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Comentários do Antigo Testamento — Os livros de Naum, Habacuque e Sofonias ©

2011, Editora Cultura Cristã. Publicado originalmente em inglês com o título The New Internacional Commentary on the O ld Testament, The Books o f Nahum. Habakkuk, and Zephaniah, em 1990 por Wm. B. Eerdmans Publishung Co., 255 Jefferson Ave.

S.E., Grand Rapids, Michigan 49503. Todos os direitos reservados. 1* edição 2011 - 3.000 exemplares Conselho Editorial Ageu Cirilo de Magalhães Jr. Cláudio Marra (Presidente) Fabiano de Almeida Oliveira Francisco Solano Portela Neto Heber Carlos de Campos Jr. Mauro Fernando Meister Tarcizio José de Freitas Carvalho Valdeci da Silva Santos

Produção Editorial Tradução

Neuza Batista da Silva Revisão

Wendell Lessa Vilela Xavier Wilton Vidal de Lima Sebastiana Gomes de Paula Editoração

Eline Alves Martins Pereira Capa

Magno Paganelli R6491C

Robertson, O. Palmer Comentários do Antigo Testamento - Naum, Habacuque e Sofonias / O. Palmer Robertson; traduzido por Neuza Batista da Silva . _ São Paulo: Cultura Cristã, 2011 432 p. Tradução The books of Nahum, Habakkuk and Zephariah ISBN 978-85-7622-079-4 1. Estudo Bíblico 2. Exegese 3. Comentário I. Título CDD 220.07

€ 6DITORA CULTURR CRISTA Rua Miguel Teles Júnior, 394 - CEP 01540-040 - São Paulo - SP Caixa Postal 15.136 - CEP 01599-970 - São Paulo - SP Fone (11) 3207-7099 - Fax (11) 3209-1255 - 0800-0141963 www.editoraculturacrista.com.br - cep@cep.org.br Superintendente: Haveraldo Ferreira Vargas Editor: Cláudio Antônio Batista Marra


Para minha amada “O coração de seu m arido confia nela.’ Provérbios 31.11


SUMARIO

Prefácio do au to r........................................................................................ 9 Abreviaturas...............................................................................................11 INTRODUÇÃO I. Panorama histórico-redentor................................................................... 13 II. Perspectiva teológica............................................................................... 32 III. Forma das profecias................................................................................ 42 IV. Data e autoria............................................................................................47 V. Unidade e autenticidade...........................................................................58 VI. Texto..........................................................................................................61 VII. C ânon........................................................................................................63 VIII. Análise dos conteúdos............................................................................. 64 IX. Bibliografia selecionada....................................................................... 67 O LIVRO DE NAUM Sobrescrito (1 .1 ).......................................................................................77 I. Anúncio público do juizo sobre Nínive (1.2-14)................................79 II. Descrição dramática do juízo sobre Nínive (2.1-14 [Eng. 1.15-2.13])..................................................................................... 107 III. O Juízo infalível sobre Nínive (3.1-19)............................................. 130 O LIVRO DE HABACUQUE Sobrescrito (1.1)...................................................................................... 175 I. O diálogo de protesto (1.2-17)...............................................................176 II. A resolução da sabedoria (2.1-20)........................................................211 III. Um salmo de submissão (3.1-19).........................................................269 O LIVRO DE SOFONIAS Sobrescrito (1 .1 ).....................................................................................317 I. Juízo pactuai cósmico vem com o grande dia do Siínhor (1.2-18)... 324


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COMENTĂ RIO DO ANTIGO TESTAMENTO

II. O chamado ao arrependimento ecoa antes da chegada do grande dia do S enhor (2.1-15)..........................................................................360 III. Deus reconstitui seu povo com a chegada do grande dia (3.1-20).... 392


PREFACIO

DO

AUTOR

O escopo do Novo Comentário Internacional do Antigo Testamento desafia o comentarista a combinar o desvelo de um exegeta com a con­ sideração de um pastor. Este escopo se destina a fornecer um recurso a pastores e professores da Palavra sob uma forma útil e prática. O primeiro beneficiário de tal procedimento naturalmente é o pró­ prio autor. Foi um enomie privilégio estar enredado com os escritos desses profetas do século 7« a.C. em termos de seu significado para os dias atuais. O elo estreitamente tecido entre a profecia e a história se toma par­ ticularmente evidente mediante o estudo desses três livros. Sua brevida­ de exige um contexto. A medida que o lugar dessas mensagens na histó­ ria é explorado, toma-se mais e mais evidente que a história bíblica em si incorpora a profecia. A profecia bíblica nasce não apenas das cir­ cunstâncias concretas da história; a própria história bíblica funciona como profecia. Os acontecimentos que vieram sobre Judá e seus vizi­ nhos falavam por antecipação das circunstâncias mundialmente estremecedoras que estavam por vir. Esta perspectiva sobre os eventos da história de Judá fornece o elo necessário para ver as implicações atuais da mensagem desses antigos videntes. Pois, se juízos divinos sucessivos sobre as nações pagãs têm uma dimensão profética, então os povos e nações de hoje devem ficar atentos (Na 1.2). Se Deus prometeu que seu próprio povo “viverá” a despeito da derrocada das nações poderosas, então aqueles que conti­ nuam a confiar no Senhor podem continuar tendo esperança a despeito das calamidades (Hc 2.4). Se Deus Já prometeu que se manifestaria na forma de “herói vitorioso” que salva por causa de seu amor resoluto, então cada geração sucessiva deve centralizar sua esperança na vinda do Senhor em seu grande Dia (Sf 3.17).


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COMENTÁRIO DO ANTIGO TESTAMENTO

Que o Senhor das Escrituras se agrade em abençoar estes comentá­ rios de uma porção relativamente negligenciada de sua Palavra, com um novo derramamento de seu Espírito. Possam todos os pregadores e professores, comprometidos com o Cristo das Escrituras, encontrar uma razão renovada para fazerem sua contribuição, na direção do cumpri­ mento da profecia, de que “a terra se encherá do conhecimento da gló­ ria do S e n h o r como as águas cobrem o mar” (Hc 2.14). O. Palmer Robertson Washington, D.C. l®de maio de 1986


ABREVIATURAS

AB ANET ASTI AV BOB BHS Bib BibOr BKAT B.sac BZAW CBQ CBQMS DOTT EvQ ExpTim Fest. GKC HAT HUCA ICC IDB (S)

Anchor Bible J. B. Pritchard, org.. Ancient Near Eastern Texts. 3’ edição. Princeton: Princeton University Press, 1969. Annual o f the Swedish Theological Institute Versão Autorizada (King James) F. Brown, S. R. Driver e C. A. Briggs, A Hebrew and English Lexicon o f the Old Testament, Reimp. Oxford: Clarendon, 1962. K. Eiliger e W. Rudolph, orgs., Biblia Hebraica Stuttgartensia. Stuttgart: Deutsche Bibelstiftung, 1967-77. Biblica Biblica et orientalia Biblischer Kommentar: Altes Testament Bibliotheca Sacra Beihefte zur Zeitschrift für die alttestamentliche Wissenschaft Catholic Biblical Quarterly Catholic Biblical Quarterly Monograph Series D. W. Thomas, org.. Documents from Old Testament Times, Reimp. Nova York: Haper& Row, 1961. Evangelical Quarterly Expository Times Festschrift E. Kautzsch e A. E. Cowley, Gesenius'Hebrew Grammar, 2’ ed. Oxford: Clarendon, 1910. Handbuch zum Alten Testament Hebrew Union College Annual International Critical Commentary G. A. Buttrick, et. al., orgs.. Interpreter’s Dictionary o f the Bible. 4 vols. Nashville: Abingdon, 1962. Supplementary Vo­ lume. Org. K. Crim, et. al. 1976.


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COMENTÁRIO DO ANTIGO TESTAMENTO

Israel Exploration Journal Journal of Biblical Literature Journal o f the Evangelical Theological Society Journal o f Near Eastern Studies Journal o f Semitic Studies Journal o f Theological Studies Kommentary zum Alten Testament Koehler e W. Baumgartner, Lexicon in Veteris Testamenti Lihros. Leiden: Brill, 1958. literalmente Septuaginta manuscrito(s) Texto Massorétieo New American Standard Bible New International Commentary on the New Testament New International Commentary on the Old Testament New International Version Old Testament Library Oudtestamentische Studiën Revue de Qumran Society of Biblical Literature Babylonian Talmud G. Kittel e Friedrich, orgs.. Theological Dictionary o f the New Testament. 10 vols. Trad, e org. G. W. Bromiley. Grand Rapi­ ds: F,erdmans, 1964-76. G. J. Botterweck e H. Ringgren. eds.. Theological Dictionary o f the Old Testament. Vol. 1—Trad. D. E. Green, et. al. Grand Rapids: Eerdmans. 1974Vetus Testamentum Supplements to Vetus Testamentum Westminster Theological Journal Zeitschrift fiir die alttestamentliche Wissenschaft M. Tenney, et. al., orgs., Zondervan Pictorial Encyclopedia o f the Bible. 5 vols. Grand Rapids: Zondervan, 1975.


INTRODUÇÃO

1. PANORAMA HISTORICO-REDENTOR Se Moisés e Josué propiciaram o curso para Israel no decurso de sua posse da terra, então os escritos dos profetas forneceram o rumo para Israel quando de sua perda da terra. Uma apreciação da riqueza do significado bíblico-teológico da imagem da terra nas Escrituras pode realçar esse aspecto do ministério dos escritos dos profetas, inclusive Naum, Habacuque e Sofonias. Abraão recebeu a promessa da terra não porque não possuísse ne­ nhuma, mas porque essa dádiva de Deus comunicava a esperança da restauração do paraíso. Ele perambulou pela terra durante toda sua vida, esperando tomar posse da promessa até o dia de sua morte. Quando a terra foi finalmente reivindicada, ela foi descrita em termos idílicos: era a terra “que mana leite e mel” (Êx 3.8,17; etc.). Como um paraíso restaurado, a possessão da terra significava a consumação dos propósi­ tos redentores de Deus. Assim sendo, por essa perspectiva, o que poderia significar para o povo de Deus o desterro da terra? Eles haviam se tornado o “NãoMeu-Povo” (ver Os 1.9). Não mais possuíam o símbolo das bênçãos da redenção. O que poderia ser mais drástico? Quem poderia traduzir tal experiência? Esta tarefa foi dada aos profetas escritores de Israel. Na qualidade de intérpretes inspirados por Deus da fragmentação das na­ ções, eles ofereciam a estrutura para uma fé que poderia fornecer a chave para a vida em meio a circunstâncias desastrosas. De muitas formas, o exílio de Israel, deixando sua terra, foi um evento redentor muito mais complexo do que o chamado de Abraão. Os propósitos da redenção divina se concentraram originalmente em um único indivíduo. Mas agora a nação inteira, manifestando uma


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COMENTÁRIO DO ANTIGO TESTAMENTO

resposta diversificada aos desafios da fé, toma-se o centro dos atos reden­ tores de juízo e salvação. Enquanto Deus executava seus propósitos, for­ ças mundiais poderosas, conduzindo tropas, cruzavam os continentes em busca da execução de seus projetos ambiciosos. Eles também tinham um papel a desempenhar no desenrolar do drama da redenção. A batalha da vida pela fé, originalmente demonstrada por um único patriarca errante, havia assumido proporções internacionais. Em vez de reivindicar a promessa da terra em oposição a outros povos locali­ zados, o povo de Deus tinha agora de exercitar a fé em face de uma disputa internacional pelo poder, que visava o controle da faixa de ter­ ra palestina, a qual ligava os três continentes. E admirável ver como a fé triunfa (ou como a descrença redunda em fracasso) numa cena que envolve toda a sorte de intrigas na política internacional. Principalmente quando a disputa chega a um clímax, como ocorre no século 7®a.C., a fé dos reis de Judá nas promessas da aliança de Deus determina o curso de indivíduos e nações mais do que todos os recursos dos monarcas mais poderosos em suas épocas de maior grandeza. A fé ocupa 0 centro de todo este drama cósmico; e são os profetas de Israel que interpretam e aplicam as exigências da fé à sua própria geração. Os ministérios de Naum, Habacuque e Sofonias se encaixam bem neste esquema dos propósitos redentores de Deus. Seus ministérios focalizam a nação de Judá, visto que Deus lhe deu o papel central como seu servo escolhido. Judá, porém, é sempre o emissário a trazer a men­ sagem da redenção e Juízo às nações que fornecem a base para a con­ centração de Deus nesta minúscula nação entre os gigantes do globo. Ao abordar a história do mundo do século 7®a.C., da perspectiva histórico-redentora, podem-se observar épocas-chave cristalizando o papel da redenção no cenário internacional. A. OS TRIUNFOS DA FE NOS DIAS DE EZEQUIAS (715-687 a.C.)

Um confronto direto dos principais atores começa no século 7® a.C. Senaqueribe da Assíria (705-681) chega aos portões de Jerusalém em 701. Ezequias de Judá havia tomado fortes medidas de fé ao repudiar


INTRODUÇÃO

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a dominação assíria e preparar para a retaliação que certamente viria (2Rs 18; 2Cr 32; Is 36,37). Uma dessas medidas de fé foi a construção do túnel de Ezequias, até hoje “com justiça reconhecido como um dos grandes feitos da Antiguidade”.' Começando pelas duas extremidades, os trabalhadores perfuraram a rocha sólida numa extensão total de 546 metros; a inclinação do túnel chegou a meros 2,19 metros enquanto avançava em sua rota sinuosa. Embora petrificados diante da aterrado­ ra visão das tropas assírias, quando estas chegaram, os israelitas po­ diam pelo menos rir entre si dos insultos dos emissários de Senaqueribe, de que eles morreriam de sede se persistissem em resisti-lo (ver 2Cr 32.11). Mas esta manifestação de fé na supremacia do único Deus verda­ deiro por Ezequias dificilmente se compara com a obra que o Senhor mesmo iria realizar em resposta à fé de seu servo. O exército assírio, acampado fora de Jerusalém, foi destruído numa noite, e Senaqueribe foi forçado a retomar à Assíria (Is 37.36-38; 2Rs 19.35-37; 2Cr 32.2021). Não só os registros bíblicos, mas também os anais assírios atestam a obra de Deus, apesar dos esforços de Senaqueribe em esconder essa calamidade. Tal como preservado no Instituto Prisma Oriental, o mo­ narca se gaba: Em minha terceira campanha marchei contra Hatti [Siro-Palestina]. Luli, o rei de Sidom, a quem a fascinação da inspiração de terror em minha dominação havia aterrorizado, fugiu para o altomar e soçobrou... ... Sidqa, entretanto, rei de Asquelom, que não se curvou diante de meu jugo, deportei para a Assíria. Enviei seus deuses domésticos, ele próprio, sua esposa, seus filhos, seus irmãos, todos os descen­ dentes masculinos de sua família... ... Na escaramuça da batalha, pessoalmente capturei vivos os con­ dutores de carros egípcios com sua princesa e (também) os condu­ tores de carros do rei da Etiópia...

I. C. F. Pfeiffer, org.. The Biblical Word: A Dictionary o f Biblical Archaeolog}' (Grand Rapid.s; Baker, 1966), p. 530.


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COMENTÁRIO DO ANTIGO TESTAMENTO

Quanto a Ezequias, o judaíta, que não se submeteu a meu jugo, armei um cerco em volta de 46 cidades fortes... Eu o fiz prisioneiro em Jerusalém, bem como sua residência real, como a um pássaro engaiolado... O próprio Ezequias, aterrorizado pelo esplendor de meu senhorio... A fim de entregar o tributo e praticar obediência como escravo, ele enviou seu mensageiro (pessoal).Um exame do registro de Senaqueribe revela muitos pontos dignos de nota: (1) Senaqueribe deportou o rei de Asquelom - que havia resistido à autoridade assíria - com sua família, e em seu lugar colocou um subs­ tituto leal. (2) Senaqueribe não faz qualquer alegação específica a Ezequias, e a história mostra que Ezequias continuou em seu trono, o contrário do costume nonnal de ação de Senaqueribe. (3) O registro bíblico inclui uma referência ao assalto de Tiraca (ou Taarca), rei etíope do Egito, contra Senaqueribe (2Rs 19.9). Esta nota corresponde à própria referência de Senaqueribe à intrusão do Egito durante essa campanha, e fornece mais uma indicação da manei­ ra como o Senhor ordena os movimentos das nações para servirem a seus propósitos redentores.^ (4) A vivida descrição de Ezequias, sendo feito prisioneiro em sua própria cidade real de Jerusalém, “como a um pássaro engaiolado”, só ressalta que a cidade não foi tomada, mas apenas sitiada. (5) Um alto relevo na parede do palácio de Senaqueribe, na Assí­ ria, mostra o rei sentado num trono portátil do lado de fora de Laquis. Tal como observado por D. J. Wiseman, “a preeminência dada pelas esculturas de Senaqueribe deste evento ressalta seu fracasso em captu­ rar Jerusalém, a despeito da ênfase dada ao cerco da capital de Judá em seus registros escritos”.'' 2. ANET, p. 287,288. 3. Estudos mais recentes eonfirmam que Tiraca tinha idade suficiente para comandar o exercito egipeio na Palestina em 701 a.C. Conferir B. Oded, em Israelite and Judaean History, org. J. H. Hayes e J. M. Miller, OTL (Filadélfia: Westminster, 1977), p. 448. 4. D.’J. Wiseman. in DOTT. p. 69.


INTRODUÇÃO

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(6) A última humilhação de Senaqueribe, tal como registrada nas Escrituras, corresponde basicamente aos registros da Assíria e Babilô­ nia. Segundo as Escrituras, o altivo rei sofreu a humilhação em dose dupla ao ser assassinado por seus próprios filhos - na casa de seus próprios deuses (2Rs 19.36-37). Correspondentemente, no cilindro de Assurbanipal, neto de Senaqueribe, se lê: “Como uma oferenda póstu­ ma, nesta ocasião, eu esmaguei o resto do povo vivo com as mesmas figuras das deidades protetoras entre as quais eles haviam esmagado Senaqueribe, meu próprio avô. Sua carne retalhada eu a dei aos cães, porcos, chacais, pássaros e urubus, aos pássaros do céu, e aos peixes das profundezas”.’ Nenhuma menção se faz de Senaqueribe sendo as­ sassinado na casa de seus deuses. Mas a menção das “figuras das deida­ des protetoras” se refere aos colossais touros alados com cabeça humana que guardavam as entradas principais dos palácios e templos assírios e combinam bem com o testemunho bíblico. Uma breve nota na crônica babilónica fornece maiores confirmações: “No mês de Tebitu, no dia 20, seu filho assassinou Senaqueribe, rei da Assíria, durante uma rebelião”.* Portanto, no meio das marchas de um poderoso tirano, as interceptações de um segundo império mundial, e as intrigas mortais de uma família real, o Deus de Israel se mostrava fiel às promessas feitas a Davi e a seus filhos. A fé de Ezequias nos propósitos soberanos de Deus era mais forte do que exércitos humanos. Os propósitos de Deus em providenciar um caminho de redenção do pecado se mostraram mais fortes do que os resolutos empenhos de seres humanos. B. OS DIAS SOMBRIOS DA APOSTASIA SOB MANASSES (687-642 a.C.) E AMOM (642-640 a.C.)

O rei Manassés deve ser responsabilizado pessoalmente pela intro­ dução das abominações da prostituição sacra e sacrifícios humanos no culto de Israel (2Rs 21 .6-9; 2Cr 33.6-9), independente de que pressões lhe possam ter sido impostas por terceiros. Por causa dessas profana­ ções, ele selou o destino de Israel a despeito dos arrependimentos sub­ sequentes. 5. DOTT, p. 72. 6. ANET, p. 302.


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COMENTÁRIO DO ANTIGO TESTAMENTO

A despeito de sua perversidade, Manassés sobreviveu ao domínio de três monarcas assírios: Senaqueribe (705-681), Esar-Hadom (681-669) e Assurbanipal (669-627), mas não de maneira gratuita. Os registros de Esar-Hadom reportam à submissão de Manassés: “Eu convoquei os reis do território Hatti [Siro-Palestina] e (da região) do outro lado do rio (Eufrates) (a saber): Ba’lu, rei de Tiro, Manassés {Me-na-si-i), rei de Judá (la-ú-dí) ... a todos esses eu enviei e fiz que transportassem, sob grande dificuldade, para Nínive, a cidade (onde eu exerço) meu reinado, material de construção para meu palácio: grandes troncos, longas vigas, (e) finas tábuas... produtos das montanhas do Líbano (Lab-na-na), que cresceram por muito tempo e se tomaram madeira forte e comprida”.^ Durante esse tempo, a detemiinação da Assíria em subjugar o Egito alcançou seu ponto máximo. Como consequência, um agressivo pode­ rio assírio militar e político se fez sentir na Palestina em todo esse perío­ do. Portanto, não surpreende ver Manassés catalogado junto com os que foram forçados por Assurbanipal a ajudá-lo em suas incursões no interior do Egito: “Em minha primeira campanha, marchei contra o Egito (Magan) e Etiópia... Durante minha marcha (contra o Egito), 22 reis do litoral, das ilhas e do continente... Manassés (Mi-in-si-e), rei de Judá {la-ii-di)... servos que me pertencem, trouxeram grande quantidade de presentes... para mim e beijaram meus pés. Eu obriguei a esses reis a me acompanharem por terra - bem como por mar - junto a suas forças armadas e seus navios”.* Não se indica que as tropas de Israel foram obrigadas a acompanhar o rei por todo o percurso de 644 km até o Nilo, a Tebas. O monumento assírio prossegue seu relato contando como Tiraca “ouviu em Mênfis sobre a derrota de seu exército”; então “deixou Mênfis e fugiu, a salvar sua vida, para a cidade de Ni’ (Tebas)”. Assurbani­ pal observa: “A esta cidade (também) conquistei e deixei meu exército repousar (ali) ... Voltei com muitos prisioneiros e muitos despojos a salvo para Nínive”. O conto desta incrível conquista era bem conhecido dos habitantes de Judá, como visto na profecia de Naum. Ele ousada­ mente pergunta aos assírios se sua situação de defesa era melhor que aquela de Nô (o N i’ da inscrição de Assurbanipal - Na 3.8-10). l.A N E T ,p . 291. 8. A.MET, p. 294.


INTRODUÇÃO

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É bastante curioso o fato de a presença assíria em Israel alcançar seu auge no tempo em que o monarca de Israel mostrava pequena ou nenhuma fé no único Deus vivo e verdadeiro. De uma perspectiva pu­ ramente secular, a Assíria teria de invadir e subjugar o Egito, caso quisesse continuar mantendo o controle da região Siro-Palestina. Por mais impossível que a tarefa parecesse, o esforço tinha de ser feito. De outra maneira, a aspiração assíria de dominar o mundo teria de ser abandonada. Mas dificilmente alguém pode desprezar o fato de que o tempo do expansionismo assírio corresponde aos dias sombrios da apos­ tasia prevalecente sob o reinado de Manassés. O Deus de todas as na­ ções não permitiria que o povo que se chamava pelo seu nome o negas­ se impunemente. Outro capítulo na vida de Manassés é relatado pelo escritor de Crô­ nicas. Segundo esse relato, Manassés foi levado para Babilônia, pelo capitão do exército do rei da Assíria, onde arrependeu-se, humilhou-se e orou ao Senhor, e foi levado de volta a Jerusalém. Ao regressar, ele instituiu alguns projetos de construção e deu início a numerosas refor­ mas religiosas (2Cr 33.11 -20). Conquanto nenhum testemunho direto extrabíblico confirme esse registro distintivo de Crônicas, algumas considerações circunstanciais apoiam o relato. Agitações espalhadas em todo o império assírio foram geradas por uma revolta em 652, liderada por Shamash-shum-ukin, ir­ mão mais velho de Assurbanipal e regente da Babilônia.’ Talvez Ma­ nassés fosse suficientemente ousado em revoltar-se enquanto a atenção da Assíria estava posta na porção oriental, particularmente à luz da força crescente de Psamético I (ou Psamtik; 663-609), filho deNeco, a quem os assírios haviam tratado com misericórdia.'“ Uma excursão subsequente de Assurbanipal ao ocidente pode ter sido a ocasião da humilhação de Manassés, seu exílio temporário e retorno final para a Palestina." Aparentemente, entre a subjugação de seu irmão em 648 e a humilhação de Elão mais para o leste em 639, Assurbanipal organi­ zou um assalto ao oeste a fim de subjugar aqueles que se revoltaram 9. J. Bright. A History o f Israel. 3 ' cdiçào (Filadélfia; Westminster, 1981), p. 313. 10. /í,V £r,p.295. 11. Bright. Hislor}’ o f Israel, p. 14.


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COMENTÁRIO DO ANTIGO TESTAMENTO

juntamente com os árabes.*- Embora Judá não seja especificamente mencionado, os textos assírios mencionam a conquista de Edom, Amom e Moabe.'^ Quanto ao rei rebelde da Arábia, Assurbanipal declara triun­ fante: “Coloquei um pelourinho (em volta) de seu (pescoço) junto a um urso (e) a um cão, e o obriguei a montar guarda no portão de Ninive”.*'* E possível que Manassés tenha estado ali também. Se o exílio de Manassés aconteceu depois de Assurbanipal haver sufocado a revolta de seu irmão em 648, o rei judaíta estaria com mais de sessenta anos de idade naquela época, não tendo conhecido outra forma de viver senão a do trono, desde que tinha 12 anos de idade (2Cr 33.1). O choque de uma repentina e completa humilhação poderia ter causado a piedade que caracterizou provavelmente os últimos cinco anos de seu reinado de cinquenta e cinco anos. Justamente tal circunstância histórica é que fornece um contexto apropriado para a profecia de Naum. Com o retorno do leste e o triun­ fo sobre a capital elamita de Susã em 639, o império assírio não pode­ ria estar mais forte. Do Egito ao Elão, ele dominava todas as nações do mundo. Ainda assim, Naum não hesita em declarar sua destruição. A reforma de Manassés. embora tenha sido pequena em comparação com os longos anos que passou assentando um alicerce para uma apos­ tasia duradoura, pode explicar por que Naum diz tão pouco ou nada sobre a culpa do povo de Deus. Quanto mais longe da morte de Assur­ banipal, em 627, se data Naum, menos impacto se sente de um elemento-chave para sua profecia: Assim diz o S enhor:

Por mais seguros que estejam e por mais numerosos que sejam, ainda assim serão exterminados e passarão; eu te afligi, mas não te afligirei mais. (Na 1.12)

12. G Roux. A ndem íniq (Baltimore; Penguin, reimpr. 1976), p. 302,303. \ 3. A NE T, p. 298. 14. fhid.


INTRODUÇÃO

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Ao introduzir esta análise sobre a condição de Nínive em seus pró­ prios dias, Naum emprega o costumeiro e solene “Assim diz o S e ­ n h o r ” pela primeira e única vez. Ele põe a ênfase no fato de que, a despeito de toda a aparência de força da Assíria, Deus certamente dava garantias de sua queda. Somente a fé na soberania da redenção divina poderia gerar a crença nessa mensagem a respeito da queda de Nínive sob tais circunstâncias. Mas se a mão de Deus podia ser vista coorde­ nando a hora de maior força do instrumento de castigo divino com a depravação mais profunda de seu povo, então a fé podia também crer na destruição iminente de seus inimigos, mesmo quando pareciam es­ tar no apogeu de sua força. Manassés foi sucedido por seu filho, Amom, que reinou apenas dois anos antes de ser assassinado pelos servos de sua casa (2Rs 21.1923; 2Cr 33.20-24). A raridade desse tipo de violência contra o trono do reino do sul comprova a graça de Deus em honrar a promessa feita à linhagem de Davi. Enquanto dez dinastias diferentes se consumiram umas às outras em aproximadamente 200 anos de história do reino do norte, somente uma dinastia, a de Davi, reinou em Judá por quase 350 anos. As Escrituras não discutem sobre a razão do assassinato de Amom. Talvez um partido anti-assírio, instigado pelo Egito, tenha removido Amom quando detectaram seu retomo às políticas iniciais de Manassés.'* De qualquer modo, o “povo da terra” imediatamente tomou controle da situação, executou os assassinos de Amom e colocou em seu lugar seu próprio filho, Josias, de 8 anos de idade (2Rs 21.24; 2Cr 33.25). Esse “povo da terra” poderia ter sido “uma classe social e política privilegi­ ada ou uma instituição aristocrática de donos de terras que era ativa no nível legal e militar e que exercia influência política”.'® De qualquer modo, eles pareciam nutrir uma lealdade para com as provisões relati­ vas à sucessão ao trono como se encontra na aliança davídica. Sua ação rápida preservou o trono de Davi intato, a despeito da possibilidade de intrigas internacionais. 15. B. Oded em Israelite and Judean History-, p. 456. 16. Ibid., p. 457. Ver sua discussão para referências bibliográficas.


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COMENTÁRIO DO ANTIGO TESTAMENTO

C. REFORMA SOB JOSIAS (640-609 a.C.)

Josias começou sua carreira pública aos 8 anos de idade com o trauma de saber que seu pai de apenas 24 anos de idade havia sido assassinado, que os assassinos haviam sido executados e que ele seria o rei. Sem dúvida, a trama da conspiração gerou muito alvoroço e confu­ são nos corredores do palácio real naqueles dias. Nada se sabe dos primeiros anos do reinado de Josias. Mas, ainda muito jovem, ele teria ficado muito impressionado com o conhecimento da fidelidade da aliança de Deus ao longo dos séculos. Ele era um filho de Davi, um descendente direto daquele escolhido de Deus para reinar naquele exato lugar, trezentos anos antes. Nem os faraós do Egito, ou os monarcas da Assiria, poderiam gabar-se de um Deus tão fiel e tão pode­ roso assim. Ao completar 16 anos de idade, Josias “começou a buscar o Deus de Davi, seu pai” (2Cr 34.3). Nessa passagem particular do cro­ nista, o autor exílico emprega uma de suas palavras-chave para descre­ ver a experiência religiosa inicial do Jovem rei: ele começou “a buscar” o Senhor (2Cr 34.3; conferir a sentença programática de 2Cr 7.14). Seguindo esta sua inclinação inicial, Josias, aos 20 anos de idade, co­ meçou a purificar Judá e Jerusalém das imagens pagãs que Manassés havia introduzido (2Cr 34.3-7). Ele estendeu suas reformas até o terri­ tório dominado pela Assíria, do reino do norte, de Israel, inclusive as cidades localizadas nos territórios de Manassés, Efraim, Simeão e até mesmo Naftali (2Cr 34.6). A época exata do início da purificação feita por Josias é importante por três razões: (1) Esta purificação inicial ocorre no décimo segundo ano de seu reinado, que seria 628 a.C. A importância desta data consiste em que ela aparentemente situa-se antes da morte de Assurbanipal, que já foi confirmada como tendo ocorrido no ano 627 a.C.’’ Ainda vivia o pode­ roso tirano que havia intimado Manassés a ajudá-lo a invadir o Egito. Mesmo assim, Josias ousou movimentar-se na parte norte da Palestina e exercer sua prerrogativa como personagem do rei messiânico de Israel. Para um jovem de apenas 20 anos de idade, este ato só poderia ser inspirado por ingenuidade ou por sólida fé na justiça da causa do Senhor. 17. J. Bright, Jeremiah, AB (Garden City, NY: Doubleday, 1965), p. xxxvi.


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(2) Esta purificação inicial de Josias precedeu o chamado e minis­ tério de Jeremias e, evidentemente, também Sofonias. Ainda que jo ­ vem e sem o respaldo profético, Josias demonstrou coragem, fé e força de vontade ao derrubar uma tradição religiosa, social e política que havia regulado a vida inteira de sua população durante os últimos ses­ senta anos. (3) Esta purificação inicial precedeu a descoberta do “Livro da Lei” no templo em seis ou sete anos. Mesmo sem esta justificativa de autori­ dade para suas ações, o rei introduziu seu programa radical de reforma. Com a morte de Assurbanipal em 627, esta era chegou ao fim. Pe­ los cem anos anteriores, o poder da Assíria havia dominado a vida do povo da Palestina. Depois de um breve interlúdio sob Ashur-etil-ilani (627-623), seu irmão, de pouca força de vontade, Sin-shar-ishkun (623612), presidiu a rápida queda do reino. Por pouco mais de dez anos de sua ascensão ao trono, Níni ve, a Grande, havia caído. Mal morreu Assur­ banipal e a Babilônia já asseverava sua independência sob a liderança de Nabopolassar (626-605), o primeiro rei do império neo-babilônico. Uma Média reavivada sob Ciaxares (625-585) emergiu para se tomar mais do que meramente um espinho incômodo na ilharga da Assíria. A vantagem imediata do desenvolvimento de novas ameaças polí­ ticas do leste era que o oeste podia agir relativamente independente do medo de represália imediata por parte da Assíria. Conquanto este novo alívio não deva ser visto como um fator primário para o movimento de reforma de Josias, ele forneceu um clima mais favorável para as inten­ ções do rei. Se a fraqueza da fé de Manassés tiver correspondido ao tempo da força assíria sob Assurbanipal, a força da fé de Josias corres­ pondeu ao tempo de fraqueza sem precedentes da Assíria. Foi nesse contexto que o “Livro da Lei” que fora “dado por inter­ médio de Moisés” foi descoberto em 622 (2Rs 22.8; 2Cr 34.14-15). Nessa altura, a reforma de Josias tomou um impulso importante. O livro de Reis enfatiza a destruição dos centros de falsa adoração e a extensão da reforma até o território de Betei, no reino do norte (2Rs 23). O livro de Crônicas presta especial atenção à celebração cultuai da Páscoa, observando o papel preeminente dos sacerdotes, levitas e cantores (2Cr 35).


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O poderoso ministério profético de Sofonias parece ter surgido jus­ tamente nessa ocasião.'® Josias fez um compromisso público de insti­ tuir um modo de vida para seu reino baseado no padrão estabelecido no “Livro da Aliança”, Ele recebeu todo o apoio de que precisava no ministério do profeta Sofonias. Com uma linguagem saturada das for­ mulações pactuais do livro de Deuteronômio, Sofonias apresenta uma figura do juízo pactuai sem rival em qualquer outro lugar das Escritu­ ras, por causa de sua severa descrição dos terrores da consumação imi­ nente. Ao mesmo tempo, sua penetração no amor de Deus alcança di­ mensões que ultrapassam a imaginação. Mesmo no contexto da devas­ tação iminente por causa do pecado, o amor redentor de Deus por seu povo prevaleceria. As Escrituras fornecem pouca informação sobre o cenário interna­ cional entre o tempo da reforma de Josias em 622 e sua morte em 609. Mas o seguinte esboço dos eventos pode ser reconstruído a partir de vários documentos extrabíblicos: ( 1) Uma série de ataques e contra-ataques marca a relação dos as­ sírios e babilônios durante esse periodo.'’ Enquanto isso, Psamético 1 do Egito (663-609) aliou-se à Assíria já em processo de enfraqueci­ mento, talvez sentindo que a posição emergente da Babilônia lhes era uma ameaça maior que seu conquistador anterior.-® (2) Ciaxares, rei dos medos, tomou Assur, a antiga capital da Assí­ ria, em 614. Este evento confirmou ainda mais o caráter enfraquecido do império assírio. (3) Os medos e os babilônios reuniram forças e invadiram Nínive em 612. A cidade caiu depois de um cerco de três meses, com o rei assírio Sin-shar-ishkun aparentemente perecendo nas chamas. Um rela­ to da queda se encontra na Crônica Babilónica: “O rei de Acádia [Babi­ lônia] convocou seu exército e o rei [Ciaxarjes... marchou em direção ao rei de Acádia... eles marcharam (rio acima) no aterro do Tigre e... [montaram acampamento] contra Nínive... eles fizeram um grande ata­ que contra a cidade... [Eles fizeram] a cidade em monturos de ruínas... 18. Ver mais abaixo a seção sobre a data e autoria de Sofonias. 19. Roux, A ndem Iraq, p. 340. 20. Bright, History’ o f Israel, p. 316.


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Ciaxares e seu exército regressaram a seu país... Ashuruballit... sentouse em Harã, sobre o trono, para tomar-se o rei da Assíria”.^' A luz deste relato, fica evidente que os babilônios assumiram a supremacia sobre esta área do Tigre enquanto os medos regressavam ao oriente. Ao mes­ mo tempo, um remanescente de vassalos assírios leais estabeleceu um novo rei e capital em Harã, aproximadamente a 242 km a oeste de Nínive. (4) Dois anos mais tarde, em 610, a Babilônia derrotou o remanes­ cente das forças assírias uma vez mais em Harã, embora a resistência assíria não fosse totalmente eliminada. Faraó Neco II (609-594) conti­ nuou a política de seu pai Psamético e decidiu fornecer auxílio às tro­ pas restantes da Assíria. Se Harã fosse reconquistada, então talvez a Assíria pudesse continuar como um Estado-tampão entre o Egito e a Babilônia.^^ Foi nesse ponto que o rei Josias deu sua tacada fatal. Talvez visse a marcha das forças egípcias em seu território como uma afronta à sua soberania em expansão. Talvez sentisse que era absolutamente necessá­ rio resistir a qualquer fortalecimento da mão de uma Assíria que havia oprimido sua nação por tanto tempo. Seja qual for o caso, Josias inter­ ceptou estrategicamente o exército egípcio no passo de Megido em 609. Neco tentou dissuadi-lo. Segundo o cronista, as palavras de Neco foram “da parte de Deus” a Josias, mas ele não fez caso (2Cr 35.21-22). Ten­ do sido fatalmente ferido, Josias recuou para Jerusalém, onde morreu. Apropriadamente, todo o Judá e Jerusalém prantearam Josias se­ gundo a lamentação composta por Jeremias (2Cr 35.24-25). Sua morte tão estranha marcou o fim de uma era. Era o último fio de esperança para Judá. A lamentação por Josias se tornou uma tradição em Israel (2Cr 35.25), e foi lembrada vividamente quase cem anos depois, no tempo da restauração de Israel (cf. Zc 12.10-11). Este ato de lamenta­ ção sobre o último dos reis-messias fiéis de Israel eventualmente foi tratado profeticamente nas Escrituras. Ele se tornou uma figura da la2\.ANET,x>. 304,305. 22. O testemunho dos monumentos coincide com a afirmação nas Escrituras em 2 Reis 23.29, entendendo que o versiculo deveria ser traduzido assim: “Faraó Neco, rei do Egito, subiu a [ ‘af]o rei da Assiria", em vez de “canira o rei da Assíria” da AV.


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mentaçào final de Israel enquanto lamentavam os sofrimentos de seu rei verdadeiramente messiânico (Jo 19.37; cf. Ap 1.7). D. DESTRUIÇÃO DOS FILHOS E DO NETO DE JOSIAS (609-587 a.C.)

Após a morte de Josias, o fim chegou velozmente. Numa sucessão rápida, três dos filhos de Josias e um de seus netos reinaram sobre Jenisalém até o colapso fatal do reinado dos babilônios em 587. Parece que as Escrituras não explicam explicitamente a razão por que as re­ formas do bom rei Josias não alcançaram sua própria família. Mas uma análise da evidência concernente às circunstâncias de sua casa pode fornecer alguma compreensão do problema. Josias começou a reinar quando tinha apenas 8 anos de idade, e continuou no trono até completar 39 (2Rs 22.1). Visto que seu segundo filho mais velho, Jeoacaz (com sua mulher Hamutal), tinha 23 quando sucedeu Josias no trono (2Rs 23.31), Josias devia ter 16 quando Jeoa­ caz nasceu. Mas então as Escrituras observam que quando seu filho mais velho, Jeoaquim (com outra esposa chamada Zebida), sucedeu seu irmão três meses mais tarde, ele tinha 25 anos (2Rs 23.36). Então o primeiro filho de Josias nasceu quando ele tinha 14 anos, significando que aos 13 ele já estava casado. Em suma, Josias subiu ao trono quando tinha 8 anos de idade, e teria se casado pelo menos aos 13, para estar em situação de poligamia aos 15, e foi pai pelo menos de dois filhos com duas esposas diferentes quando tinha 16 anos. Ao que parece, o “povo da terra” teria se encarregado dos casamen­ tos de Josias em idade bem jovem graças ao zelo para manter a linha­ gem de Davi. Depois do assassinato de Amom, pai de Josias, eles teriam ficado extremamente ansiosos em garantir um sucessor davídico por intermédio do jovem rei. Possivelmente, Hamutal, mãe de Jeoacaz, fos­ se a primeira esposa de Josias e seu casamento fosse arranjado até mes­ mo antes de completar 13 anos. Quando esse casamento falhou em pro­ duzir um filho, Josias, então com 13 anos, tomou outra esposa, Zebida, mãe de Jeoaquim. Essa possível sequência dos eventos explicaria por que Jeoacaz, nascido dois anos depois de Jeoaquim, foi o primeiro dos filhos a subir ao trono. Seja como for, uma cena doméstica envolvendo


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um jovem de 16 anos com duas esposas e dois filhos talvez explique por que os dois filhos de Josias não foram afetados pelas reformas do pai. Embora o “povo da terra” houvesse agido rapidamente no estabe­ lecimento de Jeoacaz como rei, logo após a morte de Josias (2Cr 36.1), seu controle da situação se destinava a ter vida curta. O Egito prosse­ guiu em sua marcha rumo a Harã com o intuito de tentar, uma vez mais, em cooperação com os remanescentes do exército assírio, repelir os avanços de Nabopolassar da Babilônia. A Crônica Babilônica registra o confronto nas margens do rio Eufrates, ao norte da Palestina: “No [dé­ cimo sétimo ano (de Nabopolassar, que seria 609 a.C.)]... Ashur-uballit, rei da Assíria, um grande exército egípcio... cruzou o rio e marchou contra a cidade de Harã para conquistá-la... eles destruíram a guarnição que o rei de Babilônia deixara estacionada ali... e ele sitiou a cidade de Harã... mas embora não a tenha tomado, eles se retiraram”.^^ Regressando de seu frustrante fracasso em ganhar uma vitória deci­ siva sobre a Babilônia, Neco fez uma pausa em Ribla, ao norte de Da­ masco, para lamber suas feridas. Evidentemente, num esforço para consolidar seu controle sobre a Síria e a Palestina, ele convocou Jeoacaz, o depôs e designou seu irmão mais velho, Eliaquim, como seu sucessor, mudando seu nome para Jeoaquim. Jeoacaz foi levado em cadeias para 0 Egito, onde morreu, em cumprimento da profecia de Jeremias (c f Jr 22.10-11). Não se sabe por que Neco favoreceu a Eliaquim em detrimento de Jeoacaz. De um lado, poderia ser simplesmente que ele tivesse a inten­ ção de asseverar seu desejo de designar um homem que lhe fosse deve­ dor. Do outro lado, a escolha de Jeoacaz pelo “povo da terra” poderia representar suas expectativas de que ele seguiría as mesmas tendências antiegípcias de seu pai Josias. Seja qual for o caso, o povo de Israel exercera sua vontade, pela última vez, determinando quem haveria de reinar sobre eles. Jeoaquim, bem cedo, manifestou um caráter que era particularmente odioso a Jeremias (cf Jr 22.13-23). Enquanto o Senhor requeria Justi­ ça e retidão, Jeoaquim insistiu habitar em um luxuoso palácio de ce23. DOTT, p. 77.


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dro, excedendo muitíssimo a habitação de seu piedoso pai Josias. E, visto que ele mesmo não podia financiar tal luxo, Jeoaquim forçara os cidadãos a trabalhar para satisfazer sua extravagância, sem pagamen­ to. Josias, que era mais justo, contentara-se simplesmente com comida e bebida, sentindo que a manutenção da justiça entre o povo era muito mais importante que estruturas palacianas. Então Jeremias denunciou o rei, anunciando que Jeoaquim seria humilhado em sua morte, em con­ traste com as honras prestadas a seu pai. O profeta prometeu ao rei que ele seria sepultado como se “sepulta um jumento” (Jr 22.19). Essa circunstância histórica, que prevaleceu entre 609 e 605, se encaixa bem na mensagem da profecia de Habacuque. O profeta come­ ça com uma reclamação severa por causa da violência que permeava o povo de Deus. Ele estava particularmente preocupado porque a Torá parecia impotente, o que significa que ele estava falando de violência entre o próprio povo de Deus (Hc 1.4). Com o exemplo de um rei como Jeoaquim vivendo perante o povo, não surpreenderia que fizessem o mesmo. A volta de Jeoaquim às idolatrias de Manassés teria fornecido amplo endosso teológico ao desrespeito pela Torá de Yahweh. O Senhor responde por intermédio de seu profeta Habacuque, indicando que ele iria tratar a situação de uma maneira que o povo não acreditaria nem se lhes fosse dito ( 1.5). Ele iria suscitar os babilônios, um povo impetuoso, que marcharia pela largura da terra, arrebatando territórios alheios das mãos de seus donos ( 1.6). Ao analisar a evidência interna de Habacuque, que pode auxiliar no posicionamento do livro na história da redenção, é preciso comparar muitos fatores. O juízo sobre Judá cairia bastante cedo para ser visto pelos contemporâneos de Habacuque, visto que a palavra do Senhor diz que este juízo seria “em vossos dias” ( 1.5). E evidente que os babilônios de fato se fizeram presentes, o bastante para serem designados como “nação amarga e impetuosa, que marcha pela largura da terra” ( 1.6). Ao tempo em que Jeoaquim ocupou o trono, Nabopolassar já havia marchado até Harã e efetuado uma investida contra as forças coligadas da Assíria e Egito. Contudo, antes da batalha de Carquemis em 605, a dominação babilónica sobre a Sírio-Palestina ainda não fora claramen­ te estabelecida. E foi, por fim, Neco do Egito quem nomeou Jeoaquim


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como seu rei marionete. Dentro de dez anos, porém, Nabucodosor (ou Nabucodonosor), sucessor de Nabonidus, estaria levando cativos de Judá (em 597); e dentro de vinte anos a incrível devastação da cidade de Davi seria de fato concretizada (587). Nesse momento de maior crise de Israel, o profeta Habacuque de­ clara essencialmente uma única mensagem: a pessoa de fé “... viverá” (Hc 2.4). Mesmo quando Judá se destinava a experimentar o último dos juízos de Deus, uma pessoa pecaminosa pode ser “Justificada pela fé”, e dessa maneira ser aceita por Deus, a despeito de sua transgressão, bem como da nação, da lei pactuai. Mesmo quando os impérios do mundo estão desabando por todos os lados, a pessoa de fé “viverá”. Ela sobre­ viverá e receberá as bênçãos pactuais; basta simplesmente continuar crendo, independentemente de quão sombrios sejam os eventos da histó­ ria. Esta é uma mensagem que permanece sem levar em conta as épo­ cas. Se sob tais circunstâncias as promessas pactuais de Deus permane­ cem verdadeiras para os que creem, a obra redentora de Deus jamais falhará. Embora o exército babilónico, comandado pelo idoso Nabopolassar (626-605), sustentasse sua posição em Harã contra a investida combi­ nada assírio-egípcia em 609, ele não foi capaz de atravessar o Eufrates para o oeste e tomar a estratégica cidade de Carquemis. Mas em 605, o panorama mudou drasticamente. Como príncipe da coroa e filho mais velho de Nabopolassar, Nabucodonosor fez seu movimento decisivo. Ele cruzou o Eufrates e investiu contra Carquemis. A Crônica Babilóni­ ca registra o dramático momento: No vigésimo primeiro ano [de Nabopolassar, que seria 605] o rei da Babilônia permaneceu em seu próprio país enquanto o príncipe da coroa, Nabucodonosor, seu filho mais velho, ocupou pessoalmente 0 comando de suas tropas e marchou contra Carquemis, situada na margem do rio Eufrates. Ele cruzou o rio (para ir) contra o exército egípcio que estava localizado em Carquemis... eles se enfrentaram e o exército egípcio fugiu dele. Ele os derrotou (os esmagou) eli­ minando-os totalmente. Quanto ao remanescente do exército egíp­ cio que escapara da derrota (tão veloz), que nenhuma arma os toca­


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ra, 0 exército babilónico adiantou-se e os derrotou no distrito de Hamate, de tal modo que nem um só homem [escapou], fugindo para sua própria terra. Naquela época, Nabucodonosor conquistou toda a terra de Hatti,-'* Uma vez vencida a resistência egípcia, não houve mais quem pu­ desse deter Babilónia. O autor de Reis reflete a totalidade da derrota do Egito: “O rei do Egito nunca mais saiu de sua terra; porque o rei da Babilónia tomou tudo quanto era dele, desde o ribeiro do Egito até o rio Eufrates” (2Rs 24.7). Após uns poucos anos de subserviência à Babilónia, Jeoaquim se uniu numa revolta contra Nabucodonosor. Em dezembro de 598, o rei da Babilónia começou sua marcha de volta à Palestina. Tendo chegado, ele cercou Jerusalém e, em março de 597, tomou a cidade e capturou o rei. Esse rei seria Joaquim, um rapaz de 18 anos de idade, visto que seu pai Jeoaquim morrera enquanto Nabucodonosor empreendia sua marcha. Joaquim está incluso entre os reis condenados por Jeremias (Jr 22). O profeta diz que Joaquim e sua mãe seriam entregues a Nabucodonosor e arremessados numa terra estranha para nunca mais voltar (v. 26-27). Este jovem rei é descrito como uma “coisa quebrada” que, por não ter filhos, nenhum de seus descendentes se sentaria no trono de Davi (v. 28-30). Esse neto de Josias, na verdade, representa o ponto mais remoto da sucessão genealógica na linhagem de Davi. Embora Zedequias, um ter­ ceiro filho de Josias, tenha substituído Joaquim, seu sobrinho, questões sérias foram suscitadas por seus contemporâneos sobre a validade de sua sucessão.*’Textos sobre a Babilónia continuam a mencionar o exi­ lado rei Joaquim como “rei de Judá”, e havia grandes esperanças de Joaquim ser libertado, a despeito de a profecia de Jeremias dizer o contrário (Jr 28.4). Embora a destruição de Jerusalém tenha ocorrido dez anos mais tarde, em 587, num sentido real a sucessão na linhagem de Davi terminou com a deportação de Joaquim, neto de Josias. 24. DOTT, p. 78.79. 25. Bright, fíixtory o f Israel, p. 328.


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Esta perspectiva na continuação da importância de Joaquim, a des­ peito de seu exílio, torna ainda mais importante a reviravolta dos negó­ cios na Babilônia. No trigésimo-sétimo (!) ano de seu exílio, quando Joaquim estaria com 55 anos de idade, o novo rei da Babilônia o liber­ tou da prisão e lhe deu um lugar de honra, o qual manteve até o dia de sua morte, Joaquim recebeu uma pensão vitalícia, e pelo resto de sua vida comeu à mesa do rei (2Rs 25.27-30). Algo mais que mero simbo­ lismo messiânico reside nesta observação de conclusão a respeito da monarquia em Israel. Após essa plena justificativa para o exílio do povo pactuai de Deus, o escritor de Reis certamente tinha razão de registrar a virada da sorte desse filho da linhagem davídica. À luz de uma nova aliança, o significado desses eventos se toma evidente. O fato de Joaquim (Jeconias/Conias, Jr 22.24; 24.1; ver Mt 1.11) aparecer na genealogia de Jesus Cristo pode causar surpresa à luz da profecia de Jeremias: “Assim diz o S e n h o r : Registrai este como se não tivera filhos; ho­ mem que não prosperará em seus dias, e nenhum de seus filhos prosperará, para assentar-se no trono de Davi e ainda reinar em Judá” (Jr 22.30). Talvez uma solução para esse problema seja encontrada no fato de que nenhum descendente imediato de Joaquim se sentou no trono de Judá. Na realidade, exceto para o tio de Joaquim, Zedequias, o trono de Davi permaneceu vazio ao longo dos seiscentos anos seguintes, quase duas vezes o tempo em que a sucessão davídica se mantivera. O verda­ deiro trono de Davi, localizado à direita de Deus, não encontrou ocu­ pante digno até o aparecimento do grandioso Filho do grande Davi. Este Filho de Davi era quem Jeremias também esperava. Após as condenações de Jeoacaz (Salum - Jr 22.10-12), Jeoaquim (v. 13-23), e Joaquim (Jeconias/Conias; v. 24-30), Jeremias declara em sua profecia seguinte que se deve nutrir boas expectativas a respeito do divino mes­ sias que certamente havería de vir: Eis que vêm dias, diz o S e n h o r , quando levantarei a Davi um Re­ novo justo; e ele reinará e agirá sabiamente, e executará o juízo e a


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justiça na terra. Em seus dias Judá será salvo, E Israel habitará seguro; E por seu nome será chamado: O S e n h o r , Justiça Nossa (Jr 23.5-6). O século 7« a.C. foi na verdade um tempo de estampidos e estron­ dos das marchas das nações. Mas, aos olhos da fé, guiados pelas pala­ vras dos profetas de Deus no Antigo Testamento, pode-se obter uma visão mais clara a respeito dos propósitos redentores de Deus à medida que eles se realizavam na história. A mensagem desses profetas conti­ nua falando com clareza reveladora ainda hoje.

II. PERSPECTIVA TEOLÓGICA Em razão de Naum, Habacuque e Sofonias ministrarem essencial­ mente aos mesmos recipientes e atuarem no espaço de trinta anos um do outro, pode ser útil discutir sua perspectiva teológica como um todo. Diferenças individuais são claras. Muitos temas sobrepostos, porém, são comuns aos três e podem ser melhor entendidos à luz do testemunho conjunto. A. MESSIANISMO NO SÉCULO 7» a.C. PROFETAS

O que é mais distintivo no messianismo de Naum, Habacuque e Sofonias é a ausência de um traço virtualmente messiânico.' A expecta­ tiva de um rei ungido que seria o salvador de Israel é desenvolvida ex­ plicitamente nas profecias de Oseias (3.4-5), no século 8®a.C., Isaías (7.10-14; 9.6-7; 11.1-10) e Miqueias (5.2-4). Como é possível, pois, que esta expectativa tenha desaparecido totalmente do cenário cem anos mais tarde? Datar posteriormente todo o messianismo dos profetas do século 8«, lançando-o ao cenário pós-exílico, é uma solução muito fácil, pois isso falha em tratar de maneira adequada as evidências contundentes I. Embora Jeremias também houvesse ministrado parcialmcntc no século 7 ' a.C., sua men­ sagem messiânica parece ter ocorrido depois do final desse século. Cf. Jeremias p. 22,23.


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dos textos dos profetas sob a única forma em que elas existem. Isso também ignora as considerações de contexto que ligam essas profecias à história do século 8«. A desilusão com a experiência histórica de realeza em Israel pare­ ce propiciar uma resolução realista desse problema. Os três profetas ministraram depois que as depravações de Manassés selaram o destino do futuro da nação. Nenhum arrependimento poderia remover a marca das abominações que foram praticadas em Israel por mais de cinquenta anos (cf 2Rs 21.10-15; 22.14-20). Acreditava-se que Jerusalém fosse inviolável. A promessa de aliança com Davi afirmava que o lugar da habitação do nome de Deus permaneceria para sempre (IRs 11.13,36; 14.21; 15.4; 2Rs 19.34; 20.6; 21.7). O colapso do cerco de Senaqueribe fora dos portões de Jerusalém em 701 e sua dupla humilhação com a sua morte sob as mãos de seus filhos na casa de seus deuses provaram isso. Samaria poderia cair; Jerusalém, jamais. Jeremias também teria de contender com essa crença profundamente radicada na inviolabilidade da cidade de Davi. “Templo do S e ­ n h o r , templo do S e n h o r , templo do S e n h o r é este” (Jr 7.4), tomaria-se um refrão popular mágico da crença de que se poderia proteger a cida­ de de qualquer ameaça. Os profetas do século 7°, porém, conheciam muito bem a negação da promessa de Deus que Jazia no fundamento de tal perspectiva. Sofonias declarou em termos convictos que os juízos expiatórios de Deus passariam por Jerusalém de portão em portão, de bairro em bairro, até que todo recanto e fenda fossem escmtinados com as luzes perscmtadoras da administração da justiça imparcial de Deus (Sf 1.9-12). Todo o corpo de Habacuque tremia descontrolada­ mente ante a visão da devastação do povo de Deus (Hc 3.16-17). A resposta de Deus à sua indagação sobre a violência em Judá começou com a convocação: “maravilhai-vos e desvanecei” diante de uma obra que ninguém creria mesmo se lhes contasse (Hc 1.5-6). Os ferozes babilônios passariam por toda Judá como um vento selvagem e nada deixariam de pé (Hc 1.10-11). Se era possível que a cidade de Davi fosse devastada, o que dizer da linhagem de Davi? Seria possível que esta segunda cláusula da ali­


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ança davídica também sofresse violência tão inclemente? Não só era possível; era garantido. Mesmo os “filhos dos reis” não eram imunes às sanções finais impostas aos violadores da aliança (Sf 1.8). Eles tam­ bém iriam transformar-se nos sacrifícios da terrível refeição pactuai que daria expressão final à ira de Deus. Onde, pois, neste contexto, se encontraria a esperança de um messias davídico? A desilusão dos profetas do século 7« com a linha­ gem real prometida os impediu de encontrar qualquer esperança nos descendentes de Davi. Contudo, eles não lamentaram como aqueles que não tinham esperança. Tinham plena confiança de que os propósi­ tos redentores de Deus se cumpririam (cf Na 1.14; Hc 2.4; 3.18-19; Sf 3.9-20). De certa maneira, pode-se dizer que esses profetas do século 7« cons­ tituíam uma regressão aos tempos de Samuel. Eles reconheciam plena­ mente que Israel precisava de um rei, um messias, um salvador. Quem, a não ser unicamente Deus, poderia fornecer um sacrifício propiciatório suficiente para remover a mancha escura e profunda do pecado de Israel? Quem, a não ser unicamente Deus, tinha plena força de repelir os pode­ rosos inimigos de seu povo? Quem, a não ser unicamente Deus, tinha a sabedoria essencial para governar um povo como Israel? Então, esses profetas do tempo da deterioração se volveram ao es­ quema original dos fatos. O próprio Senhor é quem realiza a vingança sobre seus inimigos (Na 1.2). E o próprio Senhor que vem em esplen­ dor, com raios flamejantes saindo de suas mãos, se movendo com rapi­ dez do Sinai para conquistar a terra (Hc 3.3-7). E o próprio Senhor que “está no meio de ti” (Sf 3.15), aquele que é “poderoso para te salvar” (Sf 3.17). Aquelas mesmas funções que anteriormente foram designa­ das como pertencentes ao rebento da linhagem de Davi agora se rever­ tem à pessoa de Deus, o próprio Senhor. Essa reorientação dos profetas do século 7» não deve ser vista como falta de fé de sua parte. Esses três homens corajosos estavam absoluta­ mente certos ao perceber que somente Deus poderia cumprir o papel designado ao messias de Israel. Eles interpretaram corretamente os si­ nais de sua época. Foi o próprio Deus da aliança que levou a linhagem davídica ao extermínio no contexto das fomiulações da velha aliança.


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Somente os falsos profetas continuaram recordando as velhas expecta­ tivas sem compreender a realidade do que Deus estava fazendo em seus dias (Jr 28.1-4). Tampouco se deve entender a perspectiva de Naum, Habacuque e Sofonias como sendo a elaboração completa da palavra pactuai de Deus, impossível de ser posteriormente modificada. A característica de toda a revelação da velha aliança é sua forma limitada e condicional que forçosamente não podia expressar tudo de uma só vez. Então, de modo algum, surpreende encontrar o messianismo uniformemente em todos os profetas depois que esses três proclamaram a esperança messiânica em termos categóricos. Para Jeremias, a vinda do Messias seria o soerguimento para “Davi um Renovo justo” que, como “rei que é”, reinaria e seria conhecido como “ S k n h o r , Justiça Nossa” (Jr 23.5-6). Para Ezequiel, ele é “um só pastor”, o “servo Davi” de Deus que os apascenta­ ria (Ez 34.23). Para Ageu, era o descendente de Davi, Zorobabel, a quem Deus iria tratar como seu próprio “anel de selar” (Ag 2.23). Para Zacarias, ele era o sacerdote coroado rei, cujo nome seria “Renovo” (Zc 6.11-13); a vinda do rei montando um jumento com seu domínio se estendendo “de mar a mar e desde o Eufrates até as extremidades da terra” (Zc 9.9-10). Em Malaquias, ele é o Senhor, o mensageiro da aliança, que purificaria os filhos de Levi (Ml 3.1-3). Nas últimas horas antes do exílio, porém, é como se o Senhor interrompesse o movimento na direção do messias para declarar com clareza que somente ele podería ser o Rei de Israel. Ninguém, a não ser o Senhor, podería ser o salvador, aquele que libertaria seu povo de seus pecados. Por meio da ênfase exclusiva desses três profetas do século 7«, posta no papel indiscutível de Deus como salvador surgido pelo vácuo da ausência de uma opção davídica viável, uma realidade mais sólida da história apontava para a necessidade de um messias divino. Nenhuma outra solução seria adequada ao dilema percebido por Samuel logo no início da monarquia de Israel. Israel precisava de um rei; mas somente Deus deveria ser o Rei de Israel. A ideia de cha­ mar um indivíduo específico de “filho” de Deus em vez de toda uma corporação geral (2Sm 7.14; SI 2.7) aponta para a mesma direção, pois um “filho” é igual a seu pai. A direção explícita do ocupante do trono


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de Davi como “Deus” ecoa o mesmo tema (SI 45.6), da mesma manei­ ra que o nome dado à criança nascida da virgem: “Emanuel” (Is 7.14) e “Deus Forte” (Is 9.6 [Eng. 6]). Portanto, é bem possível que Naum, Habacuque e Soibnias não possuíssem a visão completa do caminho e de alguém que iria redimir seu povo, Israel. Mas a singularidade de seu ministério, mesmo na au­ sência do “messianismo”, como comumente se entende, forneceu uma contribuição vital à revelação em andamento do Deus-Homem que se­ ria 0 Salvador e Rei, sim, o Senhor Jesus, o Cristo. B. A CENTRALIDADE DE DEUS

O papel questionável do messianismo nesses três profetas deixa ampla margem ao assunto que na verdade é absolutamente central na mensa­ gem de cada um deles. Simplesmente posto, sua mensagem é teocêntrica. O próprio Deus ocupa por inteiro seus pensamentos e fornece o arcabouço pelo qual percebam toda a realidade. Naum começa com a apresentação dos atributos centrais de Deus da fonua como se relacio­ navam com as circunstâncias de seu tempo. Yahweh é um Deus zeloso, que torna vingança (Na 1.2). E ele mesmo que se movimenta para tomar de assalto a fortaleza de Nínive, pois ela era contra eles (Na 2.14 [Eng. 13]; 3.5). Deus é quem suscita os babilônios como seu instrumento de castigo, mesmo que seja contra seu amado Judá (Hc 1.6). Contudo, no final 0 profeta reconhece que sua única possessão de real valor na vida é a realidade de Deus (Hc 3.17-19). O dia do Juízo, evidentemente, é o Dia do Senhor, o Dia em que ele impõe sua singular soberania como o Senhor da aliança (Sf 1.7,14). Ele próprio, pessoalmente, assume o pa­ pel de Salvador, de Guerreiro, de Rei que exulta em seu amor pessoal por seu povo (S f3 .15-17). Portanto, para os profetas do século 7® não havia outro a não ser unicamente Deus. Talvez o conhecimento antecipado da perda de tudo durante o tempo de sua vida fosse fator principal nesse desenvolvi­ mento de uma centralização saturada de Deus. Contudo, é evidente que eles não estavam confusos com a ideia de uma visão beatífica de Deus, que o visualizava no abstrato, separado da criação que ele fizera. Eles eram homens demasiadamente pactuais para ignorarem ou minimiza­


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rem a realidade do mundo material. É o Deus do mundo e das promes­ sas de sua palavra que, sozinho, é central no prisma de sua vida. À luz dessa centralidade do próprio Deus, Naum, Habacuque e Sofonias desenvolvem certa ênfase que traz a lume a realidade da dei­ dade no tempo em que viveram. Podem-se observar quatro temas em particular; a justiça divina, o Juízo divino, a aliança divina e a salvação divina. /. A justiça divina Um aspecto da justiça de Deus fica claro à medida que as mensa­ gens desses três profetas são consideradas em conjunto. A justiça de Deus é maravilhosamente imparcial. Ele jamais inocenta o culpado independente de quem seja. Ele vê Nínive e todas as atrocidades que ela cometeu (Na 1; 3). Vê também todas as nações vizinhas de Judá para o oeste, leste, sul e para o norte (Sf 2). Todos esses povos terão de prestar contas, tanto como povo quanto como indivíduos, de suas vio­ lações da lei de Deus. Mas o Senhor também vê Judá. Quando Habacuque dá vazão à sua queixa sobre o pecado de Judá, Deus anuncia a terrível realidade do juízo que sobreviría a seu próprio povo. Eles se sujeitariam às brutali­ dades do instrumento babilónico da mesma maneira que as outras na­ ções ímpias (Hc 1). Deus é justo para com Judá, e então pronuncia uma ameaça contra sua rebelião (Sf 3). A hora da instituição da justiça divina pode permanecer um misté­ rio a desafiar a sabedoria humana. Mas a mensagem é clara. Eventual­ mente, ele trará a juízo toda obra, seja boa ou má. Essa mensagem é dolorosamente necessária nos dias de hoje. Quantos povos na terra se consideram, de alguma maneira, como que favorecidos pelo Senhor, pelo menos isentos das situações extremas de seus juízos que porventu­ ra venham a “outros” povos. O sofrimento duradouro de Deus, longe de produzir arrependimento, os leva à presunção. Pecadores impeni­ tentes, cuidado! 2. O juízo divino A mensagem que pode ser questionada, porém não ignorada, é que


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a natureza do juízo de Deus é de retribuição, e nem sempre de restaura­ ção. Ou seja. Deus, algumas vezes, pode trazer juízo como uma forma de castigar os seres humanos com o fim de conduzi-los a si. Mas, no final, seu juízo tem um caráter de retidão que não tem outra finalidade senão expressar a realidade de que uma pessoa ou uma nação deve so­ frer sob a mão de Deus exatamente como merece. Se por brutalidade, imoralidade e incredulidade ela causou desequilíbrios na ordem como Deus, 0 Criador, planejou, tal pessoa não pode esperar nada menos que ira e maldição da parte do Todo-Poderoso. A dimensão restauradora da justiça divina está implícita no livro de Naum. Judá poderá celebrar suas festas e manter seus votos só por­ que o perverso nunca mais passará por ela (Na 1.15). A sentença impli­ ca que a Assíria fora uma vara do castigo do Senhor sobre seu povo (Hc 2.4; 3.16-19). Visto que sua mensagem se destinava aos tempos futuros, deve-se presumir que muitos outros também deveriam “viver pela fé”, a despeito do desmoronamento de seu mundo à sua volta. O “porventura” de Sofonias (Sf 2.3) pode parecer um tênue fiapo de es­ perança para aqueles que buscam o Senhor em face de sua ira ardente, mas era real e fornecia encorajamento a qualquer pecador que verda­ deiramente se sentisse movido (pelo Espírito de Deus) a buscar o Se­ nhor. Muito mais explícito, em temios de sinal de esperança, e portan­ to encorajador, é o anúncio ousado desse profeta: “O S e n h o r afastou as sentenças que eram contra ti... ele se deleitará em ti com alegria” (Sf 3.15-17). Nem mesmo nas revelações gloriosas da nova aliança se po­ dem encontrar palavras de mais pleno conforto. Contudo, é preciso manter o equilíbrio. Os juízos de punição, dos quais é possível recuperação, não durarão para sempre. O tempo do fim deve chegar, e chegará para todas as nações e povos em cada geração. Com o ministério de Jonas no século 8«, Nínive se arrepen­ deu e foi restaurada pelo favor de Deus, para grande desapontamento do próprio profeta. Cem anos mais tarde, porém, a iniquidade dos ninivitas se tomou saturada e Naum não lhes ofereceu nenhuma mensa­ gem de esperança. Como maltrataram outros, assim Deus os haveria também de maltratar. O mesmo se pode dizer da mensagem de Habacuque para a Babilô-


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nia (Hc 2.5-20). A lei de equidade do “olho por olho e dente por dente” alcançaria sua expressão em escala nacional. O saqueador deveria ser saqueado; o cínico, envergonhado; e o adorador de ídolos, deixado impotente. O significado do “Dia do Senhor” em Sofonias se relaciona de perto com esse mesmo princípio. Da mesma maneira que o Dia do Senhor imporia sua aliança em ambas as expressões, criacional e re­ dentora. um pagamento justo por todas as obras feitas no corpo deveria se efetuar. Envolvida nesta expressão divina de máxima retidão deve estar uma destruição final do perverso. Não se acha nesta imagem ne­ nhum indício de restauração (Sf 1.2-18). Nenhuma mensagem poderia ser mais repulsiva à mente moderna do que a ideia de Justiça retribuitiva. Mas esta verdade encontra plena exposição nas mensagens dos profetas do século 7®. Os eventos históri­ cos que vieram sobre Judá, Assíria, Egito e Babilônia atestam a veraci­ dade de suas declarações. Ela não encontra nenhuma contradição nas Escrituras da nova aliança, mas reforça o arrependimento (2Ts 1.6-10; 2Co5.10). 3. A aliança divina Das mais de duzentas vezes que o termo aliança aparece no Antigo Testamento, nem uma dessas ocorrências se encontra nas profecias de Naum, Habacuque ou Sofonias. Contudo, não se pode supor que o con­ ceito de aliança houvesse caído em descrédito só porque ela desempe­ nhava um papel crítico na profecia de seu contemporâneo. Jeremias. Essa ausência do termo pode comparar-se à estranha falta da palavra aliança no Novo Testamento, fenômeno que não tem recebido explica­ ção adequada. Pode ser que a fragmentação das nações e a dispersão de Israel expliquem o uso minimizado do termo aliança neste ponto da história da redenção. E claro que o papel de Israel como nação pactuai de Deus ainda não havia terminado no século 7®. Mas algo muito drástico estava acontecendo com sua dispersão entre as outras nações do mundo. Os perímetros do “reino de sacerdotes” de Deus teriam de ser traçados ao longo de linhas diferentes. O problema se demonstra vividamente numa


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pequena nota que consta no livro de Ester. Quando o segundo decreto do rei foi enviado a todas as 127 províncias espalhadas por três conti­ nentes, as Escrituras afirmam que “muitos dos povos da terra se fize­ ram judeus” (Et 8.17)! E agora, como se pode definir “nação pactuai”? Pelo menos ao longo dos últimos mil e quinhentos anos, a começar pelo tempo de Abraão, a ideia de “aliança” esteve associada particular­ mente a Israel. Mesmo pelo prisma de uma nova aliança, uma das bên­ çãos distintivas dos judeus era que as alianças lhes pertenciam (Rm 9.4). Então é possível que o declínio no uso desse termo, nesses profetas do século 7s, tenha algo a ver com o uso do termo em sua relação espe­ cífica com a nação de Israel. Uma vez que a ideia de uma nova aliança foi formulada em Jeremias e Ezequiel, o termo foi completamente reavi­ vado como uma ferramenta inestimável para ligar a velha aliança com a nova. Olhando por outra perspectiva, a ausência do termo aliança, nes­ ses profetas, não deve ser superenfatizada, pois o conceito de “alian­ ça” certamente está presente. Particularmente em Sofonias, o quadro completo para a compreensão do desenvolvimento de sua ideia de “o Dia do Senhor” se relaciona com sua abordagem dos aspectos das ali­ anças sucessivas. Ele começa com Noé e observa a destruição dos pei­ xes, pássaros, bestas e homem (Sf 1.1,3; c f Gn 6.20). Embora Sofoni­ as acrescente “peixe” à sua lista e reverta a ordem das coisas mencio­ nadas, a alusão é inconfundível. Em seguida, ele fala de um sacrifício preparado com convidados consagrados, no qual o juízo final é expres­ so no devorar da carne dos amaldiçoados (cf Sf 1.7). Esta linguagem ecoa a figura de uma consagração pactuai que começa em Gênesis 15 e percorre todo o Antigo Testamento. Finalmente, ele descreve a chega­ da do terrível Dia do Senhor em termos extraídos diretamente do relato da manifestação teofânica do Sinai (Sf 1.15). Por esse prisma, parece que Sofonias entendia o Dia do Senhor em termos pactuais. Pois, nesse dia da manifestação da soberania do Senhor, ele aplicaria a todos os transgressores a sentença prevista pela aliança. Outros aspectos da ideia da aliança podem subentender-se no fato de 0 Senhor trazer juízo sobre uma nação ímpia como a Assíria. As nações estrangeiras também eram compelidas a quitar suas obrigações


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nacionais de modo a refletir seu elo criador. O fracasso significava a ativação da maldição. No livro de Habacuque, a imputação da justiça pela fé meramente combina a formulação pactuai de Gênesis 15.6. A “vida” que Habacuque promete nada mais representa que as mais ricas bênçãos da aliança. Portanto, esses três profetas do século 7®não se posicionam como estranhos fora do curso principal do pensamento pactuai do Antigo Tes­ tamento. Em vez disso, eles aparecem como profetas do Senhor, força­ dos a expandir o conceito da realidade pactuai além das restrições dita­ das pelas circunstâncias prévias. 4. A salvação divina Juízo e salvação são intimamente associados na teologia desses pro­ fetas. Salvação para o povo de Deus surge diretamente em associação com o juízo sobre os inimigos de Deus. As “boas-novas” (Na 1.15) de Naum só podem ser publicadas em Judá porque Nínive foi destruída. A solene alegria de Habacuque emerge como uma fruta madura a partir de sua contemplação de uma série de juízos que deveriam cair primeiro sobre o próprio povo de Deus e depois sobre as nações ímpias. Ele deve “em silêncio” “esperar o dia da angústia”, mas ainda assim deve exultar no Deus de sua salvação (Hc 3.16-19). Sofonias também deve “espe­ rar” enquanto a indignação do Senhor é derramada, porque depois ele vai purificar seu povo (Sf 3.8-9). Sua salvação vem por meio do juízo. A salvação divina por fim. incluiria tanto gentios quanto judeus. Principalmente Sofonias ressalta esse ponto (Sf 3.9-10). Mas a univer­ salidade da salvação está também implícita na ênfase que Habacuque põe na fé, e somente na fé, como o critério que determina quem iria sobreviver no “decorrer dos anos” (Hc 2.2-4; 3.2). Entre o juízo execu­ tado sobre o povo de Israel e o juízo executado sobre as nações ímpias, os justificados mediante a fé deveriam viver pela fé. Ecoando a mensa­ gem original de Abraão, o “pai das nações”, esta palavra de aceitação, somente pela fé, tem implicações internacionais. O amor de Deus por um povo pecador funciona como o fator-cha­ ve na atividade salvífica de Deus. Alternando entre a contemplação feliz dos objetos de seu amor e os gritos de alegria pelo prazer que


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trazem, o Senhor de amor permanece no meio de seu povo até o salvar totalmente (Sf 3.17). Esta salvação deveria envolver a reunião de seu próprio povo e a restauração de sua sorte de modo a lembrar o paraíso (S f3.19-20; Na 2.1 [Eng. 1.15]). Embora Habacuque coloque a bênção prometida sobre uma terra frutífera numa forma negativa (Hc 3.17), seus comentários mostram o quadro da realidade com que ele está li­ dando. Colocada ao lado da mensagem de seu contemporâneo Sofonias (cf. Sf 3.20), ela se toma uma mensagem de esperança. Em suma, a mensagem salvífíca desses profetas que devem teste­ munhar a fragmentação das nações se centraliza na posse do próprio Deus. Desde que tudo mais lhes fora tirado, eles deveríam olhar so­ mente para ele. Todas as outras bênçãos podem ser removidas, porém ainda irão possuir a bênção final. Todas as outras coisas têm significa­ do só na medida em que possuem o próprio Deus e são possuídas por ele.

III. FORMA DAS PROFECIAS Até a recente emergência da crítica canônica, o estudo da fornia da profecia se concentrava nas formas dentro do material profético que poderia repousar por trás do texto finalizado. Mas agora se obteve um equilíbrio muito maior. Direciona-se também atenção à palavra profé­ tica conforme a forma sob a qual ela aparece.' Na verdade, algumas vezes se toma possível detectar uma forma pré-literária subjacente a um oráculo profético em particular, e dessa maneira conseguir compreensão de sua mensagem, bem como de sua função, na comunidade do povo de Deus. Mas, ao mesmo tempo, há alguma coisa saudável sobre o compromisso mais recente de tratar seria1. Conferir a exploração completa do tema em B. S. Childs. Iniroduclion to lhe Old Testa­ ment as Scripture (Filadélfia; Fortress, 1979). Childs é algumas vezes surpreendente em suas conclusões com base na crítica canônica. Ele diz que a má interpretação criada pelo método histórico-crítico “emana da suposição de que cada passagem profética deve ser inter­ pretada a partir de um ambiente histórico específico”. Ele então sugere que o processo canô­ nico “tem ignorado as diferenças históricas e organizado o material em termos teológicos” (p. 460). Mas, SC a característica principal da teologia de Israel é sua orientação histórica, como então c possível que as diferenças históricas sejam ignoradas e uma verdadeira repre­ sentação da teologia seja alcançada ao mesmo tempo?


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mente o texto das Escrituras tal como ele se apresenta ao leitor atual. Sua forma finalizada fala diretamente à mensagem que está sendo trans­ mitida. Nas profecias de Naum, Habacuque e Sofonias, numerosas carac­ terísticas, tipos e formas emergem, as quais determinam a forma do material. Em muitos casos, a forma é característica do próprio autor e realça significativamente a comunicação de sua mensagem. A guisa de introdução, alguns se farão comentários concernentes ao estilo, estruturas e paralelismos poéticos. Reservar-se-ão análises mais completas para o corpo do comentário. A. ESTILOS

Comentários tais como “impetuoso”, “claro” ou “desajeitado”, com referência ao estilo de um autor, são frequentemente de natureza muito subjetiva. Contudo, é possível haver um lugar útil para alguma refle­ xão no impacto literário dessas profecias. O livro de Naum corre o risco de ser monótono por causa da singu­ laridade do propósito e tema do autor. Ele é persistente em dizer sempre a mesma coisa: Nínive cairá. Mas a variedade de métodos que ele em­ prega em dizer esta mesma coisa é bastante marcante e empresta grande força à sua mensagem. Ele repete a frase “o S kn ho r é vingador” três vezes no começo de sua primeira profecia (Na 1.2). Os adjetivos “va­ cuidade, desolação, ruína” combinam características de ressonância bem como de sinonímia no texto original (Na 2.10). Não se pode ignorar a ironia encontrada em seu discurso em relação à cidade amaldiçoada, chamando-a “bela e encantadora meretriz” (Na 3.4). Talvez o mais im­ pressionante seja sua combinação de sensações de visão e som que sur­ gem num clima de crescente tensão à medida que retrata o avanço do ataque sobre Nínive: Eis o estalo de açoites e 0 estrondo das rodas o galope de cavalos e carros que vão saltando


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OS cavaleiros que esporeiam a espada flamejante 0 relampejar da lança (Na 3.2-3). Por meio do seu vivido emprego de imagens, o profeta transfere sua visão diretamente para a imaginação do leitor. Habacuque também desenvolveu seu estilo individual característi­ co. Um subproduto da audácia desse seu discurso a Deus é a franqueza de seu vocabulário em questionar o Todo-Poderoso (Hc 1.2-3,12,17). Uma explicação mais completa de seu uso de assonância, aliteração, sentido duplo e, possivelmente, até mesmo uma rima se encontra nas observações introdutórias de Habacuque 2.6-20, e é notável sua cola­ gem de imagens anteriores retratando teofanias mais antigas, bem como sua vivida pintura da aproximação de Deus vindo do Sinai rumo à Pa­ lestina. A descrição dos raios sendo projetados do punho fechado de Deus e o tremor dos nervos do profeta ilustram a vivacidade de sua linguagem. Sofonias mostra a habilidade característica de fazer jogo de pala­ vras. Ele chama a atenção para aqueles que juram pelo Senhor enquan­ to juram por Milcom (Sf 1.5). Recorre ao uso da situação geográfica de Jerusalém descrevendo como “Lugar de Pilar” (1.11). Entremeia várias palavras, cada qual aparentemente usando o radical para “restolho” a fim de descrever a prontidão da nação em deixar-se consumir pelo fogo da ira de Deus (2.1). O estilo de Sofonias é expresso em parte por sua extensa depen­ dência da fraseologia do livro de Deuteronômio (Sf 1.13-18; 3.17-20). É notável sua habilidade em incorporar esse material em seu trabalho sem perder seu fluxo distintivo de argumento. E bastante eficaz o amon­ toado de imagens emprestadas, particularmente quando descrevem a vinda do Dia do Senhor:


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Um dia de adversidade e indignação; Um dia de destruição e desolação; Um dia de escuridão e densa escuridão; Um dia de nuvens e densas nuvens; Um dia de toque de trombeta e grito de batalha (Sf 1.15-16). Variedade e criatividade marcam o estilo de cada um desses três profetas. Cada um desenvolve seu próprio estilo de abordagem quanto ao uso da linguagem na comunicação de sua mensagem. B. ESTRUTURAS

Dos três profetas, Habacuque talvez seja o mais distinto em termos de variedade e singularidade das estruturas que emprega. Na primeira seção do livro, sua mensagem é considerada um “diálogo de protesto”. Sob essa fonna, o profeta dialoga com o próprio Deus a respeito da perplexidade dos problemas com os quais se vê forçado a lutar. Mais semelhante na forma ao Cântico dos Cânticos do que ao livro de Jó, os oradores altemantes de Habacuque de maneira alguma se apresentam no texto propriamente dito. Contudo, podem ser facilmente determina­ dos pelo contexto. Esta construção, característica de Habacuque, en­ volve o leitor no avanço progressivo do profeta mediante a maturação de sua fé. Os cinco “ais” de Habacuque 2 empregam uma forma comum dos outros profetas em Israel, mas a inclusão de um salmo completo, pre­ parado para a celebração congregacional de Habacuque 3, é uma estru­ tura distintiva nesse livro. À medida que o salmo avança para seu des­ fecho, ele se move numa cadência regular. Cinco estrofes seguidas empregam o paralelismo comum a-b-h-a da estrutura poética hebraica. Muitas discussões têm se ocupado com a possibilidade de um poe­ ma acróstico em Naum 1. A busca de uma estrutura alfabética aparen­


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temente começou com certo pastor, Frohnmeyer de Württemberg, Ale­ manha, cuja sugestão apareceu como nota de rodapé num comentário dos Salmos, por Franz Delitzsch, em 1867. Antes da virada do século, Gunkel, e depois Bickell, expandiram a fonna de acróstico de Naum 1 com vistas a incluir o capítulo inteiro. Wellhausen respondeu insistin­ do que 0 acróstico podia estender-se somente dos versículos 2 ao 8. O capítulo mostra evidência de alguns remanescentes de estrutura acrós­ tica, porém não o suficiente para ser conclusivo. O assunto é discutido mais plenamente no comentário correspondente.- Uma proposta mais radical concernente à forma de Naum sugere que o livro seja uma litur­ gia profética composta para celebração do culto em Israel depois da queda de Nínive.^Essa liturgia tem sido vista por alguns como uma representação cúltica da luta com a Assíria, tendo como tela de fundo a luta primitiva entre os adversários cósmicos no festival de Ano-Novo babilónico.'' Mas a evidência derivada da profecia de Naum “empresta pouco apoio à teoria de que ele fosse um funcionário cúltico”.’ Mais óbvia é a estrutura construída em Naum sobre uma série de perguntas retóricas encontradas no terceiro capítulo (v. 7-8,19). Por meio do emprego desse mecanismo, o profeta envolveu ativamente seus leitores nas respostas à sua mensagem.

2. Para um breve esboço da história da discussão, ver Maier, p. 21. Para uma análise completa das possibilidades, ver o anigo mais antigo de G. B. Gray. “The Alphabetic Poem in Naum”, The Expositor 8 ( 1898) p. 207-220. Uma avaliação razoável pode ser encontra­ da em O. T. Allis, "Nahum. Nineveh. Elkosh”, EvQ 27 (1955), 67-80. Allis dá espaço à possibilidade de material acróstico, mas considera os elementos de assonância e aliteração como sendo muito mais significativos. Um tratamento mais recente à luz da teoria atual da métrica hebraica se encontra em D. L. Christensen, “The Acrostic of Nahum Reconsidered”. Z 4)T 87(I975), p. 17-30. 3 . VerP. IIaupt,“Thc Book of Nahum”, ,/SZ. 26 (1907), p. 1-53. 4. Ver A. Haidar, Studies in the Book o f Nahum (Uppsala: Almqvist and Wiksell, 1947). 5. R. K. Harrison, Introduction to the Old Testament (Grand Rapids: Eerdmans, 1969), p. 929. Cf. R. H. Pfeiffer, Intmduction to the Old Testament, ed. rev. (Nova York: Harper and Brothers, 1948), p. 600, que diz que a proposta sobre a liturgia profética não deve ser levada muito a sério. J. A. Soggin, Introduction to the Old Testament, ed. rev. Trad, de John Bowden, OTL (Filadélfia: Westminster, 1980). p. 276, comentários que, “dado o estado atual das fontes", não há evidência suficiente para apoiar a ideia de uma base numa luta mitológica. Cf. Childs. Introduction, p, 441.


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Sofonias segue um equilíbrio mais tradicional dos oráculos profé­ ticos. Ele começa com um oráculo de juízo contra Judá (cap. 1). De­ pois entrega uma série de oráculos contra as nações (cap. 2). Final­ mente, proclama a esperança quanto ao futuro com um oráculo de sal­ vação (cap. 3). C. PARALELISMO POÉTICO

Cada um desses três livros está saturado de grande variedade de paralelismo poético. No comentário abaixo, essas construções têm sido geralmente marcadas na tradução por paralelo endentado de vários membros e pela marcação dessas linhas com as mesmas letras do alfa­ beto. Lfma olhada nas várias porções da tradução mostrará quão acura­ do este elemento permeia a forma desses profetas do século 7«.

IV. DATA E AUTORIA Já nesta introdução, os ministérios de Naum, Habacuque e Sofoni­ as se acham presentes no contexto da história da redenção do século 7® a.C. Contudo, comentários mais específicos com respeito à datação des­ sas profecias podem ser úteis. Além disso, deve-se fazer algum esforço para resgatar qualquer informação possível sobre a vida, a personalida­ de e a dinâmica que fez o homem por trás da mensagem. Aqui se apresenta um esboço da história dos eventos significativos relacionados com a vida e ministério desses três homens; 701 a.C.

A fé de Ezequias repele o ataque de Senaqueribe da Assíria.

687 a.C.

Manassés começa seu “reinado de declínio” de meio século.

648 a.C.

Assurbanipal da Assíria subjuga seu irmão ao oriente de Babilônia, enquanto Manassés (aparentemente) jun­ ta-se a uma revolta no ocidente.

645 a.C.

Assurbanipal subjuga os rebeldes no ocidente. Ma­ nassés é exilado, se arrepende e volta.


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M in is t é r io d e N a u m que declara a queda de Nínive mesmo quando a Assíria ainda está com toda a força

642 a.C.

640 a.C. 632 a.C. 628 a.C. 627 a.C. 622 a.C.

Final do meio século de reinado de Manassés, durante o qual Judá não tinha ainda ido além do ponto de re­ tomo. Assassinato de Amom e estabelecimento de Josias, de 8 anos de idade, como rei. Josias, na idade de 16 anos, começa a buscar o Senhor. O primeiro movimento de reforma pública de Josias. Assassinato de Assurbanipal, o último grande monar­ ca assírio. Descoberta do Livro da Lei de Moisés e o começo de sua reforma radical.

M in is t é r io de S o f o n ia s

que forneceu o apoio profético necessário

à

reforma de Josias 612 a.C.

609 a.C.

Queda da Assíria, capital de Nínive, ante as forças co­ ligadas dos medos e dos babilônios; os assírios recua­ ram e se reagruparam em Harã. Morte trágica de Josias e declínio moral imediato de Jeoacaz e Jeoaquim.

M in is t é r io de H a b a c u q u e que denunciou o pecado de Judá, anunciou o seu julgamento ainda a ocorrer em seus dias, por meio de uma Babilô­ nia emergente, e prometeu juízo recíproco sobre a Babilônia por causa de seus excessos

605 a.C.

597 a.C. 587 a.C. 539 a.C.

Dominação babilónica na Síria-Palestina estabelecida em Carquemis por sua derrota para as forças coligadas egípcio-assírias. Jeoaquim, neto de Josias, exilado porNabucodonosor. Destruição da cidade de Davi. Ciro da Pérsia destrói Babilônia; começa o regresso de Israel.

Meio século de silêncio profético corresponde ao declínio apóstata


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de Manassés, até onde diz respeito à produção de material canônico. Esse vácuo, essa fome da palavra de Deus, pode ser vista como sendo o juízo do Senhor sobre Judá por seu consentimento na depravação de Manassés. É possível que os servos de Deus, os profetas, fossem silen­ ciados e reprimidos durante esse tempo, por resistência oficial à pala­ vra do Senhor. A. NAUM

É bem provável que Naum tenha sido o homem a quebrar esse silêncio. Geralmente, concorda-se que a data de sua profecia esteja entre a queda de Tebas, no Egito, a cerca de 664 a.C., e a queda de Nínive, em 612.' Esta firme conclusão se baseia na alusão de Naum à queda de Nô-Amom, que é Tebas (Na 3.8), e sua previsão da queda de Nínive, que é o assunto central de sua profecia. Uma data precisa entre esses parênteses é mais difícil de localizar. Mas o tempo deve combinar pelo menos os dois aspectos seguintes: (1) Assurbanipal provavelmente ainda estaria reinando, visto que Naum caracteriza Nínive como estando “cheia de força” (Na 1.12). Seu rei­ nado terminou em 627. (2) Judá poderia estar num período de reforma, já que Naum diz muito pouco como denúncia de seus pecados. Esta circunstância se encaixaria nos últimos anos de Manassés, durante os quais ele se empenhou muito em prol da reforma (650-642 a.C.), ou o tempo das refomias de Josias (628-609 a.C.). 1. o. Eissfeldt, The Old Testament, An Introduction, trad. P. R. Ackroyd (Nova York: Harper & Row, 1965), p. 415, diz: “De qualquer modo. parece claro que estamos tratando de uma ameaça genuína pertencente ao período anterior à catástrofe, e não de um retrospec­ to triunfante sobre os eventos já no passado”. A. Weiser. The Old Testament: Its Formation and Development, trad. Dorothea M. Barton (Nova York: Association Press, 1961), p. 258, concorda. Cf. Harrison, Intmduction, p. 928. Childs, Introduction, p. 443, relativiza todo o assunto, observando que, seja qual for a teoria proposta do f)ós-exílio. a função canônica final é dirigida a Ninive antes de sua queda. R. H. Pfeiffer, Introduction, p. 594, está parti­ cularmente preocupado com o poema alfabético do primeiro capítulo. Ele conclui que em 300 a.C. um redator forneceu esta introdução de um poema do qual vagamente se lembrava: “E claro que ele não copiou o .salmo alfabético de um manuscrito, mas o escreveu, como melhor pôde, de memória”. Esse redator hesitante não só teria esquecido a segunda parte do poema, mas também "ignorava o arranjo alfabético das linhas”. A explicação imaginativa de Pfeiffer da razão por que o poema supostamente alfabético não aparece como um poema alfabético não convence.


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COMENTÁRIO DO ANTIGO TESTAMENTO

Esta combinação de circunstâncias aponta para o tempo da refor­ ma de Manassés no final de sua vida (650-642 a.C.), ou para os pri­ meiros anos da reforma de Josias (628-622 a.C.). É mais difícil imagi­ nar em termos dos dias da reforma posterior a Josias, visto que naquele tempo (622) a diminuição da força dos assírios se tornara óbvia. Os últimos dias de Manassés parecem ser o tempo mais provável para a profecia de Naum. embora essa data não seja afirmada com certeza. Nada se sabe sobre a pessoa de Naum, exceto que ele teria sido um profeta muito ousado para pronunciar essa denúncia tão rigorosa con­ tra os assírios, enquanto ainda estavam com força total. Seu nome sig­ nifica “consolador”, mas não existem evidências que liguem o signifi­ cado de seu nome a seu caráter. O título do livro declara que ele era um “elcosita”, que geralmente se considera como sendo a vila onde ele vivia. A ausência de identificação positiva da cidade natal de Naum “só revela a perplexidade da tradição em face da ignorância histórica dos fatos”.^ Ao longo dos séculos, têm-se proposto localizações específicas para a Elcos de Naum na Assíria, Galileia e Judeia. Al-Qush, uma pequena vila a cerca de 40km ao norte do antigo local de Nínive, possui um lugar que foi designado como sendo a tumba de Naum; mas, evidente­ mente, isso só depois do século 16.^ No século 5, Jerônimo, em seu prólogo do profeta Naum, situou a vila “Helkessei” (Elcosh) na Gali­ leia, mas não forneceu informação adequada para localização mais precisa. “Cafarnaum”, que poderia significar “vila de Naum”, tem uma relação tradicional com o profeta que data do século 14, mas qual­ quer relação de “Cafarnaum” com “Elcos” permanece vaga.“*A locali­ zação Judaica é indicada por alguns pais da igreja, inclusive PseudoEpifânio.’ Mas a tradição é tão vaga e inconsistente que não merece grande valor. 2. Weiser, Inlmduction. p. 256. 3. Maier, p. 2 1. 4. /h id . p. 25. 5. Weiser, Introduclion, p. 256. A referência em Pseudo-Epitãnio se encontra em De Vitis Prophetarum 17. A cidade, aparentemente, localiza-se pró.ximo à moderna Beit Jibrin, cerca de 40km a sudoeste de Jerusalém.


INTRODUÇÃO

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Afinal, deve-se reconhecer que pouco ou quase nada se sabe da pessoa de Naum. Em comum com os outros dois profetas de seu tem­ po, ele aparece apenas como uma “voz”. B. SOFONIAS

Dos três livros em consideração, somente Sofonias data sua profe­ cia por meio da ligação de seu ministério com os tempos dos reis de Judá. Afirmando a evidência em termos negativos, nada mais convin­ cente opõe a localização do ministério de Sofonias nos dias de Josias, como indicado pelo título. Um fator que tem alguma importância é o oráculo contra a Assíria em 2.13-15. Uma vez que essas palavras teriam pouco significado se a Assíria já tivesse caído, elas teriam sido pronunciadas antes do colapso em 612 a.C.‘ É possível datar o ministério de Sofonias mais precisamente dentro do reinado de Josias? Será que se pode precisar se ele profetizou antes ou depois da refonna radical instituída em consequência da descoberta do Livro da Lei em 622 a.C.? A opinião mais recente favorece uma data anterior à descoberta do Livro da Lei.^ Esta conclusão tem por ampla base as condições de corrupção presumidas em 1.4-6,8-9; 3.1 -4. Entretanto, tem-se defendido, em trabalhos mais antigos, uma data posterior à descoberta do Livro da Lei, e não se pode descartar facil­ mente o argumento.* De fato, seria ingênuo pensar que as tradições corruptas incrustadas no estilo de vida de Israel por mais de cinquenta anos no reinado de Manassés pudessem ser eliminadas da noite para o dia. Mais provavelmente, uma argumentação prolongada teria se desen­ volvido a partir do Livro da Lei. Em tal circunstância, o ministério de um profeta como Sofonias poderia ter sido uma ajuda valiosa ao jovem rei Josias. 6. A. Kapcirud. The Message o f íhe Prophet Zephaniah (0%\o\ Universiletsforlaget, 1975), p. 42. 7. W. Rudolph, p. 255; S. R. Driver, /l/i Inimduction to the Literature o f the Old Testament. edição (1913), p. 103; J. M. P. Smith, p. 168,169; E. J. Young. An Introduction to the Old Testament (Grand Rapids: Eerdmans. I960), p. 290. 8. Cf. discussão de C. F. Keil. 2:118-20,125.


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COMENTÁRIO DO ANTIGO TESTAMENTO

O fator mais convincente que aponta para um período imediata­ mente posterior à descoberta do Livro da Lei é o paralelismo com o livro de Deuteronômio. Esse material é tão extenso e tão semelhante que virtualmente requer que Sofonias tivesse acesso ao “Livro da Lei” como base para a maior parte de sua profecia.’ Uma perspectiva alternativa, de que Sofonias poderia ter partici­ pado do desenvolvimento de um sistema pseudomosaico para auxiliar as reformas de Josias, vai longe demais. Pois se Sofonias tivesse profe­ tizado antes de 622, em terminologia idêntica à linguagem do livro da lei de Deuteronômio, então se descobriria a “fraude piedosa” desmas­ carando a falsificação de Deuteronômio no nome de Moisés. Não convencem as sugestões de uma datação posterior ao tempo de Josias.*® A exclusão completa das profecias de esperança antes da realidade do juízo é meramente uma conclusão subjetiva que não des­ fruta do favor geral que ela teve em alguns anos anteriores. Sabemos tão pouco da pessoa de Sofonias como sabemos de seu contemporâneo Naum. Três outros personagens bíblicos levam seu nome. Mas nenhuma de suas circunstâncias corresponde àquelas que podem ser deduzidas de Sofonias neste livro." Característico de Sofonias entre todos os livros proféticos do Anti­ go Testamento é a tentativa de traçar sua genealogia ao longo de quatro gerações. E bastante real a possibilidade de “Ezequias” da quarta gera­ ção ser 0 bom rei que precedeu Josias por cerca de cinquenta anos. Se esse for o caso, então Sofonias seria um descendente real. Esta posição pode acrescentar alguma força autoritativa real como apoio adicional ao jovem rei em sua tentativa de liderar uma reforma radical.

9. Para maiores detalhes de comparação, ver o comentário abaixo em Sofonias I. I. 10. J. P, Hyatt, “The Date Background o f Zephaniah”, JNES 7 (1948) 25, argumenta em prol de uma idade nos dias de Jeoaquim (609-598 a.C.). Bright, History o f Israel, p. 320 n. 29, julga tal argumento como sendo infundado. L. P. Smith e E. R. Lacheman, “The Authorship o f the Book of Zephaniah", JNES 9 (1950) 142, argumentam que o livro é pseudoepigráfico e deveria ser lido contra uma tela de fundo das circunstâncias de 200 a.C. Mas a descoberta de um fragmento de um comentário de Sofonias em Qumran (4QpZeph) constitui veemente argumento contra tal suposição. 11. C f 1 Crônicas 6.36-38; Jeremias 21.1; Zacarias 6.10.


INTRODUÇÃO

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Mas, como no caso de Naum, esse homem Sofonias também só aparece como uma “voz”. Sua palavra ousada procedente do Senhor não tem qualquer outra autoridade além da força inerente na própria verdade. C. HABACUQUE

A data precisa da profecia de Habacuque se apoia na interpretação dada na progressão do argumento do livro. A queixa que abre o livro encontra solução em seu final. O diálogo entre Deus e o profeta preser­ va unicamente uma série de queixas perturbadas de um servo do Se­ nhor. As respostas amáveis do Senhor conduzem Habacuque a uma extensão mais plena de sua fé. Mas, qual era precisamente a circuns­ tância histórica em que o profeta labuta? Um ponto de partida seguro para o contexto histórico da matura­ ção de sua fé é fornecido pela referência ao “Kasdim” no primeiro capítulo (Hc 1.6). Esse termo ocorre cerca de 70 vezes nas Escrituras, sempre em referência aos “caldeus” (babilônios). Embora a palavra tenha sido interpretada nesse versículo em referência aos persas, gre­ gos e selêucidas, a um poder demoníaco mitológico e a uma nação con­ quistadora não identificada, o significado normal é c l a r o . O “Kas­ dim” são os neobabilônios cujo império começou com a ascensão de Nabopolassar em 626 a.C. Como G Fohrer oportunamente observa: “Esta interpretação deve ser mantida, mesmo quando claramente algu­ mas vezes... ela tenha parecido demasiado simplista e tenha sido negada”.'^ A referência a Deus suscitando esta nação impetuosa (Hc 1.6) indi­ ca que na ocasião da profecia os babilônios não haviam ainda chegado ao zénite do poder. Então a mensagem de Habacuque deve ser colocada antes do final do século 7», pois naquele tempo o império neobabilônio dominava o mundo. O tempo preciso no processo de ascensão da Babilônia a que Ha12. G. Fohrer, Introdiiclion to the Old Testament, trad. D. Green (Nashville; Abingdon, 1968), p. 454,455. 13. Ihid.


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bacuque se refere depende do contexto previsto nesse diálogo com o Todo-Poderoso. Mais particularmente, a questão se volta para a identi­ ficação dos “perversos” que oprimiam os “justos” (Hc 1.4). Deve-se entender “per\'ersos” como sendo os habitantes ímpios entre os cida­ dãos do próprio Judá? ou devem ser tidos como sendo os assírios que eram os principais rivais da Babilônia? Considerando o contexto em que Habacuque faz sua primeira quei­ xa, parece mais apropriado considerar os “perversos” que oprimem os “justos” como sendo cidadãos corruptos do próprio Judá. E a Torá que eles ignoram, e é a justiça que é pervertida. Isso pressupõe opressão interna mediante o sistema legal do dia. A observância da Torá e a jus­ tiça na comunidade perversa seriam mais do que se poderia esperar. O apelo da segunda queixa de Habacuque (1.12-17) caracteriza consistentemente o argumento daqueles que interpretam o “perverso” da primeira queixa como sendo os opressores assírios.'“*Afirma-se que o personagem descrito nesses versículos exercia sua brutalidade numa escala internacional. Esses perversos consideram os homens “como os peixes do mar” (1.14) e matam “sem piedade os povos” (1.17). Visto que os “perversos” em Judá do século 7» nunca expandiram seus domí­ nios para além de suas fronteiras, argumenta-se que eles dificilmente poderíam encaixar-se nesta descrição. Não se pode negar que o opressor de Habacuque 1.12-17 exercia sua brutalidade sobre o domínio das nações, e por isso não poderia ser descrito como o Judá do século 7®. Deve-se, contudo, perguntar: onde estaria Habacuque no processo de seu diálogo com o Todo-Poderoso? Ele não teria avançado além do ponto em que começa sua disputa? O profeta iniciara sua queixa citando o mau uso da Torá e da justi­ ça (1.4). O Senhor respondera anunciando que ele estava suscitando os babilônios para tratarem do problema. Pelo menos vinte diferentes ca­ racterizações, apontando para a eficácia desse instrumento de juízo, passaram vividamente diante dos olhos do profeta (1.5-11). Ora, como Habacuque reage a essa revelação que acabara de rece14. F.issleldt, ImroJuction, p. 420; Fohrcr, Introciiiction, p. 455; Weiser, Inlmdiiction, p. 263.


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ber? Porventura responde com ceticismo? Porventura duvida que o Todo-Poderoso faça pelas mãos dos babilônios precisamente o que, em sua revelação, pretendia fazer? Ele ainda estava relutante face o problema que apresentara em sua primeira queixa? Parece improvável. Mais provavelmente o profeta havia granjeado para si um novo proble­ ma. Deus nomeara os babilônios para que julgassem e corrigissem os “perversos” contra quem o profeta se queixara. Habacuque indica que aceita esse fato (v. 12). Mas, permitiria Deus que os babilônios devo­ rassem “aquele que é mais justo do que eles?” (v. 13). Se aqueles que devoravam os justos fossem iguais aos assírios com quem ele estava preocupado em sua primeira queixa, então Habacuque ainda está pre­ cisamente no mesmo lugar onde estava antes de sua primeira queixa. A revelação do Senhor a respeito da destruição do opressor de sua pri­ meira queixa (1.5-11) caiu em ouvidos surdos, e então Habacuque ain­ da estaria formulando a mesma pergunta com que havia começado. Mas se o opressor de 1.4 se refere antes aos perversos de Judá, então o anúncio do Senhor em 1.5-11 responde à primeira queixa do profeta. Deus levantaria os caldeus para tratarem desse problema. Os babilônios assolariam os perversos em Judá. Mas essa revelação tem o efeito de criar outro problema. Como o Senhor castigaria seu povo com um instrumento mais perverso que ele? (1.13). A resposta seguinte do Senhor explica que os babilônios por sua vez receberiam o juízo de suas próprias mãos (2.6-20). Como essas duas alternativas em identificar o “perverso” como sendo a Assíria ou os maus em Judá afetariam a questão da data do livro de Habacuque? Primeiramente, elas fornecem perspectivas diferentes so­ bre o progresso do nível da ameaça que os babilônios haviam atingido neste ponto da história. Por outro lado, se a Assíria é o inimigo do Senhor em 1.2-4, que será julgado pelos babilônios, então, evidente­ mente, a profecia de Habacuque viria antes da queda da capital da As­ síria para os babilônios em 612. Uma data entre a emergência da Babi­ lônia como uma potência mundial disputadora em 626 e a queda de Nínive em 612 se encaixaria nas circunstâncias. 15. Weiscr. Inimehiclion, p. 263.


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Por outro lado, se os perversos em Judá são os inimigos do Senhor de 1.2-4, então a datação dessa profecia poderia ser um pouco depois da queda de Nínive em 612. A partir do quadro apresentado na profecia de Habacuque, parece que o império babilônico já começara a fazer sentir sua força entre as nações. Esta circunstância só teria se desen­ volvido após a aparição dos primeiros monarcas babilônicos, come­ çando com Nabopolassar em 626. Ao mesmo tempo, a queixa original de Habacuque a respeito da injustiça dominante em Judá pareceria agora bastante apropriada durante o tempo em que as reformas sociais de Josias estavam em processo (628-609). Por essas razões, pareceria mais apropriado datar a profecia de Habacuque após o período do reinado de Josias que terminou em 609. Os primeiros anos de Joaquim, durante os quais ele liderou uma volta às práticas corruptas dos dias de Manassés, encaixariam-se nas circuns­ tâncias da sucessão de queixas de Habacuque. A caracterização de “in­ crível”, na revelação do Senhor (Hc 1.5), parece situar esta profecia antes do claro estabelecimento da dominação babilônica sobre a SiroPalestina na batalha de Carquemis em 605. O resultado final desta análise estabelece a profecia de Habacuque nos dias do reinado de Jeoaquim, provavelmente nos anos 608 e 605. Esse ponto de vista, em sua essência, tem sido adotado por nume­ rosos estudiosos.'* Ele parece satisfazer todos os vários aspectos que precisam ser considerados. Talvez a proposta alternativa mais radical relativa à datação de Habacuque comece pelo texto de emenda de 1.6, de modo que se leia kitiim (kittim ou cipriotas) em vez de kasdím (caldeus).'’ Por esta cons­ trução, 0 livro data de 330 a.C., e os “kittim” são interpretados como 16. fohrtx. Introduclion, p. 455, cita Rothstcin (1896), Humbert (1941) e Nielsen (1953) como os que conservam este ponto de vista. Conferir C. von Orelli, p. 241; Young, Imroduclion. p. 287,288 (que cita o tempo de Jeoaquim como uma das duas opções viá­ veis); G L. Archer, A Surx’ey o f Old Testament Introduction (Chicago: Moody, 1964), p. 344; e Bright, History o f Israel, p. 333, que coloca Habacuque '‘provavelmente... no reinado de Jeoaquim quando os babilônios atacaram”. 17. Uma posição mais radical é aquela de O. Happel, Das Buch des Propheten Hahackuk (Würzburg, 1900), que data Habacuque no tempo de Antioco Epifãneo, a.C. 170d.C. O rolo de Habacuque encontrado em Qumran {IQpHab) toma esta sugestão inviável.


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sendo os gregos sob a liderança de Alexandre, durante sua campanha na Ásia.'* Contudo, é “bastante arbitrário” emendar o texto de kaédhn (babilônios) para kiítím (gregos), visto que nenhuma evidência externa apoia tal modificação.” Bastante interessante é o comentário de Habacuque encontrado em Qumran. o qual interpreta este versículo como se referindo a kittim, evidentemente aplicando o termo aos romanos de seus dias; porém conservam o termo kaádím como é representado no texto das Escrituras. O fato de os escribas de Qumran se sentirem com­ pelidos a manter kaádím enquanto interpretavam seu significado como kittim parece indicar que não tinham nenhuma tradição textual para apoiar a redação como kittim. Como no caso de Naum e Sofonias, nada de concreto se conhece da vida do profeta Habacuque. Seu livro indica que ele era um profeta cujo coração intercedia peto povo de Deus. Sua introdução “até quan­ do?” revela que, por algum tempo, ele se pusera a rogar ao Senhor em favor dessa crise (Hc 1.2). Não convence a sugestão de que Habacuque era um membro do coro do templo,-® ou um profeta cultuai, com base no diálogo do capí­ tulo 1 e a assinatura a seu salmo no capítulo 3.-' Lendas o têm colocado na cova dos leões com Daniel, mas tal suposição não tem base nos fatos.^^ Pela terceira vez, as Escrituras salientam que cada um desses pro­ fetas do século 7° funciona apenas como uma “voz”. Num tempo em que nações poderosas se digladiam, a resposta divina vem sob a forma de palavras de homens desconhecidos dentre as nações do mundo. Mais poderoso que o exército humano é a palavra profética de Deus.

18. Conferir C. C. Torrey, “Alexander the Great in the Old Testament Prophecies”, em "'Von Alien Testamenf', Fest. K. Marti, org. K. Budde, BZAW 41 (Berlim: Tdpelmann, 1925), p. 281-286. 19. Fohrer, Introduction, p. 454. 20. T. Laetsch, p. 313. 21. Rudolph, p. 194, conclui que a ideia de que Habacuque teria sido um profeta cúltico é imaginária. 22. Ver o acréscimo apócrifo a Daniel, chamado Bel e o Dragão, vs. 33ss. Confrontar, porém. Harrison, Introduction, p. 931.


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V. UNIDADE E AUTENTICIDADE Caso se desse ao testemunho objetivo da evidência do manuscrito existente um lugar mais pleno na avaliação da unidade e autenticidade dessas três profecias, pouca dúvida restaria quanto à genuinidade do material. Até onde tenho ciência, os livros estão intatos em vários ma­ nuscritos disponíveis, com uma única exceção da omissão do salmo de Habacuque no comentário de Qumran (1 QpHab). Esse testemunho de­ veria receber o devido reconhecimento como um ponto de partida para a discussão a respeito da unidade e autenticidade. Com relação à ausência do salmo de Habacuque no rolo de Qumran, deve-se observar que esse capítulo se encontra na LXX, um documento aproximadamente contemporâneo. E possível que o documento de Qumran nunca fosse concluído, particularmente à luz de alguma evi­ dência significativa de que os últimos três versículos do segundo capí­ tulo foram completados por uma segunda mão.‘ Ao mesmo tempo, a omissão pode simplesmente representar um processo de seleção que aparece em outros lugares nos rolos de Qumran. Prossegue a tendência dos estudiosos em dar importância mais sig­ nificativa aos Juízos subjetivos sobre autenticidade, embora um au­ mento de conscientização dos problemas do subjetivismo tenha se de­ senvolvido mais tarde. Primariamente, esses Juízos são baseados em considerações estilísticas, forma-crítica, e conteúdo-orientado. Com respeito ao estilo, A. Weiser observa que “não é possível du­ vidar” da autenticidade de Naum 2 e 3. Em razão da sua “emoção cons­ trangedora” e de “uma agitação caleidoscópica muito impressionante”, esse material deve ser de Naum.^ Ele, porém, considera Naum 1 como mais duvidoso em sua autenticidade, “visto que não exibe a mesma profundidade de sentimento como a denúncia de Nínive”.^ Não é claro 1. Cf. W. H. Brownlee, TheM idmsh Pesher o f Hahakkuk, SBL Monograph 24 (Missoula. MT: Scholar Press. 1979), p. 219. Brownlee indica que esta “mão p>osterior” corrigira cui­ dadosamente todo o manuscrito, o que ele considera uma indicação de que o trabalho fora completado. Contudo, é possível que houvesse muitas razões para esse segundo escriba não ir além do final do capitulo 2. 2. Weiser, Introduction, p. 30. 3. Ibid.


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precisamente como Weiser publicou que o verdadeiro Naum era um homem consistentemente marcado por “agitação caleidoscópica”. De um modo semelhante, S. R. Driver questiona a genuinidade de Sofonias3.14-17 por causa de um “tom animado” que ressalta em con­ traste com a “composição melancólica e comedida” de Sofonias 3.1113.'* Uma vez mais, não é claro como se pode determinar que um profeta que viveu 2.500 anos atrás, e acerca do qual pouco ou nada se sabe, tinha a capacidade de possuir só um estado de humor, mesmo enquanto reage a uma variedade de circunstâncias. Algo mais objetivo é o argumento a respeito da autenticidade baseada nas considerações da crítica da forma. Seguindo esta linha, têm-se sus­ citado questões sérias a respeito da genuinidade do “poema alfabético” de Naum 1 e o salmo completo de Habacuque 3. Pode-se encontrar uma exploração mais completa dessas questões no próprio comentário. Com respeito ao possível acróstico de Naum 1, porém, o primeiro fator que deveria observar-se é a coerência e varieda­ de do paralelismo poético presentes nos versículos em consideração. Encontram-se inclusos em 1.2-9 estruturas paralelas conforme o padrão: a-b-b-a, a-b-a-b, a-b-c-c-b-a, a-b-c-b-c e a-b-b-b. Seria bem notável se um autor posterior houvesse conseguido in­ corporar o fragmento de um poema alfabético, fragmentar sua ordem original e estabelecer uma estrutura poética nova - tudo isso enquanto mantinha um fragmento de literatura coerente e forte. Com respeito à genuinidade de Habacuque 3, a substância do ma­ terial fornece forte evidência para sua ligação com os primeiros dois capítulos. Um salmo para ser celebrado no culto é uma extensão apro­ priada para intimar toda a terra a manter solene silêncio no templo do 4. Driver, Introduction, p. 342.


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Senhor (Hc 2.20). O terceiro capítulo começa com a observação de haver o profeta “ouvido” as “declarações” do Senhor, o que correspon­ de perfeitamente ao seu “vigiarei” para “ver” o que o Senhor iria responder-lhe (Hc 2.1 ). A resolução final do capítulo 3, na qual o profeta declara sua aceitação do programa do Senhor para os tempos vindou­ ros, fornece uma resolução apropriada à contenda entre Deus e o pro­ feta que compôs o corpo dos capítulos anteriores. Para um tratamento mais detalhado desta relação interior, ver o comentário abaixo. Mesmo nesta área do critério acerca da autenticidade com base na análise da forma, o subjetivismo ainda aparece como um fator prepon­ derante. O. Eissfeldt observa que o matiz de “acróstico” em Naum 1 combina com o restante do livro. Mas, evidentemente, baseando sua análise na presença da forma acróstica característica, ele conclui ser possível que o capítulo foi um poema inserido posteriormente.^ Contu­ do, quem pode dizer que o próprio Naum não poderia ter usado uma forma acróstica num lugar e uma estrutura com base no paralelismo em outro? Pode bem ser verdade que uma estrutura poética tenha mais chance de circular independentemente de um contexto fixo. Mas é preciso ter em mente que cerca de 75% do material desses três profetas são poéti­ cos em estilo. Então a maior parte do material teria de ser considerada secundária? Conclusões a respeito da autenticidade também são frequentemen­ te baseadas na análise da propriedade do conteúdo da mensagem pro­ fética. A esse respeito, a genuinidade de Sofonias 3.14-20 é mais fre­ quentemente negada por causa da elevada expressão de esperança, a qual pressupõe que não poderia pertencer ao profeta pré-exílico. Uma vez mais prevalece o subjetivismo. Felizmente, o pêndulo está voltando à posição que permite que uma mensagem de esperança seja apropriada aos profetas pré-exílicos. Com relação a esta seção de Sofonias, Kapelrud declara: “Encontramse também palavras de promessa e esperança, e não temos o direito de apagá-las do texto por causa de seu conteúdo”.* Ele então faz objeções 5. Eissieldt, Inimduction, p. 416. 6. Kapelrud. Message o f lhe Prophet Zephaniah, p. 37.


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às notas textuais de uma edição recente da Biblia Hebraica, observan­ do que “opiniões sobre esta questão não deveriam ser encontradas no instrumento do texto”.’ Em suma, os materiais dos livros de t4aum, Habacuque e Sofonias se apresentam como palavras autênticas dos profetas do século 7®, e devem ser tratados como tais a menos que novas evidências apontem para outra direção. No estágio atual, não há evidências que forneçam base adequada para se negar a integridade desse material.

VI. T EXT O Característico desses três profetas é a preservação de porções de comentários de Qumran em cada um desses livros. Embora o material seja extremamente fragmentado no caso de Sofonias, os manuscritos são significativos ao atestarem a importância dessas breves obras para uma comunidade que vivia 100 anos antes de Cristo.' A existência desses manuscritos de Qumran suscita a indagação sobre sua relação com o TM, a LXX e os textos de Qumran, entre si. E demasiado cedo para pronunciar Juízos concernentes ao valor relati­ vo da teoria das famílias dos textos “locais” para o Antigo Testamento em comparação com a teoria dos textos múltiplos relacionados mais diretamente com os agrupamentos sociorreligiosos.’ Mas podem-se notar as seguintes observações gerais: O mais completo dos manuscritos de Qumran, nesses três profetas, é 0 comentário de Habacuque (1 QpHab). As diferenças principais entre o TM e 1QpHab têm sido enumeradas em cerca de cinquenta. Irregu­ larmente, um terço dessas diferenças tem a ver com artigos e conjunções.

7. Ihid. p. 40. 1. Para uma apresentação desses textos e uma comparação com a duplicata massorética, ver M. P. Horgan, Pesharim: Qumran Inlerprelalions o f Biblical Books. CBQMS 8 (Wa­ shington; Catholic Biblical Association, 1979). Horgan cataloga a bibliografia relevante e inclui uma discussão da importância do pesharim de Qumran. 2. Cf. as variações das teorias como apresentado por F. M. Cross e S. Talmon em sua obra editada em conjunto, Qumran and the History o f the Biblical Text (Cambridge: Harvard University Press, 1975).


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Ao avaliar uma comparação dessas redações, Millar Burrows ob­ serva que, com apenas algumas poucas exceções de menor importân­ cia, as versões antigas, incluindo a LXX, apoiam o TM sobre as reda­ ções de Qumran.^ William Brownlee, outro autor que fez extensas comparações entre o TM e IQpHab, conclui que, embora não julgue o TM como sendo sempre correto, ele sugere que em todos os casos de dúvida o critério mais seguro seria seguir a redação massorética/ Brownlee também observa que alteração deliberada pode ter toma­ do parte na formação de algumas das diferenças em IQpHab, ainda que numerosos textos divergentes pudessem estar disponíveis, dos quais a “redação mais vantajosa para o propósito em mão” poderia ser escolhi­ da.’ Conquanto as diferenças de IQpHab possam estabelecer a anti­ guidade das redações opcionais, outras além daquelas apresentadas no TM, elas mais frequentemente “substanciam a antiguidade das reda­ ções” dos massoretas.* Desde a virada do século, têm sido conhecidos os problemas espe­ ciais associados ao uso da LXX como fonte para a reconstrução do texto hebraico do Antigo Testamento.’ Deve-se enfrentar a dificuldade de trabalhar no labirinto de textos gregos para determinar o melhor texto que por\'entura seja comparado com a tradição massorética. Além disso, deve-se reconhecer plenamente o subjetivismo e a incerteza as­ sociados a qualquer texto retroversivo derivado da tradução de um ma­ nuscrito grego para o hebraico.* Embora algumas redações da LXX 3. Millar Burrows, The Dead Sea Scrolls (Nova York: Viking, 1955), p. 3 18. Ele cila K. Ellinger, que “após urn exame muito cuidadoso das diferenças conclui que o comentário tem muito pouco valor para restaurar um texto mais preciso”. 4. W. H. Brownlee, The Text o f Hahakkuk in: the Ancient Commentary from Qtimran, JBL Monograph II (Filadélfia: SBL, 1959), p, 113-117,118. 5. /hid., p. 117,118. Cf. S. Talmon, “Aspects o f the Textual Transmission o f the Bible in the Light of Qumran Manuscripts”, Textus 4 (1964), p. 130-132. 6. Brownlee, Text, p. 118. 7. Cf. F. M. Cross, The Ancient Uhrary o f Qumran and Modern Biblical Studies, ed. rev. (reimpr. Grand Rapids: Baker, 1980), p. 173ss. E. Wiirthwein, The Text o f the Old Testament: An Introduction to the Bihlia Hebraica, trad. E. Rhodes (Grand Rapids: Eerdmans, 1979), p. 63,64, observa que atualmente é geralmente reconhecido que a LXX não foi uma "tradu­ ção rigorosamente acurada". 8. C f M. IL Goshen-Gottstein, “Theory and Practice of Textual Criticism. The TextCritical Use o f the Septuagint”, Textus 3 ( 1963), p. 132.


INTRODUÇÃO

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apoiem o texto de Qumran em justaposição com o MT, este fato por si só não significa automaticamente que a redação da LXX deva ser con­ siderada como o melhor texto.’ Em geral, o texto desses três livros proféticos é bem preservado na tradição massorética.

VII. CÂNON Esses três livros proféticos começam com a alegação de origem divina que concorda com o estabelecimento do ofício profético em Israel como sendo o meio contínuo, pelo qual o Senhor comunicava sua verdade a seu povo (cf Dt 18.15-22). O livro de Naum é descrito como sendo uma “visão” (Na 1.1). O oráculo de Habacuque é uma “sentença revelada” a ele (Hc 1.1). A mensagem de Sofonias é a “pala­ vra do S e n h o r ” que lhe “veio” (Sf 1.1). Em cada caso, essas designa­ ções apontam para a receptividade dos profetas em termos da origem de sua mensagem.' Em vez de alegar autoria das palavras, os profetas enfatizam que as palavras que declaram vêm do Senhor. Esses homens de Deus também falaram de acordo com o critério da verdade que haviam estabelecido pelos documentos pactuais prévi­ os selados pelo juízo do Senhor. Ao declarar juízos sobre os violadores pactuais entre todas as nações, sem discriminação, eles apoiaram a rea­ lidade de um único e verdadeiro Deus do universo como manifesto em Israel. Ao oferecer esperança de salvação pela fé na obra soberana do Deus de Israel, sua mensagem se confomiava com a declaração bíblica de esperança para as pessoas de todas as nações. Esses profetas se apre­ sentam como havendo enunciado sua mensagem antes que ocorressem os eventos que descreviam, e a história tem se revelado consistente, confirmando, e não contradizendo, suas palavras. O lugar permanente dessas profecias na história da redenção se determina por meio de alu­ são, bem como por meio de citações específicas do núcleo de sua men­ sagem na autoridade das Escrituras da nova aliança. 9. Cf. a análise de J. Weingreen. Introduction to the Critical Study o f the Text o f the Hebrew Bible (Oxford: Oxford University Press. 1982), p. 30. 1. C f B. B. Warfield. "The Biblical Idea o f Revelation", in The Inspiration and Authority o f the Bible (Filadélfia: Presbyterian and Reformed, 1967), p. 87-91.


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COMENTÁRIO DO ANTIGO TESTAMENTO

Esses três livros sempre tiveram seu lugar entre os doze Profetas Menores, tanto no cânon judaico quanto no cristão. Seu papel de por­ tadores da palavra autoritativa de Deus entre as nações é firmado soli­ damente. O trabalho do Espírito de Deus nos corações dos crentes con­ firma a origem divina de sua mensagem.

VIII. ANÁLISE DOS CONTEÚDOS NAUM

Sobrescrito (1.1) I. Anúncio público do juízo sobre Nínive (1.2-14) A. O terror apavorante do Juízo divino (1.2-6) 1. Sua pessoa como J uiz (1.2-3) 2. Sua ação como Juiz (1.4-5) 3. Sua postura perante ele como Juiz (1.6) B. O alvo específico do Juízo divino (1.7-11) 1. Juízo num contexto do cuidado de Deus pelos seus (1.7) 2. Juízo direcionado especificamente contra a Assíria do século 7» a.C. (1.8-11) C. O caráter iminente do Juízo divino (1.12-14) 1. Juízo imediato a despeito da força da Assíria (1.12a) 2. Juízo imediato como alívio para o sofrimento de Judá (1.12b-13) 3. Juízo imediato como o Senhor decretou (1.14) II. Descrição dramática do juízo sobre Nínive (2.1-14 |Eng. 1.152.131) Introdução; o anúncio da realização do Juízo significa boas novas para Judá (2.1 [Eng. 1.15]) A. A cidade é tomada (2.2-8 [Eng. 2.1 -7]) 1. Anúncio do cerco iminente (2.2-3 [Eng. 2.1-2]) 2. Aproximação dos atacantes (2.4-5 [Eng. 3-4]) 3. Resistência dos habitantes (2.6 [Eng. 5]) 4. Entrada permitida (2.7 [Eng. 6])


INTRODUÇÃO

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5. A cidade cai (2.8 [Eng. 7]) B. A cidade é saqueada (2.9-11 [Eng. 8-10]) C. A cidade é humilhada (2.12-14 [Eng. 11-13]) 1. Uma cançào de escárnio para a cidade (2.12 [Eng. 11]) 2. A brutalidade da cidade (2.13 [Eng. 12]) 3. O Senhor fala contra a cidade (2.14 [Eng. 13])

III. O juízo indubitável sobre Ninive (3.1-19) A. Indubitável por causa de seu pecado (3.1-7) 1. Os pecados da cidade (3.1,4) 2. O ataque à cidade (3.2-3) 3. O Senhor contra a cidade (3.5-7) B. Tão indubitável quanto Nô-Amom (Tebas) (3.8-13) 1. Tebas devastada a despeito de suas muitas vantagens (3.8-10) 2. Nínive pode esperar o mesmo destino (3.11-13) C. Indubitável apesar de seu poder (3.14-19) 1. A completa futilidade dos recursos humanos (3.14-18) 2. A tragédia final do pecado persistente (3.19) HABACUQUE Sobrescrito (1.1) I. O diálogo de protesto (1.2-17) A. O profeta se queixa das orações não respondidas para alívio da injustiça (1.2-4) B. O Senhor revela seu terrível instrumento de retribuição (1.5-11) 1. Preparação para a revelação do instrumento de retribuição di­ vina (1.5) 2. Identificação do instrumento específico para a retribuição di­ vina (1.6a) 3. Caracterização do instrumento do juízo divino (1.6b-ll ) C. O profeta desafia o programa punitivo do Senhor (1.12-17) 1. Confiança em Deus (1.12) 2. Questionando a Deus (1.13-17)


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COMENTÁRIO DO ANTIGO TESTAMENTO

a. Fonte do problema (1.13) b. Intensificação do problema (1.14-17)

II. A resolução da sabedoria (2.1-20) A. O profeta vigia diligentemente pela censura à sua queixa (2.1) B. O Senhor revela amavelmente seu propósito para as eras (2.2-20) 1. O justo pela fé e o resolutamente soberbo (2.2-5) a. Instruções que indicam o significado desta visão (2.2) b. Afirmação sobre o caráter da visão (2.3) c. Revelação da essência dessa visão (2.4-5) 2. O ridículo do arrogante (2.6-20) Introdução (2.6a) a. Ai! saqueado o saqueador (2.6b-8) b. Ai! desmantelado o fortificado (2.9-11 ) c. Ai! desmoralizado o civilizado (2.12-14) d. Ai! difamado o cínico (2.15-17) e. Ai! impotente o idólatra (2.18-20) III . Um salmo de submissão (3.1-19) Sobrescrito (3.1) A. O profeta ora pelo sustento da vida do crente (3.2) B. O profeta vê Deus, o Salvador, vindo com toda sua glória (3.315) 1. A glória do Senhor e sua vinda (3.3-7) 2. Diálogo com o Senhor em sua vinda (3.8-15) C. O profeta resolve sua luta pela confiança triunfante (3.16-19b) 1. Uma resposta de espantoso terror (3.16) 2. Um reconhecimento de perda iminente (3.17) 3. Uma resolução de confiança jubilosa (3.18-19b) Conclusão (3.19c) SOFONIAS

Sobrescrito (l.I) I. O juízo pactuai cósmico vem com o grande Dia do S enhor

( 1.2- 18)


INTRODUÇÃO

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A. Criação revertida ( 1.2-3) B. Povo da aliança lançado fora (1.4-7) C. Paralisação de toda atividade (1.8-14a) D. Os terrores da teofania ( 1.14b-18) Sumário II. O chamado ao arrependim ento ecoa antes da chegada do gran­ de Dia de Deus (2.1-15) A. Busca agora, pois pode ser que sejas poupado (2.1-3) B. Busca agora, considera a devastação das nações (2.4-15) 1. Para o Ocidente: Filístia (2.4-7) 2. Para o Oriente: Moabe e Amom (2.8-11 ) 3. Para o Sul: Cuxe (2.12) 4. Para o Norte: Assíria (2.13-15) Conclusão III. Deus reconstitui seu povo com a chegada do grande Dia (3.1-20) A. Deus finalmente julgará os rebeldes (3.1-8) B. Deus por fim purificará seu remanescente (3.9-13) C. Deus então se regozijará com seu povo (3.14-20)

IX. BIBLIOGRAFIA SELECIONADA A. OBRAS GERAIS

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o LIVRO

DE N AUM


SO BRESC RITO (1.1)

1 Sentença contra Nínive. Livro da visão de Nauni, o elcosita. Dos quinze livros proféticos canônicos, onze começam com uma indi­ cação explícita de que sua mensagem é “a Palavra do S e n h o r ” . Naum é um dos outros quatro que fazem a mesma alegação indiretamente se referindo à “visão” que lhe fora dada ou falando das palavras que “viu”. Contudo, Naum é singular ante o fato de que a totalidade de seu livro se caracteriza como uma visão revelada por Deus. Esse material profético não se apresenta como o produto do devaneio de um religioso extático, cuja mente rodopia com frenesis irracionais. Sua visão poderia ser expressa como um trecho literário objetivo e racio­ nal, como um tema unificado incorporando estruturas poéticas bem elaboradas. O significado da raiz do termo traduzido por sentença (m aésã’), bem como a vasta maioria dos contextos nos quais ele ocorre, favorece um reconhecimento do “peso” associado a esta mensagem.' Toda pes­ soa, que na vida real já teve de pregar a mensagem solene da destruiI. Para um tratamento do termo favorecendo o significado de “peso”, ver P. A. H. de Boer, “An Inquiry into the Meaning o f the Term mosáS”’, in OTS 5 (1948), p. 197-214. De Boer observa que o termo é frequentemente traduzido por “pronunciamento, oráculo” em vista da frase nãáã’ qôl, “levantar alguém sua voz”. Mas, ao examinar as mais de 60 vezes que a palavra mosáS’ ocorre no Antigo Testamento, ele defende um caso bastante convincente a favor do significado “peso”. Explorando as versões mais antigas, também conclui; “A exegese mais antiga nâo apoia a distinção de duas palavras hebraicas m aéés’ com um sentido dife­ rente” (p. 209). Para um tratamento recente que favorece o significado “oráculo”, ver os comentários de K. J. Cathcart. Nahum in the Light o f Nortwest Semitic, BibOr 26 (Roma: Pontifical Biblical Institute, 1973), p. 36,37. Comentários adicionais sobre este termo po­ dem ser encontrados em Habacuque 1.1.


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NAUM 1.1

ção divina dos perversos, não terá nenhum problema em concordar com Naum que esta mensagem é de fato um fardo para se carregar. Quem é este profeta Naum? Seu nome significa “consolador”, e de certo modo sua mensagem consola por meio do anúncio da destruição do perseguidor mais temido de Judá. Mas se sabe muito pouco sobre ele para concluir-se que seu nome se propunha a refletir sua mensagem. O que é um elcosila? É improvável que o termo denote a ascendên­ cia de Naum, visto que o padrão normal de comunicar a origem de um profeta o descreve como o “filho de” alguém. Mais provavelmente o ternio se refira ao lugar de origem de Naum. Outros exemplos bíblicos semelhantes são “Miqueias, o morastita” e “Jeremias, o anatotita” (cf. Mq 1.1; Jr 29.27). Como se observa na introdução, a tradição mais antiga, como registrada por Jerônimo no século 4» a.C., identifica Elcos como sendo uma pequena vila na Galileia, a qual lhe fora mostrada por um guia.^ Poder-se-ia objetar que essa “pequena vila na Galileia” estaria in­ cluída no reino do norte, que fora levado para o cativeiro muito tempo antes dos dias de Naum. Não obstante, as Escrituras deixam bem claro que Deus continuou a manter seu povo no território do reino do norte, como visto no incidente da reforma nos dias de Josias (cf. 2Rs 23.1520). Além do mais, a alusão do profeta à devastação especificamente de Basã, Carmelo e Líbano, apoia uma localização para a origem do profeta na Palestina setentrional (ver Na 1.4). Ainda que não se possa afirmar com certeza, existe algo de perti­ nente na ideia de que Naum, o profeta da condenação da Assíria, tives­ se suas origens no reino do norte. Muito embora Deus houvesse trazi­ do a Assíria como seu instrumento para castigar a nação de Israel, o opressor brutal havia extrapolado os limites da decência em sua cruel­ dade. Agora um profeta, representando o remanescente sobrevivente do norte, era chamado especificamente para anunciar a inevitabilidade dos atos de Justiça da retribuição divina. 2. The Principal Worh o f Si. Jerome, traduzido por W. H. Fremantle, in A Select Library o f Nicene ami Posl-Nicene Faters o f the Christian Church, 2’ .série (Nova York; Charles Scribner’s Sons, 1912), 6:501. Cf. Maier, p. 24.


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É bastante surpreendente observar que um livro inteiro da Bíblia tenha se devotado à destruição de uma única cidade ímpia. E bem ver­ dade que a mensagem completa de Jonas também se preocupa integral­ mente com 0 juízo divino sobre esta mesma cidade de Nínive. Mas a diferença de abordagem entre Naum e Jonas só faz realçar o caráter marcante da profecia de Naum. Enquanto o relutante Jonas é literal­ mente obrigado por Deus a anunciar uma mensagem que conduza à extraordinária manifestação da misericórdia divina para com a cida­ de perversa, Naum pinta exclusivamente com tons escuros a inevita­ bilidade do juízo. Cada um de seus três capítulos oferece este tema ímpar da inevitabilidade do terrível juízo de Deus. Mesmo a mais leve mensagem de esperança dirigida a Judá como um ponto de res­ tauração da segurança (Na 2.1), dificilmente pode dispersar o negrume da nuvem de negativismo que empresta a subestrutura para esta pala­ vra profética. Na verdade, a singularidade dessa mensagem de Naum deve ser avaliada por seu matiz de incerteza. O livro trata inquestionavelmente da “sentença contra Nínive”. Contudo, esta nota ininterrupta de juízo pode hoje proporcionar um ministério que é em extremo necessário àque­ les que depositam sua confiança no Deus verdadeiro. Um reconheci­ mento da realidade da vingança divina fornece a sobriedade que deve sempre caracterizar as relações entre os seres humanos e as nações.

I. ANUNCIO PUBLICO DO JU IZO SOBRE NÍNIVE (1.2^14) Considera-se como mais provável que Naum tenha profetizado nos últimos dias de Manassés (aprox. 687-Ó42 a.C.), como proposto na introdução acima. Se isso for certo, então sua proclamação pública de total devastação de Nínive não teria sido uma mensagem muito popu­ lar. Aliás, ela estava longe de ser politicamente correta, mesmo nos dias da reforma de Manassés. O território do norte de Israel era gover­ nado por mandatários assírios, e o reino do sul de Judá mantinha uma aliança com eles em decorrência da política sincretista de Manassés. Mas este ousado profeta do Senhor fundamenta sua causa contra Níni­ ve na certeza da natureza imutável de Deus. Por ser quem ele é, Nínive


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deveria experimentar o punho de aço de sua ira. Inclusive, essa cidade opressora cairia em breve. A forma poética desse capítulo tem gerado amplas discussões. Para começo, o debate se revolve em torno da possibilidade de um acróstico alfabético aposto nesses versículos. Pelo menos uma Bíblia hebraica chegou a ponto de ampliar letras mestras nos versículos no empenho de mostrar a evolução do poema por meio do alfabeto hebraico.' Mas o poema, na forma como se encontra atualmente, não compõe um acrósti­ co completo; nem todas as letras do alfabeto hebraico estão posicionadas na sequência correta. A Bíblia hebraica que amplia a suposta sequência alfabética evidentemente exibe lacunas e elementos fora de ordem. Se for proposto que um poema acróstico mais antigo foi desarranja­ do e inserido no texto de Naum, então se deve fornecer uma explicação plausível para a coerência, bem como o paralelismo poético que se ma­ nifesta na forma atual do material. As estruturas atuais simplesmen­ te não dão a impressão de uma composição adulterada. Mesmo que um profissional de adaptação de material literário fosse tão capaz, dificil­ mente teria sucesso em disfarçar os traços de sua pena com a criação de um produto final tão excelente. As identificações das várias palavras que supostamente seguem uma ordem alfabética, como proposto pela Bíblia de Kittel, só são con­ vincentes até certo ponto. O heíh não inicia uma palavra que começa uma frase; o daleth aparece apenas como uma consequência de emen­ da conjetural; o waw é simplesmente a conjunção “e”; o zay/d começa a segunda palavra de um construto hebraico; e o yod segue um wan’ conectivo. Quando cinco, dentre onze casos propostos de sucessão al­ fabética, manifestam uma irregularidade, certa dose de autodomínio, em se fazerem asseverações a respeito da presença de um poema acrós­ tico, parece bastante aconselhável. Teorias a respeito de possíveis cor­ rupções de um original acróstico têm de transpor um grande obstáculo, particularmente em vista das sólidas estruturas de paralelismo encon­ tradas no texto em sua fonna atual. I. Ver a 3* edição da Bihlia Hebraica de R. Kittel (Stuttgart: Württembergische Bibelanstalt. 1937). Na BHS o acróstico é indicado por letras em parênteses precedendo os versículos.


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Os outros elementos poéticos de paralelismo e aliteração são mui­ to mais impressionantes. Mediante o amplo uso de recursos poéticos, Naum intensificou sua capacidade de comunicação e conduziu o povo a um fabuloso confronto com o Deus de Israel. Os versículos iniciais exibem uma variedade de tipos de paralelis­ mo, inclusive os seguintes: a-b-b-a a-b-a-b a-b-c-c-b-a a-b-b-b

(vs. 2,6) (vs. 2-5) ( V .6 ) ( V .3 )

Além disso, o particípio “um que toma vingança” (nôqêm), ocorre três vezes na frase inicial do profeta, juntamente com o triplo uso do nome pactuai de Deus (v. 2). Especialmente eficaz é o uso da forma verbal idêntica no início e no final de cada estrofe (“está abatido” - v . 4).A. O TERROR APAVORANTE DO JUÍZO DIVINO (1.2-6)

1. Sua pessoa como Juiz (1.2-3) 2 a O S enhor é Deus zeloso b e um que toma vingança é o Senhor; b um que toma vingança é o S enhor a e cheio de ira. ‘ a Aquele que toma vingança é o S enhor b contra seus adversários a e reserva indignação (ira)~ 2. Para uma discussão compleía dos artifícios poéticos empregados por Naum. ver O. T. AIlis, “Nahum, Nineveh, Eskosh”, EvQ 27 (1955), p. 67-80. 1. Cathcart. Naum, p. 39,40, cita o quiasma que apoia a repetição de “um que toma vin­ gança é Yahwch”, e cita o paralelo ugaritico: “Possa Ba‘al arrancar / possa Ba‘al arrancar as penas das asas das águias”. 2. Parênteses são usados nas seções de tradução deste comentário para indicar palavras ou frases não especificamente representadas no TM, Algumas vezes, as palavras acrescentadas podem ser implícitas pela estrutura de linguagem hebraica. Outras vezes são necessárias para comunicar em inglês o intento do texto original. Embora a teoria da tradução moderna considere este uso de parêntese desnecessário, ele foi empregado como recurso para permitir ao leitor uma oportunidade maior de interagir com o texto das Escrituras,


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NAUM 1.2

b para seus inimigos. 3 a o S enhor b é tardio em irar-se, b mas grande em poder b e jamais inocenta o culpado; o S enhor a tem seu caminho b na tormenta e na tempestade, a e as nuvens b são o pó de seus pés. 2 .0 impacto da estrutura poética de Naum é sentido imediatamen­ te quando o profeta inicia com uma figura da pessoa de Deus como Juiz. Ele é um Deus ciumento, que toma vingança contra seus adver­ sários e reserva indignação para seus inimigos. Geralmente ciumento transmite uma imagem negativa. O homem ciumento toma miserável a vida de seus queridos. Mas o ciúme de Deus deve ser visto por um ângulo diferente. Ele é ciumento ou zeloso da manutenção de sua honra. O distanciamento da sincera submissão a Deus só pode trazer o caos ao mundo. Uma vez que a pessoa cria outro deus em sua mente, a desordem moral vem em seguida. Se a cobiça idolatra a criação material, então uma luta interminável para apoderarse de algo mais resulta nos horrores da guerra (cf. Tg 4.1-3). Se o inte­ lecto vier a ser um deus para os seres humanos, as consequências serão terríveis, não importa quão nobre pareça ser a ideia de uma pessoa, pois deifiear um reino platônico de idéias conduz a uma negligência desequilibrada das realidades materiais. Adotar uma distinção kantiana entre um reino científico dos fenômenos e um reino espiritual da intuição propicia a ilusão de que ela fornece a chave para a coexistência de ciência e religião à pessoa moderna. Mas, no final, a separação entre a intuição e o fenômeno resultará naturalmente numa ética de “impera­ tivo categórico”, no qual o “dever” inerente de uma pessoa se toma o teste para o que é moralmente correto. Mas, como prova a história, aquele “dever” pode promover a aniquilação de uma raça, bem como do amor ao próximo.


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Somente a devota adoração ao Deus vivo e verdadeiro pode ga­ rantir um equilíbrio harmonioso no mundo, de modo que todos os aspectos da criação recebam seu devido respeito. O “ciúme” de Deus evidentemente tem em vista o melhor interesse de sua criação. Da mes­ ma maneira que uma ave-mãe aterroriza com seus gritos qualquer feli­ no que porventura se aproxime de seu ninho, também o Senhor zelosa­ mente paira sobre os seus para desviar qualquer rival da sua soberania e centralidade. Porções do versículo 2 quase certamente representam uma citação de mais de uma seção anterior do Antigo Testamento. Quando o Se­ nhor iniciou as provisões para a aliança com Israel, ele declarou: “por­ que eu sou o S enhor, teu Deus zeloso” (Ex 20.5). Quando reinstituía a aliança após o episódio com o bezerro de ouro, o Senhor insistiu: “não adorarás outro deus; pois o nome do Senhor é zeloso; sim, Deus zeloso é ele” (Ex 34.14). A própria essência divina se associa a seu “ciúme”. Por ser o único e verdadeiro Deus, seu zelo em manter seu papel ímpar flui de sua própria natureza. Contrário ao espírito latitudinário moderno, a tolerância para com a manutenção de uma multiplicidade de deuses não é aprovada nas Escri­ turas.^ A consequência de faltar com o respeito para com a singularida­ de de Deus é claramente demonstrada na experiência nacional de Israel. Em razão de provocarem seu ciúme com outros deuses, quando vieram a sentir-se saciados com a prosperidade material. Deus deixou de derra­ mar sobre eles suas bênçãos. Mas por meio do ato simultâneo de lançar juízo sobre Israel enquanto fazia prosperar os gentios, Deus graciosa­ mente intentava conduzir Israel à sua experiência pessoal com o “ciú­ me” (cf. Dt 32.16-21, especialmente v. 21). Esta interação entre o ciúme de Deus e sua reação em provocar ciúmes em Israel encontra sua expressão final na explicação que Paulo dá dos caminhos de Deus na era da nova aliança. Paulo exalta seu ministério entre a comunidade não judaica. Muito embora fosse o de3. Rudoph, p. 155, mostra que não se pode considerar a idéia do Senhor como um Deus zeloso, vingativo e irado, como uma ideia religiosa primitiva, visto que todas essas qualida­ des são atribuídas a Deus no Novo Testamento: zelo em 2 Coríntios 11.2; vingança em Romanos 12.19; Hebreus 10.30; e ira em Romanos 1.18.


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sejo de seu coração e sua oração que Israel fosse salvo (Rm 10.1), ele se gloriou nos frutos abundantes de sua pregação entre as nações ímpi­ as. Por quê? Porventura para magoar a nação rebelde? Não! O apóstolo dos não-judeus almejava que, por meio de seu ministério entre os gen­ tios, ele pudesse provocar ciúmes, “ incitar à em ulação” seus compatriotas segundo a carne (Rm 11.13-14). O ciúme de Deus consome, mas ele também redime. Justamente por ser ciumento é que ele se importa e muito em redimir os seres humanos de seu estado de desobediência. Visto que a idolatria, a cobi­ ça e a brutalidade insultam sua honra. Deus destruirá os perversos - e também salvará seu povo rebelde. Esse duplo efeito do ciúme de Deus explica a combinação dos atri­ butos contrastantes de Deus, tais como retratados em muitas passagens que falam de seu ciúme. Ele é ciumento, cheio de ira, e de modo algum inocenta o culpado; contudo, simultaneamente, ele é bom, longânimo, misericordioso e gracioso, tardio em irar-se, rico em bondade e perdoador da iniquidade, da transgressão e do pecado (Êx 34.6,14; Na 1.2-3). Esta combinação de elementos fornece um quadro para a compreensão de doutrinas abrangentes como o amor de Deus em providenciar expi­ ação para o pecado, a soberania de Deus em operar a salvação e a inevi­ tabilidade da condenação dos pecadores. Se Deus “não inocenta o cul­ pado”, então todos os seres humanos estão condenados, a menos que se ofereça uma expiação real e eficaz pelo pecado. Se todos estão debaixo da ira de Deus, a salvação de alguns deve ter suas raízes originalmente na vontade e no amor espontâneos de Deus. Se não foi feita uma expia­ ção eficaz por todos, então a ira de Deus deve ser derramada sobre aque­ les pelos quais não se fez nenhuma propiciação. Esta dualidade do ciúme de Deus em consumir o pecador em ira e propiciar misericórdia para ele fornece a explicação definitiva da ra­ zão por que o ministério de Jonas em Nínive teve uma consequência tão radicalmente diferente do ministério de Naum na mesma cidade. Em um dos casos Deus manifestou sua graça propiciatória; no outro, ele manifestou sua ira. Embora a Nínive do século 8« tenha se arre­ pendido e sido salva, cem anos mais tarde a mesma cidade não póde arrepender-se.


NAUM 1.2

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Mas essa passagem enfatiza outro aspecto da veracidade de Deus, mais que seu ciúme. A mensagem desses versículos é que três vezes lemos ser Deus o que toma vingança. Se “ciúme'’’ ou “zelo" caracteriza a atitude de Deus em relação a seus rivais, então vingança descreve a ação que emerge desse ciúme. Pode-se definir esta vingança da parte de Deus como a medida de uma recompensa justa. Ela, porém, inclui mais. O Deus onipotente, onisciente, perfeito em justiça não só devolve ao pecador uma retribuição justa por todo o mal que ele fez; também resti­ tui esse pagamento num contexto de justa indignação, de desagrado e ira. O pecador culpado rogará que uma avalanche de rochas o cubra, não propriamente como uma maneira de escapar à dor infligida a seu corpo em decorrência de seu pecado, mas por causa do terrível senso de rejeição e repúdio fluindo da presença perante a qual ele tem de perma­ necer. A diferença entre o “ciúme” de Deus e sua “vingança” se percebe observando que “zelo” pelo Senhor é refletido de maneira apropriada na criatura, enquanto “vingança” é uma ação reservada essencialmente para o próprio Deus. As Escrituras enfatizam repetidas vezes a proibição ao homem de tomar vingança em suas próprias mãos. O povo de Deus não deve exercer vingança; em vez disso, ele deve amar seu próximo como a si próprio (Lv 19.18). Afirma-se explicitamente que a vingança perten­ ce ao Senhor (Dt 32.35; SI 94.1). Ao sofrer os contínuos maus-tratos da parte de Saul, Davi declara: “Julgue o S kn h o r entre mim e ti e vingueme o S e n h o r a teu respeito; porém minha mão não será contra ti” (1 Sm 24.12). Davi não nega os males que sofria nas mãos de Saul. Mas recu­ sa fazer qualquer coisa que porventura pareça uma justa recompensa. Somente Deus pode julgar com justiça e punir com justa medida. Aliás, que Deus retribuirá ao perverso por cada um de seus feitos perversos se vê na ênfase sobre o “dia da vingança” que Deus estabele­ ceu (Is 61.1 -2; 63.4; Jr 46.10). A demora na administração da justiça da parte de Deus não deve ser interpretada de modo errôneo, nunca como indicativo de indulgente tranquilidade da parte do Todo-Poderoso. Com a plenitude da força de sua justa indignação, ele consumirá o perverso da face da terra. Como soberano sobre a ira e aquele que reser\>a (a ira) para seus


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inimigos. Deus demonstra um controle calculado em sua dispensação da vingança. Ele nunca age movido por paixões, nunca excede o deco­ ro, nunca compromete suas metas finais por causa de uma reação rea­ cionária às provocações do momento. Seus justos Juízos não podem ser questionados, e, em última análise, podem suportar o escrutínio mais rigoroso, porque sempre permanecem sujeitos às suas serenas perfei­ ções como Deus. Pela perspectiva da nova aliança, o “domínio” que Deus exerce de sua justa ira é visto mais claramente na tolerância do Pai e do Filho na hora da crucificação de Cristo. A despeito do horrendo crime cometido contra o Filho de Deus, a despeito dos maus-tratos infligidos pelos pecadores depravados, o Pai controla sua vingança e, em vez de exer­ cê-la, ele lança seu juízo vicário sobre seu Filho. O Filho poderia ter convocado legiões de anjos para consumirem seus opressores. Mas, em vez disso, ele clama: “Pai, perdoa-lhes” (Lc 23.34). Não obstante, o dia da vingança do Senhor virá com certeza. Na­ quele dia ele consumirá o perverso com o sopro de sua boca. A destrui­ ção final da cidade opressiva de Nínive demonstra na história a reali­ dade do compromisso de Deus em julgar. 3. Este versículo dá continuidade à descrição da natureza de Deus como aquele que traz juízo sobre seus inimigos.'* Quando Naum descreve o S en h o r como tardio em irar-se e aquele que jamais inocenta o culpado, é quase certo que queira ecoar uma passagem que exerceu reiterada significação na história de Israel. De­ pois do juízo divino exercido contra a apostasia de Israel por causa do bezerro de ouro. Deus mandou Moisés duplicar as tábuas originais de pedra. O Senhor, em sua misericórdia, restabeleceria sua aliança com Israel. Neste contexto de Deus manifestando sua natureza perante Moi­ sés, o nome pactuai de Deus é repetido duas vezes, precisamente como 4. A estrutura poética deste versículo pode ser discutível. “ S knhor” pode pertencer ao começo e ao final de uma única frase, mas parece mais provável que duas frases compostas estão incluídas no versículo, com " S knhor” começando cada uma das sentenças. Ver o trata­ mento de GKC, § 143a. Uma discussão mais completa desta forma de construção hebraica pode ser encontrada na exposição de llabacuque 2.4.


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em Naum. O Senhor prossegue declarando-se como aquele que é “longânimo... não inocenta o culpado” (Êx 34.6,7). O vocabulário é preci­ samente aquele encontrado em Naum 1.3, e é reiterado uma vez mais em Números 14.18. Na passagem de Números, Moisés pleiteia: “como tens falado”, evidentemente se referindo à natureza de Deus tal como lhe fora revelada após o incidente com o bezerro de ouro. Mas, no caso do apelo que Naum faz ao mesmo texto de Êxodo, omissões cruciais de frases particulares contam a história. Deus é tar­ dio em irar-se explicaria a longa demora em trazer juízo sobre Nínive. Naum, porém, nada menciona sobre ser este mesmo Deus “compassi­ vo, clemente e longânimo e grande em misericórdia e fidelidade; que guarda a misericórdia em mil gerações, que perdoa a iniquidade, a trans­ gressão e 0 pecado” como se afirma tanto em Êxodo 34 quanto em Números 14, pois Naum deseja enfatizar a realidade do juízo que ema­ naria da natureza de Deus. O Senhor pode ser perdoador e misericor­ dioso, mas Nínive havia ultrapassado o ponto sem volta, e a única coi­ sa a fazer era esperar pelo juízo que não falharia em manifestar-se. Entre suas citações de frases de Êxodo 34, Naum introduz um pen­ samento novo. Yahweh é grande em poder, um conceito que certamente põe a ênfase em alguma coisa além da prontidão do Senhor em perdoar. Esta frase em outro lugar se refere ao infinito poder sobrenatural de Deus, que sozinho foi suficiente para trazer o universo à existência e para redimir Israel (Dt 4.37; Jr 27.5; 32.17; 2Rs 17.36; etc.). É esse poder que agora deveria concentrar-se na destruição da capital nacio­ nal do poderoso império assírio. Humanamente falando, parecia im­ possível que alguma força pudesse pôr um fim ao império assírio em contínua expansão. Mas Deus, o Criador, o Redentor de Israel, ele ti­ nha o poder sobrenatural essencial para efetuar tal destruição. Pois Deus /crwí/15 inocenta o culpado. Esta frase não cria nenhum problema especial para a compreensão do contexto do pronunciamen­ to de Naum sobre a iminente destruição de Nínive. A forma infinitiva seguida pela negativa indica uma negação completa.* Mas no contexto original em Êxodo 34 a afirmação de que Deus “ainda que não inocen5. Rudolpli p. 151 n. 3.


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NAUM 1.3

ta o culpado” é contrabalançada pela afirmação anterior de que Deus é “clemente e longânimo”. A apreciação mais plena das palavras de Naum só emerge quando são confrontadas neste eontexto bíblico mais abrangente. Comparando-se os contextos de Êxodo e Naum, alguém compre­ ende que a afirmação de que Deus jamais inocenta o culpado não pode ser tomada de forma abstrata. É deveras um absoluto de realidade que se aeha radicado na natureza imutável de Deus. Mas essa realidade funciona num contexto em que a absolvição da culpa é uma possibili­ dade real no contexto da aliança. Enquanto uma pessoa, cidade ou na­ ção continuar carregando a carga de sua própria culpa, ela não pode ser declarada livre e isenta da aplicabilidade do eastigo. Mas se a culpa for transferida para um terceiro, por meio da substituição, segundo as pro­ visões da aliança, então o Senhor pode manifestar seu perdão.* O problema de Nínive era sua total separação da graça pactuai; carregavam sua própria culpa. Com a pregação de Jonas, a cidade se arrependeu, clamou pelo nome do Senhor e foi poupada. Mas aquela profunda tristeza pelo pecado foi substituída por uma afirmativa arro­ gante de que eles mesmos eram Deus (cf Sf 2.15). Inevitavelmente, tal arrogância resultou em sua própria condenação. Sua culpa permane­ ceu; e assim sendo o juízo era inevitável. O profeta não para meramente na afirmação desses vários aspectos da natureza de Deus. Ele prossegue apresentando Deus em movimen­ to, Deus em ação. Deus aplicando as realidades inerentes de sua natu­ reza às situações humanas do dia-a-dia. As imagens de tormenta, tempestade e nuvens são perfeitas para a descrição do profeta em sua tentativa de transmitir esta dimensão da realidade de Deus (v. 3b). Essas imagens são realmente adequadas, visto que representam a atividade de Deus num reino entre os céus e a terra. A medida que ele desce de sua imponente altura eeleste, o pri6. Calvino, p. 423, com sua profundidade costumeira, diz que a absolvição só vem depois do juízo, “pois os fiéis antecipam seu Juízo mediante o arrependimento; e eles perscrutam seus corações, para que ele possa limpá-los. Pois o que é arrepiendimento senão condenação, que por sua vez acaba por ser o meio de salvação?... [Deus] não absolve a ninguém mais senão o condenado”.


NAUM 1.3

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meiro e tremendo movimento da presença de Deus ocorre no vento e nas nuvens. Estes intennediários naturais entre o imortal e o mortal rodopiam ruidosamente acima das cabeças das pessoas que de outra maneira permaneceriam imersas em suas preocupações saturadas de pecado. A tormenta ou temporal (sMpô) e a tempestade (é^'ãrâ) parecem totalmente arbitrárias em seus ziguezagues, batendo aqui e então ali, sem ritmo ou razão. Mas Deus lhes está ordenando. Sem confusão, seguem o caminho da ordenação divina (cf. Am 4.7-8; Mt 10.29-30). Uma pessoa que visita a Palestina com frequência descreve um incidente que demonstra a rapidez, a devastação e a fúria de uma tem­ pestade naquela parte do mundo: Esta planície de Ijom ultimamente se tornou famosa por uma tem­ pestade surpreendente... Alguns amigos meus... iam descendo o morro... quando um deles chamou os outros para que vissem umas colunas enormes de nevoeiro que estavam sobre o pântano de Huleh. Elas vinham sobre eles com muita rapidez, e logo os envolveu com uma fúria terrível... As pessoas que tentaram chegar a Kiam morreram no chapadão, embora esse não tenha mais que 3 quilôme­ tros de extensão, e até podiam avistar suas casas. Dessa forma mor­ reram dez homens em poucos minutos, de puro frio vindo desse vento incrível. Não houve neve, nem geada nem muita chuva; mas o vento era absolutamente terrível, revirando e carregando tudo à sua frente. Esses ventos gélidos sugam todo o calor animal com uma rapidez fabulosa. Esses homens foram não só congelados e mortos, quase instantaneamente, como também 85 cabeças de gado perece­ ram antes que pudessem ser conduzidas à vila.’ A descrição desse vento quente de inverno parece fantástica demais para ser verdade. Mas assim também deve ter parecido a mensagem do profeta anunciando as devastações da capital assíria tão bem funda­ mentada. Não obstante, o tempo e a experiência por fim estabelecem o poder de Deus tanto na natureza quanto na história. 7. W. M. Thomson. The Land and lhe Book (Hartford, 1910), p. 200,201.


NAUM 1.4-5

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Quando o profeta emprega as imagens de nuvens como sendo o pó dos pés de Deus, ele pinta um quadro de movimentos vigorosos em ação. Não nuvens brancas, algodoadas e festivas, mas nuvens de tem­ pestade, agourentas, representando o movimento do Todo-Poderoso. Deus avança pela imensidão dos céus, desencadeando a comoção dos relâmpagos e trovões enquanto seus atributos de santidade e justiça se põem em ação (cf SI 29.3-9). Quando o Novo Testamento descreve Cristo subindo nas nuvens e prometendo seu regresso do mesmo modo (At 1.9,11), este quadro do profeta alcança seu nível de maior consecução. Todo olho será atraído para ele de maneira inevitável, enquanto vem em sua glória, trazendo juízo destrutivo sobre seus inimigos e bênçãos sobre seu povo. 2. Sua ação como Juiz (1.4-5) 4 a Ele repreende o mar, b e o faz secar,' a e todos os rios b ele torna áridos.'^ a Basã e o Carmelo b desfalecem a e a flor do Líbano b murcha. 5 a Os montes b tremem perante ele, a e os outeiros b se derretem. a A terra se ergue b diante dele, a o mundo b e todos os seus habitantes. 1. Keil, p. 10, observa: “o y sem vogal da terceira pessoa” é “fundido em um com o primei­ ro som radical”. Entào a palavra parece com wayyatpSêhü em vez de way^yaè5sshú. Cf. GKC, § 68w, 70 a.C. 2. Cathcart. Nahum, p. 49, observa muitos casos em material ugaritico no qual "mar” e “rio” são colocados em paralelo.


NAUM 1.4

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Este grande Deus descrito por Naum não é apenas uma ideia abs­ trata, um conceito nebuloso. Ele é uma pessoa viva cuja natureza defi­ ne o significado de pessoalidade. Ele interage poderosamente com o mundo que criou, de modo que os atributos que Naum tão vividamente delineou têm seu efeito denunciador em cada elemento da criação. O mar, os rios, as terras férteis, as montanhas, as colinas, a terra, o mundo e todos os seus habitantes - esses segmentos diversos - sentem o efeito do ciúme, da vingança, da ira, da fúria, do poder e da justiça.

4. Justamente como um mestre repreende um aprendiz lento, tam­ bém 0 Senhor repreende o mar. e o fa z secar. Naum lembra a grande repreensão do mar por ocasião do Êxodo, que culminou no juízo sobre 0 exército de Faraó (cf Êx 14.21; 15.1,8; SI 106.9; 2Sm 22.16). Que a orgulhosa Assíria se inteirasse bem das consequências fatais de uma nação tentar obstruir as vias do plano redentor do Senhor. Deus fez isso uma vez e o faria de novo. O Senhor não só “repreende o mar”, mas também seca todos os rios. Visto que a antiga cidade de Nínive dependia de suas barragens naturais de água como elemento básico de defesa, essas palavras real­ çavam 0 estado desesperador da cidade, pois sua tênue barragem de água não poderia deter o Todo-Poderoso quando se pusesse em ação, porque, afinal de contas, os rios de Nínive se tornaram o instrumento de sua destruição. Em vez de mencionar especificamente o Egito como objeto do juízo divino, no passado, o profeta lembra as devastações mais recentes na própria Palestina - devastações bem lembradas pela Assíria, visto que ela fora o agente imortalizante. Ba.sã, Carmelo e Líbano aparecem jun­ tos em outros lugares no Antigo Testamento para descrever a expansão dos territórios de Israel do norte, particularmente em termos de sua fer­ tilidade (Dt 1.4-7; 2Rs 19.23; Is 33.1; 35.2; Jr 50.18-19). Esses locais são os mais férteis, arborizados e irrigados da Palestina. Basã se esten­ de por toda a Transjordânia, do Monte Hennom, ao norte, no ribeiro de Jaboque, ao sul, inclusive todo o território de Gileade. Toda a região se tomou um símbolo de fertilidade e o gado de Basã era proverbial por sua gordura (Ez 39.18; Am 4.1; Mq 7.14). Na extremidade ocidental de Israel ficava o Cannelo, uma monta­


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NAUM 1.4-5

nha fértil que se projetava Mediterrâneo adentro (cf. Is 33.9; 35.2; Jr 50.19). Nos dias de Elias, o Carmelo passou por uma grande seca como forma de juízo pelo baalismo que poluira a terra (IRs 18.19-20,42), mas Naum prevê uma circunstância muito mais severa, pois o mais preeminente do Libano teria de ser seus cedros mais famosos do Líbano. A declaração de Naum de que esses monumentos de raízes profundas murchariam indica o período que ele imagina que duraria a seca.^ No apogeu de seu poder, a Assíria ameaçara o Líbano. Senaqueribe dissera que iria derrubar “seus altos cedros e seus ciprestes escolhi­ dos” (2Rs 19.23). Ora, se o Senhor iria trazer severo juízo às áreas naturalmente abençoadas de sua própria terra, que razões tinha Nínive para esperar que de alguma maneira seria poupada da devastação do Senhor? O juízo podia começar com a casa de Deus. Mas, sem sombra de dúvida, o juízo sobreviría àqueles fora da casa do Senhor. Pela graça de Deus, Israel podia esperar a promessa de que um dia tomaria a expe­ rimentar a fertilidade de Basã, Carmelo e Líbano (Is 33.9-10; 35.2; Jr 50.18-19). Mas Naum não acena à Assíria com promessa desse tipo. 5. O terror do Senhor em juízo não pode se restringir a uma única área do mundo. Segundo esses versículos, até mesmo os fundamentos do mundo são conturbados por sua ira. Os montes, os outeiros, a terra e o mundo tremem, derretem-se e se contorcem perante ele. As imagens de um monte se “derretendo” são particulannente impressionantes. Vis­ to que os elementos do universo são constantemente mantidos juntos pelo supremo poder de Deus, a retirada desse poder sustentador poderia significar a desintegração de alicerces de granitos, vales férteis e picos cobertos de relva. Na perspectiva da nova aliança, Pedro fala em termos climáticos e cataclísmicos da destruição da terra como hoje é constituída. Os céus passarão com grande estrondo e a “terra” se “derreterá” com o calor abrasador. Mas, de acordo com sua promessa, visualizamos novos céus e nova terra, nos quais habita a justiça (2Pe 3.10-13). 3. O grau em que o comércio especializado se desenvolveu é visto na referência feita aos remos feitos de carvalhos de Basã usados nos navios de Tiro (Ez 27.6).


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3. Sua posição perante ele como Juiz (1.6) 6 a Diante de sua indignação, h quem permanecerá? b E quem se levantará a diante do furor de sua ira? a Sua fúria h se derrama c como fogo; c e as rochas b são quebradas a diante dele. Uma pergunta retórica que demanda resposta agora atrai o ouvinte diretamente para a via da palavra profética. A reformulação imediata da mesma pergunta chama a atenção dos desatentos. Quem poderá suportar sua indignação? Quem se levantará perante o furor de sua ira? Qbviamente, ninguém. Nem mesmo Israel fora ca­ paz de suportá-lo quando ele determinou gravar sua iniquidade. Ironi­ camente, anteriormente a Assíria fora identificada como sendo o cetro da ira do Senhor (Is 10.5). Mas ainda assim o profeta Isaías deixara claro que depois que o Senhor houvesse terminado com Jerusalém, ele iria punir o coração arrogante do rei da Assíria (Is 10.12). Como se tencionasse mostrar o círculo completo da ira do Senhor à medida que ela operasse entre as nações, outras profecias identifi­ cam a Babilônia como sendo a nação que iria trazer juízo sobre a Assí­ ria (Is 13.5), enquanto observa que fmalmente a própria Babilônia tam­ bém seria objeto de sua indignação (Jr 50.25). Mais uma vez suscita-se a indagação: quem suportará? Quem subsistirá? Israel? Judá? Assíria? Babilônia? Não. Nenhuma delas. Cada nação por sua vez sofrerá os juízos devastadores do Senhor. Nenhuma delas tem força suficiente para resistir à obra de seu poder, enquanto as marés da história soer­ guem e despencam, exibindo sua ira. A última porção desse versículo deixa patente que o profeta não está falando meramente de um modesto castigo dos perversos. O Se­ nhor não irá simplesmente dar um tapa na mão travessa da Assíria.


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NAUM 1.7-11

Como fogo que consome totalmente, sua cólera se derrama. Esse fogo não chamusca simplesmente a came; ele a consome totalmente. Além do mais, as rochas são por ele demolidas. Nada se consegue ao tentar refazer uma rocha estilhaçada. Nunca mais ela terá a solidez da matéria que outrora lhe era inerente à natureza. Portanto, qual é sua posição diante da ira do Todo-Poderoso? Como responder à pergunta retórica do profeta? Poderá alguém, ou sua nação, suportar? As per­ guntas de Naum demandam auto-exame apropriado. B. O ALVO ESPECIFICO DO JUIZO DIVINO (1.7-11)

Após introduzir o assunto de Deus como Juiz, o profeta agora pas­ sa à identificação do alvo específico do juízo divino, que é a cidade de Nínive. Ao focalizar sua mira nesta cidade específica como sendo o alvo da ira divina, o profeta põe a severidade da ira divina em contraste com a brandura com que ele trata seu próprio povo. I. Juízo num contexto do cuidado de Deus pelos seus (1.7)

1 o Senhor é bom, é refúgio^ no dia da adversidade e conhece os que nele se refugiam. A mensagem de Naum até este ponto aparece simplesmente em termos negativos. Quase nada se discutiu além de juízo. Mas agora se toma claro que aqueles que se voltam para o Senhor nada têm a temer. Ele é bom, e seu povo desfrutará de salvação abundante. Inclusive o juízo de Nínive deve ser visto pelo prisma do intento de Deus em mos­ trar misericórdia a seu povo. Ele responde à sua súplica por alivio da opressão enviando juízo sobre seus inimigos. Na verdade, deve-se reconhecer que o povo de Deus, seus escolhi­ dos que encontram nele misericórdia, não pode ser identificado mera­ mente como “Israel” segundo a came. De fato, precisamente o contex­ to histórico da declaração de Naum sobre a bondade de Deus para com 1. Cathcart, Nahum, p. 55, segue Dahood ao tratar o prefixo l em l^m ã'ôz como tendo uma força comparativamente igual a min. Neste caso, o significado seria; “Melhor é o S knhor do que um refúgio”. Mas a construção não é muito comum.


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aqueles que ele conhece indica que não se pode aplicar uma definição meramente étnica simplista de “Israel”. Anteriormente, quando Deus tratou dos habitantes de Nínive por meio do ministério do profeta Jonas, indicou que ele podia ser tão misericordioso para com os ninivitas ímpi­ os quanto havia sido para com seu próprio povo. O fato de a Nínive dos dias de Naum ser visualizada como alvo para a devastação não poderia apagar a realidade da misericórdia anterior demonstrada aos habitantes de Nínive em resposta à sua fé e arrependimento. Pois Israel também iria sofrer as violências das devastações pela mesma Babilônia que iria trazer juízo sobre a Assíria. O Senhor é bom - mas somente para com aqueles que nele se refugiam. Esta frase pressupõe não mera fé e confi­ ança no Senhor. Ela reconhece um perigo iminente do qual a pessoa que confia deve buscar escape. A fonte última deste perigo é o próprio Se­ nhor na medida em que manifesta seus justos juízos. Mas o pecador arrependido busca ajuda exclusivamente nele, em mais ninguém. Segundo o profeta. Deus conhece aqueles que nele buscam refú­ gio. Esse “conhecimento” do Senhor deve ser entendido no pleno sen­ tido bíblico de “amor” com o mais intenso cuidado. Quando o profeta Amós declara que Deus “conheceu” Israel dentre as demais nações da terra, ele não poderia estar dizendo que Deus possuía informação cog­ nitiva sobre uma única nação do mundo (cf. Am 3.2). Em vez disso, ele quer dizer que somente este povo tem sido alvo do amor especial de Deus. O Senhor conhece os que nele se refugiam, significando que os ama, cuida deles, trata com carinho seu bem-estar. Este conceito se encaixa muito bem neste contexto, visto que ele fornece um quadro apropriado para a compreensão do juízo iminente de Deus que iria devastar a terra. Por amor de seu povo, como um passo na direção da plena realização de sua salvação. Deus julgaria Nínive e os assírios. “Bondade” em Deus é mais frequentemente associada à fidelidade pactuai (hesed\ c f 2Cr 5.13; 7.3; Ed 3.11; SI 106.1; 136.1; etc.). Parti­ cularmente em associação com a glória de Deus manifestada em sua habitação entre seu povo, declara-se que ele é bom. Aqueles que bus­ cam refúgio no templo de Deus vão descobrir exatamente quão bom e misericordioso ele é.


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NAUM 1.8-11

2. Juízo direcionado especiftcameníe contra a Assíria do século 7® a.C. (1.8-11) 8 Mas, com inundação transbordante, acabará de uma vez com o lugar desta cidade; e seus inimigos ele perseguirá nas trevas. ' 9 Que pensais vós contra o Senhor? Ele fará um completo extermínio; a adversidade não se erguerá segunda vez. 10 Porque, como espinhos entrelaçados, e como (com) bebidas são embriagados,^ assim serão consumidos como restolho totalmente seco. 11 De ti saiu aquele que maquina o mal contra o Senhor, aquele que maquina impiedosamente. Esta seção é particularmente complexa por causa das várias altera­ ções entre sujeitos e objetos. Mas intercâmbio tão rápido não é incomum na literatura profética. O versículo 8 diz que o Senhor acabará de vez com o lugar dessa cidade, ou seja, de Nínive. O versículo 9 pergun­ ta 0 que pensais vós (masculino, plural) contra o Senhor? Evidente­ mente, arrancando uma resposta de fé do povo de Judá. O versículo 10 anuncia que eles serão inteiramente consumidos, fazendo referência ao juízo que deverá cair sobre os habitantes de Nínive. O versículo 11 1. o maqqeph argumenta contra tomar “trevas” como o sujeito, como aparece na LXX e alguns intérpretes favorecem. 2. BDB, p. 685, conclui que este versiculo “provavelmente foi corrompido... e [o] sentido obscurecido”, e sugere que ambas essas palavras em particular deveriam ser apagadas como ditográficas. Mas em hebraico o versículo apresenta um exemplo excelente de aliteração, que dificilmente poderia ser devido à corrupção.


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volta ao pronome feminino singular como no versículo 8, indicando que da cidade de Ninive (feminino, singular) saíra alguém que maqui­ na 0 mal contra o S e n h o r . A referência a este último e misterioso per­ sonagem receberá consideração especial posteriormente. 8. Em tempos anteriores, o profeta Isaias usara as imagens de uma inundação transbordante para descrever o ataque da Assíria contra Is­ rael. O rei da Assíria viria como um rio transbordando sobre suas ri­ banceiras, chegando até o pescoço, com suas “alas” estendidas, co­ brindo a largura da terra (Is 8.7,8). Mas no presente caso a Assíria é que iria experimentar a submersão na maré do dilúvio dos invasores. Fará completo extermínio de seu lugar sugere não apenas que a própria ci­ dade seria destruída, mas que seu lugar se tomaria desabitado e deserto. Um pouco depois da profecia de Naum, esta total devastação se toma a experiência literal de Ninive. Os lugares das cidades como Jemsalém, Damasco e Hebrom foram ocupados continuamente desde os tempos patriarcais até hoje. Mesmo depois de uns trezentos anos após a queda da cidade colossal de Ninive, quem ali passava mal podia suspeitar que a área algum dia fora habitada.^ Não só 0 local, mas também o povo deveria experimentar os horro­ res do Juízo divino. Pois seus inimigos ele perseguirá nas trevas. Da mesma maneira que o local da cidade deveria desaparecer, também seus habitantes virariam fumaça nas bmmas do esquecimento. Trevas, nas Escrituras, simbolizam angústia, terror, pranto, perple­ xidade e pavor.^ Uma combinação de todas essas experiências deveria ser o usufruto final de Ninive por todos os anos em que oprimira e brutalizara as demais nações. O Egito se sentara paralisado enquanto sofria a praga das trevas; a Assíria, porém, teria a maldição adicional de ser perseguida nas trevas. Seu terror seria intensificado à medida que tropeçassem em direção a uma escuridão impenetrável. 3. W. H. Green, editor de Nahum's Prophecy Concerning Ninewh Explained and lllustraied from Assyrian Monuments por Otto Strauss, fiihlical Repertory [1^55), p. 127, observa que Xenofonte eomandou a retirada dos gregos sobre o local de Ninive a menos de 300 anos após a profecia de Naum. e parece não haver suspeitado de que esta grande cidade alguma vez existira ali. 4. BOB. p. 365.


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NAUM 1.8-9

Para pessoas modernas poderia ser difícil imaginar esses terrores, a menos que sejam vítimas dos horrores da guerra moderna. Mas, mes­ mo essas agonias terrenas dificilmente se comparam às trevas exterio­ res do inferno eterno onde os vermes não morrem e o fogo nunca se apaga. A consciência culpada excitada pelos poderes convincentes da palavra de Deus pode realizar uma obra muito mais eficiente do que argumentação racional com o fím de convencer o pecador da realidade desse juízo inevitável por vir. 9. A frase Ele fará completo extermínio é repetida aqui, mas com a ênfase adicional de que é ele (hú’) - o S e n h o r -q u e aniquilaria Nínive. A frase repetida vem em resposta a uma pergunta: Que pensais vós [mas­ culino, plural] sobre o Senhor? O verbo empregado {hãSat) poderia significar ou “pensar” ou “maquinar”. A decisão entre estas duas opções depende da identificação do masculino plural vós e se a força da prepo­ sição (’el) deva ser tomada como “sobre” ou “contra”. Se vós se refere aos habitantes de Israel, então a força da pergunta será: “O que vós, israelitas, pensais sobre o S e n h o r ? Porventura ele vai levantar-se contra seus inimigos?”. Mas se vós se refere aos habitantes de Nínive, então a força da pergunta será: “O que vós, ninivitas, (inutilmente) tramais con­ tra Yahweh? Porventura credes que podereis resistir ao seu poder?”. O significado de uma frase semelhante a essa, que ocorre dois ver­ sículos depois, é claro, mas contém dois outros fatores presentes. E usado o mesmo verbo (haSab), porém uma preposição diferente ('al) liga a ação ao S e n h o r . Além disso, o versículo 11 especifícamente afir­ ma que “o mal” é o objeto do “pensamento” contra o S e n h o r . Quando se compara essa sentença do versículo 11 com a pergunta do versículo 9, as diferenças inclinam a decisão na direção da identifi­ cação do VÓ5 do versículo 9 com os habitantes de Israel. Embora uma grande variedade de sujeitos, objetos e pronomes apareça no contexto, mantém-se certa consistência. Nos versículos 8 e 11, a cidade de Nínive é representada por um pronome singular feminino. No versículo 10, os habitantes de Nínive são representados por “eles”, o pronome da tercei­ ra pessoa do plural. Este mesmo povo poderia ser representado por uma segunda pessoa plural, “vós”, no versículo imediatamente anteri­ or (v. 9). Mas a referência aos habitantes de Israel parece mais apropri-


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ada, particularmente à luz da segurança oferecida àqueles que “se refu­ giam” em Yahweh conforme descrito no versículo 7. Outro fator tem a ver com a mudança de preposições entre os ver­ sículos 9 e 11. “Que pensais vós concernente ao {’el) Senhor?” ( v. 9), confrontado com “aquele que maquina o mal contra o ('a/) S enhor” (v. 11). Enquanto a preposição no versículo 9 pode significar “contra” (cf Gn 4.8; 22.12; Êx 14.5; Nm 32.14; etc.), seu significado mais pre­ dominante é “sobre, concernente a”. Em sentido oposto, conquanto a preposição do versículo 11 possa significar “sobre, concernente a”, é frequentemente usada “em sentido hostil... mui frequentemente, após todos os tipos de verbo expressando ou implicando ataque”.^ Em consequência, a pergunta retórica do versículo 9 tem a inten­ ção de provocar fé em um populacho israelita oprimido. “Que pensais vós sobre o S e n h o r ? Estais seguros de que Deus consumirá totalmente a Assíria, vosso opressor.” Israel precisava ouvir esse tipo de palavra a fim de evocar sua confiança. O S e n h o r , em quem confiavam, lhes da­ ria 0 alívio de seu opressor. Para reforçar a finalidade da libertação prometida pela palavra pro­ fética do Senhor, Naum acrescenta: A adversidade não se erguerá se­ gunda vez (v. 9c). Uma vez sendo esse livramento concretizado, os assírios estariam acabados. De fato, uma grande mensagem de espe­ rança! Todo mundo está familiarizado - familiarizado até demais! com aqueles livramentos que duram tão pouco tempo. Mas o profeta promete o fim deste incessante turbilhão de problemas. Mas, naturalmente, há os babilônios. Os assírios podem ser varri­ dos da face da terra, porém demônios sete vezes piores emergem sob a forma dos opressores babilônios. Esse tipo de problema em entender as promessas proféticas necessita de uma libertação final que quebrará as cadeias dos modelos didáticos do AT. A palavra de Deus é verdadeira, e tudo o que ela diz se concretizará. Em última análise, porém, essa con­ cretização só chega por ocasião da substituição da velha aliança pela realidade da nova aliança. Portanto, no livro do Apocalipse, Babilônia aparece como uma figura da grande força satânica final que se opõe a 5. BDB, p. 757.


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Deus e a seu povo. Esse inimigo, juntamente com o próprio Satanás, será destruído completa e irrevogavelmente. Todas as lágrimas serão enxugadas dos olhos do povo de Deus, e nunca mais conhecerão a opres­ são (cf. Ap 17,18). 10.0 Juízo divino deverá chegar de maneira correspondente à obs­ tinação do pecador. A frase como espinhos entrelaçados, figuradamente descreve a resistência da cabeça e coração duros, característicos dos assírios em relação à autoridade do Deus vivo, único e verdadeiro. Eles transformaram suas vontades numa obstinação tão inflexível que todas as aproximações, até mesmo de Deus, encontravam resistência espinhosa: e como (com) bebidas são embriagados retrata o estupor mortal em que haviam se afundado por vontade própria. Essa obstinação é contrabalançada pelo fogo consumidor da ira de Deus; serão inteiramente consumidos como restolho seco. Nada quei­ ma mais rápido e com maior intensidade do que palha seca. Quanto mais intrincado é o espinheiro mais espontaneamente ele se queima. Se os assírios abandonam o autocontrole ante a bebedice, então perde­ ram todo 0 controle de si próprios e devem converter-se em vapores de fumaça. 11. Esta rebelião obstinada contra a vontade de Deus da parte da cidade de Nínive produziu um líder, um príncipe que converteu a resis­ tência passiva em oposição ativa. O singular feminino traduzido por ti se refere à cidade de Nínive, da mesma maneira que “esta cidade” no versículo 8 da mesma seção. O ventre da perversidade, que é Nínive, produziu uma monstruosidade repugnante, um filho de “Belial”, como expressa literalmente o texto (aqui traduzido por aquele que maquina impiedosamente). E difícil determinar a origem exata deste tenno b^liya'al. Poderia ter se originado pela conjunção de duas palavras: b^lt, “sem”, eya'al, significando “preço” ou “valor”. Um filho de Belial seria o “alguém indigno”. O contexto nas Escrituras, para o uso do termo, aponta con­ sistentemente para uma pessoa que é depravada, desprezível. Uns pou­ cos exemplos podem servir para realçar seu significado e fornecer um arcabouço para a compreensão do uso do termo por Naum. O código Jurídico de Deuteronômio prevê uma situação em que


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“filhos de Belial” poderiam desviar os habitantes de uma cidade, indu­ zindo-os a adorar outro deus (Dt 13.14 [Eng. 13]). Faz-se o uso da mesma frase no livro de Juízes para descrever os homens malignos que exigiam a oportunidade de abusar sexualmente dos hóspedes que per­ noitavam no vizinho, provavelmente com a intenção de colocar a nar­ rativa em termos das provisões da lei deuteronômica sobre os filhos de Belial (cf Jz 19.22; 20.13). Outros exemplos válidos da perversidade dos “filhos de Belial” podem ser vistos nos filhos de Eli, que se em­ panturravam com as partes mais gordas dos sacrifícios e fomicavam com as mulheres que serviam no tabernáculo (1 Sm 2 .12ss.); em Nabal, o insensato rico que recusou ajuda a Davi (ISm 25.3); em Seba, o rebelde arrogante que instigou uma revolta contra Davi (2Sm 20.1); nos dois homens malignos que Jezabel pagou para testemunhar falsa­ mente contra Nabote (1 Rs 21.10,13); e naqueles que resistiram à auto­ ridade de Salomão quando ele era ainda jovem e indeciso (2Cr 13.7). Encontra-se no Saltério o clímax de uma designação profética de um homem a quem adere uma “coisa de Belial”. O salmista descreve um amigo íntimo em quem ele confiava, que o havia traído levantando seu calcanhar contra ele (SI 41.8-9; c f Mt 26.23). Naum é o único dos profetas a usar o termo bH iyaal, e ele o em­ prega duas vezes (1.11; 2.1 [Eng. 1.15]). Este “conselheiro de Belial”, evidentemente, é o rei, o líder do povo perverso. Ele conspira contra o próprio Senhor, e não apenas contra sua nação. Em termos de um indi­ víduo específico, Naum poderia estar se referindo a Senaqueribe, que é descrito em outro texto, nas Escrituras, como aquele que se pôs não meramente contra Israel, mas “contra o Senhor” (2Rs 18.32b-35). Mas, embora Senaqueribe, no tempo de sua invasão à Palestina, em 701 a.C., se encaixe bem no perfil desse “conselheiro de Belial” que saiu de Nínive, a frase é melhor entendida como tendo uma aplicação mais ampla. Não só Senaqueribe, mas todos aqueles reis perversos e líderes dos inimigos do povo de Deus, que vieram da Assíria, exibem as carac­ terísticas daquela figura brutal descrita por Naum. Inicialmente, o tenno b^liya'al tinha uma aplicação ampla, para designar homens geralmente possuidores de um conjunto de caracterís­ ticas malignas. Subsequentemente, o termo se restringiu tanto que pas-


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sou a designar o próprio Satanás, o arquiinimigo de Deus. É usado com este sentido no Testamento dos Doze Patriarcas, na Ascensão de Isaías, no Livro dos Jubileus e nos Oráculos Sibilinos.^Esta aplicação intertestamentária do termo ajuda a explicar sua única aparição no Novo Tes­ tamento, encontrada em 2 Coríntios 6.15. Como o termo entre um total de cinco contrastes, Paulo coloca “Cristo” e “Belial” um contra o outro. Justiça e perversidade não têm nada em comum; luz e trevas não podem associar-se; o crente com o incrédulo não podem comungar; o templo de Deus e o templo dos ídolos não têm nenhum acordo entre si: e Cristo e Belial representam governos de dois reinos diametralmente opostos. O contraste de Paulo representa o clímax do conflito representado em Naum. Uma figura agourenta se encontra por trás do soberano de Nínive, incitando-o em suas determinações perversas. Mas alguém se posiciona contra ele, a contraparte divina à sua posição de poder. É “o Cristo”, o rei ungido que governa em prol do Senhor ao longo dos tempos. Essas duas pessoas e os reinos que representam permanecem em conflito uma contra a outra até que sua peleja seja finalmente resolvida. Portanto, o juízo dirigido especificamente contra a Assíria do sé­ culo 7®representa um momento crítico no programa divino para a per­ severança na redenção de seu povo. O Senhor demonstra, por meio da destruição da Assíria, que a mais poderosa das nações não pode ter sucesso em sua oposição aos propósitos do Senhor. C. O CARÁTER IMINENTE DO JUÍZO DIVINO (1.12-14)

Um tema associado repetidas vezes ao juízo divino sobre os per­ versos, nas Escrituras, tem a ver com a iminência desse juízo. Para os perversos é inútil crer que de alguma maneira poderão tomar-se fortifi­ cados contra as devastações iminentes. Quando todos dizem; “paz e segurança”, então sobre eles vem destruição repentina. Naum ressalta este princípio na presente seção.

6. Maier, p. 200.


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I. Juízo imediato a despeito da força da Assíria (L I 2a) 12a Assim diz Yahweh: Ainda que sejam completos e também numerosos, contudo serão exterminados e passarão. Pela primeira e única vez, Naum emprega o costumeiro Assim diz Yahweh que introduz uma “palavra de Yahweh”. A intenção da frase neste contexto não é remover toda dúvida de que esta é na verdade uma palavra de Deus em contraste com os prévios pronunciamentos de Deus por Naum. Em vez disso, Naum deseja enfatizar a infalibilidade da queda de Nínive e todas as aparências em contrário. A iminência é sublinhada pelo fato de que o Juízo deveria v\x Ainda que sejam completos e também numerosos os assírios. Deus não iria esperar até que o inimigo se degenerasse a um estado de fraqueza antes de dar início à calamidade. Ainda que não fossem fracos, cheios de arrogante autoconfiança. Deus os fará cair ao chão. Israel conhecia muito bem os maciços recursos humanos de que o império assírio dispunha. Conforme 2 Reis 19.35, as baixas que Senaqueribe sofreu totalizaram 185.000 depois de um único encontro com o Senhor fora dos portões de Jemsalém. Nínive era conhecida como a grande cidade que demandava “três dias para percorrê-la” (Jn 3.3). Contudo seu populacho seria segado, exterminado como muitas folhas de capim. As­ sim que a operação da sega começasse, milhares de folhas de capim desa­ pareceriam num instante. A brusca mudança de ''‘serão exterminados" para "passarão" cau­ sa dificuldades. Seria o rei da Assíria que passaria? ou será que a forma singular “é usada com ênfase especial, sendo o numeroso exército açam­ barcado pela unidade de um só homem?”.' O mais provável é que seja ele Deus, aquele que passaria sobre. Da mesmíssima maneira como ele passou sobre a terra do Egito, também agora, uma vez mais, passa­ ria na figura de seu anjo da morte para abater a Assíria. A frase seguin1. Keil, p. 15.


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te apoia esta inteqjrelação por sua declaração da graça de Deus para com seu povo. Embora os afligira, “eu te afligi”, no pretérito (como fizera no Egito), ele não o faria novamente. 2. Juízo imediato como alívio para os sofrimentos de Judá (1.12b-13) 12b Ainda cjue eu tenha te afligido, jamais te afligirei outra vez. 13 E agora a quebrarei b seu Jugo, b e teus laços a rebentarei. Deus jamais é insensível ante os sofrimentos de seu povo, embora possam pensar que ele os tenha esquecido. A fé do salmista permitiulhe reconhecer que lhe fora bom ser afligido, porque antes de ser afli­ gido ele “andava errado” (SI 119.67-71). Até mesmo a duração do tem­ po em que o povo de Deus permanece sob juízo é determinada pelos bons propósitos de Deus para com eles. Mas na hora certa o Senhor livra seu povo. Deus aflige e Deus liberta da aflição. 12b. A afirmação categórica de Naum de que Deus disse "jamais te afligirei de novo" depara com um desafio nos fatos da história, pois embora a Assíria fosse posta fora do caminho de uma vez por todas, a Babilônia e sua perseguição contra Judá vieram logo em seguida. Poder-se-ia pressupor que Naum se referisse somente à aflição pela mão dos assírios. Mas a mensagem de conforto que Naum insinua é bem mais que isso. Possivelmente, o profeta via Nínive como uma re­ presentação típica do inimigo mortal de Israel e sua destruição como um ato final simbólico do juízo divino. Não importa quem seja de fato o inimigo mortal do povo de Deus nas gerações futuras; pode-se ter cer­ teza, por meio da experiência de Nínive, que Deus o destruirá e livrará seu povo. Deus continua essencialmente interessado por seu povo em todas as suas aflições. Quando chegar a hora certa para seu livramento, ele os libertará de toda opressão.


NAUM 1.13-14

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13. E agora reforça a iminência do juízo divino sobre Nínive. Por­ que no misterioso conselho de Deus, por fim o tempo chega para que seu povo seja libertado da aflição; então o juízo contra seus opressores há de ocorrer naquele exato momento. Esse agora não significava ne­ cessariamente juízo naquele preciso instante em que Naum pronuncia­ va as palavras. Mais amplamente nas circunstâncias gerais do dia, po­ rém, o juízo era iminente. Quebrarei seu jugo e teus laços rebentarei pressupõe libertação da dominação estrangeira. Em vez de ser privado da liberdade de usufruir do fruto de suas próprias mãos e terras, Judá participaria de todos os benefícios da graça de Deus. O grande peso de labutar longas horas sob carga excessiva cederia lugar à gloriosa liberdade dos filhos de Deus, cada pessoa vivendo em liberdade para seguir suas próprias ati­ vidades, para a glória de Deus. 3. Juízo imediato como o Senhor decretou (1.14) 14 O S e n h o r deu ordem concernente a ti: Ninguém será propagado portando novamente teu nome. Da casa de teus deuses' e.xterminarei as imagens esculpidas e fundidas; abrirei teu sepulcro; porque não tens nenhuma importância. O indicador decisivo da iminência do juízo divino sobre a Assíria se encontra no estabelecimento do decreto divino. Deus deu a ordem. Uma vez emitido o decreto, este não podia ser revogado. A Assíria podia parecer inabalável, mas a publicação do decreto divino sela seu destino. O objeto singular no masculino (ti) desse triplo juízo poderia pare­ cer referir-se ao próprio rei da Assíria. Assurbanipal (669-627 a.C.), o último grande rei da Assíria, torce para que o filho que o segue honre e I. Riidolph. p. 159 n. 14, pode estar certo ao propor que a referência ao lugar de culto deveria estar no plural: “da casa de teus deuses". Ele sugere que a pluralizaçâo ocorre por causa da construção da frase. Cf. GKC. § I24r.


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NAUM 1.14

preserve seu nome nas inscrições dos edifícios que esculpira, como seu próprio memorial.^ Mas o decreto divino declara que ninguém irá sobreviver para manter seu nome. Ninguém será propagado, evidente­ mente indicando que seus descendentes iriam perecer. Assurbanipal admoesta, nessa mesma inscrição, que todo aquele que se atrevesse a remover seu nome deveria ser julgado por Ashur, Sin, Shamash, Adad, Bei, Nabu, Ishtar de Nínive, a rainha de Kidmuri, Ishtar de Arbela, Urta, Nergal e Nusku.^ Essas divindades mais importantes da Assíria certamente deveriam ser suficientes para garantir a perpetui­ dade do nome do rei da Assíria. Mas o único e verdadeiro Deus vivo, Yahweh de Israel, determinara algo contrário. O nome do rei assírio não seria propagado. Seus descendentes não continuariam sua tradição. Além do mais, as imagens esculpidas e fundidas da Assíria seriam exterminadas. Da mesma maneira que o ídolo Dagom caiu sobre seu rosto em humilhação perante a arca do Senhor (1 Sm 5.2-4), também os deuses poderosos da Assíria seriam reduzidos a nada. Como um golpe final sobre o ego régio. Deus declarou ao rei da Assíria: abrirei leu sepulcro. O fim de sua ilustre carreira deveria exi­ bir a vaidade de seu poder. Como humilhação final de uma cabeça coroada, seu inimigo o sepultaria.“' Assim seria com todos os que se pusessem contra o Senhor e seu povo. Por que esses golpes sucessivos deveriam cair sobre o rei da Assí­ ria? Contrário à ênfase moderna sobre a auto-estima, esta Escritura declara que o rei da Assíria não significava nada, que ele era sem va­ lor. Em vez de ser digno de restauração, ele era vazio, oco, fútil. Sua inutilidade perante Deus assegurou o livramento prometido a Judá, o qual deve ser realizado por sua destruição. Agora, pois, o profeta Naum põe sua vida na linha. De duas pers­ pectivas diferentes, ele se expusera à ameaça de morte.

2. D. D. Luckenbill, Ancient Records o f Assyria and Babylonia (Nova York: Greenwood I927),2.323. n. 838. 3. Ibid. n. 839. 4. Cf. Rudolph, p. 162.


NAUM 2.1-14

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Os poderosos não ficariam satisfeitos com esta mensagem de de­ vastação da Assíria e de seus reis. Um monarca geralmente não fica contente quando um subordinado anuncia uma maldição de morte so­ bre ele. Oficiais subordinados, num reino de marionetes, geralmente ficam mais que felizes em granjear as boas graças de seu senhor, pro­ cedendo à eliminação de qualquer fonte de crítica que porventura sur­ ja. Não há dúvida que Naum poderia esperar o pior. Além disso, Naum se expusera à possibilidade de morte nas mãos de seu próprio povo, ao aventurar-se em anunciar essa profecia tão ousada, pois a lei de Moisés previa que o profeta cujas palavras não se cumprissem, ao prever o futuro, deveria morrer (Dt 18.20-22). Agora, porém, o anúncio público fora longe demais. A palavra de Deus, que possui poder em si mesma de executar o que decreta, agora foi liberada sobre o mundo. Muito embora falada pelos lábios trêmulos de um ho­ mem mortal, essas palavras sacodem os fundamentos inabaláveis dos impérios. Visto que Deus permanece o mesmo, as palavras de Naum conti­ nuam a ter significado para todos os indivíduos, poderes e nações que porventura oprimam o povo de Deus e vivam em perversidade. Deus, de modo 2í\g\im, jamais inocenta o culpado (Na 1.3). Por meio da destrui­ ção do perverso, ele proverá livramento para seu povo.

II. DESCRIÇÃO DRAMATICA DO JUIZO SOBRE NÍNIVE (2.M 4 [E n g . 1.15^2.13]) Naum fora chamado por Deus para insurgir-se contra as potências vigentes. Ele, porém, não se limitou a apresentar seu anúncio profético de qualquer maneira. Ele recorreu a todo o potencial de sua fértil imagi­ nação a fim de comunicar que o poderoso opressor, no momento pairan­ do sobre suas vítimas amedrontadas, seria reduzido a pó. Para dar vida à sua mensagem, o profeta arremessa seu leitor ao coração da batalha entre Nínive e seus agressores vaticinados. O leitor sente o terrível impacto do primeiro sinal de alerta. Estremece ante o estrépito dos carros de guerra que se aproximam. Sente pânico e urgên­ cia de fugir dos guerreiros que rompem as últimas defesas da cidade.


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NAUM 2.1

Contempla com olhos pesarosos os vitoriosos suados e alegres se ati­ rando aos despojos. Esse juízo divino constitui a realidade em carne e osso. Muito pior que a dor, o pânico e a confusão gerados por um bando de soldados saqueadores serão os castigos infligidos pela fúria da ira divina. Terrí­ vel de se ver será a execução divina da vingança pactuai. Naum presta um nobre serviço a toda a humanidade por meio de sua eletrizante descrição do derramamento da ira divina sobre a cidade de Nínive. Mediante essa encenação física muitíssimo concreta do even­ to, ele se aproxima ao máximo daquela descrição consumada do juízo divino reservado exclusivamente para os lábios do nosso Senhor (Mt 13.40-42,48-49). Um mundo tão acostumado a satisfazer os desejos da carne deveria prestar atenção a esses avisos tão vividos antes que fosse tarde demais! O capítulo se encontra naturalmente em três seções seguindo o avan­ ço do cerco e pilhagem da cidade. O primeiro versículo do capítulo situa esta vivida descrição da conquista no contexto da redenção do próprio povo de Deus. INTRODUÇÁO: O ANUNCIO DO JUÍZO CONSUMADO SIGNIFICA JUBILOSAS NOVAS PARA JUDÁ (2.1 [ENG. 1.15]) 2.1(1.15) Eis sobre os montes

os pés do que traz boas-novas, do que anuncia a paz! Celebra tuas festas, ó Judá! Cumpre teus votos, Porque nunca mais Bel ial passará por ti; ele está totalmente exterminado. Olha! Toma nota! Eis que surge mensageiro que traz a palavra de salvação e livramento! Tu o vês sobre o cume dos montes próximos? Ele correu uma longa distância a fim de trazer-te as boas-novas!


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Mais provavelmente, os montes que fornecem a plataforma eleva­ da a esse arauto das boas-novas são as montanhas de Judá, porque é de Judá que se espera a reação à celebração. Esse mensageiro testemunhou a queda de Nínive e se apressa a anunciar a alegre notícia. O opressor de Judá nunca mais o atormentará. É possível que a ênfase sobre os pés do mensageiro seja uma alu­ são à pressa com que ele traz a mensagem. A proclamação pública de paz deve ser tomada em termos de implicações completas do hebraico Sãlôm. A implicação dessa paz consiste na saúde e abundância de bên­ çãos na totalidade da vida. Essa primeira frase do versículo é essencialmente uma citação na íntegra de Isaías 52.7, com a única diferença que Isaías começa dizen­ do: ""que formosos são os pés...”, em vez de ""eis os pés...”. Talvez a imagem criada por Naum de um mensageiro saindo às pressas do meio de uma batalha sangrenta o tenha impedido de fazer alusão à “beleza” desses pés.' Afinal de contas, seria correto alegrar-se com a devastação do ini­ migo? Seria a derrota esmagadora de Nínive, Juntamente com toda sua grandeza, motivo suficiente para celebração entre o povo de Deus? Uma cegueira sentimentalista ante as realidades da história tropeça nesse tipo de questionamento acadêmico. Veja-se, porém, um trecho dos anais de Assurbanipal II, datado do século 9®a.C. Observem-se os itens de realização (mostrando alguma imaginação), os quais esse mo­ narca de Nínive sentiu serem dignos de serem gravados em pedra: Eu construí uma coluna sobre a porta de sua cidade, esfolei todos os principais homens que haviam se revoltado e cobri a coluna com suas peles; forrei a coluna com algumas e outras espetei em estacas sobre a coluna, e ainda outras fixei em estacas ao redor da coluna; esfolei muitos dentro de minha própria terra e espalhei suas peles sobre os muros; e cortei os membros dos altos oficiais, dos altos oficiais reais que haviam se rebelado (linhas 89ss.). 1. Surpreendentemente, Rudolph. p. 163, nega que Naum tenha dependido de Isaías ou vice-versa. Contudo, a fraseologia é tão notavelmente semelhante que é difícil imaginar os dois profetas chegando independentemente à mesma forma de expressão.


no

NAUM 2.1

Muitos dos cativos dentre eles queimei na fogueira, e a muitos cap­ turei vivos. De alguns cortei as mãos e dedos, e de outros cortei os narizes e orelhas... e os olhos de muitos dos homens arranquei. Eu fiz um monturo dos vivos, e de outros amarrei as cabeças nas vi­ nhas ao redor da cidade. Os rapazes e as moças queimei na fogueira (linhas llóss.).Esses tipos de atrocidade internacionais foram cometidos pelos reis da Assíria ao longo dos séculos. Deus respondera com maravilhosa graça ao comissionar Jonas para pregar nessa grande cidade. Por algum tempo, o arrependimento caracterizara sua reação ao anúncio de juízo. Mas Já no tempo de Naum se tomaram uma vez mais de coração empedernido con­ tra os apelos de Deus e do homem. Não surpreende que o povo de Deus fosse convocado por uma visão enviada de Deus para festejarem a derro­ ta desse inimigo recalcitrante da humanidade, bem como de Deus. Especificamente, pela citação dessas mesmas palavras, o crente da nova aliança é também convocado a participar dessa celebração da sal­ vação (Rm 10.14-15). E verdade que Paulo cita Jsaías: “Quão formo­ sos são os pés...”, em vez de Naum: “Eis sobre os montes os pés...”. Mas a essência da citação é a mesma, um profeta dá expressão ao lado positivo do livramento, e o outro ao lado negativo. Esse equilíbrio de perspectivas é vital para uma avaliação correta do ministério dos pro­ fetas, visto que a salvação do povo de Deus é anunciada regularmente em associação com a destruição dos inimigos de Deus. Um exame mais acurado do uso que o Novo Testamento faz deste anúncio que conclama à celebração deixa claro que a intenção de Paulo é enfatizar o significado de Deus enviar um mensageiro a difundir esta palavra: “Como, porém, invocarão aquele em quem não creram? E como crerão naquele de quem nada ouviram? E como ouvirão, se não há quem pregue? E como pregarão, se não forem enviados? Como está escrito: Quão formosos são os pés dos que anunciam coisas boas!” (Rm 10.1415). O povo de Deus não recebe o encargo de efetuar sua própria liber­ tação. Em vez disso, eles são informados de que devem crer no que lhes é declarado como um ato de Deus a seu favor. 2. Como citado em Roux. Ancient Iraq, p. 263.264.


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Se Israel confiasse na mão da graça divina para libertá-los do cas­ tigo da servidão, que eles mereciam, poderiam esperar continuar a des­ frutar a liberdade dada pelo Senhor. Sua libertação dramática e repen­ tina das mãos da Assíria, em cumprimento desta profecia graciosa, devia convencer o povo de que somente a mão de Deus é que provocaria sua libertação. Como essa mensagem de Naum é gloriosa! Libertação das mãos do opressor viria ao povo de Deus por meio da soberana intervenção, ainda que o pecado de seu povo os conduzisse a esse estado calamito­ so. Quão gloriosa seria a chegada do livramento! Em virtude das mais amplas estruturas histórico-redentoras da Es­ critura, esse livramento da opressão da Assíria pode ser entendido como uma representação microcósmica do livramento de toda opressão que vem como consequência do pecado, de Satanás e da morte. Num con­ texto veterotestamentário, essa opressão encontra sua manifestação mais plena nos impérios que se levantam em oposição ao reino de Deus. A visão de Daniel dos sucessivos impérios que por fim desabariam em virtude da força da “pedra cortada, sem auxílio de mãos” (Dn 2.45), começa com Babilônia. A Assíria, porém, que historicamente era o pre­ decessor imediato de Babilônia, se enquadra no mesmo padrão redentorhistórico. Tem-se desenvolvido alguma discussão sobre o tema de como a mensagem de Naum se relaciona com o contexto da nova aliança. Essa discussão, naturalmente, gravita em tomo desses versículos em parti­ cular, com sua referência a os pés do que anuncia boas-novas. A luta de Martinho Lutero com esta questão é refletida em sua interpretação desta passagem de Naum em relação a Cristo: “não há nenhuma outra passa­ gem neste profeta que podemos tomar em relação a Cristo senão esta”.^ Mais detalhado em seu tratamento do lugar da mensagem de Naum em relação ao evangelho da nova aliança é William Henry Green, um dos teólogos mais antigos de Princeton. Green observa a relação entre Naum 2.1 (Eng. 1.15) e Isaías 52.7, em que a libertação do cativeiro 3. Luther's Works. ed. Hilton C. Oswald (St. Louis: Concordia. 1975), 18:295. Cf. mais comentários em Maier, p. 219 n. 2.


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NAUM 2.1

babilónico é ligada mais imediatamente à obra redentora de Deus em prol de Israel. Ele chama a atenção para a metodologia distintiva dos escritores das Escrituras, “por meio dos quais os termos e expressões basicamente descritivos da queda de um poder hostil se aplicam de for­ ma permutável àqueles outros”."*Ele conclui que Naum aplicou as pala­ vras precisas de Isaías sobre a libertação das mãos de Babilônia à der­ rota da Assíria como um modo para “chamar a atenção para a relação que realmente subsiste entre os dois eventos, como sendo em essência realmente única”.’ Green observa que Paulo repete esta mesma lingua­ gem em Romanos 10.17, e assim sugere “uma unidade inata entre a mensagem que anunciava a queda daqueles grandes poderes persegui­ dores e 0 levantar daquele Reino que irá finalmente suplantá-los”.* Esta perspectiva mais ampla da mensagem de Naum em relação aos propósitos divinos histórico-redentores em vigor fornece um arca­ bouço muito mais amplo para uma transferência de valores dessas pa­ lavras para o contexto do Novo Testamento. Como sumariado por Green, “Assim as predições de Naum têm um significado para todos os tem­ pos futuros, enquanto perdurar sequer uma partícula em que sobreviva 0 espírito de Nínive - qualquer um que tenha herdado a criminalidade e hostilidade contra o povo de Deus. O destino de Nínive se juntará em substância, se não em forma, a todos os seus sucessores. Enquanto o último adversário de Deus e da salvação humana não for fmalmente vencido, ela em sua plena essência não se cumprirá”.^ O anúncio glorioso da queda de Nínive e a consequente libertação de Judá levam o profeta a convocar o povo de Deus a celebrar e consa­ grar. A admoestação é dirigida especificamente a Judá como aquela porção do povo de Deus que estava vivendo debaixo do Jugo da opres­ são assíria. Individualmente, e como nação, eles devem observar um padrão de celebração.

4. Green. publicação de Nahum s Prophecy Concerning Nineveh Explained and lllusiraled from Assyrian Momimenis por Olto Strauss, Biblical Repenorv 11 ( 1955), p. 131. 5. ihid 6. Ibid., p. 132. 7. Ibid.


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Mas esta explosão de comemoração nacional não deve ser entendi­ da de fonna secularizada. São as festas e os votos ordenados por ins­ trução divina que fornecem um arcabouço estruturado para a vida triun­ fante a longo prazo. Não era para o povo de Deus celebrar como se celebra um festival de solstício de inverno “Feliz Ano-Novo!”, com muita fantasia e barulho e, em última instância, sem sentido. Em vez disso, eles deveriam corresponder à redenção por meio de uma renova­ da consagração ao Senhor. Essa celebração não seria acompanhada de ressacas ou lamentos sóbrios. Talvez certo elemento de dever esteja envolvido nas convocações para as celebrações. E uma obrigação do povo de Deus prestar um ser­ viço completo de ações de graças pelo livramento de suas misérias. Em termos concretos, as três festas anuais de Israel e as correspon­ dentes de sua nova aliança podem ser consideradas como veículos na­ turais pelos quais o povo de Deus pode dar vazão à sua contínua alegria pela salvação. A refeição da Páscoa, que encontra sua correspondente na celebração da Santa Ceia do Senhor, lembra o anjo da morte que “passou sobre” em virtude do sangue substitutivo do Cordeiro. Todo o poder do último inimigo foi destruído. A festa do Pentecoste, que corres­ ponde à realidade do derramamento do Espírito Santo na nova aliança, celebra a novidade e a plenitude da vida outorgada graciosamente aos redimidos. O fruto do Espírito na experiência diária de uma pessoa for­ nece motivo contínuo de celebração. A festa da colheita, das Tendas, lembra a abundância de provisões que Deus faz a seu povo, mesmo enquanto continuam sua jornada pe­ regrina. Uma colheita abundante num contexto de habitação em tendas humildes combina imagens que definem os lados contrastantes da rea­ lidade presente. Se eles aceitarem esses dois fatos da vida redentora, o povo de Deus, pela fé, deve estar apto a celebrar continuamente a bon­ dade do Senhor a despeito de numerosos empecilhos. Sob a perspectiva da velha aliança, votos podem envolver os com­ promissos pactuais da nação ou votos voluntários derivados de bên­ çãos pessoais, obrigação ou necessidade. Mas uma vez que um voto tenha sido feito, ele deve ser cumprido. Jacó fez um voto de pagar o dízimo ao Senhor (Gn 28.22) e Jefté fez um voto de consagrar sua filha


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NAUM 2.1-8

ao serviço do Senhor (Jz 11.30-31). Uma vez que tais compromissos foram feitos, seria pecado voltar atrás. Mas, por causa de uma consci­ entização contínua da libertação de tais opressões maciças, como aque­ las infligidas pelos assírios, o cumprimento desses compromissos de­ veria tornar-se um modo jubiloso de vida em vez de algum fardo pesa­ do de se carregar. A razão final para uma celebração que pode ser mantida ao longo dos anos está contida na última frase do versículo. Nunca mais Belial passará por suas terras, porque ele é totalmente exterminado. O instru­ mento de tirania de Satanás assentado no trono da Assíria nunca mais será visto outra vez. Sua derrocada é absolutamente permanente. Nenhum livramento pode ter muito motivo de celebração se ele não tiver este elemento de pennanência. Se Judá ainda esperasse que o ditador da Assíria fosse voltar no ano seguinte, “no tempo em que os reis costumam sair para a guerra” (2Sm 11.1), sua celebração dificil­ mente poderia ser muito animadora. Mas, por causa da permanência desse livramento, eles podiam regoziJar-se sem restrições. O evangelho cristão fornece o quadro mais completo possível para celebração de vitória. A morte perdeu seu aguilhão. O crente morreu para o pecado. A perda de toda possessão material não passa de tempo­ rária, e logo será substituída pela permanência dos novos céus e nova terra. As celebrações, por meio do cumprimento dos votos de uma vida cristã, estão sempre em vigor. A. A CIDADE E TOMADA (2.2-8 [ENG. 1-7]) O profeta prossegue com sua mensagem contínua da destruição de Nínive. Agora, porém, ele passa a uma descrição detalhada do cerco da cidade. Se o leitor sentir-se tentado a questionar o valor edificador de tal descrição imaginativa da destruição de uma cidade antiga, João Calvino fornece a resposta: “este acúmulo de palavras de modo algum foi em vão; pois era necessário confirmar, por meio de muitas palavras, a fé dos israelitas e dos Judeus com respeito ao tempo próximo à destrui­ ção da cidade de Nínive, que de outra forma seria incrível”.' I . Calvino, p. 463,464.


NAUM 2.2-3

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Deve-se lembrar que este relato detalhado do cerco e da queda de Nínive foi escrito apenas algumas décadas antes do evento propria­ mente dito. O arranjo e o estilo da composição eram Justamente o tipo de material que poderia ter funcionado bem para elevar a fé de um povo oprimido. /. O anúncio do cerco iminente (2.2-3 [Eng. 1,2]) 2(1) Aquele que espalha subiu contra ti. Guarda a fortaleza! Vigia o caminho! Fortalece os lombos! Reúne todas as tuas forças! 3 (2) Porque o S e n h o r restaurou a eminência de Jacó, como a (antiga) eminência de Israel; porque saqueadores (uma vez) os saquearam; evacuadores evacuados; e destruíram cada um de seus tenros brotos. 2 (1). Ao longo de muitas décadas passadas os assírios foram os grandes dispersadores dos povos e nações. Agora, de repente, ficavam face a face com um adversário que tinha a intenção de acabar com eles da mesma maneira como deram cabo de outros. Estas palavras, aquele que espalha, poderiam referir-se ao próprio Deus, tendo Nínive como adversária. Mas é mais provável que a referência seja ao soberano iras­ cível que iria equiparar-se aos reis assírios em sua brutalidade. Os quatro imperativos em disparada sucessão {Guarda! Vigia! For­ talece! Reúne!) desafiam os ninivitas a se porem em alerta e a lançar mão de todos seus recursos em sua defesa. O método de Satanás pode ser destruir ferindo o calcanhar. Mas a semente da mulher, levantada por Deus, golpeia mortalmente sua cabeça. A razão para esta devastação divinamente engendrada se encontra na devastação anterior de Israel pela Assíria. Nínive saqueara ou des­ truira todo o remanescente da glória de Israel.' Ela não deixou nada. I. A palavra hebraica que significa '‘esvaziar" (büqaq) pode refletir pwr meio de sua pro­ núncia o significado do termo. A enunciaçâo do substantivo relacionado (baqbuq, “cantil”) se aproxima do som de gorgolejo que uma garrafa faz quando esvaziada. Cf. BDB, p. 132.


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NAUM 2.3-5

nem sequer um broto novo, uma vara, que pudesse dar sinal de um possível retomo da glória do povo de Deus. Então Nínive iria experi­ mentar um destino semelhante. Retribuição divina, restituição em per­ feita equidade sobreviria aos brutais habitantes de Nínive. 3 (2). No caso de seu próprio povo, o Senhor faz o impossível. A eminência que uma vez pertenceu a Israel em tempo da mais elevada glória deveria voltar ao seu apogeu. O contraste entre a eminência ou glória de Jacó e a de Israel não é um contraste entre a majestade relativa dos reinos do sul e do norte. Em vez disso, o contraste é entre o tempo da glória de Israel sob a monarquia unida e o tempo da humilha­ ção da nação quando ela enfrentava os Juízos divinos deixando intacta apenas Judá. Naum prevê um dia em que o mesmo tipo de transforma­ ção ocorrida com o patriarca Jacó caracterizará a nação como um todo. O desvio, 0 lado jacobita do povo, os levou à sua devastação. Mas deveriam experimentar plenitude de restauração, e se deleitariam em ver novamente o soerguimento do reino em toda sua glória. 2. Aproximação dos assaltantes (2.4-5 [Eng. 3-4]) 4 (3) a Os escudos de seus homens poderosos b (são) vermelhos; a os homens de força b (se) vestem de escarlata, a Cintilante com metal b (é) o carro c em seu dia de prontidão; a e vibram b as lanças de cipreste. 5 (4) a Nas ruas b os carros passam furiosamente; b e se arremessam a nos lugares amplos. a Sua aparência' I. O sufixo feminino plural “delas” é particularmente problemático, visto que ele quase certamente se refere ao(s) “carro(s)", um termo que em outros lugares é masculino (como


NAUM 2.4

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b é como tochas; h como relâmpago a passam velozes. “Domínio total do terreno” pode ser uma frase que capta o impacto desta descrição da aproximação dos assaltantes de Nínive. Eles não chegam perto da cidade como uma massa desorganizada incapaz de coordenação. Ao contrário, demonstram plena utilização das mais modernas e mais sofisticadas estratégias de guerra. 4 (3). A referência a escudos vermelhos pode ser interpretada de várias formas. Eles podiam parecer avermelhados por causa do sangue das vítimas nos conflitos passados ou pelo reflexo do sol num escudo de cobre, ou pelo uso de uma tintura decorativa. Mas o contexto do assalto determinado por um adversário mais poderoso pressupõe que essa vermelhidão era proveniente do sangue da resistência empreendi­ da por Nínive. O fato de que o exército assaltante ainda não invadira de fato a cidade, não impedia escaramuças preliminares à medida que os territórios próximos da cidade entravam em disputa. De qualquer maneira, esses escudos avermelhados serviam como terríveis presságios da sentença em via de ser executada sobre os habitantes de Nínive. Um vennelho mais brilhante, uma escarlata flamejante caracteriza os uniformes do invasor. Cintila o metaP possivelmente se refira a uma cobertura de metal, que fazia o carro quase impenetrável. Esses veícu­ los fabulosos são conduzidos por soldados portando lanças de cipreste, cujo comprimento, resistência e flexibilidade as tomavam quase im­ possível de repelir-se. Em seu dia de prontidão é uma referência ao dia de Deus. Sua longanimidade para com a brutalidade dos ninivitas chegara ao fim. Agora ele prepara seus instrumentos de vingança, de modo que eles estariam armados até os dentes. Nada poderia deter seu ataque. na frase seguinte: “eles [masculino plural] correm como relâmpago” ). Possivelmente, o sufi­ xo pode ser tomado como se fosse neutro, e pode referir-se aos carros e a tudo mais neles (Keil, p. 21). .Viaier. p. 245, observa que “carros” é coletivo, e que muitos coletivos sâo considerados como abstratos e. portanto, femininos. 2. Literalmente, “fulgura como metal”. A frase pode referir-se à placa metálica decorativa ou protetora ao reluzir à luz do sol. Para as numerosas outras propostas relativas a esta frase, em sua maioria envolvendo emendas textuais, ver Maier, p. 240.


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NAUM 2.5-6

5 (4). Mas para onde esses veículos de devastação estão correndo como o refulgir do relâmpago? A derrubada dos muros ainda não ocor­ rera, então eles não estão defendendo a parte interna da cidade. O mais provável é que as imagens tenham a intenção de representar o passo intermediário de aproximação da força atacante. Sendo temidos a dis­ tância, quando os ricos uniformes brilhantes se avizinhavam, eles ago­ ra podiam ser observados de mais perto. Haviam se apossado imedia­ tamente de todo terreno fora dos muros da cidade. Estradas dos subúr­ bios e cruzamentos de intersecções a caminho dos vários portões da cidade estão agora totalmente sob ocupação. A última resistência re­ cuou para a segurança detrás dos muros da cidade e a amedrontadora carruagem do inimigo se apressa, tomando toda via de escape possível. Da mesma maneira, todos os inimigos de Deus podem ser conside­ rados como que encerrados à espera do julgamento do grande Dia. Nenhum escape da espada da vingança pactuai é possível. 3. Resistência dos habitantes (2.6 [Eng. 5]J 6 (5) Ele lembra seus nobres! Eles tropeçam em sua fuga apressam-se para chegar a seu muro, mas a cobertura (do cerco) está preparada. Até este ponto, a descrição se concentra na aproximação do adver­ sário. Agora, porém, apresenta-se a imagem dos ninivitas em pânico, em um rápido clarão. O rei da cidade (aquele que se lembra de seus nobres) chama por seus bravos defensores, dando-lhes ordem de defender-se do inimigo.' Com um duplo traço de ironia, Naum descreve esse poderoso monarca que assiste incrédulo o avanço do ataque sobre sua 1. Rudolph. p. 167,168, observa que o sujeito do versículo 6 não pode ser o agressor dos versículos 4-5, visto que a imagem do versículo 6 é de uma tropa que chega tarde demais. Ele conclui que o sujeito do versículo 6 é o rei da Assíria.


NAUM 2.6-7

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cidade e repentinamente recorda que conta com esses excelentes no­ bres soldados para defendê-lo.^ Mas os defensores não estão à altura de enfrentar o desafio. Eles tropeçam em seu caminho para chegar ao lugar de defesa, o muro da cidade. Então descobrem que é demasiado tarde para repelir aqueles que estão levantando o armamento do cerco. O cerco já está feito, e já começam as incessantes pancadas nas paredes. Como poderá esse povo proteger-se contra o Todo-Poderoso, quan­ do ele se ergue contra eles? Mesmo seus juízos temporais são irresistí­ veis. Uma flecha atirada no calor da batalha encontra seu alvo quando a providência divina marca o ponto (ver 1Rs 22.34). Quanto mais cer­ teiro não é o fato de Deus haver marcado o Dia no qual o povo será julgado por Jesus Cristo, aquele que ressurgiu dos mortos? Ninguém poderá escapar do divino escrutínio associado a esse Dia. 4. A entrada é conquistada (2.7 [Eng. 6]) 7 (6) a As comportas dos rios b se abrem, a e o templo b é derretido. A expressão as comportas dos rios se abrem tem sido interpretada de várias maneiras. Poderia referir-se ao acesso facilmente conquistado através das defesas da cidade que naturalmente seriam mais difíceis de atacar. Se esta interpretação for correta, então aqueles portões específi­ cos, que davam acesso ao fosso em certas partes da cidade, de alguma maneira se tornariam a mesmíssima rota através da qual este exército invasor iria derrubar o muro. O ponto de maior fortaleza se tomaria o lugar de maior fraqueza. E mais provável que as comportas dos rios se refiram às compor­ tas que teriam primeiramente sido fechadas pelos invasores e depois abertas para inundar o muro da cidade, quebrando-o. Esta interpreta­ ção corresponde essencialmente ao testemunho de Diodoms Siculus, 2. Ihid.


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NAUM 2.7-8

antigo historiador grego, que indica que durante a queda de Nínive uma série de pesadas chuvas inundou o rio Eufrates (tomado erronea­ mente como o Tigre), inundou partes da cidade e derrubou o muro por uma extensão de cerca de três quilômetros (vinte estádios).' Esta análise associada aos eventos da queda de Nínive também coincide com a sentença seguinte, de que o templo é derretido. Muito embora esta expressão aparentemente possa ser tomada em sentido fi­ gurado, em razão da impossibilidade da inundação da área do palácio de Nínive, a linguagem seria uma alusão apropriada a um episódio de inundação. A concentração de Naum na queda do templo ou palácio é perti­ nente. Aqueles brutais monarcas assírios que haviam dominado tantas vidas humanas por centenas de anos não mais teriam palácio para resi­ dir na face da terra. 5. A cidade cai (2.8 [Eng. 7]) 8 (7) Está estabelecido! Ela está despida! Ela é levada! E suas servas — gemem como a voz de pombas, batendo em seus peitos. Não poucas versões e comentaristas propõem que a primeira frase desse versículo deva ser tomada como uma referência ao nome de “Huzzab”, uma rainha de Nínive.'“ Mas o contexto de modo algum faz a menção de uma rainha assíria de outra forma desconhecida. A primeira palavra da frase do versículo (hussab) é uma forma de perfeito passivo de uma raiz que significa “fixar”, “estabelecer” ou 1. Diodorus Siculus, Bibtiolheca Histórica. 2.26. Cf. Cathcan, Nahum, p. 96; Laetsch p. 298.299. Ia. Rudolph, p. 168, chamou as primeiras palavras deste versículo “eine crux interpretum erster Klasse”. Maier, p. 259-261, lista doze opções diferentes para o entendimento do primeiro termo. A solução mais simples é tomar a palavra como se derivando da raiz wsb. Maier discorda da tradução da RV, “está decretado”; contudo cita Deuteronômio 32.8 e Salmo 74.17, nos quais as mesmas palavras parecem claramente significar: “ fixar, decretar”.


NAUM 2.8-n

121

“determinar”. A destruição de Nínive está determinada pelo Todo-Poderoso, e assim se pode anunciar com o gosto imaginativo exibido por este profeta designado. Assim é, e assim será sempre em relação a to­ dos os inimigos de Deus. Agora despida e levada para o exílio por uma política internacio­ nal pela qual um dia a Assíria se fez famosa, nada é deixado da grande atividade da outrora grande cidade. Nada. ou seja, exceto os gemidos de um pequeno grupo de servas. Como uma expressão da mais profun­ da agonia e emoção sincera, elas batem em seus peitos no desespero ante sua habitação outrora gloriosa. Assim, este grande conglomerado de corrupção chega a seu fim determinado. O povo de Deus sofrerá muito nas mãos do reino da Assíria em razão de seus próprios pecados. Mas, finalmente, o mensa­ geiro do Senhor é enviado para proclamar as boas-novas. A destruição da cidade perversa é tão certa que o profeta pode usar todos os poderes de sua imaginação descritiva a fim de descrever a certeza da queda da cidade. B. A CIDADE E SAQUEADA (2.9-11 [ENG. 8-10]) 9 (8) Ninive (tem sido) como um açude de águas desde seus dias (antigos). Contudo estão fugindo. Parai! Parai! mas ninguém nem mesmo otha para trás. 10(9)« Saqueai b a prata, a saqueai b o oum! Pois não há fim em seus ricos tesouros com todo vaso desejável 11 {\Q) Destruição, devastação, dizimação! a E o coração b se derrete;


122

NAUM 2.9

a

05 joelhos

h vacilam, b Convulsão em todos os lombos a e todos os rostos b e em rosto de todos a se concentra a palidez. O profeta continua sua vivida descrição da destruição iminente de Nínive. Os sitiadores foram vistos de muito longe. Avançaram até o muro onde os habitantes aterrados se aglomeraram numa resistência digna de dó. O muro foi quebrado e a cidade, tomada. Agora a cena se move em direção aos confins da própria cidade. Todo habitante, com os olhos esbugalhados de pavor, com os rostos cinzentos de ansiedade, fogem para salvar suas vidas. Os atacantes mergulham no ouro e na prata de seus despojos. A mais rica de todas as cidades do mundo é rapidamente deixada vazia, deserta e desolada, com toda sua grandeza dizimada. 9 (8). A comparação de Nínive com um açude de águas pode ser interpretada de muitas maneiras.' A imagem poderia pressupor um açu­ de imponente, um açude vazando ou um açude transbordando. A frase incomum, desde seus dias (antigos), pressupõe uma recordação da an­ tiga glória da cidade. Uma emenda proposta para essa frase, com base numa suposta ditografia, resulta numa sentença bastante sem sentido: “Nínive é um açude de suas águas”.^ O pressuposto de que o pronome “ela” ou “dela” { h t j deva ser lido como um substantivo raro, significando “lamentação” {hi), como em Ezequiel 2.10, parece ser uma busca acirrada por signi­ ficado.^

1. Para uma discussão do problema associado com este versiculo, ver Carl E. Armerding, “Nahum”, The Expositor's Bible Commentary (Grand Rapids: Zondervan, 1985), 7:47778. A despeito de sua objeção à obscuridade do TM, esta parece ser a melhor alternativa. 2. Cf. Maier, p. 265. Rudolph, p. 169, propõem a emenda mimmenná, (um açude) “do qual” vaza água. 3. Contra Maier, p. 266.


NAUM 2.9-10

123

A imagem de um açude antigo e imponente combina bem com a circunstância da cidade de Nínive. Ao longo dos tempos, ela fizera ple­ no uso de seu ambiente natural, o que toma seu desaparecimento da face da terra ainda mais notável. Agora que o muro é derrubado, os habitantes entram em pânico. Aqueles que haviam cuidado de perseguir pessoas por mero prazer, de repente descobrem o terror de ser o próprio perseguido. Parai! Espe­ rai! Alguém lhes grita. Eles, porém, não se atrevem a perder sequer uma fração de segundo em olhar por sobre seus ombros. A debandada é geral. A justiça prevalece. Aqueles que haviam en­ riquecido aterrorizando os outros, agora se encontram empobrecidos e aterrorizados. 10 (9). Os reis da Assíria se gabavam reiteradamente em seus anais dos tesouros maciços recolhidos por eles durante o assalto a outras nações. Por duzentos anos, desde o tempo de Assurbanipal II (884-824 a.C.) até 0 tempo de Senaqueribe (705-681 a.C.), os inventários grava­ dos em pedras relatando os tesouros tomados de todas as outras nações continuam infmitamente. Não só por meio de despojos confiscados no tempo em que uma nova nação era conquistada, mas por meio dos tri­ butos anuais, a riqueza de Nínive cresceu além de toda e qualquer pro­ porção calculável.'' Entalhados em pedra, os anais dos soberanos da Assíria mencionam: Carros equipados para homens e cavalos; Numerosos talentos de prata, ouro, chumbo, cobre e ferro; Vestimentas de cores vivas de todo tipo de tecidos; Terrinas douradas, canecas douradas, cálices dourados, cântaros dourados; Camelos, bois, elefantes, macacos, bugios; Divãs de marfim incrustados e adornados com Joias; Pele de elefantes, cordeiros, pássaros, cavalos, mulas, gados, car­ neiros, camelos.

4. Ver Maier, p. 267-270, para uma amostra da lista de despojos dos vários reis da Assiria.


124

NAUM 2.11

A menção de todo vaso desejável antecipa a referência profética subsequente ao dia em que o “desejo de todas as nações” fluir para o próprio Senhor (Ag 2.7). Os tesouros do mundo podem mudar das mãos de um conquistador para outro conquistador. Mas por fim eles fluirão para as mãos exclusivamente dele. Toda a glória de toda a riqueza de todas as nações lhe será consagrada. 11 (10). Na linguagem original, é evidente o Jogo com as palavras, e efetivamente fornece a ideia do ritmo de devastação executada pela invasão. As duas primeiras palavras são formas substantivadas de búq ou bãqaq, significando “esvaziar”. A terceira palavra constitui um subs­ tantivo formado do particípio Pual de bãlaq, significando “destruir”. Cada palavra sucessiva é ligeiramente mais longa do que a anterior, de modo a criar um ritmo crescente que reforça a mensagem. Os primei­ ros dois termos ocorrem somente no Antigo Testamento, e o terceiro, em outro lugar, só aparece em Isaías 24.1, em que é relacionado outra vez com o verbo bãqaq. A reação humana a toda essa devastação é previsível. No espírito e no corpo, o terror dos eventos paralisa os ninivitas. O coração se der­ rete, os joelhos vacilam, e os lombos convidsionam. Calvino resume bem o efeito da pulverização das defesas assírias: “Não há nos homens nenhuma coragem, exceto quando Deus lhes supre com vigor. Tão logo ele retira seu Espírito, aqueles que antes eram os mais valentes, seu coração desmaia; e aqueles que resfolegavam grande ferocidade, tor­ nam-se fracos e frágeis”.^ A última frase desse versículo é especialmente difícil. Obviamente, a intenção é descrever o efeito do terror nas faces dos ninivitas. O cora­ ção, osjoelhos e os lombos, todos têm sido descritos em termos familia­ res, segundo as experiências comuns da humanidade. Corações se derretendo, joelhos batendo um no outro, lombos em convulsão. E as faces... bem, elas têm acumulado algo. Mas, o que elas têm acumuladol A frase ocorre de maneira virtualmente idêntica em Joel 2.6, e o contexto é semelhante. Mas o significado permanece obscuro. O significado dos radicais (pV) se relaciona com a ideia de “beleza” e 5. Calvino, p. 471.


NAUM 2.11-14

125

“glória”. Mas, obviamente, as faces, neste contexto, não se tomam ra­ diantes de “glória”. Provavelmente a ideia consiste em que as faces se tomam “empalidecidas”, transparentemente descoradas pelo medo. Sua ausência de cor apresenta uma imagem de irradiação de palidez. Esse olhar pálido não faz parte dos matizes de um rosto humano natural, mas os adquiriu ou os desenvolveu em decorrência de assistir o ambiente de devastação em sua volta.* De qualquer modo, a figura pulsa com a realidade da situação. O terror reina de todos os lados. Eles, que por gerações criaram um modo de vida para causar medo nos corações dos outros, agora conhecem, pela primeira vez, os horrores do juízo divino. C. A CIDADE É HUMILHADA (2.12-14 [ENG. 11-13])

I. Uma canção de escárnio à cidade (2.12 [Eng. II]) 12(11) Onde (está) agora a o covil b dos leões a e aquilo que era o lugar do repasto h dos leõezinhos? a Aquele lugar onde b passeavam o leão, a leoa b o filhote do leão, c sem que ninguém os espantasse? Tendo completado essa descrição vivida do cerco e da queda de Nínive, 0 profeta agora zomba da força ilusória da cidade (v. 12 [Eng. 11]), relembra a voracidade brutal com que ela selara seu destino (v. 13 [Eng. 12]) e deixa o Senhor mesmo falar a palavra final de sua conde­ nação (v. 14 [Eng. 13]). Todo este material é apresentado sob a ima­ gem de um covil de leões ferozes. O covil dos leões obviamente é a imagem unificadora do versículo. 6. A sugestão de que a frase significa “amontoa negrura”, baseada na referência a um pote ipSrúr) que foi “enegrecido", e.xtrapola um tanto a imaginação. Cf. Laetsch. p. 305; Maier. p. 275,276.


126

NAUM 2.12

Os pronomes {hû e ’“Ser), bem como o advérbio (Sãm), todos apon­ tam de novo para o covil dos leões. Nínive, uma vez fora o santuário inviolável de reis conquistadores, de rainhas orgulhosas e de descen­ dência da nobreza. Mas as honras associadas com a nobreza pregressa não mais exis­ tiam. O ferrão da canção de zombaria não pode ser evitado. Onde está agora esse lugar outrora grande, esse santuário dos reis? Seu lugar já não mais existe. Extremamente apropriada é a imagem de um covil de leões para a realeza de Nínive. A realeza frequentemente encomendava altos rele­ vos entalhados em pedra sempre com muitos leões. Os reis de Nínive frequentemente se apresentavam em seus anais em termos que refleti­ am o comportamento do leão.' Além disso, o cruel destroçar de seus inimigos retratava muito bem os ataques esmagadores conseguidos por leões. O profeta emprega uma variedade de termos para os diferentes ti­ pos de leão: o leão macho adulto o leão asiático ou, possivel­ mente, a leoa {lãhí’), o leão Jovem bastante crescido para buscar sua própria presa (k^pír) e o filhote do leão (gär ’aryëh).^ Toda a espécie manifesta o mesmo tipo de força brutal enquanto devora sua presa. Reis, rainhas e príncipes de Nínive manifestam esses atributos bestiais. Mesmo uma besta feroz aprecia seu momento de calma e seguran­ ça. Ela também gosta de relaxar-se em sua cova, vaguear sem precisar preocupar-se com perigos. Mas agora seu covil foi evacuado e o leão não tem nenhum lugar onde possa relaxar-se com segurança. A frase específica, sem que ninguém os espantasse, é frequentemente usada para sumariar as bênçãos pactuais que Deus fez com seu povo (“não haverá quem os espante” - cf. Lv 26.6; Dt 28.26; Mq 4.4). Deus, o único que pode trazer juízos sobre os pecados, tem a capacidade de restaurar a paz entre homem e fera. 1. Ambos, Adadnirari 11 e Assurbanipal. declaram: “Eu sou bravo como o leâo”. Scnaqucribe disse; “Como um leào eu enraiveci”. Para o texto, ver D. D. LuckenbilI, Ancient Records o f Assyria and Babylonia (fio\iíYoTk: Greenwood, 1927), 1.110,n»358; 1.140. n° 438; 2.126, n» 253. 2. Observe a discussão em TOOT, 1.374-77; cf. BOB, p. 71-158-498-522.


NAUM 2.13

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Mas tal bênção nunca mais poderá ser possuída por Nínive de novo. O escárnio. Oh, onde agora... indica o fim de uma era. 2. A brutalidade da cidade (2.13 [Eng. 12]) \ 3{ \ 2 ) OI e ã o a estava rasgando bastante b para seus filhotes, a e estava estrangidando b para suas leoas. Assim ele enchia a dé fragmentas b suas covas, b e seus covis a de saques. Dois elementos do comportamento do leão ressaltam nesse versícu­ lo: a brutalidade de suas maneiras predatórias e seu instinto de alimen­ tar seu clã. Sem a preocupação pelos sentimentos de suas vítimas, o leão esfola e retalha a carne de sua presa sem importar-se se ela está viva ou morta. Absolutamente indiferente aos gemidos de agonia de sua vítima, o predador enterra vezes sem conta sua sangrenta bocarra na carne quente e firme. Tendo satisfeito suas necessidades imediatas, a besta arrasta a carcaça para seu covil onde toda sua prole sedenta por sangue se ajunta no festim. A sensibilidade humana recua diante da visão de tal brutalidade entre as bestas da floresta. Mas o que se pode dizer quando o mesmo tipo de comportamento caracteriza o homem criado à imagem de Deus? Como é possível que um ser humano, criado para refletir a compaixão do Criador, se afunde em tais níveis de bestialidade? Não obstante, esta não é meramente uma dramática figura de linguagem empregada pelo profeta em sua descrição dos monarcas assírios, como leões fa­ mintos por presas em emboscadas. Os próprios reis de Nínive escolhiam imortalizar seus maiores feitos em termos adequados, só para que fos­ sem aplicados às bestas selvagens da terra: “Eles erguiam seus cadáve­ res em postes, rasgavam suas peles e as afixavam nos muros das cida­ des... Eu deixei os cães, porcos, lobos, urubus, pássaros dos céus e os


128

NAUM 2.13-14

peixes de água doce devorar seus membros esquartejados... Eu assassi­ nei as pessoas que viviam nas cidades e que não haviam reconhecido meu domínio. Eu decepei suas cabeças e cortei seus lábios... Perfurei seu queixo com minha adaga afiada (?), passei uma corda através de sua bochecha e dos lados de sua face (?) e prendi uma corrente de cão nele e o deixei de guarda no portão oriental de Nínive”.' Essas amostras de brutalidade, retiradas dos anais de apenas um dos reis de Nínive, poderíam ser facilmente multiplicadas. Tortura e desumanidade da pior espécie eram as principais características da vida real. Ao longo de duzentos anos saquearam os vários povos do antigo Oriente Próximo da mesma maneira que os leões espreitam diariamente por suas presas. Nínive, porém, tem um adversário que não pode ser tão facilmente manipulado. Um mais poderoso que todos os reis da terra se posicio­ nou contra essa comunidade ímpia. Ele iria arremessar esse tirano ao lugar mais inferior da terra. i. O Senhor fala contra a cidade (2.14 [Eng. 13]) 14(13) Eis que eu estou contra ti! é o pronunciamento do S e n h o r dos Exércitos, a Assim eu queimarei h na fumaça c teus carros. a Assim a espada devorará c teus leõezinhos. a Eliminarei b da terra c tua presa; e nunca mais se ouvirá outra vez a voz de teus mensageiros. O próprio Deus se posiciona contra o tirano. Todo o peso de sua antipatia divina tem de ser sentido: Eis que estou contra ti. Até este I. Seleções dos anais de Assurbanipal, como citado por Maier, p. 282. Cf. ANET, p. 295,298.300.


NAUM 2.14

129

ponto, o profeta tem se servido de porta-voz do Senhor. Mas agora o próprio Senhor dá um passo à frente a fim de reforçar sua própria de­ terminação. A palavra do Senhor veio como a voz de um agressor aju­ ramentado. O desfecho desta confrontação entre o S e n h o r dos Exércitos e o rei de Nínive já fora determinado pela simples alusão ao fato de que o S e n h o r está no comando dos exércitos celestiais. Um único represen­ tante de seus poderosos servos podia destruir totalmente todos os exér­ citos e carros que o rei da Assíria porventura reunisse. Mas o TodoPoderoso se sente tão horrorizado com as atrocidades cometidas pelos reis de Nínive, que declara que ele mesmo guerrearia contra eles. A combinação de imagens que fala de carros queimando, leõezinhos sendo devorados e a presa arrancada da terra é plenamente apro­ priada. Os leõezinhos representam os príncipes dos exércitos militan­ tes da Assíria e combinam com as imagens detalhadas dos versículos anteriores. A destruição dos carros da Assíria representa o desapareci­ mento desses instrumentos de opressão por meio dos quais haviam atormentado as nações. O silenciar da voz dos mensageiros de Nínive ecoa a frase de aber­ tura do capítulo. Os mensageiros da paz declaram sobre os montes as palavras de destruição do opressor de Judá (Na 2.1 -2 [Eng. 1.15-2.1]). Esses portadores de boas-novas substituíram totalmente os emissários da Assíria que atormentavam Israel com suas palavras arrogantes de desafio. Lembre-se de como Rabsaqué, enviado por Senaqueribe, zombava de .lerusalém nos dias de Ezequias (c f 2Rs 18.17ss.)? Nunca mais es­ ses mensageiros haveriam de pronunciar suas palavras opressivas e de vanglória. Em vez disso, os belos pés dos mensageiros enviados por Deus declarariam a paz, prosperidade e segurança ao povo do Senhor. Todas essas bênçãos deveriam vir juntamente com a destruição dos inimigos de Deus. A declaração final nas Escrituras, anunciando o juízo consumado sobre Babilônia, pode igualmente aplicar-se a Nínive e a todos os po­ deres opressivos que ela representa:


130

NAUM 3.1-19

Dai-lhe em retribuição como também ela retribuiu, pagai-lhe em dobro segundo suas obras e, no cálice em que ela misturou bebi­ das, misturai dobrado para ela. O quanto a si mesma se glorificou e viveu em luxúria, dai-lhe em igual medida tormento e pranto, por­ que diz consigo mesma: “Estou sentada como rainha. Viúva, não sou. Pranto nunca hei de ver!” Por isso, em um só dia, sobrevirão seus flagelos: morte, pranto e fome; e será consumida no fogo, porque poderoso é o Senhor Deus que a julgou (Ap 18.6-8).

III. O

j u íz o in f a l ív e l s o b r e

NINIVE (3.M9)

Em sua palavra final, o profeta Naum enfatiza a certeza do Juízo que ele pronunciou. Uma pergunta retórica reforça a certeza de que isso estava por vir em cada uma das seções principais do capítulo: “De onde buscarei consoladores para ti?” (v. 7) “És tu melhor que Nô-Amom?” (v. 8) “Sobre quem tua contínua maldade não passou?” (v. 19) Ao adotar essa forma distintiva, o profeta exige que os próprios ninivitas interajam com a certeza de seu juízo iminente. Antes de asseverar mais uma vez a inevitabilidade do destino de Nínive, a palavra de Deus agora demanda que respondam às suas circunstâncias ameaçadoras. A certeza do juízo de Nínive é estabelecida em três bases: em razão de seus pecados (3.1-7); justamente como Nô-Amom (3.8-13); a des­ peito de sua força (3.14-19). A. INDUBITÁVEL EM RAZÃO DE SEUS PECADOS (3. U7)

Semelhante ao capítulo anterior, esta seção contém uma descrição imaginativa e vivida do ataque a Nínive (v. 2-3). Mas, indo além do capítulo 2, ela também repete os pecados da cidade - pecados que se­ lam a certeza dessa destruição iminente (v. 1,4). A determinação ex­ pressa do Senhor em trazer a vingança sobre a cidade situa o assunto do destino de Nínive além dos meros prognósticos humanos (v. 5-7). Considerem-se primeiramente, nesta seção, os pecados da cidade (v. 1,4); em seguida, o ataque à cidade (v. 2-3).


NAUM 3.1,4

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I. Os pecados da cidade (3.1,4) 1 Ah! cidade sanguinária! a ioda ela b (vive) uma mentira; b a extorsão a é continua! A fraude nunca será eliminada. 4 Por causa dos atos reiterados das prostituições da meretriz “Mestra em bruxarias ” a que barganha b as nações c com suas prostituições, b as familias c com suas bruxarias. Derramamento de sangue, mentiras, extorsão e fraude constituem a primeira lista de especificações contra a cidade de Nínive. Em cada caso desses pecados, enfatiza-se a persistência reiterada na violação. Não sig­ nifica meramente que a cidade houvesse ocasionalmente cometido um deslize e alguns abusos. Ao contrário disso, os vapores venenosos ema­ nando de todo coração poluem toda a atmosfera da comunidade. 1. A exclamação Ah! (hôy) não comunica precisamente uma maldi­ ção, uma desdita. Aliás, ela dá vazão à agonia, à dor ao assistir o come­ timento de afronta. Dói ver pessoas sendo esmagadas lentamente por um sistema que suga o último suspiro dos indefesos. A cidade sanguinária (lit. “cidade de sangues”) com toda proprie­ dade descreve o estilo de vida de uma comunidade metropolitana de­ vota à glória humana em lugar da glória de Deus. E. B. Pusey recorda oportunamente o contraste encontrado na Cidade de Deus de Agosti­ nho: “Dois tipos de amor fazem dois tipos de cidade: o amor terreno do ego pende para o desprezo de Deus; o amor celeste de Deus pende para 0 desprezo do ego. Um gloria-se em si mesmo; o outro, no Senhor”.' 1. Pusey, 2.148.


132

NAUM 3.1

A primeira menção de uma cidade na Bíblia informa que Caim lhe deu o nome de seu filho (Gn 4.17). Este ato, aparentemente simples, na verdade representa uma consagração do trabalho de suas mãos ao ho­ mem, e não a Deus; uma dedicação dos mais elevados esforços cultu­ rais e públicos do homem ao ego pecaminoso e centralizado em si mesmo. Outras civilizações primitivas nas Escrituras incluem a cidade de Nínive, edificada por Ninrode (Gn 10.11-12), e a cidade de Babel (11.4). A intenção declarada dos engenheiros de Babel era resistir, com todas as suas forças, à vontade de Deus, de que o homem deveria espa­ lhar-se pela face da terra (1.28; cf. 11.14). A luz da rebelião associada às primeiras cidades do homem, a bên­ ção de Israel, em termos de sua herança das cidades que eles próprios não haviam construído, assume ainda maior significação. O terrível produto da maquinação do homem é, além do mais, redimível. Por fim, Jerusalém, a cidade santa, se destaca em contraste com cidade sangui­ nária de uma humanidade depravada. A forma plural (“cidade de sangues”) pressupõe a violência múlti­ pla associada ao derramamento de sangue inocente. “A voz do sangue” de Abel clamava por vingança (Gn 4.10). Ezequiel fala das “cidades de sangues” de seus dias (Ez 22.3). Aliás, sanguinária era a antiga cidade de Nínive. Um dos relevos entalhados encontrados no palácio de Assurbanipal retrata uma cena do rei e da rainha celebrando a vitória sobre os elamitas. Retratada próximo à mesa do banquete aparece uma árvore frutífera com a cabe­ ça do rei de Elam, cortada e pendurada num dos galhos.^ De fato, san­ guinária! Que todas as gerações se lembrem da atmosfera de banquete criada por esse espetáculo exibido próximo à mesa dos assírios. Escul­ pida em pedra com suas próprias mãos, e assim representando como eles mesmos escolheram fossem lembrados - que assim seja!

2. Laetsch. p. 307.308. Para uma seleção do registro auto-esculpido das brutalidades assírias, ver Maier, p. 291,292. Atividades perversas, tais como arrancar os olhos, deccpar nari^es e remover a pele gradualmente do corpo de um homem vivo, eram muito comuns. “Com seu sangue eu lingi a montanha como lã vermelha” representa a arrogância desta ímpia e sanguinária monarquia.


NAUM 3.1

133

Essa mentalidade sanguinária se denuncia por uma interminável mentira, extorsão e fraude. Nenhum pecado pode existir sozinho. O ninho de víboras no coração do pecador é sempre chamado “legião”. Visto que Satanás é o pai da mentira, seus filhos não podem fazer outra coisa senão mentir. Nínive, porém, levou a questão da mentira ao limite extremo. Toda ela (vive) a mentira. Toda vez que um cidadão abre a boca, sob seu argumento mais convincente e franco jaz uma intenção oculta, torcida, uma ambiguidade deliberada. A fim de lison­ jear, ocultar, desviar da intenção real, o cidadão da Assíria dissimula, equivoca, mascara o verdadeiro propósito de seu coração por meio de sua cuidadosa forma de pronunciar as palavras. Por sua maneira com­ binada de apontar com o pé, piscar o olho, ele e seu cúmplice secreto ludibriam até mesmo o mais prudente. O termo usado para mentira {kahaS) se deriva de uma raiz que também pode significar “falha” ou “inclinar”.^ O fato de que o produto da oliveira “mente” (Hc 3.17) pressupõe que a expectativa criada pela folhagem abundante é tristemente frustrada quando se procura pelo fru­ to. Assim também a cidade de Nínive promete prosperidade e toda a vantagem àqueles que negociarem com ela. Mas, cuidado! “Toda ela é uma mertZ/ra”, Justamente como o texto literalmente expressa. A frase lembra as doces palavras de Rabsaqué, emissário de Senaqueribe, quando insiste em falar hebraico perante a população em vez de negociar honrosamente com os representantes do rei Ezequias. Ele usa todos os truques a fim de voltar o povo contra Ezequias: “Não deis ouvidos a Ezequias; porque assim diz o rei da Assíria: Fazei as pazes comigo e vinde para mim; e comei, cada um, de sua própria vide e de sua própria figueira, e bebei, cada um, da água de sua própria cister­ na, até que eu venha e vos leve para uma terra como a vossa, terra de cereal e de vinho, terra de pão e de vinhas, terra de oliveiras e de mel, para que vivais e não morrais. Não deis ouvidos a Ezequias, porque ele vos engana, dizendo: ‘O S e n h o r nos livrará’” (2Rs 18:31-32).

3. BDB, p. 471.


134

NAUM 3.4

Acaz, de Judá, teve a mesma experiência quando pediu a TiglatePileser III, da Assíria, que o ajudasse a resistir à coligação siro-efraimita. Segundo o cronista, “veio a ele Tiglate-Pileser, rei da Assíria; porém o pôs em aperto, em vez de fortalecê-lo” (2Cr 28.20). Extorsão e fraude são também um sério defeito dos assírios. Am­ bos os termos pressupõem a posse forçada de uma pessoa ou posses­ sões (pereq e ferep). Justamente como uma besta selvagem estraçalha sua presa, também os assírios devoravam sua vítima indefesa. 4. O profeta se torna veemente e insultuoso em sua linguagem. Nínive é a prostituta das prostitutas, a “bela e encantadora meretriz”. Fazendo uso do venenoso dardo da sátira, Naum zomba dessa encan­ tadora meretriz que na verdade é uma infernal senhora de bruxarias. Nenhum diplomata moderno se dirigiria a uma entidade política rival como “prostituta das prostitutas”. O leitor moderno poderia sentir-se inclinado a considerar essa maneira grosseira de falar como uma inte­ ressante curiosidade de uma cultura menos sofisticada dos tempos de outrora. No entanto, por trás dessas palavras abruptas existe muito mais do que mera grosseria cultural. Justamente como Calvino oportunamente se expressa: “é necessário que aqueles que são tão auto-indulgentes e delicados sejam grosseiramente manipulados”.'* Pessoas investidas de autoridade, tais como ministros ou outros dignitários, tendem a disfar­ çar tanto o comportamento mais grosseiro, com um ar de perplexidade, que qualquer um poderia atrever-se a questionar sua moralidade. Por meio de linguagem grosseira e insultuosa, o Espírito Santo, pelos lábios do profeta, desfaz essas falsidades e expõe a nudez da degradação moral dos recessos mais recônditos do coração. “Olhem para a alma dessa meretriz”, diz Naum. Vestida com ornamentos de amor, essa prostituta satisfaz sua luxúria por meio de manipulação, depois limpa sua boca e diz: “Eu não fiz nada de mau”. O que torna Nínive, bem como outras de sua estirpe, tão letal é que em sua aparência exterior ela se parece com uma dama bela e encanta­ dora {tôhat hên, lit., “cheia de graça”). Justamente como Bate-Seba se 4. Calvino. p. 483,484.


NAUM 3.4

135

banhando pareceu “excepcionalmente formosa aos olhos” (2Sm 11.2; tôkat m a r’eh m ^ ’ôd), assim Davi prontamente jogou por terra tudo quanto de valor existe em termos de posição e potencial a serviço de Deus, da mesma maneira que os admiradores de Nínive sentiam-se en­ cantados com a beleza simétrica e encanto sem fim pelo tesouro da loja de prazeres da cidade. Mas a cidade era realmente como uma bela esposa enfeitada com todos os presentes extravagantes outorgados por seu marido, enquanto os usava com o fim de seduzir outros à reiterada prática de atos degra­ dantes de imoralidade. Por trás de todo o encanto externo, ela não passa de uma senhora de bruxarias, lançando um feitiço sobre cada uma de suas vítimas sucessivas. Ela usa seus encantos físicos para seduzir suas vítimas e em seguida as destruir.-^ Ao apelar para o coração pecador para que mantenha relações íntimas e sem limites, ela encoraja o ho­ mem concupiscente a jogar fora qualquer restrição. Então o pecador é bem depressa absorvido por seus próprios desejos, veemente por praze­ res sensuais. Como Esaú, ele vende sua alma por um prato de lentilhas que estimula os sentidos. Embora Babilônia, e não Nínive, seja o objeto da exposição final que a Bíblia faz do coração sensual humano, a descrição de sua des­ truição se enquadra tão bem como na condenação de Naum: “E sobre ela choram e pranteiam os mercadores da terra, porque já ninguém compra sua mercadoria; mercadoria de ouro, de prata, de pedras pre­ ciosas, de pérolas, de linho finíssimo, de púrpura, de seda, de escarla­ ta; e toda espécie de madeira odorífera, todo gênero de objeto de mar­ fim, toda qualidade de móvel de madeira preciosíssima, de bronze, de ferro e de mármore; e canela de cheiro, especiarias, incenso, unguento, bálsamo, vinho, azeite, flor de farinha, trigo, gado e ovelhas; e de cava­ los, de carros, de escravos e até almas humanas” (Ap 18.11-13). São essas as coisas que o povo adora no lugar de Deus. Eles glori­ ficam os prazeres sensuais do momento e vendem sua alma pelo prazer da sensação de um instante. Nínive conhece essa fraqueza da carne 5. É algo divertido descobrir no meio da análise de um comentário de um estudioso alemão sobre as seduções de Nínive uma referência parentética a “das was man heute sexy heisst” (Rudolph, p. 177; ênfase acrescentada).


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NAUM 3.4

humana e organiza uma máquina maciça a tlm de capitalizar a tendên­ cia humana para a queda. Mas “qualquer, porém, que fizer tropeçar a um destes pequeninos que creem em mim, melhor lhe fora que se lhe pendurasse ao pescoço uma grande pedra de moinho e fosse afogado na profundeza do mar” (Mt 18.6; Mc 9.42). Por trás de toda sua aparência perfumada, a channosa Nínive na realidade é uma mestra em bruxarias, que vendia as nações e as fam í­ lias. A cidade é uma profissional em bruxarias. Ela é uma mestra de magia negra. Melhor do que fazer o que é certo e deixar o futuro nas mãos de Deus, toda essa comunidade se empenha em determinar o curso do futuro para que ele se reverta em seu próprio beneficio. Em­ pregando todos os meios - até mesmo valendo-se do comércio de ma­ gia -, os habitantes de Nínive negam a soberania de Deus sobre os negócios dos homens. A arqueologia recente descobriu literalmente milhares de tabuletas de Nínive comprovando sua intensa concentração em bruxaria.* O uso das artes mágicas era realmente um modo de vida. Demônios e espíri­ tos malignos atormentavam suas vítimas como resultado dos encantos malignos. Em geral, pensa-se que somente as pessoas ignorantes saem em busca das práticas da bruxaria. Mas é provável que os mais supersti­ ciosos sejam justamente os denominados eruditos. Extraindo erronea­ mente confiança de suas próprias teorias e hipóteses, eles de alguma maneira se convencem de que podem controlar o futuro. Cientistas, po­ líticos e economistas se propõem a determinar e a declarar o futuro. Eles exortam a que tenham fé em suas predições, ainda que já tenham demonstrado estar errados vezes sem conta. As vítimas desses atos de prostituição e bruxaria são as nações e asfainilias. Não apenas um indivíduo isolado, aqui e acolá, mas popu­ lações inteiras por atacado. A unidade social mais básica ordenada por Deus - a família - é dizimada. Ninguém permanece na família para fornecer uma forma de libertação, visto que a unidade por inteiro é destruída. Filhos, bem como pais e mães, são vendidos à escravidão. 6. Maicr. p. 302.303.


NAUM 3.2-3

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É por causa dos pecados da cidade que a devastação de Nínive é inevitável. A iniquidade do povo é total. Por cerca de duzentos anos eles atormentaram todos os seus vizinhos, tanto de perto quanto de longe. Neste contexto, não surpreende que o profeta inclua uma vivida descrição do próprio ataque que em breve seria arremessado contra a cidade. 2. O ataque à cidade (3.2-3) 2 a O estalo h dos açoites a e o estrondo h das rodas;' a cavalos b galopandoa e carros h tremulando;^ 3 a cavaleiros b esporeando, c com o flameja/'* d da espada c e o cintilar^ d da lança; a incontáveis b acidentes, a amontoados b de carcaças, a inji/idáveis b cadáveres; 1. LiteralmeiUe, “voz” (qôl) dos açoites e “voz” (qôl) dos carros. 2. O termo traduzido por “galope” (dõtíêr) só ocorre aqui e em Juízes 5.22. Ele significa “correr, arremeter-se”, ou, no caso dos cavalos, “galopar, arremeter-se” . 3. O termo usado para descrever o movimento dos carros aproximando-se (m^raqqêdâ) pressupõe movimento de dança, salto, ou pulo. 4. O termo “flamejante” (lahak) descreve a lâmina de uma espada sendo brandida no ar com a rapidez de uma chama saltando. 5. O termo “cintilar” (b^raq) pressupõe a rapidez do lampejo de um relâmpago.


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NAUM 3.2

a de modo que tropeçam b sobre seus cadáveres. Pode-se ver o progresso da cena nessa vivida descrição do ataque. Primeiro só se ouve o seco estalar do chicote e o distante estrondo das rodas dos carros. Depois à visão soma-se o som, à medida que aparece o galope dos cavalos e carros que vão saltando. Finalmente, a forma do cavaleiro que esporeia, empunhando sua espada flamejante e a lança cintilante entra em cena. 2. A linguagem cortada desperta a imaginação do leitor de modo que o som e a imagem se juntam atingindo o momento eletrizante do assalto contra a cidade. A “visão quase fotográfica” num “estilo stacca­ to”'’ é reforçada, em sua vividez, pela linguagem onomatopéica “shhoot, shhoot” (hebraico Sôf) do estalar do chicote. O estrondo distante das rodas dos carros de guerra teria sido um som aterrorizante à população correndo a pé. O pânico contagioso das massas teria se instalado rapi­ damente em toda a Ninive. Essas pessoas frequentemente se gabavam do terror que inspiravam no coração dos outros. Até então eles mesmos não haviam experimentado o sentimento de terror. Mas essa vividez de linguagem —qual era o propósito do profeta? Seria, porventura, captar o “momento existencial” de terror experimen­ tado no cerco da cidade? Não. Por meio da vivificação da imaginação de seus leitores, o profeta tem em mente incitar a certeza de fé e a espe­ rança dos israelitas oprimidos. Justamente como Calvino o expressa: “Todas essas coisas se destinavam a convencer profundamente os israe­ litas de que Ninive, embora estivesse abarrotada de riqueza e poder, mesmo assim se aproximava de sua mina, pois seus inimigos iriam pre­ valecer contra ela”.’ Quando a palavra de Deus vem com tal precisão de detalhes sobre a destmição dos inimigos de seu povo, então o Espirito Santo pode usar esta descrição para reanimar a fé da maior parte de seu povo de­ sencorajado. Quando Satanás e seus emissários são bem-sucedidos su­ cessivamente em promover o engano, falsidade e mentira, quando eles 6. Maier, p. 295. 7. Calvino, p. 482.


NAUM 3.2-3

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têm sucesso ein desacreditar o justo, quando eles, repetidas vezes, em­ punham a espada do poder e apoio popular para devastar os crentes, então até mesmo os mais fortes na fé começam a fraquejar e a duvidar que Deus algum dia irá defender a causa da verdade e da justiça. Mas os santos duvidosos só necessitam voltar sua imaginação vivi­ ficada para as descrições de Naum e apropriadamente aplicá-las a suas próprias lutas contra as forças de Satanás. Com o estalo de açoites e o estrondo das rodas: o galopear de cavalos e carros que vão saltando, 0 vingador de Deus chegará logo e surgirá repentinamente. O inimigo contemporâneo da verdade e da justiça não resistirá mais que a antiga Nínive resistiu. Coragem! Ergam seus olhos cansados! Pois hoje sua redenção está mais perto. 3. Somente quem já pisou um ensanguentado campo de batalha uns poucos dias depois de um conflito, de fato pode imaginar o horror repulsivo dos cadáveres mutilados, inchados e em decomposição. Sem detalhes excessivos, Naum ressalta a extensão da devastação divina: a multidão dos traspassados, massa de cadáveres, mortos sem fim, gen­ te que tropeça sobre os mortos. Pusey fala dos “vastos campos de car­ nificina”.* Tanto quanto a vista possa alcançar, os corpos permanecem imóveis e com a face para baixo. Alarme nenhum soa mais; reina a calmaria da morte. Por meio do uso de três termos diferentes para os corpos mortos, o profeta força o leitor a uma compreensão mais plena da cena. A palavra traduzida por traspassados (hãlãl) se refere a uma pessoa fatalmente traspassada ou ferida. A palavra traduzida por cadáver (peger) descreve alguém que entrou em colapso por exaustão. A palavra traduzida por mortos (g^wiyâ) se deriva da raiz que se refere às costas de uma pessoa (gaw) provavelmente sendo vista como um corpo de rosto para baixo. Se essas Escrituras do Antigo Testamento parecem excessivamen­ te sangrentas, é preciso ter em mente o contexto dessa palavra de juízo. Jonas foi comissionado décadas antes a levar a mensagem de salvação a Nínive a despeito de sua prévia história de interminável crueldade. 8. Pusey, p. 140.


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NAUM 3.5-7

Mas agora o povo havia voltado a seus caminhos perversos. Deus aler­ tara os assírios ao devastar o exército de Senaqueribe diante do portão de Jerusalém, quando 185.000 homens caíram mortos numa só noite. O povo levantou-se na manhã seguinte e contemplou a vastidão dos corpos mortos (2Rs 19.35). Isaías concluiu sua profecia com um espantoso lembrete da des­ truição divina dos perversos, a qual antecipa tanto as palavras de Naum quanto as palavras de Jesus: “Eles sairão e verão os cadáveres dos homens que prevaricaram contra mim; porque seu verme nunca morre­ rá, nem seu fogo se apagará; e eles serão um horror para toda carne” (Is 66.24; c f Mc 9.47-48). Embora o sentimentalismo humano queira ne­ gar isso, a palavra de Deus é consistente em seu quadro da destruição do perverso. Parte da grande obra sacerdotal do Messias vencedor será esmagar reis no dia de sua ira, enchendo os campos de batalha com corpos mortos (SI 110.5-6). 3. O Senhor contra a cidade (3.5-7) 5 Nota bem! Eu estou contra ti, declara o S e n h o r dos Exércitos, a levantarei b tuas saias c diante de tua face; a e deixarei b que as nações c contemplem tua nudez, b e os reinos, c tuas vergonhas. 6 Escreverei em ti coisas detestáveis; zombarei de ti como um tolo e te exibirei como um espetáculo.' I. Ronald J. Williams. H eb rew Syntax: A n O utline, 2* ed. (Toronto: University o f Toronto


NAUM 3.5

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7 E assim será! Todos quantos te virem fiigirão de ti e dirão: Nínive está destruída; quem lamentará por ela? Onde acharei consoladores para ela? Agora um oráculo do S e n h o r muda a perspectiva deste anúncio a respeito da inexorabilidade do juízo de Nínive. Deus declara que ele pessoalmente irá trazer devastação sobre Nínive. Sete vezes nesses três versículos o Senhor fala na primeira pessoa declarando que ele mesmo irá exercer juízo contra a cidade. 5. Nota bem!, literalmente é “olha para mim!” Eu, Yahweh - o Criador de tudo - eu estou contra ti. Eu não enviarei um anjo para devastar-te; eu mesmo, pessoalmente, virei trazer juízo contra ti. Aquele que se volta contra o Senhor dos mundos terminará envergonhado pe­ rante o mundo inteiro. Deus o usará como exemplo perante seu univer­ so inteiro. Ezequiel, o profeta do exílio de Israel, frequentemente usa esta frase: “eu sou contra vós”. Segundo Ezequiel, as consequências dessa oposição direta do Senhor são terrivelmente chocantes: os falsos profetas não deviam ser inscritos nos registros da casa de Israel (13.8-9) não passará pé de homem ou de animal, por todo o Egito (29.1011)

ambos os braços de Faraó serão quebrados e sua espada cairá de suas mãos (30.22) Press. 1976). § 261, trata o de k^rS’í como um Kaph veritalis: “Eu farei de vós um verdadeiro alvo de ridicularização” . Cf. GKC, § 118x. Em todos os aspectos, Nínive deve­ ria ser como um alvo de ridicularização. Nenhum canto que porventura forneça a mais leve semelhança de autodignidade permaneceria. Rudolph, p. 175, apoia o sentido de “espetácu­ lo” para esta palavra, a despeito de algum apoio contextuai para o significado tardio do hebraico “lama” como promovido por Rashi.


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NAUM 3.5

Deus responsabilizará os pastores infiéis e removerá as ovelhas de suas mãos (34.10) Deus converterá o monte Seir num ermo desolado e suas cidades em deserto (35.3-4) Deus porá anzóis nos queixos de Gogue (38.3-4) Deus enviará aves de rapina e bestas a devorar seu inimigo (39.1,4) As consequências de Deus se posicionar contra certo povo de fato são espantosas. “Quem poderá subsistir quando ele aparecer” (Ml 3.2, AV)? Neste caso de Deus contra Nínive, as consequências da oposição divina são notavelmente diferentes dos tipos de consequências descri­ tas nas várias passagens em Ezequiel. Em vez de devastações calami­ tosas causadas por exército e animais selvagens, o Senhor declara de cinco maneiras diferentes sua determinação de fazer uma exposição pública de toda a depravação grosseira dessa cidade pecadora. Primeiro, Deus irá levantar as abas das saias de Nínive sobre seu próprio rosto (v. 5). Como uma prostituta a oferecer-se, Nínive exibiu suas saias de cigana provocando de maneira sedutora com suas roupas íntimas. Floridas, esvoaçantes, saias coloridas vibrando com movimen­ to e vivacidade. Mas o uso indecente de toda essa provocação é exata­ mente como faz a esposa “com vestes de prostituta” “cujos pés não param em casa” (Pv 7.10-11). Ela agarra agressivamente sua próxima vítima. beiJa-a impudentemente, excita seus sentidos fazendo uma viva descrição de sua cama perfumada coberta com colchas coloridas e sus­ surra que seu marido saiu para uma longa viagem, de modo que pode­ rão embriagar-se com o amor até de manhã (Pv 7.11 -19). Deus, porém, irá expor a prostituta pelo que realmente ela é. Seu Jogo terminou. Perante os olhos do público, mas também sobre teu rosto, para que ela não tenha como esconder toda sua desgraça, sua conduta impudica será exposta.-

2. D. R. Hillers, Trealy-Curses and the Old Testament Prophets, BibOr 16 (Roma: Pontifical Biblical Institute. 1964), p. 59, observa o paralelo aparente no curso de um texto tratado, mas reconhece que sua redação e tradução do texto “só podem ser consideradas como uma conjuntura plausivel”.


NAUM 3.6a-c

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Segundo, Deus deixará as nações e os reinos verem a nudez e a vergonha de Nínive. Da mesma maneira que os exércitos brutais de Nínive marcharam ao longo das fronteiras de numerosas nações, tam­ bém agora a vergonha de seu nome atingirá a escala universal. Todos os fatos sujos de seu disfarce serão plenamente conhecidos. Do mesmo modo que um político ou homem de negócios flagrado em um ato crimi­ noso, cujo nome e rosto são expostos na primeira página de cada jornal da nação, também o verdadeiro caráter de Nínive será visível a todos. Da mesma maneira que o nome do homem se tomou símbolo de ignomí­ nia na frase “Seu nome é Mudd”, também Nínive será para sempre lembrada como a cidade envergonhada pelo Senhor. 6a. Terceiro, Deus lançará imundícias sobre Nínive. Marcada extemamente com as impurezas internas do coração! Deus porá um fim àquelas falsidades fingidas dos ninivitas hipócritas. Manchados e res­ pingados de imundície externa eles não mais poderão fingir piedade. Aquelas abominações declaradas como “impuras” (Lv 7.21; 11.1 Os.) deverão publicamente lambuzar as saias da prostituta. O termo usado pela LXX para imundícias (grego bdelygmón\ he­ braico Siqqusim) é também usado para descrever o “abominável da desolação” no templo de Deus que marca a consumação da profanação dos tempos (Mt 24.15). Mas quando o Senhor finalmente fizer com que as coisas fiquem corretas, aquelas abominações que poderiam ter sido de alta estima entre os homens (Lc 16.15) deverão ser repudiadas em qualquer esquina na cidade de Deus (Ap 21.27). Babilônia, o ar­ quétipo de Nínive, a mãe das prostitutas, deverá beber da putrefação de suas próprias abominações no cálice de ouro, transbordante de abo­ minações, que ela segura em sua mão (Ap 17.4-5). 6b. Quarto, Deus zombará de Nínive como louca. Sempre chega o momento quando uma pessoa assume defmitivamente seus caminhos preferidos de insensatez e impiedade. Nesse ponto. Deus os tratará precisamente conforme merece seu caráter confirmado. Então chegou o tempo de Deus zombar de Nínive como louca. Ele os tratará com desprezo estimando em nada seu valor. O insensato terá uma resposta de acordo com sua insensatez (cf Pv 26.4-5). 6c. Quinto, Deus apresentará Nínive como um espetáculo. Os reis


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NAUM 3.6c,7

da Assíria frequentemente satisfaziam seu prazer mórbido expondo seus cativos ao ridículo. Assurbanipal se gaba numa de suas inscrições: “Eu 0 lancei dentro de um canil com chacais e cachorros. Eu o amarrei e o fiz montar guarda no portão de Nínive”.^ Esse tratamento tão desumano de uma pessoa por outra merece a mesma punição. Então o Senhor declara que, da mesma maneira que Nínive abusou de seus cativos, expondo-os ao ridículo público, também ele fará de Nínive um espetá­ culo de ignominia, para que as nações jamais o esqueçam. Todo o mun­ do virá e verá o espetáculo de Nínive. Vergonha e desgraça internacio­ nais substituirão a pompa e o orgulho. Todas as cinco ações descritas são atribuidas ao próprio Senhor, não a algum servo escolhido. Por meio de seu envolvimento imediato, o Senhor humilhará Nínive perante todas as nações da terra e para todo o sempre. 7. As consequências dessa exposição pública e humilhante são des­ critas no último versículo desta seção. O espectro de Nínive devastada impressiona tanto as demais nações que elas ofegam com horror, põem suas mãos sobre a boca e se voltam para fugir. O auto-retrato de Miguelangelo no inferno, como pintado no teto da Sistina, capta a expres­ são facial de terror paralisante que o espetáculo de Nínive teria inspirado. Embora todas as nações fiquem paralisadas ante a visão, não po­ dem encontrar em seu meio alguém que lamente a calamidade de Níni­ ve. “Quem terá compaixão dela?”, dizem as nações quando confabulam entre si. Há algo na pessoa que sofreu violência que clama por justiça. Não é algo frequente naqueles que habitam em serena segurança, mas co­ mum naqueles que têm sido desnudados e humilhados; nesses é que surge o senso da necessidade de que alguém intervenha para expor o culpado e derrubar o arrogante opressor de sua posição de poder. A Escritura assevera que se deve fazer justiça mesmo do prisma da nova aliança. “A vingança me pertence, eu darei o troco, diz o Senhor” (Rm 12.19; cf. Dt 32.35-36; Hb 10.30). De fato, na cruz Cristo clamou: “Pai, perdoa-lhes” (Lc 23.34). Mas não se deve esquecer que foi na 3. Citado em Maier, p. 310. Cf. A N E T , p. 298-300.


NAUM 3.7-13

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cruz que Cristo vocalizou este brado. É só no contexto de seu próprio sacrifício propiciatório pelo pecado que ele assume que um fundamen­ to foi posto por Deus para o perdão. Como Filho de Deus, sem pecado, foi o único que pôde fazer esse sacrifício; e à parte da fé em seu sangue não há perdão de pecado. No caso de Nínive, todas as nações haviam sofrido em virtude de sua incessante brutalidade. Os corpos espancados e esmagados, as al­ mas de pessoas de todas as nações, olhavam para os horrores do fim de Nínive; mas eles não conseguiam achar em si próprios lágrimas para chorar. A política de opressão da cidade fora tão universal que nin­ guém conseguia lamentar por ela. Nem mesmo o próprio Senhor (o eu da última frase do v. 7) sabe onde encontrar consoladores para a cidade perversa. Nínive deverá esvair-se sozinha em seu doloroso estado de devastação. Assim será em todos os tempos. A praga da escuridão por ocasião do Êxodo deixou cada egípcio sozinho, com medo de mover-se de seu assento (Êx 10.23). No dia em que todos olharem para aquele a quem traspassaram, toda família haverá de chorar sozinha (Zc 12.10-14). Parte do julgamento para o inferno será o total isolamento das pessoas, cada uma em seu canto, nas trevas que as separam de todos os possíveis consoladores. E assim, o Julgamento de Nínive é seguro em decorrência de seu pecado. A opressão infindável que impingiram sobre outros sela seu destino. Todas as nações concordam que seu juízo era um débito de longa data. B. TÂO INDUBITÁVEL QUANTO NO-AMOM (TEBAS) (3.8-13)

Agora 0 profeta oferece uma segunda base para a certeza do juízo iminente sobre Nínive. Que a cidade considere o que aconteceu com seu principal rival, a metrópole de Nô-Amom (Tebas, capital do Egito). Não propriamente que Naum estivesse tentando convencer os ha­ bitantes da Assíria do juízo iminente de Deus, vindo em sua direção, para que se arrependessem. Em vez disso, esse processo volumoso con­ tra a cidade pecaminosa se destina a ativar a fé dos crentes verdadeiros


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NAUM 3.8-10

a respeito da infalibilidade do juízo iminente de Deus, o qual os liber­ taria dos anos de opressão. Nesta nova seção, o profeta antes de tudo indicou que Tebas (NôAmom) fora devastada a despeito de suas muitas vantagens naturais (3.8-13). /. Tebas devastada a despeito de suas muitas vantagens (3.8-10) 8 Es tu melhor' que Nô-Amom, que habitava no meio dos rios, (com) o mar a cercando; a cujo baluarte b (era) o mar; b desde o mar, a (era) seu muro? 9 Cuxe, sua força, - e Egito; eram a sua força, e não havia fim... Pute e Líbia, eram seus auxiliares. 10 a Mesmo ela (terminou), b no exílio; a ela fo i b para o cativeiro, a Inclusive seus filhos Jovens b foram feitos em pedaços c na esquina de todas as ruas. a Sobre seus homens nobres 1. A palavra para “Tu és melhor” combina elementos de um Qal (t l f f g) e um de origem Hiphil (tê(ibi). Cf. GKC, § 70c. Rudolph, p. 181, conclui em favor de Hiphil, visto que o contexto não está falando de uma qualidade moral desenvolvida (“fazer o bem” - Qal) mas de estado estipulado (“haver sido feito o bem” - Hiphil).


NAUM 3.8-10

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b lançaram sortes, a e todos os seus grandes homens b foram presos com grilhões. Tendo encerrado a seção anterior com uma pergunta dirigida à pró­ pria Nínive, 0 profeta então começa esta seção de maneira idêntica. Em ambos os casos, a resposta que a pergunta tenciona suscitar é bastante óbvia. Onde é possível encontrar consoladores para Nínive? Em lugar nenhum. Seria Nínive melhor que a devastada Tebas? De maneira alguma. Embora seja bastante claro que Naum espera uma resposta negati­ va à sua pergunta a respeito da superioridade de Nínive e Tebas, o ponto de comparação é imediatamente claro. Desejaria ele dizer que Nínive não era melhor que Tebas em relação às virtudes religiosas ou morais? ou teria ele a intenção de sugerir que Nínive não era melhor que Tebas em relação ao seu destino que por fim sobreviría às duas cidades? O assunto dos dois versículos seguintes parece bastante claro para indicar que a comparação tem a ver com numerosas vantagens geográ­ ficas naturais as quais relacionam Tebas com Nínive. A parede de água que circundava Tebas fornecia uma proteção durante todo o ano, difí­ cil a qualquer invasor vencer (v. 8). O círculo social das nações aparen­ tadas que cercavam a cidade capital de Tebas acrescentava dificulda­ des políticas e militares a qualquer inimigo potencial (v. 9). Esta compreensão da comparação tem enfrentado vigorosa resis­ tência, principalmente com base no fato de que Nínive realmente ven­ cera previamente Tebas, ainda na memória dos contemporâneos de Naum. Como então se podería esperar que os ninivitas dos dias de Naum fossem prontamente concordar que Tebas estava mais bem situada do que eles?^ Ainda que essa objeção tenha seu mérito, sua própria base fornece um contraponto mais forte. A milícia de Nínive vira a força de Tebas em primeira mão. A decisão de Naum em comparar a capital da Assíria com a capital do Egito parece ter por base o conhecimento pessoal que Nínive tinha das vantagens naturais de Tebas. Mesmo que Tebas hou­ vesse caído nas mãos dos poderes superiores de Nínive, os invasores 2. Conferir Rudolph. p. 184.


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NAUM 3.8-10

assírios não poderiam deixar de sentir-se impressionados pelos fomiidáveis baluartes que rodeavam a capital de seu rival egípcio. Um exér­ cito invasor do norte teria de marchar seiscentos e quarenta quilômetros abaixo do delta do Nilo. À direita e à esquerda, tiveram de expor seu flanco ao ataque de retaliação das nações aparentadas e amigas de Tebas. Tendo fmalmente chegado diante da cidade maciça, de quarenta e quatro quilômetros de circunferência, o resplendor inflamado de um muro horizontal de água os cegava de todos os lados que olhavam. Cir­ cundados por rios, córregos, canais e lagos fonnados pelo Nilo, à medi­ da que distribuía sobre o delta ampliado, qualquer invasor teria se ma­ ravilhado com a vista que ofuscava seus olhos. Um campo de estátuas maciças, memoriais, templos e grandes muros, .sem igual em todo o mundo, aparecia diante de seus olhos. Em ambos os lados do Nilo, ob­ servavam estruturas feitas de pedra, cujo peso era de quase 300 to­ neladas, estátuas colossais de até 900 toneladas cada peça. Se tivessem sido bem informados, teriam conhecimento do “vale dos reis e rai­ nhas” escavado, além das muitas esculturas nos penhascos ocidentais. Enfrentaram o antigo locai do deus sol, Amom, conhecido pelos gregos como Dióspoli, cidade do principal deus do Egito. Por pelo menos mil anos, os faraós haviam governado esta parte do mundo com a bênção plena dessa deidade suprema. Conhecidas hoje com o nome de ruínas de Luxor e Karnak, a cidade foi identificada como sendo a cidade de cem portões.^ O local não era importante no 3« milênio a.C.; mas, começando cerca de 2.000 a.C., a 11« e 12» dinastias restauraram a unidade e prosperidade do Egito a partir desse centro de Tebas. A poderosa 18®dinastia expulsou os soberanos hicsos mais ou menos em 1550 e restaurou Tebas como a capital onde permaneceu até a 20« di­ nastia (1085 a.C.).‘' Será que esses audaciosos invasores do remoto Oriente realmente seriam capazes de derrubar a capital do Egito? Mesmo que tivessem sucesso, teriam de ficar impressionados com as vantagens naturais dessa famosa metrópole do mundo, essa primeira geração de grandes cida­ des-monumentos da humanidade. 3. Cf. Uomer. Iliad 9.381. 4 . C f K . A. Kitchen, “Tebas”em ZPEB. 5.714.


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8. Poderia Nínive realmente gabar-se de ser melhor que Nô-Amom no que diz respeito à sua situação? Embora o Eufrates estivesse ali, ele não proporcionava a defesa natural que o Nilo dava a Tebas.’ Quanto a vizinhos aliados, de que poderia Nínive gabar-se em comparação com Cuxe, Egito, Pute e Líbia? Nenhum vizinho amava e apoiava Nínive em razão de parentesco como eram essas nações em relação a Tebas. Muito embora Nínive tivesse eventualmente prevalecido contra Tebas, não se pode deixar de crer que alguma nação jovem, energética, um dia mar­ charia até seus portões da mesma maneira que marcharam contra Te­ bas. Mas então Nínive não poderia ser capaz de gabar-se dos tipos de fortificação natural tão óbvios em Tebas. Não era esta uma conclusão inevitável? Um dia Nínive cairia, do mesmo modo que Tebas caiu. Nada poderia resistir à inevitável marcha do tempo enquanto uma grande e ambiciosa nação substituía a outra. A identificação que Naum faz de Nô-Amom com a egípcia Tebas, confomie se presume até este ponto, encontra base nos textos egípcios que mencionam Tebas simplesmente como niw t, “a Cidade”, ou niw t ’ím n, “a cidade de Amom”.*Jeremias 46.25, bem como Ezequiel 30.1416, se referem à cidade como Amom de Nô. A AV traz “Nô populosa”, com base na interpretação medieval Judia de “Amom” à luz do tenno hebraico hãm ôn, que significa “multidão”.^ Identificações anteriores de “Nô-Amom” com Alexandria não são bem fundamentadas.® Tebas é apropriadamente caracterizada como a que estava entre o Nilo e seus canais, cercada de águas, tendo o mar por baluarte e ainda o mar por muralha. A referência seria aos canais entre os quais o Nilo dividia Tebas. Em outros lugares, o Nilo e outros grandes rios são de­ signados como um “mar” (sobre o Nilo, c f Is 18.2; 19.5; Jó 41.23 [Eng. 31]; sobre o Eufrates, c f Is 27.1; Jr 5 1.36). Tem-se indicado que, quando o Nilo transborda, ele atinge três ou mais quilômetros em Te­ bas. O resultado é que as várias cidades ficam parecidas com as ilhas 5. Cf. a descrição de D. J. Wiseman em “Nínive”, The llliistraleJBible Dictionary. 3 vols. org. J. D. Douglas et al. (Leicester; IntcrVarsily, 1980). 2.1089-91. 6. T. O. Lambdin, "Tebas”, em IDB. 4.615; c f BDB, p. 609. 7. S. R. Driver, 2.39 n.2. 8. C f Calvino, p. 490.


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do Egeu.’ Este ambiente único da cidade proporcionava um muro natu­ ral de defesa. Como consequência, a água circundante servia de baluarte e de muralha a proteger a população (v. 8c). A multidão de bênçãos proporcionadas pelo Nilo se tomou fonte de contenda entre o Deus vivo e os egípcios. Seu orgulho os levou a alegar: “o rio é meu; eu o fiz” (cf. Êx 29.2-3,9-10). Ao vangloriar-se tão arrogantemente, esqueciam-se do que Deus fizera ao rio no tempo do êxodo de Israel. A Assíria se tomara culpada do mesmo tipo de insensatez. Eles se gabavam de que haviam secado rios de lugares cercados, simplesmente pisando sobre a terra (2Rs 19.24; Is 37.25-27). Então esqueciam que Deus era o único que determinava que deveriam assolar as cidades fortificadas. De todos os povos, especialmente eles não deveriam es­ quecer que o baluarte e a muralha de água que circundavam Nô-Amom só poderiam protegê-los até o dia em que Deus assim o ordenasse. 9. Além das defesas da localidade de Tebas, havia o apoio que se poderia esperar das nações guerreiras que flanqueavam a cidade. Cuxe, Egito e Pute, todas representam nações com relações naturais com Te­ bas (cf Gn 10.6). Cuxe era a nação localizada ao sul do vale do Nilo. Anteriormente, Cuxe se dispusera a opor-se a Senaqueribe da Assíria durante uma de suas excursões na Palestina (2Rs 19.9). Então os assí­ rios conheceram o poderoso punho desse inimigo. A nação de Pute ge­ ralmente está inclusa nas listas com as outras nações africanas (Jr 46.9; Ez 30.5), e evidentemente se refere a uma parte da Líbia. A Líbia cons­ titui os líbios da África do Norte, localizada a oeste do Egito (c f 2Cr 12.3; 16.8). Seja como for, Tebas era rodeada por aliados e parentes que esta­ riam dispostos a intervir se algum dia a capital do Egito fosse ameaça­ da. Essas forças são descritas em relação com Tebas como sendo sua força (v. 9a) e seu socorro (i.e. de Tebas) (v. 9c). A alteração entre os pronomes da segunda e terceira pessoas é típica dos oráculos dos pro­ fetas hebreus.'® 9. Pusey, p. 155 n. 9. 10. Com re.speito à súbita mudança de pessoas, M. Dahood, Psalms, 3 vols., AB (Garden


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De fato, é extremamente tentador contar com força e socorro em termos de apoio que possa recrutar-se de outras fontes humanas. Uma vez que se tenha feito uma aliança, tal nação pode dar um suspiro de alívio uma vez que aquelas forças de fato abraçaram sua causa. Dessa perspectiva humana, Tebas estava certamente numa posição favorável. Seus aliados estavam posicionados de maneira estratégica e em gran­ des números. A frase incompleta e não há fim... (v. 9b) evidentemente se refere às tropas numerosas à disposição de Tebas. Naturalmente, da perspectiva divina, tais medidas de força relativa eram de pequena importância. Para os que não têm poder ('os/nâ). Deus aumenta a força {kõah - Is 40.29). Isaías alertara especificamente para a futilidade de se recorrer ao Egito, como também fizera Jeremias (Is 31.1; Jr 37.7). Mas, ao comparar esses recursos na arena das nações, Tebas obvia­ mente tinha todas as vantagens sobre Nínive. O exército que se atreves­ se a marchar por seiscentos e quarenta quilômetros, pelo interior da África, e passasse por entre os aliados belicosos de Tebas, arriscaria expor-se a terríveis possibilidades de retaliação. 10. Todavia, mesmo ela (terminou) no exílio. A despeito de sua grande força, suas fortificações naturais e o apoio da maioria, Tebas caiu. Contudo, foi muito mais que isso. Ela não só experimentou a derrota. A ocupação por tropas estrangeiras não seria suficientemente ruim. O mais espantoso, porém, foi o exílio e o cativeiro que o Egito experimentou. Do mesmo modo que os exércitos da Assíria haviam marchado pela extensão do Crescente Fértil, e depois mais seiscentos e quarenta quilômetros no interior da África, também agora a população de Tebas deverá percorrer aqueles mesmos passos, vergando os pesos e as humilhações de uma nação derrotada. Quantas gerações não poderiam ser traçadas entre os habitantes de Tebas! Durante os últimos mil e quatrocentos anos, a cidade e seus habitantes haviam permanecido intatos. Mas agora foram arrancados e City, Nova York: Doubleday, 1965), 1.35, obser\'a que essa prática "é análoga à mudança inesperada da segunda para a terceira pessoa algumas vezes encontrada nos cursos Northwest Semitic”. Cf. S. Gevirtz, “West-Semitic curses and the problem o f the origins o f Hebrew law”, VT \ \ (1961) 147 n. 4; Cathcart, Nahum, p. 132.


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levados para uma terra estranha. Derrotados, humilhados, cativos e arrastados para longe, dificilmente pareciam o povo orgulhoso e anti­ go que havia dominado o mundo. O profeta especifica tanto o moço quanto o velho como tendo sido devastados pela ruína de Tebas. Em cada caso, a consequência da der­ rota era de fato trágica. Primeiro, ele descreve o destino que sobreveio às gerações futuras. Seus filhos jovens foram despedaçados nas esquinas de todas as mas. Quem poderia imaginar tamanha brutalidade? Contudo, em Tebas, este terrível tratamento infligido às crianças {'ôlêl) se tomou lugar-comum em cada esquina de rua. Esse conquistador desumano detemiinou um curso de genocídio como uma maneira de assegurar a submissão perpétua de um inimigo que só fora vencido a grande custo. De modo semelhante, os anciãos e cidadãos honrados da população de Tebas foram tratados como cidadãos comuns das classes inferiores. Nenhum esforço se fez para determinar alguma habilidade pessoal em particular de um indivíduo em relação ao outro. A chance de lançar sorte determinou o destino dos cidadãos mais valiosos de Tebas. Como o mais talentoso “zeks” do First Cicie de Aleksander Solzhenitsyn fo­ ram separados das famílias, encarcerados sem haver cometido qual­ quer crime e absorvida toda sua habilidade sem a devida remuneração, também esses povos antigos de Tebas foram forçados a conviver com maus tratos perpétuos em consequência de serem vendidos como escravos. Em paralelismo sinonímico com os homens nobres de Tebas estão postos os homens grandes e\\xQforam presos com grilhões. Agora o pro­ feta indica que todos os homens preeminentes da cidade sofreram o mes­ mo destino. Se sua grandeza provinha de sua hereditariedade, riquezas, habilidades ou sabedoria, igualmente se sujeitaram à escravidão. Dessa fonria, o destino de Tebas foi lembrado com vivacidade. Visto que a própria Assíria fora vencedora, seria difícil negar a verdade des­ se terrível quadro que o profeta apresentava. Com firme determinação, Assurbanipal (668-627 a.C.) empunhara o estandarte de seu pai EsarHadom (680-669 a.C.) e marchara rumo ao sul do Egito. No caminho, ele forçou o recrutamento de 22 reis em seu apoio, inclusive Manassés de Judá (687-642 a.C.): “Eu, [Assurbanipal]... tomei a estrada mais


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curta para o Egito e Núbia. Durante minha marcha, 22 reis... [inclusi­ ve] Manassés, rei de Judá,... me trouxeram grandes presentes e beija­ ram meus pés. Eu obriguei esses reis a me acompanharem por toda terra - bem como pela rota marítima com suas forças armadas e seus navios”." Dois mil quilômetros a pé, desde sua casa, Assurbanipal as­ solou Tebas. A cidade mais poderosa das cidades caíra em suas mãos, e Nínive podia esperar o mesmo. 2. Ninive pode esperar o mesmo destino (3.11-13) 11 Também tu (Ninive), (cambalearás como) ébrio; e tu te esconderás, sim, tu procurarás esconder-te do inimigo. 12 Todas as tuas fortalezas (são como) figueiras com figos temporãos ; se são sacudidos, então caem na boca de quem os come. \3E ia! Teu povo são mulheres em teu meio! Para teus inimigos, os portões de tua terra estarão abertos de par em par; o fogo devorará teus ferrolhos. Qual o objetivo de toda essa conversa sobre a queda de Tebas (NôAmon)? A questão é que Nínive podia esperar o mesmo. Tão certo como Tebas caíra, também Nínive haveria de cair. Com os mesmos tipos de circunstâncias terríveis que acompanharam a devastação de Tebas, Nínive também deveria ser devastada. A justiça retribuitiva de Deus deveria garantir que todos esses horrores que Nínive infligira a ll.A N E T .p. 294.


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outros lhe seriam também infligidos. Visto que os próprios guerreiros de Tebas haviam sido os mesmos a arruinar Tebas, eles deveriam co­ nhecer em primeira mão essas coisas a que o profeta se referia. A “volta da roda” do começo do versículo 11 se faz mais evidente no texto original das Escrituras. O mesmo tipo de convicção profética que começa no versículo 10 também começa e termina o versículo 11: versículo 10 (de Tebas): “todavia, ela {gam-hV) foi levada para o exílio” versículo 11 (de Nínive): “também tu {gam-'at) serás embriagada” “também tu (gam-^at) procurarás refúgio”. Tal como foi o destino de Tebas, assim também seria o destino de Nínive. O profeta então usa cinco imagens diferentes com o fim de realçar a desolação da cidade que, por injustiça e brutalidade, tomara-se inimi­ ga de Deus. Nínive é descrita como uma nação que se tomou: como um bêbado cambaleante; como um fugitivo em pânico; como uma figueira que foi sacudida; como uma mulher frágil; como uma cidade cujos portões são abertos de par em par. Considere-se a ousadia do profeta. Ele se atreve a dirigir-se a um senhor intemacionalmente famoso com a franqueza e a força dessas figuras. Ele ridiculariza a cada uma das pessoas da Assíria.

11. Primeiro, Nínive será embriagada. Vacilante e impotente sob os golpes da ira divina, a cidade não terá esperança de defender-se dos ataques de seus inimigos. Como consequência, ela procurará refugio como um bêbado que caiu debaixo da mesa. De certo modo, o destino de Tebas não foi tão mim quanto será o de Nínive. Pelo menos as mi­ nas de Tebas ainda permanecem como testemunhas de sua grandeza num passado remoto. Mas, ao longo de séculos, o mesmo local de Ní­ nive jazia “oculto” em obscuridade. Segundo, Nínive fugiria como um refugiado em pânico (v. 1Ib).


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Como um brigão em retirada, esse bruto de uma nação deverá enco­ lher-se e abaixar enquanto busca um buraco para se esconder. Na reali­ dade, a desintegração do império assírio mostra a nação se curvando e se encolhendo enquanto um golpe após outro destruía seu remanescen­ te em declínio. Primeiro, a antiga capital de Assur caiu em 614 a.C. Depois, as forças combinadas dos medos e dos babilônios atacaram Nínive em 612 a.C. A cidade entrou em colapso e foi queimada depois de um cerco de três meses. Batendo em retirada na direção ocidental, um remanescente de assírios leais estabeleceu um novo rei e capital em Harã, a cerca de quatrocentos quilômetros rumo a oeste. Dois anos mais tarde, em 610 a.C., o remanescente das forças assírias foi nova­ mente vencido pela Babilônia. Embora uma força combinada de egíp­ cios e assírios houvesse mantido alguma presença na área por algum tempo, a batalha decisiva de Carquemis, em 605 a.C., eliminou os últi­ mos vestígios da presença assíria no Crescente Fértil. Justamente como Naum profetizara, buscaram refúgio como um fugitivo em retirada. Com a diferença que não encontraram nenhum. 12. Terceiro, as fortificações mais resistentes de Nínive são com­ paradas a uma figueira com figos maduros. A mais leve sacudidela manda a fruta diretamente para a boca de um comedor voraz. As for­ talezas, os lugares mais fortificados da cidade, não mais serão efeti­ vos em defender contra os ataques do que uma fruta madura demais que espera ser colhida. Segundo Naum, esta caracterização se aplica a todas as fortificações de Nínive. Nenhuma fortificação efetiva per­ maneceria. Esta imagem de fruta despencando possui tal vividez que foi colhi­ da naturalmente pelo livro do Apocalipse para descrever os cataclis­ mos associados com o fim da presente era. O apóstolo João vê o dia em que as estrelas do céu cairão sobre a terra “como a figueira quando abalada por vento forte” (Ap 6.13). Da mesma maneira que Naum, João descreve os reis da terra, grandes homens, ricos e fortes, a escon­ der-se nas cavernas e montanhas, suplicando que as rochas caiam so­ bre eles para que possam esconder-se da ira do Cordeiro (Ap 6.15-17). A prontidão para o juízo que preparou Nínive nos dias de Naum togo caracterizará toda a terra. O mesmo Cordeiro de Deus, que mostrou


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compaixão pelos pecadores ao expor-se à ira consumidora de Deus, por fim aparecerá ardendo em ira para trazer juízos sobre todos os que 0 negam. 13. Quarto, os habitantes de Nínive são comparados a uma mulher frágil. Embora o movimento feminino moderno queira negar esse fato, em termos gerais as mulheres são fisicamente mais frágeis que os ho­ mens. Particulannente, em se tratando de combate corpo a corpo, os homens mantêm posição predominante.' O profeta também poderia estar se referindo ao medo que uma pes­ soa tem do combate. João Calvino disse: "... os corações dos homens estão de tal maneira nas mãos de Deus que ele derrete qualquer coragem que porventura exista neles sempre que ele o queira”.- Algumas vezes Deus mantém os homens com corações corajosos a fim de que corram em direção à sua própria ruína. Mas, em qualquer caso, quando a hora chega para o juízo divino, toma-se impossível escapar-se do mesmo. Quinto, Nínive será como uma cidade cercada, cujos portões foram abertos de par em par (v. 13b). Tal como os insensatos cananeus que correram para sua cidade, deixando para trás os portões abertos (Js 8.17), também os portões de Nínive seriam abertos de par em par para dar a seus inimigos livre acesso à sua cidade. Pleno acesso à assolação pelas forças estrangeiras caracterizaria toda a nação. Pois o que será aberto não serão só os portões da cidade, mas o portão do país (v. 13). Os últimos remanescentes da defesa em tennos áe ferrolhos pesados, que trancam os portões, serão consumidos pe\o fogo. Talvez Nínive também teria se gabado da vitória anterior, quando Tebas caiu perante seus ataques ferrenhos. Haviam experimentado um prazer mórbido, ao verem esmagadas publicamente as crianças egípcias, aqueles supostos filhos de Amom. Mas, por terem semeado ventos, haverão de colher tempestades. Visto que Tebas caiu, eles também de­ vem esperar a queda. 1. D. R. Hillere, Treary-Cursex and the Old Testament Pmphels. BibOr 16(Roma: Pontificai Biblical Institute, 1964). p. 66,67, cf. esta frase com Ashumirari treaty: “Que suas nações se tornem mulheres”. Ele nota também o juramento dos soldados hititas: “Que troquem suas tropas por mulheres”. 2. Calvino, p. 496.


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É uma guinada de inspiração divina. A voz profética informa ao pecador que seu triunfo confirma seu destino. Suas vitórias seriam vis­ tas como os arautos de sua própria derrota final. Onde, pois, ficará o pecador? Em lugar algum - exceto com Nínive. Esperando a destruição final e inevitável assinada pelo Todo-Poderoso. Suplicando às rochas que o cobra. C. INDUBITÁVEL A DESPEITO DE SEU PODER (3.14-19)

O mais provável é que este personagem, tão pouco conhecido, cha­ mado Naum, tenha profetizado exatamente por ocasião do apogeu de Nínive, quando Assurbanipal estava no apogeu de sua glória (669-627 a.C.). Ao entrar em Tebas pela segunda vez, depois de uma breve re­ volta dos egípcios, os assírios levaram embora “grandes despojos além da conta”.' Tiro fora sufocada do outro lado do continente e forçada a render-se. Para o leste, a Babilônia foi subjugada e Susã, a capital do Elam, foi pilhada em 639. E assim Roux, com muita propriedade, es­ creveu; “Nunca antes o império assírio pareceu tão forte, e seu poder tão invencível”.^ Nesse ínterim, a palavra do Senhor chega a Naum. Neste panora­ ma, Deus revela que a destruição dos perversos é certa a despeito de todo seu poder. l. A cabal futilidade dos recursos humanos (3.14-18) 14 Aguas para o cerco tira para ti mesma, a fortifica h tuas fortificações, a Imerge-te b no barro a e pisa b a massa: a mantém firme 1. Roux. Ancient Iraq, p. 300, aparenlemente citando inscrições assírias. 2. th id , p. 304.


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a forma para os tijolos. 15 Justamente nesse momento, a o fogo b te devorará, a a espada b te exterminará. Consumir-te-á como o gafanhoto novo. a Multiplica-te b como o gafanhoto novo, a multiplica-te b como o gafanhoto velho; 16 Fizeste teus negociantes mais numerosos que as estrelas do céu; (mas) o gafanhoto novo invade e sai voando. 17 a Teus coroados b são como os gafanhotos velhos; a e teus capitães, b como as hordas de devoradores que se acampam nas sebes nos dias de frio; o sol nasce, e vão embora, e seu lugar é desconhecido. Onde estão? 18 a Teus pastores b dormitam, ó rei da Assíria; a teus nobres b se deitam; a teu povo b se dispersa pelos montes, b e não há quem os ajunte.


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Nesta seção, o profeta admoesta os assírios a que contemplassem a futilidade de todo o esforço humano para evitar o juízo inevitável e iminente de Deus. Preparativos de nada adiantariam (vs. 14-15a); quan­ tidades não resolveríam (vs. 15b-16); funcionalismo de nada serviria (vs. 17-18). 14-15a. Preparativos de nada adiantariam. Nessas circunstâncias, era como se Deus estivesse zombando da resistência dos assírios, fazen­ do ecoar o encontro entre ele mesmo e as forças da Assíria que havia ocorrido um século antes. Naquela ocasião, o representante de Senaqueribe ofereceu a Judá cavalos para sua própria defesa, se porventura pudessem conseguir os cavaleiros para montá-los (cf. 2Rs 18.23). Ora, como o profeta de Deus, em sua imaginação, se aproxima de cada por­ tão de Nínive, ele emite os comandos que pudessem ser emitidos de dentro dos muros de uma cidade que se reforça para o cerco iminente. Em uma rápida sucessão, cinco ordens são disparadas para ativar o programa de preparação: (1) Aguas para o cerco tira para ti mesma. Agua, naturalmente, simbolizava refrigério, alegria, vida e paz (cf. Is 12.3; 32.2; SI 23.2; Zc 14.8). Mas, águas para o cerco fere uma nota de agouro. Ela fala de racionamento, de privação oriunda de uma temerosa luta pelos ele­ mentos mais básicos da vida. Só muitos preparativos e austera autodisciplina poderiam prover alguma esperança de sobrevivência. O Senhor, porém, não tem a mínima intenção de ao menos acenar aos ninivitas com algum resquício de esperança. Em vez disso, ele zom­ ba deles, ao instar que lançassem mão de todos os recursos, desde os mais extremos que pudessem engendrar para evitar as calamidades iminentes. Todos seus esforços iriam provar ser absolutamente futeis. Sua diligência, sua disciplina e abnegação seriam inúteis. Calvino apre­ endeu 0 exato sabor desta admoestação: “Sua frugalidade, empenho e precaução não só resultarão em nada, como também se converterão em sua ruína; pois o Senhor amaldiçoa a arrogância dos homens, quando confiam em seus próprios recursos”.'

1. Calvino, p. 499.


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Senaqiieribe anteriormente se gabara de que, antes de haver feito as melhorias em Nínive, seus campos estavam em ruína por falta de água. O povo haveria de volver seus olhos para os céus em busca de sinais de chuva. Mas ele havia construído um sistema de aqueduto e escavado dezoito canais com o fim de trazer água para a cidade e mi­ norar o problema.- Contudo, no dia do juízo divino, esse elaborado sistema seria inútil. Com métodos facílimos, o adversário cortaria es­ sas fontes deixando a cidade desesperada por água. (2) Fortifica tuas fortificações. Nínive Já possuía fortificações que lhe imprimiram um senso de segurança ao longo de cem anos. Mas agora sua capacidade haveria de ser aumentada. Cada fonte de energia, por pequena que fosse, tinha de ser aplicada nesta frenética atividade de prontidão e autodefesa. Quem sabe aqueles esforços extras de últi­ ma hora pudessem fazer diferença! (3) Imerge-te no barro (lit. “vai [ou ‘vem’; heb. 6õ ’í ] para o bar­ ro”). O sentido literal da frase pressupõe total absorção num projeto ou circunstância. A alma de José “veio [heb. 6 ã ’â] para” ferros (SI 105.18), significando que sua vida fora absorvida nessa nova condição de pri­ são. “Bem avançado” em dias, idoso, velho, significava que a vida de uma pessoa se caracterizava pela circunstância daquele ponto em dian­ te (Gn 24.1; Js 13.1; 23.1). Se uma cidade “entrava” em estado de sítio (2Rs 24.10), então todas as atividades da comunidade tinham de ser ajustadas para atender a essa nova realidade. Na linguagem moderna, quando se diz que uma pessoa está “na” arte ou “nos” computadores, significa que ela está totalmente absorvida naquela área particular de interesse. A admoestação de Naum a Nínive é: “entra no barro”. Imerge-te nesse empreendimento específico. Imerge-te no barro até o pescoço. Faze um esforço sobre-humano no preparo de tuas defesas. E ainda assim nada te será de qualquer valia. Por meio dessa zombaria, Naum não está dizendo que todo esforço humano seria inútil. Sua mensagem é muito mais específica. Ele está dizendo que todo esforço humano para escapar ao juízo iminente de 2. Luckenbill. Ancient Records. 2.149, n. 332.


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Deus é fútil. As pessoas com frequência nutrem uma impressão errô­ nea, pensando que em suas vidas só labutam com as forças ou circunstân­ cias naturais. Então concluem que um pouco mais de esforço poderá possibilitá-las a fugir da calamidade que ora as ameaça. Mas o pecador está enganado. Ele falha em reconhecer o Deus vivo. Embora ele seja Espírito, e invisível às percepções humanas, é com ele que temos de nos haver. Não é sem razão que são fúteis todos os esforços humanos de defesa contra o Todo-Poderoso. Que os ninivitas se lancem no soerguimento de fortificações até os mais altos céus. Fora das bênçãos de Deus, essas fortificações de nada servirão. (4) Episa a massa. Amassar barro com os pés requer grande esfor­ ço. Independentemente se a própria pessoa realiza o trabalho ou se supervisiona o trabalho escravo para sua execução, o esforço de mistu­ rar a argamassa para fazer-se os tijolos sob o sol escaldante do antigo Oriente Próximo é extenuante. Todavia, o trabalho duro tinha de ser feito. Se a Assíria no século passado atomientara brutalmente muitas nações com rituais de cruel­ dade, tais como esfolar pessoas vivas, como é que poderia esperar algo melhor para si mesma? Portanto, eles têm de lançar fora a letargia in­ dulgente e se mexerem a fim de executar o penoso trabalho envolvido em sua defesa. Tal como se semeia, assim se colhe; e as aflições im­ postas sobre os outros, agora chegavam para eles. (5) Toma a forma para os ladrilhos. Visto que os assírios aparente­ mente usavam tijolos tanto cozidos quanto crus,^ o termo associado à fabricação de tijolos (malbên) poderia referir-se tanto à olaria quanto à fomria de moldar o barro in natiira. Esta admoestação particular, “se­ gura com firmeza” ou “reforça” o instrumento, combina com uma re­ ferência à forma do tijolo que deve ser segurada com firmeza para forçar sua forma à espessa mistura de barro mole. Esta admoestação soa bem mais adequada quando se pensa nas longas horas do dia ocu­ padas na exaustiva tarefa requerida para se produzir tijolos com o fim de reforçar, alargar ou elevar a altura do muro de Nínive. A fadiga muscular se faria sentir muitas horas antes do fim da labuta diária. 3. Cf. Keil, p. 37.


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As cinco admoestações de ironia endereçadas aos assírios soam como uma chamada às cadeias de auto-escravidão. As tarefas cansati­ vas, necessárias para erigirem-se defesas militares grosseiras, teriam assumido ares de medidas desesperadoras fadadas ao fracasso. Nor­ malmente, tal trabalho era entregue somente a escravos, mas agora todos os cidadãos ninivitas se submeteriam a esses rigores. A “vaidade das vaidades” que caracteriza todos os esforços huma­ nos sem fé no único e verdadeiro Deus vivo é reforçada no versículo 15. O enfático “ali”, que começa o versículo (traduzido Justamente nesse ponto), aponta para as mais recentes defesas construídas justa­ mente no local onde elas deveriam ser niveladas. Precisamente onde o homem, em sua revolta contra Deus, envida grandes esforços, aí é onde ele fica sujeito aos golpes divinos mais severos. Contudo, não são meramente essas frágeis defesas tão recentemente construídas que iriam ser consumidas. A cidade toda é o objeto de cada um desses três verbos como indicados pelos pronomes no feminino singular. O fogo consumiria, a espada exterminaria, o gafanhoto devo­ raria a cidade por inteiro.

15b-17. Não é fácil determinar a identidade dos vários tipos de ga­ fanhoto mencionados nesses versículos. No livro de Joel, mencíonam-se quatro tipos diferentes de “gafanhoto”, ou enxames de pragas. Na AV eles são designados como “gafanhoto cortador” (gãzãm), “gafanhoto migrador” {’arbeh), “gafanhoto devorador” (yeleq) e “gafanhoto destniidor” (hãsil) (cf J1 1.4). E muito difícil determinar se esses termos se referem a diferentes tipos de gafanhoto ou a diferentes fases de seu desenvolvimento. Mas a variedade da terminologia indica maior fa­ miliaridade deste fenômeno no Oriente Próximo do que nas culturas ocidentais. O devoramento de uma área metropolitana inteira por uma criatura tão pequena, como é o gafanhoto, realça a futilidade da grandeza dos planos humanos. A criatura mais obscura, e aparentemente indefesa, que Deus criou pode pôr de joelhos os adversários mais poderosos de Deus.

15b-16. Números de nada adiantariam. A cena dos enxames de ga­ fanhotos se complica nos versículos 15b-17. As imagens de hordas


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inumeráveis de gafanhotos são usadas para descrever tanto os habitan­ tes de Nínive como o inimigo que a devoraria. Isto é tudo o que se pode entender. Não se sabe, porém, quais as seções dos versículos aplicam as imagens dos gafanhotos à própria Nínive e quais aplicam as mesmas imagens aos inimigos de Nínive. A reação natural da máquina militar seria auto-suficiente diante de uma ameaça da parte das hordas; “Bem, vamos nos multiplicar de for­ ma que nos tomaremos tão numerosos quanto vocês”. Então o profeta propõe: “Vão em frente, multipliquem-se como um enxame de gafanho­ to. Isso de nada adiantará” (v. 15b). A combinação de uma forma mas­ culina e feminina para te multiplicas {hitkabhêd, hitkabh^dí) indica o grau mais elevado possível, ou a totalidade da nação em todos seus aspectos.'* 16. Já os assírios haviam feito seus negociantes mais numerosos que as estrelas do céu. Seu desejo insaciável por mais e mais despertou neles o desejo de dominar o comércio do mundo. Localizada justamente onde o Leste se encontrava com o Oeste, Nínive estava idealmente situada para multiplicar sua riqueza. Como Maier indica: “Sob Assurbanipal, pela primeira vez em 800 anos, a Ásia ocidental foi dominada por um único líder político. Com o vasto território do império sob um governo central, o comércio floresceu por toda essa área como nunca antes”.’ Mas, embora o número dos negociantes de Nínive fosse como as estrelas do céu (literalmente, “astronômico”), isso de nada lhes adian­ taria. A nacionalização da paixão de Esaú por satisfação do apetite sensual só poderia significar a perda de um direito de nascimento e bênçãos da nação inteira. Adorar e servir a criatura mais do que o Cria­ dor significava, neste caso, não meramente que Deus os havia “entre­ gue” (Rm 1.25-26), mas que ele iria multiplicar seus inimigos para que fossem mais numerosos que eles próprios. Como a última parte do versículo 16 o indica, pela mera força dos números áo gafanhoto devo­ rador invade e sai voando, nada deixando, nem mesmo para identifi­ car 0 que haviam comido. Nem uma folha da vegetação, nem um fiapo 4 . Cr.GKC, § IlOk. 5. Maier, p. 348.


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de roupa, nem uma iguaria alimentícia seria deixada. Aos olhos do Deus dos Exércitos, a multiplicação feita pelos homens nada significa. Nos dias em que o “crescimento da igreja” se tomou uma moda passageira, a profecia de Naum tem diretamente alguma coisa a dizer. O Senhor não se impressiona com números. O pecado de Davi, de fazer o censo das tropas, atraiu pragas sobre toda a nação de Israel (2Sm 24.1,10ss.). “Estas ovelhas, que fizeram?” foi um lamento do coração do pastor que chegara demasiado tarde (2Sm 24.17). A ação do devorador que invade e sai voando enfatiza a total eficá­ cia da destruição feita pelos gafanhotos e a condição de desolação que se instalará quando os instrumentos do Juízo divino tiverem tenninado a obra. Quando o meio ambiente restar desnudo e exposto, nada restará do longo trabalho dos negociantes de Nínive. 17-18. A eficiência da máquina de guerra dos assírios indica que ela deverá ser conduzida por boa liderança. Certamente que os assírios teriam respeitado seus oficiais. O profeta Naum fornece um quadro diferente. Seus líderes podem ser numerosíssimos, mas são ineptos, ineficientes e essencialmente preocupados com seus próprios interesses. O primeiro termo para um oficial, no versículo 17 (minn^zãr), poderia referir-se a uma pessoa coroada, aludindo ao diadema usado por um rei ou oficial; ou poderia referir-se a uma pessoa “separada” ou “consagrada”, também denotando alguém na função de liderança; ou o termo podia ser entendido como uma forma hebraizada de título nativo assírio, como parece ser mais claramente o caso do termo seguinte {(ipsãr, do assírio dupsarru), aqui traduzido por capitães. Em qual­ quer caso, a referência é àquelas pessoas nas funções de liderança ou autoridade dentro do império assírio. Visto que o número do populacho assírio era tão grande, a lideran­ ça era também virtualmente inumerável. São como os gafanhotos ve­ lhos {’arbeh) e as hordas de gafanhotos (gôt gõ^ãy). A repetição da mesma palavra, nesta última frase, tem sido interpretada por alguns como um sinal de um erro de copista. Mas a construção pode ser mais bem entendida como expressando uma ideia de superlativo.® Seus líde­ 6. Cf.GKC.5 133i.


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res são tantos em número que se comparam não apenas a gafanhotos, mas a hordas de gafanhotos. Mas esta multiplicidade de liderança não lhes seria de nenhuma ajuda. O profeta apela para o fenômeno comum no Oriente Próximo. Amontoados em massas, os gafanhotos cobrem as folhas e ramos ao longo de uma cerca viva num dia nublado e frio. Mas no momento que o sol aquece suas carapaças de sangue frio, eles se vão e não se conhe­ ce o lugar onde esíãol Não deixam nem traços de sua presença anterior. Da mesma maneira ocorre com a liderança humana. Agora decaí­ dos de sua posição real de dominação sobre toda a terra, mesmo os líderes entre os humanos não têm mais realeza do que as criaturas mais inferiores, enxameadas sobre a terra. Congelados, imóveis - talvez co­ vardes e indecisos - , Nínive futilmente deposita sua esperança nos re­ cursos humanos. O termo usado por Naum para descrever a partida da horda de ga­ fanhotos (nódad), em outro lugar é usado para descrever a fuga dos componentes de guerra (Is 33.3), homens de batalha (Is 21.15), os líde­ res e reis de exércitos (Is 22.3; SI 68.13 [Eng. 12]). Portanto os prínci­ pes e chefes da Assíria desaparecem no calor da batalha. Eles não dei­ xam rastros de sua existência. Consequentemente, seus seguidores ex­ perimentam a impiedosa mutilação feita por seus inimigos. Onde estão eles? pergunta Naum, com uma alfinetada satírica. Quan­ do a batalha realmente começa a enfurecer, onde estão aqueles prínci­ pes orgulhosos da Assíria? Não estão em nenhum lugar que possam ser achados. 18. Numa expressão culminante sobre liderança ninivita, o profeta se dirige ao próprio rei. Foi por causa desse movimento ousado que alguns chegaram à conclusão de que a mensagem de Naum não teria sido dirigida a seus contemporâneos, mas meramente escrita e desen­ volvida de forma secreta. Tal sugestão pelo menos exibe a consciência do radicalismo do que o profeta está fazendo. Embora suas palavras sejam consideradas como molduras diplomáticas, elas não são menos cortantes em sua franqueza. Ó rei da Assíria, ele diz. Presta atenção no que digo! Minha voz


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pode ser a voz de um cidadão desconhecido pelo menos em sua condi­ ção de vassalo. Minhas palavras, porém, são verdadeiras, e por isso de maior importância do que todas as missivas seladas pelos dignitários do Estado. Qual é a mensagem do profeta ao poderoso rei da Assíria? Primeiro, ele declara o destino dos líderes do rei.- teus pastores dormem... teus nobres dormitam. A referência poderia ser a “dormir” o sono da morte (cf SI 13.4 [Eng. 3]; 76.6 [Eng. 5]; Jó 3.13; 14.12; Jr 51.39,57; Dn 12.2). Mas o contexto imediatamente anterior, que des­ creve os líderes que se vão como uma horda de gafanhotos, pressupõe que Naum critica a indolência, a negligência, o relaxamento da lide­ rança assíria. O paralelismo de dormem com dormitam apoia esta con­ clusão, visto que o último termo raramente é usado para morte, parti­ cularmente sem especificar que uma pessoa dormita na “morte” ou “no túmulo”, como em Isaías 26.19. O rei da Assíria poderia estar alheio ao que estava ocorrendo em seu reino, mas ele logo aprendería os efeitos da negligência e dissipação da parte de sua liderança. Já teu povo se dispersa pelos montes, e não há quem o ajunte (v. 18b), disse o profeta. Um contingente de subordi­ nados inteligentes podia manter o rei no escuro sobre o que de fato ocorria em seu império, mas a verdade logo viría à tona. O resultado inevitável da negligência dos líderes seria o colapso do reino. O termo pastor {rô’eh) indica um papel de responsabilidade em cui­ dar daqueles que necessitam de diretriz para suas vidas. Nobre ( ’adcHr) caracteriza vários objetos, inclusive navios, árvores e a água do mar (cf Is 33.21; Ez 17.23; Ex 15.10). Apalavra expressa a majestosa ex­ pansão de um objeto imponente. Mas a liderança assíria não tem sido nem majestosa nem atenciosa. Como consequência, os cidadãos de todo esse vasto império foram forçados a fugir para as montanhas. A imagem de um povo disseminado e espalhado como ovelhas sem pastor é encontrada repetidas vezes nas Escrituras. Moisés orou por um sucessor para si próprio, “que saia adiante deles e que entre adiante deles e que os faça sair e que os faça entrar para que a congregação do S e n h o r não seja como ovelhas que não têm pastor” (Nm 27.17). O profeta Miqueias, ao predizer a morte de Acabe, também viu “todo o


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Israel disperso pelos montes, como ovelhas que não têm pastor” (IRs 22.17). Disperso pelos montes, o remanescente do que uma vez fora uma grande nação se escondia em cavernas sem esperança de restaura­ ção dissociado de uma liderança atenciosa. Naturalmente, o próprio rei da Assíria sofreria o peso da respon­ sabilidade por essa dissolução de seu povo. Ele foi o primeiro a dar o exemplo de um monarca cruel que demandava tudo quanto há para satisfazer seus próprios intentos egoístas. Portanto, não surpreende que seus subordinados, seus designados, manifestassem o mesmo com­ portamento voraz. Por meio do uso da forma masculina do pronome, no versículo 18, em contraste com os pronomes femininos, nos versícu­ los anteriores, Naum indica que esses nobres negligentes são os servos do rei. Da mesma maneira que seus contemporâneos, Habacuque e Sofonias, Naum apresenta pouco ou quase nada em termos de expectação messiânica explícita. Ele não fala da vinda de um rei-pastor que daria esperança àqueles desolados em contraste com os atos insensíveis do rei da Assíria, mas seu contemporâneo Jeremias o faz (Jr 23.4-6). O profeta Ezequiel também proclama sua expectativa da restauração de um pastor davídico que iria contrastar com os reis egoístas de Israel (cf Ez 34.22-24). Situando-se em contraste histórico com o rei insensível da Assíria encontra-se o Filho de Davi como apresentado nas boas-novas de Ma­ teus. Observando o estado das multidões, Jesus se sentiu movido de compaixão “porque estavam aflitas e exaustas como ovelhas que não têm pastor” (Mt 9.36, NASB). Ele então ordenou a seus discípulos que orassem ao Senhor da seara, que mandasse trabalhadores para fazer a obra {ergátas) (Mt 9.38). Em seu reino, ele não tinha lugar para pregui­ çosos, indolentes, vadios e fanfarrões. Jesus então agiu de modo deci­ sivo. Ele comissionou os doze e lhes ordenou: “procurai as ovelhas perdidas da casa de Israel”, anunciando que o rehw dos céus já chegou (Mt 10.1,6-7). O povo do rei da Assíria fora espalhado pelos montes, e nenhum de seus designados se dispunha a reuni-los. O próprio rei tinha ainda me­ nos propensão a buscá-los. Que grande contraste com o Rei dos reis e


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Senhor dos senhores que, como o Bom Pastor, deu sua vida por suas ovelhas (Jo 10.11). 2. A tragédia fina! do pecado persistente (3.19) 19 Não pode haver redução para tua ferida; tua praga é fatal. Todos os que ouvem tua história baterão palmas sobre ti;' porque sobre quem tua crueldade não fo i infligida continuamente? Tendo declarado a completa futilidade de todos os recursos huma­ nos que Nínive poderia convocar em sua defesa, o profeta então chega à sua última palavra. Pela terceira vez neste capítulo, ele dirige uma pergunta retórica aos próprios assírios, agora forçando-os a reconhecer as trágicas proporções de seu colapso como um império. A pessoa a quem esta inquirição final é dirigida é diferente dos dois casos anteriores. Em ambos os casos, a pergunta fora dirigida na fonna feminina singular (vs. 7-8). Mas agora a pergunta evidentemen­ te foi feita na forma masculina singular (v. 19). Os pronomes femini­ nos singulares nos dois primeiros casos quase certamente se referiam à cidade de Nínive. O masculino singular do versículo 19 parece referirse ao rei de Nínive, seguindo, como faz, as palavras especificamente dirigidas a ele no versículo 18. Então aferida e a praga descrevem a derrubada do poderoso monar­ ca, 0 rei da Assíria. Historicamente, o rei no trono da Assíria, nos dias de Naum, era provavelmente Assurbanipal, um dos mais cruéis e mais des­ póticos dos soberanos assírios. Mas a referência de Naum poderia ser no sentido mais geral, referindo-se à sucessão dos regentes de Nínive. 1. A AV traz “todos os que ouvirem o rumor sobre ti”; bruit era um tenno comum no século 16, cujo significado é “relato”, emprestado do francês bruit, significando "barulho”. Cf. Driver, p. 46.


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Por que nào poderia haver redução de sua ferida? Porque, embora as rodas da justiça de Deus se movam devagar, elas se movem perfeita­ mente. Chegaria o tempo em que a longanimidade de Deus também chegaria ao fim. Então ele traria célere vingança sobre seus inimigos. Uma mensagem assim se aplica a todo e qualquer opressor. Em certo ponto, o tempo chega quando o Senhor põe um basta. Por algum tem­ po, ele poderá deixar o tirano viver na luxúria proporcionada pelo san­ gue dos mártires. Mas um ajuste completo se requererá sem condição de escape. Talvez a dimensão mais trágica do fim do rei da Assíria seja a ob­ servação que Naum faz de que todos se regozijariam com sua morte. Todos os que ouvirem tua história baterão palmas sobre ti. A resposta seria a mesma em todo o universo. Sem jornais, televisão, rádio ou satélite, a notícia se espalharia da noite para o dia. Quando cai um monarca opressor, como Assurbanipal, as reverberações são ouvidas nos confins da terra. Um aplauso vigoroso, jubiloso, público explodiria espontaneamente quando o rei de Nínive morresse. Da mesma maneira que os aliados saudaram a queda da Alemanha nazista, e a morte aparente de Adolf Hitler, também todas as nações receberiam com grande alegria as noti­ cias da morte do rei da Assíria. Do mesmo modo que o infame rei Jeoaquim de Judá teve o sepultamento de um jumento (.Ir 22.19), também o monarca assírio teria um fim infame. A razão para essa resposta entre as nações era nitidamente evidente. O profeta formula sua pergunta final em termos inevitáveis: sobre quem tua crueldade não fo i infligida continuamente? Ao poderoso monarca, ele pergunta: “e o que esperavas?”. Pessoa alguma, tampouco alguma nação foi poupada de sua brutalidade. Três continentes haviam camba­ leado por décadas debaixo dos extremos irracionais de tua violência. Por acaso aqueles cujos olhos arrancaste poderiam derramar lágrimas por tua morte? Aqueles cujas orelhas e narizes foram decepados, por­ ventura lamentariam agora? Poderiam as línguas que arrancaste recitar poemas para ouvires? Com essas últimas palavras, o profeta ressalta os horrores do mo­ narca assírio: continuamente (tãmíd). Continuamente, e sem cessar, o


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rei causara devastação entre as nações. Em vez de abrandar os gemidos e suspiros das multidões, o tirano atormentara de modo inclemente a seus vassalos. Em contraste radical, o Deus de Israel havia demonstrado sua paci­ ência e longanimidade continuameníe. Os pães da proposição no ta­ bernáculo se destinavam a representar sua beneficência coníinuamente (“perpetuamente” Ex 25.30). A nuvem da glória de Deus cobria Israel continuamente (“de contínuo” Nm 9.16). “Os olhos do Senhor” obser­ vavam a terra continuamente (Dt 11.12). Poderia Naum falar tais palavras na cara do rei de Nínive e ter sobrevivido? Tem-se sugerido que a referência peculiar ao Livro da visão de Naum, no título, indica que ele o escreveu, porém não procla­ mou suas palavras.^ Seguramente, a liberdade e a vida de Naum estariam ameaçadas caso pronunciasse tal mensagem. Dezenas de milhares fo­ ram brutalmente maltratados pelo rei da Assíria sem outra razão senão porque pertenciam à multidão dos povos conquistados. Iria ele tolerar a condenação franca das palavras de Naum? Provavelmente, não. E pro­ vável que Naum não sobrevivesse para ver o cumprimento de sua pala­ vra da parte do Senhor. Talvez ele estivesse catalogado juntamente com aqueles de quem o mundo não era digno. Mas, de qualquer maneira, o padrão dos pregadores proféticos da palavra de Deus não sugere que Naum tivesse distribuído sua mensagem de forma anônima e em silêncio movido pelo medo das consequências da proclamação pública. Uma grande parte do livro se dirige diretamen­ te aos habitantes de Nínive e a seu rei. Segundo o padrão da história dos profetas de Israel, uma proclamação da verdade na esquina de uma rua é o máximo que se espera, independentemente das consequências. Não se pode esquecer que Jonas também fora encarregado, cem anos atrás, de levar uma palavra de juízo especificamente dirigida a Nínive. No caso de Jonas, ele fora encarregado de proclamar sua men­ sagem nas praças públicas da própria cidade de Nínive. Mais um ponto de comparação entre Jonas e Naum é digno de nota. Apenas dois dos sessenta e seis livros da Bíblia terminam com uma 2. Rudolph, p. 188.


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pergunta: Jonas e Naum. Ambos os livros se encontram entre os Profe­ tas Menores; ambos são da mesma extensão; ambos terminam com uma indagação.^ A pergunta de Naum proclama justiça. Por que, sobre quem tua crueldade não fo i infligida continuamente? Explica por que a vingan­ ça divina por fim deveria recair sobre a cidade impenitente. A pergunta de Jonas proclama misericórdia. “Não hei eu de ter compaixão da gran­ de cidade de Nínive...?” (Jn 4.11, NASB) explica por que a longanimi­ dade de Deus significa salvação, mesmo para aqueles que cometeram grandes perversidades. T. F. Glasson sugere que o final de Jonas “talvez seja consciente­ mente destinado a refutar a implicação da pergunta final de Naum”.'* Com base nesta hipótese, conclui-se que Jonas deveria ter escrito de­ pois de Naum. Mas uma conclusão acerca da datação destes dois livros baseada neste tipo de análise teológica anula toda a mensagem do livro de Naum e ignora o testemunho uniforme das Escrituras de que chegará 0 tempo em que a oferta de misericórdia será substituída pelo juízo divino. A realidade da retribuição ao perverso não ocorre de repente no final da profecia de Naum, na forma de pergunta retórica. Em vez dis­ so, todo o teor da profecia garante que a resposta correta seria dada à pergunta de Naum. Quão gloriosa é a sabedoria de Deus ao tratar com os pecadores! No século 8« a.C., Jonas foi incumbido de proclamar a mensagem que iria resultar na salvação da cidade de Nínive, inclusive seu rei, apesar de seu grande pecado. Cerca de cem anos após Jonas, a mensagem de Naum, nos meados do século 7«, fornece um arcabouço da integridade da oferta divina de misericórdia. Os impenitentes finalmente serão jul­ gados. A destruição total da cidade de Nínive, em 612, confirma a va­ lidade das palavras de Naum. Ele era realmente um profeta de Deus, segundo os critérios estabelecidos por Moisés (c f Dt 18.21-22).

3. Cf. T. F. Glasson: “The Final Question - in Nahum and Jonah”, ExpTim 81 (1969,70), p. 54,55. 4. Ibid


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NAUM 3.19

A veracidade de sua profecia significa que, em princípio, cada rei­ no do mundo, sucessivamente - seu rei, seus oficiais, seus cidadãos deve prestar atenção. Pois a mensagem de Nínive se aplica “a todos os reinos do mundo que se levantam contra Deus, desde a destruição de Assur, e que ainda continuará até o fim do mundo”.*

5. Keil. p. 48.


o LIVRO

DE H A BA C U Q U E


SO BRESC RITO (1.1)

I. A sentença que Habacuque, o profeta, viu.

A profecia de Habacuque possui

uma dimensão muito incômoda do princípio ao fim. O livro começa com um lamento queixoso: “Até quan­ do...?”. E termina com a resolução do profeta de suportar o severo e inevitável juízo divino. Esta mensagem é, com justiça, denominada a sentença de Habacuque.' Somente o dom do Espírito inspirador de profecia poderia tomar possível a uma pessoa dar a conhecer com fidelidade a plena destrui­ ção de seu próprio povo e terra. Aquele solene ofício e vocação perten­ ciam a Habacuque. Ainda que sua vocação para o ofício não esteja registrada, ele é designado como o profeta. Assim sendo, ele falou como o porta-voz designado por Deus. Várias conjeturas e mitos têm-se proposto para compor a biblio­ grafia desse servo do Senhor.^ Mas, nem as Escrituras nem outras fon1. É bastante claro que o termo maéáã’ pode ser aplicado litcralmente como “carga” (fardo, peso) que tem de ser carregada (cf. Ex 23.5; 2Rs 5.17; 8.9). Não é claro se o termo também pode ser aplicado no sentido simplesmente de “pronunciamento”, apesar da opi­ nião de alguns intérpretes antigos e da maioria dos modernos. O termo introduz uma men­ sagem de Juízo ou condenação em quase todos os casos em que ele precede a um discurso profético. Particularmente, no caso da mensagem de Habacuque, parece ser apropriado traduzir o termo como “sentença”, em vez de “pronunciamento”. Para mais discussões e referências à literatura relevante, ver o comentário sobre Naum I. I . 2. Jerônimo e Lutero traçam a raiz do nome do profeta a um termo que significa “abra­ çar”. Mais recentemente, ele tem se relacionado com um nome acadiano de uma planta. Habacuque é mencionado no acréscimo grego ao livro de Daniel, como aquele que apare­ ceu a Daniel na cova dos leões (Bel e o Dragão, 33-39). Com base na referência dc Habacuque 3.19 para o “meu negiolh", tem-se concluído que Habacuque era de descendência levitica, e que participava do culto no templo em Jerusalém. Mas esta sugestão presume que somen­ te levitas podiam compor poemas ou fazer uso de instrumentos musicais. Para comentários sobre es.sas várias conjeturas a respeito de Habacuque, ver Rudolph. p. 199.


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HABACUQUE 1.1-17

tes extrabíblicas fornecem informações substanciais a respeito da vida de Habacuque. Da mesma maneira que Elias, bem como João Batista, o profeta por excelência da Nova Aliança, Habacuque aparece meramente como uma *‘voz” e nada mais. Ele deve ser ouvido porque é o portador da mensagem de Deus, não por causa do que ele era pessoalmente. O fato de que Habacuque “viu” sua mensagem provavelmente en­ fatiza mais o caráter revelacional da visão do que o modo pelo qual ela foi comunicada. A mensagem viera diretamente do próprio Deus, e não do subconsciente do profeta. A mensagem de Habacuque é distintiva, tanto em estilo quanto em conteúdo. Além do paralelismo que se pode esperar num livro profético, a mensagem de Habacuque introduz estilos importantes. O mais notável é o diálogo do capítulo 1. Mas os cinco ais do capítulo 2, bem como o salmo completo do capítulo 3, oportuno para uso em celebração, tam­ bém são dignos de nota. A despeito desta diversidade de formas, a mensagem do profeta tem uma unidade ímpar. O tema subjacente do livro pode ser resumido como segue: iima fé sólida confia humildemente, porém persislenfemenle, nos designios de Deus a fim de estabelecer a justiça na terra. De modo notável, dá-se ao leitor o privilégio de testemunhar o pro­ gresso singular do próprio profeta se submetendo a um novo conceito dos propósitos do Senhor entre Israel e as nações. A ideia de cresci­ mento ou maturação da fé é essencial para se apreciar o caráter desta profecia. Confiança nos propósitos do Senhor, a despeito de percep­ ções confusas do que precisamente ele está formulando, repousa no centro do pensamento de Habacuque. Num crescendo, as intenções do Senhor vão ocupando posição no primeiro plano enquanto o profeta se digladia com as revelações progressivas.

I. O DIALOGO DE PR O T EST O (1.2-17) A forma de diálogo direto com Deus é distintiva em si mesma, como um modo de revelação profética. Mas a observação cuidadosa dos particulares dessa forma como se encontra em Habacuque revela outros elementos dignos de nota.


HABACUQUE 1.2-17

177

O profeta fala como um indivíduo que se dirige a Deus, mas o Senhor responde a uma pluralidade de pessoas em vez de exclusiva­ mente ao profeta. Essa divergência de recipientes do discurso é apro­ priada segundo a perspectiva de ambos: Deus e o profeta. Habacuque sofre com o senso de solidão como consequência da desavença criada pela violência que o povo de Deus tem sofrido nas mãos uns dos ou­ tros. Ele se dirige a Deus como uma voz isolada, embora fale em bene­ ficio de outros em sua posição como mediador profético. Então o Se­ nhor responde, não como a ignorar a agonia do profeta, mas o incluin­ do entre os demais espalhados por todo o Israel, que permanecem fir­ mes na fé, a despeito de sua perplexidade. Até mesmo o modo empregado pelo profeta em registrar a resposta divina merece comentários. É evidente que uma mudança de oradores ocorre em 1.5. Em resposta a um indivíduo isolado que se dirige a Deus (“Até quando, ó S e n h o r , eu clamarei por socorro?”, v. 2), o Se­ nhor em pessoa se dirige a todo seu povo (“Olhai [vós] entre as nações e vede”, v. 5). Todavia, o profeta não emprega nenhuma das fórmulaspadrão de introduzir um oráculo divino; por isso o leitor é deixado à mercê de seus próprios meios para determinar quem parece ser o ora­ dor num dado momento do diálogo. Somente ao chegar em 2.2 é que o orador é especificamente identificado. Esse estilo literário particular realça a dramaticidade do diálogo. A natureza crítica da situação demanda exatidão de abordagem, e o livro de Habacuque enuncia a palavra de Deus numa forma que se amolda à situação. Em vez de falar primeiramente ao profeta como um indiví­ duo, Deus fala diretamente ao seu povo. A. O PORTA-VOZ PROFÉTICO SE OUEIXA CONTRA AS ORAÇÕES NÁO RESPONDIDAS POR ALÍVIO DA INJUSTIÇA (1.2-4)

2 a Até quando, ó Senhor, clamarei por socorro? b Mas não! Tu não escutarás, a Eu clamo a ti: Violência! h Mas não! Tu não salvarás.


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HABACUQUE 1.2-4

3 a Por que me fazes assistir b a tribulação? b No sofrimento a tu me forças encarar. A pilhagem e a violência me confrontam; há intrigas, e a contenda se suscita. 4 Por esta causa, a a lei b se afrouxa: a a justiça b não é executada como se deve. Porque o perverso cerca o justo; por isso a justiça se manifesta pervertida 2-3. Duas expressões introduzem a queixa do profeta: Até quando? e Por quê?. A primeira implica que o profeta já gastara tempo em peti­ ção a Deus em decorrência de sua profunda preocupação com as cir­ cunstâncias prevalecentes em seu tempo. Vezes sem conta ele se vol­ vera com seu coração partido a fim de orar a respeito da terrível situa­ ção. Finalmente, ele chegara a ponto de manifestar seu espanto ante o silêncio de Deus. Ele não consegue entender como o Todo-Poderoso podia permitir a situação perdurar ainda por mais tempo. 2. E provável que o profeta granjeasse algum consolo, caso se lem­ brasse que 0 próprio Senhor foi o primeiro a clamar “Até quando?”. Muito tempo antes de Habacuque começar sua luta com o problema da prevalência do mal, da opressão e da injustiça, o Justo já havia pergun­ tado “Até quando?”. A graça de Deus já havia perguntado “Até quan­ do?” assim que Israel desconsiderou a bondade envolvida em outorgar uma dupla porção de maná no dia antes do sábado (Êx 16.28). Quando o povo demonstrou sua incredulidade em aceitar o relato dos espias céticos, o Senhor perguntou: “Até quando?” (Nm 14.11). Não há dúvi­ da de que o Senhor era solidário às agonias de seu profeta. Embora sua própria longanimidade explique sua demora em estabelecer a justiça, não obstante agoniza com seu povo em sua dor. Essa perspectiva pode fornecer um contexto apropriado para res­


HABACUQUE 1.2

179

ponder à indagação se o profeta permanecia dentro dos limites da pro­ priedade formulando essas perguntas. Visto que a oração é dada especificamente como o veículo por meio do qual todos os fardos do povo de Deus podem ser depositados perante o Senhor, orações expressando perplexidade são aceitáveis, contanto que sejam oferecidas num con­ texto de confiança. Enquanto o mistério da iniquidade estiver em ope­ ração, o povo de Deus deverá ansiar fervorosamente por alívio de sua dor. Até mesmo os santos em perfeição são representados como ansi­ ando pela justa retribuição que deve cair sobre o perverso, chorando em alta voz: “Até quando?” (Ap 6.10). Se a deficiência da fé de seus discípulos em realizar milagres leva o Mediador da Nova Aliança a formular a pergunta: “Até quando?”, ele deveria ter paciência, não de­ veria ficar perplexo ao encontrar um profeta da Velha Aliança, inda­ gando: “até quando” o Senhor iria tolerar as injustiças grosseiras de seus contemporâneos (cf Mt 17.17)? O teor da queixa do profeta gira em torno de uma oração não res­ pondida. Ele tem clamado por alívio da injustiça; e não tem recebido resposta. Uma revisão da história pregressa em parte explica as perple­ xidades desta circunstância. No tempo da insistência de Israel em esta­ belecer a monarquia, o Senhor os alertou por meio de seu servo: “Cla­ mareis por causa de vosso rei que houverdes escolhido; mas o Senhor não vos responderá naquele dia” (ISm 8.18). A consumada conse­ quência de rejeitarem a Deus como seu rei é que a ímpia monarquia os levaria a um estado de opressão. Então o Senhor não iria ouvir seu cla­ mor por alívio. O profeta clama, porém o Senhor não ouve. A perversida­ de atraída por Manassés e seus predecessores havia selado o destino de Israel. Entregues a si mesmos, eles sofrem abusos intermináveis. Frequentemente, as referências relativas ao povo de Deus claman­ do em agonia são equilibradas pela afirmação de que Deus ouvira seu clamor (Êx 2.23; Jz 3.9; SI 22.6,25 [Eng. 5,24]; 30.3 [Eng. 2]; 72.12; Jn 2.3 [Eng. 2]; Is 58.9). Mas, também aparecem indícios de que o pecado do povo de Deus pode levar o Senhor a não responder pronta­ mente com livramento quando clamam. No período dos Juízes, o Se­ nhor forçou 0 povo a recordar seu pecado antes que pelo menos ele desse algum sinal do livramento (Jz 6.7). O salmista dá a entender que


180

HABACUQUE 1.2

um período prolongado de oração precedeu seu próprio livramento (SI 22.7 [Eng. 6]). Particularmente Jó, como um personagem sábio, admi­ ra-se da falta de resposta da parte de Deus ao seu clamor. Sua lingua­ gem é notavelmente paralela àquela encontrada em Habacuque: Jó 19.7

’es'aq hãm ãs w^lõ’ ’ê'ãneh Eis que clamo: “Violência!” e tu não respondes.

Habacuque 1.2

’ez'aq ’êleykã hãm ãs w^lõ’ tôsia Eu clamo a ti: “Violência!” e tu não me ouves.

Na realidade, somente a sabedoria de Deus pode responder a essa indagação reconhecidamente perplexiva da oração por livramento que pennanece sem atenção e sem resposta. Inconscientemente, o profeta poderia ter pressentido um aspecto de maior alcance na resposta à sua própria indagação, como se vê na for­ ma dessa pergunta. Quando denuncia sua angústia causada pela vio­ lência (hãmãs) na terra, ele ecoa a descrição das circunstâncias preva­ lecentes nos dias do dilúvio. Naquele tempo a terra estava também “cheia de violência” (cf. Gn 6.11,13). Mas agora a situação prevale­ cente é ímpar no sentido em que aqueles que se põem à parte a fim de compor o povo de Deus são os próprios instigadores de violência entre si.' Por essa razão, o juízo terá de começar pela casa de Deus. Visto que violaram as estipulações da aliança, eles terão de sofrer as maldi­ ções previstas na aliança sancionada centenas de anos atrás: “serás oprimido e roubado todos os teus dias, e ninguém haverá que te salve” (Dt 28.29). 1. Os propagadores de violência não podem ser os caldeus, pois estes serão os instrumentos do juízo de Deus (v. 6). Não podem ser os assírios, pois estes não podem ser convincente­ mente caracterizados como sendo “mais justos” que os caldeus (v. 13). O abuso da Torá aponta para o próprio povo de Deus como sendo aquele que oprime a seu próximo.


HABACUQUE 1.2-4

181

Uma complicação adicional nesse caso é vista no fato de que Habacuque se põe entre os inocentes e não entre os propagadores de violên­ cia. Como um mediador profético, sua petição é oferecida em favor de todo o remanescente fiel. Então, por que essa oração não é respondida? É nesse contexto que o profeta registra seu protesto ante o Senhor. Em vista da intenção divina em manter um povo separado para si, como negaria ele providenciar livramento em circunstâncias tão desesperadoras? 3. Os pontos específicos da queixa de Habacuque são citados com mais clareza em três pares; tribulação e sofrimento,pilhagem e violên­ cia, intriga e contenda? Anteriormente, Balaão ponderara sobre a bên­ ção do povo de Deus observando que ele não conseguia encontrar “tri­ bulação” {’ãwen) e “sofrimento” (ã m ã l) em Israel (Nm 23.21). Mas agora a nação inteira era assolada por essas aflições. Tanto o pecado quanto suas consequências prevalecem em todo o país. 4. Nesta situação, a posse da lei não estava sendo de valia alguma para Israel. A lei de Deus se afrouxa. Sua sensibilidade à causa do direito tem sido sufocada. A melhor lei do mundo de nada aproveita se seus estatutos não são mantidos. O perverso é mais numeroso do que o justo, o cerca e impõe sua própria vontade sobre o povo. Ajustiça não é exercida, ela é pervertida. A pior coisa que uma pessoa Justa poderia fazer seria apelar para o tribunal da terra a fim de Julgar sua causa. Pois com toda certeza a decisão seria contra tal pessoa.^ 2. A compreensão precisa desses termos neste contexto é dificil. ’Swen e 'BmSl podem descrever as consequências decorrentes do pecado (problemas, dores, trabalhos, tristezas, como em Gn 3.S. 18; SI 7.15 [Eng. 14]; 10.14; Jr 20.18), ou o pecado que traz essas circunstân­ cias (iniquidades, perversidade: malícia, mal, como em Jó 34.36; Is 1.13; SI 7.17 [Eng. 16]). Sõd pode descrever “devastação” em geral ou “pilhagem” como uma maneira em particular em que esta devastação ocorre, rí^ pode comunicar a ideia geral de “contenda” ou pode indicar mais especificamente um “processo” como uma maneira formal de instigar litígio. 3 .0 comentário de Habacuque nos Rolos do Mar Morto ( IQpHab) interpreta “o justo” (na forma singular) como se referindo a móne/i ha^sedeq.“o mestre da justiça”. W. H. Brownlee, The Midrash PesherofHabakkuk, SBL Monograph 24 (Missoula: Scholars Press, 1979), p. 46, eonjetura que a porção que falta no comentário deste versículo interpretado como “o perverso” (também na forma singular) se refere ao mau .sacerdote. Desta maneira, o rolo teria introduzido, nesse ponto inicial, os dois antagonistas principais. Brownlee considera essa análise como sendo apropriada, visto que “o texto em si indica um homem justo per.se-


182

HABACUQUE 1.5-11

Então o profeta apresenta sua queixa. E ela é de fato procedente. Ele não consegue encontrar justiça entre o próprio povo de Deus. Em vez disso, uma perversão brutal da lei de Deus impera sobre a terra. O povo justo do Senhor sofre abusos intermináveis. As orações dos devotos ficam sem resposta. Como o Senhor explicaria essa terrível circunstân­ cia e a ausência de resposta ao clamor do profeta mediador? B. O SENHOR REVELA SEU TERRÍVEL INSTRUMENTO DE RETRIBUIÇÃO (1.5-11)

Nesse momento entra em cena a resposta divina. O Senhor ouvira pacientemente a queixa do profeta. Visto ser a resposta divina dada a uma pluralidade de pessoas, pode-se presumir que Habacuque era vis­ to como o porta-voz de um grupo de pessoas em vez de simplesmente dele apenas. A resposta do Senhor às queixas do profeta é surpreendente. É in­ teressante observar que de modo algum o Senhor questiona a análise de Habacuque com respeito às circunstâncias reinantes na nação. O Senhor concorda com a acusação profética contra o comportamento do povo pactuai. A violência impera. Litígio, contenda, pilhagem e perver­ são da justiça permeiam a nação. A anuência do Senhor a todos esses relatos teria desarmado o profe­ ta, até certo ponto. Ele não podia mais objetar que o Senhor não via a corrupção da terra. E possível que Habacuque não tenha ficado plena­ mente desarmado ainda. Mas o processo havia começado. A total ausência de repreensão ao queixoso também deve ser avaliada do ponto de vista de seu efeito abrandado. A agonia do profeta encontra a plena simpatia da parte do Senhor a respeito do sofrimento dos justos. Embora nutrindo também maior preocupação, o Senhor conhece e sim­ patiza por aqueles que estão rodeados pelos perversos. guido. que é o objeto da injustiça procedente do homem perverso”. Conquanto IQpHab seja intrigante pela visão que fornece da situação histórica da comu­ nidade de Qumran, não parece provável que Habacuque tivesse a intenção de se referir a um sofredor justo, singular, que é a vitima de um único adversário. Em vez disso, a hermenêutica da comunidade do Mar Morto reforçou sua circunstância histórica nas palavras de Habacuque.


HABACUQUE 1.5

183

O caráter formidável da revelação do Senhor se relaciona com a grandeza da resposta divina que paira sobre o horizonte da história. Quando esta iminente realidade é avaliada, toma-se óbvio que o Senhor percebe o problema ainda mais profundamente do que o profeta o faz. E assim, sua solução para o problema parece esmagadora. Como uma preparação para manifestar sua resolução a esta injusti­ ça, o Senhor adverte usando palavras pressagiosas sobre as coisas es­ pantosas que 0 profeta e o povo veriam (v. 5). Então ele identifica especificamente o instrumento que preparara para executar o Juízo (v. 6a). Finalmente, ele caracteriza com uns vinte detalhes a força iminen­ te da retribuição (vs. 6b-11 ). /. Preparação para a revelação do instrumento da retribuição divina (1.5) 5 Olhai entre as nações e vede! Ficai atônitos! Maravilhai-vos! Porque eu' estou fazendo uma obra em vossos dias; não crereis mesmo que fosse contada. Deus não é nenhum alarmista. Mesmo assim ele reúne nada menos que quatro palavras de alerta para despertar os recipientes desta men­ sagem: Olhai! Vede! Ficai atônitos! Maravilhai-vos! O profeta havia apresentado um problema perplexivo. A resposta divina é de natureza tão esmagadora, que até mesmo esse tipo de alarme não é excessivo em preparar o povo para sua recepção.

1. GKC, § I I6s, expressa incerteza acerca da possibilidade de um pronome da primeira pessoa servir de sujeito subentendido de um particípio em hebraico. Em vista desta conside­ ração, Rudolph. p. 203 n. 5 (c) sugere um passivo indicativo (Pa‘ul em vez de Po‘el; um trabalho “está sendo feito”). Brownlee, Midrash, p. 54, favorece “ele está trabalhando”. Contudo, o sujeito subentendido da primeira pessoa não é excluído por GK.C. A LXX traduz egõ ergázomai: e o versículo seguinte de Habacuque indica que Deus é de fato o sujeito (“Pois eis que [eu] suscito os caldeus” - e.xegeirõ).


184

HABACUQUE 1.5

O anúncio do juízo iminente que lhes sobreviria recebe vigor extra no fato de que ele ocorre sem introdução. Nenhuma fórmula do tipo “o Senhor respondeu, dizendo...” ocorre. Contudo, é óbvio que ocorreu mudança de orador, e que Deus agora se dirige ao povo e a seu profeta. O chamado para se pôr de prontidão, no versículo 5, está no plural; e no versículo 6 o orador declara que está suscitando uma nação estran­ geira para Julgar Israel. Uma ação de tal supremacia só poderia ser realizada pessoalmente pelo Todo-Poderoso. Quais são as pessoas alcançadas por essas admoestações? Estaria o Senhor se dirigindo à nação israelita como um todo? Estaria ele procu­ rando alertar o remanescente fiel a quem Habacuque serve de portavoz? Ou essas terríveis palavras de juízo são dirigidas mais diretamente aos perversos dentre a nação que deverão receber em si mesmos o im­ pacto da terrível obra de devastação divina? A resposta a essa questão depende muito da tradução adotada do texto original do oráculo. E preciso levar em conta duas opções textuais: (I) “Olhai entre as nações” (r^’âbo.ggôyim), (2) “Olhai, vós que agis traiçoeiramente” {r^’ü èõg^dí/n). A primeira possibilidade é apoiada pelo TM e alguns manuscritos gregos, enquanto que a segunda versão é apoiada pela LXX, pela IQpHab e pelo texto do NT (At 13.41). É difícil fazer uma escolha entre essas duas opções. Deve-se reconhecer o pleno peso dos textos hebraicos sobreviventes, como representados na tradição massorética. Ao mesmo tempo, deve-se avaliar o testemunho conjunto da LXX, 1QpHab e o NT. Ao avaliar a evidência que apoia outra tradução, em vez da que é apresentada no texto hebraico sobrevivente de Habacuque, deve-se ob­ servar muitos fatores.“ Com referência à versão da LXX, deve-se pri­ meiramente reconhecer que o termo grego escolhido na verdade sig­ nifica “vós desprezadores” ou “vós levianos” (kataphroríêtaí), que não é exatamente o mesmo que “vós que agis traiçoeiramente” (bõg^dim). Não surpreende, pois, descobrir que, de mais ou menos 50 vezes em que 0 termo hebraico bãgad é encontrado no TM, os tradutores da 2. Deve-se ressaltar, a esta altura, que a versão baggôyim é a única apresentação existente do texto em hebraico. 1QpHab traz bwgdym em seus comentários interpretativos, mas o texto em si não tem este ponto.


HABACUQUE 1.5

185

LXX escolheram o uso de kataphronéo somente umas cinco vezes, ou seja, 10% do total. Entretanto, visto que o mesmo particípio plural bõg^dim em Habacuque 1.13 é traduzido pela LXX por kataphronéo, e o particípio singular bôgêd em 2.5 é traduzido na LXX por kataphronêtês, a mai­ or possibilidade é que a LXX apoia também uma versão de bãgad em Habacuque 1.5. Uma segunda consideração desfruta de algum peso na avaliação do testemunho da LXX. As palavras “e perecem” (kai aphanisthête) são introduzidas pelos tradutores da LXX, aparentemente com base no texto hebraico. A introdução dessas palavras pode indicar que os tradu­ tores gregos sentiram que havia algo de incompleto no pensamento da passagem quando traduziram sem tal adição. Se o TM for seguido, a admoestação de “Olhai entre as nações” é completada mui naturalmen­ te pela referência no versículo seguinte àquela “nação” em particular (os caldeus), a qual o Senhor iria suscitar. Mas se a LXX for seguida, nada nos versículos seguintes completa de modo satisfatório o pensa­ mento iniciado ao dirigir-se aos “escarnecedores” a que “Olhai... Vede”. Qual lhes seria a consequência, especificamente, quando Deus susci­ tasse os caldeus? Embora seja possível concluir que a implicação era que “pereceriam”, a LXX sentiu a necessidade de preencher o pensa­ mento acrescentando este comentário. Este fator oferece algum apoio em favor da engenhosidade do TM, pois ele tem a vantagem de apre­ sentar um pensamento completo no contexto. É preciso fazer também alguns comentários a respeito da evidên­ cia fornecida pelo IQpHab. Este documento em particular é bastante significativo graças ao fato de que cerca de 80% do texto dos dois primeiros capítulos de Habacuque foram preser\'ados a partir do século 2® a.C. Esta apresentação do texto é inserida entre comentários interpretativos. Entretanto, o texto da porção crucial desse versículo em Habacuque não foi preservado. Somente com base na conjetura dos seguintes co­ mentários interpretativos é que uma versão pode ser reconstruída. Vis­ to que se faz uma referência a bõg^dim no comentário interpretativo que segue ao espaço em que o texto de Habacuque 1.5 existira anterior­


186

HABACUQUE 1.5

mente, pode-se fazer uma interpretação plausível ao presumir-se que o texto traria o mesmo conteúdo. O assunto, porém, não pode ser encerrado com total segurança. Pois é bastante claro que em seu zelo para contemporizar a mensagem de Habacuque, os escribas de Qumran, em suas interpretações, afasta­ ram-se radicalmente do texto da profecia. No versículo seguinte, a re­ presentação que fazem do texto bíblico claramente traz kaédim , iden­ tificando os “caldeus” como sendo a nação que se levantaria, em com­ pleto acordo com o TM. Mas, em seu comentário, os escribas escreve­ ram kittím, evidentemente referindo-se, de uma maneira velada, aos romanos contemporâneos. Em oposição ao texto massorético, “Olhai entre as nações”, tem-se argumentado que não se faz nenhuma referência às “nações” nos versí­ culos subsequentes de Habacuque.^ Mas esse argumento se baseia numa premissa falsa. Pois é exatamente o versículo seguinte que faz referên­ cia aos caldeus como sendo “a nação” (Hc 1.6). Certamente a identifi­ cação de uma única “nação” como o instrumento de juízo divino é apropriado como um desenvolvimento da admoestação para “Olhai entre as nações”. Um problema de certa importância emerge com o contexto de Habacuque se for adotada a versão apoiada pela LXX e 1QpHab. Se os recipientes da mensagem forem identificados como sendo os “traido­ res” (bog^dim), então o profeta Habacuque fica excluído do rol da­ queles a quem a mensagem divina é dirigida. Ele apresentara a questão em favor do remanescente de Israel. Mas a resposta de Deus não se dirigia a ele especificamente, pois ele não seria incluído dentre os “trai­ dores” a quem o vocativo se referia. Quando se pesam todas essas variadas considerações, o TM parece ser afinal o preferível.'* O profeta está embasbacado com a violência 3. Brownlee, Midrash, p. 54. 4. O NT só pode ser considerado como uma testemunha do texto do AT em termos secun­ dários. Uma citação da LXX pelo NT não envolve endosso intencional do texto grego como representando a testemunha mais fiel. Para maiores comentários sobre este assunto, ver O. Palmer Robertson, “Genesis 15.6: New Covenant Expositions o f an Old Covenant Text”, WTJ 40/2 (1980), p. 279,280.


HABACUQUE 1.5

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sofrida pelo povo de Judá. Deus, porém, lhe diz que olhasse para o cenário internacional. O profeta deve alargar sua visão dos propósitos divinos. Ele deve avaliar os intentos do Senhor entre as nações ímpias bem como entre Israel.’ Então a admoestação do Senhor para olhai, ficai atônitos e maraviIhai-vos é dirigida à nação pactuai. Todo seu povo deveria sentir-se perplexo ante o juízo terrível e iminente, pois nada menos que toda a nação iria ser atingida por esse juízo. Ordena-se ao povo pactuai de Deus que assista a tempestade levantando-se, que a observe atenta­ mente à medida que avança e se aproxima, e que se espante ante a força com que ela fmalmente se choca com o próprio Israel. Não apenas o caráter quádruplo da admoestação, mas também a combinação característica das palavras ressalta a intensidade com que Judá haveria de maravilhar-se com a revelação ora a caminho.* O sal­ mista de Israel ensinara à nação de Israel como dramatizar os livra­ mentos de Jerusalém efetuados pelo Senhor em sua adoração: Quando os reis uniram forças, quando eles avançaram juntos, bastou-lhes vê-lo e se espantaram, tomaram-se de assombro [hêmmã rã”ú kên tãmãhu] e fugiram apressados (SI 48.5,6 [Eng. 4 ,5]). Mas agora a palavra do Senhor reverte plenamente esse fenômeno. Israel é que terá de olhar entre as nações com o intuito de ver e assombrar-se (r^’ü...t^mãhú). Pois um juízo terrível sobrevirá ao próprio povo pactuai. Porventura Israel não fora alertado? A nação não ouvira regularmente as leituras da lei do Senhor que castigaria Israel com 5. Outros que apoiam o TM em detrimento da LXX incluem-se M. Burrows, The Dead Sea Scrolls (Nova York: Viking, 1955), p. 265; G Vermes, Dead Sea Scrolls in English (Baltimore: Penguin, 1963), p. 276; L. K. Silberman, “Unriddling the Riddles. A Study in the Structure and Language of the Habakkuk Pesher", RevQ 3/2 (1961), p. 335,336. 6. As formas hittamm^lui l^mãhii combinam um imperativo Hithpael e Qal da mesma raiz para realçar o espanto com que sua visão do juízo iminente de Deus deveria ser saudado. Note a combinação semelhante das formas com a mesma raiz em Isaías 29.9.


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HABACUQUE 1.5

“loucura, com cegueira e com perturbação de espírito” {b^timhôn lebab - D t 28.28, AV)? O evento particular por meio do qual Israel seria admoestado afinal tinha de ser visto não como um exemplo de brutalidade humana, mas como a maravilhosa obra de Deus. O próprio Senhor afirma sua iniciati­ va em trazer os caldeus como seu instrumento de juízo, quando diz; “re­ alizo... obra tal... eis que suscito um instrumento de juízo terrível”. Parte do caráter maravilhoso dessa obra de Deus é que ela seria realizada durante a vida dos ouvintes dessa profecia. Este evento ocor­ rerá em vossos dias, diz a palavra do Senhor. A rapidez na execução do juízo é característico da atividade do Senhor ao longo dos tempos. Embora extremamente paciente e tolerante para com os pecadores rebeldes, o Senhor não é lento uma vez que determinou que a iniquidade do povo havia enchido a medida e que a hora do juízo chegou. Esta mesma rapidez em executar um decreto de retribuição também caracteriza a atividade de Deus sob as provisões da Nova Aliança. To­ dos os sinais antecipando a consumação do juízo tinham de ser cumpri­ dos na própria geração de Jesus (Mt 24.34). Contudo, a rapidez de sua aparição assegura que o povo permanecería despreparado até mesmo no dia de sua vinda (Mt 24.36-44). Incrível! A maravilha que Deus vai anunciar ao povo simplesmente extrapola a credibilidade. O mistério dos caminhos de Deus deverá permear este feito particular de tal modo que 0 povo não será capaz de aceitar sua realidade. Aparentemente, essas palavras têm a intenção de descrever o incrí­ vel caráter desse evento, ainda quando ele se compararia aos eventos da salvação de Deus no passado. Os israelitas costumeiramente recorda­ vam as obras maravilhosas dos atos anteriores à salvação divina (Jz 6.13; SI 44.2 [Eng. l];75.2[Eng. 1]; 78.3). Mas, mesmo que este even­ to que ora está sendo profetizado fosse apresentado como um ato do poder de Deus, ele não seria crido.’ O chamado de Ur dos caldeus, os poderosos feitos associados ao êxodo e à conquista poderíam ser acei7. A LXX interpretou eorretamente os tempos verbais imperfeitos hebraicos pelo uso dos subjuntivos gregos (pisteúsête ... ekdiêgètaí).


HABACUQUE 1.5

189

tos como verdadeiros. Mas um juízo com tal devastação como ora se descreve não poderia ser crido. O que precisamente torna essa obra divina tão incrível? Muitas facetas poderiam ser observadas, inclusive a rapidez da ascensão ao poder do instrumento do juízo divino, a intensidade do juízo futuro e o fato de que o próprio Deus estará envolvido nesta ação.* O mais incrí­ vel, porém, é o fato de que o próprio povo de Deus podia ser lançado fora, nas mãos dos gentios mais perversos do que eles. Mistério tão profundo encobre este aspecto do desígnio de Deus, a ponto de não poder ser penetrado pela mente humana. O profeta Habacuque havia orado desejando algum tipo de purgação do elemento perverso da na­ ção. Mas a resposta divina fala de uma devastação tão completa, que espanto ainda maior invadiria a mente piedosa do profeta. É mais instrutivo observar que esta mesma sentença a respeito do incrível caráter do juízo iminente de Deus foi empregada por Paulo para alertar os judeus que se mostravam empedernidos contra sua pro­ clamação e os atos salvíficos de Deus contidos na morte e ressurreição de Jesus, o Messias (ver At 13.3ss.). Longe de estar simplesmente to­ mando emprestado de Habacuque uma forma de expressão, Paulo cap­ ta a emoção da mensagem do profeta e aplica sua espantosa visão aos caminhos de Deus com seu povo de seu próprio tempo. Se o princípio de citação contextual tiver validade, a aplicação de Paulo, das palavras de Habacuque, nessa altura implica muitas coisas. Primeiro, ela implica uma unidade da mensagem do livro de Habacuque. Estruturalmente, o livro manifesta de forma clara essa unidade. Mas a citação de Paulo implica ainda que a mensagem do capítulo 1 sobre o juízo iminente contra Israel só pode ser entendida adequadamente quan­ do é vista como apoio da mensagem a respeito da justificação pela fé encontrada no capítulo 2. Por meio da devastação daqueles que pensa­ vam ser justificados por meio de suas obras, lança-se o fundamento para a mensagem da justificação pela fé somente. Segundo, a citação de Paulo indica que no coração da justificação fica 0 perdão dos pecados. Habacuque certamente estabelece esse fato. 8. Rudolph. p. 207.


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HABACUQUE 1.5

pois no contexto total de sua profecia, ninguém pode permanecerjusto em seus feitos. Somente a fé nas promessas de Deus pode abrir o cami­ nho para o perdão que é essencial para ser justo perante Deus a qual­ quer um e a todos os transgressores. Terceiro, a aplicação direta das palavras de Habacuque, por Paulo, a seus contemporâneos revela seu conceito da história da redenção. Paulo não está apelando para um truísmo moralista quando alerta seus ouvintes sobre a possibilidade de que o que o profeta disse pode sobrevir-lhes.® Em vez disso, ele está vendo a experiência do Juízo contra Israel como antecipação do Juízo que sobreviria no contexto da procla­ mação escatológica do evangelho. Este terrível potencial de Deus vol­ ver-se contra os Judeus encontra seu cumprimento no sábado seguinte. Os Judeus da cidade rejeitam a proclamação de Paulo, e este indica que então os deixaria e iria para os gentios (At 13.44-46). Esta análise da confiabilidade da citação de Paulo combina preci­ samente com os propósitos de Deus na história da redenção como de­ senvolvida por Paulo em passagens tais como Romanos 11 e Efésios 2. Por meio do Juízo contra Israel, o caminho da salvação é aberto aos gentios. Quarto, a forma de citação em si indica que os apóstolos não se preocuparam com o estabelecimento preciso do texto original de uma passagem do Antigo Testamento antes de “citá-la”. Esta citação de Habacuque inclui a frase adicional “e perecerá” {tai aphanisthête) que não tem representação em nenhum texto hebraico em existência. Sua origem pode ser melhor explicada como uma elaboração das im­ plicações do texto resultante da versão “vós, traidores”.'®Aqueles que traíram o Senhor da aliança não se “maravilhariam” meramente com o que está para vir; eles “perecerão” mediante o que está para vir.

9. A evidência manuscrita apoia mais fortemente a versào “vede que não venha” cm vez de “vede que não venha sobre vós". Mas seria forçar o contexto pressupor que Paulo tinha a intenção de dizer que nenhum cumprimento da profecia já havia ocorrido. 10. A inclusão das palavras “e perecerão”, na eitação do NT, indica a razão da presença de "vós, traidores”, em vez de “entre as nações”, no NT, e não pode fornecer a palavra conclu­ siva sobre a questão concernente à versão original do texto hebraico.


HABACUQUE 1.6a

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Em sua citação, Paulo foi veraz para com o tema central de Habacuque, até mesmo a ponto de indicar uma consciência da unidade te­ mática do livro. Ele introduziu a profecia no arcabouço de seu signifi­ cado escatológico. A queixa contra “violência” praticada por innão contra irmão (Hc 1.2) agora encontra sua evidência mais forte na en­ trega de Jesus a Pilatos, para ser executado, ainda que não se achasse nenhuma razão plausível para tal ação (At 13.28). Deus, porém, ao levantá-lo da morte, indica a singularidade de Jesus Cristo no progra­ ma da redenção em andamento. 2. Identificação do instnimento específico para a retribuição divina (1.6a) 6a Pois eis que suscito os caldeus.' O termo traduzido por caldeus (kaédim) é usado regularmente no Antigo Testamento para o império neobabilônico fundado por Nabopolassar (626-605 a.C.) e alcançou seu poder máximo sob Nabucodonosor (605-562).^ Eles eram especialmente a preocupação central na profecia de Jeremias, visto que constituíam eventualmente a nação que levou Israel ao cativeiro.^ É bastante notável observar como foi rápida a ascensão desta nação ao poder, a extensão de seu domínio, e igualmente rápido 0 declínio de sua preeminência. Este incidente internacional res­ salta bem a preeminência da mão divina em soerguer e também em derrubar. Quem haveria de acreditar que uma entidade virtualmente nãoexistente poderia conquistar a velha capital da Assíria em 614, Nínive em 612, Harã em 610 e a rota de Faraó Neco em Carquemis, em 605? Eles se tomaram os dominadores do mundo sobre a Babilônia, Assíria, 1. A substituição feita por Bcmhard Duhm de kaédim por k ittim e a aplicação do termo ao tempo de Alexandre, o Grande, são fortemente contestadas por Rudolph, p. 206. Ele consi­ dera tal interpretação como sendo contraditória a todos os métodos exegéticos saudáveis. Interessante é que a IQpHab traz kaédim . em apoio ao MT, porém interpreta o termo como referência a Kittim, aparentemente os gregos ou os romanos mais contemporâneos. Esta interpretação concorda com sua intenção de denunciar o judaísmo contemporâneo por sua aliança com os romanos. 2. Cf. 2 Reis 24.2; 25.4-5,10.13,26; Isaías 13.19; 43.14; 48.14.20; Ezequiel 23.14,23; 2 Crônicas 36.17. 3. Jeremias 21.4,9; 22.25; 32.4-5,24-25,28-29,43; 35.11; 37.9-10; 39.5.


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HABACUQUE 1,6a-11

Síria, Palestina e Egito, sendo que vinte anos antes ninguém nem mes­ mo sabia que existissem. No entanto, sua energia se dissipou quase tão rapidamente que foram facilmente vencidos por Ciro, rei da Pérsia, em 539, na hora certa de cumprir a profecia de Jeremias a respeito da volta de Israel dentro de setenta anos (Jr 29.10). Os caminhos do Senhor entre as nações de fato são assombrosos. “Não por seus instintos, mas pelo impulso secreto de Deus”, as nações se levantam e caem.“* E realmente notável observar a clareza do anúncio a respeito do instrumento designado para o juízo divino. O controle do Senhor sobre as nações é tão imenso que ele ordena sua ascensão e sua queda de acordo com seus próprios planos e propósitos. Ele pode decidir disper­ sar seu povo entre os ímpios como uma maneira de escolher para si um povo dentre todas as nações. Contudo, essa dispersão ocorrerá em per­ feita coordenação com o tempo em que seu próprio povo está pronto para receber o Juízo por causa de sua persistente rebelião ao longo dos séculos. J. Caracterização cio instrumento do julgamento de Deus (1.6b-II) Depois de preparar o povo para a revelação deste incrível instru­ mento de juízo e identificar o instrumento mais especifícamente, o Senhor caracteriza a nação que deverá julgar seu povo. Cerca de vinte características são enumeradas, várias delas apresentadas em pares. 6b Essa nação amarga e impetuosa, que cobre a latgura da terra para tomar posse de territórios que não lhe pertencem por direito. 1 Ela é pavorosa e terrível, de si mesma fará sair sua (própria) justiça e honra. 8 Seus cavalos a são mais ligeiros h que leopardos, a e são mais perspicazes b que os lobos ao anoitecer. 4. Joâo Calvino. p. 27.


HABACUQUE 1.6b-11

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Seus cavaleiros galopam (furiosameníe); sim, seus cavaleiros a virão b de longe; a voarão b como abutre que se precipita a devorar. 9 Cada um deles virá para violência; a aparência de seus rostos é de seguir em frente. E reunirão como a areia os cativos. 10 Assim ele' escarnecerá dos reis; e os soberanos são objeto de seu riso. Ele rirá de cada fortificação; porque amontoará pó, e o levará. 11 Então, seu espírito muda e ele fica furioso e peca. Esta sua força é seu deus.

1.0 pronome masculino “ele” (hü' ) é usado neste versículo para se referir à nação em vez do mais comum uso de “ela”, tiú' também aparece no versículo 7, mas o pronome inglês neutro “it” parece se encai,\ar melhor no contexto.


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HABACUQUE 1.6b

6b. Amarga e impetuosa. Não apenas uns indivíduos isolados, mas essa nação inteira pode ser caracterizada como irritadiça e amarga. Como uma ursa cujos filhotes foram roubados, essa nação poderosa ataca irracionalmente em todas as direções (ver 2Sm 17.8). Por causa de sua amargura com respeito à vida, seus habitantes agem com cruel­ dade irracional e de maneira aleatória. A nação também age precipita­ damente. Visto que não queriam gastar tempo avaliando os fatos, todos os povos que conquistavam sofriam grandes injustiças. Cobre a latgura da terra. Um exército assustador e incerto avança vagarosa e cuidadosamente; justamente em razão desse procedimento ele propicia oportunidade a que muitos escapem das misérias que po­ deria infiigir. Mas esse povo orgulhoso, confiante da vitória, não hesita em expor seus flancos ao inimigo. Sequer uma parte do mundo escapa à sua tirania. Muitos líderes modernos, tais como Napoleão e Hitler, destruíram seus exércitos estabelecendo uma tropa muito limitada em um território grande demais. Mas essa nação reuniu tanta força que ela nada teme. E interessante que Apocalipse 20.9 ecoa precisamente a versão LXX dessa frase. Satanás sai para enganar as nações. Suas tropas são nume­ rosas como a areia das praias. Sua vastidão é um arremedo da promes­ sa de uma semente inumerável feita a Abraão. Esse exército fabuloso marcha “pela superfície da terra”. Seu alvo é o acampamento do povo de Deus, a cidade que ele ama (Ap 20.9). Mas, segundo a experiência do profeta de Deus, Elias, fogo desce do céu e devora esse exército apocalíptico. Habacuque, em sua visão, não havia ainda chegado ao ponto da destruição das forças de Satanás. O exército que ele confronta ainda possui a força e a ousadia de apoderar-se do mundo. Tomar posse das habitações que não lhe pertencem por direito. Este característico do instrumento do juízo divino contra seu povo soa estranhamente familiar com a promessa feita a Israel durante a conquis­ ta da terra. Eles possuiriam os poços que não haviam cavado, as vinhas que não haviam plantado, casas e cidades que não haviam construído (Dt 6.10,11). Seria possível que esses babilônios agora passariam a fazer parte da função que uma vez o povo de Deus exercera? Será que


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a posse da terra sagrada significaria que iriam herdar as promessas? Uma palavra subsequente do Senhor a seu profeta indicará que o juízo também virá sobre os babilônios (Hc 2.6-20). Mas agora a palavra de profecia se concentra na função da nação gentílica como executora do juízo divino. Agora, pois, o que recebe a atenção é o deslocamento de Israel. Num sentido bem real, Israel está sendo colocado na função que uma vez foi exercida pelos cananeus antes deles. Justamente como aquele povo que uma vez foi expulso de suas concessões porque sua iniquida­ de havia enchido as medidas, assim agora Israel será expulso de suas possessões porque sua iniquidade está completa. O lugar de conforto, de recreação, de prazer, de relaxamento, segurança e refrigério, seria tirado deles. O comportamento voraz dos caldeus serve desta maneira aos pro­ pósitos do Senhor. Ele fará uso da ira do homem para seu louvor. Seus métodos opressivos serão um juízo apropriado contra o opressor. 7. Ele épavoroso e terrível. O tennopavoroso ( ’ãyõm) ocorre como adjetivo somente aqui e em Cântico dos Cânticos 6.4,10, em que se refere ao caráter “formidável” de “um exército com bandeiras”. Mas, como substantivo ('emé), ele aparece frequentemente descrevendo o terror instilado pelos dentes expostos de um crocodilo (Jó 41.6 [Eng. 14]), 0 resfolegar de um cavalo (Jó 39.20), ou a presença de Deus (Gn 15.12; Ex 15.16; Dt 32.25). Então esse inimigo que se aproxima rapi­ damente não virá com gentileza cumular juízo sobre Israel. O segundo termo (nôrã’) pode ser traduzido por “impressionante”, “medonho”, “terrível” ou “espantoso”. De qualquer modo, ele descre­ ve uma resposta ao pavor medonho que pode inspirar um deserto cheio de serpentes abrasadoras, escorpiões e sequidão (Dt 1.19; 8.15), uma nação hostil (Sf 2.11), os poderosos feitos de Yahweh (Êx 34.10; cf. 15.11), ou a confrontação direta com o próprio Senhor (Gn 28.17). Mas agora o recuo do pavor será promovido pelo exército invasor. Os ater­ rorizados serão os da comunidade pactuai. De si mesmo virá sua (própria) justiça e honra. “Autônomo” resu­ me esta característica do instrumento com que Deus haveria de empre­ gar no juízo. De fato, paradoxal é esta circunstância. O Deus Todo-


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HABACUQUE 1.7-8

Poderoso, que é zeloso no sentido em que somente ele deve ser reco­ nhecido como Deus, suscitará uma nação cuja política declarada se fundamenta na premissa que é totalmente autodeterminante. Essa na­ ção não buscará em Deus um critério de justiça; ela determinará seu próprio padrão de verdade. Até mesmo sua própria honra (lit., “seu soerguimento”) será de acordo com seu próprio critério. Não concede­ rá a Deus nenhuma glória por suas realizações. Seu interesse estará radicado unicamente em seu próprio nome. Da mesma maneira que o Übermensch de Nietzsche, o Super-Homem de G. B. Shaw, o Prometeu de Goethe e o Invicto de W. W. Henley, esse grande memorial do ego declarará ousadamente sua isenção de débito para com qualquer outro, senão para consigo próprio.^ Está claro, porém, que foi Deus quem suscitou essa nação para seus próprios propósitos. Tão-somente ele é a fonte do poder. A des­ peito de toda sua vontade por autodeterminação, o Rei dos reis delimi­ tará as atividades dessa nação. 8. Seus cavalos são mais velozes que leopardos, mais perspicazes que lobos ao anoitecer. Não há dúvida de que os israelitas se sentiríam consolados por viverem tão distantes desse inimigo ameaçador. Certa­ mente que os assírios serviríam de parachoque, e aprenderam como sobreviver com eles por meio do pagamento ocasional de tributo. Além disso, o Egito por certo haveria de proteger seus interesses adquiridos no reino da Palestina contra quaisquer incursões que a Babilônia por­ ventura intentasse. Mas esse instrumento de juízo divino iria diminuir as grandes dis­ tâncias, reduzindo-as a nada em resultado da velocidade de seus cava­ los. A fuga desse vingador seria fútil; pois, com a agilidade de leopar­ dos no encalço de suas presas, essa nação caldeia agiria com impeto contra Israel. Um apetite animalesco por poder e despojos assaltaria a nação no atocaiar de sua presa. Tal como o apetite voraz incita os lobos ao anoite­ cer, aguçando seus sentidos com o embrenhar da noite, também essa nação bárbara caçaria todo fugitivo que evadisse a seu poder de destruição. 2. Cf. Laetsch, p. 322.


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Seus cavaleiros galopam (Juriosamente); sim, seus cavaleiros virão de longe. O cavalo e o carro de antigamente seriam equivalentes aos tanques, submarinos e jatos de hoje. No ataque, eles superariam a qual­ quer obstáculo que surgisse em seu caminho. Ainda que a distância fosse grande, a nação babilônica chegaria à Palestina com um contingente com­ pleto e tropas montadas. Arma nenhuma serviria contra eles. Voarão como abutre que se precipita a devorar. Justamente como as maldições pactuais declaram, Deus traria uma nação dos confins da terra, “como o voo impetuoso da águia” (Dt 28.49).^ Com toda a velo­ cidade própria de uma ave de rapina, esse instrumento se precipitaria sobre a nação violadora da aliança bem antes que ela pudesse encon­ trar abrigo. Como um abutre, seu corpo opressor agarrará e rasgará a carne de suas vítimas indefesas. Segundo as maldições pactuais, nin­ guém haveria de enterrar as carcaças (cf. Gn 15.11; Jr 34.20). Esta mesma maldição encontra eco na descrição do Juízo final que o Senhor trará sobre todos os seus adversários (cf Ap 19.17-18). Assombroso de fato é o propósito divino de retribuição. 9. Cada um deles virá para violência. O padrão divino de justiça tem consequências terríveis. Habacuque havia se queixado contra sua própria comunidade porque a violência caracterizava suas relações re­ cíprocas (1.2b). E assim, agora como uma recompensa justa, esses pe­ cadores deverão experimentar violência nas mãos de um invasor brutal. A aparência de seu rosto é seguir adiante. Esta frase em particular é a mais difícil nessa lista de caracteristicas do instrumento de juízo sendo suscitado pelo Senhor. O significado preciso das três palavras hebraicas é duvidoso, e uma variedade de significados se toma possí­ vel ao combiná-las de maneira diferente. O termo traduzido por reunião (m ^gam m at) é um particípio Piei na combinação com a palavra seguinte. Ele só ocorre aqui no Antigo Testamento, o que torna a determinação de seu significado bastante dificil.'* Visto, porém, que as outras duas palavras, nessa frase, são mais 3. Outras referências a esta mesma figura de juízo podem ser encontradas em Jeremias 4.13; 48.40; 49.22; [.amentações 4.19; Oseias 8.1. 4. Sua autenticidade é atestada por lOpHab. A LXX traduz anthestêkótas, por “resistin­ do”, o que não propicia nenhuma ajuda.


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comuns, pode ser melhor retardar a interpretação do primeiro termo até que os outros elementos da expressão sejam explorados. O segundo \Qvmo, p^nêhem (lit. “seus rostos”), provavelmente se refira às fileiras de frente das tropas caldaicas em avanço. Este signifi­ cado é apoiado por uma passagem paralela em Joel 2.20, na qual a “vanguarda” {pãnãyw) de uma tropa é contrastada com a “retaguarda” (sõpô). A “vanguarda” dessa tropa é dirigida para frente ou “na direção leste” {qãdimâ)? Uma direção leste para as fileiras de vanguarda desta horda em avanço somente poderia ser concebível neste contexto se assumisse que o exército tivesse atingido a costa do Mediterrâneo e agora se virava para a direção leste para assaltar Jerusalém. Esta rota seria o caminho normal para um exército que invade a Palestina. Entretanto, o progresso do pensamento da passagem não havia che­ gado a este ponto. “Reis” e “príncipes” ainda precisam ser subjugados (v. 10). Portanto, o significado mais plausível para esta palavra é adiante. A fileira de vanguarda das tropas segue adiante. A nuança precisa a ser dada ao movimento para frente das fileiras que avançam depende finalmente da palavra difícil que permanece no início desta sentença: m ^gam m at. Ela poderia significar “impetuosi­ dade”, assim a “impetuosidade da fileira de sua vanguarda se move para frente”.* Mas a referência mais provável é à reunião ou “coleção” de sua fileira da vanguarda.’ Irresistível, inevitável e ininterrupta, esta horda de guerreiros se move para frente em direção à terra do povo pactuai de Deus. Determinados, eles avançam, e com certeza um dia chegarão trazendo pleno juízo e devastação. E ajuntarão como areia os cativos. Abraão recebera a promessa de que sua semente seria como a areia das praias marítimas. Mas seria 5. A versão qãdim , omitindo o h final, é apoiada pela IQpHab e toma possivel uma referência ao "vento oriental". Cf. as versões que a apoiam como a de Simaco, Teodociâo e a Vulgata. Rashi interpreta: “A emanação de suas faces é como o Vento Oriental, o mais forte dos ventos". C f Brownlee, MUtrash, p. 70. 6. BÜB, p. 169,170, questiona uma derivação possível d e ^ a m S ’, “engolir". 7. Pro\ avelmente derivado dc^õm am , “se tomar abundante”. Confira-se BDB, p. 169,170. Para outras possibilidades, ver Brownlee, MiJrash, p. 69. que prefere “os murmúrios de suas faces são como o vento oriental".


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preciso que sua multiplicação terminasse em tão trágica condição? Se­ ria necessário que fossem reunidos em montões e levados cativos? Segundo as leis pactuais de Deus, os transgressores haveriam de terminar nessas condições. Pois, de acordo com o código legislativo deuteronômico, Israel iria gerar filhos e filhas, porém seriam levados cativos, caso a nação caísse em pecado (cf. Dt 28.41). Uma vez mais, a palavra profética concretiza na história as estipulações originais da aliança. Esse instrumento designado para juízo teria pouca ou nenhuma sim­ patia pelo sofrimento humano. Um vasto número de almas não signifi­ ca mais do que os grãos inumeráveis da areia ao longo de uma praia. 10. Então ele escarnece dos reis; os soberanos são objetos de seu riso. Anteriomiente, Israel sempre pôde contar com nações parachoques para absorver o golpe letal dos invasores. Mas esse adversário zomba dos personagens mais poderosos da terra. Como então pode o remanescente de Judá esperar resistir com sucesso a invasão desse inimigo? Ele rirá de cada fortificação, porque amontoará pó, e o tomará. Quando Israel estava por tomar posse da terra da promissão, espias foram enviados para detenninar se os habitantes viviam em tendas ou em fortificações (Nm 13.19). Os resultados de tal avaliação teriam um efeito muito definido no avanço deles sobre a terra. Pois uma cidade fortificada não apenas representava um obstáculo maior a ser vencido por um invasor. Ela representava também uma ameaça positiva, pois habitantes armados de uma cidade bem suprida e bem fortificada cau­ sariam devastação sobre o invasor enquanto se expunham eles mesmos a pequeno perigo. Um exército deve avaliar cuidadosamente o custo de penetrar em território de uma cidade fortificada. Mas essa nação invasora zombaria da resistência implícita em to­ das essas fortificações. Ela não temeria o risco que poderia significar para seus homens o ato de sitiar uma cidade. Com pequeno esforço ela quebraria toda oposição e tomaria para si a posse dos despojos da cidade. 11. Então, seu espírito muda, e se torna furioso e peca. Uma mu­ dança de direção demasiado abrupta no Iluxo da argumentação estaria


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envolvida em apoio à ideia de que essas palavras indicam uma inter­ venção da parte de Deus que entra em juízo com a Babilônia, uma vez que ela ultrapassara os limites da propriedade, ao trazer Juízo sobre Israel (“ela ultrapassa”).* Em vez disso, o versículo contrasta a zomba­ ria moderada das fortificações (v. 10b) com a atenção seriamente letal, quando seu espirito, ele se torna furioso e peca ao infligir brutal tor­ mento a suas vítimas. Esta sua força é seu deus. Por mais incrivel que possa parecer, este instrumento do Todo-Poderoso nojulgamento de seu próprio povo agora se exalta ao nível da deidade. Mas esta percepção da auto-imagem ba­ bilónica fornece um arcabouço para a compreensão de sua brutalidade em seu tratamento de Israel. Tendo deificado sua própria força bruta, eles se consideram como sendo incapazes de cometer erro no uso des­ sa força. Então 0 Senhor caracteriza para seu profeta este instrumento pelo qual ele estabelecerá alguma semelhança de Justiça na terra. Os per­ versos em Israel não escaparão de maneira alguma do Juízo. Na realida­ de, eles serão devastados pela fabulosa ferramenta suscitada pelo TodoPoderoso. C. O PORTA-VOZ PROFÉTICO DESAFIA O PROGRAMA DIVINO DE PUNIÇÀO (1.12-17)

Essa porção das Escrituras não representa a primeira vez em que a fé de uma pessoa enfrenta maior desafio, mesmo quando lhe é conce­ dida a mais profunda compreensão dos planos e propósitos de Deus. Habacuque perguntara: “Até quando?”. E o Senhor prontamente res­ pondera: “De forma repentina, e bem depressa”. Habacuque pergunta­ ra: Por que “a Justiça nunca se manifesta?”. E o Senhor respondera: “Minha Justiça imparcial trará uma espantosa vingança, inclusive so­ bre meu próprio povo”. Embora as respostas do Senhor tratassem precisamente dos assun­ tos suscitados pelo profeta, elas acabaram por perturbá-lo mais inten­ samente que suas perguntas originais. De fato, Habacuque se toma 8. Calvino, p. 35.


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excessivamente ousado. Aliás, ele chega a desafiar o Senhor no tocan­ te à sua intenção de punir a perversidade de Judá. Embora se aproxime cautelosamente, expressando confiança na natureza e propósito de Deus (v. 12), ele termina questionando a Deus e seu programa (v. 13-17). /. Confiança em Deus (1.12) 12 Não és tu desde a eternidade, ó Senhor, meu Deus, meu Santo? Não morreremos. a Ó Senhor, b para a justiça c o puseste: a e tu, ó Rocha, b para repreensão c o estabeleceste. Esta intensa avaliação dos propósitos de Deus pelo profeta não deve ser tomada como uma manifestação de fé frágil.' Tanto a natureza quanto o propósito de Deus emanam das expressões de confiança do profeta. O que atormenta o profeta não é uma fé frágil, mas uma fé perplexa. Se o conquistador caldeu for designado por Deus para tratar Israel com a mesma brutalidade com que tem demonstrado em relação às outras nações, então o que acontecerá ao papel distinto de Israel como povo da aliança de Deus? A aniquilação total das tribos do norte estava ainda muito fresca na mente da população pensante de Judá. Se Jerusalém sofresse o mesmo destino de Samaria, o que então restaria do papel especial de Israel? O profeta corrobora sua confiança lembrando ao Senhor do caráter eterno de sua própria natureza; Não és tu desde a eternidade? Intencionalmente, ou, ao contrário, o profeta faz ecoar as palavras de segurança expressas pelo profeta Isaías à fé bnixuleante do rei Ezequias quando antes Senaqueribe da Assíria ameaçara Jerusalém (2Rs 19.25; Is 37.26). Deus era desde a eternidade e desde a eternidade estabelecera seu proI. Contra Laetsch, p. 325, que apoia Lutero em sua análise do questionamento de Mabacuque como indicativo de fraqueza na fé.


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pósito. A história fornecia um arcabouço sobre o qual o Senhor TodoPoderoso concretizaria todos os seus eternos intentos. Visto que a eleição de Israel fora feita na eternidade da própria natureza de Deus, como seria possível que ele agora fale em tons de esmagador aniquilamento? Justiça corretiva, na verdade, era o que o profeta desejava para Israel. Devastação total, porém, nas mãos dos caldeus parecia forte demais. A seriedade do problema enfrentado por Habacuque pode ser visto no uso anterior que o profeta Miqueias faz de linguagem semelhante para expressar sua antecipação do futuro de Israel. Um “monarca” se levantaria de Belém de Judá. Suas “origens” são “desde os dias da eternidade” {miqqedem), estendendo-se até os tempos mais antigos {mtmê 'ôlãm, Mq 5.1 [Eng. 2]). Se esses propósitos salvíficos de Deus, “desde os dias da eternidade”, fixavam-se no regente davídico que pro­ cederia de Belém, como, pois, todo o reino se sujeitaria à desolação de uma deportação como aquela que fora experimentada recentemente pelo reino do norte? iWão morreremos, declara a fé profética.^ Ligando-se à eternidade de Deus que ele acabara justamente de desenvolver, o mediador profé­ tico une o povo da aliança a si próprio. Yahweh é o seu Deus. Portanto, é impossível que cheguem a perecer. Em vez de servir de instrumento de aniquilamento, o inimigo que está sendo suscitado por Deus contra Israel servirá de instrumento divino para juízo e para repreensão. In­ serida num paralelismo poético, a afirmação do profeta ressalta a natu­ reza de Deus como uma Rocha que administra justiça. O profeta está 2. Laetsch, p. 323, toma a frase como uma pergunta e sugere que o profeta se sentia ator­ mentado por sérias dúvidas, túicontra-se nas notas da Massora o antigo reconhecimento do problema criado pela abrupta mudança para a primeira pessoa do plural (“não morrere­ mos”). Segundo Kcil, p. 64. esta frase contém uma das dezoito tiqqune sopherim (correções escribais) da Massora. Em vez de depor a favor de variações textuais, essas notas propõem explicar que o autor original teve a intenção de escrever. Neste caso, a suposição é que o autor original lería tido a intenção de escrever “nem tu morrerás [isto é, Deus]”, deste modo elaborando sobre sua asserção: “tu és desde a eternidade” . Visto, porém, que esta sentença não teria mantido as linhas apropriadas de decoro em dirigir-se a Deus desta maneira, o autor escreveu em seu lugar: “[nós] não morreremos”. Esta nota dos rabinos tem algum valor como um item de curiosidade, mas não fornece uma solução adequada para o problema e.xegético.


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confiante de que o Deus de toda a terra fará o que é certo. Sua certeza se deriva da antiga revelação da natureza de Deus em sua aliança. Ecos das provisões pactuais adicionais se encontram na afirmação de que Deus estabeleceu os caldeus como seu instrumento para repre­ ensão (l^hôkiah). Esse mesmo termo é empregado para descrever a ação de Deus em prometer aos descendentes desobedientes de Davi, por ocasião do estabelecimento da aliança eterna, que iria “castigálos” {hõkahtiw) com varas de homens (2Sm 7.14). Israel se acostuma­ ra a ver Deus disciplinando as nações em seu favor (SI 105.14) e enten­ dia sua função como sendo a fonte da qual a repreensão divina iria avançar contra as nações (Is 2.2-4). Tinham, porém, a tendência de esquecer que inclusive nas provisões da aliança davídica havia uma cláusula condicional prometendo castigo mais severo aos descenden­ tes davídicos que se atrevessem a violar a Torá. E assim o profeta expressa sua confiança em Deus. Sua imutável na­ tureza e seu eterno propósito encontram reflexo fiel nos eventos da histó­ ria que ora se descortinavam ante seus olhos. Mas ele tinha ainda que prosseguir, com toda a honestidade, formulando suas perguntas a Deus. 2. Questionando a Deus (1.13-17) Havendo fundamentado sua confiança na natureza e propósito de Deus, 0 profeta agora prossegue em seu questionamento a Deus. Pri­ meiro ele trata da fonte do problema (v. 13). Em seguida aponta para dois fatores que intensificam o problema (vs. 14-17). a. A fonte do problema (1.13) 13 a (Tu tens) olhos tão puros b que não podem ver o mal; b e a contemplação da perversidade a não é possível a ti. Por que a contemplas b os que agem traiçoeiramente, a e te manténs em silêncio b enquanto os perversos devoram os mais justos que eles?


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O questionamento que Habacuque faz a Deus nào se deriva da de­ claração do Senhor em trazer punição sobre Israel. Pois ele próprio havia iniciado o diálogo com o Todo-Poderoso, estimulado pela neces­ sidade de intervenção judicial a fim de corrigir as injustiças cometidas pelo próprio povo de Deus. Em vez disso, a preocupação do profeta se centraliza no problema (de seu ponto de vista) de Deus estar planejan­ do usar os caldeus depravados para executar juízo sobre seu próprio povo eleito. Ele também expressa um pavor constemador diante do prospecto que Israel tem de enfrentar. Muitos dos padrões cerimoniais da lei de Israel inculcavam o con­ ceito da pureza de Deus. Somente o ouro mais puro podia ser usado em seu santo tabemáculo (Êx 25.1 Iss.). Os sacerdotes tinham de estar ves­ tidos com vestimentas puras, caso tivessem que se aproximar do santo Deus de Israel (Êx 25.2ss.). Qual seria, pois, o valor desses instrutivos rituais se o próprio Santo Senhor iria tolerar a imoralidade das imora­ lidades? Como poderia ele favorecer os caldeus depravados contra o bem-estar de seu próprio povo amado? Habacuque se tranquiliza ante esse problema, reafirmando primei­ ramente o que ele bem sabe ser verdadeiro a despeito de suas percep­ ções pessoais. Seu Deus é "tão pum de olhos, que não podes ver o m ar. Obviamente, Deus, em certo sentido, “vê” o mal. Sua onisciência se estende a todos os assuntos concernentes à sua criação. Ele, porém, nunca olha com o intuito de desculpar ou de tolerar o mal. Como órgão de percepção, o olho representa o órgão do sentido que mais frequentemente entra em contato com um objeto. Muito antes que as mãos toquem, os olhos veem. É impossível para Deus até mes­ mo um mero relance na direção da iniquidade, enquanto ainda perma­ nece a distância. Sua santidade não pode tolerar a iniquidade. Particularmente, quando o pecado é cometido contra seu próprio povo, o Senhor é incitado à ação decisiva. Habacuque possivelmente reflete a profecia mais antiga de Balaão sobre a impossibilidade de amaldiçoar Israel. Balaão declara: Não viu iniquidade em Jacó,


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nem contemplou desventura em Israel (Nm 23.21).' Deus não perpetuaria nenhum mal contra seu próprio povo. Ele não é capaz de mirar a perversidade, porque esta se contrapõe à sua própria essência. Esta realidade pura que emana da própria natureza de Deus apenas aumenta a perplexidade que o profeta queixoso teria sen­ tido - por quê? A tolerância divina para com o perverso e traiçoeiro surpreende o profeta ainda mais, porquanto o objeto de seu abuso é mais justo do que eles. Uma explicação simples da perplexidade do profeta não deve ser dada com excessiva rapidez. Habacuque não era algum peso leve na luta pelas coisas profundas de Deus. Ele não faz perguntas infantis sobre o juízo do mundo futuro. Não basta sugerir que a pergunta de Habacuque podia ser respondida prontamente, apelando-se para a múl­ tipla culpa de Israel resultante do mau uso de sua posição favorável diante do Senhor. Sua perplexidade constitui uma das mais básicas questões que devem ser formuladas se Deus for de fato efetuar a reden­ ção entre uma humanidade caída. Encontrando seu precursor na cons­ tante indagação dos salmistas de Israel (SI 22.3 [Eng. 2]; 44.25-26 [Eng. 24-25]; 74.1,11), essa questão alcança o clímax da perplexidade no “por quê?” de Cristo na cruz (Mt 27.46). Como é possível que os favo­ recidos de Deus sofram tais devastações? Castigos? Sim, eles devem ser recebidos com uma humildade só­ bria. O próprio profeta Habacuque pedira ao Deus Todo-Poderoso um tratamento assim para seus contemporâneos. Mas, e uma destruição que pressupõe devastação total? Como é possível? Uma deportação que reverte totalmente as diretrizes das misericórdias eletivas de Deus? Por certo que de alguma maneira Israel teria sido mais justo do que aqueles caldeus que nunca foram chamados para fora de Ur.^ 1. A po.ssibilidade de uma alusão à profecia de Balaâo por Habacuque seria possivel ainda que a combinação dos termos em Números ('ãmãl, ’Swen) se refira a “infortúnio”, c a de Habacuque {rS', 'ãmãl) se referira ao “mal moral”. Km qualquer um dos casos, a proteção de Deus a seu povo seria o assunto à mão. 2. Laetsch, p. 325, está certamente correto quando afirma que o profeta poderia estar pen-


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O problema do profeta é intensificado pelo tratamento do Senhor a Israel, o qual parecia contradizer aqueles princípios que ele próprio estabelecera para seu próprio povo. Deus nào podia contemplar o mal (w^habbít ’el-ã m ã l lõ ’ tükãl, v. 13a); contudo, ele faz seu profeta contemplar o mal (w^'âmâl tabbíf, v. 3). O Senhor havia declarado ser errado uma testemunha guardar silêncio quando um assunto fosse tra­ zido a público (Lv 5.1); contudo, o próprio Senhor permanece em si­ lêncio enquanto o perverso devora os que são mais justos que ele (Hc 1.13b). As imagens descritivas do perverso “devorando” o justo retratam um total aniquilamento. No passado Deus agira a favor de Israel, “de­ vorando” o perverso. A terra havia devorado o Egito no Mar Vennelho (Êx 15.12)eDotãeAbirãem sua rebelião (Nm 16.30,32,34; SI 106.17). Mas agora o próprio povo de Deus enfrenta o prospecte de ser “devo­ rado” pelos inimigos, um prospecte medonho que de fato veio a con­ cretizar-se no exílio (Jr 51.34; Lm 2.2,5,16). Então a perplexidade de Habacuque se deriva da aparente injustiça do juízo que o Senhor lhe havia mostrado e da total devastação que, vinda da força dos caldeus, o obriga a prever. b. Intensificação do problema (1.14-17) 14 Pois fizeste o homem como os peixes do mar, como um enxame que não tem um governo sobre si. 15 A cada um deles, a com um anzol, h ele leva para fora. b Ele arrastará a cada um a com sua rede; b e ajuntará a cada um sando em “um pequeno remanescente, como eram os justos pela fé no Redentor prometido”, e observa que “eles devem sofrer Juntos com a massa de judeus incrédulos”. Contudo, esta perspectiva não responde à pergunta por inteiro. Deve-se ob.servar que essa visão representa uma parte da resposta divina (Hc 2.4), e portanto não é provável que forneça a perspectiva da qual o profeta faz sua pergunta.


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a com sua rede de arrasto. Portanto, ele se regozijará e se sentirá exultante. 16 Por isso, a ele sacrificará h à sua rede, a e queimará incenso h à sua rede de arrasto. Porque com elas a ele engordou h sua porção; b e sua comida a é suculenta. 17 Sucederá, porventura, que ele esvaziará sua rede, matando as nações perpetuamente? Ele nunca demonstrará piedade. Agora o porta-voz profético desafia o programa do Senhor de cas­ tigo com maior intensidade. Ele repete perante o Senhor a maneira infame com que os caldeus haviam tratado o povo no passado. Além disso, ele aponta diretamente para o próprio Deus como a fonte última dessas atrocidades intencionais. 14, Habacuque começa essas observações dirigindo-se a Deus: Fi­ zeste o homem como os peixes do mar. Esta afirmação provavelmente representa a acusação mais penetrante contra o Todo-Poderoso. Ao re­ conhecer a soberania de Deus entre as nações, ele concluiría que o próprio Deus afinal está por trás dessa injúria maciça à humanidade. Ao afirmar que Deus fez o homem como os peixes do mar, ele aparentemente está prevendo o efeito da agressão dos caldeus sobre os vários segmentos do gênero humano postos sob sua opressão. Sua preo­ cupação se estende para além das calamidades que ameaçam o próprio Israel, a fim de incluir todo o gênero humano como sendo feito à ima­ gem do Todo-Poderoso, com a responsabilidade de “dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus e sobre todo animal que rasteja pela terra” {r^dü bidgat hayyãm...üb^kol-hayyâ hãrõmeset 'al-


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HABACUQUE 1.14-15

h ã ’ãres, Gn 1.28; cf. SI 8.9 [Eng. 8]). Contrário à ordem criacional na qual 0 homem deveria exercer domínio sobre a totalidade do mundo, ele é agora rebaixado, tratado como uma massa amorfa dos animais do oceano, sem governo para protegê-lo ou guiá-lo. Nos dias de esplendor de Israel, o rei Salomão exibira sua posição de autoridade sobre os “peixes do mar... e sobre todo animal que rasteja pela terra” {w^'alhãremes w^’al-haddãgím ) ao captar a essência de sua significação em seus muitos provérbios (1 Rs 5.13 [Eng. 4.33]). A que profundidade de degradação Israel ora se afundara a ponto de ser tratado com o des­ respeito que alguém pode exibir em relação a essas criaturas rastejantes! Nenhuma interrupção da “desumanidade do homem para com o homem” tem ocorrido desde o tempo do profeta. Opressores famintos de poder devastando populações inteiras, tratando-os como se fossem menos que o pó da terra, em vez de vice-regentes do próprio Deus. Em tal contexto, a esperança representada no homem por excelência brilha numa luz mais gloriosa. Embora ainda não vejamos todas as coisas sujeitas à humanidade, contudo vemos Jesus, feito por um pouco me­ nor que os anjos, que sofreu a morte, sendo agora coroado com glória e honra (SI 8.6 [Eng. 5]; c f Hb 2.7). O envolvimento direto de Deus neste evento de desumanização não só cria uma profunda preocupação no profeta (v. 14); a profundi­ dade da perversidade dos babilônios também intensifica seu problema. Brutalidade (v. 15), sensualidade (v. 16) e ausência de piedade (v. 17) combinam para agitar as profundezas da queixa do profeta. 15. O que poderia compendiar mais dramaticamente a crueldade dos caldeus do que as testemunhas históricas de seus próprios monu­ mentos?' Não apenas figurativamente, mas literalmente eles continua­ ram a tradição assíria de enfiar um gancho no lábio inferior, mais sensí­ vel, de seus cativos e amarrá-los numa fila única. Com tal método dia­ bólico, eles os forçavam à docilidade. Pelo menos os caldeus se mostra­ vam imparciais em sua crueldade. Cada um de seus cativos era contem­ plado com um gancho, segundo o profeta Habacuque. Lançando mão de uma segunda figura relacionada, o profeta realça 1. Cf. as fontes citadas em Rudolph, p. 2 11.


HABACUQUE 1.15-16

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sua descrição da brutalidade dos babilônios. Se não levados por um gancho, seus cativos anônimos são arrastados numa rede.^ Uma vez mais as inscrições de Babilônia reforçam a sobriedade da descrição do profeta. Em um relevo, as principais deidades babilónicas, Ningirsu, Shamash, Enlil e Marduque, arrastam uma rede na qual seus inimigos capturados se contorcem.^ Talvez o elemento mais repulsivo de todo o quadro seja a satisfa­ ção maligna dos caldeus. Eles. prazerosamente, infligem essas brutali­ dades às suas vítimas. Como é possível? pergunta o profeta. Porventura este procedimen­ to é realmente o modo justo de tratar o Senhor a seu povo? E de fato necessário que o ferrão da cruel zombaria seja acrescentado aos horro­ res de um juízo opressivo? 16. Perplexidade adicional a toda essa questão é introduzida pela sensualidade do instrumento que Deus escolhera para punir seu pró­ prio povo. O que é mais prazeroso ao coração dos babilônios é o prê­ mio das agressões vorazes como se vê em suas práticas cultuais. Eles cultuam seus instrumentos de tortura e crueldade humanas, porque es­ ses instrumentos lhes têm propiciado uma imensidão de prazeres tem­ porais. Em suas imaginações distorcidas, de alguma maneira encontra­ ram um modo de justificar seus feitos brutais, e assim podem comemo­ rá-los mediante sacrifícios em seus momentos solenes de culto. Talvez Habacuque, por meio dessa vívida descrição, tivesse a inten­ ção de provocar ciúmes no Deus de Israel. Como é possível que ele tolere tais perversidades? E sobejamente claro que os caldeus estão cul­ tuando a criatura em lugar do Criador. Com certeza a ira de Deus deve­ ria estar contra eles. Ele instruiu seu povo cuidadosamente para depen­ der dele como sua porção acima de todas as possessões materiais (cf. Nm 18.20; Dt 10.9; SI 16.5; 73.26). Mas esses bárbaros fazem de seus prazeres sensuais seu deus. 2. O termo usado para descrever uma rede de arrasto (y^gõrehú) tem um significado onomatopeico. E usado para descrever o ruminar de um animal (Lv 11.7). o serrar de uma serra (1 Rs 7.9) e o ruído de um redemoinho (Jr 30.23). 3. Cf. Laetsch. p. 326.


210

HABACUQUE 1.17

17.0 problema de Habacuque ante o abuso sofrido por seu povo é intensificado não só pela brutalidade e sensualidade do instrumento divino de juízo. A atitude implacável do opressor também lhe causa tremor. Porventura esse invasor continuará a esvaziar sua rede para sempre? Ele vira sua rede para baixo e derrama os seres humanos mu­ tilados que ele capturou, em seguida, sem interrupção, prossegue na busca de mais vítimas. Esta determinação de executar infindáveis atro­ cidades estaria destinada a continuar sem interrupção, para sempre? Ele nunca demonstra piedade na matança das nações. As dimensões dessa brutalidade dificilmente podem ser avaliadas. O profeta prevê um holocausto que não pode ser compreendido. As vítimas desse opressor não são meramente indivíduos. Nações inteiras caem presas de suas brutalidades.'* Tal carnificina, por atacado, tem sua fonte no próprio Satanás. Se Caim, “que era do Maligno”, matou seu irmão (IJo 3.12), certamente a matança impiedosa praticada pelos babilônios seria ins­ pirada pelo arquiinimigo do Senhor. Como, pois, esse processo pode continuar indefinidamente? Deverá ele passar por sobre o próprio povo de Deus e prosseguir pisando uma fila infindável de vítimas? Por acaso a compaixão de Deus ainda reina? A ausência de misericórdia da parte do inimigo evidentemente revela que ele opera ao arrepio da natureza do Senhor. Seria o caso de se permitir que a atividade do inimigo continue perpetuamente? Então o profeta Habacuque questiona a Deus e sua intenção revela­ da para a solução do problema que ele mesmo levantou. Não há dúvida de que Israel de alguma maneira precisava de castigo. Seu exercício pessoal da brutalidade merece uma reprimenda da parte do Senhor. Ha­ bacuque, porém, não podia entender a extensão da opressão que o Se­ nhor ora lhe revela. Seu coração e mente estavam feridos por prospectos muito assombrosos. Ele se atrevia a questionar o Todo-Poderoso e em seguida esperar uma resposta.

4. Esta descrição da vítima do opressor como incluindo uma multidão de nações pressupõe que cie não era meramente um opressor interno que o profeta estava descrevendo; mas tam­ bém não exclui a possibilidade de que os primeiros opressores mencionados por Habacuque. em seu diálogo com o Senhor (1.2-4), vieram de Judá mesmo. Ver Introdução, § IV. C.


HABACUQUE 2.1-20

211

O povo de Deus é compelido, repetidas vezes, a digladiar-se com a profundidade do sofrimento que sobrevém aos que pertencem a Deus. Se fosse possível à mente humana limitada compreender pelo menos uma fração da realidade dos sofrimentos do Filho de Deus, ela por certo oscilaria atônita de profunda admiração. Pois tanto a profundidade da justiça de Deus quanto a profundidade de seu amor são incompreen­ síveis. Em defesa do povo de Deus, ao longo dos tempos, o profeta se digladia com as profundidades e riquezas da sabedoria de Deus, pois seus caminhos são insondáveis, além de todo o entendimento. Não obs­ tante, a verdade se tem feito conhecer ao povo de Deus. Portanto, é sempre oportuno buscar essa revelação em toda sua profundidade. Enquanto a couraça da fé controlar as atividades do povo de Deus, eles podem juntar-se a Habacuque em seus esforços em perscrutar as pro­ fundidades dos mistérios do Todo-Poderoso.

II. A RESOLUÇÃO DA SABEDORIA (2.D20) Usando a fomia de expressão com a máxima ousadia, Habacuque questionou as intenções do Senhor de como elas lhe foram reveladas. Como é possível que o Todo-Poderoso trate os seres humanos como se fossem peixes do mar (Hc 1.14)? Esta brutalidade do opressor e inva­ sor duraria para sempre? Continuaria ele a esvaziar sua rede, destruin­ do nações sem misericórdia (Hc 1.17)? O “diálogo de protesto” iniciado no capítulo 1 encontraria alguma solução. E preciso dar uma resposta digna a um desafio tão ousado à integridade de Deus. Então o capítulo 2 de Habacuque fornece a solu­ ção da sabedoria divina. O profeta se assegura da repreensão que por certo virá (2.1). Mas o Senhor responde gentilmente, desvendando seu propósito para as eras futuras (2.2-20). A. O PROFETA VIGIA DILIGENTEMENTE PELA CENSURA À SUA ESTULTÍCIA (2.1)

1 a Em minha torre de vigia b eu me porei, b e me situarei


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HABACUQUE 2.1

a em (minha) torre sitiada. E vigiarei para ver o que ele me dirá, e o que eu responderei à minha censura. Habacuque tem plena consciência da audácia de suas recentes ob­ servações. Ele desafiou a propriedade do propósito do próprio Senhor. E compreensível, pois, que ele se prepare para receber uma reprimen­ da direta do Senhor. O profeta está certo na posição que assume com respeito a seu próprio papel na solução desse assunto complexo. Ele não tentará con­ ciliar em sua própria mente a contradição aparente entre a eleição divi­ na de Israel, como objeto do amor especial de Deus, e a devastação de Israel nas mãos dos caldeus vorazes, como ordenado pelo próprio Se­ nhor. Ele não recorrerá aos recursos de sabedoria humana. Em vez disso, ele esperará por uma resposta que só pode vir do Senhor. Haba­ cuque sabe que, conforme a natureza do ofício profético em Israel, somente a revelação divina poderá responder à sua perplexidade. Tanto a humildade quanto a esperança do profeta têm fornecido diretriz apropriada à igreja ao longo dos tempos. Os caminhos de Deus são mais altos do que os caminhos do homem. Unicamente por meio de revelação é que se pode compreender as perplexidades genuínas prove­ nientes do modo de Deus lidar com os seres humanos. Em minha torre de vigia me porei. Três exemplos anteriores de profetas que “se colocaram na torre de vigia” como fez Habacuque com o fim de receber a revelação de Deus foram: Moisés se pôs na brecha da rocha e “vigiou” a fim de ver a glória de Deus passar diante dele (Ex 33.21-23). Balaão se afastou a fim de “vigiar” pela revelação que Deus poderia lhe trazer (Nm 23.3). Elias recebeu a ordem de ir para as montanhas e “vigiar” pela revelação de Deus que viria (1 Rs 19.11). De modo semelhante, Habacuque se posicionou numa torre de vigia a fim de “vigiar” pela revelação que viria de Deus. Embora fosse uma


HABACUQUE 2.1

213

figura solitária, ele representava o povo de Deus como o mediador profético nesta conjuntura crítica de sua história. Vigiarei para ver o que ele me dirá. Habacuque, pessoalmente, se encontra totalmente envolvido em todo esse procedimento; ele, porém, aguarda uma mensagem acerca de todo o povo de Deus. As respostas do Senhor ressaltam o fato de que não é só por meio do profeta que este intercâmbio avança. O papel profético de ser “vigia” velando pela palavra de Deus foi descrito em dias anteriores, quando o Senhor ordenou a Isaías pôr um “atalaia” em seu posto (Is 21.6). Esse atalaia profético ficou em sua “torre de vigia” dia após dia, permanecendo em seu posto noites a fio (Is 21.8). Finalmente, a revelação divina chegou. O “vigia” que espera pela palavra de Deus permanece em nítido contraste com aqueles que recorrem às suas imaginações. A alternativa egoísta e humanista em vez de dependência passiva da palavra divina merece a repreensão expressa por Calvino: “Todos... aqueles que se entregam a seus próprios conselhos merecem ser esquecidos por Deus e ser deixados por ele para que sejam arremessados daqui para ali, de cima para baixo e de baixo para cima, por Satanás; pois a única segu­ rança do fiel que não falha é a aquiescência na palavra de Deus”.' E o que responderá à minha censura. Embora Habacuque eviden­ temente aceite a postura de profeta vigiando à espera da palavra de Deus, ele introduz uma perspectiva distintiva a respeito de suas próprias expectativas. Ele vigiará, porém simultaneamente ficará preparando uma resposta à repreensão que espera do Senhor. Habacuque se atrevera a questionar a revelação anterior do Senhor, a qual fora em resposta à sua queixa. Ele não entendia como o Senhor podia tolerar a destruição de seu próprio povo pelas mãos de bárbaros cruéis. Agora ele espera pela resposta do Senhor à sua censura posterior, pois dificilmente poderia esperar outra coisa senão repreensão. Muito embora fosse submisso à revelação divina, a qual com certeza viria. assim mesmo ele presumiu que seria chamado a responder a esta nova palavra do Senhor com uma argumentação adicional. 1. João Calvino, p. 62.


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HABACUQUE 2.1

Algumas versões trazem uma tradução diferente que ameniza um pouco a audácia implícita nas palavras de Habacuque.^ De fato é difícil imaginar o profeta de antemão se preparando para responder a uma reprimenda da parte do Todo-Poderoso. Contudo, a radicalidade do pro­ blema com o qual Habacuque se debate, bem como a natureza do inter­ câmbio com o Todo-Poderoso até este ponto, naturalmente levam com razão a essa explicação. Em seu diálogo contínuo com Deus, em termos de repreensão e resposta, Habacuque adota um padrão que reflete um procedimento reconhecido na busca de sabedoria em Israel. Ao buscar compreender os caminhos de Deus em relação a ele, Jó anseia “defender” (hôkêah) sua causa diante de Deus (Jó 13.3). Ele suplica a seus amigos que escu­ tassem sua “defesa” {tôkahti) e os “argumentos” (ribôt) de seus lábios (v. 6). Ele anseia encontrar Deus para que possa encher sua boca com argumentos (tôkãhôt) (23.4). Por meio desta maneira ousada de entrar em disputa com Deus, os sábios de Israel esperam receber esclareci­ mento divino para suas perplexidades. Semelhantemente, no livro de Provérbios, o Senhor aparece como aquele que instrui pela correção. A sabedoria ensinará a pessoa a aten­ tar para a repreensão do Todo-Poderoso (Pv 1.23). Grande calamidade recairá sobre os néscios que não ouvem sua repreensão (1.25,30). O papel da repreensão divina a comunicar sabedoria é um tema que apare­ ce em numerosos outros provérbios (cf. 6.23; 10.17; 12.1; 13.18; 15.5; 10,31-32; 27.5; 29.1,15). De acordo com essa tradição, Habacuque se prepara para a repre­ ensão do Senhor. Ele se atreveu a quebrar o silêncio, ocultando a rela­ ção de seu povo com seu Deus. Agora, tendo iniciado este diálogo, ele se prepararia para responder à repreensão que certamente chegaria.

2. A RSV traz “minha queixa” e a NIV traz "esta queixa” . Calvino, página 62. interpreta esta frase como se referindo às “censuras” que porventura viessem de Satanás ou do ego, nâo de Deus.


HABACUQUE 2.2-20

215

B. O SENHOR GENTILMENTE REVELA SEU PROPÓSITO PARA AS ERAS (2.2-20)

Surpreendentemente, a resposta do Senhor ao desafio do profeta chega sob a forma de uma visão de esperança que o profeta deve escre­ ver para as gerações futuras. Deus não esbraveja com o profeta por causa de suas acusações, ao contrário das expectativas de Habacuque. Primeiro, ele lhe transmite uma visão que contrasta o Justo pela fé com o soberbo resoluto (2.2-5). Ele então oferece cinco máximas prover­ biais que ridicularizam o soberbo (2.6-20). I. O Justificado pela fé e o resolutamente soberbo (2.2-5) A condescendência graciosa do Senhor é vista na significação, ca­ ráter e substância desta visão. a. Instruções indicando a significação desta visão (2.2)

2 E o Senhor me respondeu e disse: a Escreve b a visão a e deixa-a bem nítida b sobre tábuas, c para que a leia até quem passa correndo. A resposta do Senhor veio sob a forma de uma visão. Este fato retira imediatamente essa palavra da esfera de uma resposta pessoal dirigida só ao profeta. Embora seja concebível que o Senhor tenha agra­ ciado seu profeta com uma mensagem pessoal pelo uso de uma visão, o padrão típico de revelação profética do Antigo Testamento pressupõe que Deus comunica a visão a seu profeta na qualidade de mediador de uma mensagem divina. As instruções específicas: escreve a visão, deixa-a bem nítida .so­ bre tábuas ressalta sua significação não só para o momento crucial em que Habacuque vivia, mas também para as gerações vindouras. O con­ texto pressupõe uma alusão intencional à gravação das “dez palavras” originais do livro da aliança (Êx 31.18; 32.15-16; Dt 9.10). Original­ mente, Israel também fora instruído a “gravar” nas pedras caiadas to­ das as palavras da lei e a escrever “bem distintamente” {ba’ër hêfêt)


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HABACUQUE 2.2-5

essa inscrição (Dt 27.8). Agora Habacuque é instruído a fazer bem ní­ tida [bâ'ër] sobre tábuas a visão que lhe fora dada. Refletindo o pa­ drão há muito estabelecido de gravar uma cópia nova da lei pactuai como um passo essencial na renovação da aliança, as instruções de Habacuque incluíam gravar sua visão sobre tábuas.' Isaías fora instruído a escrever sua revelação num “rolo” e numa "tábua”, enquanto Jeremias recebeu a ordem de escrever num “livro” (Is 8.1 ; 30.8; Jr 30.2). Habacuque, porém, deve escrever sobre tábuas. O uso do artigo bem eomo a pluralização das tábuas são distintivos. A “vi­ são” de Habacuque, aparentemente contida nos versículos 4 e 5 desse capítulo, não parece, por sua extensão, justificar a necessidade de expres­ sar tábuas no plural, nem parece haver alguma razão no contexto imediato para especificar as tábuas nas quais Habacuque devia escrever. Esses aspectos, aparentemente, têm a intenção de recordar “as tá­ buas” da aliança feitas no Sinai (Êx 24.12; 31.18; 32.15; 34.1,28; Dt 9.9-11 ; 10.2,4; 2Cr 5.10). Esta visão ora revelada a Habacuque se com­ para em significação ao original da lei dada a Moisés. Talvez com justa razão foi que a tradição judaica declarou que as 613 leis do Pentateuco foram reduzidas a uma por Habacuque.’ Como se não bastassem esses fatores, o significado dessa visão en­ contra maior ênfase na razão dada para sua inscrição nítida. Habacuque devia escrevê-la com clareza sobre as tábuas para c/ue a leia até quem pa.ssa correndo. Em vez de significar um painel com um letreiro tão grande que uma pessoa que passasse correndo pudesse 1er, o contexto de uma visão profética gravada sobre tábuas para os tempos futuros pressupõe a “corrida” de um mensageiro a “proclamar” a visão.-’ Os profetas são frequentemente apresentados nas Escrituras como que “correndo” com seu anúncio. Num paralelismo poético claro, o 1. Cf. Deuteronômio 1.1; 27.2-3; Js 8.32; 24.25-26. G. E. Mendenhall, Law and Covenant in l.srael and the Ancient Near East (Piltsburgo: Biblical Colloquium, 1955), p. 41, observa que era uma prática costumeira "lavrar uma Nova Aliança” com o herdeiro do trono vassalo incluindo um prólogo histórico e as estipulações até o momento. 2. H. L. Starck e P. Billerbeck, KommentarzuniNeuen Testament aus TalmudundMidrash, 5 vols. (Munique: Beck”sche, 1926-1961). 1.907; 3.542,43. 3. C f John Marshall Holt, “So He May Run Who Reads 83 (1964) 298-302; W. H. Brownlee, "The Placarded Revelation o f Habakkuk”,./5 f 82 (1963)319-325.


HABACUQUE 2.2-5

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Senhor, por meio de Jeremias, protesta contra a atividade dos falsos profetas: Não mandei esses profetas; todavia eles foram correndo; não lhes falei; contudo profetizaram (Jr 23.21). Nesse pronunciamento de Jeremias, é bastante claro que “correr” (com uma mensagem) é equivalente a “profetizar”. De modo seme­ lhante, Geazi deveria “correr” por Eliseu (2Rs 4.26) e Zacarias ouve o Senhor ordenar a seu mensageiro que “corra” para entregar sua mensa­ gem (Zc 2.4). Embora fosse correto interpretar a tarefa desse mensageiro corre­ dor como sendo a “leitura” (qr’) da visão, é mais provável que o texto esteja indicando que ele tem a responsabilidade de proclamar a mensa­ gem (qôrê’ bô). O termo empregado regularmente significa “procla­ mar” tanto quanto “ler”. Mas, particularmente notável em comparação com esse texto em Habacuque, é a “proclamação” {qr’) do nome do Senhor associada à entrega das duas tábuas a Moisés (Ex 34.4-5). O Senhor passou diante de Moisés e “proclamou” (wayyiqrã’) seu nome (Êx 34.6). Habacuque deve gravar sua visão tão nitidamente que a pudesse ler até quem passasse correndo. A permanência da gravação da visão pressupõe que o portador dessa mensagem não seria um único indiví­ duo. Em vez disso, muitos ao longo dos tempos deverão correr com o fim de declarar essa palavra divina. Uma vez Abraão, o primeiro pai do povo de Deus, teve de ser deso­ brigado de esperar uma solução demasiado repentina à sua aflição pela falta de filhos a despeito das promessas de Deus. Sua experiência o forçou a olhar pela fé para além das circunstâncias de seu tempo para um futuro distante. Agora Habacuque luta com uma tensão idêntica. Como poderá Deus cumprir suas promessas feitas a seu povo quando ele está para devastá-lo? A resposta divina à sua perplexidade seria gravada sobre tábuas, e muitos mensageiros nos tempos futuros deve­ rão correr com a mensagem que resolve este problema. Justamente a


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HABACUQUE 2.3

demora que Habacuque deve aceitar fornece um indicador adicional de significação mais ampla da visão. Ela não se destina meramente à geração de seu tempo. Ela aponta para os tempos vindouros. b. Afirmação concernente ao caráter da visão (2.3) 3 Porque a visão (é) ainda para o tempo designado e se apressa para o fim; ela não pode mentir. Se tardar, espera por ela, porque certamente virá, não tardará. Essa visão não só tem um significado que a toma comparável à revelação que Moisés recebeu no monte Sinai. Essa visão é também digna de nota por seu caráter básico: é escatológica e é infalível. Sua realização aguarda eventos que ainda estão no futuro, os quais ajudam o profeta a entender por que a visão precisa ser escrita. Abraão tinha de crer ainda que sua esposa já houvesse passado da idade de ter filhos, porque nada é demasiadamente difícil para Deus. O mensageiro que apareceu ao patriarca deixou bem claro que o cumpri­ mento da promessa relativa ao nascimento da semente há muito aguar­ dada seria “neste mesmo tempo” (Gn 18.14). Não de acordo com o tempo ansiosamente concebido pelo homem, mas era de acordo com o decreto divino e imutável que a promessa se cumpriría. Como se ob­ serva previamente, o problema de Habacuque era essencialmente o mesmo de Abraão. Como podería Deus ser fiel à sua promessa se seu povo fosse exterminado? Então Habacuque teve de enfrentar em seus dias a dura realidade da devastação do povo de Deus por meio do exílio. Contudo, ele devia crer que nada era demasiadamente difícil para Deus. Pois sua visão seria cumprida no tempo determinado (cf Dn 10.14; 11.27,35). Essa visão anela ou “palpita” (püah) pelo fim. Embora este termo em certas ocasiões significasse simplesmente “falar”, o contexto près-


HABACUQUE 2.3

219

supõe sua significação mais vívida. “A verdadeira profecia é inspirada ... por um impulso de cumprir-se.”' Não só o profeta, mas o próprio Deus como autor dessa visão anela por ver a reivindicação de sua pró­ pria palavra de profecia. O tempo determinado e o alvo ao qual essa visão anela era o fim. Somente no “fim” a esperança de Habacuque seria satisfeita. O que sig­ nificaria esta referência ao fiim? Parece improvável que a palavra sim­ plesmente signifique “mais tarde” ou “depois das circunstâncias que ora perduram”, ou, ainda, “depois que o juízo previsto vier”. O fim, conse­ quentemente, refere-se a um ponto final (cf Gn 4.3; 8.6; 41.1; Êx 12.41; Ez 35.5). Neste caso, não se fornece nenhuma estrutura que possa ajudar na definição do “fim” preciso em vista. Contudo, a referência ao tempo determinado de cumprimento que viria depois que muitos mensageiros corressem com a mensagem da visão pressupõe que este //w se refere ao estágio final da obra de Deus com o propósito de redimir seu povo. No tempo de Daniel, o “tempo determinado” e o “fim” evidente­ mente possuem significados escatológicos (cf Dn 8.17,19; 11.35,40; 12.9). Mas, mesmo por ocasião da visão de Habacuque, o fim era bas­ tante apropriado, particularmente em vista do evento cataclísmico do exílio que a nação encarava. No contexto do exílio iminente, é corre­ tíssimo enxergar significado escatológico na referência de Habacuque. Depois das devastações do Juízo pelas mãos dos babilônios, o “fim” parecia iminente. Então a questão suscitada por Habacuque merece uma resposta com dimensões escatológicas. Sua perplexidade e suas sondagens foram bem direcionadas. A devastação iminente do próprio povo de Deus nas mãos dos caldeus era uma questão da mais solene importância. A solução final deste problema só ocorreria no escaton. Essa visão que ora é dada a Habacuque tinha não só um caráter esca­ tológico. Pela própria natureza do caso, ela era certa e verdadeira, a des­ peito de todas as aparências em contrário. Essa visão era para o tempo determinado; ela se apressa para o fim; e ela não falhará. A assevera­ ção divina de que essa visão não falhará implica que as aparências 1. Hitzig, como citado em Keil. p. 71.


220

HABACUQUE 2.3

iriam contradizer a mensagem contida na visão. Da mesma maneira que a experiência visível de Abraão contradizia a promessa divina com respeito a uma semente, também a experiência de Habacuque iria con­ tradizer a mensagem que lhe era dada. Até mesmo Deus pode parecer mentiroso. Deus, porém, não pode mentir. Tal como foi asseverado tão incisivamente num contexto profético anterior, “Deus não é homem para que minta” (Nm 23.19). O profeta é admoestado: se tardar, espera-o. O cumprimento da vi­ são quase certamente se delongaria, contudo a delonga é posta num con­ texto condicional. Se o cumprimento da visão tardar, deves esperar por ele. Esta maneira de descrever o prospecte futuro sempre força o profeta a esperar esperançosamente, e enfatiza a iminência da ação divina para cumprir sua palavra. A qualquer momento o Senhor pode dar início àque­ les eventos que trarão o cumprimento escatológico dessa promessa. A certeza do cumprimento dessa visão, a despeito de todas as apa­ rências em contrário, encontra reforço nas frases finais deste versícu­ lo: porque, certamente, virá, e não tardará. Por meio da combinação de formas verbais comunicando infinidade e finidade construídas so­ bre a mesma raiz, a linguagem hebraica efetivamente realça a certeza de um evento antecipado.^ A visão dada a Habacuque se cumprirá. Não tardará. A afirmação ousada de que essa visão não tardará pare­ ce contradizer a oração de abertura dessa sentença, que afirma a possibi­ lidade de a visão vir a tardar. A solução desta dificuldade, apelando-se para as nuanças distintivas do significado entre as duas palavras he­ braicas para tardar e demorar, vacila pela falta de evidência clara de que existe uma distinção adequada entre as duas palavras. O mais pro­ vável é a linha de solução proposta por João Calvino, que sugere que, pelo prisma humano, a visão pode parecer tardia em seu cumprimento por causa do longo período envolvido em sua concretização. Mas, pelo prisma de Deus, a infalibilidade de seu cumprimento, precisamente de acordo com o plano divino, não pode ser questionada.^ A princípio parece que a tradução da LXX desse versículo modifi2. Cf. GKC, § 113n. Em inglês, este efeito do infinitivo absoluto é alcançado frequente­ mente pelo advérbio correspondente: “Certamente morrerás”. 3. Calvino, p. 65.


HABACUQUE 2.3

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cou a força da profecia de Habacuque, pela focalização da visão na vinda de uma pessoa. Se uma referência à “visão” fosse proposta por tradutores gregos, seria preciso o uso do pronome feminino correspon­ dente {auten). Mas, em vez da tradução, “se (a visão) tardar, espera por ela” (literalmente “ela”), a LXX traz “Se ele tardar, espera por ele [autón]". O texto hebraico certamente poderia ser lido exatamente como en­ contrado na LXX. Pode-se encontrar mais apoio para esta versão na de­ pendência de Habacuque 2.3-4 e de Gênesis 15.6. A fé que Abraão tinha em Deus apontava um foco muito específico naquele contexto antigo. Ele creu em Deus com relação à promessa de uma semente (Gn 15.4-5), e assim sua fé foi ratificada como correta. Esta bênção de uma semente só encontra seu significado completo em tennos de uma salvação para o povo de Deus realizada por um único herói salvador (cf Gn 3.15). Então a personificação da esperança da salvação pelos tradutores da LXX não deve ser vista como uma perversão estranha das palavras de Habacuque, mesmo quando o texto hebraico não pareça especificar tão incisivamente uma referência a uma “pessoa” que concretizará o cumprimento da profecia. Esta personificação da expectativa profética de Habacuque encontra apoio na interpretação messiânica subsequen­ te dada a esses mesmos versículos por vários rabinos na tradição judaica." Presumivelmente, seguindo a tradição da LXX, o escritor de He­ breus sublinha esta perspectiva messiânica explícita, traduzindo a fra­ se seguinte em Habacuque com o artigo definido. Pela fé, o justo deve esperar por “aquele que vem” {ho erchómenos, Hb 10.37). Muito pro­ vavelmente, o escritor de Hebreus recorreu a esta passagem porque ela enfatiza a necessidade de paciência na reflexão sobre a essência das promessas de Deus. Deus disse a Habacuque que, se a visão tardasse, ele deveria esperar com paciência. Agora, no contexto da Nova Alian­ ça, a mesma admoestação se aplica àqueles que sofrem, não vendo a promessa de Deus concretizada imediatamente neles. Eles também pre­ cisam ter paciência (Hb 10.36).* Ao visualizar a profecia de Habacu4. T. B. Sanhedrin 97b. Cf. a discussão de C. Spicq, L 'Epitre m a Héhreia, Eludes Bibliques (Paris: Gabalda. 1952), 2.332. 5. O escritor de Hebreus emprega uma frase de Isaías 26.20 que enfatiza o tempo curto antes de o Senhor voltar para julgar, com o fim de introduzir a citação de Habacuque:


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HABACUQUE 2.4-5

que desta perspectiva pessoal, o escritor aos Hebreus não introduziu um elemento estranho à profecia, mesmo quando ele tome pessoal o que originalmente foi expresso de modo impessoal. c. Revelação da substância dessa visão (2.4-5) 4 Eis a o soberbo! b Sua alma não é reta nele; a mas o justificado — b por sua sólida confiança, viverá. 5 Entretanto, o vinho o engana — o homem poderoso que se vangloria e não descansará, que multiplica como o Sheol sua alma; e ele (é) como a morte, e não ficará satisfeito, a Assim ele ajunta b para si mesmo c todas as nações, a e coleta b para si mesmo c todos os povos. Embora o assunto tenha sido debatido, parece ser bastante claro que a “visão” prometida nos versículos anteriores agora está sendo relatada.' Os cinco “ais” que finalizam o capítulo podem ser considera“ainda dentro de pouco tempo”, aquele que está vindo, chegará (Hb 10.37). A ênfase maior na vinda do próprio Senhor, na tradução que a LXX faz de Habacuque 2.3, tinha captado a dimensão pessoal que o escritor de Hebreus desejava enfatizar. O povo enfrentaria o Senhor pessoalmente. E a ele que devem esperar. I.W . Rudolph, p.216.


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dos como uma expansão de um aspecto da visão de Habacuque, ainda que não constituam a substância da visão propriamente dita. Três elementos se destacam nesses versículos: (1) o soberbo não pode ser reto (v. 4a); (2) o justificado (pela fé) deve viver por meio de sua confiança imperturbável (v. 4b); (3) mas o arrogante continua em seus caminhos vangloriosos (v. 4c-5). 4a. O soberbo não pode ser reto. Eis! O termo introduz a substân­ cia de uma visão propriamente dita. Ao considerar a circunstância a respeito da qual ele está tão impressionado - até mesmo a ponto de desafiar a Deus Habacuque deve observar com cuidado a análise de Deus sobre o soberbo. Descritivo de sua própria essência é o termo empregado para designá-los. Eles são “emproados”, “inchados” ou mesmo “intumescidos” (upp^lâ).^ Esta condição de auto-exaltação e estima pessoal traz algumas con­ sequências. Tal indivíduo não pode ser reto em si mesmo. O orgulho de sua própria pessoa o condena. Esta posição de orgulho e autoconfiança também exclui do soberbo a possibilidade de encontrar uma justiça fora de si mesmo. Pois ele presume definir-se como a fonte de sua própria bondade. A consequência de tal auto-exaltação é vista concre­ tamente em outro ponto no caso de Israel “agindo presunçosamente” ('p /-N m 14.44; c f Dt 1.43). Eles foram derrotados sem misericórdia por seus inimigos, porque presumiram que em si próprios havia recur­ sos suficientes para a vitória. Então, por meio dessas palavras da Escritura de Habacuque, fica claro que o soberbo não pode ser reto. Consequentemente, eles tam­ pouco podem viver. Terão de enfrentar condenação e juízo. Para Habacuque, poderia parecer que os caldeus impetuosos e orgulhosos continuariam a prosperar. Contudo, o fato de que sua alma não era reta neles, deveria ser um indicador suficiente de seu juízo final. 4b. Mas o justificado - por sua sólida confiança viverá. Agora apresenta-se o aspecto complementar da visão de Habacuque. O cará­ ter divisório desta revelação é realçado pela significação que deve ser reconhecida em cada palavra na sentença. 2. O termo é usado em outro texto nas Escrituras para se referir a um nódulo ou a um tumor. Cf. 1 Samuel 5.6.9,12.


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HABACUQUE 2.4b

Mas o justificado {w^saddiq). O conceito de justiça (hebraico s^dãqá) no Antigo Testamento revela um sabor característico em ra­ zão de que ele é ligado de fonna inseparável à ideia de uma sentença judicial. John Skinner resumiu esta perspectiva ao observar que, no Antigo Testamento, o elemento judicial predomina em todos os luga­ res: “O que se pretende dizer é que questões de certo e errado eram habitualmente consideradas de um ponto de vista legal como assuntos que deviam ser decididos por um juiz, e que esse ponto de vista é enfa­ tizado nas palavras derivadas de sdq. Isto, de fato, é característico da concepção hebraica de justiça em todos os seus aspectos: seja uma qualidade moral ou um slaíus religioso, está sujeito a ser considerado como sendo em si mesmo contestável e incompleto até que seja confir­ mado pelo que for equivalente a uma sentença judicial”.^ Considerando o elo legal que repousa sobre a base da relação de aliança de Israel com Deus, como poderia ser de outro modo? A nação está profundamente cônscia do fato de que este é um povo pactuai, obri­ gado por um juramento solene com consequências de vida e morte centradas na lei solenemente ditada pelo Senhor da aliança. Tudo de­ pendia da decisão legal do Deus da aliança. Era o dever do juiz terreno garantir que sua versão correspondesse à decisão já feita pelo Senhor do céu e da terra. Portanto, no contexto do Antigo Testamento, a justiça deveria ser considerada antes de tudo como um temio religioso mais que ético, que “toma sua origem da esfera forense e faz de sua habitação a lei de Deus”.'* O contexto legal da ideia aparece repetidas vezes nas Escritu­ ras. Deus solenemente fez “pronunciamentos de juízo” sobre os que “justificam o perverso” e que em troca de suborno “ao justo negam justiça” (Is 5.23). No primeiro caso, não é possível que o juiz suborna­ do de fato afete o caráter moral de suas vítimas quando “justifica o perverso”. Nem é possível que ele corrompa o justo quando nega “ao justo justiça”. Em ambos os casos, o que se afeta é a situação legal do 3. J. Skinner, “Righteousness in OT", A DicUonary o f The Bible, org. James Hastings (Nova York: Charles Scribner”s Sons, 1902), 4.273. 4. Cf. L. Morris, The Apostolic Preaching o f the Cross (Grand Rapids: Eerdmans, 1956), p. 235.


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indivíduo. Conquanto o juiz deva confirmar o juízo de Deus, ele per­ verteu a justiça. A mesma situação é evidente no arcabouço judicial do intercâmbio entre Deus e Jó. O personagem patriarcal encaminhou bem sua causa e está confiante de que será declarado justo (Jó 13.18). Afinal, o Senhor responde à insistência de Jó de que uma decisão judicial divina fosse dada à sua causa: “acaso anularás tu, de fato, meu juízo? Ou me conde­ narás, para te justificares?” (Jó 40.8). Jó não é apresentado como que tentando corromper a moralidade pessoal de Deus. O arcabouço intei­ ro do intercâmbio gira em tomo de uma situação judicial contrastante. Em outros pontos nas Escrituras, Deus alerta contra acusar falsa­ mente o inocente e o “justo” (num contexto judicial), pois ele não jus­ tificará 0 ímpio (Ex 23.7). Jeú isenta o povo da culpa associada à morte dos filhos de Acabe pelos oficiais de Samaria, anunciando: “Vós estais sem culpa” (2Rs 10.9). Isaías proclama que é “a herança” do povo de Deus refutar toda língua acusadora (Is 54.17), significando que ele será capaz de passar ileso pelo escnitínio do juízo público. Como se disse bem: “A justiça de Deus, ou seu reino judicial, significa que, com fide­ lidade pactuai para com seu povo, ele os justifica e salva”.^ Em Habacuque 2.4b, o termo para ojustificado ou “o justo”, saddíq, contrasta com a referência da alma do soberbo, que não é reta (yãS^râ), na frase imediatamente precedente. A alma do soberbo não é moral­ mente reta {yãS^râ) nele; mas aquele que é legalmente justo (saddíq) viverá. Mas então suscita-se a pergunta: “Como pode uma pessoa ser de­ clarada justa?”. Existe de fato um ser humano que possa ser submetido ao escrutínio do trono do juízo divino e encontrar-se absolutamente inocente? A frase que segue imediatamente (por sua sólida confiança) pode ser interpretada como que explicando diretamente o caminho para a justificação. Mas, gramaticalmente, esta frase se liga mais natural­ mente com a frase ele viverá, como indicado pelos acentos massoréticos. Em vez de afirmar explicitamente que o justificado-pela-fé vive­ rá, a frase assevera que o justificado viverá-pela-fé. 5. Gottlob Schrenk, “rf/feê, díkaios, d ikaiosm è. etc.” em TDNT, 2 .195. Acrescentou-se ênla.se.


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HABACUQUE 2.4b

Essa análise é confirmada pelo padrão comum da sentença com­ posta em hebraico.^Nesta estrutura, o sujeito aparece primeiro, prece­ dendo uma oração verbal (em contraste com o padrão normal em he­ braico). O sujeito é então seguido por uma oração independente que frequentemente inclui um sufixo retrospectivo (ou seja, uma referên­ cia retroativa ao substantivo inicial). Exemplos desta estrutura são co­ muns; “Ó Senhor - na tempestade (está) teu caminho” (Na 1.3); “O Deus - perfeito (é) teu caminho” (SI 18.32 [Eng. 31); “Meu filho Siquém - sua alma enamora sua filha” (Gn 34.8); “E eu [quanto a mim] - esta (é) minha aliança com eles” (Is 59.21 ). Seguindo este padrão, o texto disponível traz: “mas o justificado - por sua sólida confiança viverá” (Hc 2.4). Por causa desta estrutura, por sua sólida confiança deve ser tomada na construção com viverá, em vez de mas o justifica­ do. A frase explica o modo pelo qual a dádiva da vida continua a ser recebida, e não o modo pelo qual o pecador é declarado justo. O texto da LXX não se conforma completamente a essa construção da sentença, embora siga a estrutura principal. Ele traz: “o justo por minha fé [ou seja, de Deus] (ou fidelidade) viverá”. Esta representação quebra o padrão do sufixo retrospectivo comumente encontrado na sen­ tença hebraica composta, embora de outra forma, seguindo a estrutura básica das palavras. O paralelismo das duas orações em Habacuque 2.4 oferece apoio adicional a essa versão do texto hebraico. A construção do versículo pode ser representada da seguinte forma: a O soberbo b não reto (é) sua alma c nele; a Mas o justo c pela sua fé b viverá. A primeira metade desse versículo segue o mesmo padrão da sen­ tença composta em hebraico. Primeiro vem o sujeito (“o soberbo”). 6. Ver a discussão e ilustrações da estrutura da sentença composta em GKC, § 140d, 143.


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seguido por uma oração independente incluindo um sufixo pronome que retrocede ao sujeito inicial (“.vwa alma não é reta nele”). O parale­ lismo da construção entre estas duas porções do versículo apoia a rela­ ção de por sua sólida confiança viverá, e não com o justificado. A ênfase resultante dessa estrutura é digna de nota. O justificado recebe uma ênfase que não se poderia realizar na estrutura de sentença simples do verbo seguido pelo sujeito. Por sua sólida confiança é tam­ bém enfatizado em virtude da inversão da ordem que se espera das palavras no predicado, e é mais realçado pela variação da ordem dos elementos em contraste com a ordem da primeira metade do versículo. Enquanto o paralelismo é mantido, a inversão da ordem das palavras enfatiza por sua sólida confiança. A mensagem de que uma pessoa “viverá por fé” sublinha o fato de que a vida é um dom, recebido graciosamente das mãos de Deus. Posto em aguda contradição com o “soberbo” que não é “reto” em si mesmo e que, portanto, deve morrer, aquele que confia na graça de Deus para sua existência a cada momento viverá. Ele sobreviverá às devastações do juízo de Deus. Subentendendo que por sua sólida confiança relaciona-se gramati­ calmente com ele viverá, e não com o justificado, pode parecer que deixa em aberto a questão como uma pessoa se torna justa. Mas a ênfa­ se resultante só corrobora o fato de que a fonte da verdadeira justiça sempre permanece fora da pessoa. Se vida contínua é um dom recebido pela fé, então a justiça, que é a base da vida, teria a mesma fonte. Esta percepção da forma do direito judicial do pecador é realçada, pelo que tudo indica, por ser um eco deliberado de Gênesis 15.6. Ter­ mos relacionados com os conceitos fundamentais de fé e posição de direito legal (he’^m in, ’^rnânâ-, s^dãqà, saddtq) ocorrem em ambas as passagens. No contexto de Habacuque, um teste de fé semelhante àquele experimentado por Abraão em virtude do não-cumprimento das promessas divinas se faz evidente. Por tais circunstâncias, é essencial um julgamento divino confirmando a existência de umajustiça que as­ segura o cumprimento das promessas de Deus. Os judicialmente justos de Habacuque 2.4b, portanto, são aqueles precisamente justificados como o foi Abraão. Ele creu em Deus e isso


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lhe foi imputado porjustiça.'Os justificados de Habacuque 2.4b, portan­ to, são os “justificados por fé”. Embora a frase por sua sólida confiança se relacione com o dom da vida, e não com o caminho para ajustificação, 0 eco de Gênesis 15.6 em Habacuque 2.4 indica que a justificação pela fé, para Habacuque, é da mesma maneira que o foi para Abraão. Com essa perspectiva em mente é possível olhar mais de perto para a próxima palavra crucial de Habacuque: por sua sólida confiança (be’^mûnâtô). Já foi indicado que esta frase descreve o modo pelo qual a pessoa continuará a viver, e não o modo pelo qual ela é justifica­ da. O posicionamento da frase antes do verbo que a modifica enfatiza a importância desta ideia. Como, pois, pode uma pessoa experimentar vida? Por seus “atos de fidelidade”? Para não deixar dúvidas, “fidelidade” é o significado origi­ nal do termo. Seria este o significado do termo usado por Habacuque? Particularmente, como o conceito se aplica a Deus, sua “fidelidade” é uma virtude constantemente louvada nas Escrituras. Ele é caracteriza­ do como “Deus é fidelidade” (Dt 32.4). Todas suas obras são feitas em constância ou fidelidade (SI 33.4). Ele tem estabelecido sua fidelidade reiteradamente (SI 89.2-3,6,9,25,34,50 [Eng. 1-2,5,8,24,33,49]). Sua fidelidade garante o padrão de suas obras e fornece a base da confiança. Agora, pois, deve-se concluir que, uma vez que o pecador tenha sido justificado pela fé, a vida vem por meio das obras? Tal sugestão contradiría diretamente o ponto que acaba de ser estabelecido por Ha­ bacuque. Pois da mesma forma que o homem soberbo pela própria na­ tureza do argumento não pode ser reto em si mesmo (Hc 2.4a), também 0 pecador que reivindica vida perante Deus em virtude de suas obras constantes deve ser orgulhoso. O significado básico do termo ’^m únâ é “firmeza”, e Habacuque promove a “firmeza” como sendo o caminho para se receber o dom da vida. Mas, pela própria natureza de seu argumento, não pode ser por obras (sólidas). O princípio da vida constante do pecador é idêntico ao princípio da justiça do pecador. Firmeza na fé é o caminho para se 7. Cf. o tratamento mais completo do conceito da justiça imputada da maneira eomo ela se manifesta em Gênesis 15.6, em O. Palmer Robertson, “Genesis 15.6: New Covenant Expositions of an Old Covenant Text”, IVTJ 42 ( 1980) 265,266.


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receber o dom da vida. Somente a permanência na confiança pode as­ segurar a posse contínua do dom da vida. Embora a finneza nas obras seja inevitavelmente relacionada com 0 termo usado por Habacuque, o arcabouço em que a asseveração do profeta deve ser entendida, como foi indicado, encontra-se na afirmação de Abraão “ele creu no Senhor” e “isso lhe foi imputado para justiça” (15.6). A notável semelhança do pronome feminino (“isso lhe foi impu­ tado”) de que não há nenhuma referência explícita na passagem de Gê­ nesis deve ser considerada com cautela. O que se deve entender pelo “isso” dessa frase? O pronome femini­ no singular retrocede ao verbo “ele creu” (he’^m in), e, portanto, pre­ sumivelmente, seria uma alusão ao substantivo correspondente - “cren­ ça” C^mãnâ!). Precisamente esta palavra descreve o modo de vida em Habacuque 2.4: “O justo \\\Q xkbe’^m ünãtô". O substantivo aqui, da mesma maneira que o verbo correspondente em Gênesis 15.6, afir­ ma que a sólida confiança é o caminho para se receber o gracioso dom da vida. Por mais estranho que possa parecer, a linguagem hebraica não é rica em substantivos que possam ser considerados equivalentes ao nosso termo fé. Na verdade, ’^m ünâ seria o termo candidato mais natural se “fé” fosse a ideia que Habacuque tentava comunicar. Ao que parece, os exegetas foram apressados demais em identificar o significado deste termo ( ’^m ânâ) exclusivamente com “fidelidade”.* Mas, uma consi­ deração cuidadosa dos contextos do Antigo Testamento, nos quais o termo ocorre, indica que “confiança” ou “fé” pode explicar muito bem 0 uso do termo em diversos lugares. Numerosas passagens contrastam a forma de “falsidade” com a forma de ’^m ünâ num contexto judicial. Nesta circunstância, aquele que “confia” falará a verdade, desta maneira indicando sua fé em que Deus defenderá sua causa. Em contraste, a pessoa falsa conta com sua 8. Em seu artigo criterioso sobre a fé, B. B. Warfield provavelmente esteja certo em ver Habacuque 2.4 como a única passagem do Antigo Testamento na qual o contexto demanda que o substantivo hebraico seja traduzido por “fé”. Outras passagens, porém, certamente parecem ter esta possibilidade. C f B. B. Warfield, “Faith” in Biblical and Theological Studies (Filadélfia: Presbyterian and Reformed, 1952). p. 431.


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própria engenhosidade e fraude a fim de sustentar seus interesses. En­ tão o Salmo 119.29-30 podería ser traduzido assim: O caminho de falsidade desvia de mim... O caminho da confiança sólida escolhi; em teus justos Juízos depositei meu coração. Provérbios 12.17 oferece contraste semelhante: Aquele que fala (em) sólida confiança fará conhecida a justiça; mas a testemunha falsa manifestará mentiras.’ Outras passagens em que “fé” e “confiança” podem ser a tradução apropriada de ’^m ünâ incluem Provérbios 28.20; Salmo 31.24 (Eng. 23); 37.3. Com respeito a esta última passagem, Alfred Jepsen caracte­ riza ’^m ânâ “como aquela atitude interior que é o pré-requisito para uma vida genuína”.'®É suficiente dizer que, em muitos casos no Antigo Testamento, o aspecto principal do termo ’^m ãnâ parece residir nesta atitude interior de confiança. Habacuque 2.4 é distintivo, mas talvez não único nesta utilização do termo. João Calvino descreve habilmente a graça que Habacuque reco­ menda. É “aquela fé que nos desnuda de toda arrogância e nos conduz nus e carentes a Deus, para que busquemos a salvação somente nele, a qual de outra forma nos seria inatingível”." Ele observa que o ensino 9. Pode-se enconiTar contrastes semelhantes em Provérbios 12.22; 14.5. 10. Alfred Jepsen, “ ’Sman, etc.” em TDOT, 1.318. Jepsen também afirma que ’^m ünà em contraste com ’^m et “parece enfatizar a atitude interior de uma pessoa e a conduta que ela produz” (p. 317). Em outro ponto, ele define ’^m ünà como “um modo de agir que deriva da estabilidade interior” (p. 317). O tratamento de Jepsen da essência do uso bíblico do termo como significando “consciência” afasta a força central do termo para longe demais, ou seja, uma qualidade moral abstrata que é estranha aos contextos bíblicos. “Firmeza” com relação a Yahwch se situa no âmago do conceito. 11. Calvino, p. 74.


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romanista concorda que os pecadores são justificados pela fé, porém não tolera a ideia de que sejam justificados somente pela fé. Mas, “firmeza” na fé é uma graça que produz boas obras, e não deve ser confundida com as obras que ela produz. No contexto de Habacuque, quando considerado à luz de Gênesis 15.6, a “sólida confi­ ança” em Deus é o caminho por meio do qual o dom da vida deve ser recebido. Este modo contrasta com toda e qualquer arrogância e orgulho.'^ Essa versão distintiva dessa frase pela LXX poderia ter emanado de um senso de tensão entre a justiça pela fé e vida pelas obras fiéis da parte do pecador. Em vez de traduzir por “o justo por sua fé viverá”, a LXX traz: “o justo por minha fidelidade (isto é, de Deus) viverá”. En­ tretanto, é também possível que “por (a) fé de mim”, na LXX, na reali­ dade signifique “pela fé em mim”. Uma expressão paralela pode ser encontrada numa passagem tal como Marcos 11.22: “Se vós tiverdes (a) fé de Deus [pistin theoú)...", claramente significando “Se vós tiver­ des fé em Deus...”.'^ O tratamento que o NT dá ao texto corresponde apropriadamente à mensagem central de Habacuque. Particularmente Paulo exibe uma magnífica compreensão da mensagem do profeta quando adota essa frase singular como uma base para construir toda a Carta aos Roma­ nos. Não meramente como uma nota-chave tangida para introduzir seu tratado, mas como um tema bem equilibrado que estrutura a totalidade de sua mensagem, esse versículo de Habacuque permeia toda sua epístola. 12. C. von Orelli, p. 248, está bastante correto em sua observação do termo firmeza como aparece aqui. E “coerente com o contraste, uma atitude leal a Deus, e como tal, segundo Gênesis 25.6 (o substantivo aqui corresponde a o h ’m yn ali), deve ser visto eomo confiança humilde, portanto/ j/í / i.v, fé, fidelidade e confiança”. Entretanto, ele viola cada ponto que estabeleceu quando segue asseverando que a fé salva da morte “porque é o elemento funda­ mental na justiça”. 13. A explicação mais simples para a versão LXX pode ser “baseada na bem conhecida confusão na ortografia escribal hebraica entre y e w” (P. J. M. Southwell, “A Note on Habakkuk ii.4” JTS 19 [ 1968] 615). Conquanto seja possivel que a LXX represente a reda­ ção original do texto, a função do pronome retrospectivo na sentença composta hebraica como discutido acima, bem eomo o paralelismo com a primeira metade do versículo, apoia a precisão do TM.


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HABACUQUE 2.4b

Ao abordar esse tema em Romanos, Paulo declara que a justiça de Deus se revelou de fé para fé (Rm 1.17). A fé funciona como a origem da justiça na justificação, e como o arcabouço para a continuação da justiça na santificação. O apóstolo então desenvolve esta dupla função da fé como originalmente apresentada em Habacuque 2.4, discutindo a fé que recebe o dom da justificação em Romanos 1-5 e a fé que recebe o dom da santificação em Romanos 6-8. Assim Paulo oferece um evan­ gelho bem equilibrado no desenvolvimento de seu tema, de que “o justi­ ficado (pela fé) viverá por sua sólida confiança”. Quando Paulo primeiramente introduz sua citação de Habacuque, ele vincula “fé” à “justificação” e não à “vida” do pecador. Mas, como se poderia explicar que, enquanto Habacuque aparentemente relaciona a fraseologia “pela fé” com o modo de vida, Paulo, em vez disso, não tem nenhum escrúpulo em relacionar “pela fé” com o caminho para a justiça? Estaria ele exercendo certa liberdade para com o texto inspira­ do que vai além de sua intenção original? Se a exegese anterior de Habacuque 2.4b for correta, esse proble­ ma é mais imaginativo do que real. O “justo” de Habacuque não é outro senão o “justificado”, e de acordo com o paralelo com Abraão, sua justificação é “pela fé” da mesma maneira que era a de Abraão. Embora Paulo omita totalmente esse pronome de sua citação, ele inter­ preta a “fé” de Habacuque como uma referência à confiança exercida pelo pecador, em contraste com quaisquer obras que porventura ele faça (cf Rm 3.22,25-28,31; 4.3,5,9,11-14,16-20,24; 5.1-2). Embora a “fidelidade” de Deus obviamente seja essencial à salvação do pecador, em todas essas passagens Paulo está discutindo a “fé” de Habacuque como a confiança em Deus que é requerida dos pecadores para a salva­ ção. Enquanto Paulo avança em Romanos 6-8, ele enfatiza continua­ mente a posse do dom da “vida” como fora mencionado em Habacu­ que 2.4 (Rm 6.4-5,8,10-11,13,22-23; 7.4,6; 8.2,6,10-11,13). “Ressur­ reição” e 0 “Espírito”, nesses capítulos, relacionam-se diretamente com essa “vida” prometida por Habacuque àquele que crê. Assim Paulo está simplesmente enfatizando o coração e núcleo da mensagem de Ha­ bacuque. Esta grande mensagem de justificação e vida pela fé somente é de natureza escatológica e deve ser genuína até o fim dos tempos.


HABACUQUE 2.4b

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O escritor de Hebreus cita Habacuque 2.4 em 10.37-38, porém para um propósito diferente. Sua preocupação era enfatizar a importância da perseverança na fé. Ele almeja levar seus leitores a reivindicarem o dom da vida pela fé, a despeito dos inúmeros obstáculos. O posicionamento de “meu” em Hebreus corresponde à sua localização em muitos manus­ critos da LXX (“meu Justo” - ho dè díkaiòs mou, em vez de “por minha fé” - ekpisíeõs mou). Como uma consequência, o escritor de Hebreus evita a impressão errônea de que ele interpreta Habacuque como que afirmando simplesmente que é pela fidelidade de Deus que ojusto vive­ rá. Embora tal afirmação seja por si só verdadeira, ela não constituía a exata verdade de que os crentes sofredores do século 1®necessitavam neste momento. Em vez disso, eles precisavam lembrar que Deus tem seus justos, e que eles realmente viverão pela fé! A galeria dos heróis da fé em Hebreus 11, que segue imediatamen­ te essa citação de Habacuque, não faz da fé propriamente dita uma obra, portanto anulando o âmago da mensagem de Habacuque. Em vez disso, é ""pela fé” que todas essas obras têm sido realizadas ao longo dos tempos. Então dois autores diferentes do Novo Testamento citam as Escri­ turas do Antigo Testamento com uma ênfase diferente com o fim de expressar pontos significativamente diferentes. Contudo, cada autor permanece verdadeiro em relação à essência das Escrituras do Antigo Testamento como registrada por Habacuque. Paulo enfatiza que uma pessoa que foi justificada viverá pela fé. Como já se observou, Paulo também desenvolve a ideia da vida pela fé em Romanos 6-8. A localização do canal para a vida na sólida confiança de uma pes­ soa ocorre repetidas vezes no Antigo Testamento. Israel é admoestado a ouvir atentamente a voz do Senhor e a depender dele: “disto depende tua vida” (Dt 30.20). Tão somente pela união com Deus, a fonte da vida, é que Israel pode ter esperança de viver. Tão somente por meio de uma sólida confiança, que a obediência inevitavelmente produz, é pos­ sível ser mantida esta relação com Deus que gera vida. O problema que Habacuque enfrentava consistia na perspectiva da devastação de Israel, significando o fim da vida da própria nação de Deus. A frustração do profeta em não entender a mensagem divina de


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HABACUQUE 2.4b-5

juízo é expressa em sua interjeição espontânea: “não morreremos!” (Hc 1.12). Contudo, a revelação que Deus lhe comunica aparentava que na verdade Israel morrería. Mas o Senhor exibe esta visão do escaton: “... viverá!” (Hc 2.4). O justificado (pela fé) viverá por sua sólida confiança. Em sentido bem real, o problema enfrentado por Habacuque era idêntico ao problema de Paulo mais tarde confrontado em Romanos 11. Havia Deus lançado fora seu povo? A devastação sobre Israel era óbvia para os cristãos do século 1=. As bênçãos mais ricas da Antiga Aliança de Deus agora se tornaram possessão de todas as nações, enquanto Israel fora “cortado” fora pelas palavras do próprio Cristo. O reino fora tomado deles e dado a outra nação que estava dando o fruto certo (Mt 21.23). Paulo responde a este quadro confuso pelo mesmo prisma como visto em Habacuque. Pois à medida que Israel abandonasse sua incredulidade, ele seria enxertado (Rm 11.23). Ainda hoje um remanescente crente permanece segundo a eleição da graça (Rm 11.5). Então o justificado pela fé continua a viver pela fé. A despeito dos justos juízos de Deus, um remanescente sobreviverá. Por meio de sóli­ da confiança, e ao longo das horas mais escuras, eles viverão. 5. Todavia, o perverso continua em seus caminhos vorazes. As per­ guntas complexas de Habacuque sobre a destruição iminente de Israel suscitaram a visão escatológica de Deus, o qual estabeleceu que o so­ berbo não pode ser reto e o justificado (pela fé) viverá por sua sólida confiança. Esses pontos de reafirmação ofereceram algum conforto ao perple­ xo profeta. Entretanto, eles pareciam ser contraditados diretamente pe­ las circunstâncias iminentes que ele encarava. O terceiro ponto que aparece na visão do Senhor a Habacuque confirma a realidade desta tensão com a qual o profeta deve viver. O perverso continuará em seu caminho brutal, em prosperidade aparente, a despeito da verdadeira obra de salvação divina no justo pela fé e sua declaração da certeza da destruição final do perverso. Esse versículo começa com o contrastante Entretanto. Por causa dos poderes enganosos do vinho, aquele que é orgulhoso é insensível ao


HABACUQUE 2.5

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seu verdadeiro estado. Ele vive numa condição ilusória intensificada pelo vinho. A “escrita na parede”, para o reino babilónico, pode ser lembrada; ela veio em meio à festa de Belsazar. O livro de Daniel intencional­ mente observa que enquanto o rei estava bebendo vinho ordenou que fossem trazidos os utensílios de ouro e prata que Nabucodonosor trou­ xera do templo de Jerusalém. Enquanto ele, seus nobres, esposas e con­ cubinas bebiam e louvavam a seus deuses de ouro e prata, apareceu aquela mão a escrever uma sentença de juízo na parede (Dn 5.1 ss.). Em meio à sua orgulhosa celebração, manifestava-se o decreto divino de destruição. Não se deve supor que a visão de Habacuque esteja selecionando 0 pecado da embriaguez como a principal transgressão. Tampouco se deve ver a introdução desse pecado específico como não apropriado. Bebida forte por si só não engendra o orgulho que é tão detestável a Deus. Porém serve como um agente por meio do qual o orgulho huma­ no latente aflora à superfície com toda sua hediondez. Bebida forte evoca expressões de inflada auto-estima, inerentes na mente e coração pecadores. Consequentemente, a pessoa arrogante se vangloria e não descan­ sa. Nada pode satisfazê-la. Sua paixão por posses se expande como o apetite insaciável do sheol, o túmulo que avança ao longo dos tempos a devorar a todos. Como o próprio Habacuque já observara em sua quei­ xa, o único contentamento dos babilônios é abocanhar todas as nações para si (Hc 1.15-17). Então a resposta do Senhor à queixa de Habacuque oferece espe­ rança, porém não vem dissociada também de sombria perspectiva do futuro. Aqueles que têm crido continuarão a viver por sua fé. Mas os perversos terão também seu dia, devorando nações por sua brutalidade. Essa visão é verdadeiramente escatológica em seu significado. Ela caracteriza de modo apropriado a presente era, até o tempo da consu­ mação final. “Os justificados (pela fé) viverão pela sua sólida confian­ ça” presume a essência do evangelho cristão enquanto o orgulho do incrédulo explica sua infindável brutalidade contra o povo do Senhor.


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HABACUQUE 2.6-20

2. O ridículo do arrogante (2.6-20) Havendo desvendado a essência da solução do problema de Habacuque, 0 Senhor então passa a aprimorar o destino certo do arrogante, que se põe em contraste com o humilde que crê. Não recebendo nada mais (e nada menos) senão o que merecem, os vangloriosos caldeus vêm a ser temas de sábios ditos articulados com o intuito de humilhálos. Uma série de cinco expressões de escárnio expressam ajusta re­ compensa que certamente virá. Introdução: um provérbio ou máxima - enigmas contra ele (2.6a) 6a Todos eles não manterão contra ele um provérbio e uma máxima enigmas contra ele?' O próprio Israel fora avisado que se não observasse os mandamen­ tos de Deus seria motivo de escárnio entre todas as nações da terra (Dt 28.37; IRs 9.7). Agora o Senhor declara que virá o dia quando todas aquelas nações às quais os caldeus têm oprimido haverão de zombar de seu vencedor. Nada fere mais permanentemente do que se tomar o objeto obscu­ ro de zombaria. O caráter enigmático da zombaria estabelece a perma­ nência da ferida. Pode parecer rebaixar a dignidade de Deus o ato de envergonhar o soberbo perante o mundo vigilante. Mas uma parte de sua realidade como o Deus da história inclui sua pública defesa do Justo e a pública humilhação do perverso. Sua glória perante toda sua criação é magni­ ficada pelo estabelecimento da honra do humilde e da desgraça do arro­ gante. Neste caso, a vergonha dos babilônios haveria de ser tão grande I. Três termos separados descrevem a zombaria que haverá de sobrevir aos babilônios. mSSãl é usado frequentemente nas Escrituras e pode referir-se a um dito proverbial, um discurso figurativo, ou uma máxima de motejo. m^lt^á se deriva da raiz /fj, significando escárnio, caçoada ou zombaria. hí4ôt expressa a conotação de uma charada ou um dito ardiloso. O terceiro termo, na forma plural, descreve o efeito às vezes enigmático das duas primeiras palavras.


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quanto suas conquistas. Todos eles, todas aquelas nações vencidas pela Babilônia deveriam juntar-se na zombaria. Até mesmo a menor das nações repetiria esses provérbios sem medo de represália. a. Ai do saqueador saqueado (2.6b-8) 6b E ele dirá: Ai daquele que multiplica aquilo que não é seu Oh até quando (será assim)? e se fa z glorioso por meio de penhores 1 não será de repente? Teus credores formarão uma revolta e teus perturbadores despertarão; Tu serás despojado por eles. 8 Visto como despojaste muitas nações, todo o restante dos povos te despojarão por causa das feridas sangrentas dos homens e da violência feita à terra, e à cidade e a todos os seus moradores. Este pronunciamento particular de juízo combina vários artifícios para construir um provérbio que será lembrado, um dito que será susci­ tado e perseguirá os babilônios em sua arrogância nos tempos vindou­ ros. Na realidade, o número de artifícios empregados nesses versículos é bem notável. A maioria deles se perdeu no processo de tradução. Mas os seguintes podem ser particulannente notados: (1) Assonância e aliteração. Ai daquele que multiplica o que não é seu (v. 6b). As últimas palavras dessa frase são pronunciadas da mesma


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maneira em hebraico. Como “cesta” e “sexta” em português, o mesmo som comunica um significado diferente. Por causa das feridas sangrentas dos homens (v.8b) é m idd^m ê ’ãdãm em hebraico. Conquanto este artifício não pareça particular­ mente notável ao leitor de língua portuguesa, o papel principal deste tipo de assonância em hebraico realça seu significado. A semelhança do som acentua a notabilidade da frase. (2) Sentido duplo das palavras. Um princípio hermenêutico simples assevera que uma palavra individual só pode ter um sentido em dado contexto. Contudo, um abandono deliberado desta regra na comunica­ ção humana tem o efeito de intensificar o impacto numa palavra parti­ cular. Teus credores (nõS^keykã) regularmente significa “morder”. A raiz é usada de modo apropriado para indicar um credor; pois, falando em termos figurativos, isso é exatamente o que ele faz. Ele morde um pedaço dos bens da pessoa a quem ele empresta dinheiro. Então os mordedores/credores da Babilônia se erguerão contra ela de repente. O sentido duplo da palavra sublinha o juízo que sobreviria à nação opressora.' Outro caso possível de duplo sentido nesse primeiro provérbio se encontra na palavra traduzida por “penhores” (ahtU, v. 6b). Todavia, é possível também ver o termo simultaneamente como uma palavra com­ posta que significa “monturo de lama”. Os babilônios se tomaram gran­ des, acumulando sobre si penhores!monturos de lama? 1. Pode-se encontrar mais discussões sobre este termo na nota 4. 2. O termo 'abttt, um hapax legomenon, mais provavelmente é uma forma intensificada de 'õèof, "penhorar”, criada pela duplicação do terceiro radical (cf. Rudolph, p. 219; GKC, § 84b. m). Entretanto, o termo também poderia derivar-se dc duas palavras: 'b, significando “nuvem” ou “massa”; c (yt, significando “barro” ou “lama”. A última possibilidade encon­ tra apoio em alguns manuscritos hebraicos que dividem a palavra, bem como na Siriaca e Vulgata. Parece ter sido conhecido por IQpHab, que se refere a “todo tipo de impureza profanadora” (8.13). Muito provavelmente esta escolha de palavras por parte de Habacuque represente um caso de duplo sentido, de modo que os bens ganhos de maneira desonesta, pelos caldeus, seriam vistos como riqueza derivada de penhores opressivos, e de outra perspectiva como um “monte de barro” que os caldeus amontoaram sobre si mesmos. As observações feitas por Calvino são particularmente apropriadas em termos da aplicação desta mensagem. Ele ob-


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(3) Apelo para a verdade proverbial. Toda civilização e linguagem inevitavelmente desenvolvem seus tesouros ocultos de sabedoria para a vida. A medida que Habacuque fere os caldeus com seus ferrões verbais, ele empluma seus dardos com verdades proverbiais a fim de garantir que atinjam seus alvos. Ao descrever a futilidade da Babilônia acumular o que amealhou desonestamente, Habacuque ecoa uma ver­ dade proverbial conhecida: “O que aumenta seus bens com juros (b^neõek) e ganância ajuntaos para aquele que se compadece do pobre” (Pv 28.8). “O que oprime ao pobre para enriquecer a si ou o que dá ao rico certamente empobrecerá” (Pv 22.16). “Os bens que facilmente se ganham, esses diminuem, mas o que ajunta à força do trabalho terá aumento" (Pv 13.11). O juízo que tão de repente {peta') sobrevirá aos babilônios tam­ bém encontra seu reforço nos provérbios de Israel: “Pelo que sua destruição virá repentinamente [ao perverso]; subi­ tamente será quebrantado, sem que haja cura” (Pv 6.15). “O homem que muitas vezes repreendido endurece a cerviz será quebrantado de repente sem que haja cura” (Pv 29.1). (4) Retribuição como um tema realçado pela fraseologia e conteú­ do. Por mais duro que o princípio “olho por olho” pareça ser no con­ texto moderno, ele representa a lei da justiça na qual o opressor obsti­ nado recebe da mão de Deus o que merece. Então Habacuque enfatiza, mediante a forma e a substância, a certeza da recompensa na justa medida do perverso: Visto como despojaste a muitas nações, todos os mais povos te despojarão a ti (ki ’attâ Sallôíã gôyim rabbtm y^sãllübõ, kol-yeter 'ammim). (5) Rima de frases. Geralmente se nega que a rima de palavras exerça algum papel na literatura hebraica. Contudo, deve-se reconheserva que toda a riqueza desle mundo não passa de mero monturo de barro (p. 95). Quanto mais o avarento amontoa, maior jaz o peso sobre seus ombros. Quase que invariavelmente, a pessoa sovina transforma sua riqueza em peso para ela mesma carregar. À medida que se toma mais velha, ela fica receosa de perder o que amealhou e sua sovinice a impede de gastar o que possui.


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cer que o uso da rima como um artificio para reforçar uma afirmação certamente era um artificio possível que podia ser empregado. Que a rima ocorre nos atuais provérbios proféticos, não se pode negar. Nada menos que três casos são bastante evidentes:

yãqâmü nõs^keykã w^yiqsú m^za '^'eyhã (v. 7) ki ’attâ Sallôtã gôyim rabbim y^Sãllükã kol-yeter ’ammim (v. 8a) qiryâ w^kol-yõS^bê

(v. 8c)

De certo modo é bem mais difícil determinar se a rima dessas pala­ vras foi intencional. Neste caso, a presença de três exemplos juntos em uma extensão tão curta com a intenção expressa de compor um provér­ bio que não fosse esquecido pressupõe que essas rimas não eram aci­ dentais. Embora o assunto não fosse explorado nos estudos de artifí­ cios poéticos hebraicos muito extensivamente, deve-se notar a presen­ ça de tipos semelhantes de rimas aparentes em outros provérbios bíbli­ cos (cf Pv 11.2,7,10; 13.3; 18.17; 22.10). De qualquer modo, essa primeira máxima judiciosa sobre Babilô­ nia está repleta de exemplos de artifícios literários que se mostraram efetivos na construção de um dito proverbial. Será de fato dificil ao opressor escapar dessas frases uma vez que elas foram penduradas em seus pescoços. 6b. O contraste entre todos eles (v. 6) e ele, que pronuncia a máxi­ ma proverbial, tem sido avaliado de modo variável.^ Mais provavel3. A LXX traduz kai eroúsin, “e eles dirão”. Os tradutores da Vulgata, o impessoal hebraico; etdicetur, “e será dito”. Calvino, p. 91, simplesmente observa a mudança cm número, dizen­ do que ele não obscurece o sentido. Keil, p. 77, não comenta este ponto em particular, mas observa que "todos eles” poderia referir-se somente aos crentes entre todas as nações. Outros tem identificado o “ele” que fala como sendo “o justo” de Habacuque 2.4, ou como o próprio Deus. Rudolph. p. 219, diz que o sujeito é indefinido. Ele caracteriza as formas plurais em IQpHab e na LXX como correções óbvias.


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mente a mudança representa a alteração comum em hebraico entre um grupo corporativamente considerado e um indivíduo do grupo que fala por todos. 0/1; (hebraico hôy) que separa as cinco máximas proverbiais nesta seção (v. 60,9,12,15,19) é uma palavra onomatopéica que não “amal­ diçoa” precisamente, embora seja usada frequentemente para introdu­ zir uma sentença de juízo. Em vez disso, ela dá ideia mais ampla incor­ porada numa interjeição exclamativa “Ah-ah!” ou simplesmente “Ah!”. No presente contexto, ela assume um pouco do tom de zombaria ineren­ te nas palavras desses insultos. O paralelo mais próximo deste comboio de cinco sentenças consecutivas de Habacuque, introduzidas por essa palavra, é encontrado em Isaías 5, em que o termo ocorre seis vezes em sucessão. Justiça poética ou reciprocidade é o ponto principal dessa primeira máxima. E fato que o babilônio acumulou o que não lhe pertencia por justiça (v. 6b)? Ele se converterá em despojo para seus destruidores despertos (v. 7b). Ele se vangloriou dos bens tomados por penhores (à revelia) (v. 6b)?^ Então aqueles que se tornaram seus credores haverão de devolver na mesma moeda, sem misericórdia (v. 7).^ Ele despojou a muitas nações, marchando com seus exércitos e deixando uma trilha de saques e carbonização atrás de si (v. 8)7 Então aqueles sobreviven­ tes espalhados de muitas nações se erguerão um dia para devastar to­ das as possessões babilónicas (v. 8). Se esta forte ênfase sobre o juízo recíproco parece distintamente “veterotestamentária” em orientação, duas passagens neotestamentári4. A ideia de um penhor à revelia pode provir de uma nação vencidada desrespeitando as estipulações do tratado de suserania imposto pelo vencedor babilônio. 5 .0 termo nõS^teykã, “teus credores”, pode a principio parecer lazer mais sentido se tradu­ zido como “teus devedores”. Pois parece mais apropriado considerar as nações conquistadas por Babilônia como seus devedores e não seus credores. Considerações posteriores, porém, levam na direção oposta, e apoiam o significado mais natural da palavra. O profeta agora está falando do ponto em que a justiça finalmente será cobrada dos babilônios. Naquele tempo não serão as nações oprimidas que devorarão a Babilônia, mas a Babilônia é que será sua devedora. Por meio de brutalidade opressiva, ela tem roubado as nações de sua riqueza pessoal. Mas o dia chegará em que essas nações oprimidas estarão na posição de exigir da Babilônia a repatriação por todo o dano que ela lhes causou. Naquele dia. as nações indefesas da terra se tomarão os credores exigentes de uma Babilônia humilhada.


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as podem servir para indicar a continuação da validade dessa mensa­ gem. O próprio Cristo culmina sua parábola do credor incompassivo que confina seu conservo numa prisão perpétua até que saldasse a divida de apenas uma pequena quantia, com uma lição sobre recipro­ cidade. Esse homem será sentenciado ao inferno até quitar o último centavo de sua dívida de milhões (Mt 18.21 -35). Segundo Paulo, Deus é justo e retribui com punição em dobro (íhlipsin) aqueles que atribu­ lam os cristãos crentes {toís thlíbousin) (2Ts 1.6). O Deus de toda a terra fará o que é reto, e parte de sua retidão será expressa na Justa punição de quem oprime os outros. Inseridas no tratamento da natureza recíproca do juízo divino estão as questões concernentes à hora certa daquele juízo. Particularmente para Habacuque, esta questão tinha relevância: até quando {seria) a justiça se manifestaria em toda sua retidão autoconvincente (v. 6b)? O profeta começara sua queixa em vista da crueldade desenfreada entre seus próprios conterrâneos. Ele então expressou assombro ante a inva­ são babilónica. Mas, quantos anos transcorreriam até que a opressão cessasse de vez? Quando seria que os pratos da balança cessariam de pender para um lado em detrimento do outro? 7. A resposta desse pronunciamento divino é subitamentel Esta res­ posta não deveria ser entendida como uma gentil evasão à pergunta direta do profeta por meio de resposta em termos de “como” e “quan­ do”. Pois a resposta do juízo divino em termos de “rapidez” fornece mais informação que a pergunta requeria. Ela revela de modo equilibra­ do tanto o desejo de Deus em ser misericordioso para com o pecador empedernido como sua determinação em estabelecer a justiça na terra. Por algum período considerável. Deus mostrará sua longanimidade para com aqueles que cometeram reiterados atos de crueldade. Tais pessoas, porém, nunca devem presumir que as misericórdias de Deus continua­ rão por mais tempo que o momento presente. A retribuição divina é certeira e poderá chegar sem aviso prévio. 8. A razão final para esta vinda do juízo divino é a violência cruel feita à criação toda. Elementos humanos e não-humanos do mundo são da alçada do Todo-Poderoso. Os homens e suas terras, a cidade e seus moradores têm sofrido violência indescritível. Em virtude dessas ra­


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zões combinadas, os orgulhosos vencedores deverão sofrer retribuição apropriada. A mensagem de juízo recíproco deve imprimir sobriedade à visão sentimental das civilizações modernas. Se cada pessoa, ao cobrar juros excessivos dos devedores, considerasse que nas dispensações de Deus ela deverá receber precisamente o mesmo tratamento que inflige, tal pessoa poderia ser levada ao arrependimento. Se os políticos e coman­ dantes das forças militares, acostumados a agir de modo brutal e impie­ doso, entendessem que eles e seu povo um dia haverão de receber o mesmo tratamento das mãos daqueles que oprimem, um lamento genu­ íno a Deus, por misericórdia, num contexto de arrependimento, poderia tomar-se mais frequente. Conquanto os moinhos de Deus moam vaga­ rosamente, eles moem excessivamente finos. Esse provérbio divino, expresso em sua forma memorável, deixa bem claro que o Todo-Poderoso está excessivamente preocupado com os assuntos “não-religiosos” da desumanidade do homem para com o homem. Não apenas em alguma eternidade distante, nebulosa, mas na vida presente, a mão da justiça divina deverá retribuir ao povo confor­ me suas obras. Embora o equilíbrio final dos pratos da balança da jus­ tiça espere a eternidade, este exato momento mostrará uma equidade maior do que a princípio parecia. b. Ai do fortificado desmantelado (2.9-11) 9 Ai daquele que cobiça perversamente^ para sua casa, para pôr no alto seu ninho, a fim de livrar-se das mãos do mal! 1. A função gramatical do termo "mal” (rü ') aqui é difícil. Keil, p. 100, o toma como adjetival: “uma cobiça maligna”. Rudolph, p. 220, o vê como um substantivo: “para a des­ graça de sua casa”, exigindo que ele interprete esta frase como uma antecipação parentética das consequências da cobiça que só são explicadas nos versículos seguintes. A tradução acima, sendo mais “dinâmica” do que literal em natureza, tem traduzido o sentido como advérbio, ainda que a sintaxe, estritamente falando, favoreça a função adjetival.


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10 Tu atraíste opróbrio sobre tua própria casa ao eliminares- muitos povos, e pecando contra tua própria alma? 11 a Porque a pedra b da parede c clamará, a e a trave b do madeiramento? c lhe responderá. Essa segunda máxima proverbial contém alguns dos mesmos artifí­ cios para assegurar seu caráter memorável, como se encontra no pri­ meiro insulto. A aliteração é criada pela repetição na fonna nominal e verbal da mesma raiz (bõsêa’ besa', v. 9). O jogo intencional dentro do múltiplo signifícado de uma só palavra se toma evidente no uso do ter­ mo casa, que pode denotar “dinastia” ou “habitação”. Embora seja reconhecido que o fenômeno pode ser incidental, ocorre uma vez mais 0 propósito do autor de rimar as palavras finais nas frases: bõsêa' besa' rã'

l^hêtô lãsüm bammãrôm qinnô 2. O "destruindo” tu a muitos povos, no versículo 10, é uma construção infinitiva na forma do verbo qS^ã. A versão de 1QpHab 9.14 é outro assunto; ele traz q^^Gwôt, embo­ ra/resAer em 10.2 traga O texto e sua interpretação indicam os “confins” ou extre­ midades do lugar de punição do “sacerdote perverso”. Segundo Brownlee, Midrash, p. 159, a palavra q^fãwôi seria “o substantivo plural absoluto singular feminino teorético qè^tU.'' que significa limite sem fronteiras. 1OpHab combina esta palavra com uma modificação de h õ fi’ (“pecadores”) para kúfê (“ligações”), para apoiar sua interpretação de que a frase indica um “confinamento” do perverso no inferno. Rudolph, p. 220, observa que, segundo as versões, seria indicado como um verbo finito qa?i}ôt3 de qG^a^. O significado não é afetado materialmente por essas variações. 3. “Penhorando sua própria vida” (NIV) é uma tradução possível, particularmente à luz de Provérbios 20.2. Mas. “pecando contra sua própria alma” capta meibor a ideia de retribui­ ção do cobiçoso a longo prazo. No tempo certo ele verá a plena dissolução de sua pessoa. 4. O termo kãpis é um hapax legomenon. O significado da palavra não é plenamente claro. A melhor possibilidade parece ser uma referência á coluna central que sustenta as paredes de um edifício presas umas nas outras, como endossado por Jerónimo, por algumas das versões gregas e pela palavra aramaíca kpt, “ligar". Para referências, ver Rudolph. p. 220.


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As consequências da cobiça por uma casa são declaradas numa forma que parece ecoar os provérbios anteriores do pensamento sapiencial de Israel: O que é ávido por lucro desonesto transtorna sua casa [bõsêa' besa'], mas o que odeia o suborno, esse viverá (Pv 15.27). Estes se emboscam contra seu próprio sangue, e sua própria vida espreitam. Tal é a sorte de todo ganancioso; e este espírito de ganância tira a vida de quem o possui [hõsêa' besa'] (Pv 1.18-19). Por meio do uso desses vários modos de expressão, o profeta for­ mulou sua segunda máxima contra os babilônios, igualmente memorá­ vel, como formulou a primeira. 9. A casa sobre a qual os caldeus são citados se refere principal­ mente à sua dinastia, embora ela possa aplicar-se também à linhagem familiar dos cidadãos comuns. Ele deseja alojar seus descendentes fora do alcance de seus inimi­ gos, reais ou imaginários. Ele confia que de alguma maneira a riqueza acumulada irá garantir que serão inatacáveis. O vício da cobiça naturalmente se associa a uma preocupação da pessoa por sua casa e posteridade. Do mesmo modo que um pássaro garante segurança a seus filhotes, construindo seu ninho (v. 9) no cume de um penhasco, também a pessoa cobiçosa, possivelmente o rei da Babilônia, luta por meios lícitos e ilícitos a fim de estabelecer sua dinas­ tia como inacessível (para a mesma imagem, c f Nm 24.21; Ob 4; Jr 49.16). Em conformidade com uma de suas inscrições, Nabucodonosor dis­ se que um dos principais propósitos de seu reforço das paredes de Ba­ bilônia era construir um nome duradouro para seu reinado. Ele tam­ bém reza a seu deus Marduk: “Que ele conceda como bênção vida para muitas gerações, uma posteridade abundante, um trono sólido e um longo reinado”.^ 5. Cf. Laetsch. p. 336, para referências.


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HABACUQUE 2.10-14

Mas as consequências da avareza são justamente o oposto do que o ganancioso deseja. Seus esquemas só garantem opróbrio sobre sua casa. Da mesma maneira que o pecado da cobiça de Acã levou à desgraça e condenação toda sua família (Js 7.24-26), também o pecado de acumu­ lar riqueza ilícita inevitavelmente destruirá todo o clã. 10. O avarento só consegue atrair opróbrio sobre sua própria casa. Pode-se ver um desenrolar dramático de circunstâncias trágicas na vida de Aitofel, conselheiro de Davi (2Sm 15-17). Este, cujo conselho era como um oráculo de Deus, deixou Davi para aconselhar Absalão, aparente­ mente por lucro pessoal. Quando Aitofel soube que seu conselho seria desprezado, ele foi para sua cidade natal, pôs em ordem sua casa e se enforcou. Deste modo, ele atraiu opróbrio sobre toda sua família (2Sm 17.23). De modo semelhante, o rei da Babilônia trouxe opróbrio sobre si mesmo e sobre sua própria casa. O rei pouco entendia que, pelos me­ andros da cobiça, estava pecando contra sua própria alma. Ele havia pensado que estava assegurando a preservação de sua casa. Mas ironi­ camente só estava assentando uma base para a destruição juntamente dela e dele. 11. As últimas frases do provérbio voltam à imagem da “casa” e sua destruição. O processo agonizante de autodestruição continua enquanto um elemento da estrutura geme em agonia só para ser respondido por outro. A pedra clamará da parede e a trave lhe responderá do madeira­ mento. A dinastia do rei desaba a despeito de todos os esforços para garantir o trono por meio do acúmulo de riqueza ilimitada. c. Ai do civilizado desmoralizado (2.12-14) \2Ai a daquele que edifica b uma cidade c com sangue derramado' a e estabelece b uma vila I. O hebraico literalmente lê: "sangues” .


HABACUQUE 2.12-14

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c com violência! 13 Eis que não vem do Senhor dos Exércitos a que labutem b as nações c por amor ao fogo; b e os povos, c por amor à vaidade a se tornem cansados? 14 Pois a terra se encherá do conhecimento da glória do Senhor, como as águas cobrem o mar. Este terço na série das máximas proverbiais, pronunciadas contra a Babilônia, também contém artifícios distintos com o fím de assegurar que a posteridade se lembrasse desta denúncia de juízo contra o opres­ sor. Preeminente nesses versículos é o emprego do paralelismo hebrai­ co. Embora essa forma de expressão esteja presente nos dois primeiros provérbios, é particularmente digno de nota neste ponto. O primeiro caso de paralelismo nesse provérbio é estruturado no padrão a-b-c, a-b-c: a Ele edifica (particípio Qal) b uma cidade c com [6^] sangue(s); a ele fundamenta (particípio Qal] b uma vila c com [6^] violência! Pode-se observar que as considerações tanto gramaticais quanto léxicais contribuem para o impacto do paralelismo. O segundo caso varia de estrutura seguindo o padrão a-b-c, b-c-a: a Eles labutarão (imperfeito Qal) b as nações c por amor do [b^dfi] fogo b os povos


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HABACUQUE 2.12-14

c por amor da [b^4ê] vaidade a se tornarão cansados (imperfeito Qal) Novamente ambos os paralelos gramaticais e léxicais aumentam a eficácia da estrutura poética. Especialmente digno de nota, na presente seção, é a introdução de um artifício com o fim de levar esse provérbio denunciador a ser lem­ brado. Habacuque agora cita ditos mais antigos que os seus, incorpo­ rando-os em seu pronunciamento, e dessa maneira contemporizando sua mensagem. O caso principal de uma citação de um dito anterior é a referência à terra se enchendo do conhecimento da glória de Deus como as águas cobrem o mar (Hc 2.14). Esta afirmação em Habacuque fornece toda a evidência de uma fusão de duas fontes antigas distintas. O palavreado preciso pode ser comparado assim: Nm 14.21 Is 11.9 H c 2 .14

será cheia \yim m ãtê’] toda a terra se encherá [mã/^’á] aterra será cheia [íimmõ/ê'] aterra

Nm 14.21 Is 11.9 Hc 2.14

(com) a glória do Senhor (com) 0 conhecimento do S enhor (com) o conhecimento da glória do Senhor

Nm 14.21 (não há referência à água cobrindo o mar) Is 11.9 como as águas cobrem o mar Hc 2.14 como as águas cobrem o mar Cada um desses três casos descreve a difusão do conhecimento de Deus até os limites universais. Isaías introduziu a comparação das águas cobrindo o mar. Habacuque parece intencionalmente combinar a refe­ rência à terra se enchendo da glória de Deus e a universalidade do co­ nhecimento de Deus. No que concerne à precisão da fraseologia, Haba­ cuque mantém sua independência em quase todos os pontos. Mas o efeito líquido desta fusão de fontes mais antigas, aparentemente bem conhecidas dos contemporâneos de Habacuque, certamente toma este pronunciamento condenatório mais memorável.


HABACUQUE 2.12-14

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É possível vermos um tipo semelhante de alusão na referência ao rei da Babilônia construindo uma cidade por meio de sangue derrama­ do e de violência (Hc 2.12), mesmo quando uma citação precisa das palavras não esteja envolvida. Pois provavelmente a máxima proverbi­ al mais antiga das Escrituras tenha a ver com Ninrode, fundador da Babilônia mais antiga. Graças à sua destreza como o “caçador mais poderoso da terra”, desenvolveu-se um dito antigo: “Como Ninrode, poderoso caçador diante de Yahweh” (Gn 10.9-10). Na primeira vez que é citado nas Escrituras, Ninrode aparece como poderoso constru­ tor de cidades, podendo a descrição de Ninrode como “valente caça­ dor” referir-se a caçadas, à opressão do povo que foi trazido sob seu domínio e escravizado a suas ambições.^ Deve-se ter em mente que Habacuque Já havia feito alusão ao problema moral surgido em sua mente pelo prospecto dos babilônios arrastando gente com suas redes de arrasto, uma prática ilustrada pelas inscrições contemporâneas dos babilônios (Hc 1.14-17). Nada no palavreado preciso desses versículos indica uma citação específica de um provérbio anterior com respeito ao primeiro rei da Babilônia. Contudo, o conceito de violência excessiva infligida pelo rei babilônio de então, com o propósito de construir uma cidade como descrita em 2.12, poderia ter a intenção de lembrar a seus leitores este caso primordial de brutalidade com a finalidade de estabelecer uma civilização. Essa máxima proverbial de Habacuque, aparentemente, é por sua vez citada por outro profeta em Israel. Em uma de suas mais extensas denúncias de Babilônia, Jeremias cita a palavra de Habacuque; a assim trabalharam b os povos c em vão, b e os povos c por causa do fogo; a e elas se afadigaram (Jr 51.58). 2. Os comentários geralmente entendem esta frase como se referindo literalmente a uma caçada de animais como uma demonstração de bravura de um soberano.


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Embora Jeremias tenha conservado sua independência mediante diversas modificações de expressão, ele parece citar Habacuque.^ Habacuque alcançou êxito em pronunciar uma máxima proverbial sobre a poderosa Babilônia. Suas palavras aparentemente perecíveis provaram sobreviver aos recursos poderosos deste que uma vez fora um grande império. 12. Uma cidade representa a fruição final dos esforços humanos em “subjugar a terra”. Esta responsabilidade foi originalmente dada ao homem como a única criatura criada à imagem de Deus (c f Gn 1.26). A cidade se solidifica para a integridade singular da inteligência e ha­ bilidade de muitas pessoas distintas. Segundo os propósitos de Deus na criação e redenção, a população de uma cidade deve trabalhar con­ juntamente para formar uma cultura e uma comunidade que realize todas as suas funções para a glória de Deus. O começo da história das cidades nas Escrituras indica que dificil­ mente havia alguma semelhança entre a intenção divina para a civili­ zação humana e o desenvolvimento concreto da cidade. Caim cons­ truiu a primeira cidade e a dedicou à glória de seu próprio filho (Gn 4.17). Ninrode foi um construtor de impérios, aparentemente com base em sua força e bravura na escravização de outros (Gn 10.8-12). A arro­ gância humana levou ao fiasco de Babel (Gn 11.4). As obscenidades praticadas nos vales voluptuosos de Canaã atraíram o fogo consumidor do juízo divino sobre Sodoma (Gn 13.10; 19.24-25). O tesouro das cidades do Egito veio a transformar-se em ocasião para a escravização do próprio povo de Deus (Êx 1.11). Deus, porém, pronunciou uma máxima memorável. Ele falou de um modo inesquecível contra todo aquele que edifica a cidade com sangue e a fundamenta com iniquidade. 13. O esforço maciço não fará bem algum ao opressor. Trabalho e cansaço em erigir uma cidade inteira para defender seus interesses re­ sultariam inúteis. Embora autojustificações sem fim sejam oferecidas 3. Jeremias reverte a ordem de Habacuque, “fogo” e “vaidade”, e traz w ^yig'ü em vez de u fiy i^ 'ü . Ele também acrescenta a ligação waw antes do último verbo, o que tem o efeito de tomar a última linha numa cláusula independente.


HABACUQUE 2.13-14

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em termos de vantagens culturais e defensivas aos habitantes da comu­ nidade, o projeto inteiro terminaria em vexame. O fim, segundo Habacuque, seria fogo e vaidade. Embora se dirija direta e especificamente à Babilônia, esse texto inclui as nações e povos de todas as gerações. Fogo do Senhor consumiu a luxúria das cidades das planícies (Gn 19.14). Deus foi à frente de Israel como um fogo consumidor destruindo todos os seus inimigos (Dt 9.3). Mesmo a nação que tinha o privilégio de chamar-se pelo nome de Deus, por sua vez, teve suas cidades queimadas por persistir na desobediência (Is 1.7; Am 2.5). Então o Senhor virá no juízo final com fogo, destruindo completa­ mente todos seus inimigos (Is 66.15; c f 2Pe 3.10). Toda cultura humana, por sua vez, orgulha-se de suas realizações granjeadas por disciplina, devoção e trabalho duro. Mas no final das contas o núcleo podre da violência feita contra outros seres humanos ironicamente, com a finalidade de alcançar objetivos humanísticos será exposto e as metrópoles corrompidas serão totalmente destruídas. 14. A segurança baseada na vaidade, a ausência de sentido dos ca­ minhos opressivos dos povos, que aparentemente constroem comuni­ dades estáveis, repousam na palavra imutável de Deus que Habacuque cita nesse momento. Sua consumição pelo fogo do juízo divino não é garantida simplesmente pela ascensão e queda de muitas civilizações anteriores. Em vez disso, é o juramento do próprio S e n h o r de que a terra se encherá do conhecimento da glória do Senhor que garante a vaidade e a futilidade de todos os esforços em contrário. Beleza nas canções, nas danças, na literatura, na arquitetura - tudo para a glória de Deus - encherá a terra como as águas cobrem o mar. Essa declaração maravilhosa a princípio parece tão pouco relacionável com o fogo consumidor do juízo divino, que tem sido considera­ da como não sendo genuína entre os pronunciamentos originais de Habacuque.“*Contudo, seu contexto prévio, tanto em Números quanto em Isaías, contém elementos tão importantes que repercutem na depra­ vação humana, que devem receber atenção como um meio de prepara­ ção para a infalível glória de Deus. O Senhor jurou a Moisés que a terra 4. Cf. Rudolph. p. 223.


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se encheria de sua glória, porque aqueles que o tentaram no deserto “já dez vezes” não entrariam na terra da promissão (Nm 14.21-23). Isaías profetiza que a terra se encherá do conhecimento de Deus quando o descendente de Jessé tiver matado o perverso com o sopro de seus lábios (Is 11.4,9). O diálogo de Habacuque começou com a perplexidade sobre a pros­ peridade do perverso entre o povo de Deus. Uma confusão se aprofun­ dou quando Deus indicou que uma nação mais perversa que Israel iria servir de seu instrumento de punição escolhido para o castigo. A des­ peito de todo o tumulto reinante, o justo viveria pela fé. Deveria, porém, o perverso continuar contradizendo as leis expres­ sas de Deus sem jamais receber algum tipo de correção final? Como é possível dizer que a glória de Deus enche a terra enquanto tais práticas prosseguem? Somente quando os problemas do perverso forem resolvidos é que a glória de Deus encherá a terra. Somente quando as justas recompen­ sas de juízo contra o perverso forem segundo seus merecimentos é que o verdadeiro conhecimento da santidade de Deus refulgirá com todo seu esplendor. As imagens de águas cobrem o mar para representar esta difusão universal do conhecimento da glória de Deus inspira otimismo. Aos mais remotos confins do globo será levada a proclamação, a expla­ nação da glória de Deus. É distintiva de Habacuque esta combinação de conhecimento qgló­ ria cobrindo a terra. O homem, na totalidade de suas capacidades racio­ nais, é distintivo por sua capacidade de apreciar a criação divina. Em todos os outros lugares nas Escrituras da Antiga Aliança, o transbordamento da glória de Deus é associado particularmente com o tabernáculo ou o templo como o lugar da habitação de Deus na terra (Êx 40.34-35; 1Rs 8.10-11; Ez 10.3; cf. Ag2.7). Mas agora os esplen­ dores que emanam da presença de Deus encherão sua criação à plenitude. Obviamente, não se pode dizer que essa grande expectativa pro­ fética encontrou seu cumprimento por ocasião da destruição da Babi­ lônia em 539 a.C. A retidão de Deus certamente se manifestou naque­


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la ocasião. Os povos, ao longo dos tempos, têm sido lembrados da dramática “escritura na parede” que declarou o fim desse regime ex­ tremamente opressivo (Dn 5). Mas a palavra de Habacuque aguarda algo mais. Paulo, o apóstolo da Nova Aliança, capta algo dessa visão em sua descrição do novo templo de Deus, constituído por uma comunhão universal, na qual a glória de Deus se manifesta por intermédio de sua criação. Ele ora por aqueles que se unem ao Messias “a fim de poderdes compreender, com todos os santos, qual é a largura e o comprimento e a altura e a profundidade, e conhecer o amor de Cristo que excede todo entendimento, para que sejais tomados de toda a plenitude de Deus” (Ef 3:18-19, NIV). Enquanto o anúncio de Habacuque, de que o Justo viverá pela fé, transita pelas nações, a terra se encherá do conhecimen­ to da glória de Deus como as águas cobrem o mar. As palavras de Habacuque devem aguardar a consumação de seu cumprimento final. Contudo, os eventos contemporâneos com os even­ tos do tempo de Habacuque não devem ser desconsiderados. A destrui­ ção de Babilônia trouxe grande alívio ao mundo perturbado da mesma maneira que o contínuo exercício do Justo juízo de Deus trabalha para trazer sua glória à plenitude. d. Ai do impudente difamado (2.15-17) \5Ai daquele que fa z seu vizinho beber, misturando à bebida o seu furor, ainda' fazendo (o) ébrio para que lhe contemples a nudez. 16 Tu estás saciado de opróbrio em vez de glória: fazes alguém beber! Expõe-te como incircunciso. O cálice da destra de Yahweh girará em torno de ti. ’ap funciona como partícula de intensificação. Cf. GKC, § 153.


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e ignomínia pútrida (será) toda a tua glória. 17 Porque a violência feita ao Líbano te esmagará. e a destruição aos animais ferozes (pela qual) tu os terrificaste;^ por causa do sangue derramado aos homens e da violência feita à terra, à c idade e a todos os seus habitantes. Agora a infâmia dos pecados de Babilônia assoma à superfície. Bebedice, intimidações, rudeza e perversão caracterizam seu rei. É algo difícil de escolher entre o entendimento desta descrição de um intimidador rude como que representando um comportamento pes­ soal ou como descrevendo as brutalidades de uma nação no processo de conquistas.^ Pode-se descrever o comportamento do rei de Babilô­ nia e sua corte como uma tela de fundo para descrever as atrocidades maiores associadas ao tratamento dado pelos babilônios às nações que invadiam. 2. y^híían tem sido explicada de várias maneiras. Como a forma se encontra agora no TM, cia pode ser considerada como uma forma Itiphil modificada, derivada de htt, “aterro­ rizar”, com um sufixo feminino plural se referindo aos animais aterrorizados. O indicador seria modificado pela adição do sufixo, levando à leitura dey^hîfën cm vez deyãhêt. Como Keil sugere, o t longo tomaria o lugar do primeiro t da letra dobrada, c o a curto final substituiría o e longo da última sílaba por causa da pausa (athnach). Entretanto, várias outras versões anteriores (LXX, Siríaca, Targum) substituem um kB. final por um n, forman­ do ouy^hifebâ. “vos aterrorizareis (estilhaçareis)”, como observado por Rudolph, p. 222. A LXX traz “desmaiareis” (ptoêsei se). IQpUab trazyaJjUeh, que como Brownlee (Midrash, p. 197) observa, tem sido emendado por alguns para 1er y^hittekà. Brownlee (Midrash, p. 196) traduz “arrebatareis”. E verdade que o sufixo “vos” se encaixaria melhor no paralelismo do versículo (vos esmagareis/vos aterrorizareis). Contudo, o intercâmbio frequente de sufixos em hebraico apoia o “eles” menos elegante. 3. Calvino, p. 110, III, tem algumas coisas um tanto ásperas a dizer sobre qualquer pessoa que entende esta passagem como que apresentando o rei de Babilônia com uma participação obrigatória nos vícios do deboche. Tais intérpretes estão “inventando o que é fabuloso”, concluindo “isto ou aquilo sem qualquer discriminação ou pudor” . Ele diz que a passagem deve ser interpretada como uma metáfora.


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O valentão que constrange os outros à devassidão exibe orgulho, crueldade e brutalidade. Anteriormente, o próprio Israel tentara silenciar 0 testemunho profético do nazireu, forçando-o a beber, contrariando seu voto de vida inteira de abstinência (Am 2.12). O rei Davi abusara do poder de seu oficio forçando Urias a beber (2Sm 11.13). Agora o rei da Babilônia usa sua autoridade para humilhar os que estão à sua volta.'' Mas esse bruto depravado não tem como objetivo final simples­ mente zombar de seus companheiros. Ele manifesta um ódio profundo, um rancor psicótico por seu companheiro. Mistura seu furor irracional ao vinho que ele serve. 15. A frase traduzida por misturando à bebida seu furor pode ser entendida de muitas maneiras. A palavra traduzida por misturando {mfsappêah) pode significar “juntar, unir” (ISm 2.36; Is 14.1); ou, numa forma de substantivo, um “derramamento” (Jó 14.19; c f o simi­ lar Sãpak)- O termo traduzido por seu furor {h“m ã^kã ) pode ser to­ mado pelo menos de três maneiras principais. Ele poderia significar “ira, furor”, que chega a ocorrer oitenta vezes nas Escrituras (cf 2Rs 22.13; Dt 9.19), ou poderia significar “peçonha” (como em Dt 32.24; SI 58.5 [Eng. 4]). Mas, se as consoantes forem lidas como hmt em vez de hmh, ele poderia significar “pele”, “odre” (c f Gn 21.14-15,19). Intérpretes e tradutores têm oferecido várias alternativas e combina­ ções ao explicar essa frase.^ As vantagens de traduzir por “juntar” ou “misturar em seu furor” são que ele preenche a imagem do bruto ran­ coroso do texto e fornece uma transição fácil para a descrição expandida da conquista descrita no versículo seguinte. Parte da depravação inerente no pecado é sua insistência em envol­ ver os outros em seu desregramento. O rei babilônio não se satisfaz em se embriagar; ele só pode descansar contente quando tiver forçado sua 4. Calvíno, p. 113, entende a referência à bebedice como uma figura expandida de uma nação bêbada de avareza: “pois não existe intoxicação que estultifica os homens mais do que aquele apetite voraz que os faz devorar tanto terras quanto mares”. As naçêcs babilónicas, por causa de sua cobiça, inspiram as outras nações à mesma atitude. 5. A sugestão de BDB, p. 706, de que o texto deveria ser emendado para “da taça de seu furor” (missap h ‘’rn5t^kS), supondo que um copista erroneamente escreveu o h duas vezes, não é necessariamente compatível com outras opções viáveis.


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degradação a outros. Ele se compraz no divertimento depravado quan­ do vê outros se entregando aos mesmos pecados (cf. Rm 1.32). Ele tem necessidade de acrescentar mais gente a seu reino de trevas com a con­ sequência de excluir mais e mais gente do reino de Deus (cf. 1Co 6.10). Pois nenhum beberrão pode ter qualquer parte no reino de Deus (cf 1Co 6.10). Em vez de ungir com um espírito de santidade, ele satura o povo com os “espíritos” mediante os quais se tomam embriagados com vinho (cf Ef 5.18). Em vez de encorajar o povo a suJeitar-se uns aos outros como fmto de um espírito submisso a Deus, ele nutre aquela arrogância detemiinada que faz que os outros estejam sempre rastejan­ do a seus pés. E quase um princípio universal que o pecado da embriaguez esteja associado à impureza sexual e à degradação do corpo. As filhas de Ló 0 embebedaram para que pudessem cometer o ato ignominioso de in­ cesto (Gn 19.32-35). Noé se embriagou e isso o levou a expor sua nudez perante seu filho (Gn 9.21). O caso de Noé é particularmente significativo para o presente con­ texto de Habacuque. O filho de Noé, Cam, “vendo a nudez do pai” {wayyar’...’êt 'erwat ’ãbiw). Esta frase idêntica em outro lugar des­ creve o pecado em que um homem “toma” sua irmã e vê “sua nudez” {rã’â 'et- erwãtãh - Lv 20.17). No contexto imediato de Levítico, a um homem se proíbe “descobrir a nudez” (gillâ ’et-erw ãtãh) de uma mulher menstruada (v. 18). Conquanto as duas frases nestes dois versí­ culos não sejam idênticas, o contexto pressupõe que em cada caso a frase serve como um circunlóquio para um pecado sexual mais grave do que simplesmente ver uma pessoa nua. No primeiro caso, um homem “toma” sua meia irmã e “observa” sua nudez, pressupondo que ele teve relações sexuais com ela. Esta visão forneceria também uma base mais lógica para a severidade da maldição de Noé, como uma consequência de haver Cam “visto” a nudez do pai. Então os babilônios embriagaram seu companheiro com a intenção de ver sua nudez (l^ma'an habbit 'al-m^'ôrêhem). Mas seu interesse não reside simplesmente na humilhação de seu próximo, ao constrangêlo a um ato de exposição indecorosa. Seu coração é bem mais deprava­ do do que isto. Mui provavelmente a referência é ao ato sexual. Em sua


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perversidade, o babilônio é pior que o maldito Cam, que pelo menos não foi culpado de induzir seu pai à embriaguez. 16. Não causa estranheza que o profeta exclame: Serás saciado de opróhrio em vez de glória! As ações dos babilônios por si só trazem opróbrio sobre si mesmos. Eles ficam saturados de ignomínia em de­ corrência de sua perversidade. Na descrição do juízo final que deve sobrevir à Babilônia, o caráter retribuitivo da punição se torna muito claro. Da mesma maneira que os babilônios tratavam os outros, assim também Deus os haveria de tratar. Se haviam embriagado a outros, eles mesmos seriam embriagados. Se haviam trazido opróbrio e desonra a outros pela atividade sexual depra­ vada, Deus os envergonharia diante de todas as nações. Fizeste alguém beber, diz o Senhor. Obrigaste a outros. Agora o Senhor te obrigará. Em vez de \q x Expõe-te como incircunciso (hê'ãrêl), como no TM, IQpHab 9.9 traz: “tu cambaleias!” (hêraêl). Mas depois, curiosamen­ te, em seu próprio comentário desta frase, o documento fala do sacerdo­ te perverso que não “circuncidou o prepúcio de seu coração” (1 QpHab 11.13).* Essa referência interpretativa à circuncisão apoia o TM mais do que o próprio texto do pergaminho. A LXX (em alguns manuscritos) parece apoiar o texto de Habacuque em 1QpHab mais do que seu co­ mentário: “Treme, ó coração!” (kardía saleúthêti). Essas interpreta­ ções podem representar antigos esforços de suavizar o que poderia ser considerado como uma admoestaçâo rude. Mas se a frase tiver a inten­ ção de representar uma punição recíproca pelo pecado de “ver a nu­ dez” dos outros, a demanda de Deus, que os babilônios exibam sua incircuncisão, é bastante apropriada. Esta atribuição de significado ao caráter incircunciso de um rei ímpio pressupõe a propriedade do reinado universal do Deus de Israel. Ignomínia só se relaciona com incircuncisão porque ela representa a falta de submissão ao Deus de toda a terra. Deve-se dar atenção especial ao cálice da mão direita de Yahweh, do qual os babilônios iriam beber. Numa frase notável, o profeta Ha6. Brownlee, M kirash, p. 190.


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bacuque descreve o cálice do Senhor girando em tomo das nações da terra. Babilônia tem sido o instrumento de distribuição do vinho condenatório do Senhor entre as nações. Subsequentemente, Jeremias falou dos babilônios como um “cálice de ouro” na mão do Senhor (Jr 51.7).’ Numa passagem particularmente vivida. Jeremias diz que a pró­ pria Jerusalém haveria de beber do cálice do furor da mão de Deus. Mas todas as outras nações teriam de participar de sua borra (Jr 25.1529). Se a própria cidade chamada pelo nome de Deus iria provar deste fel, quanto mais as outras nações que também mereciam seu juízo não haveriam de ser submetidas a esta punição de seu pecado? O argumento de Jeremias é semelhante à mensagem dada pelo li­ vro de Habacuque. Os babilônios podem ser o instrumento na mão de Deus, o cálice do furor do Senhor derramado sobre Jerusalém. Mas seu trabalho nessa qualidade de modo algum indicava que escapariam ao juízo de Deus. Quando Cristo, sob a Nova Aliança, fala do cálice que o Pai lhe dera, ele ecoa esta figura assombrosa (Mt 20.22; 26.42). A ira do Pai contra o pecado vergonhoso do gênero humano encontra manifestação consumada no derramamento do juízo de Deus sobre seu próprio Fi­ lho. Por mais repulsiva que pareça a “ira” de Deus às sofisticações da mente moderna, ela é uma realidade bíblica que acha espantosa ex­ pressão quando o Filho de Deus sofreu no lugar do pecador, bebendo do cálice do fliror de Deus. Este uso reiterado nas Escrituras da imagem do cálice do furor na mão de Deus pode auxiliar a interpretação da frase difícil, previamente discutida no versículo 15, misturando seu furor à bebida (mfsappêah h^mãfkã.), pode referir-se ao furor pessoal que o babilônio acrescen­ tou ao vinho da ira de Deus do qual suas vítimas devem beber. O derramamento da ira no cálice acha expressão consumada no livro do Apocalipse, em que “Babilônia” emerge como um símbolo 7. É compreensível que João Calvino tenha insistido que esta seção inteira seja interpretada como uma figura de linguagem. O “cálice” do qual os babilônios fizeram as outras nações beber representa o Juízo infligido pela mão punitiva de Deus. Em outros locais nas Escritu­ ras. o juízo divino sobre as nações é descrito em termos de um cálice que devem beber (SI 75.9 [Eng. 8]; Is 51.17,22; Jr 49.12; Ez 23.30-35).


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que engloba a perversidade entre as nações. Babilônia fez todas as nações beberem do vinho enlouquecedor de seus adultérios (Ap 14.8). Mas, agora, qualquer um que tenha participado dessas perversões deve beber o vinho do furor de Deus que foi derramado no cálice de sua ira (Ap 17.4). Ainda de outro ponto de vista, a degustação do cálice de amargura pode não esperar, necessariamente, pela destruição final do perverso. Visto que um substituto justo sorveu a borra do cálice de amargura, este se converteu no cálice da bênção que é oferecido sinceramente aos participantes da comunhão da Nova Aliança, ainda que o participante indigno possa beber condenação para si próprio (ICo 11.29). Assim, Babilônia obrigou as nações a beberem do cálice da fúria de Yahweh. Babilônia foi feita o instrumento dos justos juízos de Deus na terra. Inclusive o povo de Deus bebeu desse cálice amargo das mãos dos babilônios. Mas agora é a vez dos babilônios. Eles foram simples­ mente o instrumento de juízo do Senhor. No final, a própria mão direi­ ta do Senhor administrará esse cálice. A consequência desse juízo divino será a pútrida ignomínia que substituirá tua glória (v. 16c). O termo traduzido por ignomínia (qiqãlôn) ocorre somente aqui no Antigo Testamento, e evidentemente é uma palavra composta elaborada por Habacuque a fim de intensificar o conceito de desgraça a ser experimentada pelos caldeus.® Ela pode ser considerada como um recurso proverbial semelhante ao termo que pode ser visto como uma palavra composta em 2.6 {'ahtit). A primeira síla­ ba desta palavra {qí) pode ser uma abreviação de q í \ significando “cus­ pir, vomitar” (Lv 18.28; 20.22; Jr 25.27; a forma substantiva designa “vômito”, como em Is 19.4; 28.8; Jr 48.26). A última porção da palavra (qãlôti) reforça a ocorrência desta palavra na primeira metade deste mesmo versículo, e significa “vergonha, desgraça” (cf. Pv 11.2; 12.16; etc.). Portanto, os caldeus jazem bêbados e despidos, imersos em seus próprios vômitos. “Ignomínia” cobre sua glória. Todos esses aspectos 8. Cf. Keil. p. 88. De qualquer modo, a palavra parece ter lido o significado de “vergonha, desgraça”. C f BDB, p. 887; KB, p. 838.


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de seu reino, que foram uma vez a fonte de orgulho e bravata, agora estão cobertos do repulsivo vômito de bêbados. Esta inversão de glória por vergonha {qãlôn em vez de kãbôd) en­ contra expressão proverbial em outros lugares na literatura sapiencial do Antigo Testamento (ver Pv 3.35). Mais uma vez, Habacuque poderia estar apelando para os truísmos estabelecidos na literatura sapiencial de Israel como um meio de tomar memorável sua máxima sobre Babilônia. 17. Babilônia deve sofrer a humilhação devastadora em decorrên­ cia da violência feita ao Líbano. Por que o Líbano? Por que não pela violência feita a Jerusalém? Mui provavelmente, o oráculo do Senhor especifica o Líbano em decorrência de sua beleza proverbial, que con­ trasta tão drasticamente com sua aparência após a destruição efetuada pelos invasores babilônios. Ao fazer seu último pedido em prol do pri­ vilégio de entrar na terra da promissão, Moisés especificara o Líbano como aquela “boa terra” que ele tanto almejara ver (Dt 3.25). Tão pro­ verbial por sua majestade eram os cedros do Líbano que Salomão deulhes lugar especial em seus provérbios sapienciais ( IRs 4.33). O rei da Assíria alcançara notoriedade aos olhos do próprio Senhor por sua bravata de vir com a multidão de seus carros e cortar os altos cedros e os ciprestes escolhidos do Líbano (2Rs 19.23). Pois essas árvores gigantes eram as árvores plantadas pelo próprio Deus (SI 104.16). Os cedros do Líbano eram considerados como as mais majes­ tosas de todas as plantas que Deus plantara na terra, da mesma maneira que as séquoias e o pau-brasil seriam na América hoje. A devastação de animais ferozes (pela qual) os terrificaste - tam­ bém é citada como uma causa para a total destruição feita aos caldeus. A justiça nas tradições sapienciais de Israel estava associada direta­ mente à atitude de uma pessoa para com esses animais. Uma pessoa justa nutria verdadeira preocupação pelo bem-estar dos animais em contraste com os perversos, cuja misericórdia provara ser cruel (Pv 12. 10). A virada gentil da última frase do livro de Jonas imortalizou para sempre as compaixões do Senhor por toda sua criação. Não deveria Jonas ter compaixão de Nínive, uma cidade com gente numerosa “e também muitos animais” (Jn 4.11)? Deus observa quando suas meno­


HABACUQUE 2.17

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res criaturas são aterrorizadas pelas brutalidades dos seres humanos in­ sensíveis. Ele ouve os gemidos de toda a criação e garante que todo o universo criado se unirá na redenção final do ser humano (Rm 8.19-21). Mas os babilônios brutais, em seu apetite por conquistas, tinham praticado violência contra as plantas e os animais, para não mencionar aquela contra a terra, contra a cidade e contra todos os seus morado­ res. Por esta razão, sua violência se voltaria contra suas próprias cabe­ ças. A violência feita ao Líbano iria “assombrá-los”. O termo emprega­ do literalmente indica que sua própria violência os “cobriria” {küsã). Porventura o profeta estaria imaginando um desses cedros altíssi­ mos caindo sobre as cabeças dos que haviam planejado cortá-los? De­ veriam os opressores da floresta ser esmagados sob os troncos dessas árvores tão imensas? Possivelmente, Habacuque tencionara projetar precisamente esta imagem. Seja como for, este quarto provérbio de Habacuque é memorável por sua forma de expressão. Ele ecoa os pro­ vérbios antigos de Israel. Ele faz uso de jogo de palavras e cria outra composição de palavras para realçar a vividez da expressão. O mais impressionante, porém, é que esse provérbio particular im­ prime a ideia de reciprocidade no juízo: Se os babilônios obrigam outros a beberem ... eles serão embebedados Se os babilônios praticam a perversão sexual... eles serão expostos Se os babilônios promovem sua própria glória... eles serão enver­ gonhados Se os babilônios vivem de violência desmedida... eles serão mor­ tos por justa violência. Este conceito de execução de justiça recíproca não apela para a humanidade. Mas é o método de Deus. Desta maneira ele se mostra imparcial e justo como Juiz. Assim, ele finalmente se estabelece como justo e também justificador do ímpio que crê. Pois Jesus Cristo bebeu o cálice do fiiror de Deus até a última gota, e então se tomou o Salvador de todos os que renunciam a seu orgulho próprio e à violência, só espe­ rando dele salvação.


HABACUQUE 2.17-20

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Habacuque evidentemente teve sucesso em estabelecer uma máxi­ ma sobre os babilônios, uma que iria prevalecer, como ficou provado pela citação feita por Jeremias em sua denúncia contra o ímpio. Embora os babilônios sejam o “cálice de ouro” na mão do Senhor, este no fim fará a Babilônia beber também (Jr 51.7,39,57). Não passou muito tem­ po e os caminhos do Senhor se manifestaram a esta poderosa nação. Enquanto o rei da Babilônia bebia com seus companheiros nos cálices de ouro de suas conquistas, a escrita de Deus que selou seu destino apareceu na parede (Dn 5.1-31). e. Ai do idólatra impotente (2.18-20) 18 Como pode um ido!o esculpido ter proveito ? Pois seu desenhista o esculpiu (para si); e a imagem fundida, mestra de mentiras. Pois aquele que desenha seu (próprio) desígnio confia nele, fazendo ídolos mudos? 19/ 1/

a daquele que diz à árvore: b Acorda! b Desperta! a E à pedra muda: a Ele b ensinará?' a Eis que ele b está coberto c com ouro e prata, b e não há nenhum espírito c nele. 20 O Senhor, porém, está em seu santo templo; I. Rudolph. p. 222, argumenta que a frase "pode o ídolo ensinar?” deveria ser eliminada como secundária, porque ela atropela a frase. Embora seja verdade que a frase tende a sobressair, sua semelhança em forma e ênfase com a frase seguinte pressupdc que seu papel distintivo é intencional (“O ídolo ensinará; observe que ele está coberto de..."). Keil, p. 91, sugere que a frase comunica “espanto a tal engano".


HABACUQUE 2.18-20

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cale-se diante dele toda a terra. Essa quinta e última máxima proverbial contra os babilônios assu­ me uma forma distintiva. Ela começa com a denúncia antes de recitar o costumeiro ai! que ele introduziu nos quatro ditos anteriores. Por que essa alteração de forma? Pode-se presumir que essa quebra de padrão indica a não-genuinidade do versículo 18? Rudolph rejeita esta sugestão e propõe que Habacuque poderia ter a intenção de estabelecer que suas condenações ao rei de Babilônia até este ponto eram totalmente Justificadas em vista de suas deficiências religiosas.^ Nabucodonosor poderia ter sido uma pessoa muito religiosa. Em ocasião futura ele po­ deria até mesmo vir a ser chamado “servo” de Deus (Jr 25.9; 27.6; 43.10). Contudo, toda a piedade pagã seria vista como sendo totalmente inútil, visto que ela honra a invencionice humana, que nunca pode ser substituída por falhas morais. Esta explicação de alteração na forma da máxima final contra a Babilônia tem alguma credibilidade. Todavia, Habacuque não oferece nenhuma indicação de que ele tivesse necessidade de antever crítica de suas condenações. Inclusive, parece bastante improvável que os israeli­ tas viessem a reclamar das condenações contra o destruidor de sua própria nação. O mais provável é que Habacuque altera a ordem do oráculo simplesmente como um recurso literário para fornecer varie­ dade e clímax em sua expressão. Ele certamente se mostrou capaz de empregar numerosos recursos literários para emprestar peso à sua ar­ gumentação. Além do mais, a idolatria dos babilônios poderia ser vista como fonte de todas as atrocidades mencionadas previamente. E visto que sua orientação religiosa era errada, seus padrões morais tinham de ser pervertidos. Como criadores de deuses que não falam, eles tinham de inventar seus próprios padrões de sua maneira de viver. Nesta luz é bastante compreensível que a condenação da idolatria fosse reservada para o fim e esta mensagem fosse enfatizada pelo desvio da forma esta­ belecida f leviamente da máxima proverbial. 2. Rudolph. p. 229.


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HABACUQUE 2.18

Habacuque também faz uso de paralelismo poético e aliteração para enfatizar seu argumento. O versículo final conclui de vez e apropriada­ mente esta seção, enquanto simultaneamente serve de transição signifi­ cativa à oração final de Habacuque, no capítulo 3. Por agora, quatro máximas solenes pendem como maus augúrios dos pescoços dos babilônios. Cada um recebeu ameaça de juízo severo. O saqueador será saqueado (v. 6-8), o fortificado será exposto (v. 911), 0 civilizado será desmoralizado (v. 12-14) e o impudente será difa­ mado (v. 15-17). Ora, nesta última máxima os babilônios recebem a mensagem de absoluta certeza sobre os Justos propósitos de Deus. Deus nenhum, nem poderes nos céus ou na terra podem resistir à realidade do Deus vivo, único e verdadeiro.

18. Os rivais pagãos do Deus que fala a Habacuque aparecem sob a forma de ídolos mudos. Eles são impressionantes; sim, maravilhosos em sua aparência externa. Mas que aproveita o ídolo, visto que seu artífice o esculpiu? Sua própria origem, bem como sua constituição, testificam de sua inutilidade. A descrição que Deus faz deles zomba de sua existência. Dificilmente merecem a atenção que se lhes dá pelo Jogo de palavras do trio que celebra sua impotência. O ídolo é: uma escultura de seu escultor (p^sãlô yõs^rô) um desenho de seu desenhista {m assêtâ ümôreh) uma nulidade muda {’^lílim ’ill^mim). Cada uma dessas frases exibe o disparate inerente em toda e qual­ quer pessoa que sai em busca de ajuda que vai além de seus próprios recursos, em algo que ele próprio projetou. O ídolo esculpido (pesei) se refere a qualquer coisa modelada ou esculpida por um instrumento que pode ser de madeira ou pedra. A imagem fundida (massêkâ) des­ creve a imagem de metal modelada de materiais fundidos tais como prata ou ouro.^ Israel foi categoricamente proibido de fazer tais formas, de qualquer coisa criada ou imaginada (Êx 20.4). Na renovação da alian­ ça, a nação reunida teve de pronunciar sua própria maldição sobre qual3.C f. KB, p. 770; BDB, p. 651.


HABACUQUE 2.18

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quer pessoa que fizesse um ídolo de escultura ou imagem fundida, pois tal objeto seria uma abominação ao Senhor (Dt 27.15). Não só a fabricação de ídolo garante a maldição de Deus. Ele tam­ bém tem o efeito de enganar até o próprio artífice. Embora a imagem não pudesse falar, ela comunicava uma falsidade transmitida por sua aparên­ cia de que ela possuía poderes de um ser sobrenatural. E, desta maneira, encorajava a seus espectadores a colocarem sua confiança em sua for­ ma impressionante, a fazer pedidos a essa imagem por ajuda em tempos de necessidades ou a atribuir prosperidade inesperada à intervenção es­ pecial do objeto feito por homens. Mas, o pior é o absurdo de todo o esquema! A pessoa confia numa coisa muda, imóvel, que ela própria fabricou. Como pode ser tão estú­ pida a ponto de esperar que tal escultura, essa forma fundida, interve­ nha a seu favor? O ídolo parece ter algum poder místico de hipnotizar, uma habilidade maléfica de fazer crível uma mentira óbvia. Com razão foi ela designada mestra de mentiras. As pessoas modernas, em suas sofisticações, podem pretender considerar-se como que isentas de idolatria ridícula. Que pessoa bem-edu­ cada, respeitável, seria enganada a ponto de esperar que poderes espe­ ciais emanem da forma de um ídolo antiquado? Contudo, a Nova Ali­ ança das Escrituras deixa bem claro que a cobiça é idolatria (Ef 5.5). Sempre que os desejos de uma pessoa contemplem a criatura em vez do Criador, ela é culpada do mesmo tipo de insensatez. Um desejo insaciável por coisas não possuídas honestamente presume que as coi­ sas podem satisfazer melhor que o próprio Criador. Sempre que uma pessoa deposita suas prioridades em coisas feitas, e não naquele que é 0 Criador das coisas, ela se faz culpada de idolatria. Nulidades mudas. A pungência da zombaria de Habacuque foi até certo ponto captada na tradução que descreve o ídolo como um “boneco estúpido”." A primeira palavra da frase parece e soa parecida com 0 termo hebraico para Deus C^lõhim), e é amiúde usada nas Es­ crituras em lugar de nulidade C^lilim) dos deuses das nações contra a realidade da deidade de Israel (cf. Lv 19.4; 26.1; Is 2.8,18,20; 10.10; SI 31.7 [Eng. 6]; 96.5; 97.7). Somente Habacuque, porém, posiciona este 4. Brownlcc. Midrash, p. 2 11


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HABACUQUE 2.18-19

termo para nulidade ou “inutilidade” juntamente com a palavra seme­ lhante que significa “ter língua presa, ser mudo” O que po­ deria ser mais inútil do que idolos mudos? Contudo, essa é a essência do ídolo ímpio. A inutilidade do ídolo, em razão, particularmente, de sua inabili­ dade de falar, pode ser contrastada com o Deus de Israel que fala. Esses deuses não podem ver, ouvir, comer ou cheirar (Dt 4.28; Is 44.9-10), mas o Senhor Deus de Israel é distinto como o Deus que declarou o fim e o começo (Is 41.21-29; 42.9; 43.8-13). Visto ser o Deus vivo, ele pode fazer ambas as coisas: falar e fazer. Por esta razão, cada palavra que ele pronuncia continua a ter proveito em todos os tempos, em contraste com a inutilidade dos ídolos (cf 2Tm 3.16). Seu povo ouvirá cada palavra de seu Deus às suas costas, dizendo: “este é o caminho, andai por ele” (Is 30.21-22). Além de aviltar a glória de Deus, a criação de deuses imaginários tem o efeito inevitável de degradar o comportamento humano em ou­ tras áreas, como o demonstrou claramente a experiência de Israel com o bezerro de ouro (cf Ex 32.4,8). Não surpreende, pois, que os do­ cumentos da Nova Aliança indiquem que nenhum idólatra herdará o reino de Deus ( ICo 6.9-10; Ef 5.5; Ap 21.8; 22.15). 19. Esta máxima proverbial continua motejando daqueles que olham para o ídolo em busca de alívio ou ajuda, invocando-o em tempos de dificuldades. Quanta estultícia existe naquele que tenta animar uma árvore ou acordar uma pedra! Talvez uma árvore simbolizasse a fonte da vida para seu adorador, visto que numerosas bênçãos se derivam desse espécime maior de vida vegetal. A árvore fornece fruto e sombra, madeira para construção e lenha para o fogo. Possivelmente, a pedra simbolizasse estabilidade a uma criatura que sempre suporta mudança. Por mais que a fortuna va­ riasse, a expressão esculpida na face de uma pedra permanecia sempre a mesma. Contudo, em resposta a um grito por socorro da parte de seus devotos, a árvore e a pedra permaneciam sempre silenciosas, como que zombando de qualquer pessoa que procurasse por ajuda. Os sacer­ dotes de Baal muito tempo atrás viram que era impossível despertar seu deus adormecido ( 1Rs 18.26-28).


HABACUQUE 2.19-20

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Porventura se deve esperar que o deus de pedra realmente ensine? Por acaso ele poderá instruir o povo como é preciso para garantir-lhe prosperidade? A pedra muda permanece em contraste absoluto com o Deus da revelação manifestado nas Escrituras. Deus deixou claro a Moisés que na qualidade de quem fez a boca do homem, ele também podia fazer até o mudo falar (Ex 4.12). Devido ao fato de que o povo não aguentava ouvir a voz de Deus, ele providenciou instrumentos de revelação a fim de ensinar ao povo o caminho que deviam andar (cf Êx 24.12; Lv 10.11; ISm 12.23; SI 27.11). Ao contrário disso, os deuses dos ímpios são cobertos de ouro e de prata, não têm em si o mais leve fôlego. O brilho do ídolo não pode esconder sua falta de vida.^ Suas coberturas espetaculares podiam pare­ cer uma tênue ilusão de vida. Mas as próprias coberturas atestam seu estado mortuário. Como enfatiza a forma de expressão escolhida por Habacuque, não há o mínimo fôlego de vida no ídolo (w^kol-rüah ’ên b^qirbô). Não obstante, mais desejado que ouro com sua fascinação são os preceitos do Senhor (SI 19.10). Seus mandamentos são melhores que os infindos tesouros de riqueza material (SI 119.72,127). Portanto, assim fica estabelecido: os deuses dos babilônios não po­ dem oferecer nenhuma ajuda. 20. O Senhor, porém, está em seu ,santo templo. Embora uma con­ junção especificamente adversativa esteja faltando, este último versí­ culo contrasta a vitalidade do único Deus verdadeiro com o entorpeci­ mento e silêncio dos ídolos. O templo, desde a época de sua dedicação por Salomão, foi estabelecido como a fonte da qual emanariam a ins­ trução divina e o auxílio. Mesmo se Deus tivesse de castigar um povo desobediente, o templo consagrado permaneceria como o lugar onde Deus ouviria, perdoaria e ensinaria a seu povo o caminho a seguir (1 Rs 8.36). Segundo a visão de Isaías, o monte da Casa de Yahweh seria esta­ belecido no cume das montanhas, e de lá ele ensinaria seus caminhos a muitos povos. A lei iria sair de Sião e de seu templo (Is 2.3-4). Signi5. Rudolpli, p. 229.


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HABACUQUE 2.20

ficativamente para o contexto de Habacuque 2, a visão de Isaías des­ creve um dia em que Deus irá julgar de Sião muitas nações, e irá repre­ ender muitos povos (hôkiah’, conferir Hc 2 .1). Da mesma maneira que seus deuses, as nações da terra iriam permanecer em silêncio perante Yahweh. O templo permanecia no meio de Israel como um lugar de sua pre­ sença e sua soberania entre seu povo. O termo para templo (hêkal), nas Escrituras, raramente descreve o palácio de um rei terreno. Mas ele aparece em uma sucessão de narrativas como sendo o lugar de onde Deus governaria em Israel, incluindo o tabemáculo em Siló (1 Sm 1.9; 3.3), 0 templo de Salomão (1 Rs 6.1 -2; etc.), o templo de Ezequiel (Ez 41.1,4,15); e o templo construído depois da restauração do exílio (Zc 8.9; Ag 2.15,18). De uma perspectiva da Nova Aliança, o conceito equi­ valente se aplica ao corpo de Jesus Cristo (Jo 2.19), o corpo do cristão individual (1 Co 3.16-17) e à comunidade da igreja cristã (Ef 2.21). A essência da ideia do templo do Senhor pode ser vista na declara­ ção do livro do Apocalipse com respeito à ausência de templo nos no­ vos céus e nova terra. O Senhor Deus Todo-Poderoso e o Cordeiro serão o Templo da Nova Jerusalém (Ap 21.22). A presença de Deus e de Cristo deverá permear totalmente a última cidade e, por essa razão, não haverá necessidade de um edifício de templo. E apropriado, pois, que se ordene a toda a terra: cale-se diante dele (Hc 2.20b). Esta mesma ordem aparece tanto em Sofonias como em Zacarias num contexto de juízo pendente (Sf 1.7; Zc 2.17 [Eng. 13]). Ambos os casos podem oferecer mais apoio à importância da profecia de Habacuque. Habacuque começara seu diálogo com grande esforço para enten­ der os caminhos misteriosos de um Deus santo com um povo pecador. Agora ele permanece na presença do santo templo do Senhor, mudo em reverente admiração. Talvez ele não tenha entendido plenamente todas as implicações da resposta divina à sua pergunta. Contudo, ele permanece seguro da permanente soberania de seu Deus, de sua justiça em condenar todos os violadores de sua santa lei e de sua misericórdia infinita em garantir vida a todos os que confiam nele e nas provisões que ele prometeu ao pecador.


HABACUQUE 3.1-19

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III. UM SALMO DE SUBMISSÃO (3.M9) Nesse momento, o dilema de Habacuque finalmente chega a uma solução. Como ocorre com Irequência quando seres humanos finitos se aventuram a dialogar com o Deus infinito, a solução para o problema de Habacuque não vem da maneira como ele esperaria. Em vez de Deus anunciar um castigo modesto e controlado ao Israel desobediente, Habacuque ouviu, alarmado, a notícia de extrema devastação. Em vez de uma dura repreensão por sua audácia pessoal em queixar-se, Haba­ cuque recebera uma palavra de conforto, ânimo e segurança. Então o profeta se viu forçado a reajustar radicalmente o que pode­ ría esperar do Senhor. Não significa que o Deus pactuai o haja declara­ do caprichoso ou inconsistente. Mas o profeta deve alterar sua visão dos caminhos de Deus com a raça humana. Alguns comentaristas têm insistido que Habacuque 3 não podería ter sido uma parte original dessa profecia.' Em nenhum outro lugar as palavras de um profeta israelita tomaram a forma de um poema com­ posto para celebração no contexto do culto comunitário. Mais particu­ larmente, a ideia de que a figueira não florescería e não haveria gado nos currais (v. 17) parece apontar para as calamidades associadas com a seca mais do que com o caos criado por um exército invasor. Essas várias pressuposições são suficientes para causar uma pausa e um cuidadoso exame das questões que são suscitadas. Mas as razões sugeridas dificilmente são suficientes para deslocar Habacuque 3 de sua presente posição no livro. Já se foi o tempo em que se presumia que o profeta se posicionava categoricamente contra o sacerdote e nada ti­ nha a ver com o templo e o sacrifício. O profeta em Israel não atuava plenamente dissociado do culto no templo. E possível que nenhum outro exemplo de material profético em existência se compare a esse salmo de Habacuque, dotado como é das formalidades de ordem litúrgica. Contudo, com todas as suas denúncias dos procedimentos fúteis dos sacerdotes, e dos sacrifícios em Israel, os profetas também participa­ vam do culto comunitário. . Ver a discussão na seção V da Inírodução.


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HABACUQUE 3.1-19

Com respeito à ausência de uma referência a esse capítulo em IQpHab, deve-se observar de imediato que esse capítulo se encontra na LXX, que pode ser considerada um documento aproximadamente paralelo. É possível que o manuscrito de Qumran nunca fosse concluído, particularmente à luz de alguma evidência significativa de que os últi­ mos três versículos do capítulo 2 foram completados por uma segunda mão.^ Possivelmente, a omissão representa o resultado de uma seleção de materiais pela comunidade de Qumran a ser comentada. Neste caso, a forma distintiva de Habacuque 3 poderia explicar sua omissão.^ O testemunho objetivo de vários manuscritos hebraicos não pode ser ignorado. Habacuque 3 sempre apareceu no restante do livro. Mas a substância do material do capítulo 3 fornece a evidência mais forte para sua ligação com os primeiros dois capítulos do livro. O capítulo 2 encerra com a proclamação de que o Senhor está em seu santo templo, convocando todo o povo a manter silêncio perante ele (2.20). Este anúncio prepara naturalmente para a celebração do tercei­ ro capítulo de Habacuque no contexto do culto celebrado por Israel.“* As expressões usadas por Habacuque no início do capítulo 3, “tendo ouvido" as “declarações” do S e n h o r , ecoam precisamente a postura assumida pelo profeta depois de seu intercâmbio prévio, no qual ele se pôs a esperar e ver o que o Senhor lhe diria (2.2).* A ênfase posta na vinda do Senhor para salvar seu povo e para destruir seus inimigos (3.3-15) se amolda naturalmente com a ênfase nestes mesmos elemen­ tos da visitação do Senhor conforme descrita nos capítulos 1 e 2. A aceitação final pelo profeta do plano determinado pelo Senhor (3.1719) fornece a resolução necessária da questão entre Deus e Habacuque encontrada nos capítulos anteriores. O profeta conclui usando a pri­ meira pessoa de acordo com a forma da porção anterior do livro. Em suma, a substância do capítulo 3 naturalmente arredonda os temas in­ troduzidos nos capítulos 1 e 2. 2. Brownlee, Midrwih Pesher o f Hahakkiik, p. 2 18. 3. Ihid. 4. Weiser, The Old TesUtmem: its Formation and Development, trad, por Dorothea M. Barton (Nova York: Association Press. 1961). p. 260. 5. Cf. Rudolph, p. 240. que diz que a relação de Habacuque 3 com os capitulos I e 2 é inconfundível.


HABACUQUE 3.1-19

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A forma desse poema é caracterizada pela variedade de padrões de paralelismo em expressão. Digno de nota é o estabelecimento de uma regularidade de cadência no ponto alto do clímax da conciliação do profeta com a revelação divina a respeito do curso do futuro (v. 17-19). Nada menos que cinco estrofes nesses três versículos seguem o padrão a-h-h-a formado pela inversão da ordem do sujeito e do verbo. Deve-se observar a inclusão de um sobrescrito e um pós-escrito Juntamente com o uso triplo do termo selá (v. 3,9,13).* Essas anotações indicam que o poema fora designado para o uso no culto de Israel. Tal incorporação de um pronunciamento profético dentro de uma celebração regular de culto pela comunidade de Israel realça o fato de que o profeta, embora esteja dialogando com o Senhor na primeira pessoa do singular, na verdade era o porta-voz de toda a comunidade. Seu papel reflete a função do profeta em Israel como um mediador pactuai. A apresentação desse poema na forma apropriada para uma cele­ bração contínua no culto comunitário de Israel também fornece um indicador antigo da significação dessa palavra de Habacuque. Como indi­ cado anteriormente, a mensagem de que “o Justificado (pela fé) vive­ rá por sua sólida confiança” (2.4) era uma palavra profética apropri­ ada tão importante quanto os Dez Mandamentos. Merecia ser grava­ da “em tábuas” e possuir consequências escatológicas. Ao apresentar sua mensagem numa forma acabada para repetição no culto comunitá­ rio, Habacuque preparou o caminho para as gerações seguintes toma­ rem posse deste mesmo estilo de vida pela fé a despeito das calamida­ des teníveis. O tema em forma de arco desse capítulo pode ser visto como uma elaboração poética de 2.4. A despeito das calamidades cataclísmicas e Juízos que deveriam vir pela mão do próprio Deus, “o Justificado (pela fé) viverá por sua sólida confiança”. Este tema que pemieia o livro agora encontra elaboração em termos da necessidade da intervenção 6. H.-J. Kraus, Psalms t-59, trad, por Hilton C. Oswald (Mineápolis: Augsburg, 1988), p. 27-29, indica que se pode presumir com segurança o significado litúrgico do termo selá, embora seu significado preciso permaneça incerto.


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HABACUQUE 3.1

de Deus para que a fé seja vitoriosa, k fé triunfa na vida pela interven­ ção do poder de Deus - poderia servir de tema para este capitulo. SOBRESCRITO (3.1)

/ Oração do profeta Hahacuque. Sobre shigionoth. É impossível determinar com certeza a fonte desse sobrescrito, ou outras notas relacionadas com a celebração desse salmo no contexto do culto público de Israel. E possível que essas instruções foram introduzi­ das pelo próprio Habacuque, ou por algum outro dignitário responsável por conduzir o culto da congregação. De qualquer modo, as anotações sugerem que esse capítulo circulou independentemente dos outros dois capítulos, mesmo quando aparentemente pertencia à forma original do livro propriamente dito. O termo uma oração é encontrado nos títulos de cinco Salmos (17,86,90,102 e 142). A centralidade do templo nas orações do povo de Deus é realçada na oração dedicatória de Salomão. Ele suplica a Deus que ouça e responda quando os inimigos de Israel os vencessem, e eles se voltassem para “esta casa” a fim de orar (IRs 8.33). Habacuque estava antevendo exatamente esse tipo de situação. Tendo reconhecido que 0 Senhor está em seu santo templo (Hc 2.20), ele então oferece sua oração em direção àquele templo na esperança de o Senhor o ouvir e lhe responder. Essa oração indica que o profeta agora não tem nenhuma outra causa a apresentar. Ele advogou sua causa, concluiu seu diálogo com o Todo-Poderoso. Agora lidera o povo de Deus à aceitação das ordens Justas e misericordiosas que o Senhor lhe revelara. Ele reflete a sabe­ doria cuja origem estava na confrontação com a vontade de Deus. Especificamente, diz-se que essa oração foi oferecida pelo profeta Habacuque. O profeta em Israel agia como um mediador pactuai. Como tal, ele tinha a responsabilidade de oferecer intercessão em favor do povo (cf Gn 20.7; Êx 32.11-14; Is 63.15; Jr 14.7-9). Na situação críti­ ca em que Habacuque se encontrava, só a graça interventora e preser­ vadora do Senhor poderia sustentar o profeta e o povo. E difícil determinar o significado preciso de shigionoth. Alguns


HABACUQUE 3.2

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dos primeiros tradutores gregos (Áquila e Símaco) aparentemente en­ tenderam que o termo se referia a erros cometidos na ignorância (epi agnoêmatõn). No título do Salmo 7, porém, o termo aparece como uma instrução musical. Possivelmente, ele poderia referir-se a um tipo de execução que refletiría o incitamento que deveria acompanhar a cele­ bração de um salmo com tópico perturbador.' A. O PROFETA ORA PELO SUSTENTO DA VIDA DO CRENTE (3.2)

2 a Ó S enhor, h tenho ouvido c tuas declarações; b tenho temido, a ó Yahweh, c tua obra. a Em (o) meio b de (os) anos c o fazes viver;a em (o) meio b de (os) anos c (o) fazes entender; a em (o tempo de) tremor, c lembra-te da misericórdia. Nesse momento, o profeta começa seu cântico, um cântico que deve ser repetido pela congregação de Israel ao longo dos anos sombrios, os quais logo começaria a experimentar. A canção vem como uma respos­ ta à revelação dada ao profeta com respeito aos dias vindouros. Ao adotar essa forma para sua palavra de aceitação com respeito ao prospecto distante, o profeta ecoa uma tradição tão antiga quanto Moisés. Como o Senhor previa a infidelidade de Israel depois que en1. Keil, p. 93; cf. BDB. p. 993. 2. Keil, p. 94, identifica o pronome de “faze-a/o viver” com a “obra” de Habacuque 1.5. Mas tudo indica ser muitíssimo incomum imaginar Habacuque orar para que essa terrível “obra” de juízo “viva”.


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HABACUQUE 3.2

trassem na terra, ele instruiu Moisés a escrever um cântico e a pô-lo na boca dos israelitas como um veículo que visava instmir as gerações futuras (Dt 31.19). Este cântico não seria esquecido pelas crianças do futuro ( Dt 31.21 ). E então, enquanto Habacuque visualiza os corredo­ res do tempo que jazem adiante, ele também compõe um cântico. Ele ouviu as declarações do Senhor,^ e o temor invadiu seu coração. Vários casos no livro de Deuteronômio indicam a naturalidade com que “ouvir e temer” podem ser vistos como uma reação esperada (Dt 13.12; 17.13; 19.20; 21.21). Porventura Habacuque se sentia culpado de sentir-se trêmulo em razão da revelação que recebera? Claro que não. Se medo é uma reação natural por ocasião de uma tragédia pes­ soal, quanto mais compreensível é que o profeta reaja com profundo senso de alarme e medo enquanto é informado de que a nação favore­ cida do Senhor sofreria total destruição! Mesmo quando é assegurado de que o justo viverá pela fé, ele não pôde sentir outra coisa senão pavor ante o juízo iminente. Como matéria de fato, a reação negativa do profeta ao ouvir sobre a atividade do Senhor indica que ele aceita como genuína a mensagem que havia recebido. Neste caso, medo é um importante componente da fé do profeta. Muitos tradutores e intérpretes consideram a referência lua obra em uma relação gramatical direta com a segunda metade do versículo."' Mas 0 paralelismo poético da seção, bem como o pronome ligado ao verbo na segunda seção do versículo (“faze-o viver”), pressupõe que tua obra deve ser tomada em conjunto com a primeira metade do ver­ sículo. O profeta ouviu as declarações acerca do Senhor, e temeu sua obra. Conforme esta construção, é bastante natural ver a referência a obra (pô’al) do Senhor como se referindo ao anúncio dado previamente 3. As “declarações” poderíam se referir às palavras comunicadas pelo Senhor a Habacuque. Mas o uso mais comum do termo se refere a um relato sobre alguém (cf. Gn 29.13; Êx 23.1; Nm 14.15; Dt 2.25; Is 66.19). 4. Seguem algumas amostras de traduções das versões: AV e NASB: “Oh. Senhor, reaviva tua obra no decorrer dos anos”; NIV: “Renova-as (i.e., tuas obras, plural] em nossos dias”. Nenhuma dessas versões realmente traduz o pronome anexado ao verbo ("faze-o viver”), embora traduzam o pronome anexado ao substantivo (tua obra). A LXX favorece a divisão do versículo como fiz, embora acrescente suas próprias características no processo de tradução.


HABACUQUE 3.2

275

por Habacuque: “realizo, em vossos dias, obra \põ'al põ'êl\ tal, que não crereis, quando vos for contada” (Hc 1.5). Nesse momento, o pro­ feta entendeu exatamente a grandeza da obra que o Senhor iria reali­ zar, e ele temeu. Na segunda metade do versículo, o profeta formalmente faz sua petição, uma petição que deveria ser repetida muitas vezes pela comu­ nidade de Israel quando celebrassem esse salmo de Habacuque. Não há dúvida de que o fervor desta repetição se intensificaria à medida que o dia da chegada dos babilônios se aproximava com o fim de tomar a terra da Palestina, e inclusive a própria Jerusalém. O profeta expressa sua petição em (o) meio (de) os anos. Ele repete esta frase peculiar duas vezes, a qual ocorre somente aqui em todo o Antigo Testamento; e em seguida a confronta com a segunda expres­ são (em fo tempo de] tremor, lembra-te da misericórdia). Estudiosos têm oferecido várias explicações a esta frase em (o) meio de (os) os anos. E pouco provável que ela se refira ao intervalo de separação entre o Antigo e o Novo Testamentos. A sugestão de Calvino, de que ela alude ao ponto médio da história entre Abraão e Cristo, é mais plausível, visto que esta visão teria maior significado para Haba­ cuque como um profeta da Antiga Aliança. A versão singular da LXX, “entre as duas bestas”, tem fornecido inspiração a numerosas cenas de natividade.^ Este quadro foi preenchi­ do por Orígenes, que concluiu com base em Isaías 1.3 que os dois animais devem ser um boi e um burro.® O mais provável é que o meio de (os) anos se refira ao tempo entre os dois atos de juizo revelados a Habacuque no processo de seu diálo­ go anterior. No tempo entre o juízo expiatório que sobreviria à própria casa de Deus e o Juízo consumidor que vingaria os eleitos de Deus 5. Conquanto esta tradução não pareça bem relacionada com a tradução costumeira para o inglês, o hebraico, nesta tradução, na verdade não seria muito diferente do TM. Rudolph, p. 233, sugeriu que a tradução “(entre) as duas bestas” pressupõe a tradução S^nê(m) hayytm em vez do massorético sõním tmyyêhú. 6. Rudolph, p. 242. Outras explicações baseadas na LXX, que lêem (en m ési dio zõõn), incluem Cristo entre dois ladrões. Cristo entre a morte e a ressurreição e Cristo entre dois aeons.


276

HABACUQUE 3.2

naquele período crucial antes da destruição dos inimigos de Deus que o Senhor dê garantias de que preservará a vida. A oração de Habacuque, a que o Senhor /ãze-o viver, representa uma reflexão deliberada sobre a visão escatológica que ele recebera previamente. O soberbo não prevalecerá, mas o justo - ele viverá\ (Hc 2.4). Em outras palavras, Habacuque fornece um exemplo excelente de quem está pleiteando as promessas. Tendo recebido a palavra de garantia de que o Justificado (pela fé) viverá por sua sólida confiança, 0 profeta agora faz desta promessa o ponto central de sua petição. Des­ ta maneira ele encoraja Israel a continuar suplicando pela vida ao longo dos anos trevosos que viriam com o Juízo. Numa escala mais ampla, o padrão da oração de Habacuque forne­ ce um arcabouço para a compreensão da era atual. De acordo com Pedro, o Juízo deve começar pela casa de Deus (IPe 4.17). Esta era atual representa o tempo em que Deus continua a purificar seu próprio povo por meio de muitos Juízos punitivos. Nessas circunstâncias, o crente deve pleitear a promessa de que o Senhor preservará a vida de seu povo a despeito das calamidades temporais. Entre o tempo do castigo de Deus sobre seu próprio povo e a vinda do Juízo final sobre seus inimigos, a súplica deve subir ao Senhor para manter sua palavra e sustentar a vida do crente. Faze-o viver, suplica o profeta. Conquanto o pronome o anexado ao verbo seja tomado como uma referência mais abstratamen­ te a Israel como aquele a quem Deus preservaria a vida, a ligação com a máxima monumental anterior de Habacuque 2.4 sugere que é o Justo pela fé a quem o Senhor preservará em vida. Faze-o, aquele que crê, viver. O profeta também ora, faze(-o) entender. Posto em construção pa­ ralela com faze-o viver, este verbo tem o mesmo objeto, embora esteja implícito pelo contexto. Por meio desta petição, o profeta pede ao Se­ nhor que faça conhecido ao crente o programa e plano que ele desig­ nou. Do mesmo modo que Habacuque agonizara no processo de enten­ der os misteriosos caminhos de Deus, e finalmente encerrara seu caso, à luz da revelação que lhe fora fornecida, também intercede em favor de outros, para que o Senhor lhes dê a compreensão necessária, para que sobrevivam em meio à calamidade.


HABACUQUE 3.2-15

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Finalmente, o profeta roga: em (o tempo de) tremor, lembra-te da misericórdia. O temio traduzido por tremor {wgez) não significa es­ sencialmente “ira”, como é costumeiramente traduzido (“Na ira, lem­ bra-te de misericórdia” —AV, NASB, NIV). Em vez disso, a palavra indica um estado de agitação, excitação ou perturbação. O termo na forma do verbo “tremer” é preeminente em todo o poema, ocorrendo nada menos que quatro vezes (v. 2,7,16). Neste versículo, posto em paralelo com a frase em (o) meio de (os) anos, caracteriza o tempo em que esta oração de Habacuque deveria funcionar. É um tempo de per­ turbação e agitação, um tempo em que os fundamentos devem ser sacu­ didos. O próprio povo de Deus iria para o exílio. Tremor deveria carac­ terizar inclusive as instituições humanas mais estáveis. Em tal circunstância, o profeta ora para que o Senhor se lembre de ser misericordioso. Pois nada, a não ser a misericórdia imerecida de Deus. poderá garantir o sustento do povo sob esses estresses. E assim as petições do profeta têm três objetivos: que o Senhor preserve a vida, que o Senhor proveja entendimento e que o Senhor se lembre da misericórdia. Somente a iniciativa da graça divina se prova­ rá suficiente sob circunstâncias calamitosas que o crente há de enfrentar. B. O PROFETA VISUALIZA DEUS, O SALVADOR, VINDO EM TODA SUA GLÓRIA (3.3-15)

Tendo oferecido sua petição, o profeta agora volta seus olhos para o passado e para o futuro, donde ele vê o Senhor vindo em toda sua glória. Ele visualiza a salvação vindo no meio de fenômeno cataclísmi­ co associado com teofanias. Mas, por que é que salvação seria seu tema? O juízo de Deus sobre Judá (1.5-11) e sobre a Babilônia (2.6-20) fora a mensagem que inspi­ rara a reverência original na mente do profeta. E verdade que o juízo fora central no diálogo de Habacuque com o Todo-Poderoso. Mas toda a tese havia sido a salvação para o próprio povo de Deus no contexto de juízo. O justo viverá, ele sobreviverá ao desabamento de impérios e ao povo à sua volta. Porventura Habacuque está falando sobre o passado ou o futuro à


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HABACUQUE 3.3-15

medida que descreve a vinda de Deus em toda sua glória? Sem dúvida, ele utilizou numerosas manifestações da glória de Deus no passado, na história de Israel. Agora, porém, ele repete o passado para lembrar o modo como Deus agira previamente ou estaria predizendo o que iria suceder no futuro, empregando uma linguagem descritiva do passado? Vários exegetas têm se diligenciado muitíssimo em resolver essa questão. Keil observa a forma imperfeita do verbo inicial da seção {Eloá vem [ou virá] de Temã, v. 3), porém conclui que a perspectiva fliturística deste verbo “não descreve o que é futuro, como sendo abso­ lutamente futuro, mas algo que se descortina progressivamente do pre­ sente para adiante, que devemos expressar pelo uso do tempo futuro”.' Rudolph tenta distinguir entre as referências do passado e futuro com base na experiência da visão do profeta propriamente dita, o que já havia ocorrido, em contraste com a realidade do evento que ainda está no futuro.^ Mas esses tipos de distinção forçam o texto a ir além do razoável. O mesmo tipo de avaliação também pode aplicar-se ao esfor­ ço de identificar precisamente, em cada ponto, o livramento histórico e específico a que o profeta se refere. Uma colagem, uma coleção de muitas imagens para dar a impres­ são tanto de esperança passada quanto futura é o instrumento do profe­ ta. O cântico de Moisés, de Débora, de Davi se funde com o fim de fornecer um arcabouço para a antecipação do futuro. Por meio de tal método, Habacuque não anula a história da realidade da vinda de Deus para salvação. Em vez disso, ele pinta a realidade do ponto de vista da manifestação futura de Deus mediante a recordação de muitos exem­ plos concretos de sua intervenção na história passada. Ele não coloca a vinda de Deus no âmbito do infinito, porém força seus leitores a aprecia­ rem a magnificência e iminência de sua aparição novamente. Terá o profeta fugido do âmbito da oração para volver-se a esta descrição da vinda de Deus em toda sua glória? Não, pois a realidade da vinda de Deus no passado e no futuro fornece a base para a fé que garante vida àquele que ora e espera. Em vez de deixar sua petição meramente pronunciada, o profeta fornece um arcabouço de fé que o 1. Keil. p. 97,98. 2. Rudolph. p. 241.


HABACUQUE 3.3-7

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susterá, bem como aqueles suplicantes que se lhe reunirão ao longo dos tempos. O Senhor vem e o Senhor está vindo. Portanto, todo o que espera pacientemente por ele viverá. A parte central da oração pode ser dividida em duas seções: (1) a glória do Senhor em sua vinda (v. 3-7); (2) o diálogo com o Senhor em sua vinda (v. 8-15). Esta divisão segue a distinção natural no texto, no qual o profeta primeiro se refere a Deus na terceira pessoa e depois se dirige ao Senhor na segunda pessoa. /. A glória do Senhor em sua vinda (3.3-7) 3 a Eloá h de Temã c vem, a e o Santo b do Monte Parã. Selá.' a Seu esplendor b cobre c (os) céus, a eseu louvor b enche c a terra.^ 4 a E seu fulgor b é como a luz; a chifres b (procedem) de sua mão. A li (está) o esconderijo de seu poder.^ 1. O setá que ocorre três vezes neste poema de Habacuque aparece somente aqui e nos Salmos. A função precisa do termo é ainda obscura. Mas ele indica que o poema de Habacuque foi incorporado no culto em Israel. 2. O paralelismo corresponde ao hebraico, mas a ordem das palavras foi mudada para conformar com o modo de expressão em inglês. 3 .0 versículo literalmente diz: “E seu brilho como luz será; chifres de sua mão (são) para ele; e ali (está o) esconderijo de sua força”.


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HABACUQUE 3.3-7

5 a Adiante dele b vai c a praga: c e uma pestilência ardente h segue adiante a em seus pés. 6 a Ele se ergue b e mede* c (a) terra. a Ele olha b e assusta c (as) nações, a Elas são dispersas — b os montes eternos; a eles se encurvam b as colinas eternas. (Mas) suas saidas (são) eternas. 1 a Em agitação^ b vejo c as tendas de Cttsã; c as cortinas da tenda da terra de Midiã a estão tremendo.^ De maneira muitíssimo dramática, o profeta descreve o próprio processo da vinda do Senhor em toda sua glória, e os efeitos incríveis que essa vinda exerce sobre a natureza e as nações. Enquanto o Se­ nhor, em toda sua glória, chega mais e mais perto, os efeitos de sua presença se tomam mais e mais dramáticos. 4. Keil, p. 101, rejeita o conceito de Deus “medir” com seu olho. Ele sugere, em vez disso, que o verbo m Sdad ou m ú d seria uma forma variante de m ût, indicando que Deus põe a terra em movimento cilíndrico. 5. O termo traduzido por “aflição” ("Bwen) mais frequentemente significa “iniquidade” . Mas em passagens como Provérbios 12.21 (“nenhum agravo virá ao justo”) evidentemente não pode significar “pecado”. No contexto de Habacuque 3.7, “aflição” é a melhor opção. 6. A ordem das duas últimas linhas foi invertida para dar melhor expressão na língua inglesa.


HABACUQUE 3.3-7

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3a. É notável o ponto de onde Deus começa sua aproximação. Não é dos céus, mas de locais muito concretos da terra. Ele vem de Temã e de Parã para exibir sua glória. O poema começa com uma referência a Deus como Eloá, usando uma forma poética antiga do nome de Deus.’ Mas quando o profeta começa a dialogar com Deus, em vez de observá-lo em sua vinda, ele se lhe dirige como Yahweh (v. 8), o Deus da aliança. Ao alcançar a resolução final das pelejas de sua fé, o profeta fala de Yahweh Acionai (v. 19), expressando sua submissão ao senhorio deste grande Deus que homologou sua fidelidade pactuai. A surpreendente revelação sobre esse Deus é que ele realmente vem iyãhô’). Pelo uso desta expressão, Habacuque reflete a substância da visão anterior que lhe fora dada em resposta à sua queixa. Foi-lhe dito que, a despeito das calamidades esmagadoras, ele deve aguardar o tem­ po determinado da revelação, porque certamente virá (èõ’ yãhõ’, Hc 2.3c). Mas esta expectativa da “vinda” de Yahweh retrocede aos tempos das antigas palavras de Moisés quando refletiu as glórias da manifesta­ ção de Deus no Sinai. Moisés começou sua profecia a respeito das tribos de Israel observando que: O S e n h o r veio do Sinai (m issinay bã’)... Ele resplandece desde o monte Parã (Dt 33.2). A ênfase sobre a vinda do próprio Deus como a fonte de esperança para o povo do Senhor encontra apropriadamente sua expressão con­ sumada nas Escrituras da Nova Aliança. Os crentes sofredores são en­ corajados a reter bem sua profissão de fé, visto que “aquele que vem virá e não tardará” (Hb 10.37). Ao longo de todas as eras, somente a esperança da vinda do Senhor pode dar certeza genuína a seu povo. Segundo Habacuque, o Senhor vem de Temã e cio Monte Parã. Por meio dessas designações, o profeta retrocede aos passos mediante os quais Deus guiou Israel á posse da terra. Os dois locais designam apro­ ximadamente os limites da jornada de Israel no deserto. Temã é 7. Eloá ocorre 4 1 vezes no livro de Jó e 16 vezes no restante do Antigo Testamento, incluin­ do uma vez em Habacuque 1.11.


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HABACUQUE 3.3-7

geralmente associada com Edom (cf. Ob 9; Am 1.12), ainda que tam­ bém possa referir-se ao “sul” em termos mais gerais (Js 12.3; Is 43.6; Zc 9.14). Parã designa a área do deserto, na região do Sinai e do Egito (cf. Gn 21.21; 1Rs 11.18; Dt 33.2), ainda que também possa referir-se a Cades (Nm 13.26) ou ao território próximo da fronteira setentrional de Judá (ISm 25.5). Seja como for, Habacuque descreve Deus em movimento do Sinai até Edom a caminho para a posse da terra para seu povo. Habacuque lembra a experiência passada de Israel como um meio de prevenir a intervenção do Senhor no futuro. Mas agora, nos dias de Habacuque, o próprio Israel de repente se toma um obstáculo no caminho do movimento divino para dar salva­ ção a seu povo. Visto que Israel tem agido de um modo persistente­ mente perverso, eles devem ser removidos do caminho ao longo do qual Deus realiza propósitos redentores. Justamente como diz Habacuque, o Deus de Israel é o Santo. E este Santo que vem do monte Parã. Essencial a seu caráter é sua recusa de ser um respeitador de pessoas que toleram o mal. Numa grande expres­ são de fé, Habacuque previamente se dirigira ao Senhor como “meu Santo”, aquele que lhe assegurou que o povo de Deus não morreria a despeito da prevalecência da injustiça na terra (Hc 1.12). Com o Santo, ele manteria a justiça com perfeita imparcialidade. No Sinai, Israel ouvira que tinham de ser santos, porque o Senhor era santo (Lv 11.44-45; 19.2). Visto que ele os separara de todos os outros povos da terra, eles deviam ser santos (Lv 20.26). Na época depois da renovação da aliança, Josué disse a Israel que não podiam servir ao Senhor, porquanto este é um Deus santo e se voltaria e os consumiria caso o abandonassem (Js 24.18-20). Agora Habacuque vê a justiça e a santidade de Deus em ação. Com imparcialidade, ele atingirá primeiro os perversos em Israel e depois os babilônios ímpios. E assim ele será estabelecido como o Santo que Vem. Quão impressionantes teriam sido as novas palavras pactuais de Pedro quando declarou à sua geração israelita: “Vós, porém, negastes o Santo e o Justo” (At 3.14). Ao rejeitar Jesus Cristo como “Aquele


HABACUQUE 3.3b-4

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que Vem” {ho erchómenos - Mt 11.3), Israel selou seu destino para uma destruição ainda mais espantosa que as devastações realizadas pelos babilônios. O restante desta seção (v. 3b-7) desenvolve a extensão (v. 3b), a intensidade (v. 4) e os efeitos da glória de Deus (v. 5-7) durante sua vinda para prover salvação para seu povo. 3b. Quando o profeta antevê a vinda do Senhor em glória, ele pri­ meiro visualiza de longe a magnitude daquela glória. A majestade de Deus cobre os céus acima, e seu esplendor permeia a terra.® O profeta não se refere à glória de Deus que naturalmente é refletida na criação (cf SI 19.2 [Eng. 1]). Em vez disso, ele fala da glória particular irradi­ ando das teofanias de Deus enquanto liberta seu povo. Sua glória se manifesta particularmente naqueles pontos cruciais da história, quan­ do Deus intervém para salvar seu povo. Os espectadores desse livra­ mento testemunham quando a glória de Deus permeia todo o universo criado. Essas manifestações passadas, numa escala limitada, podem ser consideradas como antecipações da grande epifania fmal da glória de Deus, quando o Filho do Homem vier nas nuvens, acompanhado pela luz do relâmpago faiscando do oriente ao ocidente (Mt 24.27). Então, todo olho 0 verá, e a visão de Habacuque receberá seu cumprimento fmal. 4. De longe, o profeta viu a glória de Deus enchendo toda a terra. Agora 0 Todo-Poderoso chega mais perto; ele pode ver aqueles pontos de concentração nos quais a essência da glória de Deus se situa. Em vista das limitações da experiência e linguagem humanas, a indescritível glória de Deus só pode ser retratada em termos de valor relativo. Somente num sentido relativo é que o finito pode compreender o infinito.

8. A passagem diz litcralmenie: “Seu louvor enche a terra”. Nesse caso, não significam litcralmente atividades de louvor que enchem a terra. Ao contrário, a palavra louvor aponta para os atributos de Deus que sâo dignos do louvor espontâneo de toda sua criação. Cf. Ex 15.11, que fala de Deus como “terrivel” em (atributos dignos de) louvores.


284

HABACUQUE 3.4

O elemento mais puro, mais brilhante do universo criado é a pró­ pria luz. Então 0 profeta declara que Deus, em sua vinda, é como a essência da luz. Anteriormente Davi usara esta mesma imagem a fim de representar a vinda de Deus em resplendor e luz para destruir todos os seus inimigos (2Sm 22.13). Assim como os raios do sol penetram toda a terra com seu brilho, também Deus, em sua vinda, irradia uma glória como a da luz mais pura. “Deus é luz”, dizem as Escrituras da Nova Aliança (IJo 1.5), e assim esta mesma tradição continua a comunicar as perfeições da gló­ ria divina. Com uma metáfora idêntica, as Escrituras da Nova Aliança exaltam a glória de Deus, descrevendo-o como aquele “que habita em luz inacessível” (1 Tm 6.16). Contudo, esse Deus glorioso se achega ao homem. À medida que ele se aproxima, a concentração de sua glória é vista nos chifres ou “raios” que (procedem) de sua mão. O chifre naturalmente simboliza a concen­ tração de poder, literalmente em termos do chifre do animal de carga, ou figurativamente em termos de um raio de luz emitido de sua fonte. A alusão de Habacuque às tradições passadas de Israel é bastante clara. Ele retrata a glória da vinda de Deus em termos da glória passada associada à teofania do Sinai. Da mesma maneira, quando Moisés des­ ceu do monte, sua face “brilhava”, que é o único lugar nas Escrituras em que este termo particular é usado para descrever o brilho dos raios de luz (cf Ex 34.29-30,35). A relação da imagem usada por Habacu­ que com a manifestação da glória de Deus no Sinai é vista mais ainda por meio de comparação detalhada com Deuteronômio 33.2; a O S enhor b do Sinai c veio (6 s’) c e alvoreceu b de Seir a sobre eles. Ele resplandece do Monte Parã; e ele veio (’ã^á)


HABACUQUE 3.4

285

com as miríades de seus santos. De sua mão direita (procedeu) uma lei ardente para eles. A frase traduzida por “lei ardente” que procedeu da mão direita de Deus é de significado incerto.’ Mas os paralelos com Habacuque são claros na vinda de Deus desde o Sinai e Seir, seu “esplendor”, sua manifestação de santidade. Neste contexto, a referência a alguma coi­ sa, seja qual for, proveniente da “mão (direita)” (yãmin em Deuteronômio;yõc( em Habacuque) do S e n h o r acrescenta um ponto adicional de comparação.'® De qualquer modo, a concentração de poder e luz na mão de Deus no momento de sua chegada enfatiza sua prontidão a pôr-se em ação em prol de seu povo. Ele não aparece simplesmente como um espectro brilhante a inspirar terror entre todos os que testemunham sua apari­ ção. Ele vem como uma pessoa ativa, poderosa e maravilhosa, que labuta para estabelecer sua supremacia entre as nações. Pelo uso de uma imagem notável, o poeta estendeu a imaginação humana ao descrever os efeitos do poder e da glória de Deus. Ali (está) o esconderijo de seu poder! ele exclama. Raios de glória inatingíveis que brilham de sua mão; qual, pois, não será a natureza deste poder e glória ocultos em seu punho fechado! A exclamação, ali!, aparece frequentemente na poesia hebraica para designar um ponto vividamente captado pela imaginação (cf. SI 14.5; 36.13 [Eng. 12]; 48.7 [Eng. 6]; 66.6; Os 6.7; Sf 1.14). Ali, em sua mão, o ponto do qual saem aqueles raios gloriosos - ali reside o poder ilimi­ tado do Todo-Poderoso." Esse poder, essa glória, estariam ocultos, por causa das limitações dos seres humanos finitos. Da mesma maneira que ninguém pode olhar 9. A frase hebraica é obscura. BDB. p. 206, identifica o termo dãt, como uma palavra usada “apenas no período persa”. 10. Esta luz que brilha da mão do S enhor poderia ser a luz de relâmpagos. Ou a referência podería ser aos raios de luz que brilham pelo céu quando o sol nasce. 11. A frase hebraica poderia também ser traduzida por “onde fica o esconderijo de seu poder”, como na NIV. Mas a tradução mais dramática se encaixa melhor no contexto.


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HABACUQUE 3.5

diretamente para o brilho do sol, só observando cuidadosamente o bri­ lho de sua glória, também a glória e o poder de Deus estariam velados. Pois ele habita em luz inacessível (ITm 6.16). 5. Havendo descrito algo da glória de Deus em sua essência en­ quanto vem libertar seu povo, o profeta agora descreve os efeitos que acompanham a manifestação da glória de Deus. E significativo o fato de que esta fonte irradiadora de luz está se movendo. A medida que Deus vem como luz personificada, ele traz a força penetrante e destru­ tiva do juízo divino. Mesmo antes de Deus chegar, a terra é assustada por praga. Referências a praga no AT se enfeixam principalmente em tomo dos eventos do êxodo e da profecia de Jeremias. No último caso, o profeta anuncia a destruição de Judá por causa de sua persistência no pecado (cf. Jr 14.11-12; 21.6,9; 24.10; 27.8,13). Ao declarar este flage­ lo futuro sobre a terra, o profeta apenas ecoa as maldições pactuais como ameaçadas outrora (Lv 26.25; Dt 28.21-22). A vingança pactuai vem sob a forma de praga que devora os inimigos de Deus Juntamente com todas suas possessões. Então Habacuque, ao decidir expressar-se em termos das antigas maldições pactuais, fornece evidência de que ele se reconciliou com a justiça de Deus que devastava seu próprio povo, como lhe fora revela­ do pela resposta inicial de Deus à sua queixa (Hc 1.5-11). Esta aceita­ ção dos justos desígnios de Deus encontra expressão mais completa nos versículos finais do poema (3.17-19). A teofania em seu avanço deixa um traço de destruição após si. Se as pragas o precedem, a pestilência abrasadora marca a vereda que ele seguiu. O termo “pestilência abrasadora” (reSep) tem um sig­ nificado básico de “queimar”,'^ e pode pressupor a figura de faíscas evolando enquanto os pés do Senhor pisam a terra. De qualquer modo, a vinda do Senhor é uma visão aterradora de se ver. Quanto mais perto ele chega mais amedrontador parecem ser as consequências de sua aproximação. 12. Rudolph, p. 234, observa este signiricado básico, mas opta pela tradução de “pesti­ lência”.


HABACUQUE 3.6

287

6. Agora o Senhor realmente chega. As manifestações de sua che­ gada foram vistas a distância em termos de irradiação de sua glória enchendo a terra. Mas agora o Todo-Poderoso chega e se toma eviden­ te que ele não é simplesmente um fenômeno para ser observado. Como um grande colosso que se eleva acima dos cumes dos mon­ tes, o Senhor Deus mede a terra, reivindicando o direito de domínio inerente em si mesmo como Criador. Com um relanceio de olhos, ele manifesta sua soberania em repartir territórios (cf SI 60.8 [Eng. 6]). Seu olhar assusta (as) nações. Do mesmo modo que o gafanhoto pula repentinamente com suas pernas desproporcionais, também as nações inteiras pulam assustadas quando de repente se tomam cônscias de que o Senhor chegou (cf o uso do mesmo termo em Lv 11.21 ). Judá, Babilônia e os sucessores de Babilônia permanecerão para sempre su­ jeitos à vontade do Senhor. Ao realçar o significado cósmico da vinda do Senhor, Habacuque descreve o efeito de sua chegada nas massas mais fundamentais da criação. Primeiro, os montes eternos surgem do abismo de águas, que ainda servem de estabilizadores do mundo (cf Gn 1.9). Desde o alvo­ recer da criação, eles permaneceram resolutos englobando a terra até hoje. Eles dizem às profundezas do oceano: vocês podem ir até este ponto; mas não além dele (ver SI 104.9). A vista do Senhor, porém, essas estruturas maciças são esmigalhadas como se atingidas por uma marreta gigante; elas se mostram frágeis como argila. Os outeiros eter­ nos rastejam no pó, achatados perante a majestade do Senhor. Em contraste com a temporalidade comprovada das estruturas fun­ damentais da presente criação se põe a estabilidade eterna do Senhor. O profeta deliberadamente coloca o eterno em mútuo contraste: os outeiros eternos {'ôlãm) se curvam, mas (até mesmo) as saídas do Se­ nhor são eternas {'ôlãm). Os movimentos do Senhor assumem um ca­ ráter imutável em virtude da permanência de seu efeito. Em outros lugares, o salmista fala das “procissões” {hHíkôt, lite­ ralmente, “saídas”) de “meu Deus, meu Rei”, ao descrever as ações do Senhor enquanto procede ao esmagamento de todos os seus inimigos (SI 68.25 [Eng. 24]). Seu padrão de atividade tem sido consistente ao longo dos tempos. Sem parcialidade, ele aparece no tempo certo para estabe­


288

HABACUQUE 3.6-7

lecer justiça em toda a terra. Ele vê, mede, vem e aplica sua vontade soberana. As imagens empregadas por Habacuque atingem um clímax de re­ alização na perspectiva da Nova Aliança. Não só os outeiros se curvam perante sua glória; os elementos mais essenciais do universo se dissol­ vem em calor abrasador (2Pe 3.10). O Senhor mesmo descerá no glorioso esplendor das nuvens e todo olho o verá (Ap 1.7). A imparcialidade de seus juízos se manifestará por toda a eternidade. 7. Agora o profeta se toma mais específico em sua descrição dos efeitos da chegada de Deus. Primeiro ele falara do abatimento dos montes à sua aparição e a reação das nações aterrorizadas, em geral (v. 6). Ele antevê o efeito concreto nas nacionalidades, em particular, as quais Israel confrontara no passado. Basicamente, existem duas possibilidades com respeito à identifi­ cação de Cusã e Midiã. A referência poderia ser a duas tribos nômades associadas de um modo geral à península do Sinai e à automanifestação de Deus naquele ambiente. Ou a alusão poderia ser a dois opresso­ res anteriores de Israel depois de seu estabelecimento na terra de Canaã. Pode-se entender Cusã como uma forma expandida do nome “Cuxe”, semelhante à expansão de “Ló” para “Lotâ”, em Gênesis 36.20. Consequentemente, “Cusã” poderia referir-se à terra da Etiópia. Esta interpretação é endossada pela tradução de Cusã como Aithio/mn (Eti­ ópia) pela LXX. Por outro lado, “Cuxe/Cusã” poderia referir-se a uma tribo beduína da península do Sinai que teria sido vizinha de “Midiã”, menciona­ da em Êxodo 3.1. A este respeito, pode-se observar que a esposa midianita de Moisés (Êx 2.21; 18.2) é aparentemente chamada de uma cuxita em Números 12.1.'^ O problema maior com esta segunda identificação de Cuxe com Midiã é que ela viola o avanço da descrição da vinda de Deus do Sinai para a Palestina. A questão toda dos versículos anteriores tem sido a insistência de traçar o progresso da teofania à medida que sua glória se 13. Esta visão é apoiada por Rudolph, p. 244; Keil, p. 102; Laetsch, p. 346.


HABACUQUE 3.7

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move rumo aos picos do Sinai. Agora Deus fmalmente chegou e come­ çou sua obra espantosa de realizar o juízo sobre as nações. Embora o termo Ciisã não apareça fora de Habacuque 3.7, ele apa­ rece em uma frase composta “Cusã-Risataim” em Juizes 3.8-11. Na­ quele contexto, Cusã surge como o primeiro opressor de Israel enviado por Deus para castigá-los por causa de seu pecado. Por esta razão, a referência é bastante apropriada. O problema que Habacuque tinha de enfrentar era o prospecto de uma invasão punitiva por uma potência estrangeira. Agora, pois, enquanto antevê esse futuro sombrio, ele pode sentir-se encorajado ante o fato de que, no final, o Senhor veio dar a seu povo libertação da opressão. Além do mais, pode-se observar que esta nação em Juizes é identificada como vindo de Aram-Naharaim, isto é, “Arã dos dois rios”. Esta identificação tem algum sentido, por­ que logo no versículo seguinte Habacuque faz a pergunta retórica: “é contra os rios. S e n h o r , que estás irado? E contra os ribeiros tua ira... ?”. A colocação da questão deste modo preciso podería ter a intenção de trazer à memória o antigo conflito do Senhor com “Cusã... dos dois rios”. A referência às cortinas da tenda da terra de Midiã poderia ter a intenção de ecoar um aspecto distinto da confrontação do Senhor com os opressores invasores midianitas nos dias dos juizes. Como se pode bem lembrar, Gideão ouviu um midianita falando ao outro sobre seu sonho no qual um pão de cevada rondava contra o arraial dos midiani­ tas, e deu de encontro com a tenda do comandante, e ele caiu (Jz 7.13). O “tremular” das cortinas das tendas desses invasores opressores res­ salta a transitoriedade da dor que porventura inflijam ao povo de Deus, seja ela qual for. Eles podem estar aqui hoje, mas amanhã terão desa­ parecido. Este confronto em particular com Midiã se tornou o arcabouço dos pronunciamentos proféticos antes de Habacuque (cf. Is 9.3 [Eng. 4]; 10.26; 60.6). Este fato acrescenta mais apoio à ideia de que era esta Midiã em particular que mais provavelmente se encaixava na profecia de Habacuque. A colocação que o profeta faz dos castigos antecipados contra Israel em termos de sua experiência passada com Cusã-Risataim e com Mi-


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HABACUQUE 3.8-15

diã indica que Habacuque finalmente aceitara o fato de que um juízo punitivo mais severo deveria sobrevir a Israel por causa de sua persis­ tência no pecado. Mas ele nunca perdeu a esperança de que o remanes­ cente sobrevivería, pois ele tinha recebido o sinal de que “o justificado (pela fé) viverá por sua sólida confiança”. Não importa quão temíveis seriam os terrores infligidos pelos invasores babilônios. Habacuque fora levado a um ponto de esperança que não podia ser abalada. As estruturas de todos os reinos opressivos iriam tremer sob a aflição. Mas ele possuía cidadania num reino que jamais será abalado (cf. Hb 10.29-30). 2. Diálogo com o Senhor em sua vinda (3.8-15) 8 Acaso é contra os rios, que o Senhor se enfurece? Em relação aos rios (é) tua ira? Em relação ao mar (é) tua ira? que cavalgas em teus cavalos, teus carros de salvação? 9 Tu distendes plenamente teu arco; as varas da batalha são usadas por juramento. Selá. Com rios Tu fendes a terra. 10 Os montes te veem — eles fogem. Tempestade de águas transborda. O abismo faze ouvir a sua voz; ele ergue suas mãos para o alto. 11 Sol, lua param em suas sublimes moradas;


HABACUQUE 3.8-15

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à luz de tuas flechas eles fulgem, ao brilho de tua lança lampejante. 12 a Em indignação, b tu marchas pela terra; a em ira, b tu trilhas as nações. 13 Tu sais para (a) salvação de teu povo, para salvação com teu ungido. Tu esmagas (o) chefe da casa (de) o perverso, pondo a descoberto' (desde) o Jundamento até o pescoço. Selá. 14 Tu feres com tuas (próprias) varas o chefe de tuas multidões.~ Eles se enfurecem com o intuito de me dispersar. Seu regozijo (é) como os que devoram o pobre em secreto. 15 Tu pisoteias o mar com teus cavalos (entre) os vagalhões de muitas águas. 8. A transição entre a vinda de Deus e a presença de Deus de fato transparece pelo discurso do profeta dirigido a Deus inicial­ mente na terceira pessoa, e logo na frase seguinte na segunda pes­ soa; acaso é contra os rios que Yahweh se enfurece? Em relação aos 1. 'õrôt é uma forma rara de infinitivo absoluto Piei de 'Brá. Cf. GKC, § 75n. 2 .0 caráter descrito como de horda do inimigo em Habacuque é representado pelo termo p^rBzBw. Embora alguns dos tradutores antigos tenham traduzido o termo como “guerrei­ ros” ou “dinastias” (Vulgata e LXX), o uso dos termos relacionados aponta para as multi­ dões que viviam em tendas nas planícies abertas, em distinção do número mais restrito que vivia cm cidades muradas (Dt 3.5; Jz 5.7,11; ISm 6.18; cf. Ez .11).


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HABACUQUE 3.8

rios é tua ira? Ele continua dirigindo-se a Deus como “tu” até o final desta seção (v. 15). Por que o profeta prevê as manifestações da glória de Deus por meio de seu efeito sobre os rios e o marl Estaria ele tentando descrever a recorrência da antiga peleja de Deus com o abismo caótico?^ A ausên­ cia de referência a rios nas seções das Escrituras que supostamente fa­ zem alusão a este conflito original argumenta contra a conclusão de que 0 profeta estaria pensando nesta direção. Em vez disso, a concentração no tema da salvação do povo de Deus indica que a intervenção divina não pende na direção de batalhas mitológicas com o caos, mas com inimigos reais enfrentados por seu povo. A referência aos rios e ao w ar constrói uma montagem de livramen­ tos passados para descrever a ação de Deus no futuro. Um rio frequen­ temente serve como uma fronteira territorial. Portanto, ferir os rios pres­ supõe movimentos na direção da posse mais plena das promessas de Deus. O Senhor atingira o Mar Vermelho, o rio Jordão e o rio de Kishon. Em cada caso, ele fizera seu povo chegar mais perto da plena posse das promessas relativas à terra. É possível que o rio Eufrates fosse visto como o objeto futuro da ira de Deus. Enquanto os babilônios vinham para amontoar juízo sobre o povo de Deus, eles deviam esperar uma retaliação fantástica da parte daquele mesmo que ferira rios e mar no passado. O conglomerado de palavras empregadas para descrever a ira de Deus corrobora a solenidade desta hora. Mais de 170 vezes, o furor ( ’ap) de Deus é mencionado no AT. Sua ira {'ehrâ) cumula vingança sobre seus inimigos. O S e n h o r se enfurece (hãrâ) algumas vezes por causa de pecados simples, como queixas ou ciúmes (Nm 11.1,10; 12.9). A manifestação consumada da ira de Deus deve ocorrer nos fins do tempo, quando os mensageiros angélicos de Deus derramarem uma vez mais as taças da ira de Deus sobre o “mar” e os “rios” (Ap 16.3-4). As fontes de água deverão converter-se em sangue (16.4), e o rio Eufrates deverá secar (16.12). No contexto do Apocalipse, os juízos antecipados de Deus são descritos em imagens que lembram a ira de Deus como 3. Cf. Rudolph, p. 244.


HABACUQUE 3.8

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manifesta contra o Egito e a Babilônia. Ele manifestará sua ira contra o wfl/- (Egito) e os rios (possivelmente incluindo a Babilônia) converten­ do as águas em sangue (Egito) e secando o Eufrates (Babilônia). De qualquer modo, o livro do Apocalipse descreve as mesmas interven­ ções judiciosas encontradas nas previsões proféticas de Habacuque. Os atos redentores de Deus do passado fornecem a base para uma ex­ pectativa com respeito ao futuro. Notável é o fato de que Habacuque agora funde as imagens de Juízo e salvação em sua antecipação do futuro. Embora seja o próprio Israel o principal objeto do juízo iminente de Deus, o profeta recon­ quistou seu equilíbrio e entendeu que mesmo neste evento terrível o Senhor estaria prosseguindo com seus propósitos de redenção. Deus cavalga seus cavalos e seus carros para salvação. Que cavalgas teus cavalos, teus carros de salvação. Esta imagem dramática de Deus cavalgando como um guerreiro poderoso e carros para a conquista do inimigo aparece regularmente nas tradições de Is­ rael. Suas raízes podem ser remontadas a alguma imagem de Baal ca­ valgando as nuvens nos materiais ugaríticos.'* Embora seja possível al4. Vários esforços foram feitos para relacionar este material a uma tela dc fundo mitológi­ ca. J. L. Crenshaw, “Treading on the Heights o f the Earth", CBQ 34 (1972) 50,52, assevera que a tela de fundo ugaritica é pronunciada em pelo menos um ponto, mas ele crê que a linguagem mitológica é apenas metafórica. W, A. Irwin, “The Psalm os Habakkuk”,2/V£'5 I (1942)30, conclui que o texto atual de Habacuque 3 é caracterizado por “imbecilidade abso­ luta, e todas as traduções que o seguem não saem dela”. No “The Mythological Background o f Habakkuk 3”. JNES 15(1956) 48-49, ele argumenta contra a visão de que o mito cananeu serve como fundamento primário para este capítulo, e postula que em vez disso é o mito babilónico de Enuma Elish que explica o capítulo. Em resposta à crítica de W. F. Albright, de que suas “emendas drásticas e interpretações forçadas produzem um texto que não corresponde a nenhum dialeto hebraico conhecido, ou forma literária, e que suas inovações podem ser descartadas com segurança” (JBL 6111942] 121), Irwin expressou sua frustração porque não conseguiu nenhuma “ lista dc detalhes”, e observa que ”o máximo que conseguiu dele foi que isto não era nada do que ele pudesse ter dito” (p. 47). Uma amostra das mudanças sugeridas por Irwin no texto pode ser vista em sua proposta de que a frase “banquetcar-sc no pobre” de 3.14 deve ser invertida para que ela indique que o pobre (judeu) é para banquetear-se em Tiamat, o monstro mitológico morto (Irwin, “The Psalm o f Habakkuk”, p. 32). Uma defesa impressiva do MT se encontra em J. H. Eaton, "Origin and Meaning of Habakkuk 3”, ZAW 76 ( 1964) 144-171. No tocante à base mitológica do poema, tais alusões podem ser reconhecidas como sendo baseadas numa hipótese possível, porém não comprovada. Nada


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HABACUQUE 3.8

giima ligação com a imagem extrabiblica, a impregnação deste concei­ to em todas as várias literaturas do AT pressupõe que no tempo de Habacuque os conceitos por trás das imagens tinham sua própria fun­ ção distinta na estrutura da teologia de Israel. Particularmente, no período da monarquia de Israel, a aparição de Deus sobre cavalos e carros já havia se tomado uma figura caracterís­ tica. Depois de longos anos de confrontações frustrantes com os reis de Israel, os carros e cavalos de fogo divinamente enviados carregaram Elias para os céus (2Rs 6.14,17). Parte da preparação de Davi para o lugar de habitação de Deus no meio de Israel incluía uma coleção de ouro “para o carro dos querubins que havia de estender as asas” (ICr 28.18, NASH). Os agentes na intervenção de Deus se posicionavam prontos com veiculos capazes dos mais velozes e eficazes meios de transporte. Nos Salmos e Profetas, Deus também é descrito como tendo a seu dispor cavalos e carros para impor sua vontade soberana (SI 18.11 [Eng. 10]; 68.18 [Eng. 17]; Is 66.15; Jr4.13; Ez 1.15ss.; Zc 6.2-3,6). Essas figuras ecoam a antiga bênção de Moisés (Dt 33.26) e se estenderam naturalmente para descrever a equipagem do rei messiânico que era esperado como aquele que “cavalga prosperamente” em majestade em favor da verdade, da humildade e da justiça (SI 45.5 [Eng. 4]). À medida que Habacuque encara as devastações de um exército estrangeiro, ele descreve a maior ira e o maior poder encontrados nos próprios carros e cavalos de salvação do S e n h o r . Nenhuma nação seria capaz de resistir quando ele viesse executar a salvação de seu povo. Foi de fato um grande passo de fé que permitiu a Habacuque afir­ mar uma expectativa de salvação em vista da revelação que ele havia recebido. As maiores calamidades imagináveis devem sobrevir ao pró­ prio povo do Senhor sob a fonna de invasão babilónica. Contudo, ago­ ra a fé lhe ensina que os propósitos da salvação divina avançaram exa­ tamente através dos meandros dessas circunstâncias. na linguagem do capítulo requer que se encontre uma fonte fora das tradições bíblicas de Israel, e parece muito mais natural identificar o arcabouço de referência em ternios dos gran­ des atos de salvação do Êxodo, como obser\'ado por R. K. Harrison, Intmduction, p. 936.


HABACUQUE 3.8-9a

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De modo semelhante, Jesus Cristo alertou para o aumento de tribu­ lação que iria afligir seu próprio povo na medida em que os fins dos tempos se aproximassem. Mesmo nessas circunstâncias, porém, eles devem ser encorajados a esperar sua aparição nas nuvens, com relâm­ pagos, com o acompanhamento de exércitos militantes dos céus (Mt 24.30). 9a. Este versículo aparentemente inocente tem se sujeitado a um infindável número de contorções interpretativas. Mais de cem diferen­ tes explicações têm sido oferecidas. Tu distendes plenamente teu arco. A conjunção enfática de um subs­ tantivo e um verbo relacionado para descrever o distender seu arco dramatizam esta ação pelo Guerreiro divino se posicionando para o ata­ que contra seus inimigos. O posicionamento do substantivo ('eryâ) antes do verbo (tê'ôr) fortalece o pensamento. Algumas vezes o Se­ nhor revela seu poder de maneira modesta (cf 2Sm 22.36; SI 113.6-7; Is 57.15). Mas agora sua ira é provocada, e ele age com a força total de seus poderes destrutivos. Do mesmo modo que Davi viu o anjo com a espada desembainhada, também Habacuque antevê o Todo-Poderoso pronto para colher a vingança sobre seus inimigos. No lamento dc Jeremias sobre a destruição de Jerusalém, o profeta personaliza o ataque do Senhor contra seu próprio povo. Deus entesou seu arco e mirou seu próprio povo como o alvo de sua seta (Lm 2.4). Mas agora os inimigos do Senhor é que são os objetos de seu ataque. Seu arsenal de armas deve focalizar-se neles (cf SI 7.13-14 [Eng. 12-13]). A dificuldade em tomo da frase seguinte é que cada uma das três palavras hebraicas (S^tu'ôt m aftôt ’õmer) pode ter mais de um signi­ ficado, e a relação gramatical precisa entre uma e outra não é clara.’ Mais plausível é a interpretação oferecida por Delitzsch, “maciçamen­ te argumentada” e corroborada por outros.* 5. S^huôi poderia ser “juramentos”, “aquelesjurados”, ou com uma modificação de ponta “lanças”. ma((ô( poderia ser “tribos” (que são usados), “varas”, “lanças” (que são usadas), ou, n a is especificamente, “bastões (de castigo)” (que são usados), ’õm er poderia ser “uma pal vra”, "um decreto”, ou “um discurso”. 6. J. H. Eat n, “Origin and Meaning o f Ilabakkuk 3”, Z4fE76 (1964), p. 151. Ver também Laetsch, p. 348.


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HABACUQUE 3.9a-10

Varas de batalha (ou lança, bordão) ião usadas por juramento capta o sabor do contexto e combina com o significado básico das palavras. Deus recrutou armas e as empenhou sob juramento para a destruição de seus inimigos. A recorrência da forma plural de varas (maííõyu;) justa­ mente cinco versículos depois, num contexto que requer que uma arma de conflito seja vista, apoia este entendimento. No juramento da aliança como registrado em Deuteronômio 32.4043 ,0 Senhor jurou levantando sua mão aos céus que sua espada e setas consumiriam seus inimigos, vingando o sangue de seus servos e pa­ gando com vingança a seus adversários, enquanto usa de misericórdia para com sua terra e seu povo. Habacuque agora discerne que chegou a hora daquele juramento cumprir-se.

9b-10. Nesse momento se toma óbvio que esse guerreiro que luta pela justiça não é um personagem comum. Suas armas de guerra incluem os elementos primitivos da criação. É bem pouco provável que algum inimigo terreno possa resistir a seus ataques. Com rios tu fendes a terra sugere um súbito e terrível aguaceiro. Mas o que está sendo descrito não é uma tempestade comum. Pois as águas cósmicas das profundezas emitem seu estrondo gorgolejante. Uma tempestade de águas transborda, de modo que até os montes... fogem. A referência a profundezas {i^hôm) reflete as águas que original­ mente cobriam inteiramente a terra (Gn 1.2). Portanto, não surpreende que até os montes busquem escapar do dilúvio iminente. Não apenas na criação, mas na enchente das profundezas {tfhôm) as águas subi­ ram até cobrir a terra (Gn 7.11). Em seu ataque aos inimigos, o Senhor empregaria os elementos mais básicos de sua criação. A menção que se faz de que os abismos erguem bem alto suas mãos busca traçar a ima­ gem das ondas que estendem suas cristas espumantes na direção dos céus, subindo cada vez mais alto para envolver o máximo do mundo dentro de seus domínios. A montagem de imagens do passado, que são empregadas neste momento pelo profeta com o fim de antecipar o ato de juízos divinos futuros, também inclui o triunfo de Deus sobre Faraó no Mar Verme­ lho. Porquanto ali os abismos {t^hõmõt) os cobriram (Êx 15.5). As


HABACUQUE 3.9b-11

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águas se separaram como um monte e as profundezas (t^homot) foram congeladas no coração do mar (v. 8). Embora calamidade e juízo sejam com toda a certeza o tema cen­ tral do poema de Habacuque, ele também colocou esses juízos no arca­ bouço do programa progressivo da redenção divina, a fim de redimir seu povo para si. Sim, mesmo Israel pode ser devastado pela imparcia­ lidade dos justos juízos de Deus. Mas, o fato de que os babilônios por sua vez também sofreriam devastação indica que Deus tem propósitos de continuar sua obra no mundo. E se for verdade que “o justificado viverá por sua sólida confiança”, então a razão para esperança contí­ nua ao longo de todas essas calamidades tem um fundamento sólido sobre o qual construir. 11. Uma manifestação adicional da resposta da natureza ao juízo divino é vista no dramático sol, lua pairam em suas sublimes moradas. A despeito das objeções de alguns, parece mais provável que esta frase tenha a intenção de refletir o “longo dia” de Josué, durante o qual o sol e a lua pararam {'ãmad), permitindo assim que Josué terminasse seu trabalho de juízo sobre os inimigos de Deus.’ Esta alusão acrescenta mais imagens em termos de Deus trazer toda a natureza em subserviên­ cia a seus propósitos redentores. Nesta fabulosa ordem dos fenômenos espetaculares da natureza, o profeta não deixa o leitor ignorar que é o próprio Senhor, em pessoa, que está por trás dos eventos. As montanhas ie veem, inspirando seu recuo servil (v. 10). Tuas flechas e tua lança refulgente levam os pode­ rosos governantes do dia e da noite primeiro a pararem e depois a fugi­ rem aterrorizados (v. 11). Esta linguagem descritiva encontra seu paralelo mais aproximado no Salmo 77.17-21 (Eng. 16-20), como observado por muitos comen­ taristas. De acordo com o salmista, as águas e os abismos viram e tre­ meram. As nuvens derramaram águas e as setas do Senhor relampeja7. O termo z^bulâ indica um “lugar elevado de habitação” para o Sol e a Lua. Keil, p. 108 rejeita a ideia de que a frase poderia referir-se ao longo dia de Josué, visto concluir que este termo não pode referir-se ao estado de paralisação no céu. Mas a frase precedente especifica­ mente descreve “sol” e “lua” como “permanecendo em suas moradas”.


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HABACUQUE 3.11-12

ram aqui e acolá.* Digno de nota, à luz deste paralelismo, é o final do salmo refletindo sobre o fato de que os caminhos do Senhor eram no mar, e Deus guiou o povo como um rebanho pelas mãos de Moisés e Arão (v. 21 [Eng. 20]). Esta conclusão sublinha o fato de que essas descrições dos eventos cataclísmicos se relacionam primariamente com a obra divina de redenção. Por meio dessas atividades, o Senhor prosse­ gue com seu plano de libertar seu povo. 12. Nesse momento, a resposta finalmente começa a emergir em resposta à questão anterior. Seria a ira de Deus contra os rios e o mar (v. 8)? Porventura uma ira irracional contra sua própria criação explica a perturbação entre montanhas e abismos. Sol e Lua? Não, é em respos­ ta à perversidade das nações que o Senhor derrama sua indignação. Como um juízo sobre o perverso, ele vem com toda sua maravilhosa glória e marchas pela terra. A vivida imagem de Deus marchando pela terra implica que o Se­ nhor tem o que pode ser chamado presença. Três, na verdade quatro, coisas são majestosas em sua marcha: o leão, o galo, o bode e o rei contra quem não há rebelião (Pv 30.29-31). Obviamente, este provér­ bio, refletindo a realidade, se aplica à marcha do Rei dos reis. As nações têm tentado derrubar o cetro do reinado de Deus. Mas todos seus esforços são em vão. Pois quando o Senhor age, imediata­ mente se comprova que a terra mal aguenta sua presença, tremendo sob 0 peso de suas pisadas. Notem-se outros exemplos da terra se aba­ lando sob a marcha de Yahweh em Juizes 5.4; Salmo 68.9 (Eng. 8). Em ira tu trilhas as nações. O trilhar {dûs) as nações pelo Senhor se aproxima ainda mais do ponto específico de sua manifestação teofanica. Essas imagens de Deus calcando as populações das nações por suas iniquidades encontram sua expressão histórica no caso do trata­ mento que Gideão deu aos príncipes de Zeba e Salmuna por seu fracas­ so em ajudar seus homens quando perseguiam os midianitas. Em cum­ primento de sua palavra, ele volta e “trilha” {dûs) sua carne com espi­ nhos do deserto (Jz 8.16). Dignas de nota, como paralelo profético a 8. As “setas” aparentemente se referem ao relâmpago. Cf. 2 Samuel 22.1; Salmo 77.19 (Kng. 18); Zacarias 9.14.


HABACUQUE 3.12-13a

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essa declaração de Habacuque, são as palavras de Miqueias um século mais tarde: Levanta-te e debulha, ó filha de Sião, Pois farei de ferro teus chifres; e de bronze tuas unhas e esmiuçarás a muitos povos (Mq 4.13). 13a. A alternância de tempos verbais neste contexto não diferencia as atividades passadas de Deus com intervenções que podem ser espe­ radas no futuro. Ao contrário, o profeta usa esse artifício gramatical para sugerir que os caminhos da ação de Deus no passado podem ser entendidos como indicativos do que ele irá operar no futuro. E por esta razão que os verbos, tanto na forma perfeita quanto imperfeita, em hebraico, foram traduzidos pelo tempo presente, em português. Esse versículo lembra ao leitor, uma vez mais, que o panorama ge­ ral desse poema é em termos da vinda de Deus para seu povo, manifes­ tando sua glória na criação enquanto vem, e sempre com o objetivo último de trazer a salvação. O versículo repete: para salvação, para salvação. Deus não destróí o perverso simplesmente por fazê-lo. Ele o destrói por amor de seu povo. Deus tem um povo especial e o salva de seus inimigos. A introdução súbita de uma referência a teu ungido, neste profeta do século 7®, deve ser reconhecida por sua qualidade distintiva. Contrá­ rio ao que muitos presumem, o AT usa em apenas uns poucos casos o termo messias para referir-se a um futuro libertador.’ Na verdade, o termo aparece somente em outro texto entre todos os escritos profé­ ticos.'“ Portanto, não surpreende a descoberta de que o ungido de Habacuque 3.13 foi interpretado como um plural, referindo-se a Israel corporati­ vamente como o povo de Deus." Esta interpretação é apoiada pelo 9 .0 caso mais claro é o Salmo 2.2. 1 Samuel 2.10 é outra possibilidade. Isaías 61.1 usa a forma verbal dc “ungir” ao referir-se ao Servo do Senhor. São escassos outros usos do termo messias no AT se referindo a um indivíduo futuro. 10. Isaías 45.1 designa Ciro como “messias”. 11. Alguns manuscritos da LXX trazem “para salvar seu Cristo”. Mas outros têm um plural: “seus cristos”.


300

HABACUQUE 3.13a

paralelismo do versículo. Deus age em favor da salvação de seu povo, da salvação de seu(s) ungido(s). Entretanto, vários fatores argúem contra esta modificação de teu ungido. O texto hebraico está no singular e não no plural, e a interpretação deve começar por esta perspectiva. Em ne­ nhum lugar no AT o povo de Deus é chamado ungido do Senhor. Além disso, deve-se dar alguma atenção à introdução da palavra hebraica ‘et (“com”) nesta segunda linha do paralelismo. Embora o termo seja to­ mado como sinal de objeto direto, esta interpretação não explica por que ele é introduzido na segunda linha e não aparece na primeira. Uma explicação preferível é que o termo significa “com” e está apresentando o “ungido” de Deus como que tendo uma relação dife­ rente para a salvação daquela do povo. A salvação divina é para o povo de Deus, mas é concretizada com seu ungido. Mas, quem é esse ungido que deve servir como agente por meio de quem o Senhor realiza sua salvação? Possivelmente o profeta poderia estar antecipando a aparição de um “Davi” ideal do futuro. Visto que os descendentes contemporâneos de Davi dificilmente estavam à altu­ ra de ser um libertador de Deus, o profeta teria sido forçado a basear suas esperanças num futuro, num ungido mais perfeito.'^ Contudo, é possível aceitar outra interpretação como possibilida­ de. A única outra passagem nos profetas que usa o ternio messias se refere a Ciro como servo de Deus quando devasta os babilônios (Is 45.1). Deus irá “abater as nações ante sua face” para destituir reis. Naturalmente, a identificação do “ungido” de Habacuque com Ciro geraria problemas insolúveis na mente de qualquer um que já houvesse se comprometido com uma visão que requer que a referência de Isaías a Ciro devia vir depois de o rei da Pérsia haver aparecido no cenário da história.'^ Mas dada a ausência de um único uso do substantivo messias nos livros proféticos em referência ao Davi''' ideal, e operando com o testemunho externo das evidências textuais do conjunto das Escrituras 12. Rudolph, p. 245. 13. Deve-se também notar que o entendimento da menção que Isaías faz de Ciro, como se originando depois que ele aparece no cenário da história, contradiz o tema central desses capítulos de Isaías, que se centralizam na ideia de desafio para a profecia. 14. Claus Westermann assevera que no AT o termo messias nunca é usado, exceto em


HABACUQUE3.13a-13b

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da maneira como se encontra no presente, pareceria bastante plausível que Habacuque estivesse ecoando esta referência profética anterior a um “ungido”. Além do mais, as circunstâncias dessa referência em Habacuque combinam bem de perto com o papel que Ciro desempe­ nhou na história redentora. Habacuque foi levado a reconhecer que de­ pois de Deus haver julgado seu próprio povo pela mão dos babilônios, ele iria então suscitar outro poder que iria executar justo juízo sobre os babilônios por sua excessiva crueldade. Habacuque finalmente chega a uma conclusão satisfatória de seu estado mental perturbado no hino do capítulo 3 depois de receber a garantia de que o justificado pela fé con­ tinuaria a viver através de todos esses tempos calamitosos nos quais Deus estaria operando seus caminhos justos. Por causa do papel vital que o monarca Ciro estaria operando na consecução final desses eventos, não surpreenderia que Habacuque cha­ masse a atenção para seu papel na obra de Deus. A possibilidade de tal referência teria de pressupor a existência anterior da profecia de Ciro em Isaías. Mas, se as dificuldades da pressuposição comumente associa­ das com tal pré-nomeação puderem ser postas de lado, esta interpreta­ ção combina muito bem com o contexto de Habacuque 3. Ao mesmo tempo, a identificação do messias de Habacuque 3.13 com Ciro não exclui inerentemente uma referência à realização desta “salvação” em termos da vinda do rei libertador messiânico final do povo de Deus. Isaías já havia entrelaçado com sua apresentação de Ciro como o servo libertador (Is 44.24-45.7) um desenvolvimento do tema do Servo Sofredor (Is 42.1-4; 49.1-6). Esses dois libertadores e seus livramentos são intencionalmente dispostos de modo que um deve ser entendido em relação ao outro. Enquanto um servo ungido restaura o povo num sentido político-geográfico limitado, o outro servo ungido restaura o povo no âmbito redentor mais pleno. 13b. Agora se toma evidente que o profeta não está falando mera­ mente em termos hipotéticos. Muito embora sua linguagem seja satu­ rada de recordações e livramentos do passado, ele olha para uma ação relação a um monarca reinante {Isaiah 40-66, OTL, trad. D. M. G. Stalker [Filadélfia; Westminster, 1969], p. 159). Mas ele minimizou o uso numa passagem como Salmo 2.


302

HABACUQUE 3.13b

específica no futuro. Deus esm agará o chefe (literalmente “cabeça”) da fam ília (literalmente “casa”) do perverso (rãSã'). Desnudando (desde) o fundamento até o pescoço. Esta porçào do versículo tem se sujeitado a uma grande variedade de interpretações. Qual é esse fundamento que é desnudado? Qual o significado de desnu­ dar um fundamento até o (ou para baixo do) pescoço? A perplexidade ante esta imagem força um reexame da referência ao chefe da família. A imagem de esmagar “o cabeça de uma casa (ou família)” pode ser interpretada por sua ligação com a figura de desnudar um fundamento. Nesta construção, cabeça da casa se refere mais naturalmente a seu telhado, em contraste com o fundamento da casa.'* Entretanto, o uso bíblico da frase “o cabeça da casa” aponta para outra direção. A frase ocorre mais frequentemente em relação ao chefe de uma família (Êx 6.14; Nm 7.2; 17; 18; Js 22.14; ICr 5.24; 7.7,9). Mais apoio para esta interpretação se encontra no próprio versículo seguinte de Habacuque 3, o qual usa o mesmo termo (rõ ’S) para refe­ rir-se ao chefe ou líder do perverso. Portanto, o profeta tem em mente a família do perverso que tem um chefe estabelecido com o propósito de liderar sua família em opo­ sição ao povo de Deus e aos propósitos redentores do Senhor. Esse chefe é o principal objeto da ofensiva do Senhor. Deus esmaga esse líder principal com as lanças do perverso (v. 14) da mesma maneira que a estrela de Jacó se destinava a ferir as têmporas de Moabe (Nm 24.17) e Jael rachou a cabeça de Sísera (Jz 5.26) e o Messias esmagará a cabeça de muitos (SI 110.5-6). Das aproximadamente 250 vezes em que o adjetivo perverso {rãSã') ocorre no AT, ele parece sempre modificar pessoas em vez de coisas. Não é o líder da “terra da perversidade” (NIV) que o Senhor esmagará, mas o líder da casa do per\'erso ou “povo perverso”.'* Pondo-se em contraste com o ungido que prossegue na realização 15. Ver Rudolph, p. 246; Keil, p. 110. 16. O singular pode referir-se tanto a um só individuo quanto a um grupo de pessoas que podem ser caracterizadas como “perversas”, como em Habacuque 1.13; cf. Gênesis 18.23. A NIV aparentemente traz reSa' como "perversidade” em contraste com o TM rãsW.


HABACUQUE3.13b-14

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da salvação de seu povo (v. 13a) está esse chefe dos perversos que opri­ me 0 povo de Deus (v. 13b). Como se dá em muitos casos nas Escrituras, o singular herói ungido ganha a vitória sobre o singular chefe dos per­ versos, e assim realiza a vitória em prol de todo o povo de Deus. Essa vitória é descrita em termos de um desnudando (desde) ofu n ­ damento até o pescoço. O fundamento parece referir-se às pernas que mantêm o corpo; e o pescoço, a porção do corpo que sustenta a cabeça. O desnudando ou expondo o fundamento pressupõe a eliminação por baixo de toda a força de sustentação. A extensão desse ataque até o pescoço indica a totalidade da destruição.'^ 14. A ironia de todo o processo de destruição desse inimigo é ampliada pela notificação da autodestruição: com suas (próprias) varas, o inimi­ go se autodestrói. Com essa maneira distintiva de operação, o Senhor garante que o inimigo de seu povo sofreria as mais severas humilhações - eles se destroem a si próprios com suas próprias armas. Com frequência, o povo de Deus se encontra severamente pertur­ bado em virtude de que ele não vê nenhum poder visível tão forte quanto o de seus inimigos. Mas o profeta Habacuque encoraja os fiéis a assu­ mirem uma perspectiva inusitada. Eles devem olhar para a força do inimigo como sendo Justamente a fonte de sua própria proteção. Quan­ to mais forte o inimigo, mais certa é sua autodestruição. Pois Deus soberanamente suscita poderes e os derruba; ele volta a força do inimi­ go contra si próprio. Hamã se enforca em sua própria forca (Et 7.10). Os adversários de Daniel perecem na mesmíssima cova de leões onde o jogaram (Dn 6.25 [Eng. 24]). Aquele que cava uma cova para fazer cair nela o justo, nela mesma ele próprio cairá (SI 7.6 [Eng. 5]). Abimeleque e Siquém, rebeldes conspiradores nos dias dos juízes, foram amaldiçoados com a maldição da autodestruição (Jz 9.19-20). Enfren­ tando uma coligação poderosa de nações inimigas, Judá sob o reinado de Josafá foi instruído a pennanecer imóvel e ver a salvação do Senhor (2Cr 20.17). Quando o povo de Deus olha para o deserto, então o vê 17. Keil. p. 110. trata a referência ao “fundamento”, "pescoço” e “cabeça” como uma ex­ pansão da figura de uma “casa”. Desta perspectiva, a “cabeça” se refere ao espigão de um telhado. Conquanto esta abordagem dos versículos seja possível, falta-lhe o apoio do uso dessas imagens em outros lugares nas Escrituras.


304

HABACUQUE 3.14

coberto de cadáveres de seus inimigos, pois o Senhor os incitara uns contra os outros (2Cr 20.24). A característica do último grande conflito final será a guerra na qual cada um dos inimigos do Senhor comerá a came de seus próprios braços (Is 9.19 [Eng. 20]; cf. Ez 38.21; Zc 14.13). Em vez de ficar aterrorizado ante a força de seus inimigos, o povo de Deus deve descansar confiantemente na certeza de que a força do po­ der inimigo só pode exibir sua capacidade de autodestruição. Posto como um contraponto poético da destruição que o Senhor anna contra seus inimigos está a descrição da ferocidade do ataque estrangeiro. Eles arquitetam em como dispersar-me', eles exultam como aquele que devora o pobre às ocultas (v. 14b). Mas, quem é o m e que sofre o impacto desse assalto tempestuoso? Estaria o profeta prevendo ele próprio como um objeto distinto da ira do inimigo? Até este ponto, o próprio profeta tem desempenhado um papel preeminente em todo esse poema. Foi ele próprio que pessoalmen­ te ouviu o relato do Senhor (v. 2). Ele mesmo viu a visão das cortinas tremulantes da tenda de Cusã (v. 7). Ele oferece sua resposta pessoal a esta visão teoíanica na forma da primeira pessoa (v. 16-19). Unica­ mente duas vezes ele fala do “povo” de Deus em sentido corporativo, nesse capítulo (v. 13,16). Nessa luz, parece mais apropriado considerar o me do v. 14 como se referindo expressamente ao próprio profeta. Ele não é apanhado no extasiante momento desta gloriosa visão da vinda do Senhor, de tal modo que ele se exclua do terrível interlúdio no qual o povo de Deus é atacado pelo inimigo. Não! Ele sente que também deverá sofrer o im­ pacto da ferocidade do inimigo. Talvez como o mensageiro da Justiça e juízo, ele se vê como o objeto especial de sua ira, da mesma maneira que todos os profetas de todas as gerações. Como o ponto crucial do homem na confrontação da verdade e do erro, ele sabe que não pode isentar-se de sua fúria. Da mesma maneira que o turbilhão do vento no deserto, o inimigo se atira sobre o profeta, arrancando-o de seu ancora­ douro, espalhando seus pertences e ameaçando sua precária amarra na própria vida. A crueldade do inimigo é vista em sua satisfação maligna e na ale­ gria que sente ante a destruição do justo. Que tipo de alma selvagem


HABACUQUE 3.15-19b

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poderia satisfazer-se na destruição do desvalido? Como sucede a um animal selvagem que espreita e depois arrasta e devora sua presa em secreto, também esse desapiedado opressor ataca suas vítimas. 15. Mas a fé recém-nascida do profeta o encoraja a recordar a grande salvação providenciada pelo Senhor, no passado, das mãos do opres­ sor. Desdenhando da força do inimigo, o Senhor trilha os mares com seus cavalos, levantando como uma nuvem de poeira o vagalhão de muitas águas. Numa evidente alusão ao livramento dos israelitas no Mar Vermelho, o profeta lembra a si e a seus contemporâneos da força salvíflca da vinda do Senhor. Como um humilde pregador observou, a única maneira de cruzar um atoleiro é procurar “os lugares firmes”.'®O grande livramento de Deus no Mar Vermelho fornece nitidamente um daqueles pontos firmes para os quais a fé madura do povo de Deus pode volver-se de novo. Então 0 profeta descreveu Deus, o Salvador, vindo em toda sua glória (v. 3-15). A fé que dá vida deve olhar para a gloriosa chegada do grande Deus e nosso Salvador. Ele virá e devastará a todos os seus inimigos. Mas, nesse ínterim, o Juízo deve começar pela casa de Deus. C. O PROFETA RESOLVE SUA LUTA PELA CONFIANÇA TRIUNFANTE (3.16-19b)

Tendo ouvido a resposta do Senhor à sua queixa (2.2-20), e tendo tido a visão do Senhor chegando mais e mais perto em sua vinda para intervir e destruir o perverso e salvar o justo (3.3-15), o profeta agora registra suas reações a esse intercâmbio fabuloso (3.16-19b). Sua rea­ ção inclui três elementos: (1) uma resposta de reverente espanto (v. 16); (2) um reconhecimento de perda iminente (v. 17); e (3) uma reso­ lução de jubilosa confiança (v. 18-19b). I. Uma resposta de reverente espanto (3.16) 16a Eu ouvi b e meu ventre c se comoveu. 18. D. Martyn LIoyd-Jones, From Fear Io Failli ( Londres: InterVarsity, 1953), p. 27.


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HABACUQUE 3.16

a A voz b meus lábios c tremeram. Podridão penetrou meus ossos, e debaixo de mim tremi, porque devo esperar tranquilamente pelo dia da adversidade, pela subida do povo que nos invadirá. O esquema de diálogo que percorre todo o livro prevalece até seu final. A observação do profeta de que ouviu (Sãma'ti) a resposta do Senhor à sua queixa ecoa o reconhecimento da abertura do capítulo “tenho ouvido” {Sãma'ti §im'°kã). Dessa vez, porém, o profeta está mudo. Ele se acha totalmente inca­ paz de responder. Por meio de uma refutação paciente, nunca se desvi­ ando de seu ponto, o Senhor fez calar seu servo, pondo-o numa posi­ ção de reconhecimento passivo ante a retidão de seus caminhos. Ante­ riormente, Habacuque se preparara para a “resposta que eu terei à mi­ nha queixa” (Hc 2.1). Agora, porém, ele está sem voz. A expressão do profeta com respeito ao efeito do discurso do Se­ nhor sobre si não deve ser tomada como um mero artificio literário dramático. Ele descreve, ao contrário, uma experiência física real que sofrerá quando o peso total do significado de sua visão lhe sobreveio. Seu plexo solar se contorceu. Seus tênues esforços para manter um diálogo com o Todo-Poderoso resultaram num incontrolável tremor dos lábios. A sensação que teve é que seus ossos sofreram repentino apodrecimento. Suas pernas tremiam debaixo de si.' Em vez de desprezar o profeta por excesso de emocionalismo, o leitor deveria honrá-lo por sua sensibilidade ante o significado da men­ sagem que recebera. Quanto mais piedosa é a pessoa, maior é o temor que sente pelo Senhor. 1. o tremor “debaixo” do profeta poderia referir-se a tremores de terra. Mas, neste contex­ to, a descrição dos efeitos somáticos, em razão da mensagem do Senhor, é mais provavel­ mente ao tremor das pernas “debaixo” dele.


HABACUQUE 3.16

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Quatro vezes nesse único capítulo aparece a referência a uma rea­ ção de tremor à manifestação da verdade e glória de Deus (v. 2,7,16). Mesmo durante o êxodo, as nações “ouviram” e “estremeceram” ante os relatos dos poderosos feitos de Deus (Êx 15.14), então agora as no­ vas do juízo inspiram tremor semelhante. O dia dojuízo divino sobre as nações transjordânicas inspirou tremor entre os povos da terra (Dt 2.25). Agora, porém, dolorosamente, o próprio povo de Deus deve tremer di­ ante dojuízo que chega para eles próprios. Particularmente, deve-se notar a voz que é a razão do espanto do profeta. Sua resposta à voz de Deus lembra o poema de Israel sobre a voz: ... a voz do Senhor sobre as águas... A voz do Senhor é poderosa: a voz do Senhor é cheia de majestade. A voz do Senhor quebra os cedros; a voz do Senhor despede chamas de fogo. A voz do Senhor faz tremer o deserto... A voz do Senhor faz dar cria às corças e desnuda os bosques... (SI 29.3-5,7-9, NASB) Usando as imagens de uma tempestade feroz que varre através da Palestina, o salmista captou algo da majestade da revelação que vem do Senhor. Mas, qual precisamente é o foco de sua visão que levou o profeta a esse ponto de extrema convulsão? Não predissera o Senhor juízo sobre os inimigos de Israel e a justificação do justo? A última porção do versículo 16 explica diretamente a razão de o profeta sentir-se tão perturbado. E por causa ( ’°Ser) da terrível devasta­ ção que o próprio povo de Deus sofreria antes da plena posse das pro­ messas que o profeta treme da cabeça aos dedos dos pés. Alguns problemas de interpretação aparecem por causa do uso pou­ co comum do verbo esperar ou descansar (n ü a h ) neste contexto. Es­ taria o profeta dizendo que ele estava aborrecido só porque tinha de esperar em silên cio l Em razão dessa aparente tensão, alguns comenta­


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HABACUQUE 3.16-17

ristas têm sugerido uma emenda textual, que seria “eu gemo” em vez de “eu espero” (’ê ’ãnah em vez do massorético ’ãnüah).- Entretanto, este problema pode ser mais imaginário que real. O profeta está abor­ recido porque nada pode deter a tragédia inevitável de Israel ser inva­ dido pelas forças punitivas babilónicas. Ele deve esperar em silêncio pelo dia da adversidade, pelo ataque dos exércitos inimigos. O corpo perturbado de Habacuque estremece ao ponderar que vi­ veria em constante sobressalto por causa do iminente juízo de Deus. Embora o livramento seja garantido, ele só virá após o juízo.^ Tempos depois, quando o remanescente fiel de Israel ficou reduzi­ do a um único indivíduo, uma circunstância semelhante aconteceu. So­ zinho no Getsèmani, perscrutando interiormente o terrível abismo do inferno, o próprio Senhor Jesus suava gotas de sangue (Lc 22.44). Mes­ mo tendo certeza de que o Senhor não deixaria sua alma no inferno (SI 16.10; c f SI 42.6,12 [Eng. 5,11]; 43.5), contudo a realidade das ago­ nias que tinha de suportar antes de seu livramento o esmagava. Sua alma estava excessivamente perturbada {perilypós estin hê psychê mou, Mt 26.38), e seu corpo reagiu com fantásticos sinais de com­ paixão. 2. Um reconhecimento de perda iminente (3.17) 17 Ainda que a a figueira h não floresça, h e não haja fruto a nas videiras; a falhe b o produto da oliveira; b e os campos 2. W. H. Ward, p. 28: “Para o inadequado 'nwh [massorético] poder-se-ia arriscar uma conjetura: ‘e'Snah, significando Eu gemo em vista do dia do sofrimento, porém nada me­ lhor ocorre”. Cf. BDB, p. 628. G. A. Smith, The Book o f the Twelve Prophets, Expositor’s Bible (Garden City, NI: Doubleday, Doran, & Co., 1929), 2.156, deixa a frase sem traduzir. 3. l^'am y^gúdennú, “pois o povo (que) nos invadirá” prevê o assalto do exército dos babilônios contra Judá.


HABACUQUE 3.17

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a não produzam mantimento; a seja arrebatado do aprisco' h o rebanho; b e nenhum gado a (haja) nos currais j A palavra que introduz este versículo (ãí) pode ser considerada ape­ nas como 0 estabelecimento de uma possibilidade hipotética; “Se a fi­ gueira não florescer...”. Mas o contexto demanda mais. A passagem descreve uma série de fatos que transpirarão. Estas coisas temíveis acontecerão. Mas elas não devem ocorrer como uma consequência de seca ou praga de gafanhotos. Em vez disso, a devastação da guerra deixará a terra desolada. A voracidade insensível do exército invasor consumirá tudo o que for de valor na face da terra. A quebra das estruturas básicas da família e das ordens sociais culminará numa terra improdutiva. A recitação do profeta dos itens que serão negados aos habitantes da terra é organizada sob a forma de três estrofes poéticas de quatro linhas cada uma (ver a tradução acima). O intercâmbio de a-b-b-a do sujeito e do verbo é talvez o mais típico do paralelismo poético hebraico. Dentro dessa estrutura fonnal, pode-se observar uma tríade dupla de objetos, movendo-se dos itens opcionais para os essenciais para a sobrevivência humana. A figueira, o fruto e a oliveira representam os produtos mais excelentes da terra como vistos nas passagens de Joel 1.7; Oseias 2.12; Miqueias 4.4; 6.15; Deuteronômio 6.11; 8.8. O grão dos campos, as ovelhas e o gado compreendem as necessidades de pão, leite e carne. A ausência desses itens significa que não haveria bolos de figo, vinho, óleo de unção para a jovem queimada do sol. Não haveria cereais, vegetais, leite, carne de carneiro, lã - nenhuma dessas necessi­ dades ou prazeres estariam disponíveis ao profeta e seu povo. No contraste mais nítido com o espírito de queixa e descrença ma1. m itlã, "aprisco” é aparentemente uma variante de mi^lã'. Cf. BDB, p. 476. 2. O termo para “estábulo” (r^pStim) ocorre somente aqui no VT, e seu significado é incerto. Mas provavelmente esteja relacionado com o hebraico pós-bíblico repet, “abrigo de gado”.


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HABACUQUE 3.17-19b

nifestado por Israel no deserto, Habacuque abertamente reconhece a perda iminente desses luxos, bem como as necessidades da vida; mas, mesmo assim, ele crê. Toda a ordem existente no presente mundo pas­ sará, mas a graça de Deus para seu povo durará para sempre. Talvez parte da explicação da disposição do profeta em aceitar esse severo castigo das mãos do Senhor advenha dos avisos explícitos da antiga legislação mosaica. Se Israel não ouvisse com atenção os manda­ mentos do Senhor, mas, ao contrário, desprezasse todas as suas disci­ plinas, então ele os puniría sete vezes mais por seu pecado e a terra não daria seu fruto (Lv 26.18,20; c f Dt 11.17). Mas a fé do profeta envolve opções mais amplas do que sofrimento pelo pecado. Pois ele, juntamen­ te com o remanescente que perseverar em fé, também suportarão todas as privações. Sua entrega de todas estas coisas nas mãos do Senhor antecipa aquele fiel que mais tarde declarará: “perdi todas as coisas” (Fp 3.8). 3. Uma resolução de confiança jovial (3.18-19b) 18 Todavia, a no Senhor h eu exultarei; b eu me regozijarei a no Deus de minha salvação. 19 O Senhor meu Deus (é) minha força, a Porque ele firmará meus pés b como (os pés) da corça; b e em meus lugares altos a ele me fará andar. Finalmente aparece uma resolução do conflito que começou o li­ vro. O profeta agora entende, por meio da revelação divina, a Justiça dos caminhos de Deus com os homens e o juízo inevitável que deve sobrevir ao remanescente fiel de Judá. Mesmo o próprio profeta deverá sofrer privação de todas as coisas necessárias que sustentam a vida. Contudo ele viverá! Ele se regozijará! Ele subirá aos picos mais altos da terra!


HABACUQUE 3.18-19b

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Seria a ressurreição da fé que vem à expressão nessas palavras finais do profeta? Estaria ele falando de uma expectativa de vida de­ pois que 0 último inimigo fez tudo quanto quis de pior? Certamente sua fé não está longe deste ponto. A despeito de todas as tragédias previstas, ele de fato pode regozijar-se em sua confiança de que o vigor da vida será seu. Pois “o Justificado (pela fé) viverá por sua sólida confiança” (ver a exposição de 2.4). Note bem que é na pessoa do próprio Senhor que o profeta se rego­ zija. Ele agora aprendeu que pode privar-se de todos os bens materiais, confortos e bênçãos - contudo ele pode regozijar-se porque sua fé está no Senhor. 18. Ele chama o Senhor Deus de minha salvação. Por meio de tal designação, o profeta expressa sua confiança de que o Senhor por tlm efetuará seu livramento. De uma perspectiva do AT, esta salvação não pode ser percebida como uma realidade meramente espiritual em con­ traste com sua perda de todas as posses materiais. Ao contrário, a sal­ vação deve incluir todas as bênçãos materiais que a vida pode oferecer, juntamente com a integridade de uma alma unida a Deus. A transição de um profeta queixoso para um profeta jubiloso certa­ mente deve ser vista como obra da graça soberana de Deus. Nada mais pode explicar como uma pessoa pode estar feliz e contente quando enfrenta as calamidades que Habacuque haveria de experimentar. Que o Senhor mesmo continue a fornecer a graça da vida ao povo desta geração, pela fé que justifica. 19a,b.A única forma pela qual o profeta poderia fazer tal assevera­ ção é porque ele podia afirmar: O S en h o r é ""meu Deus e minha força”. Como ao contrário ele poderia antegozar o triunfo final e viver na mera esperança da vitória além da devastação? Como uma corça, ele subirá com um andar altaneiro até o topo das montanhas. O profeta ecoa as palavras do salmo de triunfo de Davi, quando o Senhor o livrou de todos os seus inimigos: “Ele deu a meus pés a ligeireza das corças e me firmou em minhas alturas” (SI 18.33). Com andar seguro, incansável, cheio de energia o povo do Senhor pode es­ perar subir às alturas da vitória a despeito de seus muitos reveses. As alturas da terra, os lugares de conquista e domínio, deverão ser a pos­


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HABACUQUE 3.19a-c

sessão final do povo de Deus. Como um porta-voz do povo de Deus nesse cântico para ser celebrado ao longo das eras futuras, o profeta demonstra a magnificência de uma fé vitoriosa. Mesmo o revés mais horrendo não pode romper a confiança na vitória final. Então, perante nossos próprios olhos, a mensagem de Habacuque 2.4 encontra cumprimento. Habacuque vive - pela fé. Ele continua con­ fiante em Deus a despeito do caos total e calamidade absoluta do exílio. Como consequência, ele vive. Ao longo dos tempos, todos os que põem sua confiança no Profeta por excelência viverão. Eles podem cair no sono da morte - mas não “morrerão” no sentido definitivo. O aguilhão da morte foi removido pelo poder do ressurreto. Jubilosos, viveremos pela fé nele. PÓS-ESCRITO (3.19c)

Ao mestre de canto em meus instrumentos de cordas. É impossível determinar se essa nota final se originou com o pró­ prio Habacuque ou representa uma adição por um editor posterior. De qualquer modo, a tradição parece muito antiga, de que esse salmo de submissão se destina a ser celebrado na congregação por todas as gera­ ções. Não teria sido meramente uma resolução pessoal de fé tomada pelo profeta somente. Intencionalmente, expresso na primeira pessoa, ele efetivamenle atrai cada participante à experiência de entregar-se a Deus de uma maneira que corresponda à sua própria provação pessoal. Uma dimensão muito comum da tragédia é que ela tende a deixar uma pessoa sozinha com uma dor que ele mesmo deve aprender a suportar. Ao mestre do canto é a tradução mais comum de lam nassêah, o primeiro temio obscuro. A palavra ocorre cinquenta e cinco vezes nos Salmos como um sobrescrito, mas somente aqui como uma anotação no final de uma composição poética. A raiz da palavra (nsh) pode sig­ nificar “preeminente” ou “tolerante”. A LXX normalmente traduz “até o fim” {eis tó télos). Mas não é claro se a intenção dos tradutores gregos era fornecer alguma instrução ao regente do coral (executar este salmo “até o fim”, não importa o que isso signifique), ou para oferecer um comentário sobre o caráter ou


HABACUQUE 3.19c

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conteúdo do salmo (“um salmo sobre o fim!” isto é, de natureza escatológica). Neste caso particular, a LXX traz: “que eu vença em seu cântico” {tou nikêsai en tê õdê autoú). Mas o uso do segundo termo, também como uma anotação musical de classe (“em meu instrumento de cordas”), argumenta contra esta tradução. A referência final a meus instrumentos de cordas ou “minhas can­ ções” {bin^ginôtãy) encontra paralelo numa passagem distinta refletin­ do 0 mesmo tipo de triunfo em cântico. Em Isaías 38.18-20, o rei Ezequias celebrou o acréscimo de sua vida além da sentença anterior de morte. “Tangendo os instrumentos [n^ginôtay] de cordas, nós o louvaremos todos os dias de nossa vida, na Casa do S e n h o r ” ( I s 38.20). Pois “os vivos, somente os vivos, esses te louvam como hoje eu o faço” (v. 19). De modo semelhante, a mensagem de Habacuque é para toda a vida - a vida de fé a despeito de muitas calamidades. Parte integrante de tal vida é o entoo de cânticos louvando o redentor e sustentador da vida. Assim, um livro que começou com queixas terminou com regozi­ jo. A fé triunfa em vida a despeito das muitas calamidades. Cânticos noturnos antecipam a feliz chegada da eterna aurora quando o fiel de­ verá receber sua justificação final.


o LIVRO

DE SO FO N IAS


SO BRESC RITO (1.1)

1 Palavra do S e n h o r que veio a Sofonias, filho de Cusi, filho de Gedalias, filho de Amarias, filho de Ezequias, nos dias de Josias, filho de Amom, rei de Jitdá.

O texto se auto-apresenta como a Palavra do Deus da aliança de Israel e não meramente como a palavra do profeta Sofonias. Por meio dessa frase introdutória, o profeta se põe no fluxo daqueles servos de Deus, de Moisés a Jesus Cristo, que foram mediadores proféticos da aliança. Inspirados por Deus, a ponto de suas palavras serem idênticas às pala­ vras de Deus, esses instrumentos da revelação divina mediaram um con­ fronto com Deus, terrível demais para o próprio povo suportar (c f Dt 18.15-17). Conforme se explica o papel dos profetas de Israel em Deuteronômio, suas palavras se destinavam a substituir a terrível presença pes­ soal de Deus. Fazer mau uso de um pronunciamento profético era abu­ sar da própria presença pessoal de Deus. Da maneira como a frase Palavra do S e n h o r se apresenta, ela en­ feixa todo o livro em análise em sua presente forma literária. E conce­ bível que a frase tenha introduzido originalmente uma unidade menor das palavras de Sofonias. Mas nenhum manuscrito em existência for­ nece apoio objetivo a essa possibilidade hipotética. O sobrescrito alega que esse documento é imbuído da autoridade divina investida nos documentos pactuais originais, que eram essenciais à manutenção da relação pactuai estabelecida no Sinai.' Da mesma 1. Cf. M. G Kline. The Structure o f Biblical Authority (OrmA Rapids: Eerdmans, 1972).


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SOFONIAS 1.1

maneira que o Senhor ditou a Moisés os termos para a vida pactuai, também agora ele inspira seu porta-voz profético a registrar contra seu próprio povo suas violações pactuais, bem como as consequências amedrontadoras de tal transgressão. Visto que essas consequências deveriam estender-se às muitas décadas vindouras, o profeta tinha de registrar sua declaração para que as gerações futuras pudessem comprovar a veracidade ou falsidade de suas palavras (c f Dt 18.22).- Jeremias, o contemporâneo de Sofonias, recebeu a ordem de registrar todos os seus pronunciamentos proféticos que compreendiam um período de vinte e dois anos e a fazê-lo novamente depois que o arrogante rei Joaquim mutilou e queimou seus escritos (c f Jr 36.1-2,23,27,28). De modo se­ melhante, Sofonias foi instruído a preservar seus pronunciamentos às gerações futuras para que elas pudessem ver a palavra de juízo e bênção de Deus concretamente se cumprindo. Sofonias significa “aquele a quem Yahweh oculta” ou “o escondido de Yahweh”. Não se pode encontrar correlação convincente entre o nome do profeta e a mensagem de seu livro. Em certa ocasião, o livro menciona a possibilidade de que o povo de Deus poderia vir a ser “escondido” dos terrores de sua ira (2.3). Usa-se, porém, outra raiz hebraica, diferente daquela encontrada no nome de Sofonias {str em vez de spn). Embora outros “sofonias” sejam mencionados nas Escrituras, não se pode iden­ tificar nenhum outro com este profeta.^ Sofonias é designado como filho de Cusi. Pode-se tirar uma varie­ dade de conclusões com base neste nome distinto do pai de Sofonias."* p. 27-39. Kline mostra o papel importante dos documentos pactuais originais como teste­ munhos escritos quanto ao caráter comprometedor do pacto. 2. Note-se a importante contribuição de G von Rad. Old Testament Theology, 2 vols., trad, por D. M. G Stalker (Nova York: Harper & Row, 1962-1965), 2.40,45, ao mostrara impor­ tância dos profetas como escritores. 3. Conforme 1 Crônicas 6.21 (Eng. 36), certo “Sofonias” aparece na linhagem sacerdotal. Note-se também o sacerdote chamado "Sofonias” mencionado como contemporâneo de Jeremias em 2 Reis 25.18; Jeremias 21.1; 29.24-25,29; 37.3; 52.24. Em Zacarias 6.10.14 aparece a menção de “Josias, filho de Sofonias”, que veio de Babilônia. Não há como deter­ minar alguma relação positiva entre o profeta mencionado em Zacarias 1.1 em qualquer um desses casos. 4. Ver a discussão de Rudolph, p. 259. A. Bentzen, Introduction to lhe Old Testament. 2.153, que força bem a evidência em sua sugestão de que Sofonias poderia ser um escravo negro no serviço do templo.


SOFONIAS 1.1

319

Mas elas entram na esfera das especulações que não contam com fun­ damento adequado para um fato que não pode ser substanciado. O sobrescrito traça a linhagem de Sofonias através de Gedalias e Amarias até o tetravô do profeta, Ezeqiiias. O registro de genealogia tão extensa é ímpar entre os livros proféticos. Oito dos profetas não têm histórico familiar registrado, o que é apropriado à função distinti­ va do profeta como uma “voz” (cf Is 40.3; Jo 1.23). Seis dos profetas tém apenas os nomes de seus pais registrados, e Sofonias é identifica­ do pela referência de seu pai e avô. Mas, por que a linhagem de Sofonias teria sido traçada por quatro gerações? Deve haver alguma razão para esta extensão de detalhe de ancestralidade. Como J. M. P. Smith sugeriu, “quando só um dentre dezesseis livros proféticos exibe uma variação tão marcante, a proba­ bilidade parece estar no fato de que a variação foi deliberada, e não apenas acidental”.’ Pode-se sugerir que essa genealogia de quatro gerações teria a in­ tenção de isentar Sofonias do estigma e sanções associados a uma an­ cestralidade cusita. Pois os egípcios (às vezes equivalentes a “cusita” nas Escrituras) foram excluídos da congregação de Israel até a terceira geração (Dt 23.7-8). O problema óbvio com esta sugestão é o posicio­ namento de Cusi na genealogia de Sofonias. Ele não se posiciona na terceira ou quarta geração, mas na primeira posição em relação ao profeta. O mais provável é a sugestão de que esta definição da genealogia até a quarta geração tinha a intenção de focalizar o último nome; Ezequias. Mui provavelmente, a genealogia de Sofonias teve a intenção de indicar suas origens régias. O bom rei Ezequias fora o mais recente dos monarcas de Judá a manifestar fidelidade pactuai, essencial ao bemestar da nação. Esta relação do profeta com a monarquia de Israel lhe teria granjeado franco acesso ao pátio real, bem como lhe dera certa posição pela qual pudesse emprestar peso adicional às reformas radi­ cais promovidas pelo jovem rei Josias.

5 .J. M.P. Smith. p. 167.


320

SOFONIAS 1.1

Foi nos dias de Josias, filho de Arnom. rei de Judá, que a palavra do Senhor veio a Sofonias. Josias foi o último bom rei de Israel, cujo reinado datou de mais ou menos 640 a 609 a.C. Sua reforma radical das práticas religiosas e sociais de Judá é descrita em 2 Reis 22,23 e 2 Crônicas 34,35. Seria possivel determinar com mais precisão em que época do rei­ nado de Josias Sofonias profetizou? Teria Sofonias profetizado antes da descoberta do Livro da Lei no templo, mais ou menos em 622 a.C.? Porventura ele teria contribuído com os empreendimentos iniciais na direção da reforma mencionada em Crônicas durante o 12®ano do rei­ nado de Josias (cf. 2Cr 34.3ss.)?* Ou teria sido depois da descoberta do Livro da Lei que Sofonias profetizou revelando algo das limitações das reformas de Josias? Os apelos feitos às referências de Sofonias à determinação divina de acabar com o resto de Baal (1.4) não são conclusivos na solução deste problema. Embora a remoção de um “resto” pudesse implicar que hou­ ve alguma purgação prévia, a frase pode simplesmente significar que Deus removería o culto de Baal completamente. O fato de Sofonias prever uma purificação daqueles que se inclina­ vam nos telhados de suas casas e adoravam o exército do céu (1.5) apoia 0 posicionamento da profecia de Sofonias antes da reforma total de Josias, que veio em consequência de sua descoberta do Livro da Lei. Esta consideração particular levou muitos comentaristas a concluí­ rem que o material de Sofonias teria data anterior a 622 a.C. Entretanto, uma consideração especial aponta em outra direção. A medida que o material de Sofonias é cuidadosamente estudado, é bas­ tante notável a riqueza de fraseologia que ocorre em paralelo nas ex­ pressões do Livro da Lei de Deuteronômio. Esses paralelos não se rela­ cionam meramente a palavras isoladas, mas a expressões maiores de pensamento. Algumas frases particulares incluem as seguintes: 6. As distinções entre o registro da reforma de Josias em Reis e em Crônicas não devem ser exageradas. Alguns tipos de reforma quase certamente teriam precedido à descoberta do Livro da l.ei se um processo de purificação do templo já tivesse começado. E então era de se esperar que mais reformas seguiríam à leitura do livro.


SOFONIAS 1.1

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1. “Por isso, serão saqueados seus bens e assoladas suas casas; e edificarão casas, mas não habitarão nelas” (Sf 1.13) “Edificarás casa, porém não morarás nela” (Dt 28.30) 2. “Plantarão vinhas, porém não lhes beberão o vinho” (Sf 1.13) “Plantarás vinha, porém não a desfrutarás” (Dt 28.39) 3. “Aquele dia é dia de indignação, dia de angústia” (Sf 1.15) “Na angústia e no aperto com que teus inimigos te apertarão” (Dt 28.53,55,57) 4. “Um dia de trevas e negrume, dia de nuvens e densas trevas” (Sf 1.15) “O monte... e havia trevas e nuvens e escuridão” (Dt 4.11) 5. “Eles andarão como cegos” (Sf 1.17) “Apalparás... como o cego apalpa” (Dt 28.29) 6. “Pelo fogo de seu zelo a terra será consumida” (Sf 1.18) “A zelos me provocaram... um fogo se acendeu em meu furor... consumirá a terra e suas messes” (Dt 32.21-22) 7. “O Senhor é justo... ele não comete iniquidade” (Sf 3.5) “Deus... não há nele injustiça; é justo e reto” (Dt 32.4) 8. “Regozijar-se-á em ti com júbilo” (Sf 3.17) “Assim como o Senhor se alegrava... em fazer-vos o bem... o Senhor se alegrará em vos fazer perecer e vos destruir” (Dt 28.63) “O Senhor tomará a exultar em ti para te fazer bem” (Dt 30.9) 9. “E farei deles um louvor e um nome” (Sf 3.19) “Farei de vós um nome e um louvor entre todos os povos da terra” (Sf 3.20) “Para, assim, te exaltar em louvor, renome e glória sobre todas as nações” (Dt 26.19). Outras comparações entre Sofonias e Deuteronômio merecem aten­ ção. Note a ameaça de Deus de trazer “angústia” sobre Israel (Sf 1.17; c f Dt 28.29); a concentração na inspiração do “temor” de Deus em Israel, frequentemente pela manifestação de seus juízos justos (Sf 3.7;


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SOFONIAS 1.1

cf. Dt 4.10-11,13; 5.29; 6.2,13; 13.11; 14.23; 17.13,19; 19.20;21.21; 31.9-13); a descrição dos exilados como “minha dispersão” (Sf 3.10; cf. Dt 4.27; 28.64; 30.3); a concentração distintiva no “amor” de Deus por Israel (Sf 3.17; c f Dt 4.37; 7.8,13; 10.14-15; 23.6 [Eng. 5]); e a representação de Deus como Rei, o Senhor, um Poderoso Herói (Sf 3.17; c f Dt 10.17). Que implicações tem esse material na questão de data da profecia de Sofonias? Sugeriram-se duas opções possíveis. Primeiro, poderia-se concluir que Sofonias profetizou antes da des­ coberta do Livro da Lei e que seus materiais afetaram a produção do livro de Deuteronômio. Esta análise de evidência apoiaria a teoria críti­ ca de que Deuteronômio teria sido o produto literário de um grupo pro­ fético que funcionava nos dias de Josias, e que as origens mosaicas do livro de Deuteronômio teriam sido inventadas no tempo de sua “desco­ berta” com o fim de estabelecer a autoridade do documento no contexto do Israel do século 7®. Entretanto, chegar a essa conclusão com base no paralelismo de frases encontradas em Sofonias e Deuteronômio cria mais problemas do que resolve. Pois se Sofonias, em suas profecias, houvesse profeti­ zado de modo muito diferente da fraseologia encontrada no livro de Deuteronômio, então se criariam suspeitas graves com respeito às ori­ gens “mosaicas” de Deuteronômio nas mentes dos contemporâneos de Sofonias. Como se poderia explicar que Sofonias, sem ter acesso ao livro de Deuteronômio, pudesse ter profetizado tão extensamente, usan­ do a mesma fraseologia? Se Deuteronômio fosse apresentado como um produto de Sofonias e seus contemporâneos, tal problema não existiría. Mas se Deuteronômio fosse um produto de Moisés, o legislador, Sofo­ nias não iria querer antecipar a fraseologia desse documento antes de sua aparição pública. Uma segunda e bem mais plausível explicação para os paralelos de fraseologia encontrados entre Sofonias e Deuteronômio pode encontrar-se na suposição de que Sofonias teria profetizado depois da desco­ berta do Livro da Aliança em 622 a.C., o qual promoveu a reforma de Josias. Em consequência da revelação da verdadeira situação de Israel perante o Deus da aliança, Sofonias teria se dirigido a seus contempo-


SOFONIAS 1.1

323

râneos. Por esta ótica, Sofonias aparece como um auxiliar profético com 0 fim de fazer avançar a reforma instituída por Josias. Tal perspec­ tiva oferece um quadro muito mais realista do progresso da reforma sob 0 jovem rei. Não se deve supor que um povo comprometido com o culto de deuses idólatras fosse desistir tão facilmente de suas práticas. O retor­ no de Judá a seus hábitos antigos, dentro de um breve período de três meses do reinado do sucessor de Josias, comprova definitivamente esse fato (cf 2Rs 23.32-33). A descrição das reformas de Josias no livro de Reis aparece como um ataque repentino. Mas, mesmo se suas políticas principais fossem instituídas num período relativamente curto, ele ainda assim precisaria de forte apoio confirmatório de uma palavra contemporânea do Senhor para fazer suas políticas pelo menos remotamente aceitáveis ao públi­ co. Mui provavelmente, essa palavra de apoio veio do profeta Sofonias. Incorporando em sua mensagem as mesmas frases do Livro da Aliança recém-descoberto, ele se dirigiu ao povo como o porta-voz de Deus, contemporâneo, aplicando a antiga palavra de Deus à situação atual. Dessa maneira, pode-se propor que Sofonias profetizou nos dias de Josias, e, mais especificamente, nos dias imediatamente após a desco­ berta do Livro da Aliança, mais ou menos em 622 a.C. O sobrescrito identifica mais especificamente Josias como filho de Amom, rei de Judá. Ambas as frases sublinham a perigosa situação sob a qual Sofonias profetizou. Pois Amom fora assassinado, numa ação de intriga política, por seus próprios oficiais (2Rs 21.23). A despeito de muitas situações de risco que foram enfrentadas pelo reino meridional de Judá, este fora poupado de conspirações autodestrutivas desse gênero, exceto em casos bem raros. A estabilidade fora mantida nesta situação perigosa mediante a inter­ venção do “povo da terra” que executou os assassinos de Amom e estabe­ leceu o menino Josias de 8 anos de idade no trono, como um sucessor davídico (2Rs 21.24). Mas a ocorrência de assassinato de um monarca davídico revela algo do explosivo caráter da situação política. O fato de Josias ser apresentado como rei de Judá também atesta o


324

SOFONIAS 1.2-18

caráter ameaçador reinante nos dias em que Sofonias profetizou. O cis­ ma ocorreu não só de modo que os descendentes de Davi não mais rei­ nassem sobre todo o reino; o reino do norte já não mais existia. A descoberta do Livro da Lei coincidiu com o centenário do cati­ veiro do Reino do Norte. Judá havia sobrevivido. Mas a redescoberta do Livro da Lei os teria forçado a se indagar se podiam esperar conti­ nuar sobrevivendo. É um sinal da persistência da graça de Deus em redimir para si um povo, e observar que Amom, Josias e o filho de Josias, Joaquim, são mencionados na genealogia de Jesus Cristo, o último sucessor ao trono de Davi (Mt 1.10-11). A despeito de muitos perigos e muitas falhas da parte do povo de Deus, os propósitos divinos não podiam ser frustrados.

I. JU ÍZO FACTUAL CÓSMICO VEM COM O GRANDE DIA DE Y A H W EH (1.2-18) O “Grande Dia do S e n h o r ” pode ser visto como o tema que unifica a totalidade do livro de Sofonias. Certamente, no primeiro capítulo, o Grande Dia do Senhor enfeixa toda a mensagem do profeta. A destrui­ ção do cosmos, o Juízo sobre o próprio povo de Deus, a festa sacrificial do S e n h o r e os terrores de uma teofania finalizadora se relacionam com 0 “Dia”. A. CRIAÇÃO REVERTIDA (1.2-3) 2 Varrerei completamente' tudo da face da terra, diz o S e n h o r . 1. A frase hebraica 'ãsüp "lísêp já foi explicada de muitas maneiras. É bem certo que ela tencione empregar a expressão hebraica comum de intensificação pela junção de um infinitivo absoluto com uma forma finita do verbo. Embora essas formas conjuntivas normalmente se derivem da mesma raiz. existem casos em que se empregam raízes diferentes. (Ver GKC, § 113w n. 3, ainda que suscitem-se dúvidas sobre os três exemplos dados.) ’ãsSp seria en­ tendido como um infinitivo absoluto Qal de 'ãsap - “ajuntar (para remoção)"; e ’ãsip como o imperfeito Hiphil da primeira pessoa singular d esú p , "varrer”. Neste caso, o autor teria intensificado a força de sua expressão através da assonância destas duas formas particulares.


SOFONIAS 1.2-3

325

3 Varrerei homem e animal; varrerei as aves do céu, e os peixes do mar e as pedras de tropeço com os perversos. Particularmeníe o homem, exterminarei da face da terra, diz o S e n h o r . 2. As palavras de abertura da profecia de Sofonias são impressio­ nantes. Com o som monótono de um vigoroso timbale, o profeta sur­ preende seus ouvintes obrigando-os a reconhecerem a solenidade do momento. Todas as coisas da face da terra serão totalmente varridas. Por meio do uso de numerosos artifícios poéticos, Sofonias intensi­ fica o impacto de sua mensagem. Pela repetição de fraseologia, pelo paralelismo de trechos, pela alusão a revelações de outrora, o profeta confronta seu auditório com a natureza crucial da calamidade iminente. Particulannente distintivo é o eco das antigas provisões pactuais de Deus a Noé, sendo que esse fato, por sua vez, refletiu a ordenação divina da criação. A Noé Deus dissera: “farei desaparecer da face da terra” o homem, o animal, os répteis e as aves do céu (Gn 6.7). 3. A ordem em que esses itens são catalogados para destruição é precisamente o inverso da ordem em que aparecem na narrativa da cria­ ção.^ Primeiro o homem, depois os animais, pássaros e peixes são deEsta explica^-ão da frase de abertura da profecia de Sofonias é a mais satisfatória. Têm-se proposto, porém, outras possibilidades. GKC, § 72aa, propõe a versào de "õsêp como uma forma Hiphil imperfeita do primeiro singular comum de "Ssap, em vez do "ösSp massorético. Essa análise é endossada por J. M. P. Smith, p. 191. Cf. também T. H. Robinson e F. Horst. Die Zw ölf Kleinen Propheten: Hoseabis Micah, HAT, 3* edição (Tübingen: Mohr, 1964), p. 190. Entretanto, ’äsap näo segue o padrão vocálico dos verbos pe-aleph. Uma terceira opção é proposta por A. S. Kapelrud, The Message o f the Prophet Zephaniah (Oslo: Universitetsforlaget, 1975), p. 21. Ele sugere a versão ’Ssöp ’e söp, “Eu os destrui­ rei totalmente”, presumindo que a versão massorética tenha se originado de um erro escribal. L. Sabottka, Zephanja: Versuch einer Neuübersetzung mit philologischen Kommentar, BibOr 25 (Roma: Pontifical Biblical Institute, 1972), p. 6,7, propõe um jogo de palavras com duas raizes homofõnicasy.vp, “acrescentar”, e 'sp, "reunir” (para remoção), significando “Eu var­ rerei de novo”. 2. C f M. DeRoche, “Sofonias 1.2-3: T h e 'Sw eeping'of Creation”, F r3 0 (l9 7 9 ), p. 106.


326

SOFONIAS 1.3

signados como objetos do juízo consumidor de Deus. Originalmente, Deus criou os peixes, os pássaros, os animais e o homem. Como é possível, porém, que Deus viesse a violar as provisões do solene elo pactuai que fez com Noé? Porventura Deus não dissera que não mais haveria de destruir toda a carne da face da terra (Gn 8.21)? E provável que na mente de Sofonias a solução poderia estar no conceito que ele tinha desse grande dia de destruição, como sendo o dia final. A promessa de Deus só era válida “enquanto durar a terra” (Gn 8.22). Agora, porém, aqueles dias deveriam chegar ao fim. Deixaria de existir até mesmo refugio para os peixes do mar. A referência à destruição das pedras de tropeço com os perversos combina uma vez mais a ideia de juízo sobre o universo criado com o juízo sobre a humanidade em sua perversidade. Têm-se feito vários esforços para emendar o termo pedras de tropeço (hammatSêlôt),^ mas a palavra propriamente dita faz bom sentido no contexto. Animais, pás­ saros e peixes, representantes de toda a criação, se tomaram para a humanidade um motivo de tropeço. Em razão da sua perversidade, a humanidade desvirtuou as coisas boas da criação em decorrência do pecado. A referência do profeta pode ser a ídolos fabricados segundo a forma das coisas criadas, ou a vários outros modos nos quais a criação teria se tornado um motivo de tropeço. Pode-se ver um exemplo do primeiro no rei Acaz, que sacrificou aos deuses de Damasco na esperan­ ça de que viriam ajudá-lo: “porém eles foram sua mina [l^haksilô], e a de todo 0 Israel” (2Cr 28.23). Conquanto o homem e os animais sejam caracterizados como “pe­ dras de tropeço”, somente o homem pode ser perverso. Unicamente ele tem a responsabilidade de viver de acordo com a lei moral de Deus. Então a mensagem do juízo universal se concentra na devastação da humanidade. Particularmente a humanidade, em sua perversidade, deve ser destmída pela calamidade universal iminente. Bastante notável é a aparição desta impressionante combinação de 3. Para as emendas sugeridas, ver Rudolph, p. 261,262.0 equivalente grego de “pedra de tropeço” ocorre no papiro de Washington, da LXX, mas está faltando nos outros manuscri­ tos gregos.


SOFONIAS 1.3-7

327

pedras de tropeço com os perversos no Novo Testamento (Mt 13.41). Jesus interpreta para seus discípulos uma parábola do juízo universal que se encaixa bem no contexto da profecia de Sofonias. No fim dos tempos. Deus enviará seus anjos que “ajuntarão [syilégõ; cf. ’ãsõp de Sofonias] de seu reino tudo o que causa escândalo e os que praticam a iniquidade [pánta tá skándala kaí toús poioúntas fên anomian]". Por meio desta aparente alusão a Sofonias, Jesus transfere o juízo cósmico vindouro, descrito pelo profeta, da devastação associada ao juízo da Antiga Aliança de Israel para as devastações associadas a sua vinda final. Desse modo, Jesus indicou que a sanção final da ameaça profética de Sofonias está ainda pendente. O juízo cósmico que reverte­ rá a criação é ainda futuro.“* B. O POVO DA ALIANÇA EXCLUÍDO (1.4^7)

4 Mais especificamente, estenderei minha mão contra Judá e contra todos os habitantes de Jerusalém; e exterminarei deste exato lugar o remanescente de Baal, o nome dos Chemarim com seus sacerdotes; 5 os que adoram o exército do céu sobre (seus) eirados; os que adoram jurando pelo Senhor enquanto Juram por seu "Rei 6 os que recuam em seguir ao Senhor, que não o buscam nem perguntam por ele. 1 Cala-te diante de Yahweh, o Senhor; 4. o reconhecimento de que o Evangelho de Mateus provavelmente tem a intenção de fazer referência a Sofonias encontra-se em D. Hill, The Gospel o f Matthew, New Century Bible Commentary (reimpr. Grand Rapids: Eerdmans, 1981), p. 236. C f A. H. McNeile, The Gospel o f Matthew (Lonátes: Macmillan, 1938), p. 201.


328

SOFONIAS1.4

porque o Dia cio Senhor está perto. Porque o Senhorjá preparou um sacrifício e já santificou seus convidados. 4. Após anunciar o caráter cósmico da devastação iminente vinda de Deus, o profeta indica um objeto de juízo mais específico. Não só o mundo em geral, mas aqueles que têm sido identificados como o povo de Deus, em particular, experimentarão o juízo consumidor do Onipo­ tente. A metodologia de Sofonias, de mover-se da periferia para um nú­ cleo interno, na descrição do objeto de juízo divino, encontra estreita comparação com a técnica de Amós (cf Am 1.6-2.16). Num oráculo elaboradamente estruturado, esse antigo profeta de Israel começou com uma palavra de juízo contra cada um dos vizinhos de Israel que teriam sido aplaudidos por seus contemporâneos. Mas, como clímax de sua palavra de juízo, ele denunciou o próprio povo de Deus residente em Israel. O fato mais surpreendente é que a tribo privilegiada de Jiidá, e a supostamente inviolável cidade ác Jerusalém, vieram a ser objetos dos juízos consumidores de Deus. O cetro jamais se apartaria de Judá (Gn 49.10). Deus jurara que manteria para sempre uma lâmpada em Jerusa­ lém por amor de seu servo Davi (IRs 11.13,36; cf. 15.4; 2Rs 8.19; 19.34; 20.6). Para um judaíta, não se podia imaginar que de alguma maneira o lugar da entronização de Deus na terra pudesse cair. Contu­ do, Sofonias é inequívoco em sua declaração; Jerusalém será devastada. Duas palavras gráficas descrevem o juízo iminente sobre o próprio povo pactuai de Deus. Estenderei minha mão [vi^nãtiti yãdí] contra eles, e os exterminarei [w^hitrati; lit. “os excluirei”]. A “mão estendida” simboliza uma pessoa entrando em ação com toda a força a seu dispor. No caso de Deus, ele “estende sua mão” quando intervém dramaticamente empregando meios “além do comum”.' Particularmente, nas pragas do Egito, Deus “estendeu sua mão” para efetuar intervenções miraculosas de juízo (cf Êx 7.5; 15.12; note tam. Calvino. p. 191.


SOFONIAS 1.4

329

bém Moisés e Arão “estendendo” suas mãos como meio de inaugurar as várias pragas em Êxodo 7.19; 8.1-2,12-13 [Eng. 5-6,16-17]; 9.22; 10.12,21-22; 14.16,21,26-27). De uma maneira inspiradora. Deus li­ bertou Israel “com mão poderosa e com braço estendido” (cf. Dt 4.34; 5.15; 7.19; 9.29; 11.2; 26.8). Mas agora este mesmo poder deveria ope­ rar contra Israel, em virtude de uma nova relação adversa. É preciso ponderar bem o caráter assombroso desse pronunciamento profético. Quem porventura não tem o potencial de desviar-se com Israel em seu pecado? Já que sabiam ser favorecidos pelo Senhor, en­ tão julgavam estar isentos de sua justa indignação. Mas a mão do juízo divino pode dirigir-se tanto contra os que foram chamados por seu nome, como também contra os que não o conheceram na plenitude da verdade. A LXX traduz essa frase como ektenõ íên cheira mou, “eu estenderei minha mão”. O mesmo conceito aparece no NT quando Cristo faz um milagre de cura estendendo sua mão (Mt 8.3; Mc 1.41; Lc 5.13). Em outros lugares, Jesus interpreta suas intervenções sobrenaturais como sendo o “dedo de Deus” manifestando a chegada de seu reino na terra (Lc 11.20). Sua interpretação desses eventos pressupõe que o ato de “esten­ der” sua mão tinha em vista não só um simples contato físico, mas também um meio de simbolizar uma ligação direta com aquelas antigas ocasiões nas quais Deus estendia sua mão de forma salvífica. O caráter gracioso dessas intervenções da Nova Aliança exibe a extensão da mi­ sericórdia de Deus em relação àqueles que não eram merecedores nos dias de Jesus, porém não anula o cumprimento final do tema do juízo envolvido neste simbolismo como profetizado por Sofonias. Cinco objetos da atividade extemiinadora de Deus em Judá e Jeru­ salém são indicados pelo uso que o profeta fez do objeto direto em hebraico (’et). Cada uma dessas práticas listadas denuncia várias cor­ rupções na adoração em Israel. Posteriormente, o profeta denunciaria os pecados do povo uns contra os outros, tais como fraude e violência. Mas ele começa de maneira apropriada com uma concentração exclusi­ va nos pecados cometidos diretamente contra Deus nas práticas do cul­ to pelo povo. Com demasiada frequência, uma ampla tolerância para com o cul­ to é promovida mesmo no meio daqueles que geralmente professam fé


330

SOFONIAS 1.4

no Deus das Escrituras, muito embora ações imorais, tais como violên­ cia e fraude, sejam totalmente condenadas. Mas este verdadeiro profe­ ta de Deus percebeu a mentira embebida nesta abordagem moralista da religião. Somente quando o manancial de devoção a Deus é purificado pela verdade é que ações concretas do homem se conformam com a lei de Deus com respeito a amar a seu próximo. Os dois primeiros itens a serem exterminados seriam o remanes­ cente de Baal e o nome dos chemarim com seus sacerdotes. Um grande número de comentaristas tem interpretado a referência à destruição do remanescente de Baal como indicativo de que a reforma de Josias já havia feito certo progresso.^ Já uma parte significativa do culto a Baal teria sido removida pelas reformas anteriores de Josias. Agora, porém, Sofonias profetiza que o baalismo que ainda restava seria removido. Paralelo à remoção do remanescente de Baal ocorre a obliteração do nome dos sacerdotes heréticos. Portanto, este juízo iminente do Senhor seria tão cabal que até mesmo o nome dos falsos sacerdotes será esquecido. Em ambas as expressões, a ênfase recai sobre a eliminação até da mínima associação com Baal e seu culto em Israel. Se pudermos ou não deduzir que a eliminação do baalismo já havia começado, a des­ truição do remanescente de Baal enfatiza a plenitude do juízo consu­ midor de Deus.^ Pois, como poderia ser diferente? Ou o S e n h o r é Deus, ou Deus é Baal. Um dos dois tem de funcionar como Senhor sobre o povo e sua terra. Ou a história prossegue num padrão meramente cíclico, segundo as ordens da natureza mal concebida, ou a história recebe sua direção de Deus, o Criador que se move em direção ao consumado alvo da redenção de acordo como os soberanos propósitos de Deus, o Reden­ tor. O Deus que criou em salubridade e redime em integridade não pode ser associado a um deus que fertiliza a terra por intermédio de prostituição sacra e que demanda que sua porção seja o sacrifício in­ fantil. 2. Cf. dentre outros Keil, p. 128. 3. Cf. S. R. Driver, p. 112; Rudolph, p. 262.


50F0NIAS 1.4

331

Os chemarim (RSV “sacerdotes idólatras”) são agrupados com os sacerdotes de Baal como elementos envolvidos na purificação de Judá por Josias em 2 Reis 23.5,8.0 significado preciso de chemarim é incerto.“*Há falta de evidências adequadas para estabelecer a teoria de que o termo se refere a “sacerdotes idólatras” contra outra classificação de sacerdotes (não idólatras?). Nem é claro se chemarim era um termo que descrevia um sacerdotalismo nào-levítico em Israel,^ visto que o termo normal para “sacerdotes” é usado também para funcionários não-levíticos destruídos por Josias em Betei (cf IRs 13.33-34). Deus estabeleceu um sacerdotalismo para mediar a unidade com seu povo. A própria existência do sacerdotalismo implicava fraqueza na humanidade e a necessidade da compreensão compassiva em manter a via de acesso do pecador para Deus. Mas, sob as corrupções do baalismo, o sacerdotalismo aparentemente oferecia crianças indefesas como sacrifícios. Em vez de contribuir para a remoção do pecado, o sacerdo­ talismo instigava depravação da pior espécie. Por ocasião do estabelecimento do altar rival em Betei, um profeta anônimo declarou que um homem chamado “Josias” iria profanar esse mesmo altar sacrificando nele os sacerdotes oficiantes e queimando os ossos dos mortos em sua superfície (IRs 13.1-2). Sofonias, por sua vez, prediz a total destruição dos sacerdotes que seguissem essa práti­ ca corrupta, e talvez tenha visto com seus próprios olhos o cumprimen­ to parcial de sua profecia. Pois seu contemporâneo, rei Josias, foi jus­ tamente aquele que sacrificou os sacerdotes e queimou os ossos dos mortos no altar de Betei (2Rs 23.20). Mas a preocupação principal de Sofonias era com os sacerdotes corruptos ora entrincheirados na própria Jerusalém. Ele declara que a purgação divina iria remover também o sacerdotalismo falso deste lugar. Jerusalém era o centro do culto de Judá porque Deus havia estabe­ lecido seu lugar de habitação no meio daquela cidade de um modo singular. Por esta razão, sua pureza tinha de ser mantida. O juízo do 4. Cf. a discussão de KB. p. 442. 5. Keil em C. F. Keil e F. Delitzsch, Commentary on the Old Testament, vol. 3:1 e II Kings, etc., trad. James Martin (reimpr. Grand Rapids: Eerdmans, 1950). p. 483.


332

SOFONIAS 1.4-5

exílio fora o efeito de acabar de vez com “a inclinação para a idola­ tria”'’ de Israel. Mas a purgação final de todo o remanescente do culto falso espera pela plena transformação do cosmos associada à primeira palavra de Sofonias com respeito ao juízo iminente (v. 2-3). Após tratar do oficialismo corrupto do culto de Judá (v. 4b), o pro­ feta declara o extermínio inevitável de todos aqueles que participavam das práticas litúrgicas impróprias (v. 5-6). O fato de o povo haver indu­ zido a estas práticas não os exime do Juízo de Deus. 5 .0 primeiro grupo denunciado é os que adoram o exército do céu sobre (seus) eirados. Uma forma dessa superstição foi encontrada em seus devotos em quase todas as mais antigas culturas, e se manifesta atualmente naqueles que acreditam nos horóscopos modernos. Pode-se encontrar o esquema de referência de Sofonias em duas passagens do Livro da Lei descoberto por Josias. Segundo Deuteronômio 4.19, Israel é alertado especificamente sobre o “culto” (hiStahPwitã) celebrado ao sol, à lua e às estrelas, “todo o exército do céu” {kõl s^hõ,’ haSSãmayim). Pois o S enhor demonstrara sua inquestionável sobera­ nia sobre esses grandes fenômenos dividindo-os entre todos os povos da terra. Deuteronômio 17.3-7 prescreve a pena de morte a qualquer homem ou mulher que fosse encontrado adorando (wayyistahü) o sol, a lua ou as estrelas. Jeremias, subsequentemente, indicou que particu­ larmente as mulheres em Israel sucumbiam à tentação de cultuar o exér­ cito do céu. Mesmo após a devastação de Israel, aqueles que viviam no Egito insistiam em oferecer seus sacrifícios ao exército do céu (Jr 44.19). Culto em (seus) eirados pressupõe, em parte, a ideia de um culto individualizado de controle doméstico.’ A síntese do abuso do princí­ pio de que todo o Israel era um “reino de sacerdotes” (Êx 19.6) poderia 6. Jonathan Edwards, The History o f Redemption (reimpr. Evansville, in; Sovereign Grace Publishers, n.d.), p. 132. 7, Práticas particulares de culto realizadas nos “eirados" podiam ser exercidas embora alguma evidência esteja disponível nos textos cunéiformes de Ras Shamra descrevendo “um ritual para ser usado ao fazer oferendas nos eirados a deidades astrais e luminares celestiais” (R, K. Harrison, Jerem iah and Lam entations. Tyndale Old Testament Commentaries [Downers Grove, IL: InterVarsity Press, 1973], p. 112). Este grau de regula­ mentação não excluía uma prática noturna individualizada nas circunstâncias privadas ga­ rantidas pelo culto “nos eirados”.


SOFONIAS 1.5

333

ser encontrada nessas práticas. Sobre os telhados das casas particula­ res, cada pessoa cultuava a forma que mais lhe agradava. A legislação deuteronômica tinha a intenção de opor-se exatamente a essa tendên­ cia tão depravada em suas exigências de que tal prática em Israel atrai­ ría a atenção da comunidade pela boca de duas ou três testemunhas (Dt 17.4-7). A Lei e os Profetas combinavam para condenar a ideia de que o culto que uma pessoa celebrava pudesse ser deixado aos ditames de sua própria consciência. A frase seguinte do profeta se concentra no aspecto sincretista do culto a Baal em Israel. Sofonias garante devastação total para os que adoram com juramento ao S e n h o r enquanto juram por seu "Rei ”. A distinção sutil entre jurar pelo S e n h o r enquanto se Jura por outro ao qual chamam “Rei” nem sempre aparece nas traduções.* Mas ele mani­ festa justamente 0 sincretismo pernicioso que infestava o culto em Israel. O que podería ser mais satânico do que uma religião que professava o nome do Deus verdadeiro, enquanto ao mesmo tempo professava devo­ ção à principal rival? Por meio deste método, uma pessoa podia praticar as orgulhosas imaginações de seu próprio coração sem qualquer pertur­ bação. O “Rei”, que é posto em parceria com o S e n h o r , neste versícu­ lo, evidentemente trata-se de Baal, considerado como monarca divino por seus devotos.^ A própria natureza do culto envolve uma pessoa numa postura de fazer juramento. A não ser que uma pessoa aja meramente como espec­ tadora, ela poderá evitar solene comprometimento de sua lealdade ao Deus que ela professa, o que em essência envolve um juramento. Mais uma vez, a denúncia de Sofonias ecoa a legislação deutero­ nômica. A ordem explícita que Israel recebera era que temesse ao S e ­ n h o r e jurasse “por seu nome” (biSmô - Dt 6.13; 10.20). Contudo, a nação agora estava tentando reter o melhor dos dois mundos antitéti8. A LXX nâo faz distinção ao traduzir I e h por kaiá. A NIV também não distingue as preposições em sua versão. 9. Kapeirud, Message ofthe Prophet Zephaniah, p. 3; Rudolph, p. 265,266. E possível a proposta de que o matküm da TM, "seu ‘Rei’”, deveria ser lida como “ Milcom” (uma dcidade cananeia), e poderia ser efetuada sem modificação de consoante. Mas o contexto não sugere que este seria o lugar para introduzir uma referência à principal dcidade amonita.


334

SOFONIAS 1.5-7

COS, invocando tanto o nome do S e n h o r como o nome de Baal. Assim, os seres humanos exibem todos os recursos de sua depravada engenhosidade (cf. Mt 23.16-22).

Podem-se ver as contradições autodestnitivas implícitas no sincretismo na exposição subsequente de Sofonias acerca da atitude de seus contemporâneos. Embora jurassem fidelidade ao S e n h o r , simultanea­ mente assumiam que “Yahweh não faz bem nem mal” (v. 12). Até mes­ mo o mais devoto adorador de Deus, num esquema sincretista, no final negará todo poder ao Deus verdadeiro. Pois ninguém pode servir a dois senhores. 6. Em sua última especificação das causas do Juízo exterminador de Deus, 0 profeta se volta dos pecados de “comissão” para os pecados igualmente hediondos de “omissão”. Devastação sobrevirá aos que não seguem o S e n h o r , nem o consultam. E difícil obter uma distinção entre as palavras usadas para buscar (bqS) e inquirir (drS). O segundo termo pode conter mais a ideia de buscar orientação numa situação de perplexidade. Mas ambas as pala­ vras se referem essencialmente a uma concentração de devoção volta­ da para seu Deus. A combinação dos termos sublinha o fato de que culto prestado ao Deus verdadeiro requer esforço consciente e orienta­ do. Esta intensidade na devoção não pode ser considerada como uma opção reservada para uma minoria piedosa. O fracasso em buscar ao Senhor é um pecado que deve trazer Juízo de extermínio. O profeta especifica ainda mais que as pessoas recuam de seguir ao Senhor. Esta mesma condenação, citada no NT para estabelecer o Juízo universal de Deus sobre a humanidade inteira (Rm 3.9), conduz ao mesmo silêncio terrível perante o S e n h o r como ordenado por Sofo­ nias. Toda boca se fecha (Rm 3.19; c f Sf 1.7). 7. Cala-te diante de Yahweh, o Senhor. Desiste de teus vãos protes­ tos. Tua insinceridade sincretista só intensifica a razão para condena­ ção. Uma resposta transparente à verdade só multiplica as causas de condenação. Pode-se encontrar algum sinal de esperança e graça nesta triste situa­ ção no relato da reforma de Josias, pois o Jovem rei se volve com o fim


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de “consultar” o Senhor quando exortado pelo Livro da Lei (2Rs 22.13,18). Josias fez exatamente o que a nação pecadora falhara em fazer. A graça soberanamente vitoriosa de Deus acha sua expressão última na declaração de que ele seria achado mesmo por aqueles que “não o buscavam” (Is 65.1 ). Esta prioridade da graça descobre realizações pro­ gramáticas e históricas nas consequências do juízo experimentado por Israel sob a Antiga Aliança, tal como está sendo antevista por Sofonias. Ele também predisse a aurora de um dia que Jaz além da devastação quando os gentios, aqueles povos ímpios que não buscavam ao S e n h o r , seriam encontrados por ele (Sf 2.11 ; 3.9; c f Rm 10.20). Finalmente, era por causa da vinda do Dia do S en h o r que os recipi­ entes da mensagem do profeta deveriam permanecer em reverente silên­ cio. Esse apelo solene ao silêncio da parte do profeta implica a iminência do próprio Senhor. Permanecer em silêncio perante sua grandiosa ma­ jestade nesse grande dia inspira a mais humilde e reverente conduta.'® Tem-se reconhecido, em geral, o significado dos materiais em Sofonias para o tema do “Dia do S e n h o r ” ." Este tema singular permeia todo o livro e constitui o principal motivo organizacional. As evidências em Sofonias indicam que as pesquisas sobre o con­ ceito do Dia do S e n h o r não podem limitar-se àquelas passagens nas quais aparece o uso explícito dessa frase. Num contexto claramente unificado pelo tema do Dia por vir, Sofonias não fala apenas do “Dia do S e n h o r ” . Ele usa também como equivalentes frases tais como “no dia do sacrifício do S e n h o r ” (1.8), “naquele dia” (v. 9-10); “naquele tempo” (v. 12); “o grande dia do S e n h o r ” ( v . 14). Não é necessário concluir que, toda vez que uma dessas frases aparece em outros luga10. Observe a aparição do termo em Ageu 2.20; Zacarias 2.17 (Eng. 13 ); Neemias 8.11. A sugestão de Rudolph, p. 266, de que o uso do termo implica uma convocação litúrgica é uma possibilidade. Mas é questionável se este arcabouço é adequado para explicar as origens do “ Dia do S enhor". 11. Observe o comentário de Gerhard von Rad, “The Origin o f the Concept the Day of Yahweh”, JSS 4 (1959), p. 102, de que o material em Sofonias “certamente pertence ao material mais importante a nosso dispor com respeito ao conceito do Dia do S enhor” . Uma vez mais, em seu tratamento de yám em TDNT, 2.945, ele observa; “ Lado a lado com a descrição poderosa do Dia do S enhor em Isaias. Sofonias contém a proclamação mais completa desse dia de juízo”.


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res nas Escrituras, ela deva referir-se ao Dia do S e n h o r . Mas a termi­ nologia de Sofonias argúi com bastante veemência contra uma meto­ dologia que limitaria demais a pesquisa apontando para as passagens em que a frase aparece precisamente como “Dia do S e n h o r ” .'^ Particularmente, com referência à questão da origem do conceito do Dia do S e n h o r , Sofonias tem muito a contribuir. Uma variedade de sugestões tem sido proposta com respeito á origem do Dia do S en h o r nas Escrituras. Mas nenhuma das opções assimila adequadamente to­ dos os vários dados nas Escrituras com respeito à origem do Dia.'^ 12. Existe alguma inconsistência entre o “anterior” e o “posterior” de von Rad neste assunto. Em seu artigo de 1935 sobre o termo hebraico t’ô/w em TDNT, 2.946, von Rad observa que Jeremias nunca fala do “Dia do S pniior ” usando esta frase específica, mas frequentemente se refere a “aqueles dias” e “aquele tempo” , explicando que “em Jeremias este parece ter essencialmente o mesmo significado úeyôniyhw h em outros profetas”. Ele também emprega outras passagens para elucidar o conceito daquele Dia que nâo usa a frase exata, tais como Zacarias I2.lss.; 13.lss.; 14.8; Malaquias 3.2. Mas em seu artigo posteri­ or, de 1959, ele insiste que nâo se deve tentar fazer investigações que vâo além da evidência material que menciona expressamente o Dia do S enhor, embora reconheça que conceitos mais amplos fossem associados com o Dia (“The Origin o f lhe Concept o f the Day of Yahweh”,y S 5 4 [1959] 97). Von Rad elimina algumas passagens-chave no começo deste artigo posterior, “porque elas nâo fornecem ao intérprete uma base exegética segura” (p. 97). Ele observa que uma base ampla de passagens existe nos profetas, mas, por causa de um número de ideias totalmentc heterogêneas, o "único método correto” é estreitar a esfera das investigações (ibid). Em vista de sua eliminação inicial do arcabouço maior do conceito, a fonte dessas ideias hete­ rogêneas é obscura. 13. Para discussão e interação com as várias teorias que têm sido propostas, ver L. Cerny, The Day o f Yahweh and Some Relevant Pmhiems (Praga: University o f Karlova, 1948); Kapelnid, Message o f the Prophet Zephaniah. Descontentamento com o tratamento dado por von Rad é expresso por M. Weiss, "The Origin o f the ‘Day o f the Lord' Reconsidered”, HUCA 37 (1966) 40; Cemy, Day o f Yahweh. p. 59; Kapelnid, Message, p. 82. Limitações também surgem nas várias outras sugestões com respeito à origem do Dia. Ou falta apoio adequado nas propostas dentro do texto da Escrituras, ou elas não são bastante abrangentes para açambarcar as dimensões amplas dos dados, ou elas são tão amplas que lhes falta adequado significado sintetizador. Cemy, Day o f Yahweh. p. 45, critica severamente a ligação que Mowinckel faz com o Dia do S enhor a um festival babilónico akhu. As sugestões referentes às origens litúrgicas do Dia tal como encontradas em G W. Ahlstrõm, Joe! and the Temple Cnit o f Jemsalem. VTSup 21 (Lcinden: Brill. 1971), p. 63, não tratam adequadamente da dimensão histórica do Dia profético. Observe o comentário de von Rad, TDNT. 2:944, de que o conceito do Dia do Senhor desenvolveu “em notável alienação do mundo doscultos”. A ideiaem Cemy. Day o f Yahweh. p. 79, de “um dia fatídico decretado pelo Senhor” é um conceito simplesmente


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No contexto dessa discussão, Sofonias poderia ter alguma coisa diferente a oferecer. O consenso geral de que o Dia do S e n h o r envolve uma teofania, na qual Deus manifesta seu poder, pode servir como ponto de partida para a compreensão do Dia. Mas, como essa teofania pode ser definida com mais precisão? O primeiro capítulo da profecia de Sofonias apresenta em sequên­ cia três imagens relacionadas. A primeira descreve a reversão da ordem do cosmos conforme corrobora a aliança com Noé (v. 2-3). A segunda descreve uma festa sacrificial ligada à maldições simbolizadas no pro­ cedimento de “fazer a aliança” manifesto no tempo do estabelecimen­ to da aliança abraâmica (v. 7-8; c f Gn 15). A terceira apresenta uma imagem assustadora da aparição de Deus em meio a trevas, espessas trevas, nuvens e trombeta refletindo a teofania associada ao estabeleci­ mento da aliança mosaica (Sf 1.15-16). Estas duas últimas imagens serão posteriomiente exploradas de maneira mais detalhada. Mas, nes­ se meio-tempo, pode-se observar que o Dia do S e n h o r , em Sofonias 1, é associado ao estabelecimento das alianças sucessivas com Noé, Abraão e Moisés. Portanto, o Dia do S e n h o r pode ser visto como sendo o Dia de sua Aliança. Nesse dia ele estabelece seu senhorio soberano sobre os ho­ mens. Para instituir sua aliança, ou para sancionar as provisões da alian­ ça, 0 Senhor manifesta seu senhorio naquele Dia. Nenhum outro dia pode ser descrito tão adequadamente como pertencente a ele mais do que o Dia do estabelecimento da aliança e sua sanção. Esta perspectiva pactuai sobre o Dia do S e n h o r pode ajudar a rela­ cionar a vinda do Dia com a vinda do reino. Segundo L. Cerny, “Esse dia porá um ponto final a toda a história precedente, do mundo todo, e desse dia em diante começa no mundo novo o Reino do Senhor nunca antes experimentado”.'“ O senhorio de Deus sobre o mundo encontra amplo demais para ser útil. A sugestão de Weiss. HUCA 37 (1966), p. 46, de que o Dia se relaciona essenciaimente com a ação de Deus sem tratar especificamente com a questão dc tempo contradiz a ênfase sobre a iminência do Dia. A ideia de Kapelrud de uma “grande festa anuaf’ na qual Deus determina o destino da humanidade não possui raizes adequadas em evidências bíblicas (Message, p. 86). 14. Cemy, Day o/Yaliweh. p. 84, observa que von Rad, TDNT. 2.944, indica que seria muito natural que o reinado do Senhor e o Dia do Senhor fossem inter-relacionados.


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sua estrutura significativa na vinda do grande Dia quando ele aplicará as provisões de sua aliança. Uma perspectiva pactuai sobre o Dia do S e n h o r pode também aju­ dar na integração de outros conceitos nas Escrituras associados à vinda do Dia. Como um suserano vencedor, o Senhor sai à guerra para subju­ gar todos os seus inimigos debaixo de seus pés, e para prendê-los a si em lealdade pactuai. Como o Grande Rei e Criador de todos, o Senhor possui o poder de subverter o cosmos. O juízo sobre os inimigos de Deus alcança o clímax no Dia do S e n h o r como consequência das mal­ dições juradas na aliança.'^ Neste contexto da apresentação do Dia do S e n h o r , em conexão com a inauguração e sanção, Sofonias declara que o Senhor preparou um sacrifício e santificou seus convidados (Sf 1.7). Ambas as ações estão intimamente associadas com o estabelecimento de uma aliança nas tradições de Israel. Em um texto de reconhecida antiguidade, Abraão partiu ao meio os animais e dispôs as metades de forma oposta às outras em preparação para “a passagem pelo meio” de uma teofania (Gn 15.9-18). A ação simbolizava um penhor auto-imprecatório às maldições pactuais. A ten­ tativa das aves de rapina de devorarem as carcaças exibe vividamente os horrores finais da maldição pactuai. Jeremias, contemporâneo de Sofonias, indica a continuidade da significação do simbolismo patriarcal em sua alusão explícita ao anti­ go procedimento de fazer aliança precisamente no tempo em que Deus estava trazendo devastação pactuai sobre Jerusalém por meio de seu “servo” Nabucodonosor (Jr 34.18-20). Em muitas outras passagens. Jeremias se refere à maldição pactuai associada ao devorar das carca­ ças por pássaros de rapina (cf. Jr 7.33; 16.4; 19.7).'* Particularmente 15. Observe D. R. Hillers, Treaty-Curses and the Old Testament Prophets, BibOr 16 (Roma: Pontifical Biblical Institute, 1964), p. 531, que conclui que no caso de Isaias34, “o profeta pronuncia maldição sobre uma nação em termos que ocorrem como uma maldição num tratado”. 16. Para uma exposição mais completa sobre o significado deste conceito de maldição pactuai como um fator unificador nas Escrituras, ver meu The Christ o f the Covenants (Grand Rapids: Baker, 1980), p. 124-142.


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ao descrever a destruição do exército de Faraó Neco em Carquemis, Jeremias emprega a linguagem do sacrifício, ao descrever “aquele Dia”: Porque esse Dia é para o S e n h o r dos Exércitos, um Dia de vingança, para a vingança de seus adversários; a espada devorará e se fartará, extinguirá sua sede com seu sangue. Porque um sacrifício é (feito) para o S e n h o r dos Exércitos na terra do Norte, junto ao rio Eufrates (Jr 46.10). Essas imagens de sacrifício pactuai relacionadas com a sanção das maldições pactuais fornecem a perspectiva pela qual o profeta Sofonias vê o Juízo iminente de Deus sobre Judá. Pelo fato de que foram ligados a um juramento pactuai auto-imprecatório, devem experimentar de­ vastação naquele Dia em que o Senhor da aliança executar sua sobe­ rania. Outras passagens dos profetas desenvolvem as imagens de um sa­ crifício oferecido pelo Senhor na descrição de seus juízos sobre as nações. Duas passagens podem ser resumidas como segue: No Dia da vingança do S e n h o r , sua espada se banhará no sangue de Edom. Pois o S e n h o r oferece um sacrifício em Bozra e executará uma grande matança em Edom (Is 34.5-8). Toda espécie de aves e animais selvagens deve reunir-se. Pois o S e n h o r lhes está preparando um grande sacrifício. Eles comerão a carne e beberão o sangue dos homens poderosos de Israel (Ez 39.1720). Fazendo uma alusão a esta antiga montagem de imagens proféti­ cas, o livro da Nova Aliança do Apocalipse descreve a devastação final dos inimigos de Deus. Naquele dia, todas as aves, que voam pelo céu, devem ser convocadas para “a grande ceia de Deus”, quando poderão


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comer a carne dos reis e dos homens poderosos (Ap 19.17-18). Naque­ le último Dia, as predições proféticas do juízo pactuai concretizarão seu cumprimento final. O sacrifício que o Senhor preparou em Sofonias 1.7 seriam Judá e Jerusalém. Pois eles já foram especificados como objetos do juízo di­ vino (vs. 4-6). Este pronunciamento notável não deveria apanhar o povo de surpresa, pois haviam se comprometido mediante juramento autoimprecatório da aliança. O Senhor também santificou [hiqdiê] os convidados em prepara­ ção para a festa do grande Dia do S e n h o r . Esses convidados podem muito bem ser as aves e animais selvagens do campo que comem à mesa da condenação pactuai, ou podem ser as nações ímpias que ser­ vem de instrumentos divinos para julgar Israel. Em cada caso, a santi­ ficação desses convidados questionáveis ao banquete seria essencial para manter a santidade de Deus em sua função de anfitrião. Essa purificação dos convidados pode ser comparada à santifica­ ção de Israel por três dias em preparação para o encontro pactuai no Sinai (Êx 19.10). O elo pactuai estabelecido no Sinai foi consumado quando representantes do povo “comeram e beberam” na presença de Deus (Êx 24.11; c f 1Sm 16.5). Uma relação adicional com a santifica­ ção dos convidados numa refeição pactuai pode ser vista na consagra­ ção (hiqdaSti) ao Senhor de todo primogênito de Israel por ocasião da Páscoa. Eles só poderiam participar da refeição pactuai na Páscoa, por­ quanto os levitas foram “oferecidos” (hênaptã) em lugar do primogê­ nito que havia sido santificado (hiqdaSti) ao Senhor (Nm 8.15-17). A mensagem do Senhor dada por intermédio de Sofonias não é meramente descritiva. É declarativa. Pois o profeta declara taxativa­ mente que o Dia do S e n h o r está perto. Este anúncio significa que o Dia é tanto inevitável quanto iminente. Em lugar algum nesse oráculo o profeta sugere um curso de ação que porventura desvie a fúria do Dia do S e n h o r . Tampouco nos seguin­ tes oráculos, convocando ao arrependimento, ele sugere que o juízo da­ quele Dia possa ser cancelado. Somente, “quem sabe”, o remanescente piedoso poderá “esconder-se” quando aquele Dia chegar (Sf 2.3b).


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A iminência do Dia indica que ele poderia chegar a qualquer mo­ mento. O tempo expirara para Judá. Agora só lhes restava preparar-se para a devastação.'^ A finalidade da subversão cósmica, associada à vinda do Dia do em seu sentido mais pleno, nunca figurou no contexto dos eventos associados com a Antiga Aliança. Não surpreende, pois, en­ contrar no NT tantas passagens que pressupõem uma chegada do Dia do S e n h o r nos eventos comuns dos tempos neotestamentários, bem como passagens que apontam para a chegada futura do grande Dia. S enhor,

Quando João Batista convoca ao arrependimento em vista da imi­ nência da chegada do juízo divino, sua mensagem é paralela ao anún­ cio de Sofonias quanto à proximidade do Dia do S e n h o r (Mt 3.1-12; Lc 3.1-18). A pregação de João sublinha a chegada do Reino de Deus em associação com o fogo purificador do Juízo de Deus. Não se deve supor que a chegada do Reino seja idêntica à chegada do Dia. Mas a inter-relação desses dois complexos de idéias pressupõe que o Dia do S e n h o r serve para inaugurar o reino. Somente quando o juízo divino purificador varrer a terra é que virá o reino. Quando Cristo deliberadamente faz um paralelo do ato de rasgar sua própria carne como um sacrifício pactuai com a morte substitutiva do cordeiro Pascal, ele interpreta sua própria morte nos termos familia­ res da maldição pactuai (cf Mt 26.26-29; Lc 22.14-22). Cai sobre ele o fogo da ira de Deus, aquela ira que é sumariada no derramamento das maldições pactuais no Dia do S e n h o r . Comer sua carne e beber seu sangue, pela fé, introduz o participante na festa sacrificial do Senhor, oferecida somente aos convidados consagrados. O derramamento do Espírito, acompanhado de sinais sobrenaturais de um vento que desce dos céus, marca a chegada dos “últimos dias”, do “grande e glorioso dia do Senhor” (At 2.17-18,20).'* Ora, o reino inau17. Von Rad, JSS 4 (1959), p. 108, especula que o grito concernente à iminência do Dia do S enhor poderia ser “o velho chamado estereotipado com que as tropas eram convocadas para

assumir o campo na guerra santa, ou um grito para que saíssem à batalha com o Senhor". Sua proposta é desprovida de evidência adequada. Cf. Weiss, HUCA 37 (1966), p. 36. 18. Os sinais mencionados em Atos 2.20, que iriam preceder a vinda do “grande e glorioso Dia do Senhor", incluem os itens listados que começam no versículo 17 e vào até


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gurado pela chegada do Dia se cumpriu porque o Senhor, o Rei, che­ gou. Havendo subido a seu trono de glória, ele derramou seu Espírito sobre todos os seus súditos. Em certo sentido, o Dia do S e n h o r j á veio. Mas, distinto do Dia é o característico de finalidade. Em certo sentido, o Dia veio em associa­ ção com certos eventos em tomo do advento de Jesus Cristo. Mas, em outro sentido, o Dia ainda virá. E, como Sofonias profetizou, ele está perto. As Escrituras da Antiga Aliança manifestam uma variedade de fra­ ses pelas quais se pode designar a vinda do Dia do S e n h o r . Sofonias fala em termos de “o Dia”, “aquele Dia”, “o grande Dia” e “o Dia do derramamento da ira do S e n h o r ” (1.7-10; 14-15,18). De modo seme­ lhante, as Escrituras da Nova Aliança empregam uma variedade de fra­ ses ao referir-se essencialmente ao mesmo fenômeno. Pode-se designar 0 Dia do Senhor como sendo “o dia do juízo” (Mt 10.15; 11.22,24; 12.36; Jo 12.48; 2Pe 3.7), o “último dia” (Jo 6.39-40,44,54; 11.24; 12.48), 0 “Dia do Senhor” (At 2.20; ICo 5.5; 2Co 1.14; ITs 5.2; 2Ts 2.2; 2Pe 3.10), 0 “Dia de nosso Senhor Jesus Cristo” (1 Co 1.8), “o dia” ou “aquele dia” (Mt 7.22; Lc 10.12; 21.34; ICo 3.13; ITs 5.4; Hb 10.25), o “Dia de Cristo Jesus” (Fp 1.6), o “Dia de Cristo” (Fp 1.10; 2.16), 0 “Dia de Deus” (2Pe 3.12), o “dia eterno” (2Pe 3.18), o “grande Dia” (Jd 6), o “grande Dia de sua ira” (Ap 6.17) e o “grande Dia do Deus Todo-Poderoso” (Ap 16.14). Todas essas passagens merecem cuidadosa consideração quando se tenta determinar assuntos relacionados com a consumação do Dia do S e n h o r confomie profetizado por Sofonias. E suficiente dizer que o juízo cósmico, associado a uma teofania dramática, pode agora ser entendido em termos da gloriosa volta de Jesus Cristo. No dia certo, ele consumará todas as coisas. versículo 21. Pedro, especificamente, declara que têm ocorrido “prodígios e sinais” a começar pelo ministério dc Jesus (v. 22). A "vinda” do “ Dia”, portanto, não aguarda a chegada de um dia associado com “prodígios” e “sinais”. Alguns podem crer que seja ne­ cessário haver uma conversão literal da lua em sangue antes da chegada do Dia. Contudo, o cumprimento de outros sinais em ligação com a vinda de Cristo em seu nascimento, minis­ tério, morte, ressurreição, ascensão e derramamento do Espírito sugeriria fortemente que pelo menos a primeira fase da chegada do dia já se realizou. 0


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C. DEVASTAÇÃO DE TUDO O QUE ESTÁ ENVOLVIDO (1.8-14a) 8 No dia do sacrifício do Senhor, a infligirei castigo b sobre os líderes, b e sobre os fltlhos' do rei, b e sobre todos os que vestem trajos estrangeiros. 9 a Naquele dia infligirei castigo b sobre todos quantos saltam o limiar, b os que enchem a casa de seus senhores de violência e engano. 10 Naquele dia, declara o Senhor, haverá: a uma voz de súplica b desde o portão do peixe; a um uivo b desde o segundo quarteirão; a um tumulto ensurdecedor, b desde os outeiros. 11 Uivai, vós, moradores do Lugar do Pilão, a porque completamente devastado b está todo o povo de Canaã; a totalmente exterminados b todos os negociantes em prata. 12 Naquele tempo: esquadrinharei a Jerusalém com candeias; a infligirei castigo sobre os homens b que se firmam em seus quadris, b e dizem em seu coração; o Senhor não fará bem, nem fará mal. 13 a Sua riqueza será b dissipada; a suas casas, b pilhadas. l. A LXX traduz “filhos” por “casa”. Cf. Rudolph, p. 267, conclui que o termo se refere a todos os membros domésticos do rei, e nào dos filhos do rei reinante.


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a Edificarão casas, b e nunca viverão nelas, a plantarão vinhas, b e nunca beberão seu vinho. 14a Perto está o grande Dia do Senhor! Perto e vindo com grande rapidez.^ Esta seção continua se expandindo sobre o tema do Dia do S en h o r e as devastadoras consequências do juízo associado à chegada daquele dia. O uso explícito da frase o Dia do Senhor põe este material entre parênteses (v. 7,14), e três frases diferentes substituem o “Dia do S e ­ n h o r ” nos versículos intermediários: “no dia do sacrifício do S e n h o r ” (v. 8), “naquele dia” (v. 9-10) e “naquele tempo” (v. 12) - todos intro­ duzem o tema permeante do Dia do S e n h o r . Esses versículos contraem o objetivo do juízo de maneira ainda mais específica do que fizera antes nas seções prévias. Originalmente, o escopo do juízo divino fora indicado como que incluindo a totalidade do cosmos (v. 2-3). Então Judá e Jerusalém foram especificados (v. 46). Agora se designam os judeus em particular (v. 8-9,11), bem como distritos específicos dentro da cidade alvejada de Jerusalém (v. 10-11). A seção também oferece um catálogo mais preciso das consequências do juízo iminente, que pode ser descrito de modo geral como desespe­ ro, devastação e frustração (v. 11,13). Um uso extenso de paralelismo poético marca esta seção, como já foi indicado pela disposição da tradução acima. Este recurso literário aumenta a efetividade da mensagem envolvida. 8. A abertura deste versículo ilustra a alternância abrupta bastante comum em Sofonias, entre a primeira e a terceira pessoa. “Naquele dia do sacrifício do Senhor [terceira pessoa se referindo ao S e n h o r ], 2 .0 termo m ahêr provavelmente represente uma abreviação do participio Piei ni^makSr (cf. Rudolph, p. 263; GKC, § 52s). Mas ele pode ser também um adjetivo, modificando “dia”, que teria se desenvolvido da utilização adverbial do infinitivo absoluto (c f Keil, p. 135. Von Orelli, p. 266).


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infligirei castigo [agora o S e n h o r fala na primeira pessoa].” Este tipo de variação ocorre reiteradamente em todo o livro, e deve ser conside­ rado como um recurso literário característico para vivificar o envolvi­ mento pessoal do Senhor. As mudanças são frequentes e óbvias demais para serem consideradas como resultado de edição posterior.^ Por meio da utilização da preposição hebraica 'al (“em, sobre”) quatro vezes, o profeta indica os objetos específicos da mão punitiva do Senhor (v. 8-9). As duas primeiras categorias de personagens escolhi­ das para juízo se relacionam com a liderança de Israel. Os oficiais e os filhos do rei seriam punidos pelo próprio Deus (v. 8). Mas, pelo fato de que em português os termos príncipe qfilho do rei são virtualmente equivalentes, é melhor traduzir o primeiro termo {éãr) por lideres, a fim de distinguir os indivíduos dos “filhos do rei”, que são mencionados a seguir. O primeiro em dignidade, honra, ofício e liderança deve ser o primeiro a ser julgado. Mas, o que acontece com o rei? Por que ele não se enquadra como objeto da ira divina? Se o ministério profético de Sofonias fosse fun­ damentado no Livro da Lei, recentemente descoberto por Josias, a res­ posta não seria difícil de descobrir. Visto que o rei estava manifestando o tipo de caráter recomendável, apropriado a um soberano que serve como vice-regente do Senhor, ele não receberia o mesmo tipo de trata­ mento atribuído ao desobediente. É preciso lembrar que Sofonias não trata de possíveis categorias de castigos. Ele anuncia o inevitável. O juízo sobre os filhos do rei é inevitável. Surge uma complicação quando se reconhece que no tempo da desco­ berta do Livro da Lei os dois filhos mais velhos de Josias estariam com 10 e 12 anos de idade (2Rs 23.31,36). Este fato, juntamente com outras considerações, tem levado alguns comentaristas a concluírem que a frase filhos do rei se referia à corte real em suas dimensões mais amplas, e não aos filhos do rei, especificamente. Mas, a despeito de todos os problemas envolvidos em relacionar a ^xâSQ filhos do rei diretamente com Jeoacaz e Jeoaquim, a natureza 3. Riidolph. p. 264, conclui que a mudança de oradores indica uma origem secundária de materiais.


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específica da fraseologia, bem como os desenvolvimentos subsequen­ tes na história de Judá, apontam precisamente para outra direção. A explicação mais convincente para a omissão da referência ao “rei” como objeto de juízo é que a pessoa de Josias foi excluída intencionalmente. Esta especificidade também pressupõe especificidade com respeito aos filhos que o profeta tinha em mente. Singular aos padrões de sucessão na história de Judá é o fato de que nada menos que três dos filhos de Josias reinaram em seu lugar. Os dois primeiros filhos de Josias tinham mães diferentes, porém o mesmo pai, o que fornece algum esclarecimento sobre a circunstância em que Sofonias percebia o rumo que os filhos eventualmente iriam tomar. Se o próprio profeta fosse, ele mesmo, de linhagem real, sendo chamado filho de “Ezequias” {1.1), ele podería ter conhecimento espe­ cial da situação que imperava no palácio. A terceira categoria de personalidades condenadas é: todos os que vestem trajos estrangeiros. A sugestão de Keil de que esta frase conde­ na os desejosos de usar os estilos dos povos estrangeiros por causa de considerações políticas não parece adequar-se ao contexto. Mais pro­ vavelmente é a possibilidade de a frase referir-se aos que se vestiam distintivamente como os sacerdotes dos deuses estrangeiros. Deve-se dar algum peso significativo ao incidente do expurgo dos sacerdotes de Baal feito por Jeú. A fim de efetuar um completo aniquilamento desses sacerdotes estrangeiros, Jeú instruiu ao “roupeiro” que trouxes­ se vestes (l^büS) para todos os servidores de Baal (2Rs 10.22; c f lõb^Sim em Sf 1.8). Na vasta multidão que se reuniu para o sacrifício, a identi­ ficação dos sacerdotes de Baal, para que houvesse separação dos sacer­ dotes do Senhor, poderia ter servido de base para a diferenciação de roupa (10.23). Encontra-se também na passagem uma referência ao “rou­ peiro” que descreve a situação contemporânea de Josias (22.14), duran­ te 0 tempo do ministério de Sofonias. Deve-se observar também que Salomão trouxe muitas “mulheres estrangeiras” (nãSim nokriyôt) para Jerusalém e lhes permitiu cons­ truir seus centros de culto no monte das abominações, do outro lado do vale fronteiro à área do templo (1 Rs 11.1,7-8; cf. malbâs nokri em Sf 1.8). Muito possivelmente, cada um desses centros estrangeiros de culto


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possuía seus próprios sacerdotes com suas vestes distintivas. Nas dé­ cadas que se seguiram, os habitantes de Jerusalém teriam se acostuma­ do a ver as vestes sacerdotais distintivas dos vários deuses estrangeiros andando por suas ruas. E bem possível que Sofonias tenha se dirigido a esse tipo de corrupção. Pode-se encontrar algum paralelismo fraseológico significativo nes­ sa descrição em comparação com a versão LXX dessa frase, bem como uma passagem no Evangelho de Mateus. No contexto do Evangelho de Mateus, Cristo cita diversos textos do AT que pronunciam juízo sobre Israel. Primeiro, ele aplica a imagem da vinha improdutiva de Isaías 5 (Mt 21.33). Segundo, ele relaciona a rejeição da “principal pedra angu­ lar” pela liderança de Israel no Salmo 118 com a resposta da nação ao seu ministério (Mt 21.42). Então Jesus conta a parábola das bodas que 0 rei preparou para seu filho. Numa seção exclusiva de Mateus (Mt 22.11-13), um dos convidados aparece sem roupa adequada. Esse con­ vidado audacioso deve ser lançado nas trevas exteriores onde haverá choro e ranger de dentes. As expressões paralelas são: Sofonias condena aqueles que “vestem trajos estrangeiros” (endedyménous endymata allótrid). Em Mateus, o rei ordena que seus serventes lancem fora aquele “que não trazia veste nupcial” {ouk endedyménon éndyma gámou). Naturalmente, este paralelismo de expressão poderia ser totalmente acidental. Uma passagem fala de vestes sacerdotais, e a outra de vestes nupciais. Mas o contexto de Mateus pressupõe a possibilidade de uma alusão intencional à profecia de Sofonias. Em ambos os con­ textos, o tema principal é o Juízo sobre Israel. Esta parábola de Jesus, em particular, entra no arcabouço do evangelho cuja intenção é descre­ ver a rejeição de Israel em termos do cumprimento de predições do AT. Particularmente, se todos os que vestem trajos estrangeiros em Sofonias se referem aos devotos de deuses estrangeiros que trabalhavam nas assembléias de Israel, um paralelismo com a parábola de Jesus se torna bastante semelhante.


348

SOFONIAS 1.8-9

É possível explicar a diferença em contexto com base no fato de Jesus descrever uma situação em que o senhorio que Deus exerce sobre seu reino já foi demonstrado pela reunião dos convidados para a festa nupcial, enquanto Sofonias ainda esperava a intervenção Judicial imi­ nente de Deus. Como consequência, Mateus vê os candidatos ao reino como uma minoria estrita, enquanto Sofonias tinha de digladiar-se numa situação em que aqueles que vestem trajos estrangeiros eram ainda a maioria. 9. O objeto final do castigo de Deus, introduzido pela preposição sobre (al), nesta série, é descrito como todos aqueles que saltam o átrio.“* Essa frase é mais bem entendida pela referência às práticas supers­ ticiosas dos fílisteus em pular por sobre o limiar de seu templo. Segun­ do 0 escritor de Samuel, esse costume era praticado pelos sacerdotes de Dagom até “ao dia de hoje” (1 Sm 5.5). A ironia de tal prática supersticiosa se encontra na frase seguinte. Enquanto saltavam prudentemente por sobre o limiar de seu templo, os judeus enchem a casa de seus senhores de violência e fraude. Eles observam minuciosamente as leis pagãs tão absurdas, porém saltam displicentemente por sobre as ordenanças básicas de Deus em suas próprias casas. Uma vez a terra ficou cheia de violência (hãmãs), o que causara sua destruição nos dias de Noé (Gn 6.11,13). Agora o próprio templo de Deus estava cheio de violência e fraude, o que causaria sua destruição.

4. A ideia de que a frase significa saltar .sobre o átrio em vez de por sobre o átrio é gramaticalmente possível (ver J. G Frazer, Fotk-tore in the Old Teslarneni [Nova York: Macmillan, 1927], p. 313 n. 2). Mas será que isso implicaria uma contradiçSo ostensiva das práticas sacras dos vizinhos fílisteus de Israel? Um Israel com inclinações sincretistas difi­ cilmente se manifestaria dcliberadamente dessa maneira. A compreensão alternativa da fra­ se que significa “saltar sobre” no sentido de “ fazer violência sobre”, referindo-se a roubos em casas, também é possível (c f Keil, p. 132). Mas o texto indica que é na “casa de seus senhores”, e não nas casas particulares, que essa violência é praticada, como se vê pela ausência de uma conjunção adicional que separaria a última porção do versículo do primei­ ro. Visto que parece mais estranho falar de invasão violenta de casas públicas de culto, esta interpretação deveria ser rejeitada.


SOFONIAS 1.9-11

349

Jeremias, contemporâneo de Sofonias, também reclamara contra o povo por este fazer da casa que portava o nome de Deus “um covil de salteadores” (Jr 7.11). Eles tinham a audácia de clamar por segurança contra si próprios enquanto cantavam: “Templo do S e n h o r , templo do S e n h o r , templo do S e n h o r é este”. Mas o tempo todo eles oprimiam o estrangeiro, o órfão, a viúva, derramando sangue inocente no santo lugar de Deus (7.4,6). Jesus encontrou as mesmas práticas de violência e fraude na casa de Deus em seus dias (Mt 21.13). Ele exerceu a prer­ rogativa divina de juízo, ao purificar o templo. 10-11. Os dois versículos seguintes evitam especificar as classes de pessoas destinadas ao juízo a fim de indicar as consequências dos juízos sobre os vários setores da cidade de Jerusalém. Grito, uivo, lamento, ruína e destruição seriam o resultado da aplicação do castigo divino. 10. A súplica e o uivo ecoando das áreas do portão do peixe e da cidade baixa de Jerusalém dão a expressão de total desespero de um povo que perdera toda a esperança na vida. O juízo de Deus tinha entra­ do nos próprios bairros de sua cidade. O portão do peixe aparentemente se refere a uma entrada ao norte da cidade de Jerusalém que normal­ mente seria o primeiro lugar a ser atacado por um exército invasor.^ A cidade baixa é mencionada em 2 Reis 22.14 e na passagem paralela em 2 Crônicas 34.22, e possivelmente em Neemias 11.9. Poderia referir-se à parte mais nova da cidade adicionada por Manassés quando estendeu 0 muro da cidade para o norte.* Desconhece-se, porém, a localização dessa seção da cidade. O tumulto ensurdecedor nos outeiros poderia referir-se à descrição da ação de quebrar os ídolos localizados nas colinas em volta de Jeru­ salém. Jeremias faz alusão às “orgias das montanhas” [hãmôn hãrím), “os outeiros não passam de ilusão” {laSSeqer migg^bã'ôí) (Jr 3.23). Toda essa atividade ruidosa posta em contraste com o “Senhor nosso Deus”, como confiança de Israel, teria sido um fenômeno audível aos habitantes de Jerusalém. Sofonias, porém, agora anuncia que essa ati5. Rudolph, p. 268. 6. cr. Smith, p. 199.


350

SOFONIAS 1.11-12

vidade seria substituída por um “tumulto ensurdecedor”. Numa grande calamidade dissonante, todos os ídolos seriam destruídos. Têm-se apresentado várias sugestões com respeito ao lugar rui­ doso (maèíêS).^ A mudança gramatical nas expressões deste versículo, do indicativo para um comparativo, em confronto com o tratamento prévio dos bairros de Jerusalém, pressupõe que maktêê deveria receber um tratamento diferente. Possivelmente, o termo se refere a toda a cida­ de em vez de apenas a um bairro em particular. Envolta por montanhas mais altas, a própria Jerusalém pode ser comparada a um pilão. Deus, em seu juízo, esmagaria toda a cidade como se estivesse inserida num almofariz. 11.

Súplicas, uivos, lamentos no Dia do S e n h o r . Total e absoluto de­ sespero destroçaria os corações de todos os habitantes de Jerusalém. Esse Dia viria logo. O restante desse versículo estende a descrição do efeito do juízo sobre Jerusalém. O Dia deveria trazer devastação a todos os mercado­ res e homens de negócios da cidade. Indústria, iniciativa e empreendi­ mentos privados terminariam em frustração e ruína pessoais. A refe­ rência ao povo de Canaã deve ser interpretada à luz da frase com a qual ela é posta em paralelo: os negociantes em prata. Por causa de sua reputação como mercadores, o nome do povo cananeu se tomou equi­ valente a “mercador”.* A destruição de todos os negociantes em prata significava que a cidade, como centro de cultura, comércio, luxúria, beleza e arte, chegaria ao fim. Se alguma vida fosse deixada na cidade, ela consistiria apenas no rastejar das mais míseras das existências. Assim sendo, o profeta especificou as lideranças políticas, religio­ sas e comerciais como objetos do juízo iminente do Dia do S e n h o r . Nenhum desses empregos nobres deveria escapar à devastação. 12. Sofonias indica ainda mais que uma busca completa seria feita em toda a cidade. Ninguém escaparia ao olho perscrutador de Deus. Esse cuidado em caçar todo e qualquer habitante pode ser comparado 7. Cf. Driver, p. 117.0 termo significa literalmente “pilão”. 8. Observe o paralelismo encontrado em Isaías 23.8; Oseias 12.8 (Eng. 7). C f Driver p. 117; Rudolph, p. 263.


SOFONIAS 1.12-14a

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com a busca para juízo descrita em Amós 9.2-4. Nem o profundo abis­ mo, nem o céu, nem o cume do Carmelo, nem o fundo do mar poderá esconder os objetos do juízo perscrutador de Deus. Particularmente, aquele que não se envolve, o indiferente e o céti­ co são selecionados para a condenação. Os homens que se firmam em seus quadris deverão receber punição do Senhor. Os espiritualmente céticos que se convenceram de que Deus não faz bem nem ma! podem ser comparados à escória (Simrêhem) que engrossam {haqqõp^fm) na inutilidade, como se lê a frase literalmente. Embora em seu coração sussurrem esses insultos contra Deus, eles não passarão despercebidos. 13, Em consequência de seus audaciosos insultos contra o Senhor, suas riquezas serão dissipadas e suas casas, pilhadas. Na Ifase imedia­ tamente precedente, esses homens haviam expressado seu juízo de que o Senhor não podia fazer nem bem nem mal. Agora declara-se que eles nada poderão fazer. Em termos mais amplos, a expressão traduzida por suas riquezas (hêlãm) inclui a ideia de força, poder ou bens. Previamente, Israel fora avisado de que, quando viesse para a terra, deveria tomar cuidado em nunca dizer: “minha força e o poder de meu braço me adquiriram essas riquezas [hahayil hazzeh]". Eles deveriam lembrar que fora o Senhor quem lhes dera habilidade para produzir riqueza, e com isso confirma­ ra sua aliança (Dt 8.17-18). Mas agora todas suas bênçãos serão con­ fiscadas. Portanto, edificarão casas, e nunca viverão nelas; plantarão vi­ nhas, e nunca beberão seu vinho. Frustração absoluta é a consequên­ cia dessa maldição pactuai. Todo o trabalho de suas mãos redundará em nada. Adão fora amaldiçoado, originalmente, no labor de suas mãos. Mas pelo menos lhe fora assegurado que teria pão para comer (cf Gn 3.19). Sob as graciosas provisões divinas em prol do Israel antigo, de­ viam desfrutar de casas, poços, cidades e vinhas, os quais não haviam produzido. Todos esses tesouros lhes seriam dados gratuitamente. Mas pôr-se sob a maldição divina significava algo muito diferente. Devas­ tados por um exército invasor, suas casas seriam pilhadas. Todas as suas possessões seriam tomadas (Dt 28.30,39). 14a. Duas vezes o profeta sublinha sua certeza de que esse fantástico


SOFONIAS 1.14a-18

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Dia do S e n h o r está perto. Muito mais cedo do que poderia supor qual­ quer um de seus contemporâneos, todas as devastações que ele descre­ via se tomariam realidade. Indo além de seu anúncio prévio, com res­ peito ao Dia (v. 7), Sofonias agora caracteriza a vinda da calamidade como o grande Dia do Senhor, o qual está vindo com muita rapidez (mahêr Uma vez mais, um tema de Sofonias é ressaltado no Livro da Lei de Deuteronômio. Deus havia assegurado repetidas vezes que se Israel se apartasse de sua lei pereceria “imediatamente (mahêr) da terra” (Dt 4.26; 7.4; 11.17; 28.20). É possível que seres humanos dependam de um longo período de preparação para cumprir seus planos. “Deus, po­ rém, não tem nenhuma necessidade de muita preparação, pois seu pró­ prio poder é suficiente quando ele resolve destmir o perverso.”“* Este conceito da “iminência” do Dia de juízo também recebe repe­ tida ênfase sob a administração da Nova Aliança. O Dia “está próximo, às portas” (Mt 24.32-33). O Senhor está “perto”, e o tempo está “pró­ ximo” (Fp 4.5; Ap 1.3; 22.10). Progresso rápido rumo à vinda do Se­ nhor é visto no fato de que “nossa salvação está agora mais perto do que quando no princípio cremos” (Rm 13.11). Os contemporâneos de Sofonias viram com seus próprios olhos o terrível cumprimento dessas palavras proféticas. Desde aquele dia, cada geração encararia a possibilidade de experimentar a consumação do cumprimento desse anúncio profético. D. OS TERRORES DA TEOFANIA (1.14b-18)

14b Voz do Dia do Senhor: E um clamor amargo — há um herói poderoso! 15 Dia de ira transhordante é aquele Dia. Dia de adversidade e angústia; 9. Calvino, p. 221.


SOFONIAS 1.14Ò-18

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Dia de destruição e desolação; Dia de escuridão e densas trevas; Dia de nevoeiro e densas nuvens; 16 Dia de toque de trombeta e grito de batalha contra as cidades fortificadas e contra os cantos das torres mais altas. 17 Porque trarei angústia sobre o homem, e eles andarão como cegos. Porque pecaram contra o S e n h o r ; seu sangue será derramado como pó; e suas entranhas, ' como esterco. 18 Nem sua prata, nem seu ouro será capaz de livrá-los no Dia da transbordante ira do S e n h o r ;; pois no fogo de seu ciúme toda a terra será consumida. Porque ele fará um extermínio completo; sim, ele fará um extermínio chocante de todos os habitantes da terra. Esses versículos dão continuidade ao tema do Dia do Senhor que inicialmente fora mencionado em termos específicos no versículo 7. 1. o termo Phummãm é difícil. BDB, p. 535,536, diz que talvez signifique “intestinos, vísceras”; daí a proposta de “entranhas”. A LXX traduz por “sua carne” (lás sárkas) presu­ mindo que a raiz seria lehem. Esta interpretação é apoiada por Driver, p. 120, Mas, como ele indica, esta não é a palavra comumente usada para carne.


354

SOFONIAS 1.14Ò-16

Agora a concentração neste tema alcança o nível de saturação. Nada menos que dez vezes, nesses cinco versículos, o Dia é explicitamente mencionado. O Dia é agora caracterizado como uma teofania aterradora na qual a ira transbordante de Deus é desencadeada. Delineando íbrtemente a descrição dos eventos fantásticos do Sinai, o profeta antecipa outra ma­ nifestação dos terrores de Deus na qual as maldições pactuais serão infligidas, não meramente gravadas. Agora a execução da aliança subs­ titui a inauguração da aliança. 14b. O profeta introduz esta seção por meio de uma vivida descri­ ção do efeito do Dia. Vês o homem poderoso! Ele gane amargamente em consequência da vinda do Dia. A voz, o som que caracteriza esse Dia tumultuoso, constitui um clamor de desespero da parte daquele que um dia foi poderoso guerreiro. Na teofania original do Sinai, a atenção se focaliza na voz de Deus {qôl *êlõhím) declarando seu se­ nhorio sobre o povo (Dt 4.12,33,36; 5.19-23 [Eng. 22-26]; 8.20; 18.16). Mas agora a atenção se concentra na voz que responde à automanifestação do S e n h o r em seu grande Dia. É uma voz de amargo desespero da parte do guerreiro que foi subjugado. Esse Dia será “tão terrível que o homem poderoso, o guerreiro de muitas batalhas, acostumado às ce­ nas coalhadas de sangue e destruição horripilante, gritará com abjeto terror diante dessa devastação sem precedentes”.^ 15-16.0 Dia é mencionado sete vezes nos dois versículos seguin­ tes. Cinco pares arranjados poeticamente caracterizam o Dia e descre­ vem os fenômenos que o acompanham. A profecia de Sofonias pode ser apropriadamente chamada um tra­ tado sobre a ira de Deus. A característica dominante desse Dia é que ele é um Dia de ira transbordante (yôin 'ebrà\ cf. v. 18). Deste versícu­ lo, aparentemente, surgiu a inspiração para o cântico do século 13, de Thomas de Celano, que foi traduzido em mais idiomas que qualquer outro hino:

2. Laetsch, p. 363.


SOFONIAS 1.15-16

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O dia da ira, que dia terrível, Quando céus e terra passarão! Que poder haverá à espera do pecador? Como poderá ele encarar o terrível dia? Quando, enrugando como um pergaminho ressecado. Os céus em chamas se enrolarem; Quando, ainda mais alto e ainda mais amedrontador. Soar a trombeta que desperta os mortos; Oh! naquele dia, que iracundo dia Quando o homem para o juízo se despertar do barro, Tu, pecador, tremente a esperar, Ainda que céu e terra passem.^ A série de cinco estrofes no texto de Sofonias emprega extensiva­ mente o recurso poético da “paranomásia”. Sofonias enfeixa as pala­ vras de sons semelhantes para acrescentar ênfase. A segunda palavra de cada um desses pares geralmente é mais forte que a primeira. O emprego frequente da descrição feita no Deuteronômio da teofania do Sinai indica a intenção do profeta de retratar o Dia do Senhor em termos que lembram fortemente o estabelecimento da aliança com Is­ rael mediada por Moisés. Agora aqueles terrores que amedrontaram Israel serão repetidos. Desta vez, porém, não haverá mediador a prote­ ger a nação da força consumidora do justo juízo de Deus. Pode-se observar também paralelismo entre as expressões de Sofonias e aquelas encontradas na profecia de Joel quando descreve a vinda do Dia do S e n h o r :

Sofonias 1.15 ‘Um dia de escuridão e densas tre­ vas” ‘Um dia de nevoeiro e densas nu­ vens”

Joel 2.2 ‘‘Um dia de escuridão e densas tre­ vas” “Um dia de nevoeiro e densas nu­ vens”

3. Traduzido do latim por Sir Walter Scotl, como se encontra no Hino da Trindade (Fila­ délfia: Great Commission, 1961), n* 242.


356

SOFON IAS 1.15-16

Sofonias 1.16 “Um dia de toque de trombeta e grito”

Joel 2.1 “Tocarão a trombeta em Sião e gritarão em meu santo monte”

Expressões semelhantes se encontram em Amós 5.18,20, uma ter­ ceira passagem de importância primordial no tratamento do assunto do Dia do Senhor. O agrupamento desses fenômenos distintivos sobre o tema do Dia do S e n h o r em três diferentes profetas de Israel indica a existência de uma tradição comum entre eles. O mais provável é que esses profetas se utilizassem de uma tradição mais antiga existente em Israel. A antiga tradição de fazer aliança associada com o Sinai fornece exatamente esse tipo de fonte comum de idéias. Escuridão, densas tre­ vas, nuvens e o som de trombeta, todos caracterizam a aparição de Deus no Sinai. Uma vez mais, Sofonias associou a vinda do Dia do S e n h o r com antigas manifestações pactuais. A aliança de Noé (Sf 1.2,3), a aliança de Abraão (v. 7-8), a aliança de Moisés (v. 15-16) fornecem o arcabou­ ço para a compreensão da aparição do Senhor em seu grande Dia. Fe­ nômenos relacionados com o antigo estabelecimento de alianças ecoa­ rão na execução pactuai futura. O primeiro par declara o Dia como sendo um dia de adversidade e angústia.* Pressões levando a total desespero marcarão o dia do assalto de Deus sobre seu povo. O segundo par, que o Dia será um dia de destruição e desolação.^ A terra seria deixada em absoluta ruína. O terceiro par, que o Dia será um dia de escuridão e densas trevas. Essas “densas trevas” (’°pêlâ) da nona praga do Egito, que isolaram e imobilizaram suas vítimas, caracterizarão todos os habitantes da terra no Dia do S e n h o r (cf. Êx 10.22).

4. çSrá üm^^úqá. Ambos os termos sugerem a ideia de uma extrema pressão que imobi­ liza sua vítima. 5. s s ’â úm^Sô’ã. KB, p.572, chama o segundo termo uma “forma ampliada artificial [sic] de Sõ’â".


SOFONIAS 1.15-17

357

O quarto par, que o Dia será um dia de nevoeiro e densas nuvens. Numerosas passagens associam a aparição teofanica de Deus, na Anti­ ga Aliança, com densas nuvens (cf. Êx 20.21; Dt 4.11; 2Sm 22.10; IRs 8.12; SI 18.10 [Eng. 9]; SI 97.2).® Encontra-se esta mesma associação de nuvens com teofania no con­ texto da Nova Aliança. Uma nuvem espessa envolveu aquele que foi chamado Filho de Deus no momento da transfiguração (Mt 17.5). Sua ascensão à glória foi entre nuvens, e seu regresso em glória será com as nuvens (At 1.9-11; cf. Mt 24.30; lTs4.17; Ap 1.7; 14.14-16). A consu­ mação do Dia do S e n h o r envolverá a manifestação de sua glória nas nuvens dos céus. O quinto par, que o Dia do Senhor será um dia de toque de írombeta egrito de batalha. Cidades fortificadas com as mais altas torres desmo­ ronarão perante ele em seu grande Dia. Da mesma maneira que Jericó caiu ao som das trombetas, anunciando a presença do S e n h o r , assim toda a defesa humana, contra o Senhor, desagregará naquele grande Dia. 17. As consequências da vinda do Dia do S e n h o r são especificadas mais particularmente no versículo seguinte dessa série de versículos. A humanidade como o principal objeto da ira divina será devastada. Tanto o fato de que Deus trará angústia quanto o fato de que as pessoas andarão como cegos podem representar idéias oriundas das maldições pactuais conforme descritas em Deuteronômio (cf Dt 28.2829). O ato de Deus ferir Israel com cegueira encontra o mais dramático cumprimento no tratamento dado por Nabucodonosor a Zedequias, o último dos reis de Judá e terceiro dos filhos de Josias a reinar no trono (note a indicação anterior do profeta do castigo iminente dos “filhos do rei” no v. 8). Depois de assassinar seus filhos perante seus olhos, 0 rei de Babilônia cega Zedequias de modo que a última coisa de que pudesse lembrar de ver seria a destruição de sua linhagem (2Rs 25.6-7). O favor imerecido de Deus é plenamente manifesto em outros lu6. Segundo J. M. P. Smith, p. 204,205, “Esta é uma característica frequentemente ligada à teofania do AT; a palavra “nuvem” ocorre nada menos que 58 vezes em tais relações”.


358

SOFONIAS 1.17-18

gares na promessa profética da remoção da maldição de sua cegueira (Is 61.1). Foi no arcabouço desta promessa de gracioso livramento que Jesus decidiu inaugurar seu ministério (cf. Lc 4.18). Deste ponto em diante, a recuperação da vista aos cegos foi interpretada como um sinal da vinda do Reino (Mt 11.5; cf. 9.27-28; 12.22; 15.30-31 ; 20.30; 22.14). Entrelaçando as descrições das terríveis consequências do juízo de Deus sobre Judá está uma afirmação simples da razão desta destruição devastadora na mão de Deus: porque pecaram contra Yahweh. Alguns têm interpretado a aspereza e brevidade desta condenação como um sinal de seu caráter secundário. Mas uma análise da hediondez do pe­ cado deveria fornecer base suficiente para ver esta curta afirmação como uma explicação adequada para o Juízo por vir. O povo de Judá violara a confiança pessoal envolvida numa relação pactuai. Por esta razão, todas as maldições pactuais deverão cair sobre eles. Numa oca­ sião prévia, a nação inteira fora devastada por causa do pecado do homem (cf Js 7.11 ). Visto que agora todo o Israel estava culpado não surpreendería que toda a nação fosse condenada. As duas frases seguintes descrevem com nitidez realista o juízo iminente sobre Judá. Deus indicara que jamais descartaria seu juízo sobre a nação por causa do sangue inocente que fora derramado por Manassés (2Rs 24.4). Visto que sangue contamina a terra (Nm 35.33), a vingança pactuai tem de vir para dar-lhe expressão. Agora o sangue dos habitantes de Judá não teria mais valor do que tem o pó do chão. Falando de maneira ainda mais vivida, o profeta anuncia que suas entranhas serão derramadas como esterco. O paralelismo poético indi­ ca que 0 mesmo verbo seria fornecido para a segunda figura. Os órgãos vitais das vítimas do juízo de Deus serão derramados no chão como se fossem mero esterco inútil. 18. O profeta continua descrevendo a desesperança de qualquer possibilidade de escape da ira no Dia do S e n h o r . Era costume que uma nação vencida pagasse o resgate ao seu vencedor. Ao pagar um tributo adequado, podia-se manter alguma semelhança da integridade nacio­ nal. Mas quando o Senhor vier no terrível Dia de sua vitória, nada pode deter seus propósitos. Ao estabelecer perfeita justiça, ele devastará


SOFONIAS 1.18

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totalmente o perverso. O pecado inevitavelmente evoca a ira transbordante ou a indignação do Senhor. Sua longanimidade e paciência, man­ tidas por longos anos, décadas e séculos, não devem ser mal-interpretadas como complacência ou ausência de compromisso em aplicar o justo castigo sobre o transgressor.

Porque no fogo de seu ciúme toda a terra será consumida. A es­ sência do próprio Deus encontra-se envolvida em seu ciúme consumi­ dor. Pois o Senhor, cujo nome é Zeloso, é um Deus ciumento (Êx 34.14). Sempre que seu povo invoca outros deuses, ele instila também esse ciúme essencial no coração do Senhor. Particularmente, quando Deus se manifestou no Sinai, ele se mostrou como sendo um Deus consumi­ dor que não tolera culpa. Em sua descrição da devastação de Jerusalém que ocorreu logo depois da profecia de Sofonias, o livro de Lamentações enfatiza o “fogo” do Senhor que consumiu Jerusalém: “Lá do alto enviou fogo” (1.13) “... ardeu contra Jacó, como labareda de fogo que tudo consome em redor” (2.3) “derramou seu furor, como fogo” (2.4) “acendeu fogo em Sião, que consumiu seus fundamentos” (4.11). Esses versículos demonstram a execução histórica da ira de Deus antecipada pelo profeta. Contudo, o contexto da profecia de Sofonias aponta para uma con­ sumição da terra ainda mais plena. Pois, no fogo de seu ciúme, toda a terra será consumida. Há ambiguidade se essa devastação será de toda a terra de Judá ou da “terra inteira”.’ O contexto imediatamente ante­ rior, de modo claro fala da destruição que sobrevirá à nação de Judá. do

Mas o contexto mais amplo desse discurso unificado sobre o Dia sugere uma conflagração cósmica. Em seus versículos de

S enhor

7. Rudolph, p. 270, considera o peso de “todo”, c se inclina para a interpretação de que o juizo será un' ersal. Mas propõe que a mão posterior, depois da invasão de Babilônia, acres­ centou a frat ou que este versículo na verdade pertence a 3.8, em que "terra” claramente significa “o globo terrestre”.


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SOFONIAS 1.18

abertura, o profeta falara em termos de um juízo em escala mundial que reverteria toda a ordem da criação (v. 2-3). Agora, no final deste material, ele volta a seu tema mais amplo da total destruição do mun­ do. Se seu próprio povo pactuai será destruído, espera-se que todo o universo seja consumido com eles. Esta interpretação mais ampla da “terra” envolvendo o fogo consu­ midor da ira de Deus encontra apoio nas frases de encerramento desse capítulo. O tema do juízo universal encontra desenvolvimento explíci­ to nas porções subsequentes da profecia (cf. particularmente 3.8 e sua referência à destruição de toda a terra no fogo do ciúme de Deus). Mas o argumento parece estar presente aqui também. De uma maneira mais surpreendente, Deus trará juízo sobre todos os moradores da terra. Resumo A profecia de Sofonias se apresenta nitidamente como um tratado da ira divina. O grande Dia do S e n h o r virá logo. Naquele Dia, Deus jurou repetidas vezes, e em vários contextos, que o juízo pactuai de­ vastará todos os que quebraram a aliança. Esse terrível juízo é inevitá­ vel e irrevogável. O Dia virá logo. O Dia do S e n h o r , de Sofonias, no qual a ira de Deus seria derrama­ da sobre Judá, encontrou expressão na destruição de Jerusalém pelos babilônios. Mas o “Dia da ira” é ainda futuro (Rm 2.5). Este “grande Dia de sua ira” (Ap 6.16-17) é tão certo quanto o foi a devastação de Jerusalém. Com um fim escatológico definitivo, todos os que não forem encontrados unidos a ele pela fé serão eliminados da face da terra (cf M t3.7; ITs l.lO .A p 11.18; 14.10; 16.9; 19.15).

II. O CHAMADO AO ARREPENDIMENTO ECOA ANTES DA CHEGADA DO GRANDE DIA DO SENHOR (2. M 5) O chamado ao arrependimento que segue o anúncio solene do pro­ feta a respeito da vinda do Dia do S e n h o r não deve ser mal-interpretado. Este chamado não implica que de alguma maneira a chegada do Dia seja cancelada ou mesmo adiada. A hora certa já foi marcada, ela


SOFONIAS 2.1-15

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não pode ser mudada. Entretanto, existe alguma possibilidade de pro­ teção para os que se arrependerem á chegada do Dia. O profeta expõe esta tênue esperança como sua principal preocupação com o fim de instar o povo a que abandonem seus caminhos pecaminosos (v. 1-3). A segunda motivação para arrependimento é mais amedrontadora em sua perspectiva. Ao considerar a devastação iminente de outras nações, Judá pode encontrar justa razão para aceitar o dobrado dos sinos da morte que soa para eles também (2.4-15). Nesta seção, o pro­ feta não recorda os juízos passados que já sobrevieram a outras na­ ções. Em vez disso, ele exercita seus poderes proféticos, anunciando outros juízos iminentes, cuja justiça se faria evidente a seus contempo­ râneos. Se pudessem ver que o Deus de toda a terra fará justiça a outras nações, então poderiam ver seu próprio status de povo condenado, e assim seriam trazidos ao arrependimento. Mesmo neste caso, eles te­ rão de arrepender-se sem qualquer expectativa de escape do castigo divino. É bastante surpreendente que o povo moderno, com todo o acúmulo de sofisticações, não consiga ler os sinais dos tempos. Depois de Deus haver demonstrado seu juízo sobre as nações da terra, de maneira tão dramática, o povo ainda se convence de que o dia mau está sempre distante deles. Particularmente surpreendentes são as contorções dos religiosos de herança judaico-cristã que cegam o fio cortante do anúncio de juízo pendente encontrado nos escritos proféticos das Sagradas Escrituras. Porventura o apelo a um princípio profético fictício post eventim con­ tinuaria a sossegar os incrédulos até que o Grande Dia final tenha che­ gado para concretizar tudo o que os profetas disseram? A condenação proferida por Sofonias contra todas as tendências sincretistas poderia ter algo a dizer diretamente às massas da moderna erudição bíblica. A. BUSCA AGORA, POIS TALVEZ SEJAS POUPADO NAQUELE DIA (2.1-3)

1 Ponde-vos num monte como restolho, sim. amontoai-vos como restolho.


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SOFONIAS 2.1-3

ó nação que não tem pudor; 2 a antes b que o decreto dê à luz (como palha o dia se vai), a antes h que o ardor da ira do Senhor c te sobrevenha, a antes b que o Dia da ira do Senhor c te sobrevenha. 3 Buscai ao Senhor todos os mansos da terra, que praticais sua equidade; buscai a justiça, buscai a mansidão; talvez lograreis esconder-vos no dia da ira do Senhor. A forma desta seção se põe em direto contraste com a porção anteri­ or da profecia. Considerações gramaticais sublinham este contraste. A primeira seção ( 1.2-18) era declarativa em sua forma. Ela fez conhecido aos ouvintes, em termos não indefinidos, as realidades associadas com o Dia do S e n h o r . Mas esta seção vem sob a forma de admoestação. Na realidade, esses três versículos contêm cinco admoestações. Estas cinco admoestações são enfeixadas por três cláusulas temporais para enfatizar a urgência da admoestação que está sendo dirigida a Judá (v. 2). A seção conclui com a afirmação do possível desfecho se o povo de Judá der ouvidos à palavra de admoestação. Existe ainda a possibi­ lidade de que pudessem esconder-se no Dia do S e n h o r . 1 .0 primeiro versículo começa com uma junção de admoestações que tem criado dificuldades aos intérpretes. As primeiras duas palavras desta seção articulam a palavra restolho (qaè). Como uma forma ver­ bal, o conceito básico comunica o sentido de “ajuntar restolho”. E usa­ do neste sentido nas passagens que descrevem o ato de ajuntar palha ou restolho pelos israelitas no Egito para fazer tijolos (Ex 5.7-12), o ato de apanhar lenha no sábado (Nm 15.32-33) e o ato da viúva apanhando


SOFONIAS 2.1

363

lenha no tempo de Elias (1 Rs 17.10). O primeiro tenno está numa for­ ma reflexiva (Hithpolel), e portanto comunica a ideia de ponde-vos em monte como restolho-, ou, talvez, “ajuntai restolho para vós”. O segun­ do imperativo no versículo articula a mesma raiz e tem o efeito de intensificar o conceito que está sendo apresentado. Mas, qual é o significado deste imperativo singular de ponde-vos em monte como restolho"?' Esta admoestação segue uma descrição lon­ ga da inevitabilidade do Juízo que recairia sobre Judá. Ela visualiza o tênue “talvez” de proteção na chegada do Dia do S e n h o r . Entendida nesse contexto, a admoestação pode ser interpretada como uma forma derrogatória de discurso. Judá não vale mais que a mera pa­ lha. Sua população deve ser ajuntada em feixe de modo a exibir sua total inutilidade. Que permaneçam como pecadores dignos de juízo. Embora essa imagem seja bastante incomum, essa expressão co­ munica efetivamente a mensagem da auto-humilhação necessária a uma nação autoconfiante. A figura empregada encontra um eco em Malaquias 3.19 (Eng. 4.1 ); “vem o dia... todos os soberbos... serão como restolho” (w^hãyü . . . qaS). A referência de Sofonias ao versículo seguinte, do dia que se vai “como palha”, também pode emprestar algum apoio a esta compreensão da imagem usada pelo profeta. Quão típico é que o povo tão autoconfiante fosse o mais maduro para o juízo. Com o relativo enfraquecimento do império assírio, Judá teria começado a nutrir nova confiança em seu próprio futuro. Mas, ou I. A AV traduz a frase: “Ajuntai-vos, sim, ajuntai-vos”. J, Gray, “A Metaphor from Building in Zephaniah 2.1”, ET 3 (1953), p. 404, caracteriza esta versão como “uma tradução bem possível de um ponto de vista meramente gramatical", embora prossiga oferecendo sua pró­ pria e única interpretação da figura. Cf. J. M. P. Smith, p. 211,212. Têm-se oferecido outras interpretações numerosas desta frase controversa. Laetsch, p. 365. sugere que aqui se diz ao povo que tome para si a humilde tarefa que relembra a escravidão no Egito. Mas este método em particular para séria auto-humilhação parece bastante peculiar. Driver, p. 121, sugere a mudança de duas letras, então a frase ficaria: “tenha vergonha e seja envergonhado” (hitífôs^sú wSàôSú). Mas J. M. P. Smith, p. 211-221, corretamente observ-a que seria difícil explicar como uma sentença tão simples pode ter evoluído numa tão difícil. Gray, VT 3 (1953), p. 407, sugere: “Endurecei-vos e mantende-vos firmes, ó povo sem coesão”; mas o raciocínio que leva a esta versão não é muito convincente. Rudolph, p. 271 n. 1, sugere uma solução baseada na raiz arábica que ele admite não aparecer no hebraico. Com todas as dificuldades envolvidas na figura única de “juntai-vos como restolho”, ele oferece a solução mais simples e mais convincente.


364

SOFONIAS 2.1

teriam que se humilhar no pó, ou deveriam esperar a humilhação divi­ na. Ou reconheciam sua própria inutilidade como servos de um Deus santo, ou deviam esperar ser ajuntados e queimados como restolho. Os vários povos orgulhosos da terra de hoje poderiam beneficiarse dando ouvidos à admoestação do profeta veterotestamentário. Essa frase é na verdade ofensiva à auto-estima de uma pessoa. Ela, porém, fornece a forma exclusiva do tênue vislumbre da esperança dos peca­ dores. Este solene chamado à auto-humilhação é dirigido a uma nação que não tem pudor. Esta frase, em particular, também apresenta sérias dificuldades interpretativas. O verbo empregado contém a ideia básica de “empalidecer” {kãsap). Em outros lugares das Escrituras, ele indi­ ca 0 processo de empalidecer pela saudade (Gn 31.30; SI 84.4 [Eng. 3]) ou pela fome (SI 17.12). A palidez causada pelo desejo é uma parte do significado da palavra. Este significado básico é refletido na tradu­ ção da AV; “Ó nação indesejada”. Embora possivelmente seja uma tra­ dução apropriada, esta visão não se encaixa em nenhum dos vários significados propostos para a primeira porção do versículo. Um significado relacionado seria “ó nação não empalidecida (pela vergonha)”. Esta compreensão da frase é refletida na RSV (“ó nação desavergonhada”), e na NIV (“ó nação vergonhosa”).^ Judá devia ser ajuntado como se fosse um restolho sem valor, ainda que, no orgulho, correntemente fosse uma nação que “não conhece vergonha”. Nem mesmo um fio de rubor transparece em suas faces provindo da consci­ ência de sua culpa perante Deus. Somente uma nação cega em relação a seu próprio pecado podia deixar de sentir vergonha mergulhada em tanta culpa. Cambaleando no limiar da destruição total, pelos justos juízos de Deus, a nação segue alegremente seu próprio caminho, indiferente às calamidades que a encaram de frente. Mas o profeta fora enviado justamente para esta situação. Sua responsabilidade era declarar a vinda do Dia de Deus e 2. Cf. J. M. P. Smith, p. 212, que diz: “A ideia de ‘vergonha’ é associada a esta raiz em aramaico. cm hebraico mais recente e arábico coloquial. Isto fornece um bom significado neste lugar e na falta de coisa melhor pode ser adotado”. Note a conclusão semelhante alcançada por BDB, p. 493,494.


SOFONIAS 2.2

365

convocar a nação ao arrependimento. Quem sabe a palavra viva de Deus despertasse no povo a consciência de seus pecados! 2 .0 profeta agora lança sua admoestação numa esfera de urgência. Apenas um estreito espaço de tempo resta entre o povo e sua total de­ vastação, pois uma vez chegado o Dia, eles não mais terão futura opor­ tunidade de arrependimento. O pecador não deve esperar até que o Dia chegue a fim de humilhar-se perante o Senhor. Somente no intervalo de tempo que se põe entre a declaração do profeta e o raiar do Dia se pode chegar a alguma prontidão significativa. Pode ser fatal ficar esperando para ver se a avaliação do profeta tem alguma validade. E preciso agir agora. Pelo tríplice uso do termo temporal, antes {baterem), Sofonias en­ fatiza a urgência de sua admoestação. O negativo adicional (baterem lõ’) intensifica a necessidade de ação urgente.^ O solene aviso com respeito à brevidade do tempo disponível para retificação do erro no coração e a ação implica igualmente a necessidade de reunião para auto-humilhação (v. 1) e buscar o Senhor (v. 3). Não é necessário decidir entre uma relação destas três frases com a admoesta­ ção que as precede ou sucede. Uma ênfase mais forte sobre a exiguidade de tempo disponível ocorre com a frase parentética: (o dia se vai como a palha). A imagem da palha se apresenta como figura demasiado carente de substância para ser comparada às sólidas realidades associadas ao Dia do S e n h o r . Aquele Dia não “se vai como palha”. Mas ela é compatível com a bre­ vidade do tempo que agora resta para o arrependimento. A palha paira momentaneamente flutuante no ar. Uma lufada de vento rodopia e ela se vai num instante. Graças à sua leveza, a palha é fácil e rapidamente soprada para longe. Exatamente dessa maneira o tempo que resta entre o presente mo­ mento e 0 assalto da ira ardente do Senhor passa num instante. Nenhum tempo resta para embromar antes que chegue o Dia. Agora ou nunca é preciso fazer uma virada de direção. Quem é que sabe quando o vento 3. Cf. GKC, § 152y; Keil, p. 139.


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SOFONIAS 2.2,3

vai soprar e varrer para longe e para sempre esta última esperança de livramento naquele Dia? Emprega-se uma figura de linguagem adicional na discussão sobre 0 Dia. Foi estabelecido um decreto que dá à luz (ledet hõq). Deus solenemente pronunciou que aquele Dia de sua ira intersectará a histó­ ria humana. Esse decreto, esse mandamento fixo não pode ser alterado, deve dar à luz a fenômenos numerosos. As contorções violentas asso­ ciadas ao inevitável processo do parto caracterizariam a vinda do Dia do S e n h o r . Esse Dia dará à luz o furor da ira do Senhor que consumirá os que quebraram a aliança com ele. Esta vívida descrição da ira de Deus ocorre nada menos que 33 vezes no AT.“ O conceito de “furor da ira” (’ap hãrôn) nas Escrituras se aplica exclusivamente a Deus, talvez com uma única ou duas exceções. Ajuntem-se como restolho para que sejam queimados pelo furor da ira do Senhor. Derretam-se perante o calor de sua indignação arden­ te. Com a repentina chegada das dores do parto, sua ira ardente consu­ mirá todos quantos não estiverem preparados de maneira adequada para seu grande Dia. A percepção da essência deste dia vindouro é dramatizada pelo paralelismo nesse versículo. Esta segunda frase só altera uma palavra da primeira frase, de modo que, em vez de 1er o furor da ira do Senhor, se lê: “o Dia da ira do S e n h o r ” . O Dia do S e n h o r não é nada mais que a ocasião do ardente brasume de sua ira. 3. Contra essa solene tela de fundo, a admoestação temamente ex­ pressa do versículo seguinte assume um significado muito mais profun­ do. O único refúgio adequado contra a ira abrasadora do Senhor só se pode encontrar no próprio Senhor. Portanto, o profeta informa ao povo que ele deve buscar ao Senhor. A chegada do Dia do S e n h o r será para todos uma experiência aterradora, exceto para aqueles que previamen­ te encontraram refúgio nele. Três vezes o profeta admoesta o povo a buscar (baqq^Sú). Ante­ riormente, o juízo foi declarado por causa do fracasso em buscar ao 4. J. M. P. Smith, p. 214.


SOFONIAS 2.3

367

Senhor (1.6). Agora buscar é apresentado como uma resposta necessá­ ria à ameaça de juízo. Esta admoestação moderada implica uma since­ ra busca de Deus. Busca genuína envolve persistência até que o suces­ so seja alcançado. E inevitável incluir uma confiança inabalável na­ quele a quem se busca. Subsequentemente, numa carta saturada de emocionada preocu­ pação àqueles que estavam sendo levados para o cativeiro por Nabucodonosor, Jeremias transmite a mesma mensagem: “Buscar-me-eis e me achareis, quando me buscardes de todo vosso coração” (Jr 29.13). As misericórdias do Senhor não falham; tampouco falham suas exi­ gências dirigidas àqueles que o buscam. A concentração do profeta nesse tema particular indica sua percep­ ção de que os destinos da vida dependem mais imediatamente do com­ promisso do coração do que de agitado torvelinho das atividades. Ine­ vitavelmente vem a concretização da ação, até onde indica a admoesta­ ção específica: buscai a justiça. Mas a primazia em determinar destino segue 0 comprometimento solene do coração. Visto que essa admoestação se encontra na forma plural, ela subli­ nha a ideia de uma busca pelo Senhor corporativa e comunitária. Desta maneira, ela pode ser considerada como sendo uma convocação ao cul­ to. Pois somente quando a comunidade reunida solenemente confessa submissão de sua vontade à vontade do Senhor é que a “busca” signifi­ cativa pelo Senhor pode ser alcançada. Quando sua palavra pactuai for recitada, quando os sacrifícios de louvor e adoração forem oferecidos, então o Senhor será encontrado. Esta admoestação para que o Senhor seja buscado é dirigida especi ficamente a todos os mansos da terra que praticajm] sua justiça. Talvez o profeta tivesse a intenção de oferecer algum encorajamento àqueles que haviam escolhido o caminho da justiça para que continuas­ sem a despeito de seus muitos desencorajamentos. Talvez sentissem anterionnente a necessidade de serem elevados a um ardor mais pro­ fundo do que haviam manifestado.^

5. Ambas estas sugestões sào encontradas em Calvino, p. 235,236.


368

SOFONIAS 2.3

Merece mais exploração a possibilidade de que esses mansos cia terra (anw ê hã’ãres), enunciada por Sofonias, poderia ser idêntica ao “povo da terra” ('Sm h ã ’ãres) que exercera importante papel polí­ tico em Judá nesta conjuntura da história da nação.* O “povo da terra” fora responsável em colocar o menino Josias, de 8 anos de idade, no trono depois do assassinato de seu pai, Amom (2Rs 21.23-24). Possi­ velmente, eles haviam contribuído com a educação desse jovem notá­ vel e, portanto, haviam exercido um papel direto no desenvolvimento de sua piedade. Talvez esse povo, em particular, precisasse de uma palavra de encorajamento, a fim de animá-los a continuar buscando o Senhor. Esses que são admoestados a buscar o Senhor também são desig­ nados como os que praticam sua justiça (miSpã0 pã'ãlü). Esta justi­ ça pode ser entendida como definida por sua vontade como revelada nas antigas alianças de Israel. Nos tempos de outrora, o Senhor revela­ ra a Abraão suas intenções de destruir Sodoma e Gomorra porque o patriarca fora escolhido para conduzir seus filhos no caminho da “jus­ tiça e do juízo” {s^dãqâ úiniSpãt) (Gn 18.19). Agora, no contexto de uma revelação com respeito ao juízo iminente do Senhor sobre todas as nações da terra (Sf 2.4-15), o Senhor fala a seus herdeiros pactuais que pratiquem a equidade (miSpãt) e os admoesta a buscarem a "justi­ ça” (sedeq). Além de buscar o juízo, ordena-se a esse remanescente fiel que busque a mansidão. Sofonias muitas vezes condena o orgulho e exalta a mansidão (cf 2.15; 3.4-12). Somente a graça da mansidão fornece reconhecimento adequado da realidade de Deus. Mesmo no próprio Senhor se pode encontrar a humildade que ele demanda de suas criatu­ ras. Quando Davi entoou cânticos a Deus na derrota de todos os inimi­ gos, ele exaltou a fonte de todos os seus triunfos: Também me deste o escudo de teu salvamento, e tua clemência me engrandeceu (wa'°nõ^kã tarbêni) (2Sm 22.36). 6. Sobre bibliografia, ver referências de B. Oded em Israelite and Judean History, org. J. H. Hayes e J. M. Miller, OTL (Filadélfia: Westminster, 1977), p. 452,457,458.


SOFONIAS 2.3

369

Quão notável é encontrar essa mesma ênfase sobre a mansidão pro­ priamente dita, quando inclusive Jesus reivindica para si um conheci­ mento restrito exclusivo da deidade. Ninguém poderia conhecer o Pai exceto o Filho. Contudo, por causa de sua humildade, mesmo em sua grandeza, todos poderão aprender daquele que é manso e humilde de coração e poderão encontrar descanso para suas almas (Mt 11.28-30). Busca a mansidão enquanto contemplas a natureza de Deus e seu Filho. Só assim encontrarás descanso para tua alma. O profeta encerra sua admoestação com uma nota bastante tendenci­ osa. Ele encoraja seus ouvintes, porém não fornece nenhuma segurança sólida de livramento. O termo talvez ( ’âlay), empregado por Sofonias, geralmente expressa uma expectativa sem garantias absolutas. Sara es­ pera que “talvez” recebesse filhos por intermédio de Agar (Gn 16.2). Ezequias ora para que “quem sabe” o Senhor intervenha para salvar Jerusalém (2Rs 19.4; c f também Êx 32.30; IRs 18.5,27; Jó 1.5). Frequentemente os comentaristas seguem a versão LXX em sua tradução desta palavra como “a fim de que” (hópõs). Busca o Senhor “a fim de que” sejas escondido. Esta interpretação põe o caráter de uma segurança confiante no talvez do profeta.^ Mas a ambiguidade do texto continuaria. Quem sabe a “pequena palavra pressagiosa” terá de manter o espinho da ambiguidade.* Porque, nem a mais leve possibili­ dade resta de que aquele Dia da ira do S e n h o r volte atrás. Ele queimará como fogo entre Israel, consumindo a todos. A totalidade do universo será subvertida. Até os mansos da terra hão de enfrentar esse juízo purificador.

7. Cf. também Calvino, p. 238,239; Rudolph, p. 274. 8. C f Kapelrud. Message o f the Prophet Zephaniah, p. 88. Kapelrud vai longe demais em sua conclusão de que “nem mesmo a justiça e a humildade podem tomar um homem ou um grupo seguro de tomar-se parte do remanescente”. A questão não é, entretanto, se uma pes­ soa pode fazer parte do remanescente, mas se o remanescente será poupado do juízo iminen­ te de Deus. Sofonias está usando categorias cósmicas para descrever o evento histórico do juízo sobre a nação que se aproxima. Ao mesmo tempo, ele prevê a própria calamidade final. O remanescente certamente será poupado no juízo final, mas não está claro de modo al­ gum se serão poupados das calamidades associadas à destruição histórica de Judá e Jeru­ salém.


370

SOFONIAS 2.3-15

Mas, quem sabe? É possível que no aparecimento do Dia os man­ sos ainda sejam escondidos. Enquanto o fogo arde, os mansos do Se­ nhor serão preservados. Naturalmente, os propósitos do Senhor serão estabelecidos. Ne­ nhum dos que lhe são ligados pela fé se perderá. Eles já passaram ile­ sos pelo juízo de Deus. Contudo, o povo mais santo de Deus poderá suportar juízos de castigo mais severo. É possível que sofram lado a lado com os rebeldes. O exílio de Judá carregou em seu turbilhão o piedoso Jeremias juntamente com o remanescente impenitente. Este talvez do profeta ainda fala. Pois quem conhece os tempos dos juízos do Senhor? Quem pode dizer quando ele irá determinar que a medida da iniquidade já está cheia? Agora é o momento de buscar o Senhor de todo o coração. Pode ser que venhas a esconder-te no Dia de sua aparição. B. BUSCA AGORA PARA PONDERARES SOBRE A DEVASTAÇÃO DAS NAÇÕES (2.4-15)

O segundo incentivo para o arrependimento se encontra na palavra do juízo de Deus sobre as nações.' Uma mistura de motivações para o arrependimento em Judá emana desse anúncio da calamidade iminente sobre seus vários vizinhos. Por um lado, a devastação divina sobre as outras nações deve levar seu povo a ver que não escaparão à sua justa retribuição. Por outro lado, as bênçãos concedidas a Judá pelo juízo de Deus sobre seus vizinhos devem inspirá-los a que andem em retidão perante ele. A luz de uma terceira perspectiva, a participação das bên­ çãos do Senhor pelos gentios deveria mover Israel a um ciúme que os leve de volta ao Deus vivo, verdadeiro e único. Todos esses elementos se acham presentes nesta seção. 1. Rudolph, p. 279, assevera que 2.4-15 não se liga a 2.1 -3. Ele julga ser claro que o “pois” que conecta o versículo 4 com a seção anterior é secundário, visto que a apresentação do juízo iminente sobre as nações nada tem a ver com o Dia do Senhor. E verdade que o Dia do Senhor não é explicitamente mencionado nesta seção, em contraste com a maneira em que ele permeou a primeira seção. Mas deve-se lembrar que Israel era único em sua relação como a nação pactuai do Senhor. Visto que Sofonias está apresentando o Dia como o tempo da execução pactuai, mui naturalmente este tema deveria ser mais preeminente quando trata da nação de Israel.


SOFONIAS 2.4-7

371

Sofonias cobre as quatro direções do compasso em sua visão das nações que devem ser julgadas. Ele anuncia a devastação da Filístia a oeste (v. 4-7), Moabe e Amom a leste (v. 8-11), Cuxe (ou Etiópia) ao sul (v. 12) e Assíria ao norte (v. 13-15). A razão particular para essa ordem não é clara. Talvez a Assíria fosse reservada para o fim porque seu papel é o mais formidável dentre os inimigos contemporâneos de Judá. Um padrão em forma de ziguezague se movendo rumo aos extremos opostos da bússola poderia ser par­ te do esquema, de um modo que lembra o oráculo anterior de Amós (1.3-2.16). É difícil de determinar um raciocínio mais lógico para o arranjo de Sofonias. I. Ao ocidente: Filístia (2.4-7) 4 Porque Gaza será abandonada, Asquelom, devastada; Asdode - ao meio-dia será expulsa; Ecrom .será desarraigada. 5 Ai dos habitantes do território do mar, nação dos quereitas. A palavra do Senhor é contra ti, ó Canaã, terra dos filisteus: Eu te destruirei, de modo que não haja nenhum habitante. 6 O território do mar será de pastagens, com refúgios para os pastores, com currais para os rebanhos. 1 O território será para o remanescente da casa de Judá. Neles se acharão pastagens; entre a casa de Asquelom, à tarde se deitarão. Porque o Senhor seu Deus os visitará e os fará voltar de seu cativeiro.


372

SOFONIAS 2.4

Esta seção não possui o extenso paralelismo de expressão encon­ trado nas porções anteriores do livro. Mas esta palavra de juízo sobre as nações fornece uma ilustração de paronomásia muito interessante. Palavras com sons semelhantes são usadas para dramatizar o efeito do oráculo. 4. Das quatro cidades da Filístia mencionadas nesse versículo, a primeira e a última formam pares com palavras de sons semelhantes. Comentaristas têm se indagado a razão do fracasso de se juntarem a segunda e terceira cidades da Filístia com verbos de sons semelhantes.' Pode bem ser que as quatro frases devam ser vistas num arranjo quiasmático como apresentado na tradução. Nesta análise se pode ver algu­ ma paronomásia nos nomes da segunda e terceira cidades da Filístia: Asquelom e Asdode. É possível que o hebraico fosse arranjado com o fim de mostrar o paralelismo e a paronomásia: a ki 'azzâ '°zútâ tihyeh b w^’aèqHôn liSmãmâ b 'aSdôd bassoh°rayim y^gor^Sühã a w^'eqron te'Uqer Esta análise particular fornece o arranjo mais convincente de palavras. A ordem em que as cidades filisteias são mencionadas começa com a cidade mais ao sul de Gaza e se move para o norte, ao longo da costa, rumo a Asquelom e Asdode. A cidade continental de Ecrom é mencio­ nada por último. Gate, a quinta cidade da Pentápolis filisteia, poderia estar sob o controle de Judá nessa época.^ Gaza, Asquelom e Ecrom serão desamparadas, ficarão desertas e 1. D. W. Thomas, “A Pun on thc Name o f Ashdod in Zephaniah 2.4”, Exp Tim 74 (1962), p. 63, argumenta que, já que Provérbios 19.26 parece apoiar a ideia de que SSdod pode 1er o sentido “mandar embora”, talvez esta relação explique o uso áegSraS com Asdode. Se a relação for com a ideia de “mandar embora”, entretanto pode-se perguntar por que Sofonias não teria usado Sã^ad em vez áegãraS. Portanto, ambas as similaridades de som e sentido poderiam ser estabelecidas. 2. Sugerido como uma possibilidade por Rudolph, p. 279. Keil, p. 140, ele propõe que Gate teria sido omitida simplesmente porque o paralelismo das cláusulas só permitiu a menção de quatro cidades.


SOFONIAS 2.4

373

serão desarraigadas. A diversidade de terminologia, bem como o im­ pacto cumulativo criado, têm o efeito de sublinhar a totalidade da des­ truição prevista. O profeta quebra a cadência dessa regularidade gramatical pela interjeição a respeito da terceira cidade: Asdode, ao meio-dia, será expulsa. Esta referência à expulsão ao meio-dia pode ser interpretada de várias maneiras. Visto que o horário do meio-dia regularmente in­ troduz um intervalo de descanso nos países tropicais, um ataque sob estas circunstâncias sugeriria a ideia de algo repentino e de surpresa.^ Embora esta interpretação seja possível, o contexto enfatiza a ideia de total devastação mais que de surpresa em meio à conquista. Expulsão ao meio-dia poderia sugerir que a conquista seria com­ pleta em meio dia. Esar-Hadom, monarca da Assíria, gaba-se em certa ocasião: “Mênfis, sua cidade real, em meio dia, com minas, túneis, ataques, eu cerquei, capturei, destruí, devastei e queimei com fogo”.'* Esse colapso repentino da cidade estaria em contraste dramático com os vinte e nove anos em que Psamético I, do Egito, cercou essa mesma cidade de Asdode de 640 a 611 a.C.’ Se o registro histórico desse assal­ to for correto, ele estaria acontecendo no tempo de Sofonias. Entretanto, a maior semelhança consiste em que uma devastação ao meio-dia se refere à absoluta superioridade das forças que expul­ sam Asdode. Esses invasores não terão qualquer necessidade de tirar vantagem do elemento-surpresa proporcionado por um ataque feito bem de manhã, ou no final da tarde. Eles simplesmente invadirão a cidade e a dominarão em plena luz do dia. Nem como cidade individual ou como comunidade unida deverá a Filístia resistir aos assaltos dos juízos do S e n h o r . A autoridade do Deus Todo-Poderoso sobre as nações do mundo não é reduzida simplesmen­ te por causa do território de sua própria comunidade escolhida que diminuiu em consequência de seus juízos punitivos. Sua justiça deve3. Cf. Driver, p. 123, que compara este assalto ao meio-dia com o assassinato de Isbosete enquanto ele estava em sua scsta (2Sm 4.5). 4. D. D. Luckenbill, Ancient Records o f Assyria and Babylonia (Nova York: Greenwood. 1927), 2.227. 00 580. 5. Ver J. M. P. Smith, p. 216.


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SOFONIAS 2.5

ria prevalecer entre todos os povos da terra, com ou sem a continuação de “Israel”. 5. Este oráculo de desventura pronuncia maldição sobre o territó­ rio filisteu. Primeiro a área foi identificada pela referência às suas ci­ dades importantes (v. 4). Agora é definida pela referência à sua posi­ ção entre os povos do mundo. Eles possuem o território do mar, que representava a extremidade da terra prometida a Israel (Ex 23.31; Nm 13.29; 34.6; Dt 3.27; Js 1.4). Quanto aos quereitas, procederam de Creta e receberam esse território costeiro em obediência aos comandos providentes de Deus (Ez 25.16; c f Dt 2.23; Am 9.7; Jr 47.4).* Quanto a Canaã, sua terra fora prometida ao povo de Deus.’ Quan­ to aos filisteus, foram os antigos inimigos de Israel, particularmente no tempo em que a nação estava tentando estabelecer a monarquia. Deus originalmente dera à Filístia seu território, definindo suas fronteiras, “segundo o número dos filhos de Israel” (Dt 32.8-9). Eles possuíram o território que fazia divisa com Judá de modo que pudessem prestar ser­ viço à própria nação de Deus. Os animais do campo não deviam des­ truir sua terra. Mas agora a palavra do S e n h o r será contra eles. Esta palavra específica assume expressão num pronunciamento do profeta na primeira pessoa quando representa o Senhor.- eu vos destruirei, de modo que não haja nenhum habitante. Porv'entura o povo de Judá agora aprenderá com o tratamento que o Senhor ora dava a seus vizinhos filisteus do ocidente? Deus avisara previamente a seu povo de que se não pennanecessem fiéis ele os des­ truiria {’ãbad) da mesma maneira que destruíra ( ’ãhad) as nações que habitaram a terra antes deles (cf Dt 8.19-20). Deus se regozijaria so­ bre seu povo para os destruir (jabad), ainda quando se regozijara em fazer-lhes bem (Dt 28.63). O solene juramento pactuai fora feito: Deus convocara céus e terra para que testemunhassem que seu povo seria destruído {’ãhad) da terra, caso o esquecessem (Dt 4.26; 30.18-19). 6. Cf. KB. p. 458; BDB, p. 504.505; J. M. P. Smith, p. 216; Rudolph, p. 280. 7. Rudolph, p. 277, adola a emenda conjetural proposta na 3“ edição da Bíblia Hebraica (1937): 'akni'?k- “Eu te humilharei”. Mas, a despeito de suas objeções, “Canaan” é usada bem apropriadamente para designar aquela porção da área costeira que particularmente se relacionava com Judá.


SOFONIAS 2.6

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Agora 0 decreto profético avança mais. Os filisteus seriam expul­ sos da terra. Porventura Judá não consegue visualizar no destino dos filisteus a terrível premonição de seu próprio destino? 6. O profeta expande sua descrição dos efeitos da devastação da Filístia. Em vez de continuar como um território comercialmente favo­ recido, cuja rota principal de comércio faz relação com três continentes perpetuamente transitáveis, este litoral seria reduzido a pastos abertos totalmente desprovidos de empreendimentos comerciais. Todos os es­ forços dos filisteus, vindos de longa data, para estabelecer e manter esse centro comercial progressista serão em vão. Os problemas associados a esse versiculo são particularmente difí­ ceis. O termo território (hetel) é normalmente do gênero masculino, mas aqui ocorre numa forma feminina do verbo “ser” (hãy^tâ). A frase pastagem, com refúgios para pastores {nfwõt k^rõt rõ'im) tem sofri­ do numerosas emendas.* O termo refúgios (k^rõt) só se encontra aqui no AT. A relação gramatical entre as várias palavras é dificil. Mas, enfim, os problemas associados ao texto, como mantido pelos massoretas, são menores que aqueles criados pelas numerosas, desconcertantes e hipo­ téticas substituições. Como Kapelrud indicou: “O bom estado da uni­ dade, sua medida regular, sua escolha de palavras e o escopo total for­ necem forte evidência de que temos aqui as palavras originais de um profeta”.’

8. n^wBt é uma forma plural de “pastagem” (nãweh). k^rSt pode ser ou uma forma plural de “caverna” (kãrã) ou uma construção infinitiva de “eavar" (kSrâ). Keil, p. 141, traduz "pastos das escavações dos pastores”, rejeitando a po.ssibilidade de k^rõt ser uma forma substantiva, e favorecendo a forma infinitiva. A LXX, refletida basicamente na NIV, traduz “e Creta se tomará uma habitação para pastores e um aprisco para rebanhos”, traduzindo k^rSt como uma referência na forma singular aos “quereítas” {k^rêtim ) que foram mencio­ nados nos versículos anteriores. Esta interpretação envolve uma reversão da ordem original da palavra. Driver, p. 124, diz: “o texto não pode estar correto”. J. M. P. Smith, p. 2 18, sugere que “cavernas” (k^rõt) é uma “ditografia corrompida” da palavra imediatamente precedente (n^wõt). Pela omissão desta suposta corrupção, obtém-se a simples leitura “pastos de pasto­ res” . John S. Kselman. “A N oteon Jeremiah 19. IOandZephaniah2:6,7”, CB032(197O), p. 5 81 n. 13, analisa k^rõ( como uma subforma do feminino de kõrim , “depressão”. 9. Kapelrud. Message o f lhe Zephaniah, p. 34.35.


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SOFONIAS 2.7

7. Agora introduz-se uma nova perspectiva do juízo sobre a Filístia. Emerge também uma nova motivação ao arrependimento da parte da nação de Judá. Pela primeira vez, o profeta menciona explicitamen­ te a esperança de que um rem anescente permanecerá. Depois que o juízo divino houver passado, alguma comunidade será deixada. A esse remanescente se garantirá a plena posse da terra da promes­ sa, incluindo o território dos filisteus. A bênção do livro da Lei de Deuteronômio será renovada, pois habitarão em casas que construíram. Como um rebanho sob a proteção do Todo-Poderoso, entre as casas deA squelom se deitarão. Nem animais selvagens nem saqueadores ameaçarão sua segurança. O profeta fornece identificações adicionais sobre esse remanescente que deverá sobreviver ao juízo devastador de Deus. Aparentemente, são os “mansos” que têm “buscado o S e n h o r ” como descrito previamente (cf 2.3). Os mansos herdarão a terra (cf. Mt 5.5). Essa posse deve vir como uma dádiva do Senhor, da mesma maneira que a posse original da terra foi uma preciosa concessão. Embora calamidades, numerosas e doloro­ sas, se destinavam a lhes sobrevir antes que herdassem o território da Filístia, a garantia da palavra do Senhor fornecerá encorajamento signi­ ficativo ao “humilde” que busca “humildade” (Sf 2.3). Previamente, o profeta falara da “visitação” de Deus em tennos de seu juízo iminente ( 1.8-9). Agora ele fala da “visitação” em termos de salva­ ção futura. Quando o Senhor parte para a ação a favor de seu povo, ele reaviva bênçãos perdidas. A última frase desse versículo pode ser lida ou como restitui-lhes seu cativeiro (Sãb S ^b ítã m ) ou “restaura sua sorte” (Sãb S^bàtãm ).'^ Este conceito de restauração tem suas raízes na legislação do livro da lei deuteronômica. O código pactuai havia indicado que, depois que todas as bênçãos e maldições pactuais ocorressem, se a nação voltasse para o Senhor, ele restauraria sua sorte (Dt 30.1-3). Visto que o juízo 10. J. M. P. Smith, p. 220, favorece “muda seu cativeiro”. Para uma discussão mais com­ pleta, ver Keil, p. 142; J. M. P. Smith, p. 224. A LXX traz apéstrepse lên aichmatõsian ciu/õn, “ele removerá seu cativeiro” . Observe também o Salmo 68.20 (Eng. 19); Jeremias 15.2; Efésios 4.8; Apocalipse 13.10.


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viria em cumprimento das maldições pactuais, também a restauração seria em cumprimento das condições pactuais. Os vizinhos ocidentais de Judá seriam devastados sem esperança. Mas, para o povo de Deus, a restauração se suscitaria depois da devastação. 2. Ao oriente: Moahe e Amom (2.8-11) 8 Eu tenho ouvido o escárnio de Moabe, e as injúrias dosfdhos de Amom, com que a escarneceram b meu povo a e se exaltaram b contra sua fronteira. 9 Portanto, como eu vivo, declara o Senhor dos Exércitos, o Deus de Israel: a Moabe b será c como Sodoma, a e os filhos de Amom c como Gomorra ti uma possessão' de urtigas,^ d um poço de sal d uma assolação perpétua, a O remanescente de meu povo b os saqueará, a aquilo que resta de minha nação 1. O termo mimSaq ocorre somente no AT; e, assim sendo, seu significado preciso é incerto. J. M. P. Smith, p. 227 não encontra luz nas versões ou cognatos. A LXX traduz “e Damasco será deixada como um monte na eira”; cf. Gênesis 15.2, em que Abraão fala de ben-meseq bê(i. “herdeiro de minha casa”, isto é, o herdeiro principal de minha casa, que é *‘o damasceno Eliézer” (h ú ‘ dammeéeq ’^Ifezer). BDB, p. 606, julga o texto de Sofonias 2.9 como sendo provavelmente corrompido e a palavra mimSaq “muito dúbia”; mas tal conclusão simplesmente ignora o problema em vez de resolvê-lo. O contexto aqui e em Gênesis 15.2 apoia a ideia de “posse”. 2. iiõrúl se refere a uma erva daninha associada com áreas desoladas; cf. Jó 30.7; Provér­ bios'24.31.


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SOFONIAS 2.8-9

b os herdará. 10 Este (destino) será seu em lugar de sua soberba. Porque escarneceram e se exaltaram contra o povo do Senhor dos Exércitos. 11 O S e n h o r será teirível entre eles, porque fará improdutivos todos os deuses da terra. Eles o adorarão, cada homem de seu próprio lugar, (sim) todas as ilhas da terra. Esse segundo pronunciamento de juízo sobre as nações vizinhas introduz muitas perspectivas novas. Agora o profeta fala contra os pa­ rentes consanguíneos de Israel, e não mais dos estrangeiros posiciona­ dos contra Israel. Nesta denúncia, delineiam-se razões para o juízo imi­ nente em contraste com a ausência de especificações de crimes no pri­ meiro oráculo. O tema do remanescente é ampliado de tal modo que o povo preservado por Deus participará ativamente dos espólios de seus inimigos. Finalmente, a mensagem agora ressoa pela primeira vez em Sofonias, que o culto ao Deus vivo se estenderá às últimas extremidades da terra. As distinções envolvidas nesse segundo oráculo de juízo alargam os horizontes de expectativa com respeito à vinda de Deus. A salvação começa a desempenhar um papel tão significativo quanto a devastação. 8-9. Este oráculo começa na primeira pessoa. O próprio S en h o r declara o juízo que sobrevirá a Moabe e Amom. Muito da fraseologia nesses versículos ecoa a narrativa da destruição do mesmo vale em que Ló, pai dos moabitas e amonitas, habitou anteriormente. Mais uma vez Deus “ouviu” sobre os graves pecados que mereciam intervenção judi­ ciosa e radical (cf Gn 18.20-21). Ele não se mostrou surdo aos clamo­ res da injustiça e da opressão no mundo. 8. Desta vez, os transgressores são os habitantes de Moabe e Amom. Ambas estas nações são parentas consanguíneas de Israel, procedentes do ato incestuoso de Ló, cometido numa caverna, com suas duas filhas (cf Gn 19.30-38). Ambas as nações, nos dias de Sofonias, moravam


SOFONIAS 2.8

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limítrofes daquela área que fora consumida pelo incêndio destruidor enviado sobre Sodoma e Gomorra. Tanto os moabitas quanto os amonitas tinham uma longa história de amarga animosidade contra o povo de Deus. O rei de Moabe, Balaque, contratara Balaão para amaldiçoar o Israel indefeso que acabara de sair do Egito (Nm 22.3). A única coisa que recebeu em troca foi a garantia profética de que uma estrela e um cetro se levantariam de Israel e que esmagariam suas próprias têmporas (24.17). Este aviso antigo agora recebe reforço profético nas palavras de Sofonias. Amom perseguiu incansavelmente seu ideal de humilhar Israel. Naás, rei amonita, ignorou todas as concessões dos habitantes de JabesGileade, prosseguindo em seu intento de humilhar o povo de Deus (1 Sm 11.1-2). Ele não aceitava nada menos que o animalesco prazer de cegar o olho direito de cada habitante da cidade israelita. Hanum, filho e sucessor de Naás, deu seguimento a essa tradição. Ele humilhou os compassivos mensageiros de Davi, rapando um lado de sua barba e descobrindo suas nádegas (2Sm 10.1-4). Novamente Tobias, o amoni­ ta, descobriu seu prazer maior no ato de zombar da construção do muro de Neemias; para ele, o muro era uma farsa que até mesmo uma raposa poderia derrubar (Ne 4.3; c f 2.10,19; 4.7). Além disso, Baalis, o rei de Amom, não conseguia sentir-se satisfeito com a ruína total de Judá causada por Nabucodonosor. Ele comissionou Ismael para assassinar Gedalias, o governador provisório, trazendo assim mais confusão so­ bre um povo já devastado (Jr 40.14). O fato mais irônico é que esse povo, proveniente de um incesto, nutria muita determinação em humilhar seus parentes vizinhos. Esse tipo de insensibilidade inconsistente retalhava fundo o coração do povo de Deus. Como afirma Calvino com propriedade: “Não existe tanta amargura numa centena de mortes quanto num único insulto, especial­ mente quando o perverso triunfa licenciosamente, e faz isso com os aplausos aprovadores do mundo inteiro; porque assim se confunde toda diferença entre bem e mal, e a boa consciência é como se fosse enterrada”.^ 3. Calvino, p. 246.


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SOFONIAS 2.8-9

O insulto feito ao justo parece inevitável. O salmista é levado ao desespero por causa de seus sofrimentos nas mãos do perverso. Um bando de homens maus o rodearam. Traspassaram suas mãos e pés (SI 22.17 [Eng. 16]). Zombaram dele, dividiram entre si suas roupas, lan­ çando sorte (v. 18-19 [Eng. 17-18]). Ele é insultado e zombado por todos os que o veem (v. 7-8 [Eng. 6-7]). “Confiou no S e n h o r ! Que ele 0 livre; que o salve, pois tem prazer nele” - cantam (v. 9 [Eng. 8])! Nas mentes dos escritores dos Evangelhos, algo mais que mera coincidência levou Jesus a um ponto semelhante de zombaria e escár­ nio, de modo que até seus companheiros de crucificação zombavam dele (Mt 27.44; cf. v. 35,39,46,48). Os gritos daqueles que insultavam ao Senhor caíram como raio sobre ele (SI 69.10 [Eng. 9]; c f Rm 15.3). Foram esses insultos que lhe partiram o coração (SI 69.21 [Eng. 20]). Esse desdém dirigido ao próprio povo de Deus emana da autoestima exagerada e orgulho exemplificado pela atitude dos moabitas e dos amonitas. Eles haviam se engrandecido e se vangloriado contra o território de Israel. Ambos, Isaías e Jeremias, observam a ampla e renomada soberba de Moabe (Is 16.6; Jr 48.29-30). Esta arrogância le­ vou as nações a violarem o estabelecimento providencial das frontei­ ras de Israel, invadindo seu território. Ao buscar satisfazer suas insaci­ áveis conquistas, Amom se tomou culpado “porque rasgaram o ventre das grávidas de Gileade para dilatarem seus próprios limites” (Am 1.13). Atacando satânica e simultaneamente a promessa divina feita a Israel com respeito à sua terra e semente, Amom tentou devorar a semente dos herdeiros de Israel a fim de possuir sua terra (cf Gn 3.15; Jo 8.44). A hediondez desse pecado é intensificada pelo cuidado que Israel teve ao longo dos séculos de não violar as fronteiras de Amom, de acordo com a ordem divina específica (Dt 2.19; Jz 11.14-28). 9. Mas, da mesma maneira que Deus Jurou que todas as nações seriam abençoadas em Abraão, agora ele Jura que Moabe e Amom, tendo-se feito inimigos de Israel, seriam amaldiçoados. Quando essas palavras rituais precisas, como eu vivo (hay’ãni), são pronunciadas pela boca do Senhor, elas assumem um significado particularmente detestável. Das aproximadamente vinte vezes em que aparecem no AT, se destinavam sempre a invocar maldições divinas, com duas possíveis


SOFONIAS 2.9

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exceções (Is 49.18; Ez 33.11). Enquanto permanecer a existência de Deus, certamente permanecerá também a total devastação de Moabe e Amom. Enquanto a existência residir em Deus! Ele é a fonte de toda a vida. Nada existe fora dele. Este Deus imutável. Senhor dos Exércitos, compraz-se em identifi­ car-se como Deus de Israel. Embora sua própria nação estivesse sujei­ ta a um Juízo dos mais devastadores, ele continua a ser seu Deus. O Deus vivo. S e n h o r dos Exércitos, Deus de Israel, jura que Moabe será como Sodoma, e os filhos de Amom, como Gomorra. A tradição desse holocausto teria ficado vivamente impressa nas mentes dos moabitas e amonitas, visto que viviam na fronteira do Mar Morto e ti­ nham a oportunidade de ver constantemente os efeitos do juízo divino sobre Sodoma e Gomorra. Suas origens recuavam a mais de mil e du­ zentos anos antes que este evento do juízo divino se concretizasse. Todas as suas gerações intercaladas viveram dentro da vizinhança des­ ta incrível calamidade. Agora seu destino futuro, decidido irreversivelmente pelo juízo di­ vino, é declarado como sendo o mesmo que o da total destruição daque­ las cidades. Todo o seu território se tomará justamente como o de Sodo­ ma e Gomorra, uma vez caracterizado na lei deuteronômica: “toda a sua terra será abrasada com enxofre e sal, de sorte que não será semea­ da e nada produzirá, nem crescerá nela erva alguma” (Dt 29.22 [Eng. 23]). Da mesma maneira que Sodoma e Gomorra, sua possessão se tomará um campo de urtigas, um poço de sal, uma desolação perpétua. O mais notável é que exatamente esta terra que será marcada por desolação se tornará a possessão do remanescente de Judá. Por que iria Judá querer tal possessão? Pode-se obter alguma resolução desta inda­ gação pela pressuposição de que o povo de Moabe e Amom será pou­ pado em detrimento de sua terra que será abandonada em sua esterili­ dade.“*Mas, mais provavelmente o profeta simplesmente fez uma mis­ tura de suas imagens. Pois se a destmiçào das proporções de Sodoma e Gomorra tivesse ocorrido, nem o povo nem as possessões seriam dei­ xados para o saque. 4. Cf. J. M. P. Smith. p. 227.


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SOFONIAS 2.9-10

Agora o profeta introduz uma nova perspectiva sobre o futuro do remanescente de seu povo. Por tlm, a paciência de Abraão seria recom­ pensada. Como um estupendo ato de fé, ele renunciara a seu direito sobre a melhor porção da terra especificamente prometida a ele pelo Senhor (Gn 13.8-17). Mas agora a terra reivindicada pelos descenden­ tes de Ló voltaria a seus legítimos herdeiros. Um profeta anterior, em Judá, havia avaliado a depravação do pró­ prio povo de Deus, observando: menos que o S e n h o r Todo-Poderoso nos deixasse alguns sobreviventes, já nos teríamos tomado como Sodoma e semelhantes a Gomorra (Is 1.9). A

A menos que a soberana e imerecida graça de Deus interviesse, o destino de toda a população de Judá não seria diferente do destino de Amom e Moabe. Os juízos devastadores de Deus, manifestos na história e profecia, não terminam com a administração da Antiga Aliança. Pois o verdadei­ ro propósito de Deus, na destruição das perversas cidades de Sodoma e Gomorra, só será plenamente concretizado quando for visto espelhando a realidade final do juízo divino. Os habitantes de Sodoma e Gomorra serão mais tolerados do que aqueles que rejeitaram os emissários de Cristo (Mt 10.15). Somente a graça imerecida de Deus preserva hoje um remanescente de judeus e gentios do destino de Sodoma e Gomorra (Rm 9.29-33). Não um fogo temporal, mas eterno, descerá sobre todos aque­ les que continuam em seus caminhos ímpios (Jd 7; cf. 2Pe 2.6). Que os mais arrogantemente religiosos não suponham que não podem ser ame­ açados com tais tenores, pois a última “Sodoma” mencionada na Bíblia não é outra senão a cidade onde o Senhor foi crucificado (Ap 11.8). 10. Agora, o pronunciamento profético muda da pessoa do próprio Deus, falando na primeira pessoa, para o profeta falando sobre o Se­ nhor na terceira pessoa. O versículo enfatiza a interrupção do orgulho que caracterizou Moabe e Amom por tantos séculos. O orgulho, como um aspecto distintivo da reputação de Moabe, é sublinhado pelo profeta Isaías:


SOFONIAS 2.10

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Temos ouvido da soberba de Moabe de sua esmagadora soberba e presunção, de seu orgulho e de sua insolência mas sua vangloria é fútil (Is 16.6). Jeremias repete esse mesmo tema, possivelmente fazendo alusão às palavras de Isaías: Ouvimos falar da soberba de Moabe, que de fato é extremamente soberba, de sua arrogância, de seu orgulho, de sua sobranceria e da altivez de seu coração (Jr 48.29). Essa mesma reputação amplamente conhecida é refletida nas pala­ vras semelhantes de Sofonias ouvi (v. 8). Moabe se tomara intemacionalmente repugnante por causa de sua arrogância. Isaias, o profeta, havia indicado que dentro de três anos, desde sua profecia, Moabe seria humilhada por causa de sua arrogância (Is 16.1314). Mas, aparentemente, esse primeiro castigo da parte do Senhor não provara ser eficaz em quebrantar a insolência da nação que menospre­ zava 0 povo do Senhor, fazendo Israel seu objeto de ridiculo, tratando Israel como se fosse pego entre os ladrões, meneando sua cabeça em escárnio sempre que falava de Israel (Jr 48.27). Iria o povo de Deus do tempo de Sofonias dar ouvidos à mensagem do profeta? Se tamanha devastação iria recair sobre Moabe e Amom em decorrência do pecado de orgulho, poderia Judá esperar escapar aos Juízos do Senhor sem obedecer à admoestação de “buscar a mansi­ dão” (v. 3)7 Somente entre os mansos da terra havería alguma esperan­ ça de sobrevivência. Esse remanescente deve buscar diligentemente atingir ainda maior mansidão. Eles não tinham mais valor que o resto­ lho que seria consumido por uma única faísca do fogo da ira de Deus (v. 2). Que se reunam com esta disposição mental. Então “talvez” po­ derão esconder-se no Dia da ira de Deus. A despeito de tantas advertências, em letras grandes, nos registros proféticos do passado, o povo moderno não consegue enxergar a impor­ tância da humildade em sua sobrevivência perante Deus. Desprezo e


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SOFONIAS 2.10-11

desdém continuam a derramar-se sobre aqueles que possuem um “espí­ rito manso e tranquilo, que é de grande valor diante de Deus” (1 Pe 3.4). Ao apresentar-se como Messias enviado por Deus, Jesus falou das alternativas que sua presença pôs diante de todo o povo. Ou eles se quebrantam por decisão pessoal diante dele ou serão quebrantados. Ou se jogam na rocha com seu orgulho e presunção, esmagando a ambos, ou a mesma rocha cairá sobre eles, reduzindo-os a pó (cf. Mt 21.44). 11. Agora o profeta toca na origem do problema nas vidas desses vizinhos do leste de Judá. Em última análise, um problema religioso reside na raiz do orgulho de Amom e Moabe. O anúncio de que o Senhor será terrível [ou apavorante, nôrã’] entre eles pressupõe a ocasião de uma teofania. Pois a própria essência de Deus é apreendida neste conceito de terror. Sua grandeza excede muitíssimo a imaginação humana, de modo que a manifestação de sua real natureza só pode inspirar medo e temor. Ao assegurar originalmente a Israel sua intenção de tomá-los pos­ suidores de nações, o Senhor os admoestou a que não temessem as de­ mais nações, porquanto ele é “Deus grande e temível” {'êl gãdôl w^nôrã’), que os expulsaria de diante deles (Dt 7.21). Eles deveriam temê-lo, pois, como dono dos céus e terra, ele era o Deus dos deuses e Senhor dos senhores, o grande Deus, “poderoso e temível” (haggibbõr hannôrã’ - D t 10.17). Ora, quando o Senhor renova seu compromisso de trazer seus vizi­ nhos nacionais à submissão, ele reitera o caráter tremendo de sua natu­ reza. A humilhação das nações se cumprirá pela temível manifestação da presença do Senhor entre eles.’ Nessa manifestação, o Senhor /ôra improdutivos (rãzâ) todos os deuses da terra. Incapazes de tomar novamente produtivos os territórios que Deus devastara, esses deuses dos moabitas e amonitas irão “mor­ rer de inanição”. A terra nada produzirá que possa ser oferecido aos deuses idólatras. Eles serão reduzidos a nada por falta de atenção. 5. Digno de nota é o fato de que esta mesma caracterização de Deus é encontrada nos dois profetas descrevendo a automanifestaçâo de Deus no Dia do Senhor (Jl 2.11; 3.4 [Eng. 2.31]; Ml 3.23 [Eng. 4.5]).


SOFONIAS 2.11

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Quando os deuses das nações forem humilhados, os povos da terra não terão escolha. Adorá-lo-ão, cada homem de seu próprio lugar. Agora emerge um quadro notável. Depois da devastação de Judá e das nações vizinhas, ocorre um retorno ao culto celebrado ao Deus vivo. Anteriormente, o profeta indicara que um '‘remanescente” de seu povo seria preservado e que possuiria o território das nações (v. 7,9). Mas agora ele introduz um conceito novo. Os povos do mundo também deverão reconhecer a supremacia do Senhor. Não importa onde se en­ contrem, terão de oferecer sacrifício ao Senhor. O mais notável é o conceito de que as nações do mundo adorarão ao Senhor em seus próprios lugares residenciais.^ A imagem mais co­ mum usada pelos profetas para esta descrição é a peregrinação das nações a Jerusalém (cf. Is 2.3; 66.23). Mas agora Sofonias vê o culto ao Deus verdadeiro espalhar-se até chegar aos confins da terra. Toda nação se toma sagrada como um centro do culto ao Senhor. Sofonias não foi o primeiro a sugerir essa perspectiva radical sobre 0 culto ao Deus de Israel celebrado pelas nações. Isaías previamente profetizara não só o fluxo das nações para Jerusalém; ele também des­ crevera um dia no qual haveria “um altar ao S e n h o r no coração do Egito” (Is 19.19-21). Os assírios passariam por Israel com o fím de adorar o Senhor no Egito, e os egípcios passariam por Israel com o fím de adorar o Senhor na Assíria (Is 19.23). Tampouco seria Sofonias o último a sugerir esta perspectiva do Dia. Malaquias falou do Dia quando incenso e ofertas puras seriam consagrados ao Senhor em todo lugar. Desde o alvorecer ao pôr do sol ele seria adorado (Ml 1.11). A imagem distintiva de Sofonias, de cada pessoa adorando, cada uma em sua própria terra, antecipa um aspecto central da perspectiva do culto fornecido por Jesus. Não haveria mais nenhum debate violen­ to se o Senhor devia ser adorado em Samaria ou em Jerusalém. Onde quer que o Espírito e a verdade sejam encontrados, o povo aí adora o Deus vivo (Jo 4.21 -23).

6. Esta interpretação é contestada em Keil. p. 145. Cf., porém. Rudolph, p. 282.


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SOFONIAS 2.11-12

As extremidades mais longínquas da terra participariam, nesta ex­ tensão, do culto genuíno. Todas as ilhas das nações {kõl ’tyê haggôyirn) se refere às mais remotas habitações dos povos da terra. Originalmente, esses territórios eram habitados pela semente de Jafé (Gn 10.5). Subsequentemente, Tubal, Javã e Társis, todos descen­ dentes de Jafé, são especificamente caracterizados como “ilhas das na­ ções” que adorariam ao Senhor (Is 66.19).^ Dessa maneira, Sofonias se une à grande tradição profética, anun­ ciando 0 dia iminente no qual o juízo de Deus sobre as nações terá seu tema final no culto que celebrarão ao Deus vivo e verdadeiro. Essas expectativas encontram seu cumprimento atualmente no evangelho de Cristo que é proclamado entre as mais remotas populações das ilhas. Pois agora chegou o glorioso dia em que o sol nunca se põe sobre os adoradores do Deus verdadeiro. Contudo, algo mais virá em cumprimento dessas palavras. Pois não vemos agora, com absoluta inteireza, a devastação do perverso nem a purificação do culto. 3. Ao sul: Cuxe (2.12) 12 Também vós, ó cusitas mortos por minha espada são eles! Diversos aspectos desse oráculo o põem à parte dessa série de pro­ nunciamentos de juízos. O sujeito é abordado como sendo Cuxe, em vez do mais formidável “Egito”, como se esperaria se um inimigo re­ presentativo de Judá fosse designado. A alternância extremamente abrupta de pessoas é também característica. Vós, cusitas, instantanea­ mente se torna eles que devem ser mortos. O mais notável é a brevidade desproporcional do oráculo em com­ paração com os outros três nesta série. Por que o profeta teria oferecido 7. Das 38 vezes em que as “ilhas distantes” sâo mencionadas no AT, 17 aparecem em Isaias. Essas ocorrências descrevem principalmente o culto do verdadeiro Deus celebrado pelos pagãos mais distantes. É desnecessário atribuir este conceito de um culto em escala mundial celebrado ao Senhor a um escritor posterior (como faz Driver, p. 127).


SOFONIAS 2.12

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tão poucos detalhes com respeito à devastação de Cuxe? Por que ele não ampliou a devastação da terra, bem como do povo? A mudança abrupta de pessoa nesse breve oráculo pode funcionar como um recurso literário intencional. A espada rápida do carrasco encontrou sua vítima imediatamente após o pronunciamento que o Se­ nhor fez do nome dos eusitas: E vós, ó ciisiías - mortos por minha espada são eles! A linguagem também sublinha o envolvimento direto do próprio Senhor em trazer este juízo. A espada do próprio Senhor, manejada por sua própria mão, desfere o golpe mortal sobre os eusitas. Essa espada do Senhor faz sua notável aparição, conhecida em muitos passos das Escrituras. Na conclusão da cerimônia de renovação da ali­ ança com Israel, nas planícies de Moabe, o profeta Moisés falou como boca de Deus; Eu levanto minha mão aos céus e declaro: Como certamente vivo para sempre, quando afio minha espada reluzente, e minha mão a segura para juízo, tomarei vingança contra meus adversários e retribuirei aos que me odeiam. Tomarei minhas setas embriagadas com sangue, enquanto minha espada devora a carne o sangue dos mortos e dos cativos, as cabeças dos líderes inimigos (Dt 32.40-42). Obrigado pelo juramento pactuai, o Senhor usaria sua espada para matar todos os perversos. Essa espada do Senhor aparece empunhada na mão do príncipe do exército do Senhor enquanto Josué contempla­ va seu ataque contra Jericó (Js 5.13). Ela se tomou o ponto central do grito de guerra de Gideão contra os midianitas (Jz 7.20). Nas visões apocalípticas de João, aquele cujo nome é o Verbo de Deus brande sua espada afiada de dois gumes que atinge as nações (Ap 1.16; 2.12,16; 19.15,21). Essa espada escatológica se reúne ao cetro de ferro do rei messiânico como um instrumento para subjugar as nações (Ap 19.15; c f SI 2.9). Se a espada pactuai e vingadora alcança inclusive Cuxe, o inimigo


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SOFONIAS 2.12-15

mais meridional de Israel, como poderia Judá ter esperanças de esca­ par? Porventura o cetro da mão punitiva do Senhor, erguida contra outras nações, despertará o próprio povo de Deus para os terrores judi­ ciais que aguardam uma nação impenitente? O Israel do tempo de Sofonias se lembraria de que uma vez no tempo de Davi a espada do Senhor se voltara contra sua própria bem-amada Jerusalém (2Sm 24.1617). Não deveriam eles despertar-se agora enquanto veem a ameaça potencial contra aqueles que estenderam a terrível espada do Senhor contra os cusitas? 4. Ao norte: Assíria (2.13-15) 13 a Que ele estenda sua mão b contra o norte, a que destnia b a Assíria; a que ele exponha b Ninive c à destruição, c à seca como o deserto. 14 üf Ali jazerão b em seu meio c os rebanhos, c cada animal selvagem^ constituindo uma nação. c Também o abutre c bem como a coruja estridente^ b entre suas colunas decorativas a pousará; 1. A palavra haytô tem a terminação do antigo no caso genitivo, da mesma maneira que a mesma palavra em Gênesis 1.24 (cf. GKC, § 90a; BDB, p. 3 12). A incomum “todo animal de uma nação” aparece na LXX como “todo animal da terra” (Ihêría tês gês). Driver, p. 128, diz que o te.\to não pode estar certo. 2. Kapeirud, Message o f the Prophet Zephaniah, p. 60, considera o q a ’a t como um “abu­ tre” e o qippõd como, provavelmente, uma coruja. Outra sugestão inclui o pelicano e o porco-espinho (Driver, p. 129) e o pelicano e o ouriço (K.eil, p. 147). BDB, p. 891, sugere que qippõd seria um porco-espinho, à luz da possível derivação da palavra do verbo qSpad. “rolar Junto”.


SOFONIAS 2.13-15

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a uma voz de arnilho b na janela, a destruição b no limiar; porque sua obra em cedro está posta abaixo. 15 Esta (é) a cidade extasiada aquela que vive em segurança; aquela que diz em seu coração; EiP sou a única, e não há nenhuma' outra. EspantosoP Se tornou em desolação, uma habitação para o anima! selvagem. Qualquer que passar por ela assobiará e se despedirá dela com um aceno de mão. O último dos vizinhos de Israel a receber um pronunciamento profé­ tico de maldição foi a Assíria, o inimigo mais ameaçador de Judá. O poderio dessa nação fora enfraquecido nos dias de Josias. Mas ainda havia recursos suficientes para arrasar Judá a qualquer momento. 13.0 profeta começa estreitando o objetivo do juízo sobre o norte do país em geral até chegar à cidade de Nínive, em particular. Ele es­ tenderá... destruirá... que o ponha. Cada uma dessas formas verbais expressa o desejo do profeta {w^yêt...wVabbêd:-w^yãéêm). Agora o 3. E. Stauftcrem TDNT, 2.343, observa que o “eu”-estilo “é solidamenle estabelecido nas proclamações divinas no antigo oriente”. 4. O termo ’epes é essencialmente um equivalente poético dc 'ên sugerindo a ideia da ine.xistcncia (BDB, p. 67; GKC, § 152s). A terminação i aqui é provavelmente paragógica (mas cf. Keil, p. 148, que considera a terminação como sendo um sinal de pronome da primeira pessoa). Aqui a LXX tem Egõ eimi, kai ouk éstin mel'emé éli: “Eu sou, e não tem nenhum outro além de mim”, 'eftes é usado para declarar a auto-existência singular do Senhor em Isaías 45.6,14; 46.9. 5. O termo 'êk deriva do hebraico ’ê id , “como”, e como uma interjeição expressa a ideia de “como isso é possível!”, em termos de alegria, surpresa ou lamento.


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SOFONIAS 2.13-14

desejo do porta-voz de Deus se une ao decreto do Senhor. Este envol­ vimento mais pessoal, mais específico, pode ter emanado da extensão da brutalidade testemunhada pelo próprio profeta que habitualmente marcava as conquistas dos assírios. É quase incrível a descrição da desolação que caracteriza a metrópo­ le cultural de Ninive. Esta cidade será terra seca como o deserto. A mai­ or cidade de uma era não teria nem sequer remanescentes que marcas­ sem sua existência. Então, cerca de 410 a.C., Xenofontes passou pelo local onde existia Ninive e não encontrou nem ao menos traços de sua existência nas areias mutantes do deserto.® O Juízo pronunciado pelo profeta se cumpriu literalmente. 14. A destruição absoluta e final de Ninive é vista nos habitantes que se moverão para controlar o território. A metrópole sofisticada se­ ria habitada por rebanhos e todo animal selvagem que constitui uma nação. Joel designa os gafanhotos que invadiram Israel como uma “na­ ção” {gôy), aludindo em parte à rigidez de sua organização (J1 1.6; c f 2.7-8). Sofonias descreve esse conjunto de animais que de modo se­ melhante invadiram o local de Ninive. Embora representando a ampla divergência encontrada entre os vários animais selvagens da criação, eles são congregados como uma comunidade organizada que está de­ terminada a resistir à expulsão. Toda a imagem descreve uma reversão da ordem da criação. Origi­ nalmente, a humanidade recebera a responsabilidade de exercer domí­ nio sobre toda a criação. Mas agora a criação toma o poder dos maiores impérios humanos e os transforma em um deserto para animais do cam­ po. O caos organizado suplantou a civilização. Algum esforço importante foi gasto na tentativa de determinar as criaturas específicas habitando os capitéis decorados das colunas dei­ xadas em pé depois da destruição da cidade. A ressalva que João Calvino faz sobre o assunto é louvável: “Quanto aos diversos tipos, eu não fiz pesquisa exaustiva; pois é suficiente conhecer a intenção do profeta”.’

6. Cf. Xenofontes. Anahasis 3.4.8-12. 7. Calvino, p. 255.


SOFONIAS 2.14-15

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Abutre. A primeira criatura citada é uma ave de alguma espécie, visto que a designação ocorre em outras duas passagens numa lista de aves (Lv 11.18; Dt 14.17). Mais significativo é o fato de que cada uma dessas cataloga nomes de aves definidas como sendo impuras. A profa­ nação cerimonial faria sua morada nas ruínas de Nínive. Tanto as janelas como os portais das ruínas possuiriam o sinal de sua deserção. Mui frequentemente, um portal ou limiar {sap) aparece como tendo vigias ou guardas para guardá-lo noite e dia (2Rs 12.9; 22.4; 23.4; ICr 9.19; Et 2.21; 6.2; Jr 35.4). Mas agora o entulho impe­ de a passagem dos portais. A comunidade toda caiu em total desleixo. Madeiramento de cedro geralmente era um sinal de vida luxuosa. Davi e Salomão moraram em palácios de cedros (2Sm 7.2,7; 1Rs 5.6,8) e Jeoacaz (Salum), filho de Josias, foi condenado por dilapidar recursos na construção de um palácio de cedro, enquanto ignorava a crise reli­ giosa e social de seu tempo (Jr 22.14-16). Mas toda essa luxúria seria desconsiderada durante a devastação de Nínive. Trabalhos maravilho­ sos em cedro seriam negligenciados, expostos às forças demolidoras dos elementos. 15, Três aspectos caracterizam Nínive antes de sua destruição: êx­ tase, segurança e auto-suficiência. Uma cidade se regozija quando to­ dos prosperam, quando a economia é boa, quando as artes florescem e a população tem tempo para o lazer. Nenhum senso do peso da respon­ sabilidade e cuidado oprime o povo. A Assíria, nos píncaros de sua glória, regozijou-se nessas experi­ ências de prosperidade. Ela não sofria ameaças externas de seus vizi­ nhos. Despojando as riquezas de todas as nações, ela vivia em prazeres e prosperidade. Toda essa prosperidade levou Nínive a uma única conclusão. Ela presumiu que era auto-suficiente. Ela atribuiu a si até mesmo o atribu­ to divino de auto-existência: Eu sou a única, e não há outra além de mim. A capital assíria assumiu de maneira blasfema todas as prerroga­ tivas que pertencem unicamente a Deus. A cidade não devia sua exis­ tência a ninguém, e não precisava de ninguém para se manter. Mas “Deus não tolera a presunção humana, quando o homem se


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SOFONIAS 2.15

infla por sua própria grandeza e p o d e r E assim, a única coisa que a Assíria consegue fazer é assinar sua própria sentença, ao asseverar de maneira blasfema sua própria deidade. Assombroso'. Como isso é possí­ vel? Zombando de seu próprio senso de auto-suficiência, o Senhor afir­ ma que sua “razão de ser” não passa de desolação. Dois gestos refletem o desprezo acumulado sobre essa era-uma-vez gloriosa cidade. Um assobio da boca, e um aceno de mão, expressam desprezo pelo monturo aviltado que um dia foi uma cidade poderosa. Nem sempre é tal desprezo justificado. Algumas vezes o servo fiel de Deus testemunha a zombaria inclemente do ímpio. Todos os que o vi­ ram zombaram dele, mostraram-lhe a língua e menearam a cabeça (Sl 22.8 [Eng. 7]). Todos os que passaram pelo Rei dos judeus crucificado blasfemaram dele, sacudiram a cabeça com desprezo (Mt 27.39). Mas o desprezo da Assíria era merecido. Visto que esta nação se exaltou até os altos céus, ela tem de ser trazida abaixo até o inferno. Conclusão Portanto, esta segunda seção maior da profecia mostra o envolvi­ mento do Senhor com todas as nações da terra. Não importa onde o perverso seja encontrado, ele será punido. O anúncio de juízo sobre as nações também tem a função de convocar Judá ao arrependimento. Pouco tempo resta antes da chegada do Dia do Senhor. Judá deve bus­ car ao Senhor. A humildade pode tornar-lhes possível serem eles es­ condidos no Dia da ira do Senhor. Que se deixem mover pelo medo e pelo zelo, e se voltem para o Senhor. O Dia não pode voltar atrás. Mas eles podem estar entre o remanescente que será salvo para desfrutar das nações saqueadas.

III. DEUS RECONSTITUI SEU POVO COM A CHEGADA DO GRANDE DIA (3.D20) Depois de haver tratado da Filístia, Moabe, Amom, Etiópia e Assí­ ria, o profeta agora focaliza Jerusalém (3.1-8). Em meio à sua denún­ cia, ele lembra os juízos que o Senhor infligiu sobre as nações (v. 6), os 8. Calvino, p. 257.


SOFONIAS 3.1-8

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quais devem lembrar seus ouvintes das palavras de juízo recém-expressas contra seus vizinhos em todas as direções (2.4-15). Esses Juízos iminentes sobre a cidade rebelde de Jerusalém ocorre­ rão em associação com a chegada do Dia (3.8). O Dia do Senhor trará não só destruição a quem não se arrepender, mas purificação ao rema­ nescente (v. 9-13). Esta feliz ocorrência ocasionará regozijo mútuo entre Deus e seu povo (v. 14-20). A. DEUS FINALMENTE JULGARA OS REBELDES (3.D8) 1 Ài sobre os rebeldes, os que puluíram' a cidade opressora. 2 a Ela não deu a atenção b à voz; a ela não aceitou b a correção, a No S e n h o r b ela não confiou; a de seu Deus b ela não se aproximou. 2 a Os seus príncipes em seu meio b (são) leões que rugem; a seus juizes, b lobos ao cair da noite; nada deixam para mastigar no dia seguinte. 4 a Seus profetas b (.são) levianos,^ b homens pérfidos; I. o termo m Sr^’â aparentemente se deriva do verbo m ãrá. “rebelar”, e demonstra a maneira na qual o ’ final algumas vezes substitui o h final. C f GKC, § 75rr. A LXX, enten­ dendo os significados básicos da raiz das palavras de forma diferente, traduz “glorioso e resgatado” (epiphanès kai apolelytrómenê). 2. 0 termo pSfioz significa, essencialmente, ser “sem limites” ou “insolente”. C f BDB, p. 808; KB, p. 757,758.^


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SOFONIAS 3.1-8

a seus sacerdotes b têm profanado o lugar santo; b têm feito violência à torá. 5 O S e n h o r é justo no meio dela; ele nunca fará mal. Manhã após manhã, ele trará sua justiça à luz; ele jamais falhará. Mas os maus não conhecem a veigonha. 6 Eu eliminarei as nações; suas torres de esquina estão destruídas. Tenho devastado suas ruas, a ponto de não haver quem passe por elas; suas cidades se transformaram em monturos,^ de modo que ninguém habita ali.* 1 Eu disse: Certamente ela me temerá, ela receberá a correção, e assim seu refúgio não será eliminado, (por causa de) todo o castigo que lhe tenho infligido.^ 3. .jarfá é uma hapax tegomenon no AT, e aparentemente significa “assolar, devastar”. Cf. BDB, p. 841. 4. J. M. P. Smith, p. 242, rejeita a autenticidade do versiculo 6 por causa de sua mensagem relativa aos assuntos estrangeiros: “Afirmações relativas a nações estrangeiras são totalmen­ te estranhas a este contexto, que trata exclusivamente das relações entre o Senhor e Judá”. O uso bastante arbitrário de tal critério subjetivo em determinar a autenticidade é visto por meio de mais uma sentença no mesmo parágrafo no qual ele defende a inclusão de “ruas”, muito embora reconheça alguma lógica no argumento de que “ruas” dificilmente seriam mencionadas antes de “cidades” : “Os profetas não eram imobilizados pelas camisas-de-for­ ça da lógica”. 5. A relação da frase kSl '“Ser-pãqadtt 'ãleyhã, literalmente, “tudo que eu tenho imposto sobre ela” com o resto da sentença é difícil. Esta pena provavelmente não deverá ser entendi­ da como um castigo adicional além do castigo descrito anteriormente no versiculo. O verbo pãqadti é a primeira pessoa da forma perfeita e não tem viau' consecutivo. Ele, portanto, não tem conexão com a forma imperfeita do verbo precedente. Keil, p. 153, seguindo Ewald, sugere que kõl funciona como um “acusativo de modo”. Mas a AV traz “por mais que eu os punisse” significando que, a despeito de todas as punições do Senhor, eles não seriam total-


SOFONIAS 3.1-8

395

Mas, ah! Levantaram de madrugada, agiram corruptameníe em todos os seus feitos. 8 Portanto, Esperai por mim, declara o Senhor, pelo Dia quando eu me levantar para testificar. Porque minha determinação (é) a congregar b as nações e a reunir h os reinos, para derramar sobre eles minha fúria toda minha ardente ira. Porque no fogo de meu ciúme toda a terra .será consumida. Esta seção é permeada por referências “à cidade” (v. 1). Embora o nome da cidade nunca seja explicitamente fornecido, essa “cidade” é Jerusalém, como indicado pelo fato de que somente este lugar cumpre o papel de habitação singular de Deus (v. 5). Uma série de verbos e pronomes pessoais no feminino singular se referem de volta “à cidade” (hã'ir) mencionada na sentença de abertura do capítulo (v. 1; cf. v. 25,7). Nações vizinhas foram declaradas previamente passíveis do juízo de Deus, mas agora é a vez de Jerusalém comparecer diante dos olhos do Senhor que a tudo escrutinam. A distinção entre a forma profética de discurso empregada nesses versículos divide o material em duas seções. Primeiro, o profeta fala sobre a cidade (v. 1-5); depois o Senhor se dirige à cidade na primeira pessoa (v. 6-8). mente eliminados. Embora possuindo suas próprias diriculdadcs, a melhor eonstruçâo en­ tende esta frase como sendo explicativa da esperança pronunciada na primeira porção do versículo: “Certamente... seu refugio não será eliminado... (em consequência de) todos os castigos eu lhe tenho imposto".


396

SOFONIAS 3.1

1. Três particípios caracterizam a cidade sobre a qual o Ai proféti­ co é pronunciado; rebelde {mõr^’â), poluída (n ig ’ãlã) e opressora (hayyônã). O primeiro posicionamento gramatical de rebelde e poluí­ da, na ordem das palavras, enfatiza a acusação contida nestas palavras. Pode-se presumir que esta ênfase como que caminhando para o terceiro adjetivo, mesmo quando ele siga o sujeito da sentença. Esses três termos indicam que é a um povo em aliança com o Senhor contra quem esta profecia é pronunciada. Deve existir uma relação contra a qual a cidade se revolta. O povo desafiador e obstinado tem recusado fazer a vontade do Senhor. Os privilégios têm se transfomiado em ocasião para mais pecado. Poluída também sugere uma impureza que desqualifica uma pes­ soa que realiza uma tarefa sacra ou mantém uma relação distintiva. Alguns indivíduos, depois do exílio, foram poluídos e, consequente­ mente, foram excluídos das funções sacerdotais (c f Ed 2.62; Ne 7.64). Sofonias, porém, declara que a população inteira foi desqualificada para qualquer serviço divino. Subsequentemente, até mesmo as nações reconheceram que a po­ luição de Israel era uma das consequências da queda de Jerusalém. Nenhum dos reis da terra podia crer que inimigos poderíam adentrar os portões da cidade santa (Lm 4.12). Mas por eausa do derramamento de sangue inocente, pelos profetas e sacerdotes, os cidadãos ficaram irre­ mediavelmente contaminados pelo sangue. Ninguém se atreve a tocar em suas vestes (Lm 4.13-14). Até mesmo os ímpios os tratam como leprosos, gritando: “apartai-vos, imundos!... apartai-vos, apartai-vos, não toqueis!” (Lm 4.15; c f Nm 35.32-33; Lv 13.45). Essa poluição da população de Jerusalém não é do tipo de profana­ ção cerimonial que só funcionou em Israel por seu valor como modelo didático. Em vez disso, ela constitui uma poluição moral infestando o povo. Crimes brutais associados ao derramamento de sangue haviam contaminado a terra. Em razão de Israel ter sido um estranho no Egito, lhe foi ordenado especificamente a nunca oprimir um estrangeiro (Ex 22.20 [Eng. 21]; Lv 19.33). Irmãos e escravos, semelhantemente, deviam ser livres de tratamento opressivo (Lv 25.14; Dt 23.17 [Eng. 16]). Contudo, agora o


SOFONIAS 3.1-2

397

profeta declara que essa cidade como um todo é opressora em sua própria essência. A totalidade da população se fez culpada de maustratos mútuos. Uma cidade deveria ser o lugar onde vizinho assiste vizinho como serviço prestado a Deus e ao homem. Mas a proximidade da população se tomou ocasião para crueldade e opressão. 2. Desde o tempo da criação da humanidade, já aconteceu algo tão maravilhoso? Porventura alguma outra nação já ouviu a voz divina lhe falando? (cf. Dt 4.32-33).'’ Essa cidade é singular. Ela ouviu a voz de Deus. Nínive não teve tal privilégio. Tampouco as cidades da Cuxe, Moabe, Amom ou as ci­ dades filisteias do Pentápolis. Somente essa cidade ouviu. Mas ela não deu ouvidos à Voz. Dez vezes no deserto o povo não deu ouvidos à voz (lõ’ Sãm^'ü b^qôli, Nm 14.22). Então o Senhor jurou que nenhum deles haveria de ver a terra que havia prometido em juramento a seus pais. Quantas vezes essa cidade recusou dar ouvidos à Vozl Se as maldi­ ções pactuais não fossem decretadas a todos, quem iria ouvir a voz de Deus (ki-lõ’ Sãma 'tã tfiqôl yhwh, Dt 28.45,62)? O soterramento do livro da Lei sob os escombros do templo não isentaria o povo do pecado da recusa de ouvir a voz de Deus. Pois a palavra viva continuava a ser ouvida por meio do porta-voz profético. Ai desta cidade pela espantosa obstinação de sua vontade resistente. Essa cidade também não aceita correção. Teria ela pensado que as calamidades que lhe sobrevieram nada tinham a ver com o castigo do juízo proveniente da mão de Deus? Como podería ela falhar em inter­ pretar corretamente as disciplinas providenciais que o Senhor com amor lhe aplicara? Porventura teria ela crido que suas horas de aflição du­ rante os reinados de Acaz, Ezequias e Manassés era porque os deuses dos assírios eram mais poderosos que o Deus que os tirara do Egito? Porventura teria ela pensado?

6. Embora a "voz” não seja especificada por Sofonias como sendo de Deus, o texto deste pronunciamento, bem como as referências paralelas nas Escrituras, apontam para outra direçào.


398

SOFONIAS 3.2

Aí está! A maior acusação de todas! Essa gloriosa cidade, bela por sua situação, a alegria da terra, o local escolhido por Deus para seu lugar de habitação - esta cidade não confiava no Senhor. Sofonias enuncia sua acusação contra toda a cidade por seu pecado de incredu­ lidade. Desta fonte corrompida por desconfiança tem fluído toda a cor­ rente poluída dos pecados da cidade. As rebeliões contra Deus, as opres­ sões sangrentas, a recusa em ouvir, o endurecimento do coração - tudo emanou do fracasso em confiar no S e n h o r . Frequentemente, confiarem Deus em vez de preocupar-se com um problema é visto como uma função psicológica que fomeee benefícios ao crente. O fracasso em crer nem sempre é entendido como um peca­ do grosseiro, um ato de traição vergonhosa que merece a maldição divina. Mas a incredulidade é “a mãe de todos os males pelos quais os homens intencionalmente prejudicam e injuriam reciprocamente".’ Pecados de incredulidade podem ser cometidos individual ou corpo­ rativamente. Pelo prisma do profeta, a cidade é como uma comunidade corporativa que não tem confiado no S e n h o r . E assim a cidade como um todo se acha diante das censuras do Ai profético. Essa cidade também é culpada porque ela não se aproxima de seu Deus. O conceito de “aproximar-se” de Deus é, com frequência, asso­ ciado ao culto no AT.“ A aproximação do Todo-Poderoso deve incluir sempre o culto. A aproximação de Deus pode ser com o propósito de fazer petições, buscar conselho, oferecer ofertas, ou expressar louvor. Mas em cada caso o ato de aproximar-se deve envolver culto e adora­ ção. Se ele é Deus, então toda aproximação a ele deve ser feita na forma de culto. Qualquer outra deidade pode encontrar seus adeptos no centro cos­ mopolita de Jerusalém. Mas aproximar-se do S e n h o r em associação com qualquer outra deidade simplesmente insulta o único e verdadeiro Deus. Esta negligência do culto verdadeiro evoca 0-4/ profético. Ninguém pode esperar bênçãos nesta vida sem pleno compromisso expresso em 7. Calvino. p. 264. 8. BDB, p. 898, indica que a frase funciona como uma expressão técnica para culto em 158 vezes. Particularmente significativo é a grande assembléia do Sinai, quando Israel "se apro­ ximou” de Deus.


SOFONIAS 3.3-4

399

atos do mais puro culto. Embora os atos por si só não tenham méritos, eles selam a fé do crente que confia. 3-4. Após enunciar sua acusação contra toda a população da cidade eleita, o profeta agora especifica suas acusações contra os vários ele­ mentos da liderança que são principalmente responsáveis por essa degenerecência por atacado. Príncipes, juizes, profetas e sacerdotes, cada um recebe sua sentença de condenação. Sofonias trata primeiro dos ofi­ ciais civis (v. 3) e em seguida dos líderes religiosos (v. 4). 3. Os representantes reais da nação empregam força bruta para de­ vorar o pobre. Em vez de pastorear o povo, esses príncipes se alimen­ tam da carne daqueles a quem governam. Os juizes responsáveis por executar a lei do S e n h o r com imparcia­ lidade revelam o temperamento de um lobo que ronda à noite. Furioso, com fome insaciável, eles saltam sobre suas vítimas indefesas, acober­ tados pela noite. Seu apetite pelo inocente é tão feroz que não deixam para o dia seguinte nada para mastigar!* 4. Os profetas pecam ainda mais grosseiramente quando presumem que falam em nome do S f.n h o r . Tal arrogância merecia a morte (cf Dt 18.20). Pois em Israel, quando Deus falava a seu povo, a nação era obrigada a obedecer sem equívoco. Nenhum outro pronunciamento humano levava tanto peso como as declarações dos profetas. Os falsos profetas eram não só levianos declarando a palavra de Deus quando ele não havia falado. Eram também homens pérfidos. Eles agiam e falavam acobertados por seu ofício, como um meio de alcançar seus próprios desígnios. Em toda a história nacional de Israel, os conflitos giravam em tor­ no da luta entre os profetas verdadeiros e os falsos. Particularmente, enquanto a história da nação se movia em direção à tragédia de expul­ são da terra, a tensão entre os profetas se agravava. Esta intensificação 9. O termo gSnim provavelmente signifique “roer ou quebrar ossos" (cf. gerem, “osso”). Este significado é apoiado por Números 24.8, em que a frase “consumirá as nações, seus inimigos” {}’õ ’halgôyim çõ/íívvf) é paralela a “quebrará seus ossos” (' a^mõtêhemy^gGrSm). A ideia de “nâo deixam ossos para roerem no dia seguinte” sugere que esses lobos famintos, de tocaia à noite toda. não deixam nenhum bocado paru amanhã. Rudolph, p. 284, traduz: “que perante a grande besta [Gms.vv/t'/j] não recuam”.


400

SOFONIAS 3.4

da luta é vista pelo uso que Jeremias faz do termo expresso cerca de noventa vezes, enquanto em Isaías o termo ocorre apenas sete vezes. Sofonias se lança contra seus contemporâneos. Um único profeta se atreve a condenar a muitos. Mas, como João Calvino comenta, “nenhuma união formada por homens pode possivelmente diminuir a autoridade de Deus”.'®Em todos os tempos, um com Deus constitui a maioria. Os sacerdotes em Israel realizavam muitas tarefas, as quais afeta­ vam profundamente o bem-estar social e espiritual da nação. Entre suas responsabilidades estava a de distinguir entre o santo e o comum (cf. Lv 10.10). Por meio dessa distinção, o povo era impedido de confundir o Criador com a criação. Por meio de uma manutenção própria desta distinção, o santo Deus era mantido distinto das substâncias temporais e materiais de sua criação. Mas ao mesmo tempo comunicava-se o fato notável de que Deus era conhecido entre suas criaturas. Mas os sacerdotes de Judá haviam profanado o santuário. Até mes­ mo 0 santo lugar perdera sua importância para o povo como sendo o local de habitação de Deus. Inevitavelmente, a desorientação desceu sobre toda a vida. Prostituição “sagrada” e as “oferendas a Deus” de crianças como holocaustos naturalmente apareceram quando os sacer­ dotes eliminaram a distinção entre o comum e o santo. Os sacerdotes de Israel também se sentavam como juízes da terra. Se uma questão Jurídica fosse difícil demais para o tribunal comum decidir, os sacerdotes, em conjunto com o Juiz principal da terra, deci­ diriam o caso (cf. Dt 17.8-9). Sua decisão era designada como torá e de obediência obrigatória a ambas as partes. Qualquer um que revelas­ se menosprezo por esse ofício tinha de morrer (Dt 17.10-12). Mas os sacerdotes do tempo de Sofonias têm violado a lei. Eles não só causavam confusão às vidas daqueles que foram obrigados em consequência de suas decisões. Seu assalto era também contra a lei de Deus propriamente dita. Somente a violência contra a lei de Deus po­ dia explicar as perversões promovidas pelos sacerdotes de Judá. Se o cidadão que questionasse a decisão da torá sacerdotal devia morrer, qual seria o destino do sacerdote que brutalizava a torá divinal 10. Calvino, p. 267.


SOFONIAS 3.4-5

401

Histórias relativas a ministros que promovem a imoralidade em nome de Deus simplesmente indicam a continuação dessa mesma cor­ rupção dentro da humanidade. Como T. S. Eliot expressou dramatica­ mente em Murder in íhe Cathedral (Assassinato na Catedral): O pecado cresce com a prática do bem... O servo de Deus usa a oportunidade para cometer pecado maior E causar dor, mais que o homem que serve a um rei. Pois os que servem a uma causa maior podem fazer com que a causa lhes sirva. E ainda fazendo o certo...." É possível que a iiltima frase de Eliot seja forte demais para os contemporâneos de Sofonias. Qualquer semelhança de correto em seus feitos era a despeito de sua intenção. O “Ai” profético pronunciado sobre essa cidade encontra eco solene nos sete “Ais” que Cristo pronunciou sobre os escribas e fariseus de seu tempo (Mt 23.2,13-36). Sua denúncia se encerra muito bem com uma vivida descrição da mina de Jerusalém (Mt 23.37-39). 5. Em contraste com a galopante injustiça que corria solta entre todos os habitantes de Jerusalém, o profeta retrata o S e n h o r em seu meio como sempre fazendo o certo! Notavelmente, o profeta assevera que o S e n h o r ainda está em seu meio. Ele não pode fazer o mal nem o mal pode corrompê-lo. A presença do S e n h o r no seio desta cidade cla­ ramente indica que Jerusalém é o lugar em discussão, mesmo quando não mencionada especificamente. Unicamente Jerusalém possui privi­ légio tão distinto. A caracterização de Deus como justo e como aquele que não come­ te iniquidade pode ser comparada à declaração da natureza de Deus no começo do cântico pactuai de Moisés: “Deus é fidelidade, e não há nele injustiça; é justo e reto” (Dt 32.4). Povos, príncipes, juizes, profe­ tas e sacerdotes, todos podem ser corruptos. Mas o Senhor permanece justo. Ele não pode fazer o mal. 11. T. S. Eliot, “Murder in the Cathedral”, em T. S. Eliot, The Complete Plays (Nova York: Harcourt, Brace and World, 1967), p. 30.


402

SOFONIAS 3.5

Porventura estaria Deus ciente dos horrores perpetrados por Judá? Pode a tolerância de tais circunstâncias continuar e a justiça ser mantida? Mas a justiça infalível do Senhor nunca pode ser posta em dúvida: Manhã após manhã ele trará sua justiça à luz. A frase manhã após manhã (babbõqer babbõqer) expressa a regularidade diária de certos sacrificios oferecidos em Israel (Èx 30.7; Lv 6.5 [Eng. 12]; 2Cr 13.11; Ez 46.13-15), do maná colhido no deserto (Êx 16.21), das ofertas vo­ luntárias trazidas para a construção do tabernáculo (Êx 36.3). Num contexto que fala do juízo de Deus, aqueles que fazem uma aliança com a morte e rejeitam a pedra angular posta em Sião deverão ser açoitados, manhã após manhã, de dia e de noite (Is 28.18-19). De modo semelhante, o Senhor trará sua justiça à luz, manhã após manhã. A despeito da aparência de que a corrupção prevalece de todos os lados, o Senhor diariamente manifesta seus justos juízos. Mesmo o remanescente fiel que sofre sob as tiranias opressivas de uma liderança depravada deve reconhecer as realidades diárias da justiça do Senhor.'^ Tão fielmente como o Senhor forneceu o maná diário a seu povo du­ rante o período de provação no deserto, também nos últimos dias caó­ ticos de Jerusalém a justiça do Senhor virá à luz. Nessa difícil circunstância, a dependência do Senhor é vista na as­ severação de que ele não falha (lõ’ne'dãr).'^ Sim, como a luz de cada novo dia certamente raiará, assim Deus mesmo jamais falhará. Em to­ dos os momentos difíceis dessa era da história de Judá, enquanto toda instituição humana se provou corrupta, o Senhor permaneceu infalí­ vel. Ele é justo. Nunca, em um único dia, ele fará o mal. Mas o iníquo não conhece a vergonha. Até mesmo o Deus TodoPoderoso revela preocupação de que o povo entenda sua justiça. Ele manifesta diariamente sua justiça. Mas os perversos se venderam ao pecado. Eles não podem nem mesmo envergonhar-se. Seus corações são totalmente endurecidos. 12. O contexto não é satisfeito pela sugestão de que justiça “vem à luz” meramente nas proclamações dos profetas. A situação demanda que a ratificação da justiça esteja envolvida. 1 3 .0 termo 'adar se refere àquilo que está faltando ou é deixado para trás (cf. I Sm 30.19; 2Sm 17.22; Is 34.16; 40.26; 59.15). Nada falta na administração da justiça divina.


SOFONIAS 3.6-7

403

6. Antes de anunciar a inevitabilidade dos juízos destrutivos de Deus sobre esses pecadores corruptos, o Senhor repete as numerosas expressões de sua paciência no passado. Agora o Senhor fala na pri­ meira pessoa. A integridade nacional violada, os acessos ao comércio obstruídos, as cidades antes movimentadas agora desoladas. Porventura a experi­ ência de outras nações nada ensina a Judá? As torres de esquinas, os pontos mais solidamente fortificados das cidades muradas jazem em ruínas. Ninguém se aventura nas praças dessas nações. As cidades ou­ trera fervilhantes pelas atividades comerciais do povo agora jazem em monturos inúteis. O Senhor conduziu esses juízos ao curso da história, que de outra forma se poderia esperar continuidade imperturbável. Ele fez isso não só por causa da arrogância intolerável e corrupção da população dessas cidades, mas também por causa de suas temas misericórdias para com seu povo. Ao trazer devastação tão estonteante sobre as cidades ímpias, “antes do tempo”, o Senhor teve a intenção de despertar sua própria comunidade obstinada para que desistisse de sua complacência na cor­ rupção. 7. Agora o Senhor explicitamente indica sua intenção de devastar outras nações bem como de castigar Judá. Esperava-se que essas mani­ festações de seus justos juízos fossem instilar o temor divino em seu povo. Então iriam ser poupados de devastação absoluta. Certamente o temerão. Conforme a legislação deuteronômica, a simples leitura da lei deve­ ria instilar temor nos corações de Israel. As consequências das viola­ ções pactuais deveríam ser lidas a cada sete anos. Essa cerimônia sole­ ne de renovação da aliança tinha a intenção de provocar temor do Se­ nhor (Dt 31.9-13). Além disso, os vários indivíduos que eram culpados de quebrar a lei deviam ser mortos por suas transgressões, de modo que todo o Israel ouviría e aprendería a temer ao Senhor (Dt 13.11; 14.23; 19.20; 21.21). A leitura da lei se tornou negligenciada por muitas décadas. Os culpados não eram desencorajados de cometer crimes. Como conse­ quência, o Senhor foi ao extremo de infligir calamidades sobre Judá.


404

SOFONIAS 3.7-8

Com certeza agora aprenderiam a temê-lo e desistiriam de seus cami­ nhos corruptos. Mesmo durante a peregrinação no deserto, aquela geração rebelde buscava o Senhor sempre que ele “os fazia morrer” (SI 78.34). O objetivo final do Senhor, em afligir Judá, era para que assim seu refúgio não [fosse] eliminado. Embora seu castigo trouxesse muitas aflições sobre a nação, elas eram calculadas para preservar um lugar de salvação. Impressionante é a reação da nação a esse tratamento paciente, po­ rém crescentemente severo da parte do Senhor. Falando em termos an­ tropomórficos, 0 Senhor concluíra que seus castigos por fim os trariam de volta a seu bom senso. Mas, que surpresa! Eles se tornaram ainda mais ávidos em sua busca do mal. Eles se levantavam de madrugada a fim de perpetrar seus crimes, mesmo quando o Senhor estava se “levan­ tando cedo” e enviando seus profetas a adverti-los de suas estultícias (cf Jr 7.13,25; 11.7; 25.3; 26.5; 29.19; 32.33; 35.14-15; 44.4). Moisés havia declarado que, após sua morte, a nação iria tomar-se totalmente corrupta {haêhêi íashiiun - Dt 31.29). Agora o Senhor de­ clara a concretização dessa expectativa. Eles agiram corruptamente [hishttú] em todos os seus atos. Da mesma maneira que nos dias do dilúvio chegou o tempo em que toda carne corrompera (hishit) seus caminhos perante o Senhor (Gn 6.12). 8. As consequências de tal corrupção se comprovaram uma vez mais na destruição provocada pelo dilúvio. O reaparecimento do mes­ mo tipo de circunstância iria inevitavelmente evocar a abrupta chegada do Dia do Senhor. Após os versículos ímediatamente precedentes, poderia se esperar que o profeta focalizasse seu anúncio no Juízo especificamente sobre Jerusalém. Esta cidade recalcitrante havia resistido a toda aproxima­ ção de Deus em sua bondade e severidade. Mas, em vez disso, o profe­ ta descreve uma assembleia de todas as nações. Deus iria derramar sua ira sobre a terra inteira. A rebelião persistente de Jemsalém levaria à destruição de todos os povos, não meramente à punição de Judá. Esta ampliação das dimensões dos objetos da ira de Deus uma vez


SOFONIAS 3.8

405

mais explica a versão dos massoretas: “Espera... pelo Dia de minha vinda para a presa” {1^'ad) em vez de “...vinda para testificar" {t^'êd)Se as nações deviam servir de testemunhas para o julgamento de Jerusa­ lém, quando o próprio Senhor forneceria testemunho, a segunda possi­ bilidade para a vocalização desta palavra faria sentido. Mas perante quem o Senhor ofereceria seu “testemunho” se todo o mundo fosse levado ajuízo? Portanto, é possível encontrar algum apoio à compreensão da frase para significar que o Senhor virá “para a presa” (fi'ad)- Como um animal selvagem faminto, ele virá para consumir todas as nações. En­ tretanto, esta figura da vinda de Deus “para a presa” é bastante estra­ nha no presente contexto. Nada explica por que esta imagem em parti­ cular seria introduzida agora. Mais provavelmente, essa frase pode ser entendida como declara­ ção da vinda de Deus para testificar (fi'êd)- Esta interpretação tem alguns problemas em vista do caráter universal do juízo sendo descri­ to. Perante quem o juízo seria executado, se as nações, bem como Judá, seriam julgadas? Uma possível solução seria alterar de leve o texto consonantal para afirmar que Deus reunirá as nações para que derrame sua ira sobre vó.y, residentes de Jerusalém, em vez de sobre eles, habitantes de toda a ter­ r a . E n t ã o Deus iria reunir as nações para que pudessem ouvir seu “testemunho” ('êd) no julgamento de Judá. Mas na verdade tal emenda do texto não se faz necessária. Pois em outros lugares das Escrituras, quando o Senhor vem para “testificar”, não há terceiros para ouvir essa tremenda Testemunha. O contemporâ­ neo de Sofonias, Jeremias, anuncia que o Senhor será testemunha con­ tra o pecado de Israel (Jr 29.23). Malaquias anuncia que no Dia da vinda do Senhor ele testificará rapidamente contra os feiticeiros e adúl­ teros, contra aqueles que defraudam os trabalhadores de seus salários e que negam justiça aos estrangeiros (Ml 3.3-5). Quem poderá suportar esse Dia de sua vinda? Quem ficará de pé 14. Cf. Rudolph. p. 290, que sugere a mudança de "sobre eles” (''•lêhem) para “sobre vós” ('Hêkem).


406

SOFONIAS 3.8

quando ele aparecer? Sofonias, ao falar do Senhor, diz que, naquele Dia, no fogo de meu ciúme toda esta terra será consumida. Jerusalém de fato estará incluída naquele Dia de destruição. Mas, quando a própria cidade de Deus for julgada, então chegará o dia final para todas as nações. Calamidade universal acompanhará a devastação dessa cidade. Quando Jesus apresenta os terrores da vinda do juízo de Deus, ele entretece a destruição de Jerusalém com o fim dos tempos, de modo que os dois aspectos de sua declaração profética não podem ser separados. Quando os exércitos cercarem Jerusalém, e sua desolação estiver próxi­ ma, então “estes dias são de vingança, para que se cumpra tudo o que está escrito” (Lc 21.20-22). A destruição de Jerusalém em 70 d.C. antecipou o grande Dia do Senhor que consumará seus juízos da mesma maneira que ocorreu na destruição de Jerusalém em 586 a.C. Da mesma forma que na profecia de Sofonias, também na profecia de Jesus o juízo de Deus sobre Jerusa­ lém inevitavelmente antecipa a devastação final das nações. Esse juízo amedrontador sobre Jerusalém de fato ocorreu. A hora para a investida final do Dia do Senhor está batendo à porta. Se fosse possível falar de um evento mais ou menos “iminente”, então a apari­ ção do Dia do S e n h o r estaria agora “mais iminente” do que nunca. Com rapidez incomensurável, o testemunho público do Dia do S e n h o r contra toda transgressão secreta chegará. O profeta diz Esperai'. Esperai pelo Dia! Sofonias não quer dizer que a espera seja longa e tediosa. Ele quer dizer que o povo deve espe­ rar confiante (hakkü) de que o Dia chegará. Que ninguém tenha dúvida. Quando se observar a recusa persis­ tente em temer ao S e n h o r , mesmo por parte daqueles que têm o S e ­ n h o r residindo em seu meio, é preciso confiar no fato de que o Dia está perto. Ele nunca faz o mal. Ele nunca falhará. Sua justiça não pode ser questionada. Manhã após manhã ela vem à luz. No dia determinado, ele virá para testificar mesmo contra aqueles que portam seu nome.


SOFONIAS 3.9-13

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B. DEUS, POR FIM, PURIFICARA SEU REMANESCENTE (3.9-13) 9 Porque, então, converterei as nações, para que falem com lábio puro, para que iodos invoquem o nome do Senhor e o sirvam com um só ombro. 10 Dalém dos rios de Cuxe, meus suplicantes, as filhas de meu povo disperso, me trarão oferendas. 11 Naquele dia, não te envergonharás por todos os teus feitos, pelos quais pecaste contra mim. Porque, então, removerei de teu meio os que exultam orgidhosamente. Nunca mais te exaltarás em meu santo monte. 12 Mas deixarei no meio de ti um povo humilde e pobre que buscará refúgio no nome do Senhor. 13 O remanescente de Israel não fará mal, nem falará mentira: lingua enganosa não se achará em sua boca. Porque serão apascentados, e se deitarão, e nJo haverá quem os espante. Agon o profeta introduz uma nova dimensão em sua mensagem.


408

SOFONIAS 3.9-13

Em sua antecipação das circunstâncias, além do juízo divino, ele nun­ ca sugere que os terrores do Dia de alguma maneira podem ser evita­ dos. Os fogos consumidores da ira do Síínhür devem cair. Na seção imediatamente anterior, Sofonias descrevera a assembleia final das nações naquele Dia. Por causa da obstinada resistência de sua própria nação a todo apelo para humilhar-se, eles também estariam entre os que seriam Julgados naquela terrível assembleia. Mas agora, falando da estrutura de uma presumida dispersão de seu próprio povo em juizo, o profeta retrata a formação de uma nova comunidade de povo santo. Este remanescente restaurado consiste não só de um grupo purgado e purificado de Israel (cf. 3.11-13). Os conver­ tidos das nações se reunirão a seu povo no culto e no serviço prestado ao Deus único e verdadeiro (3.9-10). Mas como pode o profeta falar de salvação de um remanescente dentre as nações gentílicas e Israel? Ele Já havia declarado que todo o universo seria subvertido numa escala comparável à destruição que ocorreu no dilúvio dos dias de Noé (1.2-3). O fogo da ira do Senhor consumiria toda a terra (1.18; 3.8). Se o Dia traria essa destruição cós­ mica, qual é o significado da referência a um novo começo para a hu­ manidade?' Negar a autenticidade dessas palavras do profeta com base nesta tensão é ignorar a estreita similaridade de ideias encontradas nesta mes­ ma seção quando comparada com as porções anteriores da profecia. Sofonias simplesmente não resolve explicitamente a tensão que se pode sentir entre os vários aspectos de sua mensagem. Ele viu uma destrui­ ção em Juízo além de qualquer proporção que o mundo Já experimen­ tou. Ele viu também uma conversão extraordinária entre as nações do mundo, bem como entre o povo disperso de Israel. Ele não explica como se coadunam o Juízo cósmico e a salvação de longo alcance, mas fielmente proclama ambos os elementos. Do vantajoso ponto da presente situação histórica Junto com a re1. Segundo J. M. P. Smith, p. 248: “Neste ponto, um editor, movido por sentimentos mais nobres e generosos para com as nações do que sâo refletidos pelas ameaças que seguem, inseriu uma seção expressando seu próprio sentimento”.


SOFONIAS 3.9

409

velação adicional que veio desde os dias de Sofonias, pode-se perceber alguma conciliação desses vários elementos. As nações da Filístia, Moabe, Amom, Cuxe e Assíria, todas têm experimentado as devasta­ ções descritas pelo profeta. Não se deve atribuir este fato simplesmente ao princípio de que as nações por fim cairiam, mas a uma providencial ordenação das circunstâncias em cumprimento da palavra profética. A cidade de Jerusalém também tem experimentado as extremas devasta­ ções prometidas por intemiédio do profeta, respectivamente em 586 a.C. e 70 d.C. Essas fabulosas destruições, por sua vez, vieram a ser a base para uma subsequente antecipação profética com respeito à devastação cós­ mica, particulannente ao entrelaçar a então futura destruição de Jeru­ salém com a conflagração cósmica final nos ensinos de Jesus (Mt 24.344). Ao mesmo tempo, um remanescente santo, tanto de judeus quanto de gentios, continua a ser congregado. Este desenvolvimento se coadu­ na de maneira bastante adequada com a mensagem da salvação apre­ sentada pelo profeta. 9. Quando o profeta se reporta ao Senhor, declarando: eu converte­ rei as nações, ele ressalta a necessidade do imediato envolvimento de Deus nessa atividade do momento. Ninguém, a não ser o Todo-Poderoso, poderia realizar esse tipo de tarefa numa escala tão maciça. O endu­ recimento do coração humano, a ponto de não poder achar arrependi­ mento, fora declarado como sendo a ocasião para a condenação cósmi­ ca. Qualquer mudança das nações deve ser claramente atribuída à gra­ ça soberana de Deus. O dom especial do Senhor a essas nações é <\\xq falarão com lábio puro. A forma singular do termo lábio {éãpã) nas Escrituras frequente­ mente significa “linguagem” (Gn 1l.l,6-7,9; SI 81.6 [Eng. 5]; Is 19.18; Ez 3.5-6). Mas a ideia de uma “linguagem purificada” fornece ima­ gens confusas. A tradução da frase, para que se leia “eles falarão he­ braico puro”, dificilmente pode ser justificada.2. Cf. a tradução da The Living Bible, que tem sido usada para explicar o reavi vamcnto do hebraico moderno na Palestina de hoje em cumprimento da profecia de Sofonias com respei­ to ao “lábio puro”. Esta versão traz: “Naquele tempo eu mudarei a língua de meu povo que voltará ao hebraico puro” (Sf 3.9).


410

SOFONIAS 3.9-10

A importância dessa frase é encontrada na frase seguinte: para que todos invoquem o nome do Senhor. Dentre todas as nações gentílicas, se levantará um povo que pronunciará com lábios puros as mais sacras palavras. Invocarão o nome do S e n h o r por salvação. Esta petição das nações implica um pronto reconhecimento do pecado juntamente com uma confissão de que só o S e n h o r é Deus e Salvador. Joel também liga a vinda do Dia do S e n h o r com a amplitude de “invocar o nome do S e n h o r ” por salvação (J1 3.5 [Eng. 2.32]). Esta profecia se toma a base para a interpretação apostólica dos eventos sobre o dia de Pentecoste seguindo a ressurreição de Cristo. Pelo der­ ramamento do Espírito Santo, a purificação do coração e lábio foi rea­ lizada para que conduzisse a uma ampla invocação do nome do Senhor (At 2.21). Eles 0 servirão não só com seus lábios, mas também com suas vi­ das. Numa figura muitíssimo impressiva, o profeta retrata esse serviço recíproco das nações gentílicas como com um só ombro. Curvando-se com determinação e com um só espírito, esses convertidos ao Senhor expressarão seu culto a ele assumindo a tarefa grosseira do servo mais humilde. Eles trabalham lado a lado com Issacar de Israel que “baixou os ombros à carga” (cf. Gn 49.15). Os gentios convertidos servirão (1^'ãh^dô) ao S e n h o r com alegria. 10. A graça soberana de Deus alcançará dalém dos rios de Cuxe em seu trabalho de converter as nações. Transpostos os afluentes mais se­ tentrionais do Nilo, profundo nos continentes da África, virão orações pela salvação dirigidas somente ao S e n h o r .^ Anteriormente, Isaías caracterizara Cuxe como “cuja terra os rios dividem” (Is 18.2,7), que enviava “embaixadores por mar em navios de papiro” (18.2). Ele também descreveu esses povos distantes como que trazendo oferendas ao Senhor Todo-Poderoso (18.7). Meus adoradores. Uma vez na história de Israel, Faraó fora que­ brantado a ponto de pedir a Moisés que “suplicasse” {'atar) ao Senhor em favor de sua terra exausta (Êx 8.4-5,24,26 [Eng. 8-9,28-30]; 9.28; 3. Cf. J. M. P. Smith, p. 249, que identifica os “rios” de Cuxe com os mais distantes afluen­ tes do Nilo.


SOFONIAS 3.10

411

10.17-18). Mas agora Sofonias sonha com o dia em que os povos dalém das fronteiras do Egito terão seus lábios purificados de modo que eles mesmos “invoquem” o nome do S e n h o r . O s adoradores do Se­ nhor C°tãray) incluem esses de outras nações. A fdha de meu povo disperso cria alguma dificuldade de interpre­ tação. “Dispersão” por si só pressupõe uma assembléia prévia. Embo­ ra as nações gentílicas fossem agrupadas em volta de Babel antes de sua dispersão, não é provável que esta relação de liberdade com o Se­ nhor houvesse inspirado Sofonias a falar dessas nações gentílicas dis­ persas como “meu povo disperso”. O código de leis deuteronômicas ameaçava com a dispersão (pus) se Israel não mantivesse um espírito de obediência perante o S e n h o r (Dt 4.27; 28.64; 30.3). Por meio dessa dispersão, a experiência históri­ ca de Israel, de servir como um tipo dos eleitos do S e n h o r , seria inter­ rompida. Ainda que não terminasse definitivamente a relação pactuai com eles, essa dispersão significava que Israel se tomaria, uma vez mais, como Abraão em Ur antes do chamado de Deus - um povo que só poderia ser salvo pela intervenção da eleição soberana do S e n h o r . Portanto, não surpreende encontrar Sofonias ligando um remanes­ cente disperso de israelita em sua restauração (“a filha de meu povo disperso” - v. 10) com gentios convertidos (“as nações... que... invo­ quem o nome do S e n h o r ” - v. 9).'* Pois o “Israel” original (Abraão) realmente a princípio foi diferente do restante dos gentios. Desta ma­ neira é bastante inteligível que o profeta preveja uma comunidade com­ binada dejudeus e gentios servindo como um só ombro e apresentando uma só oferenda} 4. A “filha” de meu povo disperso pode ser considerada como sendo o “rebento” do rema­ nescente disperso de Israel, ainda quando a “filha” de Jerusalém é equivalente á população de Jerusalém. 5. E interessante notar que os sacrifícios específicos que esses povos trazem (minhá) equi­ valem mais frequentemente a uma oferta dc cereais e geralmente não é usada nas Escrituras para descrever um sacrifício de e.xpiaçâo. Ambos os sacrifícios, de Caim e Abel, são designa­ dos de minhá (Gn 4.3-4). Em passagens lais como 1 Samuel 2.17,29; 26.19, o termo pode referir-se a sacrifícios de animais. Ma,s geralmente era uma oferta de cereal, uma dádiva para Deus: “Tendo Deus concedido perdão de pecados através das ofertas queimadas, o adorador respondia dando a Deus algum dos produtos de suas mãos em oferenda de cereal. Era um ato de dedicação e consagração a Deus como Salvador e Rei pactuai. E.xpressava não só agrade-


412

SOFONIAS 3.11-12

11. Agora 0 profeta volta à sua discussão da expectativa que aguar­ da a cidade de Jerusalém. Este fato é indicado pela retomada da forma singular feminina do verbo e o uso dos pronomes femininos. A frase introdutória. Naquele dia, poderia ser simplesmente entendi­ da como uma cláusula adverbial significando “então”. Mas o contexto mais amplo da profecia de Sofonias, bem como a referência ao Dia, na seção precedente, sugere que a frase se refere mais especificamente ao Dia do Senhor. Esse grande Dia incluiria a purificação do pecado do remanescente de Israel, bem como a destruição do perverso. A cidade não se envergonhará, mas não porque seus habitantes não tenham culpa. Esta cidade que está agora isenta de toda vergonha é a mesma cidade que anteriormente fora censurada por não ter vergonha alguma (3.5; c f 2.1 ). Quão grande será aquele dia quando toda vergonha será removida da comunidade do povo de Deus. Não apenas a culpa será eliminada; todos os mutiladores efeitos psicológicos do pecado serão apagados. Cada pessoa atingirá seu potencial pleno no serviço prestado a Deus, porque uma consciência culposa não o fará incapaz de operar livre­ mente no serviço de Deus. Até no último dia, o grande dia do juízo, toda a comunidade do povo de Deus estará livre do opróbrio (cf. Rm 9.33; lPe2.6). A comunidade pode ser descrita como não tendo vergonha porque Deus a purificou de todos os que eram orgulhosos empedernidos. Ele removerá todos aqueles que exultam orgulhosamente. A cidade na qual 0 Senhor habita não será arruinada por indivíduos caracterizados pela arrogante auto-exaltação. No seu santo monte, eles nunca se exaltarão novamente. 12. O profeta viu o pecado do orgulho como sendo a causa princi­ pal da destruição inevitável de Judá. Dessa maneira a humildade ge­ nuína perante Deus tinha de ser a característica principal do remanes­ cente que era conduzido por meio deste juízo purificador. Esse remanescente é chamado humilde e pobre.^ Particularmente, cimento, mas obediência e uma disposição em guardar a lei” (G W. Wenham, The Book o f Leviticus, NICOT [Grand Rapids: Eerdmans, 1979], p. 7 1). 6. Conquanto várias tentativas tenham sido feitas para distinguir entre os significados bási-


SOFONIAS 3.12-13

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à luz da forte ênfase sobre a remoção da culpa e a extinção do orgulho no versículo precedente, essas designações deveriam ser entendidas primei­ ramente como descrevendo um atributo moral em vez de status social. Esse remanescente, em humilde aceitação da admoestação prévia, não se considera melhor que um monte de restolho pronto para ser consumi­ do pelo fogo da ira de Deus (2.2). Eles só encontram libertação porque buscam refúgio no nome do Senhor. Eles estão plenamente cônscios de que correm riscos de morte e buscam refúgio naquele que é seu Juiz. 13. Agora o profeta descreve as consequências, em vez das causas, de um remanescente ser preservado para o Senhor. Eles não farão mal (lõ’-ya'‘‘sâ 'awlã). Esta frase é paralela à descrição anterior do Senhor se abstendo de todo mal (lõ’ ya'“éeh 'awlã - 3.5). O caráter moral do remanescente se confonna à natureza do Senhor que os libertou. Re­ criados em verdadeira justiça e santidade, esse remanescente preserva­ do reflete a imagem de Deus em seus padrões de comportamento (cf. Cl 3.10; Ef4.24). O fato de que não falarão mentira é enfatizado pela frase adicio­ nal: lingua enganosa não se achará em sua boca. Os lábios purifica­ dos do remanescente não serão governados pelos impulsos de um co­ ração que mente. Embora descendentes de Jacó, o enganador, fmalmente têm toda a fraude removida. Nas últimas frases desta seção, o profeta emprega uma cena pasto­ ral comum para representar a bênção que sobrevirá ao remanescente do povo de Deus. Abandonando a imagem de “cidade” que tem permeado o capítulo, ele agora fala em termos de um rebanho adequadamente alimentado e protegido: Porque serão apascentados e se deitarão. O material desta sentença não parece, a princípio, conectar-se com o pen­ samento que o precede. Certamente não se deve supor que o remanes­ cente do Senhor seria motivado por um materialismo rasteiro de refrearse dos feitos maus e enganosos. Mais provavelmente, a situação idílica visualizada descreve a che­ cos transmitidos por 'ãni, '°nSwã, e 'Snõw, nenhum caso convincente foi apresentado. Cada um desses termos se deriva da mesma raiz, e todos ptxiem significar “humilde”, “manso” ou “pobre”. O contexto deve ser usado para decidir entre essas opções. Cf. Rudolph, p. 297; Keil, p. 159.


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SOFONIAS 3.13

gada da teocracia. O núcleo pactuai de “Eu serei o vosso Deus e vós sereis o meu povo” se toma uma realidade consumada na vida do rema­ nescente restaurado. Eles serão o seu povo, fazendo a sua vontade; e ele será o seu Deus, apascentando-os no paraíso restaurado. O conceito de povo de Deus como um rebanho “alimentando-se” em abundância e “repousando” em segurança é associado à monarquia em Israel. O rei deve “alimentar” ou “apascentar” o povo (cf. 2Sm 5.2; 7.7; SI 78.71). Com o colapso iminente da monarquia, emerge uma ênfase renovada, apontando para o próprio Deus como aquele que apas­ centa seu próprio rebanho (Gn 48.15; 49.24; SI 23.1; 80.2 [Eng. 1]; Is 40.11; Ez 34.2-23). As consequências dessa relação íntima são claras a Sofonias. O povo sob os cuidados do Senhor se alimentará sobejamente e repousará em segurança. Essa cena idílica é intensificada pela expressão ninguém o atemo­ rizará (w ^’ên mah^ríd). Tanto Jeremias quanto Ezequiel empregam esta mesma frase para descrever a situação de Israel depois do regresso do exílio (Jr 30.10; 46.27; Ez 34.28; 39.26). Essas imagens também descrevem o paraíso restaurado onde todos viverão seguros debaixo de sua vinha e suas próprias figueiras, onde “não haverá quem os atemo­ rize” (Mq 4.4; c f IRs 4.25). Esta figura de restauração foi originada nas promessas associadas à aliança. Foi dito ao povo que ele comeria de tudo o que desejasse, que viveria seguro na terra, que dormiria em segurança e que “não haverá quem vos espante” {w^’ên mah°rid - Lv 26.5-6). De modo contrário, as maldições pactuais são expressas em termos de aves dos céus e animais da terra alimentando-se das carca­ ças dos condenados, enquanto os justos desfrutam das bênçãos do pa­ raíso, pois “ninguém haverá que os espante” (w ^’ên rnah°rid - Dt 28.26; Jr 7.33; c f Gn 15.11). Portanto, o profeta descreve o Dia em que por fim o S e n h o r purifi­ cará “seu remanescente”. Esta intervenção divina significará salvação para os povos gentílicos, bem como a restauração de seu próprio povo. Um povo perdoado, submisso e purificado desfrutará das bênçãos per­ feitas do paraíso restaurado. Todo esse complexo de idéias encontra seu cumprimento nas rea­ lidades da nova aliança. O antigo povo do Israel de Deus congrega a si


SOFONIAS 3.13-20

415

convertidos de lugares remotos da terra. Eles invocam o nome do S e­ n h o r com lábios purificados pelo Santo Espírito, servindo-o com um só ombro. Esta comunidade da Nova Aliança, herdeira de todas as bên­ çãos prefiguradas na antiga, tem removida de si toda a vergonha e a soberba. Eles manifestam o caráter moral sensível de um povo que não fará nenhum mal, que não mentirá. Eles vivem em segurança e nin­ guém os atemorizará. Os registros da Nova Aliança comprovam o cumprimento de todas essas promessas, enquanto que, ao mesmo tempo, apontam para uma consumação final no futuro. Somente então, naquele Dia, se alcançará uma restauração completa em sua extensão plena e final. C. DEUS ENTÃO SE REGOZIJARA COM SEU POVO (3.14-20)

14 a Canta, b ó filha de Sião; a grita, b ó Israel: a regozija-te e sê jubilosa de todo o coração, b ó filha de Jerusalém.

\5 a O Senhor removeu b teus castigos, a ele fez retroceder b teu inimigo. O Rei de Israel, O Senhor, (está) no meio de ti; nunca mais temerás o mal. 16 Naquele dia, a se dirá a Jerusalém: b Não temas, a ó Sião, b não se afrouxem tuas mãos. 17 O Senhor teu Deus (está) no meio de ti, a herói poderoso que salva.


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SOFONIAS 3.14-20

a Ele se deleitará b em ti c com júbilo; a ele estará tranquilo b (em ti) c em seu amor; a ele se regozijará b em ti c com cântico. 18 Os que estão entristecidos por causa das' festas designadas, eu os congregarei: eles se originaram de ti. Os opróbrios foram um peso sobre ela. 19 Naquele tempo tratarei de todos os teus opressores, a Salvarei b os coxos, b e os banidos a congregarei. E lhes darei honra e fama em toda a terra de sua ignominia. 20 Naquele tempo eu vos farei voltar; (naquele) tempo vos congregarei. Porque vos darei fama e honra enh'e todos os povos da terra, quando eu fizer voltar vossos cativos diante de vossos olhos, diz o Senhor. I . O min de mimmô'êd é causai em significado. Cf. BDB, p. 580 (2.e. f); Keü. P- 162.


SOFONIAS 3.14-20

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Uma das mais terríveis descrições da ira de Deus em juízo, encontra­ da na Escritura, aparece nos versículos de abertura de Sofonias. A totali­ dade do cosmos será exterminada em sua ira abrasadora. A própria or­ dem da criação será subvertida. Uma das mais incríveis descrições do amor de Deus por seu povo, encontrada em toda a Escritura, aparece nos versículos de encerramen­ to de Sofonias. Deus e seu povo alcançam os píncaros do êxtase de amor que são difíceis de se compreender. Contrário à tendência geral dos críticos escolásticos modernos, faz diferença se essas palavras vieram do profeta Sofonias como parte de uma mensagem enunciada a seus contemporâneos antes do exílio ha­ ver ocorrido.^ Estas palavras de esperança foram dirigidas a um povo que se encontrava naquele momento seguro em termos de circunstân­ cias externas, e nào se aplicam somente aos abatidos e devastados. A autenticidade desses versículos é questionada mais frequente­ mente do que qualquer outra porção do livro. Entretanto, sua elimina­ ção não pode ser baseada em evidência manuscrita objetiva. Só juízos predeterminados concernentes ao que seria psicologicamente possível a um profeta pré-exílico dizer ou pensar podem eliminar esta seção.^ 2. Um estranho subproduto da crítica moderna canônica pode ser visto na atitude essenci­ almente agnóstica de B. S. Childs para com as questões relativas à datação do material de Sofonias. Em razão da sobreposição da perspectiva escatológica deste material. Childs julga que “as diferenças temporais transcenderam”. O processo canônico “tem desconsiderado as diferenças históricas e organizado o material teologicamente” (Childs. Introduction, p. 460). De fato este desrespeito é peculiar pela significação da história na teologia do AT. A teologia bíblica moderna se gaba de haver descoberto no AT uma teologia integralmente amarrada à história, em contraste com os padrões cíclicos do baalismo. Mas, se a genuinídade das inten­ ções do S enhor na história repousa sobre o cumprimento histórico da palavra do profeta, então é claro que importa se o profeta falou antes ou depois do evento sobre o qual foi profetizado. 3. Kapeirud. Message o f the Prophet Zephaniah, p. 37, rejeita a ideia de que a mensagem do profeta possa servir como base para cancelar porções do texto: “palavras de promessa e esperança são também encontradas, e não temos o direito de apagá-las do texto por causa de seu conteúdo”. Ele faz objeção às notas textuais de BHS de que a inteireza destes versículos podem ser consideradas como adições ao texto, expressando seu juizo de que “opiniões sobre esta questão não deveríam ser encontradas no dispositivo do texto [s/c]” (p. 40). Driver, p. 108, diz que o juízo sobre alguns versículos representarem “idéias posteriores” é difícil de provar, e pergunta por que Sofonias 3.14-20 não pode ser visto como descritivo de bên­ çãos para um Israel justificado, e portanto é compatível com o capitulo I . Ele considera os


418

SOFONIAS 3.14

De uma perspectiva alternativa, muitos elementos nesses versícu­ los ecoam as seções anteriores da profecia. A remoção das sentenças (v. 15) não é muito diferente da remoção da vergonha e da rebelião (v. 11). Particularmente, a ideia do fim da vergonha se encontra na seção contígua (v. 11; c f v. 19c). O regresso do cativeiro de Israel (v. 20) faz paralelo com a frase virtualmente idêntica encontrada previamente (2.7). A referência a Israel recebendo “louvor” e “um nome” em toda a terra (v. 19-20) se deriva de um conceito desenvolvido nas leis deuteronômicas em conformidade com as muitas outras relações com o livro de Deuteronômio encontradas em todo o livro de Sofonias. Não existe razão suficiente para eliminar esses versículos da profe­ cia. Eles, portanto, devem ser considerados como porções genuínas do material do profeta. 14.0 profeta abre essa mensagem final com uma grande convoca­ ção ao povo para que se alegre. O “Ai” profético fora pronunciado sobre a cidade de Jerusalém. Da mesma maneira que as nações estran­ geiras, essa comunidade rebelde deverá ser destruída. Tristeza e depressão pareceriam imperar na ocasião. Lamentação sem fim seria de esperar. Mas o profeta pode olhar para além dessas tragédias. Ele lança um apelo a que se faça uma celebração de alegria irrestrita. Canta! Grita! Regozija-te e sê jubilosa! Pelo acúmulo de toda a sorte de expressão de alegria, o profeta salta do vale da escuridão para o reino da graça para além da devasta­ ção. Em sua confiança sobre esta glória futura, ele convoca o povo a entoar agora este cântico de celebração. O profeta não prevê simplesmente um dia quando o povo que foi abençoado pela restauração se regozijará. Ele não fica satisfeito mera­ mente em anunciar a seus contemporâneos uma alegria que pertence às argumentos geralmente oferecidos para limitar o texto de Sofonias como “algumas vezes arbitrários, e em outros casos insuficientes” (p. 108).


SOFONIAS 3.14-15

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gerações futuras. Ele exorta a seus próprios contemporâneos. Regozi­ ja-te! Sê Jubiloso! A despeito de a vinda do Dia do S e n h o r ser inevitá­ vel, eles devem regozijar-se! Não com espíritos vacilantes e desfalecidos, mas devem regozijarse de todo o coração. Lança fora toda tímida reserva. Baixa tua guarda com respeito a desapontamentos futuros. Grita hem alto! Canta! Sê jubiloso! O termo empregado para gritar (hãri'ü) é frequentemente associado ao toque das trombetas a rebate. Quando Israel entrava em batalha, o toque da trombeta era para ser acompanhado por um “grito” (Nm 10.9). Em diversas ocasiões se registra o “grito” de Israel no início da batalha (Jsó.lO; ISm 17.20; 2Cr 13.12,15). Até mesmo o Senhor “grita” vito­ riosamente sobre seu adversário filisteu (SI 108.10 [Eng. 9]). Certa vez “a virgem, filha de Sião” zombara das forças invencíveis da máquina de guerra assíria acampada fora de seus portões. A “filha de Jerusalém” meneara a cabeça com desprezo enquanto previa pela visão da fé a fuga do adversário (Is 37.22). Agora o profeta desperta a fé da fdha de Sião uma vez mais para anunciar uma vitória que obvia­ mente estava muito além de sua capacidade. No contexto do Dia imi­ nente, o próprio Senhor seria o inimigo de Israel. Mas, passado aquele Dia, ele se voltaria contra seus inimigos a fim de propiciar uma liberta­ ção gloriosa. 15. O profeta assevera que o Senhor removeu suas punições. O imutável amor de Deus para com seu povo não pode repousar alheio a uma redenção completa, a despeito da necessidade da punição pelos pecados. O inimigo de Judá também retrocedeu. O Senhor prometeu a Abraão que ele iria possuir o portão de seus inimigos (Gn 22.17). Judá, parti­ cularmente entre as tribos de Israel, teria sua mão sobre a cerviz de seus inimigos (Gn 49.8). O livro de Deuteronômio incluira entre as bênçãos pactuais a fuga de seus inimigos (Dt 28.7). Agora, com a ex­ tensão implícita num inimigo descrito com “generalidade indefinida”, o profeta assevera que todos os inimigos de Judá retrocederíam.'' 4. Keil.p. 160.


420

SOFONIAS 3.15

A garantia do profeta com respeito a essas bênçãos se baseia no fato de que o Rei de Israel, o Senhor, está no meio de ti. O conceito de S f n h o r como Rei no meio de seu povo é pelo menos tão antigo quanto a congregação no Sinai. O S e n h o r veio com milhares de seus santos, entregou sua lei divina e se manifestou como “rei sobre Jesurun” (Dt 33.2-5). Balaão nada mais podia ver senão a bênção guardada para Israel, porque “o S e n h o r seu Deus está com ele, o brado do Rei está entre eles” (Nm 23.21). Essa realeza de Deus entre seu povo eventualmente se expressou historicamente pelo estabelecimento da monarquia davídica. Por meio da linhagem de Davi, Deus se manifestou como Senhor em Israel. Embora tensões envolvessem o estabelecimento de uma monarquia terrena para reinar em nome do S e n h o r , o transporte da arca para Jeru­ salém, pelo rei Davi, simbolizava a fusão da realeza do S e n h o r com o trono davídico. Fora deste contexto, os profetas do século 8®projeta­ ram o restabelecimento do trono de Davi além das ruínas do atual Es­ tado de Israel (cf Os 3.5; Is 9.5-6 [Eng. 6-7]; 11.1-5; Am 9.11-12; Mq 5.2). Particulamiente próximo da convocação de Sofonias ao Júbilo sobre o reinado de Deus no meio de Israel está a convocação seme­ lhante do profeta pós-exílico, Zacarias. Este profeta conclama a “filha de Sião” a rejubilar-se intensamente, porque seu rei vem para ela (Zc 9.9-10; c f Mt 21.4-5). Nesse contexto, a ausência de qualquer referência a uma ação da linhagem de Davi nas visões de Sofonias é bastante notável. Ele vê o próprio S e n h o r como Rei no meio de Israel, porém não faz qualquer menção explícita de um filho de Davi assentando-se no trono do S e ­ n h o r . Anteriormente, esse profeta pronunciara juízo específicamente sobre os “filhos dos reis” (1.8). Eventualmente, três dos filhos de Josias, por sua vez, ocuparam o trono, e cada um terminou seu reinado sob um trágico juízo do Senhor. O último dos monarcas de Judá foi Zedequias, filho de Josias. Seria o caso de Sofonias simplesmente não con­ seguir ver além da total devastação da monarquia em Israel? Seria o caso que ele estivesse olhando para trás, para o tempo de Samuel, quando o S e n h o r mantinha seu senhorio sobre Israel sem uma figura interme­ diária de um rei davídico (cf ISm 12.12)?


SOFONIAS 3.15

421

O profeta evidentemente não considerava a aliança de Deus com Davi como defmitivamente cancelada. Pois é a Sião e a Jerusalém que ele reanima com sua conclamação ao júbilo irrestrito. A manutenção da cidade davídica era tão central para a aliança de Deus com Davi quanto era a continuação de sua linhagem real. Contudo, Sofonias enfatiza a continuação da cidade, enquanto deixa a monarquia sem menção. Uma via de acesso para a resolução deste problema relativo à apa­ rente falta de messianismo em Sofonias pode ser encontrada na afirma­ ção subsequente de que o S e n h o r estaria no meio de seu povo como herói poderoso que salva (gihbôr yôsia', v. 17). Este título descritivo ecoa muito de perto o anúncio de Isaías com respeito à vinda do filho de Davi que seria designado, entre seus títulos gloriosos, “Deus forte” {’êl gibbôr - Is 9.5 [Eng. 6]). A figura emergente de um filho nascido de uma virgem para a casa de Davi, chamado “Deus conosco” ou “Ema­ nuel” (7.14), que é Pai da Eternidade (9.5 [Eng. 6]), dá expressão à única realidade pela qual todas as necessidades humanas e promessas de Deus podem ser sincronizadas. Somente um Deus-homem que go­ verna em cumprimento das promessas aos pais pode ser o Rei de Isra­ el, governando sobre Sião em cumprimento das promessas feitas a Davi. E possível que Sofonias não tenha coordenado todos esses vários fragmentos de esperanças proféticas no contexto da história de Israel como povo de Deus. Talvez uma compreensão total de todas as impli­ cações de sua mensagem tivesse que aguardar a vinda do filho de Davi nascido da virgem, “com respeito a seu Filho, o qual, segundo a carne, veio da descendência de Davi, e foi designado Filho de Deus com po­ der, segundo o espírito de santidade, pela ressurreição dos mortos, a saber, Jesus Cristo, nosso Senhor” (Rm 1.4). E interessante notar que as palavras usadas para aclamar a Jesus rei em sua entrada triunfal, conforme o Evangelho de João, declarava: “não temas, ó filha de Sião” (Jo 12.15). A expressão, “não temas”, não se encontra na seção de Zacarias 9, de onde o restante da citação foi tirado. Mas esta frase se encontra duas vezes nestes versículos de Sofonías, os quais formam paralelo bem estreito com as palavras de Zacarias (cf Zc 3.15-16). E possível que o Quarto Evangelho tenha empregado a metodologia de citação comum de combinação das fon­


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SOFONIAS 3.15-16

tes do AT. A inclusão das palavras de Sofonias na saudação a Jesus por ocasião de sua entrada triunfal seria particularmente notável visto que essa frase identifica o rei de Israel tão especificamente com o próprio S e n h o r . João indica que somente depois da glorificação de Jesus é que seus discípulos entenderam que essas coisas haviam sido escritas so­ bre ele (Jo 12.16). Quando Jesus foi finalmente conhecido como o Se­ nhor, equivalente ao próprio Deus, então seus discípulos entenderam o significado dessas palavras. As consequências do S E N tiO R estabelecer seu governo em Jerusa­ lém, segundo Sofonias, são expressas primeiramente pela simples frase: nunca mais temerás o mal. Quando todos os inimigos de Israel forem postos sob controle absoluto, e o Senhor houver estabelecido residên­ cia permanente como Rei em seu meio, então eles não terão razão para temer qualquer tipo de mal outra vez. Nenhuma doença ou rebelião de dentro os ameaçará. Invasão de fora será impossível. Que gloriosa razão para regozijo! Canta, grita e sê jubilosa! Deus, teu Rei, subjugará todos os seus inimigos. Nunca mais temas que al­ gum mal te perturbe outra vez a paz mental. 16. A frase, naquele dia, se liga adverbialmente com a seção que a precede. Quando Deus houver removido de Israel todos os castigos e for estabelecido como Rei em seu meio, então se dirá a Jerusalém: não temas. Ausência total de medo e ansiedade será o estado jubiloso do povo reconstituído por e para Deus. O medo inevitavelmente paralisa. Às mãos que pendem frouxas, descritas nas Escrituras, o desespero em meio a circunstâncias que in­ capacitam uma pessoa de trabalhar (2Cr 15.7; Is 13.7; Ne 6.9; Ez7.17). Mas o Senhor exorta seu povo a agir. Ele os livra de todos os inimigos, não para que se entreguem aos prazeres, mas, “ao contrário, para que se devotem, cheios de energia, à realização de seus deveres”.’ Este padrão de disciplina divina que instiga à atividade em vez de quebrantar o espírito encontra seu caminho também no esquema da Nova Aliança. Aqueles que têm o privilégio de serem confirmados no amor de Deus por sua graciosa disciplina são admoestados: “Por isso. 5. Calvino, p. 303.


SOFONIAS 3.17

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restabelecei as mãos descaídas e os joelhos trôpegos; e fazei caminhos retos para os pés, para que não se extravie o que é manco; antes, seja curado” (Hb 12.12-13). 17. Agora o profeta se move rumo ao “Santo dos santos” por meio de uma descrição arrebatadora do amor de Deus por seu povo. Este versículo é o João 3.16 do AT. O amor de Deus por seu próprio povo não é uma emoção sentimen­ tal inconsistente, que não tem força para agir em prol do objeto de seu amor. Pois esse Deus que ama é Yahweh. Ele é Deus. Ele é um herói poderoso que salva. O termo herói poderoso (gihbôr) frequentemente se refere a um guerreiro que domina seus inimigos. O Senhor sai como um “guerreiro” que marcha contra seus adversários (Is 42.13). Como Deus dos deuses. Senhor dos senhores, o poderoso Deus, o “herói”, ele defende o órfão, a viúva e o estrangeiro (Dt 10.17). Este herói poderoso está no meio de seu próprio povo com poder para salvar. Muitas calamidades podem sobrevir a Israel por causa de seus pecados contra o Senhor. Mas, no final, ele haverá de mostrar seu poder para salvá-los de todos os inimigos. Seu amor age concretamen­ te para libertar seu povo. A porção seguinte desse versículo pode ser chamada um “poema de amor pessoal”. Três linhas paralelas, cada uma contendo três frases, expressam a mais profunda alegria interior e satisfação do próprio Deus em seu amor por seu povo. Deleite, alegria, regozijo e cânticos da par­ te de Deus sublinham a reciprocidade da experiência emocional senti­ da por Deus e os redimidos. Que 0 Senhor Todo-Poderoso derive deleite de sua própria criação é por si só significativo. Mas que o Santo experimente êxtase no peca­ dor é incompreensível. Deus prorrompendo em cânticos! Deus jubiloso em deleite! Tudo por vossa causa. A reciprocidade da resposta amorosa do Redentor e redimidos é vista no fato de que alguns termos usados na admoestação dirigida a


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SOFONIAS 3.17

seu povo agora descrevem a resposta do próprio Deus a seu povo (cf. v. 14 e 17). Sião é exortada a cantar (rãnni); ele se rejubila com cânticos (rinnâ). Jerusalém deve exultar (simhi); ele se deleitará em Jerusa­ lém com alegria {áimhã). A cena toda descreve uma grande congrega­ ção enquanto Deus e seu povo mutuamente se regozijam em seu amor recíproco. A linha média da tríade poética propicia alguma dificuldade de in­ terpretação. Várias visões opcionais têm se oferecido.* A mais direta, porém, é a mais provável: ele estará tranquilo (contigo) em seu amor. A única dificuldade essencial com esta tradução está na vivacidade da fraseologia. Considerar o Deus Todo-Poderoso imerso em contempla­ ção amorosa, por um ser humano recém-ignóbil, dificilmente pode ser aceito pela mente humana. Mas esta visão é apoiada pelo uso regular da palavra empregada (hãraS no Hiphil), bem como da estrutura poética do versículo. O verbo hebraico, hãraà, “aquietar-se”, é intransitivo em signifi­ cado, com a possível exceção de Jó 11.3. Ele descreve a condição in­ terna do sujeito do verbo em vez de descrever uma quietude que é comunicada por outro. Aqui, Deus é o sujeito do verbo, e lemos que ele está tranquilo em .seu amor. O paralelismo do versículo também sugere este sentido intransiti­ vo. A primeira e a última linha da estrofe contêm o membro mediano em ti (ãlayit). Visto ser bastante comum no paralelismo hebraico omitir uma frase correspondente, em uma linha que aparece em outra linha, este mesmo em ti pode ser considerado como pertencente também à linha média da estrofe. 6. A LXX traz kai kainiei se, “e ele vos renovará” (aparentemente refletindo o hebraico y^haddês). Cf. Driver, p. 139. Mas T. H. Gaster, “Two Textual Emendations: Num. 24.8; Zeph. 3. 17", E.xpTim 78 ( 1967), p. 267, sente que esta emenda corrompe o argumento, que constitui um contraste entre o “silêncio” descrito nesta frase com o “cântico” na seguinte. A. Cohen. The Twelve Prophets, Soncino (Bournemouth. Hants.: Soncino, 1948), p. 251, observa que Rashi e outros comentaristas judeus interpretam a frase como significando que Deus, em seu amor, cobrirá os pecados de seu povo cm silêncio. Mas o termo hGraS nâo é usado para cobrir pecados. A observação feita por Keil, p. 161, é preferível: “Silêncio neste amor é uma expressão usada para denotar amor profundamente sentido, que é absorvido no objeto de seu amor com atenção e admiração”.


SOFONIAS 3.17

425

O Deus Todo-Poderoso tranquilo em seu amor. Deus, o poderoso Salvador, contemplando calmamente, feliz em seu amor por ti. Se a forma de expressão do profeta parecer excessiva, deve-se ter em mente que Deus, em sua própria essência, é amor (cf. IJo 4.8). Como a fonte direta de todo o amor verdadeiro, ele não só é capaz de alcançar toda a profundidade do amor salutar experimentado por sua criação. Ele, por sua própria natureza, pode exceder a toda emoção humana de amor verdadeiro. Se um ser humano, com todas as limita­ ções de sua natureza, pode deleitar-se na pureza do amor essencial em momentos breves e fugazes, então certamente que o próprio Todo-Pode­ roso pode atingir ainda maiores profundezas de amor e manter essas profundezas sem restrição de tempo. Então essas considerações removeriam toda e qualquer hesitação sobre a percepção do profeta em afirmar que Deus imerge em serena contemplação em seu amor pelos pecadores. Isto é tudo que na afirma­ ção do versículo pode ser discernido. A dificuldade real reside em assimilar pessoalmente a declaração repetida do profeta com respeito ao objeto do amor todo-absorvente de Deus. Em ti ele se deleitará; em ti ele se regozijará com cânticos; em ti ele se aquietará em seu amor. Como é possível que o Soberano Criador concentre todo o seu ser no amor por uma criatura temporal e do pó? Como poderia o Santo se satisfazer com alegria na contemplação amo­ rosa do profano? Pode-se conseguir um estágio da apreciação dessa afirmação profé­ tica pela aceitação abstrata de que esta proposição é verdadeira. Deus pode e se deixa absorver em seu amor por seres humanos. Mas a men­ sagem plena do profeta demanda personalização. Ele se regozijará em ti. Em sua contemplação sobre ti ele imergirá em quietude. Este “ti” do profeta obviamente contém a limitação da definição contextual. É o “ti” que se denomina “Jerusalém”, “Sião”, “ Israel” (v. 14-16). Ninguém, a não ser os eleitos de Deus, são os objetos desse amor todo-consumidor. Ele os ama porque os ama (Dt 7.6-8). A razão do amor de Deus por eles não reside neles mesmos, nem em algo que porventura exista neles. E na natureza do próprio Deus que se pode descobrir a única explicação para tal amor.


426

SOFONIAS 3.17

Mas não é só o objeto desse amor que tem a limitação da definição pelo contexto. Ele tem também a franqueza desse convite. Alcançando a amplitude que se estende “dalém dos rios de Cuxe”, este incompre­ ensível amor de Deus abraça a todos os “seus suplicantes” (v. 10). Não importa quem sejam, qual seja sua origem étnica ou moral, onde quer que sejam localizados, este mesmo amor imutável de Deus alcança todos os que “invoquem o nome do S enhor” (v. 9). Esta extensão global do amor de Deus não é meramente uma possi­ bilidade hipotética. E uma realidade temporal e histórica. De todas as nações, um povo com lábios puros invoca o nome do Senhor (v. 9). Todo e qualquer indivíduo que pronuncia essa invocação humilde por si só conhece esse “amor de Cristo, que excede todo entendimento” (Ef 3.19). Então o profeta descreve o amor de Deus que excede todas as imaginações humanas. “Recorde o silêncio de Jesus, e exponha esse texto olhando para ele”, disse C. H. Spurgeon.’ Embora o ponto do grande pregador esteja relacionado mais diretamente com o brilho pelo prisma homilético do que da ciência exegética precisa em expor a intenção do profeta, não se pode descartá-lo como tendo relevância para o versículo em mãos. Pois o silêncio de Jesus ante o tribunal e a crucificação não se radicava em nenhum outro solo senão nas férteis profundezas do amor de Deus pelo pecador. “Como ovelha muda perante seus tosquiadores, ele não abriu a boca” (Is 53.7). O silêncio de Jesus lhe propiciou a chance de contemplar os objetos específicos de seu amor sacrificial. Ele se delei­ tou em fazer a vontade de Deus quando apresentou seu “corpo” que fora preparado para o sacrifício (SI 40.7-9 [Eng. 6,8]; c f Hb 10.5-7). Seu amor pelos pecadores não era inferior ao amor do Pai. Na tentativa de compreender as profundezas desse amor, alguém pode comparar a versão veterotestamentária de João 3.16 com uma criança na praia. Cavando uma trincheira de areia para a ilimitada vas­ tidão do oceano, a criança estende seu braço a fim de ajuntar as pro­ fundezas do oceano dentro de sua rasa poça. Como o poeta expressou; 7. C. tl. Spurgeon, A Ttvasiire o f the Bible. Old Testament, vol. IV (Londres: Marshall, Morgan and Scott, 1962), p. 737.


SOFONIAS 3.17-18

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O amor de Deus é muito maior Que língua ou pena possa descrever; Ele vai além da mais alta estrela E alcança o mais baixo inferno.* Essa quietude amorosa e contemplativa é complementada pelo re­ gozijo com cânticos que também caracteriza o amor de Deus por seu povo. Deus se regozijará em ti com cântico. Uma vez mais, a linguagem de Sofonias reflete mais especificamente a forma de expressão encontrada em Deuteronômio. Moisés declara a Israel: “assim como o S e n h o r se alegrava em vós outros ( s õ á 'Hêkem), em fazer-vos bem e multiplicar-vos, da mesma sorte o S e n h o r se ale­ grará em vós (yãáié 'Hêkem.) fazer perecer e destruir” (Dt 28.63). Mas a nação poderia encontrar conforto no fato de que por fim o S e n h o r tomará a “exultar em ti, para te fazer bem” (lãéüs 'ãleykã 30.9). Sofonias vê o cumprimento dessa antiga promessa na manifestação futura do amor de Deus por seu povo.’ 18. Nesta seção final, o profeta volta ao discurso na primeira pes­ soa. A voz de Deus fala diretamente a seu povo. As palavras de abertura são particularmente difíceis.'® Mas a men­ sagem principal parece clara. Sofonias antecipa o dia quando se remo­ verão as tristezas associadas aos juízos de Deus sobre seu povo. Os que estão entristecidos se refere ao remanescente cujo coração está posto no culto ao Senhor. Por meio da destmição da cidade santa e deportação de sua população, eles são privados do principal tesouro de sua vida. Foi vedado o acesso ao lugar apropriado de culto. Semelhante em conceito à profecia de Sofonias é o quadro das vir8. F. M. Lehman, como citado em Making Melody (St. Louis: Bible Memory Association. 1954), n» 237. 9. Outras passagens que falam vivamente do regozijo de Deus no amor por seu povo incluem isaias 62.4-5; Jeremias 32.40-41; cf. Lucas 15.7,10. Cada uma dessas passagens merece extensa contemplação. 10. "As dificuldades apresentadas pela frase, como se apresenta, são insuperáveis”, diz J. M. P. Smith, p. 258. “Toda a cláusula do versículo 18 é dificil”, diz Keil, p. 162. Rudolph, p. 298, conclui que o versículo emanou de um problema pós-exílico, no qual a diáspora anseia por adorar em Jerusalém.


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SOFONIAS 3.18

gens de Jerusalém que “estão tristes” (nügôt) enquanto as ruas da ci­ dade estão “de luto” porque ninguém vem às suas festas determinadas ou “reunião solene” (Lm 1.4, NIV)." O luto por cansa das festas de­ signadas, previsto por Sofonias, encontra cumprimento concreto no exílio da nação, como indicado especificamente em Lamentações. To­ das essas celebrações importantes que marcavam a vida do israelita devoto lhe foram negadas por causa da devastação de Jerusalém. A celebração da “passagem” do anjo da morte só podia fomentar um pranto ainda mais amargo entre o povo destituído de sua terra. A consagração das primícias da colheita só podia lembrar-lhes que não mais possuíam a terra outrora povoada. Em vez de enviar o bode expiatório ao deser­ to, eles mesmos foram expulsos da terra da promessa. Nem todos em Israel lamentariam a perda desses solenes dias de festa. Até mesmo nos dias de Jeremias, os cativos no Egito descobri­ ram que o culto à rainha dos céus lhes era mais vital do que celebrar as festas do Senhor (Jr 7.18). Mas aqueles cujo coração chorava por “canções de Sião” tinham uma grande promessa a que pudessem se apegar. Eu congregarei aque­ les que estão entristecidos por causa das festas designadas, declara o Senhor. Ele reverteria os processos de dispersão, ele reuniria aqueles que foram dispersos. O profeta primeiro afirma que Deus reunirá aqueles que estão de luto por causa das festas celebradas em Jerusalém. Então ele se dirige à própria cidade real; eles se originaram de ti (mirnmêk hãyü). O ti desta frase é Jenisalém. Os pranteadores foram dispersos “dela”.'^ 11. O verbo para “os que estào entristecidos’" (nügê) ocorre somente oito vezes no AT, cinco das quais estão no livro de Lamentações (Lm 1.4-5,12; 3.32-33). Em cada caso, o Senhor inflige angústia sobre seu povo. 12. Um dos problemas recorrentes na interpretação de Sofonias emana das mudanças abrup­ tas no orador e sujeito (cf. 1.2,7; 2.5,8-12; 3.5-6,9,12). Um processo defeituoso de redação poderia propor-se como uma explicação do problema. Mas as alterações são tão óbvias que é difícil imaginar que elas originalmente pudessem ter sido ignoradas. Podem-se propor emendas do texto hebraico como uma solução para o problema. Mas a adoção de tal proce­ dimento ignora a evidência mantida por longos séculos através de transmissão textual cuida­ dosa. Seguindo a indicação de versões antigas, nas quais elas fornecem testemunho anterior de uma resolução do problema, fornece uma opção para vencer as dificuldades. Entretanto, as várias versões antigas são apenas testemunhas secundárias do texto original, e frequente-


SOFONIAS 3.18-19

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Jerusalém também é o sujeito da frase seguinte; O opróbrio fo i um fardo sobre ela. O desprezo das nações veio em adição a todos os in­ fortúnios que caíram sobre Jerusalém. Aqueles que verdadeiramente amavam Jerusalém pelo que ela significava nos propósitos de Deus teriam sofrido duplamente em testemunhar a zombaria dos gentios quando seu ridículo foi adicionado às calamidades experimentadas pela cidade. “Considerai e vede se há dor igual à minha”, lamenta a cidade devas­ tada (Lm 1.12). O Senhor a expôs à angústia. Estas palavras encontram eco num nível pessoal no jardim do Getsèmani. “Minha alma está pro­ fundamente triste até a morte”, foi o lamento de Jesus (Mt 26.38, NIV). Ele também se achou no exílio, separado das festas do Senhor. Como o último remanescente, ele se entristeceu mais que todos os outros, ante as calamidades que sobrevieram à cidade santa (Lc 19.41-44). Mas a mensagem do profeta discute o livramento que certamente virá e que está além das devastações provindas do Senhor. Todas aque­ las tristezas se desvanecerão. 19. Quatro vezes neste versículo o uso da primeira pessoa do verbo sublinha o papel de Deus na operação da salvação de seu povo. O Se­ nhor tomará a iniciativa quando tratar com os opressores de Israel. O status dos “oprimidos” de Israel às vezes se associava especifica­ mente à sua ausência da terra que lhes poderia dar estabilidade. Os des­ cendentes de Abraão foram afligidos numa terra estranha por mais de 400 anos. Parte da proteção contra a opressão prometida por Davi era a possessão da terra que pertencería a Israel (2Sm 7.10). Agora o profeta promete que Israel estaria seguro em sua terra. O Senhor trataria com todos os seus opressores. Ele iria proteger suas fronteiras e libertá-los da maldição de serem eles uma nação dispersa entre os povos da terra. mente s3o representações da solução dada pelo tradutor a um problema de difícil interpre­ tação. mais que um testemunho em prol de outra tradição textual. Este versiculo em particular representa problemas especiais no intercâmbio do orador e do sujeito. Mas entre todas as maneiras opcionais em que o problema pode ser examinado, o melhor procedimento começa por tratar o texto tal como ele aparece nos manuscritos existentes em hebraicos. 13. O uso do termo 'õáeh para a ideia de “tratar com” é encontrado em outros lugares em Jeremias 18.23; 2 1.2; Ezequiel 2 2 .14; 23.25-29.


430

SOFONIAS 3.19-20

O Senhor também promete: salvarei os coxos, e os banidos congre­ garei. Posto num arranjo quiasmático, estas frases indicam que o profeta está visualizando o regresso do exílio.'“‘As leis Deuteronômicas haviam ameaçado com expulsão por desobediência, enquanto simultaneamente davam garantia irrestrita de que o Senhor traria seu povo de volta (Dt 30.1,4). O profeta agora confirma essa declaração do Livro da Lei. “Congregar” implica mais do que simplesmente o regresso do povo à sua terra. Eles serão congregados como uma comunidade reconstituída do povo de Deus. Particularmente notável em virtude das semelhanças com o livro de Deuteronômio é a expressão final desse versículo. Em vez de ser envergonhados entre todos os povos da terra, o Senhor faria de Israel, literalmente, “um louvor e um nome”. Estes dois elementos são combinados somente em Deuteronômio e Jeremias, além de Sofonias (cf Dt 26.19; Jr 13.11). Possivelmente, os dois profetas se depara­ ram com uma fonte comum no livro de Deuteronômio. A promessa de fama não visa satisfazer uma fútil necessidade hu­ mana do desejo insaciável de reconhecimento. Frequentemente, gran­ jear um “nome” se associa à derrota dos inimigos. Por meio do triunfo sobre os inimigos, difunde-se rapidamente uma reputação que exige admiração e respeito. Este conceito de renome se aplica a Abraão (Gn 12.2), a Davi (ISm 18.30; 2Sm 7.9; 8.13), a Abisai (2Sm 23.18) e a Israel como nação (2Sm 7.23). Até mesmo o nome de Deus se tomou famoso quando ele exibia seu poder diante de seus inimigos (Is 63.12; Jr 32.20; Ne 9.10). Não importa onde Israel foi disperso em meio ao opróbrio do cati­ veiro e derrota, agora seriam honrados. O profeta não afmna especificamente que a fama de Israel emanaria da derrota que infligiriam aos mes­ mos inimigos que uma vez o venceram. Mas, evidentemente, essas na­ ções se poriam em admiração por esta nação restaurada, maravilhandose da estatura que agora alcançava à luz de suas humilhações passadas. 2 0 .0 posicionamento àe fama antes de honra em contraste com o versículo anterior fornece uma variação poética simples. A diferença mais substancial reside na extensão a que a fama de Israel se irradia. 14. Toda a expressão pode ser tomada de Miqueias 4.6.


SOFONIAS 3.20

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Não só entre aqueles lugares para os quais ela foi levada em opróbrio, mas agora sua honra seria proclamada entre todos os povos da terra. Este reconhecimento mundial da glória de Israel ocorrerá quando o Se­ nhor fizer voltar seus cativos.'^ Essa promessa encontra seu cumprimento imediato na restauração de Israel depois dos setenta anos de cativeiro. Naquele tempo, os banidos foram levados de volta e o remanescente do Senhor, reunido em sua terra. Entretanto, não fica muito claro que a pequena comunidade da res­ tauração, que regressou à Palestina pelas boas graças do conquistador mundial, Ciro, de fato se tornaria famosa em toda a terra. O fim de todas as censuras certamente não ocorreu naquele “dia dos humildes começos”, ou seja, das pequenas coisas (Zc 4.10). Por essa razão, é preciso considerar as implicações mais amplas da posse da terra por parte do povo de Deus. As imagens de Israel possu­ indo a Palestina geralmente constroem um quadro de paraíso restaura­ do. O profeta falara em termos que lembram uma situação idílica de paraíso (3.13). A terra original prometida ao primeiro pai de Israel, bem como a garantia de uma semente multiplicada, na verdade refle­ tem 0 mandato da criação original acerca da responsabilidade da hu­ manidade de se multiplicar, povoar a terra e a dominar (Gn 1.28). Num molde microcósmico, a posse da terra pelos descendentes de Abraão representava a maneira como Deus completaria seu programa para a redenção da terra, quando eu te [i.e., \sx?lq\\ fizer voltar de teu cativei­ ro antecipa o rejuvenescimento do mundo. Pois foi este, na verdade, o “cosmos” prometido a Abraão e sua semente (Rm 4.13). Sofonias declara a seus contemporâneos que esta grande restaura­ ção ocorreria diante de vossos olhos, o que cria certa dificuldade.'* Pois nem os contemporâneos de Sofonias, nem aqueles que viveram para ver a restauração de Israel na Palestina, experimentaram tudo o que o profeta prometia. 15. o plural “cativeiros” pode ser comparado com o singulärem Sofonias 2.7. 16. A sugestão de Rudolph, p. 299, de que esta expressão teria sido um acréscimo contem­ porâneo posterior ao tempo de vida do profeta, na verdade não resolve o problema implícito no texto. Pois nem mesmo a comunidade pós-exílica viu pessoalmente a completa realização do que o profeta prometera.


432

SOFONIAS 3.20

Entretanto, incorporado nas palavras da Voz no arbusto, dirigidas a Moisés, estava a promessa de ressurreição. Se ele ainda era Deus de Abraão, centenas de anos após a morte do patriarca, então a ressurrei­ ção é uma necessidade. Pois ele não é Deus de mortos, mas de vivos (cf. Mc 12.18-27). Nos dias de Moisés, as promessas que foram feitas pessoalmente a Abraão estavam ainda em vigor com respeito à posse da terra pelo patriarca. Diante dos olhos dos contemporâneos de Sofonias, diz Yahweh, se dará o retomo do imutável Eu Sou ao paraíso. Como no caso de outra figura patriarcal, eles deverão contemplar este rejuvenescimento com seus próprios olhos, e não por meio dos olhos de um estrangeiro (Jó 19.25-27). Então 0 livro de Sofonias termina onde começou. O profeta abriu com uma cena de derrocada cataclísmica. A ordem total do cosmos seria revertida pelo juízo do grande Dia do S enhor . O profeta fecha com outra cena de alcance universal. A terra será reconstituída na glo­ riosa nova ordem concretizada pelo regresso à terra em proporções nunca jamais vistas. A bênção última, na aliança, junta-se à maldição última para consumar a totalidade do processo histórico.


C omentários

do

A ntigo T

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NAÍIM:, HABACUCiy E E IC X E Q IIM

" U m COMf-NTÁRIO TEOLCXilCO DE PRIMEIRA CEASSE PARA OS DIAS ATUAIS, COM APLICAÇÕES EXCLUSIVAS PARA A NOSSA ÉI\X:A. S u AS CONCLUSÕES SÃO EQUILIBRADAS E BEM DIRIGIDAS COM RELAÇÀO ÀS PARTICULARIDADES DA SITUAÇÃO HISTÓRICA IMEDIA I A, E l AMBÉM COM RELAÇÃO AO DRAMA DA REVELAÇÃO EM DESENVOLVIMENTO. D eSSES TRÊS

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Naum habacuque e sofonias palmer robertson  
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