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Biodiversidade da

Costa Esmeralda Um Patrim么nio Natural


Maurício Eduardo Graipel Carolina Mallmann Erbes Erica Naomi Saito Felipe Moreli Fantacini ORGANIZADORES

Biodiversidade da

Costa Esmeralda Um patrimônio natural

1ª edição

Florianópolis

2013


EDIÇÃO Simbiosis Empresa Júnior de Ciências Biológicas REVISÃO Dr. Paulo Roberto Petersen Hofmann Universidade Federal de Santa Catarina EDITORA Officio CAPA Eduardo Luiz de Faria, Isadora Bernardo Cardoso, Mariangela de Oliveira, Roberto Gava Colombo FOTO PRINCIPAL DA CAPA Flávio Steigleder Martins TRATAMENTO DE IMAGENS, PROJETO GRÁFICO, DIAGRAMAÇÃO Uipi Empresa Júnior de Design da UFSC - Isadora Bernardo Cardoso, Mariangela de Oliveira, Roberto Gava Colombo IMPRESSÃO Gráfica Agnus

Catalogação na Fonte pela Biblioteca Universitária da Universidade Federal de Santa Catarina

B615 Biodiversidade da Costa Esmeralda: Um patrimônio natural / Maurício Eduardo Graipel...[et al.] organizadores. – 1. ed. - Florianópolis : Simbiosis, 2013. 144 p. : il. Inclui bibliografia. 1. Diversidade biológica – Conservação – Santa Catarina. I. Graipel, Maurício Eduardo. CDU: 577.4

ISBN :978-85-66582-02-4


Agradecimento

Este livro só foi possível graças ao trabalho e esforço de muitas pessoas. Por isso, temos muito a agradecer: às equipes de levantamento de fauna, flora e vegetação, que passaram dias e noites em campo, ora sob chuva intensa, ora sob sol escaldante, após horas e horas de coleta de dados que foram fundamentais para a elaboração dos diagnósticos; a quem foi além, e elaborou os textos para os capítulos desse livro, trazendo as informações em uma linguagem menos técnica e mais acessível; a quem contribuiu com fotos, sendo algumas tiradas na região e outras de acervo pessoal; aos moradores e barqueiros da região da Costa Esmeralda, que apoiaram os pesquisadores em diversas oportunidades; aos proprietários e caseiros de áreas dentro das Unidades de Conservação; ao Eduardo Luiz de Faria, da Officio, pelo apoio para a elaboração deste livro; à equipe da Pousada do Francês e da Pousada de Zimbros, em Bombinhas; às prefeituras de Itapema, Porto Belo e Bombinhas, e respectivas fundações municipais, FAACI (Fundação Ambiental Área Costeira de Itapema), FAMAP (Fundação Municipal do Meio Ambiente de Porto Belo) e FAMAB (Fundação Municipal de Amparo ao Meio Ambiente de Bombinhas), pelo apoio e infraestrutura disponibilizados ao longo dos trabalhos de campo, bem como à CPRUC (Comissão Permanente de Regulamen-

tação das Unidades de Conservação de Bombinhas); à FAPEU (Fundação de Amparo à Pesquisa e Extensão Universitária da UFSC), pela gestão financeira dos recursos; à Caipora, pela orientação na busca por informações a serem levantadas através dos diagnósticos; ao GEABio (Grupo de Educação e Estudos Ambientais da UFSC), pelo trabalho de educação ambiental e de divulgação das Unidades de Conservação e da biodiversidade junto às comunidades; ao NEAMB (Núcleo de Educação Ambiental do Centro Tecnológico da UFSC) e Instituto Çarakura, pelo apoio aos estudos realizados no município de Itapema, que resultaram na criação de uma nova Unidade de Conservação; e, à UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), por proporcionar a todos, mas em especial aos alunos, a oportunidade de colocar em prática sua missão: “produzir, sistematizar e socializar o saber filosófico, científico, artístico e tecnológico, ampliando e aprofundando a formação do ser humano para o exercício profissional, a reflexão crítica, solidariedade nacional e internacional, na perspectiva da construção de uma sociedade justa e democrática e na defesa da qualidade de vida”. Esperamos que este livro de divulgação científica possa servir como retorno às comunidades da região e também aos envolvidos nos estudos realizados nas Unidades de Conservação.


Lista de autores/ Formação/ Vínculo

AMANDA CRUZ MENDES

CAUÊ TEIXEIRA

ANA LETÍCIA TRIVIA

DAIANE SOARES XAVIER DA ROSA

ANA PAULA CICHELLA BURIGO

DANIEL DOS SANTOS GOMES

ANDERSON ANTONIO BATISTA

DAYSE DIAS

ANDERSON ROSA

EDUARDO HERMES SILVA

Doutora em Zoologia UFRJ

Graduanda em Ciências Biológicas UFSC

Graduada em Engenharia de Aquicultura UFSC

Doutorando em Ecologia UFSC

Graduando em Ciências Biológicas UFSC

ANDERSON SANTOS DE MELLO Mestre em Biologia Vegetal UFSC

ANDRÉ AMBROZIO DE ASSIS Mestrando em Ecologia UFSC

ANELISE NUERNBERG DA SILVA

Graduanda em Ciências Biológicas UFSC

BIANCA PINTO VIEIRA

Mestranda em Ecologia Aplicada pela Universidade de Aveiro

CAMILA CLAUDINO DE OLIVEIRA

Graduanda em Ciências Biológicas UFSC

CAROLINA MALLMANN ERBES

Graduanda em Ciências Biológicas UFSC Simbiosis Empresa Júnior de Ciências Biológicas

CAROLINE ANGRI

Mestranda em Ecologia UFSC

CAROLINE BATISTIM OSWALD

Procurador da Prefeitura de Bombinhas

Graduada em Ciências Biológicas UFSC

Graduando em Oceanografia UFSC

Graduanda em Ciências Biológicas UFSC

Mestre em Geografia UFSC Caipora Cooperativa para Conservação da Natureza

ERICA NAOMI SAITO

Mestre em Ecologia UFSC Caipora Cooperativa para Conservação da Natureza

FELIPE MORELI FANTACINI

Graduado em Ciências Biológicas UFSC

FLÁVIO STEIGLEDER MARTINS

Graduado em Ciências Biológicas PUCRS Presidente FAMAB-Prefeitura de Bombinhas

FRANCIELE DUTRA

Graduanda em Ciências Biológicas UFSC Simbiosis Empresa Júnior de Ciências Biológicas

GISELA COSTA RIBEIRO

Mestre em Zoologia UFPR Universidade Federal de Santa Catarina

GUILHERME WILLRICH

Graduado em Ciências Biológicas UFSC Caipora Cooperativa para Conservação da Natureza

IVO ROHLING GHIZONI JR.

Graduanda em Ciências Biológicas UFSC

Mestre em Ecologia INPA Caipora Cooperativa para Conservação da Natureza

CÁSSIO BATISTA MARCON

JAVIER TOSO

Mestrando em Agrossistemas UFSC

Graduado em Ciências Biológicas UFSC


JOSÉ OLIMPIO

Biólogo e Mestre em Geografia UFSC Socioambiental Consultores Associados Ltda

JUAN PABLO QUIMBAYO AGREDA Mestrando em Ecologia UFSC

JÚLIA FERRUA DOS SANTOS

Graduanda em Ciências Biológicas UFSC

LARISSA ZANETTE DA SILVA Mestranda em Ecologia UFSC

LAURA HELENA BENTO DACOL

Graduanda em Ciências Biológicas UFSC Simbiosis Empresa Júnior de Ciências Biológicas

LEANDRO MALTA BORGES

Graduando de Ciências Biológicas UFSM

LUCAS NUNES TEIXEIRA

Graduando em Engenharia de Aquicultura UFSC

LUCIA CURRLIN JAPP

MAYANA LACERDA LEAL

Graduanda em Ciências Biológicas UFSC Simbiosis Empresa Júnior de Ciências Biológicas

MIRIAM SANT’ANNA GHAZZI Doutora em Zoologia USP

RAFAEL GODOY

Graduando em Ciências Biológicas UFSC

RAFAEL PENEDO FERREIRA

Graduado em Ciências Biológicas UFSC

RAPHAEL ZULIANELLO ALVES

Graduando em Ciências Biológicas UFSC

RENATO MORAIS ARAUJO Mestrando em Ecologia UFSC

RONALDO DA SILVA

Pescador profissional LAPAD - UFSC

Mestre em Estatística e Métodos Quantitativos UnB RPPN Morro de Zimbros

SELVINO NECKEL DE OLIVEIRA

MALVA ISABEL MEDINA HERNÁNDEZ

SONIA BUCK

Doutora em Zoologia UNESP Universidade Federal de Santa Catarina

MARIAH WUERGES

Graduanda em Ciências Biológicas UFSC

MAURÍCIO EDUARDO GRAIPEL

Doutor em Biociências PUCRS Universidade Federal de Santa Catarina Caipora Cooperativa para Conservação da Natureza

Doutor em Ecologia INPA Universidade Federal de Santa Catarina

Doutora em Zoologia USP

TOBIAS SARAIVA KUNZ

Doutorando em Biologia Animal UFRGS Caipora Cooperativa para Conservação da Natureza

VÍTOR DE CARVALHO ROCHA Graduando em Ciências Biológicas UFSC


Sumário Costa Esmeralda: Unidades de Conservação Página 8

Vegetação e flora: A riqueza da Mata Atlântica entre as praias e as montanhas Página 16

Mamíferos: No mar, na terra ou no ar... Página 32

Aves: Os dinossauros da atualidade! Página 46

Anfíbios: Uma vida em dois mundos Página 58

Répteis: Conhecendo para desmistificar Página 72


Peixes de água doce: O mundo sob a água Página 84

Peixes recifais: Essenciais para a manutenção da vida nos ecossistemas marinhos Página 92

Aranhas: As arquitetas da natureza Página 106

Opiliões: Não somos aranha não! Página 114

Besouros rola-bosta: Os lixeiros da floresta Página 124

Borboletas frugívoras: Quem são elas? Página 134


Costa Esmeralda: Unidades de Conservação Autores Javier Toso

José Olimpio

Cauê Teixeira

Lucia Currlin Japp

Eduardo Hermes Silva

Maurício Eduardo Graipel

Flávio Steigleder Martins

Mayana Lacerda Leal

Franciele Dutra

As Unidades de Conservação (UCs) são porções do território onde, por suas características naturais relevantes, são aplicadas medidas de proteção aos ecossistemas naturais, sob um regime especial de administração.

lação e equilíbrio do ciclo hidrológico; purificação da água e do ar; controle da erosão; conforto térmico; perpetuação de bancos genéticos e fluxos gênicos das espécies; manutenção da paisagem e de áreas de recreação, lazer, educação e pesquisa científica.

Elas consistem, hoje, na principal estratégia para conservação e manutenção da diversidade biológica e dos recursos genéticos do país. Neste sentido, buscam proteger as espécies ameaçadas de extinção, preservar e restaurar a diversidade dos ecossistemas e promover a sustentabilidade no uso dos recursos naturais, entre outros objetivos.

Essas áreas podem ser criadas pelo poder público, em suas esferas Federal, Estadual e Municipal, ou mesmo por particulares, com a finalidade de preservar e conservar o meio ambiente, de forma a compatibilizar o desenvolvimento econômico-social e cultural com o uso racional dos recursos naturais.

As UCs também desempenham o papel de prestadoras de serviços ambientais, tais como: fixação de carbono e manutenção de seus estoques; regu-

Em 18 de julho de 2000, foi sancionada a Lei nº 9.985, com o objetivo de regulamentar o artigo 225 da Constituição Brasileira e instituir o Sistema

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Costa Esmeralda: Unidades de Conservação


Nacional de Unidades de Conservação da Natureza – SNUC. Regulamentado pelo Decreto nº 4.340, de 22 de agosto de 2002, é o instrumento legal que visa estabelecer critérios e normas

para a proteção da natureza no Brasil, especificamente através da criação, implantação e gestão das UCs. Os objetivos da Lei que instituiu o SNUC (artigo 4º) são:

I.

VIII. Proteger e recuperar recursos hídri-

Contribuir para a manutenção da di-

cos e edáficos;

versidade biológica e dos recursos genéticos, no território nacional e nas

IX. Recuperar ou restaurar ecossistemas degradados;

águas jurisdicionais; II.

Proteger as espécies ameaçadas de extinção, no âmbito regional e nacio-

X.

Proporcionar meios e incentivos para atividades de pesquisa científica, estudos e monitoramento ambiental;

nal; III. Contribuir para a preservação e a restauração da diversidade de ecossistemas naturais; IV. Promover o desenvolvimento sustentável, a partir dos recursos naturais; V. Promover a utilização dos princípios e práticas de conservação da natureza

XI. Valorizar econômica e socialmente a diversidade biológica; XII. Favorecer condições e promover a educação e interpretação ambiental, a recreação em contato com a natureza e o turismo ecológico; XIII. Proteger os recursos naturais neces-

no processo de desenvolvimento;

sários à subsistência de populações

VI. Proteger paisagens naturais e pouco alte-

tradicionais, respeitando e valorizando

radas de notável beleza cênica; VII. Proteger as características relevantes

seu conhecimento e sua cultura e promovendo-as social e economicamente.

de natureza geológica, geomorfológica, espeleológica, arqueológica, paleonto-

Foto: Renata Bassani

lógica e cultural;

O Refúgio de Vida Silvestre de Itapema abriga a maior Unidade de Conservação Municipal de Santa Catarina

Biodiversidade da Costa Esmeralda

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Foto: Lucia Currlin Japp

Mirante do Mar na RPPN Morro dos Zimbros - Vista para a baía e Ilha de Porto Belo.

Entre os critérios e normas estabelecidos, o SNUC busca organizar em categorias as áreas naturais protegidas, e definir os objetivos básicos de uso e conservação mais adequados para cada uma delas. Dessa forma, o SNUC (artigo 7º) reuniu as diversas categorias de manejo de UCs em dois grupos, um de proteção integral e outro de uso sustentável, de acordo com suas possibilidades de manejo: • Proteção integral, cujo objetivo básico é preservar a natureza, sendo admitido apenas o uso indireto dos seus recursos naturais. Compreende as seguintes categorias: Estação Ecológica, Reserva Biológica, Parque Nacional, Monumento Natural e Refúgio de Vida Silvestre; • Uso sustentável, cujo objetivo básico é compatibilizar a conservação da natureza com o uso sustentável de parcela de seus recursos naturais. Compreende as seguintes catego10

rias: Área de Proteção Ambiental (APA), Área de Relevante Interesse Ecológico (ARIE), Floresta Nacional (FLONA), Reserva Extrativista (RESEX), Reserva de Fauna (REFAU), Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) e Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN). Além destas, podem existir outras denominações, que estão relacionadas à criação das UCs antes da implementação do SNUC, que deverão passar por uma reavaliação para inclusão em uma das categorias definidas. Porém, independente da categoria de manejo e da esfera governamental responsável, a participação efetiva da sociedade na criação, implantação e gestão das UCs brasileiras é um requisito fundamental, defendido pelas diretrizes que regem o SNUC, e com instrumentos formalmente previstos (conselhos consultivos e deliberativos, gestão compartilhada com OrganizaCosta Esmeralda: Unidades de Conservação


Foto: Renata Bassani

Em primeiro plano, observa-se Ilha do Macuco e ao fundo o Parque Natural Municipal Morro do Macaco e os morros da ARIE da Costeira de Zimbros.

ções da Sociedade Civil de Interesse Público - OSCIP, concessões de serviço, etc.). A conservação de ecossistemas e a manutenção de serviços ambientais de caráter e abrangência local assumem também um papel fundamental de contribuição na política nacional de UCs. Neste sentido, a implementação de UCs municipais, com ampla e efetiva participação da sociedade, representa uma estratégia muito significativa, mesmo considerando as diferenças de escala relacionadas ao tamanho dos territórios das áreas protegidas individualmente entre as diferentes esferas. Na região da Costa Esmeralda, que inclui os municípios de Itapema, Porto Belo e Bombinhas, localizados na região centro-leste do estado de Santa Catarina, foram definidas, pelo Ministério do Meio Ambiente, áreas de “alta prioridade” e de “extremamente alta prioridade”, para que seja assegurada a biodiversidade destes locais. Na maioria dessas áreas, Biodiversidade da Costa Esmeralda

foram criadas UCs, existindo hoje três UCs de proteção integral e três UCs de uso sustentável. As UCs de proteção integração são: o Refúgio de Vida Silvestre de Itapema, com 2.602 ha, o Parque Natural Municipal da Galheta, com 132 ha; e o Parque Natural Municipal do Morro do Macaco, com 267 ha; e as UCs de uso sustentável são: a APA da Ponta do Araçá, com aproximadamente 140 ha; a ARIE da Costeira de Zimbros com aproximadamente 1000 ha, e a RPPN Morro dos Zimbros com aproximadamente 50 ha. Vale destacar que existem áreas em estudo para criação de novas UCs nos três municípios. Ao contrário do que alguns setores da sociedade imaginam, as UCs não constituem espaços protegidos “intocáveis”, apartados de qualquer atividade humana, como as definições de algumas categorias sugerem. Elas fornecem direta e/ou indiretamente bens e serviços que satisfazem vá11


Foto: Lucia Currlin Japp

Costão da Praia do Caixa d’Aço na APA do Araçá em Porto Belo.

rias necessidades da sociedade brasileira, inclusive produtivas. No entanto, por se tratarem de produtos e serviços, em geral de natureza pública, prestados de forma difusa, seu valor não é percebido pelos usuários, que, na maior parte dos casos, não pagam diretamente pelo seu consumo ou uso. Em outras palavras, o papel das UCs é facilmente “internalizado” na economia nacional. Essa questão decorre, ao menos em parte, da falta de informações que esclareçam a sociedade sobre seu papel no provimento de bens e serviços que contribuem para o desenvolvimento econômico e social do país. Um exemplo: o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), estima que a visitação nos 67 Parques Nacionais existentes no Brasil tem potencial para gerar entre R$ 1,6 bilhão e R$ 1,8 bilhão por ano, considerando as estimativas de fluxo de turistas proje-

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tadas para o país (cerca de 13,7 milhões de pessoas, entre brasileiros e estrangeiros) até 2016, ano das Olimpíadas. No que tange aos diferentes usos da água pela sociedade, 80% da hidroeletricidade do país vem de fontes geradoras que têm pelo menos um tributário a jusante de uma UC; 9% da água para consumo humano é diretamente captada em UCs e 26% é captada em fontes a jusante de UCs; 4% da água utilizada em agricultura e irrigação é captada de fontes dentro ou a jusante de uma UC. Em bacias hidrográficas e mananciais com maior cobertura florestal, o custo do tratamento da água destinada ao abastecimento público é muito menor que o custo de tratamento em mananciais com baixa cobertura florestal. Em 2009, a receita real de ICMS Ecológico (Imposto sobre Circulação de

Costa Esmeralda: Unidades de Conservação


Mercadorias e Prestação de Serviços) repassada aos municípios pela existência de UCs em seus territórios foi de R$ 402,7 milhões. A receita potencial para 12 estados que ainda não têm legislação de ICMS Ecológico, como é o caso de Santa Catarina, seria de R$ 14,9 milhões, considerando um percentual de 0,5% para o critério “Unidade de Conservação” no repasse a que os municípios fazem jus. Ou seja, obtemos uma grade quantidade de benefícios das UCs e, com a criação do ICMS Ecológico, as mesmas têm potencial para gerar muito mais.

da Ponta do Araçá e da ARIE da Costeira de Zimbros, e está em andamento o da RPPN Morro dos Zimbros. A partir dos resultados desses estudos, foram redefinidos os objetivos das UCs e as formas de gestão e planejamento, além de informações referentes a centenas de espécies da fauna e flora da região, incluindo diversas ameaçadas de extinção, endêmicas da Mata Atlântica, raras e até mesmo novas espécies para a ciência, além de algumas dezenas de novos registros de espécies de invertebrados para Santa Catarina e Sul do Brasil.

Porém para que isso ocorra é necessário criar as condições necessárias de planejamento e gestão. O SNUC determina a elaboração de Planos de Manejo como instrumentos fundamentais para que se atinjam os objetivos de criação das UCs.

Logicamente, a existência do Plano de Manejo não garante o cumprimento dos objetivos de conservação das UCs, uma vez que um instrumento só se torna eficaz perante seu correto e adequado uso, de modo que a capacidade de gestão dos municípios e da sociedade aparece como peça chave na execução destes Planos. Da mesma forma, não bastam apenas as UCs para garantir a preservação da biodiversidade e dos recursos ambientais; o respeito às legislações e normas ambientais, o exercício do poder de fiscalização dos municípios e da sociedade em geral são de suma importância para a sustentabilidade ambiental, sendo as UCs mais uma ferramenta da qual dispomos para chegarmos a este objetivo. O Plano de Manejo pode contribuir também no sentido de ser um elemento norteador do engajamento da sociedade na gestão das UCs, seja pela cobrança de sua real implementação ou de cooperação para efetivo alcance dos objetivos desses espaços protegidos.

O Plano de Manejo, segundo o SNUC, é definido como “o documento técnico mediante o qual, com fundamento nos objetivos gerais de uma Unidade de Conservação, se estabelece o seu zoneamento e as normas que devem presidir o uso da área e o manejo dos recursos naturais, inclusive a implantação das estruturas físicas necessárias à gestão da Unidade”. Esse documento técnico contempla o zoneamento ambiental, o estabelecimento de diretrizes de uso e ocupação do solo e os programas de ação. Na Região da Costa Esmeralda foram realizados os Planos de Manejo da APA

Biodiversidade da Costa Esmeralda

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Foto: Renata Bassani

Mirante com vista para o Parque Natural Municipal da Galheta em Bombinhas.

Apesar da proteção dos grandes remanescentes florestais pelas UCs, via de regra, elas ainda estão isoladas, e, da mesma forma que os humanos necessitam de ruas e de estradas para se locomoverem, os animais necessitam de “corredores ecológicos” para que não fiquem confinados a um único local cercado por casas. Esse papel também pode ser cumprido através da criação de UCs, como as RPPNs, que geralmente têm uma área menor que as UCs públicas, mas que podem ser essenciais como elos de ligação entre elas. Conhecer o papel e os limites de cada um no ambiente é de fundamental impor-

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tância neste processo de conservação da qualidade de vida no planeta. Cabe a nós aprendermos, o mais rapidamente possível, a conviver de forma harmoniosa com toda essa riqueza de vida, pois nós estamos inseridos neste meio e somos ainda os seus maiores predadores. Muitas famílias vivem em casas cercadas de matas, e muitos animais silvestres vivem em matas cercadas de casas. Áreas bem preservadas precisam existir e as cidades podem coexistir com ambientes naturais se passarmos a respeitar a vida que circula pelos lugares onde o ser humano habita.

Costa Esmeralda: Unidades de Conservação


em todo o mundo, foi a conscientização ecológica. Um maior conhecimento sobre os animais e as plantas, e dos lugares onde estes se encontram, poderá estimular o interesse da sociedade pela proteção desse patrimônio inestimável e contribuir, em última instância, para melhorar nossa qualidade de vida. Mapa: Leonardo Rampinelli Zanella

Por isso, a divulgação de nossa fauna e flora, associada à vontade de preservação por parte dos responsáveis pelas UCs pode contribuir significativamente para que sejam atingidos os objetivos de manutenção e proteção da nossa biodiversidade. Afinal, uma das principais alavancas para a criação de parques e reservas,

Unidades de Conservação da Costa Esmeralda.

Biodiversidade da Costa Esmeralda

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Vegetação e flora da Costa Esmeralda: A riqueza da Mata Atlântica entre as praias e as montanhas

Autores Anderson Santos de Mello Anelise Nuernberg da Silva

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Vegetação e flora: A riqueza da Mata Atlântica entre as praias e as montanhas


Biodiversidade da Costa Esmeralda

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Vegetação A vegetação natural de uma determinada região é o reflexo de dois fatores principais: o clima e o solo. O clima é o fator que determina a aparência da vegetação, ou seja, qual a fitofisionomia que predominará em cada lugar, caso o homem não tenha alterado suas características naturais. O solo é o principal responsável pelas variações locais da vegetação, em virtude principalmente da sua capacidade de armazenar água e nutrientes essenciais às plantas, que pode ser alta ou baixa. Em regiões com climas mais frios e secos, a tendência natural é ocorrer uma vegetação mais

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baixa, composta principalmente por plantas herbáceas, com árvores esparsas e de menor porte. As regiões com climas mais úmidos e com temperaturas mais altas tendem a ser cobertas por grandes florestas. Porém, muitas vezes, esses dois tipos de vegetação podem ocorrer lado-a-lado, separados por diferenças nos solos e pequenas variações climáticas locais. Nos ambientes litorâneos, como os encontrados na Costa Esmeralda, essas variações estão ligadas à proximidade com o mar, o qual influencia muito o clima e a formação dos solos dessa região.

Vegetação e flora: A riqueza da Mata Atlântica entre as praias e as montanhas


Foto: Anelise Nuernberg

Morro de Zimbros coberto por nuvens de umidade proveniente do mar. A parte mais alta do morro, que chega até 600m de altitude, não está aparecendo. ARIE da Costeira de Zimbros.

Ali encontramos cadeias de montanhas que podem atingir até 600 m de altitude, em áreas muito próximas ao mar, o que condiciona uma variação climática local, uma vez que a pressão atmosférica diminui conforme a altitude e, consequentemente, faz com que as temperaturas médias também diminuam cerca de 1°C a cada 100 m acima do nível do mar. Em um exemplo mais claro, turistas aproveitando um dia de sol no verão em Bombinhas,

Biodiversidade da Costa Esmeralda

na beira da praia de Zimbros, próximo do meio-dia, estão a uma temperatura de 32°C ao Sol, enquanto no topo do morro de Zimbros, a 600m de altitude, pesquisadores coletando plantas nativas estarão sentindo uma temperatura de 26°C. Essa variação climática influencia diretamente o aspecto da vegetação, pois em climas mais frios a tendência é que a vegetação tenha um menor porte do que nos locais mais quentes.

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anos passados). As areias das praias, devido ao grande tamanho de seus grãos, não conseguem reter a água, pois a mesma escoa de maneira rápida, indo para camadas mais profundas nas quais as raízes das plantas não conseguem chegar. Por isso, a vegetação que ali ocorre é de menor porte e as espécies que colonizam são adaptadas a ambientes secos, apesar de toda a umidade proveniente do mar. Da mesma forma, essa umidade do mar, quando em forma de respingos, contém um elemento tóxico para o estabelecimento de plantas: o sal. Assim, as plantas que compõem a vegetação atingida por respingos precisam de adaptações para eliminar o excesso de sal.

Foto: Anelise Nuernberg

Foto: Anelise Nuernberg

Entretanto, a vegetação que ocorre na beira da praia é composta principalmente por ervas, arbustos e algumas árvores de menor porte. Isso porque, apesar da temperatura e da umidade provenientes do mar, os solos são formados principalmente por areias, resultado de milhares de anos de desgaste das rochas das montanhas pela a ação das ondas e das chuvas. Essas areias que formam nossas praias se depositaram ao longo de milhões de anos e durante as variações climáticas de períodos recentes da história da terra. O nível do mar variou muito, sendo que grande parte dos ambientes que hoje são praias estavam cobertos por oceanos no passado (até cerca de 5.000

Restinga coberta por vegetação herbácea, atingida periodicamente por respingos das ondas do mar, seguida de remanescente de vegetação arbustiva e arbórea. ARIE da Costeira de Zimbros

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Vegetação e flora: A riqueza da Mata Atlântica entre as praias e as montanhas


Foto: Anelise Nuernberg

Outros locais onde as florestas não conseguem se desenvolver muito bem são os costões rochosos, nos quais os solos são muito rasos e os respingos provenientes das ondas são muito frequentes. Nos costões rochosos, podem ser observados jardins de espécies herbáceas, conhecidas como rupícolas (habitantes de rochas), que apresentam uma beleza inestimável.

Plantas como bromélias e cactáceas conseguem sobreviver diretamente nas rochas. ARIE da Costeira de Zimbros.

A Costa Esmeralda é predominantemente formada por praias em baía, onde os ventos não são fortes, propiciando que árvores consigam sobreviver bem perto da linha da maré. Esta é uma característica muito singular desse local. Foto: Anelise Nuernberg

Os ventos também possuem papel fundamental na caracterização da vegetação de um local. Em ambientes onde venta muito, os arbustos e árvores são retorcidos e têm dificuldades em se estabelecer, cedendo espaço para as plantas herbáceas.

Costão Rochoso, onde observa-se que na área mais atingida pelos ventos e respingos das ondas há predomínio de espécies herbáceas. APA da Ponta do Araçá.

Biodiversidade da Costa Esmeralda

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Foto: Anelise Nuernberg Foto: Anelise Nuernberg

A condição de baía torna propício o estabelecimento de árvores no costão rochoso, muito próximo à água do mar. APA da Ponta do Araçá.

Praia do Caixa d’aço. APA da Ponta do Araçá.

As florestas da Costa Esmeralda ocorrem principalmente nos fundos de vales, encostas e topos dos morros. Essas florestas, de origem tropical, conseguiram se estabelecer no Sul do Brasil principalmente nas regiões litorâneas, pois a proximidade do mar evita que ocorram temperaturas muito baixas, criando um clima mais ameno, propício para as espécies que vivem

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nos trópicos. Essas florestas, conhecidas como “Mata Atlântica”, recebem a classificação oficial de Floresta Ombrófila Densa, que significa floresta amiga da chuva (Ombro= chuva, fila= amiga) com muitas árvores próximas (densa). Essa classificação foi criada para que pessoas em qualquer lugar do mundo consigam entender que tipos de florestas ocorrem no Brasil.

Vegetação e flora: A riqueza da Mata Atlântica entre as praias e as montanhas


Foto: Anelise Nuernberg

Em primeiro plano, à esquerda, observa-se tronco de garapuvu (Schizolobium parahyba) de grande porte à beira de riacho. ARIE da Costeira de Zimbros.

As florestas das partes profundas dos vales são as de maior exuberância e com o maior porte. Os vales, formados pela ação de riachos que ao longo de milhares de anos cavam a rocha, em um movimento incessante de desgaste das montanhas, formam um ambiente úmido e com muitos nutrientes no seu entorno, propício para o desenvolvimento de árvores de grande porte, que podem atingir até 35 m de altura. Nesses vales, a fertilidade do solo é alta, em virtude de que toda a matéria orgânica proveniente dos ciclos biológicos que ocorrem nas encostas, como

Biodiversidade da Costa Esmeralda

por exemplo, a queda de folhas das árvores que descem por gravidade até esses vales profundos, ali são incorporadas ao solo. Da mesma forma, os nutrientes minerais, que são originados das rochas desgastadas, depositam-se nas partes mais baixas, ficando disponíveis para o desenvolvimento dessas florestas. Essas formações, por estarem em locais mais baixos e de fácil acesso, foram as primeiras a serem ocupadas ao longo da colonização europeia nesse trecho do litoral catarinense.

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Foto: Anelise Nuernberg

Floresta em fundo de vale com escosta muito íngreme mostrando vegetação diversificada. ARIE da Costeira de Zimbros.

Assim, apesar de serem as formações mais exuberantes naturalmente, essas florestas foram muito alteradas em relação às suas características naturais e hoje se encontram em um processo avançado de regeneração natural. Porém, as espécies de madeira mais nobre, como a canela-preta (Ocotea catharinensis) e a peroba (Aspidosperma olivaceum), antigamente muito comuns, praticamente desapareceram dessas florestas. Uma das espécies mais importantes nessa formação é a palmeira-juçara ou palmiteiro (Euterpe edulis), que sofre grande ameaça de extinção devido à extração ilegal de indivíduos adultos, que são predados para o consumo da parte superior do seu caule, em detrimento dos seus frutos,

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que são muito consumidos pela fauna e poderiam ser usados para extração de polpa de açaí. As florestas das encostas íngremes também possuem um grande porte, porém menos desenvolvidas que as dos fundos dos vales. Estas florestas são muito bonitas e extremamente diversificadas. Em virtude do terreno íngreme e da dificuldade de acesso a esses locais, estas são as matas mais parecidas com as originais, presentes no período anterior à colonização dessa região. Nesses locais, ainda encontram-se algumas árvores de grande porte, como a estopeira ou jequitibá-do-sul (Cariniana estrellensis), a figueira-da-folha-miúda (Ficus cestrifolia), o carrapicheiro (Sloanea guianensis), entre diversas outras.

Vegetação e flora: A riqueza da Mata Atlântica entre as praias e as montanhas


As florestas dos topos dos morros estão em um clima um pouco mais frio do que as dos fundos de vales, além de ocorrerem sobre solos mais rochosos, nos quais a rocha sofre mais desgaste devido à ação das intempéries, como a insolação, as chuvas, os ventos entre outros fenômenos, acumulando-se menos nutrientes e água. Ali, as florestas apresentam um porte um pouco menor do que nas encostas, mesmo nas áreas que não foram alteradas de suas características naturais.

Foto: Anelise Nuernberg

De maneira geral, as florestas da Costa Esmeralda apresentam uma estratificação horizontal bem estabelecida, sendo compostas por um estrato arbóreo maior, no qual predominam árvores de grande porte com até 35 m de altura; um estrato arbóreo inferior, com espécies que variam entre 12 e 20 m, que em conjunto com as emergentes formam o

chamado “dossel” da floresta; um estrato formado pelas arvoretas, arbustos e indivíduos jovens de espécies arbóreas de grande porte, conhecido como arbustivo, variando desde 1 até os 10 m de altura em média. Logo abaixo desse estrato, é observada uma comunidade de plantas herbáceas, aquelas que não possuem caules resistentes e tem a cor verde, diferente dos arbustos e árvores, que apresentam caules resistentes e de outras cores. Além desses estratos, observa-se um grande número de espécies que ocorrem sobre outras, subindo sobre elas através de estruturas especiais, como os cipós, que possuem raízes no solo, e outras, que passam a vida suspensas sobre as árvores e arbustos, sem contato com o solo, as chamadas epífitas (epi=sobre, fita=árvore). Na Costa Esmeralda essas espécies são principalmente samambaias, orquídeas e bromélias.

Mata de porte baixo devido à intensa insolação, ventos fortes e pouca matéria orgânica acumulada. O estrato herbáceo é bem desenvolvido e dominado por caetés (Ctenanthe sp.). APA da Ponta do Araçá.

Biodiversidade da Costa Esmeralda

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Flora A flora de uma região é o conjunto de espécies vegetais que ocorrem em determinado território. Ou seja, é representada por uma listagem de espécies, que por sua vez representa a biodiversidade vegetal de um espaço delimitado. As espécies são o resultado de milhões de anos de evolução, processo pelo qual a vida na terra se diversificou e que deu origem a esta grande quantidade de seres vivos que nos cercam. A Mata Atlântica é conhecida internacionalmente por ser muito rica em espécies, principalmente as chamadas endêmicas, ou seja, aquelas que não ocorrem em nenhum outro lugar do mundo. A flora da Costa Esmeralda não é diferente, sendo encontradas, até o momento, após 4 anos de estudos e cerca de 50 dias de trabalho de campo, aproximadamente 750 espécies de plantas consideradas como fanerógamas, ou seja, plantas com estruturas reprodutivas visíveis, que incluem as Pteridófitas, as Gimnospermas e as Angiospermas. As espécies que compõem a flora são separadas por gêneros e famílias,

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que representam um parentesco comum entre estas espécies, conforme o sistema de classificação dos seres vivos. Na Costa Esmeralda, as 750 espécies estão separadas em 120 famílias, um número bastante alto para uma pequena parte do território brasileiro. A família das compostas (Asteraceae), a mesma do dente-de-leão, das carquejas e da marcela, é a mais rica em número de espécies (56) na Costa Esmeralda. A segunda família mais rica é a das gramíneas (Poaceae), com 54 espécies de capins e gramas. A família das leguminosas (Fabaceae), como o feijão e o garapuvu, possui um total de 42 espécies, enquanto a família das tiriricas e juncos (Cyperaceae), juntamente com a família da goiabeira e do araçazeiro (Myrtaceae) possuem um total de 34 espécies. As bromélias (Bromeliaceae) são em número de 33, enquanto as orquídeas (Orchidaceae) estão representadas por 30, assim como a família do café (Rubiaceae). Destaca-se ainda a família das pixiricas (Melastomataceae) com 24, e das canelas (Lauraceae) com 17 espécies.

Vegetação e flora: A riqueza da Mata Atlântica entre as praias e as montanhas


Foto: Anelise Nuernberg Foto: Anelise Nuernberg

Jacobina (Justicea carnea - Acanthaceae)

Foto: Anelise Nuernberg

Foto: Anelise Nuernberg

Lírio-do-brejo (Crinum americanum Amaryllidaceae). Planta que se desenvolve em ambientes brejosos.

Capim-rabo-de-burro (Schizachyrium microstachyum - Poaceae)

Biodiversidade da Costa Esmeralda

Vassoura (Lepidaploa chamissonis - Asteraceae)

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Foto: Anelise Nuernberg

Foto: Anelise Nuernberg.

Gravatá (Nidularium

Grinalda-de-boneca (Heliotropium transalpinum - Boraginaceae)

Foto: Anelise Nuernberg.

Foto: Anelise Nuernberg

innocentii - Bromeliaceae)

Gravatá (Aechmea kertesziae – Bromeliaceae)

Cipó-de-são-joão (Pyrostegia venusta - Bignoniaceae). Planta ornamental para cercas-vivas.

Vegetação e flora: A riqueza da Mata Atlântica entre as praias e as montanhas


Foto: Anelise Nuernberg

Mangue-de-formiga

Roseta-da-praia (Acicarpha spathulata - Calyceraceae)

Foto: Anelise Nuernberg

Bacopari (Garcinia gardneriana - Clusiaceae). O bacopari tem frutos muito apreciados.

Foto: Anelise Nuernberg

Foto: Anelise Nuernberg

(Clusia criuva - Clusiaceae)

Batateira-da-praia (Ipomoea pes-caprae - Convolvulaceae). Planta muito comum nas restingas.

Biodiversidade da Costa Esmeralda

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Foto: Anelise Nuernberg

Foto: Anelise Nuernberg

Canela-frade (Endlicheria paniculata - Lauraceae)

Campainha (Abutilon rufinerve - Malvaceae)

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Ingá-feijão (Inga marginata - Fabaceae)

Foto: Anelise Nuernberg

Foto: Anelise Nuernberg

Foto: Anelise Nuernberg

Caeté (Heliconia farinosa - Heliconiaceae). Espécie ameaçada de extinção no Brasil.

Canela-preta (Ocotea catharinensis Lauraceae). Tronco característico da espécie ameaçada de extinção.

Vegetação e flora: A riqueza da Mata Atlântica entre as praias e as montanhas


Foto: Anelise Nuernberg

Foto: Anelise Nuernberg

Baga-de-bugre-da-praia (Solanum pelagicum - Solanaceae). Espécie

Jacatirãozinho (Miconia ligustroides - Melastomataceae)

Foto: Anelise Nuernberg

rara, ameaçada de extinção, restrita aos estados de SC e RS.

Foto: Anelise Nuernberg

Foto: Anelise Nuernberg

Guamirim (Eugenia stigmatosa - Myrtaceae)

Orquídea (Corimborchis flava - Orchidaceae)

Biodiversidade da Costa Esmeralda

Erva-de-rato (Coccocypselum campanuliflorum - Rubiaceae)

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Mamíferos: No mar, na terra ou no ar...

Autores Felipe Moreli Fantacini Cássio Batista Marcon Dayse Dias Rafael Penedo Ferreira Júlia Ferrua dos Santos Maurício Eduardo Graipel

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Mamíferos: No mar, na terra ou no ar...


Biodiversidade da Costa Esmeralda

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Ao caminhar pelas praias da Costa Esmeralda nos meses de inverno, contemplando o mar esverdeado, é possível ver uma enorme baleia-franca (Eubalaena australis) nadando tranquilamente com seu filhote ao lado. Ao entardecer deste mesmo dia, vários pequenos morcegos insetívoros voam agilmente próximo aos postes de iluminação à caça de mariposas e outros insetos que são atraídos pela luz.

outras características, a mais conhecida, é a capacidade de alimentar seus filhotes através de leite produzido pelas glândulas mamárias das mães.

O pequeno morcego, animal noturno e voador de 10 g, e a baleia-franca, com até 100 t, são dois animais tão diferentes, e mesmo assim tão semelhantes... Ambos, assim como os humanos, são mamíferos: animais com pelo (mesmo que apenas no embrião, como nas baleias), homeotérmicos (possuem temperatura constante), e, dentre muitas

Esses dois animais dão exemplo da diversidade de formas corporais, de locomoção, alimentação e inúmeras adaptações que permitiram aos mamíferos se distribuírem e ocuparem todo o globo terrestre. Hoje, os mamíferos estão presentes dos polos aos trópicos e de oceanos profundos ao alto das montanhas, pântanos e desertos. Existem no mundo entorno de 5.400 espécies de mamíferos, das quais 701 são encontradas no Brasil. Em estudos realizados em diferentes UCs e áreas naturais da Costa Esmeralda, foi confirmada a presença de no mínimo 60 espécies de mamíferos.

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Mamíferos: No mar, na terra ou no ar...


Foto: Paulo A. C. Flores

Baleias-francas (Eubalaena australis) com seus filhotes, podem ser observadas durante o inverno nos mares da Costa Esmeralda.

Onde estão esses animais? Sabendo que existem mais de 60 espécies de mamíferos vivendo na área da Costa Esmeralda, podemos pensar que é muito fácil encontrá-los. No entanto, é comum as pessoas passarem todo o período de férias na região fazendo longas caminhadas nas trilhas das UCs e não se depararem com nenhum mamífero sequer. Como isso é possível? Os mamíferos das matas brasileiras são muito difíceis de serem vistos, diferentemente daqueles grandes e conhecidos mamíferos africanos (leões,

Biodiversidade da Costa Esmeralda

zebras, girafas, elefantes) comumente avistados nas savanas. As principais razões para esta distinção estão nas diferenças observadas nos ecossistemas, na estrutura das comunidades animais e no comportamento destes. Na Mata Atlântica, as florestas são mais fechadas e não existem aqueles extensos campos que ocorrem na savana africana, portanto, até os maiores mamíferos brasileiros, as antas, que chegam aos 300 kg, podem se esconder melhor de nossas vistas, assim como dos seus predadores naturais.

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Foto: Acervo do Laboratório de Etologia Aplicada - UFSC

O esquivo gato-do-mato-pequeno (Leopardus tigrinus) registrado por uma armadilha fotográfica.

Outro ponto importante, é que quando entramos numa floresta, normalmente fazemos muito barulho (até mesmo quando estamos em silêncio, fazemos barulho ao caminharmos sobre as folhas caídas no chão) e também deixamos o nosso cheiro no ar. Os mamíferos, em geral, possuem a audição e o olfato bem apurados e preferem se afastar ou se esconder a qualquer sinal de um visitante desconhecido. Sem contar que a maioria deles possui hábitos noturnos, e dificilmente entramos na floresta ao anoitecer.

animal que possui baixa densidade populacional, ou seja, um único animal necessita de um grande espaço para viver. Para dificultar ainda mais sua observação, o gato-do-mato possui uma coloração amarelada com várias pintas negras, uma perfeita camuflagem que torna difícil sua visualização dentro da mata. Por fim, frustrando qualquer expectativa de encontro com este animal, ele é arisco e, ao mínimo sinal de presença humana, tenta fugir o mais rápido e silenciosamente possível.

Por exemplo, o gato-do-mato-pequeno (Leopardus tigrinus) é um animal muito raro de se ver, pois é um carnívoro de pequeno porte, do tamanho de um gato doméstico, que vive solitário e só é encontrado acompanhado na época de reprodução ou quando as fêmeas estão com filhotes. Além disso, é um

Assim como o gato-do-mato, a maioria dos mamíferos habitantes da Costa Esmerada possui características que tornará difícil sua visualização. Porém, alguns mamíferos fogem a esta regra, entre eles, as capivaras, que podem ser vistas descansando ou pastando, mesmo durante o dia e em áreas abertas, próximas a corpos d’água.

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Mamíferos: No mar, na terra ou no ar...


Foto: Fernando Brüggemann

O inteligente macaco-prego (Sapajus nigritus) tem grande habilidade com as mãos.

Quero uma casa na árvore! Muitos mamíferos escolheram as árvores como moradia. Lá eles constroem seus abrigos e ninhos, nos galhos ou nos ocos dos troncos, servindo de refúgio e esconderijo contra predadores. Lá eles também buscam seu alimento e sempre há água disponibilizada no cálice das bromélias. Dentre os mais conhecidos arborícolas estão os macacos! Os macacos-prego (Sapajus nigritus) vivem em grupos familiares e são muito inteligentes.

Biodiversidade da Costa Esmeralda

Com seus dedos polegares pseudooponíveis (semelhante ao dos humanos), são capazes de segurar e utilizar ferramentas durante o forrageio por frutas, insetos, ovos e outros alimentos disponíveis nas copas das árvores. Mas, para deixar claro que quem manda no dossel da floresta são os bugios (Alouatta clamitans), os machos, ruivos e barbudos, roncam alto e em tom grave do alto das árvores, podendo ser ouvidos a centenas de metros de distância.

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Foto: Guilherme Willrich

Rato-da-taquara (Kannabateomys amblyonyx) utilizando os dedos como pinças para se equilibrar num bambu.

O rato-da-taquara (Kannabateomys amblyonyx) é outro animal arborícola que habita a Costa Esmeralda. Ele é um tanto peculiar, pois tem preferência especial por viver em bambuzais e se alimentar quase que exclusivamente de bambu. Este roedor, de porte médio (500 g) e hábitos noturnos, vive em pequenas famílias e tem um poderoso trato digestivo para sobreviver comendo algo tão pouco nutritivo como o bambu. Ao subir o bambuzal, ele usa seus dedos como se fossem pinças para se firmar. Suas garras são achatadas, como as nossas unhas, o que também permite melhor aderência à taquara.

Outros habitantes comuns das árvores são os gambás e cuícas. Esses animais são marsupiais, como os cangurus australianos, pois seus filhotes nascem prematuros e terminam seu desenvolvimento alimentando-se de leite dentro do marsúpio, uma bolsa criada pela dobra da pele na barriga da mãe. Podem ser encontrados no marsúpio de fêmeas de gambás (Didelphis sp.) até 12 filhotes. Algumas cuícas, como a cuíca-graciosa (Gracilinanus microtarsus), são tão pequenas que não têm bolsa. Como os filhotes fazem? Eles devem se agarrar firmemente aos pelos do ventre das mães e ficar grudados nas mamas. Esses filhotes nascem prematuros, mas nem um pouco fracos.

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Mamíferos: No mar, na terra ou no ar...


Foto: Guilherme Willrich

Foto: Carolina Mallmann Erbes

O gambá-de-orelha-branca (Didelphis albiventris) carrega e amamenta seus filhotes dentro da bolsa por mais de 2 meses.

Foto: Fernando Brüggemann

Um macho de cuíca-graciosa (Gracilinanus microtarsus) com testículo evidente.

Uma fêmea de cuíca-graciosa (Gracilinanus microtarsus) com 10 filhotes agarrados aos pelos do ventre, pois apesar de ser um marsupial, não possui bolsa.

Biodiversidade da Costa Esmeralda

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Foto: Felipe Moreli Fantacini

O rato-do-banhado (Oxymycterus judex) é uma das várias espécies de roedores encontradas na região da Costa Esmeralda.

Socorro, um rato!

A diversidade de roedores é impressionante, a cada três espécies de mamíferos brasileiros, uma é roedor. Dentre as 13 espécies de roedores registradas da Costa Esmeralda, um muito curioso é o rato-do-banhado (Oxymycterus judex). Este animal tem hábito semifossorial, que quer dizer que ele costuma viver sob a camada de folhas do chão da floresta, onde sua pelagem castanho-avermelhada ajuda-o a se confundir com o meio. Além disso, o focinho fino e comprido e as grandes garras ajudam-no a cavar suas tocas e procurar insetos para comer. 40

Porém, nem todo roedor é rato. Por exemplo, a cutia (Dasyprocta azarae) é um roedor e uma grande jardineira das florestas. Elas comem frutos e sementes de várias árvores e, quando estão satisfeitas, levam o que sobrou para um local seguro, onde os enterram. Como nem sempre elas lembram onde enterraram esses frutos, as sementes germinam e dão origem a novas árvores frutíferas.

Foto: Acervo RPPN Chácara Edith

Os ratos, ratazanas e camundongos domésticos são animais que todos têm pavor e são sempre relacionados à sujeira e doenças. Assim, basta ver um rato, que todos se arrepiam. Porém, na floresta, os pequenos roedores são silvestres, sendo muito importantes para manter o equilíbrio ecológico, uma vez que são elos da cadeia alimentar. Cobras, gaviões, gatos-do-mato, iraras, gambás e muitos outros animais se alimentam destes pequenos animais.

As cutias (Dasyprocta azarae) são verdadeiras jardineiras das florestas.

Mamíferos: No mar, na terra ou no ar...


Foto: Erica Naomi Saito

As capivaras (Hydrochoerus hydrochaeris) são os maiores roedores do mundo e formam grandes grupos familiares.

Outro roedor presente na Costa Esmeralda é um animal de peso. O maior roedor do mundo e, atualmente, o maior animal terrestre encontrado na região é a capivara (Hydrochoerus hydrochaeris). Com machos chegando a mais de 50 kg, esses animais semiaquáticos precisam de muito capim para se alimentar. Aliás, a tradução de

Biodiversidade da Costa Esmeralda

seu nome do tupi-guarani é “comedor de capim”. Esse capim tem que alimentar grupos familiares de dezenas de indivíduos. Nestes grupos, é possível distinguir os machos das fêmeas pela glândula em uma saliência acima do focinho, que serve para demarcação de território pelos machos dominantes.

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O que é aquilo lá no céu?

Os morceguinhos insetívoros passam a noite voando na busca de insetos como fazem as andorinhas. Algumas vezes, esses morcegos voam ao redor da cabeça das pessoas que entram em pânico achando que é um morcego-vampiro que quer atacá-las. Contudo, normalmente são morcegos inofensivos como Myotis nigricans que vêm em busca de mosquitos atraídos pela presença humana. E por falar em morcegos-vampiro, sim, eles existem! Mas são apenas três espécies entre as mais de 1000 que ocorrem no mundo todo! Das 13 espécies de morcegos registradas na Costa Esmeralda, apenas uma, Desmodus rotundus, alimenta-se do sangue (hematófaga), principalmente de animais maiores, como bois e cavalos. Ao contrário do que muitos pensam, morcegos-vampiro não usam os caninos para morder, mas sim os incisivos. Também não chu42

pam o sangue, apenas lambem o que escorre da pequena ferida feita com os seus dentes. Estes morcegos possuem substâncias anticoagulantes e anestésicas na saliva para o sangue não coagular e a vítima não sentir dor enquanto ele se alimenta. Para voar com grande destreza e agilidade durante a noite, os morcegos usam a ecolocalização. Estes animais emitem um ultrassom que é captado com o auxílio de grandes orelhas e aparatos faciais, como a folha nasal em algumas espécies. Mesmo que eles usem a ecolocalização, morcegos enxergam muito bem e usam a visão para procurar frutos e desviar de objetos no caminho, por isso, às vezes, acabam esbarrando em vidraças, pois não as percebem, como também acontece com as aves. Morcegos são animais muito mitificados e desconhecidos pelas pessoas. No entanto, possuem um papel muito importante na natureza e são muito interessantes. Muitas pessoas acham que o Foto: Bianca Pinto Vieira

Os céus pertencem às aves apenas durante o dia, pois à noite, são os morcegos que reinam. Não só reinam como exercem um importante papel na manutenção da floresta. Se durante o dia beija-flores fazem o importante papel da polinização, à noite, morcegos beija-flores como Glossofaga soricina realizam o mesmo papel. No lugar do sabiá ou do tucano, comendo os frutos dos araçás, jerivás, pimenteiras-do-mato entre outros, os morcegos-da-fruta, como o Artibeus lituratus e Mimon bennettii, estarão voando de um lado para o outro com frutos na boca também auxiliando na dispersão das sementes e regeneração da mata.

Mimon bennettii é um morcego com grandes orelhas e aparatos faciais, como a folha nasal, que o ajudam na ecolocalização de insetos .

Mamíferos: No mar, na terra ou no ar...


te diferentes. Na verdade, os morcegos são parentes mais próximos dos lêmures voadores que vivem na Ásia.

Diferentes estilos de vida

A posição adotada pelo morcego (Myotis sp.)

Ratos e morcegos não apenas são grupos diferentes, como também possuem histórias de vidas bastante divergentes. Os ratos, por exemplo, já podem se reproduzir com cerca de 40 dias de vida e, após uma gestação de mais ou menos um mês, produz de 10 a 12 filhotes com até dois gramas cada. Além disso, estes pequenos mamíferos terrestres podem viver somente dois ou três anos, mas é bem provável que a maioria deles vire comida de uma coruja ou de um gato-do-mato antes mesmo de se tornarem adultos!

lação ao rato-do-mato (Akodon montensis).

Foto: Felipe M. Fantacini

morcego é um rato velho que criou asas, mas se observarmos bem cada um deles, podemos ver que são completamen-

Ao contrário da agitada vida dos ratos, a evolução do voo noturno nos morcegos possibilitou que este grupo de mamíferos fugisse dos predadores e vivesse com mais tranquilidade. Assim, estes animais têm vida longa Biodiversidade da Costa Esmeralda

Foto: Dayse Dias

mostra o quão diferente esse animal é em re-

(já foram registrados morcegos com mais de 30 anos!) e com cerca de um ou dois anos de vida é que podem se reproduzir. Os morcegos ainda costumam ter gestações relativamente longas que geram apenas um ou dois filhotes, os quais podem ter quase metade do peso da mãe! 43


Foto: Fernando Brüggemann

A lontra (Lontra longicaudis) é um animal semiaquático muito ágil tanto em terra quanto na água.

Comedora de peixes! A lontra (Lontra longicaudis) é um carnívoro que se alimenta principalmente de peixes. Seu corpo possui algumas adaptações para buscar seu alimento preferencial, como membranas entre os dedos para facilitar o nado, uma cauda musculosa e achatada que funciona como um leme e vibrissas (“bigodes”) longas para localizar suas presas embai-

xo da água. A lontra já foi considerada ameaçada mundialmente principalmente devido à contaminação das águas, caça, ao desmatamento e represamento dos rios. Atualmente, ela é considerada quase ameaçada no Brasil, mas é necessário que se mantenham os esforços para sua conservação, a fim de que suas populações não voltem a diminuir.

Não, as florestas não estão totalmente vazias, mas correm um sério risco de ficarem. Isso devido, em grande parte, a dois principais perigos para os mamíferos: a caça ilegal e o desmatamento.

Foto: Felipe Moreli Fantacini

As florestas estão vazias?

A caça é proibida no Brasil, salvo em casos muito particulares. Mesmo assim, a prática da caça é ainda muito comum, inclusive na região da Costa Esmeralda. Dessa forma, a pressão causada pela caça é tão grande que contribuiu para que muitas espécies tenham desaparecido ou que sejam muito raras na região. Dentre elas estão a paca, os ve-

ados e os porcos-do-mato, que não são mais vistos. Outras espécies podem em breve desaparecer se nada for feito, tal como o tatu-galinha (Dasypus novemcinctus), uma das espécies mais visadas por caçadores.

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Mamíferos: No mar, na terra ou no ar...

O Tatu-galinha (Dasypus novemcinctus) é um animal muito procurado por caçadores.


Foto: Guilherme Willrich

Foto: Guilherme Willrich

Com o auxílio de corredores ecológicos e programas de conservação, varas de queixadas (Tayassu pecari) poderiam ser novamente vistas nas UCs da Costa Esmeralda.

O veado-catingueiro (Mazama gouazoubira) é uma das espécies que já não são mais vistas nas matas da Costa Esmeralda, cabe a nós possibilitar que este animal volte a habitar a região.

Os mamíferos são fundamentais para manter a floresta viva, uma floresta sem mamíferos não é uma floresta, assim é importante não só manter áreas de mata protegidas, mas também combater a caça. Em outras palavras, um mamífero vivo na mata é mais valioso que um troféu de parede e uma floresta vazia...

da Região? É necessário construir estradas de florestas para esses animais, os chamados corredores ecológicos, que podem ajudar a conectar esses remanescentes florestais isolados na Península de Porto Belo com aqueles da Mata Atlântica da Serra Geral, de onde poderão vir os grandes mamíferos.

O grande desmatamento ocorrido desde o descobrimento do Brasil fez com que hoje as florestas estejam reduzidas a pequenos fragmentos. Assim, é muito importante preservá-los, pois são os últimos refúgios para a fauna. Unidades de Conservação já foram criadas na Costa Esmeralda, porém, por serem pequenas, essas florestas não oferecem recursos necessários para manter grandes populações de mamíferos de maior porte.

Convivência entre Homem e Animais

Então como fazer para que onças, veados, porcos e outros animais voltem a habitar as matas, agora preservadas, Biodiversidade da Costa Esmeralda

Parte dos remanescentes florestais da região da Costa Esmeralda está inserida em UCs onde muitas pessoas estão morando. Isso acaba gerando alguns conflitos entre homens e animais selvagens, o que contribui para a ausência de muitas espécies sensíveis à presença de humanos. Mesmo assim os efeitos desta aproximação podem ser minimizados, de modo que mamíferos raros possam voltar a habitar essas áreas. Cabe a nós reaprendermos a viver com esses fantásticos animais. 45


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Aves: Os dinossauros da atualidade!


Aves:

Os dinossauros da atualidade!

Autores Guilherme Willrich Bianca Pinto Vieira Daiane Soares Xavier da Rosa Ivo Rohling Ghizoni JĂşnior Raphael Zulianello Alves

Biodiversidade da Costa Esmeralda

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As aves derivam dos dinossauros. O ancestral mais antigo já encontrado, Archaeopteryx lithographica, viveu no período Jurássico, há cerca de 150-148 milhões de anos atrás. Atualmente, as aves estão entre os vertebrados já identificados mais diversos do mundo, não só em número de espécies (cerca de 10 mil em todo o planeta) como também em tamanho, forma, cores e hábitos. Estes animais podem viver em uma variedade de ambientes, como florestas, restingas, campos e banhados. Também podem suportar condições extremas, do frio polar, onde vivem os pinguins, ao calor do deserto. Suas variadas formas, infinitas cores e cantos embelezam a paisagem e encantam milhares de pessoas em todo o mundo, sendo difícil não notá-las. Além de

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belos, estes animais são fundamentais para o habitat em que vivem, pois desempenham importantes funções para o desenvolvimento e manutenção do ambiente, como polinização, dispersão de sementes e predação. Além disso, podem até mesmo servir de alimento para muitos outros seres vivos. Na região da Costa Esmeralda, foram encontradas cerca de 200 espécies de aves, muitas delas desconhecidas para a maioria das pessoas e presentes apenas em UCs, como a Área de Preservação Ambiental (APA) da Ponta do Araçá e Área de Relevante Interesse Ecológico (ARIE) da Costeira de Zimbros. É fundamental que conheçamos estes animais ao nosso redor para podermos preservá-los e garantir o equilíbrio ambiental.

Aves: Os dinossauros da atualidade!


Foto: Bianca Pinto Vieira

Adulto de sabiá-do-campo (Mimus saturninus) correndo como um verdadeiro dinossauro..

Aves ou dinossauros? A origem das aves gera fortes discussões. Alguns pesquisadores defendem que são parentes dos dinossauros, enquanto outros afirmam que são os próprios dinossauros. Todavia, há uma tendência a se acreditar que aves compõem um grupo de dinossauros terópodes (como os já extintos Velociraptor) que evoluiu à forma de hoje. Apesar de pensarmos nos dinossauros apenas como grandes lagartos reptilianos, diferentes do que conhecemos por aves, diversos estudos apontam semelhanças entre os grupos, como a presença de escamas e cloaca.

Foto: Bianca Pinto Vieira

Comem de tudo! Até pedra!

Anu-preto (Crotophaga ani) se alimentando de

Aves não possuem dentes e, para triturar o alimento, utilizam a moela. A moela é uma bolsa localizada depois do papo, na qual ocorre a digestão mecânica (trituração) do alimento. A maioria das aves engole pedras para que estas se acumulem na moela e ajudem no processo de trituração. Com um sistema digestório preparado, as espécies possuem variada preferência alimentar. Algumas espécies são especialistas, comendo apenas frutos, grãos ou peixes, enquanto outras são generalistas, também conhecidas como onívoras. O anu-preto (Crotophaga ani) é um exemplo de espécie onívora, pois come desde anfíbios e insetos a frutos e sementes.

uma rã (Leptodactylus sp.).

Biodiversidade da Costa Esmeralda

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O colorido das aves cas (apenas uma cor) para camuflar e proteger seus ninhos. O macho do saí-andorinha (Tersina viridis), por exemplo, possui coloração azul cintilante, enquanto sua fêmea é de coloração esverdeada, confundindo-se facilmente com uma folha. Algumas aves ainda apresentam, nas penas, o que se chama de iridescência, ou seja,uma capacidade de refletir diferentes cores conforme a luz ou o ângulo em que ave é observada. Foto: Guilherme Willrich

Aves chamam a atenção por embelezarem a paisagem com suas plumagens coloridas e exuberantes. Estas cores possuem uma função muito importante, sendo utilizadas na escolha de parceiros para a reprodução. Principalmente entre os passarinhos, os machos possuem coloração forte e chamativa, auxiliando na hora de impressionar as fêmeas. Já as fêmeas, geralmente possuem cores mais discretas e, às vezes, são monocromáti-

Foto: Guilherme Willrich

Macho de saí-andorinha (Tersina viridis) acima e fêmea da mesma espécie abaixo.

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Aves: Os dinossauros da atualidade!


Foto: Bianca Pinto Vieira

Restauradores de floresta

Fêmea de gaturamo-verdadeiro (Euphonia violacea)

Foto: Guilherme Willrich

com fruto no bico.

Um dos papeis mais importantes das aves dentro de um ecossistema, sem dúvida, é a grande capacidade de dispersão de sementes no ambiente. Elas ingerem grandes quantidades de frutos, de diferentes espécies vegetais (canelas, jacatirões, capororocas, entre outras), e podem levá-los a quilômetros de distância, ajudando a recuperar florestas em locais onde elas já foram devastadas. O gaturamo-verdadeiro (Euphonia violacea), por exemplo, come vários tipos de frutos pequenos. Já o tucano-de-bico-verde (Ramphastos dicolorus) é um importante dispersor do palmiteiro (Euterpe edulis), uma vez que ingere seus frutos e os regurgita em diferentes locais da floresta.

Tucano-de-bico-verde (Ramphastos dicolorus).

Biodiversidade da Costa Esmeralda

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Foto: Guilherme Willrich

Rabo-branco-de-garganta-rajada (Phaethornis eurynome).

Polinizadores Outro papel importante das aves dentro do seu ambiente, e que dividem com outras espécies de animais, como insetos e morcegos, é a polinização das flores. Entre as aves, este papel cabe principalmente aos beija-fores, como o rabo-branco-de-gargantarajada (Phaethornis eurynome). Estes polinizadores possuem adaptações

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para se alimentar do néctar das flores, como o bico comprido e uma excepcional capacidade de voo, permitindo que quase parem em pleno ar. Outras espécies de aves também podem se alimentar de néctar, e, assim, ajudar a polinizar as flores, como a cambacica (Coereba flaveola) e o saí-azul (Dacnis cayana).

Aves: Os dinossauros da atualidade!


Foto: Guilherme Willrich

Príncipe (Pyrocephalus rubinus).

Grandes viajantes florestais Muitas espécies de aves realizam grandes deslocamentos durante certos períodos do ano. Na região sul do Brasil, durante o período de primavera e verão, quando as temperaturas são mais quentes e a quantidade de alimento é maior, ocorre a chegada de diversas espécies, como é o caso de alguns tiranídeos (suiriris e bem-te-vis), alguns rapinates (gavião-tesoura, falcãoperegrino) e de várias andorinhas. No

Biodiversidade da Costa Esmeralda

início do outono e inverno, quando as temperaturas voltam a cair e quantidade de alimento é menor, estas aves voltam para áreas mais quentes, como a região equatorial. Um exemplo de ave migratória no sul do país é um tiranídeo conhecido como príncipe (Pyrocephalus rubinus), que pode ser observado em Santa Catarina na primavera e verão, voltando para a Amazônia e norte da América do Sul posteriormente.

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Um dos grupos mais bem adaptados a longas viagens é o das aves marinhas migratórias. Algumas espécies de trintaréis e maçaricos podem viajar de 12.000 a 25.000 km todos os anos entre os locais onde se reproduzem e onde descansam o restante do ano. Muitas espécies chegam ao sul do Brasil, inclusive à ARIE da Costeira de Zimbros, entre a primavera e o verão, voltando para o local de reprodução no outono. Algumas espécies migratórias, como o trinta-réis-real (Thalasseus maximus), podem ser encontradas o ano todo na região, mas isso acontece porque possuem alta capacidade de voo, percorrendo trechos do Uruguai à Santa Catarina em poucos dias.

Foto: Bianca Pinto Vieira

Viajantes marinhos

O trinta-réis-real (Thalasseus maximus) é uma ave marinha migratória que se encontra ameaçada de extinção no território brasileiro, inclusive em Santa Catarina.

Martelo da floresta

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podem realizar movimentos de até 22 bicadas por segundo, sem qualquer dor de cabeça ou lesão cerebral.

Foto: Bianca Pinto Vieira

Os pica-paus são amplamente conhecidos pelo som que emitem ao bater com o bico na madeira. Estas aves realizam este tipo de comportamento para capturar seu alimento. Como se alimentam de larvas e insetos, possuem grande importância para as árvores da floresta. Quando captura sua presa, o pica-pau impede que alguns insetos se proliferem entre as árvores. Todas as espécies da família dos picapaus são especializadas para se agarrar aos troncos e bicar constantemente em busca do alimento. Quando encontram sua presa, colocam a longa língua no tronco, durante a martelada, para capturá-la. Pica-paus, como o pica-pauanão-de-coleira (Picumnus temminckii),

Macho de pica-pau-anão-de-coleira (Picumnus temminckii) procurando insetos no tronco.

Aves: Os dinossauros da atualidade!


Foto: Guilherme Willrich

Coruja-do-mato (Strix virgata).

Observadores noturnos Algumas aves se adaptaram a vida na escuridão, esse é o caso da maioria das corujas, bacuraus e urutaus. Estas aves possuem excelente visão noturna e, no caso das corujas, uma fantástica audição, podendo escutar até um pequeno ratinho caminhando sobre as folhas no chão da mata. Muitas lendas estão ligadas às aves noturnas, isto porque dificilmente

Biodiversidade da Costa Esmeralda

são vistas e quando cantam durante a noite acabam assustando as pessoas que desconhecem seus chamados. Corujas, como a coruja-do-mato (Strix Virgata) e a coruja-listrada (Strix hylophila), emitem gritos altos “UUUH” ou “AAAH”, porém são inofensivas, e alimentam-se apenas de pequenos mamíferos, aves, répteis e insetos.

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Enquanto as corujas caçam seu alimento durante a noite, ao longo do dia existem vários outros predadores à espreita de suas presas. Um grupo especial é o das aves de rapina, que inclui, além das corujas, gaviões, águias, falcões e urubus. Estas aves possuem garras e bicos fortes, excelente visão e ótima capacidade de voo, o que as torna extraordinárias caçadoras. Podem se alimentar de insetos, anfíbios, répteis, aves, pequenos e médios mamíferos e até mesmo peixes. O gavião-tesoura, encontrado em Santa Catarina na primavera e verão, caça suas presas na copa das árvores, onde mergulha retirando insetos e anfíbios. As aves de rapina são muito exigentes quanto ao habitat em que vivem, desaparecendo quando as condições estão ruins. Por isso, são consideradas indicadoras de qualidade ambiental.

Foto: Guilherme Willrich

Caçadores alados

Gavião-tesoura (Elanoides forficatus).

Muitas vezes pensamos que a vida silvestre encontra-se restrita a grandes florestas e áreas naturais protegidas, mas, na verdade, muitos seres vivos habitam nossos lares, muitas vezes passando despercebidos. Algumas espécies de aves naturalmente ocupam áreas abertas e, com o passar do tempo, também se adaptaram a áreas utilizadas pelo homem, sendo facilmente vistas frequentando jardins arborizados, campos de futebol, praças e, até mesmo, grandes centros urbanos. Um exemplo típico é o quero-quero (Vanellus chilensis).

Foto: Bianca Pinto Vieira

Habitantes dos nossos jardins

Quando seus filhotes ainda não possuem penas impermeáveis (à prova d'água), os adultos de quero-quero (Vanellus chilensis ) os protegem da chuva"

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Aves: Os dinossauros da atualidade!


Foto: Guilherme Willrich Foto: Bianca Pinto Vieira

Tesourão ou Fragata (Fregata magnifiscens).

Fêmea de atobá-pardo (Sula leucogaster) comendo lula roubada de pescadores artesanais.

Pescadores e piratas Várias espécies de aves estão adaptadas à vida marinha, utilizando costões, praias e ilhas como refúgio e local para construção de ninhos. Dentre estas aves, podemos citar vários exemplos, como os trinta-réis, atobás, gaivotas, batuíras e tesourões. Cada espécie possui um hábito alimentar e isso faz com que tenham preferência por um tipo de ambiente marinho. Por exemplo, as batuíras são vistas a beira da Biodiversidade da Costa Esmeralda

praia, onde se alimentam de pequenos invertebrados. Os tesourões, facilmente vistos sobrevoando praias junto a urubus, não pousam na água por não terem condições de nadar. Estas aves se alimentam apenas dando voos na superfície d’água para capturar peixes e lulas. Usualmente roubam peixes de outras espécies e até mesmo dos pescadores artesanais, assim como atobás e gaivotões, são verdadeiros piratas. 57


Anfíbios: Uma vida em dois mundos

Autores Erica Naomi Saito Javier Toso André Ambrozio de Assis Larissa Zanette da Silva Anderson Rosa Laura Helena Bento Dacol Carolina Mallmann Erbes Rafael Godoy Caroline Angri Tobias Saraiva Kunz Caroline Batistim Oswald Vítor de Carvalho Rocha Ivo Rohling Ghizoni Jr Selvino Neckel de Oliveira

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Anfíbios: Uma vida em dois mundos


Biodiversidade da Costa Esmeralda

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Durante a evolução dos seres vivos em nosso planeta, os anfíbios foram os primeiros animais que habitaram os ambientes fora da água. Apesar disso, estes animais mantiveram uma grande dependência aos ambientes aquáticos ou úmidos para sua sobrevivência e reprodução. Os anfíbios possuem o tegumento (pele) úmido e sem escamas e estão distribuídos em três grupos: Gymnophiona (cecílias ou cobras-cegas), Caudata (tritões e salamandras) e Anura (sapos, rãs e pererecas). No Brasil, existem 32 espécies de cecílias, mas elas raramente são encontradas, pois a maioria vive em galerias subterrâneas. A única espécie de salamandra que ocorre no Brasil se restringe à Bacia Amazônica, não ocorrendo no sul do país. Quanto aos anuros, o Brasil é o país com maior diversidade no mundo, atualmente com 913 espécies conhecidas. No estado de Santa Catarina, são conhecidas cerca de 140 espécies de anuros.

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A maioria dos anfíbios possui o ciclo de vida separado em duas fases distintas: uma fase aquática (girinos) quando respiram por brânquias e uma fase terrestre (adultos) quando respiram através de pulmões e pela pele. Daí o significado para o nome Anfíbios (Amphi=duas, Bios=vida). Por conta dessa singularidade, a pele dos anfíbios é muito delicada e extremamente permeável, o que confere a esses animais grande sensibilidade à dessecação, reagindo rapidamente às mudanças no meio onde vivem (desmatamento, poluição, pesticidas agrícolas, chuva ácida, radiação). Dessa forma, são considerados bioindicadores de qualidade ambiental. Como todo organismo vivo, os anfíbios possuem uma importante participação na cadeia alimentar, se alimentam de vários invertebrados, controlando, por exemplo, populações de insetos parasitas, transmissores de doenças e pragas agrícolas.

Anfíbios: Uma vida em dois mundos


Foto: Caroline Batistim Oswald

Sapo-cururuzinho (Rhinella abei) possui glândulas de veneno e pele rugosa.

Sapo, perereca ou rã? Em geral, o sapo possui a pele grossa e rugosa. Seu corpo é robusto e possui duas bolsas de veneno: as glândulas paratóides, que contém um líquido leitoso. Ao contrário do que muitos pensam, os sapos não esguicham veneno. Eles usam o veneno para tentar se defender e fugir de um possível predador. O ve-

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neno só sai quando a bolsa é contraída, por exemplo, pela mordida de um cão. As rãs possuem a pele mais fina e lisa do que os sapos. Vivem no chão ou próximo a corpos d’água, por isso, podem ter membranas entre os dedos para facilitar a natação.

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Foto: Carolina Mallmann Erbes

Perereca-araponga (Hypsiboas albomarginatus). Os discos adesivos nas extremidades dos dedos funcionam como ventosas.

Algumas rãs são utilizadas na alimentação, como a rã-manteiga (Leptodactylus latrans) da foto, que é uma espécie caçada. Já a rã-touro (Lithobates catesbeianus) é uma espécie exótica (originária da América do Norte) cultivada no Brasil para consumo.

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Foto: Carolina Mallmann Erbes

As pererecas também possuem a pele mais fina. O corpo é geralmente mais esguio. São escaladoras de árvores e paredes. Para isso, as pontas dos dedos possuem forma de discos, que são aderentes.

Rã manteiga (Leptodactylus latrans), espécie silvestre comum na região.

Anfíbios: Uma vida em dois mundos


Orquestra no brejo: Cantar para conquistar a fêmea do. Cada espécie de anuro apresenta uma vocalização própria, diferente de espécie para espécie. Assim, é possível identificar uma espécie apenas pelo som que ela emite, como, por exemplo, a perereca-martelo que possui um canto bem característico.

Foto: Carolina Mallmann Erbes

Durante o período reprodutivo (geralmente na estação chuvosa), os machos costumam se reunir em um corpo d’água e começam a coaxar para atrair as fêmeas de sua espécie. Para muitos anuros, o canto guia uma fêmea até o macho que está cantan-

A perereca-martelo ou perereca-ferreira (Hypsiboas faber) possui um coaxar parecido com o som de um martelo batendo contra lata.

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Foto: Vítor de Carvalho Rocha

Casal de Hypsiboas albomarginatus em amplexo axilar, note que a fêmea é maior (está por baixo do macho).

Amplexo: o abraço nupcial Uma vez que a fêmea chega até o macho, ela é abraçada por ele pelas costas, em um abraço denominado amplexo. Existem diversos tipos de amplexos, dentre os quais, os mais comuns são o abraço pelas axilas, pela cintura e pela cabeça. Com o macho sobre seu dorso, a fêmea procura um local adequado para

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a oviposição, sendo ela quem finalmente decide onde os ovos serão depositados. Ela sinaliza para o macho o momento da oviposição arqueando o corpo. Neste instante o macho deposita seu esperma nos ovos. A fecundação, neste caso, é externa, ou seja, os espermatozoides fecundam os ovos fora do corpo da fêmea.

Anfíbios: Uma vida em dois mundos


Cuidado parental caso da rã-manteiga (Leptodactylus latrans). Em algumas espécies um dos progenitores carrega os ovos fertilizados durante o desenvolvimento larval no dorso ou mesmo em bolsas especializadas, como no caso da perereca-marsupial (Fritziana fissilis).

Foto: Julia Ferrúa dos Santos

A assistência à postura de ovos é a forma mais comum de prestação de cuidados, sendo frequentemente feita pelo macho, fenômeno raro no mundo animal. Um dos pais pode permanecer ao lado da postura, no solo ou em folhas, evitando que os ovos sejam predados, como no

A rã-manteiga (Leptodactylus latrans) cuidando dos girinos. Quando vê predadores, como aves, o macho bate na superfície da água, assim os girinos são alertados do perigo e se escondem debaixo do pai.

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Foto: Carolina Mallmann Erbes

A perereca-musgo, perereca-castanhola (Itapotihyla langsdorffii) tem coloração verde musgo e textura de pele que se assemelha com a casca de árvore coberta de musgo ou líquen.

A arte de esconder-se A camuflagem apresenta-se como um bom mecanismo de defesa. Alguns anfíbios têm coloração, desenhos, textura da pele que os fazem ficar disfarçados com a vegetação e com o meio em que vivem. Assim, além de enganar seus predadores, também enganam suas presas.

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Anfíbios: Uma vida em dois mundos


Foto: Carolina Mallmann Erbes

A Filomedusa (Phyllomedusa distincta) dificulta que os predadores a percebam devia Ă sua cor verde parecida com a folhagem das ĂĄrvores onde vive.

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Foto: Vítor de Carvalho Rocha

O sapo-de-chifres (Proceratophrys boiei) possui pele verruguenta, pregas de pele (chamadas de chifres) e coloração do dorso que varia de cinzenta a parda, ornamentado por manchas castanho-escuras. Esse conjunto de características fazem com que ele fique totalmente camuflado entre as folhas secas da serrapilheira.

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Anfíbios: Uma vida em dois mundos


Foto: Guilherme Willrich

Filomedusa (Phyllomedusa distincta) com fêmea de Corethrella parasitando-a.

Interações As espécies de seres-vivos interagem entre si de diversas maneiras. A predação ocorre quando um organismo utiliza outro como fonte de alimento. Já a competição ocorre quando dois ou mais organismos necessitam dos mesmos recursos, como espaço ou presas. Por sua vez, no mutualismo e na simbiose, os seres envolvidos se auxiliam, e ambos são beneficiados. E existe ainda o parasitismo, onde um organismo se beneficia e o outro

Biodiversidade da Costa Esmeralda

sai no prejuízo, mas sem que haja a morte deste, como na predação. Por exemplo, os mosquitos do gênero Corethrella possuem uma interação parasítica com anfíbios anuros. As fêmeas adultas de Corethrella necessitam de sangue para desenvolver seus ovos. Contudo, não são atraídas por CO2, como outros insetos hematófagos (aqueles que “chupam” sangue), mas sim pela vocalização de machos de anfíbios.

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Anuros gladiadores? Muitas espécies desenvolveram diversos comportamentos para defender os seus recursos. Eles podem competir por melhores locais de vocalização, atração de fêmeas e até mesmo por locais de oviposição.

Se o invasor insistir em permanecer nas proximidades do território ou até mesmo invadir o local, o macho residente não vai deixar por menos, e se torna um gladiador. Nesse instante, ambos os machos entram em confronto físico, e duelam até que um dos machos se afaste do local. O que venceu se torna então o macho residente. Muitas espécies realizam esse duelo, por exemplo a Hypsiboas faber e a Hypsiboas bischoffi, as quais apresentam uma modificação em sua mão, o chamado prepólex, que causa arranhões durante as brigas.

Foto: Caroline Batistim Oswald

O comportamento mais fácil de observar é o das vocalizações diferenciadas. Além daquele canto que normalmente escutamos nos coros em lagoas, os machos de algumas espécies desenvolvem um amplo repertório vocal, que inclui as vocalizações territoriais, servindo como um aviso aos invasores, dizendo que aquele território pertence a outro macho. Assim eles podem evitar a aproximação do invasor e até mesmo um embate físico. E se esse repertório não for eficiente? Aí muitos machos partem para a comunicação visual. Eles

realizam movimentos (chamados displays) com as pernas, a cabeça ou até todo o corpo que junto com a exposição das cores do corpo, auxiliam na defesa do seu território.

Macho de Hypsiboas bischoffi com injúrias no dorso e laterais, causadas pelo prepólex de outro macho.

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Anfíbios: Uma vida em dois mundos


Foto: Carolina Mallmann Erbes

Macho de Phyllomedusa distincta exibindo as cores de destaque.

Biodiversidade da Costa Esmeralda

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RĂŠpteis:

Conhecendo para desmistificar

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RĂŠpteis: Conhecendo para desmistificar


Autores Tobias Saraiva Kunz AndrĂŠ Ambrozio de Assis Anderson Rosa Carolina Mallmann Erbes Caroline Angri Caroline Batistim Oswald Erica Naomi Saito Ivo Rohling Ghizoni Jr Javier Toso Larissa Zanette da Silva Laura Helena Bento Dacol Rafael Godoy VĂ­tor de Carvalho Rocha Selvino Neckel de Oliveira

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Os répteis possuem características e inovações que possibilitaram serem os primeiros vertebrados a conquistar a colonização completa do ambiente terrestre: o desenvolvimento direto (não existe um estágio larval); a fecundação interna (macho introduz os espermatozoides no corpo da fêmea, evitando a desidratação dos gametas); e os ovos com casca, adaptações que evitam a morte dos embriões por dessecamento. Além disso, possuem uma pele espessa e escamosa, dificultando a dessecação. Estas são algumas das características responsáveis pela sua ocorrência em diversos habitats do planeta, inclusive em regiões áridas e semiáridas. São tradicionalmente agrupados em quatro ordens: Crocodylia (crocodilos e jacarés), Testudines (cágados, jabutis e tartarugas), Squamata (anfisbenas, cobras e lagartos) e Rynchocephalia (tuataras), sendo que este último grupo inclui apenas duas espécies que ocorrem somente na Nova Zelândia. Graças à grande diversidade morfológica, o grupo pode explorar os mais variados habitats e ocupar os mais diversificados nichos, incluindo os aquáticos, terrestres, arborícolas e fossoriais (vivem enterrados, como as anfisbenas ou cobras-cegas). Entre os países com maior diversidade de répteis, o Brasil ocupa a segunda posição, com cerca de 750 espécies registradas atualmen-

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te, ficando atrás apenas da Austrália. Levantamentos em áreas pouco estudadas vêm revelando a existência de espécies ainda por descrever. Os répteis, além de sua importância ecológica intrínseca, são excelentes indicadores ambientais, já que a maioria é habitat-especialista, ou seja, só consegue sobreviver em um ou em poucos ambientes, necessitando de um ecossistema equilibrado (associação entre meio biótico e abiótico) para manterem-se. Apesar disso, costumam receber menos atenção que os demais vertebrados na elaboração de estratégias de conservação. A matança não justificada de indivíduos, causada pela aversão popular aos répteis, pode contribuir para o declínio das populações de algumas espécies, mas a principal ameaça enfrentada diz respeito à destruição e descaracterização dos ecossistemas onde essas espécies ocorrem. A perda de espécies pode implicar em sérios desequilíbrios nos ecossistemas, dado que muitas espécies são predadas por aves, mamíferos e mesmo outros répteis, enquanto que outras são potenciais predadores, controlando populações de insetos e roedores, por exemplo. No entanto, são raros os estudos relacionados à conservação de répteis.

Répteis: Conhecendo para desmistificar


Foto: Tobias Saraiva Kunz

Cágado-pescoço-de-cobra (Hydromedusa tectifera).

O réptil de armadura Exceto as tartarugas marinhas, o cágadopescoço-de-cobra (Hydromedusa tectifera) é o único quelônio (grupo que inclui tartarugas, cágados e jabutis) que habita a região, vivendo

em rios, córregos e banhados. Pode se deslocar por terra também, mas devido a seus hábitos, principalmente noturnos, raramente é visto.

Foto: Tobias Saraiva Kunz

Vítima da caça O jacaré-do-papo-amarelo (Caiman latirostris) já es­teve próximo da extin­ção devido à caça, uma vez que havia grande interesse por sua carne e couro. Hoje suas populações estão se recuperando, inclusive perto de grandes cidades (onde a caça raramente ocorre) e graças a sua alta resistência e capacidade de tolerar águas poluídas.

Jacaré-do-papo-amarelo (Caiman latirostris).

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Foto: Tobias Saraiva Kunz

Lagartixa-das-casas (Hemidactylus mabouia).

De carona nos navios A lagartixa-das-casas (Hemidactylus mabouia) é uma espécie exótica, de origem africana. Supõe-se que chegou à costa da América do Sul através dos navios europeus no período da colonização, já que estes visitaram o continente africano e as trouxeram na viagem.

A iguaninha ou camaleãozinho (Enyalius iheringii), como é mais conhecido na região, é um lagarto de hábitos arborícolas, vivendo nas árvores, por isso poucas vezes avistado, embora seja uma espécie comum nas florestas das encostas.

Foto: Tobias Saraiva Kunz

Bom na camuflagem

Camaleãozinho (Enyalius iheringii).

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Répteis: Conhecendo para desmistificar


Cobra ou lagarto? mum é devido à sua semelhança com uma cobra e por perder ou “quebrar” partes da cauda muito facilmente, característica típica de muitos lagartos, conhecida por autotomia caudal, utilizada como forma de defesa.

A cobra-de-vidro (Ophiodes aff. striatus).

Biodiversidade da Costa Esmeralda

Foto: Tobias Saraiva Kunz

A cobra-de-vidro (Ophiodes aff. striatus) é na verdade um lagarto. Não possui patas dianteiras e as posteriores são vestigiais, ou seja, são bem reduzidas e indicam um resquício do que no seu ancestral já foi uma pata. O nome co-

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Foto: Tobias Saraiva Kunzz.

Teiú (Salvator merianae).

Visitante de muitos jardins O teiú (Salvator merianae), mais conhecido na região como lagarto-do-papo-amarelo, é muito comum. No verão pode ser visto mesmo dentro das cidades, em praças, jardins e terrenos baldios, mas passa os meses de inverno entocado. Muitas pessoas não gostam de sua presença em suas residências, porém ele não é venenoso e come animais como ratos e cobras. Ao contrário dos mamíferos e das aves, os répteis dependem de fontes externas de calor para

a regulação da própria temperatura. Por isso, é comum encontrar cobras e lagartos repousando, expondo-se ao sol em superfícies quentes. Dessa forma, usa-se o termo lagartear para as pessoas “preguiçosas” que ficam repousando ao sol. Em baixas temperaturas, os répteis reduzem seu metabolismo e, por consequência, reduzem sua atividade. Portanto, a chance de encontrar um réptil ativo é menor nos períodos mais frios do ano.

Esta pequena e rara espécie de lagarto (Ecpleopus gaudichaudi) vive no folhiço da mata, e quando se sente ameaçado sua estratégia de defesa é esconder-se sob as folhas. Possui corpo muito alongado e membros reduzidos que facilitam seu deslocamento sob o folhiço.

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Foto: Tobias Saraiva Kunz

Pequeno lagarto

Lagarto (Ecpleopus gaudichaudi).

Répteis: Conhecendo para desmistificar


Toda serpente é peçonhenta?

Foto: Tobias Saraiva Kunz

Jararaca (Bothrops jararaca).

Foto: Tobias Saraiva Kunz

A grande maioria das serpentes não é peçonhenta. As serpentes de importância médica no Brasil são aquelas pertencentes às famílias das jararacas e cascavéis (Viperidae) e das cobras-corais (Elapidae), que possuem dentes especializados para inoculação do veneno.

A jararaca (Bothrops jararaca) é uma espécie muito comum e, por isso, responsável por grande parte dos acidentes ofídicos nas regiões sul e sudeste do Brasil. Geralmente, é encontrada próximo às matas, mas pode ser encontrada nas restingas e mesmo em terrenos baldios. Os acidentes causados por esta espécie geralmente são de gravidade baixa ou moderada.

A jararacuçu (Bothrops jararacussu) é uma das maiores espécies da família das jararacas, podendo chegar a 2 m de comprimento. Mais rara, vive sempre em matas bem preservadas. Seu veneno é muito potente e geralmente causa acidentes graves.

Jararacuçu (Bothrops jararacussu).

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Foto: Tobias Saraiva Kunz

Dormideira (Dipsas albifrons).

É uma jararaca? A dormideira (Dipsas albifrons) é uma espécie inofensiva e de hábitos noturnos que se alimenta exclusivamente de lesmas e caracóis. Sua coloração, porém, é muito parecida com a das jararacas, sendo assim chamada de mimética.

Foto: Tobias Saraiva Kunz

Além disso, quando assustada, triangula a cabeça. Esses mecanismos de defesa, eficazes contra alguns de seus predadores naturais, fazem com que seja confundida com a jararaca por pessoas que as acabam matando.

Esta serpente (Xenodon neuwiedii) também é erroneamente chamada de jararaquinha por ser confundida com esta. No entanto, ela não é peçonhenta. Se alimenta exclusivamente de anfíbios, principalmente sapos. Vive na floresta e possui hábitos diurnos.

Serpente (Xenodon neuwiedii).

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Répteis: Conhecendo para desmistificar


Inofensivas

Foto: Tobias Saraiva Kunz

Esta pequena serpente inofensiva (Taeniophallus bilineatus) vive no folhiço da mata, onde caça pequenos anfíbios. Não é rara, mas por seus hábitos e pequeno tamanho dificilmente é avistada.

Serpente (Taeniophallus bilineatus).

Biodiversidade da Costa Esmeralda

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Foto: Tobias Saraiva Kunz

Serpente (Thamnodynastes cf. nattereri).

Esta serpente (Thamnodynastes cf. nattereri) vive nas matas das encostas, próximo a córregos onde caça anfíbios. É inofensiva e de hábitos principalmente noturnos.

Foto: Tobias Saraiva Kunz

A cobra-d`água (Erythrolamprus miliaris), outra serpente inofensiva, é muito comum nos banhados das baixadas, onde se alimenta principalmente de anfíbios, incluindo seus ovos e girinos e também pequenos peixes.

Cobra-d`água (Erythrolamprus miliaris).

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Répteis: Conhecendo para desmistificar


Foto: Tobias Saraiva Kunz

Coral-verdadeira (Micrurus corallinus).

O colorido de alerta A coral-verdadeira (Micrurus corallinus), apesar de possuir veneno potente, é uma espécie pouco agressiva e incapaz de desferir botes, causando poucos acidentes. Têm hábitos crípticos,

isto é, passa maior parte do tempo sob o solo ou folhiço da mata, onde caça principalmente cobras-cegas e algumas espécies de serpentes e lagartos.

Foto: Caroline Angri

Órgão reprodutivo especial

Hemipênis de cobra evertido apresentando seus espinhos.

Biodiversidade da Costa Esmeralda

Nos répteis, existem dois tipos de órgão copulador nos machos: tartarugas e crocodilos possuem pênis; lagartos e cobras possuem hemipênis, uma estrutura oca, bifurcada, não visível externamente, pois fica guardada dentro da cauda. Durante o acasalamento somente um desses órgãos é inflado. Essa estrutura é ornamentada por espinhos ou por ranhuras e protuberâncias, que têm a função de manter a fêmea ligada ao macho durante a cópula. O formato do hemipênis é específico de cada espécie. 83


Peixes de água doce: O mundo sob a água

Autores Lucas Nunes Teixeira Miriam Sant’Anna Ghazzi Ana Paula Cichella Burigo Gisela Costa Ribeiro Daniel dos Santos Gomes Ronaldo da Silva Sonia Buck

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Peixes de água doce: O mundo sob a água


Biodiversidade da Costa Esmeralda

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Dentre os animais vertebrados, o grupo dos peixes é o que apresenta maior número de espécies, com grande diversidade de cores e formas. As espécies mais conhecidas pela ciência habitam as águas salgadas, porém, existe uma grande diversidade nas águas doces (rios, riachos de montanhas e planícies, lagos e lagoas) e estuarinas (manguezais e lagunas). São animais que suportam grandes pressões atmosféricas, podendo habitar profundezas oceânicas de até 4000 m, bem como em cursos d’água em grandes altitudes. Além disso, são capazes de suportar amplos gradientes de temperatura. Os peixes mais conhecidos popularmente são revestidos de escamas, mas alguns podem ser cobertos por pele (como os bagres) ou ainda placas ósseas (como os cascudos de água doce). A maioria dos grupos apresenta uma estrutura interessante, a bexiga natatória, que auxilia na flutuação e impede o animal de afundar. Contam ainda com o sistema da linha lateral, um órgão sensorial mecanorreceptor, pelo qual sentem as mudanças e movimentos na água, como, por exemplo, a presença de um predador ou de algum outro peixe do cardume.

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Os peixes encontrados em riachos, lagoas e lagunas da Costa Esmeralda apresentam características especiais, que os adaptam a estes ambientes. Estas especializações podem se refletir na forma do corpo: cilíndricos (adaptados para predação) e comprimidos lateralmente (para rápido deslocamento na coluna d’água, como os lambaris). Estes peixes também demonstram, em geral, pequeno porte, e uma vez que as águas claras e rasas facilitam sua captura, o dorso apresenta coloração escura, para que se disfarcem no substrato. A alimentação dos peixes de riacho é extremamente variada, podendo ser de itens do próprio rio (como pequenos crustáceos) ou de alimentos oriundos do ambiente terrestre (como folhas de árvores). A floresta que margeia os riachos da Mata Atlântica é de extrema importância aos peixes que vivem nestes cursos d’água, fornecendo grande parte da alimentação. Os rios que cortam estes ambientes são comumente desprovidos de alimento devido às suas correntes, diferentes de ambientes de águas calmas, onde há mais algas e vegetação, e outros organismos que servem como alimento aos peixes.

Peixes de água doce: O mundo sob a água


Foto: Lucas Nunes Teixeira

Jundiá encontrado na ARIE da Costeira de Zimbros.

O peixe-gato - Jundiá (Rhamdia quelen) O jundiá é um bagre, logo, não possui escamas, mas sim um couro, bem liso e escorregadio, como pele. É um peixe noturno, que vive no fundo de rios e lagos, com pouca correnteza, a procura de alimento, como crustáceos, insetos e folhas que caem dentro da água. Sua co-

Biodiversidade da Costa Esmeralda

loração varia de marrom avermelhado a cinza esverdeado. Possui barbilhões (filamentos no focinho) dando-lhe o nome popular de “peixe-gato”. Pode chegar ao tamanho de 50 cm, servindo como um delicioso alimento para pessoas que moram perto de rios.

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Foto: Lucas Nunes Teixeira

Cará encontrado na ARIE da Costeira de Zimbros.

Pais cuidadosos - Cará (Geophagus brasiliensis) Peixe da família das tilápias, os carás são peixes que se adaptam facilmente a vários tipos de ambientes, até mesmo à água salobra. Vivem em águas mais remansosas e calmas, alimentando-se de uma variedade de invertebrados, peixes e matéria vegetal. Possuem o corpo coberto por escamas e um colorido nas nadadeiras

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que varia do amarelo ao vermelho; os olhos podem apresentar um colorido azul-esverdeado. Durante o período reprodutivo possuem cuidado parental, ou seja, os pais cuidam dos filhotes, formando ninhos para proteger os ovos, e o macho desenvolve uma protuberância atrás da cabeça dandolhe o nome popular de “cará-cartola”.

Peixes de água doce: O mundo sob a água


Foto: Amanda Cruz Mendes Foto: Miriam Ghazzi

Foto: Miriam Ghazzi

Muçum encontrado em Itapema.

Muçum com 30 cm.

Ressurgindo da lama - Muçum (Synbranchus marmoratus) Este peixe possui o corpo cilíndrico e alongado, sendo coberto por uma grossa camada de muco, o que o torna extremamente escorregadio. São animais bem resistentes a variações ambientais, podendo sobreviver em rios e lagos, que secam durante um período do ano, en-

terrando-se na lama. Pode ser encontrado nas regiões tropicais e subtropicais da América. São mais ativos à noite, quando procuram por alimentos como vermes e crustáceos aquáticos. Causam grande medo, pois são confundidos com cobras, devido à sua aparência.

O peixe-elétrico - Tuvira (Gymnotus cf. pantherinus) É uma espécie de água doce que alcança comprimento máximo de 60 cm. Mora nas margens e remansos dos rios, sendo encontrada do norte da Amazônia até a Argentina. Vivem em águas turvas e não possuem uma boa visão. Como forma de compensar esta característica, evoluíram um sistema muscular que gera pequenas descargas elétricas, formando um campo elétrico em volta de seu corpo, como

se fosse um radar, para achar alimento, desviar de obstáculos e identificar seus semelhantes em épocas reprodutivas ou não. Os indivíduos são ativos durante o crepúsculo e no período noturno, quando saem à procura de alimentos, como insetos, micro-crustáceos e peixes de menor porte. Possuem respiração aérea, ou seja, quando precisam respirar, nadam até a superfície e engolem uma bolha de ar.

Foto: Miriam Ghazzi

Exemplar de tuvira, encontrado em Itapema, com tamanho de 25 cm.

Biodiversidade da Costa Esmeralda

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Foto: Lucas Nunes Teixeira

Exemplar de lambari-listrado, encontrado em riachos preservados na Costa da Esmeralda.

Os lambaris Pertencentes a uma das famílias com maior número de espécies e diversidade de cores, chamada Characidae, os lambaris são encontrados em muitos ambientes, mas, principalmente, caracterizam a ictiofauna de riachos de água doce. Justamente por estarem em diferentes ambientes, são amplamente conhecidos pelos humanos, porém não são poucas as espécies que podem ser encontradas nos riachos. Apesar de parecerem iguais, devido o formato do corpo e nadadeiras, algumas espécies possuem particularidades, como o lambari-listrado (Hollandichthys multifasciatus), que só pode ser encontrado em águas totalmente limpas,

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ou seja, águas sem esgoto e lixo gerado pelos humanos. Possuem um hábito alimentar muito diverso, já que comem variados tipos de estruturas vegetais e muitas formas de invertebrados (vermes, insetos, crustáceos), incluindo também em suas dietas escamas e pequenos peixes. A espécie Deuterodon singularis, por exemplo, alimenta-se principalmente de folhas que caem dentro dos rios e riachos vindos da mata ciliar que cerca o rio, por isso é muito importante preservar, além dos rios, as matas que os cercam, para que os peixes tenham o que comer.

Peixes de água doce: O mundo sob a água


Foto: Miriam Ghazzi Foto: Miriam Ghazzi

Lambari-do-rabo-amarelo (Astyanax laticeps).

Lambari-dentuço (Deuterodon singularis).

Pequenos e barrigudinhos Na Costa Esmeralda foram encontradas as seguintes espécies de barrigudinhos: Phalloceros cf. caudimaculatus, Phalloceros harpagos, Phalloceros spiloura, Poecilia vivipara, Jenynsia multidentata.

Foto: Lucas Nunes Teixeira

Todas estas espécies pertencem à ordem Cyprinodontiformes, representada, em sua grande maioria, por peixes bem pequenos, geralmente com cerca de 3 a 4 cm de com-

primento. A cor pode variar, sendo geralmente de cinza-escuro a verde-oliva, com as margens das escamas coloridas ou corpo todo pontilhado. Apresentam a boca voltada para cima, o que lhes ajuda na alimentação, principalmente, de larvas de insetos presentes na superfície da água. Ocorrem em rios e riachos da América Central e América do Sul, e são de grande interesse para aquariofilia, devido seu colorido e facilidade de criação em cativeiro.

Barrigudinho, encontrado na Ponta do Araçá.

Biodiversidade da Costa Esmeralda

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Peixes Recifais


Peixes Recifais: Essenciais para a manutenção da vida nos ecossistemas marinhos

Autores Anderson Antonio Batista Juan Pablo Quimbayo Agreda Renato Morais Araujo

Biodiversidade da Costa Esmeralda

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Ambientes recifais podem ser considerados como os ecossistemas de maior diversidade no ambiente marinho. Os peixes são organismos fundamentais para o funcionamento e manutenção de ecossistemas aquáticos. Compreender como as comunidades de peixes são estruturadas em diferentes ambientes é fundamental para o desenvolvimento de estratégias de manejo e conservação destes organismos, não somente por proporcionar um aumento no conhecimento da biologia e evolução de peixes recifais, mas também para servir como base para o desenvolvimento de políticas públicas de conservação destes ambientes.

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No Brasil cerca de 10% das espécies de peixes recifais são endêmicas, ou seja, ocorrem exclusivamente na costa brasileira. Mais de 520 espécies de peixes residem ao longo da vasta e diversa costa que varia desde águas quentes com recifes de coral no Nordeste até as águas mais frias no Sul e Sudeste com recifes rochosos e eventos de ressurgência. O afloramento ou ressurgência é um fenômeno oceanográfico que consiste na subida de águas profundas e frias, muitas vezes ricas em nutrientes, para regiões menos profundas do oceano. No sudeste do Brasil, os costões rochosos representam o principal habitat para a biota recifal.

Peixes Recifais


Foto: Anderson Batista

O sarampinho (Amblycirrhitus pinos) tem esse nome por causa de suas várias pintas na cabeça.

Peixe Sarampinho O sarampinho é encontrado em recifes rochosos, frequentemente em fendas e tocas pouco fundas, geralmente repousando no substrato. Tem como base alimentar pequenos crustáce-

Biodiversidade da Costa Esmeralda

os, como copépodes, camarões, caranguejos, larvas e ainda poliquetas. Apreciado pelos aquaristas como espécie ornamental. Esta atividade pode colocar a espécie em risco.

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Foto: Anderson Batista

O badejo-mira (Mycteroperca acutirostris) é um predador de pequenos peixes em cardume.

Troca de Sexo Os juvenis de badejo-mira habitam bancos de algas, manguezais e costões rochosos, geralmente em águas pouco profundas. Quando adultos, preferem áreas com maior quantidade de blocos de rochas, tocas e fendas do recife rochoso onde se posicionam na colu-

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na d´água para caçar. Um fato muito curioso da espécie é que todos nascem fêmeas e, quando atingem a maturidade, as fêmeas maiores trocam de sexo tornando-se machos. Juntam-se em grandes cardumes para desovar (agregações reprodutivas).

Peixes Recifais


Foto: Anderson Batista

A garoupa (Epinephelus marginatus) pode chegar a 1,5m, o tamanho de uma pessoa pequena.

Beleza Ameaçada A garoupa é a e spécie que ilustra a nota de cem reais. Muito apreciada pelos caçadores submarinos e pescadores tradicionais pelo sabor de sua carne e por ser uma espécie dócil, facilitando a captura. Por esta razão, está ameaçada de extinção segundo a IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza). É considerada uma espécie solitária e territorial, exceto quando se junta para

Biodiversidade da Costa Esmeralda

desovar formando grandes cardumes. Quando estas agregações reprodutivas são descobertas pelos pescadores, pode ocorrer de populações inteiras serem dizimadas em poucos dias. Alimenta-se, quando jovem, de vários animais marinhos menores, principalmente de pequenos ca­ranguejos e pequenos polvos, já na fase adulta, alimenta-se em proporção maior de peixes.

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Foto: Anderson Batista

Os grandes olhos da fogueira (Myripristis jacobus) a permitem enxergar bem e se alimentar durante o período noturno.

De Cabeça para Baixo A fogueira é uma espécie de hábitos noturnos encontrada em ambientes rasos até recifes rochosos mais profundos. Esta espécie pode ser encontrada em cardumes e durante o dia utiliza fendas e grandes tocas como

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abrigo e proteção contra predadores. Sua dieta é, principalmente, constituída por organismos planctônicos. Ocasionalmente, são observados de cabeça para baixo dentro das fendas no recife rochoso.

Peixes Recifais


Faxineiros do fundo do mar ção de parasitas a outras espécies de peixes, incluindo seus próprios predadores. Alimentam-se principalmente de de algas e esponjas, porém, uma vasta gama de outros organismos marinhos pode fazer parte de sua dieta.

Foto: Anderson Batista

O frade-cinza geralmente é visto nadando solitário no recife. Às vezes, formam pares e assumem hábitos monogâmicos de reprodução. Na fase inicial de seu ciclo de vida, os juvenis são limpadores, ou seja, fornecem um serviço de remo-

O frade-cinza, ou peixe-anjo-marrom, (Pomacanthus arcuatus) é o “primo” mais próximo do frade, porém é mais raro nos costões de Santa Catarina.

Biodiversidade da Costa Esmeralda

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Foto: Anderson Batista

O paru ou peixe-frade (Pomacanthus paru) apresenta variação de cor ao longo da vida. Os jovens são negros listrados de amarelo, já o adulto tem coloração azulada.

Pais Protetores Os parus, também conhecidos como peixes-frade, possuem uma biologia muito parecida com a espécie anterior. São bem comuns em recifes rochosos rasos e também são limpadores na fase inicial do seu ciclo de vida. Quando formam pares para

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a reprodução, costumam defender vigorosamente seu território de desova. Possuem hábitos alimentares parecidos com a espécie anterior que inclui esponjas, tunicados, algas marinhas, zoantídeos, gorgônias, hidróides e briozoários.

Peixes Recifais


parasitas e pele morta de outros peixes, limpando-os. Para estimular seu cliente, o jovem paru nada de maneira agitada e toca o cliente com as nadadeiras pélvicas.

Foto: Anderson Batista

Os juvenis de Pomacanthus paru, na fase inicial, possuem coloração muito diferente dos adultos. Eles também são faxineiros dos recifes de Santa Catarina: alimentam-se de

Este juvenil de Pomacanthus paru está removendo os parasitas de um Pseudupeneus maculatus, peixe“trilha”.

Biodiversidade da Costa Esmeralda

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Foto: Anderson Batista

O peixe-anjo-amarelo (Holacanthus tricolor) consegue se nutrir comendo esponjas, algumas das quais são tóxicas.

Peixes Anjos Ameaçados Podem ser encontrados em recifes de coral e rochosos. Alimentam-se basicamente de esponjas, porém complementa sua dieta com tunicados, algas marinhas, zoantídeos, gorgônias, hidróides e briozoários. A reprodução é

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bem parecida entre os peixes anjo, os óvulos são liberados na água e fecundados pelos machos. Estas espécies sofrem muita pressão pelo comércio de espécies ornamentais.

Peixes Recifais


Foto: Anderson Batista

O peixe-anjo-rainha, peixe-anjo-rei (Holacanthus ciliaris) pode ser encontrado nadando solitário ou acompanhando outras espécies durante as atividades de alimentação.

Biodiversidade da Costa Esmeralda

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Foto: Anderson Batista

Os adultos do budião (Bodianus rufus) se alimentam de estrelas-do-mar, crustáceos, moluscos e ouriços.

Budiões Limpadores produtivos parecidos com os dos badejos-mira, com mudança de sexo no decorrer da vida. São apreciados como alimento em algumas regiões do Brasil.

Foto: Sergio Floeter

Quando juvenis, tanto o budião quanto o budião-rei podem ser “limpadores” removendo ativamente parasitas de peixes maiores. Possuem hábitos re-

Os budiões-rei (Bodianus pulchellus) já foram vistos quebrando carapaças de crustáceos em pedras para poderem se alimentar das partes moles desses bichos.

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Peixes Recifais


Foto: Anderson Batista

O cirurgião-baiano (Acanthurus bahianus) é um peixe herbívoro, ou seja, alimenta-se quase que exclusivamente de algas marinhas.

Peixes Cirurgiões Geralmente, ocorrem em pequenos cardumes de cinco ou mais indivíduos, com hábitos diurnos. Alimentam-se principalmente de algas, portanto são consideradas espécies herbívoras. Em alguns locais podem ser observados comendo algas que crescem em tartarugas-marinhas, limpando-as.

Foto: Anderson Batista

Os cirurgiões habitam recifes rasos com formações coralinas ou rochosas. Possuem esse nome por possuírem espinhos afiados como um bis­ turi de cirurgião. Essas ferramentas de defesa ficam escondidas em ambos os lados da base da cauda e podem causar ferimentos dolorosos.

O peixe-cirurgião (Acanthurus chirurgus) tem esse nome porque possui um espinho perto da cauda de corte muito afiado, semelhante a um bisturi.

Biodiversidade da Costa Esmeralda

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Aranhas: As arquitetas da natureza

Autores Ana LetĂ­cia Trivia Leandro Malta Borges

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Aranhas: As arquitetas da natureza


Biodiversidade da Costa Esmeralda

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As aranhas são animais bastante temidos pela maioria das pessoas que, geralmente, pouco sabem sobre estes animais. Um exemplo desta falta de conhecimento, é que muitos pensam que todas as aranhas são perigosas, e por isso matam todas que possam cruzar seus caminhos. Podemos citar também o fato de várias pessoas acharem que estes aracnídeos são insetos, ignorando o fato de que insetos possuem três pares de pernas e um par de antenas, enquanto as aranhas, como todos os aracnídeos, possuem 4 pares de pernas, um par de quelíceras e um par de pedipalpos, além de não possuírem antenas.

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A ordem Araneae, onde estão inseridas as aranhas, representa um dos grupos mais diversos de organismos, sendo a segunda maior em número de espécies entre os aracnídeos, com mais de 42.000 espécies descritas. As aranhas estão distribuídas pelo mundo inteiro, estando presentes em quase todos os ambientes terrestres, sendo que sua abundância e diversidade estão relacionadas positivamente à complexidade estrutural do ambiente. Isto significa que, com uma maior riqueza de vegetação, maior é a diversidade de aranhas.

Aranhas: As arquitetas da natureza


Foto: Ana Letícia Trivia

Aranha da família Araneidae alimentando-se de um vagalume.

Controle de insetos Estes aracnídeos são considerados predadores generalistas e possuem uma grande importância para a manutenção do equilíbrio ecológico dos ecossistemas terrestres, pois contribuem fortemente no controle de popu-

lações de insetos como baratas, gafanhotos, e até mesmo outras aranhas, já que a grande maioria delas pratica o canibalismo, e não apenas a famosa viúva-negra, como muitos pensam.

Aranhas pescadoras

Foto: Ana Letícia Trivia

Algumas aranhas comem até mesmo pequenos vertebrados, como no caso das aranhas da família Trechaleidae, que vivem próximas a riachos pedregosos, alimentando-se de pequenos peixes e jovens anuros (girinos).

Espécime da família Trechaleidae.

Biodiversidade da Costa Esmeralda

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Foto: Ana Letícia Trivia

Vespa da família Pompilidae carregando uma aranha-armadeira (Phoneutria keyserlingi) paralisada para sua toca.

Inimigos mortais Seus principais inimigos naturais são as outras aranhas, existindo até mesmo algumas espécies que alimentam-se apenas de outras aranhas. Sapos, lagartixas e aves também são predadores conhecidos destes aracnídeos, além das vespas, consideradas suas

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arquiinimigas. As vespas caçadoras de aranhas capturam-nas e injetam um veneno paralisante, arrastando-as até sua toca, onde depositam um ovo sobre o abdômen de sua vítima, assim, quando a larva nasce, alimenta-se da aranha ainda viva.

Aranhas: As arquitetas da natureza


A presença da glândula de veneno associada às quelíceras é uma característica exclusiva das aranhas, sendo utilizada para alimentação e defesa. Mas nem por isso devemos considerá-las todas perigosas, pois a grande maioria das aranhas é inofensiva, não ocasionando acidentes humanos. Diversos fatores influenciam na periculosidade de uma espécie, como: a toxicidade do veneno para humanos, quantidade de veneno injetado, capacidade da quelícera perfurar a pele, e até mesmo a preferência de hábitat das espécies (podendo viver em locais pouco frequentados pelos humanos).

Foto: Ana Letícia Trivia

A minoria que dá a má fama

Aranha armadeira (Phoneutria keyserlingi) macho.

Nas coletas realizadas pelo grupo de fauna araneológica na Costa da Esmeralda, dentre as aranhas de interesse médico, apenas a aranha-armadeira foi encontrada, principalmente nos locais onde a vegetação sofreu intensa degradação e está no seu estágio inicial de regeneração.

Biodiversidade da Costa Esmeralda

Foto: Ana Letícia Trivia

As aranhas peçonhentas de interesse médico no Brasil são representadas pelos gêneros Latrodectus (viúva-negra), sendo que esta não é encontrada no Estado de Santa Catarina, Loxosceles (aranha-marrom) e Phoneutria (aranha-armadeira).

Aranha armadeira (Phoneutria keyserlingi) fêmea.

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Foto: Ana Letícia Trivia

Aranha errante da espécie Ctenus medius.

Sensor de presença

As aranhas podem ser divididas em diferentes grupos, chamados guildas, de acordo com a maneira com que capturam suas presas. Por exemplo, as aranhas que caçam ativamente no solo, procurando suas presas, são agrupadas na guilda das aranhas errantes (ou caçadoras de solo), como a aranha da espécie Ctenus medius, pertencente à mesma família que a aranha-armadeira, mas com o veneno pouco tóxico para humanos, não sendo uma causadora de acidentes.

Algumas aranhas tecem alguns fios de teia sensitiva ao redor de suas tocas, e quando sentem vibrações através dela, atacam e capturam sua presa, como no caso das espécies pertencentes à família Nemesiidae . Foto: Ana Letícia Trivia

Aranhas errantes

Aranha da família Nemesiidae .

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Aranhas: As arquitetas da natureza


Foto: Ana Letícia Trivia

Emboscadoras Existem também aranhas que fazem emboscadas para capturar suas presas, como por exemplo as aranhas da família Deinopidae, que constroem uma espécie de rede com sua teia, capturando insetos enquanto ficam penduradas de cabeça para baixo.

Aranha emboscadora do gênero Deinopis esperando alguma presa passar.

Foto: Ana Letícia Trivia

Belas armadilhas Já as aranhas que constroem teias orbiculares são bastante conhecidas pela forma geométrica de suas teias.

Aranha da família Araneidae em sua teia orbicular.

Biodiversidade da Costa Esmeralda

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Opiliões: Não somos aranha não!

Autoras Amanda Cruz Mendes Ana Letícia Trivia

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Opiliões: Não somos aranha não!


Biodiversidade da Costa Esmeralda

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Os opiliões, também chamados de aranha-alho ou aranha-fedorenta, são aracnídeos pouco conhecidos pelo público, principalmente por causa de seus hábitos crípticos: geralmente vivem em locais escondidos e ficam mais ativos durante a noite. Os opiliões são muito confundidos com as aranhas, porém estas possuem o corpo claramente dividido em duas partes, com uma cintura entre elas chamada pecíolo. Já o corpo dos opiliões, apesar de também ser dividido em duas partes, é mais compacto e não possui pecíolo. Os opiliões são animais cosmopolitas, ou seja, são encontrados em praticamente todo o mundo, e mais de 6.400 espécies são conhecidas pela ciência, a maior parte destas ocorrendo em regiões

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tropicais úmidas. Na APA da Ponta do Araçá e ARIE da Costeira de Zimbros foram encontradas cerca de 20 espécies de opiliões, sendo que algumas ainda não foram estudadas e nomeadas por cientistas. Os opiliões raramente estão presentes no ambiente urbano, e são mais restritos aos ambientes de floresta onde podem ser encontrados no folhiço (folhas acumuladas nos solos das florestas), em troncos podres, no solo ou sobre as plantas. Podem habitar ambientes mais secos como a caatinga, cerrado e desertos, mas sempre estão associados a refúgios úmidos como manchas de vegetação, embaixo de pedras e dentro de cavernas, pois são muito sensíveis à falta de água no ambiente.

Opiliões: Não somos aranha não!


Foto: Amanda Cruz Mendes

Macho de Geraecormobius rohri.

Que fedor! Apesar de exalarem um cheiro forte, os opiliões não são venenosos. Tal cheiro vem de quinonas e fenóis, substâncias secretadas por suas glândulas repugnatórias, com função defensiva contra predadores. Esse odor é comum de ser sentido andando a noite na floresta em áreas de Mata Atlântica, como a região de Costa Esmeralda. O líquido sai das aberturas das glândulas, os ozóporos, que ficam na lateral do corpo, próximos ao segundo par

Biodiversidade da Costa Esmeralda

de pernas. O animal pode borrifar o líquido sobre o seu próprio corpo formando uma névoa química defensiva quando evapora. Em alguns casos, o líquido pode ser eliminado em jato e direcionado ao predador. A defesa química dos opiliões funciona bem com sapos, formigas e aranhas, mas parece não afetar gambás e algumas aves. Pode causar irritação na pele nos humanos, mas não representa grandes riscos à nossa saúde.

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Foto: Carolina Mallmann Erbes

Macho de Geraecormobius rohri.

Armados para defesa A presença de espinhos no corpo e no quarto par de pernas em espécies da família Gonyleptidae, como Geraecormobius rohri, pode protegê-lo contra predadores. Os machos têm essa armação de espinhos muito desenvolvida e algumas vezes, quando são ma-

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nipulados vivos, movem o quarto par de pernas vigorosamente em movimento de pinça na tentativa de beliscar com os espinhos. Também podem tentar beliscar usando as quelíceras e pedipalpos, que são apêndices usados para captura de presas e alimentação.

Opiliões: Não somos aranha não!


Foto: Amanda Cruz Mendes

Ceratomontia brasiliana comparada a um palito de fósforo.

Pequenos desconhecidos Apresentam tamanhos variados e podem ser muito pequenos, especialmente os que vivem no solo e no folhiço como os pequenos opiliões da família Triaenonychidae, alguns com adultos com

Biodiversidade da Costa Esmeralda

menos de um milímetro como a espécie Ceratomontia brasiliana. Esse tamanho associado a uma coloração bastante discreta, em tons de marrom, torna esses animais quase imperceptíveis a olho nu.

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Foto: Adriano Brilhante Kury

Geraecormobius rohri.

Também em cores Porém existem espécies relativamente grandes, como por exemplo, Geraecormobius rohri, um dos maiores opiliões encontrados na região de Costa Esmeralda com 1,5 cm de tamanho de corpo

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e 15 cm contando com as pernas. São também coloridos, além dos tons de marrom-escuro e marrom-avermelhado, possuem padrões de manchas amarelo-esverdeadas e círculos brancos.

Opiliões: Não somos aranha não!


Foto: Amanda Cruz Mendes

Geraecormobius rohri sob luz UV.

Eles brilham!

Existem espécies com corpo pequeno e pernas bastante compridas, com até 30 vezes o tamanho do corpo. Por causa dessa característica, essas espécies são também conhecidas como aranhas-bailarina. Na Costa Esmeralda, a espécie de aranha-bailarina mais comum é Abaetetuba citrina que possui 20 cm de uma ponta a outra das pernas e apenas 3 mm de tamanho de corpo. As aranhas-bailarina apresentam um comportamento de defesa em que movimentam o corpo para cima e para baixo rapidamente de forma que o predador não consiga identificar a posição real do animal.

Um fato interessante sobre os opiliões é que algumas partes de seu corpo ficam fluorescentes sob luz UV, e inclusive os pesquisadores usam esse truque para visualizá-los melhor nas coletas noturnas. Em Geraecormobius rohri, as manchas amarelo-esverdeadas ficam bastante destacadas com a ação da luz ultravioleta. Foto: Amanda Cruz Mendes

As belas bailarinas

Abaetetuba citrina com corpo em detalhe.

Biodiversidade da Costa Esmeralda

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Foto: Amanda Cruz Mendes

Macho de Serracutisoma catarina.

Juntinhos Os opiliões podem apresentar o comportamento de gregarismo: ficam imóveis em ambientes pouco iluminados e úmidos, com os corpos distantes um dos outros de zero a 5 cm e as pernas muito sobrepostas. A espécie Serracutisoma catarina é encontrada em grupos que podem chegar a mais de 30 indivíduos. Pouco antes do pôr-do-sol, os grupos se dispersam e os indivíduos deixam o abrigo diurno para buscar alimento. O

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gregarismo não parece ser entre indivíduos aparentados, não são grupos fixos, e irmãos não ficam juntos com o fim do cuidado maternal. Por outro lado, não parece ocorrer por acaso, sendo um fenômeno social. É uma provável resposta comportamental ao estresse ambiental, como mecanismo de regulação e redução de evaporação. Além disso, aumenta o efeito repulsivo das glândulas de cheiro e diminui chance de predação individual.

Opiliões: Não somos aranha não!


Foto: Amanda Cruz Mendes.

Fêmea de Serracutisoma catarina.

E também cuidam dos filhotes O cuidado parental por parte da mãe (e em alguns casos do pai) dos ovos e filhotes é um fenômeno comum entre os opiliões. As fêmeas de Serracutisoma catarina colocam cerca de 100 ovos por

Biodiversidade da Costa Esmeralda

vez, em locais úmidos, escuros, em espaços entre rochas graníticas ao longo de margens dos rios. Elas cuidam de seus ovos até que os filhotes eclodam e sejam capazes de se alimentar.

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Besouros rola-bosta: Os lixeiros da floresta

Autores Camila Claudino de Oliveira Mariah Wuerges Malva Isabel Medina Hernรกndez

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Besouros rola-bosta: Os lixeiros da floresta


Biodiversidade da Costa Esmeralda

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Os insetos formam o grupo de animais mais diversificado do planeta e entre eles os besouros, agrupados dentro da ordem Coleoptera, são os que têm o maior número de espécies. Os besouros conhecidos popularmente por “rola-bosta” pertencem à subfamília Scarabaeinae, com cerca de 7 mil espécies descritas. O nome é devido ao tipo de alimentação destes besouros: fezes! Mas também se alimentam de outros tipos de matéria orgânica em decomposição, incluindo carcaças e material vegetal. Essa alimentação acontece tanto na fase larval como na fase adulta - isso mesmo, os besouros, assim como as borboletas, também possuem uma fase larval, uma fase como pupa ou casulo e após a metamorfose se tornam besouros, insetos voadores.

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Besouros rola-bosta: Os lixeiros da floresta


Foto: Mariah Wuerges

Fêmeas de Coprophanaeus saphirinus alimentando-se de carne. Foto realizada no Laboratório de Ecologia Terrestre Animal (LECOTAUFSC), em estudos de comportamento.

Alimentação – um cardápio um tanto excêntrico! A alimentação destes besouros é composta de matéria orgânica em decomposição: material vegetal, fezes e carcaças. Ao se alimentarem e cuidarem do desenvolvimento dos seus filhotes, vão limpando de resíduos todos os ambientes da floresta, possuindo desta forma um papel importante na ciclagem dos nutrientes. Consequentemente, os besouros escarabeíneos realizam várias funções ecossistêmicas, incluindo a formação de túneis no solo, onde constroem seus ninhos e depositam o alimento, podendo ser chamados de arquitetos

Biodiversidade da Costa Esmeralda

ecológicos! E por que? Porque ao cavar seus túneis, realizam a aeração do solo, modificando o ambiente e permitindo a ocorrência de trocas gasosas entre solo e atmosfera. Estas trocas gasosas são vitais para a sobrevivência das plantas, e consequentemente para os animais! Além disso, os escarabeíneos, ao remover fezes de animais de criação, como por exemplo bovinos, previnem a reprodução de moscas parasitas nas fezes, controlando sua invasão no ambiente, e podem ajudar na dispersão secundária de algumas sementes.

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Algumas espécies de escarabeíneos rolam a matéria orgânica encontrada na floresta e a levam até um local protegido, onde fazem seu ninho. E o que acontece? As fêmeas, depositam um único ovo nessas bolas. Destes ovos, nascem as larvas, que quando bem alimentadas pelo material depositado neste pequeno ambiente, se desenvolvem até se transformarem em uma pupa, da qual emerge o besouro adulto. Mas é importante ressaltar que não são todas as espécies que fazem e carregam essas bolinhas (chamados de roladores). Algumas espécies escavam túneis no solo para onde levam a matéria orgânica (são chamados de tuneleiros) e outras espécies são residentes, depositando seus ovos e se alimentando no local em que encontraram o recurso. As fêmeas dos besouros escarabeíneos não apenas depositam os ovos e esquecem de sua ninhada! Dependendo da espécie, macho e fêmea permanecem protegendo e cuidando do ninho até que os adultos possam emergir. Este é o chamado cuidado parental, presente na maioria dos animais.

Indicadores ecológicos Estudos sobre diversidade mostram que os besouros escarabeíneos diminuem em abundância e em riqueza de espécies quando o ambiente que habitam se encontra sob degradação ambiental, podendo, por este motivo, serem utilizados como indicadores de alterações ambientais e avaliar os efeitos do desmatamento e das alterações que um determinado ecossistema possa ter sofrido. E por que isso acontece? Sua alimentação é um fator limitante para a sua sobrevivência, a falta de fezes ou carcaças de mamíferos e aves na floresta, leva a uma diminuição destes insetos, podendo nos revelar informações sobre o estado de conservação do ecossistema. A partir disso, percebemos mais uma vez a importância da conservação da biodiversidade e das funções ecológicas que os famosos besouros escarabeíneos exercem na natureza. 128

Foto: Mariah Wuerges

Rolando para reproduzir

Aglomerados de matéria orgânica e terra. Estas pequenas bolas são arrastadas pelos insetos até o ninho, muitas vezes pelo macho e pela fêmea juntos. Posteriormente, a fêmea deposita um ovo em cada bola, onde eclode a larva que se alimenta, no interior do solo, até virar um besouro adulto.

Você já ouviu falar no escaravelho sagrado? No antigo Egito, o Deus Khepri era retratado pelo besouro rola-bosta simbolizando com seu movimento de rolar a bolinha, o movimento do sol em seu percurso diário! Ele acompanhava a múmia do faraó na forma de uma joia colocada sobre seu peito, representando ressurreição e vida.

Representação do escaravelho sagrado (Scarabaeus sacer) movimentando o sol na sua rota celeste. Joias com a imagem de escarabeíneos são famosas devido ao seu caráter sagrado.

Besouros rola-bosta: Os lixeiros da floresta


Foto: Malva Medina Hernández

Dichotomius sericeus posicionado para receber, por meio das suas antenas, o cheiro do recurso alimentar. As fortes pernas anteriores são adaptadas para cavar os túneis, com ajuda do clípeo (a proteção na cabeça) que serve como uma pá.

Espécies encontradas na Costa Esmeralda e algumas de suas características: Atlântica, inclusive foi coletado por Darwin no Rio de Janeiro na sua famosa viagem a bordo do “Beagle”! Foto: Camila Oliveira

Na Costa Esmeralda foram registradas 15 espécies de besouros da Subfamília Scarabaeinae, descritas a seguir: Dichotomius fissus, Dichotomius sericeus e Ontherus sulcator: são tuneleiros, de coloração preta e comportamento noturno, sendo preferencialmente coprófagos (animais que se alimentam de fezes). Canthidium trinodosum: Este pequeno besouro (de 0,5 cm de comprimento) é muito comum na Mata

Canthidium trinodosum depositado na Coleção Entomológica da UFSC com destaque para a etiqueta científica que contém todos os dados de coleta.

Biodiversidade da Costa Esmeralda

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Fotos: Mariah Wuerges Fotos: Mariah Wuerges

A

B

Coprophanaeus saphirinus. Recolhem o alimento na superfície levando-o para túneis debaixo da terra e desta forma incorporam matéria orgânica no solo. A) fêmea; B) macho diferenciado pelo chifre.

Coprophanaeus dardanus, Coprophanaeus saphirinus e Phanaeus splendidulus: São animais tuneleiros, de grande porte, com as maiores espécies dentro da subfamília. São considerados os besouros mais

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belos do grupo, tendo coloração iridescente. Machos e fêmeas possuem dimorfismo sexual, sendo facilmente distinguíveis, pois os machos possuem chifres.

Besouros rola-bosta: Os lixeiros da floresta


Foto: Malva Medina Hernández

Canthon chalybaeus e Canthon rutilans: ambas as espécies são de tamanho médio (1 cm de comprimento), são diurnas e apresentam o comportamento de rolar as bolinhas onde depositam seus ovos , sendo chamados de roladores ou telecoprídeos. A esfera de alimento é formada por um indivíduo ou pelo casal e é transportada a certa distância para ser então enterrada.

Casal de Canthon rutilans, a fêmea no alto da foto, ajudada pelo macho, arrasta a bolinha de recurso alimentar com as pernas posteriores até o ninho, onde depositará

Foto: Malva Medina Hernández

os ovos e cuidará da ninhada até virarem adultos.

Paracanthon aff. rosinae: espécie roladora bastante rara na Costa Esmeralda, mede cerca de 0,7 cm de comprimento.

Paracanthon aff. rosinae.

Biodiversidade da Costa Esmeralda

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Foto: Mariah Wuerges

Deltochilum irroratum; em laboratório, os adultos desta espécie chegam a viver

Deltochilum irroratum, Deltochilum brasiliense e Deltochilum morbillosum: são espécies roladoras que se alimentam tanto de fezes (coprófagas) como de carcaças (necrófagas). A primeira é facilmente encontrada em todo tipo de ambiente, a segunda é a de maior tamanho (2,5 cm), com coloração preta-esverdeada, a última é de coloração preta, sendo a menor delas (1 cm de comprimento).

Foto: Malva Medina Hernández

durante um ano.

A coloração preta de Deltochilum morbillosum indica hábitos noturnos.

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Besouros rola-bosta: Os lixeiros da floresta


Foto: Malva Medina Hernández

Eurysternus parallelus. As espécies deste gênero são exclusivamente Neotropicais.

Eurysternus cyanescens e Eurysternus parallelus: estas espécies pertencem ao grupo dos residentes ou endocoprídeos. Os indivíduos adultos alimentam-se no local do recurso, depositando seus ovos diretamente nele, sem a construção de ninhos ou câmaras.

Biodiversidade da Costa Esmeralda

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Borboletas frugívoras: Quem são elas?

Autoras Ana Letícia Trivia Malva Isabel Medina Hernández 134

Borboletas frugívoras: Quem são elas?


Biodiversidade da Costa Esmeralda

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As borboletas são insetos que pertencem à ordem Lepidoptera, caracterizadas pelas minúsculas escamas coloridas que dão tanta beleza às suas asas e pela sua boca flexível, parecida com uma tromba, usada para sugar o néctar do interior das flores – chamadas de borboletas nectarívoras – e também o sumo fermentado das frutas – no caso das borboletas frugívoras. As escamas coloridas das borboletas possuem muitas funções, como a regulação da temperatura, camuflagem (que é uma forma de se esconder ao se confundir com o ambiente), aposematismo (coloração de aviso aos

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predadores de que o gosto delas não é nada bom) ou mimetismo (uma imitação de uma outra espécie). Estas escamas são muito frágeis, quando tocadas, saem na forma de um pozinho: vale lembrar que este pó não causa cegueira se entrar em contato com os olhos, como muitos dizem, mas pode causar uma irritação, assim como a poeira e várias outras partículas que possam entrar em contato com os nossos olhos. Estes insetos possuem grande importância ecológica, atuando como agentes polinizadores, decompositores e, na fase de lagarta, como herbívoras.

Borboletas frugívoras: Quem são elas?


Foto: Ana Letícia Trivia

Borboleta-coruja (Caligo brasiliensis) alimentando-se

Foto: Ana Letícia Trivia

de banana em decomposição.

Borboleta Heliconius sara alimentando-se de néctar.

Biodiversidade da Costa Esmeralda

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A transformação

Foto: Ana Letícia Trivia

Estes insetos fazem metamorfose completa, sendo que seu ciclo de vida possui quatro fases distintas: ovo, lagarta, pupa (também conhecida como crisálida ou casulo) e imago (adulto). As borboletas passam a maior parte da vida na forma de lagarta, alimentando-se das folhas de suas plantas hospedeiras. Conforme vão crescendo, elas devem trocar de “pele” (na verdade é o exoesqueleto) até se transformarem em pupa, que acontece quando formam um casulo, onde a borboleta passa por diversas transformações e fica sem se alimentar, até chegar a hora de sair de seu casulo e abrir suas asas.

Foto: Ana Letícia Trivia

Foto: Ana Letícia Trivia

Lagarta de borboleta-coruja (Caligo brasiliensis).

Lagarta de borboleta-coruja em posição para empupar.

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Casulo de borboleta-coruja.

Borboletas frugívoras: Quem são elas?


As borboletas da Mata Atlântica

Foto: Ana Letícia Trivia

No Brasil existem cerca de 3.000 espécies de borboletas e muitas delas vivem na Mata Atlântica. As borboletas frugívoras são as mais estudadas, pois são fáceis de reconhecer e são atraídas por iscas de frutos fermentados. Além disto, são usadas como bioindicadoras em programas de monito-

Foto: Ana Letícia Trivia

Borboleta-zebra (Colobura dirce).

ramento ambiental, já que possuem uma estreita relação com as mudanças físicas do meio em que vivem. As UCs localizadas na Costa Esmeralda abrigam diversas espécies de borboletas e, dentre as espécies frugívoras, podemos destacar:

Colobura dirce: Também conhecida como zebra ou zebrinha, é uma espécie bastante comum, sendo facilmente encontrada pousando em troncos de árvores, caracterizando-se por apresentar nas asas posteriores uma falsa cabeça, que distrai possíveis predadores. As suas lagartas se alimentam de folhas de embaúba, mas dizem que as borboletas são viciadas em álcool por serem facilmente atraídas por um copo de cachaça!

Caligo brasiliensis: Seu nome popular (borboleta-coruja) se refere ao desenho de dois grandes olhos presentes nas suas asas. Apresenta um vôo bastante poderoso, que pode afugentar até mesmo algumas aves predadoras; ao voar, pode-se observar a bela coloração azulada no interior de suas asas. Esta espécie apresenta comportamento crepuscular e é considerada uma das maiores borboletas que existem, chegando a medir mais de 15 cm de envergadura.

Borboleta-coruja (Caligo brasiliensis) encontrada na trilha da APA da Ponta do Araçá (Porto Belo – SC).

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Foto: Ana Letícia Trivia

Morpho helenor: Esta borboleta já foi muito procurada por caçadores e colecionadores devido à sua grande beleza, sendo que atualmente esta é uma atividade ilegal. Tanto macho quanto fêmea possuem vôo em ziguezague, mas os machos voam mais perto de rios e nas bordas de florestas e as fêmeas são encontradas dentro da mata. Esta espécie possui coloração de camuflagem quando se encontra de asas fechadas e coloração disruptiva ou de efeito-surpresa quando abre suas asas para voar.

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Borboleta Morpho helenor alimentando-se de banana fermentada.

Foto: Ana Letícia Trivia

B

Morpho helenor com as asas abertas, mostrando a coloração azulada da parte interior de suas asas.

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Borboletas frugívoras: Quem são elas?


Hamadryas amphinome: Conhecidas como “estaladeiras” devido ao barulho que os machos fazem, estas borboletas podem ser encontradas pousadas

de cabeça para baixo, com as asas abertas sobre os troncos de árvores, onde se assemelham aos líquens, devido à sua coloração.

Foto: Ana Letícia Trivia

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Foto: Ana Letícia Trivia

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A – Vista dorsal da borboleta estaladeira (Hamadryas amphinome) B – Vista ventral da borboleta estaladeira.

Biodiversidade da Costa Esmeralda

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Archaeoprepona amphimachus e Archaeoprepona meander: Estas espécies de borboleta, tão belas e chamativas, ainda não haviam sido

Foto: Ana Letícia Trivia

B

Foto: Ana Letícia Trivia

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registradas em Santa Catarina, sendo encontradas durante os estudos na Costa Esmeralda.

A – Vista dorsal da borboleta Archaeoprepona amphimachus. B – Vista ventral de Archaeoprepona amphimachus.

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Foto: Ana Letícia Trivia

Foto: Ana Letícia Trivia

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C – Vista dorsal de Archaeoprepona meander. D – Vista ventral de Archaeoprepona meander.

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Borboletas frugívoras: Quem são elas?


Myscelia orsis: Os machos desta espécie são bem diferentes das fêmeas, com uma bela coloração azul, sendo que as fêmeas são escuras com manchinhas brancas. São borboletas pequenas, com cerca de 5 cm de envergadura, sendo encontradas desde a região amazônica até o sul do Brasil.

B

Foto: Ana Letícia Trivia

Foto: Ana Letícia Trivia

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A – Vista dorsal do macho da borboleta Myscelia orsis. B – Vista dorsal da fêmea da borboleta Myscelia orsis.

Biodiversidade da Costa Esmeralda

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Este livro chegou ao fim! Nestas 144 páginas você conheceu um pouco mais sobre a riqueza e diversidade dos seres vivos que existem nos ambientes naturais e, em especial, nas UCs dessa surpreendente região chamada Costa Esmeralda. Esse trabalho, realizado graças aos esforços de pesquisadores, graduandos e pós-graduandos (principalmente do curso de Ciências Biológicas da UFSC), da SIMBIOSIS (Empresa Junior de Ciências Biológicas da UFSC) e da UIPI (Empresa Junior de Design da UFSC), reuniu informações de estudos para a elaboração do Plano de Manejo da ARIE da Costeira de Zimbros em Bombinhas, da APA da Ponta do Araçá em Porto Belo, da proposição para criação do Refúgio de Vida Silvestre de Itapema e de outras áreas prioritárias para conservação neste município, e as transformaram em um material didático voltado à divulgação para a população em geral. Trouxemos informações que mostram que os serviços ecológicos prestados pelos ambientes naturais ajudam a manter o status paradisíaco da área, aquecendo o turismo, ge-

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rando renda e mantendo processos ecológicos e recursos vitais para a população humana. Então, esperamos que você tenha percebido a importância da preservação e manutenção dos patrimônios naturais dessa região e, assim, contribua para protegê-los, pelo simples respeito e cumprimento das regras (como não caçar, pescar e coletar plantas, não jogar lixo e não degradar o ambiente), ou participando ativamente da divulgação das UCs, de projetos de educação ambiental e do auxílio na denúncia contra crimes ambientais. Porém, desejamos um pouco mais: Que você tenha sido atingido mais profundamente após ver imagens tão belas e descobrir coisas tão impressionantes sobre a natureza. Que tenha redescoberto ou reforçado o que chamamos de biofilia, o amor pela natureza, o amor à vida. A biofilia é inerente à espécie humana, pois estamos vivos e fazemos parte desse conjunto. Portanto, sabemos que devemos ter respeito ao próximo, seja ele o ser vivo que for, basta despertá-lo.


No nosso modo de vida urbanizado e distante de ambientes naturais, as crianças não costumam mais brincar na terra, não têm mais o mesmo contato com as plantas e os animais que seus pais e avós tiveram. Porém, não podemos negar que a Biofilia (philia- amor, bio- vida) continua inerente, esperando por estímulos para ser despertada. A admiração e encantamento pela natureza trazem às pessoas o sentimento de responsabilidade, para mudarem seus hábitos, buscando conhecer e proteger o patrimônio natural que ainda nos cerca. É com essa intenção que este livro une belas imagens e informações sobreas Unidades de Conservação e a biodiversidade da região da Costa Esmeralda, que abrange os municípios de Itapema, Porto Belo e Bombinhas, buscando atrair atenção para o cuidado e preservação. Esperamos que você leitor, possa usufruir deste livro que apresenta uma breve visão do valor e da beleza existente na fauna, flora e vegetação da região.

Diagramação

Edição ISBN 978-85-66582-02-4

9 788566 582024 >

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Biodiversidade da Costa Esmeralda- Um patrimônio natural  

No nosso modo de vida urbanizado e distante de ambientes naturais, as crianças não costumam mais brincar na terra, não têm mais o mesmo co...

Biodiversidade da Costa Esmeralda- Um patrimônio natural  

No nosso modo de vida urbanizado e distante de ambientes naturais, as crianças não costumam mais brincar na terra, não têm mais o mesmo co...

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