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Trabalho Final de Graduação FAU Mackenzie 2014 Rodrigo de Pádua Ribeiro Orientadora: Profª. Drª. Eunice Helena S. Abascal


Agradecimentos Dedico este trabalho de graduação aos meus pais, que me apoiraram cegamente em todos os momentos da minha vida. Tenho certeza que sou o que sou graças a eles. O período letivo não foi fácil devido a distância, mas mesmo não estando próximos, o incentivo nunca esmoreceu. Espero um dia poder retribuir todo o amor e investimento Rodrigo


capa: montagem com foto da escultura “Depois do Banho” - Victor Brecheret. (foto arquivo pessoal 2013) contra-capa: montagem com foto da escultura “A Menina e o Bezerro” - Pierre Christophe. (foto arquivo pessoal 2013


sumário 11

RESUMO

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INTRODUÇÃO

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1. CONCEITUAÇÃO

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1.1 CULTURA COMO REQUALIFICADORA DO CENTRO DE SÃO PAULO 1.2 DIVERSIDADE URBANA E A MORTE DA RUA 1.3 VAZIOS, FLUXOS E FIXOS - ESPAÇOS PÚBLICOS

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2. ÁREA DE ESTUDO: LARGO DO AROUCHE

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3. ESTUDOS DE CASO

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3.1 PRAÇA DAS ARTES 3.2 edifício e galeria califórnia

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4. O PROJETO

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CONCLUSÃO

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BIBLIOGRAFIA

2.1 FORMAÇÃO DA VILA BUARQUE E DO LARGO DO AROUCHE 2.2 MEMÓRIA E VOCAÇÃO 2.3 ANÁLISE DA SITUAÇÃO ATUAL

4.1 ÂMBITO URBANO 4.2 OBJETO: COMPLEXO DE CINEMAS


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Resumo Este texto discorre sobre o poder da cultura na requalificação urbana através da reafirmação da memória e vocação do local de estudo, a partir da implementação de um objeto irradiador.

Palavras-chave requalificação, cinema, Largo do Arouche, cultura, memória, vocação

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Introdução Este trabalho representa o ápice de um ano de estudos e reflexões sobre a questão cultural na cidade de São Paulo, seu poder requalificador e social, abrangendo as mais diversas esferas da sociedade paulistana. Em conjunto com questões teóricas e práticas, o olhar se volta a um local hoje em busca de novas vocações e transformação, que talvez não venha recebendo a devida atenção, seguindo marginalizado do centro novo: o Largo do Arouche, localizado na Vila Buarque, região central da cidade. Em cinco anos de desenvolvimento intelectual, em diversas áreas da arquitetura e do urbanismo, o local de estudo já saltava à atenção, mesmo antes da formulação da proposta deste trabalho. O Largo do Arouche é mencionado como um dos locais representativos da cidade, e sua importância simbólica pode ser verificada a partir de conhecimentos históricos da evolução urbana da cidade de São Paulo. Esse fato se torna claro, quando analisados os aspectos conformativos do Largo. Sua configuração, e principalmente suas atividades, representaram um período áureo na vida boêmia do centro, com reflexos nos dias atuais. Moradores de outrora lembram com nostalgia da grande praça rodeada de cafés, restaurantes, lojas e cinemas. A vida cultural fervilhava e prosperava. Mas o que aconteceu? O fato é: o Largo do Arouche não sumiu, ele ainda continua basicamente intocado no que diz respeito à morfologia do tecido urbano. Seus res-

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taurantes mais significativos continuam lá, seu cinema, ainda existe. O que mudou, foram o significado e valor, consistindo essa mudança, talvez, em uma perda ou deslocamento desse conteúdo, a espera de uma nova qualidade – uma requalificação urbana. Ao longo de várias gestões administrativas, muito pouco se fez para conservar e preservar a vida cultural ali existente, e o local envelheceu aos cuidados do Sistema Único de Saúde, pode-se dizer, comparando sua manutenção às precariedades encontradas na área da saúde no Brasil. A diversidade aliada ao amor pela sétima arte, o cinema, e a possibilidade de pensar seu resgate em outras formas de expressão espacial diferente dos cinemas de shoppings, criou a inquietação necessária para intervir nesse local de extrema importância histórica para São Paulo. A esquina da Avenida Duque de Caxias com o Largo do Arouche, está no ramo do cinema desde a formação da área, no começo do século XX. Essa arte está enraizada na essência do local. Logo, o anseio pela retomada cultural dessa parte da cidade se uniu a sua memória. A retomada do Largo poderia se dar resgatando parte de seus usos originais, vinculando memória, vocação e cultura à requalificação urbana. Pequenos fatores somam para criar condições para recriar o espaço público na região, tornando-o ao mesmo tempo convidativo e funcional. O Largo do Arouche, apresenta ainda significativa ocupação residencial, de média/alta concentração de moradores e vizitantes. Entretanto sua capacidade de desenvolvimento e transformação é imensa, apresentando muitas

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condições para se tornar uma praça atrativa, devido a sua relação com o entorno edificado. Com este trabalho, acredita-se que uma potencialização da capacidade do Largo seria impulsionada pela ampliação e recuperação do Cine Arouche. Proporcionando novas salas de cinema, espaços de convívio e apreciação do Largo, eventos, restaurantes, cafés e comércios. É possível pensar que por meio da inovação na qualidade do lugar acarretada pela presença do novo objeto arquitetônico, que busca ressaltar a memória do Largo, resgatando o cinema de rua, um novo olhar de investidores culturais poderia se voltar para as possibilidades da criação de um circuito cultural no Largo do Arouche, estimulando a futura presença de outros objetos irradiadores de diversidade e cultura.

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1. CONCEITUAÇÃO


1.1 Cultura como requalificadora do centro de São Paulo

Com o início da participação da Secretaria Municipal de Cultura nas discussões das políticas urbanas no início dos anos 1990, na gestão da Secretária Marilena Chauí, as posturas relativas a intervenções urbanas caracterizadoras de estratégias culturais, historicamente restritas aos demais órgãos técnicos, como a Secretaria Municipal de Planejamento (Sempla), Secretaria Municipal de Habitação (Sehab) e a Empresa Municipal de Urbanização (Emurb), começam a ampliar medidas públicas de preservação do patrimônio cultural da cidade. Na mesma época, tentava-se criar um conjunto de políticas urbanas com enfoque cultural e filosófico voltadas a conformação do espaço social, e seu direito à memória. (KARA-JOSÉ, 2007). A Secretaria Municipal de Cultura estruturou assim, a concepção de cultura como dimensão da esfera pública e campo de direitos, não simplesmente formulando programas de serviços e atividades culturais, mas sim, implantando uma política denominada “Cidadania Cultural”, norteada pelos seguintes pressupostos de autoria de Marilena Chauí: “Uma definição de cultura que não a identificasse com as belas artes, mas a apanhasse em seu meio antropológico de elaboração coletiva e socialmente diferenciada de símbolos, valores, idéias, objetos, prátias e comportamentos; uma definição política da cutura pelo prisma democrático e, portanto, como direito de todos os cidadãos, sem privilégios e sem exclusões; uma definição conceitual da cultura como tra-

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balho de criação; uma definição dos sujeitos sociais como sujeitos históricos, articulando o trabalho cultural e o trabalho da memória oficial una, indivisa, linear e contínua, e como afirmação das contradições, das lutas e dos conflitos que constituem a história de uma sociedade” (CHAUÍ, 1993: 17)

O modelo a ser seguido naquele momento é

descrito pela autora, Beatriz Kara José, em sua obra “Políticas culturais e negócios urbanos: a intrumentalização da cultura na revalorização do centro de São Paulo (1975-2000)”, como (...)”o entendimento da cultura como direito dos cidadãos e como trabalho de criação. (...) o direito à informação; o direito à fruição cultural, ao propiciar a população nas decisões relacionadas ao fazer cultural; o direito à produção cultural, apropriando os meios existentes ou inventando outros significativos, entre outros.” (KARA-JOSÉ, 2007, p.92). Pela primeira vez, medidas anti envolvimento do Estado e até medidas legadas por uma herança ditatorial foram revogadas, tornando a cultura novamente parte dos investimentos públicos. A democratização da cultura, como preceito para sua revitalização se torna o alicerce da nova política cultural. Entretanto, os incentivos à participação da iniciativa privada, como benefícios fiscais, não obtiveram sucesso no início da década de 1990, como Marilena Chauí, então secretária da Cultura, analisa: “De modo geral (salvo honrosas exceções de empresários que são, antes de empresários, pessoas voltadas para a cultura), a iniciativa privada, isto é, o mercado, tenta operar segundo sua lógica e, portanto, a esperar lucros da

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atividade cultural, a definir padrões culturais determinados pelo consumo e pela passividade, a privatizar o órgão público e a desconsiderar duas diretrizes básicas da Cidadania Cultural: a cultura como direito dos cidadãos e como trabalho de criação dos sujeitos culturais” (CHAUÍ, 1993: 20)

A Associação Viva o Centro (AVC), fundada em

1991 foi uma das poucas iniciativas que preencheu as lacunas deixadas pelos mandatos do PPB, Partido Progressista Brasileiro (1993-2000), onde intervenções públicas foram afastadas da área central. Uma organização apartidária, sem fins lucrativos, mantida somento por contribuições de seus associados e mantenedores, ou doações de terceiros, foi declarado como “de utilidade pública municipal, estadual e federal”, em 9 de março de 2000. Embora, inicialmente, com o interesse exclusivo de atender aos proprietários privados que sofriam com a degradação da região, a atuação da AVC parecia ser a única forma de continuar o projeto de melhorias do governo anterior. A partir dos estudos da associação, chegou-se a conclusão que: “O centro não está decadente. Ele simplesmente se desenvolve numa direção errada. Não necessita ser revitalizado, porque ele é extremamente vital. Deve, isto sim, ser requalificado - reordenado, refuncionalizado” (“Uma ONG para o Centro” - Revista URBS, nº 2, ano 1, out 1997, p.9). Com a pressão da AVC, foi criado o Programa de Requalificação Urbana e Funcional do Centro de São Paulo (Procentro). Essa foi a solidificação do poder da AVC dentro do poder público. Entre 1995 e 1996, temos três grandes iniciativas por parte da AVC: o

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“Seminário Internacional Centro”, o “Concurso Centro Cultural dos Correios” e o “Concurso de Ideias para o Centro”. Nesse momento inicia-se a intensificação das iniciativas associando a recuperação do patrimônio histórico, instalação de centros culturais e requalificação urbana. A iniciativa privada, começava a investir de forma mais significativa nos projetos culturais a partir da entrada do ministro Weffort no Ministério da Cultura em 1995, devido as grandes vantagens na área financeira, a isenção no pagamento de impostos como o IPTU ou Imposto de Renda. Tal conceito advinha da postura “anti-estatal” de Weffort, que apresentava a palítica como um “grande passo adiante, em particular no rumo de um melhor enquadramento das relações entre Estado e a cultura” (Weffort, 1997). Segundo Weffort, “não cabe ao Estado dirigir a cultura, mas criar condições para que esta se desenvolva” (Weffort, 1998). Em 1993, a Lei do Audiovisual é promulgada, para suprir as demanadas da classe cinematográfica, que sofria com a falta de investimento. As empresas investidoras obtiam um maior lucro ao investirem no cinema, além de se lançarem como “amigas da cultura”. A sucesso da Lei chegou a ser chamado de “retomada” do cinema brasileiro nos anos 90. Já no âmbito urbano, a atuação mais significativa do Estado no Centro de São Paulo, se deu através das iniciativas da Secretaria Estadual da Cultura (SEC). Marcos Mendonça, então secretário estadual da Cultura afirmou: “Trabalhamos para usar a cultura como instrumento para a revitalização do centro de São Paulo e

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como instrumento de transformação social.” (“Fim de festa”. Folha de São Paulo, 14 jan 2002.) O plano de requalificação cultural em vigência desde 6 de junho de 1997, a Operação Urbana Centro, delimitou um perímetro de intervenção abrangendo áreas do centro histórico da cidade, como os bairros da Sé, Luz, Brás e parte da República. Suas premissas específicas são relacionadas principalmente a qualidade de vida de seus atuais e futuros habitantes, promovendo uma valorização da paisagem urbana, melhorias na infra-estrutura, a preservação do patrimônio histórico, cultural e ambiental e a articulação dos espaços públicos a fim de estimular a vitalidade urbana. Em suas diretrizes urbanísticas se destaca o incentivo ao remembramento de lotes, criando interligações pelos miolos das quadras, a valorização da diversidade de usos combinados proposta, sendo o uso cultural e habitacional de cunho fundante. Os incentivos na área de aproveitamento dos lotes e a dispensa de locais de estacionamento, sendo propostos estacionamentos públicos de grandes dimensões em áreas cabíveis. Os avanços na forma de condução da evolução urbana, colocando a cultura como engrenagem condicionante da requalificação, se mostra potente em criar a diversidade social e fundiária necessária para a sobre-vida de áreas abandonadas.

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1.2 Diversidade urbana e a morte da rua

As políticas do início dos anos 1990, transformaram a abordagem pública na preservação da memória da cidade. Novos incentivos e políticas de preservação, serviram como base na criação de novas alternativas para o centro. Entretanto, as modificações pontuais talvez não fossem capazes de sustentar um funcionamento duradouro e consistente desses locais de intervenção. Jane Jacobs, em sua obra, “Morte e Vida das Grandes Cidades”, afirma ser de extrema importância agregar usos: “Para compreender as cidades, precisamos admitir de imediato, como fenômeno fundamental, as combinações ou as misturas de usos, não os usos separados.” (JACOBS, 2000, pg.158) A mistura de usos conseguiria qualificar determinado local como pulsante e seguro. Uma rua de uso residencial, comercial e cultural, por exemplo, seria capaz de auto-manter um fluxo e vitalidade praticamente 24 horas por dia, dispensando assim o uso de órgãos competentes, encarregados da segurança. É essa característica que se tenta atribuir as ruas sob a operação urbana centro. Seu enfoque é concentrado em restabelecer a vitalidade que ali já houve. A tarefa de iniciar qualquer atividade em um local desvitalizado, requer persistência. Não seria na primeira tentativa que uma rua deserta se tornaria atrativo para diversos novos empreendedores, logo, as políticas públicas então, seriam as primeiras faíscas, res-

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ponsáveis pelo re-aquecimento econômico e cultural da área degradada. Em meio aos obstáculos, as grandes cidades tem um aspecto positivo a seu favor. São geradoras naturais de diversidade. Diversidade que estimula mais diversidade. Pessoas de todos os tipos, muito próximas umas das outras, com os mais diferentes gostos e interesses, habilidades e necessidades, são capazes de gerar movimento e demanda à todas as camadas do comércio e cultura. Quanto mais pessoas são atraídas à morar em determinado bairro, suas necessidades primárias, tanto intelectuais, quando físicas, tendem a procurar nutrição ao redor de onde habitam. O cotidiado se constrói principalmente dentro de um raio delimitado pela sua capacidade de ir e voltar a pé. Dentro desse círculo, procura-se suprir todas as demandas individuais e coletivas. Em casos mais privilegiados, em que o local de trabalho se encontra dentro do raio de proximidade, o uso de automóveis, trens, ônibus, se torna desnecessário. Em uma cidade que sofre com a super lotação dos transportes públicos, seria amplamente conveniente o uso exclusivo, por parte da população, das calçadas e ciclovias. Quanto mais pessoas, cuidando de seus afazeres, nas mais diversas horas do dia, volta-se a questão da auto-segurança das ruas. Pode-se até considerar tal exemplo: Todo o comércio, cultura e segurança que um shopping center oferece, distribuído por algumas ruas paralelas e transversais que antes estavam desertas. Se isso fosse aplicado, a rede horizontal de atrati-

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vos criada, combinada com edifícios residenciais que permeam a região, criaria um sistema vital dificilmente suscetível a nova degradação. Uma função deve apoiar a outra. Enquanto o morador necessita de cultura e serviços, os mesmos, necessitam de pessoas. O conceito de centro de compras, em local restrito, quase sempre, sem janelas, deu início a morte das atividades na rua. Consequentemente diminuiu-se o fluxo de pessoas, logo diminuiu-se a segurança. A interrelação entre fluxo (a pé) e vitalidade das ruas está explicita a esse ponto. Os cinemas de rua, característicos do início do século XX em São Paulo, sofreram com a absorção de seus programas pelos shopping centers. Tal advento pode ser atribuído a popularização do automóvel, que agora necessitava de local para armazenamento. Como as ruas não tem grande capacidade, os imensos estacionamentos dos centros de compra foram a solução. Relacionar a falta de segurança das ruas com a segurança oferecida pelos shoppings não se aplica, logo que os shoppings propiciaram o esvaziamento das ruas comerciais, forçando-as à fechar suas portas. Ruas desertas então, oferecem insegurança. Outro fator a se considerar, o modelo de centro de compras foi inspirado nos shopping centers das cidades americanas. Tais cidades não apresentam relações com São Paulo, onde vastos subúrbios, compostos unicamente por residencias necessitavam de locais que concentrassem o comércio. São Paulo é uma cidade predominantemente mista, propiciando o comércio de rua.

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1.3 Vazios, fluxos e fixos - espaços públicos

A invisível geometria do espaço aberto, é a responsável pela articulação entre a complexidade da cidade, como afirma Josep Maria Montaner, em sua obra Sistemas arquitetônicos contemporâneos. Em trecho, o autor coloca: (...)“a contribuição da arquitetura moderna teria consistido mais em pensar os sistemas de relação entre objetos do que projetar os próprios objetos abstratos; mais em modelar o espaço externo da relação entre os edifícios do que em configurar espaços internos modernos. Isso se deve a seu objetivo de criar estruturas urbanas abertas, capazes de crescer e de se integrar à natureza.” (MONTANER, 2009, pg. 19) O espaço não edificado se torna parte vital nas dinâmicas urbanas, embora o que é percebido por nossos sentidos, sejam os objetos, ou fixos. Assim como o historiador de arte Alois Riegl afirmou em sua obra, A arte industrial tardoromana: “O espaço pleno de ar atmosférico, por meio do qual, para a ingênuaobservação sensorial, cada um dos objetos externos parece estar separado dos demais, não constitui, para essa observação, um indivíduo material, mas, sim, a negação do material, e, portanto, o nada. Por isso o espaço não poderia originalmente converter-se em um objeto da criação artística antiga, pois não seria possível individualizá-lo materialmente.” (RIEGL, 1901) Os espaços criados a partir da combinação de edifícios, configuram áreas mais interessantes do pon-

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to de vista urbanístico. Os parques, praças e largos são exemplos lógicos da dinâmica de interrelação dos espaços edificados. O que define tais áreas é consequência primária do que foi concretizado. Existe uma interdependência dos cheios e vazios, onde um não existe sem o outro. Permeando os espaços não edificados e os fixos, existe uma malha extremamente complexa de interligações e interrelações estruturais, semelhante as econtradas nos organismos vivos. Reticulada ou rizomática, esta malha é responsável pelo funcionamento urbano, desde aspectos efêmeros, até os mais necessários ao cotidiano da cidade. Redes de telecomunicações, abastecimento de água e luz, retirada de lixo e esgoto, entre outros, nos saltam à atenção em momentos de deficiência. Todo território metropolitano é recortado por um sistema de extrema importância, o sistema viário, que possibilita a locomoção humana de um objeto ao outro, ou até mesmo de evacuação segura em casos extremos. Em uma situação de corte no abastecimento de luz, por exemplo, o cidadão tem a possibilidade de se deslocar para outra cidade. Em caso de desabamento de uma ponte, o mesmo, se encontrará sitiado. É natural ao ser humano o deslocamento em casos de conflito ou necessidade, logo, o sistema de transporte, ou malha viária se apresenta ainda como um dos principais elementos estruturais. Ao longo da história da cidade, planos viários foram moldando e recortando os morros, que agora estão disfarçados sob o novo relevo, configurado pelo mutante skyline urbano.

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Ao longo dessa estruturalização viária e graças ao anseio humano por locais de respiro, como visto desde a antiguidade - os pátios internos na arquitetura islâmica, até as grandes alamedas arborizadas dos jardins franceses - espaços foram reservados, resgatados ou até mesmo sobrados nas cidades com o intúito de criar ambientes sociais apresentando uma atmosfera para o descanso mental. Herman Hertzberger em sua obra, Lições de Arquitetura afirma: “Se a rua como uma coleção de blocos de edifícios é basicamente a expressão da pluralidade de componentes individuais, na maior parte privados, a sequência de ruas e praças como um todo constitui potencialmente o espaço em que deve tornar-se possível um diálogo entre os moradores.” (HERTZBERGER, 1996, pg.64) Ao tratar do espaço público, é importante analisar à quem ele servirá, e a qual objetivo será responsável atender. Seu funcionamento está diretamente relacionado com o que o cerca. Suas qualidades se dão a partir da relação que este estabelece com seu perímetro formal, seu limitador espacial. O local deve ser atrativo para apropriação. “O que fazemos deve constituir uma oferta, deve ter a capacidade de provocar, sempre, reações específicas adequadas a situações específicas; assim, não deve ser apenas neutro e flexível - e, portanto, não-específico -, mas deve possuir aquela eficácia mais ampla que chamamos de polivalência.” (HERTZBERGER, 1996, pg.152)

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A apropriação de tais espaços da cidade costumam ser temporárias e ocasionais, propiciando uma área que não requer inúmeras alegorias paisagísticas. Se uma arquitetura - volume ou espaço - é feita unicamente para atender certa finalidade, seu tempo útil de uso é consideravelmente reduzido. “Pois o que precisamos é de uma expansão das possibilidades de todas as coisas que projetamos, para torná-las mais úteis, mais aplicáveis e, portanto, mais adequadas a seus objetivos, ou adequadas a mais objetivos.” (HERTZBERGER, 1996, pg.176) Talvez o elemento principal em uma área que se propõe ao uso, são locais para assento. Assento remete a assentamento, uma apropriação temporária que cria possibilidades de contato com o outro. O objeto que se entende como assento não necessariamente precisa ser uma cadeira ou algo do gênero, mas qualquer outra coisa que também possa ser usada diferentemente, ampliando e diversificando suas possibilidades. “A extrema funcionaidade de um projeto torna-o rígido e inflexível, isto é, oferece ao usuário do objeto projetado muito pouca liberdade para interpretar sua função de acordo com sua vontade” HERTZBERGER, pg. 177. É preciso não sub-julgar o usuário, pré-definindo suas ações. Em um local sem dogmas, o usuário tende a se sentir mais confortável e menos intimidado a se estabelecer temporariamente.

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2. ÁREA DE ESTUDO: LARGO DO AROUCHE


2.1 Formação da Vila Buarque e do Largo do Arouche

A década de 1870 começa a transformar radicalmente a região à oeste do centro histórico de São Paulo. O pulsante crescimento demográfico, que no período apresentava seu primeiro grande salto populacional, passando de 26.020 habitantes em 1872 para 64.934 em 1890, impulsionou a expansão da então cidade imperial rumo ao status de metrópole. Os novos arruamentos começavam a cortar os vastos campos de café que originalmente ali existiam, parte das antigas chácaras paulistas. Citando algumas temos: a chácara das Palmeiras origina o bairro de Santa Cecília, a chácara do Campo Redondo o bairro do Campos Elísios e a chácara Marechal Arouche Rendon, a Vila Buarque. Nestor Goulart em seu livro, “São Paulo, Vila, Cidade, Metrópole”, cita o motivo da desarticulação entre quadras visível atualmente. “O processo de formação dos novos bairros foi portanto o de uma colcha de retalhos, costurada a posteriori por iniciativas da prefeitura. Em cada um dos loteamentos eram utilizados em princípio os critérios de tabuleiro de xadrez e homogeneidade das dimensões das quadras, segundo o modelo francês da época. Mas os loteamentos não eram perfeitamente articulados entre si, o que justificava as ações corretivas por parte da Prefeitura” - REIS FILHO, Nestor Goulart “São Paulo, Vila, Cidade, Metrópole” - Ed. Via Das Artes 2004 (pg. 172)

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imagem 1 “Ampliação Planta de São Paulo 1868” fonte: arquivohistorico.sp.gov.br


Na planta ao lado (imagem 1), datada de 1868, é possível localizar o futuro Largo do Arouche, na época, Chácara Arouche Rendon, no começo de seu arruamento. Ainda existia no local um lago, decorrente do encontro de dois pequenos córregos. O período propiciava a expansão da cidade rumo oeste, como pode-se notar no mapa seguinte (imagem 2), datado de 1916. O ritmo acelerado da capital cafeeira começava a atrair cada vez mais intelectuais e burgueses. Com eles, tecnologias e avanços chegavam do exterior, como cinemas mais modernos. O gosto pela sétima arte logo conquistou a Vila Buarque, proporcionando assim, uma considerável rede de cinemas no bairro, caracterizando-o como reduto dos filmes de arte. O enraizamento dessa prática juntamente com a formação da área, lhe conferiu um status de bairro boêmio e cultural.

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imagem 2 “Ampliação Planta de São Paulo 1916” fonte: Censo de 1900 smdu.prefeitura.sp.gov.br


2.2 Memória e vocação

No início dos anos 30, a efervescência cultural e boêmia começava a conquistar o Largo do Arouche como sítio oficial. Em sua maior parte é composto pelo uso residencial, edifícios que compõe seu perímetro. O largo se encontra protegido em parte, por uma muralha de edifícios modernistas. Seus bares e restaurantes se tornaram clássicos da noite paulistana, e ainda se mantém, principalmente na Avenida Vieira de Carvalho. É possível presenciar ali uma significativa vocação histórica para a relação do urbanismo e da arquitetura. A confluência de fluxos, usos, pessoas, natureza, paisagem e cultura está presente ali, coexistindo. O bairro da Vila Buarque se destaca por ter abrigado diversos cinemas significativos na história dos cinemas de rua em São Paulo. O “Petit Cinema”, posteriormente “Odeon Cinema” na rua Marquês de Itu inaugurado em 1909, o “Cinema Familiar” na rua General Jardim do ano de 1911, o cinema “High Life”, primeiro cinema da Vila Buarque, fundado em 1908 no Largo do Arouche na esquina da rua Rego Freitas, com a rua Amaral Gurgel, cujos ingressos no primeiro aniversário eram distribuidos na loja “Ao Paraíso das Andorinhas” como brinde em compras a cima de 8 mil réis. Assim, o principal atrativo cultural no Largo do Arouche sempre foi o cinema de rua. Mesmo geograficamente não pertencente a cinelândia paulistana, o Largo do Arouche se destacou pela programação de filmes de arte. A princípio, o Colyseo Paulista (imagem 3), em 1931 foi o primeiro cinema da companhia ale-

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imagem 3 “Colyseo Paulista” fonte: SIMÕES, Inimá - Salas de Cinema em São Paulo -1990


imagem 4 “Cine Arouche e Edifício Residencial” fonte: arquivo pessoal 2013


mã cinematográfica UFA em São Paulo. A construção original foi fechada e por fim demolida. Em seu lugar, foi construído um edifício residencial de 21 pavimentos, cujo térreo tem função comercial, além de abrigar o cine arouche (imagem 4). Esse novo cinema, construído em meados dos anos 50 apresentou público cativo por um longo período até o começo da crise dos cinemas de rua. Os donos dos grandes cinemas do centro de São Paulo perderam a concorrência para os cinemas que começavam a se instalar junto a rede comercial e alimentícia dos shoppings centers, como discutido no capitulo anterior. Em geral, todos os comércios de rua sofreram com o advento do shopping center. Os aspectos de segurança e comodidade levaram os consumidores a escolherem os ambientes fechados. As ruas da parte central, principalmente, não apresentam atualmente, condições para atrair ou abrigar todos os veículos dos espectadores de uma seção de cinema, por exemplo. No começo dos anos 70, o Cine Arouche já começava a exibir exclusivamente filmes adultos. Perante a tal degradação, o largo passou por etapas de “revitalização” nos últimos anos, como parte da operação urbana centro, que vem realizando melhorias gradativas pela região do antigo e novo centros. A mais recente obra de revitalização, foi um banco (imagem 5), feito de troncos de árvore. “Após passar por revitalização, espaço da região central atrai novos frequentadores. Local foi entregue hoje com dois novos bancos esculpidos de duas árvores, que viraram atração” - Revitalizado, Largo do Arouche ganha bancos esculpidos em árvores - prefeitura.sp.gov.br

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A intenção de transformar árvores condenadas em mobiliário urbano é representativa de uma cidade preocupada com as novas relações que se devem estabelecer entre o cidadão, o lugar e a natureza. Porém, a ideia de atrativo, parece estar subjulgada. Em uma área de grandes proporções, como o Largo do Arouche, que ainda sofre com problemas como lixo nas ruas, ações públicas mais severas e pertinentes deveriam ser priorizadas. Partindo da análise das medidas tomadas até o momento para tentar requalificar a área, e do gritante passado áureo, tão significativo, o embasamento da intervenção urbanística e pontual começou a se montar e se auto justificar. imagem 5 “Banco de Árvore” fonte: prefeitura. sp.gov.br - 18-11-13


2.3 Análise da situação atual O Largo, é composto por cinco ilhas sitiadas pelo traçado viário como pode-se analisar na imagem 7. Se tornaram espaços desarticulados, inóspitos, sem o tratamento adequado para agregar à uma São Paulo em mutação. Ao longo das gestões, as praças do largo receberam tratamentos desiguais, principalmente por sua configuração topológica. Enquanto a parte oeste da praça encontra-se em declive de 5m sentido elevado Costa e Silva, sua parte leste é predominantemente plana. A área mais privilegiada pela geografia, a parte leste do largo, abriga desde 1953 o mercado de flores (imagem 6), que se instalou no local após ser removida da Praça da República. Não existe nenhum cemitério próximo, por mais extraordinário que pareça, pessoas ainda compram flores para pessoas vivas também. O simbolismo dessa prática ainda vigente não tem precedentes. O quão humano é a ação de presentear uma pessoa querida com flores. Por sorte, isso não se extinguiu. Existem também, distribuidas pelas “ilhas”, árvores centenárias tombadas (imagem 8). Talvez essa característica intimide alguns moradores, que se sentiriam mais confortáveis com uma praça mais visível e ensolarada. O tratamento paisagistico atual, apresenta canteiros secos de terra batida. Esculturas significantes como “Depois do Banho de Victor Brecheret (capa) e “A Menina e o Bezerro” de Pierre Christophe (contra-capa), estão escondidas devido a falta de poda e correto posicionamento.

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Diversas ruas e avenidas tem seu início no largo, como a Avenida Amaral Gurgel, Duque de Caxias e Vieira de Carvalho, assim como a Rua do Arouche que faz a ligação mais próxima à uma estação de metrô. A área de maior fluxo automotivo está na Avenida Duque de Caxias e na via ao sul, sentido Rua do Arouche. As demais vias tem volume local. A avenida Vieira de Carvalho, parte do plano Prestes Maia de avenidas para a cidade de São Paulo, apresenta uma interessante ligação verde entre a Praça da República e o Largo do Arouche. Embora de curta extenção, é configurada por um canteiro central largo, duplo sentido de vias e calçadas gerenosas em ambos os lados. Ligação majestosa entre áreas verdes de médio porte. A relação com os atuais corredores verdes é iminente. Outro aspecto componente da paisagem são as discrepâncias sociais. Atualmente, o local apresenta grande concentração de moradores de rua, e usuários de crack. Essa problemática urbana, não exclusiva à São Paulo, é um tema de extrema complexidade, e não deve ser tratada de forma superficial ou leviana por parte dos urbanistas. Este trabalho não pretende solucionar essa problemática específica.

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imagem 6 “Banca de Flores” fonte: arquivo pessoal 2013

imagem 7 “Estudo de Alex Sum” fonte: Projeto da Praça: convívio e exclusão no espaço público, Editora Senac São Paulo, 2008, p.183


imagem 8 “Panorâmicas Largo do Arouche” fonte: arquivo pessoal 2013


3. ESTUDOS DE CASO

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3.1 Praça das artes

Projeto dos arquitetos Francisco Fanucci e Marcelo Ferraz, do escritório Brasil Arquitetura em conjunto com Marcos Cartum, da Secretaria Municipal da Cultura está localizado na Avenida São João, parte central da cidade de São Paulo. Seu programa contempla uma escola de dança, uma de música, apoio ao Teatro Municipal (orquestras, quarteto de cordas e corais), centro de documentação, estacionamento e o destaque, a praça.

imagem 9 “Térreo Praça das Artes” fonte: arcoweb 2013

O terreno de implantação foi escolhido por já pertencer ao município, e por sua proximidade ao centenário Teatro Municipal de São Paulo, de Ramos de Azevedo. Seu programa é equivalente ao de um anexo, embora neste caso não exista a conexão física. O projeto então, chama a atenção por seu recortado traçado, que busca unificar da melhor maneira lotes desconexos na quadra como mostra a imagem 9. Sua premissa

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ao conectar ruas pelo miolo de quadra é ser um espaço qualificador e irradiador de vida urbana.

imagem 10 “Interior Praça das Artes” fonte: arcoweb 2013

O uso do miolo de quadra como alternativa para a circulação e permanência do pedestre (imagem 10) está requalificando o urbanismo brasileiro, que se volta ao indivíduo, seu bem estar, ao futuro da cidade. O projeto não se configura somente com imponentes blocos de concreto pigmentado, mas igualmente com seus vazios. A interrelação de cheios e vazios é trabalhado com concistência no projeto em análise. Como na Praça das Artes, era importante confirurar uma passagem convidativa para cruzar a quadra. O mote do projeto desenvolvido nesse trabalho, buscou desde o início criar um espaço qualificador no miolo da quadra, ligando a Avenida Duque de Caxias ao Largo do Arouche. Um grande enquadramento, ou pórtico semelhante ao do projeto do Brasil Arquitetura foi trabalhado no acesso pela avenida. Porém, enquanto um prolongou essa sensação de “caverna”por diversos

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metros (imagem 11), no projeto apresentado a distância de cobertura foi menor, e o pé direito mais generoso, a fim de criar um respiro. A ideia de algo monumental, como um grande paralelepipedo suspenso, criando um grande átrio coberto, mantendo uma humildade e convidatividade.

imagem 11 “Elevação Praça das Artes” fonte: arcoweb 2013

A materialidade da Praça das Artes, muitas vezes pode intimidar o transeunte menos aventureiro (imagem 12), um aspecto contraditório para uma “praça”. A aridez também contribui para o estranhamento popular, não existem locais de permanência, como bancos ou mesas. Em contraponto, no projeto desenvolvido, a materialidade dominante é a transparência, com a intenção de criar um vínculo visual do fluxo, com as atividades internas. Áreas de respiro, com árvores também busca essa aproximação do projeto com o Largo em frente, mesclando-os discretamente, conduzindo o olhar.

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O projeto em análise é de extrema importância como propulsor do novo urbanismo brasileiro, que vem sempre absorvendo, em seu tempo, questões fundantes da cidade contemporânea. O projeto apresentado nesse trabalho retirou muitas estratégias de implantação e volumetria para resolver o remembramento de lotes, na sua maioria esconsos, permeando a cidade consolidada.

imagem 12 “Materialidade Praça das Artes” fonte: arcoweb 2013

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3.2 Edifício e Galeria Califórnia

Obra dos arquitetos Oscar Niemeyer e Carlos Lemos, interligando as ruas Barão de Itapetininga e Dom José de Barros, foi inaugurado em 1955, já tratando de uma temática extremamente atual para São Paulo. O remembramento de lotes e a interligação de ruas pelo centro da quadra como mostram as imagens 13 e 14.

imagem 13 “Remembramento de lotes” fonte: vitruvius 2007

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imagem 14 “Térreo Galeria Califórnia” fonte: vitruvius 2007

Mesmo sendo um edifício que atende ao coeficiente máximo de aproveitamento do lote, não perde significado e valor arquitetônico. Seu volume cobre toda a fachada do lote, encostando assim, nas empenas vizinhas. Artifício comum na época, aproveitando empenas cegas. No projeto apresentado nesse trabalho, as empenas cegas também foram aproveitadas quando possível, levando em consideração a lesgilação. O pé direito do térreo na galeria tem cerca de 8m, devido ao desnível entre as ruas. O interior do projeto configura um grande pátio que serve de vista para as alas de escritórios (imagem 15). As mesmas estratégias projetuais são encontradas no complexo de cinemas com o mesmo objetivo.

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imagem 15 “Pátio interno Galeria Califórnia” fonte: vitruvius 2007

imagem 16 “Elevação Galeria Califórnia” fonte: vitruvius 2007


4. O PROJETO

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4.1 Âmbito urbano

O Largo do Arouche foi escolhido a partir de uma análise instintiva. Uma pergunta surgiu ao olhar o mapa da cidade. Como uma área verde desse porte, localizada no centro de São Paulo, próxima a tudo, não apresenta nenhum grande atrativo atualmente. Por que nada envolvente está acontecendo em um local tão privilegiado. As anáises da situação atual, descorridas anteriormente levaram a conclusão que o fluxo viário era um dos responsáveis pela desarticulação do espaço. Pequenas ilhas não conseguiam criar a ideia de pertencer, parecem sobras, indesejadas. Visto isso, diretrizes para a requalificação urbanística no Largo do Arouche foram levantadas: A unificação das praças/ilhas para promover o livre e desempedido percurso dos pedestres. O adensamento da massa arbórea próxima ao elevado Costa e Silva a fim de criar uma barreira sonora verde. A retirada de árvores não significantes da parte leste do largo, a fim da criação de uma praça seca. Tal praça seca é fundamental para criar visuais de apreciação da massa edificada do perímetro. E a criação de um estacionamento subterrâneo de grande capacidade para suprir a demanda do novo volume de frequentadores. Representados na imagem 17 e 18. Com essas mudanças aplicadas, o requalificado Largo do Arouche perderia o aspecto sobrio que adquiriu, principalmente pelo adensamento da massa verde, poderia retomar aspetos do passado, quando era mais aberto e populoso. Sua localização e potencial não

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pode ser deixado de lado. Seu significado mudaria de “sobra da confluência de avenidas”, para “irradiador de diversidade e cultura”. Um local de atrativos, e não somente passagem, algo que não parecesse atravancar o fluxo. O pedestre retomaria seu espaço de direito.


imagem 17 “Implantação Largo do Arouche” fonte: pessoal


imagem 18 “Implantação Largo do Arouche” fonte: pessoal


4.2 Objeto: Complexo de cinemas

A partir da escolha da área, uma análise dos usos do Largo foi feita, constatando que ali já foi um local boêmio e cultural bastante significativo. Até o começo do trabalho, pouco sabia sobre a história e significado do lugar, pois o que atraiu minha atenção foi a sub-utilização de tal espaço privilegiado, regional e ambientalmente.

imagem 19 “Escolha dos lotes” fonte: arquivo MDC, São Paulo 2004

Alguns comércios de gabarito baixo, e alguns estacionamentos formaram um terreno de 3300m² com duas frentes, uma para a Avenida Duque de Caxias, e uma para a Banca de Flores no Largo do Arouche (imagem 19). Essa quadra faz parte da Operação Urbana Centro, discutida anteriormente, logo suas pre-

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missas urbanísticas sofreram algumas alterações, a fim de estimular a requalificação da área (imagem 20). O coeficiente de aproveitamento chegava a seis vezes a área do lote, e a implantação de objetos culturais era valorizada. A configuração da área também permitia a criação de um fluxo pelo miolo de quadra, situação clássica nas galerias paulistas, que serviram de base no processo projetual.

imagem 20 “Trecho Operação Urbana Centro” fonte: Sub-prefeitura da Sé

O programa surgiu a partir da intenção de pertencer ao local. O entorno era o mais importante para criar o programa. O projeto deveria amparar e ressaltar os usos existentes, não competir com eles. Três pontos principais foram colocados. A Academia Paulista de Letras, o restaurante Le Casserole, e principalmente o Cine Arouche. Uma livraria de dois pavimentos relembraria a Academia, a absorção do restaurante traria seu público para dentro do projeto, e manteria seu significado atrelado ao lugar, em frente

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a Banca de Flores. As novas salas de cinema proporcionariam uma sobre vida ao Cine, com ligação física as duas salas originais, como pode-se analisar na implantação do projeto. O pátio superior, na cobertura da livraria e do restaurante serviriam como mirante para o largo, uma nova perspectiva para quem quer contemplar a massa verde ou ver o que se encontra acima das copas, o cinturão de prédios modernistas. Era importante assegurar o crescimento do fluxo de pessoas, logo, um edifício de escritórios foi proposto para assegurar um fluxo constante, vida, e aproveitamento do potencial construtivo. Seu papel era o de destoar para atrair. As questões formais, se voltam ao foco principal, o cinema. O cinema se compromete a levar uma história retrada por imagens e áudio a diversos expectadores. O que é transmitido no cinema sofre, normalmente, extrema edição, recortes e colagens, diversos pontos de vista sobre uma ou mais histórias criam a mágica que apreende sua atenção, muito o que se observar. Os visuais do projeto buscam incitar o usuário a olhar em todas as direções. As fachadas extremamente recortadas, com orientações diversificadas, proporcionam inúmeros visuais possíveis aos usuários. Na elevação norte, poderia existir somente uma orientação, mas ela é quebrada, recortada e torcida em cinco. Cada pessoa que se aproximar para observar vai ser indiretamente direcionada a uma angulação expecífica, tendo diferentes apreenções do exterior. Um artífício utilizado para sempre criar a expectativa do novo, incapacitando o exterior de se tornar monótono.

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O projeto assim, podeira proporcionar um interesse, e fluxo constante, já que é aberto, requalificando a área atualmente sub-utilizada. O objeto se atém ao lote, mas seus desdobramentos vão além da requalificação do Largo inteiro, atraindo o olhar mais distante, à torre de vidro.

imagem 21 “Elevação Largo do Arouche (Dia e Noite)”


imagem 22 “Subsolo” imagem 23 “Térreo”


imagem 24 “Primeiro Pavimento” imagem 25 “Segundo Pavimento”


imagem 26 “Terceiro Pavimento” imagem 27 “Pavimentos 4 a 9”


imagem 28 “Pavimentos 10 a 13” imagem 29 “Pavimentos 14 a 17”


imagem 30 “Corte A” imagem 31 “Corte B”


imagem 32 “Corte C” imagem 33 “Detalhe fixação da pele de vidro”


imagem 34 “Elevação Largo do Arouche” imagem 35 “Miolo da quadra”


imagem 36 “Elevação Av. Duque de Caxias (Dia)” imagem 37 “Elevação Av. Duque de Caxias (Noite)”


Conclusão A cidade como organismo vivo, mutável, dinâmico, angustiado e cultural. Ela grita por socorro. E cabe aos arquitetos e urbanistas remediar suas dores. O trabalho buscou remediar em parte as grandes deficiências de um pequeno pedaço da São Paulo contemporânea, através de consistentes e insistentes artifícios projetuais. A injeção de adrenalina que só o Arquiteto Urbanista é capaz de cravar no coração da cidade. O olhar deve se voltar ao que está ali, carente, esquecido, intrínseco. Exaltar a memória da cidade. Como uma cidade com o centro histórico degradado pode se expandir? Ela deve se expandir?

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Rodrigo Ribeiro Monografia