sem pecado original, Amém.

Gloria! Gloria patris, et filii, et spirictum santi, amem Sicut erant in principium, et saecula, saeculorum, amem.

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Causos, estórias e dizeres Nossa Senhora da Guia

Amado Jesus Amado jesus, José, Joaquim, Ana e Maria, eu vos dou O meu coração, corpo, alma e vida.

Gemendo e chorando, De noite e de dia, Neste vale de lágrima, Senhora da Guia. Advogada nossa, Do céu doce valia, A nossa protetora, Senhora da Guia. Estes vossos olhos, De misericórdia, A nós volvei, Senhora da Guia.

Salve Rainha Salve rainha, ó Santa Maria, Mãe de misericórdia(estribilho) Senhora da Guia Sois vida e doçura, Grata melodia, Esperança nossa, Senhora da Guia. Salve a vós bradamos, Sagrada Maria, Somos degredados, Senhora da Guia.

Depois deste desterro Com muita alegria, Nos mostrai Jesus, Senhora da Guia. O fruto do vosso ventre, Ô clemente, ô pia, Ô doce sempre virgem, Senhora da Guia. Rogai por nós, Na última agonia, Santa mãe de Deus, Senhora da Guia.

São Sebastião São Sebastião Santo De Jesus querido, Livrai-nos das pestes, De todo perigo (bis). São Sebastião Santo, De Deus muito amado, Livrai-nos das pestes, Nosso advogado(bis). São Sebastião Santo, Querido de Deus, Livrai-nos das pestes, Pelo amor de Deus (bis). São Sebastião Santo, De Deus onipotente, Livrai-nos das pestes, Todos inocentes (bis). São Sebastião Santo, Meu Jesus também, Levai-nos à glória, Para sempre, amém (bis).

Santo Antônio Ó, meu Santo Antônio, Meu santo milagroso, Fazei que da virtude, Sejamos amorosos. Ó, meu Santo Antônio, Meu santo ditoso, Fazei que da virtude, Sejamos amorosos. Ó, meu Santo Antônio, Meu santo protetor, Fazei que dos pecados, Alcança verdadeira dor. Ó, Santo Antônio, Meu santo muito amado, Nos trabalhos desta vida, De nós tenha cuidado. Ó, meu Santo Antônio, Da alma sois alegria, Socorrendo sem demora, Na última agonia.

Para que sejamos dignos, Das promessas do Messias, Amém, Jesus, Senhora da Guia.

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Causos, estórias e dizeres São Benedito Meu São Benedito, Vossa casa cheira, Cheira cravo e rosa, Cheira flor de laranjeira. Qual é este santo, Coberto de flor, É São Benedito, Junto com nosso senhor. Qual é este santo Que chegou agora, É São Benedito, Junto com Nossa Senhora.

São João Deus te salve João, Batista sagrado, No seu nascimento Nós temos alegrado. Ó, joão bendito, De Deus muito amado, João que no Jordão Foste batizado. Mereceste santo, Como precursor, A quem batizastes, A nós batizou.

Quem é este santo Que saiu de dentro, É São Benedito, Para nos livrar do convento.

Depois do batismo, Deus vos perguntou, O qual de nós é melhor, Disseste o senhor.

Qual é este santo, Coberto d véu, É São Benedito, Que vem descendo do céu.

João batizou Deus, Deus batizou João, Ambos foram batizados, No rio Jordão.

Quem é aquele que ali vem, Quem é aquele que ali está, É São Benedito, Que chegou no seu altar.

Nos continuaste, E lá vos mandou, Sois vós o segundo, Deus o publicou.

Meu São Benedito, Meu Jesus também, Levai-nos à glória, Tudo para sempre, amém.

Baptista santo, Quando avisaste, Deus vos chegando, Para lhe apontaste.

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Dizendo em voz alta, Que bem se entendeu, Cheguei ao redentor, Cordeiro de Deus. Sois o Batista, Dos santos maiores, Todos vos festejam, Os grandes e os maiores. Deus te salve, santo, Deus muito amado, Como primo seu, Batista sagrado. São João, a vós pedimos, A Deus por vós também, Na vida e na morte, Para sempre, amém. Bendito, louvado seja Bendita, louvada seja A santísssima trindade (bis). E sendo três em pessoas, Uma só e na verdade (bis). E também seja louvada A pureza de Maria (bis). Onde Deus verbo encarnou, Sendo mãe e sendo filho (bis). Como filho a vós pedimos, Como mãe a vós rogamos (bis).

Levai-nos todos à glória, Cantando e Deus louvando (bis). Minha virgem Nossa Senhora, Sábado é vosso dia (bis). Onde vão cantar os anjos Da virgem santa Maria (bis).

Bendita Maria Bendita de Deus, Bendita Maria, Que o terço nos destes, De muita valia. De Maria o terço, Um forte esquadrão, Que bateu nas trevas, Do inferno o dragão. De Maria o terço, Uma forte espada, Que na vista dela, O inferno é nada. Uma forte espada, Do mais fino forte, Derrubou o inferno, Sem dar um só golpe. Da forte batalha, Vitória teremos, De rezar o terço, Sempre rezaremos.

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Causos, estórias e dizeres No trato do inferno, Fazemos tenção, De rezar o terço Com as conta nas mãos.

Toda lastimosa, Mãe de somos bem, Leva-nos à glória, Para sempre, amém.

Que no mundo fora, Do terço amante, O viu lá na glória, Quando os anjos cantam.

Coração amoroso

Sempre rezaremos, Com muita alegria, Para alegrar, A virgem Maria. A virgem Maria, Prometeu salvar, A todos devotos, Que o terço rezar. Jesus, quando viu Tão bela harmonia, Logo perguntou, Quem louva Maria. Responderam os anjos, São os pecadores, Que vem a julgar, Com muitos temores. Respondeu Jesus, Com muita alegria, Não terá castigo Quem louvar Maria. Quem louvar Maria, Maria dolorosa, Lá ao pé da Cruz Está lastimosa. 28

Nos livrou do cativeiro, Com sua morte paixão, Cumpriu em vosso sangue O princípio da salvação.

O princípio da salvação, Que nos deu a santa Cruz, Bendito seja sempre O coração de Jesus.

Siriri

Bendito, louvado seja Um coração amoroso, Pelo homem deu a vida, Sendo sempre poderoso. Sendo sempre poderoso, Seja bendito louvado, Por ser amante morreu, Numa Cruz crucificado. Numa Cruz crucificado, Meu divino coração, Para nos livrar do inferno, Deu princípio em Adão. Deu princípio em Adão, Remindo de corpo e pena, Salve o padre eterno, Quem a si mesmo se condena. Quem a si mesmo se condena, No decreto de Deus padre, Tomando encarnação, No seio da virgem madre. No seio da virgem madre, Daquele Deus verdadeiro, Para ser verdadeiro homem, Nos livrou do cativeiro.

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O siriri, ao contrário do cururu, cuja roda é formada somente por homens, é composto por pares, acompanhado por um tirador que toca a viola, um ganzá e um couro/tamborete para marcar o ritmo. O que canta? Coisas da vida, a saudade, a despedida, o adeus, a natureza, os pássaros, as desventuras amorosas, etc...

A cantiga abaixo mostra o orgulho de Seo Urubu: Urubu desceu do céu, ai ai Com fama de dançador, ai ai Dança urubu, não sei dançá, Dança urubu, não, doutô Dança urubu, não tenho pá! Urubu foi tirá leite, Carcará foi vaquejá, Urubu fez fufu, Carcará fez crácrá.

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Causos, estórias e dizeres A ciranda nordestina tem uma versão pantaneira: Ciranda, cirando há, vamos todos cirandar, Oh meu padre santo Antônio, venha me ensinar dançar. Ponha esta perna, Se não servir esta, Ponha esta outra, Pra senhora moça, Rodeia, rodeia, rodeia, Fica de joelhos, Põe a mão na cintura, Faz uma mesura.

Éramos uma turma grande de meninos e meninas. Lembro-me como se fosse hoje, nas rezas na casa de tia Senhorinha, com tia Clarice tirando reza, ajudadas pela voz afinadíssima de seo Lauro. Depois, dançávamos siriri. Caranguejo não é peixe, Caranguejo peixe é, Caranguejo só é peixe Na enchente da maré. Palma, palma, palma, Pé, pé, pé, Roda, roda, roda, Caranguejo, peixe é!

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Tem estórias de noivo abandonado, como: Eu mesmo cortei a madeira, Eu mesmo cortei o sapé, Para fazer um ranchinho Praquela mulher, E, depois, Êh, ingratidão, O meu ranchinho Ficou abandonado pro sertão.

Severino de Nhá Dona, uma vez, estava dormindo na casa de Nhá Loça e Agostinho foi roubar Josefina a cavalo. A primeira rede que encontrou na sala jogou no ombro e saiu a galope no cavalo. Lá na frente descobriu que era Severino, padrinho de boneca de minha irmã Marina. Eis um sirini de Severino: Meu bambolê, meu bambolê, Meu bambolê, Eu não posso ficar, Eu sou casado, Tenho três crianças, Minha morena Não posso deixar!

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Causos, estórias e dizeres E a paixão dos peixes: O adeus da saudade fez nascer este siriri: Estava na beira do rio Quando meu amor embarcou, Foi a prenda mais bonita Que as ondas do mar levou.

Corimbatá, Lambari mandou dizer Que a piava está doente, Com saudade de você!

No siriri tem também desafios:

O elogio a uma moça bonita dá a seguinte versão: Aqui tem uma menina De vestido pintadinho, Eu não vou na sua casa Porque eu não sei o caminho, Me leva uma vez, Que de outra vez, Eu vou sozinho!

Tia Judite é da minha turma animada da família. Quando havia festa do outro lado do rio, minha avó gritava para titia gritar mais baixo. Assim era a cantiga: Já mandei trazer, Já mandei buscar, Lampeão de ouro, ferro de engomar.

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Roda morena, não me encosta na parede Que a sala está bonita pra dançar de saia verde! Alecrim da beira d'água, Treme, treme, mas não cai, Que morena bonitinha Pra ser nora de meu pai. Passarinho da asa verde, Bebe água no capim, Nunca pude acreditar Que você gosta de mim! Atirei um limão verde Lá na torre do Belém, Deu no cravo, deu na rosa, Deu no peito de meu bem! Joguei meu anzol n'água, Pra pescar peixe dourado, Lá no fundo respondeu Que não sou seu namorado! Em cima daquele morro, Tem um caldeirão de ouro, Faz um ano e quinze dias Que ocê não lava seu pescoço!

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Causos, estórias e dizeres A homenagem aos pássaros: Já mandei fazer seu ninho, sabiá Seu ninho está arrumado, sabiá Agora ocê toma conta, sabiá De seu ninho, sabiá! Viagra Pantaneiro: Em 1998, meus pais foram festeiros de Santo Antônio. Dentre as novidades, minha mãe criou o licor de jatobá, que se eternizou em uma música do grupo Scort Som chamada Viagra Pantaneira, pois meu padrinho José vendia o produto aos turistas na ponte do Rio Mutum como produto afrodisíaco. Nessa festa, Diinha criou este siriri: E avoou e foi simbora, Nem se despediu de mim, E avoou e foi simbora, Nem se despediu de mim, Avoou minha pomba rola E assentou minha Juriti, Avoou e foi simbora, E nem se despediu de mim.

Tem siriri de casado com conforto de solteiro: Eu fui num muxirum Lá doutro lado, A moça que eu namorei Foi enganada, Pensando que eu era solteiro, Eu sou casado, Menina não me namora, Porque eu sou papel queimado.

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E Antônio Pinto Paes de Barros fez esta homenagem ao viagra pantaneiro: "Fui percorrer Mato Grosso, na região pantaneira, e cheguei aqui em Mimoso, vi uma coisa verdadeira, e foi na festa de santo de uma velha tradição, e foi lá que conheci o viagra pantaneiro. O viagra pantaneiro, ele só faz alegria, e você tomando ele, você entra na folia, e, depois que começar, você não quer mais parar, você cai no bailão e dança até o dia clarear. É uma bebida gostosa, para gente saborear, o viagra pantaneiro faz você reanimar. Agora para quem não sabe, agora vou explicar: o viagra pantaneiro é o licor do jatobá." Siriri também conta estória de vaqueiro. Esta é uma criação de Tio Guaraci, que era casado com Adaltina Lucas Evangelista (Tica), foi protagonista de uma cena muito interessante com Marechal Rondon. Quando Rondon voltou da cidade de Letícia, após intermediar o acordo entre a Colômbia e o Equador, em nome do Brasil, o dinheiro que recebeu aplicou na construção da Escola Rural Mista Santa Claudina, que não é do onomástico católico, mas positivista. Pois bem, tio Guaraci trabalhava com o engenheiro Doutor Garcia Neto, muitos anos depois governador do Estado de Mato Grosso e grande benemérito, pois construiu a estrada que nos tirou do isolamento, foi um responsável pelo corte das piúvas (ipê) para servir de madeiramento. Poderia entrar na casa de qualquer um. Como a madeira era escassa, Dr. Garcia mandou cortar carvão vermelho, coração de negro, enfim, madeiras com a mesma característica. Contaram pra Rondon. No dia da inauguração, queria mandar derrubar o madeiramento. "Fui buscar meu boi na serra. Somente meu pai de guia, Não tem vaca, não tem boi, só novilha. Pega meu boi, põe no curral, Pega meu boi põe no curral. Pega meu boi põe no curral...."

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Cavalgada

Não sou Ainda é comum capaz de testemunhar expressar o que as meus revoadas olhos viram denem cardeais, o as ninhadas que meu coração de tuiuiús,Limito-me sentiu. os passeiosa da mãe dizer quecapivara o passeio com à Baía osde filhotes, Chacororé as brincadeiras me proporcionou dos jacarés uma emoção e os reflexos única solares que ficará quenaconferem minha beleza às pra memória águas. sempre

UM PASSEIO À BAÍA DE CHACORORÉ

E

m 2012, Juruna e sua irmã Mary Ferreira Leite fizeram um dos passeios mais agradáveis de sua vida. Foram conhecer a Baía de Chacororé por um lado que não conheciam. Conheciam a Baía de Chacororé pela frente: contornando a Baía de Siá Mariana, acessando pelos corixos que fazem a ligação. O desafio da vez era fazer o caminho inverso a cavalo. O anfitrião, Arnaldo Ferreira Leite, acordou às 3 da madrugada e arreou os cavalos. “Sou um amante do cavalo sem-fronteira e pioneiro da criação dessa raça no pantanal. Esse passeio foi o melhor da minha vida”, contou Juruna. Dia embruscado e ameaçando chuva. Mas seguiram, e contando estórias antigas. Uma foi a saga de Benedito Dias, que ao subir o morro viu uma vaca velha, magra e manca (inexistente). Outra foi a da insensatez de vovô Domingos: depois de beber umas e outras, perguntou ao o Dicó, recém-casado, se já tinha engravidado a

mulher, pois, segundo ele, essa era a primeira obrigação do homem ao casar: perguntou mesmo sabendo que Dicó era estéril, por causa de uma caxumba. Outro assunto foi de uma pescaria em que o pai de Juruna foi arrastado pro meio da Baía de Siá Mariana por um “bicho” que pegou na linha de pescar. O remédio foi cortar a linha e deixar o animal ir embora. Assim, atravessaram o morro e chegaram à campina mimoseana, para atravessar o Rio Velho e chegar à baía encantada. Cruzaram a floresta de carambazais misturados com sarãs e capões cheios de cipó. Tomaram chuva, fizeram graça e beberam água de cantil. Enfim, chegaram à beira da baía e desfrutaram da vista imponente e única. “Revivi o passado, curti o presente e pensei o futuro. Tive certeza de que Mimoso é parte da minha vida. Gado correndo e berrando, aves esvoaçando e pássaros cantando. Foi a melhor visão da minha vida.” Frente da Fazenda

Rio Mutum

Pantanal Mimoso

A aventura apresentou à família Ferreira Leite um mundo verde de variados tons

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A saudade da despedida UMA CARTA À ADILES TEIXEIRA LEITE

M

amãe, a senhora resolveu partir antes do combinado. Ao seu estilo, sem querer esforçar ninguém. Nesta manhã friorenta, ao som do violino, ouvindo saudade do matão e das angolas persistentes, com sol bem pantaneiro, estamos nos despedindo de ti. Seu marido e esposo solitário chora a sua partida. Seus filhos, Sebastião, Branco, Mariana, Mary, Marina, Robson, e tantos outros como Tônica, Nezinho, Juca, Nino... irmãos, sobrinhos, afilhados, parentes, amigos e amigas dos seus filhos e filhas, pranteiam a saudade da tua despedida. Teus netos não sabem muito bem o que é a sua partida. Meu filho, Luis Felipe, vai saber na hora em que eu chegar a Goiânia. Tuas noras e teus genros lhe rendem muitas homenagens. Muita gente apareceu. Tia Serise, Nega de Bastiolão, Gilson e esposa, Nairche veio e pediu para ver o guarda-roupa comprado em 1970. Seu Zé de Pequinino também veio despedir-se da senhora. A Senhora sabe que não sou de chorar nas despedidas. Esta é a última. Todos estávamos tristes. Temos saudades das tuas alegrias, das receitas de bolo de arroz, paçoca, galinha com arroz, maria-isabel, do doce de leite e

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de caju, finalmente, do inesquecível licor de jatobá, popularmente conhecido como viagra pantaneiro. Quero que a Senhora se apresente perante o Divino Pai Eterno, com a alegria de sempre, cantando valsas, chamames, rasqueado, cururu e siriri. Em sua homenagem, rezamos as rezas do seu catecismo, já copiadas para meu computador, com as capeloas Chinda, Mary, Ana Lúcia e Cecília. Mary, a senhora já sabe, elogiou o meu entusiasmo e reclamou da desafinação. A Senhora sabe como ela é... Na sua chegada ou partida, diga ao Pai Eterno que Mimoso será melhor. Doutor Valdir é nosso candidato. Lula melhorou o Brasil. E, como grande alegria antes da sua partida, nosso Corinthians ganhou a libertadores e goleou o Flamengo. Sei que a Senhora pediria para eu não brigar com ninguém. Serei fiel nisso. Peço desculpas pela ausência de minha mulher, Rosana, que não te deu o último adeus. Por fim, prometemos cuidar de Papai. A saudade nos faz triste, mas sabemos que a senhora está no céu e pedindo a Deus por nós, junto com nossos familiares e os santos de nossa devoção: São Sebastião, Santo Antônio e São Benedito. A sua benção!

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SEBASTIÃO FERREIRA LEITE ‘JURUNA’

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“Incomparável jardim da natureza, emoldurado de verdes morrarias, adornado de altaneiros buritizais e densas cordilheiras de carambazais; circundado de volumosas baías que escoam para o rio Ibitiraí (Cuiabá), o pantanal do Mimoso, bucólica localidade em que nasci, é o rincão pastoril mais belo da terra de Antônio João, do Brasil inteiro, quiçá do mundo!” Marechal Rondon

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