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D2/3 SOROCABA • DOMINGO • 18 DE JULHO DE 2010

NAS ONDAS DO RÁDIO

Vida noturna no zoológico

Informação no café da manhã

Na última reportagem da série ‘Sorocaba na madrugada’, o Cruzeiro acompanhou, noite adentro, funcionários do Quinzinho, a ‘vida’ no cemitério e os profissionais que fazem programas de rádio e editam jornais

ERICK PINHEIRO

“Acorde, fio de Deus, criatura” Dilson: “Se o leão escapar, seremos os primeiros a correr” conta bem-humorado

Benedito, porteiro do zoo: privilégio de ver a natureza bem de perto

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ERICK PINHEIRO

Fábio e Juarez apresentam. Mas a produção começa com Alessandra, ainda na madrugada

ERICK PINHEIRO

As reações dos animais ao se depararem com pessoas durante a madrugada, os barulhos inesperados - como o do hipopótamo que se esconde sob a água ao perceber uma movimentação diferente -, o contraste entre ruas claras e vielas escuras, o frio nas proximidades do lago. São ingredientes que surpreendem quem visita o zoo sorocabano no meio da noite, mas que já se tornaram rotina para dois homens. Dilson Alonso Ramal e Benedito Ribeiro são porteiros e trabalham no parque enquanto ele está fechado. A principal função de ambos é o revezamento na ronda por todo o zoo, trabalho que dura cerca de uma hora e é feito várias vezes a cada madrugada.

Na madrugada, o Leão protagoniza a cena romântica do zoológico

Privilégio São curiosos os temores sustentados pela imaginação capaz de voar longe no meio da madrugada. Afinal, é difícil crer na real possibilidade de um animal de grande porte escapar de sua jaula e sair andando pelo zoológico. Mas quem conversa com os dois simpáticos senhores que cuidam do ‘Quinzinho de Barros’ a noite toda, não precisa fazer muito esforço para compreendê-los. É só lembrar que, durante a jornada de trabalho, eles convivem mais com bichos do que com seres humanos. Some-se a isso o fato de boa parte do parque estar coberta pela escuridão e de que o volume dos sons produzidos pelos animais é amplificado pela madrugada (já imaginou ouvir o rugido do leão lá pelas quatro da manhã?). É por isso que Dilson e Benedito estão longe de serem figuras folclóricas. São trabalhadores, que temem acidentes de trabalho como qualquer um. Mas que, diferente de qualquer um, têm o privilégio de ver a natureza de perto. Bem de perto.

“Não é qualquer um que encara cemitério” Fernando: “ Já aconteceu de gente entrar pensando que era condomínio”

çando, inclusive com boletins do trânsito sorocabano. A apresentação é da dupla Fábio Andrade e Juarez Morato, mas a produção do jornal começa na madrugada, com a jornalista Alessandra Santos.

m ano e m e i o atrás, Fernando de Souza proc u r a v a emprego com carteira assinada. Tinha ocupação garantida como pedreiro, mas queria a estabilidade fundamental para quem é pai de duas crianças. Foi quando sua esposa conheceu a proprietária de uma agência de empregos, que por coincidência tinha em seus quadros uma vaga de porteiro. Currículo enviado, ele não se surpreendeu ao receber o telefonema que o chamava para a entrevista. Mas levou um baita susto ao tomar conhecimento do local onde trabalharia. “Você vai ser porteiro de cemitério”, foi a frase que ouviu. Fernando aceitou a oferta, muito mais pela necessidade do registro em carteira do que pela vontade de exercer a nova função. “Aquilo foi um baque para mim. Fiquei com aquilo na cabeça, aquele negócio ne-

gativo de cemitério, que vai aparecer assombração”, admite. O cemitério em questão é o Pax, único de Sorocaba que permanece aberto 24 horas por dia. E local onde, um ano e meio depois, Fernando caminha com desenvoltura e sem a menor preocupação em meio aos jazigos, em plena madrugada. Vencendo o medo Há quem diga que enfrentar o medo é a melhor forma de vencê-lo. E foi essa a receita usada pelo porteiro, ainda que de maneira nada proposital. “No primeiro dia, meu parceiro veio me ensinar. No segundo dia, pensei que ele viria também, mas não veio. Aí, vou falar para você...”, diz, no tom de quem sofreu um bocado. “A gente carrega desde criança aquela coisa de cemitério, aquela negatividade na mente, isso acontece com todo mundo”. Hoje em dia, ser a única pessoa viva naquele local em plena madrugada não o

assusta mais. Até porque isso ocorre pelo menos duas vezes por semana, nas folgas de seu companheiro de trabalho. São noites em que Fernando só tem a companhia da própria lanterna e de pequenos animais. “Tem raposinha que passa por aqui, gato, e às vezes uma cachorrada dos bairros”. A cada noite, ele dá três ou quatro voltas pelas ruas do Pax. Com exceção do pedaço do cemitério que faz divisa com uma fábrica, o silêncio predomina. E a vista é bonita: do ponto mais alto, é possível observar boa parte de Sorocaba. Isso sem contar o belo gramado, capaz de enganar um visitante que, desavisado, não saiba do que se trata naquele espaço. No Pax, túmulos são proibidos. Não fosse assim, certamente o porteiro teria procurado emprego em outro lugar: “Na época em que entrei aqui, se fosse com túmulos, não tinha ficado. De jeito nenhum. Não por medo, é por causa do peri-

É com bordões próprios e muita gritaria que o locutor Décio Clementino acorda quem está sintonizado na rádio Cacique, em Sorocaba, a partir das quatro horas da manhã. Lançando mão de humor debochado e sem economizar nos trocadilhos de duplo sentido, Décio mescla propagandas, abraços aos ouvintes e música sertaneja. Nem a própria mãe escapa: “Eu nunca vi uma defunta gostar tanto de cemitério”, diz, antes de fazer o anúncio de um cemitério particular da cidade. O locutor está no ar no mesmo horário há 26 anos e parece outra pessoa quando o microfone está desligado. “Sou um cara sério, passo o dia com a família, pago para não sair de casa”, diz.

go, é mais perigoso”, afirma, lembrando de como as construções em granito, bem comuns nos cemitérios, são capazes de esconder gente mal intencionada. No quesito sossego, Fernando também não tem do que reclamar. Precisou se impor apenas uma vez, para que adolescentes deixassem o cemitério - eles queriam fechar a noite por lá, regados a bebidas alcoólicas. Quando outros visitantes apareceram, tratava-se de um curioso engano. “Já aconteceu de gente entrar pensando que era condomínio”, recorda. Fé Se os vivos não incomodam, os mortos então não trazem preocupação alguma ao porteiro. “Não é qualquer um que encara o cemitério, o pessoal tem medo mesmo. Mas é aquela coisa: se você carrega a negatividade na sua mente, vai começar a ver as coisas”, afirma. Fernando é religioso,

frequentador assíduo da Igreja Assembleia de Deus. E é na própria religião que busca argumentos para a relação de respeito que tem com os mortos. “A gente crê que depois que morreu só vai ficar aguardando o dia do arrebatamento, que pode ser hoje, agora, amanhã, daqui a dez anos. Todo mundo aguarda o dia final, porque vai haver um dia final, todo mundo vai ser julgado”. É de impressionar a tranquilidade com que ele fala sobre seu emprego. Fernando só fica ressabiado mesmo quando tem sua função confundida com outra. “Eu sou porteiro, não coveiro”, avisa. Porteiro que dá exemplo aos filhos, de 12 e 5 anos de idade, sobre como é importante ganhar o pão de cada dia honestamente, ainda que numa função para lá de incomum. “Eu falo para eles que não vou ao cemitério por brincadeira. O pai vai porque está trabalhando, o pai precisa trabalhar”.

ERICK PINHEIRO

E se o bicho escapa?

De segunda a sexta-feira, logo às 6h, entra no ar o “Jornal da Cruzeiro - a voz da notícia”, na rádio Cruzeiro FM (92,3), em Sorocaba. O programa, de três horas de duração, traz as informações mais importantes do dia que está come-

ERICK PINHEIRO

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arque e Zoológico Municipal Quinzinho de Barros, em Sorocaba, pouco depois das três horas da manhã. Num canto da jaula, protegidos pela sombra da iluminação artificial, leão e leoa dormem de frente um para o outro, focinhos quase grudados. A fêmea, com as costas voltadas para a grade, tem a cabeça totalmente repousada no chão. O macho dá o tom romântico à cena, usando a pata dianteira esquerda para abraçar a companheira. A presença de pessoas num horário nada convencional não é suficiente para tirar o bicho do seu próprio sossego. Incapaz de esconder a sonolência, o leão apenas levanta a cabeça, olha lentamente para os lados e pisca os olhos preguiçosamente. Tudo sem tirar a pata de cima da parceira, que permanece alheia aos flashes que iluminam a jaula. A poucos metros dali, há um gigante acordado - e bem acordado. É o elefante, que anda pelo seu espaço enquanto a companheira permanece isolada. Ele interrompe o passeio para tomar água no mesmo local em que patos nadam despreocupadamente. A cena é curiosa, afinal muitas daquelas aves são menores do que a pata do elefante, com o perdão do trocadilho. Um pouco mais distante, a família de macacos dorme junta, todos abraçados na tentativa de diminuir o frio. Vez ou outra, o silêncio que predomina no parque é quebrado pelo canto dos pássaros, que resolvem se alvoroçar todos de uma só vez. O mais curioso deles é o que imita um assobio humano, completamente capaz de enganar um desavisado.

Mas o que passa pela cabeça de alguém que vira a noite caminhando por entre jaulas que guardam variadas espécies de animais, dos mais inofensivos aos mais violentos? A resposta vem de imediato e surpreende. “Fico pensando: estou passando... e se o leão escapa? O que é que eu vou fazer? Vou pular o muro, subir numa árvore?” A preocupação é de Dilson, que convive com os animais durante a madrugada há quatro anos e teve na fuga de um porco-espinho a maior emoção vivida dentro do zoo. Apesar das chances de um acidente de grandes proporções serem bem reduzidas, os temores dele são compartilhados por seu companheiro de trabalho. “Vai que o tratador deixa uma porta aberta lá, chega de noite e o bicho sai”, comenta Benedito, homem que conhece o zoológico como poucos. Além dos dois anos em que dá expediente no período noturno, ainda teve a experiência de trabalhar no local durante o dia. Era fiscal de piso, funcionário com a responsabilidade de impedir abusos dos visitantes. Em que pese o temor de ambos e até as brincadeiras que isso gera (“se o leão escapar, os primeiros que vão correr somos nós dois”, afirma Dilson, o mais falante da dupla, em meio a risadas), os porteiros reconhecem ser muito difícil que algo assim aconteça. Mas, quando instigado a uma reflexão mais profunda sobre o tema, Dilson expõe a dúvida. “Acho que por ficar tanto tempo em cativeiro, o bicho não... ah, não sei não”.

ERICK PINHEIRO

Textos de Rodrigo Gasparini Fotos de Erick Pinheiro

Décio esbanja disposição para acordar os ouvintes

EXPEDIENTE EDIÇÃO Eugênio Araújo

DIAGRAMAÇÃO E ARTE Aldo Luz

REPORTAGEM Rodrigo Gasparini

PRODUÇÃO Aldo Fogaça Paula Amaral Valter Cordeiro de Lima

FOTOS Erick Pinheiro

REVISÃO Admir Machado TRATAMENTO DE IMAGEM Claudiney T. V. Barros

Caderno de Domingo_Rodrigo (pags 2 e 3) 18 07  

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