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D2/3 SOROCABA • DOMINGO • 11 DE JULHO DE 2010

ERICK PINHEIRO

CIDADE NOTURNA

Contraste entre o movimento verificado na madrugada e o registrado nas primeiras horas da manhã no Terminal Santo Antonio, no centro de Sorocaba. No momento da saída do último ônibus (linha 17 - Central Parque), à 0h45, o local está praticamente vazio. Mas, às 6h, já é intensa a movimentação de passageiros nos 13 mil metros quadrados do Terminal. Em sua maioria, são trabalhadores tomando a condução para mais um dia de expediente. Em média, 28,5 mil pessoas passam pelo local diariamente.

Rodoviária ‘abriga’ 5 mil pessoas durante o dia; na madrugada, um fiscal e cinco funcionários Textos de Rodrigo Gasparini Fotos de Erick Pinheiro

A

Rodoviária de Sorocaba quase para na madrugada. Quase. Ao invés das cinco mil pessoas que passam pelos 4,2 mil metros quadrados do local todos os dias, o espaço abriga, literalmente, meia dúzia de gente depois do fechamento dos portões. São seis funcionários responsáveis por deixar tudo pronto para mais um dia de intenso movimento. O trabalho desse pessoal começa quando os relógios apontam meia-noite e vai até as quatro horas da manhã, justamente o período em que não há embarques ou desembarques e, por isso, a Rodoviária permanece fechada. É nesse horário que entra em cena a turma da limpeza e da segurança. E, junto com eles, fica Arlindo de Moura Júnior, homem que carrega no crachá o

cargo de fiscal de plataforma e, na prática, responsabilidades quase inimagináveis. Um exemplo? Se você estiver na região da Rodoviária no meio da madrugada e tiver necessidade de usar o banheiro, precisará pedir a ele. Nesse caso hipotético, provavelmente Arlindo o deixará entrar. Ele é linha dura, mesmo, com moradores de rua e gente incapaz de transparecer que não carrega más intenções. “No caso do uso do banheiro, a gente dá uma solução, mas a prioridade é a segurança do pessoal aqui dentro”, diz. E o pessoal lá dentro trabalha pesado. Afinal, só de banheiros são seis - que recebem higienização e lavagem completa (vale a dica: se você precisar usar um sanitário na madrugada, pode aproveitar o da Rodoviária logo quando ela é reaberta, às quatro horas: estará limpinho). Há ainda corredores, sala de espera e administração, entre outros espaços, tudo devidamente varrido, aspirado e lavado. Não há tédio na madru-

gada dos funcionários da Sócia - a empresa que administra a rodoviária sorocabana. “O tempo passa rápido”, admite Arlindo, que trabalha no local há quatro anos, mas cumpre as funções noturnas há apenas quatro meses. Segurança é prioridade Impedir a aproximação de visitantes indesejáveis é uma das funções - e talvez a principal - dos seguranças que trabalham na Rodoviária durante a madrugada. Até mesmo nas plataformas (que ficam do lado de fora), é proibida a presença de pessoas que não estejam de posse da passagem. A intenção, explica Arlindo, é garantir a segurança tanto de funcionários quanto de usuários. “Algum produto utilizado na limpeza pode causar alergia ou proporcionar a queda de um passageiro”, alega. A ideia, ele diz, é criar nos sorocabanos a cultura de que só deve frequentar a Rodoviária na madrugada quem realmente necessita. “Mas pessoas de idade e mulheres com criança a

gente permite ficar na sala de espera”, ressalta o fiscal. Os lojistas também têm passe livre. Pelas regras do local, as reformas e mudanças no interior dos estabelecimentos são permitidas somente de madrugada, horário em que não há risco de atrapalhar o movimento normal.

Ronaldo, da Real Conveniência: “Costumo dizer que estou indo para a balada”

Quando o trabalho é

quase lazer

Ao se preparar para mais uma noite de trabalho, Ronaldo Lopes dos Santos lança mão de um artifício curioso: “Costumo dizer que estou indo para a balada”. De fato, ele dá expediente num espaço dedicado ao lazer: é o supervisor de loja da Real Conveniência, no Campolim, local que serve como ponto de encontro para quem está indo ou voltando de bares e casas noturnas e reúne 25 funcionários na madrugada. “Se você parar pra ver, está todo mundo conversando, descontraído, o pessoal animado”, compara. Há 17 anos trabalhando na madrugada (“completo 18 em outubro”, faz questão de ressaltar), ele viu de perto as transformações no público que frequenta a noite sorocabana. A principal delas, acredita, foi que o tempo dedicado à diversão aumentou. “O movimento foi crescendo ao longo dos

anos e o horário foi aumentando também. O que acabava às 4h antes, passou a acabar às 5h, que depois foi para as 6h e, hoje, às 6h30 ou 7h os seguranças ainda não podem sair da loja”. A adaptação de Ronaldo ao horário é tão grande que, hoje em dia, até a esposa prefere que ele trabalhe na madrugada. “Ela diz que eu tenho mais tempo para ela e para as minhas filhas quando trabalho à noite”, conta o supervisor, pai de duas garotas - uma de 14 e outra de 11 anos de idade. A comparação entre o dia e a noite, no âmbito familiar, foi possível pelos três meses que ele passou atuando num horário, digamos, normal - e não gostou. Já viu de tudo Na balada, ou melhor, no trabalho, Ronaldo já viu muita coisa. A experiência acumulada

possibilita que, ao descansar os olhos sobre o ambiente, ele note as histórias que estão acontecendo. “Muito namoro começou aqui dentro”, exemplifica. E não é só: reuniões de negócios e até venda de imóveis são comuns na madrugada. “Isso a gente presencia sempre, as pessoas encostam nas mesas com seus computadores. Muitas se encontram aqui para fechar negócios”. Conversando com Ronaldo no meio da noite, pode-se ter a impressão de que trabalhar de madrugada é algo extremamente prazeroso. Isso porque, no caso dele, que fala sobre o assunto com uma empolgação contagiante, realmente é. E a receita da felicidade não é nada complicada: “O segredo de trabalhar à noite é gostar daquilo que faz”. Segredo de respeito, revelado por quem transforma obrigação em diversão.

Enquanto o gigante adormece O silêncio só é cortado pelo barulho das máquinas de lavar o piso. Nos corredores acostumados a abrigar passos apressados de milhares de pessoas, o vazio é quase completo. Lanchonetes e lojas estão fechadas, assim como os guichês. Não há ninguém utilizando telefones públicos, pedindo informações, sacando dinheiro no caixa eletrônico ou comprando passagens. Mas o gigante de concreto construído na década de 70 em plena região central permanece vivo, embora adormecido. E, em poucas horas, fica pronto para receber milhares de pessoas de todos os cantos do País.

André, do McDonald’s: percebe tempo passando quando as luzes da rua se apagam

Parte noturna da cidade

‘gira no Campolim’ Papo na madrugada:

‘Só pensam em sexo’ “Há muita promiscuidade imperando aqui”. A frase é de Marcus, o jovem de 26 anos de idade que aceitou conversar com a reportagem do Cruzeiro do Sul numa das salas de Sorocaba no bate-papo do portal UOL durante a madrugada. Naquela noite, quarenta pessoas dividiam o espaço virtual. Quase todas (o repórter, provavelmente, era a única exceção) com o mesmo objetivo, revelado pelo próprio rapaz, que não informou seu nome completo (ou verdadeiro): “Só pensam em sexo”. Praticamente todos os nicks (apelidos usados pelos usuários) remetiam ao tema. A presença masculina era maioria esmagadora, o que revela outra face das conversas virtuais na calada da noite: o homossexualismo. “Percebeu que só dá homem aqui?”, perguntou Marcus, emendando em seguida: “E se tiver (o nick de) uma mulher, pode ser homem disfarçado”. O próprio entrevistado - que disse

morar em Sorocaba, mas não revelou o bairro (“nunca dou todas as informações pessoais”) - é assumidamente homossexual e disse já ter se encontrado pessoalmente com duas pessoas, depois de conhecê-las na sala de bate-papo. Um dos encontros foi bom e o outro ruim, avalia. “Mas não gostaria de falar sobre eles”. Sentimentos à parte, o que chama a atenção no bate-papo virtual durante a madrugada é mesmo a promiscuidade. Durante a conversa de quase uma hora com Marcus, o repórter (que entrou na sala sob o nick “Jornalista”) foi abordado várias vezes por outros homens, sempre com palavras impublicáveis neste espaço. O curioso é que salas de bate-papo com temas ligados a sexo são encontradas aos montes na internet. Os interessados no assunto poderiam, então, procurar uma delas. Mas preferem o espaço que leva o nome da cidade, justamente por causa

da proximidade física entre os usuários. “Aqui dá para marcar, conversar via MSN (comunicador instantâneo), se ver na câmera e se encontrar”, explica Marcus. Vício Quem frequenta as salas corre o risco de se viciar, lembra o rapaz. Ele mesmo dizia estar preocupado, pois voltou a participar do ambiente virtual depois de um ano afastado e, só naquela madrugada, havia ficado cinco horas online. Iria dormir por volta das 6h, sabendo que entraria no serviço às 14h, ou seja, perderia toda a manhã. “Esse bate-papo é muito vicioso. Tem que saber lidar com ele. Quando está sem sono e sem nada para fazer, você cai aqui, fica conversando, no outro dia entra de novo. E aí, já viu...”. E alerta: “Isso aqui é uma praga que se instala se você não souber usar”.

O ritmo intenso de trabalho praticamente impede que os funcionários da lanchonete McDonald’s, no Campolim, percebam a hora passar. Mas eles têm uma maneira muito peculiar de notar que a manhã está começando e, consequentemente, o expediente chega perto do fim. “A gente descobre que o horário está passando porque as luzes da rua são apagadas”, conta André Luís Ferrette, gerente de plantão na loja. O sistema automático desliga as lâmpadas das vias públicas nas redondezas da loja diariamente às 6h. André é um dos 14 funcionários que passam a noite a serviço da franquia sorocabana da rede de lanchonetes. “Já estou acostumado nesse ritmo”, diz o gerente, que sai do serviço às 8h e dorme até o início da tarde. “Na verdade, detesto levantar cedo. Tenho mais disposição para trabalhar

à noite que durante o dia”, confessa. A lanchonete é uma das opções que a cidade oferece para quem deseja se alimentar na madrugada. E o fluxo de clientes é alto, especialmente daqueles que estão a caminho da balada ou voltando dela. “O pessoal está se acostumando, especialmente em função de que a parte noturna de Sorocaba gira no Campolim”. Com quase cinco anos de

casado, André e a mulher precisam adaptar suas rotinas. “Ela sai para trabalhar no horário em que estou na loja ainda”. Sobra, então, o final de tarde e início da noite, únicos momentos em que ambos estão em casa. “Tento compensar nos dias de folga”, diz o gerente, antes de voltar para trás do balcão. Afinal, ele precisa ajudar a saciar a fome de quem está acordado no meio da noite.

EXPEDIENTE EDIÇÃO Eugênio Araújo REPORTAGEM Rodrigo Gasparini

PRODUÇÃO Aldo Fogaça Paula Amaral Valter Cordeiro de Lima

FOTOS Erick Pinheiro

REVISÃO Admir Machado

DIAGRAMAÇÃO E ARTE Aldo Luz

TRATAMENTO DE IMAGEM Claudiney T. V. Barros

Caderno de Domingo_Rodrigo (pags 2 e 3) 11 07  

gada dos funcionários da Sócia - a empresa que ad- ministra a rodoviária soro- cabana. “O tempo passa rá- pido”, admite Arlindo, que trabalh...

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