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Área Continental Jornal Retrato

Suplemento Especial sobre a Área Continental de São Vicente novembro/2009

Com mais de 80 anos e muitas áreas para abrigar grandes empreendimentos, a Área Continental é a “menina dos olhos” de políticos e empresários. Confira nesta edição a rica história da região e de seus moradores

O Futuro de São Vicente está aqui!


Jornal Retrato

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Editorial

Feliz quem tem uma história para contar

A declaração acima foi dada pelo sr. Domingos Barreiros, um dos primeiros moradores da Gleba II do Parque das Bandeiras. E ela é uma das sínteses deste Trabalho de Conclusão de Curso. Você verá, leitor, nestas próximas páginas, os registros de uma das regiões mais importantes da Baixada Santista, registros que mostram o quão rica é a história da Área Continental vicentina. O desenvolvimento desta região explodiu na década de 80. Após o fracasso do “Milagre Econômico”, e dos consequentes problemas financeiros da época, muitas pessoas trocaram o aluguel pela aposta de viver em uma região pouco conhecida e pouco explorada. Tanto que em 1979, segundo reportagens de A Tribuna, viviam aproximadamente 20 mil pessoas no continente. Com a implantação dos conjuntos habitacionais e a construção da Ponte dos Barreiros estma-se que este número chegue a 100

mil atualmente. Para buscar a maior fidelidade possível, uma pesquisa inédita, realizada com 395 moradores dos nove bairros da região, apontou o que eles pensam sobre a parte continental vicentina. tudo isso para realizar o melhor perfil possível. E isto você, leitor, verá nas próximas páginas deste jornal. Além disso, são histórias de superação, força e garra de uma das áreas mais promissoras da Primeira Cidade do Brasil. As áreas a serem exploradas no Continente são as esperanças para São Vicente. Os projetos animam até os mais desacreditados. A Área tem sua importância, tanto que, em abril de 1999 foi reconhecida oficialmente como Distrito Municipal. E o Jornal Retrato, desenvolvido para os moradores da região, não podia deixar de registrar estas histórias. As ricas histórias de uma Área que tem muito ainda o que contar e mostrar.

Por que Retrato?

Nome, formato, pautas... Todo o jornal foi idealizado após entrevista com 395 moradores da Área Continental

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ontar histórias e fazer um verdadeiro retrato da Área Continental de São Vicente. Esta é a proposta deste Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), em formato impresso. Mais do que reportagens, o intuito deste jornal é ser fonte oficial e referência para pesquisas, tornando-se um registro verdadeiro da história do continente. E para que isso acontecesse, a população da região participou efetivamente, expondo suas opiniões e dando sugestões para a montagem do jornal. Entre 18 de junho e 13 de agosto, 395 moradores da Área Continental participaram de uma pesquisa de opinião com 12 perguntas sobre o lugar onde moram. O número de moradores foi extraído com base nos dados da Justiça Eleitoral, atualizados em abril de 2009, pois os índices do Censo 2000 já estavam defasados. Assim, as entrevistas foram feitas somente com pessoas que têm domicílio eleitoral na Área Continental, divididas pelos nove bairros, seguindo critérios de número de moradores, faixa etária e sexo.

Com o resultado deste questionário, foi traçado um perfil refletindo o que pensam os moradores sobre a região, seus principais problemas e melhores serviços; como veem a região ser retratada na imprensa e se conhecem a história de desenvolvimento dos núcleos onde vivem. A partir daí, foram traçadas as pautas (assuntos) que serão retratados neste jornal. Os moradores apontaram, também, se conheciam uma publicação sobre o continente, o melhor formato, assuntos que seriam destaque, o nome do jornal (entre quatro opções), e a melhor tipografia para o título das matérias e para o texto. Desta forma, é possível afirmar que todo este produto foi produzido, pensado e montado seguindo a opinião dos moradores, sendo assim, o retrato desta região. Retrato, aliás, que foi o nome escolhido por mais de 30% dos entrevistados. A margem de erro desta pesquisa é de 5% para mais ou para menos e, o nível de confiança, 95%. Os locais para coleta dos dados foram escolhidos aleatoriamente, assim como os entrevistados, baseando-se nos critérios pré-estabelecidos para a execução da pesquisa.

Conheça a Área Continental: 1 - Humaitá e Vila Nova Mariana* : 16.227 habitantes Área: 5,38 km² 2 - Parque Continental 12.557 habitantes Área: 4,22 km² 3 - Jardim Rio Branco 12.411 habitantes Área: 4,88 km² 4 - Jardim Irmã Dolores 16.741 habitantes Área: 16,44 km²

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Área: 2,81 km² 6 - Parque das Bandeiras 11.522 habitantes Área: 3,33 km² 7 - Vila Emma 2.772 habitantes Área: 1,62 km² 8 - Vila Nova São Vicente 3.966 habitantes Área: 0,39 km²

Fonte: IBGE - Censo 2000 * À época, a Vila Nova Mariana ainda não era considerada bairro, por isso não há números oficiais.

Expediente

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5 - Samaritá 1.472 habitantes

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Jornal Retrato – Suplemento Especial da Área Continental de São Vicente – É um trabalho de Conclusão de Curso de Comunicação Social (Habilitação – Jornalismo) da Faculdade de Artes e Comunicação da UNISANTA. Diretor da FaAC: Prof. Humberto Iafullo Challoub (Mtb 17.645) – Coordenador de Jornalismo: Prof. Dr. Robson Bastos (Mtb 15.390) - Editor Responsável: Douglas Luan – Orientação: Prof. Dr. Fernando De Maria (Mtb 21.123) – Design Gráfico: Douglas Luan e Bruno Santana – Textos: Douglas Luan – Fotos: Douglas Luan, Márcio Pinheiro (Mtb 33.590) e Reprodução.


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Um lugar bom para viver

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Mais de 50% dos moradores da Área Continental acham que, mesmo com a distância dos grandes centros, a região é boa para morar

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rea Continental. Para muitos, um lugar distante, de difícil acesso, periférico, praticamente um pedaço do interior no Litoral. Mas, ao traduzir a região em números, pode-se constatar que a realidade é muito diferente e vem mudando com o passar dos anos. Ao considerar o número de habitantes, a extensão de toda a região, os equipamentos públicos e o comércio que vagarosamente se expande, percebe-se que a Área Continental é uma cidade dentro de São Vicente. Com mais de 100 mil habitantes divididos em nove bairros e crescendo cada vez mais, a parte continental de São Vicente já tem sua importância dentro do cenário regional. Tanto que, demograficamente, é maior que 89% dos municípios paulistas. E os seus moradores se orgulham disso. Isso foi verificado por meio de pesquisa realizada com 395 pessoas que residem no núcleo. Para 51% dos moradores, o local, de uma maneira geral, é um lugar ótimo ou bom para morar, somando-se os que responderam ótimo e bom. E quando a pergunta foi especificamente sobre o bairro o número não foi muito

diferente: 49% gostam do lugar onde moram. Motivos As razões para tamanha aprovação são várias. Márcia Teixeira dos Santos, auxiliar de limpeza, de 43 anos, reside no Humaitá há exatos 27 anos. “Eu me mudei de Santos para lá assim que o conjunto foi fundado. Era uma ótima oportunidade de ter a casa própria, por isso não podia deixar passar”, lembrou. Ela recorda que nos primeiros anos existiam poucos serviços no bairro, o que foi mudando com o tempo. “Era difícil fazer qualquer coisa morando no Humaitá, além do transporte ser distante, entre o final da década de 80 e o começo dos anos 90, ele era precário, sem falar nas escolas e unidades de saúde. Mas, com o passar dos tempos, isso aqui cresceu bastante”, recordou. Para Márcia Teixeira, o Humaitá lembra uma cidade do interior. “Gosto porque é sossegado, tem tudo que a gente quer e bem perto. Faltam algumas coisas, como o asfalto, ou uma solução para um ponto ou outro que enche quando chove forte mas, mesmo assim, aconselharia quem quises-

se vir morar aqui”, disse. Everton Luiz, autônomo de 22 anos e que também mora no Humaitá, concorda com Márcia. “Tenho uma ótima convivência com meus vizinhos, são todos meus amigos”. Até quem mora há menos tempo na Área Continental aprendeu a gostar do local. Luiza Maria de Barros tem 33 anos e mora há apenas dois meses no Jardim Rio Branco. Ela veio do Nordeste para São Paulo com o marido e duas filhas, por causa do trabalho do esposo. Mesmo com o pouco tempo na nova residência, ela já começa a mostrar apreço pelo novo bairro. “Acho tudo muito bom”, afirma, com um largo sorriso no rosto. Suas filhas estão na escola, “que é mais perto de casa do que no outro lugar onde eu morava e é bem mais estruturada”, lembra. De acordo com Luiza, tudo é mais perto e a tranquilidade do bairro agrada. “Com certeza existem coisas que podem melhorar, mas nem mesmo a distância do Centro da Cidade me desanima, acho que aqui é o meu lugar”.

Já Luciana de Oliveira, dona de casa de 30 anos, trocou o Morro da Nova Cintra, em Santos, pelo Jardim Rio Branco há 10 anos. E não se arrepende. “A calmaria daqui lembra muito o interior de São Paulo. Não gosto de agitação, correria e o bairro não tem nada disso”, completou. Para o aposentado José Manuel de Oliveira, que mora no Parque das Bandeiras e tem 49 anos, seu bairro também é um lugar muito bom. “Já enfrentei bem mais dificuldades aqui. O começo foi muito difícil, não tinha nada, as ruas eram só barro, era difícil sair de casa para comprar alguma coisa”. Mas as lembranças recentes alegram e enchem de esperança o aposentado. “Tudo melhorou bastante, me animo ao ver a Área Continental crescer. As coisas, de pouquinho em pouquinho, vão ficando cada vez melhores. Espero que este crescimento não faça a tranquilidade que reina no meu bairro desaparecer, mas acredito que isto não vá acontecer”, aposta Oliveira.

“As lembranças nos alegram e enchem de esperança”

Vista do Parque Continental: tranquilidade é destacada por moradores


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Passado vive nos trilhos Primeiro núcleo a ser habitado no continente, Samaritá reserva ar interiorano

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ndar pela Rua Sergipe, no fôssemos analfabetas, por isso, nos Samaritá, é como fazer matriculou na escola”. Ela passou a uma viagem no tempo. Na estudar, em 1940, na recém-criada via de 300 metros está a Escola Mista de Samaritá, atualestação de trem, os postos da polícia mente Escola Municipal Armindo e de saúde, o comércio, a escola e a Ramos. “Não chegavam a ter 30 aluigreja. Tudo em um lugar tranquilo, nos na sala e o primeiro, segundo e cercado pela vegetação nativa, inco- terceiro anos eram juntos”. Todos mum de se pensar hoje em dia. Este os alunos da unidade eram filhos é o cenário atual do primeiro bairro de funcionários da via que se instada Área Continental de São Vicente. laram em pequenos chalés ofereciMesmo sendo o pioneiro da região, o Samaritá não seguiu o mesmo ritmo de desenvolvimento dos outros bairros. Por isso, ainda guarda resquícios de uma rica história, ligada diretamente às linhas de trem e à estação, instaladas naquele local e que hoje não funcionam mais. O ano era 1927. O governador do Estação do Samaritá guarda lembranças. No destaque dona Cida Estado, Júlio Prestes, determinou a construção de um entron- dos pela empresa. Algumas destas camento entre as Southern Railway, casas de madeira permanecem até via que ligava o Interior e o Planalto hoje no bairro, intactas, mantendo à Sorocabana, estrada de ferro que viva a memória daquela época. Quando completou oito anos, sua já existia até Santos. Com isso, foi criada a “linha Juquiá”, que uniria a família saiu de lá, mas logo ela retorCapital e o Litoral ao Vale do Ribei- nou ao bairro. “Fui morar em Santos, ra. O marco para a construção desta mas todo dia vinha para o Samaritá. grande obra foi, justamente, pela Tinha algo que me fazia vir para peslocalização, o desconhecido distrito quisar a história, até hoje não sei o que é”, diz, aos risos. do Samaritá. A partir destas pesquisas hisCom isso, iniciou-se a construção da linha. Os pais de Maria Apa- tóricas, surge a controvérsia com o recida Paulino Ribeiro, de 77 anos, nome do bairro. Alguns historiadores participaram deste processo como afirmam que é a junção de três exoperários. A partir daí, começou pressões hebraicas: Sama (desolação, uma trajetória muito próxima entre abandono), Rit (espetáculo, imagem) ela e o núcleo. “Não tínhamos resi- e Áh (determinativo), que juntos fordência fixa, morávamos um pouco mam Samaritáh, traduzindo, aquele em cada lugar. Conforme os ope- lugar que é a imagem da desolação, rários avançavam, íamos mudando ou o retrato da aridez, do abandono. “Segundo minhas pesquisas, um grunossos acampamentos”. Até o dia em que a obra chegou po de monges atuava por esta região ao local, seus pais continuavam o antigamente e um deles era conhecido trabalho intenso na abertura das por ser bondoso, daí recebeu o apelido ferrovias na região. “Mas meu pai de bom samaritano. Seus outros comtinha medo que eu e minha irmã panheiros apelidaram o lugar onde

ficavam de Samaritá por causa dele”, explica. Maria também participou da primeira missa celebrada na Área Continental, há 61 anos. De acordo com ela, o local escolhido foi um grande terreno, próximo da estação. “A celebração foi campal e presidida por dom Idílio José Soares. Ele veio de trem junto com um padre, e um outro trem especial, oferecido pela Fepasa (empresa de estrada de ferro pertencente ao Estado de São Paulo), trazia os ferroviários e seus familiares de graça”, lembra. Ela passou a residir fixamente no núcleo em 1965 e criou seus cinco filhos no Samaritá. No único comércio do bairro e um dos poucos da Área Continental, comprava as “coisas de casa”. “Os trens geravam muito movimento no comércio, mas também era só isso. Não tinha moradores suficientes para consumir”. Maria acompanhou o tímido crescimento do bairro com o passar dos tempos. Aos poucos, as pessoas foram chegando para formar residência fixa, na fuga do aluguel. As casas foram edificadas no mesmo ritmo de crescimento do bairro. Os pequenos caminhos de terra foram ampliados, se tornaram ruas, mas a maioria continua do mesmo jeito, sem pavimentação. Com o fim dos trens de passageiros, em 1999, a estação do Samaritá ficou abandonada. A área se tornou um cemitério de vagões enferrujados. A badalação existente no velho Samaritá sumiu. Aos poucos, funcionários da América Latina Logística (ALL) retomam as atividades no local, mas não para implantar o trem de passageiros. Mas, mesmo depois de dez anos sem atividades, é impossível andar pela Rua Sergipe e não sentir o clima das áureas épocas dos trens.

“Eu me casei na Igrejinha do Samaritá” Iracema Siqueira, de 51 anos, é moradora do Samaritá há 48. Nasceu em Itariri e, com 3 anos, veio morar em São Vicente. Após uma rápida passagem pelo Parque Bitaru, fixou residência no Distrito, onde vive até hoje. Foi lá onde cresceu, estudou e conheceu o esposo. “Fomos criados juntos, desde pequenos. Quando já era mais adolescente comecei a ‘mexer’ com ele e daí iniciamos um namoro. Dois anos depois resolvemos nos casar”. Ela lembra até hoje da cerimônia do casamento, na simpática Igreja de Santa Teresinha (foto), a primeira da Área Continental. Edificada em 1972, o templo veio substituir uma pequena edificação destinada à santa, padroeira das missões. A principal incentivadora da construção foi a irmã Maria Alberta, que lutou para angariar fundos para erguer o espaço. A rua ao lado da igreja ganhou o nome da religiosa, após o falecimento dela. Iracema até hoje é colaboradora da comunidade. Cumpre com sua “missão evangelizadora”, auxiliando na catequese e em outras atividades. E a igrejinha do Samaritá é mais especial ainda na vida dela. “Foi na Igreja de Santa Teresinha que também celebrei as minhas bodas de prata, em 2003. Tive a honra e o privilégio de me casar duas vezes na mesma igreja”. Amém.


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Um bairro cortado ao meio

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Parque das Bandeiras é o único núcleo dividido pela Rodovia Padre Manoel da Nóbrega

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Parque das Bandeiras é um bairro dividido. Mas sua divisão não é causada por motivos ideológicos, religiosos ou de gangues. O que faz com que o núcleo, o único da Área Continental, seja repartido em dois é a Rodovia Padre Manoel da Nóbrega (antiga Rodovia Pedro Taques). Mesmo com essa divisão física, o bairro consegue crescer e se destacar como um dos mais estruturados da região. Em 1969, Eduardo Celso Santos, proprietário de diversos terrenos na Área Continental, entrou com o processo n° 599 na Prefeitura de São Vicente solicitando autorização para realizar um loteamento nas imediações da Rodovia. O processo de terraplanagem do local e as vendas dos lotes tiveram início no ano seguinte. Para identificar o conjunto

às margens da rodovia, foram colocadas bandeiras coloridas. Na praça central também existiam diversas bandeiras. Por isso, os responsáveis pelo loteamento batizaram o local de Parque das Bandeiras. José Abelardo Sobrera de Carvalho, de 51 anos, lembra muito bem deste início. Com apenas 16 anos, mudou-se do Jardim Guassu para o Parque das Bandeiras, junto, com os pais. “Jogava bola desde moleque, e aqui tinha muito espaço para brincar”. O morador lembra que quando chegou ao bairro, o número de casas era baixo. “Da pista (no início do conjunto) dava para ver todo o terrão e a estação de trem”, recorda. O loteamento foi liberado sem ligações de água, esgoto e iluminação pública, o que dificultava a vida dos moradores. “Tínhamos que buscar água em

No outro lado, a Gleba II Um sucesso de vendas. Foi somente por este motivo que a Gleba II do Parque das Bandeiras foi loteada. Como todos os terrenos do primeiro trecho foram vendidos rapidamente, Eduardo Celso Santos, responsável pelos loteamentos, resolveu investir no local. E deu certo. A palavra Gleba quer dizer uma grande porção de terra não urbanizada. Por isso, o local que muitos consideram como um bairro independente é, na realidade, uma outra parte do Parque das Bandeiras, separado da Gleba I pela Rodovia Padre Manoel da Nóbrega. Wânia Ruiz Barreiros, 46 anos, é responsável pela primeira e única imobiliária na Gleba II do Parque das Bandeiras, criada há 27 anos. Não é à toa que ela foi uma das primeiras a adquirir um lote no local. “Morei na juventude na Cidade Náutica e, depois de me casar, passei a morar em São Paulo. Certo dia, vinha para Praia Grande e vi este novo loteamento. Paramos e, como as condições de pagamento eram flexíveis (até 72 meses para pagar), compramos um lote”.

Segundo Wânia, o loteamento chamava atenção pela beleza. “Já tinha calçamento e guias. Após construir a casa, eu e meu marido fomos convidados para trabalhar como corretores deste loteamento”. A partir daí, começaram a edificar também a vida neste novo local. “Nossa filha foi a primeira a nascer na Gleba II. Passamos por muitas dificuldades, entre elas a falta de infraestrutura, de escolas e creches”, lembra. Ela pensou em se mudar, mas a vontade de viver em um lugar tranquilo falou mais forte. “Seguramos as broncas e hoje estamos bem sucedidos. Minha filha se formou em Direito e montou o escritório no bairro, o primeiro da Gleba II. Depois de ter sofrido tanto, não penso em sair daqui”, afirmou. Para Wânia, “a única coisa que nos divide é a Rodovia, mas agora com o viaduto (inaugurado em 2008 pelo Governo do Estado) fica tudo bem mais fácil”. Ela acredita que o Parque das Bandeiras é um só. Um bairro que tem muita história para contar.

um chafariz, uma ligação de água potável que ficava na praça (atualmente a Praça Brasília). Era só uma torneira para todo o bairro”, lembra Carvalho. Era na praça que ficava o único ponto de iluminação pública do bairro. Foi durante o mandato de Koyu Iha – prefeito de São Vicente de 1977 a 1981 – que o Parque das Bandeiras ganhou a iluminação pública e a água encanada. Ainda de acordo com Carvalho, como meio de incentivar a vinda de novos moradores para o núcleo recém-formado, os responsáveis pelo loteamento doaram aos 100 primeiros compradores um milheiro de blocos e um caminhão de areia. Carvalho fez sua vida no Parque das Bandeiras. Começou a trabalhar em uma loja de materiais de construção e, não muito tempo depois, criou o próprio comércio, uma serralheria. Casou, criou três filhos e não pensa em sair do núcleo. “Aqui é um lugar bom demais. Não penso em me mudar”. Histórico de lutas Quem vive no bairro também lembra das lutas por me-

lhores condições de vida. Luiz Silva, ou o Luiz da Padaria, de 63 anos, participou de muitas lutas. Entre os protestos que participou desde 1973, está o de interdição da Rodovia Pedro Taques. Quando chegava a temporada de verão, a pista, que até então tinha duas faixas, uma sentido Praia Grande e a outra em direção a Cubatão, ficava apenas com o sentido único para o Litoral Sul. Assim, a locomoção para outras regiões, que já era difícil, ficava ainda pior. “Certo dia, o pessoal se revoltou e fomos fazer um protesto pedindo a duplicação. Fechamos a pista, queimamos pneus, eram mais de 500 pessoas. O batalhão do choque da Polícia Militar veio de São Paulo para acabar com a manifestação, e a situação, que até então estava tranquila, acabou se tornando uma guerra. Para fugir da ira da polícia, o povo entrou na igreja. Teve de tudo neste dia”. Mas, mesmo com esta grande batalha, o saldo foi positivo. “Geramos um grande congestionamento, que foi até Peruíbe. Mas a pista foi duplicada posteriormente”, salientou.

José (esq.) e Wânia: Eles gostam do lugar onde vivem


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De onde vem esta Emma (ou Ema)? Segundo núcleo a ser loteado na Área Continental, o bairro guarda importantes tradições

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Vila Emma é um lugar tranquilo, ruas quase sempre vazias e casas simples. Este foi o segundo núcleo loteado na Área Continental, no final da década de 50. Muito tempo passou e as tradições são mantidas no cotidiano de quem vive no bairro. Mas a pergunta que mais intriga os moradores é: de onde vem esta Ema que batiza o lugar? A primeira impressão é a de que o nome é referência à ave de origem na América do Sul e que só se distingue de um avestruz por ter três dedos nos pés. Segundo Wilson Roberto de Lima, aposentado, de 63 anos, o que dizem nas ruas do núcleo é que os índios que viviam antigamente nas localidades cuidavam destes bichos e, por isso, o nome do bairro faz referência a eles. Mas a versão oficial quem dá é Claudinei Alves Emernegildo, de 46 anos, mais de 30 no bairro. Em 1952, Vitório Viquetti, um paulista que era dono de alguns alqueires de terra na área organizou um loteamento. Fez as divisões dos terrenos e das ruas e, em homenagem a sua mulher, que se chamava Emma Viquetti, batizou o lugar como “Vila Emma”. Nos registros

da Prefeitura, o nome é grafado com duas letras eme. Controvérsias à parte, muito tem a se contar sobre as histórias deste pequeno bairro, de 2.772 habitantes, segundo o Censo do IBGE de 2000. Os dois moradores sempre se reúnem com vários amigos às terças-feiras, num ato que já é tradição. No bar de Emernegildo, cozinham moídos de boi em um forno à lenha. Tradição que passa as gerações e, em meio a este almoço, contaram as histórias do lugar que escolheram para viver. De acordo com Wilson Roberto de Lima, quando ele chegou ao bairro, em 1978, o local tinha poucas casas. “Já morava em uma área próxima ao Samaritá desde a década de 50 e só tinha condição de comprar um terreno aqui na Vila Emma”. Além das poucas residências, segundo o morador, havia muito mato no local e as ruas, pequenos caminhos de terra, eram de pura lama. “Para a ambulância chegar até aqui era muito complicado, principalmente em épocas de chuva. Teve um dia que uma entrou aqui e atolou. O trator veio para retirá-la e também ficou atolado. Era uma situação muito complicada”, relembra.

Ruas da Vila Emma, de tão vazias, lembram o interior E as dificuldades não paravam por aí. A iluminação só chegou no início da década de 80. A água era retirada de um poço artesiano. Foi no mesmo período que a água encanada chegou ao local. “Os primeiros 50 moradores foram premiados e não pagaram a instalação da água. Para ele, acompanhar o desenvolvimento do núcleo, que hoje conta com ruas asfaltadas, é muito satisfatório. “Fico feliz em ver a Vila Emma do jeito que está hoje. Não me mudaria daqui por nada neste mundo”.

O tradicional time da Vila A Vila Emma também tem ou- local era a equipe montada pelos tras marcas tradicionais. Uma moradores da Vila. delas é o Vila Ema Futebol Clube, Emernegildo lembra das partifundado em 1975 pelo pai de Clau- das que movimentavam o campo dinei Alves Emernegildo. A casa do do Baixadão. Além dos “clássicos” time era o campo do Baixadão, um locais, com as equipes da própria grande terreno Área Continental, até equilocalizado na pes do Interior e de outros margem direiJogadores do estados do País protagonita da Rodovia zaram duelos eletrizantes Baixadão Padre Manoel no campo. da Nóbrega. “Uma partida que até viraram O Baixadão hoje está na memória de não era soquem participou foi Vila profissionais mente a casa Emma contra Caquendi, de do time da Vila São João Del Rei, de Minas Emma. Equipes do Parque das Ban- Gerais. Como meu pai era mineiro deiras, do Jardim Rio Branco e do e conhecia muita gente de lá, ele Humaitá utilizavam o espaço para marcava estes jogos. mandar seus jogos, mas quem Ainda de acordo com ele, dimandava mesmo nas partidas no versos jogadores que passaram

pelo Baixadão fizeram sucesso nos campos de futebol profissional no País inteiro. “Atletas como Café e Bizu jogaram em times do Nordeste e o Juninho hoje é atleta do CSA, das Alagoas”, relata Bicudo. Mesmo com toda esta história e tradição, o futuro do Vila Ema está ameaçado. Os responsáveis pela equipe perderam os documentos que, segundo eles, davam posse do terreno do Baixadão para os moradores do bairro. Sem a comprovação, uma empresa pode tomar posse da área. “Seria uma pena, mas procuraríamos outro lugar”, diz Bicudo. E a história do tradicional time, do tradicional bairro, teria que ser escrita em outros gramados.

As lembranças dos tempos passados são boas. “Lembro muito dos bate-papos à noite, quando, sentados em frente as nossas casas conversávamos por muito tempo. Eram várias pessoas, era muito bom”, afirma. Iolanda No início da década de 50, outros loteamentos foram criados na Área Continental, entre eles a Vila Iolanda. Este lote surgiu com o desenvolvimento do Samaritá. Graças ao crescimento do núcleo, que era impulsionado pelo movimento na estrada de ferro, muitas pessoas começaram a se interessar pelas áreas próximas da estação. Pouco se sabe sobre a Vila Iolanda, mas segundo alguns moradores, este espaço pertencia a uma família com o sobrenome Iolanda. Como este loteamento nunca foi apresentado oficialmente à Prefeitura de São Vicente, não chegou a ser aprovado, mas foi habitado. O pequeno núcleo, que tinha cinco ruas, foi oficialmente suprimido pela Lei Complementar 216/98, de abairramento municipal. Esta lei reorganizou a área urbana de São Vicente e determinou que o município passaria a ter 28 bairros. Com isso, as seis ruas do núcleo foram incluídas na Vila Emma.


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Integração que causa polêmica

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Em 1998, a Vila Matias passou a integrar a Vila Nova São Vicente. Foi o bastante para começar a discussão

s moradores da Vila emprego na Baixada Santista. Por Nova São Vicente vi- dez anos morou no Parque das vem um dilema. Depois Bandeiras e quando ficou sabenda Lei Nº 227 de 1998, do que a imobiliária loteava uma o pequeno núcleo chamado Vila nova área, logo se interessou. “Morava de aluguel e assim Matias passou a integrar o bairro. No papel é assim, mas a prática é diferente. Quem mora no lugar não assume esta identidade. O impasse é causado porque a Vila Nova São Vicente, que é, segundo registros, um loteamento mais novo que o da outra vila, foi apresentado pela SaFim do asfalto marca divisão entre núcleos maritá Empreendimentos Imobiliários e aprovado na Prefeitura de São Vicente em 1984. Já o outro lado, ocupado poucos anos antes, perAlheios à lei que acaba com tence a outros donos, e foi invadido por centenas de pessoas. a Vila Matias, os moradores afirPor isso, não é reconhecido pelo mam que o núcleo não morreu. Basta estar no local e perguntar: Poder Público Municipal. Outros motivos também cau- onde você mora? A resposta é sam indignação por parte dos imediata: na Vila Matias. É muito moradores. Enquanto um lado difícil encontrar, na área de 15 é asfaltado e arrumado, o outro ruas que compreende o lugar, alainda precisa de muita coisa. E guém que afirme morar na Nova é seguindo neste dilema que a São Vicente. Martinho Santana dos Santos história dos bairros foi sendo escrita: inicialmente separados e (foto), aposentado, de 55 anos, foi um dos primeiros moradoagora juntos para sempre. res do núcleo. Em 1982, saiu de Cubatão, onde pagava aluguel, Início da Vila Nova O nome escolhido para o lo- para se aventurar, sozinho, em teamento Nova São Vicente faz uma área promissora próxima referência ao momento espera- da Rodovia Padre Manoel da Nódo para região: os investimentos brega. “Quando cheguei aqui só e promessas de melhorias, além existia um pequeno barraco pródas especulações alimentavam ximo da linha do trem”. As condições de vida no loisso. Cícero Honorato dos Santos, cal eram precárias. Não havia aposentado, de 49 anos, chegou ruas e avenidas, apenas pequea Área Continental há 30 anos, nos caminhos de terra no meio vindo de Alagoas para conseguir do mato. No barraco que ergueu

que surgiu a oportunidade comprei um lote no bairro”. Quando chegou, existiam apenas dez casas, “além de lama e mato”. As ligações básicas de água e luz também já estavam instaladas nas poucas residências do núcleo. Segundo o morador, o boom de crescimento da Vila Nova São Vicente aconteceu entre 1993 e 1994. Uma das maiores dificuldades enfrentadas na época era o sistema de transporte que, de acordo com Honorato, era deficitário. “Tínhamos que ir até a Vila Emma ou ao Parque das Bandeiras para tomar um ônibus ou o trem”, recorda. Hoje, de acordo com ele, o sistema é bem melhor. “O que precisa é concluir a pavimentação do bairro”, diz.

Aqui é a Vila Matias! não existia ligação elétrica e a a metragem na hora”. água para as necessidades básiMesmo com esta negociação, cas era buscada no Parque das a Prefeitura de São Vicente nunBandeiras, mais de um quilô- ca aprovou qualquer loteamenmetro de sua casa. “Pegava com to naquele local, por isso a venbaldes no chafariz da Praça Bra- da foi irregular. sília”, recorda. Os dois moradores afirmam Heleno Beque a Vila Matias zerra da Silva, é um lugar e a Vila pedreiro, de 49 Nova São Vicente Ele media e anos, chegou ao é outro. “Ela nem negociava a local em 1983, existia quando depois de ter traisto aqui começou metragem na balhado na consa crescer”, salientrução do Conta Bezerra. Ainda hora junto Humaitá. assim, depois de De acordo com terem invadido a ele, nem a polícia, nem a Prefei- área, hoje são donos legítimos tura, muito menos os proprie- de onde vivem, por causa do tários das terras, uma família usocapião (quando, após um petradicional que tinha Matias no ríodo de uso, sem a reclamação sobrenome, se importaram com do proprietário, o não propriea invasão. “Depois que começou, tário ganha o direito de posse veio um senhor representando a sobre a terra ou casa). E contifamília e vendeu os terrenos des- nuam a vida, seja na Vila Matias ta região. Ele media e negociava ou na Vila Nova São Vicente


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Aposta que deu certo

Um grande terreno no meio do nada. Quem foi para o Humaitá logo no início enfrentou muitas dificuldades

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air de um lugar com uma to, era um espaço no meio do nada”. Quem apostou e continuou, se deu Ele morava no Jardim Rio Branco infraestrutura básica, com Mesmo com o susto, não desistiu. bem”. Com o passar dos anos, a quando o Humaitá foi entregue e, equipasituação melhorou e no dia da inauguração, já pensou mentos hoje ele não se arre- em marcar o seu ponto. “Peguei perto de casa pende. “Agora temos meu carro, coloquei um som em para morar em mercado, farmácia e cima e fui vender refrigerante para um local novo, outras coisas, tudo os moradores”. Nos dias seguintes, afastado dos perto de casa; a pis- o mesmo carro levava ao bairro, grandes centa foi duplicada e o que ainda não tinha qualquer cotros e de difínúmero de ônibus mércio, pão e leite. cil acesso. Esta aumentou consideraCom o aumento da procura, troca, impossívelmente”, conta. Moura resolveu se instalar definitivel de se penvamente no bairro. Junto com mais sar nos dias de Comércio algumas pessoas pegou algumas hoje, aconteceu Um dos pontos lonas e, na praça atrás do Colégio com mais de 3 fortes do bairro é o Kelma Maria, formou uma espécie mil famílias em comércio. A Rua José de conjunto comercial. “Chegou a novembro de Singer, por exemplo, existir quatro barracas na praça”. 1983. Foi nesta é considerada um O apelido de José Gomes de data que o Condos principais pon- Moura veio junto com o seu prijunto Humaitá tos do bairro, onde meiro comércio fixo, um mini-merfoi entregue se localizam diversos cado nas proximidades da praça oficialmente. serviços. Mas, assim do ponto final do Humaitá, chaNa época, um como os moradores, mado Castelinho. O comerciante grande desafio. os comerciantes tam- pretende dar um novo impulso na Eliseu na praça H: ponto de encontro dos moradores do bairro Atualmente, bém tiveram dificul- carreira: vai abrir um restaurante uma realidade, dades no início. self-service com churrascaria no um dos mais importantes e mais esO sorteio foi feito em 1983, no José Gomes de Moura Irmão, 48 bairro, o primeiro do lugar. Mais truturados bairros de São Vicente. pátio do Colégio Santista. “Tinha anos, conhecido como Castelinho, um desafio para alguém que aposO conjunto foi idealizado pela muita gente naquele dia. Fui sor- foi um dos pioneiros do núcleo. tou no Humaitá. Companhia de Habitação da Baixa- teado e saí de lá com a chave nas da Santista (Cohab-BS). A constru- mãos”, diz. Foram distribuídas três ção das casas aconteceu entre 1978 tipos de residência: uma casa-eme 1983, por meio de financiamento brião, uma espécie de sala-living do extinto Banco Nacional da Habi- nos dias de hoje, além de residênNos fundos do Humaitá, em uma As primeiras casas erguidas tação (BNH). Eram residências po- cias com um e dois quartos. Eliseu área próxima ao leito do Rio Maria- eram de madeira. Os terrenos pulares, construídas em um estilo Bispo ganhou a casa-embrião. na, começava a surgir, em 1992, pe- foram separados e aterrados em idêntico, e voltadas para pessoas O preconceito foi uma das coi- quenos focos de uma iminente inva- medidas parecidas, para evitar com uma renda mais baixa, que sas que mais marcou a trajetória do são. Luiz Carlos de Jesus, ajudante, confusões. “Também criamos queriam realizar o sonho da casa novo morador. “Por causa da distân- de 44 anos, foi um dos primeiros a cinco vielas”, explica o ajudanprópria em um período economica- cia, diziam que morávamos em terra montar um barraco te. Com o passar mente difícil. de índio. A Rodovia Padre Manuel da no local, formando do tempo o local E era neste contexto que se en- Nóbrega era pista simples. Por isto, a Favela do Mariana. foi crescendo e as Vila Nova caixava Eliseu Bispo dos Santos, hoje para ir ao trabalho, tinha que ir até a “Foram feitas duas casas de madeira aposentado, de 55 anos. Ele mora- Praia Grande para pegar um ônibus e invasões: na primeiMariana foram substituídas va em Santos e ficou sabendo que a ir em direção a Santos”, diz. ra veio a polícia e a por outras de alvesurgiu em 92 Cohab-BS realizava a inscrição para Além disso, a falta de iluminação Prefeitura quando naria. Também cheaquisição de lotes em dois novos em- pública logo no início geravam situ- retiraram o pessoal. gou a luz e a água preendimentos, os conjuntos Humai- ações engraçadas. “As casas eram Na segunda veio só a encanada. tá, em São Vicente e o Sambambaia, todas bem parecidas e também não polícia, mas era muita gente, e em Em 2004, uma legislação muem Praia Grande. tinham muros. Era uma coisa só. Às um certo momento ficou difícil de nicipal tornou o pequeno núcleo, “Não conhecia nenhum dos dois vezes, quando chegávamos à noite, segurar”. hoje com aproximadamente 5 mil lugares. Fui me inscrever na própria ainda sem costume, era comum conSegundo Luiz Carlos, o local era re- moradores, em um bairro, a Vila sede da Cohab. Não conseguia mais fundir a casa e bater em uma outra servado pela Cohab para abrigar uma Nova Mariana. “O nosso bairro já pagar aluguel, a situação estava fi- residência”, lembra. espécie de zoológico, “pois ali tinha está deixando o estigma de facando complicado”, lembra Bispo. Por causa destas dificuldades, mato e mangue”. O tio dele tinha uma vela. Hoje, ele está urbanizado, Logo após, foi conhecer o local e muita gente deixou o local. “As residência no Humaitá, e ao saber que não tem enchentes e nunca teve ficou surpreso. “Era um areião, com pessoas trocavam casas por cai- havia um pequeno foco de invasão, incêndio. A própria comunidade os terrenos demarcados com esta- xas de cerveja, porque não acredi- Luiz foi tentar conquistar seu pedaço está se organizando”, finaliza cas de madeira. Não tinha nada per- tavam que o Humaitá daria certo. de terra. “Era difícil pagar aluguel”. Luiz Carlos.

A favela que se tornou bairro


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“Capital” da Área Continental

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Um dos principais bairros da região, o Jardim Rio Branco ainda tem muito a ser feito

Jardim Rio Branco tem uma semelhança com a Capital Federal, Brasília. Por estar no centro da Área Continental e servir de passagem entre outros bairros e a ilha, o Rio Branco concentra, na avenida principal, a Ulysses Guimarães, dezenas de comércios e serviços, além da delegacia e a subprefeitura. Mas ao sair da avenida parece que se está em outro bairro, assim como em Brasília que, planejada e imponente, mas as cidades satélites próximas passam por dificuldades. Poucas vias são pavimentadas e o que se vê é mato e lama. O bairro cresce por sua posição estratégica, mas andar pelas ruas é uma tarefa difícil, principalmente em dias de chuva. Muitos alegam que o bairro foi um dos primeiros do continente e que merecia mais atenção. Início O loteamento do Jardim Rio Branco teve início em 1957. A área pertencia à família de Leão Jafet, que entrou com um processo na Prefeitura solicitando a autorização para a venda de lotes. O nome é uma referência ao rio de água salgada que passa próximo do bairro, o Branco. Mesmo com início no final da

década de 50, poucas casas foram erguidas no bairro na época. O receio de que um loteamento naquela região não daria certo era grande. Jocilene Santana Menezes, de 37 anos, proprietária de uma casa de lanches, vive no Jardim Rio Branco há 28 anos. Ela veio de Cubatão com o pai, a mãe e seis irmãos. “Existiam poucas casas aqui e o que se via era uma área de mangue e outra área bem fina, parecida com a da praia”. O pai de Jocilene ergueu um barraco de madeira em uma área aterrada de mangue. “Eram três cômodos para oito pessoas”. Segundo ela, no projeto inicial do bairro, a avenida principal seria uma via que hoje é chamada de Rua 13. “Simplesmente mudou e eles usaram a Ulysses Guimarães”, afirma. Durante os primeiros meses, não havia ligação elétrica e a família ficava à base do lampião. A água vinha de um poço artesiano. “Muitas pessoas que vinham de Cubatão para nos visitar nos taxavam de loucos por escolher morar aqui”, diz. Mas a aposta deu certo. De acordo com a moradora, os terrenos do bairro se valorizaram com o tempo e com o crescimento do núcleo. O Rio Branco se desenvolveu e hoje mostra grande poten-

cial. “As pessoas tem que valorizar o lugar onde vivem, só assim poderá crescer ainda mais”, diz ela. Tem de tudo Hoje ela tira o sustento da família da casa de lanches que montou na Avenida Ulysses Guimarães. “Comecei com uma pequena lanchonete que tinha apenas uma máquina de sorvete. Fomos crescendo devagar e hoje o nosso comércio é referência”, relata.

E na via, que tem pouco mais de dois quilômetros de extensão, é possível verificar a intensa atividade comercial. Somente neste trecho existem 159 estabelecimentos de todo tipo, desde consultórios dentários e escritórios de advogados a bares, padarias e igrejas. “A localização central da Avenida Ulysses Guimarães e o fato de ela ser larga (10 metros) colaboram para isso”, explica o subprefeito da Área Continental, Ulisses Garavatti.

Eles pescam nas águas do rio Branco Gonçalo Lopes, técnico em O rio que batizou o Jardim Rio Branco não passa próximo dele. química, de 37 anos, vai ao rio O acesso mais fácil para ele é o frequentemente. Ele alerta que o Portinho, que fica na Gleba II, do número de peixes tem diminuído Parque das Bandeiras. Ele atrai a consideravelmente nos últimos anos. “E isso não é atenção não só pecausado pela poluição, las belas áreas de mangue próximas Pesco tainha, mas por pessoas que vêm com redes e tarraao leito, mas tamparati, robalo fas”, diz ele. Isto aconbém pela pescaria, tece também na época atividade executada e bagres do defeso. por moradores da Mesmo com a diÁrea Continental. E minuição, Lopes leva tudo isso, aparenteo filho de 13 anos para pescar. mente, imune à poluição. Cláudio Valença de Souza, de- “É uma distração boa para ele”, sempregado de 45 anos, vai ao ressalta o pai, dizendo que o rio há mais de 20 anos. “Desde mais importante é o menino ter criança gosto de pescar”. Sempre contato com a natureza. “Nós que pode, sai sozinho do Humaitá podemos ter uma diversão dipara realizar as pescarias. “Pego ferente do que as outras pestainha, parati, robalo e bagres”, soas poderiam ter”. E o menino afirma. Enquanto dava a entrevis- já conta histórias de pescador: ta, Valença pescou um bagre de disse que o maior peixe que peaproximadamente 20 centímetros. gou foi uma tainha de 1 quilo e 300 gramas. “Mas vem muito peixe grande”.

Avenida Ulysses Guimarães: principal corredor do continente


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“Toda perspectiva de crescimento de S

O prefeito de São Vicente, Tercio Garcia, fala como superar os problemas do continente, da importânc

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Área Continental viRetrato - Qual a importância centina é o futuro do da Área Continental para São ViMunicípio na visão do cente? prefeito Tercio Garcia. Tercio Garcia - Atualmente, “Toda perspectiva de cresci- um terço da população da Cidamento de São Vicente está na de mora lá, portanto, a região região”, explica o governante, tem um peso muito grande para também engenheiro agrônomo. a Cidade. De tudo que o MuniÀ frente da Administração da cípio tem, 1/3 tem que estar Primeira Cidade do Brasil há voltado para a Área Continental cinco anos, após ter sido reelei- neste momento. A gente efetivato em 2008 com a maioria abso- mente faz muito mais porque, luta de votos, o prefeito vicen- por muito tempo, a região ficou tino deposita as esperanças de afastada da Área Insular, por crescimento e desenvolvimento não ter uma ligação física. Por de São Vicente na Área Conti- isso, agora temos que recuperar nental. o tempo perdido. A Cidade sempre E para o futuro, a passou por sérios parte continental problemas econôterá um peso ainmicos e isso reflete da maior, porque na infraestrutura toda a perspecdo Município. Este tiva de crescié um dos motivos mento da Cidada cobrança de de está na Área um IPTU tão caro, Continental, nas se for comparado áreas ainda licom outros munivres da região cípios da Baixada. onde se pode Por não contar com produzir todo o um polo industrial, serviço retroporuma área portuátuário que a Bairia ou um turismo xada vai precisar sustentável, São Vino futuro. Então, cente se tornou um lá na frente, nós lugar de paradoesperamos que a xos interessante: é importância dela Hoje, este é o seja bem maior a segunda maior cidade da Região que hoje. Metropolitana em núcleo que mais população (ficanR - Então o sr. cresce em do atrás apenas de considera que a Santos) e a quinÁrea ContinenSão Vicente ta em orçamento tal pode ser a (sendo superada “salvação” por por Santos, Cubatão, Guarujá e ter áreas disponíveis para a Praia Grande). implantação de empreendiÉ por este motivo que Tercio mentos que podem impulsionar Garcia aposta tanto no desen- a Cidade? volvimento do continente, para Tercio - Eu não diria salva“correr atrás” deste prejuízo ção, mas como ferramenta de histórico. Nesta entrevista, ele planejamento é para lá que a fala sobre a importância es- Cidade tem que crescer. Portantratégica da região para o mu- to, será possível criar condições nicípio, como superar os pro- para que o Município possua blemas de infraestrutura que uma importante fonte de renda ainda atingem a região e o que e que dê uma dignidade maior os moradores do núcleo podem para o seu povo, mais do que esperar para o futuro. consegue dar hoje.

R - Em efeitos comparativos, por ser um distrito oficial vicentino, a Área Continental pode ser para o município o que Vicente de Carvalho é para o Guarujá hoje? Tercio - Eu acho que pode sim, sem dúvida, mas não é este o caminho que pretendemos dar. O caminho que queremos seguir é mais ecológico e, a rigor, essa decisão acaba sendo do povo. Houve um momento em que as pessoas que residem na parte continental lideravam um movimento muito forte de transformar este distrito da Área Continental em uma cidade. Hoje, isso já é bem menor do que no passado, pois, na medida em que a pessoa vai se sentindo integrada a São Vicente, este sentimento vai diminuindo. R – O Jornal Retrato realizou pesquisa com 395 moradores da região e um dos resultados mais expressivos é o que apontou que mais da metade dos moradores gostam do lugar onde vivem. Como avaliar este resultado? Tercio - É, de fato, o reconhecimento do momento atual. A Área Continental, em todos Tercio os índices do Município, como o de violência, por exemplo, é melhor do que a ilha. As pessoas conseguem enxergar isso, o que é positivo. O que falta é justamente a infraestrutura que a ilha tem por ter quase 500 anos de história, e a parte continental tem muito menos do que isso. Hoje, a Área Continental é o núcleo de São Vicente que mais cresce, e a conexão efetiva do continente com a Administração Municipal se deu a partir de 1998, quando foi finalizada a ligação via Ponte dos Barreiros.

Foi ali que começou o boom de crescimento e o respeito efetivo à Região. Atualmente, o que a Área Continental precisa é de infraestrutura. Quando nós conseguirmos completar todas as ações básicas, a região será ótima para morar. Eu tenho certeza disso.

visita obras de urbanização no Jardim Irm R - Sobre os serviços públicos oferecidos à população, a coleta de lixo e os transportes foram apontados como os melhores pelos moradores... Tercio - São serviços que, efetivamente, competem à Prefeitura, juntamente com saúde e educação. É claro que a gente busca aplicá-los com bastante critério, pois é uma área que, em especial, não conta com a infraestrutura que precisaria contar ou que contará daqui a alguns anos. Por isso, você precisa ter uma


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São Vicente está na Área Continental”

cia estratégica da região para o Município e o que a população pode esperar para o segundo mandato coleta de lixo capacitada, por já não contar com a rede de esgoto completa, com asfalto na rua. É preciso que estes e outros serviços compensem. Há uma atenção especial para estas áreas e eu fico feliz em saber que a população consegue enxergar isso.

Há necessidade de reforma nos para diminuir esta prestação das do se deslocam de lá dizem ‘eu prontos-socorros e sabemos dis- pessoas. Efetivamente, pagar todas vou para São Vicente’. E eu sei que so. Na Cidade, nós vão pagar, mas se isto acontece por todo um históritemos quatro destes nós pudermos di- co de afastamento que houve. Isso equipamentos, dois minuir a presta- se conquista com melhoria, com na Área Insular e ção das pessoas, qualidade de vida. As dificuldades dois na Área Contié melhor que seja hoje em dia são menores que antinental. Então, há um assim. Então, o gamente, mas ainda há um sentiatendimento de saúque aconteceu no mento muito grande de que a Área de que corJardim Rio Bran- Continental é um lugar e de que responde co e no Humaitá é São Vicente é outro. O nosso tracom o ofeexatamente isso: balho tem sido muito concentrado recido na conseguimos re- em fazer com que a Área Contiilha. O que cursos de emen- nental se sinta integrada, absoluacontece é da ou de projetos tamente, à cidade de São Vicente. que, pontupara diminuir o Seja Ilha ou Área Continental, não almente, no peso da contribui- importa, a Cidade é uma só, e eu país inteiro, ção das pessoas. acho que o grande desafio é este, a saúde é Na medida em pois você mexe com a autoestima, enxergada que nós formos com o sentimento das pessoas. E com maus obtendo recursos, estes sempre são os desafios mais olhos pela toda a Área Con- complicados, de longo prazo. população. tinental será conR - O que o morador da Área É uma pasAs dificuldades templada. Continental pode esperar deste seu ta desgastada. Mas, R - O que o segundo mandato? de hoje são Tercio - A Área Continental as ações da sr. enxerga como saúde no maior desafio vem crescendo e eu não tenho menores que Município quando se fala de dúvidas de que em breve será um antigamente de São ViÁrea Continental? grande celeiro de empregos e de cente têm Tercio - Acho qualidade de vida. O futuro da resido muito que o maior de gião depende do que planejamos concentradas na Área todos os desafios é fazer com que hoje e como o planejamento está Continental. a população desta região se sinta sendo feito com carinho. Eu tenho parte integrante de São Vicente. certeza de que este pedaço de São R - Outro ponto bas- Ainda hoje as pessoas falam ‘eu Vicente tem um futuro maravilhotante criticado pela popu- sou da Área Continental’ ou quan- so e brilhante pela frente lação foi a pavimentação. Recentemente, foi anunciado um investimento de R$ 700 mil para asfaltar o Humaitá. Mas quais são mã Dolores: prefeito aposta na Área Continental os projetos da Prefeitura para contemplar os outros R - Entre os serviços que mais bairros? preocupam a população estão a Tercio - Toda a pavimentação saúde e a segurança. Quais são na Cidade se dá por meio do Plaos projetos da Prefeitura? no de Contribuição de Melhorias Tercio – Como segurança é (PCM). Portanto, é com o pagamenalgo exclusivo do Estado, nós to da população que essa melhoria contribuímos com o que é possí- é feita. A nossa preocupação é a sevel. Quanto à saúde, nos últimos guinte: quanto mais você se afasta anos, a pasta, principalmente na do grande centro, mais as pessoas Área Continental, foi uma das têm dificuldades em pagar esta que mais investiu e criou novos contribuição por melhoria. Então, postos, a ponto de ter serviços nosso caminho tem sido buscar no continente que não existem recursos junto aos governos do Esainda na Ilha, como o Centro Es- tado e Federal. Recursos estes que pecializado Odontológico (CEO). nem sempre são fáceis de captar Fonte: IBGE e Secretaria Municipal de Planejamento e Gestão Orçamentária

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Raio X da Área Continental

Residências - 19.866 População - 87.573 Escolas - 21 Equipamentos de Saúde - 15 Bolsa Família/ Famílias Beneficiadas – 3.152 IPTU 2008 Lançado – R$ 9,47 milhões Arrecadado – R$ 5,80 milhões


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Na planície, surge o Parque Continental Um dos maiores bairros da região se desenvolve rapidamente

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ltimo loteamento particular autorizado pela Prefeitura na região, em 1986, o Parque Continental registrou no início dos anos 90 uma grande expansão. Mas quem chegou no começo enfrentou problemas que hoje se tornaram lembranças deste que é um dos maiores bairros do continente - com mais de 15 mil habitantes. A empresa responsável por organizar o loteamento foi a extinta Samaritá Empreendimentos Imobiliários, um braço da Cidade Náutica Imóveis, de propriedade de Eduardo Celso Santos. O nome do bairro se refere à grande área de planície que faz do lugar um bairro completamente nivelado, com ruas largas e espaçosas. O chefe de departamento, José Batista da Cruz, de 49 anos, foi um dos primeiros a comprar um destes lotes. Na década de 80, ele trabalhava como motorista e trazia, da Cosipa, os moradores da Área Continental para suas residências. “Morava no Jardim Castelo, em Santos, e pagava aluguel. Um dia, ao deixar um funcionário no Humaitá ele comentou comigo que estavam vendendo terrenos em um novo loteamento. Interesseime e fui saber detalhes”, conta. Na mesma semana que foi se informar sobre o terreno, ganhou uma “quantia razoável de dinheiro” na loto. “Daí não duvidei. Paguei Cr$ 47.000 por um terreno”. Para efeitos de comparação, Batista gastava, por mês, Cr$ 17.000 com o aluguel de sua residência em Santos. Segundo o morador, o loteamento foi vendido com a promessa de que ganhariam água encanada, luz, esgoto, guias e sarjetas. “Mas isso foi acontecer bem depois”, afirma. Quando começou a erguer sua residência, existiam dez casas em todo o conjunto. Mesmo com todos os problemas do início, Batista não pensou em desistir. “Existia uma areia bem

fina no Parque Continental, o bairro era praticamente todo assim. Quando ventava aquela areia subia e entrava na casa da gente. O vento também levou muitas telhas das casas que estavam sendo construídas”. O morador usou um poço artesiano em sua casa por cinco anos e a água potável era buscada na casa de um amigo, no Humaitá. Mas Batista ressalta: não tem só lembranças de dificuldades. “Até hoje, é muito fácil fazer amizade no bairro. Naquela época, juntávamos os amigos e íamos a um córrego que ficava próximo de casa para pescar carazinho. Depois nos reuníamos e era aquela festa. Também era muito bom poder participar das construções das casas dos amigos que chegavam aqui. Era sempre muito agitado, sempre tinha casa sendo erguida”. Lutas Marciano Romeu de Souza, de 63 anos, também foi um dos primeiros a morar no Parque Continental. Ele chegou em 1987, vindo do Parque das Bandeiras. “Junto com moradores do bairro organizei uma caravana para ir até São Paulo, na Eletropaulo, e pleitear estas melhorias essenciais. A nossa luta não foi em vão, agimos e tivemos êxito”, afirma. Com o passar dos anos, o Parque Continental se desenvolveu de maneira intensa. As poucas residências que existiam no final da década de 80 se multiplicaram e hoje existem no lugar mais de 3 mil casas. A pavimentação ainda não alcançou o bairro por completo, mas 70% das vias já têm asfalto. Com tanto desenvolvimento, José Batista da Cruz e Marciano Romeu de Souza são contundentes quando a questão é se eles pretendem sair um dia do Parque Continental. “Eu quero criar meus netos e bisnetos aqui”, diz Marciano. “Só saio daqui se for para o cemitério”, afirma Batista. E que assim seja.

Com quase 2km, Avenida Central é a principal do bairro

Tá doente? Chama o Oscar O Parque Continental sempre teve uma história muito parecida com o Humaitá. Os dois núcleos estão localizados um ao lado do outro, separados da outra mancha populacional formada pelos demais bairros. Assim, nos primeiros anos, quando alguém ficava doente era preciso agir rápido. Aí apareceu um personagem que até hoje faz história. O farmacêutico Oscar dos Santos, de 58 anos, foi um dos primeiros moradores do Humaitá. Enfrentou todas as dificuldades de locomoção e adaptação, mas já no começo do conjunto instalou, no quintal de casa, pequena farmácia. “Sou o pioneiro do Humaitá e do (Parque) Continental. Na época, muita gente já me conhecia por ter trabalhado em farmácias de Santos”, recorda. E como os acessos eram difíceis e sair do bairro para ir ao médico era uma dificuldade, os moradores procuravam o Oscar. “Não sou benzedor. Dentro das minhas normas fazia sempre o possível. Atendia dentro daquilo que me compete como farmacêutico e procurava ajudar”. Ele atendeu desde crianças com pneumonias até pessoas picadas por cobras e com problemas de pele sem co-

brar nada. “E 99% dos casos que atendia chegavam à cura”, afirma com orgulho. Não havia horário para que o farmacêutico usasse de sua experiência, já que hoje tem mais de 40 anos de profissão para atender quem precisava. “Atendia bem mais gente durante a noite. As pessoas iam à minha casa e eu tinha que atender, não podia me negar”. E mesmo com o passar dos tempos, a população ainda não perdeu o costume. “Quem não faleceu me procura até hoje. Eles (moradores) não dizem que vão à farmácia e sim, que vão ao Oscar”, salienta. O farmacêutico ainda afirma que o mais importante é que as gerações que crescem na região ainda o têm como referência. “Hoje eu curo a orelha de uma criança, filha de uma menina que cuidei há um tempo atrás”, diz. Depois de quase duas décadas no Humaitá, a farmácia de Oscar passou há oito anos para o Parque Continental. E quem precisar pode procurar os serviços dele. “Nasci para ser farmacêutico, essa é a vocação de quem trabalha na saúde: poder ajudar aos outros sem cobrar nada”. Os moradores agradecem.


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Contraste do antigo e do novo

Último grande foco de invasão do continente, fusão de bairros muda o nome e dá nova esperança

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m novo-velho bairro. Assim pode ser considerado o Jardim Irmã Dolores, fruto da junção, em 2008, do Quarentenário com a Vila Ponte Nova. A criação deste núcleo aconteceu graças à última grande invasão da Área Continental, no início da década de 90. Durante todo este tempo, o bairro passou e passa por mudanças que mudam a identidade de núcleo. Durante décadas, a área do Quarentenário, que pertencia ao Ministério da Agricultura, foi lugar para recepção e manutenção do gado que vinha do interior paulista de trem. Os bois e as vacas ficavam no local por 40 dias, período necessário para verificar se havia alguma doença nos animais e para a engorda. Após o prazo, o gado que estava saudável era encaminhado ao Matadouro Santista, na antiga linha 1, atual Avenida Nossa Senhora de Fátima, na Zona Noroeste, em Santos, para ser abatido. Com o final das atividades do Matadouro, aquela área parou de receber o gado. Passaram os anos e a expansão demográfica aconteceu.

O Distrito do Samaritá começa a ser habitado, seja de maneira ordenada, com conjuntos previamente criados ou por invasões. Seguindo a segunda opção, surgiu no início da década de 90 os primeiros moradores desta região. Como era o local da quarentena dos bois, o nome escolhido para região foi Quarentenário. E disso, o aposentado Ademar Augusto Gomes, popularmente conhecido como Timóteo (por sua aparência com o cantor Agnaldo Timóteo), lembra muito bem. Ele está no núcleo há 19 anos. “Foi uma moleza, ganhei o terreno de um amigo meu”, diz. “Morava no Marapé, em Santos e pagava aluguel. Quando surgiu esta oportunidade não pensei. Vim para cá”, afirma. A metragem dos terrenos era delimitada pelos próprios moradores. Timóteo diz que não teve medo de arriscar. “Ganhava pouco, estava difícil para me sustentar. Vim com a minha patroa e graças a Deus não me arrependi”. Hoje, o aposentado está feliz no lugar onde vive. “Acompanhei de perto todo o crescimento deste bairro. Antigamente, o pessoal

Timóteo é uma das figuras mais conhecidas do bairro

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Irmã Dolores: justa homenagem A religiosa Maria Dolores Muñiz Junqueira, popularmente conhecida como irmã Dolores, dedicou grande parte de sua vida aos mais necessitados. E algumas de suas ações estão no Quarentenário e na Vila Ponte Nova, bairros que, juntos, receberam, em 2008, o seu nome. Ela chegou à Área Continental em 1987, para ajudar na construção de uma igreja no Humaitá. Cleuza Maria Coelho da Silva acompanhou os passos da irmã a partir desta época. Ela conta como prosseguiu a caminhada de Dolores pelo continente. “Alguns anos depois ela se mudou para o Samaritá e, em 1990, quando começou a ocupação do Quarentenário, ela foi auxiliar na ordenação”, lembra. Cleuza conta que para chegar ao foco da invasão, Irmã Dolores caminhava pelos trilhos do trem. “Os moradores, aos poucos, começavam a chegar, vinham com

lonas e madeiras, demarcavam as áreas e ficavam”. Com a ajuda dos invasores, a Irmã demarcou também território para edificar uma igreja (a Nossa Senhora da Esperança) e escola. “Ela também comandou os pedidos de implantação de caixas d’ água potável e a instalação da rede elétrica”, lembra. Ela também chefiou a luta para construção de postos de saúde, escolas, uma casa de parto e a implantação do único restaurante popular Bom Prato. Para Cleuza, a vontade de estar com os mais pobres era o que motivava a religiosa a realizar tantas ações. “Ela queria viver perto dos mais necessitados, sua vocação era esta. Desde quando veio da Espanha até os últimos dias de sua vida terrena”, afirma. Irmã Dolores faleceu no dia 30 de agosto de 2008, devido a complicações causadas por uma broncopneumonia.

tinha medo da violência, mas hoje é diferente, melhorou demais. Espero não sair daqui nunca”. Outro morador que acompanhou o crescimento do lugar foi o aposentado Cícero dos Passos, que conhecia o local há anos. “Quando era criança vinha para cá para ficar vendo os bois. Achava aquilo maravilhoso”, diz. Ele também morava de aluguel na Cidade Naútica e, quando soube que estavam invadindo uma nova área não teve dúvidas. “Vim correndo e marquei meu lugar. É lá onde vivo até hoje, quase 20 anos depois”. Nem a falta de acesso, já que a Ponte dos Barreiros foi inaugurada somente em 1994, atrapalhou os moradores na construção de suas casas. “Os materiais vinham por Cubatão ou por Praia Grande e ninguém tinha medo de entrar aqui, mesmo com os caminhos esburacados e cheios de lama. O pessoal chegava aqui para construir a pé, vindo pela linha do trem”, relata. Desta maneira, cresceu o Quarentenário de um lado e a Vila Ponte Nova do outro. A Vila foi mais recente. Suas primeiras edificações, segundo a Prefeitura de

São Vicente, forma erguidas em 1995, um ano após a entrega da Ponte dos Barreiros. Daí o nome de Ponte Nova. Papel Passado Ambas as áreas, por serem de invasão, não são legalizadas junto à Administração. Segundo a Secretaria Municipal de Habitação,o local já foi cadastrado no programa Papel Passado, do Governo Federal. “Foi realizada a topografia e o cadastro de todas as residências do bairro. Após isso, a Prefeitura solicitou à Secretaria de Patrimônio da União (SPU), responsável legal por aquelas áreas, a doação do núcleo ao Município para dar o título de posse às famílias”, explica o responsável pela pasta, Alfredo Martins. Ainda não há data prevista para isto acontecer, mas quando o projeto se concretizar será uma festa no bairro. “Sabemos que a Prefeitura busca a legalização e estamos ansiosos”, afirma Cícero Lopes, que há quase 20 anos mora em uma rua que resume toda esta história, desde a invasão ao sonho da casa própria: Vitória.


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Saúde e segurança: dor de cabeça Estes são os dois piores serviços oferecidos na Área Continental, segundo os moradores

O

s principais problemas da maioria dos brasileiros também são preocupações dos moradores da Área Continental. Segundo a pesquisa realizada pelo Jornal Retrato, a saúde e a segurança pública são os dois piores serviços oferecidos no núcleo. Dos 395 entrevistados, 24% responderam que a saúde não está a contento; já 12% dos moradores não estão satisfeitos com a segurança. Josefa de Almeida Santana, dona de casa de 39 anos, e que vive no Parque das Bandeiras, já viveu problemas com o atendimento na área da saúde. No bairro existe um Pronto-Socorro que funciona 24 horas com plantonistas para casos de urgência. “Mas quem necessitar está perdido”. Ela já passou horas com a filha de quatro anos doente, esperando atendimento. “Ouvia que o médico estava atrasado e que talvez nem viesse para o plantão”, relata. “Esperei horas até alguém fazer algo pela minha menina”. O médico chegou, segundo ela, muito atrasado no plantão. “Nem vi o tempo, só queria que alguém a atendesse. O sofrimento é grande”, desabafa. Marcar consultas em alguma Unidade Básica de Saúde (UBS) também não é tarefa fácil. Armando Aparecido Soares, ajudante de 39

anos, teve que madrugar na fila da UBS do Humaitá para marcar um exame. “Cheguei antes das cinco da manhã. Se não fizer isso, a gente está na roça”, diz o morador. Projetos Segundo o secretário de Saúde de São Vicente, Cláudio França, o problema da falta de médicos está sendo solucionado. “Os médicos admitidos em concurso público foram direcionados, prioritariamente, para o Parque das Bandeiras. Já nas UBSs, a Secretaria não tem poupado esforços no sentido de completar o quadro”, garante. O responsável pela pasta lembra os investimentos feitos na Área Continental. “Instalados em 2008 o Centro de Especialidades Odontológicas (CEO) e o Reabilitar II. O Caps do Jardim Rio Branco foi reformado e os prontos-socorros do Parque das Bandeiras e do Humaitá passaram por melhoras. Alias, há projetos em desenvolvimento para tornar a unidade do Humaitá em um hospital com 70 leitos”, salientou França, lembrando que a região também ganhou uma base do SAMU. “E também foi instalada a Unidade de Saúde da Mulher, em substituição à Casa de Parto, para atender gestantes adolescentes”, conclui.

PS do Pq. das Bandeiras é alvo de críticas dos moradores

“Sinto-me presa dentro de casa” Começo de setembro, noite no dos pelos bandidos são as terças, Parque Continental. José (nome quartas e sábados. fictício) chega em casa do trabaAinda segundo a PM, neste lho, estaciona o carro na garagem mesmo mês foram feitos na região e, ao fechar o portão, é surpreen- dois flagrantes de porte de entordido por dois assaltantes. Maria pecentes, 16 de tráfico, 13 veícu(nome fictício), sua esposa, que los roubados foram localizados, chegou pouco tempo depois, tam- três condenados foram recaptubém foi abordada. rados e mais de 5 mil abordagens “Meu marido já estava amarra- foram feitas. do no quarto e eles me amarraram O coronel Marcelo Prado, cono corredor”, recorda. Os bandidos mandante do 39º BPM/I – São Viqueriam dinheiro. cente, responsável “Batiam no meu maripelo policiamento na Os bandidos Cidade destaca que do, chegaram a cortálo com uma faca. Não a Área Continental queriam tínhamos nada e isso é mais “tranquila” os deixava irritados”, em termos de ocordinheiro, afirma. Os assaltantes rências que a Ilha. ficaram quatro horas batiam no meu “Trabalhamos com na casa deles. “Eles se o apoio de uma base marido drogaram, beberam e de dados, dos Conainda levaram nossos selhos de Segurança, pertences”. Depois desta experiên- disque-denúncia, entre outros”. cia traumática, Maria pensa em deiPrado reconhece que um dos xar o Parque Continental. pontos que o deixa mais preocupado são as escoltas das penitenAções e números ciárias e dos CDPs. “São 240 por Segundo a Polícia Militar, só mês. É um grande efetivo disponino mês de setembro de 2009 fo- bilizado”. Ainda segundo ele, 127 ram registradas 65 ocorrências na homens trabalham na segurança Área Continental, sendo 30% rou- dos moradores da região. “A sebos. Os bairros mais visados são gurança é dever do Estado e reso Parque Continental e o Jardim ponsabilidade de todos, por isso a Rio Branco; a maioria dos crimes colaboração dos moradores é funacontece à noite e os dias preferi- damental”, completa.

Penitenciária existe desde a década de 70 Todo o domingo, Joelma (nome fictício) sai de sua casa em um bairro de São Vicente, pega duas conduções, e vai até o a Penitenciária 1 visitar o esposo, preso por homicídio, desde 2001. “As condições lá dentro são difíceis. Tem muita gente dentro de um espaço muito pequeno. Eles erraram, mas merecem melhores condições”. Esta é a realidade vivida no complexo presidiário do Samaritá, construído na margem direita da Rodovia Padre Manuel da Nóbrega. A Penitenciária Dr. Geraldo de Andrade Vieira (conhecida como 1) foi inaugurada em 22 de outubro de 1976. Após ela, foi erguida uma outra penitenciária, em 27 de novembro de 1990. O Centro de

Detenção Provisória e a unidade da Fundação Casa (antiga Febem) foram edificados em meados dos anos 2000. Em dias de visita a região próxima à passarela, que leva ao presídio, fica repleta de familiares e amigos dos presos. Lotações e ônibus os levam até lá. Atualmente, a capacidade do complexo é para 1.947 presos, mas a população carcerária do local é de 3.165 presos, segundo dados da Secretaria de Estado de Administração Penitenciária (SAP). E este número pode aumentar em breve. Isto porque, está em fase de implantação uma penitenciária feminina na região, que pode ser entregue já em 2011.


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Coleta e transportes agradam Serviços têm, juntos, mais de 40% de aprovação dos moradores da Área Continental

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oleta de lixo e transportes. Estes são os melhores serviços públicos oferecidos aos moradores da Área Continental, segundo pesquisa de opinião realizada com 395 pessoas pelo Jornal Retrato. A coleta teve a melhor avaliação, e foi apontada como boa por 24% dos entrevistados; já o serviço de transportes ficou com a segunda colocação, com 19%. Durante a pesquisa, era mostrado um disco com 10 serviços públicos oferecidos aos moradores, que poderiam apontar até dois como melhores. Também era possível responder todos (lembrado por 1% dos entrevistados) ou nenhum (lembrado por 9% dos munícipes). Os outros serviços não chegaram 10%. Transporte Como funciona? Na região, a coleta de lixo é de responsabilidade da Companhia de Desenvolvimento de São Vicente (Codesavi), que executa os trabalhos por meio de empresa terceirizada, o Consórcio Lara/Termaq. Ela é executada em todos os bairros da área três vezes por semana (terçafeira, quinta-feira e sábado), sempre durante a manhã. Em toda a região, são utilizados nove caminhões e 44 funcionários, entre motoristas e coletores. Mensalmente, a média de resíduos recolhidos nos nove bairros é de 726,102 toneladas. A Codesavi também gerencia a coleta seletiva. Ela é realizada por um caminhão tipo carroceria, com motorista e dois coletores, uma vez por semana e os bairros são atendidos em dias alternados. Segundo Márcio Papa, presidente da Codasavi, a companhia

está sempre trabalhando a fim de melhorar o serviço em São Vicente e, principalmente, na Área Continental. “Tanto que já implantamos um posto de coleta seletiva fixa na Gleba II do Parque das Bandeiras e estamos em estudo para a abertura de novos postos na região”.

tos Coelho, coordenador do departamento de engenharia de Campo da EMTU - Baixada Santista, 20 linhas de ônibus intermunicipais da Viação Piracicabana (responsável pelas linhas que atendem Santos, São Vicente, Praia Grande, Cubatão) atendem diariamente a Área Continental, transportando mais de 30 mil pessoas. Este número corresponde a 33 % do total de linhas da Baixada Santista. O terminal do Humaitá é o maior da região. Lá estão concentradas oito linhas intermunicipais. O coordenador aponta a elevada foi um dos tópicos mais bem avaliados na pesquisa demanda como motivo para o Ele também ressalta que existem grande número de linhas. “A região determinados locais em que a coleta tem mais de 100 mil habitantes e de lixo domiciliar ainda é difícil, por este número cresce diariamente. O causa de complicações no acesso desejo de deslocamento foi verifidos caminhões. “Muitas ruas ainda cado por meio da pesquisa Origemnão estão pavimentadas, e isso di- Destino, que ficulta a entrada dos veículos, mas verificou que não impede de atendermos estes lo- há muitas cais. Esperamos que com o processo pessoas rede urbanização o problema seja re- sidentes na solvido”, afirma. área e que trabalham Transportes em outras ciPara atender mais de 100 mil dades da remoradores da Área Continental, gião. Por isso, são oferecidos serviços de trans- as linhas tiveporte pelo município e pela Empre- ram grande sa Metropolitana de Transportes expansão em Urbanos (EMTU). São ônibus, micro- 2005, incluinônibus e lotações, que fazem cen- do frotas e tenas de viagens diariamente para horários”. diversos destinos. Ele acrediSegundo Fábio Ferreira dos San- ta que o cres-

cimento desta demanda também se deve a falta de alternativas para a ligação entre a Área Continental e outras cidades por meio de transporte público. “Há 20 anos, os moradores utilizavam o Trem Intrametropolitano, só que por falta de investimentos ele acabou ficando sucateado até parar de funcionar. Com isto, foi necessário ampliar bastante o atendimento feito pelos ônibus”, revela. Já o transporte municipal é feito por veículos menores, conhecidos como lotações. O serviço funciona em São Vicente por meio de uma cooperativa, que tem sete associações de diversas localidades com a responsabilidade de realizar o transporte. Na Área, existem duas delas, a Associação de Transportes do Parque das Bandeiras (ATAB), que atende o Parque das Bandeiras, Samaritá, Vila Emma e Vila Nova São Vicente e a Associação Metropolitana de Auto-Lotação (Amalot), que é responsável pelo Humaitá, Parque Continental e Vila Nova Mariana. A frota das duas associações tem, ao todo 145 carros sendo que cinco destes são adaptados para deficientes físicos. Em média, elas trabalham diariamente com 100 carros, já que os motoristas realizam um rodízio por causa de folgas. No total, 580 pessoas estão vinculadas às duas associações. A estimativa, segundo a Cooperlotação, que gerencia o transporte na cidade, é de que os carros transportam diariamente mais de 25 mil passageiros só na Área Continental.


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Ainda falta muito arroz com feijão

Emancipação da Área Continental: tema que desperta o interesse de muitos, mas perde a força com o tempo

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ma discussão que vai a É viável autonomia política pode represen- deveriam buscar outras alternacada dia perdendo forPara o ex-presidente da Asso- tar muitas perdas para a Área Con- tivas. “Poderia lutar por um núça. É assim que tem sido ciação de Melhoramentos do Par- tinental. “Há mais de 5 mil muni- mero fixo de representantes na tratada a Emancipação que Continental, José Carlos de cípios na Federação e muitos deles Câmara Municipal ou por um orPolitico-Administrativa da Área Andrade, o futuro da região está dependem dos governos do Estado çamento exclusivo para lá”. Continental de São Vicente da ligado à Emancipação. “A Área e Federal para se manter. Hoje a reÁrea Insular. MoviContinental já é uma gião continental não tem como se Moradores mento que teve forcidade, tem mais de manter sozinha e isso pode acarreA população tem opinião diviça e ganhou corpo 100 mil habitantes”. tar sérios problemas”, alerta. dida sobre o assunto. Lourdes de A Área entre as décadas Mas ele ressalta que De acordo com Gonçalves, “se Camargo, da Vila Nova São Vicente de 80 e 90, agora Continental já é ainda faltam alguns cada região do Brasil que tem defende o ato. “A nossa área iria está arrefecendo serviços para con- uma certa distância em relação crescer ainda mais”. Já Antônio uma cidade e as poucas lideseguir uma boa es- ao centro quiser ser autônoma, Abreu de Souza, do Samaritá, não vê ranças que ainda trutura. “Não temos teríamos 60 mil cidades no País”. a autonomia política como solução. o defendem estão bancos, cartórios e “Por isso é preciso ter cuidado. “Se fizer isso perderemos muito”. cientes de que a liberdade políti- nem um hospital. Ainda preci- Não acho certo acontecer. Só o Ana Maria Tomé, que vive no Jardim ca ainda é um sonho longe de se samos de muita coisa, mas se os fato de ter que criar uma nova irmã Dolores, acredita que o tema concretizar. investimentos chegarem será um estrutura administrativa já gera tem que ser discutido no futuro. Esta matéria foi escolhida pe- caminho inevitável”, aposta. implicações”, explica. “Agora não é hora de pensar nisso. los moradores entrevistados pelo Já Eduardo Vivian Mitchel, líO deputado federal e ex-pre- Não tenho nem asfalto na minha Jornal Retrato. Entre seis temas der comunitário que mora no Hu- feito, Márcio França, é outro que rua”. André de Oliveira Albuquerpré-estabelecidos, de casos de maitá, a emancipação é o desejo não aposta na emancipação da que, do Jardim Rio Branco, afirma grande repercussão ou assuntos de todos os moradores da parte Área Continental. “A legislação que o desenvolvimento só chegará que tem referência direta com o continental. “Mas para a área an- brasileira é muito rígida quan- “quando estivermos libertados de desenvolvimento da Área Conti- dar com as próprias pernas ainda to a este assunto e o fato de São São Vicente”. Jackson Santana, da nental (entre eles o Caso Rhodia é muito difícil”, lamenta. Segun- Vicente ser uma cidade histórica Vila Ema, diz que é cedo para se pene a construção da Ponte dos Bar- do ele, há anos se discutem ações é outro agravante que dificulta sar neste assunto. “Em relação à Ilha reiros), o tema Emancipação foi que fomentariam o comércio e a ainda mais o processo”, afirma. nossa região é nova. Existem outras lembrado por 29% dos entrevis- indústria da região, mas ninguém Segundo França, os moradores prioridades além dessas”, diz. tados. Muitas pessoas, durante as faz nada. “Ainda sinto pesquisas, se mostravam curiosas uma chama, mas a coisa e queriam saber se o tema ainda não é fácil. Meu desejo era lembrado. é de que a Emancipação E essa discussão vem de mui- seja a curto prazo, mas tos anos. Desde a década de 70, pelo andar da carruagem quando o continente passou a re- vai demorar muito”, afirceber um número ainda maior de ma. moradores, era discutida a autoO vereador Marcelo nomia política da Área Continen- Correia é outro que acretal. O fato de não haver ligação dita na autonomia polídireta com a sede do Município, a tica da região continenIlha, fazia com que especulações tal de São Vicente. “Mas sobre a região surgissem. é preciso melhorar e Além da independência de crescer ainda mais”. Ele São Vicente, a região também foi destaca que seria possí“cortejada” por Cubatão e Praia vel remodelar a região e Grande. O fato motivou até a prepará-la para os novos criação de uma Comissão Espe- investimentos. “Começacial de Vereadores na Câmara ria do zero, sem dívidas. vicentina para defender a per- Hoje, a Área Continental manência dos territórios da Área pode até dar prejuízo sobre responsabilidade de São para os cofres públicos, Vicente. Com o passar dos anos, mas se fizéssemos do lideranças políticas apareceram, começo seria diferente”, mas após a inauguração da Ponte relata. dos Barreiros, a esperada ligação direta entre a ilha e o continente, Não é o rumo no ano de 1994, este sentimento Segundo o cientista potem diminuído. lítico Alcindo Gonçalves, a Ponte dos Barreiros aumentou integração entre ilha e continente


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Prazer, sou a Subprefeitura

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Sede administrativa do Distrito, criado oficialmente em 1999, abriga serviços públicos. Subprefeito tem relação próxima com o continente

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Área Continental de São Vicente é um Distrito Municipal desde abril de 1999. Após a aprovação da Lei Complementar n° 219, dez bairros (com a criação do Jardim Irmã Dolores, em 2008, este número passou para nove) passaram a formar este novo Distrito. E lá há uma Subprefeitura, que presta diversos serviços para os moradores do continente. Mas, poucos sabem como é o funcionamento deste órgão ou até quem o comanda. Com a criação do Distrito, foi instituído que seria instalada na região uma subprefeitura. Esta legislação também criava o cargo de subprefeito e mais duas funções administrativas. A sede foi construída em um terreno municipal, na Avenida Deputado Ulysses Guimarães, no Jardim Rio Branco e inaugurada

em setembro de 2000, pelo viceA sua primeira missão era coprefeito no exercício do cargo mandar a construção de 20 casas de prefeito, Nízio Cabral. para estas famílias, em uma área Atualmente, quem está à frente do antigo Quarentenário, além da subprefeitura de organizar esta do Distrito da área, que recenteÁrea Continental Fazemos uma mente havia sido iné Ulisses Garavatvadida por centenas ti. Funcionário da de famílias. “Fazíaespécie de Prefeitura de São mos reuniões com serviço de Vicente desde as lideranças de lá, 1993, tem uma sempre com a ajutrajetória muito zeladoria da região da da irmã Dolores. próxima com a Neste caso, a Igreja região. “Quando chegou primeiro que entrei na Administração Municipal, o Estado e prestava assistência”, fui trabalhar na remoção das fa- diz. No início da invasão, segunmílias que estavam no traçado da do Garavatti, moravam 1.800 faatual Avenida Angelina Pretty. Para mílias. “Pouco tempo depois este que as obras da Ponte A Tribuna número saltou para 2.700 e hoje (dos Barreiros) fossem concluídas, vivem naquele núcleo mais de 17 era necessário a retirada. As pesso- mil pessoas”. as viviam em acampamentos, o PoAinda de acordo com ele, ander Público fazia de conta que eles tes da criação da subprefeitura não existiam”, relembra. havia apenas um departamento,

A subprefeitura fica na Avenida Ulysses Guimarães, 211, Jardim Rio Branco

chamado de regional, para atender toda a Área Continental. O subprefeito afirma que graças a representatividade política da região na Câmara Municipal e ao então prefeito Márcio França, a Área Continental se tornou um Distrito. “O intuito (de se criar uma subprefeitura) é destinar mais recursos, especificamente para esta região e melhorar a qualidade de vida de todos os moradores”, afirma Garavatti. Desafios Atualmente, o subprefeito da Área Continental aponta como maior desafio realizar a drenagem e urbanização do Jardim Rio Branco. “Já realizamos investimentos importantes, como a construção de um anel viário que interliga o Rio Branco, o Samaritá e a Vila Nova São Vicente; o Parque Continental também recebeu obras de urbanização. Ao executar estas obras no Jardim Rio Branco conseguiremos avançar bastante”. Ele ainda ressalta que outras ações são desenvolvidas paralelamente. “O investimento em saneamento básico é primordial. São obras complicadas, que incomodam os moradores, mas são de extrema importância para aumentar a qualidade de vida”. Garavatti também aponta como outras metas na sua gestão à frente da Subprefeitura. “Quero concluir os serviços de drenagem e pavimentação da antiga Vila Ponte Nova e executar a segunda fase do anel viário que ligará os bairros da Área Continental, com o prolongamento da Avenida do Quarentenário”, explica. Para ele, a função da subprefeitura é contribuir para a melhora da qualidade de vida dos moradores da Área Continental. “Fazemos uma espécie de serviço de zeladoria pela região, tirando os lixos e os entulhos das ruas. Desenvolvemos um trabalho intensificado nos bairros, corrigindo urbanisticamente o que tem de ser corrigido”, salienta.


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Quando a Área Continental virou manchete O jornalista Clóvis Vasconcellos fez a primeira série de matérias sobre a região para o jornal A Tribuna, em 1988

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Baixada Santista abri- Marcas ga um dos jornais mais A garra dos primeiros moradoantigos do País. A Tri- res do antigo Distrito do Samaribuna, com 116 anos, já tá animou Vasconcellos. “Isto me noticiou fatos que entraram para marcou demais. Os comerciantes a história da região, do Brasil e construíam uma vida mesmo sendo mundo. E, há 21 anos, as pá- do tachados de loucos, eles perginas do jornal mostravam, em severaram”. Desta série pioneira, uma série de matérias, a vida de ele se recorda de um personagem centenas de pessoas que cons- em especial. “Havia um comertruíam uma nova ciante do Samarihistória, em um tá, chamado Anlocal pouco conheComerciantes tônio Pedro, que cido. O Desafio do contava históeram tachados Samaritá, primeira rias fantásticas. série de reportadizia que em de loucos. Eles Ele gens a respeito da frente ao seu bar Área Continental, se reuniam caçaperserveraram marcou época. O dores que andaresponsável pelo vam pela região. trabalho, jornalista Clóvis Rodol- Era maravilhoso”. pho Carvalho de Vasconcellos, Clóvis Vasconcellos ainda se lembra com satisfação do pro- mostra preocupado em relação cesso de produção. ao tema invasões na Área ContiOs textos ocuparam uma pági- nental do Município. “Isto (ocuna do jornal, entre 11 e 15 de abril pações irregulares) tem que pade 1988. “Eu já cobria São Vicente rar, senão nunca se alcançará um e percebi que Samaritá, com toda patamar homogêneo de desenvolaquela imensidão, era uma nova vimento”, diz. fronteira, principalmente após a inauguração do Humaitá. Era o Cartas destino natural de pessoas com Segundo o jornalista, muitas dificuldades e lá viviam, pionei- cartas foram enviadas à redação, ros que, de forma destemida, via- elogiando o jornalista pela série bilizariam o progresso”, lembra de matérias. “Recebi menção na Vasconcellos. Câmara Municipal e o então deO jornalista se estruturou, putado federal Koyu Iha também criou temas e passou 11 dias me homenageou. As reportagens consecutivos indo à Área Conti- também acabaram forçando a nental. “Não tive folga do noti- conclusão da Ponte dos Barreiciário diário. Fazia este serviço ros”, afirma Vasconcellos. A paralelamente com os outros”, série O Desafio do Samaritá foi explica ele que, para chegar aos lembrada pelo jornal A Tribuna núcleos ia de carro com o faleci- em junho de 2000, como uma do fotógrafo João Vieira Júnior, das principais matérias da histópor Praia Grande. ria da publicação.

Reprodução da série especial sobre a Área Continental de São Vicente, produzida pelo jornalista

Jornalista foi o primeiro a denunciar despejo irregular de lixo

Caso Rhodia teve repercussão internacional Além das reportagens sobre a Área Continental, Clovis Vasconcellos foi o responsável por denunciar a empresa francesa Rhodia pelo descarte irregular de produtos altamente perigosos à saúde humana em terrenos do antigo Quarentenário. Eram pedras amarelas, de cheiro fortíssimo, que foram depositadas naquela área por caminhões que vinham de Cubatão, entre 1974 e 1976. Ainda de acordo com o jornalista, o material ficou conhecido como Pó da China. “Quando as pessoas tinham contato com aquele material sentiam coceira, irritações na pele, vômitos e malestar”. Ele ficou sabendo do caso quando moradores da região levaram até a sucursal de A Tribuna, em São Vicente, uma sacola com

esta pedra amarela. Ao receber a denúncia, ele levou este material à Cetesb para análise e foi constatado que era um produto altamente perigoso. Foi por meio das matérias que o fato teve o conhecimento das autoridades. “Esta matéria chegou às mãos do então presidente francês, François Mitterrand. Como a Rhodia era uma estatal francesa, ele determinou que fosse feito a descontaminação do solo daquela região”, explica o jornalista. As matérias feitas sobre o assunto foram base para Clóvis Vasconcellos desenvolver sua dissertação de mestrado, defendido na Universidade de São Paulo (USP), em 1993. Até hoje existem áreas isoladas e resíduos do material descartado pela Rhodia.


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O futuro é próspero!

Autoridades, jornalistas e moradores dizem o que esperam para a Área Continental

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futuro de São Vicente importante é a Prefeitura trabae da Baixada Santista lhar no Projeto Indústria, para está na Área Continen- fomentar a instalação de empretal. Este é o resumo de sas”, afirma. tudo o que pensam especialistas, O secretário de Planejamenjornalistas, comerciantes, mora- to de São Vicente, Emerson dos dores e políticos que, ouvidos Santos, é outro que aposta na pelo Jornal Retraparte continental. “É to opinaram sobre área estratégica Região tem uma as perspectivas da para o futuro da Ciregião continental espaços que dade, muitas ações vicentina. Agora é estão voltadas para faltam nas só aguardar o fulá”. Já o corretor de turo! imóveis, Antônio Ricidades A arquiteta e beira, destaca o crespós-graduada em cimento contínuo da Engenharia Urbana, Elizabeth Área Continental. Correia, que trabalha em São Vicente com projetos para a Admi- Políticos nistração Municipal há 13 anos O deputado estadual e ex-veacredita que, apesar da Área reador, Luciano Batista, também Continental ser relativamente acredita no potencial da região. mais nova que a Área Insular, “Espero que ela seja o futuro da o potencial de expansão urbana Baixada. Santos e as outras cié muito grande para um futuro dades não têm mais para onde próximo. crescer, por isso a Área pode “Aquela região tem os espa- ser a solução no ponto de visços que faltam em outras cida- ta econômico e social”. Para o des. É sensível o crescimento, deputado federal e ex-prefeito, a expansão e a valorização. O Márcio França, “a área pode

abrigar condomínios luxuosos, e aproveitar as belezas naturais para buscar o desenvolvimento da região.” Koyu Iha, ex-prefeito de São Vicente, destaca outro ponto. “Nas áreas que lá existem, podem ser implantadas empresas retroportuárias, não esquecendo a possibilidade da criação do aeroporto da Praia Grande, que ficará perto da divisa com São Vicente e do Polo Industrial de Cubatão. Então, as perspectivas são as melhores”. Jornalistas Valéria Malzone, da sucursal do Jornal A Tribuna em São Vicente, tem uma visão superpositiva da Área Continental. “Em pouco tempo aquela região se desenvolveu brutamente. A saída é urbanizar e controlar os loteamentos irregulares, pois o crescimento já está batendo à porta”. Marcelo Luis, do Expresso Popular, projeta a região como bem desenvolvida e muito populosa. “Daqui a 20 anos, vislumbro uma série de investimentos em habitação e indústrias”. Já Alcione Herzog, também do Expresso, destaca que a “tendência é a modernidade chegar depressa ao local, principalmente com a implantação do Veículo leve sobre Trilhos (VLT)”. Para a jornalista, a região continental é uma das partes mais importantes da Baixada Santista.

Terrenos na margem direita na Rodovia: espaços para abrigar empresas

Moradores Kátia Ribeiro, da Vila Nova São Vicente, acredita que a ver-

dadeira valorização da região está próxima. Já Adalberto Pedroso, morador do Jardim Rio Branco, as empresas que podem se instalar no continente, se forem ambientalmente corretas, irão impulsionar os bairros. Ana Maria Romualdo (foto), que mora no Humaitá, diz que a Área Continental é futuro não só pra a família dela, como também para a Cidade de São Vicente Andressa de Souza, do Parque Continental, alerta para obras de insfraestrutura, como asfalto e saneamento, que ainda não existem em alguns bairros. Manuel de Almeida, que vive no Parque das Bandeiras, vê na região a solução para os problemas de toda a Baixada Santista. Os comerciantes também estão empolgados. Jonatan Ramos, do Jardim Irmã Dolores, aposta no potencial comercial da área. Eduardo da Silva, do Humaitá, já trabalha na ampliação do seu comércio graças à expansão do continente nos últimos anos.


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Riqueza Natural

Jornal Retrato A Área Continental reserva regiões que mantém intactas pedaços da Mata Atlântica. Pelo núcleo passam três rios: Branco, Mariana e Piaçabuçu. Já no Acaraú-Paratinga, zona que fica no pé da Serra do Mar, três cachoeiras pouco conhecidas chamam a atenção pela beleza. Confira as belas imagens destas riquezas naturais.

Rio Mariana

Cachoeira 1

Rio Piaçabuçu

Cachoeira 2

Rio Branco

Cachoeira 3


Jornal Retrato - a História da Área Continental de São Vicente