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Rodrigo Menezes

CAOSMO Copyright © 2014

Capa: Rodrigo Menezes Imagens: Alexandre Sampaio Edição: Rodrigo Menezes


Eu não tinha este rosto de hoje, assim calmo, assim triste, assim magro, nem estes olhos tão vazios, nem o lábio amargo. Eu não tinha estas mãos sem força, tão paradas e frias e mortas; eu não tinha este coração que nem se mostra. Eu não dei por esta mudança, tão simples, tão certa, tão fácil: — Em que espelho ficou perdida a minha face? Cecília Meireles


Rodrigo Menezes

Rodrigo de Menezes Gomes (26/08/1989, Brasília/DF) reside em Natal/RN desde 1992. Em 2011 publicou seu primeiro poema, “Carnaval”, na 13ª edição da Revista Cultural Novitas. Em 2013 foi o vencedor do Concurso Nacional Novos Poetas – Prêmio Sarau Brasil 2013, promovido pela Vivara Editora, com o poema “Hino de Autoproclamação”, posteriormente publicado no livro “Antologia Poética – Prêmio Sarau Brasil 2013”. Alquimista no mundo das letras e da poesia desde seus 13 anos de idade, desde 2010 publica seus poemas no blog www.catarse-terapeutica.blogspot.com.br. E-mail para contato: rodrigomenezes13@gmail.com Outros E-Books: • • • •

Esmeraldas Líquidas e Outros Poemas Último Chamado do Mundo Meu Poesia Abortada Retalhos


Alexandre Sampaio

Alexandre Sampaio é graduado em Arquitetura e Urbanismo pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas (1980), mestre em Ciências e Práticas Educativas pela Universidade de Franca (2004) e atualmente é professor titular da Universidade de Franca nas áreas de Arquitetura, Artes Visuais, Semiótica e Fotografia. Tem produção artística em pintura, desenho, colagem e fotografia utilizando-se de temas como a cidade, a máscara, a luz, a natureza, a arquitetura, a terra, etc. Alexandre é professor no ensino superior há 33 anos, Coordenador do Curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Franca desde 1991 e Coordenador do Curso de Artes Visuais da Universidade de Franca desde 2000. Flickr: flickr.com/photos/alexandre_sampaio Blurb: blurb.com/user/ALEXSAMPAIO


Prefácio Escrever poesia no Brasil é um ato de coragem. Poucos são os leitores e, ainda mais raros, aqueles que conseguem tirar sustento dela. A poesia não é pop, a poesia não vende, a poesia nem sempre é de fácil assimilação e o leitor que procura nela um sentido muitas vezes acaba desistindo – a poesia é para ser, não para ser entendida. João Cabral de Melo Neto certa vez desdenhou da noção do poeta como uma espécie de semideus, afirmando este não passar de um escritor comum com o domínio de uma outra linguagem – ora, não há nada de ordinário em através de versos e rimas dar um novo sentido à realidade, buscar a mais profunda essência das coisas e dos seres e ainda ser capaz de transver o mundo, seja pelo rigor da forma ou da liberdade. O bom poeta tem o poder de nos colocar em transe, chegar a interiores que nunca imaginamos e mudar a imagem que fazemos do mundo, muitas vezes sem que saibamos explicar porquê. Assim, quando encontramos bons jovens poetas como Rodrigo Menezes, temos motivos para comemorar! Em Caosmo, o último de uma quina de livros, os versos flertam com movimentos distintos como o simbolismo e o concretismo, e Rodrigo evidencia o olhar perspicaz com que assimila comportamentos e sentimentos humanos, expondo verdades íntimas muitas vezes inconvenientes de maneira quase sempre impiedosa e fazendo com que o leitor consiga identificar seu próprio eu em meio ao atordoamento das palavras. Se no volume de estreia Esmeraldas Líquidas e Outros Poemas Rodrigo estava absorto em sentimentos de luto e perda, encontramos aqui o poeta mais reflexivo, buscando dar um sentido ao manifesto caos em que se sente imerso.

Renata Arruda (www.mardemarmore.blogspot.com)


Sumário I. Caosmo (p. 8) Arrogância Pós-Inverno de um Ícaro Supérstite (p. 9) A Hipocrisia na Terra das Ovelhas (p. 10) Matinal (p. 12) Amarras (p. 13) Ilho-me (p. 14) Ratos Cegos (p. 15) II. Biografia de um Arco-Íris (p. 17) Colibri (p. 20) Som de Lágrimas (p. 21) Flor de Jambo (p. 22) Limoeiro-Prenúncio (p. 23) O Milagre de Cronos (p. 25) Nova Era (p. 26) III. Ruía (p. 28) Um em União (p. 30) Coabitação (p. 31) Povoada Solidão (p. 32) Queda Livre (p. 34) Labores Internos (p. 35) Quociente (p. 36) Estão (p. 38)


I


em que cosmo organizarei meu caos?


CAOSMO

Caosmo Se me sustento no vazio Se me enraízo no nada Como diferenciar-me De qualquer coisa que Exista? Se pertenço a todo canto E a canto nenhum pertenço De onde escavarei minha Própria Identidade? Excêntrico em minha centricidade Dependente de minha relatividade Em que cosmo organizarei meu caos? Na minha rede de relações invisíveis Eu me defino e me neutralizo Eu me refaço Deixo a loucura Recair sobre o outro Antes de mim Enlouqueço pela falta da falta E necessidade de necessidade...

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CAOSMO

Arrogância Pós-Inverno de um Ícaro Supérstite Deste-me o céu. Remendaste-me as asas. Abandonaste-me não tarde, A meio-voo... E eu ainda cego, pelos raios solares, ignorei feliz: minhas tendências de Ícaro... Deste-me o melhor sabor das frutas. Framboesas maduras em nosso jardim. Para então alimentar-me o amargo do fel. Promessas vazias que iludiam o fim. Mas cá estou eu, pós-inverno, ainda de pé nesta festa profana. Com essa arrogância tola, que é tão vil, mas ao mesmo tempo... ...tão humana.

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CAOSMO

A Hipocrisia na Terra das Ovelhas Em verdade tu regozijas na ânsia De ter exatamente aquilo que já tens. Queres o desejo de desejo. Ardes pelas gramas mais verdes Que avistas sobre os muros alheios Mesmo quando teu próprio gramado Parece-lhe vicejante e adubado. Cá entre nós (e que ninguém nos ouça), Tens mesmo é uma queda pelas tragédias! Pelas mais vermelhas e doloridas sangrias. Escondes por detrás dessa face mansa Intensidades mórbidas que nunca escoaram, E é essa mesma a razão de teu traiçoeiro tédio. Tu almejas tudo aquilo que não encontraram em ti. Tu almejas o vigor, a tensão, o intelecto viril. Queres a dor, mesmo que efêmera, E o corte da lâmina a desfiar a carne. Queres tudo aquilo de que julgaram-lhe incapaz. Desejas a fome, a sede, a foda, Apenas para assegurar-se de que podes obtê-las. E se agora me dizes que sofres com a dúvida, amigo... É porque desejas, sobretudo, superar-te a ti mesmo. Mas em terra de ovelha é esse um desejo mui vil. É imperativo prevenir-te da hipocrisia platônica Se quiseres exaltar a potência em ti.

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e o quarto pareceu um mundo


CAOSMO

Matinal Acordei. E as palavras pareceram ocas. E as palavras pareceram rasas. E as palavras pareceram foscas. Examinei-as contra a luz. Puxei-as pela raiz. Levei-as para passear Mas nada. E nada... Acordei. E o quarto pareceu um mundo. E o quarto pareceu o mesmo. E o abismo, mais profundo. Acordei. Sem palavras. Com preguiรงa de entender o mundo.

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CAOSMO

Amarras Em nossas amarras, amor, nunca fomos tão livres. E em minhas amarras, amor, foste ainda mais belo. Carta branca obteve o meu instinto. Alforria conquistou o meu Prazer: Em você... A boca morde o pano e profere o Desejo. A língua eriça os pés e arrepia os pelos. Tu me amarras e de fato e por Eros te juro: Em tuas amarras, amor, nunca fui tão livre... E somente nelas: as tuas...as nossas... amarras...

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CAOSMO

Ilho-me Ilho-me. Camuflo-me de invisibilidade. Reduzo-me a um ponto unidimensional, Infintesimal, Tangido por apatia e solidão. Ilho-me. No canto deste albergue fúnebre. Na confusão de vozes falidas e familiares, Infamiliares, Reservo-me ao "sim" e ao "não". Inquilinos transitam insólitos e insolentes. Comensais hospedeiros, vãos e resilientes. Ilho-me. Imodesto em minha heterogeneidade. Resoluto em minha própria indiferença, Ponho-me saudoso a relembrar: Dos velhos dias em que habitei um lar...

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CAOSMO

Ratos Cegos Admiro a auto-estima daqueles que, inexcusamente, autodefinem-se "Intensos". Invejo, agudamente, a ingenuidade requerida por tal alcunha autoproclamada e o esforço hercúleo que certamente faz-se necessário para livrar-se de todo rastro de modéstia e autocarimbar-se com tão imponente e singelo rótulo. Insuflar-se de tamanha grandeza, Ó quão bom deve ser! Quanta honra! Quanta glória! Bel-prazer supremo de ser Rei de Si. Herói da própria e vitalícia batalha. Todos os Hipersensitivos. Todos os Olhos-de-Águia. Como invejo-os todos, ó clemente Deus! Quem me dera a bênção de sentir-me agraciado Sendo apenas mais um dentre 7 bilhões de ratos cegos Procurando a saída do labirinto.

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II


CAOSMO

Biografia de um Arco-Íris I. Seja um jovem reprimido. Odeie seus pais e sua família. Sinta-se estranho e incompreendido. Saia de casa. More sozinho. Faça um curso de humanas. Encontre o amor de sua vida. Apaixone-se. Tenha o coração partido. Desapaixone-se. Saia à noite. Dance música eletrônica. Beije bocas desconhecidas. Faça sexo em lugares ermos. Fume maconha. Declare-se ateu. Leia Nietzsche. Odeie os evangélicos. Odeie o Papa. Leia livros de autoajuda. Estude budismo. Ame coisas orientais. Acenda incensos. Faça uma tatuagem. Ame literatura.

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CAOSMO

II. Faça um blog. Escreva poemas. Ame artes. Faça teatro. Adote um gato. Faça trabalhos manuais. Coma sushi com os amigos. Viaje. Assista comédias românticas. Acorde num belo dia. Olhe pela janela. Sinta-se vazio. Chore no banheiro. Escute músicas tristes. Sinta saudades dele. Sinta saudades de você mesmo. Ligue p'ra sua mãe e diga que a ama. Faça terapia. Tome antidepressivos. Siga a vida. E um dia, Talvez, Quem sabe? Ela doa menos...

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aprenda a voar sem sair do ch達o


CAOSMO

Colibri lago e superfície tola calmaria colibris sem asa voam sem parar bússola sem sul acalanto tanto e certezas muitas a me consolar e o colibri sem asa a cantarolar o mesmo mesmo mesmo sempre o mesmo refrão "aprenda a voar sem sair do chão" sem sair sem

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CAOSMO

Som de Lágrimas hoje ouvi pelo telefone o som de lágrimas caindo pelo teu rosto e me perguntei "por que te amo tanto?" chorei lágrimas silenciosas que acordariam a vizinhança inteira e te amei em pensamento "porque eu o amo tanto!" hoje ouvi pelo telefone o som de lágrimas c a i n d o e junto eu caí (feito lágrima) 21


CAOSMO

Flor de Jambo Vem. Sem avisar, amor. Surpresa alegra. Toca o interfone, eu desço. Ventila a mente, areja o peito. Esquece o ido... (Sorte é ter você aqui.) Sorrir e amar. Sair e andar... Dizer, Sem temer, "Sorte é ter você (aqui)." (Já disse?) Grama, Igreja, Banco e praça. Flor de jambo, Rosa-chão. Tarde, Sol, Lua e amor. Em suas mãos: meu coração. Sorte é ter você aqui. Sorte é ter você-pra-mim. (Já disse?) 22


CAOSMO

Limoeiro-Prenúncio Guardo em cores – recordações, Retratos que não me pertencem Mais. No fundo da mente – empoeirados, Ainda os cheiros exalam Sua cor. Mofadas, borradas – lúgubres, Imagens reacendem Lampejos difusos. Recluso, arredio – encerrado, Registrava tranquilo Memorandos futuros: Parapeitos, janelas e céus. Limoeiro-prenúncio de tão próximo Fim. Galos cantando à alta madrugada. Letargias dissonantes – agoniantes, Que ainda ecoavam dentro de mim...

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o futuro:

foi-se


CAOSMO

O Milagre de Cronos Os redemoinhos resignaram-se Os desejos amansaram-se O passado calou-se As pulsĂľes acomodaram-se As sombras iluminaram-se O futuro: foi-se Temido E antecipado, Passou calado: PĂŠs de pluma. Furtivo E inotado, Fez-se passado: Olhos de bruma. E redemoinhos resignaram-se Desejos amansaram-se Passado calou-se Discreto E acanhado, NĂŁo anunciado: O futuro foi-se.

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CAOSMO

Nova Era Rios de sangue Fluem como lava em minhas mãos. Céus em furta-cor Descem alinhados ao meu peito. Coração se abre em fenda Engolindo o fluxo de energia cintilante: Resplandeço regozijante. Entregue meu amor ao Cosmos E não se esqueça do meu ódio. Entregue minha alma a Deus E meu corpo ao Diabo. Uma Nova Era se inicia E outra se encerra atrás de mim. Um mundo à nossa frente E duas mortes a caminho. É magnífico, amor: Toda essa carne sobre nossos ossos. Em que estrela nos encontraremos? Em que Galáxia você se encontrava Antes de mim?

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III


CAOSMO

Ruía I. Ruía: O núcleo da família Ruía. Mãe, Avô, Tio, Tia. Quem mais ruía? Caía: Amor, Paz, Alegria. O que mais caía?

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CAOSMO

II. Ruía: O núcleo da família Ruía. Ruído, Gritos, Estrondos. Dia após dia. Poeira, Pilares, Bombas. Quem diria? E ele, Quieto, Roía... ...O cordão Que o unia... ...Ao núcleo da família Que ruía...

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CAOSMO

Um em União No olho da tormenta Ao pé do lamento Na garganta do leão No meio da poeira À esquerda do momento À deriva na escuridão Do lado de dentro de si Na Estrada Sofrimento Encruzilhada com a Solidão Hás de encontrar abrigo Hás de encontrar alento Hás de ser Um em União

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CAOSMO

Coabitação Este narrador-personagem age e observa. Este diálogo interno (ou incansável monólogo) nunca cessa. Re-corda, Re-cicla, Dis-seca. Amplia, Analisa, Re-itera. A tudo atento, A tudo sensível, O árbitro eterno da permanente história – Sujeito e objeto, Experienciador e experiência – Tudo julga e categoriza À doce luz da Dualidade. O Ego auto-identificado – Sentenciador e intransigente – É Testemunha-de-Si-Mesmo: Cego cárcere da própria trama. É espelho narcísico de si: Reflexo e subproduto da própria Consciência. E como imagem etérea, Descorporificada, – Vã e fútil projeção – Garantida é-lhe a indestrutibilidade: Reinará decerto até o último sopro... Imprescindível, destarte, é o concílio: Para que harmoniosa seja Esta deveras traiçoeira coabitação. 31


CAOSMO

Povoada Solidão No tempo, arquejo: – Novamente o sal; Oxitocina em jatos – Vermelhidão no olhar. No tempo, prevejo: – Colonizo o futuro; Prospecto o passado – Retidão no caminhar. Cambaleio entre usuais doses cavalares De amor e melancolia; rancor e gratidão. O pesar funde-se à alegria; sal faz-me companhia – Une-se às entidades que povoam minha solidão.

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a queda o voo o nada


CAOSMO

Queda Livre À beira do viaduto Ele flertava com o chão E a gravidade. Cortejava ambas: A de sua própria vida E a física: Inexorável, Inburlável lei. Os automóveis (Frias carcaças de metal) Trafegavam inertes, Indiferentes àquele instante. "Apenas mais um para as estatísticas. Num pulo a queda, o voo, o nada." Num pulo a queda... Livre! Mas deu três passos para trás. Não sabendo como lidar com tanta liberdade, Preferiu seguir de volta à sua prisão...

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CAOSMO

Labores Internos Dos labores internos Não sobram sabores fraternos Que reincidam sobre a maquinaria encefálica. Dos sorrisos externos Não existem traços eternos Que me resgatem desta compressão adiabática. Não há janeiros. Não há fevereiros. Não há extrusora Que não invoque A Dor Sagrada. Não há metades. Não há inteiros. Não há esmerilhadeira Que não me faça Pensar em nada.

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CAOSMO

Quociente Quanto de mim Hรก de restar Do resto que ainda Me falta?

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os homens os cĂŠus

as ruas


CAOSMO

Estão os vidros do carros estão estilhaçados estilhaçados estão minhas esperanças estão anestesiadas anestesiadas estão os meus sorrisos estão avariados avariados estão os homens os céus as ruas... ...às três da manhã a carne o beijo a estrada... ...do rosto, a maçã estão avariados estão sem corpo sem nome sem vida estão

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Caosmo

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Caosmo