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Ro b e r t o A x e

O Clu b e 1


ÌNDICE

Prefácio........................................................................................................................ Pág 03 Cap 01 – O Convite....................................................................................................

Pág 07

Cap 02 – No Ventre da Serpente................................................................................. Pág 17 Cap 03 – Por Conta Própria......................................................................................... Pág 33 Cap 04 – Zeno Kanova, um canibal?........................................................................... Pág 42 Cap 05 – O Banquete da Besta..................................................................................... Pág 57

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PREFÁCIO

Até aonde podemos cair quando o abismo se abre aos nossos pés, quando despencamos na imensidão de nós mesmos? Quando uma infinidade de possibilidades nos é apresentada, jogada em nossa cara? Creio que somos feitos das portas que abrimos, e também, das que fechamos. Enzo Caio, o protagonista deste livro, irá enfrentar as conseqüências de abrir portas. Abrir portas requer coragem, requer honestidade. Nem tudo são flores quando cruzamos soleiras, umbrais; quando cruzamos divisórias que há muito, muito tempo, nos dizem serem proibidas, e nos aconselham a não tocar em seus trincos, a não encará-las; mas convenhamos, não há nada que nos atraia mais do que as coisas proibidas. Os dedos medrosos e trêmulos que nos apontam essas portas e nos pedem para que fiquemos longe, são os mesmo que espargem a moral asséptica que crêem poder protegê-los, porém, nem tudo é tão simples. Existem os aventureiros que aceitam esse desafio e vão em frente sabendo que mais adiante terão de arcar com as conseqüências. Ah... as conseqüências... sim, é de como voltamos da aventura que conta, o que trazemos em nossas mãos, ou o sangue que escorre de nosso olho, enfim, o que encontraremos ao voltar a olharmo-nos no espelho. Enzo Caio aceitou o desafio, pois se julgava um escritor medíocre e não tendo nada a perder, concluiu que ao juntar-se aos cruzadores de portas e depois escrever sobre eles lhe traria a fama, a fortuna e o respeito da mulher amada. Mas, novamente, nada é tão simples... as decisões que tomamos podem trazer conseqüências, principalmente se pensarmos só em fama e fortuna. Se por um lado existem os dedos medrosos que aconselham a distância e o temor das referidas portas, por outro existem as mãos suaves e 3


cavalheirescas que as abrem e formulam o convite ao desconhecido. Nosso herói tem de pagar um preço, mas estaria pronto para isso? Esta é a proposta que lhe é feita por um autor veterano, pois este acredita que a escrita exangue e ingênua de Enzo se dá justamente por este não cruzar os portais certos. Um outro mundo é apresentado ao nosso protagonista, um mundo que cheira à faca, sangue, e carne... ‘gosta da carne, Enzo?’ esta é uma pergunta que confundirá o novato escritor, e será um dos tantos fatores que o empurrarão para a queda em um abismo sombrio; um corpo que cai livre, solitário, desnudo e sem máscara, na imensidão de si mesmo. Agora já não tem volta, as máscaras caíram, despedaçaram-se e as portas já estão abertas... então, restam as conseqüências e como lidar com elas. Enzo Caio descobrirá que ninguém é tão simples quanto parece e que ele não era tão simples quanto imaginava. Ma isso é bom ou ruim, é ‘bom’ ou ‘mau’? É o que Enzo vai saber, sentindo um amargo [ou doce?] gosto de crime na boca. Ao deixar pelo caminho a antiga pele para trás, tal qual uma cobra, verá descortinada à sua frente a possibilidade de ser um novo homem, mas, quem será este? O caro leitor saberá em breve... Neste livro abordo mais uma vez a dança perpétua entre luz e sombras e, também mais uma vez, ao fazê-lo, deixo de lado aquela velha carrancuda e ladina chamada “Moral”, velha esta que com seu tempero caseiro contamina tudo com aquele ‘e viveram felizes para sempre’; prefiro a vida real e os caminhos e descaminhos que ela implica; é mais interessante e mais divertido! E se tem uma coisa para qual não nasci é para o tal ‘vale de lágrimas’, que a velhota essa tanto ama. Prefiro esta dança misteriosa: a da luz e sombra... mas lembrem-se, é a luz que ilumina a porta e ela vai só até ali, depois, bem, depois estamos por nossa conta, como é o caso de Enzo Caio. Em tempo, é bom avisar aos navegantes: às almas singelas e impressionáveis não aconselho a leitura deste livro, aos demais, boa leitura.

Roberto Axe Porto Alegre, 26 de setembro de2012

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Este livro é dedicado aos que têm coragem de ousar, e ousar é abrir portas!É desvestir máscaras!

Roberto Axe

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Quando mergulhamos em nossos abismos, ficamos refĂŠns da nossa prĂłpria imensidĂŁo... O Autor

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O CLUBE

Cap 01

O CONVITE

Posso? - Como? – surpreendeu-se Enzo; absorto que estava na leitura do livro de sua autoria. A chegada de surpresa daquele estranho, ali, em pé à sua frente foi como um tapa na cara. Tudo que não queria era intrusos neste momento. Tirar os olhos abruptamente de suas letras soou como uma invasão a domicilio, algo inimaginável, violento. Por isso mesmo resolvera tomar seu café tão longe de casa, em um bar distante. Socara-se no fundo do pequeno recinto, certificando-se assim de que não teria chance alguma de ser perturbado. Era sua primeira leitura, seu primeiro livro, era um momento sagrado, envolto em magia, tinha de estar só... e agora aquele homem... que impertinente! Olhou nos olhos do recém-chegado de um jeito tal que ficasse claro sua indignação; afinal quem era esse homem? O que queria? – Posso? – pergunta ele, sim, quer sentar, quer conversar, quer encher! – Não, não pode! – pensou em responder de pronto, mas vencido pela curiosidade, baixou calmamente o livro e colocou-o sobre a mesa. O homem vestia uma grossa gabardine caqui e agora retirava seu chapéu cinza estilo fedora, deixando um semblante amistoso, porém enigmático ficar mais às claras. - Permita que me apresente, meu nome é Rodolfo Zattan. Talvez já tenha ouvido falar no meu nome, isto é... se você realmente gosta do que faz.

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Enzo arregalou os olhos, Rodolfo Zattan! Sim, sim, o escritor! Ora essa! Lera algo sobre seus livros, embora não os tivesse propriamente lido, mas realmente era alguém de nome. Lera uma resenha de Assassinato nas Sombras e havia ficado inclinado a adquirir o livro... tinha uma violência crua, brutal e realista, de uma natureza espantosamente instintiva...bem, sim, Zattan... ora porque não? Levantou-se para saudar o autor, sem jeito, meio incrédulo ainda. - Claro, me perdoe, é que não o conhecia pessoalmente, me desculpe a grosseria. - Normal – disse Rodolfo, através da bonomia de um sorriso, um sorriso que deixou Enzo bem mais à vontade. Ambos sentaram. O homem botou seu chapéu sobre a mesa. - Primeiro livro, hein? Ah, me lembro bem – disse Rodolfo – o cheiro, sim, não esqueço do cheiro, não é exagero dizer que li meu primeiro livro com o nariz! Hehe... - Bem... Senhor Rodolfo, como sabe que é meu primeiro livro? Acaso já estarei ficando famoso? – brincou o autor novato, meio sem jeito. - Hahahaha – a gargalhada fria de Zattan, irritou um pouco Enzo – calma meu jovem, calma. Você chega lá... ou não. Aliás, por isso estou aqui – quando o garçom chegou à mesa, Rodolfo pediu uísque sem gelo, uma dose – sim, li o seu livro, faço isso sempre com novos autores. È um vício. Saudável, diga-se de passagem, pois posso abordá-los no nascedouro e trocar algumas idéias, por isso estou aqui. Sei também que você editou por uma pequena editora, de um amigo, tiragem pequena, tudo bem, isso é o de menos. – a xeretice de Zattan, começou a incomodar o autor novato, como sabia destas coisas? Afinal, que espécie de escritor era esse? Não haveria de ter nada melhor para se preocupar do que enfiar seu nariz na obra dos autores incipientes? Começou a se sentir desconfortável – Na Boca do Lobo, boa garoto, gostei; sabe... existem hoje poucos autores que se aventuram na área do terror, nem que seja terror psicológico, que, pensei, haveria de virar moda. Enganeime, isso é algo que se toca com muito cuidado, tenho que lhe dar parabéns pela valentia. Espero realmente que prossiga o que começou. Tem potencial, fosse outro eu não estaria aqui. Por isso, espero não estar perdendo meu tempo. - Bem, senhor Zattan, quanto a perder o seu tempo, só poderei saber se me disser a que veio, realmente até agora não entendi. - Me chame só de Zattan, meu filho, somos colegas, não? Hehe... Escrevo livros de terror, suspense, como você sabe; é natural que eu me interesse por outros autores... - Ah... agora já entendi, - cortou Enzo - você veio conferir a concorrência, interessante tática, devo admitir... e o que faz com gente talentosa Zattan... – Enzo aproximou seu rosto do rosto de Rodolfo e olhou para os lados como se fosse confidenciar algo, tinha um ar de deboche – ...as elimina? Rodolfo sorriu, sem tirar os olhos dos de Enzo, com tanta frieza, que este sentiu correr um frio pela espinha – Ao contrário, meu jovem, embora tenha de reconhecer que em alguns casos dá vontade. Não no seu, seu texto é insinuante, parece que vai germinar a qualquer momento, mas, infelizmente morre na semente, se me permite dizer. - Ah é? – disse Enzo, tirando seus óculos de armação fina, e olhando dentro dos olhos do impertinente; mantinha o ar de deboche – então, você veio me ajudar; um mecenas, hein? Sua sabedoria será a estufa que fará germinar minhas débeis sementes literárias. Por favor, continue... - Seu sarcasmo é bom. Cinismo nunca será demais num escritor, pena que não saiba transpor para seus textos. Você escreve como um intelectual. Deveria dissertar sobre outros assuntos, porém, entrou numa seara que não conhece; resultado? Seu livro soa totalmente falso. Esta é a verdade. Você escreve com o intelecto assuntos que deveriam ser escritos 8


com as próprias entranhas! Você não sabe sangrar, e isso é péssimo para um autor que se propõe a abordar temas tão complexos. Quem não entende de sangue deveria se dedicar às ‘coisas elevadas’ ou a qualquer assunto que não envolvesse facas afiadas e cortes profundos. Você conhece acaso a fúria que acomete um psicopata assassino antes do ato fatal para arriscar descrevê-la a partir da mente do praticante do crime? Como você pode ousar tal coisa? Soa falso. Um bom menino como você deveria se preocupar com outras coisas. - Quanta generosidade a sua, se deslocar do inferno ou sei lá de onde para me desestimular a prosseguir em minha carreira. Diga-me, será mesmo que deveremos praticar os crimes que descrevemos nos livros para conseguir a tal ‘verdade’ do texto? Então todos os escritores de livros de terror seriam... – Enzo reparou no sorriso estático de Zattan, algo enigmático, quase intransponível, amedrontador até - ...isso é loucura! – o rapaz tirou os olhos de seu misterioso interlocutor e não sabia onde enfiá-los, estava perturbado. – Afinal, o quer você? - Acordá-lo. Faça outra coisa, escreva sobre romances juvenis, contos sobre as pequenas mazelas do dia a dia, qualquer coisa, mas afaste-se do gênero a que se propõe. É para seu próprio bem que digo isso... – Rodolfo parou de falar enquanto o garçom colocava o copo com seu uísque na mesa, tão logo este se afastou ele prosseguiu - você não obterá sucesso com isso, lhe garanto, só vai fazer desacreditar mais nossa profissão de escritores das sombras. Para escrever sobre isso é preciso que mergulhe em abismos muito negros e profundos, e você me parece alguém que apenas gosta de andar com a água pelos joelhos, sim, molha as pernas, mas jamais conhecerá os segredos desse mar. Isto não é para qualquer um. É preciso ter muita coragem para prosseguir; bem, estou aqui para saber se realmente você tem essa coragem. Se tiver poderei ajudá-lo, do contrário, faça outra coisa, será melhor para você. – Enzo leu aí as entrelinhas de uma ameaça. Encarou Zattan com força, mas sentiu no semblante agora duro do interlocutor, que realmente este não brincava. Tinha o rosto comprido e cabelos ainda negros embora estivesse quase careca; o olhar era penetrante e incômodo. Era um homem talvez perto dos sessenta anos, mas era difícil de saber, Zattan era daquelas pessoas que não se consegue adivinhar a idade. A voz era calma e forte. Tudo isto incomodava Enzo. - Me diga, Zattan, e se eu continuar escrevendo sobre o que gosto, o que você vai fazer? – o veterano escritor explodiu em uma gargalhada, e ao retornar ao seu semblante misterioso disse ao jovem: - Não vou fazer nada, querido, o eu faria? Sabe, meu filho, este é um mercado muito específico, o dos livros negros, você ficará no limbo. Morrerá sozinho, de inanição. É um mercado fantástico este nosso, são milhões de pessoas que querem ser surpreendidas, assustadas, aterrorizadas, escandalizadas. Sua obra não tem força para isso; é preciso conduzi-las a um mundo sombrio através de umbrais os quais quem lê sabe que a partir dali não terá mais volta. É uma viagem sem retorno, coisas ficarão para sempre gravadas no inconsciente, cenas entrarão em suas cabeças para aninharem-se na escuridão da mente, é isto que elas procuram. Nossos demônios sombrios e silenciosos invadem, serenos, através da leitura, os confins dos inconscientes de nossos leitores, logo serão sombras vagando errantes pelos porões alheios. São essas sombras que nosso público quer, você entende? Ao lerem seu livro, me permita que o diga, apenas constatarão tratar-se de uma comédia ingênua em que fantasmas inócuos transitam, débeis, por um palco de fantasias duvidosas. O ‘negro’ não é para qualquer um. Faça outra coisa, insisto, mas não se meta em algo que não está em você, quer dizer, pode até haver algo incipiente, mas que não terá a força necessária para prosseguir. Acredite, é louvável sua intenção literária neste 9


misterioso terreno, mas saiba, nosso público logo vai farejar a anemia de seu texto, vão considerá-lo um impostor, um oportunista, seria melhor para você desistir agora e não perder seu precioso tempo. – a tarde caía lá fora, atirando sombras sinistras ao fundo do bar; uma delas atingia, caprichosa, o rosto de Rodolfo. A metade da cabeça do escritor adquiria, então, um ar mais sombrio quanto mais submergia em uma penumbra misteriosa, que deixava à mostra um brilho que refletia algo de insano em seu olhar. Parecia que quanto mais a sombra engolia o autor, mais sombrio ficava também seu semblante aos olhos de Enzo. Embora tivesse de reconhecer que o homem emanava uma força que o fascinava, como se realmente aqueles momentos fossem fundamentais para sua carreira; preferiu seguir quieto. O veterano autor liquidou o uísque com dois goles e ao colocar o copo de volta à mesa perguntou: - E então, como ficamos? Você vai mesmo querer bater às portas do inferno carregando letras mortas nas mãos? Vai querer pisar em um mundo desconhecido, carregando apenas sua ingenuidade literária? Ou finalmente vai injetar sangue nisso? Digo, sangue de verdade, não imaginário. - Sabe, - disse Enzo, saindo de uma espécie de torpor – não me decidi ainda se me assusto com o que você me diz, ou não levo em consideração nada disso. Quem me garante que você não passa de um autor ressequido pela mágoa, que gostaria de ter sido algo que não foi, talvez um Poe? - Ah, Poe... bem lembrado, quando o corpo de Mary Rogers subiu à tona do rio Hudson, trouxe a sombra de Poe agarrada a ele. Que crime! Passional, intenso! Digno de um homem como Poe! - Chega! – explodiu Enzo – agora gostaria que se fosse! - Calma, amigo, só quero lhe demonstrar uma verdade que, me parece, lhe dói à consciência. Você não vai poder fugir disso. Quem não tem sombras não pode escrever sobre elas, se o fizer, é um impostor! Você, meu caro amigo, é um impostor. Deveria ver em mim a única saída, mas age como um garotinho mimado. Assim não irá muito longe, acredite, você invadiu inadvertidamente um pântano brumoso, onde só pode andar quem sabe onde pisa. Você, decididamente, não sabe. Seu arroubo de raiva só demonstra sua falta de frieza em momentos cruciais, realmente, você não sabe nada sobre o que escreve. – o rapaz sentiu um traço de vergonha, quase pediu desculpas pelo seu destempero, mas achou que aí já seria demais. Sentiu no corpo e na mente um cansaço, uma fraqueza, e a sensação de que aos poucos depunha as armas, e se o homem tivesse razão? resolveu então, fazer um pouco o jogo de Zattan. - Bem, e se eu lhe dissesse que gostaria de escrever para esse público de quem você fala, o que teria de fazer? - Não bancar o espertinho seria a primeira coisa. Você está falando com a boca, não com o íntimo, assim não funciona. É preciso que queira realmente, mais que isto, é preciso que queira aprender, penetrar em você, escarafunchar seu inconsciente, saltar em abismos escabrosos, mas vejo que infelizmente esta é uma propensão que você não tem. Isto será rapidamente desmascarado em sua incipiente obra, aí você vai lembrar de mim e de nossa conversa. Tomara que quando esse dia chegar não seja tarde, se é que você ainda vai querer ser um escritor, pelo menos de terror. – Zattan puxou um cartão do bolso de sua gabardine e entregou a Enzo – Fique com meu cartão. Se um dia quiser realmente entrar neste estranho e fascinante mundo e escrever sobre ele, se quiser satisfazer um imenso público ávido por nossas histórias, me ligue. Se quiser fingir que produz ‘terror’ continue escrevendo suas apostilas colegiais e mude de profissão mais adiante. Fique bem. – o escritor levantou-se, apanhou seu chapéu e deixou uma nota sobre a mesa, que cobria com folga a despesa do 10


uísque. Enzo apenas fez um gesto com a cabeça e em seguida o homem se foi. Olhou então para o cartão e neste apenas tinha o nome do autor e um número de telefone. Agora o fundo do bar estava imerso na penumbra.

Na noite seguinte houve uma seção de autógrafos em uma pequena livraria no centro da cidade. Pouca gente. Alguns amigos e alguns curiosos; sem contar com aqueles que aparecem do nada, gente desconhecida que vem faturar uma boca livre, pois havia alguns salgadinhos, e algumas taças de vinho branco também foram servidas. Na hora das dedicatórias e autógrafos, Enzo sentou-se junto a uma acanhada mesa e as pessoas organizaram-se em uma pequena fila. Ao seu lado, em pé, sua namorada Elisa animava os convidados a virem para a fila, pois o autor já estava pronto. Enzo dificilmente levantava a cabeça, estava sentindo um misto de vergonha e orgulho; se era verdade que autografava seu primeiro livro, também era verdade que imaginava uma pequena multidão neste evento. Um sonhador? Quem sabe, mas o certo é que sentia um desconforto frio. E as coisas pioraram quando duas mãos trêmulas lhe entregaram o livro para autografar. Era uma senhora de idade avançada e simpática que com um sorriso maternal disse ao autor: - Adorei seu livro, querido, adoro livros de terror, adorei aquela parte em que o homem sai detrás da porta com uma faca! Nossa, que medo! – a bonomia das palavras da velha contrastavam com o que julgava de sua obra. Seria isso um deboche? Como assim? Queria aterrorizar, matar de medo, arrepiar; no entanto, recebe o aço frio daquela voz trêmula, ‘adorei’. Só faltou a velhota alisar sua cabeça e sorrir piedosa, enquanto seus olhinhos lentamente se cristalizassem pelas lágrimas. Ora, que espécie de autor era ele? Uma velha! Possivelmente afeita às coisas religiosas e mortificadas pelo uso, vem lhe dizer que ‘adorou’ seu livro. Escreveu qualquer coisa, assinou e devolveu à idosa, que se retirou alegre. Em seguida um amigo lhe alcançou um exemplar: - Porra, cara! Você é doidão mesmo! Que piração, meu! Valeu, dei boas risadas! – Enzo não conseguiu sorrir para o amigo, porra, ‘boas risadas’, diz ele. Seguiu autografando meio constrangido, e em sua frente então parou um garotinho: - Oi, faz uma dedicatória pra mim? – Claro – finalmente sorriu. Enquanto fazia a dedicatória o menino sentenciou: - Minha mãe também gostou. Só que ela disse que aquele cara bem podia usar um martelo em vez de faca! Haha... - Foi a gota d’água. Enzo atirou o livro na mesa e levantou se num gesto abrupto, espantando à todos em volta. Ato contínuo, saiu andando às pressas, os demais queriam saber o que houve, mas Elisa fez alguns gestos para que todos ficassem onde estavam e seguiu atrás do escritor, que saiu porta afora. Caminhou ignorando os chamados da namorada e mais adiante parou e escorou-se em um velho muro pixado. As pessoas passavam apressadas e indiferentes. Elisa botou a mão em seu ombro e finalmente Enzo virou-se para ela. - Sou uma fraude, Elisa... uma fraude... - Mas... por que você diz isso? Porque não vieram milhões de pessoas à sua noite de autógrafos, olhe... - Ora, não nos enganemos, - cortou Enzo - Elisa, por favor! Eu não sou um escritor! Sou um humilde empilhador de palavras, nada mais que isso! - Querido, no começo é assim mesmo... - Você não entende não é? Não consigo me comunicar, passar verdade em meus textos, se conseguisse, as pessoas chegariam quietas até mim, com a voz embargada e me olhariam 11


com quem analisasse uma espécie de extraterrestre. Até meio temerosas eu diria, - como esse homem escreveu isso?- pensariam no íntimo de suas mentes chocadas. Mas não, minha noite de autógrafos parece mais um aniversário de criança. Talvez eu tenha mesmo que escrever livros infantis, quem sabe. - Certo, certo, você quer chocar as pessoas. Então saiba, acho que conseguiu, com seu arroubo temperamental... que é isso, homem? Fazer uma coisa destas, você no mínimo deve respeito às pessoas que vieram lhe prestigiar. Você não acha? - Me prestigiar... há, essa é boa! Meia dúzia de gatos pingados que... - Hei, Enzo! – uma voz de homem cortou sua frase, era Alexandre, seu amigo editor e responsável pelo evento. Achegava-se ao casal visivelmente contrariado – Que é isso, meu? Você tem um contrato a cumprir, não faça fiasco, deixe isso para quando for um autor consagrado, vão achar charmosa sua reação, mas até lá, respeite quem lhe deu guarida. Não me decepcione. Enzo respirou fundo, desculpo-se com a namorada e o amigo e voltou para a livraria para cumprir seus compromissos.

- Não consigo lhe entender! – disse Elisa ao entrar em seu apartamento, juntamente com Enzo, enquanto jogava seu sobre-tudo em uma poltrona. Sua grande noite e você estraga tudo! O que você tem na cabeça? - É o que eu queria saber, meu amor. – respondeu o namorado enquanto dirigia-se ao bar para servir-se de uísque – Bebe? - Claro! Preciso urgente de uma dose. - Então, vamos beber. Pois é, meu amor, preciso rever muitas coisas neste meu trabalho. Tenho só trinta e cinco anos, dá tempo de achar os trilhos certos. – Enzo alcançou um copo com uísque e gelo para a amante – sim, sim, dá tempo. - Querido, acho bom. Não posso ficar emprestando dinheiro a você o tempo todo. Faço o que posso, e se lhe cobro alguma coisa é justamente que você aproveite as chances que você mesmo cavou. Diga-me se estou errada? – Eliza atirou-se no sofá, retirando e jogando os sapatos de salto alto em direção à porta de seu quarto. Era um belo apartamento de dois quartos, equipado com os melhores móveis e tapetes. Quadros caros ocupavam quase todas as paredes e uma imensa porta corrediça de vidro na sala dava para uma grande sacada com uma bela vista da cidade, que agora sorria, silenciosa, apenas brilhando suas luzes. - Olhe Elisa, se você quer uma discussão, deixe para amanhã, hoje estou totalmente desarmado. Preciso pensar na vida. - Não, não quero discutir, querido, é que não fica bem para uma promotora de Justiça ficar desfilando por aí com um João Ninguém, já lhe disse isto, não? Quero que você se dê bem logo, quero dizer a plenos pulmões que vou me casar, se for o caso, com o famoso escritor Enzo Caio. Você me deve isso! Sou a mulher mais boazinha que você pode encontrar, e tenho quase trinta e cinco, meu velho, não posso vacilar. Bem, agora vou tomar um banho bem gostoso, trepar com você e dormir como um anjo. Enzo estava parado com o copo na mão e mantinha um sorriso sarcástico. Em sua mente tentava montar um quebra-cabeça intrincado. Gostava daquela bela mulher, de cabelos pretos, pele muito branca, olhos grandes, negros e interessados, boca carnuda e provocante. Elisa era magra e alta, porém mantinha formas em sua silhueta. Quando saiu para o banho, o escritor foi à sacada e a brisa noturna desalinhou, mansa, seus cabelos castanhos e finos; 12


bebericou uísque mantendo os olhos nas luzes cintilantes da cidade. Calmamente botou a mão no bolso do paletó e retirou o cartão de Rodolfo Zattan. - É.. – pensou – é difícil saber qual o lado certo desta porra toda!

Na manhã seguinte Enzo andou a esmo pela cidade. O Sol esquentava as ruas e o rapaz tirou o paletó e o levava no ombro, preso ao seu dedo indicador. Uma velha camiseta branca e a calça jeans totalmente desbotada combinavam com o tênis quase furado. Lá pelas tantas parou em frente a um espelho em uma vitrina. – Que estilo, hein, camarada? – falou lá com seus botões – Sim, isto é um escritor! Que desespero embutido neste olhar! Que serenidade falsa nesta postura! – olhou-se nos olhos claros e levemente puxados, o rosto quadrado, a barba por fazer, o vento ameno acarinhando seus cabelos finos, finos como o aro preto de seus óculos. Seguiu andando e a imagem da velha do autógrafo veio à sua mente, - velha filha da puta! Eu poderia matá-la para provar que não sou o que ela pensa! – foi quando seu pensamento desapareceu feito uma bolha de sabão que estoura no ar, pois avistou do outro lado da rua, parado, olhando em sua direção, embora estivesse com óculos escuros, Rodolfo Zattan. A mesma gabardine, o mesmo chapéu, a mesma postura solene. Enzo atravessou a rua em sua direção e um sentimento estranho de felicidade lhe invadiu o espírito; abriu um sorriso para que o velho escritor percebesse que ele vinha portando o cachimbo da paz. Zattan também sorriu. Ao chegar à frente do veterano, saudou: - Nunca imaginei que fosse ficar feliz em lhe ver, mas é a mais pura verdade. - Eu sei, meu garoto, hehe... posso lhe pagar um café? - Aceito, mas me diga, está me seguindo? Ou quer que eu acredite que isto foi coincidência. - Digamos que estou facilitando as coisas. Sei de sua noite frustrada, achei que iria gostar de me ver. - Você é bem informado, não? - Faz parte do meu trabalho. - Pensei que seu trabalho fosse escrever. - Você já viu um escritor mal informado? Hehe... – ambos riram e saíram à procura de um bar, quando encontraram, sentaram em uma pequena mesa redonda na calçada, havia pouca gente nas outras mesas. Zattan botou seu chapéu sobre a mesa e passou a mão pelos cabelos molhados de suor; puxou um lenço e passou no rosto – Puxa, como esquentou? – pediram dois cafés e Enzo se lamentou: - Foi uma droga, a noite de autógrafos. Acho que você tem razão, escrevo como um menino. Diga-me, qual o segredo do sucesso dos autores de terror? - É simples, meu caro, cordeiro não lê cordeiro, cordeiro quer saber do lobo! O que o lobo pensa. É quase um mecanismo de defesa. Ninguém quer saber mais do que já sabe, quer saber das sensações que lhes são proibidas. Quer que alguém lhes descreva as pulsões mais malditas, mais infames, pulsões inomináveis. Coisas que sabem que existem dentro delas, mas que são cimentadas na mais profunda escuridão da existência. É um desejo mórbido, latente, desviado, disfarçado, mas não morto. Sabe, tenho comigo que a civilização é um grande baile de máscaras, e de hipocrisia também, pois basta que você tire a sua, para que todos vejam o que há por detrás de tudo, isso basta aos demais; mais que isto, os reconforta. A máscara passa a ser tudo que eles têm, que eles são, afinal. 13


- Você diz ‘eles’, por que, você não usa máscara? - Meu caro, não dá para viver sem máscara, mas lhe garanto, é impossível escrever com ela. Aí está seu problema, você não tira a máscara para escrever, então, não tem entranha no seu texto, não tem sangue, não tem olhos injetados e assassinos, instintos maus; temos que escrever nus, ou então procurar outra coisa para fazer, algo que justifique a máscara, até porque, você então vive dela. Qualquer coisa, menos ser escritor, ainda mais do gênero a que se propõe. Terror não é para qualquer ingênuo. Você tem que chocar, e hoje em dia não há mais nada que realmente choque... bem, a não ser que você realmente prove que sabe o que está dizendo. Uma coisa é romancear, outra é descrever; aí pode estar o segredo do sucesso. - Zattan, você está me assustando novamente... - Mas é a verdade, você não pode descrever o que não conhece, ou pode? Como quer que acreditem no que escreve? Você já olhou nos olhos de alguém enquanto lhe empurra uma adaga na barriga? Viu o pavor e o pânico em seus olhos? E então, meu caro escritor, me responda. – Enzo acusou o golpe, sentiu um mal-estar. Parecia que Rodolfo lhe encurralava, lhe testava os nervos, resolveu então devolver a pergunta. - E você, já fez isso? - Ah, mas que deselegância, amigo, haha... – divertiu-se Zattan – respondendo com outra pergunta! Pois bem, e se eu lhe dissesse que sim, já fiz, e que isso me ajudou muito em minhas narrativas, o que você acharia? Que eu sou um monstro assassino? Ou um profissional zeloso de meu trabalho, indisposto a mentir ao meu público. Que tenho respeito por meus clientes. Esta é uma questão moral difícil para você? Então se afaste deste negócio ou escreva sobre outra coisa. A Moral é a primeira coisa que rasgamos quando sentimos que atrapalha nossa arte. Temos clientes, sim, muitos, milhões eu diria, compreenda, não posso arriscar perder um mercado milionário por causa de um aventureiro qualquer... Bem, não se ofenda, apenas compreenda, estou lhe oferecendo a chance de seguir adiante, mas para isso terá de ser um dos nossos. È isso. - Um dos nossos? - Sim, um dos nossos. Puxa, que droga esse calor! Deveríamos ter pedido algo gelado. Por que você acha que este mercado cresce tanto? Porque somos unidos. E quem não é dos nossos, das duas uma: ou entra ou sai. Você ouviu bem, ‘ou entra ou sai’, lhe procurei na esperança de que entre, mas se desistir eu compreenderei. O que você não pode fazer é escrever livros de ‘terror’ que não aterrorizam, e pior, pode fazer até com que viremos motivo de chacota; acredite, nosso ramo não é dos mais bem vistos pelos chamados ‘literatos’. Já somos malditos suficiente para termos que aturar críticas por causa de livros inóspitos com algumas pinceladas de hemoglobina. Agora você vai me perguntar: e se eu quiser continuar assim mesmo? Como vai me impedir? Bem, não faria isso se fosse você... não vou me aprofundar, pense o que quiser, mas lembre-se, somos antigos e poderosos. Não surgimos ontem, e talvez você queira puxar um pouco pela memória, e lembrar o que aconteceu com muitos autores do gênero que não quiseram seguir nossos conselhos. Enzo ficou sério e não conseguia tirar os olhos de Zattan; este nem precisava ir mais longe, tudo vinha na mente do rapaz agora, sim, sabia do desaparecimento de muitos autores do gênero ao longo dos anos, voltando atrás com sua lembrança chegou ao século dezenove onde coisas aconteceram sem uma explicação plausível. Por um momento ficou paralisado e mudo, aquilo era uma novidade assustadora, escandalosa até; as peças se encaixaram com clareza na cabeça do autor novato. Não discernindo a sensação que lhe acometia agora, Enzo preferiu seguir calado. Mas Zattan prosseguiu: 14


- Claro que você conhece a obra de Thomas de Quincey, certo? bem, espero que conheça; pois é, Thomas escreveu o famigerado livro Do Assassinato como uma da Belas Artes, uma obra obviamente provocativa e irônica, porém, à época, e olhe que estou falando do século dezenove, esse maluco quase nos desmascara! Pois muitas pulgas foram parar atrás de orelhas moralistas e desconfiados. Não, os nossos, naquele tempo, não fizeram nada com ele; não havia nada a fazer, foi só uma brincadeira ácida do autor. Thomas não tinha a mínima idéia de que existíamos, aliás, se tivesse, acho que não brincaria com coisas sérias. - Se entendi bem, - disse Enzo com a voz embargada – vocês levam o crime e o assassinato muito a sério. É isso? - Levamos nossa arte muito a sério. Se você quer saber, acho mesmo que estamos bem mais acima desse senso comum da condição humana. Somos os artistas da verdade, não mentimos aos nossos clientes. É o que esperam de nós. - Bem, afinal, o que são vocês. - Somos... O Clube. - O Clube? Que clube, um clube de sangue, formado por escritores criminosos, psicopatas e assassinos? - Já lhe disse – cortou Zattan, cravando seus olhos negros e agora assustadores, nos olhos do interlocutor – escreva sobre outras coisas. Você não tem escolha fora do que lhe propus. Está muito quente, vou embora, hoje você paga os cafés. – levantou-se, pegou o chapéu e antes de sair encarou mais uma vez o rapaz, sorriu um sorriso desafiador e disse com sua voz forte e aveludada: - Ia me esquecendo, fale de nossa existência à sua namorada promotora, ou para quem for, se você quiser conhecer de perto ‘o que’ somos nós. Fique bem. – o homem partiu apressado e logo desapareceu por entre os transeuntes na rua. Enzo estava paralisado, talvez não quisesse ter escutado o que escutou, mas agora era tarde; ou aquilo se tratava de uma grande zombaria, ou estava realmente encrencado, teria de achar outra coisa para fazer. A ser verdade o que Zattan lhe disse, realmente seria uma péssima idéia afrontar a sinistra irmandade, ademais, ficara claro que sabiam dos pormenores de sua vida. Sentia uma espécie de desconforto mórbido, mas algumas idéias brotam de pântanos inomináveis, sendo assim, algo lhe ocorreu: - vamos ver quem é gato e quem é rato nessa história, Sr. Zattan. – levantou-se, deixou algumas moedas na mesa e saiu andando calmamente em direção à uma livraria próxima.

À noite, em seu pequeno apartamento, deitou-se com o livro Assassinato nas Sombras de Rodolfo Zattan nas mãos. A luz fraca e amarelada do abajur incidia tímida naquelas páginas reféns da escuridão circundante do pequeno quarto. Quase uma metáfora assustadora. Já no prefácio, as tinturas do que viria já se deixavam desvelar: ‘O que diferencia o assassino deste livro, é que ele tem o hábito de olhar nos olhos de sua presa enquanto lhe enfia a afiada adaga. Seu prazer está no olhar da vítima, ele ama aquele desespero apavorado e suplicante nos olhos de quem embarca através da dor lancinante da lâmina para a viagem sem volta da morte. Fica sempre e sempre um ‘por que’ naqueles olhos, ao que ele responde: porque eu quero. Pudesse ele satisfazer esta obsessão pelo olhar da vítima de outra maneira, com certeza não teria de purificar tantas vezes sua faca através das águas cristalinas, mas pouco nobres, do remorso. – Enzo fechou o livro de supetão. - Meu Deus! Quem seriam essas vítimas?... ‘ ele é louco, totalmente louco! – a 15


idéia de que possivelmente aquilo tudo era verdade lhe fazia borbulhar o sangue, passou algum tempo até que retomasse a leitura, e quando isto aconteceu, não tirou mais os olhos do livro. Quando o recém-nascido sol da manhã entrou pela janela do quarto, encontrou Enzo dormindo com o livro aberto sobre o peito nu. Despertou abruptamente, de um salto, sentando em seguida na cama; tinha a respiração ofegante e desencontrada – Meu Deus! Que pesadelo! – aos poucos, as imagens do sonho fugiam ao Sol, escondendo-se furtivas na escuridão materna do inconsciente. Ainda restava viva a imagem de Rodolfo Zattan, com seu sorriso demoníaco, enfiando-lhe a afiada faca na barriga e dizendo: ‘- Olhe para mim, olhe nos meus olhos, vamos, olhe para mim!’ – Caralho! Terei forças para levar meu plano adiante? Esta é a historia de uma vida, o sonho de qualquer escritor de menor quilate como eu! Tenho que continuar... - levantou-se e cambaleou através de móveis velhos e objetos espalhados pelo caminho, seguiu até o banheiro. Olhou-se no espelho. – Coragem, meu velho, a chance de sua vida apareceu, jogou-se aos seus pés... agarre-a! Não vá fraquejar! – sim, Enzo havia planejado entrar para o Clube. A ser verdade o que velho escritor lhe confidenciou, havia uma grande história por desvendar, enfim, um grande livro a ser escrito. Iria sacudir o Ocidente! Tudo de um golpe só! A celebridade, o reconhecimento, a coragem, o desmantelamento de uma organização criminosa! O grande Enzo Caio! Escritor destemido, que entrou no ventre da serpente para acabar com ela! Isso tudo o excitava muito, quase lhe tirava o fôlego; porém havia um problema: como convencer Zattan de que estava apto a pertencer ao Clube? E se o criminoso percebesse o ardil? Com certeza desapareceria sem deixar vestígios. Um jogo perigoso, mas para quem não tem nada, este perigo era tudo que tinha. Precisava dissimular, persuadir, mentir... olhar nos olhos de Rodolfo sem deixar que este tivesse a mínima chance de ler a falsidade na qual estaria travestido. Jogo duro. Não, não... não poderia deixar passar a chance dourada de sua vida, tão pobre em oportunidades. Tinha que encontrar forças, principalmente por ser esta uma jornada perigosamente solitária, nem Elisa poderia saber, até porque, conhecendo a namorada, sabia que esta de imediato iria querer tomar providências, pondo tudo a perder; ademais, lembrava-se das palavras perigosas e ameaçadoras de Zattan. Não iria botar ninguém em risco, só a sua própria pele. Estava decidido.

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O CLUBE

Cap 02

NO VENTRE DA SERPENTE

- Somos amigos há quanto tempo? – disse Alexandre, seu amigo e editor, sentado em sua mesa no acanhado escritório. À sua frente, Enzo estava sentado em uma cadeira e tinha as pernas esticadas e com os pés desleixadamente cruzados sobre a mesa do editor – Vinte anos? Bem, então acho que posso lhe dizer: se quiser brincar de escritor o problema é seu; mas eu não estou brincando, quero ser um empresário de algum respeito. Por conta desses vinte anos, permita que lhe diga: você não está com essa bola toda para ter faniquitos em noite de autógrafos. Nem quero saber o que lhe deu, quero que me prometa apenas que não se repetirá, não tenho saco para tanto! Acredite. - Veja como fala com quem vai lhe tornar um homem rico! Creia, meu próximo livro será um estouro fantástico. Aí sim, terei o prazer de visitá-lo e encontrar meu editor em ternos realmente caros, e não com esse uniforme de burocrata de segunda linha! Ah, ficaremos ricos, confie em mim. - Confiar em você... hei! O que há com meu terno? – Alexandre levantou-se e olhou-se, ajeitou a gravata, e olhou para Enzo, que tinha um ar impertinente de deboche no rosto – Paguei quinhentos neste terno! Você é um fodido mesmo! Não tem merda no cu pra cagar e vem zoar comigo! Alguém por aqui tem que levar as coisas a sério. – sentou-se novamente

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– Então ficaremos ricos, é? Não me diga que vai se dedicar aos livros de auto-ajuda, haha, logo você um auto-fodido! Diga-me, que livro é esse? O escritor sorria e analisava o amigo, Alexandre era um pouco mais novo que ele, já estava ficando careca, mas mantinha uma grande vaidade. Tinha o corpo magro e esguio, e a pele estava sempre bronzeada por conta dos incessantes jogos de tênis. Era um burguês típico. Vivia correndo atrás do sucesso e levava isso muito a sério; dava importância exagerada à preocupações periféricas, como trocar de carro com freqüência e vestir roupas de griffe, por isso divertia tanto a Enzo falar de suas vestes. Sabia também que qualquer coisa que envolvesse lucro interessava sobremaneira o amigo. - Não posso lhe falar disso, só pedir que confie em mim. - Confiar em você? Porra, olhe para você, irmão. Bota esses pés na minha mesa, com esses tênis quase furados e vem botar banca pra cima de mim. –‘Vou torná-lo rico!’- você diz, ora, você é um sonhador de merda como todos os escritores que sentam a bunda nessa cadeira. Todos imaginando, sonhando, fabulando... quem você pensa que é? Um Rodolfo Zattan? Essa é boa... Enzo se recompôs e ficou em pé defronte à mesa quase de um gesto só. Encarou Alexandre. - O que você disse? - Calma, irmão, não é a primeira vez que digo que você é um sonhador de merda... - Não, foda-se a sua opinião. Quero saber é deste negócio aí, de Rodolfo Zattan. - Hei, hei... calma aí meu velho, o que há com você? Não me diga que ficou ofendido porque não é tão bom quanto ele? Ê... cada uma hein? Se quer saber, vai ter que malhar muito para chegar aos pés de Rodolfo Zattan. Este sim é escritor de livros de terror! O que é? Por que me olha assim? Parece que descobriu que enforquei seu pai! Está me assustando, cara. - Por que falou em Rodolfo Zattan? - Porque foi um nome que me ocorreu. – Alexandre levantou-se e parou à frente do amigo, estava intrigado – O que há com você? Não gosta desse autor? Se não gosta perde tempo, é um campeão de vendas, seu texto é assustador, chega a ser assombroso... ah, como gostaria de que ele fosse meu! Aí, sim, meu caro, estaria rico! O escritor voltou a si de repente, como se tivesse acordado de uma hipnose. Deu-se conta da reação exagerada e desculpou-se: - Ah, meu caro Alex...Não leve a mal... acho que estou inseguro, só isso. Até agora ninguém disse – ‘seu livro é muito bom’ – nem você, meu próprio editor. Fale-me, fez isso tudo por piedade? Só para ajudar um amigo sonhador e falido? Quero crer que não, você ama dinheiro. Alexandre levou a mão à boca e com um ar preocupado, sentou-se novamente. – O que vou lhe dizer? Você não é ruim, mas... eu queria lhe dizer isso há algum tempo: falta algo em seus livros. Não se ofenda, mas quando falo, por exemplo, em Rodolfo Zattan, é porque o cara é um monstro da modalidade ‘terror’; leia o cara, acho que ninguém deveria aventurarse neste ramo sem ler Zattan. Ele arrebenta os nervos da gente, olhe, ás vezes tenho a impressão que ele sabe muito bem o que diz, se você me entende... É isso que as pessoas querem, não adianta fazer cócegas na suas imaginações, tem é que lhes cravar a faca nos nervos! - Acho que já escutei o suficiente por hoje. Vou indo. Alexandre ainda falou alguma coisa, mas Enzo não deu ouvidos e saiu batendo a porta.

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- Alô, Zattan, preciso falar com você urgente... sim, sim... naquele café de ontem, estou perto, já estou indo. – Enzo desligou o celular e dirigiu-se ao mesmo bar em que teve a fatídica conversa com o autor. Estava próximo e ao virar a esquina viu as mesas redondas na calçada, em uma delas Zattan o aguardava sentado. O sorriso surpreendentemente branco e enigmático do veterano o esperava quase como um abraço mudo. Definitivamente o velho escritor tornara-se uma sombra assustadora, que precisava livrar-se de um modo ou de outro. Ao chegar o cumprimentou: - Às vezes penso que você salta de minha sombra. - È uma percepção que devemos saudar! – disse Zattan, levantando-se sem desfazer o sorriso. – Por favor – puxou uma cadeira para o recém-chegado. Tão logo ambos sentaram, Enzo perguntou: - Me diga, quantos crimes terei de praticar para pertencer ao Clube. - Depende de seus instintos, meu jovem. O primeiro crime que você deve evitar, é o de mortificar seus instintos. Vejo em seus olhos que eles estão aflorados, isso é bom. Olhos mortos não combinam com nossas atividades. Se estivesse com o olhar medroso ou inseguro eu iria desconfiar de suas reais intenções, mas está firme, ameaçador, ótimo! assim nos entendemos. Se quer entrar para o Clube realmente, é preciso que conheça algumas regras. A primeira é burocrática, dez por cento do que ganhará a partir da agora é do Clube. Nada mais justo, pois sua narrativa ganhará o vigor da verdade, isto não tem preço. Segundo, nunca poderá dizer a ninguém da existência do Clube, a pena para a boca grande é a morte. Você poderá mais para frente, trazer um novato, mas cuide que não erre o pulo, escolha bem quem vai convidar. Terceiro, você nunca saberá onde fica a sede do Clube, embora a freqüente, para isto existem algumas regras que jamais poderão ser quebradas. Quarto, você nunca saberá quem são os outros sócios, por isso, no Clube todos andam com máscaras e roupas pretas. Você só saberá quem é seu mentor, no caso, eu. O restante você vai aprender com o tempo. Pense bem, não haverá volta. - Já pensei, quero entrar. - Ótimo. Ah, sim, ia me esquecendo, o contrato é assinado com o próprio sangue. È uma simbologia antiga que não abrimos mão. - Certo, concordo com tudo, quando começamos? - Agora. Desligue seu celular. – Enzo obedeceu a ordem – Agora venha comigo. – ambos levantaram e atravessaram a rua, logo mais adiante um imenso automóvel preto, com vidros escuros, estava estacionado com um homem de terno preto e óculos escuro ao lado. Tão logo chegaram ao carro o homem abriu a porta de trás e Zattan fez um gesto para que Enzo entrasse, este obedeceu. Logo o mentor também entrou sentando-se ao seu lado, pela primeira vez o frio do medo percorreu seus sentidos, e ficou ainda pior quando Zattan puxou do bolso da gabardine uma venda negra. - Não se incomode – disse – é só uma praxe, é responsabilidade do mentor garantir o segredo de nosso endereço. – ato contínuo, amarrou a imensa venda negra ao redor da cabeça do neófito; Enzo não podia ver nada, só sentir que o carro já havia se posto em movimento. – ‘uma viagem sem volta...’ - esta frase agora não saía de sua cabeça, que começava a suar. Depois de algum tempo em silêncio, em que o rapaz não tinha mais a mínima idéia de onde estavam, tentou esboçar algumas palavras, estava nervoso. - Pensei que teria tempo para preparar o espírito... - Caro amigo – interrompeu Zattan – isto aqui não é religião, para você preparar o espírito. Você tem que estar sempre pronto para as novas aventuras. E acredite, esta é a grande aventura de sua vida. Fique calmo, já não tem mais volta.

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Enzo engoliu em seco, já não havia saliva em sua boca. A venda estava molhada de suor e colada ao rosto do rapaz. Há algum tempo já não ouvia o ruído ruidoso dos automóveis, escutou então o barulho discreto do vidro elétrico baixando na janela de Rodolfo, um cheiro de mato entrou no carro. Pelos seus cálculos já deveriam estar rodando há uma hora; onde estariam? Começou a sentir-se um pouco idiota. E se tivesse caído em um perigoso ardil, fruto da imaginação sinistra de Zattan? E se fosse vítima de sua própria inocência? Rodolfo de tanto em tanto observava a respiração do colega escritor e sorria. Rodaram em silêncio por mais meia hora, Enzo começava a disfarçar uma crescente sensação de pânico, foi quando escutou a voz do anfitrião portando mais uma ordem: - Tire a venda. – puxou com sofreguidão aquele pano dos olhos e levou um susto ao perceber que ao seu lado, seu mentor estava com uma máscara que julgou típica do carnaval vienense, muito comum no século dezenove. Zattan entregou uma idêntica a Enzo: - Ponha isto. – Era uma máscara com um rosto branco, neutro, de cor marfim, os olhos estavam ornamentados com segunda máscara cor de prata com belos arabescos nas extremidades. Atrás tinha uma espécie de capuz negro de tecido, mas justo, tanto que quando a vestiu, mesmo sem tirar os óculos, esta encaixou perfeitamente. Logo passaram por o que julgou ser uma portaria, iluminada por luzes de tochas, pois já havia anoitecido. Após cerca de dez minutos chegaram à frente de um imenso castelo, Enzo quase não acreditava no que via. Nas paredes externas, archotes ardiam suas chamas que dançavam lentas e sinistras, só o suficiente para que se pudesse discernir onde terminava a magnífica edificação e começava a escuridão da noite. Em volta tudo parecia descampado, pelo menos até onde a visão de Enzo podia alcançar. Pelo pouco que podia ver, o castelo parecia ser bem antigo e tinha uma cor cinza bem escura, com nuances negras. A claridade que vinha de dentro através das imensas janelas góticas, sugeria que era oriunda de luzes não muito potentes, o que dava a tudo um tom avermelhado e misterioso. - Vamos – disse Zattan – por aqui.- reparou que o motorista ficara ao lado do automóvel e vestia uma máscara idêntica a dele a do velho escritor. – seguiu o mentor, este caminhou pelo imenso e bem aparado gramado, ao longe escutava potentes latidos de cães. Dirigiramse ao lado do castelo e entraram por uma porta de madeira muito velha, mas tratada; logo percebeu que caminhavam em um piso de mármore negro que fazia ecoar os passos. Zattan parou e bateu em uma porta. Quem abriu era uma pessoa com uma máscara igual. Enzo reparou que realmente só havia aquela máscara, talvez para não haver distinção ou coisa parecida. Entraram no imenso quarto e a pessoa, sempre em silêncio, levou o novato a um grande closet. Ali havia uma variedade imensa de roupas pretas, em prateleiras, cabides, eram blusas, calças, meias, sapatos, tudo com jeito de novo. – Encontre e vista seu número, sapatos, meias, calça e blusa. – ordenou uma voz de homem - sua roupa você deixa naquele armário com seu nome. – ‘armário com seu nome’- estava aí uma coisa que não esperava. Como podia isso? Seria ele esperado há muito naquele castelo? Interrogações começaram a brotar em seu pensamento confuso. Escolheu suas vestes e retirou suas roupas com calma; reparou que Zattan já estava vestido de preto. Outra pessoa entrou no local, que ele julgou ser o vestiário, e tranqüilamente começou a despir-se. Reparou também que os demais armários, todos embutidos e de uma bela madeira de lei, não ostentavam nomes em sua porta. Sentiu-se nu. Aquele nome ali... em uma pequena tabuleta pendurada... Enzo Caio, para quem quiser ver... ficou um pouco irritado, foi tirar satisfações com Rodolfo, mas havia três pessoas, quase de mesmo porte, de preto e mascaradas. Não havia o que fazer, quem seria Zattan? Todos estavam em silêncio. Quanto terminou, fechou seu armário com

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a chave que estava na pequena fechadura. Retirou-se do vestíbulo e logo, um dos homens saiu atrás dele. - Onde pensa que vai? – A voz de Zattan por detrás da máscara aliviou Enzo. - A lugar nenhum, queria saber qual dos três ali dentro era você, deu certo. - Muito engraçado, venha comigo. – ambos saíram pelos corredores frios do castelo; seus passos ecoavam, e não trocavam palavra. Subiram uma imensa escadaria de mármore e seguiram por um corredor com portas em ambos os lados, em frente a uma pararam, Enzo sentia a máscara grudar em seu rosto através do suor. Durante o percurso mudo pelos corredores, teve tempo de se arrepender várias vezes, mas agora era tarde. Zattan abriu a porta e ambos entraram. Era uma sala imensa, mais iluminada que o restante do castelo. Umas trinta pessoas todas de preto e com a fatídica máscara estavam em pé, de frente para a porta, como que aguardando os dois homens. À frente dessas pessoas havia uma antiga mesa de madeira com um papel no meio e uma pena ao lado. Agora, na conversa muda das máscaras, em que só o olhar pode falar, Enzo procurou os olhos de Zattan; este esticou a mão na direção da mesa. O rapaz aproximou-se e percebeu seu nome no papel, ali estavam as clausulas daquele contrato sinistro. Leu já sabendo o que iria encontrar. Sem saber o que fazer a seguir, colocou a folha de volta na mesa e olhou para Zattan. Este tinha uma agulha na mão e disse baixinho: - Me dê seu dedo indicador da mão esquerda. – obedeceu a ordem e recebeu a picada da agulha na ponta do dedo. Uma bolinha de sangue surgiu. – Agora molhe a ponta da pena em seu sangue e assine o compromisso. – Enzo pegou a pena, lambuzou a ponta em seu sangue e assinou. Sua mão tremeu um pouco, paciência. Botou a pena de volta na mesa e viu as pessoas se aproximarem e cumprimentá-lo, só então escutou suas vozes. Na maioria homens, mas havia duas ou três mulheres. Um então falou a Zattan: - Por favor, mentor, faça as honras; que ele saiba dos benefícios de que dispõe a partir de agora. - É claro, já não via a hora. – olhou para Enzo – Venha comigo, agora é que o jogo fica interessante. Ambos saíram, desceram as escadas de mármore e enveredaram por outros corredores, logo estavam descendo outra escadaria, desta vez estreita e em espiral, prisioneira de paredes claustrofóbicas em que pequenas tochas ardiam, tinham mesmo que desviar do fogo algumas vezes, Enzo protestou: - Porra, Zattan, até onde vamos descer? Sinto falta de ar! Onde vai dar isso? - No inferno. – a voz de Rodolfo abafada pela máscara soava sinistra – Mas você agora pertence a ele, irmão. Então, se pertence a ele, é o próprio Éden, o Éden de carne! Um paraíso de verdade. Continue descendo. O rapaz obedeceu, mas sentia as pernas lhe faltarem. Começou a tremer. Começava a fazer idéia do que lhe esperava. Quando a escada terminou, seguiram por um corredor, porém desta vez, as paredes eram sujas e havia um cheiro nauseabundo no ar abafado. Finalmente pararam em frente a uma imensa porta de ferro. Ambos olharam-se, o fogo dos archotes faziam dançar sombras nas máscaras. - Finalmente – disse Zattan – chegou seu grande momento. Pare de tremer. E lembre-se, nunca... nunca tire a máscara. Se for vomitar, vomite na máscara. Se tirar a máscara nunca sairá vivo deste porão, aqui, só os mortos não às usam. - Eu... eu não posso entrar aí... – fraquejou Enzo. - Você não tem escolha, esqueceu? Afinal, que espécie de fracote é você? Chegou até aqui e agora desmorona! Saiba, não é bom fraquejar com essa máscara. Ela representa ousadia, força, destemor, ela é uma maldição que terá de levar consigo para o reto da vida; 21


mas não é de maldições que vivemos? somos autores de terror, esqueceu? Que espécie de livros você quer escrever? Vamos, esta é a chance de mudar sua vida, se quer falar de sangue, tem que conhecê-lo de perto. - Enzo respirou fundo algumas vezes. Encarou Zattan e seus olhos suplicantes encontraram o olhar duro do velho escritor, que brilhavam insanos por detrás da máscara. – Agora vamos – sentenciou. Abriu a porta, tendo que fazer alguma força. Um novo corredor se descortinou, parecia não ter fim. Havia portas de ferro em ambos os lados, e logo gemidos e gritos surdos chegaram aos ouvidos do jovem autor. - Venha – disse o anfitrião, e começou a andar. - È o Inferno de Dante! – gritou Enzo. - Não. – disse Zattan e parou. Olhou para o neófito e completou: - é muito pior! Agora, siga-me. – a iluminação era elétrica e precária no corredor, as luzes contribuíam mais com a escuridão do que propriamente clareavam. O cheiro de sangue, misturado a suor e outros odores corpóreos revoltaram o estômago e os nervos de Enzo, a Razão parecia que iria fugir-lhe a qualquer momento, era um ambiente insano permeado pelo pavor e o pesadelo. Sentiu as pernas lhe faltarem e a noite caiu lenta em sua visão, a última coisa que sentiu foi um amálgama de sensações, entre o pânico e a morte.

Despertou lentamente, imagens confusas se formavam à sua frente, mas uma destacou-se de pronto, a máscara. Sim, o pesadelo não havia acabado. Estava sentado em uma cadeira e tinha à frente um homem em pé, de preto, mascarado, logo a voz do homem se fez ouvir: Você tem sorte – era a voz de Zattan. Olhou em volta, lentamente, firmando as imagens. Era uma pequena sala com paredes de pedra que mais lembrava uma masmorra, algo então chamou sua atenção; era uma espécie de catre de madeira que estava bem no centro do abafado e fedorento recinto. No catre havia algo que julgou sinistro, parecia um corpo apenas coberto por um lençol sujo. Em um canto, uma mesa continha uma bandeja com facas de vários tamanhos, um martelo e o que parecia um pequeno serrote. A porta de ferro estava fechada, a claridade precária vinha através de uma lâmpada mal engendrada, pendurada em um fio perigosamente desencapado. Sentia falta de ar e num gesto instintivo levou a mão à máscara para arrancá-la. - Não! – protestou Rodolfo – Não faça isso! – já basta seu desmaio. Ainda bem que ninguém viu o quanto você é fraco. Realmente você não faz idéia de onde está, não é? Se vissem você desabar, concluiriam que não é dos nossos, então, você passaria para o outro lado. Finalmente poderia então tirar a máscara, pois iria virar um de nossos modelos para que exercitemos nossa arte; neste instante você seria um monte de carne sangrenta e inútil a ser dada aos nossos cachorros. Nunca mais caia desmaiado, agüente, faça qualquer coisa, desta vez teve sorte que só eu vi seu chilique; mas lhe aviso: não tenho propensão a anjo da guarda. - O que é isso? – disse Enzo apontando para o corpo no catre. Tinha a respiração difícil, e o suor fez com que a máscara grudasse inteiramente em seu rosto, os óculos estavam um pouco embaçados. - Ah, sim, isso! – Zattan aproximou-se do defunto e puxou o lençol, fazendo com que o rapaz desse um pequeno grito abafado. Um corpo de homem, branco, sem idade definida, jazia nu, de barriga para cima na velha cama de madeira. – é para você praticar. Está precisando. Se não vejamos... – só agora Enzo percebia que seu livro Na Boca do Lobo estava na mão do mentor, este estão folheou um pouco e parou em uma página – hmmm... 22


hmmm... Aqui! O que temos aqui? Uma grande bobagem! Vejamos... – leu um trecho – ‘ ...a faca pontuda e bem afiada não entrou toda, embora o assassino, um homem forte, a tenha usado com a força de sua raiva..’. – fechou livro e encarou Enzo que seguia sentado, imóvel e assustado. - Aqui você descreve uma facada na barriga, um homem forte, com raiva... ela não entrou toda? – Zattan dirigiu-se à mesa das facas e pegou uma extremamente afiada e com ponta muito aguda, foi até o novato e lhe entregou a arma branca – descubra você mesmo se isso é possível. – Enzo pegou a faca sem tirar seus olhos dela, em seguida olhou para o defunto e depois para Zattan. - Não posso. – disse com uma voz sumida, devolvendo a arma ao menor, mas este não a pegou de volta, ao invés disso saiu andando, calmo, pela pequena masmorra. - Ele está morto. – disse o mestre com sua voz calma – Ademais, você não tem escolha. Suas escolhas acabaram lá fora, quando decidiu entrar para o Clube. Não lhe entendo, realmente já se perguntou o que sua noivinha pensa de você? Como é mesmo nome dela? Elisa? Sim, Elisa. Promotora de Justiça, futuro brilhante...bonita... sexualmente insaciável... - Pare com isso! – pela primeira vez desde que entrou no castelo Enzo sentia a sensação da raiva, sentiu vontade mesmo de enfiar aquela faca em Zattan, este prosseguiu: - Você não passa de um derrotado de merda! Que junta as migalhas atiradas por aqueles que têm pena de você! Escritor! Essa é boa! Quanto tempo acha que essa mulher vai lhe agüentar? Até achar alguém que trepe melhor que você? - Já falei para parar! – o sangue ferveu nas veias do jovem escritor, a ponta da faca tinha a direção de Zattan, que parou e gritou alto: - Sim, um merda, um merda! - Pare! Pare! – o rapaz levantou-se de um salto e investiu sobre o cadáver esfaqueando-o na barriga diversas vezes – Pare! Pare! – não parava de gritar, tinha a insanidade nos olhos que agora refletiam o sangue inflamado de suas veias. Esfaqueava com fúria. – Pare! Pare! – Extravasava pulsões há muito reprimidas, parecia que não conseguia mais parar o acesso febril. Zattan cruzou os braços enquanto observava o descontrole do novato, sacudia a cabeça lentamente, assentindo totalmente com o que via. Enzo finalmente foi caindo em si, parando aos poucos com o acesso. Quando finalmente parou, não conseguia tirar os olhos do ventre do morto, totalmente dilacerado. Olhou para o mentor quase numa súplica, como se quisesse voltar o tempo em alguns minutos, estava ofegante e sentia que poderia desmaiar novamente a qualquer momento. Zattan mantinha os braços cruzados e falou calmamente: - Levando-se em consideração o rigor-mortis, você acabou de provar que estava errado.

Saíram da cela e seguiram pelo tenebroso corredor, o neófito estava numa espécie de estado catatônico; a cabeça parecia vazia, só tinha uma coisa em mente, sair dali. O cheiro que emanava das demais celas parecia mais forte, logo passaram por uma que estava aberta; ao cruzarem pela porta Enzo olhou para dentro, havia uma pessoa parada no meio do cubículo com as vestes totalmente vermelhas de sangue, inclusive a máscara; tinha um pequeno machado na mão e por todos os cantos era possível ver pedaços de um corpo de mulher. Enzo sentiu novamente suas pernas bambearem, mas a mão de Zattan segurou seu braço com força. Ambos seguiram com calma, subiram as escadas em espiral, por entre as paredes apertadas e logo estavam no piso principal do castelo, dirigiram-se ao vestiário. 23


Após entrar no vestíbulo, Enzo foi ao seu armário, seu nome já não estava lá. Ficou um pouco mais aliviado, mas tudo agora era difícil. Aos poucos começou a juntar seu raciocínio novamente. Trocou de roupa em silêncio, sentia que estava ficando neurótico por tirar aquela máscara. Zattan após trocar suas roupas aproximou-se do pupilo e disse: - Existem banheiros privados, caso você queira tomar um banho, sem a máscara obviamente. - Só quero ir embora. - Então vamos. Na viagem de volta, o mesmo ritual das vendas. Durante o percurso nenhuma palavra foi pronunciada. Zattan apenas pegou a máscara de volta, para alívio do rapaz. Enzo foi deixado na mesma rua em que embarcara no carro. Parou um táxi, entrou e rumou para sua casa cruzando a cidade silenciosa, imersa no silêncio da madrugada.

- Você é maluco, cara! – Elisa estava furiosa ao telefone, do outro lado da linha Enzo tentava encontrar rápido uma desculpa – liguei ontem desde o final da tarde até a madrugada! Onde você se enfiou de celular desligado? É bom que sua explicação seja convincente, estou puta da cara! Passei em sua casa lá pelas dez e você não estava, afinal, o que aconteceu? - Querida, já lhe disse que estou trabalhando em um projeto que vai mudar minha vida, confie em mim, tive que desligar o celular para poder andar por onde andei, e tenha certeza, não tem mulher na jogada. Peço que confie em mim. Logo verá porque lhe peço isso agora, o lance é grande, será um estouro literário! - Então por que não me avisou antes? Quase morri de preocupação. Olhe, conversamos depois... quero uma explicação mais clara. Agora tenho que ir para o trabalho, meu humor está péssimo, tchau! – a mulher desligou o telefone, e o escritor começou imaginar o que viria pela frente; Elisa gostava das coisas às claras e sua fuga inesperada, realmente, soava muito estranha. Paciência. Levaria seu plano até o fim, custasse o que custasse. Era sua grande chance, porém, precisaria de muita força para seguir; as imagens de suas mãos cravando repetidamente a afiada faca no defunto não lhe saiam da cabeça. Aquele acesso de fúria, o ato inesperado, não se julgava capaz daquilo. Que estranhas coisas perambulam pela escuridão do inconsciente sem que saibamos como e quando elas são capazes de saltar à luz, dizer seus nomes, e travestidas de quê? Zattan, habilidoso, botou seu dedo na ferida certa. Percebia agora com clareza, que fora vítima da esperteza do mentor; este, leu rápido o perfil do pupilo. Enzo aninhou sua vida placidamente na mão de um desconhecido; que valesse a pena seu sacrifício. Sabia que haveria de ficar perturbado por estes dias, nem poderia ser diferente, o cheiro de sangue, a imagem de suas mãos matando o defunto, aquela pessoa em pé com um machado na mão, aquela mulher esquartejada... quem seria ela? Onde conseguiam as pobres vítimas? Sentia que disfarçava um pavor que chegava às raias do doloroso, uma sensação que jamais sentira; tudo isso teria de ser bem disfarçado, ninguém poderia suspeitar de seu estado quase doentio. Por ironia, sentia uma espécie de cumplicidade com o louco Zattan, este era realmente o único com quem, a partir de agora, poderia comentar sobre as sinistras experiências. Impelido por um instinto estranho, como uma mosca que se atira à teia da aranha, Enzo ligou para o mentor e combinaram de encontrarem-se em uma praça próxima à sua casa.

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Havia esfriado e a brisa do Outono derrubava, serena, as folhas das árvores. Na praça, os caminhos estavam amarelados pelas folhas dos plátanos. Enzo vestia um sobre-tudo negro e um gorro de lã da mesma cor. Havia pouca gente àquela hora, o que fez com que sua vista encontrasse com facilidade o velho escritor sentado em um banco com sua roupa habitual, a velha gabardine caqui e o bom e velho chapéu de feltro cinza. Quando chegou à frente de Zattan, este comentou, irônico, e com seu indefectível sorriso branco: - Não pensei que me procurasse tão cedo. Acho que serei obrigado a rever meus conceitos a seu respeito, hehe... Você pode ser mais corajoso do que imagino. - Pare de tentar me manipular – disse o rapaz, sentando-se ao lado do homem – vamos conversar como bons confrades. Sabe, ainda não digeri o que fiz ontem... é estranho, nunca imaginei que pudesse fazê-lo. Você me provocou e sabia no que ia dar, me sinto um idiota por perder o controle daquele jeito. - Veja, você admite que ‘perdeu’ o controle, se perdeu o controle é porque havia algo a ser controlado, então há em você tanto o controlador quanto o controlado, não é mesmo? Bem, então você não fez nada que já não estivesse em você. O silogismo socrático foi involuntário, hehe... em resumo: você está assustado com você mesmo. Que ironia! é preciso vestir uma máscara para que outras caiam. Aliás, o anonimato no Clube é para isso mesmo; as máscaras que usamos aqui fora ficam penduradas na porta de entrada. No seu caso, apenas demorou um pouco mais até cair a sua... Sim, meu caro, aquele homem tresloucado esfaqueando um defunto era você, ninguém mais. - Mas ouvi os gritos, os apelos, estou falando de pessoas vivas! Não de defuntos. Zattan, isto é doentio! É odioso! São inocentes capturados para satisfazerem os desejos mais mórbidos e assombrosos; agora eu sei porque desaparecem tantas pessoas todos os dias, na certa a maioria delas vai parar naqueles porões infectos à disposição dos instintos mais sombrios e assassinos daquelas pessoas. Às vezes penso que tudo não passou de um pesadelo. - Mas não foi um pesadelo. È vida real. Aliás, a mais real que você pode encontrar. Se isto lhe deixa mais tranqüilo, saiba que aquelas pessoas não são tão inocentes assim. Pois é, escolhemos a dedo nossas cobaias humanas e aqueles que julgamos não fazerem falta alguma, pelo contrário, que o mundo andaria melhor sem elas, são as eleitas. Isto dá um prazer adicional ao praticarmos nossa arte, e talvez mesmo, nos dê a consciência tranqüila depois de nosso orgasmo de sangue. Não existe culpa quando se usa aquela máscara, se há algum problema é quando a tiramos e vestimos esta – deu batidinhas no próprio rosto – nesta aqui vem grudados todos os remorsos, consciências pesadas, dramas morais, enfim tudo que é preciso para que abominemos o que há por detrás. Mas o que há por detrás também somos nós, ora bolas! Por isso, se quer escrever sobre atitudes criminosas, pulsões assassinas, atos brutais, têm de conhece-los por dentro. E, me permita dizer, você começou muito bem. Queria que visse o que eu vi, um homem ‘descontrolado’, hehe... queria que visse seus olhos, sim, um brilho demoníaco de uma beleza inominável, é... a afiada faca lhe caiu bem. A raiva também. Foi naquele momento que tive a certeza de que minha escolha estava certa. Seja bem-vindo ao Clube! Hehe... Enzo levantou-se do banco e começou a caminhar de um lado ara outro com as mãos às costas.

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- Tenho que lhe confessar, e só a você posso dizer isto: estou confuso... sim, acho que tive algum prazer mórbido ontem... ou sei lá o quê! Ainda não encontrei um nome para isso... - Meu caro, os nomes só fazem confundir os sentimentos. Sinta, não nomeie! tudo que nomeamos, principalmente os sentimentos, perde a força. Tudo que se enquadra diminui. O que vem de dentro não tem nome, mas adquire forma, atitude... faça! Não pense muito, não classifique, não meça, deixe a prateleira dos conceitos para quem precisa deles. É do que não tem nome que nos ocupamos no Clube. Coisas negras que jorram de nosso interior, e que coisa, não? Vendemos milhões de livros! Pois é... temos milhões de cúmplices, hehe... Bem, tenho algo para você, deveria ter lhe dado ontem, mas você parecia estar em estado de choque – Zattan alcançou um cartão a Enzo, que pegou e leu – sim, esse é o número que deve ligar para ir ao Clube. Diga onde quer ser apanhado e um de nossos motoristas lhe pega. E isto – entregou ao rapaz um pequeno livro com a capa e contra capa totalmente pretas, sem nada escrito – são algumas regras internas. Veja aí como você faz para mercar hora, ou seja, reservar uma cela para praticar. Só no Clube está à disposição o chamado ‘livro’, nele você confere horários para marcar, bem como, pedir os instrumentos de que vai precisar; e o mais importante: que tipo de vítima você quer usar. Você pede e tudo é providenciado. Você só tem que se preocupar em praticar sua arte, nada mais. Lembre-se sou seu mentor, só a mim poderá dirigir-se para qualquer esclarecimento ou seja lá o que for, a ninguém mais. - E como saberei quem é você quando estiver no Clube? - Não saberá. Assim como não saberei quem é você. No Clube é cada um por si. É um local de lobos solitários, não de ovelhas. Tenha em mente uma coisa: no Clube você estará por conta própria. – Zattan levantou-se e olhou para as árvores quase sem folhas – Ah, o Outono, a vida morre para gerar mais vida, ironia da Natureza, hehe... Tenho que ir, outros compromissos, entende? Ah, sim, é bom que saiba de uma coisa importante: não é de bom tom demorar para praticar, isso é quase um ofensa ao Clube. Qualquer coisa me ligue. Fique bem. Enzo fez um sinal com a mão e ficou parado vendo seu mentor partir vagaroso a olhar as árvores. Não contava com a última fala de Zattan:. ...não é de bom tom demorar para praticar... o homem partiu deixando uma incômoda faca em seu pescoço. Sabia que nada a partir de agora seria fácil, e a velha sensação de desespero começou a fustigá-lo. Esticou a gola do sobre-tudo, havia esfriado, e seguiu andando. Algumas crianças passaram correndo por ele, o que fê-lo esboçar um sorriso. Se havia ainda alguma inocência em seu espírito, esta haveria de estiolar-se em breve... muito breve... olhava para todos os lados, mas não via nenhuma saída.

Noite. Enzo jantava com Elisa em um restaurante próximo à casa da promotora. O ambiente com meia luz e poucos freqüentadores deixava o escritor mais à vontade, como se a luz mais intensa o expusesse nu com seus segredos recentes. Sentia uma sensação de caramujo, não tinha vontade de expor-se muito; precisava lamber feridas profundas, e preferia fazê-lo à sós, onde ninguém pudesse estar perto para ler seus pensamentos. Elisa era muito esperta, temia que lhe encurralasse com perguntas sutis, pois a história do desaparecimento repentino não a convencia. Além do mais, sentia vontade de solidão,

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precisava repensar tudo depois do episódio do castelo. Porém, a moça rondava o assunto feito uma leoa faminta. - Bom, vamos ver se entendi bem: você tem um grande projeto para um livro e nesse projeto nem eu tenho espaço, uma vez que minha preocupação não conta. Agora sou secundária. Você vai por locais que nem eu posso saber quais são. Que mistério, hein? Olhe, é bom que seja verdade, é a primeira vez desde que estamos juntos que você faz uma coisa destas. - Preciso que confie em mim – disse Enzo, em seguida limpou a boca com o guardanapo e deu um gole no vinho tinto – olhe, vou estourar. Vamos viajar depois disso, sei lá... qualquer ilha paradisíaca por aí... até porque precisarei de descanso para o corpo e a mente. Por enquanto, amor, apenas confie em mim. - E por que devo confiar em você, e você não em mim? Por que não me diz ao menos onde andou ontem? Enzo descansou os talheres no prato e olhou para os lados com um ar de desalento – Por que você sempre complica as coisas? Estou apenas lhe pedindo algo que não me parece grande sacrifício. É o meu futuro, Elisa, compreenda, se pudesse falar já teria feito. - Sabe, acho que é uma coisa de instinto de promotora, sei lá... mas farejo alguma coisa de ilegal aí... do contrário, tenho certeza, você teria me contado. Conheço onde piso, você partilha tudo comigo, se agora faz segredo... bem, vá lá... mas se houver algo de ilícito no que está fazendo, vou acabar descobrindo, você me conhece. Aliás, penso se não seria por isso que não me diz o que está acontecendo. O cerco de Elisa começou a causar um leve mal-estar em Enzo; não sabia por onde fugir, tentou botar um ponto final no assunto: - Você vai acabar com meu jantar desse jeito. Não estou fazendo nada ilícito, já pedi para confiar em mim. É por pouco tempo. Agora, vamos jantar tranqüilamente, depois vamos à sua casa, tomamos uns drinques, trepamos até cair duros e amanhã começamos tudo de novo, cada um fazendo o que tem de fazer. – algo incômodo se achegou ao pensamento do escritor, conhecia bem a namorada, ela seria bem capaz de, estando muito desconfiada, botar alguém a segui-lo; isto seria a ruína completa. Precisava distrair Elisa, desviar sua atenção, não deixar este assunto assumir grandes proporções em sua mente. – Como vai minha bocetinha maravilhosa? Estou com saudades, hoje você me paga! – a mulher não tirava os olhos de Enzo e mantinha nos lábios um sorriso incômodo; cerrou então os olhos e disparou para o rapaz: - Você não está querendo me enrolar, está? - Bem, se ficar com tesão por você é enrolar, então, realmente não sei mais o que dizer. – recomeçou a comer, agora com um ar sério. A mulher, de repente, desarmou o semblante e pegou na mão de Enzo. - Desculpe querido, não quero que fique assim, é que me preocupo muito com você. Não quero que nada lhe aconteça; puxa, a gente abre os jornais e todos os dias têm notícia de gente desaparecida, até parece uma epidemia! – agora Elisa estava perto demais. Isto lhe incomodava, até parecia que fazia de propósito, como se fizesse ironia em cima de algo que já sabia. Era óbvio que a namorada não podia saber de nada, mas um rasgo de paranóia já se fazia sentir, ficou desconfortável. Ela prosseguiu: - Sabe, escute só o que vou lhe dizer, este mês já são dezoito pessoas desaparecidas só aqui na cidade...

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- Pare! – protestou Enzo, largando os talheres sobre o prato – Não me interessa esse assunto! Pare com isso! Está estragando meu jantar... não podemos falar de outra coisa? Que me interessa quantas pessoas estão desaparecidas! - Hei, o que há com você? – disse Elisa surpresa – primeiro aquele chilique lá na livraria, agora isso! Pois saiba, quem não agüenta mais sou eu! – levantou-se e jogou o guardanapo sobre a mesa – Fique aí, remoendo seu grande sucesso, que só existe na sua cabeça! E quer saber? pode sumir o quanto quiser... pode cair duro em uma sarjeta por aí... quem se importa? É o que você quer não é? Que ninguém se importe, pois conseguiu! – Elisa saiu por entre as mesas e olhares surpresos, protagonizara um pequeno escândalo, mas não era de ligar para os outros. Enzo manteve os olhos na mulher até ela sair pela porta. Nem pensou em ir atrás, ficou ali, só, com seus botões, e em seguida pediu a conta.

Pela manhã, logo depois de acordar, tomou seu banho, bebeu um copo de leite e apanhou o jornal, que era colocado diariamente por debaixo de sua porta. Sentou-se em uma cadeira junto à pequena mesa de jantar. Olhava de tanto em tanto tempo para o aparelho celular, estava um pouco agoniado com a discussão da noite passada. Não gostava de ficar de bronca com Elisa, porém, crescia sua preocupação quanto a seus planos. Parecia que penetrava em uma sombria e perigosa floresta, mas deixava cair migalhas de pão pelo caminho, as migalhas com que sinalizava e facilitava à namorada para que o seguisse pelo caminho que dará no inferno. Tinha de parar de dar pistas; talvez seu destempero na noite anterior fosse a pior delas. Quem garantiria que Elisa concluísse a partir do acontecido que seu querido e tranqüilo namorado não está no seu normal? Ora, se não está normal é porque há algo muito sério acontecendo, sendo assim, deveria investigar. Enzo procurou tirar isto um pouco da cabeça e começou a distrair-se lendo seu jornal. Uma notícia no caderno cultural chamou sua atenção: ...escritor lança livro impactante no Casa Azul hoje à noite... e leu mais adiante: ... é impressionante as cenas descritas pelo autor no tocante à prática de canibalismo, cenas de uma crueza espantosa... Enzo tirou os olhos do jornal e perdeu o olhar pela janela aberta ao lado da mesa. Sentiu uma ânsia estranha, ‘cenas de uma crueza espantosa’, isto agora não saía de sua cabeça... seria Zeno Kanova, o autor do livro, um sócio do Clube? ... prática de canibalismo... cenas de uma crueza espantosa... pensou em ligar para Zattan para perguntar, porém lembrou-se que não são fornecidas informações sobre outros sócios. Seu pensamento agora estava infectado por uma dúvida sinistra, foi quando seu celular tocou; Enzo levantou-se rápido e atendeu à Elisa: - Olhe, Enzo, me desculpe por ontem. Também ando com muitas coisas na cabeça, coisas de trabalho. Quem sabe... bem... logo mais à noite podemos fazer o que não fizemos ontem... Que acha? – pronto, estava encurralado novamente. Havia planejado ir ao lançamento do livro de Zeno Kanova, precisava ir, tirar esta dúvida, tão nova, mas que passou a torturá-lo há um minuto. Como escapar? Elisa ficaria furiosa, inclusive tendo conseqüências mais sérias. O negócio era topar e inventar algo mais adiante: - Claro, querida, a culpa foi minha, estou com o pavio um pouco curto, nada com você. Logo mais à noite tomaremos umas e outras e conversaremos. - Lhe aguardo às oito lá em casa. Um beijo. - Outro. – desligaram e Enzo começou a imaginar como se livraria deste compromisso. Parecia agora que ficava refém de peças de um quebra-cabeça complicado. Precisava investigar o livro de Kanova, isto era importante. Arrumar as coisas com a namorada 28


também. Gostava de Elisa, era uma grande companheira, ela realmente não merecia este desprezo involuntário; sua vida transformara-se em um interminável manejar de peças, algumas manchadas de sangue e estas tinham de ficar longe da namorada. Poderia convidála à noite de autógrafos de Zeno Kanova, mas isto seria aproximá-la demais dos acontecimentos recentes, ademais, tinha como certa a presença de Zattan no evento. Precisava manter Elisa bem longe de tudo isso, tinha de pensar, e teria o dia inteiro para isto.

Quando a noite escureceu a cidade lá fora, Enzo parou de escrever. Tinha agora a obrigação de livrar-se, com todo carinho, de sua amada xereta. Resolveu tomar um banho enquanto pensava no assunto. Durante o banho rápido nada lhe ocorreu, tinha a mente inclinada a Zeno Kanova. – Zeno canibal... sim, canibal do caralho!... – saiu do banheiro falando sozinho enquanto secava o cabelo. Conhecia o autor, mas nunca lera nada do que escrevera. Hoje leria, iria comprar o livro de Kanova, pedir dedicatória, enfim, tudo a que tem direito. Agora tudo ia longe demais em sua cabeça, estava chocado, surpreso, intrigado, assustado, parecia que resvalava para dentro de um torvelinho de acontecimentos estranhos e assustadores. O cheiro de sangue não saia de suas narinas inocentes, achou mesmo que não sairia jamais, pior, via sangue agora por toda parte! Seria paranóia sua? Não. Impossível. O escritor em questão, sem dúvida pertenceria ao Clube. Lembrava das palavras de Zattan: -ou entra ou sai... – Sim, Zeno Kanova estava dentro, não poderia haver dúvidas. Precisava olhar nos olhos dele, conferir sua desfaçatez; um assassino cínico, um canibal frio e carniceiro, um abutre disfarçado de pomba para melhor lhes estudar os movimentos. Quem sabe haveria traços de sangue em seus lábios frios, em seu olhar de lobo. Tinha de encará-lo de frente, ler em seus olhos a verdade, seja qual for! Tinha, afinal, que caminhar sobre o tapete vermelho e escorregadio que lhe esticaram, doa a quem doer, aconteça o que acontecer... pois não havia outra saída a não ser prosseguir. Vestiu-se, e uma incômoda sensação de medo percorreu seu espírito; concluiu que apesar da idade, tinha medo do escuro, desse breu infinito que se encontra atrás das portas que seria obrigado a abrir. Olhou-se no espelho do banheiro e algo o perturbou um pouco, algo no olhar. Deu de ombros, ajeitou o paletó negro sobre a camiseta da mesma cor, desligou o celular e saiu.

A Casa Azul era um espaço cultural interessante. Como ficava claro no próprio nome tratava-se de uma imensa casa antiga e grande de cor azul-escura em cujo interior funcionava um bar dedicado a assuntos relacionados à Arte. Em suas paredes estavam muitos quadros de artistas locais, alguns de gosto duvidoso, porém era um espaço de incentivo a intelectuais e artistas, que não fazia muita distinção de qualidade, preferindo incrementar a cultura acima de tudo. Era concorrida a procura por lançamentos literários na ‘Casa’, pois havia algo de maldito em sua aura, isto por estar sempre aberta às novidades mais estranhas em matéria de criação artística. Havia um pequeno palco em um canto do bar que já servira a esquetes dos mais variados, pantomimas e monólogos. Tudo podia na Casa Azul, mas a preferência era sempre por algo inovador. A Casa tinha dois pisos e se o de baixo era todo tomado pelo imenso bar com mesas e cadeiras laqueadas de preto, em cima ficavam banheiros e alguns quartos atapetados com almofadões sujos jogados pelos 29


cantos; estes quartos eram os preferidos para o consumo de algumas drogas como maconha e cocaína, tudo com a maior liberdade. O local todo descansava sob a serenidade de uma penumbra mansa e convidativa. Ao chegar, Enzo reparou na pequena mesa em um canto do térreo, sob a qual um foco de luz iluminava pilhas de livros, eram os livros a serem autografados; a cadeira vazia junto à mesa indicava que o autor ou não havia chegado, ou estava entre as muitas pessoas, dos mais variados matizes que lotavam o bar. Havia poucas pessoas sentadas, no entanto, muitas conversavam em pé, segurando copos e taças, freqüentemente interrompendo conversas e risadas para darem goles gulosos em vinho branco, champanha, uísque e comerem alguns salgadinhos que circulavam nas mãos de bem vestidos garçons. Enzo pegou um copo de uísque com gelo e começou a circular por entre as pessoas, logo visualizou Zeno Kanova rodeado pelos bajuladores de sempre; ao seu lado, junto à parede, um imenso banner tinha uma grande foto sua ao lado da capa do livro intitulado Fome Canibal: Instinto Insaciável. Seu coração bateu mais forte. Kanova, a exemplo de Zattan, já não era um garoto; tinha cabelos compridos e grisalhos, muito lisos presos em um ‘rabo de cavalo’;, estava todo de preto e se mostrava bastante solícito com seus circundantes. A penumbra deixava marcas negras no sulcado rosto magro do escritor. Em seu canto Enzo imaginava se Kanova ao conversar animadamente com aquelas pessoas, não lhes calculava o peso, ou quem sabe vislumbrava partes suculentas do corpo, quem poderia garantir que a boca do autor não aguasse de vez em quando, ao firmar seus olhos cobiçosos na pele de algum interlocutor inocente e desavisado. Um lobo entre as ovelhas ingênuas. O lobo mais feliz do mundo, pois podia escrever com maestria sobre seu paladar sinistro, mesmo em seus pormenores, pois estava imerso sob a tutela do Clube. - Sabia que estaria aqui. – a voz de Zattan fê-lo botar os pés no chão de imediato. Olhou para o velho escritor que estava com seu uniforme de sempre, inclusive mantinha o chapéu na cabeça. Carregava um copo de uísque sem gelo e continuou: - Kanova chegou à perfeição. Soberbas descrições, coisa de mestre, chega a ser pura poesia o que escreve. - Você é um homem doente... - Não. Você é. – disse o velho autor encarando Enzo – Só não se apercebeu ainda. Botei um Rubi em sua mão e você insiste em cuspir nessa jóia. - Caralho, homem!...estamos falando de canibalismo... – disse o rapaz baixinho. - Não, estamos falando da arte do senhor Zeno Kanova. O que espera que eu lhe diga, que Kanova é do Clube? Como vou saber? Cuidado com suas conclusões. Espero realmente que comece a controlar seus nervos e sua paranóia, isso pode lhe trazer muitos problemas. Tire suas conclusões, vá lá, cheire o autor, chegue bem perto, sinta seu hálito. Quero ver você provar o que se passa em sua cabecinha perturbada. Enzo desvencilhou-se de seu mentor e foi até a pilha de livros, uma mulher, também toda de preto, estava fazendo as vendas. Adquiriu um exemplar e num ato instintivo olhou para Kanova, este tinha os olhos cravados em Enzo. Seu sangue gelou. Eram olhos negros e duros que se destacavam no rosto branco e marcado. O novato baixou a cabeça, acusando um golpe com o qual não contava, disfarçou seu embaraço abrindo e folhando o livro, quando levantou os olhos rapidamente na direção de Kanova, este conversava novamente com as pessoas em sua volta. Zattan permanecia parado olhando para o rapaz com um sorriso que o irritava; sentiu um filete de suor descer pela testa. Voltou para a incômoda companhia de Rodolfo e este brincou olhando para o livro nas mãos de Enzo: - Bela aquisição, espero que lhe seja muito útil. Leia com a sensibilidade dos escritores, é o mínimo que pode fazer por esta obra.

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- Você fala como se isto aqui fosse o ‘crème de la crème’ da Literatura, ora, dane-se! estou de saco cheio! - Então imagine o meu, com um pupilo tão rebelde e arisco. Não quer aprender certas verdades, nossas verdades, só nossas. Entenda de uma vez por todas: não há como caminhar por este caminho pulando em uma perna só. Você precisa conhecer os dois lados desta moeda, e que moeda! Não vai se arrepender. Já lhe disse, se não mergulhar para dentro de sua sombra, não poderá escrever sobre sombras. E se você não tiver uma, está no lugar errado. O que lhe incomoda é que você quer o que não pode ter, ou melhor, pensa que não pode. Na verdade ninguém entra para o Clube se não tiver propensão para o lado negro, engane-se o quanto quiser. O auto-engano é uma máscara singela que esborracha em pedaços mais cedo ou mais tarde, hehe... – Enzo desviou os olhos de Zattan e sentiu as pernas bambearem, pois em meio às pessoas que conversavam alheias, um sorriso aproximava-se perigosamente. Era Alexandre, que acabara de perceber Enzo e vinha com uma taça de champanha erguida. Queria se esconder, isto não estava previsto: Alexandre encontrá-lo ao lado de Rodolfo Zattan, mas, enfim, agora era tarde. - Ora, ora, ora... se não é meu amigo e escritor Enzo Caio e... não acredito! Rodolfo Zattan! Que prazer! – Alexandre esticou a mão para Zattan que a apertou com seu melhor sorriso artificialmente branco. – Puxa, Enzo! Não sabia que você conhecia pessoalmente este ‘monstro’ sagrado da literatura de terror! – voltou-se para Zattan - Em nossa última conversa falamos no senhor... – o velho escritor fitou o pupilo com um ar intrigado e comentou sem tirar os olhos de Enzo: - Comentaram a meu respeito? Espero que meu amigo escritor tenha tido a cortesia de me dedicar boas considerações... – Enzo estava entre o embaraço, o medo, e a raiva; era muito azar a chegada de Alex numa hora destas, estava definitivamente em maus lençóis. - Bem... na verdade – prosseguiu Alexandre – lhe teci elogios, disse ao meu amigo que você era um gênio nesse gênero de literatura, que escrevia uma descrição impressionante das cenas mais chocantes, disse também que é isso que as pessoas querem e não lorotas bobas. - Ah, e que seu amigo disse? - Nada. Saiu batendo a porta. Acho que ficou ofendido, mas lhe garanto, senhor Zattan, ele um dia chegará lá! É uma questão de tempo. – o velho escritor sorriu com sarcasmo e olhou novamente para o rapaz que estava totalmente sem jeito. - Não tenho dúvidas disso. É uma questão de tempo...não é? Senhor Enzo... - Claro... claro, senhor Zattan, agora, se o senhor me permite, preciso conversar com meu amigo. – já ia saindo levando Alex pelo braço quando Rodolfo ponderou: - Mas você nem me apresentou seu amigo? Esta é uma descortesia imperdoável. - Ele é assim mesmo! Que cara chato! Aqui está o meu cartão, sou editor – quando Alex estendeu sua mão com o cartão de visitas, Enzo tomou-o num gesto instintivo. - Hei! Que é isso, Enzo? – protestou com veemência o amigo. - Me desculpe. – disse devolvendo o cartão a Alex, suas têmporas estavam empapadas de suor. O editor finalmente deu o cartão a Zattan, que parecia divertir-se com a situação. - Isso tem nome, - disse Alex ao veterano – chama-se insegurança. Ele normalmente não é assim. - Certo, mas agora vamos, Alex. Passar bem, senhor Zattan. – Zattan apenas fez um gesto e não tirava o sorriso do rosto. Os jovens saíram da presença do velho escritor. - O que deu em você, caralho! – protestou Alex – Você teria muito a aprender com ele, sabia? 31


- Não estou me sentindo bem, e a presença desse homem só fez complicar as coisas, deixe ele para lá. - Não sabia que você o conhecia! Por isso ficou nervoso lá no escritório? - Porra, Alex! Não fale asneira! Conheci o cara aqui, hoje. Foi coincidência, nada mais. Olhe, o canibal já está autografando, vou para a fila. - Certo, vou pegar um uísque. Enzo ficou na imensa fila que se havia formado, folheou algumas vezes o livro e olhou para o relógio: nove e meia. Elisa já estaria furiosa há uma hora e meia – te espero às oito lá em casa... – desta vez as conseqüências seriam sérias, tinha certeza. Duas vezes machucada pela indiferença, a moça, orgulhosa como era, deveria tomar providências sérias com relação ao escritor. Pior, ficava definitivamente bem claro que algo estranho estava acontecendo, pois o namorado depois de uma briga por causa do celular desligado, repetia a dose, agora com requintes de crueldade. Elisa não perdoaria o fato de Enzo fugir a um compromisso combinado e com o celular desligado. Sim, sabia o que o esperava e isto o desanimava; estaria fazendo a coisa certa? Realmente justificaria perder a namorada, se fosse o caso, para escrever seu best-seller? A cegueira da obsessão já havia deitado suas primeiras sombras sobre seus olhos, estava confuso. Não contava também com a presença repentina e incômoda de Alexandre, justamente quando estava com Rodolfo. Sentia que agora se transformava em um equilibrista, equilibrava seus planos a despeito das circunstâncias, ou seja, de um script que se escreve com a própria vida em andamento. Rumava para o olho de um furacão com conseqüências imprevistas, ou acertava ou destruía sua vida; era então natural que seu cabelo fino estivesse grudado à testa pelo suor. Foi assim que chegou à frente de Enzo Kanova, o semblante descomposto, o olhar indignado... entregou o livro ao homem sentado à pequena mesa, este olhou para cima e o rapaz sentiu novamente o desconforto cortante daqueles olhos duros. Kanova esboçou um sorriso enigmático e ficou aguardando em silêncio que o rapaz dissesse seu nome. - Enzo Caio, sou escritor. – disparou e ficou observando a reação de Kanova feito uma águia. - Escritor? Que bom... – disse, fazendo a dedicatória – escreve sobre o quê? - Terror. - o homem parou e encarou Enzo novamente. - Gosta dos caminhos negros? Isso é bom. Tomara que tenha bom olfato para sangue. – devolveu o livro com a dedicatória para Enzo, sem deixar de encará-lo. - Acredite, senhor Kanova... é o que eu quero descobrir, tenha certeza. – retirou-se e sentiu que o coração saltava no peito, mas o que viu em seguida não ajudou em nada, pois Alex havia grudado em Zattan novamente e ambos mantinham uma animada conversa. A raiva chacoalhou seu sangue. Foi ao banheiro no andar de cima e depois de aguardar em uma pequena fila, entrou, trancou a porta, jogou o livro com raiva no chão, foi à pia e tirou os óculos. As imagens de sua agressão à faca no cadáver voltaram à sua mente conturbada. Lavou o rosto diversas vezes, freneticamente. Olhou-se no espelho e percebeu algo em seus olhos; sim, algo estava mudando, havia uma dureza em seu olhar, um brilho estranho, como algo que se desvelasse lento e assustador. Secou o rosto com a toalha de papel, apanhou os óculos, o livro no chão, saiu do banheiro, desceu as escadas e saiu do bar. Ainda escutou a voz de Alexandre chamando-o, mas não ligou a mínima, estava com ânsia de rua, de ar; tinha vontade de sair correndo pela calçada, e foi o que fez.

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O CLUBE

Cap 03

POR CONTA PRÓPRIA

Vá embora, não quero vê-lo! Deixe-me em paz! - Querida, precisamos conversar, deixe-me entrar! – Enzo suplicava à Elisa, com a boca grudada ao interfone, seu acesso ao interior do prédio. Trazia um buquê de rosas brancas e insistia com a garota, que se mostrava irredutível. - Você não sabe com quem está brincando, garoto! Não sou nenhuma idiota! Vá embora agora ou chamo a polícia!Não duvide de mim! – falara a palavra mágica – polícia – estava aí uma coisa que tinha que evitar a todo custo. Afastou-se da porta do prédio e olhou para cima na esperança de que Elisa aparecesse na janela, quem sabe se visse as rosas... mas a mulher não apareceu. Enzo seguiu pela rua em desalento. Não queria perder a namorada, gostava muito de Elisa e talvez uma ruptura agora lhe escancarasse dolorosamente o quanto gostava da garota. Era difícil seguir sem ela, principalmente em um momento tão delicado de sua vida, quando andava equilibrando-se em uma perigosa corda-bamba. Seu celular tocou. Atendeu. 33


- Porra, meu! O que está acontecendo com você? – disse do outro lado um indignado Alexandre. - Ando de saco cheio, Alex. Não é nada com você. - Nada comigo? Sou seu editor esqueceu? Pode calcular o que representa uma aproximação sua com Rodolfo Zattan? - Ah... posso sim... - Então por que fugiu daquele jeito? O homem é um cavalheiro, deveria ter juntado-se a nós. Ontem bebemos uísque e conversamos bastante; e quer saber? Acho que ele se interessou por você, pois não parava de perguntar coisas a seu respeito. - Imagino que você, como um bom amigo, respondeu ao questionário de Zattan com toda sua sinceridade. Obviamente, depois de beber bastante uísque. Aquela raposa velha... - Estou lhe desconhecendo. Você deveria estar orgulhoso, o cara é fodão! Pode lhe abrir portas... - E que portas! – cortou Enzo – olhe, estou estafado, só isso. Vou visitá-lo outra hora, agora vou me dedicar à minha obra. Preciso estar só. Será bom para nós dois. - É bom mesmo que seja um best-seller, e que justifique essa sua mudança repentina... você está muito estranho, cara! Um abraço! Enzo desligou seu celular e dirigiu-se à sua casa. No caminho jogou as rosas em uma lixeira.

Já em casa, tentou acalmar o carrossel em que se transformara a sua mente. Pegou o livro de Kanova e sentou-se em sua pequena mesa de jantar ao lado da janela. Parecia que precisava disso, tinha de ler com a claridade solar, não encontrava muita explicação para este fato, mas era algo que lhe acalmava. Abriu o livro e começou a ler, a princípio com calma e interesse, mas logo começou a pular páginas, nervoso, e procurar por cenas que pudessem revelar a verdadeira face de Zeno Kanova; algo então fê-lo parar: ‘...cozinhou em fogo brando a carne do antebraço da mulher; sua boca aguava, havia algum tempo que não banqueteava-se com uma iguaria tão tenra. Na mesa bem posta, dois limões cortados em um pequeno prato aguardavam para serem espremidos na carne; gostava assim, nada de temperos, só o limão, para tirar o amargor excessivo. Sabia ele que depois de iniciado o jantar, purista que era, teria de evitar a incômoda tendência a associar o gosto da carne humana com a de alguns peixes e também de porco. No mais, adorava a maciez das partes menos amargas e que chegavam mesmo a ser doces... Enzo engoliu em seco, e prosseguiu a leitura: ...achava que o vinho branco - seco – harmonizava bem com a oscilação em seu paladar, era um mediador neutro, o vinho, através do qual tentava encontrar a junção destes sabores cambiantes, achava incrível como podia mudar tanto o sabor daquela carne conforme localizava-se na anatomia do corpo. Este era um fascínio do qual não podia mais fugir, nunca mais! Terminada aquela mulher, tão zelosamente acomodada em pedaços em seu freezer, precisaria encontrar outra, pequena, corpo ‘mignon’, bem do jeito que gostava...’ o rapaz fechou o livro e o colocou de lado na mesa; estava enjoado, por hora isto já servia. Perguntava-se se não estava sonhando e se não haveria de acordar a qualquer momento. Não, não era um pesadelo, e tinha de prosseguir, ser forte, se quisesse realizar sua grande obra. O problema era tudo que podia perder pelo caminho: sua namorada, sua dignidade, sua sanidade mental... enfim, havia muitas coisas a perder, mesmo a própria vida; deveria então valer muito a pena a empreitada. Levantou-se e 34


caminhou pela pequena sala; pegou em seu bolso o cartão do Clube, precisava ir até lá, precisava investigar e para tanto teria de marcar no famigerado livro; teria de fazer um apontamento sinistro, pedir uma vítima. Não adiantava adiar isso. Antes de ligar para o motorista, nervoso, retornou ao livro de Kanova; folheou mais algumas páginas e parou em uma, ali se lia: ‘... a cabeça da mulher na bandeja de prata; uma pompa justa. Fitou os olhos mortos, inexpressivos; espremeu limão sobre aqueles olhos dando-lhes lágrimas amargas. Enternecido, beijou a boca da cabeça defunta; em princípio com calma e paixão, mas logo a agarrou com sofreguidão e em sua excitação desmedida quis devorá-la! Mordeu aquela boca fria com fúria e ao afastar seu rosto de supetão da cabeça morta, trouxe nos dentes trincados os lábios da mulher. Fitou a cabeça que agora ostentava um sorriso involuntário, de dentes muito brancos, e falou com a voz calma e a boca cheia: Ah... tinha certeza que você ia gostar...’ Enzo fechou o livro mais uma vez. Estava aturdido. Sentia uma excitação estranha, nunca sentira nada parecido, estava entregue a torpores inéditos, a sensações que lhe causavam pavor enquanto inebriavam seus nervos; pensou mesmo em dar um imenso grito, como se com isso exorcizasse o que sentia. Um filete de suor desceu solitário pela testa; voltou ao livro, pegou-o e já ia abrir novamente quando num ato involuntário, automático, jogou-o sobre a mesa. Saiu apressado de seu pequeno apartamento com o coração na boca. Já na rua, sentiu uma grande sensação de alívio ao ver as pessoas pelas calçadas, pessoas alheias, tranqüilas, envoltas em seus corriqueiros afazeres. Sabia que aquela vida cotidiana já não lhe pertencia mais. Era um homem envolvido até o pescoço com coisas inomináveis, com estranhos sentimentos que borbulhavam em seu íntimo, vida e morte dançavam passos de sangue. Zattan espargiu sangue profano em sua alma, já não havia volta, e a estrada havia de ser longa. Percebeu que levava em sua mão, amassado, o cartão do Clube; aproveitou a adrenalina e sem para de caminhar, pegou o celular e ligou.

No lugar combinado, uma esquina não muito distante de onde estava, sem demora um imenso carro negro, inclusive os vidros, estava estacionando. Enzo entrou, sentando-se no banco de trás. O motorista, impecavelmente vestido de terno preto, logo se virou para trás entregando a venda negra para o rapaz. Enzo amarrou-a ao redor da cabeça, tudo sob o olhar atento do chofer; quando concluiu, fez um sinal de positivo e o carro arrancou. Durante o longo e cansativo percurso, Enzo pensou em puxar assunto com o motorista, porém voltou atrás, era evidente que o homem não lhe daria assunto, possivelmente estes condutores eram pessoas de extrema confiança, haja vista serem os únicos a saberem onde ficava o castelo, obviamente, tirando os chefões. Teria Zattan usado uma venda? Não sabia. Mas pouco importava agora, estava nervoso demais. Quem estaria no Clube agora? Kanova? Zattan? Como saberia? Estava por conta própria. Sentia-se entrando na boca de um lobo, um lobo faminto e sanguinário. Sentia-se indefeso pelo fato de que estava indo para um local onde a Moral era totalmente ignorada, mais que isto, era mesmo desprezada, se não odiada. Lá não havia onde se agarrar, não havia bóias de salvação, só o que importava era a arte... uma arte crua, assustadora; uma arte instintiva e perigosa, uma arte de morte! Sentiu em suas narinas o cheiro de sangue, começou a transpirar muito. Um imenso castelo onde é promovido o encontro mais perigoso a um ser humano: um encontro consigo mesmo, em seus labirintos mais obscuros, seus prazeres mais insanos e negros. Tudo permitido. ‘Tudo permitido...’ sentiu medo. A própria liberdade assustadora do ‘tudo 35


permitido’ lhe apavorava, estaria a sós para exercitar suas pulsões mais secretas; sentia medo e excitação, sentia coisas que nunca sentira. Era como se uma porteira lentamente se abrisse, uma porteira que sempre esteve caprichosamente fechada, com cuidado e zelo. Uma vez aberto esse portal, por ele passaria tudo o que uma vida vivida de acordo com as ‘portas fechadas’ sempre manteve fora de alcance. Lembrou das palavras de Zattan: - Se você perdeu o controle é porque havia algo a ser controlado.- Agora sentia, assustado, que na imensidão do castelo e na cumplicidade escondida daquele calabouço sangrento e infecto, o controlado assume as rédeas a despeito do controlador. O controlador não entra naqueles porões. As máscaras caem na entrada daquele castelo. Sim, chegou a conclusão dolorosa de que Zattan tinha razão: Enzo tinha medo de Enzo. O Clube é o palco para uma liberdade sinistra, apavorante, a liberdade para um encontro satânico! Um encontro nas sombras.

Pararam em frente à portaria. Sabia que agora rodariam mais um pouco e estariam lá. Tirou a venda e colocou a máscara que se encontrava ao seu lado no banco do carro, agora a própria máscara já lhe parecia algo familiar. O motorista também já estava com a sua. Durante o percurso restante observou a paisagem bucólica e calma formada principalmente por grandes colinas verdes sem absolutamente nada que lembrasse vida animal; nenhum boi, nenhuma estrebaria, nada. Só mesmo no céu límpido e azul alguns pássaros voavam em bando. Em seguida a estrada de terra já encontrava-se ladeada por frondosos ciprestes, e sem demora surgiu no horizonte o castelo. Enzo sentiu um calafrio na boca do estômago. Quanto mais se aproximavam, mais podia discernir detalhes do espetacular imóvel. Era imenso, tinha realmente o estilo gótico e suas colossais paredes eram circundadas por ameias muito bem acabadas. Da grande porta de entrada para o lado esquerdo encontravase um imenso torreão em cuja cúpula, assustadoras gárgulas lembravam ao longe, demônios chifrudos prontos a estenderem suas imensas asas de morcego para atacar os intrusos. Ao chegar percebeu que não se enganara, eram demônios assustadores postados em posição de observação, mas prontos para o ataque. O gramado era espetacular, muito verde e tinha cheiro de grama cortada recentemente. O carro chegava através da pequena estrada que cortava o verde magnífico e parava bem em frente à porta principal. Ao chegarem, Enzo desceu. O motorista fez o mesmo e ficou em pé ao lado do carro, cruzou os braços, impassível, parecia querer dizer que ali terminava sua missão. O escritor dirigiu-se à porta lateral, sentiu as têmporas pulsarem; ...por conta própria... por conta própria... entrou pela porta lateral e caminhou pelo piso de mármore negro. Havia lido no pequeno e misterioso livro do Clube, que trazia no bolso das calças, sobre alguns procedimentos essenciais e comportamentos. Sabia que a primeira coisa a fazer era vestir o traje negro, para tanto foi ao vestiário, lembrava bem onde ficava. Seus passos ecoavam pelo imenso corredor, não via ninguém. Quando chegou, deu algumas batidinhas na porta, como ninguém atendeu, entrou. Tudo ali estava imerso em um silêncio misterioso e pesado. Enzo não sabia se devia sentir-se aliviado ou preocupado pela inquietante falta de pessoas. Trocou as roupas e dirigiu-se a um dos muitos armários que se encontravam abertos e com a chave na fechadura; acondicionou suas roupas, fechou o armário e o chaveou. Mantinha consigo o livrinho negro, tão logo saiu do vestíbulo, abriu o manual e conferiu – livro de pedidos andar térreo, salão principal. Estudou rapidamente a página que continha a planta baixa do prédio, não estava muito longe, prosseguiu ecoando seus passos, só então, ao entrar por um 36


corredor cruzou com um mascarado que ao passar por ele fez um discreto cumprimento inclinando a cabeça. Teve um impulso de olhar para trás, seria Zattan, este? Continuou e logo chegou em um imenso salão, circular, e reparou no piso uma imensa mandala formada por pedras de diferentes cores, um trabalho fantástico. Varias setas apontavam para o centro. Bem no meio da mandala estava a mesa redonda com o grande livro de capa de couro. Ocorreu-lhe que ali estava um verdadeiro tesouro, se pudesse apoderar-se daquele livro, teria em mãos um dos maiores segredos da modernidade! Ficou excitado, mas tinha consciência de que tudo não passava de um breve devaneio, esta era uma operação impossível de realizar. Chegou em frente ao famigerado livro de pedidos; estava aberto, reparou que as páginas viradas não tinham nada escrito no verso, talvez para que não se enfiasse o nariz nos pedidos alheios. Na página dos pedidos havia pouca coisa para escrever, era uma página para cada pedido e tudo muito sucinto. Havia os dias, horários e celas disponíveis, mas o mais macabro vinha a seguir: instrumentos e modelo: sexo... idade... raça... e logo abaixo: Obs.... foi esta –observação- que gelou seu sangue; possivelmente neste item seriam escolhidos aleijados, ou qualquer um que saísse do normal dos pedidos. Mas, enfim, às vezes no problema está a solução. Pegou a caneta ao lado do livro e encaixou dia, hora e cela; no –modelo- foi direto em -Obs.- e escreveu: cadáver de homem, um marginal qualquer. Em –instrumentos- colocou: facas. Retirou-se dali pensando que teria três dias para acostumar-se com a idéia de esfaquear outro cadáver, porém, sabia que não poderia ficar matando mortos por muito tempo. Por enquanto era justamente tempo que precisava ganhar, qualquer tempo, qualquer coisa. Não sabia para onde ir, mas sabia que não podia parar de andar.

Quando retornou à sua casa já era noite fechada. Tinha a sensação do dever cumprido, não queria ficar no Clube mais do que o tempo necessário para seu apontamento do livro. Havia agora um desconforto, algo incômodo em sua cabeça revirada pelos acontecimentos recentes. Em três dias teria de voltar ao castelo para retalhar um cadáver, mas isto não era nada, em breve teria de matar alguém e isto era tudo! Pensava que tão logo percebessem o ardil ingênuo de ficar pedindo corpos mortos para ‘matar’, saberiam tratar-se de Enzo Caio, o matador de mortos ou o enrolador do Clube. Tinha de ter muito cuidado. Pegou o livro de Zattan e botou em cima do de Kanova na mesa de jantar. Serviu-se de uísque sem gelo, sentou-se à mesa e ficou por instantes fitando os dois livros. Pegou o de Rodolfo Zattan e olhou pela janela num ato involuntário à procura do Sol, mas lá fora só havia a noite negra pontilhada por luzes artificiais. Paciência... Abriu o livro e folheou com calma, em um trecho parou e leu: ‘ ... amava os olhos e os olhares. Sentia uma excitação doce e demoníaca assumir seu corpo, de tal maneira que abrangia toda sua existência, era maravilhoso senti-la... os olhos, ah... os olhos, escolhia as vítimas pelo olhos; pretos, castanhos, azuis, verdes, cinzas... e todas aquelas expressões... ficava fascinado ao imaginar os olhos que escolhera olhando fixos nos seus, a mesma expressão de sempre, o desespero perante a morte iminente. Podia jurar, sim, por vezes podia jurar que até uma espécie de êxtase refletia seu brilho macabro e santo na hora fatal...’ Enzo fechou o livro com calma. Lembrou-se do olhar incômodo e perigoso de Zattan, aquele sorriso permanente e enigmático, afinal, quantas vezes o veterano autor não teria imaginado seus olhos nos dele enquanto lhe empurra a adaga no buxo? Quantas vezes teria sido vítima da imaginação doentia e poderosa de Zattan? Não estaria o mentor cozinhando a vítima? 37


Brincado com a comida antes de devorá-la, feito um gato e sua presa? O fato de saber ser verdade tudo que estava naqueles livros lhe deixava aturdido, porém, saber como pensam e agem assassinos frios e extremamente perigosos, era uma carta que tinha na manga. Pior era não saber nada. Ademais, raciocinou, para alívio seu, de que se Zattan quisesse matá-lo já o teria feito, pois oportunidade não faltou, principalmente quando dos dois a sós naquela masmorra e todas aquelas facas à disposição do carrasco. Não, possivelmente Rodolfo sentia que estava ficando velho e o Clube deveria continuar, renovar o sangue, encontrar gente nova, com talento para matar e descrever em seus livros. Era incômodo lembrar das vezes que recebeu aqueles olhos frios e perigosos nos seus, podia estar livre de Zattan, mas não de sua imaginação diabólica. Sentia-se como um garotinho ingênuo preso em uma trama mortal, confeccionada por mentes perigosas. Não havia volta, tinha de prosseguir, liquidou o uísque de um gole só. Sentia sensações estranhas e resolveu sair, já era tarde, mas precisava de rua, de noite, de ar... Estava frio, vestiu seu sobre-tudo negro, botou seu gorro da mesma cor, serviu-se de mais uísque, liquidou e saiu.

Caminhou a esmo por ruas secundarias, mal iluminadas; logo estava em um bairro próximo, decadente, entregue às prostitutas e marginais. Tudo era sombrio ali; velhas casas de dois andares coladas umas às outras, prédios lúgubres e suas luzes amareladas e ameaçadoras. Mulheres se ofereciam para o sexo, mulheres machucadas pela vida fácil difícil que eram obrigadas a levar por cafetões inescrupulosos. Por onde passava lhe era oferecido todo tipo de drogas e prazeres sombrios. Entrou em uma espelunca qualquer e pediu uísque sem gelo. De pé, diante do balcão, virou de um gole só, pagou e prosseguiu. Achava mesmo incrível nunca ter freqüentado locais assim, - Que espécie de escritor sou eu, porra! – falou com seus botões. Sentiu, aliviado, que algo em si realmente havia mudado, fosse em um passado bem próximo e não teria coragem de andar por aquelas ruas infectadas por todo o tipo de vício, todo tipo de morte iminente, todo tipo de perigo pontudo escondido sob roupas rotas. A vida pulsa ali também, pulsa seu lado negro, aquele que se precisa varrer para debaixo do tapete do dia, o ‘bom’ dia. Não seria ele então um escritor diurno? O que queria então com livros negros? Sorriu. Não era de se estranhar então que garotinhos e senhoras idosas gostassem de seus livros ‘terríveis’ e lhe dessem dicas de como melhorar, para melhor lhes descer pela garganta ingênua e pura. Fazia o jogo solar, como queria então escrever sobre os mistérios da noite? Parou em outra bodega e pediu mais uma dose, entornou e saiu. Andou mais um pouco, lhe ofereceram drogas, comprou cocaína. Mais adiante parou em um ponto escuro da rua, abriu a bucha, enfiou a ponta da chave de sua casa no pó e em seguida deu um teco, e outro e mais outro. Havia cheirado há muito tempo, nem lembrava mais da batida do pó. Logo sentiu uma alegria inexplicável e uma segurança confortável. Agigantou-se. Pegou uma prostituta e subiu para um pequeno quarto em um prédio bastante velho. O quarto tinha paredes imundas que circundavam uma cama velha, uma poltrona para amontoar as roupas e uma pia em um canto. Tão logo entrou com a mulher Enzo exclamou alegre: - Hoje estou por conta do diabo! - Hahaha – riu a puta – meu nêgo, por aqui todos estão! Se você não estivesse por conta, estaria dormindo em casa como todo cara bonzinho. - Cara bonzinho... – Enzo parou e perdeu o olhar no nada – cara bonzinho... - Hei, tudo bem com você? – disse a mulher tirando a saia de couro. 38


- Tudo, - respondeu, despertando do devaneio – melhor impossível. – reparou na mulher, não era lá um mulherão, mas tinha belas pernas e uma bela bunda também. Não era bonita nem feia. O rosto mal cuidado tinha uma grossa camada de base para disfarçar algumas cicatrizes; tinha o cabelo longo e moreno. A moça já nua olhava para Enzo sentada na cama. O rapaz então tirou apressado suas vestes e foi para cima da puta, esta pediu que botasse o preservativo, ele botou. Em seguida empurrou a prostituta e esta caiu de costas no leito, ato continuo foi para ela na posição papai e mamãe, tudo sem tirar os olhos dos da mulher. Antes de penetrar pediu: - Olhe nos meus olhos! Olhe nos meus olhos! – a mulher obedeceu. Seus olhos miúdos e negros, emoldurados por rímel barato, cravaram nos de Enzo. Parecia assustada, pois os olhos do cliente assumiam um brilho insano e não desgrudavam dos dela. Depois de alguns segundos ela sentiu o pau duro do homem penetrando sua boceta seca, com calma, bem devagar e de uma vez só, como quem lhe empurrasse uma faca.

Quando de volta à sua casa, Enzo tomou um banho demorado. Durante o tempo em que permaneceu imóvel debaixo da ducha purificadora de seu chuveiro, pensou muitas coisas; mas o principal é que já não sabia o que pensar. O efeito da droga e do álcool estava passando e o controlador voltava lentamente a assumir o controlado; uma sensação de alívio se achegava mansa à sua mente. – O que me deu na cabeça? Cheirar cocaína? Pegar uma puta de rua? – mas o que evitava pensar era em outra coisa. A coisa, sim, a coisa que sentiu quando penetrou a prostituta... Fechou o chuveiro e saiu apressado do Box, pegou a toalha e começou a enxugar-se numa tentativa desesperada de não pensar no que lhe assombrava. Em vão. Logo parou e olhou-se no espelho, seus olhos tinham uma dureza e um desespero que lhe comoveram. – para onde foi a minha vida? – pensou finalmente na sensação de gozo quando penetrou a mulher, olhos nos olhos... Zattan... a volúpia negra... – Zattan! – esbravejou – Zattan filho da puta! Por que apareceu em minha vida? – mas a sensação daqueles olhos assustados nos seus lhe provocou uma ereção. Caminhou nu pelo apartamento sem ter paradeiro, foi para um lado e para o outro, já era madrugada alta. – Por que não amanhece? – exclamou em frente à janela da sala – Sol! Sol! – apagou as luzes da casa e foi para sua cama, deitou-se, puxou o cobertor e ficou de lado, em posição fetal. Os olhos bem abertos miravam o nada contido naquela escuridão perturbadora. Sentia-se lentamente desabar para dentro de si mesmo, para dentro de algo misterioso e que continha uma infinidade de possibilidades, por isso sentia-se tão assustado, tão desesperado. Nem sabia das coisas que podia. Pensava, até então, que apenas podia o que sabia. Mas ele agora percebia que era imenso e esta imensidão lhe causava pânico. Se não queremos saber o que há por detrás das portas, não devemos abri-las; mas ele abriu, e viu seu rosto do outro lado, com um riso demoníaco. Agora a dúvida corroia seus nervos e sua existência: lacrar a porta e nunca mais passar por ali, ou entrar e encarar-se nos olhos... afinal, não haveria de ser tudo seu lar? Medo de quê, então? - Zattan filho da puta! Zattan filho da puta! – não teria o velho escritor apenas apontado o caminho destas portas diabólicas? – Zattan filho da puta! – aquele sorriso, aqueles olhos... os olhos da puta... o seu pênis-faca... o gozo alucinado... o prazer extasiante... o êxtase da morte... Quando o Sol finalmente sorriu em sua janela, encontrou seus olhos abertos, grudados no nada. – Zattan filho da puta!

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Foram três dias de angústia. Para piorar tudo, Elisa não ligava. Se por um lado era melhor que fosse assim, pois a garota ficava longe dos acontecimentos recentes, por outro, sentia que estava perdendo um amparo importante. Viver sem a namorada não estava em seus planos, ainda mais agora, com a vida tão complicada. Tinha então que acondicionar certas coisas em sua mente confusa; ou levava seu plano adiante e estourava com seu best-seller, ou corria à amante, contava tudo e pedia proteção, pois sabia que o Clube não perdoaria a traição. Já havia uma grande encrenca a resolver, pois ao publicar seu livro e desmantelar a macabra entidade, deixaria uma multidão de assassinos sem rosto caçando-o pelas ruas tal qual serpentes seguindo um rastro em uma selva escura. Aonde se enfiaria? Valeria a pena perder sua vida calma e morna por uma reputação tão perigosa? Mas, bem... precisava fazer aquilo parar. Eram assassinos! Assassinos frios que ganhavam fortunas com seus crimes, acobertados pelas paredes emboloradas e cúmplices daquelas celas horrendas. Paredes espargidas pelo sangue inocente e incauto dos desavisados. O fato de serem pessoas escolhidos a dedo, ‘gente que merece morrer’, não o convencia. Quem decide quem vive e quem morre? Aqueles sujeitos acobertados pelas máscaras julgavam e sentenciavam ao belprazer, desde que sua sanha por sangue fosse satisfeita, assim como suas curiosidades e suas dúvidas macabras. A imagem daquele homem – seria um homem? – na cela ensangüentada, cercado por pedaços humanos, não lhe saía da cabeça. Era uma mulher, a esquartejada, quem seria ela? O que fez, a desgraçada, para merecer aquele fim? Virar modelo para um crime a ser descrito nas páginas sangrentas de um autor maníaco, que, quem sabe, ainda masturbou-se sobre os destroços de carne da infeliz. Que pulsões sombrias afloravam sob a proteção sinistra daquelas paredes? Quantos canibais, necrófilos, pedófilos, coprófilos, se deliciavam sob o anonimato negro do Clube? Lembrou-se de Kanova. Imaginou o escritor, encoberto pela cumplicidade da masmorra, sorrindo vermelho com o sangue inocente lhe descendo pelo queixo, olhos injetados, agarrado aos seios de uma menina de pele alva que mira o teto infecto com seu olhar estéril, embaçado pela morte. Estes pensamentos faziam pulsar com força o coração de Enzo, que agora retirava a venda dos olhos, pois o carro estava passando pela portaria do Clube; botou a máscara. Algo lhe incomodou um pouco. Por que não marcou um horário diurno? Por que não realizar sua infâmia com o Sol a pleno? Não seria um consolo? Ao sair de seu compromisso macabro, teria o abraço morno e consolador do Astro Rei; mas não, marcou para a noite. Seus olhos petrificaram-se na escuridão lá fora, seus dentes estavam trincados, desta vez estava só, totalmente só... sentia-se uma ovelha em pele do lobo, em meio a uma matilha. Pegou em seu bolso o bilhete que o motorista lhe entregara quando o apanhou, e leu: 22:00 cela 7 cadáver de homem. O carro parou.

No vestiário, enquanto botava a indumentária preta, observava de soslaio outros sócios que vestiam seus trajes negros. A desconfiança de que um deles pudesse ser Zattan não o abandonava. Pelo que podia perceber havia três homens e uma mulher, que ao vestir a blusa, deixou à mostra, sem nenhum pudor, suas tetas flácidas. Enzo tinha consigo o manual do Clube, onde constava a planta baixa do castelo, pois não queria perder tempo, iria direto para as masmorras para fazer seu trabalho e pular fora o quanto antes. Saiu do vestíbulo apressado. Seus passos ecoavam no mármore branco do piso, dava rápidas olhadas no manual e seguia por corredores de pé direito alto, em cujas paredes 40


despontavam quadros com temas bizarros, mas dignos de um Velásquez ou um Rafael. Ficou impressionado, diminuiu o passo, percebeu que o mar era tema freqüente nas pinturas, também a lua e guerreiros de aparência estranha; alguns cavalgavam seus corcéis negros com as cabeças de seus algozes conduzidas na ponta das espadas reluzentes. Reparou também que as peças não eram assinadas e um frio lhe subiu pela espinha, seriam aqueles artistas sócios do Clube? Não seria então, através do anonimato, a melhor maneira de se fazerem presentes junto àquelas paredes? Seguiu seu trajeto, não queria empilhar mais minhocas em sua cabeça, já as tinha em número suficiente para começar a enlouquecer. À medida que cruzava corredores e arcos e se aproximava das masmorras, o suor lhe encharcava o rosto, a máscara começava a colar. Quando chegou à frente da porta que dava acesso às escadarias que levavam ao inferno, parou. Valeria a pena tudo aquilo? Não seria tudo fruto de uma vaidade tola, ‘o best-seller do século! Enzo Caio! Viva! Viva!’ Fosse o que fosse, não podia mais recuar, então, empurrou a imensa porta com sua mão trêmula. À sua frente a sinistra escadaria surgiu trazendo consigo o odor nauseabundo do sangue. Os archotes nas paredes crepitavam seu fogo, apontando o caminho para o subterrâneo da alma. Enzo desceu as escadas zonzo e sentia seus sentimentos entorpecerem-se pouco à pouco, o pensamento atingiu rapidamente estágios febris, a boca secou, o olhar turvou. – Tenho que seguir, não posso fraquejar agora – seguia através de pernas dormentes e agora já se encontrava no corredor sombrio e infecto das celas, nem havia reparado quando da outra vez, que estas tivessem números a apontar onde as carnificinas seriam praticadas. Cela sete.Parou. A respiração ofegante aprisionada na máscara, o suor a colá-la ao rosto, e toda aquela realidade que agora assumia as colorações de um pesadelo. Respirou fundo e abriu a porta, um grito rasgou o silêncio; fê-lo tremer, fê-lo pensar em sair correndo dali, fê-lo escancarar o cordeiro que, enfim, nele se revelava assustado. Outro grito, em outra cela. Entrou apressado, fechou a porta e ficou com as costas coladas nela. Visualizou, através de olhos assustados e incrédulos o corpo no catre, coberto por um lençol imundo que recebia a luz pífia de uma lâmpada mal engendrada no teto, uma iluminação desmaiada e lúgubre. Parecia mesmo que tudo aquilo era proposital, um teatro de sangue, montado para despertar os instintos mais negros, mais inconfessáveis. Enzo estava só. A liberdade que lhe era concedida pela velha masmorra, através de seu abraço obscuro e anônimo, assustava o rapaz. À sua frente um cadáver. Em um canto, facas sobre uma pequena mesa. E ele, um cordeirinho, prisioneiro da pavorosa escuridão dos sentidos. Ensaiou alguns passos sem tirar os olhos do defunto e num gesto automático que lhe surpreendeu, puxou o lençol e encarou o morto. Desta vez era jovem, parecia sereno. Enzo encaminhou-se lentamente até as facas e pegou uma, conferiu o fio e voltou-se para o cadáver. Achegou-se ao morto e ficou por um tempo a fitar-lhe o rosto, uma estranha sensação assumiu seu corpo; seu sangue a princípio lhe queimou as veias, mas depois foi transformando-se numa espécie de anestésico, seu coração parou de palpitar, sentiu o suor lentamente esfriar, o pensamento abandonou sua mente. Enzo então enfiou a afiada faca, lentamente, na barriga do desafortunado. Um brilho insano reluziu seu lampejo nos olhos do escritor. – Zattan filho da puta!

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O CLUBE

Capítulo 4

ZENO KANOVA, UM CANIBAL?

Os dias seguintes serviram para que Enzo soltasse algumas amarras. Começou a freqüentar o lado sombrio da cidade. Começou a beber um pouco mais, fumar um baseado aqui e outro ali, cheirar cocaína quando lhe desse na telha, e foder putas. Quando a noite caía, já não conseguia ficar em casa, precisava da noite e de seus personagens, precisava mergulhar nos sabores obscuros que aquele aspecto da cidade oferecia. Queria os pequenos prazeres proibidos, comprava uma ou outra bugiganga roubada, conheceu gente sombria, fez algumas amizades. Um destes novos amigos era Zangão. Zangão era um mulato forte com cabelo rapado, tipo “careca reluzente” e cheio de tatuagens. Zangão conhecia tudo por aquelas bandas, apresentou Enzo a algumas mulheres, sabia onde tinha coisa boa, e jurou ao escritor que não haveria de ter nada que não conseguisse. Zangão passou a ser um ponto de referência para o rapaz, pois ao cruzar os umbrais envelhecidos daquelas casas de paredes caiadas, penetrava em um mundo cheio de perigos e delícias onde os humores cambiavam com a rapidez com que as armas brotavam em algumas mãos nervosas. Eram pequenos bares com pouca iluminação e muita decadência, pouca decência, nenhuma 42


compostura, enfim tudo que Enzo queria. Estava farto de tudo. Queria outros ares, mesmo que rarefeitos, mesmo que tenebrosos; ares que chacoalhassem seu sangue. Agora dormia com um gosto estranho na boca, como se tivesse mordido algo interdito, uma maçã envenenada ou, quem sabe, beijado de língua uma cascavel. Esse veneno doce que lhe instigava o paladar, causava-lhe estertores etéreos nunca antes sentidos. Achava-se estranho por aqueles dias. - Zattan filho da puta! - Não havia decidido se aquilo era bom ou ruim, aliás, não queria decidir nada. Queria viver. Queria abrir portas; foda-se o que poderia encontrar por detrás! Mergulhava em um redemoinho, um terrível redemoinho, mas... por que evitar estas quedas? Aliás, por que não mergulhar, logo, de vez? Um mergulho livre e satânico? Começava a livrar-se aos poucos das amarras do medo. Mesmo seu rosto, confrontado no espelho, assumia outras feições. O olhar brilhava diferente, mas... e se estivesse enlouquecendo? E se estivesse abrindo mão de sua sanidade pelo desconhecido? Ora, jogara suas fichas, nunca antes apostara em nada, mas agora, agora a sorte estava lançada! Foi pensando nessas coisas que chegou a um bar decadente daquele lado obscuro da cidade. Ao entrar, logo percebeu Zangão em um canto, sentado à mesa com algumas prostitutas, a fazer-lhe sinais para que se aproximasse. Enzo atravessou o ambiente esfumaçado, de ar viciado, e sentou-se em uma cadeira ao lado do rapaz. - Tenho um negocinho aqui para você, escritor. E não é droga. - É bom, porque hoje eu não quero drogas. Estou entorpecido ainda com alguns acontecimentos recentes. Hoje foi daqueles dias que não consegui firmar o pé no chão. - Não é droga – insistiu Zangão – é isto! – levantou a barra da camisa deixando à mostra o cabo de um revólver calibre trinta e oito – Cano curto. É bom pra brigas. - Caralho, irmão! - Fala baixo, porra! - De onde você tirou que eu preciso de uma arma? - Maninho... – Zangão encarou Enzo cerrando os olhos em tom de escárnio - todos precisam de armas. De onde você tirou que não precisa de uma? Você já olhou aí em roda, irmão? Ou você é daqueles caras que acham que estão acima do bem e do mal, daqueles caras que não vivem na vida real? Se for... coitado. Logo chegou um copo de uísque barato e sem gelo que Enzo liquidou em três goles. - Deixe ver o canhão. – pediu o escritor. Zangão lhe alcançou a arma por debaixo da mesa, Enzo examinou o objeto e devolveu – Vou pensar. - Mas não muito, mano. Quero cem paus nela, você não encontra preço assim com vagabundo nenhum por aí. - Vou pensar, Zangão. - Bom, então leva uma destas com você – disse o marginal, alisando as costas de uma das prostitutas que lhe acompanhavam – elas estão precisando faturar, irmão. Você está com cara de quem precisa foder. Vai, leva. Enzo riu. Pegou pela mão uma morena de cabelos cacheados e levantou-se. Deixou algum dinheiro sobre a mesa para pagar a puta e o uísque, grana esta que foi em um segundo para o bolso de Zangão, e saiu com a garota. Já na rua a moça disse que se chamava Janice e levantou o vestido mostrando as coxas bem torneadas e morenas. – Tô cheia de tasão, querido – os dois, então, caminharam mais um pouco pela rua abarrotada de todo tipo de gente noturna. Enzo enlaçou a garota pela cintura e deu algumas apalpadelas em sua bunda. Taí, uma boa foda talvez fosse tudo de que o rapaz precisava; Enzo entrou de bem na dança. 43


-

Conheço um hotelzinho bom, logo ali. Quartinhos limpos, você vai ver. – disse Janice, animada. Enzo puxou a garota para si num abraço mais forte. Enquanto caminhavam pela rua mal iluminada, podia reparar no entra-e-sai das pequenas portas incrustadas naqueles prédios velhos e lúgubres. Eram putas, proxenetas, traficantes, oportunistas diversos, em um ballet noturno e perigoso, onde os olhares mais temerosos e prudentes poderiam ser interpretados como de intrusos, gente de fora do ninho, pois por ali todos transitavam em harmonia diabólica com a noite balsâmica e sombria. Enzo reparava nos rostos, nos olhos injetados, nos batons vermelhos e borrados, nas meias arrastão furadas, nas veias inflamadas e expostas dos braços suplicantes por heroína. Luzes vermelhas piscavam anunciando inferninhos, hotéis baratos, e outros gozos inconfessáveis, num convite intermitente refletido nas calçadas. Enzo sorria, era bom estar ali, mas de súbito o sorriso congelou. Seus olhos se fixaram na porta de uma pequena boate; saia do local um rosto conhecido: Zeno Kanova. Sim, não havia dúvidas, aquele rosto lhe marcara tal qual uma efígie sinistra na mente. Kanova ria abraçado à uma prostituta que o amparava alegre, parecia meio alto. Sem demora ambos seguiram pela calçada e Kanova ria alto abraçado à moça, que parecia divertir-se também. Aquela visão fez formar-se uma tempestade na cabeça de Enzo. Zeno Kanova, o canibal. Zeno Kanova e sua próxima vítima inocente. Sim, aquela mulher nem por sonho poderia calcular o perigo que arrastava a seu lado. Sem uma idéia melhor na mente confusa, o rapaz pegou na mão de Janice e ordenou: - Venha comigo. - Hei, por que estamos atravessando a rua? O hotel é logo ali! - Preciso seguir aquele casal, aquele cara me deve algo. - Porra, meu. Ta parecendo polícia! Você não é tira, é? - Não diga bobagens, Janice. Só venha comigo. Kanova vestia um sobre-tudo negro e seu imenso rabo-de-cavalo era acarinhado de tanto em tanto pela acompanhante. O casal entrava por pequenas vielas escuras e ermas dificultando a perseguição, pois sem mimetizar-se aos demais, ficava óbvio que um casal seguia outro. Enzo diminuiu o passo para dar mais distância, foi quando Kanova e a mulher entraram por uma viela com quase nenhuma iluminação. Quando, enfim, entraram pela estreita rua, ficaram imersos em sombras e os perseguidos haviam sumido. - Que merda! – sussurrou Enzo, olhando para os lados, o coração batia forte. - Se foram. Olhe, podemos trepar aqui mesmo, que acha? – brincou Janice. - Acho uma idéia criativa... – a voz forte e mansa de Kanova rasgou o silêncio e assustou ao casal. A silhueta do veterano escritor brotou das sombras, tal qual uma temerosa aparição noturna – Mas infelizmente, ou felizmente, sei lá... existem outras pessoas que possuem imaginação; então as que chegaram primeiro têm a primazia de dar vazão às suas fantasias em paz. O que vocês acham?... Hei... A pouca luz do local insidia anêmica, caprichosa e traiçoeira sobre o rosto de Enzo. Zeno aproximou-se. – Hei...Hei... eu lhe conheço... Sim, não esqueço um rosto tão facilmente. Você esteve na Casa Azul em minha noite de autógrafos... se não me engano também é escritor. Estou certo? - Sim, sou... Enzo Caio. – o rapaz estava visivelmente constrangido. Sentia-se um peixe idiota apanhado pelas redes de um pescador maduro e esperto. - Hahahaha... – a gargalhada do veterano irritou um pouco Enzo – Venha querida! – fez um sinal e a mulher saiu da sombra, totalmente sem jeito – Este aqui é meu coleguinha, Enzo Caio. Escreve livros de terror também, agora me lembro. Ora, ora, temos que celebrar! Não é todo dia que estes encontros acontecem, somos de uma raça estranha, nós, 44


os autores dos livros negros! Sim, sim, isso merece uma comemoração, não vou aceitar ‘não’ como resposta. Vamos para minha casa. Este convite, feito assim, à queima roupa, aturdiu o jovem escritor. Mas quem sabe, raciocinou, não seria esta a única maneira de criar a cortina de fumaça para que aquela pobre mulher pudesse sair viva das mãos do facínora? Era um sacrifício perigoso, mas não via outra saída. Janice topou na hora, pois farejara dinheiro. Todos então caminharam de volta à rua dos inferninhos. No trajeto uma idéia ocorreu a Enzo. Tão logo retornaram à rua, o jovem autor desculpou-se, mas precisava atender a um rápido compromisso, coisa de cinco minutos, já voltava. Em uma esquina ficaram os três, as mulheres e Kanova, em animada conversa, aguardando Enzo. Em poucos minutos ele retornava, tinha o semblante mais tranqüilo. -Podemos ir. – disse, e se foram.

Durante o trajeto até a casa de Zeno, havia tensão no carro. Enzo e Janice estavam no banco de trás e a garota volta e meia alisava o banco de couro – Gente fina! – dizia ao ouvido do cliente, mas este não escutava nada, pois Kanova estava embriagado e dirigia com alguma imprudência. O veterano, de tanto em tanto, cravava seus olhos de águia nos de Enzo através do espelho retrovisor. O mal-estar era completo. Kanova então dava vazão à gargalhadas ruidosas e não se cansava de repetir: - Hoje vai ser foda! Hoje vai ser foda! Também não se furtava a enfiar os dedos no meio das pernas da prostituta, subia até a boceta e em seguida os cheirava. – Hmmmm, adoro este cheiro, é onde tudo começa! Hahaha – o rapaz desviava o olhar para as luzes nos postes, que passavam rápidas, e percebia que estas iam rareando, tanto pior, o homem deveria morar em algum lugar mais afastado. - Gosta da carne, Enzo? Esta pergunta foi disparada como um tiro. Os olhos do motorista estavam no espelho, e aguardavam tal qual os de um abutre a resposta para a pergunta direta. - Depende. - Depende? Ora essa, ‘depende’, diz ele... – ato contínuo, pegou a mão da moça a seu lado e cheirou delicadamente; seus olhos reviraram, no desvelo manso de uma volúpia verdadeira e espontânea. Em seguida passou sua língua vagarosamente entre os dedos delicados, arrancando um suspiro da garota. - Viu? Ela não fingiu esse suspiro. Ela apenas cedeu ao apelo da carne, o apelo mais poderoso que existe. Porque as carnes se reconhecem e se amam, passam toda uma vida se procurando, seja com a delicadeza do carinho ou com a violência dos instintos desenfreados; desenfreados porque irresistíveis à carne. Enfeitamos a carne, vestimos a carne, perfumamos a carne... sempre na intenção de atrair a outra, que por sua vez, faz o mesmo. Não é incrível, escritor? nosso olfato, paladar e visão ficam inebriados até mesmo com a simples visão da carne... Nosso sangue ferve, a boca esquenta, a respiração aumenta, como se a vida reconhecesse aí, seu momento mais sublime, encantador e animal! A iminência da carne do outro nos inflama, nos transforma em reféns do sangue, deliciosamente reféns do sangue... e a partir daí, embalados pela violência e delícia dos sentidos, sabe-se lá em que poderemos nos transmutar... – os olhos intensos de Kanova fitavam o rapaz pelo espelho, e este se sentia como que hipnotizado pelo olhar da serpente. - Chegamos. – o veterano finalmente desviou o olhar e Enzo conseguiu aterrisar, mas havia provado de um veneno poderoso, agora sabia; aquele homem era mais perigoso do 45


que imaginara, não foi à toa que correu ao bar para comprar a arma de Zangão. Não cogitava de entrar na boca do lobo sem suas garantias. Mas algo então aconteceu; Kanova saltou do carro e dirigiu-se aos impropérios a um outro auto que surgia na rua deserta. O automóvel passou por eles apressado e o escritor retornou ao seu carro, achegou-se à janela ofereceu aos surpresos passageiros um rosto desfigurado pela indignação. - Esses filhos da puta estavam nos seguindo; sim, desde que saímos! Será algum cafetão? Digam-me vocês! – vociferou dirigindo-se às mulheres, que negaram veementemente. Não, não era hábito dos cafetões seguir suas putas. – Quem era então? – esbravejou Zeno com sua voz bêbada – Detesto intrusos em meus momentos mais íntimos e o que faço não é da conta de ninguém! – ato contínuo, entrou no veículo, apanhou o pequeno aparelho de controle remoto e apertou o botão. Um portão à frente foi abrindo-se lentamente e as luzes dos faróis iluminaram uma estreita estrada ladeada por um gramado bem aparado; no fundo, uma bela casa de dois pisos despontava sua silhueta, a mansão tinha as luzes apagadas. Começaram a entrar pelo pátio e Enzo sentiu um frio percorrer seus nervos. Quem seriam os perseguidores? Lembrou-se de Elisa. Ela bem seria capaz de mandar alguns perdigueiros colarem nele. Mas se fosse gente da promotora, estaria realmente em maus lençóis. Precisava manter tudo aquilo no mais silencioso segredo, sua vida agora corria sérios riscos, não queria intromissões justamente em um momento tão crítico de sua investigação.O automóvel parou. – Vamos, escritor, vamos nos divertir! Esqueçamos esses xeretas imbecis! – todos então saíram do carro. Já dentro da casa, Enzo Kanova ordenou que não acendessem luzes, ao invés disso ia acendendo imensas velas por onde passava. Um ambiente requintado foi assumindo contornos misteriosos através da claridade calma das pequenas chamas. Logo, o homem desapareceu imerso às sombras. - Corre um ventinho frio por aqui, sei lá... é tudo estranho... – comentou a acompanhante de Kanova. Agora se encontravam apenas os três na imensa sala, as mulheres e Enzo. Este comentou: - Olhe, não sei não, esse cara é muito estranho... se você julgar perigoso seu comportamento, qualquer coisa que ache ameaçador, grite. Estarei por aqui. - Querido – sorriu a mulher – se eu fosse filtrar, malandro, morria de fome. È da vida. Além do mais, realmente, não é todo dia que consigo cliente distinto assim. O cara tem grana, é grande escritor e tal... fique tranqüilo, sei me cuidar. - Ah, Enzo – interrompeu Janice – vê se não me broxa! Olha a casa do cara! Você está muito tenso, por quê? Foi você que quis seguir o home. - Ah, não foi coincidência? – perguntou a outra. - Nada! O Enzo aqui disse que o seu cliente devia algo a ele. Parecia um maluco seguindo vocês... - Isso é assunto meu, porra! – Enzo interrompeu irritado. Todos então olharam para um vulto que adentrava à sala. Kanova retornava trazendo quatro taças e uma garrafa de vinho tinto. – O melhor vinho para os melhores convidados! Hehe...em seguida abriu a garrafa e serviu as taças, que havia colocado em uma mesa de canto. Os móveis da sala tinham uma predominância negra só quebrada pelos tapetes persas. Nas paredes, quadros que Enzo julgou muito parecidos com os do Clube, porém assinados. - Belos quadros. – arriscou o rapaz. - Ah, sim. São de amigos pintores. Trazem nos matizes de suas cores e elementos as metáforas fantásticas do inconsciente. Amo o que não se vê, mas que está presente em todos os nossos atos. Mesmo uma mera mordida tem suas raízes onde não podemos ver... 46


não é fascinante? Por favor, peguem suas taças. Isso. Agora façamos um brinde: - Aos autores de Livros Negros, e ao encontro raro entre dois deles. – todos bateram as taças. As mulheres, então, beberam entusiasmadas, mas Enzo mantinha o semblante preocupado, o desconforto era visível. - Como você pode ter tanta certeza de que sou autor de livros negros? Sou um mero escritor de terror, e, se quer saber, nem tão bom assim. - Pelo faro, querido, pelo faro. Por favor, dê-me sua mão. O pedido pegou Enzo de surpresa e o deixou levemente irritado. A acompanhante de Kanova brincou com o rapaz: - A língua dele é uma delícia, você vai adorar. – Enzo lançou um olhar duro para a garota, depois voltou-se para Kanova. - Acho que minha tez não seria de seu agrado Sr. Kanova, acredite.- o veterano deu uma gargalhada, e ao recompor-se fitou o novato bem dentro dos olhos. Enzo sentiu novamente o poder da velha serpente, e num ato automático, lento e impensado, esticou seu braço, entregando sua mão ao nariz de Kanova. Este, sem tocá-la, começou a cheirá-la delicadamente. Mantinha os olhos nos da vítima. As mulheres riram baixinho. - Hmmm... – sussurrou o anfitrião, recompondo-se – manuseou uma arma, arma velha, talvez um trinta e oito. Arma de vagabundo, pois já passou de mão em mão. – sorriu então sem tirar seus olhos dos do rapaz - Foi isso que você foi fazer naquela hora em que nos deixou? Foi buscá-la? – Enzo estava descomposto, não sabia por qual lado sair, sendo assim, foi sincero. - Foi. Kanova inclinou seu rosto para o lado, como se analisasse algo raro, sorriu: - E essas balas... seriam para quem? Espero que para ninguém aqui dentro. - Apenas decidi que devo andar armado, só isso. - E você me diz que não é autor de livros negros? Com toda essa imaginação? Duvido. – ato contínuo, foi sentar-se em uma poltrona e chamou a acompanhante que de imediato acomodou-se em seu colo. Começou então a mordiscar o pescoço da garota, que emitia alguns gritinhos. – Você não respondeu aquela minha pergunta. – disse Kanova sem parar o que estava fazendo – Gosta da carne, Enzo? - Gosto. – respondeu com uma voz trêmula e sincera. - Então? O que está esperando? Divirta-se, o quarto de hóspede é bem em frente às escadas no piso de cima. Eu amo a carne, e agora quero me dedicar totalmente à ela. O hóspede deixou a taça na mesa e pegou Janice pela mão. Saiu da sala quieto. Quando se aproximou das escadas viu a porta da imensa cozinha aberta, e algo então lhe chamou a atenção: o imenso freezer, que, apesar do ambiente escuro, podia ser visto jazendo misterioso em um canto. Ambos subiram as escadas e Enzo começou a sentir-se um tolo. Ora, se Kanova tinha planos para aquela pobre moça, obviamente não convidaria o casal para acompanhá-los. Depois, um sentimento de alívio se fez sentir, pois ao interpelar o veterano escritor e a prostituta, poderia realmente ter salvado a vida da garota. E agora... aquele freezer... sentia sua imaginação ficar aprisionada, aos poucos, naquele macabro congelador. Aliás, o objeto servia também para lembrá-lo da fria que estava entrando lentamente. Mas agora era tarde, estava envenenado pela dúvida; pior, por um veneno amargo com gosto de sangue. - Porra! Legal este quarto! – disse Janice ao acender a luz do cômodo. Uma meia-luz que iluminava, suave, uma imensa cama redonda dominando o centro do amplo quarto; sobre a cama, alguns travesseiros limpos e um grosso cobertor dobrado. Não havia mesas de cabeceira ou armários, somente um criado mudo em um canto; as paredes sustentavam 47


diversos quadros onde faunos defloravam belas e alvas ninfas, quadros que impressionaram Enzo pela qualidade artística. Neles eram retratados entes da Natureza com seus imensos chifres e risos ruidosos que assediavam com seus pênis descomunais, belas mulheres bem fornidas e assustadas. Aos poucos as mulheres pareciam se render ao fascínio dos alegres faunos, filhos daquelas florestas encantadoras e mágicas. - Deixe lhe dizer... – prosseguiu a moça enquanto reparava em pequenos detalhes - este quarto é para surubas, sim, eu conheço... o cara é chegado, pode apostar. Não se surpreenda se eles entrarem por aquela porta pelados, hehe... Este comentário deixou o rapaz de sobressalto. Sim, esta não podia ser uma idéia descartada. Decidiu então que se isso ocorresse, repeliria o anfitrião, nem que precisasse usar de sua arma. Já seria demais partilhar intimidades sexuais com o estranho, principalmente se tratando de Zeno Kanova. Subitamente, escutou barulhos vindos do piso inferior, então, vagarosamente fechou a porta e colou nela o ouvido; escutou o casal subindo as escadas aos risos, e num gesto automático levou a mão à arma. Mas logo suas preocupações acabaram, o escritor e a prostituta tomaram outro rumo, possivelmente o do quarto do homem. Ao voltar os olhos para Janice, reparou que esta retirava sua saia, então ordenou: - Não tire a saia, não vamos trepar. - Como assim? Não vamos trepar? Você até já pagou, meu. Vamos curtir este quarto, afinal, não é todo dia... - Pare Janice! E escute com atenção: esse homem aí é muito perigoso, se quer saber, vim até aqui para que não fizesse nenhum mal à sua amiga... - Não é minha amiga, meu. Aliás, nem conheço a puta... é carne nova no pedaço... - Esse é o problema, é carne nova. - Então por que você não me conta o que está acontecendo? Porra, está me deixando com medo... - Não posso, bem que gostaria. Agora, me prometa que não vai sair deste quarto, preciso fazer uma coisa e em seguida estarei de volta. - Essa é que não, malandro! Vai me deixar aqui? Depois de dizer que o cara é perigoso e tal? Vou com você. - Não, melhor não. Tranque a porta por dentro, quando voltar darei três batidas, não vou demorar. - Ai, ai, ai... caralho! Tá, mas não demore. Enzo saiu e escutou a mulher chavear a porta. Em seguida caminhou sem fazer barulho até uma porta em que vazava luz por debaixo; ouviu cochichos e risadas. Ato contínuo, seguiu para as escadas e desceu rumo à cozinha. As velas mantinham-se acesas, emprestando uma claridade indireta e precária à imensa cozinha. Lá estava ele... o freezer. Aproximou-se lentamente, o coração batia forte, o costumeiro suor lhe brotou na testa, era agora ou nunca. Por um instante, que lhe pareceu uma eternidade, ficou estático diante do imenso congelador. E agora? E se encontrasse, ao abrir, o corpo esquartejado e envolto em plástico, de uma pobre e desavisada qualquer? - Foda-se - tinha de fazer. O mistério estava ali, bem à sua frente envolto naquela quase escuridão; levou a mão trêmula à porta e percebeu, numa sensação de frustração e também de algum alívio, que um cadeado selava o segredo no interior da grande e gelada caixa. - Sabe... – uma voz vinda pelas costas fê-lo virar-se já de arma na mão. A silhueta negra e nua de Kanova estava bem próxima, este então prosseguiu com sua voz calma: - dizem

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que um dos grandes vícios dos leitores é colar a ficção descrita nos livros à vida dos seus autores. Aqui está a chave. – colocou-a sobre o freezer – Abra. Enzo estava apavorado. Precisava encontrar uma boa saída para aquela situação bizarra, mas não encontrava nada, apenas mantinha a arma apontada para o homem à sua frente. Este então prosseguiu: - Lhe convido para minha casa e você vem xeretar e me apontar uma arma! Quem é você, afinal? O que quer? Quer descobrir o que tem dentro do freezer? Pois aí está a chave, abra! Sabe... eu poderia chamar a policia por isso, mas não, apenas chamei um táxi. Logo estará aqui, quero que pegue sua companheira e saia, a outra menina fica. Sabe, você poderia aprender muito comigo, mas... realmente... vir armado à minha casa... broxei com você. O que você está pensando? Seguir-me pelas ruas feito um perdigueiro patético! Você não combina com a sombra Enzo, se fosse assim, desapareceria nela, pois ela seria a sua casa. Você é um homem sem mistérios, vi no seu olhar, é um medroso, fraco, transparente. Alguém a ser manipulado por idéias alheias, pois precisa delas para prosseguir feito um fantoche. Vou lhe dar um conselho, este é de graça: faça outra coisa, mas esqueça os livros negros, você não nasceu para isso. Escreva livros infantis, tem mais a ver com sua conduta. Estas sombras, onde nos encontramos agora, não são para qualquer um. Este é um mergulho livre e satânico, caro irmãozinho, é preciso ser muito corajoso, e você... bem, você está a uma grande distância disto tudo, você engatinha ao sol, nada mais. Agora abaixe essa arma e se vá. - Abra o freezer. – disse Enzo, reorganizando um pouco suas forças. - Abra você. – dito isto, Kanova virou-se e já ia saindo, quando o rapaz perguntou: - É preciso ser um assassino para escrever os tais livros negros? Kanova deteve-se já na soleira da porta da cozinha. Virou-se lentamente para o autor da pergunta e permaneceu alguns instantes em silêncio, então respondeu: - Não sei, me diga você. – em seguida se foi.

Foi difícil sair da cama naquela manhã. Como foi possível sua vida dar uma guinada assim? – Zattan filho da puta! Mil vezes filho da puta! – Até então era apenas mais um escritor lutando pelo tão exíguo lugar ao Sol; agora, bem, agora encontrara um lugar em uma imensa sombra que não ousava dizer o nome. A noite anterior lhe deixara em confusão completa, o que foi aquilo? Por que não abriu aquele freezer? De que valeu tudo aquilo? Além de tudo partir com Janice, humilhado, deixando a outra moça sob as garras do abutre. Não acreditava realmente que Zeno Kanova pudesse praticar seus atos sombrios depois das duas testemunhas terem estado tão perto de seus instintos mortais. Lembrou-se do Clube. Já não sentira nada quando enfiou a afiada faca no corpo daquele infeliz, nem remorsos, nada. Só sua mão neutra cravando a lâmina naquela carne inerte... a carne... A carne! Gosta da carne Enzo? Que pergunta mais estranha de se fazer. O que sondava o maníaco ao fazer esta pergunta descabida? Lembrou-se que ao sair de sua cela, depois de praticar, passou por outra que tinha a porta aberta, lá dentro um mascarado lhe chamou para mostrar-lhe sua obra. Um homem pendia enforcado por uma corda puxada através de uma roldana afixada no teto; quando entrou na cela estava em estado catatônico, mas agora lembrava com clareza que o ‘colega’ lhe expôs orgulhoso a sua descoberta: - Trinta centímetros- disse o homem – trinta centímetros do chão é o que basta para quebrar o hióide. Ele se debateu durante o trajeto, mas, trinta centímetros, sim, é o que basta. Precisava deste ‘detalhe’ 49


para meu próximo livro. Você sabe, parece bobagem, mas é coisa séria. - Enzo levantou-se enjoado, foi até a janela e a abriu. – Posso pular. Sim, acabar com este inferno em minha mente... tudo termina... Morrer, dormir, não mais...e um sono apenas...que à angústia extingue e à carne a herança de nossas dores eternamente acaba... – aquelas máscaras já tão familiares dançavam em algazarra dentro de sua mente confusa numa espécie de Noite de Valpúrgis. Aquelas máscaras... bruxas, aquelas máscaras... aquele sangue, aquele cadáver exangue, aquele enforcado, meu próximo livro disse o homem, Kanova, o freezer, a arma de Zangão, a arma apontada para o assassino, Elisa que foi embora, Zattan... O gosto amargo da bile se fez sentir em sua boca. A serenidade com que matou o cadáver lhe veio à lembrança. Não sentiu nada. Seria porque aquele homem já estava morto? Ou porque algo em si endureceu, ou mudou, ou ainda, algo saiu da sombra. E aquele carro? Precisava tirar a limpo, seria gente de Elisa a segui-lo? Precisava descobrir. Pular da janela poderia ficar para depois.

Elisa saiu do prédio do Ministério Público; olhou para o céu reparando em um dia nublado, de ar pesado, e dirigiu-se ao seu carro no estacionamento em frente ao prédio quando um homem de sobre-tudo negro e chapéu da mesma cor aproximou-se e postou-se à sua frente. - Elisa, precisamos conversar. - Enzo? – surpreendeu-se a mulher. - Preciso falar com você. É muito sério. - É muito sério? É... só poder ser... para você me interpelar assim! Olhe para você. Parece um vampiro...um criminoso... sei lá... está magro, com o semblante cansado... eu não esperaria outra coisa, afinal, virou assíduo na zona do baixo meretrício; você e seus novos amigos marginais. Você e suas putas da pior espécie! Saia da frente, quero ir embora. – a mulher estava visivelmente irritada, mas Enzo se interpunha entre ela e o automóvel. - O que você quer, porra! – esbravejou a promotora. - O que quero já encontrei; então é isso, você mandou me seguir! Nunca mais faça isso! Quero que me deixe em paz! Já que não pode compreender que... - Compreender? – interrompeu a moça, agora com lágrimas nos olhos furiosos – Compreender? Compreender o quê? Que você me deixou para freqüentar putas! É esse o seu misterioso best-seller? E como vai se chamar? ‘De como abri mão da minha vida para viver com cães e cadelas’ seria um bom nome. Ora, Enzo, por favor! Não há desculpas a dar, aliás, não há nada que você diga que possa mudar as coisas, mas lembre-se: foi você quem escolheu esse caminho. Sinceramente, desisti de tentar entender o que lhe aconteceu. Agora pouco importa. Deixe-me passar. O escritor finalmente saiu da frente e Elisa entrou no carro batendo a porta. Enzo fez um sinal para que baixasse o vidro, ela atendeu. - Me prometa que nunca mais vai haver alguém me seguindo. Você não tem idéia do risco que corre, acredite, quero você afastada para seu próprio bem. - Fiz o que fiz porque estava preocupada, que idiota, não? Fique tranqüilo, desisti de você.Tchau, Enzo – Elisa ia arrancar, mas sentiu a mão do rapaz em seu ombro, por um momento ficou estática. - Tenho saudades... – disse o escritor com a voz embargada. A mulher arrancou rapidamente e o deixou com o olhar perdido no nada, enquanto uma lágrima traiçoeira descia pela face. 50


Então era isso. Elisa farejava seus passos; teria o seguido até o Clube? Não isso não. Não acreditava nesta hipótese. Aqueles motoristas eram altamente treinados, além do mais, seria uma tarefa praticamente impossível seguir sem ser notado naquelas estradas ermas. As coisas do Clube eram muito bem planejadas. Só os motoristas sabiam o caminho... isso intrigava Enzo. Quem seriam aqueles homens de semblante neutro e olhar parado? Quase robôs? Saberiam aqueles funcionários das coisas que se passavam dentro do castelo? Das entranhas assustadoras daquele lugar sinistro? Quantas perguntas sem respostas... Elisa... Elisa... agora andava pelas ruas a pensar em Elisa. Seu coração machucado batia forte no peito, a mulher amada não queria mais nada com ele, e não sem motivos. Com quantas putas seus olheiros teriam testemunhado suas saídas? O que essa mulher teria sofrido ao receber os relatos? ‘Enzo anda lá pelo lado sombrio da cidade com marginais e prostitutas, e se a senhora me permite, promotora, parece estar gostando.’ Se conhecia bem a namorada, sabia que ela entraria em desespero, mas não deixaria transparecer. Depois, lá com seu travesseiro, bem, aí sim, se esvairia em lágrimas. – Pobre Elisa – Não poderia entender, por mais que se esforçasse, o fato de seu amado sair de sua amorosa convivência para atirar-se à depravação e à experimentações perigosas. Deveria estar se perguntando que tipo de livro o homem estaria a escrever, que tipo de obra teria a força mágica de arrancá-lo de seus braços para atirá-lo às perigosas ruas daquele lado da cidade. - Paciência. Devo prosseguir, mesmo machucado, mesmo não me reconhecendo mais. Pela porta que entrei, agora sei, não é permitido sair. – Se por um lado Enzo sentia a dor de perder Elisa, por outro, o sentimento de liberdade que se fazia sentir era como um sopro de vento fresco na ferida. Estava livre para agir, e esta liberdade estava lhe assustando; sem pilares para se apoiar, era obrigado a andar com seus próprios passos, e esses, invariavelmente, o levavam à sombra. Tinha de admitir, mesmo às duras penas, que estava sob influência de um estranho fascínio, o fascínio do proibido, do interdito, das coisas que são vetadas às pessoas comuns, mas que existem apesar dessas negações. Mergulhara em um mundo onde as regras ficavam de fora, e onde os sentidos devem ser os vetores das pulsões mais escondidas e inconfessáveis, um mundo que só existe na cumplicidade do escuro. Sentia esse pântano negro borbulhar e algumas mãos já podiam ser divisadas assustadoramente crispadas como as de seres lodosos e loucos que anseiam por virem à tona. Enzo caminhava e pensava, pensava e caminhava – Ela disse que pareço um vampiro – a garota deveria ter razão, quem sabe a convivência com o sangue já tivesse se fazendo expressar em seu semblante? Quem sabe um dia não haveria de ansiar pelas máscaras do Clube para esconder o rosto? Quem sabe... quem sabe... - Gostei desse chapéu! – a voz de Rodolfo Zattan estourou seu devaneio feito uma seta em um balão de gás. Olhou em volta e logo pousou os olhos no escritor, que estava parado junto ao meio-fio da agitada rua. A roupa de sempre, o sorriso de sempre. Logo se juntou a Enzo e pegou-o fraternalmente pelo braço. – Vamos, vamos pela rua, caminhar é bom. - Uma aparição. – disse o rapaz enquanto ambos caminhavam lado a lado – Às vezes me pergunto se você existe ou é só fruto de minha imaginação febril. Mas... se for honesto comigo mesmo, tenho que admitir que você é a única pessoa que me convinha encontrar agora. - Acredito. Tanto é que estou aqui. - Estou despedaçado, Zattan. Destroçado. 51


- Caro escritor, para criar é preciso destruir. O que em você era ovelha cai aos pedaços no chão; das profundezas surge o lobo! Os dois não podem coexistir; entenda, é preciso que um morra para o outro nascer, são transmutações, meu caro, dolorosas transmutações, porém necessárias. A vista começa a aguçar, o olfato também, o que é fraco morre, os dentes caninos parecem crescer, o cheiro do sangue enche de poder o corpo e a imaginação. Prossiga sua iniciação sem vacilar, logo será um autor de livros negros, e dos bons lhe garanto. Se quer saber, você está indo muito bem. - Estou indo muito bem, você diz... me explique, ir bem é perder alguém que ama? Perdi minha namorada por conta dessa porra toda! Você chama isso de ir bem? - Você não perdeu nada. Essa garota gostava de você porque o tinha debaixo do braço, nada mais. A segurança sentimental que um homem proporciona a uma mulher: ‘um rapaz apaixonado e bem comportado’, cobra seu preço mais tarde, pode acreditar. Ela já se preparava para sustentar seus devaneios de escritor frustrado; sim, creia, em breve você estaria sendo sustentado por ela; e vou mais longe, isso era tudo que ela queria. O fato de ser um perdedor é um trunfo fantástico para uma mulher bem sucedida. Ela realizaria as fantasias dela, mas lhe pergunto: você realizaria as suas? Ora, por favor, sei que você e aqueles seus livros patéticos de terror mal conseguiam provocar algum arrepio em senhoras idosas.Um dia, se for honesto, admitirá que o Clube salvou a sua vida; pessoal e profissional. Por falar no Clube, andou por lá, não? Hehe... um cadaverzinho aqui, outro cadaverzinho ali, e vai levando, hein? Pois saiba, não poderá ficar indefinidamente matando defuntos. Mas de resto gostei. Tomou a iniciativa, foi lá e fez algo, já é um começo. - Engraçado, sua presença quase me é confortável – disse Enzo um pouco contrariado – nunca pensei que pudesse me sentir assim ao seu lado. Você é um monstro, o monstro que devorou minha alma; acho que já nem possuo uma. Sinto uma sensação estranha, como se o corte que sangra ficasse amigo da faca que o lacera, por ser ela quem está mais próxima da dor que sente. - Se o corte aprender com a faca, logo conterá aço em seu sangue. E se lhe agrada saber... seu olhar está mais seguro do que das outras vezes que nos encontramos; a dor não o desfigura mais, está altivo, apenas ruminando a ferida causada por sua recente perda; logo esse alimento o fará mais forte. - Estive na casa de Zeno Kanova. - Eu sei. - hmm, não me admiro mais com isso. - Ora, garoto, sou seu mentor, esqueceu? Além do mais, Kanova é meu amigo. Por que não abriu o freezer? - ...Não sei... - Sabe. - Vamos tomar um café? - ...Um café?...claro, um café...

As ruas estavam movimentadas e o mentor e seu pupilo encontraram um bar com mesas na calçada. Era bom sentar e observar os passantes apressados, semblantes sérios, comprometidos, inabaláveis. Pediram dois cafés.

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- Observe essas pessoas, Enzo. Observe bem. São gado, apenas gado, nada mais. Mas você... você está se descolando, saindo da massa, indo ao encontro de sua profundidade; sim, é uma experiência assustadora. Não existem reflexos solares no fim dessa estrada, só a negra liberdade do escuro; só o lampejo do perigo no olho; só o sangue borbulhando nas entranhas doloridas. Aí é operada a mudança; nesse momento você se apossa do perigo, ele agora é seu, ele é tudo que tem, sendo assim você é o perigoso, o que assusta, o que amedronta. Nesse momento você renasce batizado nas águas negras da sombra. A vida entra em ebulição, o coração rasga e inunda de sangue o interior de seu corpo, já não existe ‘alma’, o lobo está pronto. Seus olhos agora desnudam tudo e todos, agora você pode ler as ‘almas’ das ovelhas. Aí então o mundo vem para a sua mão. Instintos poderosos que não ousavam dizer seus nomes vão brotar ruidosos, reivindicando o Sol antes lhes negado. Um gosto de liberdade se faz sentir, a realidade se curva deixando à mostra sua verdadeira identidade; a farsa do ‘real’ desaba aos seus pés. Você então pisoteia a grande hipocrisia que lhe venderam como ‘verdade’ e segue adiante, portando sua própria espada, sua própria lei, nesse momento mágico o mundo é seu. Já não existirão obstáculos invisíveis em sua mente, você está livre! Estará pronto para verter suas experiências mais íntimas nos livros negros, pois você agora é o autor de seu próprio destino. E saiba, todos querem saber o que é feito para além-muros da Moral e das ‘prisões-verdade’ que são impostas como norma. Alguns por simples curiosidade, outros como válvula de escape do reino da Grande Hipocrisia. Motivos realmente não faltam. Só mesmo o gado manso não se preocupa com essas coisas. - E... e seu for feliz sendo gado manso, e se eu encontrar na ignorância existencial o próprio bálsamo para existir? Ora, seria uma escolha minha. Ninguém teria nada a ver com isso... - Meu caro, não minta para você mesmo, é feio. Se fosse assim como diz, você nunca ligaria para mim. Você simplesmente esqueceria nosso primeiro encontro e seguiria sua vidinha. Mas não, algo lhe fascinou. O desconhecido lhe fascinou, o desconhecido que dorme plácido em você mesmo, nos seus recantos mais escondidos. Creia, se não fosse assim, não estaríamos conversando agora. O mergulho negro a que se propôs, inconsciente num primeiro momento é verdade, demonstrou grande coragem, e a partir daí meu jovem, não tem volta. Sinta-se à vontade para sofrer, faz parte da passagem, mas lhe garanto: existe um tesouro no final dessa estrada. Neste momento Enzo perdeu o olhar no infinito da rua; Zattan dolorosamente tinha razão. Teria chegado a hora de parar de mentir para si mesmo? e começar a preparar a casa para a chegada do lobo? Sentia que por onde passava deixava cair os escombros de uma existência que já não lhe dizia respeito, tal qual uma cobra que deixasse para trás a pele envelhecida e inútil. Haveria um encontro mais adiante onde só sobraria um: Enzo de ontem versus Enzo de amanhã, e o de amanhã era algo de assustador. Zattan apenas facilitava a passagem com sua costumeira habilidade. Tinha então que decidir se valeria a pena continuar lutando – indefinidamente, quem sabe? – contra a chegada do lobo.

Elisa era uma mulher de hábitos. Era-lhe incômodo sair de sua confortável rotina, por isso mesmo costumava delegar muitas atividades a seus colegas de hierarquia inferior. Chegar em casa depois de um estafante dia de trabalho, tomar um banho quente e recolher-se para ler um livro ou analisar alguns processos era uma espécie de benção da qual não abria mão. 53


Naquela noite não foi diferente. Chegou em casa maldizendo o clima, que havia esquentado apanhando-a de surpresa. Tão logo botou os pés em seu apartamento, foi tirando casaco e cachecol para jogá-los no sofá – Um banho! Um banho! – exclamou para as paredes – Droga de tempo! – e prosseguiu, tirando a roupa pelo caminho. Logo entrou em seu quarto apanhando em uma gaveta de sua penteadeira uma calcinha limpa, em seguida pegou um penhoir preto meio transparente; dirigiu-se ao banheiro. Quando, enfim, estava nua e pronta para entrar debaixo do jorro morno e revitalizante da água do chuveiro, a luz apagou. – Droga! Logo agora? – Porém, sem demora percebeu que pela janela basculante entrava a claridade oriunda das luzes dos outros apartamentos. Preocupou-se. Por um momento ficou estática, sua arma estava na bolsa, precisava apanhá-la; porém, antes de mover-se pressentiu algo que a paralisou. Alguma coisa se mexeu na sombra, tinha certeza. Seu coração disparou, precisava agir, mas sua iniciativa aos poucos se congelava pelo pavor; não havia dúvidas, tinha alguém em sua casa, bem ali, no escuro. Reuniu forças para perguntar em voz trêmula: - O que você quer? Quem é você? – recebeu como resposta o silêncio aterrador da agressão iminente. Sem pensar correu para a sala onde estava sua bolsa, mas foi apanhada no caminho pelo invasor, que a derrubou sobre o tapete. Sentiu na pele a pele de um homem nu e em sua boca a mão decidida do violador. - Quero você, Elisa, quero muito! – a voz de Enzo lhe causou uma espécie de alívio misturado com indignação e revolta. Em seguida o ex-namorado foi retirando a mão de sua boca; sentiu os dedos do rapaz em sua boceta. Estremeceu. O coração parecia querer saltar pela boca. O hálito do agressor ali, tão próximo, o roçar de lábios, o pavor, aquela mão, aquela mão... sentiu que molhava os dedos de Enzo. Uma excitação repentina e traiçoeira lhe invadiu o corpo; a boca abrasou, dilatou suas pupilas, deixou escapar um gemido, a mente esvaziou. Sentia-se desabar em um torvelinho se sensações junto ao corpo do homem, vítima indefesa daquela escuridão tão cúmplice. Logo o peso do escritor lhe oprimiu um pouco a respiração ofegante, um pau duro agora começava a penetrar com calma sua vagina encharcada. Não resistiu. Cravou as unhas no amante com sofreguidão, as indignações, diferenças, mágoas, tudo desapareceu por conta do tesão louco e quase desesperador a que se deixou dominar. Seus gemidos agora davam lugar a gritos de puro prazer e o intruso bufava feito um touro entregue ao prazer cego da cópula. Ambos se deixaram cair pelo vão escuro que leva à desmesura dos sentidos, ao desregramento total de sua mentes e corpos, ao prazer mais carnal e animal; agora agarravam-se feito ferinos desesperados; unhas e dentes penetravam com mais e mais desejo através daquelas carnes em busca da fusão daqueles sangues que ferviam. Quando, enfim, entregaram-se ao gozo, o descontrole foi completo e avassalador, escancarando a violência daqueles desejos adiados há tanto tempo. Gozaram juntos e permaneceram agarrados e ofegantes. Aos poucos as imagens mentais iam tomando forma novamente, e as de Elisa iam assumindo os contornos da indignação. Como assim? Quem dava ao ex-namorado o direito de invadir sua privacidade para atacá-la no escuro tal qual um leão faminto? Por que não reagiu? Por que cedeu ao ataque tão prontamente? Sentia em seu corpo delicados tremores, a respiração aos poucos retornava à normalidade, os olhos permaneciam abertos a fitar a escuridão do teto. Não encontrava nada para dizer; apenas reconhecer que fora um gozo maravilhoso, como nunca tivera. O que teria dado em Enzo? Nem parecia o homem que conhecera; seu toque, agora surpreendentemente mágico, fez descambar suas fantasias; deixou-se levar pelo sentimento etéreo de um tesão sem freios, sem raciocínios, sem conseqüências, só o tesão louco e delicioso... Que Enzo era esse? Que lhe invadia a casa e o corpo e que conseguia a cumplicidade da vítima logo ao primeiro toque em sua pele? Por onde entrou? Como 54


conseguiu essa cumplicidade com a escuridão? Elisa pensava nestas coisas quando de súbito deu-se conta de que o invasor, já vestido, abriu a porta do apartamento e partiu. Partiu sem dizer nada; um visitante misterioso e noturno, que entrou, possuiu seu corpo, fecundou sua imaginação, e foi embora, nada mais...

Três dias se passaram. Enzo dedicou-se aos seus escritos; o fato de Elisa não dar o ar da graça indicava que seu ato tresloucado não chegou a ser considerado caso de policia pela promotora; e mais: sentiu na cumplicidade da moça a certeza de que ainda gostava dele. Precisava disto. Sentia-se insano, capaz de coisas inimagináveis, e isso lhe causava uma estranha sensação de poder. Coisa maluca, mas este era um aspecto que lhe agradava – Afinal, alguma coisa boa disso tudo! – estava inspirado naqueles dias, escreveu bastante. Quando o Sol finalmente desapareceu de sua janela, deu dois goles de uísque e saiu para procurar seus amigos marginais. Durante o trajeto até os bares pouco recomendáveis, caminhava e pensava, não sem profundo desconforto, de que logo mais teria de matar alguém... matar alguém! Quando poderia imaginar que um dilema desse fosse aterrissar bem à sua frente! Matar outro ser humano; até surpreendia-se ao tratar deste assunto com alguma banalidade, como um compromisso do qual não poderia declinar. Fosse em outro tempo e estaria escandalizado, já teria ido á polícia, ou contado tudo à Elisa. Mas não, e isto o surpreendia. Afinal, já estaria embrutecendo seus sentimentos? Estaria realmente sendo dominado aos poucos pelo lobo negro que lentamente subia a bordo de sua vida? Zattan teria razão em tudo que lhe dissera? – Zattan filho da puta! - Uma coisa era certa, a hora estava chegando e tinha que decidir, seu tempo estava esgotando; uma coisa era escrever sobre o Clube, a despeito de todos os perigos que adviriam daí, outra era se transformar em um assassino tal qual aquelas pessoas silenciosas e mortais. Precisava desvencilhar-se disso tudo e abrir suas asas para o sucesso! Seu livro... seu livro.. o livro do século! Sentia-se agora acometido de um entusiasmo estranho; não muito seguro, temeroso até... Decidiu que precisava beber, e já não era sem tempo, pois entrava no esfumaçado bar onde havia conhecido Janice. Tão logo botou o pé no recinto viu Zangão a fazer-lhe sinais sentado a uma mesa, desta vez estava só. Atravessou o bar através de seu ar sombrio e viciado e sentou-se ao lado do marginal. - Tava sumido, hein? Quais as novidades que você me traz? Usou a arma? – Enzo percebeu Zangão um pouco nervoso, tinha traços de agressividade no olhar, isto deixou o escritor desconfortável. - O que há com você? Parece nervoso. – ponderou Enzo. - Não é pra menos, camarada. Precisava muito falar com você, tenho coisas fervilhando na minha cabeça. - Manda, irmão; qual o problema? - Qual o problema? É o seguinte: mate uma curiosidade minha, para que você precisava da arma, assim, tão de repente, naquele dia? - Bom, foi aquilo que lhe disse na ocasião, iríamos para uma festinha na casa de um cara perigoso, gostaria de estar precavido, só isso... - Só isso? Certo. E que cara tão perigoso era esse? - Olha, acho que isso não vem ao caso. Deu tudo certo... bem, espero que sim, pois quando saímos, eu e Janice, ficou com o cara uma putinha de uma boate aí da rua. Tenho

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certeza de que não fez nada com ela, afinal, tinha duas testemunhas que poderiam foder com sua vida caso rolasse alguma merda com a garota. O cara não teria álibi. - E por que você acha que poderia rolar alguma merda com a garota? - Sei lá, porra! O sujeito é estranho. Não senti firmeza, só isso. Por que todas essas perguntas? - É o seguinte, irmão: há dois dias Janice me disse que iria fazer um programa com um sujeito bacana – gente fina – puta casa, etc. e tal, certo? Pois é... ela disse que o cara era conhecido seu e que você era paranóico em relação a ele. Já ela, viu ali a chance de faturar uma bela grana, foi com ele e... não voltou. Isso mesmo, faz dois dias que ela não vem trabalhar. Fui até o apartamento dela e sabe o que as putinhas que moram com ela me disseram? Ela não aparece por lá há dois dias. A mulher sumiu, caralho! Enzo sentiu um tremor pelo corpo e passou de tudo pela sua mente confusa. Parecia que Zangão lhe tirava o chão debaixo de seus pés. - Como assim? Dois dias sumida? Ela não poderia ter ido para algum outro lugar, sei lá... - Não – interrompeu Zangão – não poderia. Algo aconteceu com Janice, e foi o filho da puta esse aí de que você disse. Trouxe sua arma? - Não. Por quê? - Porque nós vamos até a casa do filhadaputa! O que ele ta pensando, caralho! Em mulher minha só se bota a mão se der dinheiro! Não tem essa de ficar só pra ele! Ou até, sei lá, coisa pior. - Vamos lá... agora? - Claro! Agora! Não temos um minuto a perder. Se eu soubesse onde esse cara mora já teria ido na casa dele; ele não sabe com quem se meteu! Vou foder com ele! - Olhe... o homem é perigoso... - Perigoso é o caralho! Perigoso sou eu! Você sabe onde fica a porra da casa dele, não? Enzo rapidamente percebeu a encrenca em que havia se metido; não via saída a não ser levar Zangão à casa de Kanova. O problema é que não lembrava exatamente o local; estava descomposto... teria o canibal procurado Janice, logo ela, para desafiar e debochar da sua sagacidade? Um joguinho sujo e assustador, como um convite para brincar de gato e rato? Que espécie de monstro faria um jogo deste? Um jogo aterrador e mortal! De súbito percebeu que a única saída seria realmente surpreender Kanova com seu amigo bandido, quem sabe Janice ainda estivesse viva! Sim, faria isso, mesmo a despeito de cair em alguma armadilha arquitetada pelo veterano escritor. - Você está pensando demais, Enzo! Não há o que pensar, temos de agir! Vamos agora. - Concordo, vamos lá!

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O CLUBE

Capítulo 05

O BANQUETE DA BESTA

Foi difícil achar a residência de Zeno Kanova. Foi preciso muitas voltas de carro por ruas ermas e mal iluminadas até que os olhos atentos de Enzo localizassem um imenso muro cinzento onde despontavam por detrás alguns ciprestes. Sim não havia dúvidas, reconheceu o portão de ferro, que na ocasião, o sinistro morador da casa fez correr sobre trilhos com seu controle remoto. - É ali! – apontou. - Ótimo, meu velho, vamos parar mais adiante. Vamos pular esse muro pelo lado. Tem cachorro aí? - Acho que não. Pelo menos naquele dia não vi nenhum. - Bem se vê que você é cabaço nessas coisas. Para saber se tem cachorro é preciso escutar, se não escutou latidos quando esteve aí, não tem cachorro. - Não escutei. 57


- Então não tem. Do caralho! Vou estacionar ali. Zangão parou o carro em um local escuro e ambos saíram. Enzo sentia o coração na boca e o costumeiro suor começou a escorrer pela testa. Tinha clara a noção do perigo que corria; sentia até certo conforto em saber que o companheiro possuía uma arma e não hesitaria em usá-la, porém era difícil de calcular a reação de Kanova. O veterano escritor era alguém que lhe causava uma espécie de pavor, até mesmo um sentimento de pânico; aqueles olhos refletiam segredos inconfessáveis, além de pulsões demoníacas que pareciam querer saltar feito uma pantera faminta. Realmente, um perigo difícil de avaliar. - Vamos! – ordenou Zangão, saltando e agarrando-se ao topo do muro. Enzo fez o mesmo e com alguma dificuldade conseguiram subir e ficar em pé sobre a muralha. Estava escuro naquele local, o que facilitava a ação dos invasores. Dali podiam ver o casarão totalmente imerso na escuridão; ao lado uma garagem para dois carros tinha sua imensa porta de ferro suspensa e dois automóveis estavam estacionados, sendo um deles justamente o que Kanova havia usado quando de sua aventura naquela noite. Isto não era bom. Estaria o escritor em casa, mimetizado sob aquela escuridão misteriosa? Enzo sentiu um torpor estranho... estaria Janice imersa naquela cena macabra que se descortinava à sua frente? Sim, tinham que fazer alguma coisa, mas o pavor aos poucos assumia seus nervos. Estaria viva a pobre mulher? Ou tudo não passava de um engano e ambos agora entravam de ‘bobos’ na boca do leão! Medo e pavor... era tudo que sentia. - O carro dele está na garagem. Ele pode estar em casa. – sussurrou para Zangão. - Não diga asneira! Quem ficaria em casa, assim, no escuro, a esta hora? - O dono desta casa. - Não fode, Enzo. O cara não tá em casa. - Não aposte nisso. - Venha, cagão! – Zangão se esgueirou pela lateral da moradia, no que foi seguido por Enzo. Mas viu algo e fez um sinal para que o companheiro parasse. - Caralho, a porta principal está aberta. - Tal qual a boca de um lobo faminto! – rebateu Enzo, assustado. Zangão empunhou sua pistola. - Se esse cara quer brincar, achou o parceiro certo. Gosto disso. Um joguinho, hein? Ele vai ver quando eu enfiar uma bala na cara dele! Esse filho da puta desgraçado! - Você não está pensando em fazer o jogo dele, está? Porra! Só me falta você querer entrar pela porta da frente! - Tolinho... – debochou Zangão – que diferença faz? Ele já sabe que estamos aqui... Esta frase fez bambear as pernas do jovem escritor. Teve, de súbito, instintos de sair dali em disparada, mas lembrou-se da pobre Janice. Tinha que reunir todas as suas forças para prosseguir, mesmo não sabendo no que tudo isto ia dar. Enxugou o suor da testa com as costas da mão, retirou os óculos e limpou-o em sua camisa; ao recompor-se percebeu que o parceiro já estava na porta, espreitando o interior da casa; tudo isto sob a tímida luz da rua. Correu para perto de Zangão, mas foi tarde, o marginal subitamente sumiu no breu do interior da mansão. - Droga! – agora estava só, estaqueado à porta do monstro – Zangão filho da puta! – pensava com seus botões na encrenca que se metera. Teria que entrar agora desarmado, seguir os rastros do amigo em um pântano de brumas negras e mortais. Lá dentro, um canibal insidioso os aguardava para dar vazão a brincadeiras mortais. Por um momento raciocinou a respeito de sua trajetória até aquele momento de paralisação e pavor. Era só ter dito não a Zattan, por que não disse? Por que aceitou entrar nesta dança macabra? Agora, 58


ali, sentia-se como um pinto a esconder-se da cobra. A imagem da pobre garota lhe vinha à lembrança e daí tirava as forças parcas, mas necessárias para prosseguir. Respirou fundo e entrou na casa; quem sabe acender a luz? Não, não, tolice... a respiração começou a descompassar, as pupilas dilataram, onde estaria o idiota do Zangão? A escuridão foi ficando mais densa, logo deu um tropeção em um móvel, ficou então parado, quieto. Foi quando sentiu uma forte pancada na cabeça.

A cabeça doía muito. Abria e fechava os olhos lentamente, vítima de uma embriaguez involuntária. Imagens dançavam confusas em sua mente, a visão embaçada não discernia alguns contornos à sua frente. Aos poucos voltava à tona trazendo migalhas de razão ao pensamento turvo numa tentativa desesperada e patética de montar um quebra-cabeça cujas peças esboroavam-se no ar. Erguia a cabeça, mas logo a deixava cair, como se mantê-la firme e ereta fosse algo impossível ou penoso demais. Ficou cabisbaixo por algum tempo, nada entrava pelos seus ouvidos, nenhum som, nada. Finalmente, começou a sentir o sangue lhe irrigar as veias, sentiu uma espécie de calor no rosto e principalmente onde levara a pancada, sim, agora lembrava, uma puta pancada na cabeça. Esforçou-se e abriu os olhos, percebeu então, às duras penas, que havia velas acesas em vários pontos do local onde estava, e um odor nauseabundo lhe entrou pelas narinas. Percebeu também, não sem indignação, que estava sentado e amarrado a uma cadeira; era mantido preso com os braços para trás, atados na altura dos punhos. Olhou para cima e percebeu que aquilo era um porão; sim, um porão infecto e escuro cujas luzes oriundas das velas mal incomodavam as densas sombras negras. Como se tudo isto não bastasse, deu-se conta de que uma fita adesiva lhe tapava a boca, inclusive lhe dificultando a respiração desregulada. Fechou os olhos e decidiu que ao abri-los novamente fixaria de vez as imagens à sua frente, e assim o fez; porém um grito ficou aprisionado na garganta selada. Seus olhos arregalados pelo pavor perceberam à sua frente Zangão sentado em outra cadeira, porém com o peito nu e ensangüentado devido a um corte que cruzava seu pescoço; a cabeça pendida deixava cair filetes de sangue pelo nariz e boca. O homem estava morto, não havia dúvidas. Enzo debateu-se com fúria e desespero numa tentativa alucinada de desvencilhar-se daquele abraço mortal de que agora era refém, mas em vão. Logo sentiu as forças lhe faltarem por completo. Agora lembrava, invadira a casa de Zeno Kanova com seu amigo marginal Zangão, estava tudo escuro e... agora estava ali... naquele terrível porão, parcamente iluminado por velas silenciosas e ameaçadoras. Que estúpido! - Não gosto de armas em minha casa. É uma grosseria... A voz mansa de Kanova lhe gelou o sangue. Em seguida olhou para o lado e viu o homem. Vestia uma túnica negra e o comprido cabelo grisalho, agora solto, lhe empestava uma aura mais assustadora; os olhos brilhavam insanidade e frieza. Era uma presença por demais assustadora e perigosa, que lhe causava tremores. Agora, enfim, a máscara havia caído, Kanova era o que tinha certeza que era, e isso o deixava a mercê do assassino tal qual um rato ingênuo agarrado pelo rabo por um tigre. - E você... o que dizer de você? Trazer um marginal deste à minha casa! Afinal, o que você quer, meu caro? De onde... me diga, de onde você imaginou que poderia invadir meu santuário, meu lar, trazendo um vagabundo deste, e sair ileso? Você é um idiota incorrigível, é isso? Ou um ingênuo, diria que quase uma criança, para enfiar o nariz desse jeito nos negócios alheios. Mas tenho aqui comigo uma idéia... você... você... – Zeno 59


Kanova começou a andar pelo porão despreocupadamente, estava à vontade – você leu meu livro Fome Canibal, ficou muito impressionado e decidiu conferir o que tinha de verdade em meus escritos, estou errado? Claro que não. Tomo isso como um elogio, serei tão bom narrador assim? Ora, meu querido, qualquer um é melhor narrador do que você, não é mesmo? – ato contínuo atirou o livro Na Boca do Lobo no colo do atônito rapaz, que só não ficou surpreso porque nada mais poderia lhe surpreender – Patético! Você é patético! Sua historinha não serve nem para um verdadeiro escritor de terror limpar a bunda! – Kanova aproximou-se do defunto, lhe pegou no topo da cabeça e levantou seu rosto – Olhe para ele! Olhe! – Enzo relutava a encarar o morto, resvalava seu olhar por tudo por ali, porém, movido por uma estranha força, parou e fixou seus olhos no rosto de Zangão. Recebeu em troca o olhar vazio do cadáver; o sangue ainda caia pelo queixo. – Isso... Isso... eu gosto assim; coragem, meu rapaz, coragem, um defunto deste poderia ter lhe dado um futuro, sabia? Um futuro como legítimo autor de livros negros, mas você... ora, você nem sabe o que são livros negros, não é? Você é autor de comédias patéticas! Falta fio em sua faca, falta sangue na saliva de seus personagens, falta o assassino em seus livros. Olhe para você, Enzo Caio... – Kanova largou a cabeça do morto que pendeu inerte, em seguida passou a mão pelo peito de Zangão sujando-a de sangue. Aproximou-se do rapaz com um sorriso desafiador nos lábios. Enzo tinha os olhos arregalados grudados nos do raptor. Em seguida espalmou sua mão em frente ao rosto de sua vítima, que agora tinha o olhar apavorado grudado na mão sangrenta do agressor. Num gesto rápido Kanova esfregou o sangue no rosto do rapaz que se debateu, mas já era tarde. O cheiro do sangue revoltou o estômago de Enzo que se esforçou para não vomitar, pois a venda em sua boca poderia facilitar um afogamento; tinha de agüentar. O agressor agora andava pelo porão mais sinistro do que nunca, mimetizando-se naquela escuridão entrecortada pelas luzes daqueles pequenos e ingênuos fogos das velas. – Sim... – disse Kanova parando de repente e olhando para o nada – sim, você poderia ter se dedicado a algo mais erudito, mais intelectual... você nasceu para as teorias, sim, para as teorias, mas jamais para a ação. Você, meu velho, é a forma mais acabada de ‘homem alexandrino’ do qual nos falava Nietzsche. Sim, é isso! Hahaha... ‘o homem alexandrino’ – subitamente fitou a vítima – Sendo assim, não deve ser interessante nem para as mulheres... é isso, você deveria se dedicar a escrever sobre assuntos mais amenos, mas jamais pisar onde não conhece, foi tolice o que fez. Que petulância! Se meter comigo! Vir investigar se sou ou não um terrível canibal! – aproximou-se e se inclinou até seu rosto ficar bem perto do de Enzo – O que você acha, meu ratinho assustado? Sou um canibal? – o rapaz permanecia imóvel – Hmm... acho que é hora de tirar suas dúvidas, já que você não teve coragem suficiente para abrir meu freezer daquela vez. – ato contínuo, afastou-se, saindo pelas costas do rapaz. Enzo ficou estático, paralisado pelo pavor; queria acreditar com todas as suas forças de que se tratava de um pesadelo. Mas o cheiro de sangue que exalava de seu rosto e do morto à sua frente lhe trazia à sinistra realidade. Uma sensação de morte iminente começou a se fazer sentir, era óbvio que Kanova não deixaria que se fosse, pois agora sim, era testemunha de um assassinato. As lágrimas lhe vieram aos olhos doloridos e uma sensação de pânico lhe escureceu as vistas, começou a tremer convulsivamente; sentia o hálito frio da morte. Sua mente agora retrocedia e passava de tudo à frente de seus olhos; sua infância, seus sonhos, ‘serei um grande escritor!’ Sua família, sua Elisa... Elisa... Elisa... abriu os olhos de chofre! Tudo voltou a tomar forma à sua frente e o raio de sol da esperança brilhou sua luz! Lembrou-se de que seu celular estava em um bolso de sua calça, o problema era desvencilhar suas mãos tão caprichosamente amarradas às costas da cadeira. Tinha agora os olhos cravados no bolso, 60


foi quando algo caiu em seu colo: a cabeça de Janice! O grito de pavor foi abafado pela mordaça, e os pequenos vasos sanguíneos dos olhos se encheram como se fossem explodir! A cabeça de Janice! Ali, em seu colo! Sua mente agora estava desfigurada pelo horror, e o medo congelava seu sangue a ponto de sentir que iria desmaiar. A voz de Kanova então soou como o sibilar do machado de um carrasco – Sim, você estava certo, sou um canibal. O que você leu em meu livro é a mais pura e cristalina verdade, e agora, vai fazer o que? Você é um apêndice, Enzo. É algo inútil. Como pode olhar assim para a cabeça em seu colo? Esse pavor em seus olhos... você é uma ovelha, Enzo Caio, uma ovelha! Ovelhas não devem subir a montanha... o topo da montanha é o mirante do lobo! É lá que ele escolhe suas vítimas. É a Natureza, amigo, fazer o que? A ovelha quando chega ao topo apenas olha para baixo para enaltecer a homogeneização do rebanho, nada mais. Mas não o lobo solitário e faminto. Hehe... a carne, Enzo... a carne... Ah, sim, Janice... lhe diria que a carne não é boa. Sou um purista e essa mulher já estava muito calejada por uma vida difícil, acho que o abuso de drogas estragou o gosto. O problema do antropófago é que ele degusta o histórico de vida da vítima, e muitas vezes isso não é bom. Não é à toa que os antigos guerreiros de certas tribos devoravam seus oponentes, estes honrados e corajosos, para se apossarem do poder do morto. Existe um simbolismo aí; não, não, comigo não, quero apenas o prazer, mas, convenhamos que às vezes o sangue envenenado altera o delicado sabor da iguaria. Quando devoramos a carne humana entramos numa espécie de êxtase, algo entre o erótico e o xamânico, entramos em um estado alterado de percepção, algo vedado aos demais mortais, um gozo mudo e demoníaco; somos assolados por uma sensação de poder e luxúria que jamais poderia encontrar paralelo em nada que exista. Devoramos a carne da vítima, mas não sem um ritual de respeito, pois aquele alimento andava pelas ruas, tinha seus afazeres, vivia, enfim. Sim, respeito... e a melhor maneira de fazermos isso é degustá-la com volúpia, quase com desespero... hmmm, estou ficando com fome, hehe... Sabe, tenho pensado cá com meus botões: devo jantar você? Ora, por que não? Levou uma vida de lesma, a carne é tenra, seu caracol nunca pesou. – Kanova aproximou-se da vítima e ao cruzar por trás da cadeira passou a mão com suavidade pelo pescoço de Enzo que se debateu em desespero – Ora, é a primeira vez que alerto minha comida, de que logo mais estará em meu prato tendo seu gosto amenizado com limão. Lembrarei desta nossa conversa e me excitarei muito, devo esse respeito a você, fique tranqüilo, não sou um monstro, escolherei um vinho à altura para harmonizar. – o rapaz debatia-se, tinha a cabeça da mulher no colo juntamente com seu livro, e encarava o homem com uma agressividade mortal – Hmmm, mas o que é isso? - surpreendeu-se Kanova. A vítima não era mais vítima. Agora, estático, Enzo encarava o canibal com tamanha acuidade e ódio nos olhos, que o veterano sentiu aquele olhar como um raio incômodo. – Ora, ora, o que temos aqui? Temos a chegada do lobo! Agora sou vítima de seu pensamento mortal, agora sua imaginação me decepa e chupa meu sangue profano feito um morcego assassino. Seja bem-vindo lobo! Hehe... que pena, rapaz, não poderei devorálo pois lobo não come lobo! Mas, não fique tão contente; lobo não gosta de concorrência, sou um lobo solitário, é melhor agir assim. Sim, pelo menos você deve morrer, não tem remédio. Dentes caninos não gostam de outros dentes caninos por perto, certo, amigo? Terei de me conformar a continuar comendo sua amiga puta, fazer o quê? Hehe... Sim, meu caro, a anatomia do corpo de uma mulher pode ser muito generosa com nosso paladar, mesmo que seu sangue não nos convenha. São os contratempos de um gourmet, paciência. – Enzo fitou a cabeça em seu colo, seu sangue fervia, uma excitação estranha e diabólica assumia seu corpo. A cabeça da mulher tinha a boca entreaberta e os olhos fechados; seu 61


livro logo abaixo parecia absorver a monstruosidade numa espécie de metáfora de horror. Percebeu em seguida que Kanova arrastava uma pequena mesa e logo a acomodou ao lado do corpo de Zangão. O móvel veio com uma toalha-de-mesa vermelha, também um prato, garfo e faca. Logo o homem ajuntou uma cadeira, tudo indicava que iria cear. – Sei, meu caro, que é de uma indelicadeza imperdoável fazermos nossas refeições em frente a um faminto e não convidá-lo à mesa, mas talvez também seria de terrível mau gosto obrigar alguém a comer algo que lhe repulsa, não? - Enzo fixou os olhos no monstro, conseguia farejar o que estava por acontecer, porém, incrivelmente, sentia-se sereno, numa tranqüilidade que o surpreendia – Você é meu convidado. Se não vai comer pelo menos pode dar ouvidos ao anfitrião, não é mesmo? Sim, você é um rapaz educado, de existência asséptica, bem comportada, não me decepcionaria, certo? – em seguida Kanova retirou-se. O prisioneiro então começou a mexer sua pena direita; sim, era ali que estaria seu celular... ou não... logo foi tomado pela decepção; na certa o sinistro anfitrião havia lhe feito uma geral e tomado o aparelho. Via suas última chances esvaecerem, aquele celular poderia ser tudo que tinha para uma eventual comunicação com o mundo lá fora. Incrivelmente agora não sentia medo, seria ‘o’ lobo? Lobo não come lobo! Gostou de escutar isso, era um respeito que julgava merecer, sentia-se valente, invencível; agora aceitava a morte como um mártir, posto que foi ele quem procurou aquela situação, pois que entrasse de bem na naquela dança mortal embalada pela melodia muda daquelas velas irritantemente silentes e cúmplices. Então era isso... logo mais seria um cadáver tal qual aquele pobre coitado à sua frente, ou a miserável cabeça que jazia em seu colo, acalentada pelo calor de um sangue que esquentava mais a cada segundo. Sentiu o mesmo torpor e a indiferença fria quando de sua última visita ao Clube, quando enfiou a adaga naquele corpo frio, embora suas veias perecessem pegar fogo. – Ah... no ponto! – disse Kanova, retornando com uma baixela de prata cujo tampo encobria algo que deveria ser por demais assustador. Colocou o objeto em cima da mesa e sentou-se à cadeira. – hmmm... querido escritor, você está prestes a ver a refeição de um canibal, como se sente, hein? Hehe.. ah, agora algo de suma importância. – esticou o braço até uma prateleira ao seu lado e o recolheu trazendo uma garrafa de vinho branco e uma taça. Esticou-se novamente e pegou um saca-rolhas, em seguida abriu a garrafa. Serviu-se de vinho. Pegou novamente na prateleira um limão, cortou-o ao meio e colocou os pedaços no prato. – Já sei no que você está pensando. Sim, sim, eu adivinho, quer ver? Você deve estar tentando imaginar que parte do corpo está aqui; que mistério, hein? Bem, a cabeça dorme plácida em seu colo, logo, seria qualquer coisa do pescoço para baixo, certo? Ora, vamos acabar com isso, seria indelicadeza minha mantê-lo nessa angústia. – Ato contínuo retirou a tampa da baixela, fazendo com que os olhos do prisioneiro se petrificassem. Um antebraço com a mão crispada exalou sua fumaça. Era algo de horripilante aos olhos de Enzo, que não conseguia desviar o olhar congelado. A carne enrugada e marrom deixava à mostra algumas partes brancas, sem dúvidas fora assada.- Em tudo que tem osso, devemos usar as mãos. - Kanova pegou o antebraço com as duas mãos e mordeu com força, arrancando um naco de carne que mastigou com sofreguidão; em seguida espremeu limão pela ‘iguaria’. O cheiro da carne assada logo se espalhou pelo porão. O veterano agora mastigava com calma, e Enzo percebeu que os olhos do homem pareciam querer sair das órbitas, deixando as conjuntivas brancas à mostra numa visão aterradora. O semblante de Kanova havia mudado, parecia entrar lentamente em um transe, a respiração era entrecortada por alguns gemidos; era uma terrível transformação que se operava a olhos vistos. O comensal aos poucos começou a tremer e de vez em quando lambia o alimento com lascívia. Fazia agora com que a mão morta lhe acarinhasse o 62


rosto que ostentava um ar débil e desfigurado pelo prazer. Enzo reparou, olhando por baixo da pequena mesa, que Kanova tinha uma ereção que fazia pulsar seu pênis debaixo da túnica negra e fina. Em seguida ergueu a veste e começou a masturbar-se com a mão esquerda enquanto com a direita saboreava o sinistro alimento. Pedaços de carne caíam pela boca aberta do homem que agora tinha o semblante aterrador; os olhos abertos eram dois pontos brancos e brilhantes no rosto descomposto; o fogo manso das velas fazia dançar sombras demoníacas na fisionomia de Kanova. Começou então a morder os dedos tostados de Janice e urrar enquanto masturbava-se com uma sofreguidão crescente. Enzo sentiu uma tontura que poderia levá-lo ao desmaio. Aquele cheiro de sangue, a carne humana assada, aquela cabeça em seu colo, Zangão morto à sua frente, aquele porão, aquelas velas, o banquete macabro e lascivo de Kanova... tudo agora girava feito um carrossel em sua mente febril. Quando olhou novamente para o raptor, este estava parado a fitá-lo nos olhos. Eram olhos de um demônio. Mastigava agora com calma e mantinha a imensa pica dura na mão. – Quem é você? – perguntou, através de uma voz grossa e terrosa que lhe inoculou de imediato um medo gelado e aterrador. – Você realmente sabe quem é você? Seu estúpido! Não, você não sabe... pois deixe então que me apresente, meu nome é Zeno Kanova, sem máscara... sou o que vocês, leigos, chamam de... demônio! Olhe para mim, olhe nos meus olhos, não tenha medo. Sou de carne e osso, como você vê... gosta da carne, Enzo? – calmamente o homem se levantou e aproximou-se do refém, trazia o antebraço da mulher já com a metade devorada e lentamente acariciou o rosto do rapaz com os dedos descarnados da mão de Janice. Petrificado, Enzo não esboçou reação, o cheiro da carne queimada lhe revoltou o estômago, mas logo algo pior aconteceu; sentiu a ponta de uma faca no pescoço. – Quero um orgasmo apoteótico hoje, meu caro. – o prisioneiro pousou os olhos assustados na lâmina ameaçadora – Já pressinto um gozo inigualável. – Enzo lentamente desviou o olhar e ficou a mirar o nada, impassível, com a respiração tranqüila. – Mas o que é isso? Isto não estava no script! Onde foi parar o seu medo? Não sinto mais o cheiro do medo... está indiferente à morte, isso é libertação, meu caro. Ótimo, você vai morrer como um homem livre! – calmamente, Kanova encostou o fio da faca na veia jugular do rapaz, que começou a tremer levemente e fechou os olhos, o suor brotou nas têmporas. – Certo, vamos acabar logo com isso. – ato contínuo mordeu o alimento horroroso e começou a mastigar com calma, levantou a cabeça como se estivesse a mirar o teto, mas mantinha os olhos fechados; degustava aquele pedaço de carne com visível deleite. Largou o antebraço defunto que caiu ao chão; empunhou sua pica e voltou a masturbe-se, soltava gemidos de prazer; com a outra mão apertou o fio da faca junto ao pescoço de Enzo que pressentiu com desespero a chegada da hora fatal. Em segundos estaria tudo acabado. - Pare, Zeno! Enzo abriu os olhos numa reação instintiva, misto de alívio e surpresa. Entrava no porão Rodolfo Zattan. Nunca imaginou sentir tamanha sensação de felicidade ao ver o mentor. - Pare com isso. Zeno! Pare agora! – ordenou Zattan. - Rodolfo? - Ele é um dos nossos! - Quê? Kanova recolheu a mão com a faca e pousou os olhos surpresos em Enzo. Rodolfo Zattan aproximou-se, retirou seu chapéu e passou a mão pela testa suada. - Sim, Zeno. Esse rapaz é pupilo meu. - Pupilo seu? – rebateu um indignado Kanova – pupilo seu? Mas esse sujeito é patético! Aonde você anda escolhendo escritores? Ora, essa é boa! – Zeno Kanova, agora totalmente 63


desarmado em seus instintos mortais, atirou a faca sobre a mesa e irritado, começou a andar pelo porão. - Olhe para ele Zeno! – exclamou o intruso - Olhe para ele! Veja esses olhos, são olhos de ovelha? São? Olhe bem para ele, Zeno! Ele está pronto! Você estava a ponto de quebrar um diamante no qual tive muito trabalho para lapidar. – em seguida Zattan retirou com calma a fita adesiva da boca do prisioneiro, que estava atônito, mas não tirava o olhar agressivo de Kanova. – o recém-chegado sorriu para a vítima indefesa – Olhe só para o meu garoto... olhe esse brilho em seus olhos, essa centelha, esse lampejo assassino! Sim, em breve ele será um grande autor de livros negros! Enzo moveu lentamente seu olhar indignado e frio de Kanova para Zattan. - Em que você me transformou? – perguntou para o mentor, através de uma voz neutra portadora da frieza de uma faca. - Eu o transformei em você. - Como você pode saber que este sou eu? - Ninguém ostenta o que não tem. - E quem lhe deu o direito de me transformar? - Você. - Hei! Parem de se beijar através das palavras! – esbravejou Kanova - Se quiserem fazer sexo eu empresto o quarto de hóspedes. Broxei. Só faltava essa! O rapazinho esse freqüenta o Clube! Ora, não me faltava mais nada! Outrora aquilo era uma matilha, agora... bem, agora você, Rodolfo, está se encarregando de introduzir fracos em nosso meio. Não me surpreenderia se descobríssemos que esse moço acalenta pensamentos alienígenas ao nosso clube, tais como: publicar um livro, que para ele seria salvador, desmascarando nossas atividades. - Eu garanto que não, Enzo tem bem claras as conseqüências de um ato tresloucado desse. Ademais, logo será um assíduo freqüentador. - Você é um romântico, Rodolfo. Enzo sentiu a boca amargar. Este era um assunto que de modo algum poderia vir à baila; porém tinha de reconhecer a acuidade mental de Kanova. Em seguida sentiu Rodolfo passando a faca em suas ataduras às costas, finalmente estava livre, porém continuou sentado, sentia-se tremendamente debilitado, seus músculos doíam. Aos poucos reparava na loucura que se metera; aquele defunto sangrento, ali, tão próximo, o antebraço assado, ou o que sobrou dele, jogado no chão, tudo era bizarro e por demais sinistro. Uma realidade nova e obscura que jamais havia sonhado, nem em seus piores pesadelos, de ser protagonista. Sentia agora um ódio mortal assumir suas veias salientes; tinha vontade de enfiar aquela faca em Kanova, este pensamento assassino não saia de sua cabeça. E Rodolfo Zattan... O filho da puta responsável por tudo isso, ironicamente agora era seu salvador. Começou a sentir náuseas. - Hehe... - desculpe-me por estragar seu jantar, Zeno, mas não podia deixar você matar meu pupilo. Você diz que sou um romântico, mas olhe para ele, olhe bem, repare nesses olhos; sim, o assassino está pronto! - Isso não pode ser real... – deixou escapar o rapaz. - E o que é o ‘real’ Enzo Caio? – disse Kanova, voltando-se subitamente para o novato – Eu lhe digo o que é o ‘real’: o real é uma teia invisível criada por espertalhões para que a massa ingênua fique para sempre enredada nela! Nada mais! Agora terá de decidir: você é a aranha ou a mosca? Você é um revolucionário, um transformador, um criador? Ou um ente que apenas reflete a “realidade”? O que é você, afinal, Enzo Caio? Estará você preparado 64


para dar liberdade às pulsões mais negras e perigosas? Você realmente às possui? Já mergulhou em suas profundezas? O que viu? Diga-me! Ora, me custa crer que alguém como você possa produzir livros negros; quando perguntei se era autor e, também, se gostava dessa modalidade, estava apenas debochando. Sempre lhe achei um pinto querendo brincar de serpente; uma brincadeira pra lá de perigosa quando o sangue de quem brinca é muito aguado, muito ralo. Basta ler seu livro, é uma piada. – dito isto, Zeno Kanova retirou-se do porão, visivelmente contrariado. Enzo virou-se para Rodolfo: - Ele é um doente. - E você, Enzo Caio, é são? Hahahahaha... O rapaz virou o rosto lentamente e mirou o nada... As palavras lhe fugiram sorrateiras e silenciosas... em um segundo o vômito irrompeu em uma explosão súbita. - Isso! – jubilou-se Zattan – vomite a vida morta e podre que você carregava por aí na forma de um grande enjôo existencial. Vomite sua ‘alma’, vomite a ovelha, vomite a servidão, vomite os cacos de espelhos, vomite a fraqueza... Salve, lobo! Salve, lobo! - o veterano ajoelhou-se então à frente do pupilo e abrindo os braços exaltou: - Renasça! Renasça agora! Batizado nas águas negras da profundidade do abismo! Renasça para o protagonismo, para a sua verdadeira vida, o escravo morreu! Salve o lobo! Salve o lobo!

Um mês depois. Noite...A Casa Azul estava apinhada de gente. Fazia muito tempo que o lançamento de um livro não chamava tanto a atenção. Fotógrafos, jornalistas e afins, acotovelavam-se pelo exíguo espaço em que se transformara a casa cultural. Uma pequena multidão saía pela porta afora, todos queriam estar perto do autor mais badalado do momento. Enzo estava radiante, mal conseguia conter sua alegria, traduzida por um riso permanente e um brilho no olho que a todos chamava a atenção. Elisa a seu lado parecia uma fera domada, olhava para o autor com indisfarçável admiração; em nada lembrava a mulher que acalentava múltiplos rancores até bem pouco tempo. No semblante vivo da moça, a paixão deixava-se mostrar inadvertidamente, como se não houvesse represa, nem mesmo o passado, que pudesse interpor-se ao que sentia. Elisa havia explodido em amores. Mas uma explosão delicada, na qual abriu, tal qual uma rosa sob a brisa tépida da primavera, suas pétalas ao amor inclemente do Sol, que a tudo fecunda na alegria de sua luz infinita e soberana. Estava entregue. Que mudança repentina foi essa? Ela não sabia. Apenas se submetia à presença forte e mágica de Enzo. Era um outro Enzo, mas ela não conseguia decifrar com clareza a transformação pela qual o homem passara. Era algo estranho, mas muito fascinante e forte para que ela pudesse se dar ao luxo de parar para pensar. Queria Enzo, com todas as suas forças; a presença do amante lhe fazia palpitar os sentidos numa paixão incondicional e louca, algo que nunca havia sentido. Aquele homem que conhecera desapareceu em algum lugar, talvez por aqueles becos e bares sombrios que bem há pouco o rapaz freqüentava. Em seu lugar surgiu um homem mais maduro, seguro, firme, sensual; um tigre carinhoso, manhoso, mas que não abria mão de sua condição de tigre. Seu olhar agora felino, abrigava todas as promessas mais loucas, irresponsáveis e luxuriantes que se podia imaginar; agora já não vacilava, sabia muito bem o que queria e misteriosamente sabia como conseguir qualquer coisa. Em meio à multidão na Casa Azul, Elisa não descuidava de seu amado. Há pouco havia acontecido a sessão de autógrafos e Enzo não parava de receber cumprimentos; Alexandre, ao seu lado, estava exultante. Enfim, um best-seller. O editor também desconhecia os 65


motivos da brusca mudança de seu autor e amigo, mas a euforia de que fora tomado não propiciava muito espaço para raciocínios. Alexandre estava às portas de um grande salto comercial, seu status mudaria a partir da misteriosa mudança de Enzo, e isto era tudo; não lhe cabia analisar nada, questionar nada, seu negócio era ganhar dinheiro, e esta perspectiva estava assegurada. A Casa Azul estava transformada numa espécie de Éden, numa espécie de ponto de partida mágico para todos os sonhos, todos os tesouros, todas as felicidades. O movimento frenético do local emprestava seu colorido alegre como pano de fundo para os sorrisos espontâneos e sinceros dos protagonistas da festa. Tudo se confundia naquele ambiente; risos, garçons, autores, artistas, curiosos, penetras, champanhe nas taças seguras por mãos delicadas de belas mulheres, e o alarido ruidoso que permeia esse tipo de evento. Enzo dava uma olhada geral e vitoriosa pelo ambiente quando Elisa lhe puxou de canto. - Querido, vamos fugir daqui. Só eu e você. Uma pequena transgressão, sim, uma fuga só possível entre cúmplices. Um crime maravilhoso de se cometer, não agüento mais ver essa gente em volta de você. - hmmm, quem diria, minha querida Promotora querendo cometer um crime. – comentou o escritor sorrindo. Ato contínuo pegou a garota pela mão e seguiu em meio às pessoas, sempre simpático com todos. Aos poucos ia tomando o rumo da porta. Na mesa em que dera os autógrafos, um exemplar do livro jazia em cima de um jornal dobrado; o título da obra quase se confundia com a manchete do diário. No livro de capa negra se lia o título através de imensas letras vermelhas: ‘Olho no Olho’, logo abaixo estava o pseudônimo de seu autor: Enzo Daemon. E debaixo do livro o jornal ostentava sua manchete: ‘Famoso escritor de livros de terror, Rodolfo Zattan, segue desaparecido.’ Tão logo o autor e a namorada saíram para a rua, perceberam a imensa lua cheia pousada, serena, no céu estrelado. Então, para surpresa da pequena multidão ali presente, o homem parou, ergueu os braços e uivou para a Lua; um uivo lancinante, apavorante, tocante, que a todos congelou o sangue. Sangue este, que, ao contrário dos demais, brotou feito uma chama vermelha no olhar do escritor. Pegou a mão de uma surpresa Elisa, e seguiu adiante, em seus lábios um sorriso enigmático e em sua mente só um pensamento: Zattan, filho da puta...

FIM

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O Clube  

Neste livro, vamos colar em Enzo Caio e acompanhá-lo em sua estranha trajetória. Enzo é um escritor iniciante e medíocre de livros de terror...

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