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O QUE VOCÊ FARIA SE PERDESSE TODOS OS SEUS MEDOS? Sob Efeito do Nada, livro do norte-americano Andy Nowicki, levanta questões morais a partir de um personagem mergulhado no niilismo levado às últimas consequências. A obra, a ser publicada pela Realejo Livros, depende de financiamento coletivo para ir ao papel, através do Catarse.


SOB EFEITO DO NADA

TRECHO

Um rapaz prestes a entrar no seminário, percebe-se acusado de ter problemas mentais. Aquilo que era um sonho de menino, de candura e caridade, derrete diante de argumentos tortos, que despertam sua mais profunda ira, seu mais profundo desprezo por tudo aquilo que observa ao seu redor. Mas antes de ser uma crítica à Igreja, este livro é uma crítica ao nosso tempo: de valores vazios em valores vazios, o protagonista percebe que não tem nada a perder e aceita fazer parte de um programa governamental experimental: tomar uma pílula que retira todos os seus medos.

“Posso te dizer com

Quem nunca se sentiu massacrado pelo cotidiano, pelas obrigações postiças, pela tensão psicológica que nasce quando temos que fazer algo que não queremos fazer? E se pudéssemos nos libertar destas amarras, sem medo algum? Na tradição das melhores distopias – como 1984 e Admirável Mundo Novo -, Sob Efeito do Nada é um livro sobre a liberdade, o livrearbítrio e as implicações éticas de nossos atos. Este protagonista, sem identidade e sem rumo, geme sob os escombros de uma sociedade na qual o niilismo já se infiltrou e o Grande Irmão já caminha entre nós, com sua face risonha e sua mão pesada.

toda a sinceridade que não me importo nem um pouco se as

pessoas acreditam em você e pensam que sou algum tipo de maníaco. Elas acreditam no que quiserem. Como a

história se lembrará de mim, se é que se lembrará, não é

A Realejo Livros aposta mais uma vez no sistema de financiamento colaborativo do Catarse, a fim de levantar o capital necessário para a publicação do livro. “É uma boa maneira de introduzir o norteamericano Andy Nowicki ao público brasileiro”, diz o diretor editorial José Luiz Tahan. Quem quiser apoiar, deve entrar em www.catarse.me/nada e escolher uma recompensa, que vai desde o livro simples até várias obras da editora, pen drives e logomarcas estampadas. O prazo para captação é de 60 dias.

importante. Quero apenas o que quero. Eu vivo o agora. Em

breve eu morrerei no agora e não serei mais nada.”

Assessoria de imprensa para entrevistas com o autor e demais informações sobre o livro: Carola González - gonzalez.carola@gmail.com 11 99102-1732

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Textos de Andy Nowicki “NÓS ODIAMOS O GRANDE IRMÃO” No final de “1984”, de George Orwell, o herói e aspirante a revolucionário Winston Smith é torturado brutalmente por capangas do governo macabro no Ministério do Amor. Após esse sofrimento, sua vontade é totalmente estraçalhada, ele trai seus aliados mais próximos, bem como a si mesmo e, além do mais, aprende a "amar" o Grande Irmão, a horrível entidade totalitária que fez de sua vida algo insuportavelmente infeliz. O próprio Winston não ganha absolutamente nada com este negócio, exceto certa deformada paz de espírito e uma impressão perversa de que ele, de alguma forma, "fez a coisa certa": "Ele olhou para o enorme rosto. Foram-no necessários quarenta anos para que aprendesse que tipo de sorriso se escondia por baixo do bigode escuro. Oh mal-entendido cruel e desnecessário! Oh teimoso e obstinado exílio do peito acolhedor! ... Estava tudo bem, tudo estava bem, a luta tinha terminado. Ele havia ganho a vitória sobre si mesmo. Nós amávamos o Grande Irmão.” Premonitório como Orwell foi, não tenho certeza se ele não teria ficado de alguma forma surpreso à medida que tais métodos barbaramente cruéis provaram ser normalmente desnecessários poucas décadas depois. Um homem de seu tempo, Orwell via o sádico ultra-Stalinismo-chute-na-cara como a onda crescente do futuro. Mas hoje, com a União Soviética morta há muito tempo e a ascendente heterodoxia multicultural anti-caucasiana no degenerado Ocidente, com o marxismo econômico aviltado em favor do marxismo cultural, a metodologia do Grande Irmão evoluiu. Vivemos em uma época de totalitarismo educadinho, onde apenas uma fraca torcida de braço é necessária para convencer pessoas levemente reticentes a se render aos ditames da ideologia dominante. Tais circunstâncias dificilmente seriam possíveis se não existisse no homem um intenso intenso desejo de se conformar e buscar a aprovação de pessoas com autoridade sobre ele. O ardente anseio de infância por receber um tapinha na cabeça e ser chamado de "bom menino" nunca nos deixa, e esse desejo pode ser habilmente explorado por aqueles que detêm o controle. Curiosamente, um homem pode ser forçado de modo vergonhoso a violar sua consciência e a abandonar seus princípios; tornando-se, portanto, um dissidente efetivament subjugado. Já examinei este fenômeno antes como um sintoma de "conformismo descolado de massa". Após o clássico jingle do Dr. Pepper ("Eu sou um Pepper, ele é um Pepper, ela é uma Pepper... você não gostaria de ser um Pepper também?"), o Grande Irmão primariamente chega até nós não como uma figura ameaçadora, mas como um sujeito jovial, gentil e profundamente justo. Ele está se divertindo, e se dando bem, e nós podemos nos divertir e nos dar bem também, caso viremos seus servos obedientes. Se recusarmos este pedido, no entanto, bem, isso seria realmente uma vergonha, algo infeliz a se lamentar... Basta pensar em tudo que estaremos deixando passar e no preço que teremos de pagar. Apenas através da aplicação de tal abordagem que tipos criminais mais robustos são coagidos a amar o Grande Irmão, assim se transformando em cordeiros que aguardam pacientemente o abate. Vimos recentemente vários figurões de alta visibilidade mudarem de opinião após um extensivo envolvimento

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com defensores do Zeitgeist. A empresa cristã evangélica Chick-Fil-A implorou por perdão e concordou em aceitar o abraço gorduroso do Grande Mano em troca de não financiar grupos que se opõem ao casamento gay. (Agora estão dizendo que foi tudo um mal-entendido, mas a vaca protesta demais, me parece.) Augusta National, um clube de golfe que participa do Masters, concordou em fazer uso de uma injeção de estrogênio, sendo obrigado convidado nada menos que a proeminente ex-secretária de Estado Condeleeza Rice para entrar no clube que um dia foi “do Bolinha”. Diabos, até os deuses do rock sulista, o Lynyrd Skynyrd, traíaram a amada bandeira Confederada! Quem será o próximo a cair, o último a abandonar suas heranças, suas tradições, seus valores e sua masculinidade? O que vemos diante de nós é um espetáculo medonho de rendição interminável e entreguismo. E contra um pano de fundo de deslizes evidentes até uma covardia tímida, uma resistência vigorosa, uma recusa a retroceder ou a pedir qualquer forma de desculpas é em si um ato revolucionário. Nós aqui temos nossas diferenças ideológicas significativas. Mas acho que falo por todos quando digo que nunca vamos parar de odiar, desprezar, zombar e desrespeitar o Grande Irmão, não importando qual forma ele opte por tomar. Somos poucos, poucos e felizes, um grupo de irmãos que - seja por convicção ou princípio ou dogma fora-de-moda ou pura teimosia - optou por se manter firmes contra a maré implacável. Permaneçam de pé, camaradas! Empunhem suas armas, e recusem-se a dobrar, e muito menos sucumbir para agradar ninguém. Recusem-se energicamente a amar o Grande Irmão, e grande será vossa recompensa.

Tradução: Luiz Paulo Carvalho Original: http://www.radixjournal.com/altright-archive/altright-archive/main/blogs/zeitgeist/we-hate-bigbrother

“OBRIGADO POR NADA”

Não sou estoico por natureza, por temperamento ou por hábito. Para meu eterno desespero, acredito que continuo a desejar o aplauso, a admiração e a aprovação de meus pares. De modo bastante horripilante, ainda tenho esperança no futuro. Cruzo os dedos, prendo a respiração e sinto borboletas no estômago quando antecipo a possibilidade de atingir algum tipo de sucesso temporário ou de vitórias nesta vida. Quando alguém me faz um elogio, encontro minha Sally Field interior - "Você gosta de mim, você realmente gosta de mim!" -, numa auto-afirmação irritante. (Sim, essa parte de mim que fica histérica de tal maneira é, sem dúvidas, uma mulher.)

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Desde há muito, mantenho bravamente a mais alta consideração pelo estoicismo inflexível, porém não sou nenhum Epicteto. Tenho boa lábia e talvez até mesmo consiga projetar uma imagem convincente, mas no fundo - bem, não realmente tão lá no fundo - ainda não sou capaz de me conformar com a realidade. Não são poucas as vezes em que me pego mais furioso com o inevitável do que aceitando-o. O problema, claro, é que toda esperança depositada no mundo não transforma algo inevitável em algo evitável. Chega um ponto em que simplesmente devemos entender que nossos esforços são, em grande medida, em vão. Reconhecer este fato não significa sucumbir ao fatalismo ou render-se perante seus inimigos; na verdade, a determinação estoica é, em última análise, a única proteção segura contra o derrotismo. Há até mesmo um toque de estoicismo na primeira evocação da "Oração da Serenidade"* usada naqueles programas de doze passos e outros locais contemporâneos de psiquismo pop: "Deus, conceda-me a serenidade para aceitar as coisas que não posso mudar". Se alguém pode ser "sereno" sobre sua essencial impotência, pode-se, por sua vez, cultivar uma alegria por seus esforços diários para fazer o que é certo e evitar o que é errado, embora tais esforços façam parte do esquema geral do cosmos. Não sou estoico; no entanto, estou aprendendo - lenta, porém firmemente - a me afastar deste apetite pateticamente primal, idiotamente adolescente, sedento por popularidade e aclamação. Levou muito tempo, e certamente demorará mais ainda, talvez o resto da minha vida, para me livrar dessa inata tendência Sally Field de me importar com o que os outros pensam de mim. Hesito em universalizar minha própria embaraçosa luta contra a necessidade de ser "gostado", tanto no Facebook quanto em outros lugares. Chego, no entanto, ao ponto de dizer que há algo inato à nossa consciência humana compartilhada que nos impulsiona a seguir o rebanho, a cortejar o favor de nossos iguais e dos poderosos, e tantas outras formas de nos mostrar como objetos dignos de admiração perante o mundo. No entanto, há também, eu descobri (e talvez você também tenha descoberto), um libertador e até mesmo um inebriante sentido de libertação e alívio que acompanha a decisão consciente de renunciar tais atividades de busca por aprovação e, em vez disso, atirar-se de cabeça numa absoluta e gloriosa perda de reputação. Há um prazer delicioso até em tentar deixar de ser atraente ou interessante para os outros, e ainda cultivar um desdém positivo diante daquilo que o mundo, em sua loucura, considera ser "atratividade" - a fim de rejeitar o Zeitgeist e todos os seus guardiões, para mostrar os dentes face a todos os principados e poderes desta era, com a arrogância de uma rainha do baile, mas no semblante de um gasto, mau cheiroso, escarrado e esmerdeado pária; em suma, para perturbar o equilíbrio da corrupção e da fraude neste mundo insignificante. Dou graças a absolutamente nada. Ou seja, sou grato pelo abençoado vazio em que o narrador da verdade pode cair, um poço do ostracismo social e gloriosa miséria na qual ele pode desaparecer e da qual ele pode cuspir fogo santificado do inferno nos ouvidos dos complacentes, dos famintos por status, dos covardes e dos conformistas. Este nada jamais nos desapontará. Obrigado, Deus, por este nada! Vamos todos nos unir a ele, sem abandoná-lo; abracemos abertamente nosso descrédito e nunca nos contentemos com menos do que a glória que acompanha nossa missão de falar a verdade em uma era de verdades abandonadas!

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*A “Oração da Serenidade” é o nome comum da oração originalmente sem título criada pelo teólogo americano Reinhold Niebuhr (1892-1971). Ela foi adotada pelos Alcoólicos Anônimos e outros programas de doze passos.

Tradução: Luiz Paulo Carvalho Original: http://www.radixjournal.com/altright-archive/altright-archive/main/blogs/untimelyobservations/thanks-for-nothing

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Sob Efeito do Nada  

www.catarse.me/nada

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