Rock Meeting Nº 135

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WORDS OF EDITOR

2020 U

. PEI FON @PEIFON JORNALISTA, FOTÓGRAFA E DIREÇÃO GERAL DA ROCK MEETING

ma pergunta crucial para todos: alguém vai sentir saudades de 2020? Aliás, alguém lembra o que fez até março? Após esse período, o ano deu um salto para dezembro e estamos todos querendo que já acabe e venha o novo ano. Mais do que nunca, a promessa de um próspero ano novo nunca teve tanta força. Esses últimos meses foram para desacelerar e pensar bastante em quem somos, com quem estamos e, principalmente, como seremos os agentes de mudança para ainda hoje. Definitivamente não queremos que esse ano se repita. Muitas pessoas perderam alguém, perderam seus empregos, perderam um motivo para viver. Outras tantas, mostraram-se avessas ao que está acontecendo na busca de um ‘se’ quando não há. No início da pandemia acreditava que as pessoas pudessem mudar, aprender com o que

está acontecendo. É chegado o final do ano e percebo que foi um devaneio devido ao calor do momento. O que se vê é um ano de muitas opiniões contrárias, pessoas digladiando virtualmente e presencialmente. Uma forte corrente da falta de respeito pelo próximo e o fortalecimento das pessoas que acreditam em qualquer bobagem e faz disso uma verdade absoluta. As pessoas querem questionar o passado e recontar a história, mas para quê esse desserviço? Estamos no século 21, vivenciando uma pandemia e discutindo se vamos tomar ou não a vacina. Imaginava que as pessoas seriam mais sábias neste século, mas o conhecimento não é para todo mundo. Enquanto pessoa, espero que o 2021 seja pela busca da sabedoria, ainda que seja uma tarefa que nem todos compreendam o que seja. Até lá, vamos fazer a nossa parte pelo bem comum.


SUMÁRIO 2020

33 83 49

06. PALM MUTING

COLUNA - ROGÉRIO TORRES

15. ALLAMEDAH

ROCK PORTUGUÊS

25. KHROMA

PREPARANDO NOVO ÁLBUM

33. GHOST IRIS

METAL FROM DENMARK

45. FALSE CORDS

COLUNA - NICOLÁS FLORES

25

49. HYPNO5E

PROGRESSIVE METAL

61. NOCTURNAL BLOODLUST ENTREVISTA EXCLUSIVA

83. NOCTURNAL BLOODLUST LIVE REPORT

90. LA INQUISICIÓN LIVE REPORT

15

95. ATEMIZ

LANÇA “OBRIGADO”

105. PAD

UM SOPRO NO ROCK


DIREÇÃO GERAL Pei Fon DIREÇÃO EXECUTIVA Felipe da Matta CAPA Alcides Burn Canuto Jonathan PROJETO GRÁFICO @_canuto

73

COLABORADORES Augusto Hunter Bárbara Lopes Bárbara Martins Bruno Sessa Fernando Pires Marta Ayora Mauricio Melo Paulo Apolinário Rafael Andrade UIllian Vargas CONTATO contato@rockmeeting.net

WWW.ROCKMEETING.NET

VEIL OF MAYA ENTREVISTA EXCLUSIVA PARA O BRASIL


ARTICLE . GUITAR SESSION

Photo: Júlio Barbosa

GUITAR SESSION O PESO DO PALM MUTING NA GUITARRA MODERNA BY ROGERIO TORRES

6 // ROCK MEETING // DEZEMBRO . 2020


É

simplesmente impossível pensar em guitarra metal, hardcore ou djent sem pensar no som característico inerente a esses estilos, que provém da guitarra e é conhecido como chug, onde, no meio guitarrístico também é popularmente conhecido como “kãm, kãm, kãm, kãm”. Esse som abafado, preciso, definido, com a distorção na medida certa só pode ser reproduzido com fidelidade se o músico domina a técnica do palm mute. É possível afirmar que essa é a técnica mais primitiva de guitarra quando se fala em som pesado. Qualquer pessoa que inicia os estudos na guitarra, vai tocar em primeiro lugar algo que seja parecido com o chug. Essa é quase uma religião e um hábito de qualquer metaleiro, que, quando pega na guitarra, para saber se o timbre está de acordo, manda logo um “kãm, kãm”.

Foto: Fernando Pires


ARTICLE . GUITAR SESSION

Mais precisamente, o palm mute consiste em apoiar a mão direta, mão que segura a palheta, no caso dos destros, levemente sobre as cordas próximo à ponte do instrumento, procurando “abafar” as notas, segurando um pouco a vibração mais intensa e natural, que é alcançada atacando as notas sem abafar. Esse abafado tem um som muito característico e inconfundível. Em sua maior parte, os guitarristas usam esse truque para tocar os riffs e os breakdowns, no entanto, muitos músicos também o fazem em solos para trazer uma dinâmica interessante para a música. Rick Graham, por exemplo, possui uma técnica muito precisa de ligados com palm muting que soa absolutamente divino. Vale a pena conhecer. Dada a devida introdução e agora que você já sabe do que estamos falando, vamos

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voltar um pouco no tempo e descobrir de onde veio essa “onomatopeia guitarrística”. Se você está lendo essa coluna, com toda certeza do mundo você já ouviu a música “Paranoid” do Black Sabbath. Essa é a primeira obra que vem à cabeça que foi gravada usando essa técnica, historicamente falando. O ano era 1970, onde Tony Iommy, o pai do heavy metal nos agraciou com essa música emblemática e que serviu de inspiração para quase tudo que conhecemos hoje no metal, seja direta ou indiretamente. Daí para frente as bandas que se utilizaram desse recurso são simplesmente incontáveis. Podemos citar alguns destaques, como os gigantes do Thrash Metal, que souberam encaixar muito bem o palm mute em seus riffs. O Metallica, logo em seu primeiro disco, o Kill Em’ All Foto: Eliie Mitchell


ARTICLE . GUITAR SESSION

de 1983, usou e abusou dessa técnica. É seguro dizer que se não fosse o palm mute, o Thrash Metal não existiria da forma como o conhecemos. O Exodus, o Anthrax, o Megadeth e o Slayer são outros grandes exemplos, que são também precursores do estilo e que sem dúvida influenciaram toda uma geração de headbangers. A técnica foi sendo trabalhada, desenvolvida e passando por diversas formas de evolução com o tempo até chegarmos no início dos anos 90, onde Dimebag Darrell do Pantera trouxe outro significado para ela. É impossível ouvir o breakdown de “Domination” e ficar parado. Tudo isso se deve ao timbre de guitarra avassalador, a execução extremamente precisa, que alinhada com o groove massivo de Vinnie Paul na batera, proporcionam ao ouvinte uma das coisas mais pesadas que o ser humano já foi capaz de criar até então. Até hoje é possível dizer que essa música

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é uma das maiores referências do groove, do breakdown e do palm mute incomparável de Dime. Os caras do Nu Metal, anos mais tarde, fizeram uso da técnica de palm muting buscando alcançar uma sonoridade parecida com aquela do Pantera, que viria até mesmo a ser conhecida mais tarde como “Groove Metal”. O Korn, banda precursora de um dos estilos mais atacados e que sofreram mais preconceito por parte dos bangers mais tradicionais veio com essa proposta, porém de uma forma diferente, trazendo à tona a guitarra que até 1994 era um bicho de sete cabeças, aliás, sete cordas! O uso da guitarra de sete cordas começou com caras como Steve Vai, um virtuoso que fazia uso desse recurso para suas composições mais pesadas. No entanto, o Korn veio com músicas mais

simples, baseadas no groove, trazendo o peso que o metal precisava e mais ou menos na mesma época o Sepultura trazia uma sonoridade muito parecida nos discos Chaos A.D. e Roots, também mais simples e com muita percussão envolvida, o que funciona perfeitamente com a guitarra abafada. É inegável que o metal a partir desse ponto mudou para sempre. Quase tudo que veio depois disso foi influenciado por esses monstros já citados e que trouxeram algo novo, apesar de usarem uma técnica já bem antiga falando de guitarra. E acredite, a inovação está nessas pequenas coisas, onde pegamos algo que já existe, mas fazemos de uma forma diferente, inexplorada, e foi isso que bandas como o Slipknot fizeram. Os nove garotos de Iowa trouxeram a energia do Korn com

Foto: Fernando Pires


ARTICLE . GUITAR SESSION

li

nhe

A dro

n Lea to: o F

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a percussão e o Groove do Sepultura, pick-ups de música eletrônica, ótimos riffs, misturaram tudo isso e criaram um produto que mais de vinte anos depois ainda soa atual. Quer ver onde o palm muting é usado nessa banda? Pois bem, ouça os clássicos “Before I Forget”, “Psychosocial”, “Duality” e “The Heretic Anthem” e sinta o poder das guitarras cortantes de Mick Thomson e Jim Root em ação. O Slipknot e o Nu Metal foram a porta de entrada para outros estilos que vieram posteriormente, como é o caso do Metalcore e do Djent. Bandas como As I Lay Dying, Killswitch Engage, Bullet For My Valentine dentre muitas outras beberam demais nessa fonte, tecnicamente falando e também quanto ao quesito sonoridade, isso até os anos 2010. Depois disso tivemos também uma explosão de bandas ainda mais moder-

nas como o Periphery, que inclusive falamos na edição passada, que foi uma das bandas precursoras do downpicking no djent. Outro grande expoente do metalcore/djent, que jamais poderíamos deixar de citar aqui é o Veil of Maya, banda que conta com o genial Marc Okubo nas guitarras, um excelente músico que sabe muito bem como explorar o palm muting e dar ainda mais peso para as músicas do grupo. Ouça a música “Outsider”, lançada em maio desse ano, que logo na sua introdução já dá uma demonstração do poder do palm muting, num breakdown envolvente e faz com que qualquer um balance a cabeça freneticamente. A energia desse som é grandiosa, passando por diversos climas e com um refrão lindíssimo na voz do inigualável Lucas Magyar. Já deu para entender que o palm muting é essencial para qualquer guitarrista de som pesado e que sem essa


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técnica é impossível fazer um som atrativo aos ouvidos dos headbangers. No entanto, podemos dizer que a técnica não é nada sem a criatividade. Todos os músicos que foram citados aqui são extremamente criativos e não teriam chegado onde chegaram se fosse somente pela técnica e foi pensando nisso que criei um método para ajudar os guitarristas que sentem dificuldade em compor suas próprias músicas por falta de criatividade e recursos criativos. O “Máquina de Riffs” é um curso 100% online onde você vai aprender os métodos de composição, onde o objetivo é que o guitarrista tenha mais inspiração e consiga extrair o máximo de sua guitarra. Pensado para guitarristas de nível básico ao intermediário, o “máquina de riffs” já formou dezenas de alunos que, após todos os estudos, são perfeitamente capazes de criar suas próprias músicas com maestria.

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Se você se interessou pelo assunto, clique AQUI e assista ao vídeo de apresentação do curso. Te vejo na próxima! Um abraço. Instagram | Facebook

Foto: Fernando Pires



INTERVIEW. ALLAMEDAH

POR PAULO APOLINARIO / FOTO PROMOTION

A

pesar de terem algumas músicas cantadas em inglês, os portugueses da Allamedah fazem questão de exaltar a sua cultura e compor na língua materna. Não somente pela valorização do próprio idioma, a banda mescla elementos tradicionais da cultura lusitana como o Fado, estilo musical tradicional daquele país. Nesse caldeirão cultural, a Allamedah mescla elementos de Heavy Metal, Metal Core e Progressivo. Sem pecar pelo excesso dessa mistura, a banda consegue entregar um som sóbrio e poderoso. Fundada em 2015, pelo vocalista e guitarrista David Bitton, pelo baterista João Faria, o grupo ainda conta com o guitarrista Tiago Marinho e o baixista brasileiro, Jonnhy Jow. O grupo possui quatro singles e um EP ("Rio") gravados e disponibilizados no Youtube, Spotify e SoundCloud. Vocês possuem inspirações na música tradicional portuguesa, como o Fado na canção "Algema". Como vocês chegaram a essa concepção artística e de que forma tem sido a recepção do público de modo geral? Primeiramente, obrigado por terem nos convidarem para esta edição de dezembro e pelo ótimo trabalho que têm feito até agora. Foi uma junção que sempre quisemos fazer, porque Fado é algo único da nossa nação o que levou a fazer 16 // ROCK MEETING // DEZEMBRO . 2020


uma composição muito interessante. Foi feita a estrutura da música e compusemos as diferentes partes nas guitarras mais bateria. Inicialmente, estávamos com um pouco de receio de juntar a voz do David com a Valéria (Fadista), mas em estúdio ocorreu tudo bem e tivemos bom resultado. Em relação a reação do público… bem, podemos dizer que foi muito boa, mas atualmente teríamos mudado alguns pormenores que teriam me-

lhorado substancialmente o balho, para que a sua música lançamento da música. Mas seja ouvida e conhecida pelo faz parte. maior número de pessoas. Nós optamos por compor alMesmo a maioria das gumas músicas em português bandas preferindo can- porque é algo que faz parte tar em inglês – fenôme- das nossas raízes, e muitas no que também é visto no vezes aquilo que queremos Brasil –, vocês optaram expressar faz mais sentido por cantar em português. ser dito em português do que Poderiam falar mais so- em inglês. Para além da mebre essa escolha? lodia e da dicção, temos paSim, é muito natural. O que lavras únicas que não estão as bandas mais querem é a in- presentes no inglês. Como, ternacionalização do seu tra- por exemplo, na nossa música


INTERVIEW. ALLAMEDAH

“Allamedah - Glória Antiga” começamos logo com a palavra “Saudade” que em inglês seria “I miss you” mas a composição teria de ser diferente para que o sentido fosse o mesmo. Quais são as principais influências musicais da Allamedah? Fale um pouco sobre elas. Naturalmente a nossa maior influência começou no Metal, se bem que agora já não é assim para todos os membros.

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Temos todo o interesse em explorar outros gêneros musicais como Trap, Blues, Rap, World Music, Jazz, Pop, entre outros. Mas podemos dizer que grandes influências para nós como banda são os Linkin Park, Trivium, Lamb of God, Sevendust, Architects, Tesseract, Metallica, Bring me The Horizon, Angra, Ronnie James Dio, Rainbow, Black Sabbath, Killswitch Engage, Mastodon, entre outros.

Durante 2019 vocês compuseram cinco canções. Como foi o processo criativo e quais foram as inspirações para essas músicas? Até hoje, o processo de criação tem se mantido o mesmo. Normalmente, trabalhamos individualmente no esboço completo das músicas, e, a partir daí, vamos “limando” as arestas até chegarmos ao resultado que nos pareça musicalmente mais coerente. Essa fase de trabalhos passa obviamente por vários ensaios e conversas até chegarmos no resultado esperado.


Realtivo às inspirações para essas músicas, acreditamos serem todas as expressões artísticas que nos inspiram numa determinada época da nossa vida, e, que moldam a nossa personalidade musical, traduzindo-se depois nas músicas que criamos. Pela proximidade da língua, vocês têm contato com o público brasileiro? Como avaliam a recepção da banda deste lado do Atlântico? Infelizmente não temos estado muito em contato com o público brasileiro, tentamos chegar mais aos EUA e UK nos anos de 2018 e 2019. Mas com a entrada do nosso baixista Jow vamos tentar nos aproximar da comunidade brasileira e mostrar a nossa música. Esperamos que fiquem conosco para o resto do nosso percurso musical assim que ouvirem o nosso trabalho. Além de vocês mesmo (claro), quais bandas do Rock/Metal de Portugal vocês indicariam para o público brasileiro? Aconselhamos verdadeira-

CRESCEMOS BASTANTE, TANTO COMO MÚSICOS, MAS TAMBÉM COMO PESSOAS DESDE O INÍCIO DA FORMAÇÃO DA BANDA


INTERVIEW. ALLAMEDAH

mente o público brasileiro a explorar bandas como: Moonshade, OAK, Apotheus, Blame Zeus, Needle, Bizarra Locomotiva, Sacred Sin, RAMP. E obviamente não poderíamos deixar de mencionar o Moonspell. Como foi para vocês tocar no Comendatio Music Fest, ao lado de bandas como Tesseract e Leprous? Transmita para nós essa emoção. 20 // ROCK MEETING // DEZEMBRO . 2020

O nosso concerto foi no dia de Tesseract, que é uma banda de Metal Progressivo que acompanhávamos há bastante tempo, em particular para o nosso vocalista que viajou em 2016 até Londres (UK) para ver a banda ao vivo no KOKO Music Venue. No dia do concerto o David se encontrou com o vocalista dos Tesseract Daniel Tompkins a caminho do backstage, trocaram umas impressões, e tiraram umas fotos para guardar o momen-

to. Foi certamente um dos concertos mais importantes para a banda, mas queremos continuar a sonhar mais alto e elevar a fasquia tocando em palcos maiores e para mais gente. Numa nota mais humorística e em nome da honestidade, gostaria de relatar em primeira pessoa (David Bitton) o que aconteceu no dia do concerto mais importante da banda. Infelizmente devido a um certo nervosis-


mo que sempre me atormenta antes de começar qualquer concerto, mas que sempre passa depois dos primeiros 10 segundos da primeira música devido à descarga de adrenalina que o corpo humano gentilmente faz correr pelo nosso corpo, tive de me deslocar até ao banheiro. Durante o processo, ouço, ainda sentado, a introdução da nossa música de abertura “Open Field”. Entre alguns tropeços e desespero, consegui chegar a tempo

da entrada da música. Do ponto de vista sonoro, como vocês avaliam o amadurecimento e mudanças desde o início da carreira? Podemos dizer que crescemos bastante, tanto como músicos, mas também como pessoas desde o início da formação da banda. A nível musical, inicialmente estávamos descarregando todas as ideias que nos vinha na cabeça, claro

que para nós soava bem e tornou uma musicalidade mais progressiva, mas hoje olhamos para trás e pensamos que podíamos ter feito melhor [risos]. Hoje temos outro nível de preocupação na composição, a estrutura das músicas tem um grande peso na composição, tipos de ligação entre partes das músicas tal como escolher a melhor dinâmica que se adequa para cada troço de música. Porém, algo que não tínhamos noção da


INTERVIEW. ALLAMEDAH

dificuldade foi a promoção e marketing da banda. Isso sim é algo trabalhoso, que não podemos perder o foco; estamos tentando sempre melhorar o nosso método de trabalho. Tem pouco mais de um ano que Jonnhy Jow assumiu o baixo. Como foi o processo para a escolha e o que a vinda dele acrescentou para a sonoridade da banda? Na época, fizemos algumas audições a baixistas para avaliar tanto a nível técnico como

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de personalidade e objetivos musicais para averiguar se encaixava-se com a banda. Após algumas audições o Jow falou conosco pelo Facebook, e demonstrou interesse de querer fazer parte da banda. Na hora ficamos um pouco com um pouco de receio devido às circunstâncias, mas ao mesmo tempo foi bastante engraçado. O Jow escreveu: “Pessoal eu vou fazer parte da banda, vão ver! É só chegar do Brasil”. Epa! [risos], nós dissemos: “Mas que campeão, bem pelo menos confiança

não falta”. O que era certo, era que na altura não estávamos a encontrar ninguém que se encaixava e optamos por esperar pela vinda do Jow do Brasil... Podemos dizer que não nos arrependemos. Foi realmente a pessoa com quem mais gostamos de estar tanto a nível pessoal como tecnicamente. É um músico extraordinário, com uma técnica de execução muito profissional. Trouxe muita confiança e presença para a banda em palco tal como em estúdio para a criação de uma


linha de baixo com uma pre- eleição que por norma tem sença possante e adequada um alcance mais orgânico para o nosso tipo de música. nas publicações e mesmo nas reações gerais. De que maneira a Allamedah utiliza as redes E falando das plataforsociais para divulgar o mas digitais como Distrabalho? Como é o pla- cord, Twitch e Patreon nejamento para o engaja- têm auxiliado as bandas mento dos fãs? a se manterem ativas duBem até agora temos usado rante a pandemia? mais o Facebook e o Youtube Essas são plataformas avacomo plataforma de divul- liando entrar, mas ainda não gação do nosso trabalho, de tivemos disponibilidade para forma a também encaminhar tal. Com a pandemia fizemos as pessoas para a nossa pági- uma pequena pausa para volna no Spotify. Recentemente tarmos em grande agora no temos focado mais no Ins- início do ano com o lançatagram como plataforma de mento de um novo clipe.

A pandemia trouxe consigo uma reflexão importante de como devemos consumir música daqui para frente. Como as bandas podem ajudar a construir esse novo cenário no pós-pandemia? Ainda estamos todos a ver qual o melhor rumo a seguir, mas é certo que não é melhor altura que agora que apostar na divulgação online. Nesse momento as pessoas passam mais tempo em casa do que na rua, muitas trabalham a partir de casa o que, normalmente, leva a estarem presentes mais tempo nas redes sociais


INTERVIEW. ALLAMEDAH

uma variedade maior de profissionais que sabem trabalhar com esse estilo de música? Até ao momento, já tivemos algumas propostas de gravadoras, no entanto sentimos que nenhuma delas iria beneficiar a banda da maneira certa, pelo que mantivemos um caminho independente. Existe uma estrutura extremaPor estarem na Europa, mente organizada direcionacomo é a relação de vocês da para este estilo de música, com as gravadoras? Há no entanto em Portugal essa e aumentar o consumo e procura de novos conteúdos. Este foi um dos setores que sofreu mais com a pandemia, o que levou a estudar novas maneiras de interação direta com os fãs pela impossibilidade de existir concertos ao vivo, entrevistas e outros eventos que juntava grande número de pessoas.

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estrutura ainda está bastante atrasada. Por fim, o que podemos esperar

do

Allamedah

para o início de 2021? Sucesso e muito obrigado! No primeiro trimestre de 2021 estaremos a preparar o lançamento das músicas gravadas com o Daniel Cardoso (Anathema), sendo que uma dessas músicas será lançada nos primeiros meses do ano.



INTERVIEW. KHROMA

POR BARBARA LOPES / FOTO SKOETT PHOTOGRAPHY

Q

uando falamos de Finlândia, imediatamente lembramos da vasta gama de bandas de metal, muito devido a nomes como HIM, Nightwish, Children of Bodom, Apocalyptica, que tiveram seus auges próximos ao início deste século - cada qual com sua peculiaridade, entretanto essencialmente dentro do metal. Desta forma, introduzimos o Khroma: de Helsinki, a “mistura” é feita com música eletrônica, de maneira totalmente inusitada. Com dez anos de carreira, quase três álbuns lançados e dividindo palco com nomes como Jinjer e The Agonist, os músicos também são estudiosos em diversas áreas, agregando ainda mais na qualidade do som. Confira a entrevista com a banda:

A Finlândia é tradicionalmente vista como um hot spot para bandas de metal. De onde veio a ideia de misturar música eletrônica com metal? Qual foi a inspiração? O som do Khroma é um combo de influências dos membros da banda. Quando nós começamos a banda em 2010, nós decidimos que todos envolvidos poderiam e deveriam trazer seus próprios interesses para o som. Nosso vocalista Riku Rinta-Seppälä era e ainda é muito apaixonado por música eletrônica, especialmente trip hop e drum’n bass, além de hip hop e rap. 26 // ROCK MEETING // DEZEMBRO . 2020


co, atuação e teatro, videografia, comunicação e mídia, certo? Como vocês aplicam o conhecimento dessas áreas na banda? É, às vezes nós brincamos que somos a banda mais educada da Finlândia (risos). Nós com certeza trazemos nossas bagagens nesta mistura; o conheciAlém da banda, vocês são mento em linguística definitiacadêmicos nas áreas de vamente dá forma às letras do linguística, design gráfi- Riku, o design visual do nosso Eu particularmente sou muito interessado em música cinematográfica. Então, foi natural combinar esses elementos no nosso som. E como todos nós somos metalheads, escolhemos obviamente o metal como modelo para (tocar) nossa música.

baterista Antti Honka é baseado em seus interesses por design gráfico, nossos vídeos tentam espelhar a natureza comunicativa do videoclipe como uma forma cultural – e por aí vai. Em 2020 vocês fizeram 10 anos de banda. Imagino o quanto de ideias tinham para fazer uma boa celebração, no entanto,


INTERVIEW. KHROMA

veio a pandemia e estragou os planos de todos. O que vocês deixaram de fazer por conta desse revés completamente insperado? Nós tínhamos pensado em comemorar muito o novo álbum e entrar em turnê, talvez algum evento especial na nossa Helsinki natal... Mas então tudo foi cancelado. O que podemos fazer agora é esperar e curtir ainda mais ano que vem, e se como espera28 // ROCK MEETING // DEZEMBRO . 2020

mos entrar em turnê e festejar seguido. Então nós precisásejam possíveis novamente. vamos inventar uma fórmula produtiva para a música da Com 10 anos de estrada, banda – e está em constante vocês têm com dois CDs evolução. Na minha opinião, é lançados e logo haverá fascinante ouvir os primeiros um novo trabalho. Como materiais do Khroma, como vocês se avaliam durante é significantemente diferenessa década de banda? te do novo material, ainda Quando nós começamos em que todos os elementos – o 2010, nós apenas tínhamos a electro, o groove, a cinemáideia da banda e as ambições tica - estejam lá. Você conseindividuais de cada mem- gue escutar claramente nosbro - nós não tínhamos uma so progresso e nossa jornada fórmula que poderíamos ter do primeiro EP ao primeiro


single, ao primeiro álbum - e por aí vai. É fascinante para mim como nós definitivamente não tínhamos um som nítido no começo, só uma ideia. Em uma entrevista para o Tuonela Maganize, um ano atrás, Mikko Merilinna falava sobre o terceiro álbum, que seria mais hi-fi, mais aberto. Essa perspectiva se manteve? Sim, o som é mais acessível e hi-fi no próximo (terceiro) álbum, mas novamente é apenas uma nova reinterpretação da visão original mencionada anteriormente. O novo álbum seria lançado esse ano. O que levou vocês a não o lançar e manter a dinâmica de singles? O álbum está pronto e aguardando o lançamento desde a primavera (europeia) deste ano. Então, quando ficou claro em março que não poderíamos entrar em turnê e promover o álbum se o lançássemos, nós decidimos postergar o lançamento um pouco. Depois decidimos postergar um pouco mais, já que a situação mundial não estava melho-

VOCÊ CONSEGUE ESCUTAR CLARAMENTE NOSSO PROGRESSO E NOSSA JORNADA DO PRIMEIRO EP AO PRIMEIRO SINGLE, AO PRIMEIRO ÁLBUM - E POR AÍ VAI


INTERVIEW. KHROMA

rando, mas decidimos que um single seria uma boa escolha por nos manter um pouco no radar. Estamos mirando para a primavera de 2021 (para o lançamento do álbum). De certo modo, a pandemia veio para dar um freio nas agendas agitadas de algumas bandas, com isso, houve mais tempo para pensar em futuras músicas. Isso favorece ou traz mais pressão para criar? O álbum foi 99% feito no fim de 2019, então para nós o atraso significou que poderíamos polir a mixagem um pouco mais, mas não tocamos nas músicas. Mas essa parada obrigatória nos deu mais tempo para escrever novo material, então nós já temos algumas novas músicas em demo, o que esperançosamente vai acelerar o processo de produção do quarto álbum.

uma identidade visual muito interessante. Em especial, “Slaves” usa uma linguagem gráfica junto com a letra da música. De que maneira isso trabalha na fixação da canção no inconsciente do ouvinte? Nós sempre almejamos trazer nossa própria estética visual para a música. Nós esperamos que o conteúdo visual e o conteúdo musical se combinem para trazer o Khroma a um nível mais profundo de substância e aprofundar a nossa arte.

A música “Slaves” fala de um organismo místico, vivo e digitalmente destrutivo. Como vocês enxergam esse organismo na vida real? O Covid-19 se encaixaria nessa situação? É, o texto, que foi escrito pelo nosso vocalista Riku Rinta-Seppälä no verão (europeu) Analisando seus vídeos de 2019, está definitivamene shows, vocês criaram te em ressonância com a

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situação mundial de 2020. Se eu entendi certo, o tema lírico do Riku no terceiro álbum era o apocalipse, e todas as músicas exploram o fim de formas metafóricas e metonímicas. Riku sempre teve um nível multi interpretativo em suas escritas, então “Slaves” pode ou não contar sobre uma situação do mundo real. Nós miramos “Slaves” para ser nosso segundo single, originalmente com uma data de lançamento para o começo de 2020, e nós gravamos a música durante nossa turnê com o Jinjer no final de 2019. Então atrasos se transformaram em mais atrasos e nós acabamos lançando apenas em novembro deste ano. Vocês já estão com uma turnê agendada com o Jinjer, The Agonist e Space of Variations em 2021. Fora shows, o que estão programando para o próximo ano? Nós apenas esperamos lançar nosso terceiro álbum, já que ele está aguardando na prateleira (risos). E nós esperamos

Foto: Promotion


INTERVIEW. KHROMA

fazer muitas turnês, uma vez tilhar o álbum com o resto do que é no palco onde a músi- mundo. ca e os visuais realmente ganham vida. Para finalizar, como as bandas e músicos poComo avaliam a receptivi- dem ajudar no retorno dade do público com “Sla- aos shows nesse “novo ves” e “Kill the Friction”, normal”? Sucesso para músicas que fazem parte vocês e aguardamos por do terceiro álbum? esse novo trabalho. Muito A reação para ambas as mú- obrigada! sicas tem sido bem receptiva. Eu acho e espero que a pandeNós estamos em uma boa po- mia desapareça na proporção sição no momento, e mal po- do progresso na ciência médemos esperar para compar- dica e nas medidas de saúde 32 // ROCK MEETING // DEZEMBRO . 2020

pública. Então, quando tudo isso acontecer, eu acredito que a cena da música ao vivo vai lentamente retornar e eu tenho certeza de que quando isso acontecer, vários músicos estão vivos e prontos para dar o seu melhor. Ótimos shows e o entusiasmo dos performers vão ser a melhor promoção para o entretenimento musical ao vivo em geral. Sucesso para vocês e estamos ansiosos para este novo trabalho! Obrigado!



INTERVIEW. GHOST IRIS

POR UILLIAN VARGAS/ FOTO OLIVER HAREMSA

E

nquanto o mundo praticamente parou em meio a pandemia, a Rock Meeting continuou (e não terá fim tão cedo) acionando os holofotes para bandas novas que estavam mais “ao canto do palco”. Talvez alguns headbangers não estejam prontos para abrirem os ouvidos para o novo (e não tem nada de errado nisso, se essa é a proposta). Mas para quem está a fim de ficar por dentro das novidades por vir, então colem na Rock Meeting. Vocês não perdem por esperar. E nessa busca para conhecer quem é esse sangue novo que está oxigenando o cenário metálico atual, nos deparamos com a Ghost Iris. A banda foi criada em 2015 em Copenhagen (capital da Dinamarca), no mesmo ano em que é lançado o disco "Anecdotes Of Science & Soul", apresentando ao mundo um quarteto de puro feeling e energia. Formada por Jesper Gün no vocal, Sebastian Linnet na batera, Nicklas Thomsen no baixo e Daniel Leszkowicz na guitarra. Tivemos a oportunidade de conversar com Sebastian e Jesper, que nos contaram um pouco sobre a banda, novidades e inspirações. Vem conosco nesse papo super descontraído e cheio de atitude. Assim como os demais estilos, o metal moderno tem uma gama enorme de bandas. Vocês são da Dinamarca e nos-

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sa principal refe-rência é King Diamond. Como tem acontecido essa variação sonora na cena dinamarquesa? Sebastian Linnet - Há muitas influências no cenário metal dinamarquês. Houve um tempo que esteve repleto de bandas de hardcore melódico, mas agora todo estilo de me-

bandas do estilo? Sebastian - É engraçado que você mencione que a Dinamarca é conhecida por grandes bandas do estilo, porque sempre olhamos para nossos países vizinhos (Noruega, Suécia e Alemanha) Como é ser uma banda de como tendo grandes bandas metal em um local que é dentro do estilo. Essa pode conhecido por grandes ser uma forma subconsciente

tal é tocado de uma forma ou de outra. Nossa banda também não depende apenas de influências, mas de uma vasta gama de tipos de música que inspira a criação inclusive o King Diamond.


INTERVIEW. GHOST IRIS

de nos esforçarmos para nos tornarmos melhores nas nossas criações. As raízes dos estilos musicais são antigas, mas o metal não ficou preso ao passado. Como vocês enxergam essa modernização do metal? Sebastian - Músicos de metal muitas vezes ouvem muitas música e gêneros diferentes, e nós não somos diferentes. Acredito que a incorporação de diferentes tipos de música moderniza o metal e mantém as coisas frescas. Morar no passado e velho nunca é a solução. "O metal era melhor nos anos 80" - não, vamos tentar torná-lo grande e interessante nos anos 20.

estar aberto a tudo é fundamental, creio eu.

E essa transformação entre o metal clássico e o som mais moderno vem trazendo mudanças, também, de comportamento (fãs e bandas). Como vocês entendem esse fator? Sebastian - Alguma parte dos Metalheads tendem a ter a mente um pouco fechada e não estão abertos a respirar ar fresco estes são os "elitistas". Matem-nos com bondade, como eles dizem. A única coisa que mais odeiam é quando você está verdadeiramente feQual é o segredo para liz. manter a essência sonora, e ainda assim ser um Se você tivesse que repreagente de transformação, sentar a Ghost Iris numa dentro do metal? única música da banSebastian - Não se fechar da, qual seria? E qual a em uma coisa específica, mas razão? 36 // ROCK MEETING // DEZEMBRO . 2020


Sebastian - Todos os nossos álbuns soam diferentes dos anteriores. O próximo álbum não vai ser diferente. Escolher uma música é impossível. Se eu realmente tivesse que escolher uma, seria "The Devil's Plaything" esta música abrange a maior parte do que a banda representa musicalmente. Mas então, novamente, nosso próximo álbum será diferente e eu realmente escolheria uma canção a partir disso! Seu mais recente trabalho é Apple of Discord. Vocês exploraram diversas atmosferas e aspectos sonoros com vocais marcantes. Como tem sido a resposta do seu terceiro album? Sebastian - Apple of Discord tem sido nosso lançamento mais bem sucedido até agora, não poderia ter sido melhor recebido. Nunca estivemos tão ocupados do que depois deste disco, o ciclo Apple of Discord jogou numa tour por toda a Europa com After The Burial, Dream Theater, Jinjer e depois fomos headliners no Japão. Ouvindo “Final Tale”

APPLE OF DISCORD TEM SIDO NOSSO LANÇAMENTO MAIS BEM SUCEDIDO ATÉ AGORA, NÃO PODERIA TER SIDO MELHOR RECEBIDO


INTERVIEW. GHOST IRIS

mais atentamente, há muitos elementos do me-tal moderno nesse som. Riffs poderosos, variação vocal e uma passagem que fica na cabeça. Escuto a música já esperando “There's but nothing left”. Fixar a música se faz muito importante diante da vari-edade de banda que existe, não é? Sebastian - Sim, é. Nós sempre acreditávamos em

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algo cativante. Um bom riff, condução, melodia ou vocal é algo que você só precisa ouvir uma vez para lembrar-se dele para sempre. Falando especificamente sobre a letra de “Final Tale”, “Clinging to the here and now. There's but nothing left” é uma passagem bem particular quando uma pessoa se vê deslocado do lugar que

convive há tanto tempo. Mudar seria o caminho? Jesper Gün- É quase um clichê clássico que um artista muitas vezes tem uma relação tensa com o lugar em que nasceu. Em meu caso particular, é quase arrogante. Eu tenho uma sensação de vazio em minha cidade natal. Simplesmente não há nada a fazer e é desprovido de qualquer inspiração. A "Final Tale" é sobre a libertação. A gigantesca


abertura é meu salvamento. Nunca desista e se torne uma concha oca. Se algo não lhe convém, porra, então levantese e faça algo a respeito. Você só vive uma vez e a vida é simplesmente preciosa demais. “The Rat & The Snake” só pelo título dispensa qualquer tipo de explicação. Lendo a letra é que você emerge ainda mais na mensagem que vocês

transmitem. Essa fome de autorrealização pode levar para qual caminho da humanidade? Jesper - O caminho que nós, como espécie, estamos trilhando neste momento é de destruição. Todas as religiões do mundo pregam uma coisa acima de tudo: o amor. Mas ainda somos uma sociedade de zumbis apáticos, dependentes da tecnologia. A autorrealização é normalmente uma

coisa positiva, mas também pode ser traiçoeira. Tomemos o exemplo de Fritz Haber. O padrinho da produção alimentar moderna. Seu método de produção de fertilizantes nitrogenados está atualmente envolvido na produção de alimentos para mais da metade da população da Terra. Seu trabalho em Zyklon A posteriormente levou ao Zyklon B, o gás que era usado nas câmaras de morte nazistas, matan-


INTERVIEW. GHOST IRIS

larmente, só tenho a concordar com as letras de vocês. Quem seria esse “the devil’s plaything” dito na música? Jesper - O tempo ocioso é o parquinho do diabo. É preciso manter a mente constantemente ocupada com coisas positivas, caso contrário, em alguns casos, pode te levar a “Indifference has made pensamentos destrutivos. Eu me indifferent. I'm done, deveria saber, isso já me aconI care no more”. Particu- teceu várias vezes e ainda sou do várias pessoas de sua família extinta, que eram judias. Ele estava se autorrealizando e fazendo coisas para a melhoria da humanidade, mas seu trabalho foi levado e colocado em uso de uma forma absolutamente horrenda. A humanidade precisa pisar com muito cuidado.

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vítima das garras imundas do diabo. "A indiferença me deixou indiferente" é uma letra de uma época da minha vida, em que eu estava simplesmente acabado, eu não me importava mais. Não necessariamente suicida, eu apenas tinha desistido de fazer a minha parte para melhorar o mundo. Hoje o mundo está me parecendo mais brilhante. A escuridão não pode existir onde há luz e dou graças a Deus por isso!


“Apple of Discord” tem 10 músicas. A última é “Virus”. A priori você acha que se encaixa com o atual momento de pandemia. Mas, na verdade, é uma crítica pesada aos dogmas que levam as pessoas a fazerem coisas loucas. Como combater esses falsos profetas? Jesper - É muito engraçado ouvir essa canção agora nestes tempos de pandemia, mesmo que não se trate obviamente de Covid. Os dogmas

são muitas vezes uma merda, pois a vida é bastante fluida e aprendemos coisas novas o tempo todo. Nenhuma autoridade está acima de qualquer crítica e nenhum dogma! Para combater os "falsos profetas" é preciso manter a mente aberta, questionar o que você vê e ponderar sobre o que lhe é dito. Saindo um pouco do sobre o cd e indo para os shows. Recentemente vocês estiveram junto com

o Jinjer em algumas cidades na Alemanha. Como é fazer esses shows diante do momento de pandemia? Dá medo? Sebastian - Foi uma experiência incrível e uma honra fazer parte da história do metal e da música nestes shows sendo uma das primeiras bandas do mundo a fazer turnês nestes tempos, e com ninguém menos que Jinjer. Não foi assustador. Foi empolgante. Foi fazer algo ativamente, ao invés de ficar la-


INTERVIEW. GHOST IRIS

mentando e gemendo em casa sobre falta de turnê. Vamos fazer o melhor que pudermos. Fizemos, e somos muito gratos por essa oportunidade e pelas portas que ela nos abriu. Num recente playthrough de Jesper, diz estar colocando os detalhes no álbum. Podemos esperar algo ainda para esse ano? Single, talvez? Sebastian - O novo álbum está pronto e estamos trabalhando em tudo que envolve o 42 // ROCK MEETING // DEZEMBRO . 2020

lançamento de um álbum que não seja sobre apenas "tocar música". Mas ainda não posso dizer quando você vai poder ouvi-lo. As plataformas como Twitch, Discord, Patreon estão sendo usadas cada vez mais nesses tempos. Qual a importância de manter essa conectividade sempre ativa com os fãs? Sebastian - Gostamos sempre de estar em contato com

nossos fãs. Respondemos sempre a cada comentário, DM, e-mail, etc. que recebemos. Somos apenas pessoas normais, não somos melhores do que os outros, nem estamos acima de qualquer outra pessoa. Queremos que as pessoas sintam isso quando nos conectamos com elas. A musicalidade não tem uma língua única e Ghost Iris tem fãs espalhados pelo globo. Qual é o elemento que mantém esses



INTERVIEW. GHOST IRIS

fãs se conectando com a banda numa única fala? Sebastian - A música é uma linguagem universal. É isso! Não importa de onde você é. Se você fala dinamarquês, inglês ou mandarim, você pode entender música. O poder da música nos une em todo o mundo e nos cura individualmente. Adicionando um pouco de complexidade agora, gostaria de saber o que será de Ghost Iris daqui

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dois anos. Com uma pandemia ocorrendo, quais os planos para um futuro breve? Sebastian - Obviamente, esperamos poder voltar à estrada em breve. Mas, além disso, escrevemos música e depois escrevemos mais música. Já estamos escrevendo música nova para outro álbum que não é o próximo, mas o que vem depois dele! Mas vamos ver o que o futuro nos traz. Continuamos positivos. Mas o futuro próximo trará novas

músicas, vídeos musicais e todas as coisas boas. Fechando esse bate papo, gostaríamos de agradecer a oportunidade, desejar sucesso e deixar espaço para teu recado aos nosso leitores. Obrigado! Sebastian - Obrigado por nos receber! Obrigado por nos ouvir. Se você ainda não conhece nosso som , vá conferir nosso último álbum Apple of Discord e fique atento para novas músicas.


ARTICLE . VOICE TALK

Foto: Promotion

VOICE TALK O PROBLEMA DOS “FALSE CORDS” BY NICOLÁS HORMAZÁBAL FLORES Professor de técnica vocal e treinador vocal


ARTICLE . VOICE TALK

V

ocê sabia que muitas das nossas culturas ancestrais pensavam que a voz vinha da alma? E você sabia que, quando começaram a estudar as partes do nosso tempo, foram batizadas e descobertas falsas pregas vocais (pregas ventriculares) que foi atribuída a capacidade

de gerar o chamado falsete? Você sabia que há algumas décadas se considerava que a glote não poderia estar relacionada às chamadas distorções vocais, mas graças a estudos recentes entendemos que essas estruturas podem estar envolvidas nestes sons? A ciência está em constante

Foto: Fernando Pires 46 // ROCK MEETING // DEZEMBRO . 2020


Melissa Cross - Treina as mais conhecidas vozes do Metal

evolução e isso implica que ao longo dos anos vamos encontrando cada vez mais evidências de fenômenos que não havíamos estudado antes, o que obriga a todos os profissionais (da voz neste caso) a estarem em processo constante de atualização. Há cerca de 30 anos, começaram a ser estudadas com mais força os sons mais esquecidos pelas ciências vo-

cais, as distorções vocais. Uma das pioneiras em iniciar esse caminho foi Melissa Cross. É claro que, há 30 anos, não tínhamos a tecnologia de visualização laríngea que temos hoje, então tiveram que utilizar imagens com menor resolução e raciocínio técnico fisiológico. Entendendo naquele momento que a glote era intocável, chegou à conclusão de que não podería-

Foto: Promotion

mos sujeitá-lo a um trabalho árduo para gerar esses sons tão desbravadores. As primeiras hipóteses baseavam-se no fato de que esses sons eram produzidos por estruturas supraglóticas, no caso as pregas ventriculares ou comumente chamadas de “False Cords”. Essas estruturas são realmente responsáveis por esses sons guturais? A respos-


ARTICLE . VOICE TALK

Fo to :

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ta é, na maioria das vezes (porque depende do tipo de gutural) não. Com o tempo somado aos novos avanços da tecnologia, câmeras com ultra definição, câmeras de alta velocidade, dentre outras, as diferentes visões do canto comprovavam o uso de outras estruturas de forma mais preponderante, como as cartilagens aritenoides, cartilagem corniculada, entre outras estruturas glóticas e supraglóticas. Muito embora, em termos de nomenclaturas, não haja limitações e cada um possa usar o nome que lhe pareça melhor para os ajustes vocais que estão realizando (incluindo sons guturais), é um erro chamar o ajuste com o nome de uma estrutura que não está realizando, afinal, ninguém pode dar um chute com as mãos. Convido você a estar sempre estudando este lindo instrumento que é a nossa voz, se tiver alguma dúvida, não hesite em me contatar, terei o imenso prazer em responder suas perguntas. Instagram

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INTERVIEW. HYPNO5E

POR UILLIAN VARGAS/ FOTO BLANCA LECHUZA

E

se o globo segue nesse ritmo incerto e descompassado, na Rock Meeting nós temos uma única certeza: Não vamos parar tão cedo! Não importa o que aconteça. Enquanto alguns setores (lamentavelmente) tiveram que ser freados para o bem da maior parte da população, essa pandemia nos trouxe uma nova visão, nos trouxe um novo compromisso. E com objetivo alinhado com as novidades sonoras e ao editorial da revista, chegamos até a banda Hypno5e. E se fomos pegos de surpresa, temos a música para nos ajudar a atravessar essa crise e justamente a Hypno5e surge como um bálsamo de alta qualidade auditiva e desapegada aos velhos rótulos. Augusto Hunter e Uillian Vargas tiveram a grande satisfação de conversar com Emmanuel Jessua (vocal, piano, charrango e guitarra), que representando os demais membros da banda, nos trouxe perspectivas densas sobre a formação da banda. Falou sobre inspirações, das agonias, sobre como conduzir uma banda que é difícil de categorizar sonoramente e das dificuldades da atualidade. A banda foi formada em 2000, no México e logo após cruzou o Atlântico para se estabelecer na França. Formada por Cédric "Gredin" Pages (baixo e backing vocals), Jonathan Maurois (guitarra) e Théo Begue (bateria) a banda segue inspirada e com grande vontade de retomar os palcos novamente. Confiram, e

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esperamos que vocês também anos quando era adolescente, se divirtam com a entrevista! logo após ter deixado a Bolívia. Esses anos de autoafirHypno5e nasceu em uma mação trouxeram até o lugar viagem que Emmanuel que o Emmanuel se encontra Jessua fez ao México. hoje, assim como seu gosto Qual foi essa experiência, pela música latina. Foi nessa vivida no México, que deu época que ele decidiu fazer vida a banda? uma banda que seria sua próNão foi apenas uma viagem, pria criação, ele a chamou de houve uma vida ali, durante Hypno5e muito tempo antes

mesmo de conhecer os outros músicos. Acho que podemos dizer que a semente do Hypno5e está enraizada na América Central e do Sul, e depois se desenvolveu na França.   O que a união entre esta visão latina e uma visão moderna traz para a composição do Hypno5e?


INTERVIEW. HYPNO5E

O próprio som. Como você pode ouvir em canções como “Gehenne” ou “Tio”. O dedilhado do violão pode lembrar Inti Illimani (conjunto folk Chileno sessentista) ou Gustavo Santaolalla (músico e compositor Argentino), mesclado com metal moderno. Vocês se autointitulam "Cinematic Metal". Que importância a música e a imagem trazem para a fixação do conteúdo sonoro para o ouvinte? Basicamente o Hypno5e é um projeto de arte total: música, vídeo, cenografia. Criamos um espetáculo inteiro em torno da música e ainda temos ideias para torná-lo maior. Não podíamos apenas tocar música; queríamos que o público tivesse uma experiência completa de arte. Gostaríamos de gravar uma apresentação completa ao vivo em vídeo para que o mundo inteiro pudesse ver o que temos em mente. Infelizmente não podemos realizar este projeto em todos os países ou em todos os locais que queremos,

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para isso precisaríamos de mais tempo e espaço. Sua música quase faz o ouvinte "ver o som". Nesta jornada sonora entre som moderno e inspiração, existe um limite? O limite é o número de ouvintes. Cada ouvinte pode ouvir nossa música, fechar os olhos e imaginar qualquer coisa. Nossas músicas são bem longas, levamos tempo para explorar vários efeitos em um título. É por isso que não colocamos facilmente a letra nos livretos dos álbuns, queremos que a música seja o espelho da mente de todos, não apenas da nossa mente. O que você "vê" em nosso som diz muito sobre você na verdade, nossa música pode ser interpretada como uma espécie de hipnose, daí nosso nome. Como acontece o equilíbrio entre velocidade, melodia e peso nas canções, especificamente em "Brume Unique Obscurité", por exemplo? Brume Unique Obscurité foi


HYPNO5E É UM PROJETO DE ARTE TOTAL: MÚSICA, VÍDEO, CENOGRAFIA. CRIAMOS UM ESPETÁCULO INTEIRO EM TORNO DA MÚSICA


INTERVIEW. HYPNO5E

criado sobre um riff de charango (instrumento), decoramos sua harmonia e seu ritmo para fazer variações e terminou como a canção que você está mencionando. A primeira parte é o resultado suave dessa “decoração”, levando ao ápice da interpretação pesada do riff.

O álbum nos conta a história de um amor de dois irmãos pela mesma mulher. E se Cristina estivesse representada em um sentimento, seria realmente Amor? Isso deixo para responder.

Hypno5e existe desde meados de 2000 e carComo surgiu o conceito rega muita experiência. criativo "Alba"? Filme, ál- Entretanto, o mundo da bum ... Explique-nos esta tecnologia avançou muito sinergia das artes. Criar música e imagem ao mesmo tempo sempre foi um plano, conseguimos fazer um filme para o qual gravamos uma trilha sonora original. Metal não caberia com as imagens, então gravamos música acústica, ainda com nossa receita de longas canções técnicas. Adicionamos uma capa de Inti Illimani para uma seqüência de karaoke. Tanto a música quanto o filme retratam nostalgia, auto questionamento e ausência.

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rapidamente nos dias de hoje. Que mudança você acha que mais impactou o universo musical nos últimos cinco anos? Os sistemas de divulgações mudaram muito, se você não estiver no Instagram, por exemplo, você simplesmente não existe. Se você dá ouvidos aos divulgadores, vão te dizer que você tem que postar fotos para que as pessoas continuem ouvindo sua música, que tristeza! Nós caímos numa era narcisista, cada vez menos pessoas leem qualquer coisa, elas apenas veem imagens e sua existência na área pública depende dessas

imagens. Uma dos primeiros samplers de " On the dry lake " é de Guy Debord “La société du spectacle” (A Sociedade do Espetáculo). Debord havia previsto esta era, onde a imagem está conduzindo as massas. A Covid-19 deu poder a essa tendência. Não tenho muita esperança para o futuro, conhecemos os problemas criados pela civilização ocidental sob a ditadura do capitalismo (empobrecimento do povo e destruição do planeta, para dizer o mínimo), ainda assim nossa sociedade cai nela em seguida. Houve saídas para fugir desse capitalismo, escritas em muitos livros, mas cada vez menos pessoas fazem o esforço de ler, em be-


INTERVIEW. HYPNO5E

nefício dos principais gananciosos bastardos que têm o poder e o dinheiro. Acho que agora é tarde demais, o planeta não será capaz de sustentar tantas pessoas que vivem à maneira norte-americana. A maioria das pessoas se sente como se fossem indivíduos únicos e não querem descobrir nenhum propósito comum se não ganharem nada por sua própria conta. Estamos indo para o muro. Nos

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anos 2000 eu pensava que a Internet seria uma ferramenta revolucionária, mas a realidade parece não ser bem-vinda na web. O único ato reconfortante que vi recentemente foi o discurso inaugural do vice-presidente da Bolívia, David Choquehuanca, no dia 8 de novembro de 2020, mesclando senso comum e valores ancestrais, tão refrescantes. De alguma forma, a tradição oral ainda vive na Bolívia, a bestei-

ra da internet ainda não destruiu totalmente a sociedade. Estamos todos indo rumo a “Idiocracia”, mas não no mesmo ritmo. Sobre esta modernização do consumo musical, como a banda se posicionou diante das novas tecnologias? E o que as plataformas digitais como Twitch, Discord e Patreon ajudaram a aproximar os


fãs da banda? “Quando em Roma, aja como os romanos".... Vivendo sob este regime, temos que nos curvar se quisermos sobreviver, como qualquer trabalhador do mundo. Tentamos ser ativos nas mídias sociais, graças aos nossos celulares, isso é ridículo, mas é assim que devemos fazer. O principal problema quando se é músico é encontrar seu público, já que não podemos mais fazer turnês por causa do Covid-19, temos que disparar publicações

nas mídias sociais e tentar reinventar nosso trabalho para "sobreviver" como uma banda. Não estamos nas plataformas que você lista (ainda. Quem sabe...), mas estamos tentando encontrar maneiras de manter contato com o público. Só espero que os isolamentos sociais ao redor do mundo sejam a oportunidade para milhões de pessoas ouvirem e descobrirem novas músicas, baixá-las e esperamos nos encontrar em shows ao vivo o mais rápido possível.

Eu me tornei músico porque o palco é o único lugar onde eu sinto que posso ser eu mesmo; não quero perdê-lo. De "H492053" a "A Distant (Dark) Source", a banda mistura muito bem os grooves e os momentos de calma. Isso não mudou. No entanto, ao ouvir os discos, sinto a banda se movendo em direção a mais músicas "noir". É um caminho intencional ou reflete o momento da


INTERVIEW. HYPNO5E

banda? Como escrevi antes, a vida não vai ser melhor, não há nada para se alegrar, ela só piora. Tocar música alegre nunca foi nosso forte, não há promessa de um melhor “amanhã”, nossa música é o reflexo de nossas almas. A propósito, " A Distant (Dark) Source " traz uma agitação sonora que me fez buscar referências em Opeth e Mastodon, enquanto " On The Dry Lake " me levou ao Behemoth..., mas no final, todas essas comparações se evaporaram. Como é que a banda conseguiu construir uma identidade tão única? Acho que há menos identidade em uma canção de 3 minutos do que em uma canção de 16 minutos. Nós viemos de uma vertente da música progressiva, um estilo em que você leva tempo para alimentar o ouvinte, o resultado é um banquete que cria identidade, eu acho. Eu nunca me deparei com o imitador de uma banda de rock progressivo, quanto mais você usa o tempo, menos você se parece com outra pessoa, eu acho. Gentle Giant,

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Yes, Pink Floyd, Genesis estão todos sob a bandeira do rock progressivo, ainda assim é impossível confundi-los. Ao ouvir Hypno5e, tento encaixar o estilo de som em avantgarde, metal novo, Djent, progressivo, mas é quase impossível. E no minuto seguinte, o som se encaixa em quase todos os estilos que mencionei anteriormente, ao mesmo tempo. Não é incrível essa liberdade? Sempre tentamos esquecer os gêneros ao compor, para não nos sentirmos restringidos em um certo estilo. A música mais simples de "A Distant (Dark) Source”, Tauca Pt.2 mistura música eletrônica e black metal, e nós nunca tínhamos tocado black metal antes. Ir além dos limites é o dever de um músico, penso eu. O mais importante, no final das contas, é que sua canção tem que te agradar. E por falar em liberdade do som, você já foi duramente criticado por se mover entre estilos? Pelo som que você faz, você não é do tipo que segue 'regras' e sim experimenta tudo o que a


INTERVIEW. HYPNO5E

música pode oferecer. Bem, foi bem difícil no início da banda: naquela época os locais e promotores de eventos não sabiam dizer que tipo de música estávamos tocando. Éramos muito metal e muito melódico para um show mainstream ou muito eletro para um show de thrash metal, encontramos pontos com muita dificuldade. Mas a galera do metal tem a mente aberta o suficiente para entender o que nós propomos. Ouvir 60 // ROCK MEETING // DEZEMBRO . 2020

metal é afiar suas habilidades auditivas. Analisar música para dançar, é bastante fácil. Se você quiser analisar metal você tem que se sentar e ouvir por muito tempo para entender todos os detalhes (ainda mais após a chegada de bandas como Mr. Bungle, The Dillinger Escape Plan etc....). Chegando ao final de nossa conversa, como a banda está se preparando para o próximo ano (com

ou sem uma pandemia)? O que podemos esperar? Obrigado pela oportunidade. Sucesso e cuidado! Continuamos planejando turnês, todas elas são adiadas, mas eventualmente haverá algum que tocaremos! Já estamos trabalhando no próximo álbum, o que não é fácil porque essa pandemia está fazendo nossos recursos se esvaírem. Em 2021, você nos verá de volta à estrada ou no YouTube e no Facebook.



INTERVIEW. NOCTURNAL BLOODLUST

POR KAYOMI SUZUKI / FOTO KAZUHISA TAKAYAMA TRADUÇÃO JAPONÊS KIKUTA MEIKO

O

mundo da música é vasto e imprevisível, com certeza o Japão é um lugar distante para nós, pouco conhecido, mal explorado. Dono do segundo maior mercado de música do mundo, entre diversos artistas de pop, o cenário de metal e hardcore sofre para sobreviver, mas esconde tesouros incríveis. Nocturnal Bloodlust (às vezes chamado de Nokubura pelos integrantes) é um destes. Com dez anos de carreira, um passado turbulento com dois integrantes deixando a banda, um sendo preso, e com o restante quase desistindo de tudo, o Nocturnal Bloodlust chegou a quase desaparecer, mas ainda vive e com certeza retornou das cinzas muito melhor e mais forte.

Esses últimos meses foram bem difíceis para o Nocturnal Bloodlust, a banda ficou inativa por algum tempo, o que levou a muitos fãs a acharem que a banda não iria retornar. E quando vocês retornaram com “Life is Once”, o que mais chamou atenção foi a parte “I was close to disappear". Vocês chegaram a pensar na possibilidade de encerrar as atividades? Hiro - Bem eu não tinha ideia sobre o futuro. O que iria acontecer. Muitos problemas surgiram em poucos meses. Eu quase desisti de mim mesmo. A gente passou por um momento muito difícil nesses últimos meses, ficamos perdidos. 62 // ROCK MEETING // DEZEMBRO . 2020


Óbvio que ficamos desapontados e tristes. Não sabíamos como continuar com a banda. Eu até mesmo parei de cantar e fiquei longe da música, cheguei a quase perder meus sentimentos pela música. Essa volta da banda foi uma surpresa para todo mundo, muitos chamaram de “O contra-ataque do Nocturnal Bloodlust”, especialmente porque a banda retornou sem falar nada, apenas lançaram a

música. O que mais impulsionou vocês a retornarem? Hiro - Pensamos que o tempo iria resolver o problema. Tinha coisas que nós, como integrantes da banda, tínhamos que conversar. Não foi muito movido a motivação, nós só tínhamos que conversar como poderíamos continuar com a banda.

agressivo, especialmente em “Life is Once” e “Reviver”, que diz “I just wanna fight again". É quase como se vocês colocassem toda a sua frustração para fora, certo? Hiro - A banda ficou parada por um período. Durante esse tempo, eu escrevi meus sentimentos em um papel para me lembrar de como eu me senti. Eu estava determiDurante os três lança- nado a voltar. Não é como se mentos, as letras e o som eu estivesse escrevendo penvão para um lado mais samentos negativos, eu esta-


INTERVIEW. NOCTURNAL BLOODLUST

va mais me preparando para o próximo passo. Letras (da música) tiveram um poder de tornar coisas negativas em positivas, quase como eu dizendo para mim mesmo “Eu estou pronto!”. Eu estava escrevendo frases e não palavras. Inclusive me lembro de ter escrito “Eu me matei uma vez” (I killed myself once - ele disse em inglês). Sim, eu me matei uma vez mas se eu começar de novo, eu quero ser outra pessoa. Eu literalmente 64 // ROCK MEETING // DEZEMBRO . 2020

matei o meu passado, pratica- julgados por muita gente mente renasci com essas três diante de todos os acontemúsicas. cimentos, não foram? Hiro - Na verdade não, é Em “Only Human” é um mais sobre o mundo e o que pouco diferente, ainda vem acontecendo. O coronatem uma pegada agressi- virus afetou todos nós, mas va, porém tem outro foco. ainda temos coisas como disNa parte “As the popu- criminação, bullying, midias lation increases, people sociais sendo tóxicas e outras start to judge people by coisas mais. different pieces, different colors and different thou- Inclusive o Nocturnal ghts.” Eu me lembro que Bloodlust existe desde vocês acabaram sendo 2009, no início muita


gente considerava o estilo da banda visual-kei, porém com o tempo a banda foi mudando o som e as músicas se tornando mais pesadas, mais agressivas, caindo mais no estilo metalcore. Vocês sentem que são julgados ainda por esse passado? Como foi essa evolução? Masa - Nós começamos como uma banda comum de metal, nós seguimos um caminho e estilo diferente. A música que queríamos fazer, a maneira de se expressar, acaba se encaixando melhor no visual-kei (um estilo de música do Japão). Especialmente porque acabamos nos tornando populares no cenário de visual-kei. É tipo, bandas de metal às vezes fazem músicas mais calmas, ou mais pop, não significa que a banda se tornou J-pop por causa disso. A gente sempre sentiu que somos uma banda de metal, mas não importa na verdade. Tá tudo bem ser chamado de visual kei, mesmo vale para J-rock ou metal. A gente só faz o que gosta. Sei que no Japão o cenário de metal, hardcore, visual-kei, ainda é bem pequeno, vocês acham que

PRECISAMOS FAZER BOAS MÚSICAS, TRAZÊLAS PARA O EXTERIOR E DEPOIS LEVÁLAS DE VOLTA AO JAPÃO


INTERVIEW. NOCTURNAL BLOODLUST

ele tem crescido cada vez mais? Como vocês acham que será o futuro desse mercado? Hiro - A cena metalcore não cresceu muito nos últimos 10 anos. Algumas bandas estão indo bem. É mais sobre como abordamos a situação. O mais importante agora é como se sair bem no exterior. Precisamos fazer boas músicas, trazê-las para o exterior e depois levá-las de volta ao Japão. Estamos em um país pequeno. Se queremos fazer algo grande, também precisamos ter visões maiores. Eu anteriormente estava em uma banda de metal no exterior, então eu sempre quis que a banda fizesse sucesso fora do Japão desde o início. Masa - Algumas bandas na cena ‘loud rock’ (é como chamam a cena hardcore/metal/ etc no Japão) vão mais para o exterior agora. Como Crossfaith, Crystal Lake e Coldrain. Você vê bandas japonesas tocando em festivais por todo o mundo. Isso também significa que, se as bandas não 66 // ROCK MEETING // DEZEMBRO . 2020


Crystal Lake parece mais popular no exterior. Por que você acha que a cena de metal e hardcore no Japão não é tão grande? Masa - Simplesmente não temos fãs de metal suficientes. Acho que depende do estilo da música, mas não temos É interessante como muitas pessoas que gostam de você mencionou algu- Metal e Hardcore. mas dessas bandas como Crossfaith, Crystal Lake, Valtz e Yu-taro são os Coldrain. Existem fãs no dois novos guitarristas do Japão, mas, por exemplo, Nocturnal Bloodlust, mas

puderem se aproximar do exterior, elas ficarão presas na minúscula cena hardcore do Japão. Acho que não devemos ficar em nossa concha, então por isso estamos fazendo essa entrevista em português por exemplo.

parece que já fazem parte da banda há anos. Foi difícil para vocês se adaptarem ao estilo da banda? Como foi entrar em uma banda que tem mais de 10 anos de carreira? Yu-taro - Eu sou amigo da banda há cerca de 10 anos. Éramos amigos quando eu ainda estava com minha antiga banda. Eu sabia que o Nokubura (apelido da banda) estava tocando deathcore e metalcore antes de eles co-


INTERVIEW. NOCTURNAL BLOODLUST

meçarem a entrar na cena visual-kei. Eu tocava metalcore também, então não tive que mudar nada para me adaptar. Eu gosto de metalcore e achei que não havia problema algum em mostrar isso com o Nokubura. Não foi nada de especial sinceramente. Masa - É como se os bons e velhos amigos fossem brincar juntos. lol ‘ei, vamos fazer um show juntos!’ Não foi nada difícil para nós nos ajustarmos. Valtz - Fico feliz em ouvir 68 // ROCK MEETING // DEZEMBRO . 2020

você dizer que pareço que estou na banda há anos. Não foi difícil para me adaptar. Como Masa disse, nós nos conhecíamos antes e minha formação musical é basicamente a mesma da Nokubura. A banda existe há mais de 10 anos, eu não me senti muito pressionado sobre isso.

no que gravar e compor

Diante da pandemia que estamos no momento, diversas restrições estão sendo impostas e imagi-

de fazer, mas eu estava gos-

músicas tenha se tornado mais difícil. Vocês tiveram alguma dificuldade em se adaptar às restrições para gravar? Masa - Estávamos gravando e escrevendo músicas todos os dias. Esses tipos de música são sempre difíceis tando de compor com os novos integrantes e tudo saiu perfeitamente.


Eu sei que isso é delicado, mas em relação ao cancelamento do show e tudo mais. Vocês têm algum ressentimento sobre o que aconteceu antes? Ou ficou tudo bem? Masa - Não ficou tudo bem. Ficamos tristes e nos sentimos mal pelos nossos fãs. Nós somos os que entendemos a situação ao máximo, então ela nos atingiu com força. Natsu - Sim. Lamento muito por cancelar os shows. Mui-

Masa - Acho que encontramos uma nova maneira de performar. Instalive não era algo disponível antes, mas agora é. O show online tamO cenário musical teve bém é outra maneira de se que se adaptar a pande- apresentar. Muitas bandas mia, uma das adaptações provavelmente vão continuar. foram os shows online. O que vocês acham dessa Eu acredito que é bom nova maneira de se apre- para os fãs estrangeiros. sentar? Acham que isso Eles podem finalmente continuará no futuro ou ver o show de suas banvai ser esquecido quando das favoritas. Mas é claro tudo se acalmar? que eles sentem falta dos tas coisas aconteceram antes disso, mas nem tudo foi explicado. Por isso temos que compensar no futuro.


INTERVIEW. NOCTURNAL BLOODLUST

shows reais. Masa - Claro. Shows online são bons nesse sentido, mas se continuar fazendo com muita frequência, não terá nada novo. Preferimos fazer turnês. Queremos produzir músicas que façam as pessoas quererem vir aos nossos shows de verdade. O “The Wasteland” visa isso. Notei que atualmente o Nocturnal Bloodlust tem estado mais presente nas redes sociais, com as músicas sempre disponíveis em plataformas de streaming. Como as plataformas digitais tem ajudado as bandas? Tem algum lado negativo? Masa - Eu não acho que haja algo negativo. É gratuito e nos ajuda Hiro - Eu me pergunto por que não usamos antes. Masa - Usaremos mais a partir de agora. Acho que nos sentimos mais próximos de nossos fãs, especialmente do exterior.

constantemente fazendo instalives. Às vezes as bandas do Japão não se promovem usando mídias sociais ou YouTube, e etc. Eu me pergunto por quê. Masa - Alguns seguem intencionalmente esse estilo. Eles não querem fazer bandas muito ‘populares’. As bandas têm certos estilos, mas o uso das mídias sociais atualmente é algo mais ‘natural’, então vamos continuar com instalives e outras coisas mais.

A última vez que o Nocturnal Bloodlust se apresentou no exterior foi em 2016, e agora vocês estão disponibilizando um show online para pessoas fora do Japão assistirem. Vocês têm planos de se apresentarem no exterior novamente? Algum lugar em específico que vocês queiram visitar? Hiro - Com certeza! Masa - Estamos planejando ir para a Europa. É difícil dizer exatamente com a panEu sei que o Natsu está demia acontecendo, mas es-

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INTERVIEW. NOCTURNAL BLOODLUST

tamos planejando turnês no de muitos países diferentes. exterior. Muitos do Brasil. Muitos do México também. Também da Há uma gama de fãs no Indonésia. Nós iremos aonde Brasil que consomem as as pessoas nos quiserem. músicas vindas do Japão. Qual é a conexão que vo- O Nocturnal Bloodlust cês possuem com os ou- lançou o mini-álbum The vintes desse lado do pla- Wasteland no último dia neta? 16 e tem show marcado Masa - Fico feliz e grato em para 2021, certo? ouvir isso. Por favor, aumente Hiro - Eu estou animado para a base de fãs para que possa- ter um show de verdade! mos ir em breve. Masa - Já fizemos o show onHiro - Nós realmente quere- line, mas estou ansioso para mos ir para o Brasil. Vejo pes- fazer um show de verdade soas comentando no Twitter com o Yu-taro e o Valtz. 72 // ROCK MEETING // DEZEMBRO . 2020

O que podemos esperar de você no futuro? Algum plano? Espero poder te ver no Brasil um dia! Masa - Muitos planos, mas mantenho em segredo! Nossa atuação principal foi no Japão, então queremos fazer turnês no exterior e participar de festivais de música futuramente. Quero muito ir para o Brasil. Nós prometemos que iremos! Além disso, lançaremos muitas músicas, portanto, espere ansiosamente para verificar nosso próximo passo.



CAPA . VEIL OF MAYA

POR PEI FON / FOTO PROMOTION

D

esde que a Rock Meeting assumiu o compromisso de mudar e ampliar os horizontes, temos acompanhado e entendido a história de cada banda que está aqui representada. Nesse âmbito de mudança, o Veil of Maya é a prova viva de que não se prendeu ao estilo. Quando mudou de vocalista, mudou toda a concepção que outrora os fez visíveis, mas foi em “Matriarch” que eles realmente cresceram. Esse álbum marca o início de um novo ciclo para eles e é um dos cds que todos devem escutar. A Rock Meeting teve a oportunidade de conversar com o guitarrista Marc Okubo, a cabeça pensante da banda. Viajamos pela discografia, tiramos dúvidas, confrontamos o tempo, fizemos um paralelo entre o passado, presente e futuro. Com vocês, Marc Okubo, Veil of Maya.

Foto: Alyssa Howell

Vocês estão na estrada há 16 anos e continuam ativo. O que mantém vocês vivendo pela música? Marc Okubo - Neste ponto, é tudo o que

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sei. Não vejo a turnê como um trabalho, mas mais como uma celebração pelo trabalho que fizemos anteriormente. Mais do que qualquer outra banda, você entende o que é mudar o curso e navegar por mares diferentes. Essa mudança foi pensada ou ocorreu naturalmente? O que o fez mudar?

Acho que foi natural. Os instrumentais de Matriarch foram quase todos feitos antes de nosso último vocalista sair. Ele era mais um vocalista de death metal, então teríamos convidados para as partes que precisavam ser cantadas. Acabamos com um vocalista que podia cantar, então gravamos mais músicas do que planejamos originalmente. Para mim, escrever instrumental-

mente não mudou muito. Ao longo de tudo que vocês lançaram, é perceptível as variações nas linhas vocais, sem falar na sonoridade da banda. Como você avalia o caminho desde “All Eyes Look Ahead” (do álbum “The Common Man’s Collapse”) até “Outsider”? Bem, meu conceito para es-


CAPA . VEIL OF MAYA

crever sobre “o colapso do homem comum” era não ter partes repetidas. Eu gostava muito de death metal técnico naquela época e queria que o Veil of Maya misturasse isso com o som hardcore que vinha de Chicago. Com novas músicas como “Outsider”, adicionamos refrões e partes repetidas. O estilo dos riffs é apenas uma versão mais madura do que costumávamos fazer.

dos fãs? Tem sido extremamente positivo! Muito obrigado a todos que conferiram! Mal posso esperar para lançar mais de nosso material!

Vocês pretendem lançar outro single até dezembro ou esperar até 2021? Na verdade, vocês pretendem manter essa dinâmica de singles ou irão lançar o álbum completo de uma vez? Em maio passado houve Vamos lançar novo material uma entrevista com o Me- em 2021. Desculpem a espera. tal Sucks onde Marc Okubo falou sobre o próximo A pergunta que todos álbum. Ele disse que gos- querem fazer: quando taria de ter uma vibração você pretende lançar o de death metal técnico sucessor de “False Idol”? com pegadas progressi- O que você pode dizer sovas. Isso aconteceu? Po- bre esse novo álbum? demos esperar ver as Bem, nossos planos obviaraízes da banda de uma mente mudaram em 2020. forma mais moderna? Estávamos planejando lançar RISOS. Sim. um novo álbum agora. Estamos todos espalhados pelo Uma prévia do próximo país, então temos trabalhado trabalho é “Outsider”. nas músicas e gravando nosComo tem sido a resposta sas partes individualmente.

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HÁ NOVAS PARTES SENDO ESCRITAS TODOS OS DIAS E POSSO DIZER QUE TEMOS MATERIAL SUFICIENTE PARA UM ÁLBUM


CAPA. VEIL OF MAYA

Dado esse cenário de ausência de shows ao vivo, o que você tem feito para manter seus fãs próximos? No começo eu estava fazendo streams e podcasts, mas ultimamente tenho me preocupado comigo mesmo. Peço desculpas a todos que estou Não sei se você estava negligenciando, mas acho que pensando sobre a pan- vai valer a pena no final :) demia, mas esta parte de “Outsider”, “Ninguém O uso massivo de platapode alegar que está se- formas digitais neste peguro agora” (No one can ríodo pandêmico é eviclaim they’re safe now), dente. Como você vê que reflete isso muito bem. Twitch, Patreon, Discord Como você vê a pós-pan- agiram em nome de bandemia, principalmente das e músicos? pela volta dos shows? Parece que foi o movimento Acho que todo mundo sen- de muitos músicos. Acho que te falta de música ao vivo e todos deveriam fazer o que interação. Esta foi uma fuga funciona para eles. Para mim, para mim e para tantas outras coisas como videogames gepessoas. Agora que sabemos ralmente são terapêuticas e só que ela pode ser retirada, de- para mim. Eu não quero uma vemos apoiá-la tanto quanto audiência para jogar RPGs pudermos quando retornar. japoneses. Da perspectiva de Estar socialmente distanciado de todos não tem sido útil para minha criatividade, mas estou voltando lentamente. Há novas partes sendo escritas todos os dias e posso dizer que temos material suficiente para um álbum, que estamos aprimorando continuamente.

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um fã, é uma maneira incrível de se conectar com as pessoas que você admira e eu entendo isso. Acho que vou pular mais para streaming e interação quando estiver confiante de que todas as músicas do nosso novo álbum estão terminadas. Pensando no uso dessas plataformas, vocês planejam fazer algumas transmissões ao vivo para divulgar o novo álbum, de forma a diminuir esse gap sem ter shows ao vivo? Fizemos em um ponto, mas nos espalhar é difícil e nossa prioridade deve ser concluir este novo material. Veremos o que acontece.

Todos fomos atingidos pela pandemia, mas o entretenimento foi o primeiro e será o último a voltar como antes. Você acha que esse mercado deveria repensar sua forma de operar devido à pandemia? Como as bandas podem ajudar nessa construção do ‘novo normal’? O mercado vai ter que evoluir com a situação. Não teremos todos os locais que tínhamos depois que isso acabar. Já participei de alguns eventos de estacionamento socialmente distantes e foram muito divertidos. Não sei como isso se traduzirá no Metal, mas sei que as pessoas sentem falta dos shows ao vivo. Eu só espero que todos percebam que não estão sozinhos nisso e precisamos aguentar para que possamos comemorar juntos novamente.


CAPA. VEIL OF MAYA

“False Idol” completou três anos desde seu lançamento inicial. Qual é a sua avaliação deste trabalho? Já pensou em mudar alguma coisa ou este é o melhor trabalho para a época? Eu quero seguir em frente. False Idol foi apenas um capítulo no enorme arquivo desta banda e mal posso esperar para lançar outro álbum. O álbum “Matriarch” é completamente diferente de “Eclipse”, por exemplo. São praticamente duas bandas distintas. “Matriarch” foi uma virada de jogo para a banda? Bem, isso ocorre principalmente porque temos vocalistas diferentes nesses lançamentos. Já que escrevi a música para ambos, ainda sinto que eles são a mesma banda. A principal diferença para mim escrevendo foi a adição de refrões à nossa estrutura musical. Adicionar canto nos trouxe um novo grupo de fãs, mantendo a maior parte do 80 // ROCK MEETING // DEZEMBRO . 2020


riormente da banda Volumes. Lembro-me de escrever e gravar a maior parte dessa música no quarto de Diego pensando que foi um fracasso. Acabamos terminando a música depois que nosso antigo vocalista saiu da banda e a usamos para os testes. Sinto muito a falta de Diego. Essa música também me lembra do enorme risco que corremos ao adicionar o canto. Acho que essa pode ser a razão de ter recebido tanta atenção. Nunca tínhamos cantado um antigo. O público começou a refrão antes do lançamento cantar junto conosco ao vivo dessa música. e isso nunca tinha acontecido “Nós sobrevivemos em antes. tempos miseráveis. E Ainda sobre “Matriarch”, prosperamos nos tempos é inegável o quão lindo mais miseráveis ”. “Mié esse álbum. A primei- kasa” foi escrita há cinco ra música que ouvi foi anos e essa parte nunca “Mikasa”, não é surpre- foi tão atual, sem falar sa que ela tenha mais de que se encaixa na expe17 milhões de ouvintes riência individual. Como apenas no Spotify. O que banda, o que você supeessa música representa rou para estar onde está? Como uma banda, começapara você? Essa música me lembra meu mos a tocar uma combinação irmão Diego Farias, ante- de estilos musicais que mui-


CAPA . VEIL OF MAYA

tas pessoas não entendiam. Não nos encaixamos com as bandas de hardcore e metal que estavam surgindo. Fazer turnês costumava ser muito difícil para nós. Nós persistimos e crescemos mais bem-sucedidos a cada lançamento e, eventualmente, nossa música nos levou por todo o mundo tocando para um público incrível. Para encerrar nossa conversa, quais são os planos para 2021? Muito obrigado e esperamos vê-lo no Brasil. Fique seguro! Vamos lançar mais músicas e começar a nos apresentar assim que for seguro. Obrigado a todos por nos acompanharem. Nós sentimos falta de vocês. Espero que possamos IR PARA O BRASIL!

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LIVE REPORT . NOCTURNAL BLOODLUST

NOCTURNAL NOCTURNAL BLOODLUST BLOODLUST BY KAYOMI SUZUKI / PHOTO KAZUHISA TAKAYAMA


LIVE REPORT . NOCTURNAL BLOODLUST

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epois de um ano turbulento, o Nocturnal Bloodlust renasceu das cinzas e decidiram que iriam voltar ainda melhores. Com o lançamento do álbum “The Wasteland”, a banda gravou um show especial para ser transmitido online para todos os fãs que esperavam ansiosos pela volta da banda. “Life is Once” abriu o show, assim como o retorno do Nocturnal Bloodlust, foi quase como um soco no rosto do telespectador. Os riff de guitarra de Vatz e Yu-taro, a bateria monstruosa de Natsu, 84 // ROCK MEETING // DEZEMBRO . 2020


o baixo intenso de Masa, unido com a voz de Hiro, foi a entrada perfeita. As luzes seguiam as batidas da música e, entre um clarão e outro, você podia ver que nenhum dos integrantes esqueceram como se apresentar em um show. Seguindo a linha de lançamentos, tivemos “Only Human”, e então a surpresa de ouvir músicas passadas da carreira da banda. Como “Juso” onde os integrantes começaram a se sentir mais à vontade, Hiro com cer-


LIVE REPORT . NOCTURNAL BLOODLUST

teza não parecia fazer esforço nenhum para manter seu gutural, inclusive ele e Masa se juntaram aos telespectadores para um pouco de headbang. “Punch Me If You Can” e “Venom” foram as duas surpresas que qualquer fã do Nocturnal Bloodlust poderia querer. Para fãs que não entendiam japonês, durante todo momento que os integrantes pausam para comentar sobre o show, legendas em inglês apareciam na tela. Em um desses diálogos, Hiro então disse o que todos esperavam: as músicas do novo lançamento, “The Wasteland”. Com certeza, “Propaganda” foi uma ótima escolha, mas “Rem” definitivamente é uma das músicas mais interessante. O começo te engana facilmente, aquele som sutil que não parece mesclar em nada com a banda e todo o visual metalcore, e então os riffs de Valtz e Yu-taro invadem a música. Aquele estrondo da ba-

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teria vem com tudo e você só quer empurrar os móveis de casa para fazer um mosh pit contra a parede. Sucessos como “Malice Against”, que trazem um lado mais melódico a voz de Hiro, vem lá de 2016, mesma era de “The Strength I Need”, que também apareceu no show online e com certeza foi a música com tom mais ‘leve’ que foi apresentada. Não sabemos se era a intenção, mas foi como se o


LIVE REPORT . NOCTURNAL BLOODLUST

Nocturnal Bloodlust estivesse nos contando uma história, viajando pelo seu passado, passeando pelas angustias e chegando ao fim. O fim, neste caso, era o renascimento da banda. De “Faceless” para “Left Behind” a mudança de tom foi grande, ainda que com um baixo carregado e riffs acelerados, mas a surpresa foi ver o quanto o tom de voz de Hiro consegue mudar em “Feel Myself Alive”, que inclusive conta com Masa no backing vocal. A banda toda muda bastante durante essa música de uma forma extremamente agradável, mostrando que suas habilidades não se limitam a só um estilo. A música da noite foi “Reviver”, que marcou o ‘renascimento’ do Nocturnal Bloodlust. E nunca as palavras “It can’t be broken and it’s bigger than before. So take my hands to walk with me” foram tão reais. O Nocturnal Bloodlust não irá se quebrar e retornou ainda melhor e maior, prontos para tomarem o mundo.

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LIVE REPORT . LA INQUISICIÓN

INQUISICIÓN LALAINQUISICIÓN ESTRAPERLO CLUB DEL RITME WATCH ON YOUTUBE BY MAURICIO MELO

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S

im, é estranho até para dos registrados e cheio de le- município e entrar em outro, começar

a

escrever. tras expondo uma realidade autorização para circular fora

Editar as fotos então espanhola que pouca gente do toque de recolher, compro-

pareceu algo de outra galáxia. realmente conhece. Letras vante de residência, máscaApós mais de oito meses, ti- ácidas, irônicas e debocha- ras, álcool gel no bolso e muivemos a oportunidade de ir a das como somente o quarteto to mais. um show e mais, no nosso clu- pode apresentar. be favorito, o Estraperlo.

Enquanto muitos so-

Diante de todas as res- bem pelas paredes para ir a

O grupo La Inquisi- trições da realidade atual, um evento, confesso que por

ción está de volta e com um tivemos que ter uma série causa da inatividade, cheguei bom disco debaixo do braço, de documentos na mochila. a acreditar que ir a shows já Tenevrae, com nove petar- Autorização para sair de um não tinha tanta importância,


LIVE REPORT . LA INQUISICIÓN

que talvez já nem conseguisse imagens boas ou até mesmo não soubesse operar a câmera como antes.

Tudo isso se dissipou

quando os primeiros acordes de guitarra começaram a soar no Estraperlo, o grave do baixo, o bumbo e a caixa da bateria trouxeram à tona aquela velha sensação, aquele vulcão de emoções, adrenalina e um pequeno sorriso no canto da boca.

Curioso também é o

novo formato que, momentaneamente, temos que nos adaptar. Ao invés de público, encontramos ali um bom punhado de profissionais, câmeras, computadores e telas espalhadas por todo o recin-

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to. Técnico de som, iluminação mais do que em dia, fones de ouvido para comunicação direta entre os operadores de câmera (fui um deles) e o nosso Estraperlo mais parecia um estúdio de televisão.

Contagem

regressiva,

introdução, banda no palco, muito bem postada e familiarizada com a nova realidade. O quarteto sabe de sobra que seu grande público está em casa e a interação com as câmeras é total. Os fotógrafos na retaguarda para não “poluírem” a imagem ainda que em alguns momentos marquem sua presença em algum


LIVE REPORT . LA INQUISICIÓN

canto do vídeo.

Assim como muitas bandas, que tê-lo presente para lem-

“Stella Maris” e “El o disco foi gravado em março brar de nossas derrotas, per-

Himno de España”, ambas do com previsão de lançamento das irreparáveis, lições e nodisco novo, deram o tiro de antes do verão europeu e en- vos aprendizados.

O novo

partida. Outras como “Febre- tão embarcar para uma turnê formato de Streaming faz ro”, “Falsos Profetas” e Ver- e festivais em outros países. parte de nova realidade, desdadera Fé” do setlist habitual Uma grande pena que tenha se novo aprendizado, de seres também marcaram território. sido lançado nesse formato, humanos que são obrigados a Entre ângulos, fones de ouvi- mas considerando a abstinên- se reinventar porque o mundo dos e acordes tudo é muito in- cia que o público sofre nesse estava, ao parecer, muito motenso. A música título “Tena- momento, já podemos visua- nótono. vrae” também invadiu lares lizar um Estraperlo abarrota- na noite daquela sexta-fei- do em breve. Que assim seja.

“Estarás sempre comi-

go e em meus pensamentos.

ra igualmente como “1991”, Finalizando. O ano de 2020 Apenas siga o caminho de “Todo Pasa”, “Guerra Total”. não será esquecido, temos luz”.

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INTERVIEW. ATEMIZ

POR VAGNER MASTROPAULO / FOTO RAFAEL FERREIRA

S

e você não conhece a Atemiz, esta é sua oportunidade! Super motivada após um hiato, está de volta a banda gaúcha que já teve Guto Gaelzer (voz e guitarra), Nick Motta (voz e baixo), Guilherme Wildner (guitarra solo) e Roger Decke (bateria) em sua “formação clássica”. É claro, com o mundo todo “pausado” pela pandemia, era de se esperar que Guto e Nick, estivessem incertos para onde ir em 2020, mas para eles o cenário não é bem esse. Primeiro veio “Obrigado”, depois “Vênus” e, entre ambas, uma entrevista de 23/11 para o portal RDC, que repercutiu localmente. Mas a ambição agora é nacional, mesmo com o ano no fim. O que vem por aí? Um clipe para “Vênus” (o primeiro desde julho/14, quando saiu “A Cada Amanhecer”), filmado em Nova York, Curitiba, São Paulo e Balneário Camboriú e, até o final do verão, um EP só de covers. Para saber como vai a Atemiz, conversamos com os dois membros fundadores ainda no line-up e não estranhe que, às vezes, ambos respondem as perguntas. Obrigado pela entrevista! Indo do fim para o início, como vocês se conheceram? Como a Atemiz começou? Primeiros ensaios e formação. Qual foi o

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Foto: Vica Bueno

momento em que vocês se deram conta que já eram uma banda? Nick Motta - Quando ainda estávamos gravando nossas demos e fomos selecionados pelo jornal Diário Gaúcho para tocar na final do Concurso Chance. Ali tivemos que definir uma formação e ensaiar para o show.

Guto Gaelzer - Eu e o Nick somos de Porto Alegre e éramos vizinhos. Somos do bairro de Petrópolis. Nós nos conhecemos por um amigo em comum, o Boss DJ, no Parque Germânia, que fica em frente ao Shopping Bourbon Country em Porto Alegre.

lação com a deusa grega, mas vocês modificaram a grafia. Por que essa opção? Como nasceu o nome da banda? Nick - Na época, ouvíamos muito Anberlin e falávamos que precisávamos de algo curto que começasse com a letra “A”. Após ampla pesO nome da banda tem re- quisa, chegamos a “Ártemis”,


Foto: Alice Costa

INTERVIEW. ATEMIZ

deusa grega da lua e da caça. Achamos muito legal o significado e resolvemos “estilizar” para se tornar algo único e não confundir nas pesquisas do Google. Curiosamente, para o padrão da Atemiz, a música “Vênus” é o que tem de mais pesado criado por vocês. Seguir esse caminho foi natural ou 98 // ROCK MEETING // DEZEMBRO . 2020

intencional? Guto - Na quarentena, estávamos conversando sobre voltar a gravar e ela ficou assim porque estávamos ouvindo discos novos de rock, que surgiram principalmente em 2020: All Distortions Are Intentional (Neck Deep), Tickets To My Downfall (Machine Gun Kelly) e Forever + Ever x Infinity (New Found Glory). Muito do que ouvimos

são bandas que se “permitiram” mais em colocar mais peso e distorção nas guitarras. O self-titled do Blink-182 (2003) também foi uma grande influência para essa nova roupagem para a música e resgatamos esse disco totalmente durante este ano. Composta por Nick em parceria com Guto e Henrique Fioravanti (pro-


Essa faixa marcou o retorno da Atemiz após hiato de cinco anos. Ainda parados, vocês lançaram algo nesse período... Guto - O hiato é curioso. Apesar de não produzirmos ou vivermos como banda, Nick e eu sempre conversávamos e tentávamos nos ver sempre que possível, mesmo morando longe um do outro. Em 2018, já havíamos feito sessões de estúdio para lançar “Tudo Que Quero Contra Aquilo Que Preciso” (na práti-

Foto: Anderson Godinho

dutor), “Obrigado” soa como agradecimento a quem passou a conhecer o trabalho de vocês agora e também a quem os acompanha há tempos. É isso mesmo? Como foi a recepção? Nick - Na verdade, “Obrigado” foi escrita há alguns anos e a compus como presente a minha namorada. Ela retrata como é estar apaixonado e resolvemos gravá-la agora nessa vibe com peso, mas também há referências aos nossos discos anteriores. A recepção foi incrível nas redes sociais.

O PROCESSO DE PRODUZIR, GRAVAR E ESCREVER ERA UMA TERAPIA PARA NÓS


INTERVIEW. ATEMIZ

ca, a regravação de demos antigas, nunca ou pouco utilizadas no período de atividade, mais o cover de “Resposta”, do Nando Reis, famosa pela versão do Skank). Ainda nessa reunião da “formação clássica”, tocamos no Bloco Emo em Porto Alegre, no antigo Beco 203. Show sold out que está no nosso canal do YouTube e foi o único que fizemos desde 2015.

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O isolamento tem sido sinônimo de pausa forçada, mas não para vocês. E não parece terem sido prejudicados musicalmente. Como tudo se desenhou para vocês? Guto - Justamente para não enlouquecermos durante o confinamento, sobretudo nos primeiros meses, começamos a conversar e trocar ideias sobre como fazer algo e tirar

a cabeça do isolamento. O processo de produzir, gravar e escrever era uma terapia para nós. Nick - Eu sentia que tinha que deixar a criatividade fluir. Estávamos e ainda estamos vivendo uma tempestade de sentimentos durante a quarentena. Guto mora em Nova York e Nick em Floripa. Como


é ter uma banda à distância? Como vocês compartilham material musical? Nick - A distância nunca foi problema para mantermos contato. Conversamos todos os dias por WhatsApp e chamadas de vídeo sobre música, filmes ou o Grêmio. Somos melhores amigos e sempre estamos em contato. As ideias fluem bem e gravávamos trechos das músicas novas em

Foto: Vica Bueno

casa e íamos enviando um para o outro. Fui a Porto Alegre para regravar algumas coisas com o Henrique Fioravanti e o Guto montou um home studio no apartamento dele. O que vem primeiro: música ou letra? Já aconteceu de surgir algo a partir de um conceito para a letra e daí vocês bolarem

o resto? Guto - Depende muito da situação. Normalmente as duas coisas vão surgindo juntas e depois alteramos e adicionamos notas. “Vênus” e “Obrigado” já tinham letras prontas ou encaminhadas quando montamos os arranjos. Temos outras demos mais instrumentais, mas a próxima música, por exemplo, é um riff que nunca tínhamos usa-


Foto: Vica Bueno

INTERVIEW. ATEMIZ

do e começamos a montar a nossos alcances vocais. Ten- e o termo, ao invés de se letra em cima da demo. Cada tamos fazer melodias para distanciar. Como vocês caso é um caso. que as vozes se completem. veem tudo isso? Guto - Não temos e nunca Vocês dois tocam e can- No release de “Obriga- tivemos problemas com a detam. Como definem quem do”, vocês se denomi- nominação “emo”, que vem será o responsável pelos nam “pop-punk-emo”. do “emotional hardcore” do vocais em cada música? Não dou importância a final dos anos 90: a base do Rola algum tipo de nego- rótulos. Porém, admito a hardcore com letras mais inciação? surpresa com a inclusão tensas e guitarras e vocal meNick - É bem tranquilo! To- da parte “emo”, estilo e lódicos. Não ser “bem visto” das as músicas são divididas associação musical nem tem a ver com a estética visual para aproveitarmos ao má- sempre tão bem aceitos. que acompanhou a cena, mas ximo a “zona de conforto” de E vocês abraçam a causa creio que tudo faz parte de

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Mirando o futuro, vocês estão para soltar um clipe para “Vênus”, com imagens em quatro cidades: Nova York, Balneário Camboriú, Curitiba e São Paulo. Ficam meio óbvias as escolhas das duas primeiras, mas por que

Curitiba e São Paulo? Guto - Desde que começamos a falar em mais músicas e logo após os novos lançamentos, nossos fãs nos cobram um clipe e há tempos não lançamos um. Decidimos que deveríamos manter o conceito da gravação das músicas à distância e fazer o mesmo com o clipe. Gravaremos em cidades diferentes, em separado, e o que nos junta e nos conecta é a música. Curitiba fará parte da história, mas é surpresa. São Paulo terá par-

ticipação do Luiz Miller, que toca guitarra na música. Como vocês farão com as partes de logística e tecnologia para captar imagens, enviar o material e editar tudo? Já há uma data para a previsão do lançamento? Guto - Não temos data definida, mas estamos nos esforçando para lançá-lo até o final do ano. Aqui nos Estados Unidos, será uma produção da Aura Media. No Brasil, mon-

Foto: Alice Costa

uma geração de jovens querendo se expressar. No punk do meio dos anos 70, também havia moicano e calça rasgada. O que importa e o que fica é a música.


INTERVIEW. ATEMIZ

tamos um time forte liderado música ainda este ano. Para pelo Jean Rangel. 2021, estamos avaliando se finalmente tocaremos adiante Para finalizar e depois o o projeto de gravar um EP só espaço é de vocês para de covers. Sempre falamos em darem o recado. Quanto a fazer isso um dia. E já temos novas composições, o que demos para meio disco novo pode ser adiantado? Já há na manga! material gravado? Muito Guto - Muito obrigado pelo obrigado! carinho! As reações nas reNick - Temos algumas demos des sociais estão fantásticas e e vamos terminar mais uma isso está nos motivando a tra-

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çar mais planos e metas para o ano que vem. Lembrando que nosso primeiro disco faz dez anos em setembro. Quem sabe até lá não dê para planejar uma turnê comemorativa? Confira os lyric vídeos de “Obrigado”

e

“Vênus”

no

YouTube. E siga a Atemiz no Instagram.



ARTICLE . PAD

POR PAULO APOLINARIO // FOTO ANGELO PASTORELLO

Novo single da banda PAD, projeto solo do guitarrista Marcos Kleine, traz referências a Eddie Van Halen

Q

uem nunca cedeu à tentação ou sentiu vontade de experimentar situações ou substâncias que provocam sensações de prazer ou adrenalina, mesmo sabendo dos males e efeitos colaterais que causam, só para tentar acalmar os próprios demônios? É sobre este 106 // ROCK MEETING // DEZEMBRO . 2020

dilema que a letra de “O Sopro” da banda PAD foi escrita. A PAD é um projeto solo do guitarrista Marcos Klein (Ultraje a rigor). O nome “PAD” vem de “Pé de Galinha”, uma brincadeira com o supergrupo Chickenfoot. A intenção do PAD é trazer um som autoral para o rock brasileiro, can-

tado sempre em português e com um pé na musicalidade de grupos como Van Halen e Journey. Segundo os próprios integrantes, “Um Sopro” serve para lembrar que mesmo nas situações mais difíceis existem saídas, que não faltam canais de auxílio ade-


quados e pessoas preparadas para nos orientar e nos ajudar quando mais precisamos. E, o mais importante, que não somos perfeitos, mas somos mais fortes e resilientes do que imaginamos. “Para muitos casos, infelizmente nem todo mundo tem uma segunda chance. Para os que tem, seu custo não precisa ser tão alto: mantenha-se informado e não tenha medo de pedir ajuda sempre que necessário”, comenta o vocalista Fábio Noogh. O clipe foi lançado oficialmente na sexta-feira,

11 de dezembro, no canal do Youtube banda. Com um tema tão espinhoso e complexo em mãos, o grupo teve êxito ao elaborar uma melodia complexa – mas sem excessos –, aliada à uma melodia bem arranjada. Na guitarra, Kleine desempenha vários timbres experimentais, dando o “toque” final no solo, composto e inspirado no Eddie Van Halen, falecido dois dias antes desta gravação. Nessa composição com um pé no Progressivo e nas mais clássicas baladas do Heavy

Metal, os arranjos de cordas (viola, violino e cello) escritos pelo outro guitarrista Leandro Pit dão peso à sonoridade. Em um ano difícil para todos, a PAD passa uma mensagem de otimismo e de valor à vida aos fãs. “Mantenha sempre a cabeça e coração abertos, sua agenda, dados e contatos de emergência atualizados e parentes e amigos próximos informados a seu respeito. Fiquem bem, saudáveis e seguros. É o que nós do PAD desejamos a todos”, conclui Noogh.