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SUMÁRIO Introdução.................................................................................................. 03 Casas de bingo terão credenciamento cassado.......................................... 04 Decreto 1046 - 09 de Abril de 2003.......................................................... 05 Decreto 1047 - 09 de Abril de 2003.......................................................... 06 PGE anula contrato do Totobola............................................................... 07 Delazari pede CPI Estadual sobre o caso Larami..................................... 08 Carlinhos Cachoeira é intimado pela polícia do Paraná........................... 09 Carlinhos Cachoeira não comparece para prestar depoimento................. 10 Delegado do Nurce vai a Goiás ouvir Carlinhos Cachoeira..................... 11 Secretário da Segurança divulga artigo sobre ilegalidade dos bingos...... 12 Email que cita o trabalho da Larami concluído........................................ 15 Email da maquiagem contábil da Larami................................................. 16 Email que cita encontro com o governador Beto Richa........................... 17 Email pedindo registro dos livros contábeis............................................. 18 Email sobre levantamento de custos para pagamento do contador........... 19 Discurso no plenário do Senado no dia 19 de abril de 2012..................... 20 Discurso no plenário do Senado no dia 20 de abril de 2012..................... 22 Cachoeira rides again................................................................................ 26


INTRODUÇÃO Em 2003, quando Roberto Requião foi eleito governador do Paraná, o Estado estava tomado por bingos, cassinos, jogo do bicho e toda espécie de jogo de azar. Uma de suas primeiras providências foi, por meio de decretos, eliminar o “Tribingo Paranaense” e as vídeo-loterias e fazer valer a lei federal que já proibia funcionamento de bingos e cassinos. Durante meses as polícias do Paraná trabalharam para cumprir a medida. Nesta ação, apareceu a figura do bicheiro Carlinhos Cachoeira, que hoje domina a imprensa de todo o Brasil pela íntima relação com senadores, governadores, deputados, prefeitos e vereadores. Ele também tinha laços firmes com o Paraná, sendo sócio da empresa Larami, que explorava o jogo no Estado. O Núcleo de Repressão a Crimes Econômicos (Nurce) estranhou a Larami ter vencido a licitação por duas razões: a empresa aumentou seu capital social de R$ 5 mil para R$ 600 mil dias antes da licitação. Além disso, o então governador Jaime Lerner trocou toda a equipe responsável pela licitação no Serviço de Loterias do Paraná (Serlopar) às vésperas da concorrência. Carlinhos Cachoeira foi então chamado pelo Nurce para esclarecer as questões da empresa que era dono, a Larami. Mas recusou-se a vir ao Paraná alegando que poderia sofrer um atentando durante a viagem. Os negócios de Cachoeira secaram no Paraná no período que Requião foi governador (2003-2010). No entanto, um email interceptado pela Polícia Federal, que investiga a ligação de Cachoeira com diversos parlamentares, mostrou que eles estão voltando. Um dos assessores do Cachoeira reporta que esteve com o governador eleito Beto Richa e que o jogo será retomado no Estado. A seguir, uma coletânea de matérias publicadas pela Agência Estadual de Notícias, os decretos que acabaram com o jogo no Paraná, os emails interceptado pela Polícia Federal e discursos do senador Roberto Requião em plenário.

Brasília, maio de 2012

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Casas de bingo terão credenciamento cassado Os decretos 1.046 e 1.047, assinados na última quarta-feira (09) pelo governador Roberto Requião revogando as resoluções, assinadas no governo anterior, que permitiam o funcionamento dos bingos e das vídeo loterias (caça-níqueis) no Paraná, já foram publicados em Diário Oficial. Segundo o diretor-presidente do Serviço de Loterias do Estado do Paraná (Serlopar), João Tadeu Serpa Nunes, o próximo passo é a publicação de uma portaria cassando o credenciamento de todas as 43 casas de bingo que estão funcionando. A notificação também será enviada por correio, por meio de correspondência registrada, e será válido o que ocorrer primeiro. Após notificadas, as casas de jogos devem obedecer os decretos e fechar imediatamente as portas. “O Governo do Estado não age mais sozinho. O Ministério Público e a Justiça vão nos ajudar na eliminação do esquema de lavagem de dinheiro”, disse Requião, lembrando que, caso haja necessidade, processos criminais e ações civis podem garantir o fechamento das casas de jogos. O governador também classificou o jogo de azar como uma “armadilha onde caem apenas as pessoas mais ingênuas” e enfatizou que, agora, o Estado ganha a tranqüilidade das famílias paranaenses. Questionado sobre os possíveis empregos que o jogo poderia gerar, Requião disse que o narcotráfico e o desmanche de carros também geram empregos. “Nada justifica a continuação de atividades ilegais no Estado. Iremos gerar empregos com uma política fiscal firme. Vamos gerar empregos de forma legal”, garantiu. Agência Estadual de Notícias - 11/04/2003

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Decreto 1046 - 09 de Abril de 2003 Publicado no Diário Oficial nº. 6454 de 9 de Abril de 2003 Súmula: A anulação da Resolução 27, de 19 de agosto de 2002, do Secretário de Estado do Governo, que instituiu o concurso de prognóstico na modalidade lotérica denominada TRIBINGO PARANAENSE. O GOVERNADOR DO ESTADO DO PARANÁ, no uso das atribuições que lhe confere o art. 87, incisos V e VI, da Constituição Estadual, considerando: 1) a argüição de inconstitucionalidade, pelo Ministério Público do Estado do Paraná, da regulamentação, por meio de Resolução do Secretário de Estado do Governo, que instituiu o concurso de prognóstico na modalidade lotérica denominada de TRIBINGO PARANAENSE, frente ao que dispõe a Constituição Federal, no inciso XX, de seu art. 22, 2) os termos das Súmulas nºs 346 e 473, do Supremo Tribunal Federal, que enunciam a possibilidade de a própria Administração Pública declarar, em face da ilegalidade, a anulação de ato administrativo próprio, DECRETA: Art. 1º. A anulação da Resolução 27, de 19 de agosto de 2002, do Secretário de Estado do Governo, que instituiu o concurso de prognóstico na modalidade lotérica denominada de TRIBINGO PARANAENSE. Art. 2º. Em decorrência do disposto no artigo anterior, declaram-se extintos todos os atos, contratos, negócios e deliberações praticados sob a égide daquela Resolução. Art. 3º. Este Decreto entrará em vigor na data de sua publicação. Curitiba, em 9 de abril de 2003, 182º da Independência e 115º da República. Roberto Requião Governador do Estado Caíto Quintana Chefe da Casa Civil 05


Decreto 1047 - 09 de Abril de 2003 Publicado no Diário Oficial nº. 6454 de 9 de Abril de 2003 Súmula: A anulação das Resoluções nºs 12, 13 e 14, datadas de 14 de novembro de 2001, do Secretário de Estado do Governo. O GOVERNADOR DO ESTADO DO PARANÁ, no uso das atribuições que lhe confere o art. 87, incisos V e VI, da Constituição Estadual, considerando: 1) a argüição de inconstitucionalidade, pelo Ministério Público do Estado do Paraná, da regulamentação, por meio de Resoluções do Secretário de Estado do Governo, que instituiu o concurso de prognósticos na modalidade de vídeo loteria on-line / real time, frente ao que dispõe a Constituição Federal, no inciso XX, de seu art. 22 e Lei de Contravenções Penais, 2) os termos das Súmulas nºs 346 e 473, do Supremo Tribunal Federal, que enunciam a possibilidade de a própria Administração Pública declarar, em face da ilegalidade, a nulidade de ato administrativo próprio, DECRETA: Art. 1º. A anulação das Resoluções nºs 12, 13 e 14, datadas de 14 de novembro de 2001, com as suas alterações posteriores, todas do Secretário de Estado do Governo, que, respectivamente, aprovaram: o Regulamento do Concurso de Prognóstico na modalidade lotérica de vídeo loteria; o Regulamento para a contratação pela Operadora de fornecedores de terminais eletrônicos de vídeo loteria e o Regulamento para o credenciamento de revendedores do concurso de prognóstico na modalidade de vídeo loteria on-line / real time. Art. 2º. Em decorrência do disposto no artigo anterior, declaram-se extintos todos os atos, contratos, negócios e deliberações praticados sob a égide daquelas Resoluções. Art. 3º. Este Decreto entrará em vigor na data de sua publicação. Curitiba, em 9 de abril de 2003, 182º da Independência e 115º da República. Roberto Requião Governador do Estado Caíto Quintana Chefe da Casa Civil 06


PGE anula contrato do Totobola A Procuradoria-Geral do Estado anulou o contrato entre o Serviço de Loterias do Estado do Paraná (Serlopar) e a Kolmac Administradora de Eventos Ltda., responsável pelo Totobola, nesta segunda-feira (03). O documento regia a prestação de serviços de operacionalização e comercialização do sistema de concursos de prognósticos. No ofício encaminhado pelo procurador-geral do Estado, Sérgio Botto de Lacerda, ao diretor-presidente da Kolmac, Mário Alberto Charles, a anulação se dá pela “constatação de vícios insanáveis no contrato”. A PGE observou que o contrato firmado para a realização do Totobola foi elaborado pela própria Kolmac, com a adesão do poder público, sem a realização de licitação. O Decreto Estadual nº 2.948/97 diz que o Serlopar não pode transferir a terceiros a sua atividade fim, o que impossibilitaria a participação da Kolmac nas fases de planejamento e programação dos serviços. A participação da Kolmac na elaboração do projeto também é considerada uma afronta às disposições do art. 9.º da Lei Federal n.º 8.666/93 por ferir o “princípio da isonomia e moralidade”. “A situação que originou a contratação administrativa não pode partir do interesse particular, mas sim da necessidade da Administração”, diz um trecho do parecer, pelo qual a Kolmac não teria apresentado um projeto, para que fosse solicitada a inexigibilidade de licitação. Pelo documento da PGE a revenda dos bilhetes do sorteio não poderia ter sido atribuída diretamente à Kolmac, sob pena de burla do princípio da obrigatoriedade de licitação. Irregularidades – No contrato ainda foram encontradas cláusulas contraditórias com relação à atribuição de responsabilidades. Por exemplo, os investimentos e gastos com mídia,publicidade, contratação de pessoal, gráficas e impressos em geral e distribuição e pagamento de prêmios ora seriam de responsabilidade do Serlopar, ora da Kolmac. Foi constatado também que o contrato fere a Lei de Licitações e Contratos, em razão da falta de uma previsão orçamentária, e a Lei de Responsabilidade Fiscal, já que a despesa foi contraída nos dois últimos quadrimestres do governo anterior. Também foi constatado que a ausência de uma autorização governamental, conforme estabelece o decreto estadual n.º 3.471 para despesas superiores a R$ 200 mil, também é uma irregularidade, pois o valor do contrato foi estimado em R$ 10 milhões. Agência Estadual de Notícias - 03/05/2004 07


Delazari pede CPI Estadual sobre o caso Larami O Secretário de Estado da Segurança Pública, Luiz Fernando Delazari, afirmou que a empresa do setor de jogos Larami Diversões e Entretenimento, que venceu a licitação para explorar as videoloterias no Serviço de Loterias do Paraná (Serlopar) em 2001, deveria ser investigada por uma CPI Estadual e já sugeriu a parlamentares paranaenses que tomem esta atitude. “Isso é um negócio fabuloso que rendeu milhões em dinheiro ilícito, fruto do jogo. É uma vergonha. É uma das maiores ‘lavanderias’ de dinheiro do Paraná”, disse. O contrato da empresa foi assinado pelo Serlopar em 2001, durante a administração anterior, com vigência de cinco anos. No entanto, o governador Roberto Requião rompeu o contrato, por decreto, em abril do ano passado, quando a resolução da para a exploração das videoloterias foi revogada. Quando Delazari exercia a função de promotor do Ministério Público Estadual, verificou algumas informações sobre o caso da empresa. Segundo ele, a Larami era uma empresa fantasma, que terceirizou todos os serviços e foi montada em um “fundo de quintal”. As investigações do MPE apuraram que o capital da empresa passou de R$ 5 mil para R$ 500 mil, em 30 dias. O secretario acredita que, além das investigações do MPE, que já estão ocorrendo, o caso deveria ser investigado por outros poderes, como o Legislativo. “É um grande negócio fraudulento e criminoso. Esse escândalo, que veio à tona agora, vai acabar com essa discussão de legalização do jogo”, avaliou. A Larami tem como sócio Carlos Augusto de Almeida Ramos, o “Carlos Cachoeira”, que está envolvido no escândalo do assessor parlamentar da Casa Civil do Palácio do Planalto, Waldomiro Diniz. Alejandro Ortiz, parceiro de donos de bingos no Paraná na exploração de videoloterias off-line, também está envolvido no episódio. “A empresa de Ortiz era uma das maiores fornecedoras de máquinas caça-níqueis e ele, um dos braços da máfia italiana”, afirmou. Segundo a promotora de Justiça Isabel Cláudia Guerreiro, responsável pelo caso, o MPE está concluindo o inquérito sobre as irregularidades da Larami. Quando as investigações acabarem, o MPE entrará com uma ação na Vara da Fazenda Pública contra a empresa. Caso a improbidade seja constatada, os responsáveis terão, por exemplo, de devolver o dinheiro ao patrimônio público, além de não poder mais concorrer a cargos públicos. 08

Agência Estadual de Notícias - 19/02/2004


Carlinhos Cachoeira é intimado pela Polícia do Paraná O empresário de jogos eletrônicos Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, foi intimado pelo Núcleo de Repressão a Crimes Econômicos (Nurce) para prestar depoimento em Curitiba nesta quinta-feira (03), às 15h30. O empresário, que ganhou notoriedade depois que denunciou o assessor especial da Chefia da Casa Civil do Palácio do Planalto, Waldomiro Diniz, por corrupção, é acusado pela polícia do Paraná de envolvimento em irregularidades na licitação que escolheu a empresa Larami para controlar o serviço de loteria on-line do Paraná em 2001, durante do governo Lerner.

Em abril deste ano, o Governo do Paraná rescindiu o contrato com a Larami, através de um decreto, com base nestas suspeitas de irregularidades. A polícia do Paraná abriu um inquérito para investigar o caso. Um dos indícios de irregularidades seria a inclusão de novos sócios (um deles Carlinhos Cachoeira) com o aumento abrupto do valor de capital da empresa dias antes da Larami concorrer à licitação contra outras 26 empresas inscritas. Em maio de 2001, quando a empresa foi criada pelo argentino Luis Carlos Ramirez e por Keila Gnutzman, o capital em contrato social da Larami era de R$ 5 mil. Menos de quatro meses depois e dias antes da licitação aberta pelo governo anterior, Ramirez e Keila deixaram a direção da Larami. Quem assumiu foi Carlinhos Cachoeira, dono da empresa Brazilian Games Partner Empreendimentos, fabricante de software para jogos, e Roberto Sérgio Copolla, argentino dono da Eletrochance, fabricante de máquinas caça-níqueis. Só com esta alteração contratual o capital da Larami saltou para R$ 600 mil, um aumento de 120 vezes o valor inicial. Tudo porque o edital de licitação do Serviço de Loterias do Paraná (Serlopar) exigia das empresas concorrentes capital mínimo de R$ 500 mil. Laranjas – De acordo com o delegado Nailor Robert de Lima, a suspeita é que Keila e o argentino Ramirez eram “laranjas” que montaram a Larami a mando de Cachoeira, especialmente para ganhar a licitação no Paraná. Outro fato que intriga a polícia é que parte da equipe do Serviço de Loterias do Paraná (Serlopar), responsável pelas licitações foi trocada às vésperas da análise das empresas concorrentes da Larami. De acordo com o depoimento de Clinton Pereira Filho, um dos funcionários que fazia parte deste grupo, a licitação da Larami acabou com uma equipe que trabalhava na área desde 1987. Pereira disse ainda que, na época, o Serlopar alegou “excesso de funcionários” para trocar a equipe. Além desse ex-funcionário do Serlopar, os policiais do Nurce já ouviram os depoimentos da ex-proprietária da Larami, Keila Gnutzman, o marido dela, Alberto Bontempi, que também é sócio de Roberto Copolla na empresa Eletrochance, e dois integrantes da equipe responsável pela licitação da Larami. Os próximos passos das investigações são ouvir os empresários que assumiram a Larami e fizeram com que a empresa ganhasse a licitação. Se o empresário Carlinhos Cachoeira não atender à intimação para prestar depoimento, terá apenas mais uma chance de se apresentar à polícia paranaense ou será forçado a comparecer ao depoimento acompanhado por força policial. Os policiais do Nurce pretendem intimar também o empresário Roberto Sérgio Copolla, que está na Itália. Agência Estadual de Notícias - 02/06/2004 09


Carlinhos Cachoeira não comparece para prestar depoimento O empresário do jogo Carlos Augusto de Almeida Ramos, o Carlinhos Cachoeira, não compareceu para prestar depoimento nesta quinta-feira (03) na sede do Núcleo de Repressão a Crimes Econômicos (Nurce), em Curitiba. O delegado do Nurce, Naylor Robert de Lima, recebeu um fax informando a ausência de Cachoeira minutos antes do horário marcado para o depoimento.

No documento, os advogados de Cachoeira, Jeovah Viana Borges Júnior e Raimundo Hermes Barbosa, alegam que o empresário do jogo corre risco de vida devido ao seu envolvimento no caso Waldomiro Diniz e que por medo de um atentado não poderia se deslocar da cidade de Anápolis, em Goiás, onde mora, até Curitiba. Os advogados sugerem, no fax, que Cachoeira seja ouvido através de carta precatória pela polícia de Goiás. A polícia do Paraná vai decidir agora se pede a ajuda da polícia goiana ou se envia um delegado até Anápolis para ouvir Cachoeira. O Nurce pode optar ainda por intimar mais uma vez o empresário para vir até Curitiba. Caso ele não obedeça à segunda intimação, será acompanhado por força policial para depor. Investigações - O depoimento de Carlinhos Cachoeira faz parte das investigações do Nurce sobre a licitação do Serviço de Loterias do Paraná de 2001, durante o governo Lerner, em que a empresa Larami recebeu o direito de controlar a loteria on line do Estado. A polícia investiga possíveis de irregularidades no processo licitatório desde abril deste ano, quando o Governo do Paraná rompeu o contrato com a Larami com base nestas suspeitas. Os principais pontos de investigação do Nurce são o rápido crescimento do capital da empresa, que saltou de R$ 5 mil para R$ 600 mil dias antes da licitação, e a troca da equipe do Serlopar responsável pelas licitações às vésperas da análise das empresas concorrentes. Agência Estadual de Notícias - 03/06/2004 10


Delegado do Nurce vai a Goiás ouvir Carlinhos Cachoeira O delegado do Núcleo de Repressão a Crimes Econômicos (Nurce), Naylor Robert de Lima, vai a Goiás, nesta segunda-feira (21), para ouvir o depoimento do empresário do jogo Carlinhos Cachoeira. O delegado deve conversar com Cachoeira na manhã de terça-feira (22), na delegacia regional da cidade de Anápolis, interior do Estado, onde o empresário mora. Cachoeira foi intimado para depor em Curitiba no começo do mês, mas não compareceu, alegando que corria o risco de sofrer um atentado durante a viagem. Os advogados do empresário sugeriram que Cachoeira fosse ouvido pelos policiais de Anápolis através de carta precatória, mas o delegado paranaense preferiu viajar até Goiás para conversar pessoalmente com o empresário. Carlinhos Cachoeira, que ficou nacionalmente conhecido depois que denunciou o assessor da Chefia da Casa Civil do Palácio do Planalto, Waldomiro Diniz, por corrupção, é suspeito de envolvimento em fraude na licitação que escolheu a empresa Larami para controlar o serviço de loteria on-line do Paraná em 2001. Segundo as investigações do Nurce, a principal prova que aponta para irregularidades no processo licitatório é o rápido aumento do capital social da empresa Larami, que saltou de R$ 5 mil para R$ 600mil, dias antes da licitação. Outro fato que intriga a polícia é a troca da equipe responsável pelas licitações no Serviço de Loterias do Paraná (Serlopar), às vésperas da análise das empresas que concorriam para controlar a loteria on-line no Paraná. Agência Estadual de Notícias - 20/06/2004

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Secretário da Segurança divulga artigo sobre ilegalidade dos bingos “Bingos: ilegalidade antiga e explícita” Novamente a discussão sobre a legalidade das casas de bingos ganha destaque nas páginas de jornais e revistas, além de ocupar importante espaço nos principais telejornais brasileiros e nas rádios de freqüência nacional. Nos anos de 2003 e 2004, tive a oportunidade de divulgar pelo menos dois artigos que alertavam a opinião pública e autoridades sobre os danos sociais e a ligação dos bingos com o crime organizado. De lá para cá, pouco ou quase nada foi feito para investigar as entranhas dessa “modalidade de jogo”. Agora, quem sabe, a CPI dos Bingos consiga resgatar com seriedade o tema e clarear os caminhos nebulosos que marcam a trajetória das casas de jogos. Já demos um primeiro passo com o depoimento, ainda que pouco revelador, do ex-assessor do ministro Antonio Palocci Filho, o advogado Rogério Buratti. Apesar de não integrar a CPI, entendo que posso contribuir com a comissão relembrando alguns episódios e contando outros novos que ocorreram nos corredores do Palácio do Planalto, mais precisamente com assessores do então ministro da Casa Civil, José Dirceu. Citarei ilegalidades, mentiras e curiosidades explícitas que pontuam a trajetória da jogatina no Brasil. Antes, um breve histórico: o cassino Flamingo, construído em Las Vegas, deserto dos Estados Unidos, operou sempre como um dos principais tentáculos da máfia americana. No Brasil, outra máfia, a italiana, encontrou espaço para agir e subsistir por meio da construção das casas de bingo e exploração das máquinas de caça-níqueis. Mudaram os estabelecimentos e as “diversões”. Mas a estratégia criminosa continua a mesma. A máfia e seus integrantes encontraram respaldo legal na iniciativa do então deputado Onaireves Nilo Rolim de Moura, que idealizou e concretizou a possibilidade de os bingos contribuírem para o esporte com doa12


ções de parte do que arrecadam. Rapidamente, os donos de bingos trataram de associar as doações a insignificantes federações e associações esportivas pouco representativas, com algumas exceções. Desconfiando do destino do dinheiro, Pelé, então ministro do Esporte, investiu contra a legalidade do negócio e acabou vencido pela “bancada da bola”, capitaneada pelo deputado Eurico Miranda. Um fato instigante: homens conhecidos da opinião pública brasileira e que, comprovadamente, estão envolvidos com a lavagem de dinheiro por meio da jogatina, continuam livres e desimpedidos de exercerem suas cidadanias. Exemplos: Carlinhos Cachoeira (RJ), envolvido no escândalo Waldomiro Diniz, e o “folclórico” Ivo Noal (SP), preso várias vezes como um dos cabeças do jogo do bicho e proprietário de várias casas de bingo espalhadas pelo estado de São Paulo. Menos sorte tiveram o “comendador” Arcanjo (MT) e José Carlos Gratz (ES), ambos presos por lavagem de dinheiro por meio de casas de jogatina, inclusive bingos. Uma mentira: a Abrabin (Associação Brasileira dos Bingos) alega que o setor emprega 120 mil funcionários e cria, indiretamente, mais de 200 mil empregos. De acordo com o Ministério Público Federal de Brasília, os 395 bingos registrados na Caixa Econômica Federal empregavam, até 2004, 7.698 pessoas. Ocorre que a Abrabin explora indevidamente, inclusive em propagandas na mídia nacional, o número irreal de geração de empregos para justificar perante a opinião pública e as autoridades a existência dos bingos e das malditas máquinas caça-níqueis. Uma curiosidade: durante quatro anos de intenso combate à jogatina, vivi uma experiência única nos bastidores do Poder Federal. Como integrante da Comissão Nacional de Combate ao Jogo de Bingo, no dia 2 de fevereiro de 2004, reuni meus colegas promotores de Justiça e procuradores da República, também membros da comissão, para audiência com o então ministro da Casa Civil, José Dirceu. Qual não foi nosso espanto quando, ao chegarmos ao andar do gabinete, muito próximo da sala do presidente Lula, fomos encaminhados até a sala de um dos assessores do ministro, que mantinha o mesmo status do corrupto Waldomiro Diniz. 13


Era o sinal de que precisávamos para nos certificarmos que a nossa visita não passaria de um encontro formal. Fomos recebidos pelo assessor Johaness Eck, que nos ouviu durante duas horas, fez de conta que estava interessado pelo tema e recebeu extensa documentação que comprova a ilegalidade dos bingos. Por último, prometeu providências imediatas e que jamais foram tomadas. O descaso com o assunto nos leva a concluir que o governo federal não teve qualquer interesse em se aprofundar no combate à jogatina e seu rastro de corrupção e lavagem de dinheiro. Uma verdade: até que a CPI investigue visceralmente os bingos e suas conexões, assistiremos a centenas de casas de jogos ludibriando apostadores, levando famílias à falência e até provocando o suicídio de pais de família que perderam tudo e não suportaram a humilhação diante da mulher e dos filhos. Não tenho orgulho ao dizer que apenas no meu Estado, o Paraná, todas as casas de bingos foram e permanecem fechadas. Talvez a principal missão da CPI dos Bingos seja multiplicar a nossa iniciativa! Luiz Fernando Delazari, 34, integrante da Comissão Nacional de Combate ao Jogo de Bingo, é secretário de Segurança Pública do Paraná. Agência Estadual de Notícias - 19/09/2005

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Email que cita o trabalho da Larami concluĂ­do

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Email da maquiagem contรกbil da Larami

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Email que cita encontro com o governador Beto Richa

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Email pedindo registro dos livros contรกbeis

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Email sobre levantamento de custos para pagamento do contador

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Discurso no plenário do Senado no dia 19 de abril de 2012 O SR. ROBERTO REQUIÃO (Bloco/PMDB – PR. Para uma comunicação inadiável. Sem revisão do orador.) – Presidente Moka, há um ou dois dias, o Senador Pedro Taques me chamou a atenção para uma matéria publicada num jornal de Goiás... De Cuiabá, corrige-me o Senador, e, hoje, o jornalista André, da Gazeta do Povo, do Paraná, leva-me alguns documentos com o mesmo teor. Que documentos são esses, Senador Moka? São interceptações da Polícia Federal em e-mails do grupo do Cachoeira. Notadamente, um e-mail do Coppola, dono de uma empresa chamada Larami, que operava o jogo no Paraná, inclusive, se não em engano, se a memória não me falha, um tal de Totobola, e queria operar também a loteria do Estado e, paralelamente a isso tudo, o bingo, o bicho e tudo o mais. Esse Sr. Cachoeira manda um e-mail, o Sr. Coppola manda um e-mail para o cunhado do Cachoeira, Afrísio, nos seguintes termos: “Ainda bem que aquele Governador Roberto Requião saiu do Estado do Paraná”. E junto ao meu nome palavrões em espanhol, pesados palavrões. Mas ele, imediatamente, mostra a sua alegria: “No entanto, fomos recebidos pelo novo governador eleito e a reunião foi muito boa”. Cinco dias depois da posse, então, o novo governador eleito, que é o Sr. Beto Richa, Carlos Alberto Richa, recebe o Sr. Coppola. Em outros e-mails interceptados, verificamos que um dos assuntos da conversa deles, além da reabertura do bingo, do jogo, da licença absoluta com a contravenção, era, através de um contador especializado, calcular lucros cessantes desde o momento em que eu havia acabado com a jogatina e os bicheiros no Paraná. Fiquei impressionado: um governador eleito, cinco dias depois da posse, recebe o representante dos bicheiros, que imediatamente se reporta por e-mail para o cunhado do Cachoeira, il capo de tutti i capi do jogo clandestino no Brasil, das empreiteiras, da corrupção de homens públicos. Fiquei satisfeito porque fui tratado com palavrões por esses desclassificados, bandidos, que hoje são investigados pela CPI Mista do Senado e da Câmara Federal. 20

Mas eu, desde já, deixo aqui a minha reivindicação para esses glo-


riosos parlamentares que vão investigar a CPI, porque não quero acreditar, Senador Moka, no que a imprensa anda dizendo: que esta CPI tem que estar controlada pelo Governo. Não no Governo da nossa Presidente Dilma. Não acredito nisso. CPI é para investigar fundo, para cortar na carne se preciso. CPI tem de responder ao anseio do País, para revelar a imoralidade e extirpá-la do Brasil. Mas deixo aqui a recomendação: vamos rapidamente convocar o Sr. Coppola, o tal do Afrísio e o Sr. Governador Beto Richa para que ele diga o que foi tão bom nesta conversa cinco dias depois da sua eleição com os capi do bicho e da corrupção no Brasil. É uma recomendação extraordinariamente interessante que faço aos condutores da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito. Mas assim foi e assim será no Paraná, porque o grupo que está no governo hoje, depois da moralização que fizemos no nosso governo, é o mesmo grupo que liberou o bicho. Havia uma resolução da Casa Civil autorizando o jogo. E, depois dessa resolução, um contrato com a loteria do Estado. Eu anulei a resolução e rompi o contrato. E eles agora querem indenização por lucros cessantes. É o Governo do Carlos Alberto Richa ou, se não for assim, que venha o Governador na CPI explicar que espécie de encontro se dá cinco dias depois de sua posse. Está clara a urgência desta minha comunicação. Que se instale Comissão Parlamentar Mista de Inquérito e que, rapidamente, venha o tal do Beto Richa, Governador do Paraná, explicar essa intimidade e esses encontros de tão bom resultado com o bicho e os corruptores no Brasil. Obrigado pelo tempo e pela oportunidade que eu tive de falar ao Brasil e ao Paraná sobre a verdadeira natureza do Governo que me sucedeu. 21


Discurso no plenário do Senado no dia 20 de abril de 2012 O SR. ROBERTO REQUIÃO (Bloco/PMDB – PR. Pronuncia o seguinte discurso) – Senador Mozarildo, enquanto o nosso Valdir Raupp se organiza, eu aproveito para conversar um pouco sobre este escândalo do Cachoeira e as suas repercussões no Estado do Paraná. Tenho um verdadeiro horror ao jogo, ao bingo e aos cassinos. Não exatamente ao jogo ou ao bingo numa igreja ou numa associação comunitária, para construção de uma creche, para uma obra social. Mas o jogo organizado, o bingo, essas loterias servem, ao fim e ao cabo, para lavagem de dinheiro do crime organizado, do narcotráfico, do roubo de carros, do tráfico de armas. As quadrilhas lavam o dinheiro no jogo. Vejam como funciona. Um bingo fatura, no fim do dia, R$50.000,00, mas seus organizadores dão entrada em R$1 milhão. Pagam o imposto, e esse R$1 milhão que saiu do crime organizado, que tem origem criminosa, depois de pago o imposto, é lavado. Esse dinheiro acaba mesmo sendo utilizado em atividades legais. Era aquela história da máfia nos Estados Unidos que organizava lavanderias – lavanderias mesmo, de lavar roupa – para dar entrada no dinheiro. Daí veio a expressão “lavagem de dinheiro”. No Brasil, até empreiteiras são organizadas com o dinheiro do crime organizado lavado no jogo. No Paraná, eu combati essa prática com muita força, com muita decisão. Foi um jogo muito duro. À época, a imprensa do Paraná inteira me agredia. Eles diziam: “O jogo vai dar empregos, vai dar dinheiro para as práticas sociais do programa de voluntariado do Estado” e coisas tais.

Foi uma parada dura e acabei com o jogo no Paraná.

O Cachoeira andava por lá, Senador Raupp; andava por lá. Ele era sócio de uma tal de Larami, que operava a loteria do Estado do Paraná no governo do Lerner, que me antecedeu. Consta, inclusive, que o Secretário de Governo do Lerner era, clandestinamente, dono de bingos e, à noite, tomava 22


as contas do faturamento de cada um dos seus estabelecimentos. Foi um jogo duro; foi um jogo pesado. E essa Larami operava a loteria do Estado e, se não engano, um tal de Totobola, que era um sorteio pela Internet. No final de meu mandato anterior como senador, antes de assumir novamente o Governo do Paraná, em certo dia, recebo um telefonema de um outro Senador. Ele me disse que estava com um amigo e gostaria de me fazer uma visita. Ora, o Senador era companheiro de bancada, por que não o receberia? E esse Senador foi ao meu gabinete e me apresentou um sujeito: “Olha, estou aqui com um empresário do jogo, o Sr. Carlos Cachoeira”. E eu disse ao Senador: “Se você tivesse me dito com quem viria, eu não o teria recebido. Mas, uma vez que já está aqui, quero agradecer o fato de ter vindo”. Ele me perguntou espantando: “Mas por que agradecer?” Respondi: “Porque eu gosto de olhar nos olhos e na cara dos tipos que quero pôr na cadeia, e quero, Sr. Carlos Cachoeira, vê-lo preso!” Isso foi testemunhado, inclusive, por alguns deputados estaduais do Paraná, que estavam no meu gabinete. Eu toquei esse sujeito do meu gabinete. Eu era Senador de primeiro mandato. E, agora, de repente, não mais que de repente, vejo documentos da Polícia Federal, revelando a troca de mensagens entre um tal de Roberto Coppola, que se dirige a um tal de Aprígio, que é cunhado do Carlos Cachoeira, tramando uma ação contra o Estado do Paraná por lucros cessantes. Tramam agora, no Governo do Carlos Alberto Richa, do PSDB, uma ação contra o Paraná, porque eu acabei com o jogo no estado e eles querem ser indenizados porque eu acabei com a jogatina. Nas mensagens interceptadas pela Polícia Federal, eles me agride com palavrões pesados: “Ainda bem que saiu esse Governador Roberto Requião, filho disso, filho daquilo.....” E se referem com carinho, quase, ao Governador atual. “O nosso encontro com o atual governador foi muito bom”. E esse encontro, pela data dos e-mails capturados pela Polícia Federal, deu-se cinco dias depois da eleição de Beto Richa, o que nos possibilitaria fazer ilações muito interessantes a respeito da reinvestida do jogo na campanha eleitoral e no governo do Paraná. Mas vamos conversar sobre isso na CPI. Certamente, o Sr. Beto Richa será chamado a vir à CPI para uma acareação com o tal Roberto Coppola, dono da Larami, a fim de explicar 23


que tipo de entendimentos estava fazendo e por que um governador, a cinco dias não da posse, mas da eleição, recebe o representante do jogo organizado e da corrupção de políticos no nosso País. Sem dúvida, isso vai ser muito interessante. Mas aonde quero chegar com essa oportunidade que o Senador Mozarildo me dá? Eu pisei o rabo do gato, divulgando para o Brasil todo, pela Internet e aqui da tribuna, com a força da TV Senado, os e-mails capturados pela Polícia Federal, que já são públicos. Um jornal de Goiás publicou e a Gazeta do Povo do Paraná publicou também os desaforos e as agressões a mim e o elogio ao governador atual do Paraná. Pisei o rabo do gato, mas o bichano está miando por várias bocas. O Secretário da Fazenda do Paraná, o ex-Deputado Luiz Carlos Hauly, hoje põe no Twitter: “O Sr. Requião teria também recebido bicheiros no Palácio Iguaçu”. Mentira! A pior figura, Senador Mozarildo, que eu recebi no Palácio Iguaçu foi o Deputado Luiz Carlos Hauly, se assim vocês considerarem. E o Deputado Francischini disse: “Vou convocar o Governador Requião na CPI para explicar o que ele...” Francischini, com essa pose de moralista? Parece o Demóstenes da Câmara Federal esse Francisquini. Então, o gato está miando por bocas diversas. E sempre é assim: você pisa o rabo do gato, e o gato mia pelas bocas que ele comanda. Lembro-me, Senador Raupp, da CPI dos Títulos Públicos, da qual fui Relator no Congresso. Peguei pesado. Mostrei os governadores que tinham metido a mão em dinheiro público, os malfeitos, a corrupção, a safadeza. Quem é que me agrediu? A IstoÉ e a Veja. Imediatamente, inventaram uma história de que a minha mulher tinha mandado dinheiro para os Estados Unidos. É claro que tinha mandado! Declarou no Imposto de Renda um apartamento do pai dela que havia sido vendido e mandou o dinheiro para a irmã através de uma casa de câmbio legalmente estabelecida e registrada no Banco Central. Mandei à Veja essa documentação toda. Nunca houve correção, Senador Mozarildo. 24


Então, faço um apelo aos meus amigos e às pessoas que, no Brasil, no meu Paraná e na minha Curitiba, se interessam por política: pisei o rabo do gato, vejam por que bocas o gato mia. Da boca que sai o miado, vocês encontrarão a responsabilidade e a vinculação com o crime organizado. O jogo em si não é um problema. A lavagem de dinheiro é um problema. O problema do jogo, por exemplo, está no vício, nos aposentados que jogam as suas pensões, a sua possibilidade de sobrevivência numa máquina, num cassino, mas fundamentalmente ele é um crime no mundo inteiro. Eu conheci, em Atlantic City, nos Estados Unidos, alguns cassinos. Fui dar uma olhada lá. O que descobri? Que a legislação americana grava pesadamente de impostos o lucro dos cassinos. Então, como eles funcionam? Eles fazem um hotel paralelo, que não está vinculado à razão social do cassino, e simulam o pagamento pelo cassino da hospedagem dos jogadores. Então, chega um jogador no qual eles têm interesse – e é evidente que eles têm interesse em todos os jogadores que chegam lá – e eles dizem que o hotel está pagando US$4 mil a diária num quarto de luxo. Como o hotel não tem a gravação de impostos que tem um cassino, então o hotel apresenta lucro e não é gravado pelos impostos, enquanto o cassino diminui o seu lucro para não pagar impostos. É um trambique no mundo inteiro. Eu espero que, no Brasil, nunca se estabeleça essa ilusão. E não quero dizer que toda pessoa que acredita na possibilidade de legalização do jogo esteja vinculada ao crime organizado. Tem muita gente que se ilude com essa fantasia dos desdobramentos positivos econômicos de um cassino. Esse Senador, por exemplo, que levou o Cachoeira ao meu gabinete, acreditava na legalização do jogo. Nunca vi vinculação dele com algum malfeito na República, mas ele foi o veículo que levou o bandido ao meu gabinete e eu tive e oportunidade de dizer-lhe na cara: “Quero lhe ver na cadeia! Saia daqui!” Minha gente, pisei o rabo do gato! Observem agora, vocês que se interessam pela corrupção na política, as bocas pelas quais o gato mia. Revistas, jornais, parlamentares, radialistas, apresentadores de televisão, canais de televisão por este Brasil inteiro. Está aí a rede de influência da corrupção, do crime e do jogo organizado no nosso Brasil. 25


“Cachoeira rides again”

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Revista Época - Maio 2012

Negócios que não param de jorrar O bicheiro Carlinhos Cachoeira tinha outra empreiteira para fazer negócios e procurava oportunidades de explorar jogos em Mato Grosso e no Paraná ANDREI MEIRELES, MURILO RAMOS E LEONEL ROCHA

Todos sabem que o bicheiro Carlos Augusto de Almeida Ramos, o Carlinhos Cachoeira, começou a vida no ramo de jogos ilegais. Com a ajuda de políticos e policiais e o uso de recursos do submundo, Cachoeira se tornou um homem próspero, com negócios nos ramos farmacêutico e da construção civil. Seu braço nessa área era a construtora Delta. A extensa investigação da Polícia Federal na Operação Monte Carlo mostra, à exaustão, quanto Cachoeira se empenhava para conseguir negócios para a empreiteira. Mas, como bom empresário, Cachoeira procurava diversificar seus negócios. Cachoeira usou a Construtora Rio Tocantins (CRT) para fazer negócios em Mato Grosso e em outros Estados da região. Assim como aconteceu com a Delta, os negócios da CRT ex-pandiram-se consideravelmente nos últimos anos. 27


A história da CRT se parece muito com a da Delta. No caso da Delta, o elo inicial de Cachoeira era o diretor da empresa para o Centro-Oeste, Cláudio Abreu. Os dois são sócios em outras empresas. Nos bastidores, Cachoeira trabalhava pela Delta. A CRT está registrada em nome do empresário Rossine Aires Guimarães. Fazendeiro no Tocantins, dono de um rebanho estimado em cerca de 80 mil cabeças de gado, Rossine é um homem discreto. De acordo com a investigação da Polícia Federal, Rossine é sócio de Cachoeira e de Cláudio Abreu em outras empresas e empreendimentos no Tocantins, no Distrito Federal e em Mato Grosso. Em conversas gravadas pela PF, Carlinhos Cachoeira afirma que usará a CRT como alternativa à Delta em negócios com administrações públicas. Até 2010, a CRT não tinha nenhum contrato com o governo de Mato Grosso. Depois da posse do governador Silval Barbosa (PMDB), a CRT melhorou de vida. Primeiro foi contratada, sem licitação, para executar serviços emergenciais numa rodovia estadual não pavimentada. Em agosto do ano passado, a empreiteira conseguiu um contrato para alugar 900 carros para o governo de Mato Grosso por um ano, por R$ 70 milhões. O governo de Mato Grosso diz que o contrato foi cancelado depois que o escândalo Cachoeira eclodiu. 28


A CRT foi contratada pelo governo de Mato Grosso por meio de um instrumento burocrático chamado de Ata de Registro de Preços. Funciona assim: a empresa participa de uma concorrência pública para ser a dona da ata. Mas, depois, tudo fica menos burocrático. Com a ata, a empresa pode ser contratada, sem concorrência, por qualquer órgão público em todo o país. Além de ter a turma de Cachoeira por trás, a estratégia da CRT é semelhante à seguida pela Delta. ÉPOCA revelou, na semana passada, que a Delta obteve três contratos para aluguel de carros para o mesmo governo de Mato Grosso. Os compromissos somam cerca de R$ 20 milhões. Nesse caso, nem houve concorrência. Para isso, o governo de Mato Grosso aderiu a uma ata, obtida pela Delta em 2009 com o governo de Goiás, onde Cachoeira era forte. Em abril, a Secretaria de Segurança Pública de Goiás elevou o pagamento anual para aluguel dos carros de R$ 37,5 milhões para R$ 49 milhões e aumentou o prazo por mais um ano. Os bastidores desse negócio estão num diálogo gravado pela Polícia Federal e obtido por ÉPOCA. Em 16 de abril de 2011, Cachoeira conta a Cláudio Abreu que o procurador Ronald Bicca lhe dissera que impediu o secretário de Segurança de promover uma licitação para a compra de carros. Cachoeira e Abreu comemoram a decisão. Ela beneficiou a Delta, que continuou a alugar os carros para a frota da Secretaria de Segurança. Um mês depois dessa conversa, a Delta Construção pediu – e conseguiu – o reajuste dos preços. O aval para o reajuste, o valor e a prorrogação do contrato por um ano foram definidos por Ronald Bicca, então procurador-geral 29


de Goiás. Bicca foi afastado do cargo depois de ser citado em conversas gravadas entre Cachoeira e o senador Demóstenes Torres. Demóstenes ficou conhecido no Senado pelos jantares regados a bons vinhos. ÉPOCA já mostrou gravações da Polícia Federal em que Demóstenes e Cachoeira trocavam impressões e conhecimentos sobre vinhos. De acordo com políticos, num desses jantares na casa de Demóstenes, no ano passado, o governador de Mato Grosso, Silval Barbosa, encontrou Cláudio Abreu. A aproximação fazia sentido. Escutas telefônicas mostram que, entre os interesses da turma de Cachoeira em Mato Grosso, estava o controle da Loteria Estadual (Lemat), fechada desde o final da década de 1980. Em outubro do ano passado, Barbosa assinou um decreto para reativar a loteria. Em dezembro, a Assembleia Legislativa de Mato Grosso aprovou uma emenda que autoriza a exploração da loteria por empresas privadas. O autor da proposta foi o presidente da Assembleia, deputado José Geraldo Riva (PSD), um político envolvido em vários escândalos, que responde a mais de 100 processos por improbidade administrativa. Estava marcada para a semana passada a audiência pública sobre a loteria. Com a Operação Monte Carlo, o governador Silval Barbosa suspendeu a audiência. Desde o final de março, ÉPOCA tenta obter respostas de Barbosa, sobre a proximidade de sua administração com a turma de Cachoeira. Na semana passada, Barbosa se limitou a dizer que nunca esteve com Cachoeira.

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Mais de 10 mil dias seguidos seriam necessários para uma pessoa ouvir todos os diálogos captados pela Polícia Federal na Operação Monte Carlo. Poucas horas de atenção aos áudios seriam necessárias para essa mesma pessoa perceber que o sucesso da quadrilha dependia da colaboração de servidores públicos e políticos. Na semana passada, em sessão secre30


ta da CPMI do Cachoeira, no Senado, o delegado federal Matheus Mella Rodrigues, responsável pela Monte Carlo, listou 81 pessoas, muitas delas políticos, que mantinham contatos com integrantes da organização criminosa ou seriam cortejados por eles. Entre os listados está o governador do Paraná, Beto Richa (PSDB). Em 23 de agosto de 2011, Lenine Araújo, um dos principais colaboradores de Cachoeira, e Miguel Marrula (DEM), ex-vereador de Anápolis, em Goiás, falam da pretensão de Cachoeira de expandir sua atuação no Paraná. “Meu primo é muito… do vice-

-governador de lá, sabe? E quer levar o Carlinhos Cachoeira para conhecer o Beto Richa, lá, e a gente pode aproveitar alguma coisa nisso, você concorda?”, diz Marrula a Araújo. “Ele (Richa) é da família nossa. Você pensa num caboclo que gosta de um jogo...”* Durante audiência na CPI, ficou claro que o primo a quem Marrula se refere é Amin Hannouche (PP), prefeito de Cornélio Procópio, no Paraná. Amin tem pretensões de ser o candidato a vice-governador de Beto Richa na eleição de 2014.

Marrula diz que, apesar de pequeno, o grupo ligado ao primo é forte.

“Está com a faca e o queijo na mão porque o pessoal de lá, o secretário de Segurança, nós que colocamos…é gente da minha casa. É gente do meu primo”*, afirma. O

secretário de Segurança do Paraná, Reinaldo Almeida César Sobrinho, seria o personagem da conversa entre Marrula e Araújo. Sobrinho foi presidente da Associação de Delegados Federais e assessor do presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP). O delegado Sobrinho afirmou a ÉPOCA que não conhece Marrula nem Cachoeira. Disse, ainda, que conheceu o prefeito de Cornélio Procópio meses depois de ter assumido a Secretaria de Segurança e nega interferência dele em sua nomeação. Ao jornal Gazeta do Povo, Amin confirmou ser primo de Miguel Marrula, mas negou relações com Cachoeira. 31


Antes mesmo da Operação Monte Carlo, a cúpula da Segurança Pública no Paraná já fora atingida por suspeitas de relações com jogo ilegal. Em novembro do ano passado, o então comandante da Polícia Militar no Estado, Marcos Scheremetta, foi afastado depois de dizer que conversava com os chefões do jogo do bicho no Estado. Scheremetta disse que seu pai, que já morreu, costumava trabalhar com o jogo ilegal. Scheremetta afirmou também que nunca escondeu essas informações do governador e do secretário de Segurança. Na semana passada, a CPI do Cachoeira fez duas sessões fechadas. Foram ouvidos os delegados federais Raul Alexandre Marques de Souza e Mateus Mella Rodrigues, encarregados das operações Vegas e Monte Carlo, respectivamente. O delegado Souza disse que, ao deparar com autoridades com direito a foro privilegiado nas investigações da Vegas – um deles o senador Demóstenes Torres –, enviou tudo ao procurador-geral da República, Roberto Gurgel, em 2009. Segundo Raul, ao longo dos meses seguintes, Gurgel não pediu nenhum novo procedimento. A investigação ficou parada por mais de um ano, até fevereiro, quando a PF deflagrou a Operação Monte Carlo, e o envolvimento de Demóstenes com Cachoeira se tornou público. Parlamentares do PT defenderam a convocação de 32


Gurgel para explicar seu procedimento. “Se o procurador tivesse cumprido sua obrigação, o Demóstenes Torres não seria senador e, provavelmente, o Marconi Perillo (PSDB) não seria governador de Goiás”, disse o deputado Cândido Vaccarezza (PT-SP). “Não creio que a motivação tenha sido política. Mas não há dúvida de que ele deve explicações.” No mesmo dia, Gurgel reagiu. Numa atitude incomum, ele atribuiu a fala de Vaccarezza e de outros à proximidade do julgamento do mensalão no Supremo Tribunal Federal (STF). “São críticas de pessoas que estão morrendo de medo do julgamento do mensalão”, disse Gurgel. Ex-líder do governo na Câmara, Vaccarezza é ligado ao ex-ministro José Dirceu (PT), um dos oito petistas entre os 36 réus no julgamento. No mês passado, o presidente do PT, Rui Falcão, falou publicamente na ideia de usar a CPI para ofuscar o julgamento do mensalão. O PT atribui a Cachoeira a distribuição do vídeo que gerou a denúncia do mensalão pelo então presidente do PTB, o ex-deputado Roberto Jefferson. Expor Cachoeira e suas relações com a oposição seria uma boa alternativa para o PT equilibrar o desgaste produzido pelo julgamento. PSDB e DEM querem evitar a convocação de Gurgel, que também foi defendido por ministros do STF. Na semana passada, os controladores da Delta, a empreiteira preferida de Carlinhos Cachoeira, fecharam uma incomum operação financeira. Pelo acordo, a J&F Participações, controladora do frigorífico JBS, pode comprar a Delta sem gastar dinheiro. Só pagará ao proprietário, Fernando Cavendish, se receber pelas obras em execução. A Delta tem R$ 900 milhões a receber do governo. O presidente do Conselho de Administração da J&F é o ex-presidente do Banco Central Henrique Meirelles. O frigorífico JBS, principal empreendimento da J&F, se tornou um dos maiores do mundo em seu setor com uma força do governo. Desde 2007, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) injetou cerca de R$ 8 bilhões no JBS. O banco tem cerca de 30% das ações da empresa. Capitalizada com dinheiro público em seu principal braço, a J&F pode adquirir a Delta, uma empresa acusada de participar de desvios de dinheiro público. “Imagina que o doutor Henrique Meirelles vai fazer um negócio que o governo não quer!”, disse o empresário José Batista Júnior, um dos sócios da J&F. Como Cachoeira, Júnior é de Anápolis, Goiás. Ele não só quer investir em construção civil, como pretende ser candidato a governador de Goiás em 2014. Revista Época

*Os destaques são dos autores deste livreto

http://revistaepoca.globo.com/tempo/noticia/2012/05/negocios-que-nao-param-de-jorrar.html

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FALE COM O GABINETE Senado Federal Ala Senador Teotônio Vilela, Gab. 18 Telefones: (61) 3303-6623/6624 Fax: (61) 3303-6628 E-mail: roberto.requiao@senador.gov.br Site: www.robertorequiao.com.br Twitter: @requiaopmdb

Pesquisa: Carolina Cattani Projeto gráfico: André Rodrigues



Como Requião acabou com o jogo no Paraná. O caso Cachoeira