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Editorial #zero É notável como o processo que nos torna adultos é ao mesmo tempo o que nos aproxima da morte em vida, de banalidades como a monotonia e a frustração; Que nos relega a uma fé em um ser superior ou na crença pelo esquecimento, pelo nada absoluto. Todos esses contrários que formam a base da inquietação humana criam outro impasse: o de se imaginar inexistente. A edição número zero do Buzzbomb traz à vida tudo o que mais nos assombra: a ausência dela. Para esta edição, tivemos a honra de entrevistar algumas bandas e artistas com bastante a dizer e que estão envolvidas até o pescoço em seus feitos, estão vivendo com o ardor dos dias que passam e com a mente e o espírito livres para criar o que lhes compete enquanto seres vivos pensantes evitando a paralisia, a monotonia que nos é de berço, que cresce ao nosso lado como o maior inimigo que podemos imaginar, invisível, calado e esperando que sigamos em frente sem questionar ou sem pensar por nós mesmos, sem fazer nada a respeito daquilo que mais amamos na vida, daquilo que nos faz manter o coração batendo. E então descobrimos na morte em vida um sentido muito maior, o de se reinventar, de sair do zero absoluto, da caverna que criamos ao nosso redor para a vida em profusão, essa festa que é ter o mundo nas nossas mãos. Essa é a edição piloto deste projetoa e espero que curtam, conheçam melhor as ideias dessas bandas, artistas, pensadores e coletivos que devem passar por aqui. Estar vivo é muito mais que manter os sentidos acesos, é preciso ter o caos dentro de si - quem disse isso foi um alemão - para criarmos dentro de nós uma estrela cintilante. EXPEDIENTE (se é que podemos chamar assim) Editorial, Entrevistas, Edição, Diagramação e Impressão por Robson Assis: robsonc.assis@gmail.com Capa por Augusto Miranda: miranda.guto@gmail.com Agradecimentos: Thrashcorp Records, Victor & Surra; Augusto & O Mito da Caverna; Artur, Vinicius & A Besta Deve Morrer; Hugo ‘Droopy’ Dias e as aulas de filosofia no Jd. Helga, Aline Souza & Coletivo Meinhof, Leandro ‘From’ Andrade, Ruben Luz, Bruno Corgo e Kauê Kreutzer pela presença na edição #zero e pela força de sempre.

Morrer em vida é uma grande doença humana Hugo L. Dias, professor “A minha mãe gerou-me infeliz. / Invejo os mortos, amo-os ardentemente, / aspiro a morar em suas casas.” (Eurípedes) A morte sempre foi assunto relevante nas mentes humanas por ser ela fonte de anseios e angústias. Refletindo sobre essa questão fundamental para a existência humana, me recordo de Saramago e sua obra Intermitências da Morte, em que o autor relata um local onde não se morre, as pessoas ficam moribundas, mas não deixam de existir (estágio esse que considero ser a morte). Saramago demonstra por meio da ausência da morte no país fictício que o autor cria, essa eternidade moribunda onde se cria uma crise no Estado, pois este depende da morte para que a sociedade corra “normalmente”, uma vez que inúmeras instituições até mesmo aparelhos ideológicos de estado dependem da morte para continuar a existir. Os hospitais, obviamente ficam lotados, pois embora não morram, há superlotação das instituições médicas de pacientes que agonizantes, são impedidos de passar desta para melhor. As funerárias forçam o governo a subsidiar suas empresas de mercadores da morte para que não haja falência e consequentemente desemprego e consequentemente as famílias que tem em mãos seus moribundos não sabem o que fazer, levando algumas a levar seus mortos-vivos com ajuda da máfia a um país vizinho, onde lá a morte não entrou em greve. O estado deve cuidar de suas fronteiras pois a onda de imigração é forte devido as pessoas de outros países em busca da vida eterna. A ausência da morte entre os homens não teria trazido apenas o caos econômico para o referido país, a moralidade dos homens também é afetada, há um generalização de sentimentos contraditórios, portanto as pessoas que anteriormente comemoravam os aniversários passaram a desejar a morte para justamente se livrarem das chateações e transtornos provocados pela ausência da morte. A falta de falecimentos se mostra um problema, todavia a morte para Saramago é vista como um estágio que todos devem alcançar e, embora pareça uma contradição, é pela morte que a roda da vida continuar a rodar. A morte seria também uma forma de sair desse mundo caótico, criado pelo sistema capitalista, onde somos entregues a uma vida absurda, como a de Sísifo, considerado um homem astuto, que enfrentou Zeus, que furioso mandou que Tânatos acabasse com a vida de Sísifo, mas como homem esperto que era, prendeu o Deus da morte, criando um desequilíbrio no Hades. Sísifo só retornou a desafiar a morte anos mais tarde e, dessa vez, foi entregue ao castigado e com condenação, foi obrigado a subir uma montanha carregando uma pedra muito pesada, a qual, a partir do cume deveria fazer rolar pela encosta abaixo, repetindo a tarefa in aeternum. Segundo o filósofo Albert Camus, nossa vida seria um absurdo, pois somos entregues a carregar a pedra de Sísifo todos os dias, para por pouco tempo a ver rolar abaixo da montanha, sendo que para a humanidade a angústia é gerada pela consciência dessa vida absurda, uma vez que um cavalo provavelmente não reflete sobre seu fardo de carregar peso sobre suas costas, apenas age de acordo com sua natureza e até mesmo a imposição dos homens sobre os animais. Creio ainda que o sentido do castigo de Sísifo foi o de provar a humanidade a inutilidade de tentar iludir a morte. A morte seria uma saída para essa vida absurda que vivemos, uma forma de tentar deixar de viver no desespero, a própria morte em vida, como salientou Kierkegaard - pois embora cristão coisa que passo longe, não pela questão do ultramundano, mas por sua moral de rebanho que desconsidero valorosa para qualquer sociedade - pior do que morrer é se tornar um moribundo fadado a sobreviver de forma medíocre, ou seja, não há mal pior do que o desespero, pois morrer em vida é uma grande doença humana.


art_leandro@hotmail.com


BRUNO CORGO

Bruno Corgo é um artista paulistano que trabalha principalmente com graffiti e retrata com seus personagens um pouco do que vive na região do Capão Redondo, zona sul da cidade de São Paulo. Vocalista da banda de fastcore/powerviolence Pode Pá, conta aqui ao Buzzbomb um pouco mais de seus trampos pela cidade. Buzzbomb: Você mora do lado do córrego e daí que vem teu vulgo. Isso motivou seus desenhos de alguma forma? Corgo: Moro no bairro do Capão Redondo na zona sul de São Paulo desde que nasci isso há 23 anos e as pessoas que moram lá na minha quebrada sempre falaram algo como, “Ah joga aí no corgo mesmo”, ou “cê viu que caiu um carro lá no corgo?”, “Nossa, o corgo transbordou” (risos) sempre foi assim e a gente costumava chamar as criancinhas (no caso eu era uma delas também) de “corguentas” que nada mais é que uma criança catarrenta barrigudinha que fica brincando ali na beira do rio podre. Talvez seja esse o motivo de alguns desenhos meus, sei lá. Daí veio esse vulgo CORGO na procura de algo “único” ficou esse aí, tem muita coisa lá que me motiva a desenhar porque ali é onde eu nasci e cresci, mas desanima muito mais se pá (risos). Buzzbomb: Que outros tipos de coisas influenciam aquilo que você faz? Que tipo de música, situação do cotidiano ou ideal ajuda a extrair da sua cabeça teus personagens, suas criações de modo geral? Corgo: Filmes, livros, mano tem coisa pra caralho que influencia, é uma relação louca de amor e ódio (risos), mais música em geral (tirando alguns gêneros, claro) me motiva pra caralho a desenhar, eu curto desenhos animados bizarros também pra dar uma luz, uma situação que ultimamente eu ando fazendo bastante em alguns rascunhos é o do ambiente de trabalho e tal, acho que é sempre assim, quando eu tou moscando em casa não sai nada. Quando eu tou num trampo me dá mil idéias, não dá pra entender , parece que a mente funciona melhor no ambiente estressante. Trocar idéia com os amigos e tomar uma breja também me dá várias ideias, preciso ter o costume de anotar essas paradas porque sempre esqueço. Buzzbomb: O que você tem feito pela cidade, como estão os corres com teus trampos? Corgo: Ultimamente tenho feito umas tentativas de grafite pela quebrada, sempre no Jardim Três Estrelas onde a galera se reúne pra curtir um soundsystem sempre rola uns graffitis, mas nem todas as tentativas são satisfatórias (risos), às vezes sai umas merdas também, mas é isso aí. Curto uns lambe-lambe faz uma cota, sair colando pelo centro alguns desenhos principalmente ali na augusta e na parte do centrão velho, bomb e tag pra caralho, tem vários por aí! Todo pico se tiver um marcador, caneta é FICHA! Tou procurando evoluir no graffiti, mas acho que tenho que me dedicar MUITO MAIS. Buzzbomb: Está pensando em algo pro futuro? Pra onde você quer levar seus desenhos e intervenções? Corgo: Pro futuro nem tão distante eu vou dar um gás no meu portfólio, fazer umas ilustrações novas, e tou no corre de uma expo aí nova que só pra dar um gostinho vai ter desde pernas de manequim até pedaço de asfalto (risos), logo mais sai! Agora levar meus desenhos eu quero levar pro mundo todo, mano, pra trocar informações, conhecer gente e buscar me aprimorar nisso aí. A ideia é fazer um intercâmbio de arte. Buzzbomb: Pergunta comum da edição: Qual o significado da morte pra você? Corgo: O processo natural da vida... ou a morte de uma etapa (um trampo zuado, um namoro, ou sei lá) significativa na sua vida, então morremos e renascemos todo os dias. Ou porra nenhuma dessa! * brunoborgesportfolio.tumblr.com/ http://corguento.tumblr.com/


O MITO DA CAVERNA Temos aqui uma banda com referência direta a uma das alegorias clássicas da filosofia de Platão, cuja moral segue nos atormentando durante toda a vida, afinal, todos entendemos de que forma a opressão nos cega e nos ilude, como o mundo pode ser bem maior do que imaginamos e como os feixes de luz do qual nos orgulhamos de ver ao longe podem ser universos inteiros à nossa espera. Com um som lento e bem pesado, cantando a angústia em canções longas e carregadas de um pesar, de uma necessidade que talvez seja expulsar demônios e ao mesmo tempo abraçar a todos eles, o Mito da Caverna alcança uma notável expressão artística de caos e beleza. O Buzzbomb entrevista agora Augusto Miranda, vocal d’o Mito que conta um pouco sobre sua banda e fala sobre alienação, sobre usar o que se tem nas mãos como algo poderoso e forte, como a ferramenta que trava as engrenagens, rasga a fuselagem e nos alivia da ignorância que é gratuita e só traz o terror.

Depois de tanto tempo, com tanta gente se dando ao facílimo trabalho de dizer que “antigamente que era bom, tinha zine, fita... as pessoas davam ideia” olha a gente aqui, batendo um bom papo, justamente num zine - ‘mídia’ essa que retomou força monstra, pra angústia de meia dúzia que insiste em contribuir só com meros lamentos e saudosismo esquisito, sabe? Aliás, que todos fiquem alerta, pois o Robson é gigante não só de proporção mental. Buzzbomb: A ideia geral da alegoria da caverna de Platão trata principalmente de alienação, de escuridão mental, de uma estreita abertura da visão com a qual estamos acostumados. Em meio a toda essa “detenção sem muros” surge o Mito da Caverna com seu som obscuro, extremamente pesado e alucinante. Consigo notar uma relação estética bem afinada do que vocês compõem com o nome da banda. Existe mesmo essa preocupação, essa relação com esse fator alienante, com o que quer que possa aprisionar a nossa mente? Augusto: Opa! Pergunta com citação ao grande Abuso Sonoro! (ou ao “Prisão Sem Muros” do Caverna do Dragão, o que cria certa ligação

entre tudo citado aqui risos). Sabe, Robson, a resposta vai ser um tanto óbvia, mas até papeava sobre isso com Paulo Silas (guitarrista). Isso, essa carga obscura do nosso som (presunçoso de minha parte, admito), não é proposital, não é feito pra ambientar o nome da banda, sabe... Porém, Ambienta! Penso mais que seja o oposto... o nome veio pra aumentar essa atmosfera que temos trabalhado pra externar. E, sem clichês, sim, quando pensamos nesses temas que têm nos movido há tanto tempo, é nesse tipo de ambiente que sentimos que temos todos estado (você, a gente, quem agora lê esse zine)... Se trata meio que “abrasileirar” a situação dos internos da caverna proposta por Platão. Lance curioso, mas a primeira pessoa que me interpelou sobre o nome da banda foi alguém que você certamente deseja muito bem, a Aline Souza: “E você, Augusto? Já saiu da caverna?” A resposta permanece. “Não”. Ainda estou vivo, então a conclusão é essa, não saí. Sair da caverna é quase algum tipo de suicídio, o que não elimina nem a vontade nem a necessidade e nem a teimosia de sair. Buzzbomb: A pergunta comum a todas as entrevistas dessa edição: O que significa a morte? Augusto: hmmm... Olha aí. Instante exato em que a simplicidade te atropela. Não quero que pareça que estou tentando pagar de mega fortão por que eu não sou, nem um pouco, saca? Mas pensar em morte como “oposto exato” da vida, é algo que não consigo. É um momento muito específico da vida - e são muitos e variados os momentos específicos! Morte não é o único! Em nossa cultura, a ocidental (portanto abstrata e bizarra), aprendemos a enxergar morte como algo extremamente ruim, pesaroso... Ainda sinto que não deveria ser assim, o que não quer dizer, repito, que eu seja super forte e que não tenha medo dela, tenho e não é pouco! - sou produto daqui do ocidente, logo... Pior mesmo, é a ideia de chegar ao fim da vida parcial ou completamente sem realizações, sobretudo em suas relações pessoais, sabe? Viver assim, nesse estado de “silêncio” ou de “imobilidade” já é a morte em si, porém arrastada ao longo da vida. Aceitar passivamente o que o capitalismo (e sistemas em geral) propõem, me parece com buscar a morte lá no final da vida e puxála, cobrir toda a vida com ela. Vou confessar algo em público aqui, cara: Não se trata exatamente


de filosofia, mas algo de que tenho HORROR mesmo, absoluto, é o silêncio. Não estou usando APENAS figuras de linguagem, falo até desse silêncio que existe momentos antes de dormir, ou de quando casal não segue bem das pernas e ficam mudos um ao lado do outro. Acho que tem a ver com o apito que há mais de uma década e meia tenho em meu ouvido, silêncio absoluto coloca esse ruído numa atividade que falta me enlouquecer. Daí, se construiu isso na minha mente, “Silêncio é Violência”. Aliás, Silêncio é produto da violência, é o objetivo de todo indivíduo violento, opressor. Ele age com violência, pois quer te silenciar, silenciar a alguém que esteja em situação de injustiça, inferioridade; silenciar a alguém cuja voz e liberdade interfiram nos interesses desse agressor. Tirar a vida desse alguém que incomoda ao agressor/opressor, “Morte”, pode ser uma ferramenta (mas a ausência de som não é necessariamente silêncio). Fomos dotados de mecanismos pra mobilidade, nos faz muito mal o sedentarismo da vida atual. Do mesmo modo, fomos dotados de mecanismos para interagirmos com sons, não usá-los (preferindo os itens e situações que essa mesma vida atual, esse momento presente propõem) me soa muito violento. Dos versos do Mauro Iasi que uma amiga bem querida me recomendou: “Está, então, decidido: Vamos mudar o mundo, transformá-lo de pedra em espelho para que cada um, enfim, se reconheça. Para que o trabalho não seja um meio de vida para que A MORTE não seja o que mais a vida abriga Para que o amor não seja uma exceção, façamos agora uma grande e apaixonada revolução.” E também tenho horror a sapos. Mas sapos não têm nada a ver aqui (risos). Buzzbomb: Qual a importância do viés político naquilo que se faz artisticamente? Ainda nessa questão, qual a importância de usar com inteligência aquilo que se sabe fazer e não perder a oportunidade de usar sua arte em algo que seja útil, proveitoso ou provocador? Augusto: Me recordei de que uma vez, há muito tempo já, me confrontaram com uma questão levantada pelo Jô Soares a um artista (não sei qual) sobre isso do envolvimento político com arte. “Mas será que sempre tem que ter política no meio? Nunca pode ser a arte somente pela arte?” - coisa assim. Fiquei um tempo sem uma resposta pra isso, cheguei a começar a aceitar como fato consumado mesmo, sabe? Até que me deparei com o Abujamra citando Sartre: “Cuidado com quem insiste em dizer que política e arte não devem se misturar. Provavelmente a política dele é contra a sua” - coisa assim também. Sabe que dos itens que já temos para lançamentos, assim que gravamos, desejei muito reescrevermos toda a parte lírica? Sinto bastante que se todos nós (nessa banda e fora dela) cremos tão arduamente em como andam as coisas nesse mundo todo, e como elas poderiam estar; se cremos nessas bandas, zines, blogs, coletivos, pixos, peças como veículos de expôr nossas insatisfações, eu penso que ALGUÉM DEVE SAIR MACHUCADO disso! Seja um opressor em escala maior, seja em escala menor e que antes de tudo seja a nós mesmos, em nossas auto-cíticas, mas não machucados por mera ofensa, não uma agressão pela mera ofensa. Riscar que seja a fuselagem duma máquina muito gigantesca, predadora de carne e ossos e ainda acho que essa banda aqui poderia fazer bem mais do que tem feito, como banda e cada um individualmente - e espero que essa sensação nunca passe, nem caso consigamos algo de fato relevante (E agora, pausa pra ir pra feira anarquista!). Encontrei na feira anarquista a figura elevada do Augusto e conversamos um tanto sobre trabalho. Foi a primeira vez que o encontrei (já rolou entrevista do Praia de Vômito no meu primeiro zine, mas não

tive a oportunidade de conhecê-lo pessoalmente) e vos digo: uma grande pessoa esse cara, como todos que o conhecem dizem. Buzzbomb: Sei que você é professor. Você acha que a educação feita nas escolas tem o poder (ou o dever) de criar a utopia revolucionária necessária para que o indivíduo não se acomode com o que lhe acontece ao redor? Augusto: (retomando bem depois da feira) Olha, Robson, espero que consiga me fazer entender... Mas acho que não. A Escola não tem esse poder e de certa forma nem esse dever. Digo isso por que a Escola está posta a serviço de classes muito específicas, que se tornam mais e mais fortes com cada instante em que cada individuo se mantém assim, letárgico, sabe? É tudo claramente desenvolvido para a letargia. No passado, fomos educados para apertar botões. Depois, nos venderam ares de “progresso”, disseram: “Olha, agora as coisas estão mudando, veja esses componentes eletrônicos, eis a era da comunicação eletrônica, olha esses botões...” - então somos educados para apertar botões conforme nos ordenam. Então, quem tem esse dever, somos nós. Esse poder é nosso também. Mantenho, igualzinho a você e a quem mais esteja lendo essa entrevista um problemão com “instituições”, aqui por exemplo, a de ensino. Todos os rostos e nomes que têm mérito ou culpa se escondem atrás de “instituições”. Fica difícil saber (com exatidão, não mera suposição) quem está a lucrar tanto com essa educação de apertar botões. Esses poderes que tanto vão lucrando certamente são o ponto mais alto, cobiçado e adorado nesse nosso padrão social. E os mais inacessíveis também. A escola sempre trabalhou e sempre vai trabalhar em favor dessa que parece uma corrida dentro daquelas rodinhas em gaiolas de hamsters, sabe? O que não pode ser confundido com a Educação. A Educação (não a escola) sempre esteve e sempre vai estar ai. Está se desenvolvendo, acontecendo, vai inclusive questionando a instituição escolar e a pondo contra a parede (e espero que a ponha contra um precipício). Se desenvolve na interação das pessoas, na troca de informações, de histórias, de experiências em conjunto. Olha só, eu tenho uma admiração PROFUNDA, INTENSA por gente que não consegue terminar a escola, sabia? Tem gente assim n’O Mito, inclusive (sei que rola um prejuízo, o do desajuste, mas é romanticamente lindo! risos). Não entendo que gente que se alinhe com as ideias que compõem isso a que chamamos de anarquismo (o nome também não importa) consiga viver em paz com a escola e sem a Educação. É tão ‘contraditório’ o termo “Professor anarquista”. Acho que já dá pra dizer que a “Auto-Educação” vale bem mais pro espírito humano, individual e coletivo, do que a educação. Ao menos a educação escolar. Buzzbomb: Os sons de vocês são em geral bastante longos e quase que orquestrais. Cita algumas bandas nacionais fazendo som pesado que mereçam destaque e porque. Augusto: Cara, aí você me pegou. Sou pessimamente versado em som pesado, saca? (Tô aqui escutando Against Me enquanto te respondo! risos) Bom, vou “violar o protocolo” um pouco, ok? Talvez não sejam somente bandas pesadonas que me venham à mente. Acho que vou citar de antemão os caras do TAIKO, em que meu namorado toca, por que penso que o nível poético deles é algo que “pesa” demais em suas composições. Estão com um trampo novo, um single (coisa de gente chique) por nome “Criação” que vale demais conferir letra e som! Embora tenha percebido que espiritualmente falando não existo e estou sozinho (Isso não é ser “Ateu”?) eu trago comigo um senso, sei lá... ‘materialista’ de espiritualidade - nada a ver com cristianismo, hein? e uma banda que me aprofunda muito nesse cultivo da minha energia, minha mente e meu corpo é o TUNA. Cara, o Tuna foi dessas bandas que veio e trouxe mudanças na minha forma de perceber tudo que envolva meu cotidiano, minha música, a forma como aprecio a tudo. O Igor e o Nicolau (Guitarra e Baixo n’O Mito) têm o NARAYAMA, que mantém uma linha de grind/crust que me encanta e também assusta. São ácidos, profundos, obscuros, pesados. Tenho sempre com eles a sensação de uma ferida aberta, purulenta na nossa alma. Vamos sair um pouco de São Paulo, esse lugar bobo? Em Brasília você ai encontrar a banda SOROR. A coisa transcende,


desde o nome, a mera música, saca? Estivemos juntos no evento de Brasília em que tocamos. você é envolvido por um clima muito ferrado de insatisfação misturado com determinação em correr atrás de transformação, saca? “Sororidade” é o termo para a união feminina. Já no nome, a coisa se impõe! Bora pra Aracaju? Fui chocado com o que trombei do RENEGADES OF PUNK. Cara, eu pedalo, pedalo até que muito. Depois que vi o trio ao vivo, e aquele punk tropical deles, tenho pedalado ainda mais, risos. (Como pode ver eu poderia ficar aqui falando até não haver mais espaço. Melhor me deter por ora). Buzzbomb: Ouvi falar que estão gravando material, o que vem por aí de lançamento físico, turnê etc? Planos pro final do ano e pro ano que vem? Augusto: Na real mesmo, tá até gravado já, cara, arte feita e tudo o mais... Vamos vencendo os últimos momentos, os mais burocráticos de fábrica - que aliás, se não fosse pela chance e intervenção direta e maciça do Rafael Yaekashi e do Filipe Freitas, na Karasu/Equivokke, sem chance, man! Sobre turnês, eventos e tal, por questões de bom senso e respeito com público evitamos apresentar-nos ao vivo constantemente (risos), mas falando sério, se trata duma linha de som pouco digerível, cansativa mesmo por vezes, não faz sentido tocar muito seguidamente. E essa demora nos deixa numa ânsia tão grande que nas apresentações sempre temos voltado machucados, devido à entrega que acaba acontecendo, entende? E o que tem sido bem mais legal, é que em geral o público tem participado ativamente, espontaneamente. Berram juntos, se jogam, se deixam cair. Coisa de gente à vontade, saca? Planos? Olha, sente algo esquisito: nossos planos, por ora, são entender qual é exatamente o ponto e o tempo d’O Mito. É uma dinâmica extremamente diferente das outras bandas grindcore da gente (os meninos na Narayama, Paulo, O Douglas e eu no Praia de Vômito). Aquele lance de duas, três músicas por minuto, errou-volta, descanso entre as músicas. Cara! Aqui é tudo diferente! As coisas têm um tempo diferente pra acontecer e isso vai pondo a gente loucos, todo mundo com mil metas em mente, tendo de esperar demais, saca? Ao vivo não tocamos os sons inteiros, montamos Frankensteins com duas, três músicas que viram uma, fica tudo incerto até pra gente, o que deixa tudo bem mais gostoso! E ainda retorno no que disse antes, está nos planos contínuos verificar o que é e o que não é relevante, nisso que estamos fazendo. Não faz sentido tanto esforço e ninguém sair ferido. Me refiro às nossas insatisfações, as situações melhores e dignas de verdade e a liberdade em que gostaríamos tanto de estar. Alguém/ algo está impedindo a nós todos de estar assim, melhores, sabe? Acho inadmissível que todos esses zines, blogs, bandas, grafitagens, textos, stickers, coletivos, ações não venham a causar nem que sejam bons arranhões na lataria dessa máquina toda. Buzzbomb: Você disse que pedala bastante, te encontrei na feira anarquista e, você está sempre participando de atividades independentes e faça você mesmo. Que atividades ou projetos você e/ ou o pessoal d’o Mito têm participado, que você julga importante que as pessoas conheçam e estejam por dentro ou participem? Augusto: Nos trombamos por lá (e eu estava de bike! [e você é gi-

gantesco! hahaha]) Cara, sabe que eu nem estou tão envolvido quanto gostaria... ou necessitava! Tem algo a ver com certo isolamento adotado por quem vive nesse rincão distante que é a quebrada de Itapecerica da Serra, ficamos meio à parte de muito de tudo que estiver acontecendo, mesmo que me esforce bastante (é que me sinto integrado nesses lances todos, estar longe é me sentir desmembrado, entende?) As carreiras que vamos escolhendo, nossos empregos... Tudo vai sendo orientado por essa mesma visão de mundo que apresentamos em nosso material, saca? Os empregos, cursos na faculdade, nosso lazer... tudo! Tenho tido recentemente uma necessidade forte de sair dessa “bolha” em que as tais das cenas existem por elas, para elas, nelas... Eu tenho sido voluntário na Educafro - curso pré-vestibular popularzão, tá sendo bom demais (cara, lecionar sem montes de diários... que coisa INCRÍVEL!) - Pondo um foco enorme nisso, que, se você tem algo que saiba fazer, que tenha aprendido, que tenha condições de passar adiante... Isso deve ser posto em favor de sua comunidade, pra que nossa rede de ensino, c==onstrução, aprendizagem, comunhão esteja sempre MUITO forte e independente... Sair dessa mera teoria constante. Cara, se ficasse apenas na mera teoria eu não estaria a conhecer coisas como as mais recentes... Uma das pessoas que compõem essa sala em que estou, todas a segunda a tarde corre a deixar o jantar a seu esposo que tem problemas de mobilidade, para estar a tempo na aula... é uma senhora de cerca de setenta anos! Uma outra aluna está correndo arás de estudos perdidos ao longo da vida, quer muito uma faculdade de Jornalismo, pra dar mais corpo a um livro que está escrevendo, sobre doze mulheres de história muito forte, mas que são completamente desconhecidas do ‘grande público’. Buzzbomb: Muito obrigado pela entrevista, esta é a última pergunta e deixo como um espaço para algo especial que queira deixar registrado, mensagem para quem curte a banda, quem entende a proposta e o ideal libertário de se manter contra essa corrente ‘trabalhar para morrer’ que move o mundo e destrói tudo o que conhecemos (inclusive a nós mesmos). Augusto: Puxa, cara, quem vai agradecer demais pela chance sou eu! Mas se me permite, prefiro falar MAIS PARA QUEM NÃO ENTENDE a proposta do que pra quem já a conhece... Quero repetir o que comentei lá em cima, sobre como ainda tem-se a ideia estranha de que “hoje em dia não se faz mais zines” coisas assim... ou que “A Música não é mais a mesma coisa, está faltando ‘música boa’ (sic)”. São todos casos de estar a procurar no canto errado. E está faltando música boa, sim. Mas só na Grande Mídia! E acho isso Ótimo! Quero mais é que as publicações deles, as músicas e produções deles venham todos abaixo! hahaha! Queria todos os jurados de reality shows de música (e em geral) desempregados! Queria as pessoas compondo delas pra elas, sem intervenção desse câncer corporativo! Mantenho esperanças, sabe, Robson. Mantenho mesmo, não faria sentido não manter, não conseguiria olhar pra uma sala cheia de alunos e dizer a ele que está tudo acabado, a vida é isso mesmo. Essa “corrente que te arrasta de casa pro trabalho, do trabalho pra casa”. Vale muito sonhar com um mundo sem influência da igreja, corporações, estado, mídia, polícia, sem influência da “Hidra” sabe? e que afinal de contas, não precisasse nem mesmo dessas lutas pelas quais vamos nos apaixonando e assumindo, como Feminismo, Pró-Gay, Auto-Educação e Educação, Libertação animal, Batalhas de Classes... Um tempo e espaço em que a Liberdade já tenha sido alcançada, desfrutada constantemente e protegida por todos nós... Se estamos tão insatisfeitos com tanta coisa rolando há tantas eras, por que não estamos todos forçando essa barra? escrevendo, tocando, pedalando,


grafitando, resenhando, saca? Me refiro a Ações Políticas nossas (Note que é com P maiúsculo essa política aí), concretas, que nos apresentem a nós mesmos. Bem, eu não saberia mesmo dar um simples “brigado pelo espaço / tchau, vá nos nossos shows” hahaha, mas pra quem teve paciência e está lendo isso aqui, se tiver um tempo livre e ficar sabendo, aparece num evento em que vamos tocar também, seria bem legal, e se não tiver nada contra gente excessivamente estranha, me procura, procura os outros caras da banda, vai ser bem legal podermos nos conhecer em pessoa! Me deixaria imensamente honrado! - Procura a gente pela internet também, vai ver que não há contato sem resposta e das mais calorosas sempre. Tamo nessa bem pra isso mesmo. Beijo e Liberdade ao Robson, Beijo e Liberdade a você. * http://www.myspace.com/omitodacaverna https://www.facebook.com/pages/O-Mito-da-Caverna/

“A mulher que é extensão do outro

ainda não tem existência

Aline Souza, Coletivo Meinhof (coletivomeinhof.blogspot.com)

Há dias que venho observando as atitudes de algumas mulheres, as que conheço e conversam comigo, as que são protagonistas das histórias das minhas amigas, entre outras. E o que notei em comum em algumas é o fato de que o maior problema que cerca suas vidas é o seu companheiro, namorado, esposo, amigo colorido. Venho notando uma carência afetiva que tem maltratado muitas mulheres, o problema? O fato de que precisam de um outro ser para serem felizes, que não tem se tornado felizes por si só, e que apenas um homem, um salvador é que resolveria tudo. Para as mulheres que possuem maior poder aquisitivo a necessidade é um homem educado, bonito, que fale bem, e trate a família bem. Já as de baixa renda, se contentam com um homem que coloque o pão dentro de casa , não beba, e não a espanque. Ou seja, o casamento, tem se parecido com uma espécie de luta que cega a visão feminina e a distância de coisas importântes como ela mesma É como se para ser feliz sempre fosse necessário atender a uma outra pessoa e não a si mesmas. Antigamente, éramos educadas para conquistar o homem pelo estômago, e após o casamento, a casa e os filhos deviam estar sempre bem arrumados, depois de um tempo a conquista ficou válida pelo bom sexo, era preciso ser boa de cama e após o casamento atender bem as necessidades sexuais do marido, além de deixar a casa e os filhos arrumados, hoje em dia, a mulher precisa ter vastos conhecimentos, ser bem educada, ser boa de cama, deixar a casa limpa e arrumada assim como os filhos, e ter emprego, será que o destino é sustentar o esposo e viver uma vida padronizada? Eu acredito nos avanços, acredito que a mulher tem tomado os melhores postos, empregos, faculdades, até temos uma “presidenta”, mas ainda assim, milhares de mulheres tem elevado seu nível de conhecimento, fingido animar sua vida sexual e permanecem fazendo isso tudo apenas para manter um homem ao lado. Sendo assim, deve haver algo de errado e a lição de casa, talvez esteja sendo mal entendida, e continuamos a nos oprimir. É bom ter alguém do lado, mas ficar sozinha não significa ser de todo mal, em alguns momentos é necessário, até para nos encontrarmos com nós mesmos. Fora que existem coisas que é melhor fazer sozinha eu mesma gosto de sair somente com as meninas, ou com um grupo seleto de amigos e meu namorado com os amigos dele, não há mal nisso, não significa que não gostamos dos amigos um do outro ou estamos nos distanciando. O mal está em se desvalorizar, fazer conquistas e realizar sonhos por uma idéia ultrapassada de que o outro deve estar a nossa frente e que devemos fazer de tudo para surpreendê-lo, sendo que as nossas conquistas devem ser nossas. Sabe aquilo de se eu não me amar primeiro ninguém me ama? Então, é disso que eu to falando.

abisposouza@gmail.com


Ruben Luz traz nos seus trabalhos boa parte de tudo o que aprendeu em sua vida e carreira. Seus posters são obras com um peso imaginário ensurdecedor e inebriante, que dão vazão a diversos pensamentos e interpretações, além de serem ótimos artigos de decoração para uma infinidade de lugares. Cenas apocalípticas, traduções de um mundo inexistente ou distopicamente possível fazem parte de suas coleções. Em seus planos atuais está a intenção de colar parte de seus trampos na rua, onde estão os espectadores reais, a gente de verdade que olha e interpreta de acordo com seu estado de espírito ou sua inclinação pessoal de aceitação, repreensão ou dúvida. Nesta entrevista ao Buzzbomb ele conta um pouco sobre como começou suas criações, que tipo de referências o ajudam a produzir e sobre a filosofia de não violência que carrega consigo.

Buzzbomb: O que mais te influencia pra criar seus trabalhos, é uma pergunta rasa, mas quero saber não apenas esteticamente, mas situações, contextos, ideias, músicas. O que na vida te impulsiona a criar sua arte? Ruben: Tudo, cara eu comecei a me envolver com arte desde pequeno, eu gostava muito de mapas e saber sobre culturas. Com 8 anos meu pai me de deu uns 10 mapas mundi gigantes que eu chorei de felicidade, eu ficava vendo o mundo e onde era o que queria viver e saber, aos 12 eu ganhei meu primeiro PC, a partir daí não parei de ler e procurar sobre tudo, culturas, artes, música, eu cresci ouvindo música eletronica e punk, quando aos 12 comecei a baixar as músicas e ver, poxa eu já conhecia Dead Kennedys e várias bandas que meu pai ouvia, eu só não ligava o nome, quando comecei um processo mais ativo de criação aos 18 indo pra rua e pintando, eu fazia o que vinha na minha mente, mas foi a partir dos 20 mesmo que tudo mudou. Eu tinha acabado de sair de um relacionamento, aí eu passava as noites virando, fazendo arte e eu estava muito envolvido com esse lance de sociedade secreta e comecei a fazer artes muito psicodélicas, tudo intuição pura mesmo, sempre mexi com efeitos e manipulações, ai eu comecei. Divulguei as artes na internet e criei um blog pra divulgar o que eu faço e o que me inspira. Ai começou tudo, mas no dia a dia o que me inspira, além de todas as referências, são situações malucas, eu sou maluco cara não sou normal não, todo lugar que eu vou eu imagino como se tivesse sido eu que tivesse criado, até as pessoas, então eu chego e penso meu, eu vivi situações que eu tive que expor isso nas minhas artes especialmente quando estou muito angustiado e depressivo, por isso também decidi fazer uma linha mais noise e menos contemplativa. Buzzbomb: Os posters não seguem bem uma linha só, são di-

RUBEN LUZ

versos modelos, eles são feitos em séries? Existe alguma preocupação de estilo ou você cria conforme as ideias surgem? Ruben: Sim, teve uma série que eu fiz há 2 anos e agora teve outra que fiz psicodélica e agora fiz uma mais noise, mas sempre tento fazer arte, de varios tipos, tudo que me agrada, quando surge e eu tenho tempo e boa vontade eu vou lá e faço. Buzzbomb: O que você tá fazendo atualmente, quais os planos pra esse ano que encerra e pro que começa agora? Ruben: Estou guardando dinheiro para produzir meus posters lambe e colá-los na rua. Estou finalizando meu portfólio de web e design pra ganhar mais dinheiro e pegar mais projetos, e na parte de arte também, meu blog contando minhas peripécias e histórias, fazendo um release em pdf pra mandar para colecionadores, galerias, interessados que possam financiar, porque tudo é muito caro, graffiti é caro, posters sao caros, tudo é caro, então é foda, quero fazer eventos maiores no brasil e fora tambem, mas isso é com o tempo, acho que tenho que treinar e dar muito rolê por aqui ainda.

Buzzbomb: Uma questão comum aos artistas dessa edição, sei que não tem tanto a ver com seu trampo (e agradeço aqui pela participação no buzzbomb #zero), mas tem a ver com cada ser humano pisando nesse chão, então vai a pergunta: o que a morte significa pra você? Ruben: Uma passagem e um balanço, sou espírita, acredito em reencarnação e vida eterna, cientificamente isso é provado, pois eu sou um conjunto de átomos que quando eu morrer como pessoa não vão se desfazer, vão estar no universo da mesma forma. Buzzbomb: Fala um pouco do seu estilo de vida, deixa uma mensagem aí e valeu pela entrevista, cara. Ruben: Eu tenho uma tattoo nos dedos que significa ahimsa, e a outra sattyagraha, são filosofias de não violencia, eu infelizmente não sou vegan ainda o que se inclui na ahimsa, mas isso reflete o que eu penso bastante sobre a vida, sobre viver sem ego, sem orgulho e consequentemente sem dor, a dor só serve para aprimoramento e superação, como forma de impor ego. E vaidade, ela é totalmente nula, assim como o amor e paixões eu acredito muito nisso, você é o que transmite, se você recebe um presente de alguém e não o aceita, ele fica com a pessoa, a mesma coisa penso as coisas ruins, se alguém te faz um mal, você não necessariamente precisa revidar, você pode simplesmente se abster desse mal, ignorando-o. Muitas pessoas tentam me atingir com criticas infundadas, inveja, difamacão, intrigas, tudo isso é simples: basta usar a razão e a lógica. Quem quer atingir para obter atenção, basta não dar atenção quem quer te difamar para fazer o mal, basta fazer o de sempre, ser sincero e mais do que tudo acreditar, eu acredito demais em mim e no que eu faço não é orgulho, é diferente, porque além de toda base cultural e tudo que sempre ob-


servei na vida e em tudo, existe algo maior de valor, pois sempre que mexi com arte fui desacreditado,por amigos, por família, por tudo e eu já passei por várias coisas na vida que eu tive que provar a mim mesmo que era capaz de superar, que só eu acreditei e meti a cara. E hoje me sinto feliz por isso, é algo que incorporei a minha personalidade, ainda tenho receio e medo de muitas coisas, embora tenha mais medo de nao tentar. Então eu tento e vejo no que dá, se é algo que não tenho sucesso, sempre aprendo, se é algo que tenho sucesso é algo que entra pra história e boas lembranças. Num futuro proximo quero ter condições de bancar meu role, e ajudar os outros tambem que estao começando, divulgando, financiando e promovendo, assim como eu espero ser tambem.. Valeu, nóis. www.rubenluz.com meu blog www.facebook.com orubenluz/photos_stream facebook www.artnart.org - bodygraffiti www.facebook.com/triangleconspiracy - page com inspiracoes www.behance.net/rpaschoarelli - portfolio de web comercial


A BESTA DEVE MORRER “Não se pode evitar certas fatalidades pois o que comanda a vida não é o homem mas um acaso desesperadamente cruel que te move com todas as forças para longe de onde você queira estar”. A primeira impressão que tive da banda A besta deve morrer foi brutal, uma banda com algo a contar, com muito a dizer através de seu som que junta umas coisas lentas muito bonitas a trechos hardcore e um vocal desesperador (mas não se engane, “desesperador” aqui neste contexto também significa “ótimo”). Suas letras falam sobre morte, sobre o peso da vida, a miséria de ser, das frustrações com a qual aprendemos a viver. Nascida após a ruína do Paramorte, eles são de Curitiba e estão aqui na nossa edição número zero. Entrevistamos Artur e Vinicius que contam um pouco mais sobre a banda. Buzzbomb: Apresentem A Besta Deve Morrer, falem um pouco desde quando existe a banda, a formação, como nasceu etc. Artur: A besta hoje somos eu (Artur), Vinicius e Daniel, guitarra, baixo e bateria, respectivamente. Nos últimos dias da Paramorte já estávamos fazendo músicas do estilo da Besta e depois que a Paramorte acabou por conta de uns desentendimentos, pelo que me lembro, foi natural da Besta nascer, a gente só precisava de outro vocalista e nisso surgiu o Natan, que já era um amigo nosso que gostava do som da Paramorte. Ficou aquilo de muda o nome ou não muda, mas por conta da mudança de som e de formação achamos melhor mudar. Acho que a besta durou um ano nessa formação com o Natan, mas ele foi embora da cidade e agora estamos nesse trio. Buzzbomb: O nome da banda remete a um filme do final dos anos 60, existe algum conceito por trás da história? Artur: O problema de explicar o nome é ter que contar o filme hahahaha, mas enfim, o filme é do Chabrol e a grosso modo a história é sobre um pai solteiro que vê seu filho ser vítima fatal de atropelamento, o motorista foge e ele começa uma busca incansável pelo assassino. Então, através de pistas ele chega a quem parece ser o assassino, mas no ponto de realizar sua vingança ele titubeia por causa de ter se afeiçoado com o possível assassino. Eu na época fiz a seguinte interpretação, de como os nossos problemas são partes constituintes do que somos, como são realmente importantes esses enfrentamentos pelos quais passamos para nossa formação e como é patético tentar fugir disso. Realmente há uma busca das pessoas em querer evitar algo que você acha que pode acontecer, que você

acha que está no seu controle, mas não, pois as coisas normalmente não estão nas suas mãos, são muitos os fatores que influenciam cada momento. Acredito muito no poder do acaso, o título do disco resume bem isso. Tudo bem, há aquelas pessoas que forçam situações problemáticas, mas esse é outro caso, a meu ver. Buzzbomb: Ainda sobre nomes, é notável que alguns sejam bem grandes e bastante conceituais, desde o nome da banda ao nome da demo e às músicas. Falem um pouco do processo de criação musical, de letras etc. Artur: Na maioria das vezes eu chegava com os riffs, na verdade com a música quase pronta na guitarra, então o Vina e o Dane criavam em cima e depois Natan colocava os vocais. Mas, se não me engano, teve um ou dois sons que tem riffs que o Vina fez e tem um que a gente criou boa parte nos ensaios mesmo. Na parte de letras, eu também cheguei com três prontas, a letra de ladrilhar é do Vina e a primeira letra da demo eu e o Natan escrevemos juntos. Vinicius: Tentamos sempre propor uma reflexão em nossas letras, algo que indague ao ouvinte, que traga o conflito interno do ser a superfície, a decepção da vivencia da nossa era e a falta de perspectivas que o mundo moderno acaba trazendo. Esses assuntos muitas vezes aparecem sem precisarmos discutir ou debater sobre eles, são assuntos que surgem com o criar dos sons de maneira natural evitando que possa parecer alguma temática forçada. Quanto a melodias, sempre procuramos desconstruir o comum utilizando de artifícios sonoros como mudanças de escalas dentro do mesmo riff, mudanças de tempo pouco comuns e quebras e agrupamento de tipos e estilos sonoros diferentes. Gosto sempre de dizer que procuramos sempre fazer composições e melodias sinceras.


Buzzbomb: A falta de esperança e toda essa estética pessimisita nas letras contribuem para que o som da Besta seja bem sombrio, escuro, desesperador. Qual a ideia da banda, como vocês enxergam o tipo de música que vocês fazem? Artur: Eu penso que sou um cara bem pessimista, por causa das minhas leituras e das coisas que ouço, apesar de que para minha mãe falo que sou realista ahaha, e acho que isso afeta em muito o som da banda, até porque no começo da banda as composições eram mais minhas e isso pode ter influenciado a todos de alguma forma. A minha idéia sempre foi fazer screamo, na Paramorte já era, só que lá era uma pira meio Tristan Tzara e pra besta acho que eu queria algo mais mihai edrisch e talvez sed non satiata, não me lembro bem, mas eu queria um screamo com sons mais longos. Eu ouvia e ouço ainda muito desse gênero, mas não sei se o som sai bem assim mesmo, por conta que todo mundo tem muita influência e a coisa não fica resumida só ao screamo. Talvez por ter uma afinação mais baixa os sons saiam mais sombrios mesmo, mas a vida é muito triste né, não tem como sair uma música feliz hahaha. Vinicius: É complicado enxergar a estética sonora que passamos as pessoas que ouvem a banda, mas considero essa “sombra” é o charme das músicas. Difícil também dizer que estilo nos enquadramos quando as influências são tão diversas. Quanto mais diferente e obscuro melhor pra gente haha. Buzzbomb: A pergunta comum desta edição: O que significa a morte para vocês? Artur: Eu já mudei tanto de opinião quanto a isso que eu realmente não sei o que dizer, antes imaginava que havia algo além e que era só parte importante de um processo de transformação, depois pensei que era o ponto final mesmo, sem volta e sem continuação. Hoje imagino que deva realmente existir algo além, mas não sei se ela pode ser uma ruptura ou um processo de evolução. Um dia saberei. Vinicius: Vejo e encaro a morte como uma transformação. A quebra de uma linearidade e a troca pelo novo. A morte considerada como algo efêmero que não deve ser temido, mas sim entendido como um novo passo, uma nova forma. Buzzbomb: Dá pra notar bastante influência do Paramorte no estilo musical, qual a grande diferença ou qual é o ponto em as coisas deixam de se misturar entre as duas bandas? Artur: A idéia da paramorte era realmente fazer um screamo rápido, apesar de haver uma música na demo da paramorte que já indicava a “evolução” para a besta. A diferença mesmo está no estilo de ambas, na paramorte a gente queria tocar rápido e fazer sons curtos mesmo, até que isso cansou e animamos em fazer sons mais longos e mais “trabalhados”, pelo menos era o que parecia para mim. Vinicius: A grande diferença é a velocidade de execução e a “precariedade” sonora que a Paramorte parecia ter. Na Besta procuramos desenvolver melhor as composições, deixa-las mais lapidadas. Isso acabou resultando num resultado sonoro similar porém com aspecto mais maduro. É inegável dizer que são bandas diferentes mas o que soa acaba vindo de um mesmo lugar comum. Buzzbomb: A gravação do “Não se pode evitar certas fatalidades(...)” é de 2011, vai sair o disco físico, já saiu? Existem projetos ainda para 2012 ou para o próximo ano? Artur: Por mim não vai haver disco físico, confesso que eu acho essa gravação muito ruim, a gente errou muito nela e a mix não está nada boa, mas é que sou um cara chato pra isso. Eu não queria nem soltar no bandcamp, mas houve uma pressãozinha dos amigos para isso e a gente acaba cedendo né... Quando a gente saiu numa coletânea da América Latina, teve interesse de um pessoal da Bolívia de nos lançar e se não me engano do Peru, mas eu enrolei tanto eles que imagino que eles tenham desistido. Eu sempre falava que a gente ia gravar coisa e que eles poderiam lançar isso, que seria um material melhor. Na época era

uma promessa vazia, hoje a coisa está se realizando, queremos até dezembro lançar alguma coisa, pelo menos umas três músicas. Pra 2013 eu penso em viajar, a gente falou sobre isso na banda, mas nada muito concreto, só aquela vontade de sempre. Buzzbomb: O que vocês estão fazendo além da banda que é importante citar? Artur: Eu tenho alguns projetos musicais em mente, mas o único que se realiza paralelamente à besta é um drone doom que faço com um amigo, a gente é uma tentativa de sunn o))) hahahaha. Fizemos um show, temos ele gravado e se resumiu a isso até agora, a gente chegou a upar pros amigos ouvirem. Fora da música, mas ao mesmo tempo ligada a ela, a gente está tentando abrir um centro cultural anarquista aqui em Curitiba. Tem bastante gente interessada, envolvida e empolgada e a coisa está andando bem legal. Vinicius: Tenho alguns projetos sonoros pessoais que veem acontecendo, algo como um folk/lo-fi, não sei definir. Fora isso temos a pretensão de participar em breve de um espaço autogestionário, como uma casa cultural anarquista, com o fim de unir um espaço libertário com espaço para reuniões, ensaios, possíveis shows entre tantas outras funções que podemos agregar.

“Tentamos sempre propor uma reflexão em nossas letras, algo que indague ao ouvinte, que traga o conflito interno do ser a superfície, a decepção da vivencia da nossa era e a falta de perspectivas que o mundo moderno acaba trazendo” Buzzbomb: O que vocês andam ouvindo que vale a pena recomendar? Alguma banda local que mereça um destaque especial? Artur: Daqui, Brasil, vou puxar o peixe pros amigos e conhecidos né, tem a Ivpiter, a Cama desfeita, a Vaba marat, a Vou cuspir no seu túmulo, a Mito da caverna, a Taiko, que dispensa apresentações, essas valem muito a pena escutar. Tem a Jejum também. Na verdade tem bastante som legal no Brasil que nem precisam ser citados por mim hahaha. Das gringas dá pra começar um namedrop infinito aqui hahahaha, mas das que eu sempre ouço é a Daughters, que infelizmente acabou, a Gaza, que lançou um álbum novo esse ano maravilhoso, a Robinson, a Plebeian Grandstand, a Arms of Ra, a Capsule, a Meet me in st. louis, a Celeste, a Vilipend... Ah, tem muita coisa não é, e isso só no “rock”. Mas a coisa se estende da mpbi ao noise, penso haver pelo menos uns três grupos/bandas/artistas em cada gênero que podem ser uma boa indicação. Buzzbomb: Espaço para mensagem final, usem como preferir. Artur: Busquem conhecimento. Leiam muito, vejam muito filme, escutem muita música, escrevam muito, viajem muito, conversem muito. Ir ao teatro é importante também, apesar de ser algo que não faço nunca e que devia dedicar um tempo também. A questão essencial é ampliar horizontes mesmo. O único problema é ter o tempo necessário para tal hahaha. Vinicius: Criar musicas é a uma das expressões mais satisfatórias que o ser pode ter quando se trata de uma válvula de escape para todas as nossas angustias e dores de cabeça diária, saber direcionar isso e canalizar em forma de criação é algo que deixa qualquer um com uma sensação satisfatória de auto-conhecimento. Conheça a ti mesmo antes de julgar o outro. * abestadevemorrer.bandcamp.com/


SURRA Surra é uma banda de hardcore de Santos-SP que canta temas bastante politizados com peso, técnica e muita influência de crossover, abordando temas mais gerais como o voto nulo, ou o capitalismo até temas mais focados como a poluição gerada na cidade de Cubatão e o desvio de verba pública para merenda escolar. Com membros do Like a Texas Murder e Bayside Kings, recentemente lançaram para audição online seu primeiro EP intitulado ‘Bica na Cara’ e mostram porque são uma das mais promissoras bandas da baixada santista. Buzzbomb Sobre o lançamento do EP de estréia, Bica na Cara, como está sendo a aceitação da galera, como estão sendo os shows? Victor: Por enquanto está rolando tudo bem! O pessoal que veio falar conosco só falou coisas positivas, o que nos deixou muito felizes, pois apesar de fazer esse som puramente pelo prazer pessoal de nós três de tocar e falar estas coisas, é bom que exista mais gente que compartilhe das nossas ideias e preferências. Os shows estão sendo sempre legais, sempre com amigos, bandas classe A. Os rolês sempre são foda por causa da nossa amizade, nos damos muito bem, então é sempre um festival de merda e atrocidades entre a gente! Buzzbomb: Falem um pouco do CD, da arte, as participações importantes, como rolaram as gravações, produção e tudo mais que envolveu o lançamento do EP. Victor: Trabalhamos muito nesse CD, com muito foco e realmente foi muito divertido fazer isso daí que saiu. Tentamos organizar para já matar toda a gravação em um curto espaço de tempo e, na medida do possível para uma banda na qual os três membros trabal-

ham igual uns filhos da puta, deu tudo certo hahaha. O esquema das participações foi meio natural, o Marcão do Claustrofobia conversa direto com o Leo (vocalista e guitarrista) e quis cantar uma parte de alguma música e lógico que aceitamos hahaha. O Milton, do Bayside Kings, também nos ajudou com os backing vocals e cantou uma parte da ‘Vida de Babaca’ com sua voz de zica do HC. O mais legal foi reunir quase que toda a formação clássica do Psychic Possessor para gravar uma versão de Vote Nulo. Colou o Boka (batera do Ratos), o Fabricio (baixista do Garage Fuzz) e o Marcio (antigo vocalista da banda) e foi tudo muito foda, na hora a gente nem sabia o que falar direito para os caras hahaha. Até o esquema da arte fechamos com o Daniel ET, que já tinha trabalhado com a gente antes em outros trampos, e foi muito foda. Essa semana estamos mandando tudo para a fábrica (finalmente!) e teremos o CD físico em breve (esperamos). Buzzbomb: As outras bandas dos integrantes servem como complemento para o som de vocês ou o Surra é algo que vocês queria fazer pra diferenciar das propostas dessas outras bandas? Victor: Então, atualmente o único que tem outra banda é o Leo, com o Bayside Kings, que tem uma proposta de fazer um hardcore mais baseado no NYHC e tal. Esse som que sai aí é meio que ‘natural’ pra gente. O que acontece é que a gente ouve muita coisa diferente e sempre rola uma vontade de colocar coisas diferentes nas músicas. Tipo eu ouvindo muito black metal e chegar pros caras ‘tem que ter um blast beat de black metal em alguma música’, daí rolou no meio da ‘Vida de Babaca’, é meio assim que funciona hahahahaha. Buzzbomb: Que tipo de som vocês ouvem que é diretamente rela-


cionado a banda, que bandas podem ser citadas como inspiração pro som do Surra e o que mais vocês tem ouvido além dessas referências? Victor: Putz, de influência diretas acho que posso citar sem medo o Ratos de Porão, D.F.C., Psychic Possessor e o Sepultura. Isso de influência principais, porque rola muita outra coisa que a gente ouve e acaba colocando elementos no meio das músicas porque a gente acha legal. Escutamos desde Crust até Power Metal, pegando os pontos bons que achamos em cada coisa e sempre tentando melhorar musicalmente enquanto nos divertimos. Buzzbomb: Sobre a cena de Santos, a gente sabe que é bastante forte, unida, acontecendo bem há bastante tempo. O que vcs consideram que tem de mais importante acontecendo na cena da baixada? Victor: Cara, acho que o mais importante é a falta (quase que total) de barreiras entre os sons. Por não ser uma cidade muito grande, não ter muitas casas de show (e ainda sofrer com preços muito caros para os aluguéis), a cena inteira acaba se unindo para tocar. É comum você ir em um show e ver uma banda de HC melódico, outra de HC mais porrada, outra tipo a gente mais Crossover e outra de Rock Alternativo. Eu acho isso sensacional, e é um negócio que muito difícil você ver em São Paulo, por exemplo, onde os eventos são mais segmentados e parte do público e mais ‘cabeça fechada’. Buzzbomb:. As letras de vocês tem um teor político bastante forte. Algumas com ideias mais genéricas como alienação, mas algumas muito mais diretas como merenda e cubathrash que apresenta um problema mais local. Falem um pouco do processo de criação e de onde surgem os temas. Victor: Cara, a gente sempre gosta de cantar sobre coisas que nos incomodam, seja na esfera pessoal quanto na esfera política. Quando a gente faz uma música sempre rola a definição de um tema que deixa a gente puto e aí vamos trabalhando a partir disso.. Geralmente, nem sempre, mas na maioria das vezes, alguém vê alguma notícia ou alguma coisa na internet que fica muito puto, mostra para os outros, e aí rola a temática. Foi assim com a Merenda, que foi feita com base numa notícia de alguém prefeito de alguma cidade do interior de SP que estava tirando o dinheiro que era para pagar uma merenda decente nas escolas e embolsando tudo, enquanto as crianças comiam comida vencida e podre. Buzzbomb: Qual a importância do hardcore com contexto político, de ir além do senso comum, participar da cena com aquilo que se tem nas mãos e incomodar com temas fortes quem precisa ser incomodado? Victor: Acho que o Rock em geral é um tipo de música que atrai pessoas que são incomodadas com algo na vida. E tenho ainda a tese de que, quanto mais desgraçado o som, mais a pessoa é ‘perturbada’ por essas coisas hahahaha. Perceba, ninguém nesse meio é ‘normal’, ‘acomodado’, salvo raras exceções. O hardcore é um puta reflexo animal disso, as pessoas realmente ficam tão putas da vida com algo que resolvem fazer músicas para conscientizar os amigos sobre aquele problema, e isso gera um espaço de discussão fudido. Nem sempre são discussões saudáveis e sensatas, mas só de estar todo mundo ali com o propósito de refletir e lutar contra toda essa merda de vida que é imposta sobre a gente, isso já é muito foda. Buzzbomb:Vocês estão divulgando o bica na cara por aqui, mas estão planejando algo pra 2013, lançamentos, turnês, merch etc?

Victor: A ideia é lançar o EP e não parar mais. Sair tocando em tudo quanto é lugar, fazer umas camisetas, patches e outras coisas, além de continuar compondo outros sons. Acho que se tivermos tempo, material suficiente e condição ($$$, hahahaha), posso dizer que é quase certeza que teremos mais uns sons novos lançados no ano que vem. Buzzbomb: A pergunta comum da edição: O que significa a morte? Victor: É o fim. É a única certeza que temos, além disso, nada mais está planejado. Serve como um aviso de tipo ‘faça logo as merdas que você quer fazer, porque isto é certo de acontecer com você’ hahahaha, por mais que as pessoas tentem se enganar e peder tempo discutindo idiotices religiosas como desculpa por ter uma concepção de vida ridícula. Buzzbomb: Espaço final, usem como preferir, deixem mensagem, digam o que quiserem. Victor: Agradeço pelo espaço e todo mundo que tem nos apoiado! O underground é realmente o melhor espaço do mundo para se produzir arte sincera. É nóis! * facebook.com/surrahardcore surra.bandcamp.com


GUARANI-KAIOWÁ Índios Guarani-Kaiowá anunciam suicídio coletivo no Mato Grosso do Sul pela situação de miséria em que vivem. Carta da comunidade Guarani-Kaiowá de Pyelito Kue/Mbarakay-Iguatemi-MS para o Governo e Justiça do Brasil Nós (50 homens, 50 mulheres e 70 crianças) comunidades Guarani-Kaiowá originárias de tekoha Pyelito kue/Mbrakay, viemos através desta carta apresentar a nossa situação histórica e decisão definitiva diante de da ordem de despacho expressado pela Justiça Federal de NaviraiMS, conforme o processo nº 0000032-87.2012.4.03.6006, do dia 29 de setembro de 2012. Recebemos a informação de que nossa comunidade logo será atacada, violentada e expulsa da margem do rio pela própria Justiça Federal, de Navirai-MS. Assim, fica evidente para nós, que a própria ação da Justiça Federal gera e aumenta as violências contra as nossas vidas, ignorando os nossos direitos de sobreviver à margem do rio Hovy e próximo de nosso território tradicional Pyelito Kue/Mbarakay. Entendemos claramente que esta decisão da Justiça Federal de Navirai-MS é parte da ação de genocídio e extermínio histórico ao povo indígena, nativo e autóctone do Mato Grosso do Sul, isto é, a própria ação da Justiça Federal está violentando e exterminado e as nossas vidas. Queremos deixar evidente ao Governo e Justiça Federal que por fim, já perdemos a esperança de sobreviver dignamente e sem violência em nosso território antigo, não acreditamos mais na Justiça brasileira. A quem vamos denunciar as violências praticadas contra nossas vidas? Para qual Justiça do Brasil? Se a própria Justiça Federal está gerando e alimentando violências contra nós. Nós já avaliamos a nossa situação atual e concluímos que vamos morrer todos mesmo em pouco tempo, não temos e nem teremos perspectiva de vida digna e justa tanto aqui na margem do rio quanto longe daqui. Estamos aqui acampados a 50 metros do rio Hovy onde já ocorreram quatro mortes, sendo duas por meio de suicídio e duas em decorrência de espancamento e tortura de pistoleiros das fazendas. Moramos na margem do rio Hovy há mais de um ano e estamos sem nenhuma assistência, isolados, cercado de pistoleiros e resistimos até hoje. Comemos comida uma vez por dia. Passamos tudo isso para recuperar o nosso território antigo Pyleito Kue/Mbarakay. De fato, sabemos muito bem que no centro desse nosso território antigo estão enterrados vários os nossos avôs, avós, bisavôs e bisavós, ali estão os cemitérios de todos nossos antepassados. Cientes desse fato histórico, nós já vamos e queremos ser mortos e enterrados junto aos nossos antepassados aqui mesmo onde estamos hoje, por isso, pedimos ao Governo e Justiça Federal para não decretar a ordem de despejo/expulsão, mas solicitamos para decretar a nossa morte coletiva e para enterrar nós todos aqui. Pedimos, de uma vez por todas, para decretar a nossa dizimação e extinção total, além de enviar vários tratores para cavar um grande buraco para jogar e enterrar os nossos corpos. Esse é nosso pedido aos juízes federais. Já aguardamos esta decisão da Justiça Federal. Decretem a nossa morte coletiva Guarani e Kaiowá de Pyelito Kue/Mbarakay e enterrem-nos aqui. Visto que decidimos integralmente a não sairmos daqui com vida e nem mortos. Sabemos que não temos mais chance em sobreviver dignamente aqui em nosso território antigo, já sofremos muito e estamos todos massacrados e morrendo em ritmo acelerado. Sabemos que seremos expulsos daqui da margem do rio pela Justiça, porém não vamos sair da margem do rio. Como um povo nativo e indígena histórico, decidimos meramente em sermos mortos coletivamente aqui. Não temos outra opção esta é a nossa última decisão unânime diante do despacho da Justiça Federal de Navirai-MS. Atenciosamente, Guarani-Kaiowá de Pyelito Kue/Mbarakay


miranda.guto@gmail.com



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