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O Monge e a Graça Perdida Por Célio Teixeira Jr

Houve um homem, lá no passado, que procurou mover-se conduzido tão somente pela graça de Deus e cuja obra, pode-se dizer, alterou profundamente a história do mundo. Mas nem sempre foi assim em sua própria vida. Esse homem nasceu a 10 de novembro de 1483, em Eisleben, na Germânia (Alemanha). Tornou-se figura controvertida e, em muitos círculos, até hoje, persona não grata. Seu nome, Martinho Lutero. Lutero tornou-se monge agostiniano, meio a contragosto de seu pai, que queria vê-lo no ramo da advocacia, e ele o fez por um profundo sentimento de pecaminosidade que invadira sua alma e o incomodava profundamente. Dizem que a morte de um amigo e o fato de ter escapado por um triz de um raio que quase o matou fizeram com que Lutero, então, ingressasse no mosteiro, ansioso por obter a salvação e o livramento do inferno. O peso das ameaças, o medo aterrador e o sentimento de culpa foram realidades que acompanharam o jovem estudante de teologia até mesmo quando, mais tarde, tornou-se monge e assumiu a sua paróquia. Há quem diga que, nesse tempo, o senso de pecado esmagava Lutero. Interessado no estudo das Escrituras Sagradas e tendo os “olhos” iluminados pelo Espírito de Deus, Lutero descobriu que a relação com Deus não era de medo, troca ou barganha, mas graça, misericórdia e fé. Ele não deixou de ser pecador, mas passou a ter a convicção de que era um pecador perdoado, não por algo que ele fazia ou deixava de fazer, mas tão somente pela graça de Deus, ou, pelo favor de Deus em sua vida, favor este que ele não merecia. O perdão de seus pecados fora conquistado por Cristo na cruz e apropriar-se dele era uma questão de fé e não de mérito próprio. Lutero descobriu, por assim dizer, o caminho da graça de Deus em sua vida. Mas Lutero percebeu também que a graça andava perdida em seu tempo. Ela estava ausente nas normas da igreja, na mente e no coração das pessoas e principalmente na venda das indulgências. Foi principalmente por causa delas que ele afixou às portas da Capela de Wittenberg, na véspera do Dia de Todos os Santos, as suas Noventa e Cinco Teses. As indulgências prometiam a diminuição da pena do purgatório. Tão logo as moedas tilintassem no fundo do gazofilácio a alma por quem a oferta fora feita era imediatamente libertada do sofrimento. Lutero não foi super-herói e nem anti-herói. Ele foi apenas um homem que percebeu que a graça estava perdi-

da e procurou resgatá-la. Ele deixou marcas na história e uma lição para todos nós. Vivemos dias de ausência da graça de Deus. Não por culpa do Senhor de nossas vidas, pois sua graça permeia os quatro cantos da terra e ela é permanentemente oferecida. O grande problema é que a graça anda perdida na boca de quem deveria pregá-la e anunciá-la com todo vigor. Quem deveria falar dela livremente tem tentado vendê-la a qualquer preço, principalmente pelo preço mais alto. Todas as vezes que alguém impõe alguma regra sobre nós, que cobra qualquer preço por uma bênção ou que exige sacrifícios, oferendas e rituais, então tal pessoa está tentando anular a graça e fazê-la perdida para sempre. Tristemente há quem aceite esse tipo de “oferta”. Parece absurda a ideia, mas é exatamente assim que as coisas acontecem. Deus quer nos dar o presente e muitos querem pagar por ele. Acho que é mais lisonjeiro pagar, recompensar, retribuir e sacrificar, do que simplesmente reconhecer e agradecer. Mas quem é suficiente para pagar todo o preço se ele for de fato cobrado? Eu creio que a graça de Deus é o maior presente do cristianismo para o mundo. Creio também que a ética do verdadeiro cristão deve ser a gratidão e não a troca ou a barganha. O monge do passado preocupou-se com a graça que andava ausente e essa deve ser a nossa preocupação também. Medite no texto bíblico: “Pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie” (Efésios 2.8,9). Que Deus o abençoe e o enriqueça com a Sua graça que é melhor do que a vida (Salmo 63.3) e que não está à venda e nem pode ser perdida. Rev Célio Teixeira Júnior (revctj@uol.com.br)


O monge e a graça perdida