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Ano 01 – Número 03


Ano 01 – Número 03

Jornalista Responsável Karina Francis karinarockazine@gmail.com @karinafrancis MTB 62.032/SP Colunistas Fabio Gomos @somdonorte Mary Camata @marycamata

Ano passado, nessa mesma época, eu estava enlouquecendo para concluir as matérias da primeira edição do Rockazine. E hoje, vendo o resultado final desta terceira edição, eu penso: “Nossa, todo esforço valeu a pena!”, isso porque, só quem faz um produto independente sabe que não é nada fácil. Além disso, quem me conhece sabe o quanto sou neurótica com meus projetos pessoais, tentando sempre dar o melhor de mim. O meu vínculo com o Rockazine é igual ao de uma mãe com seu filho. Eu planejo, carrego dentro de mim, cuido, e tenho uma relação muito forte

Maurício Angelo @mgangelo

com ele. E, cada vez que vejo ele crescer um pouquinho, fico muito feliz.

Patrícia Toni @pattyfirmino

ne é um projeto que coloco em prática nas horas vagas, infelizmente elas têm

Adoraria fazer um por mês, mas não sobra tempo suficiente. O Rockazi-

Rafaela Cappai @rafacappai

sido poucas ultimamente. Cada edição é feita com muito carinho e com pes-

Textos Karina Francis

que sempre querem saber o porquê das coisas e adoram novos desafios.

Diagramação Artur Guimarães

veis Coloniais de Acaju, Aeromoças e Tenistas Russas, Diego de Moraes e o

Capa Karina Francis e Artur Guimarães

cada uma com estilo bem diferente da outra, mas que juntas, agregam mui-

Colaboração André Campos

terceira edição do Rockazine discutiu o futuro dos discos. Atualmente, a

Os artigos assinados são de responsabilidade exclusiva de seus autores. É proibida a reprodução total ou parcial das reportagens, entrevistas, artigos e ilustrações sem a prévia autorização dos titulares dos direitos autorais.

cala. Os álbuns virtuais ainda são a opção mais utilizada por bandas inde-

soas que assim como eu, acreditam muito na música independente. Pessoas O foco nas bandas continua forte. Para esta edição, entrevistamos MóSindicado, entre outras. O legal é que elas não têm quase nada em comum, tas experiências interessantes. Inspirada na pergunta: Qual foi o último disco que você comprou? A fabricação de discos de vinil e fitas K7 estão aumentando em grande espendentes, apesar disso, as plataformas antigas já não são mais coadjuvantes no século XXI. Por isso, a matéria principal tentou mostrar esse panorama através do olhar de pessoas que atuam ativamente nesse cenário. É isso! Enquanto a humanidade caminha, a gente corre para tentar pensar na próxima edição!

Contatos karinarockazine@gmail.com Telefone: (11) 6427-5812 Siga-nos no @rockazine_ Acesse também www.rockazine.com.br Karina Francis Gouveia, editora do Rockazine


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06 EQUIPE DESTA EDIÇÃO (01) Karina Fracis • Jornalista responsável; (02) Artur Guimarães • Diagramação; (03) Fabio Gomes • Colaborador; (04) Mary Camata • Colaboradora; (05) Maurício Angelo • Colaborador; (06) Patrícia Toni • Colaboradora; (07) Rafaela Cappai• Colaboradora e (08) André Campos • Colaborador.

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08

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tecnologia 06

bandas 14

Diego de Moraes e o Sindicato

do vinil à fitinha

A pergunta é: Será tudo uma questão de moda, ideologia, qualidade sonora ou estratégia?!

discussão 46

Vamos falar de domínio público?

retrato 44

Manifesto do artista independente do tipo faça você mesmo

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Móveis Coloniais de Acaju

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Aeromoças e Tenistas Russas

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W-rox

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Hierofante Púrpura


festivais 48

Mais um festival nasce no norte

coxinhização 50 quadrinhos 51 a vida de um PandeMonio

Independente BR: é preciso ir além

Por um Brasil independente Ano 01 – Número 03


Do vinil à fitinha A pergunta é: Será tudo uma questão de moda, ideologia, qualidade sonora ou estratégia?!

||| Texto Karina Francis


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Fitas K7 lanรงadas pelo selo Pug Records


O vinil é uma experiência tátil, visual e auditiva. Colocá-lo no toca discos, ler o encarte e ainda ouvir um som que tem vantagens cientificamente comprovadas sobre qualquer som digital, tudo isso faz com que o vinil seja encarado como um fetiche, um objeto de desejo.

||| João Augusto Sócio-proprietário da DeckDisck/Polysom


Mp3 é como fast food – você está no rolê ou fazendo alguma coisa e deixa o player rolando suas milhares de pastas. Agora o vinil é como um jantar bacana com um bom vinho! ||| Marcelo Fusco Proprietário da Trezeta Musik

Karina Francis Paulistana, jornalista, editora do Rockazine.

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Diego de Moraes e o Sindicato ||| Texto Karina Francis


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Para mim, o espírito independente é ter uma autonomia para com a sua obra. Fazer o que quer fazer, sem se preocupar com o que esperam de você. É usar o ‘foda-se!’ como filosofia de vida

||| Diego de Moraes


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Se eu vou a um show, pago pra ver os músicos, não ‘para ver o evento’. Se o artista fica sem remuneração, o principal elemento de toda essa ‘cadeia produtiva’ fica desestimulado.

||| Eduardo Kolody


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O artista independente Ê o mais dependente, pois existe uma rede de relaçþes sociais em torno dele. Uma rede em que um depende do outro

||| Diego de Moraes

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M贸veis Coloniais de Acaju ||| Texto Karina Francis


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Rockazine: Qual foi o último disco que cada um comprou?

Hoje a obrigação do músico que quer construir uma carreira vai bem além de ensaiar e fazer shows, ele precisa se envolver com a gestão do negócio.

Roy Hargrove The RH Factor

Marcelo Jeneci Feito pra Acabar

Devendra Banhart What Will We Be

||| Esdras

Miss Li Late Night Hearthbroken Blues

O Choro e sua História Izaías e Israel Bueno de Almeida, entre amigo

Adele 21

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A gente precisa do trabalho do outro pra fazer o som do Móveis, o resultado final com a mão dos 10 é o que dá a cara da banda

||| Esdras


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Aeromoรงas e Tenistas Russas

||| Texto Karina Francis


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Se não temos muito acesso aos grandes meios de comunicação de massa como a TV, garantimos nosso espaço nas mídias sociais, que representam o futuro da informação compartilhada

||| Aeromoças e Tenistas Russas


O mais massa de tudo é quando alguém chega depois do show e diz ‘cara, vocês tem influência da banda X da Finlândia?’, sendo que a gente nunca ouviu falar dela na vida... Isso é ser inclassificável

||| Aeromoças e Tenistas Russas

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Em relação ao cenário independente atual, acho que estamos realmente consolidando uma plataforma sólida, que atende as demandas das bandas que querem circular para mostrar seu trabalho. E é sustentável sim

||| Aeromoças e Tenistas Russas

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W-ROX: Surge um novo rock! ||| Texto PatrĂ­cia Toni

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Patrícia Toni Paulista de Poá, jornalista em formação e mesmo com sua queda, ainda prefere o diploma. Tem 22 anos e é apaixonada por música, em todas as suas formas. Já trabalhou com revista, TV e internet e atualmente, é assessora de imprensa.

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Deixa o mundo ser torto...

||| Texto Karina Francis


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Rockazine: Vocês estão juntos há mais de cinco anos e de lá pra cá muita coisa mudou. Sendo assim, como avaliam a o cenário musical independente no Brasil? Danilo: Pois é, realmente muita coisa mudou. Muita ban-

da boa encerrou suas atividades, banda ruim também, outras tantas surgiram com um potencial incrível, outras com nem tanto potencial, porém, com bons contatos, influência$ e esquemas que passam a favorecer mesmo aquele velho (e execrável) hábito da social polida e ponderada, da pose altiva glamourosa que nós do Hierofante não dominamos muito. Isso não quer dizer que somos anti-sociais, muito pelo contrário, adoramos mesmo é a tal sociabilização, conhecer pessoas, novos projetos, coletivos, selos, produtores, videomakers, com respeito e admiração por pessoas que estão nessa de banda pelo verdadeiro amor, dedicados, empenhados em realizar. Penso que quanto mais afundo se envolve mais se percebe e sente na pele os lados positivos e negativos de ser músico no circuito alternativo nacional. Hoje, com o advento da internet e suas redes sociais, as informações correm de um lado pro outro num ritmo acelerado, frenético, é só tirar o cabelo dos olhos, ajeitar a orelha no esquema da concha e deixar a nossa boa cultura, a arte, a música (a melodramática então, melhor ainda), fluir pra dentro do cérebro e ta feito o estrago, e o melhor, podemos compartilhar, divulgar. Estranho é perceber, ou nem tão estranho, que diante dessa “facilidade” as pessoas possuam uma visão tão limitada, uma visão de burocrática censura pelo o que elas não compreendem e fechem os olhos pro Mundo-Brasil ao seu redor, buscando a salvação no exterior, repudiando artistas da sua própria estirpe. O modismo e a postura de descrença ignorância (por parte do público e até mesmo de mídias ditas “especializadas”), me incomodam muito. Acredito, que hoje a nossa música é levada mais a sério, compreendida nos seus aspectos mais minuciosos, mas ainda esbarramos e deslizamos no problema de gerar o tal do capital, ainda mantemos (ou tentamos manter) nossos empregos que tomam bastante parte do nosso tempo, saúde espiritual e física, da nossa (ins) piração...mesmo depois de 5 anos (quase 6) ainda não encontramos esse denominador comum, mas a cada ensaio, viagem para shows, gravação e afins, o projeto faz mais sentido, ganhamos força e crescemos (juntos) musicalmente.

Rockazine: O show da banda é marcado por uma intensa loucura, que embora seja ‘louca’ chega a ser doce de tão intensa. Vocês parecem se transportar para outro lugar e ao mesmo tempo tentam mostrar toda a

essência do grupo. O que sentem quando estão no palco? E o que tentam passar para o público? Danilo: Sinto-me num estado de

elevação único, me sinto paranóico, elétrico, calmo como um louco, me sinto cansado, fadigado, me sinto fazendo algo representativo, algo único, me sinto satisfeito em documentar minha vida pela música, em poder me expressar, me sinto feliz quando alguém se identifica e vem comentar depois, perguntar os significados embutido nas letras, me sinto sozinho em cima do palco também, ai bate uma encanação de que o show ta uma merda, de que ninguém ta curtindo, umas neuras mesmo, fecho os olhos e canto, interajo com o Gabriel, Helena (quando ela participa) ou com o Diogo e geralmente (na maioria da vezes) sou amparado por uma bela duma virada na bateria, ou uma levada distorcida bem encaixada pela Jaguar ou pela Tele, um groove macio do baixo. Um mix de experimentos sensoriais, e até mesmo extra-sensoriais quando rola uma reunião com o Alberto H. (nosso guru espiritual) no pré-show. Momentos que procuro gravar tudo numa VHS pra lembrar depois, na hora não to nem vendo direito, é um bando de coisa disforme pra tudo que é lado, ao mesmo tempo em que rola um foco bonito, interessante também. Quando tem um sistema bom de P.A eu fico bem empolgado. Consigo interpretar melhor as nuances do vocal, consigo passar mais emoção para os meus parceiros de banda e procuro ser bem articulado, quase passo a declamar as frases da letra para que me faça ser compreendido. Procuro dar uma atenção especial nesse quesito, quero que quem nos assista entenda a mensagem da banda, se identifique com ela, aprenda algo ou simplesmente se sinta bem. O palco é um templo sagrado.


star dessa pergunta, mas não tem como não prestar eternas homenagens ao estilo libertário desse monstro do cinema brasileiro. Homenagens que não pontuam tanto esteticamente tudo o que já produzimos, até porque não sou tão pretensioso. Mas é uma idéia (uma atitude) que perdurará por entre os séculos, enquanto existir cabeças pensantes, criativas o suficiente para mexer suas próprias bundas em prol da produção inventiva. Essa é nossa iniciativa, simplesmente se mexer. A (boa) tecnologia, tanto de áudio quanto de vídeo, nunca esteve tão ao nosso alcance. Não existe mais desculpa para o não-fazer, o não-criar, não dependemos de mais ninguém para divulgar nossos registros. É óbvio que existem boas vitrines, como exemplo a Trama Virtual na web, e o programa Radiola (veiculado na Tv Cultura) e até mesmo os Labs da MTV que abriram espaço para o clipe de “Sujeito sem Brio”, isso só para citar esses três, que já bastante contribuíram para divulgar, espalhar pelos ares magnéticos essa nossa despretensiosa e romântica psicodelia em audiovisual. Eis o retorno, ser reconhecido por caminhar com dignidade diante das necessidades culturais do nosso público.

Rockazine: A banda já está trabalhando em músicas novas. Elas seguem a mesma pegada desenvolvida pelo grupo ou podemos esperar algo novo? Gabriel: Estamos com a novíssima

“Espírito Espelho” já sendo apresenta-

Foto: Hendi du Carmo

Rockazine: Uma idéia na cabeça e uma câmera na mão. Assim vocês registram os shows e demais momentos da banda. A iniciativa de registrar tudo partiu de qual objetivo? Qual o retorno dessas ações? Danilo: O Glauber Rocha que iria go-

da nos shows e nela contamos com a participação da baixista Helena Duarte pois toda estrutura da música é feita no piano que é de responsabilidade do Danilo. Acreditamos que as novas composições estão mais maduras e refinadas em relação ao Transe Só e os outros ep´s lançados. Hoje após seis anos de banda e nossas experiências anteriores com outras bandas,gravações, shows e viagens acreditamos que aquela magia intensa e surreal tem cada vez mais se tornado uma realidade nas novas composições, estamos bem felizes com os resultados nos ensaios e pré produções.. Muitas surpresas estão a caminho e nossa expectativa é que sejam bem recebidas por todos que aguardam esse novo trabalho.

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Rockazine: O consumidor da música alternativa esta cada vez mais exigente, em um terreno fértil de boas bandas, como é o caso do nosso país, é difícil estabelecer um álbum que só recebeu elogios por parte da crítica. Como avaliam esse momento de grande aceitação do álbum ‘Transe Só’? Gabriel: Avaliamos com muita felicidade e sensação de

dever cumprido, pois, quando gravamos as doze músicas la em 2008, a idéia era lançarmos tudo de uma só vez e por decisões, dúvidas, condições as coisas tomaram outro rumo e lançamos 3 ep´s com quatro músicas cada. De algum jeito imaginamos que esse foi o melhor caminho pois sempre estivemos produzindo e trabalhando nessas músicas, e hoje após esses 3 anos temos todas elas lançadas num álbum que é o Transe Só, onde pudemos caprichar num projeto gráfico, bootlegs ao vivo, enfim, algo diferenciado do que anda acontecendo por aí.

Rockazine: Crise de Creize, Adubado e Transe Só, são 3 EPs que foram gravados num mesmo momento. Porém, é possível dizer que cada um possui um conceito próprio? Como definem esse trabalho? Danilo: Gravadas no mesmo momento, porém, as com-

posições aconteceram em épocas distintas. Quatro delas (Hospital das Curas, Rosa Frígida, Rainha do Universo e Sujeito sem Brio) nasceram quando o Felipe Lima ainda era integrante do Hierofante. É notável pra quem acompanhou a “cronologia” dos três EPs, principalmente o “Transe Só” (que revela Hospital e Rosa) algumas pontuais diferenças em compor como quarteto. Os conceitos nasceram naturalmente, não perdemos muito tempo na escolha das faixas. Hoje, com distanciamento, quando escuto separadamente cada EP, percebo que a combinação das faixas foi realmente a ideal pra cada lançamento, como se as músicas tivessem se atraído umas pelas outras, unindo-se em pares perfeitos. A apoteose ocorreu no exato momento em que compilamos todas elas num único álbum, o “Transe Só” físico. E não poderia ser diferente, a idéia, o conceito principal era realmente lançá-las em formato de álbum cheio desde o início. No fim das contas, soa como uma etapa vitoriosa, o fechamento de um ciclo, uma transição evolutiva.

Rockazine: A internet possibilita a livre expressão dos artistas. E as pessoas sedentas por propostas interessantes utilizam a internet para encontrá-las. O que está fazendo a banda crescer cada vez mais é

Essa é nossa iniciativa, simplesmente se mexer. A (boa) tecnologia, tanto de áudio quanto de vídeo, nunca esteve tão ao nosso alcance.

||| Danilo Hierofante Púrpora

a identificação do público com as músicas que se torna automaticamente uma vontade de espalhálas pra todo mundo. E é notável como a banda utiliza a internet para própria divulgação. Além de marcar os próprios shows, cuidar do relacionamento com o público, fazer os roteiros de clipes. Isso para vocês é ser independente? Gabriel: Acredito que é mais ou me-

nos isso aí, recentemente li uma entrevista de 95/96 quando o Fugazi veio para o Brasil e nessa entrevista o Ian Mackeye explica bem como ele trabalhava com a banda onde ele gravava, ele lançava, ele marcava os shows, ou seja, era totalmente independente. Nós não temos essa mentalidade tão radical, acreditamos que para o trab-


Fotos: Hendi du Carmo

alho ser concretizado com sucesso é sempre importante uma opinião de quem não faz parte como músico da banda pois quando tudo está em nossas mãos, acaba meio que sendo do nosso jeito, do jeito que nos agrada ou ok, obrigado e fica pra próxima, entende ? A internet ta aí pra ajudar eu diria em quase 100% das ações porque querendo ou não, divulgamos tudo através dela então só nos resta aproveitar esse meio “gratuito” e fazer com que mais gente conheça nosso trabalho. Através da internet hoje temos um selo em Maceió (PopFuzz Records), outro no Rio de Janeiro (Transfusão Noise Records), temos nosso álbum distribuído por todo o Nordeste, coisa que sem ela não teríamos tantas chances de alcançar com tanta facilidade, é muito gratificante conhecer gente através da internet e quando isso se realiza pessoalmente é

meio mágico, afinal estamos aí pra conhecer pessoas novas e sedentas por boa música.

Rockazine: Quais os próximos passos do Hierofante Púrpura? Gabriel: Nossos próximos passos são compor, gravar, lan-

çar, tocar, produzir e tudo se renova, é incrível isso não? Ainda vamos lançar este ano, um split com nossos companheiros da banda Alarde onde teremos uma música inédita, outra versão de uma música deles e vice-versa. Sejamos livres, sejamos felizes com boa música, boas imagens e principalmente com bons e leais amigos. Estamos aí de peito aberto pra receber todo tipo de gente, felizes com os resultados e com a opinião de quem está conhecendo nosso trabalho. Em 2012 muita novidade está por vir e do mesmo jeito que a surpresa será pra todos vocês, será pra nós também. Queremos viver a música, a arte e as experiências da vida. Um álbum novo virá pra selar esse momento único da época em que vivemos e quem viver verá. Muito obrigado Karina pela oportunidade de estarmos nesse Rockazine #3, e que seja a primeira de muitas participações do Hierofante Púrpura nesse material rico que você independentemente produz com maestria, amor e dedicação! Deixa o mundo ser torto...

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||| Texto Rafaela Cappai

Manifesto do Artista Independente do Tipo Faça Você Mesmo Olá, muito prazer. Meu nome é artista-independente. Eu sou do tipo Faça Você Mesmo. Eu me viro nos trinta, jogo nas onze, frito o peixe e olho o gato ao mesmo tempo. Eu uso minhas habilidades de malabarista pra manter todas as bolas no ar ao mesmo tempo, sem deixar a peteca cair. Eu trabalho pelo menos 10 horas por dia pra dar conta de pagar as contas. Eu não tenho plano de saúde, não tenho conta de celular fixo, não tenho carro e não tenho coragem de assumir uma prestação de 6 pagamentos futuros. Eu não tenho horas fixas de trabalho, não tenho equipe fixa de trabalho e não tenho salário fixo pelo meu trabalho. Tem mês que entra, tem mês que não. Eu me envolvo em pelo menos quatro projetos ao mesmo tempo, recebendo pequenos cachês de cada um. No montante a coisa fica mais fácil. Eu não sou bom com dinheiro e não sei cobrar direito pelo que faço. Eu trabalho de graça. Não tenho rotina, não tenho férias, não tenho ócio criativo. Muitas vezes trabalho naquilo que não gosto pra poder fazer aquilo que gosto. Você pode incluir meu trabalho na lista dos sazonais. De Novembro à Março é particularmente difícil. Não que eu não trabalhe. Eu trabalho muito, a questão é que eu não ganho dinheiro. Eu não tenho ecritório, nem estúdio, nem sala de ensaio onde possa trabalhar. A sala lá de casa é ao mesmo tempo meu escritório, meu estúdio e também sala de reunião. Meu parceiro também é artista. Somos os dois no mes-

mo barco, sem ninguém pra segurar a onda quando a maré baixa. Nós desejamos ter filhos, mas não sei quando teremos segurança suficiente pra ter coragem de encomendar um. Eu sou multi-tafera, o que ao meu ver já não é tão bom assim. No currículo soa bonito, mas na vida real significa que eu não consigo focar em uma só coisa de cada vez. Sobre meu currículo, ele parece um Frankstein, com experiências diversas, em projetos diversos, com gente diversa. Pode até parecer que sou instável, mas se você olhar bem, faz até bastante sentido. Eu não sou instável, sou apenas uma pessoa que tem múltiplos interesses e múltiplas qualidades. E uma enorme capacidade de adaptação também. Tá bom, eu confesso que às vezes tenho dificuldade de focar em um só projeto, uma só ideia. Eu tenho ideias a todo momento, mas não sei exatamente como realizá-las. Tá certo, não sou eu que sou instável, mas minha vida sim. Ando na corda bamba diariamente, esperando a ligação que vai garantir o cachê do mês seguinte.


zes tenho a sensação de que estou dando voltas no mesmo lugar, correndo atrás do meu próprio rabo. Não consigo ter a regularidade que gostaria, gerando oportunidades em um fluxo estável. Às vezes tenho vontade de ter emprego fixo, carteira assinada, plano de saúde, ferias pagas, 13º salário… em um escritório fechado, com gente chata e careta, fazendo trabalho sem graça… daí a vontade passa. Eu até já tentei trabalhar em um ambiente um pouco menos criativo e mais comercial, mas tinha a sensação de que estava vendendo minha alma ao diabo, por um preço bem camarada, já que o salário e as condições também não eram lá grandes coisas. Já pensei em desistir mais vezes do que você possa imaginar, mas quando penso na minha felicidade, sei que minha motivação é intrsínseca, não necessariamente vem só de dinheiro ou reconhecimento. Eu amo fazer o que faço e não me vejo sendo feliz fazendo outra coisa. Muitas vezes até não sei se consigo fazer outra coisa. Já pensei em abrir uma loja de empadas, mas a ideia passa rapidinho quando penso que não dá pra ficar sem cantar, dançar, atuar, tocar, escrever, pintar, criar, fazer arte. Aos poucos tenho aprendido palavras como marketing, redes sociais, network, cadeia produtiva, empreendedorismo, já que dizem por aí que isso pode me ajudar a melhor professar a minha arte, mas sinto que o artista que vive em mim fica meio escondido por trás de planilhas de custo, contas à pagar, orçamentos, objetivos e justificativas. Minha meta de vida é trabalhar 100% com arte, sem precisar me envolver em projetos com os quais não me identifico conceitualmente e esteticamente. No fundo eu sou feliz por exercer minha liberdade artística e criativa, mas a perrenga financeira vez ou outra diminui minha confiança no futuro e minha paixão pelo que faço. Já o amor, esse continua intacto. E pra você que olha de fora, minha vida pode até parecer mais fácil que a sua. Saiba que sou artista e trabalho com arte. Eu não mexo com arte. Com arte não se mexe, é coisa muita séria pra se mexer. Texto inspirado nas entrevistas realizadas para o artigo “Precarity in the music sector of the city of Belo Horizonte: characteristics and strategies”, durante Mestrado em Empreendedorismo Cultural e Criativo, na Goldsmiths University of London.

>> www.espaconave.org <<

Sim, minha vida é precária. A linha que divide prazer e trabalho é bem fininha, e as coisas pulam de um lado para o outro sem nem pedir permissão. Começo trabalhando e quando já vi estou me divertindo. Ou começo me divertindo e quando vi, já virou trabalho. E mesmo se eu estiver me divertindo, saiba que posso estar trabalhando. Uma coisa não exclui a outra. Muitas vezes as pessoas não respeitam meu horário de trabalho. Muitas vezes eu mesmo não respeito meu horário de trabalho, trabalhando quando deveria estar descansando e descansando quando deveria estar trabalhando. Muitas vezes não estou no clima de ir a lançamentos e estréias, mas fico pensando que são esses momentos que podem me abrir oportunidades. Então eu vou, mas eu acho meio estranho quando alguém me diz que tenho que fazer network. Sair pra trocar cartões que eu nem tenho, com pessoas que não conheço. Esse tal de network já faz parte do que eu sou, descobrindo novas pessoas e fazendo amigos. Sem forçar a barra. De vez em quando eu consigo emplacar um projeto através de Lei de Incentivo, o que me dá um certo respiro por um curto espaço de tempo, mas eu vejo com suspeitas esse boom dessas tais indústria e economia criativas, uma vez que não entendo muito bem como isso vai ajudar na prática a desenvolver a minha vida, a forma como eu trabalho e a maneira com que ganho meu dinheiro, sem necessariamente atingir a integridade do que faço. Apesar de estar crescendo e evoluindo na minha carreira, muitas ve-

Rafaela Cappai Atriz, bailarina, jornalista e empreendedora cultural. Vive à procura de alternativas, ferramentas e soluções que possam ajudar artistas a encontrar sustentabilidade naquilo que amam fazer.

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||| Texto Fabio Gomes

No Brasil, o tema do domínio público é escassamente debatido. A única vez, de fato, que vi o tema ser bastante comentado foi no começo de 2008, quando, passados 70 anos da morte de Noel Rosa, sua obra passou ao domínio público – que nada mais é que o fim do período de exclusividade de utilização econômica de uma obra intelectual (literária, artística ou científica). Até ali, a maioria das pessoas associava a expressão a um e-mail enviado como spam em que alguém, alarmado, dizia que estava para sair do ar o site www.dominiopublico.gov.br, por falta de acessos (jamais ameaçado, o site completará 7 anos em novembro). A passagem de uma obra ao domínio público abre uma série de possibilidades interessantes. Permitiu-me, por exemplo, compilar e lançar no blog http://noelrosa100. blogspot.com/ o CD virtual Noel Rosa Cantor – Vol. 1, apenas com fonogramas liberados, para download gratuito (o único pagamento exigido do interessado é o envio de uma mensagem sobre o CD para sua rede social). Também propicia o surgimento de uma editora como a Legatus, de Alexandre Pires Vieira, que só lança e-books de textos que ele busca no já citado site Domínio Público. Vieira chega a faturar 6 mil dólares por mês com suas vendas na livraria virtual Amazon. Machado de Assis está entre os autores que Vieira publica. Assim como ele, diversos outros editores hoje podem lançar Machado, de modo que há concorrência e o leitor pode optar pela edição que achar melhor. Outros benefícios são a redução de custos para produção de CDs, shows e livros que utilizem obras liberadas. O medo de enfrentar concorrência, num setor da economia onde ela não é habitual, acaba gerando distorções, que se ligam ao silêncio em relação ao domínio público. Eu soube, por exemplo, de uma cantora que pagou a uma editora musical em 2009 pela gravação de uma música de Cândido das Neves. Tendo este autor falecido em 1934,

desde 2005 sua obra se acha em domínio público – ou seja, cessou, por força de lei, o mandato que a editora tinha para representar os herdeiros do autor. O correto seria a editora comunicar à cantora que a obra estava liberada e que ela poderia gravá-la sem ônus. Na mesma época, um cantor me procurou porque queria lançar uma compilação, semelhante à que fiz de Noel, de obras de Sinhô, morto em 1930 e cuja obra está liberada desde 2001. Ao buscar os fonogramas originais nas gravadoras, era informado, erroneamente, que a cada mudança de suporte (ou seja, do 78 rpm para o LP, deste para o CD, MP3 etc), a contagem de 70 anos de proteção se reiniciava (não há nada parecido com isso escrito na Lei do Direito Autoral em vigor no país, a 9610/98 - http:// www.cultura.gov.br/site/?cat=1346). É bom não esquecer que o papel do direito autoral é assegurar um período de exclusividade ao autor e seus herdeiros, para a exploração comercial de sua obra. Findo esse período, a obra passa ao domínio público, se tornando então patrimônio de todos; fica, porém, assegurado, eternamente, o direito moral do reconhecimento da autoria. Esse é o mesmo princípio das patentes de invenções – por exemplo, Alexander Graham Bell inventou


Pode não parecer, mas 70 anos post mortem é muito tempo. No caso de obra em parceria (muito comum no campo da música), a contagem do prazo só começa após a morte do “último dos co-autores sobreviventes”, como diz o artigo 42 da Lei 9610. Peguemos um exemplo, o caso de “Carinhoso”, choro que Pixinguinha compôs no começo dos anos 1920 e que foi letrado por João de Barro em 1937. Como Pixinguinha morreu em 1973, e João de Barro em 2006, “Carinhoso” só passará ao domínio público em 2077, mais de 150 anos depois de ter sido escrita! É possível alterar isto? Não muito. O direito autoral é regulado desde 1886 pela Convenção de Berna. O Brasil, sendo seu signatário, deve seguir vários princípios ali fixados, como esse do prazo mínimo de 50 anos. O país que ousar fixar um período menor arrisca-se a ser excluído do acordo e ver seus criadores intelectuais perderem o direito à proteção no exterior. Sou favorável a que, na revisão que o Congresso Nacional deve fazer em breve na Lei do Direito Autoral, o prazo de proteção seja reduzido para 50 anos. Seria importante que mais gente no Brasil entendesse os benefícios econômicos e culturais do domínio público. São raras as iniciativas como a minha, criando um hotsite com toda a obra já liberada de Noel Rosa - http://www. brasileirinho.mus.br/noelrosa.html . Ou projetos como o Noel Inédito, da cantora e compositora baiana Laura Dantas, que musicou letras de Noel cuja melodia se perdeu. Vários outros compositores importantes já estão com as obras em domínio público - cito apenas três: Carlos Gomes, Chiquinha Gonzaga, Ernesto Nazareth. Acima de tudo, entendo que falta, principalmente, um referencial. Algo que dê visibilidade às obras em domínio público. Penso que artistas que estivessem pesquisando repertório para um CD ou roteirizando um novo show poderiam consultar uma base de dados para ter opções de obras pelas quais, legalmente, não precisariam pagar direitos autorais, reduzindo consideravelmente seus custos de produção. Óbvio que sabemos que este não é o único critério a considerar (a qualidade da obra e sua identificação com o intérprete certamente pesarão mais), mas não deixa de ser relevante – além de ajudar a colocar novamente em circulação na sociedade obras criadas há pelo menos 70 anos, e que fazem parte do rico patrimônio cultural de nosso país.

>> www.somdonorte.com.br <<

o telefone e durante alguns anos sua empresa, a Bell, teve o monopólio legal assegurado; acabado esse período, qualquer outra empresa poderia fabricar telefones, com o que o consumidor ganhou, por meio da concorrência, melhorias técnicas e redução de custos. Enfim, por não encarar o domínio público com a mesma visão que o dono da Legatus, Alexandre Pires Vieira, algumas gravadoras e editoras adotam as atitudes citadas no parágrafo anterior. Ao lado da desinformação, pode acontecer também a pressão sobre os legisladores para estender indefinidamente o prazo de proteção. Nos Estados Unidos, o prazo, que era de 70 anos, passou a ser de 90, em 1998; a emenda ganhou o apelido de “Mickey Mouse Protection Act”, pois se comentava que a Disney é que teria exigido a prorrogação, para evitar a liberação dos filmes mais antigos do camundongo. Observem que Brasil e Estados Unidos adotam prazos de proteção diferentes. Pois é, cada país é livre para fixar o período que lhe parecer melhor, desde que não seja inferior ao estabelecido pela Convenção de Berna - 50 anos. Essa autonomia acaba gerando um efeito colateral preocupante: a falta de parâmetros claros sobre qual legislação deve ser considerada em cada caso. A ponto de, no site Domínio Público, o próprio Ministério da Educação admitir que “as diferentes legislações que regem os direitos autorais de outros países trazem algumas dificuldades na verificação do prazo preciso para que uma determinada obra seja considerada em domínio público.”

Fabio Gomes Gaúcho de Porto Alegre, formou-se em Jornalismo pela UFRGS em 2001. Edita o blog www. somdonorte.com. br e os sites www. brasileirinho. mus.br e www. jornalismocultural. com.br. Atualmente mora em Belém do Pará, de onde colabora com o Rockazine e a revista Intera, de Manaus.

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||| Texto Mary Camata

Festival Poraquê: mais um festival nasce no norte Quem diria que em um estado tão longe das grandes capitais do rock no Brasil, pudessem existir bons festivais? Em uma cidade com pouco mais de 115 mil habitantes chamada Ji-Paraná, conhecida como “coração de Rondônia”, nasceu em pleno mês de agosto de 2011 um novo festival de rock chamado Festival Poraquê. Com este nome exótico de uma enguia que paralisa sua presa com uma descarga elétrica que chega a matar um cavalo, o “Poraquê”, que também quer dizer “o que entorpece”, surgiu na idéia dos organizadores do festival que fazem parte do Coletivo Interior Alternativo, de usarem o nome do animal que é personagem de historias que se ouvem na beira dos rios que cortam a cidade - Rio Machado e Rio Urupá. “A busca por algo que remetesse a nossa região. Foi assim que surgiu Festival Poraquê”, disse um dos organizadores do festival, Raphael Amorim. Realizado durante dois dias com um total de 12 bandas de quatro estados, o Festival tinha acesso livre ao público de todas as idades. Através de parcerias idealizadas pela Fundação Cultural e a Prefeitura do município juntamente com o Coletivo Interior Alternativo e o Circuito Fora do Eixo, a primeira edição do Festival começou bem tímida, porém com bandas atuantes na cena independente. Com o objetivo de criar uma vitrine dos artistas locais, fazendo um intercâmbio com bandas da cena independente de outros estados, o Festival Poraquê contou não só com atrações musicais, mas também com oficinas, workshop e um debate sócio ambiental com participação de membros de outros coletivos, bandas e público em geral, sem o menor custo.

Enquanto as bandas se apresentavam, tatuadores realizavam a 1ª Expo Tattoo. Entre uma cervejinha e um bom rock, vários roqueiros decidiam riscar a pele. Foi em meio a figuras exóticas sempre presentes em festivais de rock que o vocalista da banda Subpop Derek Ito, da cidade de Vilhena, comemorava o nascimento de mais um festival no Estado. “As bandas de rock rondoniense só tem a ganhar com o surgimento do Festival Poraquê. É mais uma oportunidade de mostrarmos nosso trabalho onde a cena, mesmo pequena, existe e muitas vezes é esquecida”, disse o jovem. A banda mato-grossense Macaco Bong, foi à escolhida para fechar a primeira noite do Festival Poraquê. O baixista Ney Hugo falou sobre a força das bandas independente no Brasil e a importância de uma circulação nos festivais a fora: “Acredito que a cena independente já superou todas as outras cenas. Há dois anos, a gente diria que a cena estava começando a se fortalecer. Hoje em dia já conquistamos espaço. Em qualquer lugar do Brasil, a banda já não quer mais gravar um CD com uma gran-


pra cá e rap pra lá. Sei que sempre vai ter uma galera que não vai gostar, mas outra galera vai parar, ouvir e refletir a nossa mensagem”, disse Linha Dura. Encantado com a estrutura do festival na segunda maior cidade de Rondônia – depois da capital Porto Velho – o vocalista da banda de rock mineira Vandaluz, Vane Pimentel, era só elogios ao “recém-nascido” Poraquê: “Que energia boa e que festival maravilhoso. É muito bom estar pela primeira vez no calor de Rondônia. É uma coisa fora da nossa realidade. Nunca sonhamos que viajaríamos para tão longe só para mostrar nossa música. Quantos conceitos vamos levar daqui. É muito bom participar deste festival com a nossa espontaneidade de deixar nossa musica fluir”, falou Vane enquanto se preparava para subir ao palco com a Vandaluz, última banda a se apresentar na primeira edição do Festival Poraquê que ainda contou com a banda paraense Strobo. “É muito bom trazer nosso som de tão longe pra uma galera tão bacana”, finalizou Léo Chermont, vocalista da Strobo.

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de gravadora. O objetivo das bandas agora é rodar o Brasil em festivais, divulgando seu som nas redes e propagando de graça seu trabalho pra que seja conhecido. A Macaco Bong gosta muito de Rondônia e apoiamos essa circulação das bandas independentes nos festivais. É fundamental pra gente intensificar essa circulação”, disse Ney. O rapper cuiabano Linha Dura que também foi uma das atrações do Festival, falou sobre a experiência de ser o único rapper no meio do rock. “Gostei muito de conhecer Ji-Paraná. Eu cresci ouvindo hardcore, mas o rap foi a minha maneira de entrar nas favelas e passar o meu recado. No Brasil ainda tem essa divisão de rock

Mary Camara Graduada em Comunicação Social e pós-graduada no Centro Universitário Luterano de Ji-Paraná (RO). Atualmente é editora-chefe do Jornal Correio Popular, foi coordenadora do Curso de Comunicação Social do Ceulji/ Ulbra e assessora de imprensa de alguns festivais de rock em Rondônia. É fotoógrafa e também dona do Blog A La Maryjanne.

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||| Texto Maurício Angelo

Dentro do vasto processo de “coxinhização” da nossa música, parece que o politicamente correto tomou conta e não deve mais sair. Vejo gente assustada com “fenômenos” como A Banda Mais Bonita da Cidade, que durou o incrível tempo de 1 mês. Em breve o grupo dará origem a uns três “projetos solo” de voz-violão-ukelelê-tecladinho yamaha e os que sobrarem irão abrir uma sorveteria hipster. O mal nunca acaba. E o que isso representa de fato na música brasileira? Nada. Assim como “virais” que explodem na internet não costumam ultrapassar seu microcosmo de burburinho efêmero. Me dê três exemplos de coisas relevantes que “bombaram” na web ano passado e continuam a movimentar alguma coisa sem precisar pesquisar muito ou forçar a memória. Pois é, impossível. O que realmente me preocupa é a ausência de um médio escalão sólido na música nacional. No topo temos os artistas mainstream de todos os gêneros, na base os independentes com maior – ou nenhuma – estrutura, vivendo de shows esporádicos patrocinados por grandes empresas, projetos de lei, os SESC’s da vida, um ou outro festival e por aí afora. Há poucos artistas com verniz “independente” - que não arraste grandes massas mas que consegue um público razoável – capazes de se manter. A música “independente” brasileira tem quase nada de “independente”, se considerarmos o termo ao pé da letra. Incluindo todo o Fora do Eixo e as dezenas de coletivos espalhados pelo país. Verdade: é muito melhor que o nada que tínhamos. Outra verdade: é preciso sair do momento inicial de oba-oba e empolgação pura e simples, o que já começou a acontecer na torrente de críticas e discussões dos últimos 2 anos, para uma efetiva “nova fase” dessa cadeia produtiva. Ótimo que conseguimos construir algo. Melhor ain-

da se alcançarmos o aperfeiçoamento do que já existe, tapando os gargalos, assumindo os erros e buscando algo mais justo para todos. Ao invés de se refugiar num patrulhamento acéfalo e num discursinho pseudo-marxista chulé da pior espécie. Orwell manda lembranças. Em outra ponta, bandas precisam apelar para o crowdfunding, com pinta de “iniciativa bacana” e “antenada”, mas com um prazo de validade curtíssimo, com dezenas de problemas na sua essência e possível apenas para grupos com uma base de fãs mínima, a exemplo do Autoramas. Parece que a música “independente” cada vez mais é passatempo para jovens endinheirados, playboys com dinheiro de sobra para não terem que se preocupar em viver do seu trabalho. Não é difícil observar isso: basta conhecer boa parte dos grupos por aí. Ao mesmo tempo em que, não por acaso, bandas decentes acabam ou ficam no eterno “termina e volta”. Ao contrário do que alguns gostam de acreditar, precisamos de – ainda – comer muito sal para solidificar o que já existe. E não é sem uma dose de coragem e a capacidade de lidar com críticas de maneira sadia, algo aparentemente impossível pra tanta gente, que isso será possível.

>> www.revistamovinup.com <<

Independente BR: é preciso ir além Maurício Angelo é jornalista e edita a www. revistamovinup.com


Eu sou o último exemplar da minha espécie...

Todos da minha geração foram morrendo ou esquecidos com o tempo!

Uma vez por mês eu tento voltar a sociedade...

Passo minha vida bebendo whisky e ouvindo meus velhos discos.

Vamos por um pouco de cor nesta cidade cinza gente!!!

Mas vejo que ainda não estou preparado para isso.

COLORIDOS

FIM


Nesta Edição Do vinil á fitinha, Diego de Moraes e o Sindicato, Móveis Coloniais de Acaju, Aeromoças e Tenistas Russas, PandeMonio, e muito mais...

Rockazine Edição #03  

Terceira edição do Rockazine.

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