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CHRISTINE FEEHAN desejo Sombrio Série Os Cárpatos - Livro 2

Digitalização de Jossi Borges Revisão de Ceila Sarita Formatação ePub de Leytor


Capítulo 1 Havia sangue que emanava de seu interior. Havia dor, muita dor no que se achava imerso. Não terminaria nunca? Milhares de cortes, queimaduras e o constante som de uma risada que troçava dele, lhe dizendo que aquilo continuaria por toda a eternidade. Não podia acreditar que estivesse tão indefeso. Não podia acreditar que sua incrível força e seu magnífico poder se esgotaram, deixando-o reduzido a esse miserável estado. Enviou uma chamada mental atrás de outra de noite, mas nenhum de seus companheiros veio lhe ajudar. A agonia continuava, implacável. Onde estavam? Sua família? Seus amigos? Por que não vinham e acabavam com isto? Seria uma conspiração? Tinham-no deixado deliberadamente em mãos destes açougueiros que usavam suas facas e tochas com tal deleite? Alguém conhecido havia lhe traído, mas sua memória estava curiosamente debilitada, apagando-se devido a interminável dor. Seus torturadores tinham conseguido lhe apanhar de tal jeito, imobilizando-lhe de tal modo que podia se sentir mas não se mover, nem as cordas vocais. Estava totalmente indefeso e vulnerável ante esses desprezíveis humanos que estavam destroçando seu corpo. Ouvia suas brincadeiras, suas intermináveis perguntas, percebia a raiva em seu interior quando se negava a reconhecer sua presença ou o mal que o inflingian. Queria morrer. Dar-se a bemvinda escuridão, mas seus olhos, frios como o gelo, nunca se separavam de seus rostos, nunca piscavam, eram os olhos de um depredador… Esperando, vigiando, prometendo vingança. Isso lhes enfurecia, mas se negavam a lhe administrar o golpe final. O tempo já não significava nada para ele, seu mundo reduziu-se a um nada, mas em certo momento percebeu outra presença em sua mente. O contato era longínquo, uma mulher jovem. Não sabia como, inadvertidamente, sua mente tinha conectado com a sua, de maneira que agora ela compartilhava sua tortura, cada abrasadora queimadura, cada corte da faca que deixava correr seu sangue, sua força vital. Tratou de recordar quem podia ser ela. Devia estar perto, se compartilhava sua mente. Estava tão indefesa como ele, suportando sua mesma dor, compartilhando sua agonia. Tratou de evitar que se conectasse com ele. A necessidade de protegê-la era muito forte, mas estava muito fraco para bloquear seus pensamentos. A dor emanava de seu corpo, como uma corrente, navegando diretamente até a mulher que compartilhava sua mente. Sua angústia lhe golpeou com uma força incrível. Ele era, depois de tudo, um homem


dos Cárpatos. Sua primeira obrigação era sempre proteger a mulher, ainda com risco de sua própria vida. Falhar nisso também se acrescentava a seu desespero e à sensação de fracasso. Captou breves imagens na mente, uma figura pequena e frágil, presa a uma esfera de dor, tratando desesperadamente de apegar-se à prudência. Não acreditava conhecê-la, embora a via em cores, algo que não lhe tinha ocorrido em séculos. Não tinha forças suficientes para obrigá-la a dormir, nem assim mesmo, não havia nada que lhes liberasse daquela agonia. Logo que podia captar os pequenos fragmentos de pensamentos em que ela pedia ajuda desesperadamente, tratando de decifrar o que lhe estava ocorrendo. As gotas de sangue começaram a filtrar-se por seus poros. Sangue vermelho. Via claramente que seu sangue era vermelho. Sabia que isso tinha um significado muito importante para ele, mas se sentia aturdido, incapaz de discernir por que era importante e o que significava. Sua mente estava imprecisa, como se um grande véu começasse a estender-se sobre seu cérebro. Não podia recordar como tinham lhe capturado. Esforçava-se para ver a imagem de qual dos seus que lhe havia traído, mas não conseguia, absolutamente. Só havia dor. Terrível e interminável dor. Não podia emitir nenhum som, nem sequer quando sua mente estalava em milhares de fragmentos e já não podia recordar a que ou a quem estava tentando proteger. Shea Ou'Halloran estava deitada em sua cama. O abajur lhe proporcionava apenas luz suficiente para poder ler a revista médica. Percorria as páginas em poucos segundos, transladando a informação a sua memória, como vinha fazendo desde que era uma menina. Nesses momentos estava terminando a Residência, a interna mais jovem, segundo as estatísticas e era uma tarefa exaustiva. Apressou-se a terminar de ler o texto, esperando poder tomar uma pausa. A dor a atravessou inesperadamente, golpeando-a com tal violência que a jogou da cama, com o corpo convulsionado pela agonia. Tentou gritar, arrastar-se até o telefone, mas só podia retorcer-se indefesa sobre o chão. Tinha a pele banhada em suor. De seus poros saíam gotas de sangue. Nunca tinha sentido dor igual… Era como se alguém lhe estivesse cortando a pele com uma faca, queimando-a e torturando-a sem descanso. Seguia e seguia… Horas ou dias, não sabia… Ninguém vinha ajudá-la e não poderiam fazê-lo… Estava sozinha. Na realidade, nem sequer tinha verdadeiros amigos. No fim, sentiu uma dor dilacerante no peito e perdeu a consciência. Quando acreditou que seus torturadores tinham acabado com ele, que tinham terminado com seu sofrimento, lhe dando a morte, descobriu o que era realmente o inferno.


Pura agonia. Malignos rostos que lhe olhavam fixamente. Uma estaca afiada abatendo-se seu peito. Um batimento do coração, um segundo. Poderia terminar agora. Tinha que terminar. Sentiu a grosa estaca de madeira sobre sua carne, enterrando-se através de músculos e tendões. O martelo caiu com força sobre a estaca, introduzindo-a ainda mais profundamente. A dor ia além de tudo o que tinha conhecido. A mulher que compartilhava sua mente perdeu a consciência, uma bênção para ambos. Ele continuava sentindo cada golpe, a enorme estaca penetrando em sua carne, introduzindo-se em seu corpo enquanto o sangue emanava a jorros, lhe debilitando ainda mais. Sentia que a vida lhe abandonava, não restava forças para resistir. Tinha chegado a hora. A morte… Quase podia tocá-la, abraçar-se a ela. Mas não podia ser. Era um homem dos Cárpatos, um imortal. Não era tão fácil desfazer-se dele. Sua vontade era poderosa, decidida. Uma vontade que lutava contra a morte incluso, quando seu corpo suplicava um final para aquele terrível sofrimento. Seus olhos se cravaram neles, nos dois humanos. Estavam cobertos de sangue. Seu sangue. Linhas vermelhas manchavam suas roupas. Reuniu as forças que restavam, as últimas e conseguiu que eles fixassem seu olhar nele, lhes fixando a profundidade de seus olhos. Imediatamente, cobriram seus olhos com um pano. Não podiam confrontar-se com a escura promessa que escondiam, seu poder lhes assustava, apesar de que ele se achava completamente indefeso, ante eles. Riam enquanto lhe viravam dentro do ataúde e o colocavam de barriga para baixo. Escutou seu próprio grito de dor, mas o som estava só em sua mente, repetindo uma e outra vez, burlando-se dele. Obrigou-se a calar. Eles não podiam lhe ouvir, mas isso não lhe importava. Ainda ficava um pouco de dignidade. De amor próprio. Não lhe derrotariam. Era um homem dos Cárpatos. Podia escutar como a terra golpeava a madeira do ataúde à medida que lhe enterravam na parede do porão. Cada golpe da pá de terra. Estava completamente às escuras. Envolto no silêncio. Era uma criatura da noite e a escuridão era seu lar. Mas agora, em sua agonia, convertia-se em sua inimiga. Só havia dor e silêncio. Antes, sempre era ele quem decidia quando permanecer na escuridão, na terra curadora. Agora estava prisioneiro, encerrado e com a terra fora de seu alcance. Poderia lhe aliviar, estava muito perto, mas a madeira do ataúde lhe impedia de alcançar aquilo que, com o tempo, curaria suas feridas. A sensação de fome começou a infiltrar-se em sua terrível agonia. O tempo passava e nada tinha mais importância salvo a fome insaciável que crescia… Até converter-se unicamente no que sentia.


Agonia. Fome. Não existia nada mais. Descobriu, algum tempo mais tarde, que podia induzir o sonho em seu corpo. Mas ter recuperado seu dom já não significava nada. Não recordava nada. Esta era sua vida. Dormir. Despertar tão somente quando alguma curiosa criatura extraviada chegava muito perto. A insuportável agonia lhe consumindo com cada batida de seu coração. Tentava conservar a maior quantidade de energia possível para conseguir atrair comida para ele. Havia poucas fontes de alimento… E estavam longe. Inclusive os insetos aprenderam a evitar aquele escuro lugar e à malvada criatura que habitava nele. Durante alguns momentos daquele interminável sofrimento, pôde sussurrar seu nome. Jacques. Tinha um nome. Era real. Existia. Vivia no inferno. Vivia na escuridão. As horas se converteram em meses e mais tarde em anos. Não podia recordar nenhuma outra forma de vida, de existência. Não havia esperança, nem paz, nem escapatória. Não havia final. Só escuridão, dor e fome eterna. O tempo passava, não tinha nenhuma importância em seu limitado mundo. Tinha as mãos algemadas, de modo que tinha poucas possibilidades de manobra, mas cada vez que uma criatura se aproximava o suficiente para o despertar, arranhava as paredes do ataúde, num vão intento de escapar. Estava recuperando seu poder mental, assim eventualmente podia obrigar a sua presa a dirigir-se para ele, só o suficiente para sobreviver. Não havia nenhum modo de recuperar seu poder e sua força sem reembolsar-se do imenso volume de sangue que tinha perdido. Não havia nenhuma criatura subterrânea o bastante grande para que isso fosse possível. Cada vez que despertava ou realizava algum movimento, voltava a brotar sangue das feridas. Sem a quantidade necessária de sangue para repor sua perda, seu corpo não poderia curar-se. Era um círculo vicioso e aterrador. Um horrível círculo que duraria toda a eternidade. Então começaram os sonhos, despertando quando estava faminto e sem maneira de aliviar o vazio de seu estômago. Uma mulher. Pôde reconhecê-la, sabia que estava aí fora, viva e sem algemas. Não estava clandestinamente, como ele, a não ser sobre a superfície, com total liberdade de movimento. Estava quase fora do alcance de sua mente, mas mesmo assim podia quase tocá-la. Por que não vinha lhe buscar? Não podia ver seu rosto, nem seu passado, unicamente sabia que estava aí fora. Tentou chamá-la. Rogou. Suplicou. Fervia de cólera. Onde estava ela? por que não se aproximava dele? Por que permitia que continuasse sua agonia quando só sua presença em sua mente podia acabar com aquele terrível sentimento de desolação? O que tinha feito ele de tão horrível para merecer isto? A fúria alagou em seu íntimo. Ódio, inclusive. Um monstro começou a formar-se em


seu interior. Crescia mais e mais. Mortal. Perigoso. Crescia e se alimentava da dor, com uma força incomparável. Cinqüenta anos, um século… O que importava? Viajaria até as levas do inferno para vingar-se. Agora , estava entranhado nele em cada momento que passava acordado. Ela viria a ele, jurou-se a si mesmo. Obrigaria-se a encontrá-la. E uma vez que o obtivesse, transformaria-se em uma sombra em sua mente até que se acostumasse a sua presença, e nesse momento se dobraria ante ele. Ela viria a ele. Daí, poderia consumar sua vingança. A fome lhe corroía as vísceras cada vez que despertava, de maneira que fome e a dor se fundiam em uma única entidade. Concentrar-se na maneira de chegar até a mulher, entretanto, diminuía em parte sua agonia. Sua concentração era tão absoluta que bloqueava a dor por um tempo. Ao princípio só durante alguns segundos. Logo alguns minutos. Com cada despertar, voltava o desejo de encontrá-la. Não tinha outra coisa que fazer. Meses. Anos. Não importava. Ela não poderia fugir dele eternamente. A primeira vez que roçou sua mente, depois de milhares de desafortunadas tentativas, a sensação lhe pegou completamente despreparado e imediatamente perdeu o contato. A euforia fez com que seu sangue emanasse ao redor da estaca, profundamente enterrada em seu corpo, esgotando as poucas forças que ficavam. Dormiu durante muito tempo, tentando recuperar-se. Uma semana possivelmente. Um mês. Não havia necessidade de medir o tempo. Agora saberia como chegar até ela, apesar de que se encontrava muito longe. A distância era tão grande, que requereria toda sua concentração alcançá-la através do tempo e o espaço. Jacques fez uma nova tentativa quando despertou. Desta vez, não estava preparado para as imagens que encontrou na mente dela. Sangue. Um pequeno tórax humano esmigalhado e aberto. Um coração pulsando. Tinha as mãos imersas dentro da cavidade do peito, cobertas de sangue. Havia mais gente no aposento e ela controlava os movimentos de outros com sua mente. Não parecia dar-se conta do que estava fazendo. Estava completamente concentrada naquela horrível tarefa. A facilidade com a que dirigia ao resto do pessoal sugeria que o fazia freqüentemente. As nítidas imagens que apareciam em sua mente eram espantosas e soube que ela era uma das que lhe tinham traído. Ela era um de seus torturadores. Esteve a ponto de perder o contato, mas conseguiu impor sua vontade. Ela sofreria por isso. Sofreria muito. O corpo que estava manipulando era tão pequeno… Devia ser um menino.

Havia pouca luz no sala de cirurgia, como gostava à doutora O`Halloran; tão somente o


corpo que jazia sobre a mesa estava fortemente iluminado. Seu excepcional sentido do ouvido lhe permitia escutar as vozes de fora: uma enfermeira consolando aos pais do paciente — Tiveram a grande sorte de que a doutora Ou'Halloran esteja de plantão esta noite. Tem um dom, de verdade. Quando parece que já não há nada que fazer, ela consegue salválos. Seu pequeno não poderia estar em melhores mãos. —Mas ele se encontra tão mal… —essa era a voz da mãe. Parecia aterrorizada. —A doutora Ou'Halloran faz milagres. Sério. Tenham fé. Nunca se rende até que os salva. Parece como se lhes obrigasse a viver… Shea Ou'Halloran não podia distrair-se nesses momentos e muito menos com uma enfermeira que lhes estava prometendo aos pais que ela poderia salvar a seu filho, que tinha o tórax esmagado e os órgãos internos como um quebra-cabeças. Não quando ela se passou as últimas quarenta e oito horas trabalhando e seu corpo pedia a gritos, descanso e alimento. Bloqueou todos os sons, todas as vozes e se concentrou por completo na tarefa que estava levando a cabo. Não podia perder o menino. Não podia. Nunca se permitia duvidá-lo. Afastava qualquer outro pensamento de sua mente. Formavam uma boa equipe, sabia que seus companheiros trabalhavam com gosto a seu lado, cada um realizando sua tarefa em perfeita harmonia com o resto. Não precisava olhar para ver se faziam o que ela queria ou necessitava. Sempre estavam preparados quando requeria sua ajuda. Se era capaz de salvar a seus pacientes quando outros não podiam, não era unicamente por seu esforço. Aproximou-se mais ao menino, esquecendo-se de tudo, salvo o desejo de que conseguisse ir em frente. Enquanto pegava o instrumento que a enfermeira estendia para ela, teve a impressão de que algo a golpeava. A dor atravessou-a imediatamente, consumindo-a, incendiando seu corpo. Só uma vez tinha experiente semelhante sofrimento, alguns anos antes. Jamais havia descoberto a causa. A dor tinha desaparecido sem mais ao cabo de vinte e quatro horas. Agora, com a vida do pequeno por umfio, totalmente em suas mãos, não podia permitir o luxo de deprimir-se. Sentia a dor imensa lhe retorcendo as vísceras,logo que podia respirar. Shea se esforçou por manter o controle, bloquear a dor com sua mente, como tantas outras vezes, e conseguiu. Como com o resto das distrações, obrigou-se a expulsar a dor de sua mente, respirou profundamente e se concentrou no menino. A enfermeira que estava a seu lado olhou à doutora completamente assombrada. Em todos os anos que trabalhava com ela, admirando-a, quase idealizando-a, jamais tinha visto a cirurgiã perder a concentração, nem por um segundo. E Shea tinha permanecido


completamente imóvel durante uns instantes, nada de mais, mas a enfermeira não pode deixar de notar. Era algo completamente incomum. Tremia suas mãos e suava profusamente. Imediatamente, a enfermeira estirou um braço para limpar o suor da fronte da doutora. Horrorizada, comprovou que a gaze estava cheia de sangue. De seus poros brotavam gotas de sangue. A enfermeira secou a fronte da doutora uma vez mais, tentado ocultar a gaze dos outros. Nunca tinha visto nada igual. Num momento, Shea voltou a ser a mulher de sempre, recuperando automaticamente sua concentração. A enfermeira engoliu todas as perguntas e voltou ao trabalho. As imagens do que a doutora Ou'Halloran precisava chegavam tão depressa a sua mente que não tinha tempo de pensar naquele estranho fenômeno. Fazia muito que se acostumara a perceber o que queria a doutora, antes inclusive de que a pedisse. Shea sentiu uma presença desconhecida em sua mente, uma escura malevolência que pulsava em seu interior, justo antes de bloquear a conexão para concentrar-se totalmente no menino e em seu tórax destroçado. Ele não podia morrer. Não permitiria. — Ouve-me, pequeno? Estou a seu lado, e não deixarei que te ocorra nada! –prometeu em silêncio. Tinha que dizer-lhe. Era como se uma parte dela se fundisse com seus pacientes e, de algum modo, conseguisse lhes manter vivos até que a medicina moderna pudesse fazer algo por eles. Jacques dormiu durante algum tempo. Não importava quanto. A fome lhe estava esperando. E a dor. Esperavam-lhe o coração e a alma de uma mulher. Dispunha de toda uma eternidade para recuperar suas forças e ela nunca escaparia, agora que conhecia o caminho até sua mente. Dormiu o sonho dos imortais. Os pulmões e o coração se detiveram enquanto ele jazia em seu ataúde, com o corpo muito perto da terra que tão desesperadamente necessitava para curar-se… Só uma magra capa de madeira, nada mais… Ao despertar, continuou arranhando pacientemente as paredes de seu ataúde. Algum dia conseguiria chegar até a terra e se curaria. Tinha conseguido fazer um pequeno buraco para permitir que suas presas chegassem até ela. Podia esperar, ela nunca conseguiria escapar. Aquela mulher era o único elo que o mantinha vivo. Seguiria-a. De dia e de noite. Não tinha importância. Já não distinguia entre uma coisa e outra, algo que antes tinha sido tão importante para ele. Vivia para tentar apaziguar sua eterna fome. Vivia para a vingança. Para assegurar-se de que castigaria os culpados. Vivia para converter a vida dela num inferno durante as horas em que se encontrava acordado.


Estava perito nisso. Tomava posse de sua mente durante alguns minutos de cada vez. Era impossível entendê-la. Era muito complexa. Havia coisas em seu cérebro que não tinham nenhum sentido para ele e os escassos momentos durante os que podia permanecer acordado sem perder o escasso sangue que restava, não eram suficiente para compreendê-la. Havia momentos em que ela estava assustada. Podia saborear seu medo. Sentia seu coração pulsando de tal maneira que o seu próprio igualava aquele terrível ritmo. Mesmo assim, sua mente permanecia serena no olho do furacão, rápida e inteligente, processando os dados procedentes com tal velocidade que quase não podia segui-la. Dois estranhos a espreitavam. Também viu a imagem de si mesmo. Seu abundante cabelo solto em mechas sobre seu maltratado rosto, com o corpo destroçado por aquelas brutais mãos. Distinguiu claramente a estaca profundamente inserida em seu peito, atravessando os seus músculos e tecidos. Essa imagem apareceu por um momento na mente dela, que fez uma trejeito de dor e então perdeu o contato.

Shea nunca poderia esquecer seus rostos, seus olhos e o aroma da transpiração… Um deles, o mais alto, não lhe tirava os olhos de cima. — Quem são vocês? —Olhou-os fixamente, surpreendida e inocente, totalmente indefesa. Sabia que parecia jovem e necessitada, muito insignificante para lhes dar problemas. — Jeff Smith —disse o alto bruscamente. Devorava-a com os olhos—. Este é meu sócio, Dom Wallace. Necessitamos que venha conosco para responder algumas pergunta. — Necessitam-me para que? Sou médica, cavalheiros. Não posso simplesmente recolher minhas coisas e me largar por aí. Tenho que estar na sala de cirurgia dentro de uma hora. Possivelmente possam me fazer suas perguntas quando meu turno tenha terminado. Wallace lhe sorriu. Parecia-lhe encantadora. A Shea, ele parecia um tubarão. —Não podemos fazer isso, Doutora. Não se trata só de nossas perguntas, há todo um comitê desejando poder falar com a senhora — riu em voz baixa, um fio de suor lhe cobria a fronte. Divertia-lhe causar dor e a doutora era muito fria, muito arrogante. Shea se assegurou de que o escritório ficasse entre ela e os homens. Pondo muito cuidado em mover-se lentamente e em aparentar despreocupação. Observou a tela de seu computador, teclou a ordem para destruir os dados e apertou “enter”. Então, pegou o jornal de sua mãe e o colocou na bolsa. Conseguiu fazer tudo com bastante naturalidade.


— Estão seguros de que não se equivocaram de pessoa? —Shea Ou'Halloran, sua mãe era Margaret (Maggie) Ou'Halloran, da Irlanda. — recitou Jeff Smith— Nasceu na Romênia, de pai desconhecido —havia uma nota de escárnio em sua voz. Os olhos verde esmeralda de Shea se cravaram no homem. Parecia tranqüila, enquanto que ele se retorcia de inquietação… E se consumia pelo desejo que ela lhe inspirava. Smith era muito mais suscetível que seu companheiro. — Supõe-se que isso deveria me desgostar, Sr. Smith? Sou quem sou. Meu pai não tem nada que ver com isso. — Não? —Wallace se aproximou mais ao escritório—. Não necessita de sangue? Não o anseia? Não o bebe? —seus olhos resplandeciam de ódio. Shea soltou uma gargalhada. Sua riso era suave, atrativo. Uma melodia que alguém desejaria escutar durante uma eternidade. — Beber sangue? Isto é algum tipo de brincadeira? Não tenho tempo para estas tolices… Smith se umedeceu os lábios. — Não bebe sangue? —Sua voz tinha um matiz de esperança. Wallace lhe dirigiu um olhar indignado. —Não a olhe aos olhos —alfinetou — Deveria saber disso. Shea arqueou as sobrancelhas e sorriu novamente, convidando Smith a unir-se a ela. —Às vezes me faz falta uma transfusão. Não é nada estranho… Não ouviram falar da hemofilia? Cavalheiros, estão me fazendo perder meu tempo —sua voz baixou um tom, uma suave sedução de notas musicais — Realmente deveriam partir. Smith se arranhou a cabeça. —Possivelmente nos equivocamos de mulher. Olhe-a. É uma doutora. Não é como os outros… Eles são altos, fortes e têm o cabelo escuro. Ela é delicada, pequena, ruiva… E sai à luz do sol. — Cale-se — ordenou Wallace— É uma deles. Devemos calar sua boca, está se confundindo com sua voz — seus olhos se deslizaram sobre ela, colocando-a em alerta — Ela falará —sorriu vilmente — Nós a apanhamos. Bem a tempo. Você cooperará, Ou’Halloran,


por bem ou por mal. Realmente, preferiria que fosse por mal. — Penso que sim… Exatamente, o que é o que querem de mim? —Provar que é você um vampiro —escarneceu Wallace. — Estão brincando comigo. Vampiros não existem. Não existe tal coisa — estimulouos a falar, precisava saber por que de tudo aquilo e pensava em conseguir de qualquer maneira, inclusive se isso significava provocar ira de pessoas tão repulsivos como aqueles dois. — Não? conheci a muitos… –disse Wallace, com o sorriso maligno de novo— Possivelmente a um amigo dele ou dois — jogou várias fotografias para dentro do escritório, desafiando-a com o olhar para que as olhasse. Sua ansiedade era patente. Mantendo seu rosto inexpressivo, Shea recolheu as fotografias. Lhe revirou o estômago, subiu-lhe a bílis à garganta, mas não perdeu o sangue-frio. As fotografias estavam numeradas, oito em total. Cada uma das vítimas tinha os olhos tampados, estavam amordaçados, algemados e em diferentes estados de tortura. Dom Wallace era um açougueiro. Tocou com a ponta do dedo, a assinalada com o número dois, experimentando um repentino golpe de dor. O menino não tinha mais de dezoito anos. Rapidamente, antes de que lhe saltassem as lágrimas, jogou uma olhada ao resto das fotografias. A número sete era um homem com o cabelo negro… O homem que aparecia em sonhos! Não podia acreditar! Não estava equivocada. Conhecia cada ângulo daquele rosto. Sua boca perfeitamente desenhada, os olhos escuros e expressivos, o comprido cabelo… Sentiu que a angústia se apoderava dela. Por um momento percebeu sua dor, a terrível agonia de sua mente e seu corpo, já que conseguia atinar para outra coisa que não fosse sua dor, o ódio ou a fome. Passou a polegar por aquele atormentado rosto, lentamente, quase com carinho. Acariciando-a. As sensações de dor e de ódio não fizeram mais que aumentar. A fome ocupava todos seus pensamentos… As emoções eram incrivelmente fortes e totalmente desconhecidas para ela… Tinha a estranha sensação de que algo ou alguém estava compartilhando sua mente. Aturdida, Shea deixou as fotos sobre o escritório. —Eram vocês dois… Os caçadores de vampiros, na Europa alguns anos atrás, não? … Mataram toda essa gente inocente. —acusou Shea com calma. Dom Wallace não o negou. —E agora a temos a você. —Se os vampiros eram criaturas tão poderosas, como é que conseguiram matar a


tantos? —deixou que o sarcasmo se filtrasse em sua voz para lhes incitar a falar. —Seus homens são muito competitivos — riu Wallace sem rastro de humor— Não se dão bem entre si. Necessitam de mulheres e não gostam de as compartilhar. Traem-se os uns aos outros, entregando-os em nossas mãos. De todas maneiras, são fortes. Sem importar quanto sofram, jamais falam. Isso, de algum modo, beneficia-nos, já que são capazes de confundir as mentes com sua voz. Mas você falará. Dedicarei-lhe todo o tempo do mundo… Sabia que quando um vampiro agoniza, perde seu sangue? —Certamente saberia se fosse um verdadeiro vampiro. Não suei sangue em minha vida. Me deixem comprovar se tudo isto me ficou claro… Os vampiros não só são perigosos para os humanos, mas também para si mesmos. Os homens de sua espécie se traem entre eles e entregam a vocês, açougueiros humanos, às vítimas de semelhante traição porque necessitam de mulheres… Seria muito mais cômodo que se limitassem a morder a mulheres humanas e as converter em vampiro. —Assinalando sarcasticamente cada foto com os dedos prosseguiu. — E querem que eu acredite que sou uma dessas fictícias criaturas, tão capitalista que só com minha voz posso escravizar a um homem tão forte como este? — assinalou deliberadamente para o Jeff Smith, lhe dirigindo um amável sorriso— Cavalheiros, sou médica! Salvo vidas todos os dias. Durmo em uma cama, não em um ataúde. Não tenho muita força que digamos e não bebi o sangue de ninguém na vida — olhou a Dom Wallace—. Você, entretanto, admite ter torturado e mutilado homens, inclusive havê-los assassinado. E, evidentemente, obtém um grande prazer com isso. Não acredito que sejam policiais, nem oficiais de nenhuma agência legal. Acredito que são uns monstros — voltou seu olhar esmeralda para o Jeff Smith, dando a sua voz um tom suave e sedutor — De verdade… Pensa que sou um perigo para você? Ele pareceu perder-se em seu olhar. Nunca tinha desejado tanto uma mulher. Piscou, limpou a garganta e lançou um breve e calculado olhar a Wallace. Smith não tinha visto nunca antes um olhar tão frio e ávido no rosto de seu companheiro. —Não, não, é obvio. Você não é um perigo para mim nem para ninguém mais. — Maldita seja, Jeff! Agarra-a e vamos daqui de uma vez. —grunhiu Wallace tentando deixar claro quem mandava ali. Os olhos verdes da Shea se deslizaram sobre Smith, detendo-se em seu aturdido olhar. Podia perceber seu desejo e se aproveitou disso, respirando suas fantasias com um olhar insinuante. Shea tinha aprendido desde muito pequena a introduzir-se nas mentes e manipular os


pensamentos dos outros. Ao princípio, aterrorizava-a ter esse tipo de poder, mas foi uma ferramenta muito útil no passado e lhe era útil agora que a estavam ameaçando. —É verdade, Dom, por que não se limitam a converter mulheres humanas? Poderia ter sentido. E por que aquele vampiro deixou de nos ajudar? Saímos correndo dali e nunca me contou o que saiu errado. —disse Smith desconfiando. — Está tratando de dizer que um desses homens lhes ajudou em sua campanha para matar a outros de sua raça e que por isso tiveram tanto êxito? —perguntou Shea, incrédula. — Era um tipo desagradável, vingativo. Odiava o menino, mas desprezava especialmente este daqui —Smith assinalou a fotografia do homem com a cabeleira farta e negra. — Queria que o torturássemos, que lhe queimássemos… E queria olhar enquanto o fazíamos. — Fecha a boca! — Espetou-lhe Wallace—. Acabemos com isto de uma vez. A sociedade nos dará uns quantos milhares por ela. Querem estudá-la. Shea riu brandamente. —Se em realidade fosse um de seus místicos vampiros, deveria valer muito mais que isso! Acredito que seu companheiro está lhe logrando, Smith. A verdade daquela afirmação podia ser lida no rosto de Wallace. Quando Smith se voltou para olhar, Shea fez seu movimento: saltou pela janela, aterrissando sobre seus pés, como um gato e correu tão rápido como pôde. Não tinha objetos pessoais com os quais se preocupar e nenhuma lembrança especial. O único que lhe preocupava era perder seus livros.

Quando percebeu seu medo, Jacques sentiu a necessidade de protegê-la. O impulso era tão forte como seu desejo de vingança. Fora o que fosse que ele tinha feito e era o primeiro em admitir que não podia recordar-se de nada, não podia merecer um castigo tão horrível. Uma vez mais, o sonho se apoderou dele, mas esta tinha sido a primeira vez em meses que não havia irradiado sua dor nem havia possuído sua mente por uns segundos para assegurar-se de que ela percebia sua escura ira e a promessa de vingança. Desta vez não havia a castigado. Só ele tinha o direito de induzir o medo em sua mente, de introduzi-lo em seu frágil e tremente corpo. Ela tinha observado sua fotografia com uma mescla de arrependimento e pesar. Acreditaria que estava morto e que era sua alma condenada que a perseguia? O que se passava na cabeça dessa traiçoeira mulher? O tempo seguia passando. Despertava só quando alguma criatura se aproximava. O


tecido que cobria seus olhos apodreceu até cair. Não tinha nem idéia de quanto tempo estava ali. Tampouco tinha a menor importância. A escuridão era escuridão. A solidão, solidão. Sua única companhia era a mulher de sua mente. A mulher que lhe tinha traído, que lhe tinha abandonado. Algumas vezes a chamava, ordenava-a ir a ele. Ameaçava-a. Suplicava-a. Embora parecesse perverso, necessitava-a. Estava ficando, admitia-o. Mas é que a solidão total estava acabando com ele. Sem seu contato, estaria perdido e nem sequer sua férrea vontade lhe levaria adiante. E tinha um motivo para seguir vivendo: a vingança. Necessitava tanto dela como a desprezava. Por mais conturbada que fora sua relação, necessitava desses momentos de companhia. Agora ela estava fisicamente perto dele, não havia um oceano entre eles. Havia estado tão longe que quase não tinha conseguido alcançá-la através da distância. Mas agora estava muito mais perto. Renovou seus esforços e começou a chamá-la a todas as horas, procurando não deixá-la dormir. Quando conseguia esquecer a dor e a fome e permanecer oculto, como uma sombra em sua mente, ela lhe intrigava. Era muito inteligente, brilhante, inclusa. Seus esquemas mentais eram os de um predador, processava a informação a uma velocidade incrível. Parecia capaz de separar todas as emoções; possivelmente é que não era capaz de senti-las. Deu-se conta de que admirava seu intelecto, seu modo de pensar, o modo que se entregava por completo a seu trabalho. Quando estava investigando uma enfermidade, ficava completamente obcecada por encontrar uma cura. Possivelmente era por isso pelo que sempre a encontrava naquele aposento pouco iluminada, coberta de sangue e com as mãos profundamente enterradas dentro de um corpo: estava realizando experimentos. E embora lhe parecia uma abominação, agora entendia por que o fazia. Era capaz de deixar de lado sua necessidade de dormir e de alimentar-se durante longos períodos de tempo. Ele percebia essa necessidade, mas ela estava tão absolutamente concentrada no que estava fazendo que nem sequer emprestava atenção aos reclames de seu corpo, que clamava por atender suas necessidades básicas. Não havia risos em sua vida, não havia a ninguém a seu lado. Isso lhe parecia estranho. Jaques não estava seguro do momento em que isso começou a lhe incomodar, mas assim era. Estava sempre sozinha e concentrada unicamente no que estava fazendo. É obvio, ele não teria tolerado a presença de outro homem em sua vida, teria tentado destruir qualquer um que se aproximasse. Dizia a si mesmo que isso se devia ao fato de que qualquer homem que se aproximasse estava certamente comprometido na conspiração que lhe mantinha nesse estado de sofrimento. Freqüentemente, sentia-se enojado por sua necessidade de falar com ela, mas lhe intrigava aquela mente tão complexa. De todos os modos, ela era tudo para ele.


Sua salvação e seu verdugo. Sem sua presença, sem o contato de sua mente, teria se tornado completamente louco. Sabia. Ela, inconscientemente, compartilhava sua estranha vida com ele, lhe dando algo no que concentrar-se, algum tipo de companhia. De algum jeito, tudo aquilo era uma ironia. Se acreditava encerrado clandestinamente. Pensava que estava a salvo de sua vingança. Mas tinha criado um monstro e lhe mantinha com vida, conseguindo que recuperasse uma parte de sua força com cada contato de sua mente. Voltou a encontrá-la um mês mais tarde, possivelmente um ano… Não estava seguro, mas isso não tinha a menor importância. Seu coração pulsava frenético pelo medo. Como o dele. Possilvemente tinha sido a assustadora intensidade de suas emoções o que lhe tinha despertado. A dor era insuportável, a fome lhe envolvia, mas mesmo assim os batimentos de seu coração igualavam o ritmo amalucado do dela e não era capaz de encontrar forças suficientes para respirar. Ela temia por sua vida. Alguém a estava tentando apanhá-la. Possivelmente seus cupinchas, os que tinham lhe ajudado a trair-lhe. Eles haviam lhe dado as costas. Concentrou-se em si mesmo, esperando, bloqueando a dor e a fome como tinha aprendido a fazê-lo através dos anos. Ninguém lhe faria mal. Ela lhe pertencia. Só ele devia decidir se ela vivia ou não, ninguém mais. Se conseguisse “ver” o inimigo através de seus olhos… Sentiu como aumentava o poder em seu interior… Sentia uma fúria tão imensa e poderosa ante a idéia de que alguém pudesse separá-la dele, que lhe surpreendia. A imagem apareceu claramente em seus olhos. Ela estava em algum tipo de refúgio… Havia roupas e móveis atirados no chão, como se tivesse havido ali uma briga ou alguém havia revirados seus pertences. Ela percorria os aposentos, apanhando algumas coisas pelo caminho. Captou imagens de uma massa de cabelos vermelhos, sedoso e brilhante. Queria tocar esse cabelo. Introduzir seus dedos entre eles. Enredá-lo ao redor de seu pescoço e estrangulá-la com ele. Enterrar seu rosto naquele cabelo e perceber sua fragrância… Então a imagem desapareceu, esgotaram-se suas forças e se abateu impotente, em sua prisão, incapaz de alcançá-la, de ajudá-la, de saber se estava a salvo. Isso não fez mais que aumentar a tortura de agonia e de fome. Não fez mais que aumentar a dívida que ela tinha com ele. Permaneceu imóvel, reduzindo os batimentos do coração ao mínimo, tão somente bombeando o suficiente para lhe permitir pensar e tentar recuperar suas forças uma vez mais. Se ela conseguisse sobreviver, ia atraí-la para ele. Não podia permitir mais atentados contra sua vida. A vida ou a morte dela só dependiam de sua decisão. —Venha a mim… Venha aqui comigo. Às Montanhas dos Cárpatos. À região remota e selvagem onde deveria estar, onde está seu lar, sua gente. Venha a mim —enviou a chamada,


enchendo a mente dela com o desejo de obedecer. Tinha exigido muito esforço, muito mais do que fizera até esse momento. era tudo o que podia fazer sem arriscar sua própria vida. Estando tão perto de seu objetivo, não podia colocar tudo a perder estupidamente.

Haviam tornado a encontrá-la. E de novo Shea Ou’Halloran corria para salvar sua vida. Tinha sido mais precavida desta vez, já que estava a par do porque que a seguiam. Tinha dinheiro suficiente escondido em vários lugares e seu carro, um quatro por quatro, tinha a gabine grande que poderia viver dentro dela se fosse necessário. Tinha sempre todo o essencial preparado, assim na pressa, era só pegar e correr. Mas aonde ir desta vez? Onde poderia perdê-los? Dirigia rápido, escapando daqueles que a dissecariam feito a um inseto, daqueles que a olhavam como se fosse inferior a um ser humano. Sabia que lhe restava pouco tempo de vida. Quase não ficavam forças para resistir. A terrível enfermidade que padecia estava acabando com ela e não estava mais perto de conseguir a cura que quando começou. Provavelmente, tinha herdado a enfermidade de seu pai. Um pai que nunca tinha visto, que não havia conhecido. Um pai que abandonou sua mãe antes que Shea nascesse. Tinha lido o diário de sua mãe muitas vezes. Seu pai não só havia destroçado o coração de sua mãe, como também sua vida, convertendo-a em uma mera sombra do que tinha sido até então. Um pai que não se importavam o mínimo, nem sua mãe nem ela mesma. Nesse momento conduzia em direção aos Cárpatos, o lugar de nascimento de seu pai. Uma terra de lendas e superstições. A estranha enfermidade sangüínea que sofria bem poderia haver-se originado ali. Estava muito nervosa, mas mesmo assim tentava concentrar-se nos milhares de dados que tinha sobre sua enfermidade, procurando dissipar o medo. A origem devia estar ali. Quase todos os mitos de vampiros tinham seu começo neste lugar. Podia recordar facilmente cada detalhe de todas as histórias que tinha lido. Ao fim, devia estar no bom caminho. As chaves sempre tinham estado no diário de sua mãe. Shea se reprovava uma e outra vez por não haver dado conta antes. Sentia tal aversão ao pensar em seu pai ou em algo que tivesse alguma relação com ele, que jamais se pôs a considerar que localizar suas próprias raízes lhe daria a resposta que procurava. O diário de sua mãe… Tinha cada palavra guardada no coração. “Conheci-lhe ontem à noite… Do momento em que lhe vi soube que tinha que ser ele… Alto, bonito e com olhos fascinantes. Jamais havia ouvido uma voz tão formosa como a sua. E ele sentiu o mesmo por mim. Sei que sentiu. Foi um equívoco, é claro, já que ele era casado… Mas foi inevitável para ambos. Não podíamos permanecer separados. Rand. Assim se


chamava… Um nome estranho, como ele, como seu lar… Cárpatos é seu lar… Como pude viver sem ele até agora? Sua mulher, Noelle, deu a luz um menino faz dois meses. Sei que não lhe o agradou. Por alguma razão era importante que ele tivesse uma menina. Permanece comigo a cada momento, embora eu esteja freqüentemente sozinha. Está em minha mente, falando comigo, me sussurrando o muito que me quer. Tem uma espécie de enfermidade do sangue que não lhe permite sair à luz do sol. Tem hábitos estranhos… Quando fazemos o amor e não imagina quão maravilhoso é, ele está dentro de minha mente, de meu coração e meu corpo, ao mesmo tempo. Diz que é porque tenho dons psíquicos, como ele, mas sei que é algo mais. Tem algo que ver com sua necessidade de beber sangue. Estou descrevendo-o aqui porque não posso dizer em voz alta. Soa horrível… Espantoso… E entretanto é tão erótico… Eentir sua boca sobre mim, meu sangue em seu corpo. Quanto lhe amo… Logo que deixa nenhum sinal, a menos que queira me marcar como dele. Sua língua cura as feridas rapidamente. Vejo como um milagre. Ele é um milagre. Sua mulher, Noelle, sabe que estou com ele. Contou-me que não o permite deixá-la, que é perigosa. Sei que é verdade por que ela me ameaçou… Ameaçou me matando. Tinha tanto medo. Seus olhos eram vermelhos e seus dentes brilhavam como os de um animal… M a s Rand chegou antes que ela pudesse me ferir. Estava tão furioso… Mostrou-se tão protetor… Sei que diz a verdade quando diz que me ama. Pude deduzir pela maneira em que lhe falou com ela, lhe ordenando que partisse. E agora ela me odeia! Sou tão feliz! Estou grávida. Ele não sabe ainda. Não lhe vejo há duas noites, mas estou segura de que nunca me deixará. Sua mulher deve estar furiosa porque teme que ele a abandone. Espero que seja uma menina. Sei que deseja uma filha desesperadamente. Eu lhe darei o que sempre quis e Noelle passará à história. Suponho que deveria me sentir culpada, mas não posso fazê-lo quando é óbvio para ambos que seu lugar está a meu lado. Onde está? Por que não vem para mim agora que lhe necessito tão desesperadamente? Por que se foi que minha mente? Shea chora constantemente. Os médicos estão consternados com os resultados das análise de sangue. Necessita transfusões diárias. Deus, como a odeio… Tem-me atada a este mundo vazio. Sei que ele está morto. O dia que Noelle veio para me ver, ele veio sozinho depois, durante umas maravilhosas horas. Disse-me que ia deixá-la. Acredito que tentou fazêlo. Mas simplesmente desapareceu… De minha mente, de minha vida. Meus pais acreditam que me abandonou porque estava grávida, que me usou, mas eu sei que está morto. E sinto


esta terrível agonia, sua dor… Viria me buscar se pudesse, estou segura. E jamais se inteirou de que tinha uma filha… Poderia ter lhe acompanhado, mas tinha que dar a luz a sua filha. Se sua mulher lhe matou e estou segura de que é capaz de tal coisa, ele viverá por mim, através de nossa filha. Trouxe-a para a Irlanda. Meus pais estão mortos, assim herdei suas propriedades. Teria deixado com eles, mas agora é muito tarde. Não posso me unir a ele. Não posso deixála quando há tantas pessoas perguntando por ela. Tenho medo de que tratem de matá-la. É como ele. O sol queima sua pele rapidamente. Necessita de sangue, como ele. Os médicos sussurram sobre seu caso e me olham fixamente… Tenho muito medo. Sei que tenho que sair daqui… Não permitirei que ninguém faça mal a sua filha, Rand… OH, Deus, me ajude… Sou incapaz de sentir alguma coisa. Estou morta por dentro. Onde está? Matou-te, Noelle, como prometeu que faria? Como posso viver sem ti? Só sua filha evita que me una contigo… Logo, meu amor, logo estarei contigo.”

Shea deixou sair o ar de seus pulmões muito lentamente. É obvio. Tinha estado diante de seus nariz todo o tempo. Necessitava de sangue, como ele. Herdou a enfermidade sangüínea de seu pai. Sua mãe tinha escrito que Rand bebia seu sangue quando faziam o amor. Quanta gente tinha sido cruelmente perseguida e tinha acabado com uma estaca no coração só porque ninguém tinha podido encontrar um padre para sua terrível enfermidade? Sabia o que era sofrer uma coisa assim, odiar-se a si mesmo e ter medo de que lhe descubram. Tinha que encontrar a cura, embora fosse muito tarde para ela, devia encontrá-la.

Jacques dormiu durante muito tempo, decidido a renovar sua energia. Despertava só rapidamente, para alimentar-se e para assegurar-se de que ela seguia viva e perto. Continha sua euforia para não perder mais sangue. Agora necessitava de toda sua energia. Ela estava perto, podia senti-la. Estava tão somente a alguns quilômetros dele. Duas vezes tinha “visto” sua casa através de seus olhos. Estava arrumando-a, encarregando-se dessas coisas que fazem as mulheres para transformar um mero refúgio em um lar. Mais tarde, Jaques começou a despertar a intervalos regulares, provando sua força, atraindo animais que lhe proporcionassem o tão necessário sangue. Espreitava-a em seus sonhos, chamando-a continuamente, mantendo-a acordada quando sabia que seu corpo precisava dormir desesperadamente. Sentia-a frágil, faminta, fraca pela falta de alimento. Trabalhava dia e noite e sua mente estava cheia de perguntas e respostas. Não fez caso do quão único queria era mantê-la cansada para poder submeter facilmente sua vontade


Tinha muita paciência. Tinha aprendido a tê-la. Sabia que se estava aproximando dela. Agora tinha tempo de sobra. Não havia nenhuma necessidade de correr. Podia permitir-se esbanjar sua energia. Espreitava-a desde seu escuro esconderijo e cada contato com sua mente era mais poderoso. Não tinha idéia do que ia fazer lhe uma vez que a tivesse em suas mãos… Não poderia matá-la… Depois de ter passado tanto tempo em sua mente, às vezes lhe parecia que formavam uma só pessoa… Mas seguro era que a faria sofrer… Uma vez mais, obrigou-se a si mesmo a dormir para conservar o pouco sangue que ficava. Estava adormecida diante de seu computador, com a cabeça repousando sobre um montão de papéis. Inclusive em sonhos, sua mente permanecia ativa. Jacques tinha aprendido muitos detalhes sobre ela. Sabia que tinha uma memória fotográfica. Tinha aprendido tantas coisas sobre sua mente que inclusive tinha esquecido algumas… Ou talvez nunca procurou saber. Freqüentemente, passava o tempo estudando-a antes de submetê-la a sua perseguição. Ela era toda uma fonte de conhecimentos, uma fonte de dados sobre o mundo exterior. Sempre estava sozinha. Inclusive nas mais antigas lembranças que captava, havia uma menina pequena isolada do resto. Sentia que a conhecia intimamente. Mas na realidade, não sabia nada pessoal sobre ela. Sua mente estava cheia de perguntas, de dados e de instrumentos e fórmulas químicas. Jamais pensava em seu aspecto ou nessas coisas em que pensam todas as mulheres. Só importava seu trabalho. Todo o resto era rapidamente descartado. Jacques se concentrou e enviou as palavras até ela. —Agora, virá até mim. Não permita que nada te detenha. Acorda venha até mim enquanto descanso e espero. Utilizou cada grama da força que possuía para introduzir a ordem dentro de seu cérebro. Nos dois últimos meses, tinha conseguido atrai-la para ele várias vezes, obrigando-a a aproximar-se para sua prisão através do sinistro bosque que a rodeava. Mas em cada uma das ocasiões, apesar de que tinha vindo como lhe havia ordenado, sua necessidade de completar seu trabalho tinha feito retornar. Desta vez estava seguro de que tinha usado força suficiente para forçá-la e agradá-la. Ela sentia sua presença na mente, reconhecia seu contato, mas na realidade não sabia que estavam unidos. Pensava que ele era um sonho… Ou mas bem mais que um pesadelo. Jacques sorriu ao pensar nisso. Mas não havia diversão naquele sorriso. Era somente uma selvagem promessa, a promessa de um predador a ponto de apanhar a sua presa.


Shea despertou de repente. Seu trabalho estava esparramado pela mesa e o computador estava ligado e os documentos que estava estudando estavam bastante amassados, por ter apoiado a cabeça sobre eles. O mesmo sonho outra vez… É que alguma vez pararia? Alguma vez a deixaria em paz? O homem de seus sonhos já era familiar… Aquela abundante cabeleira negra e o ricto cruel sobre a boca sensual… Durante os primeiros anos, tinha sido incapaz de lhe ver os olhos, como se estivessem cobertos por algo, mas nos dois últimos anos a tinham observado fixamente, com uma escura ameaça semprepresente no olhar. Shea jogou o cabelo para trás e notou as pequenas gotas de suor que cobriam sua fronte. Por um instante, experimentou a estranha desorientação que a invadia sempre, depois daquele sonho, como se algo apriosionasse sua mente durante um momento para depois soltá-la lentamente, com reticência. Sabia que alguém a estava perseguindo. Embora o sonho não fosse real, o fato é que alguém a perseguia de verdade. Não devia perder de vista esse fato, não devia esquecê-lo. Não tornaria estar a salvo de novo, a menos que encontrasse a cura para ela e para o resto das pessoas que sofriam essa estranha enfermidade. Estavam espreitando-na como se fosse um animal, como se necessitasse de sentimentos ou inteligência. E aos caçadores não importava que falasse seis idiomas com fluidez nem que fora uma cirurgiã muito competente que tinha salvado incontáveis vidas. As palavras do papel a sua frente estavam tornando imprecisas, esfumaçadas. Quanto tempo fazia que não dormia? Suspirou, passando a mão sobre o abundante cabelo vermelho, comprido e sedoso, afastando-o do rosto. Jogou-o para trás, descuidadamente e, como sempre, sujeitou-o com o primeiro prendedor que teve à mão. Começou a revisar os sintomas de sua estranha enfermidade sangüínea. Catalogando a si mesma. Era pequena e muito delicada, quase frágil. Parecia jovem, como uma adolescente, já que envelhecia a um rimo muito mais lento que resto dos humanos. Seus olhos eram muito grandes, de um verde intenso e sua voz era suave, sedosa, quase hipnótica. Quando lia, a maior parte dos estudantes estavam tão cativados por sua voz, que recordavam cada palavra que havia dito. Seus sentidos eram mais sensíveis do que os do resto da raça humana. Sua audição e seu olfato eram extremamente agudos. Era capaz de apreciar as cores nitidamente, captando matizes que a maioria das pessoas não distinguia. Podia comunicar-se com animais, saltar mais alto e correr mais rápido que muitos atletas bem treinados. Desde muito jovem, tinha aprendido a ocultar esses talentos.


Se desesperou enquanto se levantava. Estava morrendo lentamente. Cada minuto que passava era um minuto menos disponível para encontrar a cura. Em algum lugar, entre todas essas caixas e montões de papéis, encontrava-se a solução. Embora quando a encontrasse fosse muito tarde para ela, mas podia servir para aqueles que viviam na mesma terrível solidão em que ela tinha vivido durante toda sua vida. Podia acontecer que envelhecesse lentamente e tivesse habilidades excepcionais, mas pagava um alto preço por isso. O sol queimava sua pele. Embora podia ver claramente na escuridão da noite, seus olhos sofriam com a luz do dia. Seu corpo rechaçava virtualmente todas as comidas e o pior de tudo, necessitava de sangue diariamente. Qualquer tipo de sangue. Não havia sangue incompatível com o seu. O sangue animal a mantinha apenas com vida, então necessitava desesperadamente de sangue humano e só quando estava perto de desabar, se permitia usá-lo e unicamente mediante transfusão. Desgraçadamente, sua particular enfermidade requeria transfusões orais. Shea abriu a porta de repente e inalou o ar da noite, escutando na brisa os sussurros das raposas, as ratazanas, os coelhos e os cervos. O grito de um mocho que tinha perdido a sua presa e o chiado de um morcego fizeram com que seu sangue corresse rápido por suas veias. Estava claro que pertencia a aquele lugar. Pela primeira vez em toda sua vida, sentia-se em paz. Shea saiu para o alpendre. Seu ajustados jeans azuis e as botas de montanha serviriam, mas a fina camiseta que vestia não evitaria o frio das montanhas. Pegando uma jaqueta e a mochila, Shea embrenhou-se naquelas paragens que tanto lhe atraía. Se tivesse conhecido a existência deste lugar um pouco antes… Já tinha perdido muito tempo. Justo um mês antes tinha descoberto as propriedades curativas da terra. E também conhecia o agente curativo que havia em sua saliva. Havia plantado um jardim, no que cultivava verduras e vários tipos de ervas. Adorava trabalhar a terra. Um dia, por acidente, fez-se um corte, um feio e profundo talho. Trabalhar com a terra pareceu aliviar a dor e quando terminou o trabalho, o corte estava virtualmente fechado. Começou a vagar pelo caminho sem rumo fixo, desejando que sua mãe tivesse conhecido a paz daquele lugar. Pobre Maggie. Tão jovem. Irlandesa. Durante as primeiras férias de sua vida se encontrou com um escuro e intrigante desconhecido que a tinha usado para depois abandoná-la a sua sorte. Shea sacudiu sua cabeça, tinha os olhos cheios de lágrimas, mas se negava deixá-las cair. Sua mãe tinha feito sua escolha. Aquele homem. Ele havia se convertido no centro de sua vida, sem deixar espaço para nada mais. Nem sequer para a carne de sua carne, o sangue de seu sangue, sua filha. Não valia a pena seguir vivendo


só por ela. Unicamente pelo Rand. Um homem que a tinha abandonado sem pensar, sem lhe dizer uma palavra. Um homem que havia contagiado com uma enfermidade tão espantosa, sua filha, que devia ocultá-la do resto do mundo. E Maggie sabia. Mas ainda assim, não tinha se incomodado em investigar, nem sequer em descobrir algo sobre o Rand que pudesse servir de ajuda para saber o que enfrentava sua filha. Shea se deteve para recolher um punhado de terra, deixando-a deslizar-se entre seus dedos. Estaria Noelle, a esposa segundo sua mãe, tão obcecada com o Rand como Maggie? Em princípio parecia que sim. Mas Shea não tinha nenhuma intenção de seguir a opção que tinha provocado a queda de sua mãe. Jamais dependeria tanto de um homem que chegasse a rechaçar a seu próprio filho para depois suicidar-se. A morte de sua mãe tinha sido uma tragédia sem sentido e tinha deixado a Shea abandonada a uma vida sem amor, fria e cruel, sem ninguém que a guiasse. Maggie sabia que sua filha necessitava de sangue… Dizia-o bem claro no condenado diário, em cada maldita palavra. Shea apertou os punhos até que os nódulos ficaram brancos. Maggie sabia que a saliva do Rand tinha agentes curativos. E ainda sabendo, tinha deixado que sua filha descobrisse por si mesmo. Shea tinha curado a si mesma, incontáveis vezes, quando era menina, enquanto sua mãe olhava fixamente pela janela para algum lugar que só ela via. Vivia pela metade, indiferente aos prantos de dor da pequena enquanto aprendia a andar ou a correr… Tinha aprendido tudo sozinha. Descobriu que podia curar-se de pequenos cortes e arranhões com sua língua. Mas demorou muito mais tempo em descobrir que só ela podia fazer essas coisas. Maggie se comportava como um robô, sem emoção alguma, atendendo unicamente as mínimas necessidades básicas da filha, sem emprestar atenção a seus sentimentos. Maggie se suicidou no dia que Shea fez dezoito anos… Um leve gemido de angústia escapou da garganta da Shea. Já era suficientemente horroroso saber que devia tomar sangue para sobreviver, mas crescer sem o amor de sua mãe tinha sido devastador. Sete anos antes, uma espécie de loucura arrasou a Europa. A princípio, não foi mais que algo curioso, quase divertido. Dos inícios da História, as pessoas supersticiosas falavam aos sussurros sobre a existência de vampiros na zona de onde seu pai era originário. Agora, parecia possível que a desordem sangüínea, possivelmente originário das Montanhas dos Cárpatos, fosse a base das lendas de vampiros. Se a enfermidade era de caráter endêmico nesta região, não era possível que aqueles que tinham sido perseguidos através dos anos, tivessem sofrido também a enfermidade que Shea e seu pai compartilhavam? Desejava poder estudar outras pessoas com sua mesma enfermidade. Nos últimos tempos, os assassinatos de “vampiros” se estenderam pela Europa como


uma praga. Homens em sua maioria eram assassinados ao “estilo vampiro”, com uma estaca cravada no coração. Era algo doentio, repugnante e aterrador. Respeitados cientistas tinham começado a considerar a possibilidade de que os vampiros fossem reais. Formaram-se comitês para estudá-los… E eliminá-los. Evidências de fontes anteriores, combinadas com as amostras de sangue de uma menina pequena, a sua, Shea estava segura, tinham conseguido que a questão fosse mais longe. Shea havia ficado aterrada, completamente segura de que esses assassinos da Europa acabariam por encontrá-la. E nesse momento, de fato, estavam atrás dela. Tinha deixado atrás seu país e sua carreira com o propósito de seguir sua própria linha de investigação. Como acreditavam as pessoas, nestes tempos tão civilizados, nessa estupidez sobre os vampiros? Sentia-se identificada com as pessoas assassinadas, que certamente sofriam a mesma enfermidade que ela. Era médica, uma investigadora e mesmo assim, até agora havia falhado com todas as vítimas, temerosa de que lhe tirassem o chapéu. O que ela chamava “seu detestável e secreto segredo”. E isso a enfurecia. Tinha talento, inclusive era brilhante, deveria ter descoberto os segredos deste mistério há muito tempo. Quanta gente havia morrido porque ela não tinha sido o suficientemente constante na busca de informações? A sensação de culpa e o medo alimentavam agora sua incansável e exaustiva sessão de estudo. Absorvia tudo o que podia encontrar sobre o lugar, as pessoas e as lendas: rumores, supostas evidências, velhas traduções e os últimos artigos dos jornais. Comia só quando tinha tempo e às vezes nem sequer lembrava das transfusões. Não dormia quase nunca… Procurando desesperadamente a peça do quebra-cabeças que lhe daria o caminho a seguir. Estudou seu sangue um milhão de vezes. Estudou sua saliva e seu sangue depois das transfusões animais, depois de transfusões humanas… Havia queimado o diário de sua mãe num momento de desespero. Jamais esqueceria uma só de suas palavras, mas mesmo assim sentia profundamente a perda. Sua conta bancária, entretanto, era substancial. Tinha herdado recursos de sua mãe e tinha conseguido bastante dinheiro exercendo sua profissão. Inclusive tinha uma pequena propriedade na Irlanda que alugava por uma boa quantidade. Vivia sem gastar muito e investia sensatamente. Tinha sido fácil transportar seu dinheiro até a Suíça e deixar umas quantas pistas falsas ao passar o continente. No momento que chegou aos Cárpatos, Shea se havia sentido delicada. Mais viva. Mais em paz. A inquietação e a sensação de angústia seguiam crescendo em seu interior, mas se sentia como se estivesse em casa pela primeira vez em sua vida. As árvores, a fauna


selvagem e até a mesma terra, formavam parte dela. Era como se, de algum modo, estivesse relacionada com eles. Adorava respirar esse ar, chapinhar na água e encher suas mãos de terra. Shea captou a essência de um coelho e seu corpo retesou-se de repente. Podia ouvir o batimento de seu coração, sentir seu medo. O animal percebia o perigo, havia um predador espreitando-o. Uma raposa; ela percebeu o sussurro de sua pele roçando os arbustos. Era maravilhoso ouvir essas coisas, as sentir sem se preocupar de que outros pudessem fazê-lo ou não. Os morcegos voavam, sulcando o céu para capturar insetos e Shea elevou o olhar para observá-los, admirando suas táticas, desfrutando do simples espetáculo. Começou caminhar novamente. Precisava fazer exercício e livrar-se do peso da responsabilidade ao menos durante um momento. Tinha encontrado sua casinha de campo, bem a armação da casa e a tinha transformado em seu próprio santuário durante os últimos anos. Tinha colocado persianas que impediam a passagem da luz do sol durante o dia e um gerador de corrente elétrica que proporcionava a luz e energia necessária para seu computador. Um banheiro decente e a cozinha, eram suas seguintes prioridades. Pouco a pouco, havia adquirido livros, provisões e todo o necessário para atender as urgências de seus possíveis pacientes. Embora Shea esperava não ter que usar suas habilidades nesse lugar, pois quanto menas pessoas conhecessem sua existência, melhor, além disso, assim teria mais tempo para dedicar-se a sua valiosa busca. Era acima de tudo, uma médica. Shea penetrou no denso bosque, acariciando os troncos das árvores quase com reverência. Tinha sempre à mão uma reserva de sangue, pois às vezes utilizava suas habilidades como pirata informático, o que lhe permitia entrar nos bancos de sangue de maneira que pudesse efetuar o pagamento, preservando seu anonimato. Mesmo assim havie feito algumas viagens por mês, alternando entre três povos que estavam a uma noite de viagem desde sua cabana. Ultimamente se encontrava mais fraca e a fadiga era o maior problema, feridas negavam a curar-se. Um desejo, um anseio aterrador crescia em seu interior… Um vazio que suplicava ser cheio. Sua vida estava chegando ao final. Shea bocejou. Tinha que voltar para casa e descansar. Geralmente, nunca dormia de noite, deixando seu tempo de repouso para a tarde, quando o sol estava mais quente. Estava a vários quilômetros de sua casa, nas profundezas do bosque e a bastante altitude na parte mais remota das montanhas. Tomava freqüentemente esse caminho, atraída inexplicavelmente para aquele lugar. Sentia-se inquieta, quase angustiada pela sensação de urgência. Devia


dirigir-se a alguma parte, mas não tinha nem idéia de onde. Quando analisava seus sentimentos, dava-se conta de que a força que lhe impulsionava a seguir era quase uma obrigação. Tinha toda a intenção de dar a volta e voltar para casa, mas seus pés continuavam arrastando-a através do árduo caminho. Havia lobos nessas montanhas… Ouvia-os uivar freqüentemente durante a noite. Havia tanto deleite em suas vozes, tanta beleza em suas canções… Podia contatar com a mente dos animais sempre que quisesse, mas nunca tinha tentado fazê-lo com uma criatura tão selvagem e imprevisível como um lobo. Mesmo assim, suas canções noturnas lhe faziam desejar encontrar-se nesse momento. Seguiu para frente, empurrada para um destino desconhecido. Nada parecia ter nenhuma importância, salvo seguir subindo cada vez mais alto, para a mais selvagem e desabitada zona que tinha visto em sua vida. Deveria ter medo, mas quanto mais se afastava da cabana, mais importante lhe parecia continuar. Suas mãos se elevavam inconscientemente para esfregar as têmporas e a fronte. Sentia um estranho zumbido em sua cabeça. Surpreendia-a como a fome espremia suas vísceras… Não era uma fome normal, era diferente. De novo tinha essa estranha sensação de que estava compartilhando sua mente com outro e de que a fome não era realmente dela. A maior parte do tempo, parecia-lhe que estava andando em um mundo de sonhos. A névoa ao redor das árvores, suspensa sobre a terra, estava começando a espessar-se e a temperatura do ar tinha baixado vários graus. Shea estremeceu e esfregou rapidamente os braços, com as mãos. Sempre a assombrava, sua capacidade de mover-se silenciosamente pelo bosque, esquivando instintivamente dos galhos caídos das rochas soltas. De repente, escutou um sussurro em sua mente. Onde está? por que se recusas a vir para mim? A voz soava com um venenoso traço de fúria. Deteve-se por um momento, horrorizada e levou as mãos à cabeça. Era como em seu pesadelo… A mesma voz que a chamava, ressonando em sua mente. Agora os pesadelos eram mais freqüentes, ocupando suas horas de sonho, curvando-a enquanto permanecia acordada, deslizando-se em sua consciência em todas as horas. Às vezes pensava que ficaria louca. Aproximou-se de um pequeno riacho. Havia distintas pedras plainas, de brilhantes cores, que assinalavam o caminho através da água cristalina. A corrente estava gelada quando se inclinou para colocar seus dedos nela. A sensação era tranqüilizadora. Algo a ordenava seguir adiante. Primeiro um pé, depois o outro. Era uma loucura


seguir afastando-se da cabana, já que estava a muitas horas sem dormir. E embora se considerava uma espécie de sonâmbula, sentia-se muito estranha. Shea se deteve perto de uma pequena clareira e observou a noite estrelada. Nem sequer se deu conta de que estava movendo-se até que a cruzou e penetrou no espesso arvoredo. Um um ramo se enganchou em seu cabelo e a obrigou a deter-se novamente. Sentia a cabeça pesada e a mente aturdida. Necessitava desesperadamente chegar a um determinado lugar, mas não sabia onde. Escutar não a ajudava. Com seu extraordinário ouvido teria podido distinguir se uma pessoa ou alguma outra criatura se encontrava ferida ou em perigo, mas não era assim. Shea farejou o ar. O mais provável era que acabasse perdida e que o sol a deixasse frita ao sair pela manhã… O teria merecido, por bancar a estúpida. Apesar de burlar-se de si mesmo, a sensação de seu interior era tão forte que Shea continuou caminhando, permitindo seu corpo tomar o rumo que quisesse. De repente, surgiu ante seus olhos um atalho virtualmente invisível, que se estendia ziguezagueando através das árvores. Seguiu andando, completamente segura de que tomava o caminho certo; estava intrigada e se perguntava o que era que tinha a força de afasta-la de sua investigação. As árvores deram espaço a um pequeno prado. Atravessou-o novamente parecia que seus passos seguiam um caminho previamente estabelecido… Como se soubessem perfeitamente para onde se dirigiam. No fim do prado, algumas árvores dispersas rodeavam os restos de um edifício. Não eram os restos de uma pequena cabana, mas de uma grande casa, convertida agora em negros escombros e com o bosque deslizando-se silenciosamente para o seu interior, tentando recuperar a terra que uma vez lhe pertenceu. Caminhou ao redor da estrutura, segura de que algo a tinha atraído a este lugar, mas incapaz de identificar o que era. Nesse lugar havia um imenso poder, podia senti-lo, mas não tinha nem idéia de onde procedia nem de como usá-lo. Seguiu avançando, com o corpo esgotado e uma inquietante pressão em sua mente, como se estivesse perto de um grande descobrimento. Agachando-se, deixou que suas mãos se deslizassem sobre a terra. Uma vez… Duas. De repente, seus dedos encontraram madeira sob a sujeira. Ficou sem respiração, o pulso pulsando frenético pela excitação. Tinha descoberto algo importante. Estava segura disso. Cuidadosamente, retirou com as mãos a terra de cima, e descobriu uma grande porta, de uns dois metros por um e meio, segura com um firme cabo de metal. Necessitou de todas as suas forças para levantá-la e teve que sentar-se durante uns momentos para recuperar o fôlego e reunir coragem suficiente para olhar o que havia no buraco. Uma larga escada de degraus roídos e estragados pelo tempo, dava acesso ao um


grande aposento. Depois de um momento de indecisão, Shea descendeu pela escada, impulsionada por seu corpo e sua mente, apesar de que seu cérebro lhe indicava que devia tomar mais precauções. As paredes do porão tinham sido construídas com terra e partes de pedra. Notava-se que ninguém nem nada tinha perturbado esse lugar durante anos. Levantou a cabeça alarmada, explorando rapidamente a área com os olhos em busca de algum tipo de perigo. Não havia nada. Esse era o problema. O silêncio era total. Sinistro. Nenhuma criatura noturna, nenhum inseto. Nenhum rastro de animais sobre o chão coberto de pó. Não pôde detectar mais que alguma rato escorregadio ou o brilho de uma teia de aranha. Como que impulsionada por uma força interior desconhecida, sua mão começou a deslizar-se ao longo de uma das paredes. Nada. Shea desejava sair dali o quanto antes. O instinto de sobrevivência a impulsionava a fugir dali… Sacudiu a cabeça, era incapaz de escapar, embora aquele lugar a aterrava. Permaneceu imóvel durante um terrível momento… Sentia que alguém a observava, esperando… Algo escuro e letal. Parecia tão real que quase saiu correndo, mas justo quando voltava sob seus passos decidida a sair dali enquanto ainda tinha tempo, seus dedos encontraram mais madeira debaixo da parede de terra. Intrigada, Shea examinou a superfície. Algo havia sido enterrado deliberadamente justo ali. O tempo não amontoava a terra dessa maneira. Incapaz de deter-se, retirou punhados de terra e rochas até que descobriu uma grande tábua de madeira em estado de decomposição. Outra porta? Tinha pelo menos um metro noventa de altura, possivelmente mais. Continuou a escavação com mais garra, lançando com indiferença os punhados de terra para trás. Súbitamente, seus dedos roçaram algo espantoso. Deu um salto, retrocedendo enquanto pequenas carcaças secss caíam no solo. Ratos mortos. Centenas de corpos de ratos consumidos. Horrorizada, olhou fixamente a caixa de madeira podre que tinha destampado. O resto da terra a mantinha em seu lugar, mas parte da tampa caiu para frente. Shea saiu correndo em direção a escada, alarmada por seu descobrimento. A pressão em sua cabeça aumentou até fazê-la gritar de dor e caiu de joelhos antes de conseguir chegar até o final da levantada escada que a conduziria para a noite cheia de névoa. Não podia ser um ataúde! Quem enterraria um corpo de barriga para baixo em uma parede? Uma curiosidade mórbida ou uma força que não pôde identificar, obrigou seus pés a dirigir-se de novo até a caixa. Tentou deter-se com todas suas forças, mas não pôde. Tremialhe a mão enquanto se aproximava para tirar a tampa de madeira podre.


Capítulo 2 Shea permaneceu imóvel> Nesse momento era incapaz de respirar ou de pensar sequer. Estava a resposta a suas perguntas frente a ela, em toda sua crua realidade? Era esta coisa, torturada e mutilada, seu futuro, o futuro daqueles que sofriam essa enfermidade? Fechou os olhos por um momento, tentando evadir-se do que a rodeava. Tratando de não imaginar a brutalidade necessária para fazer uma coisa assim. Lhe saltaram lágrimas dos olhos, pensando na dor e o sofrimento que esta criatura tinha suportado antes de sua morte. Sentia-se responsável. Tinham-lhe dado dons muito especiais e apesar de tudo, não tinha conseguido descobrir os segredos da enfermidade que tinha condenado quem dela padecia. Respirou profundamente, obrigando-se a voltar a olhar. Ainda estava vivo quando seus atacantes selaram o ataúde. Tinha arranhado a madeira, até conseguir, ao final, fazer um pequeno buraco. Shea sufocou um soluço… Sentia-se muito perto desse pobre homem assassinado. Mil cortes cobriam seu corpo. Uma estaca de madeira, tão grande como o punho de um homem, tinha sido incrustada em seu peito, perto de seu coração. Quem quer que o tivesse feito necessitava umas lições de anatomia. Tomou fôlego, horrorizada. Quanto devia ter sofrido! Tinha as mãos e os tornozelos atados; tiras sujas e trapos em distintos estados de decomposição lhe rodeavam o peito, como se fosse uma múmia. A médica que havia nela assumiu o controle para permitir um estudo clínico mais exclusivo. Era impossível dizer a quanto tempo estava morto. Pelas condições do porão e do ataúde, podia especular sobre um determinado número de anos, mas o corpo ainda não tinha começado a decompor-se. As linhas de agonia ainda sulcavam o rosto do homem. Tinha a pele cinzenta, mas firmemente estirada sobre os ossos. As marcas de sofrimento se gravaram em seu rosto. Estava claro que sua agonia tinha sido terrível. E lhe conhecia. Ele era o homem de seus sonhos. Embora parecesse impossível, estava segura de que não se equivocava; havia-lhe visto suficientes vezes para o reconhecer. Além disso, era o homem da foto que Wallace lhe tinha mostrado. Sabia que era uma loucura, mas se sentia unida a este homem… Sentia que devia tê-lo salvo. Consumia-a a pena, uma pena profunda e intensa. Era como se uma parte de si mesmo estivesse morta com ele, no ataúde.


Shea acariciou brandamente seu cabelo sujo, tão negro que parecia ter reflexos azuis. Certamente teria sofrido a mesma enfermidade do sangue que ela… Quantos mais tinham sido apanhados, perseguidos, torturados, e assassinados por padecer essa enfermidade com a qual tinham nascido? —Sinto-o— sussurrou brandamente e o dizia de coração. —Falhei-lhes com todos… E também comigo. Um lento gemigo foi sua única advertência. As pálpebras se abriram, e ficou olhando fixamente aqueles olhos que ardiam com venenoso ódio. Com uma explosão de força, ele rompeu uma das oxidadas algemas e aferrou sua garganta com uma mão… Como se fora uma garra. Era muito forte e o aperto lhe fechou a traquéia, nem sequer podia gritar… De repente, tudo começou a girar a seu redor, como um redemoinho branco e negro que ameaçava tragar-lhe Nem havia terminado de sentir pesar por não ter lhe ajudado, quando sentiu dentes que se cravavam em sua garganta. Simplesmente deixou que acontecesse, esperando que fosse rápido. Não lutou, sabia que era inútil. De qualquer modo, alguém devia algo a esta atormentada criatura e ela já tinha aceito sua morte há muito tempo. Tinha medo, é obvio, mas sentia-se extremamente tranqüila. Se havia alguma maneira de lhe proporcionar um pouco de paz, desejava fazê-lo. A culpa por seu fracasso em encontrar cura para a enfermidade era o único sentimento que havia em sua mente. E possivelmente algo mais, algo elementar, tão antigo como o próprio tempo. A necessidade de lhe salvar. Saber que ele devia viver e que ela estava disposta a dar sua vida por ele. Shea despertou enjoada e fragilizada. Doía-lhe a cabeça e sua garganta estava tão dolorida que tinha medo de fazer o mais mínimo movimento. Franziu o cenho, incapaz de reconhecer onde se encontrava. Escutou seu próprio gemido… Estava caída sobre a terra, com um braço sob suas costas e algo forte sujeitava-a pelos pulsos. Estava amarrada.Tentou soltar o braço, mas a temeu romper seus frágeis ossos. O coração bateu-lhe fortemente no peito e com a mão livre apalpou a garganta, recordando. Tinha o pescoço inchado e machucado. Também havia uma ferida, aberta e dolorosa. Sentia a boca estranha, com um leve sabor metálico na língua. Tinha perdido muito sangue, soube imediatamente. Estalava-lhe a cabeça, e a dor não fazia mais que aumentar. Sabia que aquela criatura era a responsável por isso, ao tentar introduzir-se em sua mente. Molhando seus lábios cuidadosamente, virou-se para trás, aproximando-se do ataúde para diminuir a pressão de seu braço. Os dedos dele encerravam sua pequena mão, como uma esposa, num aperto que ameaçava romper cada um de seus


ossos se fizesse um movimento em falso. Outro gemido escapou de sua garganta antes de que pudesse evitá-lo. Oxalá tudo isto não fosse mais que outro pesadelo… Endireitando-se, girou lentamente a cabeça para poder o olhar. Aquele simples movimento foi tão doloroso que a deixou sem fôlego. Cravou o olhar em seus olhos. Quase sem dar-se conta, Shea lutou, tentando apartar-se dele. Seus olhos, negros como a noite, abrasavam-na. Havia um ódio feroz e uma fúria venenosa enterradas na profundidade daqueles olhos sem alma… Seus dedos apertaram ainda mais, estreitando sua mão, amarrando-a a ele e arrancando um grito de dor e medo de sua dolorida garganta. A dor de cabeça era insuportável. — Para!—na luta, Shea se golpeou a frente contra o ataúde— Se me fizer mal, não poderei te ajudar— levantou a cabeça para encontrar aqueles olhos negros. — Entende o que te digo? Sou tudo o que tem— se obrigou a não afastar o olhar. Fogo. Gelo. Tinha os olhos mais aterradores que tinha visto em sua vida. —Meu nome é Shea Ou'Halloran. Sou médica — O repetiu em vários idiomas, mas deixou de tentar fazer-se entender quando seus olhos continuaram queimando-a. Parecia não ter piedade. Nem alma. Era como um animal. Apanhado. Ferido. Confuso. Um perigoso predador encerrado em um corpo indefeso. —Te ajudarei se o permitir. — sussurrou suavemente, como se estivesse tratando de acalmar um animal selvagem. Estava utilizando o poder de sua voz. Hipnótico, suave, sedativo. — Necessitarei de algumas ferramentas e um veículo. Compreende? Inclinou-se sobre ele e com sua mão livre acariciou cautelosamente seu mutilado peito. O sangue fresco emanava em volta da estaca, deslizando-se através de seus muitos cortes, como se estes fossem recentes. Sua mão tinha um novo corte, estava segura de que não estava ali antes. — Meu Deus! Deve estar sentindo muita dor… Não se mova. Não posso retirar a estaca até que o leve a minha cabana ou sangrará até morrer…— Por estranho que parecesse, ele parecia ter agora melhor aspecto. A criatura a soltou devagar, reticente, sem deixar jamais de olhar seus olhos. Escavou a terra com as mãos, levando-a até suas terríveis feridas. É obvio! A terra… Ajudou-o, recolhendo punhados da rica terra e estendendo-os sobre as feridas. Eram tantas… Depois do primeiro punhado, ele permaneceu imóvel, tentando conservar a energia,


com o olhar cravado nela. Não piscava sequer, seus escuros olhos não vacilaram nenhuma só vez. Shea deu uma nervosa olhada para cima, para a entrada do porão. Já se passara muito tempo desde que estava inconsciente. O sol sairia logo. Inclinou-se para ele e lhe tirou o cabelo do rosto com suavidade… Sentia que uma estranha ternura se apoderava dela. Por alguma razão inexplicável se sentia atraída por essa pobre criatura a sensação ia além da compaixão natural ou a necessidade de um médico por ajudar. Queria que ele sobrevivesse. Ele devia sobreviver. Tinha que encontrar um modo de o liberar dessa espantosa dor. — Vou buscar socorro. Irei apressada como posso… Mas voltarei, te prometo — ficou em pé e deu um passo em direção as escadas. Ele moveu-se tão depressa que logo que pôde distinguir. Colocando sua mão ao redor de seu pescoço, levantou-a do chão de forma que caiu para ele. Cravou os dentes em sua garganta. A dor era terrível. Ele alimentava-se vorazmente, como um animal fora de controle. Tentou lutar contra a dor, contra a inutilidade de todo aquilo… Estava matando à única pessoa que podia lhe salvar. Sua mão, encontrou seu o cabelo negro. Enredou os dedos na suja e espessa cabeleira, segurando-se quando desabou, quase sem vida, sobre seu peito. A última coisa que ouviu antes de desmaiar, foi seu coração. Coisa incrível, seu próprio coração tentou imitar aquele ritmo forte e constante. O silêncio foi interrompido pelo pequeno suspiro que emergiu de seu corpo, lutando por sobreviver. A criatura olhava com indiferença a fraca e esbelta figura. À medida que ia recuperando as forças, a dor aumentava, lhe consumindo. Elevou a mão livre, mordeu o pulso e colocou a ferida a jorrar sange sobre a boca dela por uma segunda vez. Não estava seguro do que estava ocorrendo… A dor seguia sendo muito intensa. Tinha estado enterrado durante muito tempo e não recordava ter visto em sua vida outra coisa mais que sombras cinzas e negras. Agora, o intenso brilho das cores que lhe rodeavam fazia com que lhe doessem os olhos. Tinha que escapar daquele caleidoscopio de tonalidades… A dor aumentava a cada momento e uma sensação desconhecida ameaçava lhe afogar. Shea despertou lentamente, com o rosto no chão. Sentia a garganta em carne viva e o mesmo doce sabor metálico invadia sua boca. Estava doente e enjoada e instintivamente se deu conta de que o sol estava alto. Seu corpo parecia feito de chumbo. Onde se encontrava? Tinha muito frio e estava desorientada. Ficou de joelhos e inclinou a cabeça para evitar desmaiar novamente. Nunca havia ficado tão fraca, tão indefesa. Era uma sensação espantosa. De repente, recordou-se de tudo e se arrastou, de quatro, sobre o poeirento chão.


Apoiando as costas contra a parede e do outro lado do aposento, olhou fixamente o ataúde, aterrada. Ele jazia ali como se estivesse morto. Sem pulsação ou respiração perceptíveis. Shea levou uma mão tremente à boca para evitar soltar um soluço. Não ia aproximar-se dele outra vez, estivesse morto ou não. De toda forma, por inteligente que fosse esse pensamento, ainda sentia a necessidade de encontrar um modo de lhe ajudar. Havia algo em seu interior que não a permitia lhe deixar. Possivelmente estava equivocada sobre a enfermidade… Existiriam os vampiros? Ele tinha usado os dentes; tinha afiados incisivos e devia ter algum tipo de anticoagulante, da mesma maneira que sua saliva tinha um agente cicatrizante. Levou-se as mãos às têmporas, que palpitavam com força. A necessidade de o ajudar era entristecedora, assustadora, tão intensa que se sentia obcecada. Alguém tinha dedicado bastante tempo a torturar a este homem e tinha desfrutado com seu sofrimento. Tinham-lhe feito tanto mal o quanto fora possível e depois tinham lhe enterrado vivo… Só Deus sabia durante quanto tempo tinha suportado algo tão terrível. Tinha que lhe ajudar, sem se importar com o que acontecesse. Era desumano lhe abandonar em tal estado. Era mais do que podia suportar. Com um suspiro ficou em pé, apoiando-se na parede até que o teto do porão deixou de girar. Vampiro ou humano, não podia lhe abandonar a sua sorte para que morresse lentamente de inanição. Ele sentia uma terrível dor, e era óbvio que não entendia o que lhe estava acontecendo. Estava preso em um mundo de agonia e loucura. — Está claro que perdeste a cabeça, Shea— sussurrou de maneira audível. Sabia que o que sentia, ia além da compaixão e a necessidade de curar. Algo incrivelmente forte, dentro dela, comprometeu-se a assegurar a sobrevivência deste homem. De alguma estranha maneira, tinha convivido com ele durante muitos anos. Ele havia estado com ela em todas as horas, compartilhando sua mente, chamando-a, lhe rogando que viesse lhe buscar… E o havia deixado neste lugar de loucura e sofrimento, pensando que não era real. Não podia lhe falhar de novo. O sol brilhava no céu. Se ele sentia os mesmos ritmos de sonho que ela, provavelmente dormiria profundamente até o pôr-do-sol. Devia partir nesse momento ou arriscaria a ser atacada novamente ao despertar. O sol ia destroçar-lhe a pele. Encontrou sua bolsa e procurou seus óculos escuros. Atravessar o prado foi uma espécie de inferno. Inclusive com os óculos escuros, a luz abrasava seus olhos, enchendo-os de lágrimas que nublavam seu campo de visão. Como era incapaz de ver claramente o chão, caiu várias vezes. O sol a açoitava implacavelmente. Quando penetrou no bosque, a sombra das árvores lhe proporcionou um pouco de alívio, mas


ao chegar à cabana não havia nem um só centímetro de pele que não estivesse ao vermelho vivo ou cheio de bolhas. Uma vez em casa, examinou-se. O pescoço e a garganta estavam totalmente inchados e as feridas, ainda abertas. Seu aspecto era grotesco: parecia uma horrível lagosta, golpeada e maltratada. Shea passou aloe vera sobre sua pele, e a toda pressa, recolheu as ferramentas, instrumentos e cordas e carregou tudo no carro. Notou que precisava de algo para cobri-lo. Voltou para pôr uma manta. Subitamente, uma espécie de náusea a fez cair de joelhos no chão. Estava muito fraca. Necessitava uma transfusão imediatamente. Se tinha que salvar aquele homem, primeiro precisava salvar-se a si mesma. Demoraria um bom tempo encarregando-se daquele homem e voltar para a cabana. Não podia permitir desperdiçar o tempo. Assim, sabendo que não restava outra opção, preparou a transfusão, utilizando uma das unidades de sangue que tinha à mão. Parecia que estava demorando uma eternidade, cada minuto transcorria tão lento que parecia uma hora, lhe dando muito tempo para preocupar-se, para começar a encher-se de perguntas… Estaria o ataúde perto da porta do porão? por que não cuidou em olhar antes? Se houvesse lhe deixado onde o sol pudesse lhe alcançar, queimaria vivo enquanto que ela se dedicava a coisas sem importância… OH, Deus, por que não podia recordá-lo? Doía-lhe a cabeça, tinha a garganta dolorida e, o mais importante de tudo, estava completamente aterrorizada… Não queria voltar a sentir suas mãos ao redor do pescoço outra vez. Não podia acreditar que tivesse sido tão descuidada para lhe deixar à luz do sol… Só em imaginar, ficava fisicamente doente. Uma vez terminada a transfusão, Shea preparou rapidamente a cabana para a emergência cirúrgica que aconteceria, colocando os instrumentos para retirar a estaca e a linha de seda para suturar as feridas. Ao menos tinha sangue para lhe dar. Sem permitir um só pensamento mais sobre a tarefa que tinha por fazer, subiu no carro e se dirigiu para as ruínas. O sol deslizava atrás das montanhas quando estacionou o carro na entrada do porão. Utilizando o guincho do carro, baixou o cabo pelo buraco. Respirando profundamente, temerosa com o que pudesse encontrar, Shea desceu pela desmantelada escada. Imediatamente, sentiu o impacto daqueles olhos ardentes. Com o coração pulsando frenético pelo medo, obrigou-se a avançar pelo aposento até que esteve fora de seu alcance. Ele a olhava como se fosse um predador… E ela sua presa. Tinha despertado para encontrá-la. Estava tomado pela sensação intolerável de fome, e também pelo medo e a dor. Seus furiosos


olhos negros cravaram-se nela, acusando-a, com uma escura promessa de vingança. — Ouça-me. Por favor, trate de entender…— estava tão desesperada que começou a utilizar a linguagem de sinais enquanto falava. — Preciso te colocar em meu carro. Vai ser doloroso, eu sei. E se for como eu, as drogas não lhe servirão de ajuda — Estava começando a gaguejar, seu fixo olhar a desconcertava — Olhe, — disse desesperada — eu não te fiz mal. Não te fiz isto. Tão somente estou tratando de te ajudar, de verdade. Seus olhos a ordenavam que aproximasse um passo mais. Levou-se uma mão ao cabelo e descobriu que estava tremendo. — Vou ter que amarrar para que quando conectar o cabo com… —gaguejou e se mordeu o lábio — Deixa de me olhar assim, por mais que queira. Isto já é bastante difícil sem que o piore ainda mais… Aproximou-se dele cautelosamente. Custou-lhe cada grama do valor que possuía dar um passo para aproximar-se. Ele podia cheirar seu medo, ouvia o batimento frenético de seu coração. Seus olhos refletiam o pânico que sentia e também sua voz… Mas mesmo assim, aproximou-se dele. Não estava obrigando-a a obedecer. A dor lhe debilitava, assim tinha decidido conservar toda a energia que pudesse. Surpreendia-lhe que continuasse aproximando-se, apesar de seu medo. Sentia os dedos frios sobre sua pele, lhe acalmando enquanto se enredavam em seu cabelo. — Confie em mim. Sei que é pedir muito, mas acredito que isto é o melhor que posso fazer. O gelo negro de seu olhar jamais se separava do rosto da Shea. Muito lentamente, tentando não lhe alarmar, acolchoou a área ao redor da estaca com toalhas dobradas, esperando que move-lo não o matasse. Cobriu-lhe com a manta para lhe proteger do sol. Ele se limitava a olhá-la fixamente, quase com indiferença, mas ela sabia, pelo modo com que a dominava, que estava preparado para atacar se fosse necessário. Quando lhe teve assegurado no ataúde, para reduzir ao máximo o movimento e o sangramento, ele segurou sua mão com uma força que ela já estava familiarizada. As fotografias que Dom Wallace e Jeff Smith, de dois anos antes, mostravam algumas das vítimas com ataduras nos olhos e amordaçadas. Não podia negar que esta criatura era exatamente igual ao homem de seus sonhos e o homem das fotografias, mas era impossível que tivesse sobrevivido sete anos enterrado neste porão… Havia trapos no ataúde. Uma mordaça? Uma atadura? Seu estômago revirou-se. Não poderia lhe enfaixar os olhos para lhe proteger do sol. Não se atrevia a repetir nada do que esses assassinos lhe tinham


feito. Ele estava com o cabelo muito sujo e comprido e caíam alvoroçados ao redor de seu rosto. Sentiu uma forte necessidade de tirá-los de suas bochechas, de lhe tocar carinhosamente com os dedos, de apagar os últimos sete anos com uma carícia. — De acordo, deixarei seu braço livre —disse para lhe tranqüilizar. Era difícil permanecer quieta enquanto esperava sua decisão, com os olhos cravados em seu ardente olhar. Parecia demorar uma eternidade. Shea podia sentir como se atenuava a fúria que bulia justo debaixo da superfície. Cada segundo parecia mais difícil manter a coragem. Não estava do todo segura de que ele fosse aceitar. Reticentemente, dedo a dedo, soltou-a. Shea não cometeu o engano de tocar seu braço de novo. Com muito cuidado, enganchou o cabo na parte de cima do ataúde. —Tenho que te cobrir os olhos com isto. O sol está se pondo, mas ainda há luz suficiente para te cegar. Só lhe porei isso por cima, pode tirar no momento que queira. No instante em que colocou o pano sobre seus olhos, ele o rasgou, e seus dedos apertaram sua mão com ameaça. Tinha uma força enorme e parecia que não ia deixar um osso inteiro, mas percebia que sua intenção não era lhe fazer mal. Tinha esboçado uma linha muito clara entre o que era aceitável para ele e o que não. — De acordo, está bem, deixe-me pensar… Nada de ataduras — passou a língua pelo lábio inferior e depois os dentes. Seu escuro olhar a observava, seguindo o movimento de sua língua, e voltando a posar depois sobre seus grandes olhos verdes. Olhando. Aprendendo— Já o tenho. Pode usar meus óculos até que o coloque no carro — colocou os óculos escuros lentamente sobre o nariz dele. Com os dedos, acariciou-lhe o cabelo — Sinto… Isto doerá. Shea deu um precavido passo para trás. Era pior não poder ver seus olhos. Outro passo. De repente, de sua boca saiu um grunhido, deixando ver o brilho de uns dentes branquísimos. Saiu correndo um segundo antes de que seu braço tentasse apanhar a à velocidade do raio. Ainda assim, suas unhas lhe deixaram profundos sulcos no braço. Shea deu um grito e agarrou o braço, mas continuou correndo até chegar às desvencilhadas escadas. A luz caiu como uma corrente sobre seus olhos, cegando-a, enviando terríveis pontadas até seu cérebro. Shea fechou os olhos com força, e cambaleou até o carro; começou a acionar o caboe… Não queria nem lhe olhar, sabendo que era ela que lhe estava infringindo uma terrível dor… Só em pensar sentia-se doente. As lágrimas deslizavam por sua


face. Shea pensou que não era mais que uma reação à luz… Em realidade, sabia que ele a tinha atacado por medo de que o tivesse abandonando. O chiado do cabo se parou abruptamente. Shea rodeou o carro, abriu a porta traseira, baixou a rampa e colocou o cabo através da cabine. O guincho colocou suavemente o ataúde sobre a parte traseira do veículo. Shea necessitava os óculos de sol para conduzir, mas não se aproximaria mais dele que não fosse absolutamente necessário. Agora ele estaria sentindo tanto dor que provavelmente a mataria antes de que pudesse lhe convencer de que não o estava torturando. A verdade é que não o podia culpar. O caminho até a cabana durou mais do que deveria, devido aos olhos chorosos, inchados e a visão imprecisa. Conduziu devagar, tratando de evitar cada rocha e buraco do tortuosos caminho. Tal como estava, mesmo com um veículo com tração nas quatro rodas era um caminho difícil de seguir. Shea vociferava em voz baixa quando estacionou o carro quase dentro da varanda. — Por favor… Por favor não me apanhe e coma viva… — disse lentamente, quase como se estivesse rezando. Se ele voltasse a lhe abrir a garganta, possivelmente não poderia ajudar a ninguém, nunca mais. Inspirando profundamente, abriu a porta traseira do carro e baixou a rampa. Sem lhe dar uma olhada sequer, baixou o ataúde e o arrastou para dentro. Ele não emitiu nenhum som. Nem um gemido, nem um soluço, nenhuma maldição. Estava agonizando… Notava-se perfeitamente no filme de suor que banhava seu corpo, nas linhas claras ao redor da boca, na mancha carmesim que havia em sua fronte e na dor que se refletia em seus olhos quando finalmente lhe tirou os óculos de sol. Shea estava exausta, sentia os braços doloridos e fracos. Teve que parar um momento para descansar, apoiando-se na parede, tentando lutar contra a onda de náuseas que a enjoava. Novamente, ele tinha o olhar cravado em seu rosto, observando-a simplesmente. Odiava que ele não pronunciasse uma palavra, já que sabia instintivamente que aqueles que lhe tinham torturado não tinham recebido a satisfação de ouvir seus gritos. Ele a fazia se sentir como se fosse um deles. O menor movimento, supunha, devia ser uma espantosa dor para ele. Assim, trabalhando o mais rapidamente possível, colocou-o sobre a maca ao lado da mesa de operações.


— Está bem, vou te tirar desta caixa — precisava escutar sua própria voz, embora ele não a entendesse. Havia tentado comunicar-se em vários idiomas, mas ele não tinha respondido. Seus olhos pareciam carregados de sabedoria e inteligência… Não confiava de todo nela, mas era possível que soubesse que tinha intenção de lhe ajudar. Segurando a faca mais afiada, Shea se voltou para ele a fim de cortar as grosas ataduras. Instantaneamente, ele segurou sua mão, impedindo o movimento. O gesto partiu seu coração… Ele não a tinha compreendido. Fechou seus olhos, preparando-se para sentir a dor que provocariam seus dentes ao lhe rasgar a pele. Ao passar o momento e ver que não acontecia nada, fitou-o, esperando encontrar a ardente fúria de seu olhar. Ele estava examinando o comprido corte que havia feito em seu braço, entrecerrando os olhos. Girou primeiro o braço para um lado e logo para o outro, como se estivesse fascinado pela larga linha de sangue que percorria até o cotovelo. Impaciente, Shea tentou soltar-se, mas os dedos dele a apertaram com mais força ainda, embora sem olhar seu rosto. Atraiu o braço dela para a boca, e Shea pensou que seu coração deixaria de pulsar no peito. Sentia o quente hálito contra a pele. Ele tocou-a suavemente, quase com adoração, em uma larga e úmida carícia que eliminou a ardência da ferida. Sua língua, como veludo, lambia a ferida com supremo cuidado. A sensação de sua língua contra a pele enviou uma inesperada onda de calor que atravessou todo seu corpo. Sabia que ele estava tentando reparar o que havia causado. Olhou-o assombrada, incapaz de acreditar que procurasse curar seu estúpido arranhão quando seu próprio corpo estava tão terrivelmente mutilado… Aquele simples gesto lhe pareceu tão comovedor que os olhos de Shea se encheram de lágrimas. Acariciou seu despenteado cabelo.. — Temos que nos apressar, homem selvagem. Está sangrando outra vez. Soltou-a a contragosto e Shea cortou as cordas. — Não me importa que grite se tiver que fazê-lo — disse, embora sabia que não o faria. Levou uma eternidade lhe tirar as algemas. Embora agissem como guilhotinas, não eram muito forte. Quando seu pulso ficou livre, lhe sorriu triunfalmente. — Estará livre daqui a pouco. Retirou as pesadas algemas, revelando a pele obscurecida e chamuscada que lhe percorria as pernas de cima abaixo e atravessava seu peito. Shea soltou um palavrão. Enojava-lhe pensar que alguém podia ser capaz de tanta maldade.


— Estou bastante segura de que os que lhe fizeram isto foram os mesmos que me perseguiram também. É provável que tenhamos a mesma enfermidade do sangue — Um de seus tornozelos ficou, por fim, livre das algemas — Foi algo muito estranho. Faz uns anos, um grupo de fanáticos se uniram e decidiram que gente como nós somos vampiros. Mas imagino que isso já sabe… — Acrescentou desculpando-se. A última prisão caiu, e ela se desfez da guilhotina. — Seus dentes parecem mais desenvolvidos que os meus — percorreu seus dentes com a língua, assegurando-se de que realmente não eram como os dele, enquanto começava a arrancar os laterais podres do ataúde de madeira — Como não pode entender nenhuma palavra do que te digo, reconhecerei que me alegro de que seja assim. Não posso me imaginar mordendo alguém. Argh! Já me parece suficientemente desagradável necessitar de sangue extra para sobreviver… Terei que te cortar as roupas para lhe poder tirar isso. De todo modo, ele estava com a roupa podre. Jamais tinha visto um corpo tão maltratado antes. — Malditos sejam os que lhe fizeram isto… —Shea engoliu com dificuldade ao comprovar — Como puderam te fazer algo assim? E como pôde sobreviver? — Retirou o suor de sua fronte com o antebraço antes de inclinar-se sobre ele uma vez mais — Preciso colocar você sobre esta mesa. Sei que vai te causar bastante dor, mas não há como evitar. O que ele fez a seguir parecia impossível. Enquanto Shea sustentava o peso de seus largos ombros, em uma imensa demonstração de força, ele passou para a mesa. O sangue banhava sua fronte, deslizando sobre os lados de seu rosto. Durante um momento, Shea não pôde continuar. Sentia os estremecimentos que invadiam seu corpo e agachou a cabeça para ocultar as lágrimas. Não podia suportar vê-lo sofrer assim. — Terminará alguma vez seu sofrimento? — levou-lhe alguns minutos para recuperar o controle, antes de que lhe elevasse a cabeça para olhá-la fixamente com seus escuros olhos — vou ter que te deixar sem sentido. Será a única maneira de que possa continuar com isto. Se a anestesia não funcionar, golpearei-te na cabeça ou algo assim — E estava decidida a fazê-lo. Não ia torturar-lhe como tinham feito os outros. Ele percorreu sua face com um dedo, apagando o percurso de uma lágrima com essa simples carícia. Olhou a pequena gota fixamente antes de levá-la à boca. Shea observava aquele ato, estranho e íntimo, perguntando-se por que seu coração se derretia, quando nunca antes havia sentido algo assim.


Lavou-se meticulosamente e colocou luvas estéreis e uma máscara cirúrgica. Quando tentou colocar a máscara nele também, ele advertiu-a com uma silenciosa amostra de presas e o punho fechado, para que não o fizesse. Repetiu-se a mesma cena quando ela tentou lhe administrar uma injeção. Seu negro olhar não se separava dela. Shea sacudiu a cabeça. — Por favor… Não me faça trabalhar desta maneira, assim não. Não sou um açougueiro. Não posso fazê-lo, sem que te anestesie — tentou para que sua voz soasse forte e decidida e não implorante — Não penso fazê-lo. Olharam-se firmemente, envolvidos numa espécie de batalha mental. Os olhos escuros a abrasavam, ordenando-lhe obediência em sua fúria, a ponto de explodir. Shea passou a língua pelos lábios, mordendo o inferior, nervosa. Um brilho de satisfação resplandeceu no escuro olhar dele enquanto se deitava novamente, seguro de que tinha ganho. — Maldito cabeça dura… — Ela limpou a área em volta da estaca, enquanto desejava contar com a ajuda de uma boa enfermeira e ter à mão os instrumentos — Malditos sejam por te fazerem isto! — apertou os dentes e puxou com todas as suas forças. Ele moveu. Somente uma pequena onda de músculos, contraindo-se e flexionando-se, mas ela sabia que ele sentia uma profunda dor. A estaca não se moveu. — Maldição! Disse-te que não podia fazê-lo se estivesse acordado, não sou suficientemente forte. Empunhou a estaca ele mesmo e a retirou de seu corpo. O sangue começou aos borbotões, empapando-a, e ela começou a trabalhar silenciosamente, desesperada para suturar cada ponto de hemorragia tão rápido como podia. Não o olhou nenhuma só vez. Estava absolutamente concentrada na tarefa que estava fazendo. Shea era uma cirurgiã meticulosa. Trabalhava metodicamente, reparando o dano, a um passo rápido e constante, bloqueando sua mente a tudo o que a rodeava. Tinha colocado toda sua concentração na operação, segurando ele com a mente para que não morresse. Jacques sabia que ela não era consciente do quanto estava ligada a ele. Estava tão envolvida no que estava fazendo, que não parecia notar como harmonizava-se mentalmente com ele, para lhe manter a salvo. Como se tinha equivocado tanto com ela? A dor era insuportável, mas com suas mentes tão fortemente unidas, conseguia manter a lucidez. Shea teve que aumentar várias vezes a intensidade da luz para assegurar-se de que estava suturando bem todos os diminutos pontos de hemorragia. Esteve suturando durante horas. Centenas de pontos, internos e externos, para deixar o tórax como devia. Mas ainda não estava terminado. O resto dos cortes deviam ser lavados e fechados. A ferida mais


pequena necessitou só um ponto, as maiores, até quarenta e dois. Continuou sem descanso enquanto a noite se abatia sobre eles. Sentia os dedos intumescidos e lhe doíam os olhos por estarem continuamente abertos. Imperturbável, foi retirando a carne morta das feridas, forçando-se a utilizar a terra e sua saliva como cicatrizante, embora ia contra tudo o que a tinham ensinado na Faculdade de Medicina. Exausta, quase sem saber o que fazia, tirou-se a máscara e as luvas e examinou o resultado de seu trabalho. Ele necessitava de sangue. Seus olhos refletiam uma dor próxima à loucura. — Você precisa de uma transfusão — disse cansadamente. Fez um gesto com o queixo para assinalar o aparelho da transfusão. Os olhos negros a olharam implacáveis. Shea se encolheu, muito esgotada para protestar — Está bem, sem agulhas. Colocarei-a em um copo e poderá beber. O olhar dele não se separou de seu rosto enquanto ela aproximava a mesa da cama e com sua ajuda, transportou-o à comodidade do limpo e suave leito. Tropeçou duas vezes enquanto providenciava o sangue… Estava tão esgotada que virtualmente dormia de pé. — Tem que cooperar, homem selvagem. Necessita do sangue e eu estou muito cansada para lutar contigo — deixou o copo na mesinha de cabeceira, a poucos centímetros de seus dedos. Como um autômato, lavou-se, esterilizou os instrumentos, limpou a maca e mesa de operações e empacotou os restos do ataúde, os trapos podres e as toalhas ensangüentadas para enterrá-los na primeira oportunidade. Quando Shea terminou, só faltavam duas horas para o amanhecer. As venezianas estavam fortemente fechadas para bloquear a luz do sol. Tirou a chave da porta e pegou as duas pistolas do armário. Colocou-as perto da única poltrona cômoda que tinha e jogou uma manta e um travesseiro sobre a guarda, preparando-se para proteger a seu paciente com sua própria vida. Sabia que precisava dormir, mas ninguém ia mais machucar esse homem. No banho, permitiu que a água quente deslizasse sobre seu corpo, eliminando o sangue, o suor e a sujeira. Shea dormia em pé. Minutos mais tarde, uma sensação estranha em sua mente, quase como o roçar das asas de uma mariposa, despertou-a de repente. Envolveu seu comprido cabelo em uma toalha, pegou seu penhoar e saiu a comprovar o estado de seu paciente.


Uma vez desligado o gerador, caminhou até a cama. O copo ainda estava na mesinha. Cheio. Shea suspirou. Com muita suavidade, acariciou-lhe o cabelo. — Por favor faz o que peço e beba o sangue. Não poderei dormir até que você o faça e estou muito cansada… Embora só seja por esta vez, faz o que te peço, por favor… Ele traçou com os dedos, as delicadas linhas dos ossos do rostode Shea, como se estivesse memorizando cada forma, ou a acetinada suavidade de seus lábios. Estendeu a palma ao longo de sua garganta, envolvendo os dedos ao redor do pescoço. Aproximou-a para ele com tranquilidade, mas sem lhe permitir que voltasse atrás. — Não — A palavra foi mais um gemido que um protesto. Ele aumentou a pressão, mas quase com ternura, até que colocou seu pequeno corpo ao lado do seu sobre a cama. Seu polegar encontrou o ponto onde a veia pulsava freneticamente em seu pescoço. Shea sabia que devia resistir mas, por alguma razão, isso já não lhe parecia importante enquanto jazia indefesa entre seus braços. Sentiu sua boca deslizando-se sobre a pele nua, como um sussurro, uma tentação. Acariciava-a lentamente com a língua. Fechou os olhos tentando controlar a onda de sensações que invadiam sua cabeça. Ele estava ali. Em sua mente. Percebendo suas emoções, compartilhando seus pensamentos. Sentiu que o calor a envolvia enquanto ele colocava de novo sua boca contra seu pescoço. Seus dentes mordiscavam, sua língua acariciava… A sensação era curiosamente erótica. A aguda dor a deixou e se transformou numa sensação de sonolência. Shea relaxou contra ele, abandonando-se a suas carícias. Seria ele quem decidiria se vivia ou morreria. Estava muito cansada para que isso a importasse.

A contragosto, ele levantou a cabeça, deslizando sua língua cuidadosamente sobre a pele para fechar a ferida; degustou o sabor dela: quente, exótico… Uma promessa de paixão. Mas algo estava mal nele; podia dar-se conta disso. Os fragmentos de sua memória pareciam pedaços de cristal que perfuravam seu crânio, assim tentou não pensar nisso. Agora, ela era seu mundo. De alguma forma, sabia que ela era seu único elo com a prudência, o único caminho que o levaria fora dessa escura prisão de loucura e dor. Porque não tinha vindo lhe buscar na primeira vez que a chamou? Ele tinha total consciência de sua presença no mundo. Tinha usado toda sua força e tinha conseguido dominar sua mente, mas ainda assim, ela havia esperado. Jacques tinha toda a intenção de


castigá-la por ela o ter forçado a suportar a loucura e a dor… Mas agora, nada disso tinha sentido. Ela tinha sofrido muito por ele. Haveria alguma razão para que ela tenha resistido a sua chamada? Possivelmente o traidor ou os assassinos tinham estado seguindo-a. De todas as maneiras, qualquer que fosse a razão, ela já tinha sofrido muito em suas mãos. Não tinha sentido que lhe tivesse abandonado deliberadamente, para prolongar sua agonia. Tinha visto a compaixão em seu interior. Percebeu seu desejo de intercambiar sua vida pela dele. Quando tocou sua mente, percebeu só luz e bondade. Não era a mulher cruel e traiçoeira que tinha imaginado. Jacques estava fraco, muito vulnerável em seu atual estado, assim seria incapaz de proteger a qualquer um dos dois em caso de necessidade. Shea era pequena e frágil… Ele havia estado muito sozinho. Sem luz, sem cor. Tinha passado toda uma eternidade em solidão e não pensava voltar jamais para esse mundo feio e escuro. Fez-se um corte no peito e embalou a cabeça dela sobre ele, lhe ordenando beber. Uni-la a ele parecia uma coisa tão natural como respirar. Não poderia suportar que se afastasse de sua vista. Shea lhe pertencia e neste momento, necessitava tanto sangue quanto ele. O intercâmbio de sangue. Seu laço mental era forte. Quando seu corpo se curasse, completaria o ritual e ela estaria irrevogavelmente unida a ele para toda eternidade. Era um instinto tão antigo como o tempo. Sabia como e quando devia fazer. Tão pequena como era, sentia que Shea encaixava perfeitamente em seus braços, como se formasse uma parte dele. Nada disso tinha sentido, mas em seu pequeno mundo, não tinha importância. Enquanto se alimentava, movendo sua boca suave e sensual sobre a carne rasgada, ele levantou o copo e esvaziou descuidadamente o conteúdo em sua garganta. Quando tinha percebido que ela havia dormido no banheiro, ficou preocupado pela separação. Agora ela dormiria a seu lado, onde devia estar, onde poderia protegê-la se os assassinos lhes encontrassem. Possivelmente não tinha bastante força, mas o monstro de seu interior era forte e letal. Ninguém mais faria mal a essa mulher. O único fragmento da memória que conservava, gravado a fogo em sua mente, era o aroma dos dois humanos e o do traidor que tinha levado adiante fazê-lo sofrer o inferno em vida. Reconheceria as vozes e o aroma de seus torturantes. Esses demônios. Meu Deus… Como lhe tinham feito sofrer e como tinham desfrutado de seu sofrimento. Torturando-o até que a loucura se converteu num único refúgio. E ainda estava ali. Sabia que estava lutando para manter a prudência. Nunca esqueceria a fome que sentia enquanto lhe sangravam. Aquela fome tinha perfurado buracos em seu corpo, lhe percorrendo de cima abaixo, lhe consumindo tanto por


fora como por dentro. Para poder sobreviver, viu-se obrigado a dormir, detendo seu coração e seus pulmões para que não escapasse o pouco sangue que restava e despertando só quando a comida estava perto. Sempre sozinho, incapaz de mover-se, agonizando. Tinha aprendido o que significava o ódio. Tinha aprendido o que era a fúria. Tinha aprendido que existia um lugar onde não havia nada salvo, a não ser o terrível e apaixonado desejo de vingança. Seriam esses mesmos animais os que tinham tentado apanhar Shea? Pensar nela em suas mãos lhe adoecia. Aproximou-a para ele, para sentir sua reconfortante presenca. Estavam-na perseguindo? Estavam perto? Se a tinha castigado injustamente por seu fracasso na hora de lhe ajudar, jamais poderia perdoar-se. Pensava em matá-la, e quase o tinha feito. Mas houve algo em seu interior que o impediu. E mais tarde, ela tinha deixado de brigar, oferecendo seu sangue e sua vida por ele. Pensava que havia endurecido, que jamais voltaria a sentir nada, mas algo dentro dele se derreteu com sua oferenda. A maneira que ela tinha deslizado os dedos por seu cabelo, fez seu coração se acelerar. Amaldiçoou sua debilidade, tanto de corpo como de mente. Necessitava de mais sangue. Sangue quente, sangue humano. Aceleraria sua cura. Mas havia algo terrivelmente importante que lhe escapava… Deslizava-se de dentro para fora de sua mente, sem deixar outra coisa além da dor e raiva. Se pudesse mantê-lo por um momento, poderia recordar, mas nunca permanecia o tempo suficiente para fazer outra coisa que não lhe colocar louco. Era insuportável e frustrante não poder acessar a suas lembranças. Shea gemeu baixinho e o som lhe atravessou como uma faca afiada. Estava tremendo, mesmo protegida pelo roupão. Dirigiu o olhar rapidamente em seu rosto. Estava sofrendo. Podia perceber em sua mente. Instintivamente, colocou uma mão sobre seu estômago, com os dedos estendidos. Algo estava passando dentro de seu corpo. De novo pareceu avivar a mente e ele tratou de agarrar-se a alguma lembrança. Havia algo que devia saber. Era importante para ela.

Shea se encolheu, segurando firmemente a zona de seu estômago. Tinha os olhos totalmente abertos, estava muito assustada. E sentia um frio incrível… Como se não fosse encontrar calor nunca mais. Tremendo, só era capaz de balançar-se de um lado a outro enquanto que as ondas de dor sacudiam seu pequeno corpo uma e outra vez. O calor lhe abrasava as vísceras e consumia todos seus órgãos internos, oprimindo seu coração, seus pulmões. Rodou sobre a cama e caiu no chão, aterrissando duramente, tentando proteger seu paciente de qualquer vírus que tivesse contraído. A toalha se desenredou e seu cabelo se esparramou como sangue escuro ao redor de sua cabeça. Sentia o ventre ardendo. Uma fina


capa de suor cobria seu corpo. Uma débil linha de sangue atravessava sua fronte.

Jacques tratou de mover-se, de tentar pegá-la, mas seu corpo não lhe obedecia, permanecia ali pesado e imprestável. Não podia alcançá-la com o braço. Em cada movimento, a dor lhe atravessava, mas durante muitíssimo tempo seu mundo tinha consistido só na dor, assim já não conhecia outra coisa. Tinha sido sua única realidade na escura eternidade dos condenados. A dor não fazia mais que aumentar sua férrea vontade. Viveria para toda a eternidade e encontraria os que lhe tinham roubado seu passado. E usaria essa mesma vontade de ferro para encontrar a maneira de ajudar a Shea. O magro corpo da Shea se contorcia. Detia-se e se contorcia novamente. Ela ficou de joelhos, tratando de engatinhar até sua maleta médica. Não pensava no que fazia. O movimento era cego, instintivo. Não tinha nem idéia de onde estava nem do que lhe estava passando, só sabia que devia deter o fogo que a estava consumindo. Ele lutou para ajudá-la, enfurecido pela incapacidade de mover-se. Finalmente se aquietou, deslizando-se até sua mente como tinha feito tantas outras vezes em um esforço para salvar-se. —Venha para junto de mim. Venha para meu lado. Aquele sussurro, como um bálsamo de prudência, estava em sua cabeça. Shea sabia que ele não tinha falado em voz alta. Certamente estava sofrendo alucinações. Gemeu e deu a volta, encolhendo-se até adotar a posição fetal, fazendo-se tão pequena como lhe era possível. Não se aproximaria dele. Se era contagioso, ele não poderia sobreviver a uma gripe tão virulenta. E se ela não sobrevivesse? E se havia trazido ele ali, sem ninguém para lhe cuidar, para morrer lentamente de fome? De alguma forma tinha que lhe dizer que havia sangue no congelador. Era muito tarde. Outra onda de fogo a atravessou, consumindo-a por dentro, propagando-se por cada órgão. Só podia encolher seus joelhos como um animal mortalmente ferido e esperar que passasse. —Deve vir para mim. Posso ajudar a aliviar a dor. As palavras penetraram em sua mente durante um momento de lucidez. Parecia tão distinto… Já não importava se estava ficando louca, ou se se estava inventando a voz; a voz de sua mente tinha uma espécie de qualidade calmante… Como o contato suave de dedos frios sobre a pele ardente.


Shea estava a ponto de vomitar. Algo em seu interior, um pequeno laivo de dignidade, fez com que se arrastasse até o banheiro. Ele podia ouvi-la lutando para deter os intermináveis espasmos de seu estômago. A agonia de Shea era pior para ele que a sua própria; a fúria por sua impotência ia aumentando até que lhe consumiu por completo. As unhas se alargaram até converter-se em garras assassinas que rasgaram os lençóis. Fora, o vento se levantou, uivando nas janelas e destroçando as árvores. Um grunhido retumbou em sua garganta, em sua mente, aumentando de volume sem cessar. Ela estava tratando de lhe proteger.

Ele era o macho de sua espécie, um homem dos Cárpatos, e seu dever era proteger aos seus, mas ela estava passando um inferno e ao rechaçar sua ajuda, de algum jeito, estava-lhe transmitindo sua enfermidade. Sabia que o fogo que consumia as vísceras de Shea tinha um significado importante. Ela tinha que ir a ele; não sabia por que, mas cada instinto, cada célula de seu corpo demandava a obediência dela. — Deve vir para mim. Não posso me aproximar de ti. Não há perigo para mim, pequena ruiva. Devo insistir em que me obedeça. Foi uma demanda premente, a voz era suave, mas decidida. Parecia tirada de outro século, com um acento marcado. Ao mesmo tempo, essa voz acariciava sua pele, apaziguando-a, lhe oferecendo sua ajuda. No banheiro, Shea salpicou água fria no rosto e enxaguou a boca. Tinha um minuto ou dois antes de que chegasse a próxima onda de dor. Podia perceber as revoltas emoções do homem selvagem. Estava frustrado por sua incapacidade em ajudá-la, e determinado a alcançá-la apesar dela não responder. Surpreendia-lhe que ele precisasse ajudá-la. Era uma absorvente emoção que vibrava na atmosfera da casa. Shea queria fazer o que ele ordenava, mas aterrorizava-lhe a idéia de infectá-lo. Pelo modo que seu corpo se convulsionava e a dor que sofria, estava segura de que poderia lhe matar. Mas de uma vez, queria lhe permitir que a consolasse. — Não posso ir para você. — Deve vir para mim — Sua voz soava grave, uma tentação impossível de ignorar. Shea se afastou da parede e, tropeçando, retornou ao dormitório, o rosto estava pálido e sombras escuras sob os olhos. Os machucados e as feridas de sua garganta se destacavam. Parecia tão frágil, que ele teve medo de que ela voltasse a cair. Estendeu uma mão para ela, e a expressão de seus olhos escuros era uma mescla de amabilidade e


demanda. — Provavelmente me contagiei com a raiva — resmungou Shea com rebeldia, mas o fogo estava de novo consumindo seus órgãos, propagando-se dos músculos aos ossos e ao sangue. — Vem agora mesmo! Não posso suportar seu sofrimento nem um momento mais. Deliberadamente, usou aquele tom fascinante, para que ela sentisse a necessidade entristecedora de fazer o que lhe pedia. A voz parecia ressonar em sua mente, incitando a avançar até que chegou à cama, deitou-se enterrando o rosto no travesseiro, desejando morrer de uma vez. Afastou lentamente o cabelo de Shea do rosto com a mão, quase com ternura e deslizou os dedos por seu pescoço. Esforçou-se por procurar em sua mente a informação necessária. A chave devia estar em alguma parte, devia haver uma forma de acabar com aquele sofrimento, mas igual a seu passado, lhe fugia. Sentia que estava falhando, depois de tudo o que ela tinha suportado para mantê-lo com vida. Queria gritar como um louco, ou destroçar a garganta de alguém. Eles lhe tinham feito isto. Dois humanos e um traidor. Tinham-lhe roubado seu passado, tinham destroçado sua mente e o enterrado vivo no inferno. Mas o pior de tudo era que tivessem roubado a capacidade de proteger a sua companheira. Tinham criado um monstro cujas características não podiam nem sequer imaginar. Roçou a garganta lesada dela, examinando suas feridas. Shea estava a seu lado, apanhada em seu próprio mundo de sofrimento. Algo estava errado. Doía-lhe a cabeça. Amaldiçoou-se a si mesmo e envolveu um braço ao redor de sua cintura, pondo-a o mais cômodo possível. O amanhecer se elevava sobre eles, e quase sem dar conta, fez a única coisa que podia fazer. Enviou uma ordem cortante que obrigaria a ambos a dormir.


Capítulo 3 O silêncio da cabana foi interrompido pelo som das criaturas noturnas chamando umas a outras. O sol estava pondo e a terra lhes pertencia uma vez mais. O ar enchia os pulmões, um peito subia e baixava, um coração começava a pulsar. A sensação de angústia lhe envolveu, roubando o fôlego, invadindo sua mente. Permanecia esperando que sua mente se adaptasse às atrocidades que lhe tinham feito em seu corpo. A fome aumentava, penetrante, aumentando um vazio que nunca poderia ser preenchido. A fúria lhe transbordava, consumindo com a necessidade de matar, de encher aquele terrível vazio. Em meio as intensas e violentas emoções apareceu, de repente, algo doce e suave. Uma imagem. Valente. Formosa. Uma mulher. Não qualquer mulher, era a sua mulher, sua companheira. Toda cabelo vermelho e fogo. Caminhava como um anjo ali onde os homens temiam pisar, onde inclusive sua própria gente temeria aventurar-se. Com jeito, enroscou uma mecha dos sedosos cabelos ao redor de seu punho, temendo despertá-la, temendo que ela pudesse estar sofrendo. Shea, por que ela empregava seu nome? Muito a contragosto, deu ordem para despertá-la e observou o ar se introduzindo rapidamente em seu corpo, escutando o fluir do sangue circulando através de seu coração. Piscou. Ela se acalentara junto a seu corpo, procurando seu calor, sem se dar conta sequer. Cautelosamente, tocou sua mente, procurando danos. Apenas uns momentos depois de despertar, sua mente já estava tratando de assimilar tudo o que lhe tinha acontecido na noite anterior, repassando uma lista de enfermidades e seus sintomas. Seu corpo estava dolorido. Percebeu a fome, a debilidade e a preocupação por sua recuperação, sua prudência, o temor por quem e o que era. Sentia-se culpado por ter dormido em lugar de o vigiar. Também havia uma necessidade urgente de completar seu trabalho, sua investigação. Compaixão por ele, temor de que não pudesse curar-se e de que possivelmente lhe tivesse feito sofrer mais. Medo de que os pudessem encontrar antes de que ele estivesse o suficientemente forte para poder seguir seu caminho. As sobrancelhas dele se arquearam. — Nosso caminho é o mesmo. Ela se incorporou com muito cuidado e jogou para trás o cabelo, que estava enredado.


— Podia ter dito que falava meu idioma. Como faz isso? Como pode falar diretamente em minha mente, em vez de em voz alta? Ele se limitou a observá-la com curiosidade, com aquele escuro e insondável olhar. Shea o olhou com cautela. — Não está pensando em me morder outra vez, está? Tenho que dizer que não há um lugar em meu corpo que não esteja dolorido — ela dirigiu um sorriso apagado — Só por curiosidade… Suas vacinas da raiva estão atualizadas? — Seus olhos produziam uma estranha sensação em seu interior, fazendo fluir calor onde não deveria. Ele dirigiu o olhar a seus lábios. A forma de sua boca lhe fascinava, junto com a luz que claramente brilhava em sua alma. Elevou uma mão para roçar sua face, traçando a delicada curva de sua mandíbula com o polegar; as pontas de seus dedos deslizaram sobre o queixo até encontrar a sedosa perfeição de seu lábio inferior. Shea sentiu o coração bater forte e o calor desceu por seu ventre, misturando-se a uma dor diferente. A mão dele deslizava para sua nuca. Lenta e inexoravelmente, forçou-a a inclinar a cabeça para a dele. Fechou os olhos, desejosa, mas temia que ele voltasse a tomar seu sangue. — Odiaria ter que te alimentar assim todos os dias — murmurou rebelde. E então a boca roçou a sua. Ligeira como uma pluma, um leve contato que atravessoua até a ponta dos pés. Os dentes mordiscavam seu lábio inferior, jogando, tentando-a, excitando-a. Labaredas, fogo líquido corria por suas veias. Os músculos de seu abdômen se estiraram. — Abra a boca para mim, pequena ruiva teimosa. Os dentes mordiam, mas a língua seguia em uma carícia calmante. Shea ofegou, um gemido suave e curioso, como a sensação dos lábios sobre os dela. Ele aproveitou a vantagem rapidamente, fixando sua boca à dela, explorando com a língua cada milímetro da suave cavidade. Sentindo-se consumida pelas chamas, que a envolviam como uma tormenta de fogo, Shea averiguou o significado da palavra “química”. Sentimentos. Puros e simples. Nada tinha importância, salvo a boca dele sobre a sua, levando-a para um mundo que nem sequer sabia que existisse. Shea segurou com força seus ombros. Ele estava derrubando todas as suas defesas, obrigando-a a responder e desfrutando de sua resposta, em uma onda de fome e


desejo. De repente ele apareceu em sua mente, todo calor e posse. Ele era dela. Só dela. Sempre dela. Shea se afastou da firmeza dos ombros dele e caiu ao chão, limpando boca com o dorso da mão. Olharam-se fixamente, um ao outro, até que o riso dele penetrou em sua cabeça. Um riso rouco, masculino, travesso. Sua fisionomia não mostrava nenhum sinal… Nem sequer uma piscadela dos olhos de gelo, mas sabia que ele estava rindo dela. Levou um momento até dar-se conta de que estava com a camisola aberta, lhe oferecendo uma generosa vista de sua pele nua. Com toda a dignidade que pôde reunir, Shea fechou a veste. — Acredito que deveríamos esclarecer algo — disse ainda sentada no chão, tentando desesperadamente manter sua respiração sob controle, e desejando ter à mão um cubo de água gelada para apagar o fogo que corria por suas veias. Temia que ele não a levasse a sério — Sou sua médica, você é meu paciente. Isto… — agitou uma mão enquanto procurava as palavras adequadas — Não é ético. E outra coisa. Aqui mando eu. E você deve cumprir minhas ordens e não ao inverso. Absolutamente nunca, sob nenhuma circunstância, faça isso outra vez — involuntariamente levou os dedos até seu lábio inferior — Não teria passado por algo assim se não tivesse me infectado com algo, o que quer que seja… A raiva, acredito — olhou-o fixamente para observar sua reação. Ele limitou-se a observá-la com um olhar desconcertante. Shea suspirou, enrugou o nariz e tentou dirigir a conversa para um tema mais seguro. Acreditava que ele estava meio morto. Deveria ter estado morto. Ninguém deveria ser capaz de beijar assim depois de ter passado por uma tortura semelhante… Jamais tinha respondido a um beijo dessa maneira. Nunca. O efeito que ele tinha sobre ela, parecia incrível. Houve um repentino brilho em seus olhos, entre ardente e divertido. — Nenhum outro homem deve te fazer responder assim. Não me agradaria. — Deixa de ler minha mente! — Ela estaca com as faces avermelhadas como um tomate. E, olhando-o furiosa, acrescentou — Esta é uma conversa totalmente imprópria para uma doutora e seu paciente. — Possivelmente, mas não para nós. Shea rilhou os dentes, seus olhos verdes lançavam chispas. — Cale-se! — disse com voz áspera, um tanto desesperada.


Tinha que encontrar um modo de recuperar seu controle e ele não estava ajudando em nada. Inspirou profundamente para tranqüilizar-se e tentar recuperar sua dignidade. —Tenho que higienizar você. Seu cabelo está precisando de uma boa lavagem — Shea ficou em pé e passou os dedos pela espessa cabeleira de ébano, sem se dar conta do quão íntimo parecia o gesto — Você foi o número sete… Pergunto-me se haverá alguém mais vivo. Deus! Espero que não. Não tenho forma de lhes encontrar. Ao voltar-se, ele segurou seu pulso. — Como que era o número sete? Shea suspirou mansamente. — Aqueles homens, que me perseguiam, tinham fotografias de algumas das vítimas assassinadas faz uns sete anos. Eram uns oito corpos, mas parece que havia mais vítimas das quais ninguém sabia. O pessaol se referia a estes casos como os “assassinatos de vampiros”, porque vítimas eram aniquiladas com uma estaca de madeira lhes atravessando o coração. As fotos que me mostraram estavam numeradas. A número sete era a tua… Você… Foi você. Os olhos escuros faziam mais perguntas. A fome estava aumentando, até chegar a transformar-se em uma aguda e profunda dor. Ele estava tão introduzido em sua mente que já não sabia quem dos dois era o que necessitava de sangue tão desesperadamente. — Sabe qual é seu nome? Uma sombra de confusão atravessou seu rosto. — Você sabe, é minha companheira. Shea abriu os olhos, tomada pela surpresa. — Companheira? Você… Você crê que nos conhecemos? Nunca havia te visto antes em minha vida. Os olhos negros se cerraram. A mente dele entrou mansamente na dela… Parecia confuso, subitamente consternado. Tinha a certeza de que ele estava mentindo. Shea passou uma mão pelo cabelo, e o gesto abriu sua roupa e elevou seus seios. — Está bem… Sonhei, sonhava contigo. Às vezes pensava em você… Inclusive sentia sua presença. Mas em realidade jamais o havia visto em pessoa até duas noites atrás — De verdade tinham se passado só quarenta e oito horas? Pareciam-lhe toda uma vida — Algo me atraiu ao bosque, para o porão. Não sabia que você estava ali.


Mais confusão. — Não sabia? Ele explorava sua mente. Podia o sentir dentro de sua cabeça e era uma sensação estranha. Era-lhe familiar… Reconhecia o contato. Era estranho, emocionante, mas lhe assustava pensar que alguém tivesse um conhecimento tão íntimo de sua pessoa. Disse a si mesmo que permitia sua exploração mental unicamente porque ele parecia muito perturbado. Sentia uma necessidade física de lhe tranqüilizar, de eliminar toda a dor de seu corpo e sua mente. E essa inquietação não tinha nada a ver com o modo em que a fazia sentir… Tudo o que a rodeava parecia tão diferente… As cores eram mais vívidas, de uma surpreendente variedade de matizes. Inquietava-lhe ter aceito tão rapidamente aqueles estranhos sentimentos e se sentia um pouco incômoda pela facilidade com que ele se infriltrava em sua mente. De repente, dedos se fecharam em torno de sua mão como um círculo de aço. — Sou Jacques. Sou seu companheiro. E asseguro que posso compartilhar sua mente. É meu direito, como é o teu de compartilhar a minha. Mais que um direito, é uma necessidade para ambos. Shea não tinha nem idéia do que ele estava falando, assim ignorou seus comentários, muito mais preocupada por quão alterado ele parecia por sua falta de conhecimentos. Sentiu vontade de novamente acariciar seu cabelo. — Pode usar sua voz? A resposta apareceu em seus olhos, a impaciência, a frustração ante sua própria incapacidade. Acariciou-lhe a fronte com os dedos, lhe acalmando, como um bálsamo. — Não se preocupe. Seu corpo sofreu muito. Dê-lhe um pouco de tempo. Está se recuperando assombrosamente rápido… Sabe quem te fez isto? — Dois humanos e um traidor. A voz irradiava fúria e por um momento, na profundidade de seus olhos, apareceram intensas labaredas vermelhas. Shea sentiu o coração quase dar um enfarte e deu um salto para trás, tentando colocar distância entre eles. Mas ele foi mais rápido. Seu braço se converteu em uma mola


precisa, e de repente seus dedos estavam fechados sobre seu pulso, lhe impedindo a fuga. Não havia forma de livrar-se de sua prisão. Percebia uma força ilimitada nele, embora não lhe fizesse mal. Com esforço, ele conseguiu enterrar seus próprios demônios, zangado consigo mesmo por havê-la assustado. Massageava serenamente a parte interna de seu pulso com o polegar, plenamente consciente de que seu pulso também disparava. Com muita, muita delicadeza, trouxe-a para si, até que ela se colocasse junto a ele. — Lembro muito pouco de meu passado… Mas, com certeza, desde o começo de meu encarceramento, soube de ti. Esperava. Chamava-te para que viesse me buscar… E te odiava porque permitia que meu sofrimento continuasse. Shea encerrou o rosto dele entre as mãos, ansiosa para que ele acreditasse nela. — Não sabia. Juro-lhe, não sabia. Jamais o teria deixado ali — a pena lhe obstruía a garganta, a dor por não ter tido a oportunidade de terminar antes com seu sofrimento. O que tinha ele que a atraía como um ímã, que cativava sua mente e a fazia desejar aliviar sua dor? O impulso era tão forte, tão intenso, que não podia suportar vê-lo deprimido, vulnerável e destroçado. —Sei que está dizendo a verdade. Não conseguiria me mentir. Foi muito valente ao ir resgatar-me. Mas, como seu companheiro, não posso a não ser te proibir que te arrisque assim de novo. Parecia totalmente satisfeito, como se ela fosse fazer o que ele queria simplesmente porque desejava. Cada vez que despertava voltava mais tirano, mais possessivo. Shea dirigiu-lhe um olhar furioso. Os olhos verdes ardiam perigosamente. — Pode deixar de me dar ordens, senhor Jacques, ou o que seja. Ninguém me diz o que tenho que fazer. O escuro olhar deslizou sobre ela tranqüilamente. Ela não tinha tomado parte de sua vida antes… A informação o assombrava. De onde havia tirado a força necessária para lhe salvar da maneira que tinha feito? Por que havia tornado a lhe buscar depois que ele afrontosamente havia lhe destroçado a garganta? Dedos firmes se apertaram em torno de seu pulso, acalmando-a até que relaxou contra seu corpo. — É minha companheira.


As palavras surgiram de algum lugar no profundo de seu coração. Não tinha nem idéia de porque precisava as dizer, mas sabia que era imprescindível que o fizesse. Parecia que todo seu ser obrigava as palavras a sair do fundo de sua alma. — Eu te reclamo como minha companheira. Pertenço-te. Ofereço-te minha vida. Dou-te meu amparo, minha fidelidade, meu coração, minha alma e meu corpo. Para compartilhá-lo, todo. Sua vida, sua felicidade e seu bem-estar serão vitais para mim. É minha companheira. Está unida a mim para toda a eternidade e sempre sob meu cuidado. Shea escutou o eco das palavras na mente e sentiu que uma onda de calor atravessava seu corpo, e seu sangue. Mas também sentiu temor… Estava aterrorizada. — O que nos tem feito? — Sussurrou com os olhos muito abertos — O que nos tem feito? — Você sabe a resposta. Ela sacudiu a cabeça com força. — Não! Não sei. Mas algo mudou dentro de mim, posso sentir. Essas palavras dizem algo — podia sentir, mas era incapaz de descrever. Sentia que um milhão de finíssimos fios se cruzavam entre si para formar uma forte e sólida rede que unia sua alma a dele, quão mesmo suas mentes, tornando-as inseparáveis. Tinha deixado de sentir-se como uma única entidade, como um único ser e se dava conta de que só estaria completa com ele a seu lado. O terrível vazio que sempre tinha existido em seu interior tinha desaparecido. Com reticência, livrou-lhe o pulso e acariciou o rosto feminino com os dedos. Sua mente tocou a dela, encontrando um genuíno medo e muita confusão. — Sei tão pouco disto como você. Sei unicamente que estou seguro e que terminou com meu sofrimento, de que ouviu minha chamada e de que te reconheci como minha outra metade. É a luz que ilumina minha escuridão. Shea afastou-se pouco a pouco dele, assegurando-se de ficar fora de seu alcance. — Sou sua médica, Jacques, nada mais. Curo pessoas. Disse-o mais por ela mesma que por ele. Shea não tinha a mínima idéia do que ele estava falando. Preocupava-lhe que sua mente estivesse pregando-lhe uma peça, fazendo-o acreditar em coisas que não eram mais que fantasias. Racionalmente, Shea sabia que ninguém podia prender outra pessoa simplesmente com palavras, mas ainda assim sentia que esses fios invisíveis os uniam. Havia muitas coisas que não entendia. Jacques estava meio louco, tinha a mente destroçada e não guardava mais que pequenos retalhos de sua memória,


mas mesmo assim, possivelmente ele estava ciente que ela era… Era aterrador pensar. Estava com muita fome… A necessidade de sangue era irresistível. Jamais havia experimentado um anseio tão grande. Shea disse a si mesma que o que percebia era a fome de Jacques, que de algum modo estava compartilhando sua angústia. Em seguida, serviu ao homem selvagem duas unidades de sangue de seu fornecimento, no copo grande que havia na mesinha. — Sinto muito, deveria ter me dado conta de que tinha fome. Se me permitir administrar fluídos intravenosos, poderia te ajudar — no momento em que baixou o copo, retirou-se para a mesa do computador. Ele ignorou seu comentário. — Por que não se alimenta? — fez a pergunta num tom indiferente, curioso. Seus negros olhos pareciam pensativos enquanto a estudava. De sua posição segura, do outro lado da sala, observou-a atentamente. O mero fato dele a olhar fixamente a desconcentrava e a deixava sem fôlego. Sentia-se muito possessiva com seu paciente… Não podia misturar sua vida com ele. Encontrava-se assustada e alarmada ante essa reação… Sempre mantinha os sentimentos a distância, afastada, separada das pessoas e das coisas que a rodeavam. Sua mente se limitava simplesmente a registrar fatos e feitos. Mas nesse momento, só podia pensar nele, em sua dor e em seu sofrimento, no modo em que seus olhos a observavam, semicerrados, atrativos… Surpreendeu-se. De onde tinha saído esse pensamento? Sabendo que ela não gostaria de saber que estava lendo sua mente nesse preciso momento, Jacques se comportou como um cavalheiro e simulou estar pouco interessado. Era agradável saber que ela o considerava atraente. Satisfeito consigo mesmo, voltou a deitar-se na cama e fechou os olhos. Seus negros cílios contrastavam com a palidez de sua pele. Apesar de ter os olhos fechados, Shea sabia que ele podia perceber cada movimento que fazia. — Descanse enquanto tomo um banho e troco de roupa. — levou as mãos aos cabelos negros, num inútil esforço por arrumá-lo um pouco. Ele permaneceu com os olhos fechados e a respiração relaxada. — Posso perceber sua fome. Sua necessidade de sangue é quase tão grande como a minha. Por que me tenta ocultar isso? — Subitamente se deu conta de algo e suspirou —


Ou é o que oculta a ti mesma, suas próprias necessidades? É isso… Não reconhece sua fome, sua necessidade. A amabilidade de sua voz encheu seu corpo de um inesperado calor. Furiosa e com medo de que ele pudesse estar certo, dirigiu-se para o banho com passo majestoso, desfezse de sua roupa, e deixou que a água quente da ducha caísse como uma cascata sobre sua cabeça. Sua risada foi grave e cheia de brincadeira. — Tem pensado escapar de mim, pequena ruiva? Vivo em ti, da mesma maneira que você em mim. Shea soltou um gemido e voltou-se, tratando freneticamente de alcançar uma toalha. Levou alguns segundos até dar-se conta de que ele ainda estava na sala. A conexão entre eles estava se fortalecendo. Mas agora desejava essa conexão, desfrutava dela, embora a fizesse sentir-se incômoda em aceitá-la como normal e natural. Ter uma intimidade assim com outra pessoa, quando certamente não o era. De repente, se deu conta de que suas funções corporais não eram mais as mesmas. Como sempre, seu intelecto se preparou para analisar a situação. Começou a processar a informação sem emoção alguma, classificando as distintas mudanças que experimentava, conectando-as com sua recente enfermidade e com o ardor de seus órgãos internos. Era uma loucura, mas sabia que estava fisicamente diferente. Algo tinha reestruturado seu código genético. Shea levou tempo trançando o cabelo. Vestiu uma calça jeans, e uma camiseta de algodão… Permitindo que sua mente se adaptasse às novidades. Era aterrador e fascinante. Se pudesse, gostaria de observar em outra pessoa, não nela mesma. Era difícil aceitar as coisas racionalmente quando era o próprio corpo o que estava estudando. — Um corpo tão formoso, além disso. Quase deixou cair a escova. —Quer parar com isso! — o mero contato de sua grave e aveludada voz, fazia com que uma espécie de calidez envolvesse todo seu corpo. Era escandalosamente injusto que tivesse uma voz semelhante. — Acreditei que nunca falaria comigo como o faria uma companheira. esperei muito tempo que fizesse esse comentário impaciente — sua voz tinha agora uma nota zombadora. Shea permaneceu imóvel. Seu rosto, refletido no espelho, estava visivelmente pálido.


Não havia dito as palavras em voz alta, e mesmo assim ele havia ouvido. Preocupada, cravou os dentes no lábio inferior. A mudança não só afetava seu corpo. Suas habilidades estavam aumentando. Podia falar com ele facilmente usando a mente. Era alarmante que pudesse conceber como normal. Se não pensasse, se não o analisava, quase podia aceitar. Notou que estava tremendo. Estendendo as mãos comprovou, zangada, como se agitavam. Era uma doutora, nada deveria alterar sua compostura. Mais que isso, Shea conhecia seu próprio valor, tinha confiança completa em si mesmo. Levantou o queixo, dirigiu-se para a sala principal e evitando olhá-lo, abriu a geladeira e tirou um pouco de suco de maçã. Seu estômago se contraiu. A simples idéia de ingeri-lo a fazia sentir-se doente. Algo em seu interior tinha mudado drasticamente, como suspeitava. Precisava tomar mais amostras de sangue e averiguar o que estava acontecendo em seu corpo. E era a primeira vez em sua vida que estava receosa em estudar os resultados. — O que está fazendo? — Perguntou curioso. — Em realidade, não estou muito segura. Pensava tomar um pouco de suco, mas… — sua voz se apagou, não sabia muito bem o que dizer. Shea sempre sabia exatamente o que fazia… Mas agora se sentia completamente perdida. Verteu o suco em um copo e ficou olhando-o, desconsolada. — Ficará doente. Não toque isso. — Por que me sentiria mal com um suco de maçã? — Perguntou curiosa Sabia ele o que estava acontecendo? — Necessita de sangue. Não está o suficientemente forte ainda. Examinei seu corpo. Embora ainda não possa te ajudar, posso perceber a necessidade que tem de receber uma alimentação adequada. Seu corpo não está suficientemente nutrido para tanta energia que gasta. — Não penso discutir sobre o que deveria ou não deveria fazer — Chateava-a notar que ele parecesse tão preocupado, quase terno. Havia algo em sua voz que a fazia desejar poder lhe dar tudo o que pedia, inclusive beber sangue. Podia cheirá-lo. Podia ouvir seu coração e o sangue fluindo por suas veias. Por um instante, permitiu que o som ressonasse em sua cabeça, alimentando a fome que a corroía. Mordeu com força o lábio inferior. Precisava separar-se um pouco dele. Sua personalidade era extremamente entristecedora. De repente, algo que estava profundamente enterrado em seu interior, algo selvagem


que nem sequer sabia o que era, clamava por ele. A química era tão forte que se alterava tão somente o fitando. Shea pegou a chave da porta da cabana e começou a abri-la. — Pare! —A ordem foi suave, ameaçadora, mas pôde perceber um matiz de desespero. Subitamente, a porta se fechou de repente, como impulsionada por uma força desconhecida. Impressionada, deixou cair o copo de sua mão, que espatifou-se no chão. Ficou observando como o suco se esparramava numa mancha dourada… O desenho era particularmente estranho, parecia a caricatura de um lobo. Com muito esforço, Jacques conseguiu controlar-se. Era um absoluto inferno ser incapaz de se mover, estar preso em um corpo inútil. Inspirou profundamente e deixou sair o ar dos pulmões pouco a pouco, tentando eliminar o terror que a imprudente ação dela lhe tinha causado. — Sinto muito, Shea. Nem sequer fez um sondagem para ver se havia perigo por perto. Estão nos procurando. Jamais se esqueça. Deve permanecer a meu lado para que eu possa fazer algo por ti se houver alguma ameaça. Não foi minha intenção te assustar. Olhou-a fixamente. Os olhos verdes estavam perplexos. — Não sei o que quer dizer com isso de “fazer uma sondagem”. — disse ausente, como se sua mente estivesse em outra coisa. — Vem aqui comigo — a voz foi como um sussurro sobre sua pele. Estendeu uma mão para ela, com o olhar carregado de intenção faminta. Desejava algo dela, algo que ela não se atrevia nem a pensar. — Nem sonhe! — Ele era tão sensual… Tão atrativo que lhe cortava a respiração. Shea sentiu a parede atrás dela e se apoiou para poder manter-se em pé. — Não te estou pedindo tanto, só que caminhe até aqui… São só uns passos — Aquela voz lhe acariciava, a seduzia, enchendo sua mente de uma onda de calidez. Olhou-o interrogativamente. — Você sabe o que me está acontecendo, não? Fez-me algo… Sei que o fez. Posso sentir. Diga-me o que tem feito. Tinha o rosto pálido e seus enormes olhos o observavam, acusadores.


— Agora somos um. Nosso destino era estar juntos. Aquilo, para ela, era como um quebra-cabeças. Jacques percebia a confusão dela enquanto permanecia escondido em sua mente, como uma sombra. Mas ele estava tão confuso quanto ela. Realmente não entendia o significado de sondar, algo que para ele era tão natural como respirar. Mesmo assim, não estava seguro de poder explicar adequadamente. Por que ela não sabia essas coisas? Era ele que estava ferido, com a memória pulverizada. Shea esfregou a fronte com uma mão trêmula. — Você fechou a porta, verdade? Arrancou-me isso das mãos e a empurrou da cama… Fez com a mente, não foi? Ela podia fazer muitas coisas, tinha dons especiais, mas este homem desconhecido tinha poderes que sequer podia chegar a compreender. Quem era ele? Que mais era capaz de fazer? Se a diferença das habilidades de ambos era tão grande, teria permitido que alguma força externa ditasse suas próprias ações? Shea não sabia qual seria a resposta. Imediatamente, Jacques tentou tranqüilizá-la. Não imaginava o que a havia perturbado tanto. A capacidade de mover coisas com a mente formava parte de sua natureza, mas precisava eliminar sua angústia. Enviou a sua mente tranqüilidade e calidez, bem-estar. — Sinto muito, Shea, unicamente pensava em seu amparo. É difícil para mim saber que nos perseguem e que não posso te proteger, que não podemos abandonar este lugar por culpa de minha debilidade. Está atada a mim e eu a estou pondo em perigo. Fez tudo o que pôde para eliminar o medo que sua desconsideração tinha causado. Ela merecia muito mais que um companheiro louco. Parecia que não sabia o que realmente teriam que fazer para sobreviver. — Não pode fazer uma idéia dos monstros com os quais estamos tratando. É muito importante que faça uma sondagem assim que desperte, antes de sair de casa — Tratou de ser amável enquanto a informava. Era tão fácil para ele ler seus temores… — Não sei o que quer dizer… Sua genuína confusão lhe provocou um impulso protetor tão forte que sacudiu os alicerces de seu pequeno mundo. Desejava tomá-la em seus braços e protegê-la para toda a eternidade, guardá-la dentro de sua alma. Parecia incrivelmente pequena e frágil e os interrogatórios em sua mente eram tão fáceis de ler como a preocupação que aparecia em seu rosto. Abriu muito os olhos quando de repente compreendeu.


— Você não conhece as habilidades de nossa gente, verdade? — Que gente? Sou americana, descendente de irlandeses. Vim aqui para investigar uma estranha enfermidade sangüínea que, por certo, parece que você também tem. Nada mais — Ela estava mordendo os lábios sem dar-se conta e tinha os nódulos dos dedos brancos, ao apertar os punhos. Seu corpo estava tenso, esperando a resposta. Amaldiçoou sua incapacidade para recordar as coisas fundamentais… Tinha certeza de que eram muito importantes para ambos. Se estava tão perdida como ele, estavam numa grande enrascada. Era frustrante ter tantas lacunas em sua mente. — Você pertence a este lugar. Posso sentir sua conexão com esta terra. E sei, com toda segurança, que é minha, que nos pertencemos um ao outro. Shea sacudiu a cabeça. — Minha mãe era irlandesa. Meu pai nasceu nesta região, mas jamais cheguei a conhecê-lo. Vim aqui pela primeira vez faz só um par de meses. Juro-te que jamais tinha estado aqui antes. — Não temos nenhuma enfermidade, nem nada disso. Nossa gente existiu desde o começo dos tempos — Não sabia de onde provinha essa informação, simplesmente sabia. — Mas isso é impossível… Pessoas normais não precisam beber sangue para sobreviver. Sou médica, Jacques. Dedico-me a investigar a maioria do tempo e sei do que estou falando… Isto é muito estranho, é verdade — notava que o ar se negava a abandonar seus pulmões. — Pode acreditar que permaneci enterrado vivo uma eternidade, e ainda assim não acreditar que nossa gente existe? Shea se agachou para recolher os cacos de cristal espalhados pelo chão. Precisava manter-se ocupada com algo enquanto tratava de recuperar o controle. O que queria dizer em realidade? Que não tinha nenhuma enfermidade sangüínea, que… Que pertencia a outra raça, a outra espécie? — Não sabemos a quanto tempo estava lá… — disse nervosa, enquanto limpava cuidadosamente o suco. — Quanto tempo faz que lhe mostraram minha foto? Shea atirou os cacos no lixo.


— Faz dois anos — admitiu reticente — Os assassinatos de vampiros ocorreram há sete anos. Asseguraram-me que as fotos eram daquelas vítimas… Mas seria impossível, totalmente impossível, que tivesse sobrevivido enterrado durante todo esse tempo. Diria que lhe colocaram nesse ataúde, com uma estaca no peito, há sete anos? É impossível, Jacques — Virou-se para ele, olhando-o com seus enormes olhos — Ou não? — Não se detiver meu coração e meus pulmões. Dessa maneira, o sangue não circula. — Explicou ele, escolhendo as palavras cuidadosamente, tentando não inquietá-la. Mas teve o efeito contrário. — Pode fazer isso? Sério? — agora ela parecia excitada — Pode controlar seu ritmo cardíaco, reduzi-lo ou acelerá-lo? Pelo amor de Deus! Jacques, isso é incrível! Há alguns macacos que podem fazer um pouco parecido, mas nada semelhante ao que você me dá a entender. — Posso deter meu coração se for necessário. E você também pode fazê-lo. — Não, eu não posso fazer isso — Fez um gesto com a mão, como dizendo que isso não tinha sentido algum — Mas, foi o que fez? Deteve seu coração? Foi como sobreviveu ao enterro? Senhor, isso deve ter te colocado louco… Ainda não posso acreditar!… E como se alimentava? Tinha ambas as mãos amarradas — Em sua excitação, não parava de fazer perguntas e de pensar em voz alta. — Algumas vezes despertava, somente quando detectava sangue por perto. Atraía às criaturas para mim. Tenho certeza que você também pode fazê-lo — agradeceu que, ao menos por uma vez, pudesse responder ao que perguntava — E, de algum jeito, arrumei como fazer um buraco na madeira para lhes permitir entrar. Shea podia convocar aos animais, tinha-o feito desde que era uma menina. E esse talento, que pelo visto compartilhava com Jacques, explicava os cadáveres de ratos consumidos que tinha visto enterrados junto a ele na parede. — Está me dizendo que há mais gente que pode fazer essas coisas? — Foi correndo para o computador, ligando o gerador para que funcionasse — Que mais se recorda? Estava tão excitada que ele desejava poder lhe proporcionar mais informação, mas por muito que procurou em sua mente, as lembranças lhe fugiam e tão somente conseguiu que lhe doesse a cabeça. Shea percebeu sua angústia. Observou o tênue brilho das gotas de suor que tomavam sua fronte. Seu olhar se tornou mais suave e sua boca se curvou brandamente.


— Sinto muito, Jacques. Foi horrível de minha parte te pressionar. Não force mais. As lembranças voltarão para ti com o tempo. Já me deste muita informação com que seguir trabalhando. Descanse. Agradecido por sua compaixão, Jacques deixou escapar os fragmentos de sua memória por um momento, para que lhe deixassem em paz. Observou com interesse como Shea extraía amostras de sangue de seu próprio braço e colocava várias gotas sobre uns pequenos retângulos de cristal. Estava muito nervosa, a felicidade embargava seu corpo de tal forma que inclusive tinha esquecido sua fome. Sua mente estava totalmente concentrada em feitos, hipótese, e dados. Agora estava longe dele, completamente absorta em seu trabalho. Enquanto a olhava, Jacques alcançou penosamente o copo que estava no extremo da mesa, e tragou o conteúdo para aliviar sua própria e urgente fome. Ao cabo de uma hora, Shea continuava completamente concentrada no que estava fazendo, totalmente absorvida com seu trabalho. Desfrutava observando-a. Achava-a fascinante… Cada movimento de sua cabeça, o bater de seus cílios, quando ficava de perfil… Freqüentemente jogava o cabelo para trás quando estava confusa. Seus pequenos dentes mordiam com freqüência o exuberante lábio inferior. Seus dedos voavam sobre o teclado, com o olhar cravado no monitor. Com freqüência, consultava notas e vários livros com um ligeiro e encantador cenho franzido. Descobriu que gostava desse pequeno gesto, e o hábito que ela tinha de morder o lábio. Cada vez que ele percebia a fome palpitando em seu interior, ela parecia capaz de deixá-la de lado. Tal e como havia afastado temporalmente a dele, fora de seus pensamentos. Não que isso lhe alegrasse, mas se sentia orgulhoso dela. Em tudo o que fazia, ela colocava o coração. Mas Shea ainda não fazia uma idéia dos perigos que corria. Estava tão absorta em seu trabalho que bloqueava tudo o que havia a seu redor. Jacques pensou em lhe recordar os riscos que corriam mas, em vez disso, optou por permanecer o suficientemente alerta para sondar os arredores, deslizando-se dentro e fora do sonho dos mortais. Jacques sacudiu a cabeça para limpar-se, quatro horas mais tarde, e amaldiçoou o movimento que enviou ondas de dor através de seu corpo. Tinha fome, sentia-se fraco e um pouco enjoado. Os olhos negros se cravaram em Shea. Ela estava olhando atentamente um livro de notas enquanto mordiscava um lápis. Tinha a pele muito pálida, quase translúcida. A sala estava repleta das intensas emoções que emanavam de seu corpo, mas ela parecia não dar-


se conta. Sua mente lutava por unir-se a dele; podia perceber como tentava lhe sintonizar, vibrando de necessidade. Mas Shea era disciplinada, forte e muito decidida. Mantinha seus pensamentos sob controle, concentrando-se unicamente em seu trabalho. Sentiu que parte do gelo que cobria seu coração se desfazia… O ódio gelado e a fúria, a necessidade de vingança e castigo, essas tinham sido as coisas que lhe tinham mantido com vida. Não havia acreditado que ainda era capaz de sentir ternura, mas Shea havia conseguido mais esse feito, para demonstrar-lhe. Acima de tudo, era um predador. Shea era a luz de sua escuridão, irradiava beleza, como se sua alma brilhasse através da pele. Tinha introduzido emoções cálidas nele. Necessitava de uma pausa, tinha que descansar. E, sobretudo, precisava alimentar-se. Se fosse completamente honesto, precisava que ela lhe tocasse, que lhe prestasse atenção. Deliberadamente, gemeu baixinho em sua mente, fechando os olhos. Imediatamente, percebeu sua inquietação. O ranger de papéis lhe indicou que ela havia deixado de lado suas notas. Jacques tentou diminuir a sensação de triunfo concentrando-se na dor que consumia seu maltratado corpo. Shea deslizou pela sala sem dar conta do quanto silenciosamente o fazia nem do eficiente que se tornou seu corpo, que se movia com graça e rapidez. Notou sua mão fresca sobre a testa, lhe acalmando. Passou os dedos por seu imundo cabelo e seu contato era tão suave que lhe diminuía o coração. Ela se inclinou para examinar as feridas de maneira profissional. Os antibióticos não lhe faziam efeito, como tampouco a ela. Possivelmente acrescentar mais terra ajudaria. — Sinto muito, mas não posso evitar que lhe doa, Jacques. Oxalá pudesse. — sua voz estava cheia de preocupação, de pesar — Conseguirei um pouco de terra fresca e lavarei seus cabelos. Não é muito, mas poderia te acalmar e ajudar em tua recuperação — ela enredou os dedos em seus cabelos novamente e depois em volta do queixo numa suave carícia. Levantou as mãos, apanhando-a com força e seus olhos negros se cravaram nos dela… Shea pressentiu que poderia cair nesses escuros e misteriosos poços. — Não te alimentaste. Estava segura, poderia perder-se nesse penetrante olhar por toda a eternidade. Percebia o som do coração do Jacques, compassando-se ao seu próprio. Era estranho, e entretanto lhe parecia do mais normal que seus corações desejassem pulsar ao


mesmo ritmo. — Não bebo sangue humano. Faço-me uma transfusão se estou tão desesperada, mas não sou capaz de bebê-lo — explicou tranqüilamente. Sentiu sua presença na mente, seu contato tranqüilizador, gentil. Mas também estava carregado de autoridade. Sua vontade era tão forte que não poderia resistir se insistisse. Tinha que fazê-lo compreender — Sou humana, Jacques. Beber sangue me parece uma aberração. — Tratar de sobreviver sem alimentar-se durante muito tempo é muito perigoso. Deve beber. — Jacques tratava simplesmente de expor os fatos, aquilo parecia uma ordem. Não sabia de onde saía essa informação, quão único sabia é que era certa. Era certo, evidente que ela desejava que a entendesse, que aceitasse aquele ridículo regime ao qual estava impondo a si mesma, mas não tinha nenhum sentido para ele e não podia consentir uma estupidez semelhante. Devia encontrar um modo de explicar o que ela estava fazendo a seu corpo. Ela afastou o cabelo do rosto de Jacques, e o toque de seus dedos provocou intensas reações em seu dolorido corpo. Alheia ao que provocava nele, Shea lhe sorriu, fitando seus olhos. — Faz muito tempo que aceitei que morreria se não encontrasse uma cura… Bem, quer que te lave a cabeça? Apanhou com as mãos seus esbeltos ombros e a colocou embaixo dele. — Já sabe, pequena ruiva, que como seu companheiro minha obrigação é cuidar de sua saúde. Meu único propósito nesta vida é te proteger e velar por suas necessidades. Está fraca e é incapaz de levar a cabo as regras mais básicas de sobrevivência. Isto não pode continuar. Deveria utilizar você mesma o sangue que está me administrando. Havia algo mágico em sua voz. Sentia que poderia lhe escutar eternamente. — Acabaria o sangue. Se continuar assim, terei que ir ao banco de sangue muito em breve. — Já tinha usado a maior parte das unidades tratando de substituir o enorme volume de sangue que ele tinha perdido — De verdade, Jacques, não se preocupe por mim, fiz isto muitas vezes. — Olhe-me, pequena Shea — sua voz descendeu uma oitava. Grave. Persuasiva. Um feitiço. Seu negro olhar apanhou a verde dela. A calidez alagava a mente da Shea, braços a rodeavam, mantendo-a a salvo. Afundou-se ainda mais naqueles poços escuros e penetrantes que irradiavam calor… — Aceitarás meu sangue, como deve fazer. — Deu-lhe a ordem suave


mas firmemente, mantendo suas mentes unidas. A força de sua vontade, dotada de uma prática adquirida ao longo dos séculos e moldada pelos fogos do inferno, dobrou-a. Sem vacilar, conduziu-a até seu peito, embalando-a em seus braços com ternura. Parecia tão ligeira, tão pequena, tão frágil. Adorava a curva de sua garganta acetinada, a perfeição de sua pele, sua boca. Com uma unha, Jacques abriu uma pequena ferida nos músculos de seu peito, empurrou-a para ele e sentiu, inesperadamente, uma espiral de calor, profundamente em seu interior. Seu ventre se contraiu, e o desejo o atravessou, agudo e doce. A sensação de sua boca sobre o peito era absolutamente erótica. Suas mentes estavam misturadas enquanto a abraçava. Não estava familiarizado com esse tipo de intimidade. No meio da dor e da escuridão, o ódio e a fúria, havia lhe trazido a luz, a compaixão e a coragem. Onde havia uma desesperada desolação e debilidade, um corpo vazio, ela havia lhe dado um renascer de força e poder, uma florescente esperança. Onde havia dor infinita, um inferno eterno, ela havia brindando com tanta beleza e alegria, um prazer tão imenso que quase não podia abrangê-lo. Jacques não desejava finalizar aquela união, mas necessitava cada gota de sangue para tratar de recompor seu destroçado corpo e de reparar sua mente despedaçada. Não podia permitir que tomasse muito dele. Sentia que sua própria fome aumentava. Necessitava de sangue fresco, fluindo rica e diretamente de sua vítima. Sem vontades, deteve-a, e sentiu as chamas do desejo dançarem sobre sua pele quando a língua dela o acariciou para fechar a ferida. Por um momento, apoiou a cabeça sobre ela, saboreando a proximidade de seu corpo, seu aroma, degustando a beleza de seu espírito. Não poderia suportar ficar só novamente, não podia separar-se dela nem por um momento. Sete anos de escuridão, de solidão absoluta, acreditando que ela, deliberadamente, permitia e inclusive prolongava seu sofrimento. Saber que isso não era certo, que de fato, tinha sido sua coragem que lhe havia salvado, havia-lhe devolvido a esperança. Um objetivo pelo qual seguir vivendo. Jacques não poderia sobreviver sem ela. Não podia perdê-la de vista. Não podia permitir que saísse fora do alcance de sua mente. Ele estava em e somente ela poderia mantê-los unidos. Diminuiu seu controle muito lentamente, liberando-a. Suas largas pestanas se agitaram, e desapareceu a bruma de seus olhos, deixando ver duas brilhantes esmeraldas, perfeitas e misteriosas. Uma faiscante beleza que o fazia arder em chamas. — O que fez desta vez, Jacques? Não pode pretender cuidar de mim. Nem pense. Não tem nem idéia do quanto esteve perto de morrer. Não pode se permitir perder nenhuma gota de sangue.


Seu débil sorriso penetrou em sua mente. — É minha companheira, sempre sob meu cuidado. Não posso fazer a não ser te prover do que necessite. Sacudiu a cabeça lentamente. — O que vou fazer contigo? Necessita tudo o sangue que possamos conseguir… Estava acostumada a arrumar isso com pequenas quantidades… — Arrumar-lhe não é suficiente. — Grunhiu ele e seus olhos negros resplandeceram. Shea elevou os olhos ao céu. — Ao menos, tenha a decência de parecer arrependido. Não é necessário que se mostre tão satisfeito consigo mesmo, nem tão fastidioso. — de maneira inconsciente, voltou a introduzir os dedos em sua cabeleira, tentando lhe pentear um pouco — eu adoraria saber mais sobre você, Jacques. Pergunto-me onde estará sua família… A confusão se refletiu em seus olhos. Um negro vazio que de repente a encheu de uma imensa dor. Tomou sua mão trêmula, compartilhando o atordoamento de sua mente e inclusive, por um instante, parte de sua agonia. — Deixe, Jacques. Não forçe sua memória. Assim que estiver bem, a recuperará. Tranqüilize-se. Limparei suas feridas e lavarei teu cabeloo. Isso o relaxará. Sentia seus suaves dedos sobre a pele, enviando ondas de alívio ao ardente interior de sua mente. A resposta de seu corpo não se fez esperar: os músculos tensos se relaxaram, liberando algo da dor que lhe torturava. Seu mero contato era como um farol na escuridão, um guia que lhe indicava o caminho, algo que lhe dava esperanças de que, algum dia, a dor se acabaria. Fechou os olhos e cedeu a suas demandas. O som de seus ligeiros movimentos pela casa era reconfortante. Sua fragrância natural e o tênue aroma de ervas e flores que emanavam de sua pele e de seu cabelo pareciam lhe envolver, como se lhe rodeasse com seus braços. Shea lhe tocava suavemente enquanto examinava as feridas. A esponja roçava ligeiramente a carne aberta, deixando um estranho formigamento. A água temperada caía como uma corrente sobre seu cabelo enquanto lhe sustentava a cabeça em seu braço. Era muito agradável, quase sensual. Quando as pontas dos dedos massageavam o xampu sobre o couro cabeludo, concentrou-se nas sensações que lhe produzia e durante uns minutos pôde afastar-se de seu mundo de dor. — Tem um cabelo muito bonito

— ela disse quase em um sussurro, enquanto


enxaguava a espuma com a água temperada. Tinha o braço dolorido pelo esforço de lhe sustentar a cabeça sobre a bacia de plástico, mas dava conta de que estava proporcionando um pouco de paz. Retirou a bacia, colocou uma toalha sobre o travesseiro, e lhe ajudou a ficar outra vez como estava. Enquanto lhe secava o cabelo, suas mãos demoravam sobre o couro cabeludo; goatava de tocá-lo. — Está muito cansado. Volta a dormir. — Mais sangue. Aquela voz rouca e sonolenta ressonava em sua mente, insuflando uma onda de calidez por seu corpo. Sem vacilar, Shea serviu uma unidade em um copo e se ocupou de limpar o chão. Quando passou junto a cama, a mão dele apanhou a sua como se fosse um grilhão, e puxou ela para que se aproximasse. — O que houve? — Shea se sentou ao lado da cama, esboçando um débil sorriso, com os olhos carregados de ternura e suavidade, embora ela não parecia dar-se conta disso. Ele deslizou a mão por seu braço, massageando o ombro dolorido com seus fortes dedos. — Obrigado, pequena ruiva. Conseguiste que me sinta vivo de novo. — Está vivo, Jacques. — tranqüilizou-o, enquanto afastava o cabelo do rosto — É um descarado, mas não resta dúvida de que está vivo… Não vi nunca que um paciente que chamasse a seu médico de “pequena ruiva”… Sua risada rouca e sensual permaneceu na mente dele muito tempo depois de que dormisse. De algum jeito, era consciente de sua proximidade enquanto ela misturava terra, ervas e saliva para as aplicar sobre suas feridas, e isso lhe tranqüilizava. Mantinha afastado a cólera, a dor e o terror que lhe produzia aquele mundo de solidão.


Capítulo 4 Shea abriu a porta, e inspirou profundamente o ar da noite; a quantidade de informação que lhe chegou foi surpreendente. Multidão de criaturas vagavam pelo bosque e era capaz de localizar a posição exata de cada uma delas, da manada de lobos que se encontrava a vários quilômetros de distância, até os três ratos que se escapuliam entre os arbustos próximos à cabana. Podia escutar a água das cascatas borbulhando e rugindo ao cair sobre as rochas. O vento jogava com as árvores, os arbustos e com as folhas caídas sobre o chão. As estrelas brilhavam formando um prisma de cores sobre sua cabeça, como milhões de pedras preciosas. Enfeitiçada, Shea saiu da cabana, deixando a porta aberta para que o aroma do sangue, suor e a dor se limpasse e penetrar o ar fresco e limpo. Escutava a seiva fluindo como sangue nos troncos das árvores; as cores eram intensas e cada uma delas desprendia um aroma especial. A sensação era a mesma de ter tornado a nascer num mundo completamente novo. Elevou o rosto ao céu e inspirou o ar, enchendo seus pulmões, relaxando-se pela primeira vez em quarenta e oito horas. Um mocho cruzou o céu em silêncio, suas asas eram incrivelmente largas e cada pluma emitia brilhos iridescentes que Shea percebia graças a sua nova visão. Sentiu-se tão absolutamente maravilhada que se internou nas profundidades do bosque, atraída pelo que via. As gotas de água brilhavam como diamantes sobre as rochas cobertas de musgo. O mesmo musgo se assemelhava a um montão de esmeraldas disseminadas sobre o sinuoso curso do arroio e sobre os troncos das árvores. Nunca antes tinha visto algo tão formoso. Seu cérebro, como era habitual, processava todos os dados que lhe chegavam; uma espécie de quebra-cabeças imenso cujas peças começavam a encaixar. Tinha nascido como uma humana que comia mantimentos normais e caminhava sob o sol; não obstante ela, ao igual a alguns outros, manifestava marcadas diferenças em suas necessidades alimentícias, metabólicas e sensitivas. Acreditaria que as lendas sobre os vampiros fossem certas? Podia existir uma raça diferente à humana com incríveis dons, que precisasse alimentar-se de sangue para sobreviver? Como era possível que vivessem, superassem feridas inverossímeis e fossem capazes de controlar o funcionamento do coração e dos pulmões? Seus organismos deviam ter uma atividade diferente a dos humanos, igual a seus órgãos. Tudo devia ser muito distinto entre as duas raças.


Shea passou a mão pelo cabelo enquanto umedecia os lábios com a língua e mordia nervosa o lábio inferior. Tudo parecia vir de um conto de fadas, ou melhor, de um filme de terror. Impossível. Verdade que era impossível? Um homem era incapaz de sobreviver com feridas tão horríveis, emparedado durante sete anos? Não havia como ser certo, não podia acontecer. Mas ela tinha encontrado Jacques. Isso não era nenhuma mentira; ela mesma o tinha tirado da parede. E como podia um ser vivo manter a prudência depois de sete anos de enterrado vivo, sofrendo uma agonia a cada instante? Sua mente se surpreendeu ante a pergunta, não queria parar para pensar. E o que estava acontecendo a seu próprio corpo? Sentia-se diferente. Fazia sete anos que tinham começado as mudanças, quando sentiu aquela repentina dor que a deixou literalmente escondida na inconsciência. Nunca pôde explicar aquele episódio; e depois vieram os pesadelos, persistentes e implacáveis, que não lhe deixavam um momento de paz. Jacques. Sempre Jacques. A foto que, fazia já dois anos, tinham-lhe mostrado aqueles açougueiros; a número sete. Era Jacques. Ele a chamava, era ele que a atraía a aquele horrível lugar onde se podiam tocar a tortura e a crueldade. Tinham torturado Jacques. E deviam já estar conectados mentalmente, de algum modo. Intelectualmente parecia impossível. Era impossível pensar de forma racional. Mas sua própria existência não tinha sido estranha? Sua dependência das transfusões de sangue não era psicosomática; tinha tentado por todos os meios superá-lo. Portanto, era possível que existisse outra explicação, uma que a mente e os prejuízos humanos não pudessem entender, mesmo quando todos os fatos estivessem diante dela. — Shea! A chamada foi um grito de temor e confusão. Jacques tinha a impressão de estar afogando-se na escuridão e na dor. — Estou aqui, Jacques — sua resposta saiu tão facilmente que a deixou perplexa. Tentou lhe enviar mentalmente as imagens de todas as coisas formosas que estava vendo para assim reconfortá-lo. — Volte para meu lado. Preciso de você. Shea sorriu ante a exigência de sua voz e seu coração alterou-se ao entender a verdade que ocultavam aquelas palavras. Jacques nunca lhe tinha ocultado nada, nem sequer o medo irracional que sentia ante seu possível abandono, deixando-o só na escuridão. — É um moço malcriado — lhe disse com ternura — Não me importo que me fale


como se fosse o senhor do castelo. Já vou — Não havia explicação lógica ante a alegria que percorria seu corpo com o simples roçar da mente de Jacques. Mas, também se sentia aterrorizada ante o pensamento. Melhor era não pensar, ou estudá-lo em profundidade. — Vem comigo — sua voz soava agora mais tranqüila, lutava contra seu temor à solidão — Não quero despertar e estar sozinho. — De vez em quando necessito uma pausa. Como ia supor que despertaria neste preciso momento? Ela brincava com ele e uma sensação cálida se aninhou em suas vísceras. Não se recordava de que algo assim lhe tivesse acontecido antes de conhecer Shea. Não havia vida antes de Shea. Só uma existência repugnante. Seu mundo tinha sido a tortura e o inferno. Sorriu de si mesmo. — É obvio que deveria saber quando vou despertar. É sua obrigação. — Deveria saber que teria esse modo de pensar — disse enquanto se apressava correndo através do terreno irregular de volta à cabana, maravilhando-se ante suas novas habilidades, ante a repentina força que nunca antes havia experimentado. Durante um breve instante, sentiu que lhe tiravam um peso de cima dos ombros. Descobriu o que era ser feliz, sem preocupações de nenhum tipo. Jacques se deu conta que não podia tirar os olhos dela. Estava arrebatadora com o cabelo desordenado, suplicando que os dedos de um homem os desembaraçassem. Brilhavam-lhe os olhos enquanto cruzava a sala para chegar junto a ele. — Sente-se melhor? — ela perguntou e como sempre, examinou-lhe as feridas para comprovar por si mesmo que melhorava. Jacques elevou uma mão, precisava sentir o contato sedoso de seu cabelo. — Muito melhor — era uma flagrante mentira e Shea o olhou, séria. — De verdade? Começo a pensar que necessita um monitor como os que usamos com os recém-nascidos. Quero que fique quieto na cama. Juraria que estiveste se remexendo de novo. — Tenho pesadelos — seus olhos negros não se separavam do rosto de Shea, deixando claro que lhe pertencia. Imprimindo sua marca no coração dela. Ninguém tinha o direito de ter olhos como aqueles. Olhos famintos, ardentes, que encerravam a promessa de uma enorme paixão.


— Teremos que nos ocupar deles — disse Shea com um ligeiro sorriso. Esperava que seus olhos não revelassem os sentimentos estranhos e confusos que sentia por ele. Superariaos logo. O que ocorria é que Jacques era a criatura mais excitante e sexy que jamais encontrou. Ninguém havia precisado dela tanto como ele a tinha. Nem sequer sua própria mãe. Jacques a olhava de uma maneira que a fazia acreditar que tanto sua vida como o ar que respirava dependiam por completo dela. Racionalmente sabia que Jacques sentiria o mesmo por qualquer outra pessoa, mas de todas as formas, permaneceu absorta no fogo e a paixão que desprendia. Por uma vez em sua vida, só e perseguida, ao limite de sua resistência e enfrentando a estranhos acontecimentos, desfrutaria desta experiência inigualável. Os olhos negros do Jacques ardiam provocadores, seduziam-na, acariciando-a, como se diáfana. — Preciso de um formoso sonho que me afaste dos pesadelos. Shea separou-se dele, levantando uma mão para proteger-se. — Limite-se a guardar suas idéias para si mesmo — lhe advertiu — Tem esse olhar diabólico, que diz que nenhuma mulher está a salvo a seu lado. — Isso não é certo, Shea — ele negou enquanto o duro rictus de seus lábios se suavizava de forma tentadora — Só há uma mulher. Você. Shea soltou uma gargalhada. — Acredito que estou muito agradecida pelo fato de que não esteja em condições de se mover. O sol está saindo e tenho que fechar a cabana para passar o dia. Volte a dormir. Estarei aqui quando despertar. — disse, enquanto sentava-se na única cadeira que tinha. — Deitáras a meu lado, onde deve estar — ele decretou. Shea fechou as janelas, assegurando-as com a fechadura. Sempre era muito cuidadosa na hora de fechar sua casa. Durante o dia era muito vulnerável. Naquele momento já podia sentir como seu corpo estava cada vez mais pesado e o cansaço a invadia, diminuindo seus movimentos. — Quero que deite a meu lado — a voz de Jacques era uma carícia pecaminosa, insistente e irresistível. — Acredito que pode se arrumar sozinho — respondeu negando-se a olhar seus hipnóticos olhos escuros. Em lugar disso, desligou o computador, o gerador e fechou a porta


com chave. — Tenho pesadelos, pequena ruiva. A única forma de manter a lucidez é contigo a meu lado — sua voz soava inocente, esperançada e desejosa. Shea se encontrou sorrindo, enquanto servia em um copo uma nova dose de sangue. Começava a pensar que era o diabo em pessoa que se apresentou em sua porta. Jacques era a tentação personificada. — Acabo de te tirar uma estaca de seu coração faz apenas duas noites, por não mencionar o resto das feridas. Se me mover enquanto você dorme, poderia te dar um golpe e começaria a sangrar de novo. Não quer que isso aconteça, certo? Tirou a bolsa de sangue da mão enquanto fechava os dedos em torno do copo no preciso lugar onde tinham estado os dedos de Shea instantes antes. Sempre fazia esse tipo de coisas, gestos íntimos que faziam com que o estômago da Shea se enchesse de pequenos espasmos. — Não chegaram a meu coração, Shea. Não me danificaram, como pretendiam. Está dentro de meu corpo, não o escuta? Seu coração pulsa ao mesmo ritmo que o meu. — Foste um playboy antes de que lhe emparedassem? — perguntou-lhe dirigindo um travesso sorriso sobre o ombro. Comprovou a pistola para assegurar-se que estava preparada e carregada — Precisa beber isso, Jacques, não prender o copo. E depois voltar a dormir. Quanto mais descansar, mais rápido se curará. — Insiste em seguir sendo minha médica, quando preciso que seja minha companheira, que se aproxime e fique a meu lado. — sua voz voltava a ser pura tentação. — Beba, Jacques. — Shea tentou parecer firme, mas tornou-se impossível quando ele parecia tão desesperado por sua companhia. — Estou desesperado. Shea não pôde evitar mover a cabeça. — És terrível. Jacques fez uma tentativa de levar o copo aos lábios, mas lhe faltou forças. — Não posso fazer isto sem sua ajuda, Shea. Encontro-me muito fraco. — Supõe-se que tenho que acreditar isso? — disse agastada, mas aproximando-se dele — Foi o suficientemente forte para me elevar do chão quando te encontrei. Não me olhe


com essa cara de “menino bom” Jacques, porque não funcionará — Mas estava funcionando. Jacques precisava sentir seu contato. O roçar de seus dedos sobre seu cabelo, e inconscientemente, Shea fez sua vontade, detendo-os ali como se desfrutasse da sensação tanto quanto ele. Jacques tirou a pistola de sua mão e puxou-a até deitá-la a seu lado, faminto em sentir a maciez de seu corpo, e o sustento que ela lhe proporcionava. O aroma que ela desprendia flutuava até ele e cheirava a bosque, a flores e a noite. Passou um braço a sua volta e a atraiu para seu corpo. Shea relaxou, permitindo que suas pálpebras se fechassem. Dormiu a intervalos, porque a luz do dia fazia com que seu corpo se sentisse incômodo. Jacques jazia junto a ela, imóvel, seu pesado braço rodeava sua cintura de forma possessiva. Lutou em várias ocasiões, durante as horas da tarde, para despertar por completo, mas se tornou impossível. Em uma ocasião, escutou um ruído no exterior da cabana e seu coração começou a pulsar alarmado, mas só teve forças para segurar com força a pistola sob o travesseiro. Sabia que era responsável pela segurança de ambos, mas não conseguia manter os olhos abertos nem levantar-se da cama para comprovar os arredores e assegurar-se que não andava ninguém pelas redondezas. Fazia tempo que o sol se ocultara atrás das montanhas quando Shea despertar de todo. A fome lhe provocava uma sensação dolorosa e aguda, mas idéia da comida a fazia sentir náuseas. Lutou para despertar completamente e muito mais fraca do que jamais havia estado e passou uma mão pela cascata vermelho escuro.

conseguiu a simples sentar-se, de cabelo

Os dedos de Jacques se fecharam em torno de seu braço, deslizando-se do ombro até a mão. Era uma mulher pequena e delicada, mas com uma enorme força interior. Surpreendia-se com sua valentia e sua determinação, igual a compaixão de que era capaz. Era misteriosa. O mundo, tal como ele recordava, tinha começado sete anos antes. Dor, solidão e escuridão. O monstro tinha crescido e eclipsando sua alma. Em princípio não havia sentido nada, só o desejo de não morrer jamais, uma determinação gelada, uma promessa de vingança em troca de sua alma. Encontraria-os, todos. Ao traidor, os assassinos e os destruiria. Mas, uma vez que tivera encontrado sua companheira, apesar da distância que os separava, começou a ter sentimentos. A fúria negra permanecia latente e jamais cessaria até que encontrasse a forma de vingar-se pela perda de sua alma. Todas as emoções que tinha eram escuras e lúgubres, terríveis. Até que Shea o tocou. A partir do momento em que suas mentes se uniram, não deixou mais aquele porto. Chegava a ser parte dela, escondido em sua mente como uma sombra, tão quieto que ela jamais soube que ele estava ali. Não suportava estar afastado de Shea. Envolveu o punho em uma comprida mecha do provocante cabelo


ruivo. Ela despertava sensações nele que nem sequer sabia que existia. Jamais suportaria estar só novamente. E nunca permitiria que Shea ficasse em perigo. Amaldiçoando em silêncio a debilidade que sentia, levou a mecha de cabelo até o rosto, absorvendo sua fragrância. — Estou tão cansada, Jacques — confessou enquanto cambaleava ligeiramente ao sentar-se na cama. Era muito estranho ter alguém com quem falar, com quem despertar, não estar sozinha. A situação deveria ser incômoda, pois jamais tinha compartilhado sua vida com ninguém, mas com Jacques todo era extranhamente familiar, como se o conhecesse sempre. Sua vida tinha sido solitária, sempre pondo distância entre ela e os outros. Jacques não tinha respeitado aquela barreira, ao contrário, saía e entrava de sua mente como se realmente tivesse o direito a fazê-lo, como se aquele fosse seu lugar. Seu contato era possessivo, ciumento e inclusive íntimo. Shea se sentia desconcertada por seus próprios sentimentos, por ter aceito aquela inaudita afinidade. E muito animada pelo descobrimento científico, possivelmente tinha encontrado a resposta a terrível enfermidade que marcava aos que a padeciam como nosferatu ou impuros. Os não-mortos. Sua gente estava condenada a levar uma vida às escondidas, sempre com o temor de serem descobertos. Era muito importante descobrir se realmente se tratavam de duas espécies diferentes ou se era um código genético estranho o que lhes obrigava a necessitar de sangue para sobreviver. Shea estudou o rosto cansado, mas formoso, de Jacques. Parecia jovem, mas não era fácil precisar sua idade. Via-se atormentado, como se tivesse sofrido enormemente embora parecesse duro como uma rocha. Agora percebia o poder que emanava dele, como se fosse sua segunda pele. Mordendo o lábio, separou-se dele, seus olhos verde esmeralda tinham um olhar pensativo. A força e o poder eram cada vez mais evidentes, seu corpo podia estar melhorando devagar, mas recuperava suas incomuns habilidades muito mais depressa. Lhe ocorreu que possivelmente deveria estar assustada com aquela criatura que agora jazia imóvel sobre sua cama. Era óbvio que podia ser extremamente perigoso, que era capaz de ser muito violento; especialmente com a mente tão fragmentada e aquela raiva tão arraigada. Jacques suspirou. — Eu não gosto que tenha medo de mim, Shea. — Se deixasse de ler meus pensamentos, Jacques — disse com suavidade, temerosa de havê-lo ferido — então, não teria que saber as coisas pelas quais me preocupo. É capaz de ser muito violento, não pode negar. Percebo-o. Shea ficou em pé ao sentir que sua energia voltava de novo fazendo-a sentir-se ágil e incansável. Jacques deixou que a mecha ruiva se escorresse entre seus dedos. Com os olhos semi abertos, observou os pensamentos que cruzavam pelo expressivo rosto dela. Era incapaz


de qualquer subterfúgio; era como um livro aberto, não podia fingir. — Já sabe que não pensei as coisas. Simplesmente saí correndo e te resgatei. E te fiz muito mal — seus enormes olhos verdes ficaram cravados no rosto do Jacques. Mas as nuvens de tormenta começaram a formar-se imediatamente quando percebeu mentalmente as reminiscências dos pensamentos alegres e zombadores de Jacques — O que está achando de tão divertido? Algum idiota tentou atravessar teu coração com uma estaca, e nem sequer roçou o maldito órgão! — Por isso estou muito agradecido. E agradeço ainda mais, depois que me resgatasse. Não suportava mais. — Me alegra haver te resgatado, mas a verdade Jacques, é que te vejo recuperar-se muito mais rápido do que é humanamente possível. Agora é ainda mais perigoso. Não é certo? — Não para você — lhe negou. Shea elevou uma sobrancelha. — É essa a pura verdade? Eu também estive em sua mente, lembre-se — ela tentou entrar na mente dele e retrocedeu espantada ante a fúria negra e a violência que ferviam ali — Às vezes, inclusive posso ler seus pensamentos, igual a você os meus. A maioria do tempo não tem nem a mais mínima idéia do que está fazendo. Nem sequer sabe quem é. — Possivelmente seja assim, Shea, mas sei que é minha companheira. Agora não poderia te fazer mal. Seu rosto parecia esculpido em granito e seus olhos eram gélidos. Duas esferas negras de gelo. Ela tinha razão, era perigoso. Sabia no fundo de sua alma. Não podia confiar em sua mente. Era a presença de Shea que o mantinha calmo, mas sua mente era um labirinto de caminhos escuros e mortais. Não saberia como distinguir a realidade dos pesadelos se o precário equilíbrio que tinha alcançado desaparecesse. Seus olhos brilhavam negros como o azeviche, mas afastou o olhar de Shea, envergonhado. Deveria deixar que ela partisse, deixála livre, mas não podia. Ela era sua prudência, o único caminho para sair do infernal pesadelo em que tinha vivido. — Jurei te proteger, Shea. Só posso prometer que o farei com todo meu coração. Shea se afastou da cama, a ponto de chorar. Jacques se encontrava no interior de um labirinto muito traiçoeiro, caminhava sobre uma ligeira linha divisória entre a prudência e um mundo que ela não queria tentar compreender. — Eu te protegerei, Jacques. Tem minha palavra de honra, não deixarei que se


afunde. Cuidarei de você até que esteja recuperado. — E depois? — Seus olhos negros se deslizaram em um preguiçoso olhar sobre ela — Pretende me abandonar, Shea? Me salvará para me deixar sozinho mais tarde? — havia um traço de humor negro em sua voz, uma espécie de diversão oculta que despertava nela algo que não sabia que existia. Algo que ia além do medo. Puro terror. Elevou o queixo em um gesto beligerante. — O que significa isso? É obvio que não vou te deixar. Ficarei até que se recupere completamente e depois procuraremos a sua família. Era muito tarde. Embora tivesse tentado pôr distância entre eles, seu vínculo era já impossível de romper. Por suas veias corria sangue dele; compartilhavam uma conexão mental cada vez mais forte. Suas almas pediam a gritos estarem juntas, igual a seus corações e era só questão de tempo que possuísse seu corpo. Sair correndo não ia salvar a nenhum dos dois. Jacques sabia com uma certeza que nunca antes havia conhecido. Mas dizer-lhe a assustaria muito mais. Seu coração saltou no peito e foi uma sensação divertida. Shea temia à morte muito menos que o compromisso pessoal; e realmente não tinha a menor idéia de que já estavam unidos. Necessitaria estar sempre perto. Ela precisaria estar unida mentalmente a ele. — Dou-me conta que precisa fazer as tarefas humanas que gosta. Tome seu banho. Não tenho pressa que examine minhas feridas. Shea piscou e seus olhos verdes mostraram um olhar pensativo antes de dar a volta e desaparecer no outro aposento. Jacques tentava colocá-la a vontade, mas o que conseguia era que sentisse calafrios. A cadência de sua voz era distinta e começava a usá-la com bastante freqüência, a qual lhe incomodava, pois demonstrava posse e absoluta autoridade. Tinha a sensação de que Jacques tomava as rédeas de sua vida pouco a pouco; estava constantemente em seus pensamentos, em sua cabeça. Na realidade, ele estava em todas as partes. E ela o permitia.

Jacques permaneceu pensativo olhando ao teto. Shea estava preocupada com a forma em que seu corpo respondia ao dele. Seu cérebro lhe intrigava porque tinha uma forma especial de confrontar os problemas, analisava-os de um ponto de vista científico ou racional antes que do lado emocional. Jacques sentiu o sorriso que curvava seus lábios. Conhecia-a por completo; passava mais tempo em sua mente que em qualquer outro lugar. Queria assegurar-se de que ela não o abandonasse. Shea tinha tentado lhe tranqüilizar falando de sua


família, mas ele não tinha outra família que não fosse ela. Não queria outra nem precisava. Mas Shea ainda não havia aceito esse papel. Parte dela insistia em lhe ver como um paciente já que em primeiro lugar era uma médica e em segundo uma científica. Ele estava em sua mente, sabia com certeza que jamais lhe tinha atraído a idéia de uma relação a longo prazo. Shea não esperava ter uma vida longa e portanto não queria compartilhar sua vida com ninguém. Essa idéia era tão aérea, que sequer podia concebê-la. Jacques ouvia a água da ducha, no banheiro. Sabia que caía sobre a pele nua. Seu corpo se moveu incomodado, começava a sentir uma implacável dor; surpreendia-lhe sentir seu corpo vivo de novo e ser consciente de seus desejos sexuais. Tinha a ligeira lembrança de não haver sentido tal sensação há séculos. E depois, o tinham deixado com o corpo maltratado e a mente destroçada. Shea havia lhe devolvido a vida. Aliás, muito mais que a vida; muito mais que uma simples existência. Não podia esperar para ver o sorriso em seu rosto, a forma em que seu cabelo o tentava. Amava cada um de seus gestos, cada pequena inclinação de sua cabeça. Gostava do modo em que seu cérebro trabalhava, absolutamente concentrado; e do humor e da compaixão que existiam em sua mente. Jacques amaldiçoou a debilidade de seu corpo. Necessitava de sangue fresco desesperadamente. Relaxou seu corpo e sua mente invocando toda a força de que fosse capaz. Levantou uma mão, concentrou-se e fixou sua atenção na porta da cabana. A dor lhe atravessou a cabeça e as feridas começaram a lhe doer com intensidade assustadora. Lançando uma imprecação, deixou-se cair de novo sobre os travesseiros. Podia usar seus poderes físicos, mas não podia usar de suas habilidades mentais nem para as coisas mínimas. O aroma de Shea foi o primeiro que percebeu. Uma fragrância fresca, floral que desprendia de seu cabelo. Tinha entrado tão sigilosamente na sala que ele nem sequer tinha ouvido as pisadas de seus pés nus, mas sua mente, nunca totalmente afastada da de sua companheira, tinha captado o preciso instante no que Shea pegou uma toalha e correu a seu lado. — O que houve, Jacques? Tentou se mover e abriu as feridas? — havia nervosismo em sua voz, mas suas mãos examinavam-no com frieza profissional. Seu esbelto corpo estava envolto em uma grande toalha de algodão de cor pêssego. Enquanto se inclinava para ele, uma gota de água se deslizou desde seus ombros até o vale entre seus seios, desaparecendo sob a toalha. Jacques seguiu atentamente o movimento da gota e se sentiu repentinamente sedento. Os cílios de Shea eram incríveis e sua exuberante boca se franzia em uma pequena careta enquanto examinava os pequenos pontos que fechavam as feridas em busca de algum dano. Era tão extraordinariamente formosa que lhe


deixava sem fôlego. — Jacques? Por que? — sussurrou-lhe e sua voz deslizou sobre seu corpo como uma carícia. — Nem lembranças nem habilidades. Até o mais ridículo me resulta impossível – enquanto lhe falava, acariciava-lhe com o polegar a parte interna de sua mão. — Você ficará bom, Jacques. Não seja impaciente. Se necessitar de alguma coisa, diga-me e lhe trarei — as carícias de seu dedo enviavam sensações deliciosas em seu corpo. Surpreendia-lhe o fato de ser tão suscetível aos encantos deste homem, ela não era assim. Embora seus rasgos sensuais permanecessem indecifráveis como uma máscara, algo no interior do Jacques se derreteu e sentiu que uma descarga de alegria percorria seu corpo. Queria sorrir apesar de tudo. A dor deixou de lhe importar, suas fragmentadas lembranças e seu corpo impotente eram simples inconvenientes que acabaria por superar. Era Shea o que lhe importava. — Abre a porta por mim, para que possa sentir e respirar o aroma da noite — disse tentando não devorá-la com os olhos. Era muito consciente de que Shea começava a perceber que ninguém, e muito menos ela com sua natureza compassiva, podia opor-se a sua vontade, forjada nos fogos do inferno. Ela fez o que lhe pedia. — Não tentaria se levantar, verdade? Sabe que não pode, Jacques. Faria-te muito mal e se abrirem essas feridas, acabará com tantas cicatrizes que ficará se parecendo com o Frankenstein. Jacques tinha fechado os olhos para inspirar o ar fresco e limpo da noite. — Na Estirpe dos Cárpatos não deixam ficar cicatrizes — a informação lhe chegou sem que esperasse. Alegrava-lhe enormemente ter recordado algo, inclusive ter recordado quem era Frankenstein. Shea elevou as sobrancelhas. — OH, de verdade? Então, o que é essa tênue linha que tem ao redor da garganta? É quase invisível, mas está aí. Os olhos do Jacques se abriram de par em par, ardendo com uma fúria desumana. Shea se afastou com rapidez enquanto o coração começava a martelar-lhe o peito; realmente podia ver pequenas chamas avermelhadas ardendo no fundo de seus olhos. Parecia um


demônio, um predador invencível. A impressão foi tão forte, que se levou uma mão protetora à garganta para cobrir as evidências das atrozes feridas. Jacques perdeu a noção do tempo e do espaço, esqueceu a presença de Shea, inclusive de seu debilitado corpo. A sensação de encontrar-se em meio a uma batalha era muito forte. Tocou a pálida e irregular cicatriz que atravessava sua jugular. A sensação de perigo era tão intensa que o animal dentro de si rugiu por liberar-se. As presas se expandiram em toda sua longitude e as unhas das mãos se alargaram. Os músculos se contraíam, marcando e deixando claro seu poder e sua tremenda força que apenas estavam regidos agora por sua vontade. Um som, como um gemido, lento e letal escapou de seus lábios. Foi então quando sentiu seu corpo dolorido pela contração dos músculos, devolvendo-o à realidade, consciente de estar preso e indefeso em uma cama. Recordara-se de forma confusa, o rosto ansioso de uma mulher sulcado de lágrimas e com enormes olhos azuis. Deveria reconhecê-la, tinha que conhecê-la. Fechou os punhos com força e se sentiu agradecido pela intensa dor que afastou os fragmentos das dispersas lembranças de sua mente. Shea observou que ele levava as mãos à cabeça para tentar deter a dor. Num instante, estava a seu lado, acariciando com os dedos as mechas de cabelo que caíam por sua fronte, tentando aliviá-lo. — Jacques, deixe de se atormentar. As lembranças voltarão sozinhas. Acredite. Sei do que estou falando. Já estão voltando aos poucos — disse encaminhando-se para o armário de onde tirou roupa limpa — Insiste em acreditar que seu corpo pode deixar de lado o trauma que sofreu, não é assim. Você precisa de repouso para recuperar-se. Repouso e muitos cuidados. Igual a sua mente. — Sou incapaz de fazer as coisas que deveria. Não recordo de nada, mas ainda assim, sinto que há coisas que são importantes para nós e que eu deveria saber. Shea sorriu ante sua frustração. Jacques era um homem pouco acostumado a sofrer enfermidades ou feridas. — Diz que é um homem dos Cárpatos. Sabe que este lugar é sua terra natal. Recorda dele. — disse dirigindo-se ao quarto. Jacques a ouvia enquanto trocava de roupa. O sussurro da seda e dos jeans deslizando-se por suas pernas nuas. Estirou o corpo, enfebrecido e acalorado pela descarga de paixão que agora se unia ao desconforto que já sentia. — Jacques? — a voz era suave e lhe acariciava a pele e todos os lugares sensíveis


como o roçar de dedos — Por favor, não se desanime. Tecnicamente, deveria estar morto. Tinha tudo contra você e o superou — Shea lhe disse enquanto voltava para a sala, secando o cabelo com uma toalha — Acreditava que eu era uma dos seus. Uma mulher dos Cárpatos. Recorda-te? — Sou um homem dos Cárpatos. Minha estirpe é imortal; podemos… — então se deteve, lhe escapava o que ia dizer. Shea se apoiou na parede, observando-o atemorizada, mas totalmente fascinada. Sentiu a boca seca de repente e que o coração lhe pulsava violento. — O que está me dizendo, Jacques? Que sua vida é eterna? — que tipo de criatura ele era? E por que começava a acreditar nele? Sete anos emparedado, sobrevivendo a base do sangue dos ratos. Ela mesma tinha visto o brilhos avermelhados de seus olhos em mais de uma ocasião. Havia sentido sua assombrosa força, ainda estando seriamente ferido. As mãos, que seguravam com força a toalha, tremiam-lhe tanto que as escondeu atrás das costas. Ele é um vampiro, o pensamento lhe veio à mente de forma espontânea. Não é certo, negou em um sussurro. — É impossível. Eu não posso ser isso! Não acreditarei em nada do que me diga. — Shea — respondeu Jacques com voz pausada, tranqüila, em contraste com a agitação crescente dela. Precisava recuperar todas as suas lembranças, não só esses fragmentos pequenos que lhe deixavam aquela enorme frustração. — Jacques, pode ser que você seja um vampiro. Estou tão confusa que acreditaria. Mas eu não o sou — disse mais para si mesma que para ele. Todas as espantosas histórias de vampiros que tinham lhe contado alguma vez, encheram-lhe a mente, atormentando-a. Levou-se a mão ao pescoço ao recordar a violência de Jacques quando tomou seu sangue a primeira vez que se encontraram. Tinha estado a ponto de matá-la. — Não o fez porque precisava de mim — disse subitamente em voz baixa. Estava tão acostumada a que Jacques lesse sua mente que por instinto sabia que ele entenderia ao que se referia, nem sequer o fazia de modo consciente. Por acaso ele a controlava sempre? Podia um vampiro fazer isso? Jacques a observou atentamente, imóvel e sem piscar, com um olhar gélido. Podia saborear o medo de Shea. Sentia-o golpear sua mente. E ainda assustada, seu cérebro analisava a informação a uma velocidade extraordinária. Seu costume de separar as emoções para concentrar-se na parte científica, era tão somente uma forma de proteger-se. Havia lhe mostrado parte de seu lado escuro e violento. Para ele era algo tão natural como respirar e, cedo ou tarde, Shea teria que enfrentar sua verdadeira natureza.


Shea se sentiu apanhada naqueles cruéis e vazios olhos negros, hipnotizada como um animalzinho indefeso. Totalmente paralisada, sentia que seu corpo lutava para se aproximar dele, tomado por uma espécie de transe compulsivo. — Me responda, Jacques. Você conhece todos meus pensamentos. Me responda. — Depois de sete anos de dor e fome, pequena ruiva, depois de sofrer horríveis torturas, minha idéia era tomar seu sangue. — Minha vida — ela corrigiu com valentia. Jacques a olhava fixamente, desumano, com os penetrantes olhos de um predador. Nervosa, Shea retorcia os dedos. Ele parecia-lhe um estranho, um ser invencível sem emoções, tão somente com uma vontade de ferro e os instintos de um assassino. Limpou a garganta e acrescentou: — Precisava de mim. — Só pensava em me alimentar. Meu corpo te reconheceu antes de que o fizesse minha mente. — Não te entendo. — Uma vez que soube que foi minha companheira, meu primeiro pensamento foi te castigar por me haver deixado sofrer, e depois uni-la a mim para toda a eternidade. Não houve nenhuma desculpa, ele limitou-se a esperar sua reação. Shea podia perceber a sensação de perigo, mas não se intimidou. — Como unir-me a ti? — Intercambiando nosso sangue. O coração da Shea batia tão forte que doía. — E o que significa isso exatamente? — Um vínculo de sangue é muito intenso. Une nossas mentes e se torna impossível que nos enganemos um ao outro. Sinto suas emoções e seus pensamentos do mesmo modo que você sente os meus. Shea negou com a cabeça. — Possivelmente esteja certo em seu caso, mas não no meu. Às vezes percebo sua dor, mas não posso ler seus pensamentos.


— Porque escolheste não unir sua mente à minha. Precisa buscar o vínculo mental com freqüência, mas se nega a fazê-lo, por isso sou eu o que permanece em sua mente para impedir que se sinta incômoda. Shea não pôde negar a verdade que se encerravam em suas palavras. Tinha sido consciente de que sua mente procurava a de Jacques freqüentemente, mas incomodada por aquela desconhecida necessidade, impunha-se uma férrea disciplina. Não o fazia de forma consciente, a não ser num modo de autoproteção. Era Jacques que unia suas mentes. Shea inspirou com força e deixou escapar o ar lentamente. — Parece que sabe muito mais que eu a respeito do que está acontecendo aqui, Jacques. Me conte. — Um casal de companheiros está unido para toda a eternidade. Nenhum dos dois pode seguir vivendo sem o outro. Complementam-se. Você é a luz que ilumina a escuridão que há em mim. E devemos nos unir com freqüência. O rosto da Shea estava mortalmente pálido. Sentia as pernas amolecidas por uns momentos, por isso se deixou cair na cadeira, sentando-se bruscamente. Sua mãe. Tinha culpado a sua mãe toda a vida por ter vivido como uma mera sombra. Se Jacques estava dizendo a verdade, e algo em seu interior temia que sim, era isso o que tinha acontecido com sua mãe? Tinha Jacques a sentenciado a sofrer o mesmo terrível destino? Com a mão procurou a parede e, usando-a como apoio, ficou em pé. — Nego-me a aceitar isto. Não sou sua companheira. Eu não comprometi nada e nem vou fazê-lo — e começou a caminhar para a porta, apoiando-se na parede. — Shea, não! — não era um rogo, mas uma despótica ordem que fazia jogo com a impenetrável máscara de seu rosto. — Não permitirei que me faça isto. Não me importa se você for um vampiro. Pode escolher me matar, Jacques, porque não há nenhuma outra opção. — Não tem idéia do que é o poder, Shea. Do uso que ele pode lhe dar, para bem ou para o mal — sua voz era suave, mas ameaçadora, com uma inflexão que fez com que a pele de Shea se arrepiasse — Não me desafie. Orgulhosa, ela elevou o queixo. — A vida de minha mãe foi um completo desastre e minha infância, um inferno. Se meu pai era como você e a uniu a ele de algum modo, abandonando-a depois… — sua voz falhou. Tomou fôlego de novo tentando controlar-se — Sou forte, Jacques. Ninguém vai me


possuir, me controlar ou abusar de mim. Não me suicidarei pelo abandono de um homem. Nem deixarei meus filhos abandonados no mundo enquanto me afasto e me converto em uma casca vazia. Jacques sentia a dor que Shea tinha sofrido em sua infância. Suas lembranças eram duras e feias. Ela fora totalmente sozinha, necessitando que alguém a guiasse e a apoiasse. E como qualquer outra criança normal, culpou-se a si mesma pela solidão em que se encontrava. Tinha imaginado que de algum modo não era boa, que era diferente e por isso não a queriam. Afastou-se de suas emoções. — Porque se sentia insegura nesse terreno e se treinou para recorrer a sua inteligência cada vez que se sentia assustada ou ameaçada. Shea caminhou de costas até que chegou à porta, com os olhos fixos nos do Jacques. Ele estava fazendo um esforço supremo para esmagar sua fúria, sua promessa de vingança, mas tornou-se impossível ocultar as violentas emoções que giravam em seu interior. O conhecia muito bem. Era muito consciente do que ele era. Limitou-se a afastar-se, voltando a cabeça em silêncio. Shea aproveitou para dar a volta e sair correndo, enquanto as lágrimas lhe banhavam o rosto. Lágrimas por sua mãe e por ela mesma. Ela nunca chorava, jamais. Fazia muitos anos que tinha aprendido que as lágrimas não serviam para nada. Como tinha sido tão tola em acreditar que poderia controlar coisas que não conhecia? Correu depressa, seu corpo elegante e ágil se deslizava silencioso entre os troncos podres e as pedras cobertas de musgo. Demorou bastante em se dar conta de que estava descalça e de que em nenhuma só vez havia pisado em um ramo seca ou uma pequena pedra que pudessem machucá-la. Parecia flutuar sobre o chão. Mais, que podia correr sobre ele. Seus pulmões estavam bem, não protestavam pela falta de oxigênio. Somente sentia fome. Uma fome imensa e penetrante, que aumentava com cada passo que dava. Shea diminuiu a velocidade, até começar a caminhar com passos regulares, elevando seu rosto para observar as estrelas. Tudo era tão formoso. O vento estava carregado de aromas, de histórias. Via as pequenas crias de raposa em sua toca, os dois cervos que estavam nas cercaniase um coelho oculto no mato rasteiro. Deteve-se de repente junto a um pequeno riacho. Tinha que traçar um plano. Fugir como se fosse um animal selvagem era ridículo. Com a mão, acariciou o tronco de uma árvore, as pontas de seus dedos sentiam a rugosidade de sua casca, a seiva deslizando-se em seu interior como se fosse sangue, a vida da árvore. Percebia cada inseto que se introduzia nele, fazendo sua casa na madeira.


Sentou-se sobre a terra suave, afligida pela culpa. Tinha deixado Jacques sozinho, desprotegido. Não o tinha alimentado. Apoiou a cabeça nas mãos. Tudo aquilo era uma loucura. Nada parecia ter sentido. A fome invadia seu corpo como se fosse um terrível monstro e era capaz de escutar o batimento do coração das criaturas do bosque, chamando-a. Vampiro. Esses seres existiam? Acaso ela era um deles? Jacques tinha tomado seu sangue tão facilmente, de uma maneira tão natural… Sabia o que habitava em seu interior, podia comportar-se como um ser frio e absolutamente implacável, consumido por uma fúria venenosa. Jamais deixava que notasse em seu rosto ou na forma em que se dirigia a ela, mas estava ali, fervendo sob a superfície. Pegou uma pedra e a jogou na correnteza. Jacques. O que ia fazer com ele? Notou que seu corpo começava a ficar tenso e que sua mente se enchia de inquietação. Sentia uma enorme necessidade de estar com ele, de assegurar-se de que estava bem. Sua mente estava tentando entender, acreditar no impossível. Era uma criatura muito diferente do ser humano. Ela não era como ele, mas seu pai devia havê-lo sido. O que está pensando, Shea? Sussurrou para si mesma. Um vampiro? Crê que esse homem seja um vampiro? Está perdendo a cabeça. Sentiu que um calafrio percorria suas costas. Jacques havia dito que o intercâmbio de sangue lhes tinha unido. Teria conseguido de algum modo transformá-la em um ser como ele? Shea percorreu com a língua o interior de sua boca, medindo seus dentes. Pareciam igual a sempre, pequenos e parecidos. De repente, notou que sua fome aumentava, afiada e voraz. Imediatamente escutou o batimento do coração de um pequeno coelho. Seu coração se estremeceu de júbilo. A feroz alegria do predador invadiu seu corpo. Deu a volta em busca de sua presa. Suas presas aumentaram rapidamente de tamanho contra sua língua. Dentes afiados, incisivos, famintos e espectadores.


Capítulo 5 Jacques soube o preciso momento em que Shea descobriu a verdade. Seu coração pulsava freneticamente e seu silencioso grito de rechaço ainda ressonava em sua mente. Acreditava que ela era um vampiro, igual a ele. O que mais poderia ter deduzido com tão pouca informação? Ela estava desesperada e se convertia em uma ameaça para sua própria vida. Permaneceu imóvel na cama. Devia fazer todo o possível por recuperar suas forças, já que poderia precisar delas para deter qualquer decisão estúpida que ela tomasse. Limitou-se a esperar, examinando seus pensamentos e esperando algum sinal revelador no corpo dela. Estar sozinho era uma agonia. Jacques não teria sido capaz de suportar se sua mente não fosse uma sombra entranhada e oculta na dela. Tinha o corpo coberto por uma fina camada de suor. Todos seus instintos lhe impulsionavam a obrigá-la a voltar para seu lado e poderia fazê-lo agora que tinha recuperado parte de sua força durante esses dias. Mas uma parte dele queria que ela retornasse por sua própria vontade. O que ela havia dito? Que sua mãe era irlandesa. Shea acreditava que não era como ele. E se não era e ele, sem dar-se conta, tinha-a transformado em um deles? Jamais tinha considerado essa possibilidade. Seu vínculo era muito forte, além dos simples vínculos humanos, assim Jacques tinha assumido que a conhecia de toda uma vida, muito antes do que o traidor lhe tivesse entregue para aqueles açougueiros, para a loucura, e a ausência de lembranças. Tinha compartilhado com ela seu sofrimento e sua agonia, tinha-a sentido a seu lado, nisso não se equivocara. Estava seguro de que sempre a tinha conhecido, de que era ela, sua companheira. Quando ela não foi lhe ajudar, tinha passado cada momento de lucidez reunindo forças para unir sua vontade a dele naquele inferno de solidão. E se em realidade houvesse sido humano? Tinha sido indiscutivelmente cruel o primeiro dia, desejando que ela se unisse a ele para poder submetê-la a seu domínio. Jacques reuniu alguns fragmentos de sua memória. Três intercâmbios de sangue… Habilidades psíquicas… Uma humana que possuísse habilidades psíquicas podia ser convertida sob as condições adequadas ao se fazer três intercâmbios de sangue… Fechou seus olhos, tomado pela culpa e o angustiante remorso que se abatiam sobre sua cabeça. Se ela tinha sido uma humana, isso explicaria seus estranhos hábitos alimentícios e seus costumes. Nunca tomava as precauções necessárias, nunca fazia uma sondagem antes de sair da cabana. Na realidade, nem sabia como fazê-lo. Havia dito que não sabia como deter seus


pulmões e seu coração. Nunca dormia o sono rejuvenescedor da Estirpe dos Cárpatos… Soltou uma praga. A noite que ela havia ficado tão doente, certamente seu corpo estava experimentando as mudanças da conversão. Não havia outra explicação. Ela acreditava que tinha contraído uma espécie de gripe muito virulenta… Odiava-se a si mesmo pela incapacidade de recordar uma informação importante. Só conseguia pequenos fragmentos e agora ela sofria por sua ignorância. O vínculo com Shea tinha sido tão forte, que nunca lhe havia ocorrido que não pertencesse a sua própria raça. Reconhecia seu valor como o mesmo de um de sua Estirpe, já que imaginava que nenhum outro teria arriscado sua vida para poder lhe salvar. Parecia-lhe impossível acreditar que uma mulher humana tivesse demonstrado tanta compaixão e coragem para voltar naquele porão e lhe resgatar depois da forma deliberadamente cruel com que a tinha tratado. Mas embora aterrorizada, ela havia retornado. Um aroma chegou flutuando com a brisa noturna. Uma presa, e estava bastante perto. Não era humano, mas o sangue fresco de um animal vivo lhe ajudaria a recompor-se. Se pudesse tomar o suficiente, poderia realizar outro intercâmbio e tentar mantê-la com vida. Ela se negava a comer. Possivelmente não se negava, talvez era por ser incapaz de alimentar-se. Concentrou-se, inspirou profundamente, e enviou uma chamada. Estava perto, muito perto… Agora, no alpendre… Deu um passo para dentro do aposento. Entrou primeiro um cervo. O animal, geralmente tímido e assustadiço, cruzou a sala e se deteve junto a sua cama, cravando seus brilhantes olhos nele. Uma segundo cervo e mais tarde um terceiro, entraram também e esperaram juntos a que lhes atendesse. A fome invadiu seu corpo e as afiadas presas cresceram rapidamente dentro de sua boca. Atraiu o primeiro animal com sua enorme força e encontrou a artéria que pulsava em seu pescoço. O animal desumano cresceu em seu interior, mas desta vez lhe era bem-vindo. Sangue quente, transbordante de vida, doce e poderoso, penetrando em seu esgotado organismo, repondo suas células murchas. Bebeu com ânsia, tentando apagar a fome insaciável, enquanto seu corpo mutilado clamava por aquele escuro líquido vital.

Shea elevou o rosto para as estrelas e sentiu como as lágrimas se deslizavam sobre suas bochechas. Tinha a garganta seca e lhe ardia, mas sobretudo, doía-lhe o coração. Se seu pai tinha sido como Jacques, ao poluir seu sangue, Jacques havia terminado o que seu pai começou. Não tinha comparado as amostras de seu sangue com as de Jacques porque estava muito cansada, mas agora estava segura de que eram exatamente iguais. Fez um esforço por controlar os tremores que a sacudiam. Precisava pensar. Era sua


única salvação. Seu cérebro encontraria uma solução para o problema. Inspirou profundamente, tentando recuperar a calma, do mesmo modo que fazia sempre quando se encontrava ante uma situação perigosa. Imediatamente se lembrou do Jacques, só e desprotegido na cabana… Não podia lhe deixar, jamais poderia lhe abandonar estando tão indefeso. Deixaria tudo preparado, de modo que ele pudesse arrumar-se sozinho. Não tomaria mais do que água, não se arriscaria a comer nem beber qualquer outra coisa até que não estivesse segura do que estava enfrentando. Afastando-se da cabana, sentia-se sozinha. A cada momento, sua mente insistia em reunir-se com ele. Precisava de seu calor, a tranqüilidade que lhe proporcionava estar a seu lado. Afastou esse pensamento. Obviamente, Jacques lhe havia dito a verdade. Havia estado sozinha toda sua vida. Jamais tinha necessitado de alguém e muito menos de uma criatura que tinha a mente destroçada e os instintos de um assassino… De toda forma, devia assegurar-se de que não estava sofrendo e de que não tinha ocorrido nada mau enquanto ela estivera fora. Deliberadamente se meteu na água. Estava terrivelmente fria e tinha intumescido seu corpo, mas não sua mente. Impondo sua vontade, forte e disciplinada graças a uma infância em solidão, Shea resistia a unir-se a ele. A água estava tão fria que já não sentia mais os pés, mas, de algum jeito, ajudou-lhe a esclarecer idéias.

Jacques liberou o terceiro cervo e inalou bruscamente. Shea tinha uma vontade de ferro. Sabia que tentaria resistir à união. Sua infância tinha sido um inferno, mas tinha sobrevivido e se converteu em uma mulher forte, brilhante e valente. Desejava poder acalmála, tranqüilizá-la, mas sabia que não aceitaria que ele se envolvesse. Tinha razões para lhe temer. Recordava tão poucas coisas… Traição. Dor e raiva. Nem sequer havia sabido se comportar durante sua transformação. Na realidade tinha a sensação de que tinha feito tudo errado desde que a conhecera. Os cervos começaram a mover-se e cambaleantes, encaminharam-se para o bosque. Jacques poderia havê-los matado, ter bebido até a última gota de sangue de seus corpos, mas então Shea teria pensado que ele era um monstro. Sintonizou seu corpo com o dela, desejando vê-la, cheirá-la, tocá-la. Podia ser um monstro… mas o que sabia, o que tinha certeza era que precisava demais dela a seu lado. Shea vagou à deriva até que não pôde pensar em mais nada que não fosse Jacques. O vazio em seu interior crescia, convertendo-se em um enorme buraco negro. Seu corpo


estava repleto de necessidades, sua mente era um caos e já estava muito cansada de lutar consigo mesma. E se houvesse lhe ocorrido algo? Esse pensamento apareceu de novo em sua mente, aumentando sua sensação de solidão até convertê-la em algo espantoso. A pena crescia em seu interior, envolvendo-a, separando a lógica da razão para deixar simplesmente as cruas e abertas emoções. Shea não podia continuar assim e sabia. Não importava se seu orgulho o permitia ou não, devia retornar. Não só era humilhante, como também lhe dava bastante medo. Parecia impossível que Jacques tivesse adquirido tanto poder sobre ela em tão pouco tempo, mas assim era e teria que aceitar. Caminhou contra a vontade e lentamente para a cabana, estava morta de medo, mas cada passo que dava para Jacques aliviava o peso em seu coração. Na clareira, antes de chegar à casa, havia três grandes cervos descansando sob os ramos de uma árvore. Parou por um momento para observá-los, sabendo perfeitamente o que lhes tinha acontecido. Shea caminhou até o alpendre vacilando, finalmente entrou. Jacques estava deitado sobre a cama, completamente imóvel, com os olhos negros abertos, olhando-a fixamente, sem piscar sequer. Shea sentiu se afundando naquelas profundidades negras e insondáveis. Estendeu uma mão para ela. Ela não queria ir, mas avançou para ele porque tinha que fazê-lo. Precisava fazê-lo. Uma parte de seu cérebro analisou esse fato. Como era possível que pudesse aconcecer, mas se dirigiu para seu lado sem lutar contra a forte vontade que a atraía. Os dedos de Jacques, inesperadamente quentes, fecharam-se sobre a mão fria dela, envolvendo-a. Puxou-a suavementee, até que não lhe restou outra opção que sentar-se e depois deitar-se junto a ele. Os olhos negros não se afastaram nem por um momento de seu rosto. — Está gelada, pequena ruiva. — Sua voz era um sussurro que acariciava sua pele e a hipnotizava, dissipando o caos reinava em sua mente para substitui-lo com calma e serenidade. — Deixe que eu lhe esquente. Aproximou a mão ao rosto da Shea, desenhando a linha de cada osso delicado e deslizando-se em uma carícia para sua garganta. Shea piscou, confusa, não estava segura de se estava acordada ou sonhando. Moveu-se, inquieta, enquanto seu cérebro tentava classificar, como era habitual, a informação que recebia, mas não pôde afastar a vista de seus sedutores olhos. E havia uma parte dela que não queria fazê-lo. Queria ficar colada a ele para sempre, para que a protegesse, para formar parte dele. Ignorando os gritos de protesto de seu corpo, Jacques se moveu para adaptar seu


enorme corpo ao outro menor que se apertava contra ele na cama. Continuou acariciando a esbelta linha de seu pescoço e desceu para traçar com um dedo a linha do decote de sua camiseta de algodão. — Sente a forma em que nossos corações pulsam uníssonos. — afastou com a mão, a camiseta a protegia, de maneira que seus seios ficaram totalmente expostos baixo a pouca luz da noite. Percebeu o protesto na mente dela e seguiu sussurrando para envolvê-la mais profundamente em seu feitiço. Na profundidade de seus olhos se lia a fome, o fogo e a necessidade. Apanhou aqueles poços verde esmeralda na intensidade de seu olhar. Como uma folha, a camiseta de algodão caiu flutuando no chão. A mão do Jacques deslizou sobre a pele suave que havia desnudado e sem deixar de olhá-la, lentamente inclinou a cabeça. Shea não conseguia respirar. Aquela boca perfeita permanecia a escassos milímetros da sua. Ardia por ele. Abrasava-se por ele. Seus olhos se fecharam enquanto ele colava sua boca a dela. Esteve a ponto de gritar ante a sensação que atravessou seu corpo. Uma onda de calor se alastrou por todos seu corpo. Ele estava explorando cada centímetro de sua boca. Acariciando, exigindo, acalmando e dominando, medindo delicadamente seus dentes… Toda uma exibição de posse masculina. Abandonou seus lábios para deixar uma esteira de beijos sobre a garganta, sobre os ombros, e mais abaixo… Até encontrar seus seios. Shea enredou as mãos em seus cabelos, enquanto a língua dele traçava sua pele e lhe acelerava o pulso. Seu corpo preparou-se, esperando com antecipação. Seus dentes mordiscaram brandamente os mamilos, movendo a língua com maestria enquanto ela estremecia de prazer. Sua boca convertia a suavidade em um calor úmido. — Desejo-te, Shea. Necessito-te. E era certo. Seu corpo parecia não se dar conta que tomá-la era fisicamente impossível. E isso lhe fazia mal, provocava-lhe um tipo de dor que quase anulava todas as outras. Sentia a pele ardendo e insuportavelmente sensível. A contragosto abandonou seu seio, e levou sua língua uma vez mais ao lugar onde pulsava seu pulso. — Shea… Sussurrou seu nome enquanto cravava os dentes profundamente. Ela ofegou, atravessada de uma vez por uma aguda dor e uma onda de intenso prazer. Arqueou o corpo, embalando com os braços a cabeça de Jacques.


Era um êxtase abraçá-la assim, alimentar-se de sua doçura, explorar sua suavidade com as mãos. O prazer era tão intenso que o maltratado corpo do Jacques se inchou, e todos seus músculos ficaram tensos, rígidos. Ela tinha um sabor quente e picante, como uma droga. Precisava afundar seu corpo no dela enquanto se alimentava. Cada um de seus instintos, tanto os do homem como os do animal infernal, clamavam para unir-se a ela como fazia sua gente, amarrando-a a ele para toda a eternidade. Seus seios perfeitos lhe estavam deixando louco. Tinha que ser seu busto tão pequeno e delicado? Ou sua cintura tão diminuta?… Não só a desejava. Precisava. Necessitava dela. Levantou a cabeça e acariciou a pequena ferida com a língua para fechá-la. Shea tinha os olhos fechados, o corpo suave e flexível. — Necessita-me, meu amor. — beijou-a brandamente. — Beija meu peito. Deixe-me sentir que sua necessidade é tão grande como a minha. Era pura magia negra, um erótico sussurro de sedução que Shea se sentia incapaz de resistir. Deslizou a boca sobre a pele de Jacques, alcançando a garganta e descendo muito lentamente para os músculos de seu peito. Jacques sabia que estava brincando com fogo. Seu corpo não resistiria muito mais. Segurou a nuca dela com a mão e apertou a cabeça contra seu corpo. —Beba, meu amor. Está faminta. — Prevaleceu o instinto de sobrevivência e o corpo da Shea se ascendeu por antecipação. A voz de Jacques era a pureza em si mesmo. —Tomará o que eu livremente te ofereço. É meu direito e não me pode negar isso. O roçar da pequena língua enviou ondas de fogo através de seu sangue. Quando os dentes atravessaram sua pele, Jacques gritou de puro êxtase. Abandonou-se àquele sensual prazer enquanto com a mão acariciava seus cabelos, insistindo em alimentá-la. Necessitava dessa proximidade, dessa erótica intimidade. Já que neste momento não podia tomá-la por completo, ao menos asseguraria seu vínculo. Abraçou-a, envolvendo seu corpo de uma maneira dominante, como seu povo havia feito durante gerações. Suas mãos estavam carregadas de ternura enquanto a acariciava. Muito lentamente, preguiçosamente, deslizou as mãos por sua sedosa cabeleira, afastando-a para poder acariciar as delicadas linhas de seu rosto. Então, com muito cuidado, introduziu sua mão entre a boca da Shea e seu próprio peito. — É suficiente, Shea. Fecha a ferida com sua língua. O ventre de Jacques estirou e ele estremeceu quando ela o obedeceu. Desejava-a,


necessitava-a, morria por fazê-la sua. Durante um instante, sentiu que essa necessidade lhe provocava mais tortura que suas espantosas feridas. Segurou os cabelos dela com ambas as mãos e trouxe o rosto dela para ele enquanto todo seu corpo clamava por obrigá-la a lhe oferecer algum tipo de alívio. Jacques sentiu que estava no inferno de novo. Esmagou sua boca contra a dela, saboreando seu próprio sangue. Algo crescia no interior de sua cabeça, rugindo como uma besta selvagem e indomável, uma besta que estava muito perto de escapar de seu férreo controle. Instintivamente, sua mente procurou a dela. — Shea! A chamada era urgente, um fio de desespero. Shea estava enredada na cama com Jacques. Pele contra pele. Ele com seus fortes braços ao redor de seu corpo e sua boca apertada contra a dela de tal maneira que todo seu corpo clamava por ele. Enquanto ele se mostrava agressivo e dominante, ela se mantinha total. Quando olhou aos olhos, pôde ler o desespero, o insaciável desejo e a ternura resplandecendo sob o animal selvagem que tentava apoderar-se do que lhe pertencia. Reconheceu as labaredas vermelhas que dançavam na profundidade de seus olhos, revelando a violência que havia em seu interior. Quando ficou tensa, preparando-se para lutar, um grunhido de advertência retumbou no mais profundo de sua garganta. Shea ficou muito quieta, obrigando sua mente a liberar o pânico, forçando-se a pensar com lógica. Ele havia a chamado porque precisava de sua ajuda. No momento que se deu conta disto, relaxou e o abraçou sem medo. Ele precisava dela e não podia fazer outra coisa, além de lhe ajudar. Suas mãos estavam em todas as partes, firmes, excessivamente agressivas. Seus dentes a mordiam com muita força. — Jacques. — introduziu-se deliberadamente na neblina vermelha que envolvia sua mente. Estava muito serena, calma, aceitando o animal que havia em seu interior — Volta para mim. Ele segurava-se em Shea como se ela fosse sua tábua de salvação, fundindo sua mente com a dela. Respirava agitadamente, com muita dor. Podia perceber o escuro desejo pulsando em seu interior, lhe ordenando que tomasse o que por direito lhe pertencia. Jacques lutava por controlar ao monstro que havia dentro dele. Shea começou a beijar sua garganta e a dura linha de sua mandíbula, acariciando-o suavemente, tentando acalmá-lo. — Volte para mim.


Então, ele enterrou o rosto em seu pescoço, abraçando-a com força. Estava exausto e dolorido, e temia havê-la afastado ainda mais. Era Shea quem se enredava com seus cabelos, murmurando tolices para lhe tranqüilizar; era Shea quem se colava a seu lado, suave e flexível, junto a seu coração. Levo sua pequena mão ao rosto, desenhando seu perfil, lhe tocando, enquanto sua mente permanecia completamente unida a de Jacques. — Sinto muito. — ele descansou o queixo no alto de sua cabeça, incapaz de confrontar a condenação que temia ver refletida nos olhos verdes. — Ssh, fique aquieto. Nunca te deixarei sozinho. — Você não provocaste isto. — Seus braços a apertaram por um momento — Shea, nem pense. Não tem culpa de minha loucura. Meu corpo necessita do teu. O acoplamento entre companheiros não é exatamente igual ao dos humanos. Estive a ponto de te ferir, Shea. Sinto muito. — Você é o único que sofre, Jacques — assinalou meigamente. Ela deu conta de que estava usando a conexão mental, aceitando-a como natural. Suspirou e elevou a cabeça para beijar o queixo de Jacques. Abraçaram-se como dois meninos depois de uma terrível briga, agradecidos de estar juntos. Após um momento, Shea se deu conta de que estava unida a ele, nua da cintura para cima, com a pele sensível e os seios esmagados contra seu peito. — Suponho que não vai me dizer onde foi parar a minha camiseta… — permanecia deitada, sem mover-se, sonolenta e feliz. Estar tão perto dele possivelmente deveria incomodá-la, mas lhe parecia natural. Viu os farrapos da camiseta atirados no chão, junto à cama. — Tinha um pouco de pressa, não? — assinalou, fazendo um esforço por levantar-se e vestir-se. Quando Shea tratou de levantar-se, Jacques se negou a deixar de abraçá-la. Em seu lugar, alcançou a colcha e a envolveu a seu redor. Ela pôde perceber seu sorriso na mente. — Conte-me algo de sua infância. — soltou as palavras como uma bomba e percebeu como ela se endurecia. Era dor e o intento de esconder-se dentro de sua couraça. — Quero que você mesma me conte isso, Shea. Poderia procurar em suas lembranças, mas não é a mesma coisa. — Havia visto sua infância, a forma terrível em que tinha crescido, completamente sozinha. Mas queria que ela compartilhasse essa parte de sua vida com ele, que lhe desse o inapreciável presente de sua confiança. Shea percebia o firme e suave batimento do coração de Jacques. Parecia justo


compartilhar com ele aquele pesadelo quando ela tinha visto a escuridão de sua alma. — Dei-me conta de que minha mãe não estava bem quando era muito pequena. Abandonava-me durante semanas e nem sequer se dava conta de se eu comia, dormia ou se passava mal. Não tinha amigos e quase nunca saía de casa. Era muito estranha e em nenhuma ocasião mostrou algum interesse ou avaliação por algo. — A mão de Jacques deslizou-se por seu cabelo, acariciando e massageando sua nuca para lhe dar forças. A voz angustiada de Shea era mais do que podia suportar. — Tinha seis anos quando descobri que era diferente, que necessitava sangue. Minha mãe me tinha esquecido durante muitos dias seguidos. Limitava-se a deitar na cama e a olhar o teto. Eu entrava em seu quarto a cada manhã para lhe dar um beijo de despedida antes de ir ao colégio. Jamais pareceu dar-se conta. Passavam os dias e cada vez estava mais fraca, débil. Não podia nem sequer andar pela casa. Aproximava-se de mim e fazia um corte e deixava cair o sangue em um copo. Disse-me que eu tinha que beber sangue freqüentemente. Depois morreu. Eu sozinha usava transfusões, mas… Permaneceu calada durante tanto tempo que Jacques roçou sua mente para ver como se encontrava. Percebeu como tinha sido sua infância, o aborrecimento que sentia por ela mesma, os medos e a sensação de solidão. Jacques a abraçou com força, atraindo-a para seu peito, querendo protegê-la para sempre. Sabia o que era estar sozinho. Totalmente sozinho. Não queria que ela se sentisse assim de novo, jamais. Shea sentiu o roçar de seus lábios na na testa, na têmpora, nos cabelos… Sua ternura enfraqueceu seu corpo, que estava tremendo por dentro. — Minha mãe não era como eu. Ninguém era como eu. Nunca pude contar e nem perguntar a ninguém o que se passava comigo. Levou-me à Irlanda para me esconder porque quando nasci, meu sangue era tão estranho que despertou interesse tanto do campo médico como do cientista. Tinham que me fazer transfusões diariamente mas ainda assim, me debilitava. Quando estava maiorzinha, dois homens vieram a nossa casa e perguntaram a minha mãe muitas coisas sobre mim. Eu podia escutar suas vozes e me davam muito medo. Assim, me escondi debaixo da cama, temerosa de que me obrigasse a lhes ver. Não o fizeram. Aterrorizaram-na tanto como a mim. Então ela fez as malas e fugimos. — Está segura de que sua mãe alguma vez teve contato com sangue? — Perguntou amavelmente, preocupado por ela deixar de compartilhar com ele o que, obviamente, eram lembranças muito dolorosas. Não podia evitar sua dor, mas podia tentar aliviá-la com a força de seus braços e a proximidade de seu corpo.


— Nunca. Era como uma formosa sombra, sempre separada do resto do mundo. Só pensava nele. No Rand. Meu pai. O nome despertou uma dolorosa lembrança na mente do Jacques. Foi tão intenso que lhe escapou antes de poder fixá-lo. — Você nunca o viu? — só em pensar no homem que ela chamava de pai, uma dor aguda lhe atravessava a cabeça. — Não, estava casado com uma mulher chamada Noelle. Uma imagem apareceu em sua mente acompanhada de uma dor insuportável. Uma bela mulher decapitada, com uma estaca no coração. A lembrança era tão viva, tão intenso, que Jacques não conseguia respirar. Afastou a imagem de sua mente, mas já a tinha reconhecido. Noelle. Shea levantou a cabeça, procurando com seus olhos verdes o olhar negro. — Conhecia-a…— Compartilhava as lembranças da mente de Jacques, e viu a mesma imagem. Ficou doente com a brutalidade daquela morte. Aquela mulher tinha sido assassinada usando o ritual para matar vampiros. Decapitada. Com a estaca… — Está morta. — Disse com certeza e com pena. — Era minha irmã. O rosto de Shea ficou tão branco como a parede. — Tinha um filho? — Um varão. — Meu Deus !— Shea escapou de seus braços como se a queimassem. Afastando-se dele com os braços cruzados sobre seu peito e um olhar selvagem — Isto fica pior a cada minuto que passa. Agora sei que meu pai era provavelmente o marido de sua irmã…— afastou-se da cama horrorizada. — Não pode estar segura disso… O mundo é muito grande. — Quantos Rand de sua espécie há nas montanhas dos Cárpatos? Quantos casou com uma mulher chamada Noelle, que deu a luz um menino? Estava tudo no diário de minha mãe… Os caçadores de vampiros lhe atravessaram o coração com uma estaca faz anos. Antes que eu nascesse. Não sei nada mais. E não sei se quero sabê-lo. Shea encontrou outro pedaço destroçado da camiseta. — Sinto por ela, por minha mãe. Tudo isto é tão estranho… — sacudiu uma mão


enquanto rodeava a cama — Até é possível que nós estejamos aparentados de algum jeito. — Os companheiros estão destinados a encontrar-se, Shea. Só existe um companheiro para cada pessoa. O que fizeram seus pais e minha irmã não tem nada a ver conosco. — É obvio que sim. Não sabemos quem é realmente. Na realidade não sabemos nada sobre você. O que estou fazendo contigo vai contra todas as regras de minha profissão. Nem sequer sabemos se está casado ou não… — Só há um companheiro possível, Shea. Sei que tudo isto é novo para ti e que te assusta. Mas assim como eu tenho que estar aqui deitado, totalmente frustrado, você deverá ter paciência. Já estamos descobrindo algumas coisas. Sou incapaz de recordar alguns detalhes muito importantes para nós, mas te rogo que tenha paciência enquanto se esclarecem as coisas. — disse movendo-se inquieto. Aquele movimento a fez recapitular, acalmando-a como nenhuma outra coisa teria feito. — Não tem nenhum cuidado, Jacques. Não deve se mover. — inclinou-se sobre ele, colocando sua mão fresca sobre a pele ardente. A ferida próxima ao coração começava a curar-se. Sua farta cabeleira caía sobre os ombros lhe acariciando o abdômen, marcando a fogo a pele de Jacques. A calidez de seu fôlego ao inclinar-se sobre ele para examinar a ferida era como uma chama flutuando sobre seu corpo. Jacques fechou os olhos enquanto sentia que cada músculo de seu corpo se retesar. Sua reação para ela, mais que qualquer outra coisa, assegurou-lhe que se estava curando. Enredou a mão no sedoso cabelo. — Sei que está com intenção de me deixar, Shea. Quando eu recuperar as forças. — olhou-a enquanto aproximava o cabelo vermelho à boca. —Tem medo de mim. Posso vê-lo em seus olhos. Shea passou a língua pelos lábios, pensativa. Jacques percebeu que estava utilizando sua habilidade para bloquear as emoções em sua mente, como para quando se sentia ameaçada de algum modo. Sua parte racional se recuperou, examinando a situação que havia entre eles. — Não sei o que é, Jacques, nem o que será capaz de fazer uma vez que tenha se recuperado. Não sei nada sobre seu passado nem sobre seu futuro. Dedico-me à investigação


médica e é muito provável que uma vez que se encontre bem, não tenhamos nada em comum. Ele não se separou dela seu escuro olhar, duro e espectador. Inclusive seu corpo parecia estar completamente imóvel. — Teme-me. — Queria que ela o confrontasse, não que deixasse de lado o assunto. — E não tem motivos para fazê-lo. Ela sacudiu a cabeça, e seu cabelo vermelho se agitou em todas as direções. — Sério? Jacques, sua mera existência já ameaça todas minhas crenças. Converteume… Eu só era metade dos Cárpatos… Ou que seja possivelmente vampiro, nem sequer estou segura e você me converteu de todo. Agora sou diferente. Não posso comer, não tenho as funções corporais normais, e meu ouvido se aguçou ainda mais. Na realidade, todas as minhas habilidades mudaram, todas. Lançou pela janela a vida que tinha conhecido e a substituíste por uma que nem sabemos nada. — ela moveu a cabeça e cedeu ao desejo que a impulsionava, lhe acariciar o cabelo.— Não serei como minha mãe, Jacques, que vivia unicamente para um homem. Quando ele a abandonou, esperou unicamente até o momento em que acreditou que eu já não precisava mais dela para suicidar-se. Isso não é amor, é obsessão. Nenhum filho meu sofrerá por uma obsessão doentia, como me aconteceu . Inalou sua fragrância e de novo sentiu o calor atravessando seu corpo, lhe abrasando com a urgente demanda de enterrar-se nela, de formar realmente um único ser. — Preciso de você, Shea. É tão horroroso assim pensar que um dia poderia me amar? Sei que aceita o que sou. Posso perceber. O que ocorreu entre Rand e sua mãe não tem nada a ver conosco. Viu a escuridão de meu interior, a besta lutando por liberar-se e ainda assim ficou comigo. O encarceramento destruiu a pessoa que fui uma vez e não sei quem sou agora. Mas sei que te necessito. De verdade, pensa em me abandonar? Ela percebeu seu desespero. — Nem te ocorra pensar que é um monstro, Jacques. A forma em que me acaricia algumas vezes… Com tanta ternura, certamente não pode comparar-se com a de um monstro. — Shea se sentia inquieta, uma estranha necessidade a percorria de cima abaixo, um tipo de necessidade que não tinha conhecido até agora. — Desejava-me, Jacques, e ainda assim se conteve. Não é nenhum monstro. —Possivelmente foram as feridas o que me detiveram, e não o autocontrole. — tinha sido ela quem lhe tinha detido, ao aceitar a besta que havia nele. — Está cansado, Jacques. Deveria descansar um momento.


Ele tomou sua mão, deslizando o polegar pelo interior de sua mão. — Não sou um vampiro. Ainda não me transformei. — Não sei o que quer dizer. Fechou os olhos, rindo mentalmente. Ela voltava a usar o tom de voz profissional, de cientista. — Você estava preocupada que me tivesse transformado. No bosque, temia que fosse um vampiro. Justo agora, está pensando que nossa gente bem poderiam ser vampiros… Somos gente dos Cárpatos, não vampiros. A menos que sucumbamos à escuridão. — Importaria-se de permanecer fora de minha mente? Faça o favor de esperar que eu te convide, se for tão amável. — Se tivesse que esperar a que me convidasse, pequena ruiva, passaria séculos sem poder entrar. — o sorriso que apareceu no semblante de Shea era muito sexy para que conseguisse conservar a paz mental. — Tão somente tentava acalmar seus temores. —tentava parecer inocente. Shea riu mansamente. — É que tenho a palavra “ingênua” estampada na frente? — Alguma vez alguém se queixou da forma que trata seus pacientes? Arqueou as sobrancelhas. — Sou cirurgiã. Não preciso ter nenhum tipo de trato com os pacientes. E em qualquer caso, jamais tive um paciente tão insuportável antes. Não me chame “ruiva”, nem de “pequena ruiva”… Nem nenhuma das outras coisas que me chama. Apropriado seria que se dirigisse para mim como Doutora Ou’Halloran. Pela primeira vez, a boca sensual dele se suavizou, curvando-se em um sorriso. O efeito que teve nela foi demolidor. Não era justo que um homem fosse tão sexy. Deveria estar proibido, era um perigo para toda a comunidade feminina. — Bonito e sexy. Não devo estar tão mal, depois de tudo — sua voz soava preguiçosa, travessa e algo rouca. Shea riu novamente. Era impossível zangar-se com ele quando estava de bom humor. — Está bem… É bonito e sexy, mas não deixe que te suba à cabeça. Também é


arrogante, dominador e muito rude para meu gosto. — alfinetou sem alterar-se. Jacques pegou ligeiramente sua mão e a aproximou da cama para poder levar sua palma até o calor de sua boca. — Sou exatamente o que você gosta… Shea retirou a mão de sua boca como se a tivesse queimado, e esfregou a palma contra a coxa. A sensação não desapareceu, como tampouco as sensações que teimavam em manipular seu corpo. — Como sabe que não é um vampiro? — precisava trocar de assunto. Precisava distraí-lo… e a si mesma também. — Possivelmente o tenha esquecido, mas é perfeitamente capaz de atuar como se fosse. Desta vez, ele riu alto, assombrando a ambos. Era um som rouco, grave, estranho a seus próprios ouvidos, como se tivesse esquecido como ria. Seu negro olhar se cravou no rosto da Shea e parecia quase atemorizado. — Não está tão mal, homem selvagem. Primeiro um grunhido e agora uma gargalhada. Estamos fazendo alguns progressos… — seus olhos resplandeciam de diversão, conseguindo lhe tranqüilizar. Então, a alegria brotou no meio da dor. Shea. Ela tinha criado um mundo no qual sua alma podia alcançar a luz. — Os vampiros não são capazes de sentir nada, exceto a grandeza momentânea que o assassinato lhes proporciona. São umas criaturas sem nenhum tipo de código moral. Shea elevou o queixo, franzindo o cenho concentrada. — Assassinato? — Sempre matam suas presas quando se alimentam e não as deixam em transe antes de fazê-lo. Sua grandeza se alimenta do terror de suas vítimas. Não fazem nenhum tipo de distinção entre mulheres, homens ou crianças. Os vampiros venderam sua alma em troca de efêmeras emoções. — Você também é capaz de assassinar? — Shea apertou os punhos e conteve a respiração. Por que tinha perguntado aquilo? Já sabia a resposta, tinha podido vislumbrar a escuridão de seu interior em mais de uma ocasião. — Bastante facilmente quando é necessário, mas jamais a uma presa humana. – Respondeu quase sem pensar. Formava parte de seus instintos, de sua natureza de predador.


— Pessoas, Jacques. — corrigiu-lhe. — Somos pessoas. — Você pertence a minha gente. — Nem sequer sei o que isso significa. E você? Sabe na realidade? Pode ser que tenha um tipo de sangue estranho que te conceda, de algum modo, habilidades especiais. — realmente, Shea não acreditava que isso fosse certo. Estava segura de que ele dizia a verdade. Simplesmente, pertencia a outra raça. O esgotamento estava ganhando a batalha em Jacques. O sono dos mortais não era rejuvenescedor, mas até que Shea se acostumasse a sua nova vida, não a deixaria desprotegida. Fechou os olhos. — Levo neste mundo mais de oitocentos anos. Já existia antes de que Leonardo Dá Vinci nascesse. Essas palavras penetraram pouco a pouco na mente da Shea. Ela afastou-se da cama para apoiar-se na parede. Mais de oitocentos anos? Shea se levou uma mão à cabeça. E agora o que? O que ia fazer a seguir? Converter-se em um morcego? Em um lobo? Nada mais poderia surpreendê-la… — Se pode escolher, prefiro me transformar em lobo. — houve uma profunda sonoridade em sua voz, que acariciou sua mente. Os cantos de sua boca se elevaram ligeiramente, lhe dando aquela aparência sensual e sexy que ela era incapaz de resistir. — Sim, já imaginava. — respondeu-lhe. Sentia por ele algo que não podia explicar e que faziam que seu coração se derretesse. Havia tantas coisas de Jacques que desconhecia… Até onde chegava seu poder? Se os vampiros existiam realmente, eram originários dos Cárpatos, como Jacques dava a entender? Significava que Jacques guardava em seu interior um assassino implacável que aguardava sua oportunidade para sair à superfície? Passar sete anos emparedado não era a melhor terapia para eliminar hostilidades latentes, certamente, assim não podia descartar a possibilidade de que estivesse completamente louco. Percebia a loucura nele, a luta por recuperar sua memória e encontrar a verdade, por suprimir a violência de seu interior. Sorriu com calma, e acariciou-o com a ponta dos dedos, enquanto seu coração chorava ao lhe ver tão vulnerável, como um menino pequeno. E o que era essa sensação que oprimia seu coração cada vez que se enfrentava ao feito de que, uma vez que se recuperasse, teria que lhe abandonar? — Sou muito poderoso.


Assustada, Shea lhe olhou fixamente. Jacques não se moveu, e seguia com os olhos fechados. — Estou segura disso. — Não tenho nenhuma intenção de permitir que me deixe. Ela lhe dedicou um radiante sorriso. — Justo agora estava pensando no jovem e vulnerável que parecia enquanto dorme. Agora acredito que não é mais que um menino malcriado. — Sou mais exigente que um vampiro, pequena ruiva. Estava acostumado a lhes dar caça e lhes destruir. Asseguro-te, serei capaz de te manter a meu lado. — Farei-te a vida impossível e ao final estará desejoso de me perder de vista. — Verteu a última unidade de sangue em um copo para dar a ele. — Posso fazê-lo, asseguro-lhe isso. Meus pacientes sempre se alegravam ao me ver pela última vez — Pode ser que esteja louco, Shea. Estive pensado muito sobre isso. Sei que minha natureza é a de um predador. — Ele parecia muito pensativo, prestando atenção a cada uma de suas preocupações — Mas se realmente estiver louco, não poderei estar sem você, precisarei em todos os momentos, que esteja a meu lado para que garanta a segurança de toda a humanidade… Shea começou a rir, mas ante a seriedade de seu tom, o sorriso se desvaneceu. Ele não estava brincando, limitava-se a expor a verdade pura e dura. Jacques não estava seguro se havia se tornado louco ou não. — Algumas vezes, homem selvagem, parte-me o coração. — disse com suavidade. — Quer me abandonar, Shea. Percebo sua necessidade de pôr distância entre nós. — Nunca tinha passado tanto tempo com ninguém como contigo, jamais em minha vida. Contei-te mais sobre mim do que a nenhuma outra pessoa, conversamos, rimos, e… – calou-se, sem saber muito bem como continuar, e sentiu que se ruborizava por completo. Jacques abriu os olhos, e girou a cabeça para olhá-la. — Bom, e outras coisas — continuou decidida. — Não é que esteja pensando em te abandonar, é só que preciso de espaço para mim mesma de vez em quando. Você não? Nesse instante, ele uniu sua mente a dela, e Shea pôde perceber o vazio absoluto, um buraco negro que jamais poderia ser cheio. Seu coração batia com força no peito, cheio de


terror. Aquele mundo estava em branco e preto, escuro e feio. Não havia salvação nem esperança, só o desespero total. Ficou sem fôlego. Acariciou-lhe o cabelo, para depois percorrer delicadamente com um dedo a linha de seu queixo. — Até parece… Vejo que você não gosta nada de estar sozinho. Ele respodeu secamente. — Nem sequer posso respirar quando não está perto de mim. — Não me dei conta de que era tão terrível para você. Sinto ter sido tão desconsiderada, Jacques. Não pretendia sê-lo. Tendo a planejar as coisas por antecipado. Às vezes o que está em minha mente nem sempre é o que acabo fazendo ao final. Mas nossa situação está se tornando desesperada. Tenho que ir ao povoado comprar provisões, como sangue e roupa para você. Levantou uma mão para deter seus protestos. Unida a ele como estava, percebeu como rechaçava instantaneamente seu plano. — Não temos escolha, Jacques. Deveria partir imediatamente para poder estar no povoado nas primeiras horas da manhã. — Não! Não é seguro. Não posso permitir que o faça, é muito arriscado. Ela ignorou seu protesto. — É a única maneira de poder estar aqui ao anoitecer. Não quero te deixar só durante as horas do dia, mas necessitamos de sangue, Jacques. Você não está se recuperando o quanto deveria, porque não temos o sangue que necessita. E embora odeie admitir, sei que está me dando seu sangue. Há pouco me encontrava muito fraca e agora estou bastante bem. Deu-me seu sangue, não é verdade? — Não pode ir. Ela percebeu o medo terrível que ele sentia ante a idéia de ficar sozinho. Aquele terrível vazio que o invadia, o buraco negro que lhe engolia quando não estava com ela. Seu coração sangrava por ele. Estar enterrado clandestinamente todos esses anos, sem lembranças, com tão somente a dor, a escuridão e a fome como companheiros, devia ter deixado muitas feridas em sua mente. — Não posso estar sem você. Jacques tomou a mão de Shea e enlaçou os dedos nos dela. Para ele era simples. Ela era seu equilíbrio, sua prudência ou o pouco que restava dela. Era a luz de sua escuridão. Não


podia lhe deixar. Levou a ponta de seus dedos para a calidez de sua boca e ela sentiu uma descarga de sensualidade que a percorreu dos pés a cabeça. Oferecia-lhe a totalidade de sua mente, uma completa intimidade para que ela pudesse perceber cada uma das emoções de Jacques. Ler cada um de seus pensamentos, se assim o desejava. Ali, os escuros desejos se mesclavam com a absoluta resolução de mantêla a seu lado. A solidão brilhava como um buraco negro, vazio. Sentia-se sozinho, sentia dor, vazio e fome. Sempre envolto por uma fome espantosa. Shea notou como as lágrimas deslizavam por seu próprio rosto. Embalou nos braços sua cabeça, lhe balançando levemente. — Jamais voltará a ficar sozinho. — Sussurrou. — Estou aqui contigo, Jacques. Não te deixarei sozinho. — Ainda pensa em me abandonar. Vejo-o em sua mente. Não pode me esconder suas intenções, Shea. Expliquei-lhe isso em incontáveis ocasiões. É minha verdadeira companheira. Não pode haver engano entre nós. Shea apoiou a cabeça sobre a dele. As escuras emoções que giravam no interior daquele homem eram alarmantes. A violência se mesclava com o terror. — Nunca tentei te enganar, e você sabe. Não te minto, isto não é nenhum jogo. Necessitamos do sangue, não poderá se curar sem ele. É a única opção que temos. — Não pode me deixar, Shea. — desta vez foi uma ordem. Perdia a paciência freqüentemente quando falava com ela. Depois, era uma criatura com um poder enorme, bastante arrogante e estava bem claro que gostava que lhe obedecessem. Shea suspirou enquanto acariciava com os dedos as fortes linhas de seu rosto. — Não comece a me dar ordens, homem selvagem. Temos que nos centrar em nosso problema. Necessitamos de sangue. Além disso, não tenho roupa que te sirva. Te ocorre uma idéia melhor? — Pode esperar até que me encontre um pouco melhor e possa ir contigo para te proteger. Ela sacudiu a cabeça — Há algo que não está entendendo bem… Supõe-se que sou eu que devo proteger você. Sou sua médica. — É minha companheira. Só há uma e você é a minha. A única. Shea levantou a cabeça, lhe olhando o rosto com os enormes olhos verdes.


— Alguma vez viveste com uma mulher? Te deitaste com alguma… — Os homens dos Cárpatos não compartilham sua vida com nenhuma outra mulher, além de sua companheira. O sexo é simplesmente compartilhar o corpo, um prazer que se desvanece depois de duzentos anos, se não encontrarmos a nossa companheira. — Não estou segura de ter entendido bem. Sem uma companheira, os homens dos Cárpatos não sentem nada? — Nada, Shea. Nem carinho nem remorso, nem bem e nem mau. Nem desejo, certamente. Depois de duzentos anos os homens dos Cárpatos não podem sentir mais nada.. A cor acentuou-se no rosto de Shea. — Você sente desejo quando está comigo. Pode ser que não tenha muita experiência, mas sigo sendo médica. Ele apertou mais a mão dela, derramando seu quente hálito sobre os nódulos dos dedos. — Desejo-te com cada célula de meu corpo, com minha mente e meu coração. Sua alma é a outra metade da minha. Quando está comigo, sou capaz de sentir alegria, desejo, raiva… Inclusive rir. É minha companheira. Esperei mais de oitocentos anos para te encontrar. Não podia ver cores até que você chegou a minha vida. — Seus olhos negros, carregados de sofrimento, cravaram-se nos verdes dela. — Não posso te perder. Não poderia suportar estar sozinho nunca mais. Tanto os mortais como imortais estariam em perigo se eu te perdesse. Ela não queria tocar neste assunto. Pronunciou seu nome baixinho, lhe beijando a têmpora quase sem ter consciência do que fazia. — Não posso existir sem ti, pequena ruiva. A escuridão cresce em meu interior. A besta é forte. Devo lutar a cada momento por não perder o controle. Minha companheira é minha âncora. Só você pode me salvar, me manter longe da escuridão total. Shea lhe afastou o cabelo do rosto com dedos suaves. — Como sabe tudo isso? Admitiste que não pode recordar muitas coisas. — Tenho aberto minha mente para você. Sabe que é verdade. Você é quem me amarra à vida, assim não posso fazer outra coisa além de me ocupar de que seja feliz. Shea não pôde evitar rir.


— Não faz idéia de quão arrogante soa isso. Não é responsável por me fazer feliz, eu devo me encarregar disso e neste momento, possa suportá-lo ou não seu orgulho masculino, tenho que me ocupar também de sua saúde e de te manter a salvo. Não podemos esperar até que esteja melhor. Tenho que ir agora. Cada dia de atraso dá mais tempo a Dom Wallace para nos encontrar. Quando for capaz de viajar, deixaremos este lugar. — Acariciou uma vez mais seu abundante cabelo. — Tenho que ir, Jacques. Não te estou abandonando, só vou atrás de mantimentos. Ele se afastou dela por um momento, com uma expressão indecifrável no rosto. Seus olhos piscaram. — Irei contigo. Shea se sentou a contragosto junto a ele. Odiava ter que provar o que pensava, mas não havia outra maneira de lhe convencer de que devia ficar. — Tentaremos então sair até o alpendre. Se apóie em mim. — Creio que não posso fazê-lo. — Acredito que tem muita força de vontade, Jacques, mas seu corpo está fraco. Posso estar equivocada, aliás, espero estar, de verdade. — permaneceu em silêncio enquanto fazia os preparativos. Sabia que ele não poderia fazê-lo sem sofrer uma enorme dor. A maca era estreita e incômoda, de modo que Shea tentou acolchoá-la com um lençol. Jacques começou a suar enquanto lhe ajudava a dirigir-se para a maca da cama, mas não emitiu nenhum som. Com o coração encolhido de pena, ela levou-o à varanda de onde poderia apreciar o ar noturno. Certamente que ele suportaria o movimento em silêncio. Tinha suportado torturas e horas de sala de cirurgia sem calmantes nem anestesia. Se sua mente havia conseguido agüentar isso, poderia fazer este pequeno translado sem uma queixa. Jacques bloqueou a dor olhando as estrelas, inalando a fragrância da noite. Esse era seu mundo: o ar livre, o ímpeto do bater das asas, os chiados dos morcegos, o chamada dos insetos. Fechou os olhos para absorver os aromas, as histórias. Seu corpo suportava o esforço físico rugindo de dor, como se uma faca afiada abrisse seu peito. — Jacques, por favor não seja tão teimoso. Posso perceber o que está sentindo. — Não é necessário, Shea. Não te funda comigo, não quero que isto afete a ti também. — Por favor… Permita-me que te leve para dentro, para a cama. Este simples


movimento faz mal. Não posso te levar ao povoado e não me importa o que diga. Se as circunstâncias fossem outras, você não me levaria. Um sorriso curvou a boca de Jacques. — Se as circunstâncias fossem outras, não haveria necessidade de ir ao povoado. Atrairia a cada humano das cercanias para que te alimentasse. — Sua voz estava carregada de ameaça, sutil mas inconfundível e Shea pôde perceber o eco da advertência em seus pensamentos. Se algo ocorresse a ela, nenhum humano estaria a salvo dele. Shea passou a mão pela testa dele. — Este lugar me é muito familiar. — Jacques examinava os arredores com um brilho peculiar nos olhos negros. — Conheço este lugar. Algo ocorreu aqui faz muito tempo, algo que eu deveria recordar. — sua mão pareceu cobrar vida própria ao dirigir-se para sua garganta para traçar a fina linha branca em seu pescoço. — Só uma ferida mortal deixaria uma cicatriz. — Sussurrou quase para si mesmo. Shea permaneceu quieta, rodeando-se fortemente com os braços, tentando permitir que qualquer lembrança possível chegasse a Jacques. — Estive aqui, faz algum tempo. Possivelmente um quarto de século. – doía-lhe a cabeça, mas a lembrança resplandecia, se fazia mais visível em lugar de esfumar-se. Seu negro olhar se deslizava inquieto sobre a clareira. — Houve uma luta aqui… Um vampiro, grande e poderoso, tentando assassinar de novo. Eu jamais tinha brigado com um antes, aquela foi minha primeira vez. Não estava preparado para sua força, nem para sua ferocidade. Possivelmente não podia acreditar que um de minha espécie, inclusive havendose transformado, seria capaz de fazer tanto mal. — Franziu o cenho enquanto se concentrava, tentando captar algum outro retalho de informação e poder armazená-lo em sua memória. — Eu tratava de proteger a alguém… alguém importante, alguém que não podia cair em mãos de vampiros. Há tão poucas… Esse último pensamento pareceu desvanecer-se. Shea uniu sua mente firmemente a dele, percebendo sua confusão, sua frustração por ver-se incapaz de concretizar essa informação. Colocou uma mão em sua fronte, tentando lhe acalmar. Sua carícia estava carregada de ternura, e seus olhos verdes pareciam preocupados. — Tão conhecidos… Não eram verdes, a não ser azuis. Uma mulher. Há muito poucas mulheres dos Cárpatos. Temos que as proteger todo o possível… As proteger. Estava protegendo-a… ela era especial. Nossa esperança para o futuro.


O coração de Shea quase parou. Jacques tinha lutado por outra mulher e quase perdeu a vida no intento, se a cicatriz era uma indicação. — Que mulher? — nem sequer se tinha dado conta de que estava usando o método de comunicação entre companheiros. Através da dor de seu corpo de sua destroçada mente, uma enorme corrente de satisfação masculina invadiu Jacques. A sua pequena doutora ruiva não havia gostado que houvesse outra mulher em sua vida. — Ela tinha os olhos azuis e carregados de lágrimas… igual aos teus neste momento. Capturou uma gota brilhante com a ponta de um dedo e a levou a sua boca para saboreá-la. Seu corpo, tão vorazmente faminto como sempre, absorveu aquela gota como se se tratasse de sua própria essência. — Quem era ela, Jaques? Ou quem é? Um homem como Jacques, tão bonito, tão sensual, tão intenso… é obvio que teria mais de uma mulher oculta em alguma parte. Shea mordeu o lábio com tanta força que logo apareceram várias gotas de sangue. Jacques tentou unir os fragmentos das lembranças que foram e vinham por sua cabeça. Percebia que aquela informação tinha uma grande importância para ambos. — Ela pertencia a outro. Ele é… A dor lhe fendia o crânio como uma banda de aço, apertando com força. Shea entrelaçou os dedos com os dele. — Deixe, Jacques, não precisa que recorde agora. — afastou com cuidado o cabelo de sua frente. — Voltará a seu tempo. Já recordaste de muitas coisas por hoje — estava realmente surpreendida do quanto lhe tinha aliviado saber que aquela mulher desconhecida pertencia a outro. — Se é que não são mais que fantasias… — o tom de sua voz implicava metade diversão, metade autocensura. Aproximou as mãos dela para pegar-lhe pela nuca e atrai-la para poder beijar aquela boca suave e tremente. Deslizou a língua por seu exuberante lábio inferior, eliminando as gotas de sangue.


— Pedi-te que permanecesse afastado de minha cabeça. — disse enquanto lhe devolvia o beijo, pondo muito cuidado em não lhe mover. — Vamos para dentro. — Só um minuto mais. Ouça a melodia da noite. Escuta como os lobos se chamam uns aos outros, cheios de alegria. Ouve-os? Ouvia-os. Como poderia não ouvi-los? A certa distância, eles elevava seus focinhos para o céu e derramavam sua felicidade uns aos outros. Era-lhes impossível contê-la dentro seus corpos e emanava desde seus corações através de suas gargantas para a noite. Era tão formoso, tão puro… Parecia que formavam um só ser com a natureza. As notas, cada uma diferente, própria e distintiva de cada animal, flutuavam através do bosque elevando-se até o céu. Ela formava parte desta terra. Pertencia à alcatéia de lobos, às montanhas, a noite. Girou a cabeça para olhar Jacques, e lhe encontrou apertando com força sua cabeça enquanto as lembranças se amontoavam em seu interior. Pequenos fragmentos e peças que lhe atormentavam e lhe frustravam, como lascas de cristal que se cravavam em seu cérebro. —Tenho que me lembrar. Alguém importante. Lembrar a luta. — Sua mão foi uma vez mais a sua garganta. — O vampiro me cortou a garganta. A mulher salvou minha vida. Parecia estar histérica, mas encheu a ferida com terra e sua saliva enquanto chorava sobre mim. O vampiro a levou. Por que não posso me recordar dele? — Pare agora mesmo! — ordenou, cortante, enquanto afastava com carícias a mancha carmesim da fronte de Jacques. — Vou te levar para dentro neste momento. — Shea… Seu nome era como um talismã mágico, um suave bálsamo para sua mente torturada. — Estou aqui contigo, Jacques. — uniu sua mente a dele instantaneamente enquanto o abraçava. — Recuperará a memória em seu momento certo, prometo-lhe isso. Jacques lhe acariciou a garganta, observando as feridas abertas, as marcas dos dentes que se negavam a curar-se. Sem o sangue que necessitava e o sono rejuvenescedor de sua gente, seu corpo não poderia curar-se por si mesmo. — Olhe-se. Olhe o que te fiz. Não posso te proteger como deveria, como é minha obrigação. Na realidade, não sou mais que uma carga para ti. Deu-lhe um pequeno puxão de cabelo como castigo pelo que havia dito. — Não gosto muito de fazer isto, Jacques, você é o perito em dar ordens. — manobrou a maca de volta à sala e aproveitou a oportunidade para pôr lençóis limpos na cama antes de ajudar Jacques a se deitar. — Sabe que tenho que ir. — Disse suavemente.


Jacques permaneceu silencioso, completamente imóvel, suportando a terrível dor que lhe consumia, agradecido de estar sobre a cama e de que ela estivesse lhe tocando, acalmando. Adorava a sensação de seus dedos enquanto lhe acariciava o cabelo e a fronte, afastando a dor. — Não posso permitir que vá desprotegida. — Sua resolução se estava desvanecendo. Podia dizer a ela que não lhe agradava a idéia, mas sabia que era necessário. — Também eu vou te deixar desprotegido. Mas poderemos consegui-lo, não é como se fôssemos estar sozinhos de todo, não? Importa a distância? Nosso vínculo é muito forte, não poderíamos usá-lo se nos separam alguns quilômetros? Depois de tudo, você me chamou desde milhares de quilômetros. Seus olhos refletiram a dor que sentia, mas se tinha resignado a aceitar essa viagem. — É certo, podemos unir nossas mentes quando quisermos, mas isso esgotará minha energia. À medida que aumenta a distância, faz-se mais difícil… — Só porque sempre te deixei fazer todo o trabalho. — Shea comprovou que a pistola e o rifle estavam carregados e deixou duas caixas de balas junto às armas, ao alcance de sua mão. — Estou me tornando uma perita em ler a mente. Dizia-se que minha mãe tinha certas habilidades psíquicas e supostamente eu herdei essas habilidades… Quem sabe, é o certo. — Nosso vínculo se faz mais forte com cada intercâmbio de sangue, com cada momento que passamos juntos. — Assim, se nos separamos um momento deixarei de sofrer esta necessidade de estar continuamente a seu lado? — Brincou Ele afundou a mão em seu sedoso cabelo. — Dou-te permissão para que faça isto, mas não… — freou o pensamento abruptamente. Mas não antes de que Shea captasse o eco de algo masculinamente primitivo e territorial. Franziu o cenho. Algumas vezes, lhe recordava mais a um animal selvagem que a um homem. — Deixemos de lado a questão da permissão… Ofende minha natureza independente. Ela ria novamente, brincando com ele e Jacques sentiu que a luz de Shea lhe envolvia. Parecia brilhar através de seus olhos verdes, o afastando do grande vazio.


O que ela dizia estava carregado de razões, e neste momento de lucidez, Jacques não pôde fazer outra coisa mais que assentir. Entretanto, como ia estar sem ela, embora fosse por um período curto de tempo? Como sobreviveria cada minuto, cada segundo que acontecesse? Fechou os olhos, enquanto uma capa fina de suor lhe cobria a pele em pensar na escuridão que teria que suportar. A agonia. A solidão. — Não, Jacques. Disse que podia deter seu coração e seus pulmões. Quando faz isso, sente ou pensa? Sonha? Tem pesadelos? — Não, mas não me atrevo a dormir à maneira de nossa gente quando está longe de mim ou escolhe o sono dos mortais. Devo permanecer alerta. — Estarei bem. Dorme dessa maneira e descansa por uma vez. Voltarei esta noite logo que possa. — Não deve permitir que te ocorra nada, Shea. Não entende quão importante é que volte sã e salva. Não posso estar sem você. Devolveu-me à vida. Sei que minha mente não está bem. Não pode me abandonar quando mais te necessito… Não seria capaz de encontrar o caminho de volta se a escuridão da besta tomar o controle… — Não tenho intenção de te abandonar, Jacques. — assegurou-lhe. — Não esqueça que deve te unir comigo durante este tempo. — havia medo em sua voz. — Assegurarei-me de fazê-lo freqüentemente, Jacques, e assim poderá me dizer se algo estiver errado. De acordo? Não quero voltar a escutar essa voz de macho territorial e protetor.


Capítulo 6 O amanhecer raiava no céu quando Shea começou a viagem pelas agrestes terras para o povoado mais próximo. Necessitava de combustível, ervas, suturas e mantimentos. Também de sangue. Sangue puro. Toda sua vida tinha lutado contra o cansaço durante as horas do dia, mas agora era muito mais que cansaço. Estava exausta. E lhe aterrorizava ser capturada sozinha num um estado de tanta fraqueza. Sabia que seria impossível proteger-se sozinha. E o pior, temia que ocorresse algo a Jacques enquanto estavam separados. Shea estacionou no posto de gasolina do povoado e desembarcou do carro. Quase imediatamente se sentiu inquieta, sem saber muito bem por que. Tão somente uns poucos habitantes iam de um lado para outro. Apoiou-se tentando parecer indiferente contra o veículo, olhando a seu redor. Não pôde detectar ninguém, mas sentia olhos cravados nela. Alguém ou algo a observava. A sensação era intensa. Levantando seu queixo, esforçou-se por não fazer caso de sua fabulosa imaginação enquanto enchia o tanque do carro, o de reserva e os dois depósitos para seu gerador. A sensação de ser observada se fez mais intensa e lhe pôs nervosa. De repente, algo empurrava sua mente. Não era Jacques. Reconheceria seu contato. O medo se apoderou dela, mas se manteve firme, como uma profissional, concentrando-se no único propósito de terminar sua tarefa tão rápido como fosse possível. O que quer que fosse se retirou, incapaz de penetrar em sua mente. Shea conduziu pela rua, virtualmente deserta e estacionou perto do pequeno centro médico. Desta vez, enquanto descia, examinou as sombras ao seu redor utilizando cada sentido que possuía. Vista. Gosto. Ouvido. Instinto. Havia alguém, algo a tinha seguido e estava perto, podia percebê-lo mas não era capaz de encontrá-lo. — Jacques? — roçou suave sua mente, temendo de repente estar percebendo algo que estivesse acontecendo a ele. — Estou esperando sua volta. Sentiu seu cansaço. A luz da manhã era inclusive mais dura para ele que para ela. Odiava estar longe dele. — Voltarei logo.


Shea inspirou profundamente e olhou a seu redor, decidida a encontrar o que a fazia sentir-se tão incômoda. Um homem descansava prazerosamente à sombra de uma árvore. Era alto, moreno e permanecia completamente imóvel, como um caçador. Ela sentiu o impacto de seus olhos quando seu olhar se encontrou com o dele, por acaso. O coração deu um salto no peito. Quem era? Será que Wallace a teria encontrado tão logo? Deu a volta. O primeiro que devia fazer era encarregar-se de levar a cabo sua missão. Tirou seu computador e teclou a ordem para acessar ao banco de sangue da clínica. Se tinha que mover Jacques, necessitariam de fornecimentos desesperadamente. Um momento depois, Shea sentiu que se comportou como uma estúpida. A porta da pequena loja que havia ao outro lado a rua se abriu de repente, e o miúdo proprietário saiu com um avental ao redor de sua ampla cintura e uma vassoura na mão. Saudou abertamente à figura que permanecia imóvel sob a árvore. — Bom dia Byron. É um pouco cedo, não? Ela reconheceu o dialeto local. O homem alto e de cabelo escuro respondeu na mesma linguagem, mas sua voz era grave, muito bela. Saiu das sombras, parecia jovem e muito atrativo. Dirigiu um rápido e divertido sorriso ao lojista enquanto se aproximava dele. Estava claro que se conheciam, pareciam amigos. O homem moreno não era um estranho na cidade e não parecia mostrar o menor interesse por Shea. Observou o tal Byron enquanto este inclinava educadamente a cabeça ante homem mais ancião, lhe escutando atentamente enquanto lhe acontecia um braço pelos ombros. Shea soltou um suspiro de alívio. A sensação de ser observada desapareceu, e não estava segura de se tinha sido real ou fictícia. Olhou um momento os dois homens que entravam no bosque até que se confundiram entre as sombras das árvores. O som de suas risadas chegou flutuando até ela. O jovem, que era mais alto, inclinou a cabeça ainda mais para escutar cada palavra que pronunciava o lojista. A toda pressa, entrou na loja e lhe pediu ao vendedor um jogo de lençóis, um travesseiro, vários blocos de gelo e um pouco de roupa para Jacques. O pequeno hospital já tinha os fornecimentos preparados que lhes tinha solicitado e um atento atendente se interessou por sua clínica ambulatória, tratando-a como a uma cliente certamente valiosa. Sentindo-se um pouco culpada, finalizou sua transação o mais rapidamente possível. Precisava subir em seu carro e encontrar um lugar escuro no que pudesse dormir até que fosse seguro retornar junto ao Jacques. Saiu a toda pressa. A luz perfurou seus olhos como se fosse milhares de agulhas. Cambaleou-se, mas


então uma mão forte se fechou sobre seu braço, lhe impedindo que caísse. Murmurando um obrigado, rebuscou seu bolso procurando os óculos de sol para cobrir os olhos. — Que estás fazendo aqui só e desprotegida? — A voz era suave, e o dialeto e o acento se pareciam curiosamente ao de Jacques. Shea ficou sem respiração e tratou de liberar-se. Aquele homem alto e moreno se limitou a empurrá-la para as sombras, apoiando-a contra a parede do edifício e colocando seu enorme corpo diante dela, bloqueando sua fuga. — Quem é voce? — perguntou-lhe. — É miúda e com a pele muito clara para ser um dos nossos. — elevou o queixo de Shea com a mão, de maneira que ela pôde ver seus penetrantes olhos atrás dos óculos de sol que ele usava. — Seu aroma me é familiar, mas esquivo. Como é que não sabia nada de sua existência? — por um momento, a satisfação curvou a boca do tal Byron. — Está livre, isso está muito bem. — Não lhe conheço senhor e me está assustando. Tenho muita pressa, assim faça o favor de me deixar partir. — Shea utilizou seu tom de voz mais frio e desdenhoso, falando deliberadamente em inglês. Aquele homem era enormemente forte e isso a assustava o bastante. — Sou Byron — disse unicamente seu nome, como se isso fosse suficiente. — Sou um homem dos Cárpatos e você uma mulher livre. O sol está subindo e não tiveste tempo de procurar um refúgio para se proteger. Não posso fazer outra coisa para te ajudar além de te oferecer meu amparo. Adotou facilmente um tom acentuado. Sua voz parecia deslizar-se dentro dela. Dava a sensação de ser um cavalheiro muito amável, mas não havia liberado e nem se moveu um centímetro para lhe permitir passar. Inspirou, arrastando a seus pulmões a fragrância da mulher e de repente sua conduta trocou por completo. Seu corpo se endureceu e lhe cravou os dedos no braço. Uns dentes brancos resplandeceram, o sinal de advertência do predador. — Por que não respondeu quando falei contigo? — falava em voz baixa e ameaçadora. Aquele encantado desconhecido lhe dava calafrios. — Afaste-se de mim — Shea manteve a voz firme enquanto sua mente trabalhava a toda velocidade tentando procurar uma forma de escapar. Ele parecia ter todas as cartas mas… — Diga-me quem é. — ele ordenou.


— Deixe-me ir agora mesmo, por favor — Baixou a voz, transformando-a em uma suave e hipnótica melodia. — Em realidade, quer deixar ir… O estranho sacudiu a cabeça, e entrecerrou os olhos, reconhecendo a sugestão na voz dela. Inalou uma segunda vez, absorvendo a fragrância dela. Imediatamente, seu rosto pareceu ficar imóvel. — Reconheço este aroma. É de Jacques. Mas ele está morto há sete anos. Embora seu sangue corra por suas veias — Sua voz estava repleta de uma mortal ameaça. Por um momento, ela ficou paralisada pelo medo. Era este o traidor que Jacques tinha falado? Shea agitou a cabeça para os lados para livrar-se dos dedos que sujeitavam seu queixo. — Não tenho nem idéia do que está falando. Solte-me agora mesmo. Ele deixou escapar o ar de seus pulmões em um vaio baixo e venenoso. — Se desejas viver outra noite, dirá-me o que fez a ele. — Está-me fazendo mal. Ele se aproximou ainda mais, inclinando-se sobre seu pescoço, e dobrando o corpo de Shea como se fosse um arco enquanto ela lutava por liberar-se. Sentia seu hálito sobre a garganta e Shea gritou ao notar aqueles dentes afiados como agulhas mordendo sua pele. Com um gemido apagado tentou lhe afastar, com o coração pulsando forte no peito. De repente, o desconhecido afastou o pescoço da camiseta para examinar as marcas de sua garganta. Shea pode notar seu desconcerto, sua confusão e se aproveitou de sua distração momentânea. Levantou o joelho tão forte como pôde e gritou com todas suas forças. Byron a olhou tão assombrado, que ela quase pôs-se a rir. Estava completamente seguro de que não queria atrair a atenção sobre ela. Uma promessa mortal de vingança nos olhos dele, foi a última coisa que ouviu antes de que ele se desvanecesse. E se desvaneceu, literalmente. Shea não lhe viu mover-se. Um momento estava ali, encerrando-a contra a parede, e no seguinte já não estava. Uma fina bruma se mesclava com a capa de névoa que cobria o chão até a altura dos joelhos. Os dois atendentes saíram correndo da loja ao escutar seus gritos. Shea levou a palma da mão à ferida que lhe sangrava no pescoço para cobri-la, e lhes permitiu que a tranqüilizassem, lhes assegurando que o animal que tinha acreditado ver vagando nas sombras não era mais que um cão grande e não um lobo como pensou em um princípio. Eles se afastaram meneando a cabeça, rindo do quão tolas podiam chegar a ser as mulheres.


Shea carregou os mantimentos para o carro, tentando demorar todo o possível: se o sol afetava a ela, devia ser tão letal para seu atacante como para o Jacques. Nunca tinha pensado que teria que lutar com um vampiro. Dom Wallace tinha sido seu único pesadelo, mas suspeitava que isto era muito pior. Colocou o sangue cuidadosamente dentro de seu grande refrigerador, rodeando-a com os blocos de gelo. Tinha que encontrar a forma de levar o sangue a Jacques sem levar a vampiro até ele. Esperou de pé, fazendo hora antes de ir-se. O sol ascendia, lhe queimando a pele através do fino algodão de sua roupa. Seu chapéu de aba larga e seus óculos escuros lhe proporcionavam um pouco de alívio, mas ainda assim, Shea sabia que era mais seguro ficar entre as pessoas até que pudesse, até que a debilidade acabasse com ela e não ficasse outra alternativa que procurar descanso em alguma sombria paragem na escuridão do bosque. Notou um leve impulso em sua mente, um rastro familiar que reconheceu imediatamente, aliviada. Shea se fundiu com Jacques. Ele estava fraco, a pouca força que tinha recuperado se esgotou com a saída do sol. Shea estava muito zangada consigo mesma por não ter tentando contatar antes com ele para lhe tranqüilizar. Deveria ter sabido que ele perceberia seu medo inclusive à distância. — Está bem? — Sim, Jacques. Sinto não ter falado contigo antes. Fez um esforço por permanecer serena, tentando lhe ocultar sua inquietação. O que não queria era que o homem selvagem tentasse resgatá-la, e sabia que o faria se soubesse como se encontrava. Seria um suicídio para ele tentar chegar até ela. — Está ao sol. Noto seu desconforto. Era uma de suas reprimendas, mas já se estava acostumando a elas. A arrogância ia adquirindo um tom principal em sua voz à medida que se recuperava. Respirou profundamente, deixou sair o ar lentamente, e deu o passo decisivo. — Havia um de sua espécie aqui. Ao menos acredito que era de sua espécie. Sua reação foi explosiva: cólera ardente, preocupação por ela e uma fúria de ciúmes incontroláveis. Jacques se esforçou por permanecer em silêncio e escutá-la. Sabia que suas vulcânicas emoções a assustavam. Assustavam até a ele mesmo. As sensações lhe eram desconhecidas, e às vezes podiam ser entristecedoras.


— Reconheceu seu aroma, inclusive te chamou por seu nome. Queria saber onde estava. Por favor tenha muito cuidado, Jacques. Tenho medo, deixei-te completamente indefeso… E acredito que ele irá te buscar. — Ele tocou-te? Tomou seu sangue? A pergunta era imperiosa. Shea percebeu a fúria que estalava em sua cabeça. Acariciou com a mão a ferida a sangrar de seu pescoço. — Você o teria sabido — respondeu brandamente. Algo daquela fúria descomunal se dissipou. — Onde está? — Por agora estou a salvo, mas acredito que tentará me apanhar esta noite. Estou virtualmente segura disso e não quero levá-lo até você. — Voltará para cá esta noite. Diretamente. Não deve permitir que te toque, nem que intercambie sangue contigo. — Estarei bem, é você quem deve tomar cuidado, Jacques. — Tentou tranqüilizá-lo. — Tenho medo por você. Medo de que te encontre enquanto estou longe. — Não entende o perigo em que está. Tem que retornar comigo. Shea não podia compreendê-lo de todo, mas percebia sua segurança, o medo que sentia por ela e se estremeceu ao recordar a força com que a agarrou o desconhecido… e sua promessa de vingança mortal. —Não se preocupe, voltarei em seguida. Durma agora, Jacques. Isto é exaustivo para ti. — Shea. — Houve um momento de silêncio, de desejo. — Volte para mim. Embora não creia em nada do que eu te disse, acredite quando digo que preciso de você. — Voltarei, prometo-lhe isso. Shea apoiou a testa no volante. Estava muito cansada e tinha os olhos inchados. A cabine do carro impedia que se formassem bolhas em sua pele, mas não o fariam por muito tempo. Sentia o corpo fraco e amolecido, só esperava que o vampiro fosse incapaz de ver para onde se dirigia. Shea conduziu para as montanhas. A princípio, para economizar tempo, seguiu o caminho tão rápido como se atrevia a conduzir através daquela trajetória serpenteante e


poeirenta. Quando a luz do sol se fez insuportável, seguiu seu próprio caminho através de um atalho esboçado pelos cervos, em busca da sombra do bosque. O dossel de árvores lhe proporcionava algum amparo da implacável luz do sol que perfurava seu crânio. Quando seu corpo já não agüentava mais, dirigiu-se para uma parte do bosque particularmente frondosa e arrastou seu corpo para a parte de trás do carro. Só teve a energia suficiente para fechar a porta de dentro e deixar a pistola a seu alcance, antes de que seu corpo se convertesse em chumbo. Jazia como se estivesse paralisada, com o coração pulsando rapidamente, aterrorizada ante sua própria debilidade. Necessitava de Jacques, precisava tocar aquele núcleo de incrível poder que habitava em seu interior. Precisava sentir sua férrea vontade de novo. Shea lhe desenhou em sua mente e descobriu que isso tranqüilizava os batimentos de seu coração. Se pudesse lhe abraçar, sentir como a rodeava com seus braços… E de repente, de algum modo incrível, pôde sentir seus fortes braços fechando-se protetoramente a seu redor e escutar seu coração pulsando forte e firmemente junto ao dela. Shea acariciou seu rosto com os dedos, seus olhos fechados, com a mente concentrada em cada um dos detalhes de seus sensuais traços. Dormiam separados embora juntos, o incômodo sono dos mortais, sempre conscientes do perigo que lhes rodeava, sempre conscientes da paralisia que atormentava seus corpos. Shea experimentou pela primeira vez a calidez de ter uma mente unida à sua, de não estar sozinha nunca, a força que produzia a conexão de dois seres. O dia passou lentamente, enquanto o sol se deslizava pelo céu, resplandecendo brilhante até esconder-se atrás das montanhas, afundando-se no mar em um sem fim de cores.

A cova, a uns quantos quilômetros do carro da Shea, estava profundamente escavada na terra. A estreita passagem, que conduzia a um labirinto subterrâneo de cavernas e vaporosos mananciais, era retorcido e virtualmente intransitável. Na mais pequena das cavernas, sob a rica terra, um único coração começou a pulsar. O pó saiu despreendendo em todas direções quando Byron emergiu das profundidades da terra. Depois de um breve momento de desorientação, seu corpo resplandeceu e se dissolveu, convertendo-se em uma corrente de bruma que se deslizava através dos passadiços dirigindo-se para a escura noite. Imediatamente, a bruma se transformou em um enorme pássaro de grandes asas que se elevou para o céu. Riscou vários círculos sobre a área do bosque, voando alto sobre o dossel de árvores, para, chegado um momento, descender tão rapidamente se tivesse sido disparado por um arco.


Jacques, só na cabana, percebeu a perturbação do ambiente inclusive dentro do confinamento das quatro paredes. Percebeu o vibrante poder no ar e soube que algo perigoso o estava procurando. Manteve sua mente como se fosse a de um humano, consciente de que se o outro indagava, acreditaria que o ser da cabana não pertencia a sua espécie. Sentiu a escura criatura alada passar sobre ele, a rápida sondagem do outro em sua mente, para finalmente afastar-se voando. — Jacques? — A pergunta de Shea foi suave, preocupada. — Ele está perto. Ela leu sua mente facilmente. Jacques queria que estivesse perto dele para poder protegê-la, para que nenhum outro homem pudesse reclamá-la. Temia que se não retornasse para ele, cairia diretamente em mãos do vampiro, e embora Jacques não podia suportar a separação, não podia deixá-la desprotegida. Sua mente estava começando a esmiuçar-se, a fraturar-se, e a necessidade de tê-la a seu lado começava a lhe desesperar. Shea saiu da parte de trás e subiu ao assento do motorista. — Estarei contigo sem demora. — Ela sentiu o sorriso dele diretamente no coração. Jacques estava começando a recordar o humor. — Na realidade, você gosta que eu faça as coisas a minha maneira e que tome minhas próprias decisões, verdade? — ela brincou, desejava manter sua mente tão estável o quanto fosse possível até que ele estivesse a seu lado para poder lhe dirigir. — Eu não apostaria por isso, pequena ruiva. O ideal é a obediência imediata. — Isso é o que você deseja. — Shea descobriu que estava sorrindo, em lugar de ter medo. Era uma estupidez sentir-se tão alegre quando se enfrentavam um perigo semelhante e não sabiam para onde se dirigiriam. Onde poderiam ir em um prazo de tempo tão curto? Para chegar à cabana, consumiria três ou quatro horas de seu precioso tempo. Jacques se mexeu lentamente, com muito cuidado. Seu corpo protestou claramente. A dor enchera sua existência toda a vida que podia recordar, assim permitiu que se deslizasse sobre ele, através dele. Viveria para sempre com a dor, mas não podia viver sem Shea. Com muito esforço, conseguiu sentar-se na cama, mas a sala pareceu sacudir-se e girar loucamente antes de conseguir endireitar-se. Quase imediatamente, pôde sentir o sangue espesso e quente, sussurrando o idioma de sua gente. Conhecia a dor intimamente, mas tinha esquecido a agonia que se retorcia em suas vísceras. Não importava. Nada importava exceto proteger a sua companheira.


Shea dirigia como uma possessa, encontrando atalhos onde não havia nenhum, sobre troncos podres e ravinas rochosas. Algumas vezes avançava depressa, mas outras ia a passo de tartaruga. Era interessante conduzir de noite. Não necessitava dos faróis. Podia ver tão claramente como se fosse de dia. A luz da lua se derramava sobre o bosque, banhando de prata as árvores e os matagais. Era muito formoso, toda uma gama de cores intensas e definidas.

Longe dali, um grande mocho riscava círculos sobre uma enorme e estranha mansão construída sobre os escarpados, aproximando-se dela cautelosamente. Quando o ave pousou sobre uma das colunas de pedra da grade, fechou suas asas e adotou a forma humana, no bosque dos arredores uma alcatéia de lobos começou a lançar uivos de advertência. Quase ao mesmo tempo, um homem saiu da casa. Deslizou-se do véu de névoa que cobria o terraço para a grade. Era alto, moreno. O poder emanava de seu corpo através de cada um de seus poros. Movia-se com a graça de um enorme felino e a elegância de um príncipe. Seus olhos eram tão negros como a noite e pareciam guardar milhares de segredos. Embora não havia expressão alguma em seus atrativos e sensuais traços, havia perigo e uma silenciosa ameaça em seu porte. — Byron. Faz tempo que não nos visitas. Não enviou uma chamada para te anunciar. — sua voz era suave, melódica, como veludo negro, mas tinha um matiz de censura. Byron limpou a garganta, inquieto e seus escuros olhos não enfrentaram o penetrante olhar do outro. — Peço-te perdão por minhas maneiras, Mikhail, mas as notícias que trago são alarmantes. Vim tão rápido quanto pude e ainda não encontrei as palavras adequadas para o que tenho que te dizer. Mikhail Dubrinsky sacudiu uma mão elegantemente. Era um dos antigos, um dos mais poderosos e há tempo havia aprendido a ser paciente. — Retornei tarde. Não tinha me alimentado, assim fui ao povoado para atrair a algum dos aldeãos. Quando cheguei lá, percebi a presença de um de nossa estirpe, uma mulher. Não era como nós, era pequena, muito magra, com cabelo vermelho escuro e os olhos verdes. Estou seguro de que estava fragilizada e de que não se alimentou recentemente. Usando o caminho mental comum aos nossos, tentei me comunicar com ela, mas não respondeu. — Está seguro de que era um de nós? Não parece possível, Byron. Nossas mulheres são muito escassas, não acredito que uma delas vagasse descuidadamente e desprotegida ao


amanhecer sem que nós soubéssemos. — Pertence a nossa raça, Mikhail, e ninguém a tinha reclamado. — E por que não ficou com ela para protegê-la até que pudesse trazê-la até mim? — Sua voz desceu outro tom, sussurrando a ameaça. — Há mais que deveria saber. Tinha marcas no pescoço, feridas de dentadas, muitas. Também tinha marcas nos braços. Esta mulher foi maltratada, Mikhail. — Uma labareda vermelha ardeu no mais profundo de seus olhos negros, — Conta-me tudo, inclusive isso que parece que não quer revelar. — a voz acariciante não mudou de tom nem aumentou de volume. Byron permaneceu em silêncio durante um bom momento, e depois cravou o olhar nos penetrantes olhos negros de Mikhail. — O sangue de Jacques corria por suas veias. Reconheceria seu aroma em qualquer parte. Mikhail sequer piscou, seu corpo permaneceu completamente imóvel. — Jacques está morto. Byron meneou a cabeça. — Não há equívoco algum. Era Jacques. Os olhos negros se cravaram em Byron de novo, e um momento depois Mikhail elevou o rosto, inalando a fragrância da noite. Enviou uma poderosa chamada seguindo o vínculo mental de sua família e só encontrou vazio, negrume, um buraco. — Ele está morto, Byron. — Repetiu maciamente, uma clara advertência de que devia dar o assunto por encerrado. Byron manteve sua postura, firme como um soldado. — Não estou equivocado. Mikhail lhe observou durante um momento. — Está dizendo que Jacques maltratou essa mulher? Que possivelmente se converteu em vampiro? — houve um tom de gemido acompanhando a pergunta. Nesse momento, o incrível poder de Mikhail começou a desprender-se de seu corpo como uma aura que encheu o


ar para envolver a ambos. — Ela ainda faz parte dos nossos, não se converteu. Estava visitando o banco de sangue da clínica local. Não sei que tipo de relação mantém com Jacques, mas estou seguro de que há. — Byron era firme. — De qualquer maneira, Byron, não podemos fazer outra coisa que procurar esta misteriosa mulher e protegê-la até que seja entregue a seu companheiro. Direi a Raven que vou contigo. Não quero que saiba nada sobre Jacques. — disse isto no mais suave e ameaçador dos tons, era uma ordem. Por baixo destas palavras, pulsava uma promessa. Se Mikhail encontrasse Jacques com vida, sem querer ou ser incapaz de responder à chamada, alguém sofreria um castigo rápido e letal. E se a mulher tinha algo que ver com aquilo… Byron suspirou e olhou ao céu enquanto Mikhail se dissolvia na bruma. Nuvens de tormenta começaram a deslizar-se entre as estrelas, e a terra se agitou inquieta, incômoda ante a presença de um perigo invisível. Quando Mikhail emergiu da névoa, sua forma tinha trocado e seu poderoso corpo empreendeu o vôo. Byron jamais tinha sido tão rápido quanto Mikhail e teve que se transformar sobre a coluna de pedra antes de lançar-se no céu. O enorme pássaro planou silenciosamente sobre a terra, com as afiadas garras estendidas, preparadas para matar. — Quantos anos tinha a mulher? — Jovem. Uns vinte, possivelmente um pouco mais. Seria impossível dizê-lo. Conhecia nossa língua, poderia assegurá-lo, mas falava em inglês. Sem acento. Utilizava as contrações e a forma de falar americanas, embora pude notar um sotaque irlandês. Atraiu deliberadamente a atenção sobre nós… Nenhum de sua espécie faria uma coisa assim. Vi-me obrigado a deixá-la, como ela sabia que ocorreria. Era capaz de suportar a luz do sol mais tempo que eu. Se fosse uma mulher vampiro, isso seria impossível. Ambos os mochos atravessaram o céu noturno, levando a brisa com eles. Um silencioso assobio anunciava a força do vento. Embaixo, as árvores oscilavam e cobriam o chão do bosque. Pequenas criaturas corriam nervosamente para suas tocas e as nuvens se moviam, ocultando as estrelas.

Shea começava a sentir dor nos braços enquanto era sacudida sobre a acidentada vegetação. Apertava o volante com tanta força que tinha os dedos virtualmente intumescidos. Começava suspeitar que havia se perdido, quando o carro saltou violentamente e entrou num


riacho pouco profundo, reconhecendo súbitamente o oculto atalho que conduzia a cabana. Soltando um suspiro de alívio, entrou. O caminho de ervas estava infestado de buracos e rochas, mas o conhecia bem, assim não demorou a chegar. Tentou unir-se a Jacques em duas ocasiões, mas ele resistiu a seus intentos. Isso a preocupava. Disse-se a si mesma que ele não se encontrava em perigo. Estava segura que teria percebido se o tal Byron o tivesse encontrado, mas não podia evitar preocupar-se se por acaso algo estava errado. Quando por fim divisou a cabana, soltou um audível suspiro de alívio. Demorou um pouco em retirar os dedos do volante e relaxar a tensão dos músculos de suas pernas. Quando conseguiu deslizar para fora da cabine, ainda lhe tremiam as pernas. Estava começando a levantar uma forte ventania, formando pequenos redemoinhos que elevavam as folhas mortas e algumas ramos. Sobre sua cabeça, os ramos rangiam e se balançavam. Farrapos cinzas e negros se deslizavam através do céu, ocultando as estrelas uma a uma. O trovão se escutou na distância, as nuvens pareciam negras e densas. Tremendo, Shea olhou para cima, segura de que a tormenta era um presságio de perigo. A fome roía suas vísceras, sempre presente, implacável. Parecia piorar dia a dia, e sem sangue, cada vez estaria mais fraca. Nesse momento, pensava, nada tinha importância, salvo manter Jacques a salvo. Erguendo os ombros, caminhou para a varanda. A cabana estava às escuras, Jacques não podia se mover para abrir a porta e nem acender a luz. Shea colocou a chave na fechadura e abriu a porta, ansiosa por lhe ver. Jacques estava sentado e apoiado contra a parede. Vestia uma calça de algodão e nada mais. Parecia pálido, muito magro, com as linhas de tensão profundamente gravadas em seu atrativo rosto. Um fio de sangue caía da ferida que tinha sobre o coração. Estava descalço e tinha a abundante cabeleira totalmente despenteada. Um brilho de transpiração envolvia seu corpo, e tinha uma mancha vermelha na fronte, com várias gotas de sangue salpicando sua pele. — Oh, Deus! — Shea assusta-se. Podia sentir o medo na boca, repentinamente seca. — Jacques, o que você fêz? Em que estava pensando? — atravessou de um salto a distância que os separava, sem notar o quão rápido era capaz de se mover. As lágrimas lhe ardiam os olhos. O que Jacques estava fazendo a si mesmo a punha fisicamente doente. — Por que se mexeu? — perguntou enquanto examinava com mãos suaves, a ferida aberta. — Por que não me esperou? — Inclusive enquanto se inclinava sobre ele, um pensamento bobo lhe veio à cabeça. Onde ele havia conseguido aquela calça de algodão? Embora isso agora não tivesse muita importância.


— Ele virá esta noite e devo te proteger. — Desta maneira não poderá fazê-lo… Se por acaso ainda não deste conta, advirtolhe que tem um enorme buraco no peito. Nessa postura, conseguirá soltar os pontos. Temos que te deitar. — Vem aqui. — Não me preocupe, Jacques. Podemos abandonar este lugar e viajar toda a noite se for necessário. Temos armas. Possivelmente não possamos lhe matar, mas lhe atrasaremos. — A verdade era que Shea não estava segura de poder disparar em ninguém. Era uma doutora, uma cirurgiã. A simples ideia de acabar com uma vida lhe revolvia o estômago. Tinha que suturar Jacques o mais rápido possível e sair dali o quanto antes. Evitar os problemas parecia muito mais fácil que confrontá-los. Ele leu sua mente, e percebeu o repugnante que lhe parecia a idéia de assassinar a alguém. — Não se preocupe, Shea, eu não tenho o mínimo receio em acabar com ele. — ele cambaleou e apoiou-se contra ela, quase derrubando ambos. — Não estou segura de que isso seja uma grande notícia… — disse entre dentes, De algum modo, conseguiram chegar até a cama. — Se sangras desse jeito, não estaria tão seguro de poder matar nem sequer uma mosca. Jacques estendeu seu enorme corpo sobre os lençóis, sem emitir nenhum som. Manteve sua mente firmemente fechada, tentando não compartilhar sua agonia com ela. De todas maneiras, pouco importava. Shea podia vê-la claramente desenhada em seu rosto, nas linhas pálidas que se formaram ao redor de sua boca e no vazio absoluto de seus olhos. — Sinto muito ter te deixado sozinho. — Ela retirou o cabelo de sua testa, aariciando com os dedos os escuros fios de reflexos quase azulados. Com a morte na alma, começou a preparar um curativo. Ia feri-lo outra vez, e uma vez mais seria ela a que devia lhe causar dor. — Não me está torturando, pequena ruiva. — Sei que pensa isso, Jacques. — respondeu com cansaço, prendendo descuidadamente o cabelo vermelho que caía ao redor de seu rosto, com um prendedor, na nuca. — Fiz mal ao trazer você para cá, quando o operei sem anestesia, e agora vou fazê-lo de novo. — Shea colocou a bandeja com o instrumental cirúrgico ao lado da cama. — Está perdendo muito sangue, outra vez. Deixe-me deter isto primeiro e depois te darei sangue de novo. — mordia o lábio com força enquanto secava o fluido vermelho e examinava a ferida


aberta. Fora, o vento uivava, sacudindo as janelas e golpeando os ramos contra as paredes da cabana. Era um ruído incômodo e Shea estava hirta de medo. De repente, sentiu um suave sussurro, como uma ameaça de morte contra sua pele. Jacques a agarrou pelo braço, segurando a mão com que ela tentava reparar seu corpo. — Já estão aqui. — É o vento — não havia nada que pudesse fazer até que lhe tivesse fechado a ferida. A intensidade do vento aumentou, produzindo um som que se parecia com um estranho alarido. O rugido de um trovão rasgou o ar e uma enorme descarga de luz ziguezagueou no céu. A porta dianteira explodiu e as lascas da madeira espalharam-se no chão. Shea girou rapidamente, segurando a agulha e o fio com suas mãos ensangüentadas. Jacques, que jazia em seu mundo de agonia, estava tão pálido que as gotas de transpiração brilhavam sobre sua pele, mas ainda assim, tentou sentar-se. Dois homens encheram o vão da porta. Shea reconheceu Byron, mas foi o homem que estava a seu lado quem atraiu seu olhar aterrorizado. Era o indivíduo mais frio que havia visto em sua vida. Em seus olhos ardia uma fúria implacável. Havia algo vagamente familiar nele, mas estava muito assustada para tentar identificar o que era. Um grito de alarme escapou de sua garganta. Virou-se e pegou a pistola. De repente, Mikhail se converteu em um mero contorno impreciso e movendo-se com incrível velocidade, arrancou facilmente a arma das mãos de Shea e a lançou descuidadamente a um lado. Seus brilhantes olhos se cravaram então em Jacques, e um som grave e carregado de ameaça saiu de sua garganta. Jacques confrontou aquele abrasador olhar sem vacilar, seus próprios olhos estavam carregados de fria cólera, ódio desafiante e uma resolução letal. Tentou investir no homem mais pesado, mas Mikhail se afastou e segurou Shea pela garganta, golpeando-a com tanta força contra a parede que a deixou sem fôlego. Ela nunca imaginara que alguém tivesse tanta força em uma só mão. Manteve-a por cima de sua cabeça, cravada na parede, enquanto a vida da Shea se escorria, literalmente, entre seus dedos. Subitamente, o ar da sala se fez mais denso, carregado de emoções intensas, repleto de fúria e violência. Embora Byron lançasse um grunhido de advertência, uma cadeira flutuou no ar diretamente encaminhada para a cabeça de Mikhail. No último momento possível, aquele homem incrível girou a cabeça e conseguiu esquivar a cadeira, que se fez pedacinhos contra a parede muito perto do rosto de Shea.


Mikhail se girou para confrontar Jacques, arrastando Shea com ele enquanto seus dedos cravavam profundamente em seu pescoço. — O que lhe tem feito?— perguntou com voz suave e ameaçadora. Sacudiu-a como a uma boneca de trapo. Sua voz era baixa, grave. Insidiosa. Envolveu Shea como seda. — me diga o que lhe tem feito. — A voz estava em sua cabeça, embora não utilizava a mesma conexão mental de Jacques. Com as últimas forças que ficavam, lutou contra ele, tentando respirar e tratando de impedir que penetrasse em sua mente. Outra cadeira voou para Mikhail, desta vez do lado esquerdo. Com um movimento suave de sua mão a deteve no meio do ar, onde flutuou uns instantes antes de cair ao chão. Enquanto isso, aqueles horríveis dedos não se separavam de sua garganta. Segurando-a sem esforço, estrangulando-a com uma mão. Shea ofegava pelo esforço, lutando por conseguir ar para respirar. A sala começou a dar voltas, e começou a ver pequenos pontos brancos que saíam disparados em todas direções. Jacques percebeu que ela perdia a consciência e o animal em seu interior tomou o controle, desatando em sua mente um delírio assassino. Saltou da cama como uma esteira imprecisa de fúria, com o único objetivo de defender Shea e matar seu atacante. Mikhail teve que sair para o lado e liberar Shea, que caiu ao chão incapaz de fazer outra coisa que permanecer ali tratando de respirar desesperadamente. — Jacques. — A voz de Mikhail era suave e convincente. — Sou seu irmão, não me reconhece? — fez tentativa de se conectar com a destroçada mente, mas só encontrou uma necessidade feroz de matar. Olhou indeciso para Byron, com a pergunta desenhada nos olhos. — Não existe nenhum vínculo mental, nem sequer fragmentos aos que possa me apegar. — Mikhail teve que mover-se a grande velocidade para evitar o seguinte ataque de Jacques, que jogou com fúria dois abajures para sua cabeça. Reapareceu em outro lugar, passando uma mão pelo cabelo com preocupação. Jacques se arrastou pelo chão até chegar onde se encontrava Shea, e se sentou apoiando-se contra a parede, tentando proteger o corpo da mulher com o seu próprio. Shea percebeu o aroma do sangue fresco, e então se deu conta que corria abundante ao longo de seu braço e de seu flanco. Olhou ao redor, aturdida e confusa, antes de notar o que estava acontecendo. — Jacques! — num segundo, estava lhe apertando a ferida, esquecendo-se de tudo exceto sua necessidade de lhe salvar. — Vocês tem três opções. — disse bruscamente aos intrusos. — Matarem a nós dois agora e terminar com isto de uma vez, nos deixar em paz ou


me ajudar a lhe salvar. — unicamente se escutou silêncio. — Malditos sejam! Escolham já. — Sua voz soava rouca e áspera, já que virtualmente a tinham estrangulado, mas ficava claro que era a voz de uma profissional. Mikhail se aproximou para ajudá-la. Jacques, acreditando que ia atacar-lhes, empurrou Shea para trás e, grunhindo como um animal selvagem, colocou seu corpo diante dela. — Afaste-se! — gritou Shea a Mikhail. Fundiu-se totalmente com Jacques. Seu coração batia tão forte que temia que fosse romper-se. Não havia nada em sua mente, tão somente uma neblina de violência mesclada com uma fúria assassina, que a impediam de chegar até ele. Mikhail se dissolveu instantaneamente, reaparecendo a uma distância maior. — Jacques, me deixe te ajudar. — rogou Shea tratando de o tranqüilizar. Ele lançou um grunhido, e suas presas resplandeceram em uma clara advertência de que permanecesse detrás dele. — Ele transformou-se, Mikhail. — Murmurou Byron. — É perigoso inclusive para a mulher. Não podemos nos permitir perdê-la. Shea os ignorou, sussurrando palavras sem sentido na mente do Jacques, tentando desesperadamente lhe trazer de volta à realidade. De uma vez, examinava de novo a ferida com as mãos. — Não me tocarão, homem selvagem. Eles ficarão longe de nós. Por favor, me deixe te ajudar ou estarei desprotegida perante eles. Estarei sozinha. — negava-se a deixar que as feridas o matassem e não deixaria que a loucura se apoderasse dele. Aqueles desconhecidos poderiam lhes matar, mas jamais permitiria que as feridas ou a loucura o derrotassem. Tinha medo por ele, tinha medo dele, mas não o abandonaria. — Do que necessita?— perguntou Mikhail brandamente. — A bandeja com os instrumentos — Respondeu, sem nem sequer girar a cabeça para lhe olhar. Tinha colocado toda sua atenção em tratar de tranqüilizar Jacques. — Sua cirurgia é primitiva. Chamarei nosso médico. — e imediatamente enviou uma imperiosa chamada mental. — Ele morrerá até lá. Maldito seja… Vá embora daqui se não pensa em ajudar. — Shea estava furiosa. — Não posso lutar contra os dois, e de maneira nenhuma penso permitir que ele morra só porque você não gosta de meus métodos.


Com muito cuidado, tentando não despertar a cólera de Jacques, Mikhail empurrou a bandeja pelo chão e esta se deslizou até ficar ao alcance de Shea. Jacques não afastou nem por um momento os olhos dos dois homens, lhes observando com ódio. Quando Shea trocou de posição, ele se moveu de uma vez, de maneira que ela sempre ficaria protegida por trás de seu corpo, embora tivesse que esmagá-la contra a parede. — Necessito terra fresca. — A voz de Shea era rouca, mas autoritária. Seus movimentos eram lentos e cuidadosos para evitar que Jacques se alarmasse. Byron encolheu de ombros e se dirigiu contra vontade a fim de cumprir sua ordem, mas antes, olhou fixamente Mikhail através da sala. Estava claro que Byron acreditava que Jacques representava um enorme perigo para todos eles. Shea tossiu várias vezes, tinha a garganta inflamada sob as visíveis marca dos dedos de Mikhail. Ajoelhou-se lentamente junto a Jacques. Mantendo as mãos firmes e absolutamente concentrada em sua tarefa, começou a colocar pequenos grampos e a dar pontos para reparar meticulosamente a ferida aberta. Era um trabalho lento e tedioso, mas lutou por manter sua união mental em todo momento enquanto suturava, entregando sua mente à tarefa de lhe tranqüilizar e lhe manter a seu lado, enquanto se assegurava de que as feridas não voltassem a sangrar. O interior de Jacques era um caldeirão onde ferviam violentas emoções. Jamais afastava o olhar dos dois homens. Uma vez, elevou a mão para acariciar o sedoso cabelo de Shea, deslizando os dedos sobre a marca que tinha na têmpora, fruto do golpe contra a parede. Quando deixou cair a mão, Shea temeu que, com ela, tivesse deixado cair também o último laço que o mantinha unido a ela. Cobriu a ferida com terra e saliva e se incorporou lentamente. — Necessita de sangue, Jacques. — disse suave e amavelmente, chamando-o. Ele devia sobreviver, tinha que seguir vivendo. Cada célula de seu corpo gritava que assim fosse. Ele não afastava o olhar vazio e sem alma de Mikhail e Byron. Jamais tinha observado um ódio tão cru e desumano nos olhos de ninguém. Não a olhou, uma vez sequer. Seu rosto não mostrava nenhum sinal da dor que estava padecendo. — Meu sangue é antigo e poderoso. — disse Mikhail com suavidade. — Darei-lhe. — aproximou-se quase deslizando-se, com uma felina elegância carente de movimentos bruscos que pudessem alterar Jacques.


Shea percebeu a selvagem sensação de triunfo que invadiu Jacques, e notou que estava reunindo suas forças. Antes que Mikhail se aproximasse mais, colocou-se entre eles. — Não! Ele o matará, está tentando… Jacques segurou-a brutalmente, prendendo seus cabelo com força para colocá-la de novo a seu lado. Sua fúria era colossal. Sem afastar os olhos de Mikhail, inclinou a cabeça e afundou os dentes no pescoço de Shea. — Não! — Byron se lançou para ele, mas Mikhail lhe deteve com uma mão em alto, enquanto seu negro olhar seguia fixo em Jacques. Shea se sentiu invadida por uma onda de calor, como se a estivessem marcando com um ferro de fogo. Deu-se conta de que Jacques estava furioso por sua intervenção e que tinha a intenção de chamar os outros que tentassem lhe deter para os pôr a seu alcance. Mantevese completamente imóvel, aceitando essa parte violenta de sua natureza. Ele estava tão perto de ficar completamente louco, que qualquer movimento em falso lhe faria transpor os limites. Sentia-se muito cansada, e lhe doía todo o corpo. Pesavam-lhe as pálpebras à medida que uma deliciosa letargia se apoderava de seu corpo. Daria sem duvidá-lo sua vida pela de Jacques. Ele não estava tomando nada que ela não desejasse lhe dar. — Está matando-a, Jacques. — disse Mikhail em voz baixa. — De verdade é isso o que quer? — Permanecia ali de pé, sem mover-se, lhe observando atentamente com olhos pensativos. — Faça com que se detenha. — murmurou Byron entre dentes. — Está tomando muita sangue Está lhe fazendo mal deliberadamente. Os frios olhos do Mikhail se cravaram em Byron por um momento, mas o suficiente para lhe transmitir a ordem e a advertência de que se mantivesse à margem. Byron sacudiu a cabeça, mas permaneceu em silêncio. — Não a matará. — disse Mikhail com a mesma voz tranqüila. — Espera que algum de nós tente lhe deter. É a nós a quem quer matar. Quer nos atrair para ele. Não se separará de seu lado, assim não seremos tão estúpidos para nos aproximar. Não lhe fará mal. Saia lá fora e busque algo para consertar a porta. Irei contigo em um momento. Byron saiu a contragosto, e aguardou no alpendre que Mikhail se reunisse com ele. — Está jogando com a vida da mulher. Ela não sucumbiu à escuridão, e ele está abusando dela. Não pode permitir perder tanto sangue. Jacques era meu amigo, mas o ser que está aí dentro já não é um dos nossos. Nem sequer nos reconheceu. Não pôde lhe


controlar e ninguém poderá fazê-lo. — Ela sim pode. Ele não se transformou, Byron, tão somente está ferido e doente. — Mikhail pronunciou as palavras com calma, sua voz era como o veludo, suave. Furioso, Byron se afastou. — Deveria ter pego à mulher. — Não te equivoque, Byron. Embora Jacques pareça débil, ainda é extremamente forte. Antes de seu desaparecimento, passou muitos anos estudando. Durante o último ano de sua vida, dedicou-se a caçar vampiros. Com a mente tão danificada, é mais besta que homem, quase um predador, mas sua inteligência permanece intacta e também toda sua astúcia. Não se dá conta do que acontece. Quem quer que seja essa mulher, está pagando um alto preço por tentar lhe salvar. Acredito que já tem feito sua escolha. — O ritual ainda não se completou. Não se deitou com ele, teríamos sabido. — disse Byron teimosamente e começou a passear inquietamente de um lado a outro. — Há muitos de nós sem uma mulher e mesmo assim, você permite que a vida desta corra perigo. — Cada um de nós tem só uma companheira, e ela, obviamente, pertence ao Jacques. — Não estamos seguros de que isso seja certo. Se ele não fosse seu irmão…— começou a dizer Byron. Um grave som de advertência o deteve. — Não vejo nenhuma razão para que questione meu julgamento sobre este assunto, Byron. Tive mais que um irmão, e nunca permiti que a relação com eles interferisse no que acredito ser justo e correto. — Foi Gregori quem caçou seu outro irmão. — Assinalou Byron. Mikhail girou a cabeça lentamente, e o relâmpago que atravessou o céu se refletiu em seus olhos. — Por minha ordem.


Capítulo 7 Jacques se sentou no chão, consciente da parede as suas costas e da mulher que jazia imóvel em seus braços. Emoções violentas giravam confusamente em sua mente, e seu corpo se estremecia pela necessidade de matar a seus inimigos. Um lampejo de prudência apareceu em sua mente, capturando sua atenção. Esses dois intrusos lhe pareciam muito familiares. Conhecia-os e confiava neles. Um silencioso gemido emergiu entre suas presas afiadas. Os traidores podiam ser um casal. Acreditaram que estava fraco, mas era mais rápido que qualquer um deles, exceto aos mais antigos. Era afinado em suas táticas de luta e aumentado suas habilidades mentais. Não torturariam nem matariam a sua mulher. Shea. Seu nome era como uma suave brisa que refrescava sutilmente sua mente. Shea. Um brilhante farol, uma luz que lhe guiava através da densa capa de fúria sombria. Deixou-a cair sobre seus braços, tão pequena e magra. Ela tinha a pele muito suave, e seu cabelo roçava seu peito nu como uma meada de seda. Apoiou o queixo no alto de sua cabeça e a acariciou com carinho e ternura. Levou alguns momentos para se da conta de que seu corpo estava flácido e frio, quase sem vida, sedento de sangue. Um grito angustiado brotou de sua garganta. Inclinou a cabeça dela para trás e viu as marcas e a carne rasgada de sua garganta. — Shea, não me deixe! — o grito saiu do mais profundo de seu coração. Havia lhe feito isto? As marcas de dedos não eram dele, mas e a carne rasgada? Tinha sido capaz de fazer uma coisa assim com ela? Um movimento de intranqüilidade sacudiu sas vísceras, provocando tremor. — Não me deixe, Shea. — Jacques se fez um corte em sua mão e deixou que o líquido vital se derramasse sobre a boca dela. — Vamos, pequena ruiva, viva. Sua essência vital se deslizou pela garganta de Shea. Massageou o pescoço inchado, obrigando-a a beber. — Não pode me abandonar na escuridão. Não era capaz de recordar quando a tinha atacado, embora de algum modo Jacques sabia que o tinha feito. Enlouquecera.


No exterior, o vento açoitava as montanhas e os trovões retumbavam ao longe. As negras e densas nuvens pareceram abrir-se de repente, e a chuva começou a cair como uma cortina de água. Mais à frente do bosque, um enorme lobo de estranhos olhos claros avançava rapidamente. Já perto do pequeno alpendre, seu poderoso corpo se contorceu, alargando-se até transformar-se na figura de um homem musculoso de ombros amplos, pele negra e penetrantes olhos. Entrou no alpendre a fim de esconder-se da chuva e observou aos dois homens que o olhavam fixamente. A tensão entre ambos era tangível. A expressão de Mikhail, como sempre, era indecifrável. Byron era como uma nuvem de tormenta a ponto de explodir. O recém-chegado arqueou as sobrancelhas e se inclinou para dizer a Byron: — A última vez que alguém zangou Mikhail não foi uma visão agradável. Não quero ter que substituir cada um de seus órgãos vitais. Saia daqui. Vá dar um passeio até que fique tranqüilo. — tinha uma formosa voz, acariciante como uma melodia, mas embora suave e sugestiva, a ordem implícita ficava claramente patente. Era uma voz tão hipnótica e cativante, que inclusive aqueles que pertenciam a sua raça se viam arrastados por seu poder. Gregori. O Escuro. Um dos Antigos. O vingador, o instrumento de justiça. Descartou Byron e se voltou para dirigir-se a Mikhail. — Quando enviou a chamada, disse que se tratava de Jacques, mas não pude lhe localizar. Tentei utilizar o vínculo que nos unia, mas só encontrei vazio. — É Jacques, embora não seja o mesmo de antes. Não se transformou, mas foi seriamente prejudicado. Nem sequer nos reconheceu e é extremamente perigoso. Não posso lhe deter sem o ferir. — Enfrentou voce? — Sua voz, como sempre, soava serena, inclusive amável. — Certamente que sim e estou seguro de que o faria de novo. Comporta-se como um animal selvagem, e não há forma de conectar com ele. Matará-nos se reunir forças suficientes. Gregori inspirou profundamente, capturando em seus pulmões a fragrância da noite. — Quem é a mulher? — Pertence a nossa estirpe, mas não conhece nossos costumes nem responde de forma alguma a nossos meios de comunicação habituais. Parece estar treinada nas artes humanas de cura. — Uma médica?


— Pode ser. Ele a protege, embora seja capaz de feri-la. Não parece capaz de distinguir o bem do mal. Acredito que está preso em seu próprio mundo de loucura. Os olhos negros se semicerraram. Havia uma crueldade latente debaixo aqueles rasgos escuros e sensuais. Era a própria imagem de um perigoso predador. — Não sabe o que lhe ocorreu? Mikhail moveu lentamente a cabeça. — Não tenho a menor ideia, não me ocorre nenhuma explicação. E não perguntei à mulher, a ataquei diretamente. Na realidade, estive a ponto de matá-la, já que em princípio pensava que estava atacando a meu irmão. — confessou Mikhail sem trocar de tom. Era uma admissão simples, sem desculpas. — Seu estado é precário e obviamente estava sofrendo muito, suando sangue. Ela se encontrava sobre ele, pinçando suas feridas. Havia muito sangue e pensei que era uma vampiresa que pretendia o deixar louco por meio da tortura. Acreditei que tentava lhe matar. Fez-se um profundo silêncio que somente o vento e a chuva se atreviam a interromper. Gregori permanecia quieto, imóvel como as próprias montanhas. Mikhail se encolheu de ombros. — Nem pude pensar, reagi. Não pude conectar com sua mente e o sofrimento que observei em seu rosto foi mais do que pude suportar. — Não se atormente. — disse Gregori. — Jacques as vezes é mais frio do que podemos imaginar. Existe uma escuridão em seu interior que jamais tinha visto em nenhum outro ser. Não é um vampiro, mas é extremamente perigoso. Entremos e vejamos o que é que posso fazer. — Tenha muito cuidado, Gregori. — acautelou-lhe Mikhail. Os olhos chapeados resplandeceram, refletindo a cortina de chuva que se derramava sobre o chão. — Sou famoso por minhas cuidadosas maneiras, não é? — disse Gregori enquanto entrava na cabana. Mikhail o seguia, meneando a cabeça ante a incrível mentira que acabava de escutar. Jacques elevou a cabeça, e uma fúria negra ardeu em seus olhos quando o viu entrar. Um comprido e lento aviso de advertência emergiu do mais profundo de sua garganta. Gregori se deteve, separando as mãos de seu corpo como sinal de paz. Mikhail se apoiou contra o


marco da porta, completamente imóvel que parecia formar parte da mesma parede. Era consciente de que tinha cometido um grande engano ao atacar a mulher. — Sou Gregori, Jacques. — A voz do Gregori era poderosa, embora suave e tranqüilizadora. — Um médico de nossa gente. Shea estava deitada sobre Jacques, com a cabeça apoiada sobre seu ombro e com os olhos fechados. Deixou escapar um gemido, e aquele som pareceu enfurecer ainda mais Jacques. Seus dedos seguiram acariciando as escuras manchas que havia ao longo da garganta da mulher enquanto dirigia um olhar assassino a Mikhail. — Nos deixem em paz. — a voz da Shea não era mais que um sussurro rouco e áspero. Não abriu os olhos nem tentou mover-se. — Posso lhe ajudar. — insistiu Gregori, usando o mesmo tom. Era óbvio que a mulher era a chave para chegar até Jacques. Podia perceber na forma em que ele a abraçava, na posição protetora de seu corpo, na forma em que seus olhos se fixavam possesivamente, inclusive com ternura, sobre seu rosto. Acariciava-a constantemente com as mãos, seu cabelo, ou sua pele. Ante a ordem subjacente na bela voz de Gregori, suas largas pestanas se elevaram e Shea estudou seu rosto. Era grosseiramente atrativo, em uma estranha mescla de elegância e animal indomável. Parecia ainda mais perigoso que os outros dois estranhos. Shea fez um esforço por engolir, mas esse simples gesto lhe produzia dor. — Tem a aparência de um verdugo. — Além disso tem cérebro… — A suave risada de Mikhail ressonou na cabeça de Gregori. — É capaz de ver além de seu atrativo rosto. — Mas que gracioso é, velho. — deliberadamente, Gregori lhe recordou o quarto de século de diferença que havia entre eles. Jacques estava se preparando para atacar. Podia escutar como o vento aumentava sua intensidade no exterior. Guardou silêncio por um momento, tentando encontrar algum vínculo com que conectar com sua mente. — Não posso encontrar um só rastro das conexões que nos uniam, e ela é muito resistente à sugestão mental. Poderia utilizá-la, mas ele se daria conta do que estou fazendo e lutaria comigo, temendo que estivesse tratando de afastá-la de seu lado. A mulher está muito fraca para sobreviver à luta.


— Pode lhe imobilizar? O obrigar a dormir? — Não em seu atual estado de agitação. É mais uma besta que um homem e muito mais perigoso do que imagina. — Gregori olhou Shea, e continuou sua conversação em voz alta. — Posso ajudar Jacques, mas necessito que me explique algumas coisas. A palma da mão de Jacques se deslizou da garganta da Shea para seu ombro, abraçando-a com mais força. — Não lhe escute. Falam um com o outro sem que nos demos conta. Não confie neles. — pronunciou as palavras com fúria e eram uma ordem. Seu breve momento de lucidez tinha começado a desvanecer-se no momento em que os outros homens se aproximaram de Shea. — Se for um médico de sua estirpe, pode fazer com que se recupere muito mais rápido do que eu jamais conseguiria. Pelo menos, deixa que escutemos o que tem a dizer. — Shea tentou por todos os meios que sua voz soasse tranqüila, sem rastro do medo que sentia. Estava muito cansada, e na verdade, só queria era abandonar-se ao sono, mas não abandonaria Jacques. — Fala com Jacques utilizando os vínculos de nossa gente. — Disse Gregori — Como o faria uma verdadeira companheira. — Seus olhos se dirigiram aos dedos fortes que rodeavam seu braço. — Não deve dormir. É sua prudência. Sem você não o poderemos ajudar. Shea molhou os lábios com a língua, para depois cravar os dentes no mesmo lugar, nervosa e inquieta. — Nos conte algo sobre Jacques. — desafiou-lhe. — Prove que o conheciam antes e que são seus amigos. — É o irmão de Mikhail e pensávamos que o tínhamos perdido faz sete anos. Buscamo-lhe, e quando não pudemos encontrá-lo, acreditamos que havia morrido e tratamos de encontrar seu corpo. Todos nós, Mikhail, Byron e eu, intercambiamos nosso sangue com o Jacques. Isso fortalece nossa comunicação telepática. Deveríamos ter sido capazes de encontrá-lo, mas quando nenhum de nós pôde perceber sua presença, tivemos a certeza de que tinha morrido. Shea inspirou profundamente, tentando serenar-se e de uma vez acalmar Jacques. Estes homens eram muito poderosos e perigosos. Embora o curador parecia o mesmo


Príncipe da Escuridão, estava dizendo a verdade. O ruim é que cada uma de suas palavras parecia dar vida às ardentes brasas da fúria assassina de Jacques. Tentou mantê-lo o mais tranqüilo possível. — Encontrei-o emparedado em um porão, sob os escombros de uma casa que se encontra a uns seis quilômetros daqui. Jacques apertou seu braço até lhe causar dor. — Não lhe diga nada. — Jacques. — Disse-lhe amavelmente. — Está-me machucando. Gregori moveu a cabeça. — Ele viveu durante um tempo nessa casa antes de desaparecer. Esta cabana é do Mikhail. Faz alguns anos, Jacques protegeu à mulher de Mikhail neste lugar, lutando contra um traidor para lhe salvar a vida. E isso quase lhe custou a sua. — Viu um brilho de esperança nos olhos da mulher. Gregori sabia que seu controle sobre Jacques pendia de um fino fio. Tinha que conseguir chegar até ela e colocá-la a seu lado. Ela sabia algo do que lhe acabava de contar. — Depois desse incidente, abandonamos a zona durante algum tempo. Faz mais ou menos uns oito anos, Jacques voltou para sua casa, perto daqui. A situação foi muito perigosa esse ano e durante os anos seguintes. Tantos os humanos como gente de nossa estirpe foram assassinados. Mikhail, Jacques, Aidan e eu tratamos de caçar aos assassinos. Jacques devia reunir-se conosco em três dias em um lugar a centenas de quilômetros daqui. Quando não o fez, nem respondeu a nossas chamadas, voltamos para sua casa. Estava completamente destruída. Não pudemos detectar sua força vital nem seu vínculo mental. — O surdo e venenoso gemido de Jacques o chamou de mentiroso. Vermelhas labaredas resplandeciam ardentes na profundidade de seus olhos. — Chamei-os uma e outra vez, Shea. Não creia neste traidor. Apertou ainda mais seu braço, ameaçando partir seus ossos. — Possivelmente posso aprender algo com ele, algo que possa nos ajudar. — Shea se estremeceu, estava muito cansada e teve que apoiar-se sobre o peito do Jacques para poder manter-se erguida — Me dói o braço. — estava tão cansada. Se pudesse dormir… Tudo parecia impreciso, As vozes se apagavam, como se chegassem desde muito longe. O olhar de Gregori se cravou em Mikhail. — A mulher está muito fraca, pode ser que sua necessidade seja ainda mais urgente


que a de Jacques. Se a perdermos, perderemos ele. Não resta nenhuma dúvida de que ela é o único elo que o mantém conosco. É o único elo que o impede de ficar louco. — Conte-me mais coisas. — Gregori incitou Shea enquanto Mikhail assentia. Eram bem conscientes da terrível forma com que Jacques segurava seu braço, mas Gregori precisava mantê-la consciente. — De onde provêm as feridas de Jacques? — Foi torturado e queimado. Tinha uma estaca de madeira do tamanho de um punho cravada no peito, e essa era a pior das feridas. É capaz de recordar os dois humanos e a outro ao que se refere como “o traidor”. — Sua voz era muito fraca. Um só som escapou de Mikhail, um grunhido grave e sinistro que fez com que um estremecimento descesse pelas costas de Shea. — Um vampiro. — vociferou Mikhail. — Foi um vampiro que o entregou aos humanos para que o torturassem e assassinassem. — Sem dúvida. — disse Gregori sem alterar-se. Nem sequer olhou Mikhail, devia concentrar toda sua atenção na mulher. Tinha que evitar que ela dormisse, e ela estava muito perto de fazê-lo. Somente sua determinação por salvar Jacques evitava que sucumbisse a perda de sangue, à fadiga e à dor. — Estava encadeado, e tinha algemas ao redor das mãos e dos tornozelos. Foi enterrado em pé no ataúde, na parede daquele porão. — Fez um esforço para falar claramente, mas tinha a garganta muito inflamada e se sentia tão cansada… — Havia mais de cem cortes profundos em seu corpo e outros tantos superficiais. Viveu encerrado clandestinamente, sofrendo uma espantosa agonia cada uma das vezes que despertou durante esses sete anos. Isso fez com que sua mente mudasse. Jacques recorda muito pouco de seu passado, só alguns fragmentos isolados. A maioria de suas lembranças têm que ver com a dor e a loucura. — Shea fechou os olhos, estava exausta. Só queria que todos fossem embora dali para que pudesse dormir. Seu coração pulsava com esforço, tinha o corpo empapado em suor e parecia que seus membros pesavam como se fossem de chumbo. Era impossível manter os olhos abertos. — Traiu-o alguém a quem conhecia e em quem confiava. — Jacques. — A voz de Gregori se fez inclusive mais grave, de maneira que parecia um silencioso sussurro, convincente e belo. — Sua mulher precisa de cuidados. Ofereço-lhes meus serviços como curador a ambos, e te dou minha palavra de que em nenhum momento tentarei fazer mal algum a ela. — Deixa que o faça, Jacques.


— Não! É um truque. Shea começou a mover-se, tentando permanecer sentada sem apoiar-se, mas estava muito fraca. — Olhe como estamos, homem selvagem. Se quizessem, nos matariam sem nenhuma dificuldade. Estou muito cansada, Jacques… Não acredito que resista mais. Jacques pensou nisso. Sabia que se acontecesse algo a ela, não suportaria, mas não confiava neles. No fim, por que percebeu que o estado de Shea era mais precário que o seu próprio. — Fique perto de mim. Shea levantou a mão, tremendo de fraqueza e ele afastou o cabelo de seu rosto. — Diga que permitirá que nos ajude. — Teremos que te colocar na cama, Jacques. — A voz de Gregori dissipou parte da tensão que reinava no aposento, resplandecendo com um ar limpo e fragrante. — Mikhail, necessitarei de ervas, já sabe quais. Diga ao Byron que traga muita terra fresca das câmaras úmidas das covas. Gregori se colocou mais perto do casal, e sua elegância ao fazê-lo ocultou parte da força que deixavam ver os poderosos músculos que se adivinhavam sob a camisa. Parecia totalmente seguro de si mesmo e sem nenhum rastro de temor. O suave grunhido na garganta do Jacques aumentou de intensidade, e os dedos se apertaram possesivamente sobre o ombro da Shea, esmagando os ossos e tendões. Gregori parou imediatamente. — Sinto muito, mulher. Sei que está fraca, mas terá que se mover com ele ou ele não me permitirá ajudar. — disse Gregori com calma. — O que necessitamos, Mikhail, é da influência tranqüilizadora de Raven. Sua presença é tão relaxante como a de um tigre de Rojão de luzes. — Hum… E você parece um coelhinho, não?— brincou Mikhail. — Poderia ter trazido Raven. — repreendeu Gregori em voz alta. —Está presente em todas as situações perigosas, até nas que não deveria se envolver. — Certamente, era uma clara reprimenda. — E agora, quando poderia servir de ajuda, não a trouxeste. De repente, uma pequena mulher entrou através da porta aberta. Tinha o cabelo comprido e negro penteado em uma complicada trança e seus enormes olhos azuis


resplandeceram ao olhar Mikhail. Enquanto Byron abria espaço atrás dela, dirigiu um amistoso sorriso a seu companheiro e ficou nas pontas dos pés para lhe dar um beijo no queixo. Mikhail ficou rígido, e imediatamente colocou um braço possessivo ao redor de sua cintura. — As mulheres dos Cárpatos não fazem esse tipo de coisas. — Repreendeu-a. Ela elevou o queixo, de modo algum preocupada com sua resposta. — Isso acontece porque os homens dos Cárpatos têm uma mentalidade muito territorial, já sabe, golpear o peito, pendurar-se das árvores… Esse tipo de coisas. — Voltou a cabeça para observar ao casal que permanecia no chão e de repente ficou sem fôlego. — Jacques. — sussurrou o nome e as lágrimas se formaram nos olhos azuis. — É você… De verdade. — Evitando a mão que Mikhail estendeu para detê-la, correu para ele. — Deixe-o — Avisou-lhe Gregori brandamente. — Olhe de longe. O olhar do Jacques estava fixo no rosto da mulher e as vermelhas labaredas de seus olhos desapareciam à medida que ela se aproximava. — Sou Raven, Jacques. Não me reconhece? Mikhail, seu irmão, é meu companheiro. — Raven ficou de joelhos junto do casal. — Graças a Deus que está vivo. Não posso acreditar quão afortunados nós somos. Quem te fez isto? Quem te afastou de nós? Shea percebeu o sussurro de lucidez em sua mente, o assombro de Jacques e sua curiosidade. Ele reconhecia aqueles olhos azuis carregados de lágrimas. Shea vislumbrou por um momento o fragmento de uma lembrança. Uma mulher inclinada sobre ele, com as mãos lhe rodeando a garganta, pondo terra e saliva sobre uma ferida que sangrava. Shea conteve a respiração, esperando. O grito de desespero de Jacques ressoou em sua cabeça. Obrigou-a a mover-se e enlaçou sua mão com a dele, lhe apoiando em silêncio enquanto observava à mulher que estava ajoelhada a seu lado. — Não me disse que ela era tão formosa. — acusou-o Shea deliberadamente. No meio da dor e da agonia, de toda aquela fúria possessiva e loucura endemoniada, algo pareceu derreter a resolução assassina de Jacques. Sentia vontades de sorrir para aquela mulher que parecia nervosa, e não sabia de onde surgia esse sentimento. A besta que rugia para liberar-se retirava-se às profundidades de sua mente. A tensão do ambiente se relaxou visivelmente. — É ? — perguntou Jacques inocentemente.


Os olhos verdes da Shea se demoraram em seu rosto, fazendo com que uma onda de ternura se propagasse em seu interior. O animal dentro de si se retirou por completo. A besta estava temporalmente submetida. — Esta é sua companheira, Jacques?— perguntou Raven com calma. Shea a olhou atentamente. Essa mulher tinha feito parte da vida de Jacques. — Sou Shea Ou’Halloran. — Sua voz soava rouca. — Jacques foi incapaz de utilizar sua voz desde que o encontrei. Raven acariciou a garganta machucada de Shea com dedos suaves. — Será melhor que alguém comece a me explicar o que aconteceu por aqui. — disse enquanto seus olhos escuros examinavam as marcas de perto. — Ajude-a a chegar à cama. — interrompeu Gregori, distraindo Raven de sua avaliação. — Deve-me uma, velho amigo. — disse mentalmente a Mikhail. Raven sorriu meigamente para Jacques. — Importa-se se a ajudo? Ela está bastante fraca. — Sem esperar sua aprovação, colocou um braço ao redor da cintura da Shea, firmando-a enquanto a ajudava a levantar-se. Instantaneamente, Shea percebeu que a inquietação percorria o corpo do Jacques. Também outros perceberam, já que estava acostumada com ele. Começou a tremer. As labaredas de seus olhos brilharam com um vermelho intenso e um lento som de aviso escapou por entre seus dentes. Raven olhou Mikhail por cima do ombro. — Não vou ajudar, pequena. Jacques é instável, e não gosta que a mulher saia de perto dele. — Parece que a possessividade é freqüente em sua família… Raven teve muito cuidado em manter Shea perto dela enquanto Gregori levantava Jacques nos braços. Com sua enorme força, o médico levou Jacques até a cama como se não fosse mais que um menino. Com cuidado, depositou-o na cama. Jacques nem sequer o olhou. Tinha os olhos cravados em Shea. Raven se assegurou de que Shea estivesse junto a ele durante todo o translado. — Deite a seu lado, Shea. — ordenou Gregori e deu um passo para tráz para que Raven pudesse ajudá-la a deitar-se na cama. A mulher estava muito fraca e não poderia


sobreviver a outro ataque. Todos eles deviam ter um grande cuidado para não provocar a ira de Jacques. Raven acendeu a vela que trouxera consigo e Mikhail começou a queimar as ervas medicinais. Mikhail, Byron e Raven se reuniram e recitaram em murmúrios da antiga litanía curadora na linguagem de sua gente. Gregori colocou as mãos sobre Jacques, fechou os olhos e saiu fora de seu próprio corpo para poder entrar no de Jacques. Todas as feridas físicas tinham começado a curar-se, à exceção da que Shea acabaraa de reparar. Gregori examinou seu trabalho e o encontrou irrepreensível. Era uma autêntica médica, humana ou não. Poucos poderiam ter se igualado a sua perícia médica. Concentrado, começou o meticuloso trabalho de curar Jacques por dentro e por fora. Jacques estava incomodamente consciente da presença de outro em seu corpo, em sua mente e de uma nova sensação ardendo dentro dele. A presença lhe era vagamente familiar. A litania, o aroma das ervas e a chama da vela também lhe eram conhecidos… Mas não conseguiu recordar de onde. Assim que as lembranças resplandeciam em sua mente, desvaneciam-se sem deixar rastro. Automaticamente, em meio a frustração e o desespero que isso lhe produzia, procurou o vínculo mental com Shea, o único que conhecia e ao qual podia abraçar-se. Ela estava perdida em seu próprio mundo, observando Gregori atentamente, tentando seguir cada um de seus movimentos apesar de sua debilidade física. Como era habitual, seu cérebro recolhia e classificava a informação a uma velocidade que ainda assombrava Jacques. Com sua mente unida a dela, percebeu que estava terrivelmente fraca, seu volume de sangue era insuficiente. Alarmado, Jacques se liberou do transe que o ritual de cura lhe tinha induzido e segurou com a mão o antebraço do médico. Imediatamente, Gregori se afastou das feridas no corpo do Jacques. No aposento, fez-se um silêncio sepulcral. O próprio ar permanecia imóvel, em silêncio. As chamas das velas se apagaram, deixando a sala na mais completa escuridão da noite, embora o pequeno grupo de pessoas ali reunidas não percebesse tal escuridão. Pequenas gotas de transpiração salpicavam a testa de Gregori, e esse era o único sinal que indicava o quanto difícil estava sendo o processo curativo para o médico. Os olhos atentos fulminaram a mão que agarrava seu braço e se dirigiram ao pálido rosto do Jacques. Havia um brilho letal naqueles olhos cinzas. Jacques olhou fixamente o homem. Sua mente lutava por concentrar-se, por encontrar uma conexão que lhe permitisse falar com ele. Quando não pôde fazê-lo, Jacques tentou utilizar sua voz. As palavras se formaram em seu cérebro mas se perderam antes de que suas cordas vocais as pudessem


pronunciar. Uma cólera fria percorria seu corpo ante sua própria incapacidade. Shea necessitava de sangue, necessitava de sua ajuda. Tinha-lhe causado tanto sofrimento… — Sangue. — Essa única palavra foi mais um grunhido que outra coisa, mas o curador lhe entendeu. Gregori o olhou quase com indiferença, guardando silêncio por um momento. Movia-se sem nenhuma pressa, enquanto, com sua mão livre, perfurou com calma seu próprio pulso, por cima dos ameaçadores dedos de Jacques. Seu olhar permaneceu cravado. O sangue de Gregori era poderoso, tão antigo como o do Mikhail. Aceleraria o processo de cura como nenhum outro. O sangue fresco gotejava atraente enquanto o oferecia silenciosamente ao homem dos Cárpatos que jazia ali tão maltratado e destroçado, e ainda assim tão desejoso de começar uma batalha. A fome aumentou tanto e tão rápido que Jacques não percebia nada mais. Trouxe a mão que Gregori oferecia para sua boca e se alimentou com voracidade, encontrando finalmente o sangue quente e rico que necessitava para sobreviver, para curar-se, para recuperar suas forças e para poder alimentar a Shea. O nutritivo líquido penetrou em seu corpo faminto, estendendo-se a cada célula murcha. Tecidos e músculos se incharam com força. O poder fervia em seu interior, crescendo mais e mais até que se sentiu vivo de novo, realmente vivo. As cores tornavam-se mais intensas, brilhantes inclusive, e os sons da noite o chamavam para que se unisse a eles, como se fosse mais uma das criaturas noturnas. — Suficiente. — A voz do Gregori era apenas um sussurro, tão formosa e sugestiva que teria sido impossível lhe desobedecer. Jacques fechou a ferida no pulso de Gregori e imediatamente se girou para procurar Shea. Colocou-a entre seus braços e abraçou o pequeno corpo contra o seu. Concentrou toda sua atenção nela, bloqueando sua própria dor, e fundiu sua mente com a da Shea. — Deve se alimentar. Percebeu a onda de inquietação que percorreu o corpo de sua mulher. Shea apartou o rosto. — Não posso, Jacques, não com eles aqui. Estou tão cansada… Por favor, deixe-me dormir. — Tem que fazê-lo, pequena ruiva. — ele aumentou a intensidade da ordem. — se alimente.


Embora se encontrasse francamente mal, Shea tratou de resistir. Sentia que ia explodir-lhe a cabeça. — Não me obrigue a fazer isto diante deles… O ligeiro acento em sua voz enfraqueceu a alma de Jacques. Suas palavras criaram uma borbulha de intimidade que lhes pertencia tão somente. Tinha perdido a razão, a terrível escuridão quase conseguiu apoderar-se de sua alma, mas Shea tinha permanecido a seu lado, lutando por ele, acreditando nele. Devia-lhe mais que sua própria vida, devia-lhe sua prudência. — Só estamos você e eu, meu amor. Alimente-se agora. Deve fazê-lo para sobreviver, para que nós possamos sobreviver. Não havia forma de lhe rechaçar. Jacques tinha uma vontade de ferro, sua voz a hipnotizava, envolvendo sua mente para dar mais força à ordem. Shea estava cansada e ferida e era incapaz de resistir. Shea se deixou levar e começou a acariciar sua garganta, seus suaves lábios entreabertos enquanto passava a mão sobre seu peito. Jacques se inclinou sobre ela para lhe dar toda a intimidade que podia frente ao resto de pessoas que estavam na habitação. O corpo do Jacques esperou, espectador. Inesperadamente, quando a língua dela brincou sobre o ponto no qual pulsava seu pulso, agarrou-a pelo cabelo enquanto elevava para o teto seu próprio rosto, como rogando ao céu poder dispor de mais intimidade para poder dar a Shea o que pretendia. Gregori estava parado no outro lado da sala, apoiado contra a parede enquanto inclinava sua escura cabeça sobre a mão de Mikhail, repondo seu próprio sangue. Raven estava ajoelhada, recolhendo os cristais de uma lâmpada que havia quebrado e limpando o azeite vertido com uma toalha. Byron estava arrumando a porta. Seus olhos se deslizavam sobre o casal, demorando-se na curva do quadril da Shea e em seu abundante cabelo vermelho. Uma inveja infinita se revelava no olhar de Byron e Jacques, deliberadamente, ocultou o rosto da Shea de sua vista, sabendo que ela ainda tinha aversão a realizar a função básica e natural de tomar sangue. Sua língua se deslizou sobre o pulso firme de seu pescoço e o coração de Jacques se encolheu dentro do peito. Sentia como seu próprio corpo se estremecia uma e outra vez, endurecendo-se. Aquela suave carícia, úmida e erótica, fazia que


lhe fervesse o sangue. A paixão da Shea ia muito além da simples rendição, muito mais à frente do simples cumprimento de uma ordem. Esse homem era Jacques, e seu corpo agonizava de desejo por ele. Suas inibições desapareceram por completo. Os pequenos dentes arranhavam a pele, mas era suficiente para enviar correntes de fogo que atravessavam seu corpo. Jacques mordeu os lábios para evitar deixar escapar um gemido quando aquele fogo líquido percorreu sua pele, penetrando como uma corrente em seu organismo, alagando sua alma. Shea envolveu a mão ao redor de sua nuca, outro gesto íntimo que lhes unia ainda mais, quão mesmo os sedosos fios de seu cabelo. Ela não se limitava a alimentar-se, estava-se dando um festim. Sua boca se movia sedutoramente e arqueava o corpo contra o seu deliberadamente, lhe tentando. Jacques a desejava com uma fome como jamais tinha conhecido. Inclinou a cabeça para acariciar sua nuca com seus lábios. — Bem, Gregori. — A voz do Mikhail era quase um suspiro na mente do curador. — diga-me o que tem descoberto. — A mulher poderia ter curado suas feridas. É uma médica excelente. O que é um milagre é que ele tenha sobrevivido até que ela o encontrou. Tem a mente completamente destroçada, Mikhail. Seu interior está cheio de escuridão e violência. Ligou a mulher a ele e o vínculo é muito forte. — respondeu Gregori depois de meditar a resposta. — Por que tenho a sensação de que há um inevitável “mas” em tudo isto? — Mikhail se encontrava um pouco fraco depois da doação de sangue, e se sentou para descansar. Gregori pegou uma cadeira e se sentou frente a ele. — Acredito que converteu à mulher, possivelmente por acidente, possivelmente a propósito, não sei. Agora ela pertence a nossa raça, mas antes era humana. Está fragilizada, como se seus órgãos internos tivessem sofrido recentemente uma mudança fundamental. — Como pode saber isso? Nem sequer a examinou. —Assinalou Mikhail. — A mente dele jamais libera a dela completamente. Tem-na ancorada a ele. É extremamente perigoso, Mikhail. A fúria ferve em seu interior. Uma boa parte dele é puro instinto animal, uma besta. Sua natureza é a de um predador, você sabe. O que lhe fizeram trocou sua vida e isso não posso solucioná-lo. Mikhail esfregou a testa e inconscientemente, procurou a conexão com Raven. Imediatamente, ela estava ali, lhe enchendo com sua calma, lhe rodeando com seu amor. Sua companheira era capaz de afastar toda a tristeza de seu interior com um simples olhar de


seus olhos azuis, com um roçar de sua mente. Mikhail enlaçou seus dedos com os dedos do Raven enquanto se dirigia ao Gregori. — Crê que se transformará? Gregori encolheu os ombros. — Acredito que é perigoso de qualquer maneira. Só a mulher é capaz de lhe controlar. Ela é a chave de tudo isto. Mas sem saber nada de nossos costumes, será difícil. Está decidida que ele sobreviva, mas sinto que aceitou que sua própria morte é inevitável. Não tem uma idéia clara de qual é seu papel em todo este assunto. Mikhail observou a seu irmão enquanto este retirava o cabelo da Shea para trás com muito cuidado, quase com ternura. Aquele gesto derreteu seu coração. Gregori suspirou. — Seus sentimentos são óbvios, mas nem sempre sabe o que faz. É bastante capaz de lhe fazer mal se algo provoca a besta que há em seu interior. Mikhail voltou a esfregar a testa com a mão. O Jacques que conhecia e amava era completamente diferente. Seu riso era fácil e a compaixão sempre moderava sua natureza predadora. Jacques era tão inteligente, fácil de amar… Mesmo depois que Jacques havia perdido a capacidade para sentir emoções, ainda as retinha em sua memória. Freqüentemente tinha ajudado aos mais anciões de sua estirpe a recordar seus próprios risos. Quem lhe havia feito isto? Não poderiam obrigá-lo a sentenciar a outro de seus irmãos à morte… Não poderia fazê-lo. Já era hora de reduzir suas obrigações, hora de colocar sobre outros ombros o peso da responsabilidade da extinção de sua estirpe. Mikhail sentiu que Raven colocava seus braços ao redor de seu pescoço. — Jacques é forte, meu amor. Encontrará a maneira de recuperar-se de tudo. Mikhail girou a palma da mão de Raven para cima e a beijou delicadamente. — Gregori acredita que ele converteu a Shea Ou’Halloran sem que ela desse seu consentimento. É possível que nem sequer saiba. — Seus olhos negros se cravaram nos azuis dela, cheios de culpa e de ternura. — Acredita que a mulher não sabe nada a respeito de nossos costumes. — Jacques poderá… — Não, pequena. Jacques não se recorda de nada. Seu único pensamento é de ódio,


fúria, vingança… E na mulher. E não estamos seguros de que seja capaz de cuidá-la. — Olhe-o com ela. — disse Raven. E repetiu em voz alta. — Olhe-o com ela. Jacques queria que os estranhos partissem. Ter tantos homens amontoados perto de Shea lhe tirava a tranquilidade. Não confiava em nenhuma daquelas pessoas, com a possível exceção da mulher dos olhos azuis. Jacques mal suportava olhar a aquele que dizia ser seu irmão, que tinha atacado e quase matado Shea. Mas curiosamente, doía-lhe ver aquele homem. Jacques sentia que doía sua cabeça cada vez que seus olhares se encontravam. Lembranças. Fragmentos. Peças de nada. — Suficiente. — sussurrou a Shea em uma leve ordem. Sua língua se deslizou pela ferida para fechá-la, a mais pura das seduções. Shea saiu do transe lentamente, percebendo um sabor doce e metálico em sua boca. A fome terrível que retorcia suas vísceras tinha desaparecido, mas agora seu corpo ardia, suave e dócil, com outro tipo de necessidade. Subitamente, ficou consciente das demais pessoas que havia na sala e se juntou mais ainda a Jacques, procurando seu amparo. Se todos fossem embora, poderia dormir. Tentaria compreender as coisas mais tarde. Classificaria toda a informação de que dispunha e determinaria que classe de pessoas eram aquelas. De repente, o medo a percorreu como uma corrente gelada, secando sua boca e fazendo com que seu coração começasse a pulsar com força no peito. Podia sentir as mãos de Jacques, lhe apertando os braços como se fossem cadeias. Um transe hipnótico. Jacques a tinha induzido. Seus olhos verdes se abriram lentamente para deslizar-se sobre o rosto dele em um lento e preocupado estudo. Por que não estava contente, extasiada, por ter encontrado a sua gente, a sua família? por que não estava emocionada ante a chegada de um médico? Algo estava errado. Sua única esperança era sair desta situação e deixar Jacques com sua família. Agora havia muita gente para cuidar de Jacques, ele não precisava mais dela. O médico era obviamente muito mais habilidoso que ela. Shea se estremeceu, desconcertada porque eles poderiam notar o quanto tremia. Sempre mantinha o controle. Só precisava afastar-se dali para recuperá-lo de novo. — Não! — A voz de Jacques era agora muito mais forte e muito mais aterradora. —Não pode me deixar. Shea sabia que ele era muito mais exigente do que podia imaginar. E a estava manipulando, sempre tinha feito. Pela primeira vez permitiu que todos os fatos se reunissem em sua mente. Vampiro. Jacques era um vampiro. Todos eles eram. Sua mão subiu à


garganta. Provavelmente, agora também era um deles. — Se afaste de mim! — Shea lutou seriamente desta vez, assombrada de quão forte estava depois da transfusão de sangue de Jacques. Jacques grunhiu, tomado por uma negra fúria que começava a espalhar-se por seu organismo, aumentando com o medo deperdê-la. Medo de que ela não pudesse sobreviver sem ele. Medo de estar mais uma vez sozinho, na completa escuridão. Voltou a colocá-la como estava com facilidade, mas o ritmo dos batimentos de seu coração o assustou, lhe devolvendo um pouco de prudência. Dentro do redemoinho de emoções violentas, apareceu a voz do médico. — Não entende os costumes de nossa gente, Jacques. Deve ser delicado com ela. Ensine-a, como seu irmão ensinou Raven. Shea resistiu à sedutora voz daquele tecedor de feitiços — Quero partir. Não pode me reter aqui. Jacques, por favor… Não me faça isto. Não me obrigue a ficar quando ambos sabemos que é impossível. Conhece-me muito bem, conhece-me por dentro e por fora. — Deixa-o, Shea. — rogou-lhe Jacques sabendo que sua lucidez e sua razão pendiam de um fio. — Nada mudou. — Tudo mudou. Estas pessoas são sua família. — ela tentou respirar profundamente, com calma. — Jacques. Eu era sua médica, nada mais. Não sou deste lugar. Não sei como viver assim. — É minha companheira. — As palavras soaram terminantes na cabeça da Shea. — Está cansada, meu amor. Cansada e assustada. E tem todo o direito a estar, eu sei. Sei que te assusto, mas você me pertence. — fez todo o possível para que sua voz soasse carregada de razões, mas era difícil fazê-lo com o animal revolvendo-se em seu interior e os fragmentos de cor em sua cabeça, lhe confundindo. Shea permaneceu deitada a seu lado, observando seus traços duros e severos, intransigentes e a advertência refletida em seu olhar furioso. — Nem sequer sei o que significa ser sua companheira, Jacques. Sabe que quero o melhor para você, quero que se recupere por completo de novo, que esteja bem outra vez, mas eu não posso ficar com toda esta gente. Necessito de tempo para esclarecer minhas idéias, para saber o que está acontecendo aqui. O que eu sou. Logo que posso respirar agora… Deixa que ocorra o que tenha que ocorrer.


Estava dizendo a verdade. Unido a ela, Jacques pôde perceber o familiar padrão de sua mente, como seu intelecto cobrava um papel principal, bloqueando qualquer emoção entristecedora para protegê-la. Mas estava muito cansada, muito exausta para ter êxito em seu intento. Esforçou-se de novo por tranqüilizá-la. — É minha companheira. Isso quer dizer que nos pertencemos um ao outro, que nunca estaremos separados. Shea sacudiu a cabeça, negava-se a admitir aquilo. — Nem pensar. — Seus enormes olhos observaram as outras pessoas que havia no aposento. Todos pareciam sinistros, seres muito frios para seu próprio bem. — Quero ir embora daqui. — as palavras ficaram entre uma ordem e uma súplica de ajuda. Instintivamente, olhou para Mikhail. As marcas de seus dedos ainda estavam sobre sua garganta torcida. Havia salvado a vida a seu irmão. Mikhail lhe devia algo. Raven apertou a mão de Mikhail, percebendo sua tensão, sua indecisão. A mulher obviamente estava pedindo ajuda e Mikhail não podia fazer outra coisa, além de lhe oferecer seu amparo. Mas Jacques já avisava: um grave grunhido começou a retumbar em sua garganta. Tinha notado que Shea olhava para os outros em busca de auxílio, e isso desatou seu instinto predador. Agora era muito perigoso, a violência formava redemoinhos a flor de pele, e observava a Shea demandando submissão absoluta. Byron quase saltou para diante para ajudá-la, mas a visão das brilhantes presas de Jacques o manteve imóvel. Olhou para Mikhail. — Já lhe disse que ela não o havia escolhido. Afaste-a dele. Temos que protegê-la. — A esperança brilhava em seus olhos. — Jacques — a voz do Gregori era como veludo negro, uma carícia envolta em um tom tão convincente que era impossível ignorá-lo. — A mulher está completamente esgotada. Precisa descansar, recuperar-se mediante o sono reparador. Devem ir à terra. Por pouco o coração de Shea não parou. Empurrou com força o peito do Jacques, captando a imagem da terra abrindo-se, aceitando-os. Enterrados vivos. Um grito de alarme se gelou em sua garganta. Saltou da cama, no intuito de afastar-se, mas Jacques segurou suas frágeis mãos e a manteve sobre a cama. — Não lute comigo, Shea. Não tem forma de ganhar. — Jacques lutava por manter o controle. Shea estava tremendo, toda sua mente estava repleta de medo. Medo dele, pelo que ele era e do que representava: a perda da liberdade, o horror de ser um vampiro que devia


alimentar-se de vítimas humanas como nas novelas antigas. O terror de necessitar de um homem para sobreviver, como tinha acontecido com sua mãe… — Afaste-a dele. — ordenou Byron. Jacques girou a cabeça, seus olhos resplandeciam como gelo negro. Tinha a voz rouca, um simples indicativo do longo silêncio de suas cordas vocais. Fez um esforço supremo por manter o controle pelo bem de Shea. Ela sempre tinha estado a seu lado, e agora ele devia fazer o mesmo por ela. — Ninguém poderá afastá-la de mim e seguir com vida. Não havia duvida sobre o que ele acabara de falar. Shea permanecia muito assombrada e parecia incapaz de assimilar que tivesse falado em voz alta. — Haverá um derramamento de sangue e alguém morrerá. Por favor, Jacques, por favor… Me deixe partir. Não posso viver assim. — Havia lágrimas em seus olhos, e também em seu coração. Jacques tentou unir-se a ela, acalmá-la com sua mente, mas estava consumida pelo pânico, muito bloqueada para pensar. — Obrigue-a a dormir. Ela encontra-se muito debilitada, tanto física como emocionalmente. Deve cuidar de sua saúde. A voz de Gregori mantinha sempre o mesmo tom, tão pura como a água cristalina que se deslizava sobre as rochas em um córrego. — Não! Gregori a aterrorizava mais que nenhuma outra pessoa. Sempre mantinha o controle. Sempre. Ninguém nunca tinha tomado decisões por ela, nem sequer sua mãe. Só precisava estar sozinha. Precisava de tempo para pensar. Shea lutou desesperadamente contra o abraço de Jacques. — Deixe-a ir. A pureza da voz de Gregori estava removendo os fragmentos de cor na cabeça de Jacques, unindo-os entre si. Shea parecia tão assustada, tão pequena e vulnerável deitada junto a ele… — É meu direito, meu amor. — Jacques inclinou sua escura cabeça e a beijou na nuca. — Dormirá e te curará. Asseguro-te que não te ocorrerá nada de mal. Pode confiar em mim. — A ordem foi firme e forte. Ele pode ouvir como se desvanecia o eco do pranto


angustiado de Shea em sua mente enquanto ela se rendia a sua ordem.


Capítulo 8 A tormenta se passava lentamente através do céu, cobrindo a terra com uma curiosa e deprimente garoa. Durante todo o dia tinha evitado que saísse o sol e tinha ocultado as montanhas depois de uma cortina de chuva dourada e uma espessa capa de névoa. Em uma choça abandonada, três homens permaneciam agachados frente ao fogo, tratando de escapar da água que se filtrava através das gretas do teto. Dom Wallace deu um pequeno gole do café, que estava extremamente quente, enquanto observava nervoso o anoitecer através da janela. — Um clima incomum para esta época do ano — Seus olhos se encontraram com os do homem maior em um largo e conhecedor olhar. Eugene Slovensky encurvou os ombros para proteger-se do frio e respondeu a seu sobrinho com um ligeiro tom de recriminação. — O clima sempre é assim quando a terra está instável. Como pôde deixar que a mulher escorresse por entre os dedos, Donnie? — Bom, você a teve nas mãos quando não era mais que um bebê — Wallace replicou — e a deixou escapar também. Nem sequer podia rastrear sua mãe entre a Irlanda e América. Fui eu quem se encarregou de fazê-lo, quase vinte anos mais tarde, assim agora não aja como se eu fosse o único que estragou tudo. O homem maior o olhou fixamente. — Não use esse tom comigo. As coisas eram diferentes antes. Não tínhamos as vantagens de toda essa tecnologia moderna da que você dispõe agora. Maggie Ou'Halloran recebeu muita ajuda de distintas pessoas para escapar com sua pequena cachorrinha do demônio — suspirou e olhou outra vez a névoa e a chuva através da janela — Faz déia do risco que corremos ao vir em seu território? — Quero te lembrar que fui eu que rastreou e matou os vampiros que apanhamos há alguns anos, enquanto que você ficou a salvo na Alemanha — grunhiu Dom irritado. — Não se esforçaste muito em distinguir bem quem era um vampiro e quem não o era, Dom… — lembrou Eugene vivamente. — Limitou-te a se divertir com quem lhe deu vontade.


— Sou eu o que corre os riscos. Deveria ter permissão para me distrair um pouco — respondeu Dom mal-humorado. — Bem, desta vez se concentre no que temos entre as mãos. É um trabalho perigoso. Os olhos de Dom se endureceram. — Estava contigo quando encontramos o corpo do tio James, recorda? “Feliz quinze anos, Donnie”. Em vez de conseguir um vampiro para matar, o que me deram de presente foi o corpo de meu tio enterrado sob uma pilha de escombros… Sei muito bem quão perigoso são. — Nunca esqueça essa imagem, menino. Jamais. — Disse Eugene — Já fazem vinte e cinco anos e ainda não apanhamos os assassinos. — Ao menos os fizemos pagar. — assinalou Dom. Os olhos de Eugene ardiam. — Não o suficiente. Nunca será suficiente. Temos que exterminá-los. Acabar com todos eles. Jeff Smith se levantou e percorreu com o olhar Dom Wallace. O velho estava louco. Se realmente existissem vampiros, Jeff aproveitaria a oportunidade para converter-se em imortal. Tinham assassinado quatorze dos supostos vampiros e Jeff estava seguro de que ao menos um par deles eram reais. Nenhum humano teria suportado o tipo de tortura que lhes aplicava Wallace e sobreviver durante tanto tempo. A maioria das vítimas definitivamente haviam sido humanos, sem dúvida alguma inimigos de Wallace. Dom realmente tinha desfrutado muitíssimo com as sessões de tortura. Jeff também estava seguro de que Shea Ou'Halloran não era um vampiro. Tinha-a investigado cuidadosamente. Tinha freqüentado o colégio regularmente durante o dia e tinha se alimentado diante de outras meninas. Era uma cirurgiã autêntica, muito respeitada em sua profissão. Uma menina prodígio. Todos os seus professores falavam maravilhas dela… Jeff não podia afastá-la de sua mente. Sua voz, seus olhos, o modo elegante e sensual em que movia o corpo… O velho louco estava obcecado para encontrá-la e Dom sempre fazia o que seu tio dizia. O tio de Dom, o velho Eugene Slovensky era o que se encarregava do dinheiro e a soma era considerável. De todas as maneiras, se encontrassem à mulher, Jeff não deixaria que a matassem. Queria-a para ele. — Por que pensa que ela está por aqui? — Perguntou Slovensky. — Ela faz suas compras à vista, assim não podemos seguir o rastro de seus cartões,


mas deixa outro tipo de rastros. — Disse Dom com uma careta que pretendia ser um sorriso — Onde quer que vá, ajuda às pessoas necessitadas. Na verdade, é divertido. Crê-se muito certa, mas comete sempre os mesmos erros. Eugene Slovensky assentiu. — Os gênios nunca têm sentido comum. — E pigarreando nervosamente acrescentou — Avisei ao Abutre. Dom Wallace tremeu e o café quente derramou sobre sua mão. — Está louco, tio Eugene? Nos ameaçou de morte se não deixássemos as montanhas, na última vez que nos viu. O Abutre é um vampiro de verdade e não estamos bem com ele, precisamente. — Você matou aquela mulher — disse Eugene — Ele te advertiu que não o fizesse, como eu… Mas você não ouviu… Tinha que se divertir. Furioso, Dom jogou o copo longe. — Agora também estamos atrás de uma mulher. A seguimos por dois anos, e justo quando a temos ao alcance da mão, você avisa esse assassino. Deveria ter lhe atravessado o coração com uma estaca quando tive oportunidade. Não é um “vampiro bom”, como os outros. Slovensky sorriu abertamente, meneando a cabeça. — Não. Ele não é como os outros. Limita-se a odiar, Donnie. É capaz de odiar com uma intensidade que jamais tinha visto em minha vida. E isso sempre pode nos ser de alguma utilidade. Quer apoderar-se de uma mulher em especial, essa que tem o cabelo comprido e negro. Quer que ela e todos os que a rodeiam sejam mortos. E eles confiam nele, assim os deixará diretamente em nossas mãos. Pode ser absolutamente desprezível, mas é poderoso. — Todas as suas mulheres têm o cabelo comprido e negro. Como supõe que saberei qual delas é? — disse Dom — Recorda o menino? Aquele que estava com dezoito anos? O Abutre o odiava. Quis que ele sofresse o inferno — sorriu satisfeito — E o sofreu, certamente. Mas o que mais odiava era o último que apanhamos, o dos olhos negros. Ordenou-me para o torturar, queimar… Queria que sua agonia não tivesse fim e me assegurei de que assim fosse. O Abutre é mau, Tio Eugene. Slovensky assentiu. — Utilize-o. Deixa que ele creia que o respeita. Que é ele quem dá as ordens. Lhe prometa que entregará também à mulher ruiva. Diga-lhe que entregaremos a ambas se ele nos


trouxer os assassinos de James. Meu pobre irmão James. — Pensei que havia dito que precisávamos estudá-la, que não era tão forte como outros e que tínhamos maiores possibilidades de controlá-la. De qualquer maneira, ela não tem o cabelo negro. — Dom se levantou abruptamente e a fim de tentar ocultar a expressão de seu rosto para os outros. Estava há muito tempo sem ter uma mulher sob seu controle absoluto. Seu corpo ficou quente e duro ao recordar a época que tinha passado no porão com a última… Ela havia resistido a três deliciosas semanas, e durante todo o momento sabia, ao final, acabaria matando-a. Tinha lhe agradado de todas as maneiras, faria qualquer coisa para que ele não a matasse. Queria que Shea Ou'Halloran também ficasse em suas mãos durante algum tempo. Melhor, durante muito tempo. Aprenderia o que é o respeito. O desprezo de seus impressionantes olhos verdes seria substituído por respeito e a súplica. Esforçou-se por manter o controle, amaldiçoando os que compartilhavam a pequena cabana com ele porque lhe impediam de deleitar-se com suas fantasias. Dom girou sua cabeça e flagrou Smith lhe observando. A máscara que usava para ocultar suas emoções voltou para seu rosto e lhe dirigiu um acolhedor sorriso. Smith era débil, sempre estava se queixando de algo. Observava as coisas que Dom fazia, mas geralmente lhe faltava fibra para fazer outra coisa que não fosse olhar. Um dia destes, decidiu Dom, demonstraria a Smith o quão débil era realmente. A sociedade entre eles estava chegando ao final. Slovensky jogou uma manta sobre os ombros. Aos sessenta anos, sentia que aquela umidade que acompanhava à chuva impregnava-o até os ossos. Detestava estas montanhas e todas as lembranças que lhe traziam. Vinte e cinco anos atrás, havia trazido seu irmão pequeno, James, para uma caçada de vampiros junto com outros membros de uma sociedade secreta que se dedicava a exterminar a essas odiosas criaturas. Conseguiram apanhar um vampiro, mas ele tinha matado James. Shea Ou'Halloran era a chave de tudo. Utilizaria-a para descobrir os assassinos de seu irmão e lhes administrar o castigo que mereciam. Donnie cravaria uma estaca no coração do Abutre e liberaria o mundo desse verme detestável. E mais tarde, a sociedade poderia estudar à mulher e obter as provas que necessitavam para serem finalmente reconhecidos como cientistas, tal como desejavam. — Quanto tempo vamos estar metidos neste chiqueiro? —perguntou Smith. Wallace e Slovensky intercambiaram outro olhar. Wallace encolheu os ombros, tirou


um maço de cigarros e extraiu um. — Deveria saber que nunca se deve sair quando a terra está instável. Isso indica que estão fora. — Cada vez que chover estaremos encerrados? Maldita seja, Dom. Ao menos poderíamos ter conseguido um alojamento decente. — Deixa de choramingar. — disse Slovensky —. O que menos precisamos é anunciar nossa presença aqui. Eles controlam os aldeãos, vinculam-lhes de algum modo com o fim de que lhes sejam leais. Jeff lhes voltou as costas, com o olhar fixo na escuridão do bosque. Slovensky era um completo imbecil. A seu sobrinho Wallace, havia conhecido no instituto. Dom tinha sido tudo o que Jeff não era. Arrogante, seguro de si mesmo, bonito e duro. Wallace tinha encurralado um dos constantes atormentadores de Jeff, tinha-lhe segurado e tinha animado Jeff a golpeá-lo. A sensação de poder foi incrível e os dois se tornaram inseparáveis. Dom era sádico e violento. Desfrutava vendo filmes de tortura e comentando com Jeff. Algumas vezes se obcecava com a idéia de fazer o mesmo. Jeff filmou as atuações privadas de Dom. Cada uma das quais tinha chegado a ser um verdadeiro professor de métodos de tortura. A princípio usavam a prostitutas, mas várias vezes tinham conseguido enganar a umas estudantes para que fossem ao armazém. Depois disso, Dom permanecia deprecivo durante várias semanas, um mês… Às vezes inclusive dois, se as sessões tinham sido de seu gosto. Jeff sabia que agora Dom sentia uma forte necessidade de matar e qualquer um que estivesse a seu lado, devia tratar de não chamar sua atenção. Quando o velho saiu para fora a fim de fazer suas necessidades, Jeff se colocou atrás de Dom. — Alguma vez você já parou para pensar como seria, o poder que teríamos se obrigássemos a algum deles a nos converter em vampiros? —murmurou com cuidado, assegurando-se de que Slovensky não podia escutar o que, sem dúvida, consideraria um sacrilégio. —Seríamos imortais, Dom. Poderíamos conseguir tudo o que quiséssemos. Qualquer mulher que desejássemos. Poderíamos tudo. Wallace guardou silêncio durante uns minutos. — Precisamos averiguar mais a respeito deles. Quase tudo o que sei, o que me contaram o velho e os loucos de seus amigos,é que mais provável que não sejam mais que panaquices.


— Sério? — Todas essas supersticões… A maioria da gente por aqui acredita nessa estupidez. Pensam que os vampiros podem controlar sua mente e inclusive trocar de forma. Se de verdade tivessem todos esses poderes, Jeff, por que não os usaram quando nos divertíamos com eles? Jeff se encolheu de ombros, decepcionado. — Pode ser que tenha razão… Mas sobreviveram muito mais tempo que outros. — suspirou. — É o ódio o que lhes mantém vivos — riu Dom — São quase tão divertidos como as mulheres. — por um momento ficou pensativo —. Mas por outro lado está o Abutre…

O sol se rendeu por fim. A Chuva e a hora tardia tinham conseguido debilitar sua insignificante luz. O céu se obscurecia ainda mais e as nuvens pareciam aumentar de tamanho. Começou a aumentar o vento, empurrando a chuva com tanta força que parecia bombardear a terra, machucando as folhas e os matagais. Um rouco gemido se escutou em alguma parte, ressonando através do balanço dos ramos. O vento soprava para o norte, uivando à medida que descia pelo chão, lançando-se através do bosque escuro, e subindo às altas e escarpadas montanhas até introduzir-se em uma escura e silenciosa cabana. Dentro, resguardados das fechadas cortinas de chuva e do monstruoso vento, dois corpos jaziam imóveis e entrelaçados sobre a cama. Shea estava encolhida, pequena e frágil, com seu cabelo vermelho esparramado sobre o travesseiro como se fosse sangue. O corpo de Jacques, muito maior, rodeava-a protetoramente e seu braço estava firmemente colocado ao redor de sua cintura, prendendo-a. Seu coração começou a pulsar a um ritmo forte e tranqüilo no meio do silêncio. Inspirou profundamente para introduzir o ar em seus pulmões e reativar suas funções normais. Jacques esperava sentir a familiar agonia que atravessava seu corpo cada vez que despertava durante os últimos sete anos. Percorria-lhe de cima abaixo com o primeiro indício de vida, assim que o sangue começava a irrigar cada célula e a cada nervo. Mas a sensação não chegou. Em lugar disso se sentia esgotado, doía-lhe cada músculo do corpo, mas se sentia forte e vivo de novo. O cura pelo sangue do curador era assombrosa e a cicatrização


interna tinha superado as expectativas de Jacques. Gregori. O Escuro. As palavras surgiram flutuando de um nada, um desses escorregadios fragmentos que nunca conseguia segurar. Jacques tentou fazê-lo desta vez, sabia que essa informação era muito importante para ele, mas a dor explodiu em sua cabeça. Não importava. Tranqüilamente, permitiu que a lembrança se esfumasse e com muito cuidado foi reduzindo o vínculo com Shea. Antes de lhe dar a ordem para despertar, revisou o exterior da cabana para localizar a existência de algum perigo potencial. Havia outros de sua raça por perto. Isso o pôs em alerta. Era imperativo que os membros masculinos da raça dos Cárpatos encontrassem uma mulher, sua companheira. Se sua união com Shea não se completasse, cada um dos homens das cercanias tentariam a sorte, com a esperança de que sua química encaixasse com a dela. À medida que todo esse conhecimento se amontoava em sua cabeça, Jacques compreendia que aquilo era verdade, que era exatamente o que ocorreria se não completasse sua união com ela. Um silencioso grunhido enrugou seus lábios, deixando ver seus brancos dentes. Deliberadamente, Jacques se refez com um lento e lânguido movimento destinado a revitalizar seus músculos e sua força. Suas reações ainda eram um pouco lentas, mas estava vivo de novo. Cada movimento que fazia, percebia a suavidade do corpo de Shea roçando contra o seu, e notou como reagia seu organismo, com essa doce dor que tinha sido estranha para ele durante muitos séculos e que agora sempre estava presente. Virou-se e ficou olhando fixamente o rosto imóvel e pálido de Shea. Notou como lhe enrijecia o corpo de repente e dirigiu as mãos para a camisa dela, roçando com o dorso dos dedos a carne suave e cálida que havia debaixo à medida que a desabotoava. Seu coração deu um salto no peito e ele ficou sem fôlego. Era uma tortura tão deliciosa… Jamais havia imaginado que algo pudesse ser tão suave. Quando descia a blusa sobre os ombros, inclinou-se sobre seu ouvido para lhe sussurrar: — Acorde, pequena ruiva. Acorde e me deseje. — beijou-lhe os olhos e depois se apoderou de sua boca para poder saborear seu primeiro fôlego enquanto sua mão se fechava sobre o seio para perceber quando começasse a pulsar seu coração. O sangue começou a percorrer seu corpo como uma sinfonia de sensações, enchendo-o de calor, necessidade e uma espécie urgente de dor que se formava redemoinhos ao redor do ventre de Shea. A boca de Jacques era mágica, reverente e a seduzia lentamente enquanto suas mãos rastreavam os contornos de seu corpo.


Jacques pôde sentir como ela despertava, como abria sua mente para ele. Suas emoções estavam mescladas: desejo, necessidade e um reticente afeto por ele. Acariciou seu rosto com a mão, traçando cada uma de suas adoráveis linhas, que agora lhe pertenciam para toda a eternidade. Tinha o rosto úmido. Jacques inclinou a cabeça e seguiu o rastro de lágrimas, que formavam uma magra linha sobre a esbelta coluna de seu pescoço. Sua pele era suave. Tão doce e suave que conseguia lhe colocar louco. Brincou com a língua sobre o lugar onde pulsava seu pulso e seu corpo se enrijeceu dolorosamente pela necessidade. Shea fez um pequeno ruído, um suave gemido entre o desespero e a aceitação, e arqueou seu corpo contra o dele, pressionando, fazendo com que o desejo crescesse até fazer desaparecer o resto dos pensamentos. — Está a salvo comigo, pequena Shea — Jacques utilizou sua própria voz, com sensualidade. Estava disposto a utilizar todas as armas de seu arsenal, obtidas através de séculos de experiência, para amarrá-la a ele —. Preciso de você… — Apertou o corpo contra o dela, agressivamente, enquanto sua boca passeava por sua garganta e sua mão deslizava do seio para baixo, estendendo os dedos possessivamente sobre seu ventre. — Sei que tem medo. Posso perceber em minha mente. Deixe se levar, meu amor… Sinta o que eu sinto. Não tenha dúvidas, não existe outra mulher para mim. É minha outra metade, sempre estará sob meu cuidado. — Sua voz era formosa, rouca e acariciante… Como o som de uma fogueira quando começa a arder. As chamas do desejo cresciam, uma vez que a fome e o animal que habitava em seu interior lutava por liberar-se. A escuridão começava a formar redemoinhos na superfície enquanto os instintos de sua estirpe lutavam com o homem. Os esforços por controlar os desejos, o desejo de possui-la num acalorado e frenético emparelhamento para marcá-la como delae, quase estavam acabando com ele. Procurou sua boca desesperadamente, pressionando mais sua mente, sem esperar que ela lhe aceitasse por completo, temeroso de que não chegasse a fazê-lo nunca. A mente dela era uma mescla de lágrimas e pesar, de fogo e fumaça, junto a um ardente desejo. — Jacques… — pronunciou seu nome em um sussurro que ecoou em sua cabeça. Colocou suas pequenas mãos sobre as dele, tentando impedir que baixasse os jeans pelos quadris. Ele aprofundou ainda mais o beijo, possessivo e erótico, compartilhando deliberadamente sua fome insaciável e os abrasadores desejos de sua própria mente. — Você me devolveu a vida, Shea. Me devolva também minha alma. Preciso de voce… Só de você. Faz com que eu fique completo de novo. — afrouxou o suficiente a


pressão sobre suas mãos como para que pudesse deslizar os jeans sobre a curva de seus quadris, deixando-os escorregar por suas pernas, revelando a beleza de seu corpo para que pudesse explorá-lo com suas mãos. Shea escutou como Jacques continha a respiração, a mudança de ritmo de seu coração, e notou a necessidade selvagem que atravessava seu corpo enquanto em sua mente se formava uma neblina de fome insaciável. A intensidade de suas emoções a afligia, dava-lhe medo. Fechou os olhos e elevou os braços para colocá-los ao redor de seu pescoço, sabendo que não poderia rechaçar a terrível necessidade que lhe envolvia. Poderia rechaçar a de qualquer outro, mas não a dele. Jacques inspirou profundamente, introduzindo a essência dela até seus pulmões enquanto deslizava as mãos lentamente sobre seu corpo, tomando-se seu tempo enquanto mantinha uma luta desumana com a besta enfurecida que insistia a possui-la como um louco. Já a tinha machucado muito, tinha-lhe roubado partes de sua vida que nunca poderia lhe devolver. Queria que a primeira vez com ele fosse formosa, o mais perfeita possível. — Não chore, amor — murmurou suavemente sobre sua garganta, com a boca descansando sobre seu pulso, lambendo-o com ritmo frenético. Sentiu como seu corpo ficava rígido, como a fome e a dor subiram até alturas insuspeitadas, lhe sacudindo com força. Mordiscou-lhe com cuidado o pescoço em uma deliciosa tortura para ambos. Baixou a boca até seus seios, maravilhando-se ante sua suavidade e perfeição. Sentia seus pequenos ossos sob as mãos, seus músculos firmes e sua pele lisa. Jacques estava tremendo pelo esforço de deter sua natureza selvagem e um fino suor banhava seu corpo. As sensações e as texturas estalavam em sua mente em uma mescla de cores e calor. Após séculos sem perceber emoção alguma, sem sentimentos, depois de sete anos de condenação e dor, jamais esqueceria as sensações desse momento. Quão preciosa estava Shea a seu lado, seu aroma, a suavidade de sua pele, sua reticente entrega junto com a angústia, o desejo e a fome que flutuavam revoltos em sua mente, ficariam para sempre gravados em sua alma. Shea percebeu a mudança que se produziu no corpo do homem que jazia junto a ela na cama. O modo em que suas mãos lhe acariciavam as coxas, na convicção absoluta que reinava em sua mente. Percebeu o apetite selvagem, o fogo que abrasava seu corpo, a urgente necessidade que lhe atendia. Colocou-se em cima dela, aprisionando-a, enquanto situava o joelho entre suas pernas para as separar. Seu próprio corpo se estremeceu de desejo quando ele começou a pressionar contra ela, duro e insistente. Uma parte de seu coração se negava a seguir adiante com tudo aquilo, mas então a boca dele se situou sobre


seu seio, eliminando qualquer pensamento cordato. Com o ardente puxão de sua boca, a umidade aumentava no interior de Shea, lhe permitindo penetrar ainda mais nela, até que se encontrou com a pequena resistência que declarava sua inocência. Contra sua vontade, ele separou a boca de seu seio e brincou com a língua no lugar onde o pulso pulsava a toda velocidade. — É minha companheira — disse enquanto mordiscava levemente a pele de seu pescoço, suave e cremoso, sentindo como a umidade aumentava, lhe rodeando. — Eu te reclamo como minha companheira. Pertenço-te. Ofereço-te minha vida — procurou com as mãos os pequenos quadris e a sujeitou com força. Ardia de impaciência e seu corpo pulsava com uma fome selvagem. —. Dou-te meu amparo, minha fidelidade, meu coração, minha alma e meu corpo. Para compartilharmos tudo. Sua vida, sua felicidade, seu bem-estar serão os primeiro para mim. — Pare, Jacques… — sussurrou Shea desesperadamente, sentindo que cada palavra, cada respiração os unia tão estreitamente que já não sabia onde ele terminava e começava ela. — É minha companheira, está unida a mim para toda a eternidade e sempre sob meu cuidado —. Cravou-lhe os dentes profundamente, ao mesmo tempo que entrava no corpo dela. Uma aguda dor explodiu entre eles, abrasando-lhes a pele deixando-os desesperados de desejo. O grito de Shea ficou preso na garganta. Entrelaçou os braços ao redor de sua cabeça e o embalou contra seu peito. Unidos em mente, coração e corpo, o líquido vital de Shea fluía dentro do corpo de Jacques enquanto ele se movia lentamente em seu interior, como se aguardasse sua resposta. Notava-a tão quente e apertada… Aquela deliciosa fricção ameaçava levá-lo a loucura, ao desenfreado acoplamento sexual próprio dos homens de sua estirpe. Com muito esforço, conseguiu controlar o fogo que se apoderou de seu corpo enquanto saboreava seu sangue doce e excitante. Moveu-se com muito cuidado, com ternura, em uma erótica dança desenhada para seduzi-la e acalmá-la. Os músculos de seu interior se apertaram ao redor dele enquanto empurrava para diante, afundando-se até o fundo enquanto com a boca absorvia a vida dela. O resto do mundo deixou de ter importância, só percebia o som de sua respiração, o batimento de seu coração e o sangue que fluía em suas veias. Não havia escuridão, nem sombras, só o corpo de Shea e o fogo que lhe abrasava. Só cor e chamas.


Os pequenos ofegos de Shea mal eram audíveis, mas ressonavam em sua mente. O estavam enlouquecendo. Queria penetrar nela uma e outra vez, mais forte, mais depressa, mais profundamente… Empurrou em seu interior tratando de alcançar as estrelas e o próprio universo, tratando de obter a comunhão de suas almas. Alimentou-se de seu sangue e jamais em sua vida tinha provado nada tão delicioso e erótico, nada tão perfeito… Deixou-se levar, entregando-se às onda de luxúria que o atravessavam, enchendo-o de um prazer insuportável. Segurou seu corpo com força, estremecido e com a última investida, a terra pareceu tremer e sacudir-se. O calor lhe percorria por dentro, como a lava de um vulcão. Não pôde conter o grito enquanto derramava dentro dela, entregando seu corpo às chamas do prazer. Jacques se deu conta do sangue que a gotejava entre os seios da mulher. No êxtase do momento, tinha esquecido de fechar as pequenas feridas que lhe tinha feito. Inclinou a cabeça e selou com a língua as incisões para deslizar-se depois pelos pequenos veios de sangue que desciam por seu ventre. Seu corpo voltou a endurecer-se de desejo, como se nunca fosse saciar-se dela. A fome de Shea ressonava em sua mente, igual ao seu desejo, rugindo de necessidade. — Sim, meu amor… — sussurrou sobre sua garganta — Quero que sua necessidade seja tão forte como a minha. Deixe-me entregar todo o meu ser. Deixe que eu dê o que só eu posso te dar. Shea deslizou a boca sobre seu pescoço, sobre sua garganta e todo seu corpo se endureceu como resposta, inchando-se, enchendo-a por completo de novo. O coração pulou em seu peito quando seus lábios acariciaram seu torso. Ela brincou com a língua, trançando círculos ao redor de seus mamilos, desenhando depois um caminho sobre o peito até chegar em seu coração. Jacques se afastou ligeiramente, ofegando, aguardando enquanto seu corpo clamava por enterrar-se nela de novo, uma e outra vez. — Por uma vez, Shea, me diga que você também precisa de mim, por favor… — murmurou. Ela levantou a cabeça, escrutinando-o com seus olhos verdes. Os sensuais traços de seu rosto até que seu olhar encontrou totalmente com os olhos escuros. E então sorriu. Um sorriso lento, erótico, travesso. Logo inclinou a cabeça sobre seu peito, deslizando a língua sobre seus músculos. Mordiscou uma vez, e depois outra, brincando… Para cravá-los profundamente ao final. Shea escutava a voz rouca de Jacques dentro de sua mente, em meio a escuridão do


quarto. Jamais podia imaginar sensação igual. Ele se introduzia em seu corpo uma e outra vez, rapidamente, quase como um selvagem enquanto ela se alimentava com seu sangue. Jacques segurava sua cabeça, apertando-a mais contra seu peito sem deixar de penetrá-la, cada vez mais profundamente. Parecia que nunca teria bastante dela. As cores formavam redemoinhos em sua mente e a terra pareceu estremecer-se sob seus pés enquanto ele se elevava mais e mais, arrastando Shea com ele, unidos em corpo, mente e alma. Durante esse momento perfeito, se pertenciam e suas vidas ficariam unidas para toda a eternidade, como as duas metades de um todo que jamais poderiam voltar a separar-se de novo. O prazer foi incrível e ela o experimentou com ele. Elevaram-se até o mesmo céu para depois flutuar juntos até a terra. A língua de Shea fechou a ferida sobre seu coração, e depois ficaram inertes, ainda unidos, tão perto um do outro que suas mentes e seus corpos ainda estremeciam ante o gozo. Pequenas sacudidelas enviavam sensações de prazer que lhes percorriam de cima abaixo. Shea jazia imóvel, incapaz de compreender o maravilhoso fato que acabava de ocorrer. Sabia que era para sempre. De algum jeito, sabia que Jacques havia completado o ritual que os vincularia para sempre. Sentia que seu próprio corpo já não lhe pertencia totalmente, como se Jacques esquecesse de devolver uma parte depois de possui-la… Exteriormente, parecia estar calma, mas em seu interior, cresciam o pânico e o terror. Sempre fora sozinha e não sabia o que ia ser dela agora. Jacques acariciou seus cabelos, detendo-se na parte final, que descansava sobre seu traseiro. — Nunca havia experimentado nada parecido. — disse ele suavemente, tratando de encontrar as palavras que a fizessem esquecer o pânico que sentia. Shea engoliu a saliva, escutando o frenético batimento de seu coração. — E como pode saber, seu tolinho? — brincou ela, tratando desesperadamente de mostrar-se normal —. Não se recorda de quase nada. — o fluir do sangue produzia um furioso rugido em seus ouvidos. Nada voltaria a ser o mesmo. Sentia-se fraca novamente… Talvez Jacques tinha tomado mais sangue do que ela tinha recuperado. Aquilo lhe afetava a mente, fazia mais lentos os seus pensamentos. A menos que fosse o medo que paralisasse sua capacidade de raciocínio. Isso jamais lhe havia ocorrido antes. A razão sempre tinha dominado seus sentimentos. Mas agora suas emoções a tinham afastado de um sentido comum e se sentia completamente perdida.


Com muito cuidado, separou-se dele, e ao fazê-lo sentiu um terrível pesar. Queria permanecer a seu lado em todo momento. Precisava que ele estivesse com ela. Podia, na verdade, estar amando-o… Um nó se formou em sua garganta e Shea acreditou que se asfixiaria. Tinha permitido que acontecesse, tinha deixado ele assumir o controle de sua vida. Era uma estúpida, igual a sua mãe. Acreditara sempre que o amor não faria parte de sua vida. E tampouco necessitava. — Shea… — ele pronunciou seu nome baixinho, carregado de ternura, como se tentasse acalmar o animal selvagem encurralado. Ela se situou bruscamente, tentando recuperar o fôlego. Com os olhos totalmente abertos enquanto o coração martelava-lhe impiedoso no peito, levantou-se de um salto da cama, e com o cabelo ondeando ao redor de seu tronco, dirigiu-se rapidamente para o banho. Jacques vestiu a calça jeans descuidadamente e a seguiu. Não afastou os olhos da magra e frágil figura de sua companheira, que parecia estar a ponto de desmoronar-se. Shea já havia iniciado os pequenos rituais humanos. Escovou os dentes e se pôs sob o chuveiro, deixando que a água deslizasse sobre seu corpo enquanto olhava fixamente pela janela. Jacques mantinha uma conexão mental tão leve que ela não havia se dado conta de sua intrusão. Realizar todas aquelas atividades matinais não tinha diminuído seu medo, ao contrário, o pânico aumentava desmesuradamente. Jacques se apoiou sobre a parede, vigiando a porta, esperando o que viria a seguir. — Não posso fazer isto, Jacques — ela falava baixo, mas ele pôde escutá-la. Shea, com as mãos trementes, conseguiu pegar uma calça jeans, uma camiseta de algodão e umas botas de caminhar na montanha. Em nenhum momento o olhou. Jacques esperou silenciosamente, percebendo sua confusão e seu medo. Esperava poder acalmá-la, mas instintivamente se manteve à margem. Shea era uma mulher forte, suficientemente valente para salvar a um demônio, a um louco que a tinha atacado sem compaixão. Mesmo assim, só em imaginar que poderia chegar a lhe amar, a vir precisar dele ou lhe desejar, a aterrava. — Tenho que sair daqui… Irei para a Irlanda. Tenho uma casa lá. — Shea disse enquanto trançava os cabelos ruivos. Seu olhar passeava em todas as direções, da janela ao computador, à porta e novamente para a janela. Em todas partes menos nele. — Agora está a salvo, tem sua família e seus amigos. Já não precisa mais… Nesse momento, ele se moveu, tão silencioso e invisível como os de sua gente, muito rápido para o olho humano e num instante estava atrás dela, apertando o corpo contra o seu,


com as mãos apoiadas na parede a cada lado de sua cabeça, formando uma jaula invisível. Jacques se aproximou ainda mais, fazendo com que os pulmões de Shea se enchessem de sua fragrância masculina, tentando converter-se no mesmo ar que ela respirava. — Sempre precisarei, Shea. É meu coração e minha alma e a única pessoa que me mantém cordato. Faz muitos anos que não vou a Irlanda… Bonito país. Ele notou como ela inspirava profundamente, lutando por respirar, lutando contra o forte e sufocante sentimento que a invadia. Sua mente se negava a aceitar suas palavras e estava procurando desesperadamente uma forma de lhe dissuadir. Não só tremia por fora, mas também por dentro. Jacques, literalmente, podia cheirar seu medo. Shea cruzou os braços ao redor de seu estômago, tentando controlar os estremecimentos que a sacudiam por dentro. — Me ouça Jacques. Isto… — ela fez um gesto com a mão trêmula girou para ficar apoiada na parede. Tinha sido um engano confrontar-lhe. Aquele corpo forte e musculoso, os traços sensuais cheios de dor, a intensidade dos olhos negros… A fome. O desejo. A necessidade. Levantou seu queixo num gesto de desafio. Seu pesar era tão grande e único que Jacques queria abraçá-la fortemente contra o peito, mas ela precisava recuperar o controle, assim esmagou sua natureza agressiva e se manteve imóvel, pressionando o corpo da mulher contra a parede. Shea se limpou a garganta e começou a falar de novo. — Não ia dar certo. Tenho muitas obrigações e não posso me permitir manter uma relação neste momento. Você procura algo intenso, apaixonado, algo que dure para sempre… Uma espécie de laço para toda a eternidade. Eu não sou assim. Não tenho muito o que te oferecer. O profundo sorriso que ela provocou em sua alma com aquelas tolices, não se manifestou em seu rosto. Shea tinha uma natureza apaixonada e sua necessidade dele era tão grande como a sua própria. Ela sabia e o fato a aterrorizava. Mais que isso, saber disso a fazia ter vontades de sair correndo. Estava acostumada a ser sozinha e não tinha nem idéia do que significava compartilhar sua vida. Jamais faria tal coisa. Jamais se permitiria terminar seus dias, como sua mãe. — Está-me ouvindo, Jacques? Ele se aproximou ainda mais, esmagando seu magro corpo contra a parede e abraçando-a tão forte que parecia que ia parti-la em dois.


— É obvio que a ouço e sei que tem medo. Posso sentir — seu hálito roçava o pescoço dela. Abraçava-a protetoramente, com ternura. — Eu também sinto medo. Não tenho passado, Shea. Só me recordo de um inferno vivo que quase me pôs louco. Essas pessoas que dizem ser minha família, não significam nada para mim. Não confio neles. Qualquer um poderia ser o traidor — inclinou a cabeça sobre a dela, num gesto íntimo — Não sempre sou capaz de distinguir a realidade da loucura. Você é a única que pode me manter controlado, meu amor. Se decide me abandonar, temo por mim mesmo e por qualquer pessoa que ouse se aproximar-se de mim. Shea tentou reter as lágrimas, e lhe apertou a mão com dedos trêmulos, num suave contato que aumentou a conexão entre eles. — Que casal formamos, Jacques… Pelo menos um de nós deveria estar bem, não crê? Ele aproximou sua mão para o calor de sua boca. — Você veio até mim atravessando milhares de quilômetros de distância. Veio me buscar. Ela conseguiu esboçar um sorriso. — Com alguns anos de atraso. Algo quente rodeou o coração do Jacques. Sabia que não havia saída para nenhum dos dois. Não estava muito seguro do como nem do por que, mas sabia que estavam unidos irrevogavelmente para sempre. Não havia um refrão que dizia "Antes tarde do que nunca”? Deslizou o polegar pela mão, encontrando seu pulso. Shea se encontrava mais tranqüila, de alguma maneira, aquele vínculo não lhe parecia tão horrível. Apoiou a cabeça sobre o peito do Jacques. —Sinto muitíssimo por não ter prestado mais atenção aos sonhos… Uma mão lhe cobriu a boca, impedindo-a de dizer uma palavra mais. — Salvou minha sanidade, minha prudência. Veio me buscar e isso é o que importa. Agora devemos encontrar a maneira de seguir juntos. Ela tomou sua mão e a levou a pescoço, mantendo-a fortemente apertada contra a acetinada textura de sua pele. —Esses homens me perseguem , Jacques. Sem mim, terá maiores possibilidades de escapar. Sabe o que é certo.


O animal que havia em seu interior ficou em guarda, mostrando as presas com antecipado triunfo. Ela nunca poderia imaginar como desejava encontrar aos dois humanos que lhe tinham torturado. Não fazia a menor ideia de seu imenso poder, da fúria que guardava dentro de si e nem a perigosa criatura em que podia se converter. Estava unida a ele, mas era tão compassiva que não podia ver sua verdadeira natureza. Ela era capaz de continuar fugindo para evitar enfrentá-los, se fosse necessário. Ele não. Preferia ser o caçador… Desta vez seria o caçador, não a presa. —Não se preocupe pelo que possa ocorrer, pequena. Shea lhe acariciou o queixo com dedos suaves. —Obrigado por cuidar de mim enquanto estive inconsciente. Não lhes permitiu me colocar na terra. Novamente, ele levou a mão para sua boca. —Sabia que não gostaria. — seus negros olhos cravaram no lado oposto da casa. Levantou a mão e a porta se abriu em resposta a sua ordem mental. Imediatamente, o vento trouxe a chuva para o interior da cabana e um agudo gemido se ouviu por cima do rangido das árvores. Shea estremeceu, aproximando-se dele para procurar calor e amparo em seu corpo. Lá fora, desencadeou-se uma selvagem tempestade, com tanta fúria que a água formava uma densa cortina. Shea não necessitava que os relâmpagos iluminassem o profundo bosque para poder ver claramente os nítidos tons verdes e marrons, nem as gotas de chuva que, como diminutos cristais, refletiam a beleza das árvores e arbustos. Seus olhos foram além da visão humana… Como os olhos de um animal. Podia perceber a selvagem tormenta em seu próprio corpo. Jacques a abraçou com mais força ainda ao sentir o afastamento de Shea ante as emoções estranhas e intensas que a atravessavam. — Aceite, pequena. Olhe bem. Este é nosso mundo. Não há nada feio nele. É limpo, honesto e formoso. —sussurrou as palavras em seu ouvido, enquanto sua boca percorria sua pele e sua língua acariciava o lugar onde vibrava seu pulso. Um tremor de excitação, de despertar sensual, estendeu-se através de seu sangue. Tudo nela pareceu tentar lhe alcançar. Seu corpo, seu coração, e sua mente. Ao se dar conta da necessidade que rugia em seu corpo, reapareceu o medo. Agora, sua vida era diferente. Ela mesma estava diferente. Se seu pai havia sido como Jacques, seu sangue,mesmo diluído percorria agora suas veias. De algum jeito, Jacques a havia transformado em um dos seus.


Deu-se conta de que estava inspirando profundamente, desfrutando das imagens e dos aromas, enquanto algo selvagem em seu interior despertava e crescia mais e mais até igualar a fúria do temporal. —Todo isso é nosso, Shea. O vento, a chuva, a terra sob nossos pés… Aquelas palavras acariciaram sua pele como se fossem de seda. Seus dentes mordiscavam sedutoramente ao longo de sua garganta, fazendo com que seu sangue começasse a correr mais depressa em suas veias. — Podemos sair esta noite? Agora? — a fera que habitava em seu interior crescia, apoderando-se de seu corpo cada vez mais. E sua necessidade dele era igualmente forte. Queria fugir para o bosque, queria escapar da fera que se formava dentro dela e que estava ganhando terreno a cada minuto que permanecia ali. —Temos que fazer planos para nos refugiar —disse ele maciamente — Fugir às cegas sem pensar nas conseqüências, pode nos matar. Shea fechou os olhos com cansaço. —Não há nenhum lugar onde possamos fugir, não é? –a parte dela que processava a informação sempre tão rapidamente lhe dizia que, naverdade, o que pretendia era fugir de si mesma. Jacques rodeou-a com seus braços, embalando-a docemente. — Não teria conseguido continuar muito tempo com essa meia vida que levava. Jamais foste feliz, Shea. — Não está certo. Adoro meu trabalho, eu adoro ser cirurgiã. — Não foi criada para levar uma vida solitária, pequena ruiva. — Não pode se dizer que um médico leve uma vida solitária, Jacques. — Um cirurgião não necessita interatuar com seus pacientes e um investigador muito menos. Estou em sua mente, sei quais são seus pensamentos e isso não me pode ocultar. Seus olhos verdes resplandeceram. — Já te ocorreu pensar que é possível que eu não goste de nada que mude minha cabeça? É como um canhão ativo. Nenhum dos dois sabe quando poderia explodir —a diversão avançava em sua voz, e seu corpo começou a relaxar. Jacques engoliu o suspiro de alívio. Ela voltava a lhe tratar quase com normalidade.


Estavam conseguindo chegar a uma espécie de ajuste. — É assim que se comunica minha gente. Ela se voltou para observar a tempestade através da porta aberta. — Continuamente? A informação chegou facilmente desta vez, sem a dor que vibrava em sua cabeça cada vez que tentava recordar algo. — Não. Os membros da Estirpe dos Cárpatos podem comunicar-se mediante uma conexão comum, se desejarem — ele esfregou a ponta de seu nariz—. Não estou seguro se posso fazer isso… Não sou capaz de recordar como se fazia, só que se pode fazer. — Os outros cuidaram em te falar dessa forma, não? —adivinhou ela astutamente. —Cada um utilizou uma conexão diferente quando tentaram chegar até minha mente. Podia sentir o contato, mas não conseguia sintonizá-lo… Quando os membros de minha raça intercambiam sangue, a união mental se fortalece. Cada casal cria um vínculo exclusivo que só ambos podem usar — outro fragmento de informação, apareceu do nada — Os homens, os varões, raramente intercambiam sangue a menos que tenham a uma companheira. —Por quê? — a pergunta-a veio em sua mente e Shea nem sequer deu ciência. Jacques fez um gesto, erguendo os ombros. —Uma vez que alguém bebe seu sangue, pode te encontrar quando quizer seguindo a conexão mental. Quanto mais estreito seja o vínculo, mais forte é a conexão. Se o intercâmbio for recente, então podem encontrar-se e comunicar-se facilmente um com outro. E os homens podem transformar-se depois de muitos séculos, sem companheira. —Não entendo o que quer dizer com “transformar-se”. — Depois dos duzentos anos de idade perdemos toda a emoção, toda capacidade de sentir. Somos predadores naturais, Shea. Necessitamos de uma companheira que nos faça recuperar os sentimentos, que nos mantenha estáveis. Ao longo dos séculos, é fácil ceder à necessidade de sentir algo, embora só seja momentaneamente. Matar enquanto se alimenta, produz uma onda de poder. Mas também te transforma. Uma vez que um de nós se transforma, jamais pode voltar atrás. Converte-se no ser de que falam as lendas humanas: um vampiro. Um assassino sem escrúpulos, que mata a sangue frio e sem compaixão. Deve ser caçado e destruído. — Um sombrio sorriso desenhou-se em sua boca, mas não chegou a seus olhos. — Já pode imaginar por que os homens sem companheira nunca intercambiam


sangue. É incrivelmente fácil ser rastreado depois de um intercâmbio, e se alguém se transforma… Shea mordeu os lábios, inquieta. Jacques pôde notar como acelerava seu pulso sob seus dedos. —Não posso acreditar o que diz. —Você me salvou desse destino. Sei que minha mente não sarou de tudo, mas já não corro o risco de vagar pela Terra como um morto-vivo. —Esses homens, os que me perseguem… — São assassinos humanos. –Sua voz e sua mente estavam carregadas de desprezo pelos que mataram gente que pertenciam à Estirpe dos Cárpatos — não eram vampiros. — Então o que chamou traidor é… — Era um dos nossos… Transformado em vampiro.


Capítulo 9 O vento uivava lá fora, atravessando tudo e arrastando gotas de chuva através da porta. Com cuidado, Jacques colocou a Shea atrás dele. — São os outros. — avisou a ela. Shea procurou provas na parede que se encontrava atrás dela. Essa gente pertencia definitivamente uma espécie diferente. Seu pai também havia sido um deles. Uma parte dela estava intrigada e excitada por esse descobrimento. Se pudesse estudá-los do ponto de vista científico, encontraria-se em seu elemento, mas agora era parte do drama e não podia comportar-se como uma mera espectadora. Segurou firme a mão de Jacques. — Vamos embora daqui. Longe desta gente, deste lugar. — É muito importante que averigüemos tudo o que nos seja possível. — Sua voz foi um murmúrio suave, deliberadamente suave, envolvendo-a no casulo seguro de seu amparo — O curador está chegando com o homem que se diz meu irmão. A mulher também está com ele. Estava chateado por não saber onde se encontrava o terceiro homem. Não confiava completamente neles. Em algum lugar em sei íntimo, sabia que seus torturadores lhe tinham arrancado algo precioso que nunca recuperaria de tudo. A mão de Shea subiu por seu braço. Apoiou a testa em meio as suas costas largas, num adorável gesto de solidariedade. Jacques não se resignava a retirar-se completamente de sua mente, assim ficava fácil escutar o eco de seus pensamentos sempre que desejava. Shea estava com pena por ele… Por ambos. — O que que que tenham tirado de você, Jacques, só o tem tornado mais forte, mais poderoso. Quem te curou fez um milagre. — Shea sussurrou — Nunca havia visto nada igual. Mas, na realidade, o que o mantém vivo é sua própria determinação. Jacques tentou perceber o consolo em sua voz, mas em seu lugar pôde perceber o interesse, um leve rastro de inveja que sentia porque Gregori pudesse curar às pessoas tão rapidamente, como se fosse magia. O homem dos Cárpatos conseguiu em uma curta sessão o que ela não tinha conseguido em todo o tempo que esteve com ele. Antes que pudesse responder e lhe dizer que foi ela quem salvou sua vida, o vento introduziu a chuva e um halo de


neblina através da porta aberta. O curador, Gregori, apareceu em meio a um resplendor, seguido rapidamente por Mikhail e Raven. Jacques semicerrou seus olhos, as lembranças vieram instantaneamente. Viuse voando no corpo de um mocho, percorrendo o bosque com o corpo de um lobo e convertendo-se em bruma e névoa. A suas costas, Shea conteve a respiração e olhou fixamente os visitantes e Jacques, temerosa e intimidada por uma exibição de poder semelhante usado de uma forma tão indiferente. Os pálidos olhos de Gregori examinaram cada centímetro do corpo do Jacques. — Está melhor. Como se sente? Jacques assentiu lentamente. — Muito melhor, obrigado. — Precisam lhes alimentar. Sua mulher ainda está pálida e esgotada. Deveria estar descansando. Se me permitisse isso, poderia curar seus machucados — Gregori fez o oferecimento de forma casual e indiferente. Sua voz era tão convincente, tão bela que parecia quase impossível lhe negar alguma coisa. Havia uma espécie de pureza em sua voz, como o farfalhar de uma sêda. Jamais elevava o tom, nem aparentava outra coisa que não fosse calma e serenidade. O coração de Shea acelerou e depois começou pulsar pesadamente em seu peito. Encontrou-se a si mesma lhe escutando atentamente, desejando que ele seguisse falando para fazer o que lhe pedisse. Mentalmente, sacudiu a cabeça. As habilidades de Gregori a intrigavam, mas ele era muito sisudo, frio. Não tinha usado nenhum tipo de encantamento, nenhuma ordem, nem sugestão hipnótica. Sua voz era uma arma por si só. Sentia que ele era o homem mais perigoso ali. Fazia muito tempo que não tinha tantas pessoas a sua volta. E precisava estar a sós com o Jacques. Necessitava de tempo para adaptar-se. —Agradecemos sua oferta, curador, mas Shea não quer usar nossos métodos Nem sequer era capaz de recordar todos esses métodos e se encontrava tão agastado com a presença deles, como Shea. Seus olhos resplandeciam como gelo, refletindo os relâmpagos que riscavam o céu escuro. — O outro homem não está com vocês.


— Byron — disse Mikhail — Ele foi um bom amigo seu durante centenas de anos. Está consciente de que completaste o ritual e de que esta mulher é sua verdadeira companheira. Tente recordar-se, procure em sua mente, Jacques, o quanto é difícil para nossos homens que ainda não encontraram sua companheira. . Shea se ruborizou sob sua palidez. A referência ao ritual devia significar que eles estavam a par de que Jacques e ela havia feito amor. Essa falta de privacidade a perturbava imensamente. Moveu-se em volta de Jacques, negando-se por completo a ser qualificada como “esta mulher”. Tinha um nome. Era uma pessoa. Tinha a sensação de que aquelas pessoas pensavam que não era mais que uma histérica. Claro que não havia demonstrado sua habitual serenidade, mas… Jacques deu um passo para diante e voltou a colocá-la atrás de suas de si, mantendoa contra a parede sem afastar os olhos do trio a sua frente. Sabia que ainda era instável e continuava lutando a todo momento com os poderosos instintos que clamavam por lançar-se ao ataque. Não confiava em nenhum deles, e não ia permitir que Shea corresse algum tipo de perigo. Shea se vingou com um forte beliscão. Não ia esconder se atrás de seu homem selvagem como uma heroína do século XVII, que se assustavam por qualquer coisa. E estava rodeada de uns quantos vampiros… Genial. —Homens dos Cárpatos — Jacques soava divertido — Não vampiros. —Se rir de mim, Jacques, encontrarei uma estaca de madeira e te perseguirei eu mesma. —advertiu-lhe em silêncio. — Bem, pelo amor de Deus! — Shea parecia exasperada quando se dirigiu ao grupo — Somos gente civilizada, não? — deu um ligeiro empurrão nas costas de Jacques — Somos ou não? — Certamente que sim. — Raven caminhou para frente, ignorando Mikhail, que levantou a mão para tentar detê-la. — Ao menos nós, mulheres, somos. Os homens aqui reunidos não mudaram muito desde os tempos em que a gente ainda se balançava pelas árvores. —Devo-lhe desculpas pelo ocorrido durante a última noite aqui, senhorita Ou’Halloran — lhe disse Mikhail com o distante e decisivo encanto próprio de uma época perdida — Quando a vi ali, inclinada sobre meu irmão, pensei… Raven bufou.


—Não pensou, simplesmente reagiu. A verdade é que é um grande homem, mas é excessivamente protetor com as pessoas que ama — se notava um imenso amor sob aquele tom divertido — Honestamente, Jacques, não pode mantê-la prisioneira aqui, encerrada como uma freira em um convento. Shea se sentia mortificada. — Jacques, fale alguma coisa! Está-me envergonhando. Com má vontade, Jacques saiu para o lado. Shea percebeu a tensão instantânea que preeencheu o aposento. Uma neblina vermelha começava a se formar na mente de Jacques. Para lhe tranqüilizar, tomou sua mão, mantendo-o firmemente unida a dele. No iinstante em que ficou exposta aos outros, pôde sentir como estava sendo examinado cada centímetro de seu corpo. Raven olhou para Gregori, claramente preocupada. Tomando ciência de sua espantosa aparência, Shea tentou ajeitar um pouco os cabelos. Nem sequer havia tido tempo de olhar-se no espelho. Jacques apertou com força sua mão. — Não faça isso! Está belíssima tal como é. Não têm nenhum direito de julgar a si mesma. —Jacques — disse Gregori com cuidado — sua mulher precisa alimentar-se e se curar. Deve permitir que eu a atenda. Shea levantou o queixo, seus olhos resplandeciam com um fogo esmeralda. —Sou perfeitamente capaz de tomar minhas próprias decisões. Não é ele quem deve permitir se eu faço as coisas ou não. Obrigado pela oferta, mas me curarei com o tempo. —Terá que te acostumar a eles. —Disse Raven entre chateada e divertida — São realmente exagerados no que se refere à saúde das mulheres. Não dê tanta importância a isso, Shea. Posso te chamar Shea? —Raven sorriu quando Shea assentiu—. Estaremos encantados de responder a qualquer uma de suas perguntas. Seria estupendo começar a nos conhecer melhor. Depois, somos como cunhadas — particularizou. A corrente de adrenalina que percorreu o corpo da Shea ante essa simples observação sobre sua relação com o Jacques desencadeou toda uma reação de agressividade nele. Os relâmpagos riscavam o céu de um lado a outro, em sua estranha dança para depois golpear a terra com a fúria do trovão. O vento começou a entrar com violência na cabana, sacudindo paredes e janelas. Um grunhido grave e ameaçador emergia da garganta


do Jacques. Shea percebeu como crescia a fera em seu interior, crescia seus instintos assassinos. Deu a volta rapidamente para ver seu rosto e dando golpes em seu peito começou a empurrar-lhe com todas as suas forças, fazendo-o retroceder. —Não pode me fazer isto, Jacques. Agora mesmo, preciso de toda sua prudência. Faço tudo o que posso para nos manter unidos, mas se houver uma briga, enlouquecerei, jurolhe. Por favor, preciso que me ajude. Por favor… Lágrimas apareceram mente de Shea. Uma vulnerabilidade que Jacques nunca tinha visto antes. Ele abraçou-a imediatamente, embalando-a enquanto recuperava o controle. A angústia da Shea lhe acrescentava forças. Levantou a cabeça, observando cuidadosamente os dois homens. Mikhail e Gregori o olharam com tranqüilade, mas, apesar disso Jacques sentia que estavam em guarda. Obrigou-se a sorrir, encolhendo os ombros com um gesto indiferente. —Temo-me que minha mente não se curou tão rápido como meu corpo. Terão que ter paciência comigo. Por favor, sede bem-vindos a nossa casa. — Aquelas palavras formais apareceramdo nada. Mikhail fechou a porta, enquanto falava. —Muito obrigado, Jacques. Só queremos ajudar você e sua companheira. Depois, sentou-se. Colocando-se deliberadamente em uma posição vulnerável. Raven se encostou-se comodamente sobre os braços de sua cadeira. Gregori atravessou a sala num passo enganadamente preguiçoso, caminhando com uma fluida elegância e uma sensualidade animal, mas Jacques era consciente de que o curador estava se colocando sutilmente entre o casal e ele. Gregori. O Antigo. O Escuro. As palavras relampejaram em sua mente. Gregori era um homem muito perigoso. —Lembro-me muito pouco de meu passado — Possivelmente seria melhor para todos que Shea e eu ficássemos sozinhos. Sou consciente de minha instabilidade e não quero que ninguém saia ferido. Shea se virou em seus braços, olhando às pessoas que se encontravam ali. —Apreciamos vossa ajuda, mas devem compreender que isto também é novo para nós. Os olhos cinzas do Gregori estudaram seu pálido rosto e pareciam penetrar diretamente em sua alma.


— É médica? Shea estremeceu. A voz do curador era incrivelmente autoritária. Não restava dúvida de que aquele homem tinha muito poder. —Sim, sou cirurgiã. Um sorriso se desenhou na boca sensual do curador. Era carismático, mas Shea era consciente que em seus olhos cinzas não haviam sentimento algum. Eram olhos frios e estavam em guarda, preparados para qualquer fato. —É muito boa. Nossa gente não responde bem à medicina humana, mas Jacques estava cicatrizando apesar dessas diferenças. Estamos em dívida contigo. —Você foi capaz de fazer em uma hora o que vários dias de meus cuidados não tinham conseguido. — agastada consigo mesma, Shea deu-se conta que em sua voz havia uma nota de admiração. — Como é que encontrou Jacques quando nós não pudemos fazê-lo? —Novamentede, a voz do Gregori parecia indiferente, mas ela notou que a pergunta era uma armadilha. Elevando o queixo e fitando-o desafiadoramente, respondeu: — Há sete anos atrás, enquanto estava estudando, senti uma terrível dor que atravessava meu corpo. Aquela dor que não tinha explicação médica, mas a agonia durou horas. A partir dessa noite tive pesadelos, nos quais, aparecia um homem que havia sido torturado, que sofria muito e me chamava uma e outra vez. — Onde estava? — perguntou-lhe Gregori. — Nos Estados Unidos — Shea se passou os dedos pelos cabelos, dando-se conta que sua mão estava tremendo, ocultou-a imediatamente atrás das costas. Os cintilantes olhos de Gregori estavam desconcertados. Pareciam ser capazes de ler diretamente sua alma, para ver qualquer engano que tivesse cometido em sua vida —. Sei que pode parecer estranho, mas é a verdade. Não tinha nem idéia de que era realmente um homem e que estava sofrendo. — sentia-se culpada —. Deveria haver lhe procurado em seguida, mas não acreditava… — lhe falhou a voz enquanto as lágrimas se deslizavam por sua face. —Não faça isto, meu amor — lhe pediu Jacques, envolvendo-a protetoramente em seus braços —. Não pode se julgar assim. Nenhum deles veio me buscar, mas você sim. Atravessou um oceano para fazê-lo. E não pode dizer-se que eu te tratasse com amabilidade. —Acariciou sua garganta inchada com os lábios—. Ainda assim, voltou para mim, sem importar a forma em que eu havia te tratado. — Deliberadamente, disse as últimas


palavras em voz alta, advertindo a sua gente que renunciasse ao interrogatório. —Deveu ser aterrador… —disse Raven brandamente. Shea assentiu e dirigiu ao Jacques um pequeno sorriso. — Definitivamente. Jamais me tinha encontrado em situação neselhante. — ela esforçava-se por encontrar um pouco de normalidade num mundo que parecia estar de pernas para o ar. —É muito jovem para ser médica. — observou Mikhail. Shea se obrigou a lhe observar atentamente pela primeira vez. Jacques e Mikhail compartilhavam a mesma constituição arrogante, a mesma cabeleira e os mesmos olhos negros. Ambos mantinham um forte ar de autoridade, de segurança em si mesmos e um toque de arrogância que parecia ser parte deles. Embora os traços de Jacques, finamente esculpidos, pareciam muito mais acentuados, pela dura experiência que havia sofrido. — Parece muito jovem para ter centenas de anos. —respondeu-lhe, recordando a sensação de seus dedos em sua garganta. Mikhail admitiu a derrota com um ligeiro sorriso e assentiu. Atrás dela, Jacques se debatia contra a fera que rugia ao recordar o ataque do Mikhail. Shea o ignorou. —Uma mulher chamada Noelle teve um filho, um menino, com um homem chamado Rand. Sabem onde está o menino? Deveria fazer vinte e seis anos dentro de pouco. — perguntou ela. O rosto do Mikhail pareceu transformar-se em pedra, como uma máscara inexpressiva. Um lento gemido escapou por entre seus dentes e Jacques, instintivamente, colocou-se de novo diante da Shea. —Tome cuidado, Mikhail — lhe advertiu Gregori. — Noelle era nossa irmã. — afirmou Mikhail, com suavidade — Foi assassinada semanas depois do nascimento de seu filho. Shea assentiu. A informação confirmava o que Jacques lhe tinha contado sobre ela. — E o menino? — Não gosto de nada disso, Gregori. O que é que deseja saber sobre o filho do Noelle? Os humanos que a mataram, têm uma rede de atuação com compridos tentáculos. —


Será que ela tem algo a ver com aquilo? —Sussurrou Mikhail na mente do Gregori. —Jacques saberia — afirmou Gregori. —Possivelmente não. Sua mente está desfeita. — Saberia, ela não poderia ocultar-lhe Teme por seu irmão. Não a observa com os olhos e a mente aberta. Seus olhos estão carregados de tragédia e pesar. Está atada a um homem que não conhece, um homem que é extremamente perigoso e que a feriu em mais de uma ocasião. É extremamente inteligente, Mikhail; sabe a que veio e está lutando para aceitaro. Esta mulher não é uma assassina. Mikhail inclinou a cabeça, aceitando a valoração de seu velho amigo. — O filho do Noelle foi assassinado faz sete anos, provavelmente pelos mesmos assassinos que torturaram a meu irmão. Se Shea pudesse empalidecer ainda mais, o teria feito. Seu corpo cambaleou ligeiramente, mas Jacques a segurou com força. O menino tinha sido seu sobrinho, mas Jacques não recordava o menino ou ao homem que tinha chegado a ser. Então, a dor que sentia era a de Shea. Seu meio irmão, sua única oportunidade de ter uma família. —Eu sou sua família. — disse Jacques, enquanto tentava tranqüilizá-la colocando o queixo sobre a parte superior de sua cabeça. — Era o menino jovem da segunda fotografia que Wallace e Smith me mostraram. Sei que era ele. — Shea apoiou cansadamente a cabeça em seu peito — Senti uma dor dilacerante quando vi aquela fotografia. — Sinto muito, Shea. Passou por muitas coisas. Precisa de tempo para se acostumar a tudo. —Sua angústia me deixa perplexo. — Mikhail lançou um olhar a Gregori, que encolheu os ombros elegantemente. — E o que aconteceu a Rand, seu pai? —Jacques fez a pergunta por Shea, embora o nome enviou relâmpagos de dor em sua cabeça, fazendo com que aparecesse um negro e vazio buraco no lugar onde havia estado sua memória. — Rand permaneceu clandestino durante um quarto de século. Levantou-se no ano passado, mas se mantém afastado de outros. Dorme a maioria do tempo. — respondeu Mikhail. Os dedos da Shea se entrelaçaram com os do Jacques.


— Não criou o próprio filho? Quando Mikhail negou com sua cabeça, Shea engoliu o nó de protesto que atravessara sua garganta e olhou fixamente para Jacques com olhos acusadores. — As mulheres e os meninos de sua raça parecem ser abandonados com facilidade… —Não somos Rand e Maggie. — declarou ele firmemente. Shea se mordeu o lábio e estudou Mikhail. — O que quer dizer com “esteve clandestinamente”? — A gente dos Cárpatos se renova com a terra. —explicou Gregori olhando-a com atenção —. O sono humano não permite uma cura rápida, nem um verdadeiro descanso. Podemos aceitar os costumes humanos, como o banho, a roupa… Pequenos costumes para proteger o que somos, embora não o necessitemos realmente, mas dormimos o sono da gente dos Cárpatos. A terra nos cura e nos protege durante nossas horas mais vulneráveis, quando o sol está no alto. Shea movia a cabeça negativamente, com uma mão na garganta em um curioso gesto defensivo. Seus olhos procuraram Jacques, assustada e indefesa. — Não posso. Você sabe que não posso. — Está bem. Eu tampouco estou interessado em outro enterro. — E era verdade. Jacques sentia que se asfixiava ao associar a profundidade da terra com a dor e o tortura. —Não te obrigarei a aceitar uma coisa assim. Raven se apoiou contra o ombro do Mikhail. — Eu durmo sobre a terra, em uma cama muito confortável. Bem, o dormitório está situado em um nível subterrâneo, mas é uma quarto precioso.. Eu não gosto de dormir na terra. Eu era humana, Shea, igual a você. E me assusta ser enterrada viva. —Rand é meu pai. — admitiu Shea de repente. Fez-se um lúgubre silêncio na sala. Até o vento se deteve, como se a natureza estivesse contendo a respiração. Então, Mikhail ficou em pé, parecia que havia flutuado da cadeira e de seu corpo emanava uma inconfundível aura de poder. — Gregori? — É certo, Mikhail, Rand fez o que parecia impossível. A menos que… Mikhail entendeu a idéia. Gregori suspeitava que a mãe da Shea fosse a verdadeira


companheira de Rand. —O que está dizendo tem uma tremenda importância para nossa raça, Shea. Sua mãe, é humana? —Era. Minha mãe se suicidou faz oito anos. Não pôde confrontar a vida sem Rand. — Levantou o queixo desafiante. — Estava tão obcecada por ele, que não restou amor algum para sua filha. — disse simplesmente, como se não a importasse que tivesse ficado sozinha toda sua vida. — Converteu-se? — perguntou Mikhail furioso com a desconhecida mulher por não ter cuidado o fruto de seu ventre, uma menina além disso. Ao menos, poderia ter trazido o bebê para que o criasse sua gente. — Era uma mulher dos Cárpatos? —Não, ela não era como voces, nem como eu. Era definitivamente humana. Muito formosa, Irlandesa e completamente separada do mundo real a maior parte do tempo. Inteireime de Rand e Noelle através de seu diário. — Sua mãe tinha alguma habilidade psíquica? —perguntou-lhe Gregori com ar pensativo. Raven fitou Mikhail. Ela tinha habilidades psíquicas. A resposta de Shea era extremamente importante para o futuro de sua raça. Poderia lhes fornecer a confirmação que levavam tanto tempo procurando, tanto tempo esperando. Shea mordeu o lábio. — Ela sabia das coisas antes de que acontecessem. Sabia se o telefone ia tocar ou se alguém ia nos visitar. Têm que entender, não obstante, que ela raramente falava. Podia esquecer-se de mim durante dias, uma vez inclusive durante semanas, assim não sei muito dela. Não falava muito comigo, precisamente. — Mas está segura que Rand é seu pai? —insistiu Mikhail. — Quando nasci, meu sangue causou uma tremenda agitação na comunidade médica. Minha mãe escreveu em seu diário que Rand era meu pai e que ele sofria de uma estranha enfermidade sangüínea. Ela acreditou que eu a tinha herdado. Levou-me para Irlanda para me esconder, já que os médicos e os cientistas a assustaram com seus intermináveis interrogatórios. Estava convencida de que Rand havia morrido. Mikhail e Gregori trocaram um longo um olhar. Sua raça estava agonizando. A última menina que havia nascido era Noelle, uns quinhentos anos atrás. Sem uma companheira, os


homens decidiam pôr fim a sua existência ou transformar-se em vampiros. Mikhail e Gregori demoraram tempo desconfiando que havia um grupo de mulheres humanas, cujas habilidades psíquicas , lhes permitiam converter-se em companheiras, tal como havia acontecido com Raven. Nunca antes haviam tido certeza de que existisse alguma criança , conseqüência da união de ambas as raças. A única explicação possível era que a mãe de Shea fosse a verdadeira companheira de Rand. Todos sabiam que ele não tinha verdadeiros sentimentos por Noelle. Mas, apesar disso, Rand não havia voltado para a mãe de Shea. Nenhuma mulher dos Cárpatos teria permitido que seu filho crescesse sozinho como tinha feito a mãe de Shea. Por que Rand não havia dito nada sobre o que acontecera? Sua gente gostava com loucura de crianças. — Rand não mencionou o suicídio, ao despertar. —Refletiu Gregori. — Permanece só, mas isso não é estranho. — Deixaria-nos ver o diário? —perguntou Mikhail amavelmente a Shea. Shea sacudiu tristemente a cabeça. — Estavam-me perseguindo. Tive que me desfazer dele. —Sua vida deve ter sido muito difícil, sem ninguém que a ajudasse. —disse Gregori com calma. — Mas tem dons que lhe fazem única. É uma verdadeira médica. — Estudei muitos anos. —shea dirigiu-lhe um pequeno sorriso. — Tinha muito tempo livre… E nenhuma pessoa com quem empregá-lo, salvo em mim mesma. — Nasceu sendo uma curadora, —corrigiu-a ele. — É um dom excepcional. — Os olhos cinzas do Gregori fitaram com insistência, sua estilizada figura. — Jacques —Sua voz adquiriu um tom mais grave, de tal maneira que o som pareceu penetrar pouco a pouco em sua corrente sangüínea, esquentando-o como um bom brandy. — Ela está cada vez mais fraca, débil. Estátrêmula. Sei que não compreende o quão importante é ela para nossa raça, mas sei que seus instintos se mantêm intactos. É seu companheiro. Juraste protegê-la e cuidála. A mão da Shea apertou com força a de Jacques. —Não lhe faça nenhum caso. O que decidamos fazer não tem nada que ver com eles. — Confia em mim, amor. Jamais permitiria que ele te faça mal. —Jacques falou com tranqüilidade. — Unicamente está preocupado por sua fraqueza. —Sou um médico, como você, Shea. —Gregori avançou para frente, deslizando-se. Seu corpo se movia sem um mínimo sinal de perigo. De repente, estevajunto a ela. — Nunca


poderia fazer mal a uma mulher. Sou um homem dos Cárpatos e os homens de nossa raça só querem proteger e cuidar das mulheres. —Acariciou o pescoço da Shea com a mão. O toque de seus dedos foi assombroso. Ligeiro. Quente. Como uma sensação de formigamento. — Deve te alimentar, Shea. — Parecia que aquela voz a envolvia, introduzindo-se em sua mente para anular sua vontade. — Jacques necessita de sua força para encontrar-se através das mentiras que lhe rodeiam e poder seguir em frente. Nosso povo precisa de você. Meu sangue é antigo e poderoso. Servirá para te curar e lhes fortalecer a ambos. — Não! Jacques, lhe diga que não… — Por alguma razão, aquela idéia a parecia alarmante. — Eu a alimentarei. —afirmou Jacques tranqüilamente, e sua voz soou muito mais ameaçadora devido a essa mesma tranqüilidade. Os olhos cinzas se cravaram nele. — Precisa conservar todas suas forças para sanar seu próprio corpo. Mikhail te dará o sangue que necessita. Houve um tempo, não muito longínquo, em que você o deu livremente a seu irmão. Jacques inspecionou cuidadosamente Shea. Sua pele estava muito pálida, quase translúcida. As marcas em sua garganta, extremamente escuras, não haviam se fechado. Parecia muito cansada e estava muito magra. Gregori tinha razão. Ela estava tremendo. Por que não havia dado conta antes de quão fragilizada ela estava? Além disso, certamente, ele mesmo tinha contribuído para que ela se encontrasse neste estado. . — O sangue dele é muito puro, Shea. Ajudará a te curar rapidamente. Não gosto que outro homem se encarregue de suas necessidades, mas ele é nosso médico. Quero que faça o que ele diz. —Não quero fazer, Jacques. — Shea sacudiu a cabeça obstinadamente. — Quero ir embora agora mesmo. Prometeu-me que poderíamos sair daqui. —Deve aceitar, Shea. Ele está com razão. Está muito fraca. — Não necessitamos que nos ajudem. — Ela levantou uma mão para deter o avanço do Gregori. — Sei que tenta nos ajudar, mas ainda não estou preparada para isto. Preciso analisar os fatos, por mim mesma, e descobrir o que é que devo fazer para sobreviver. Não acredito que isso te pareça tão irracional. — Deliberadamente, entrelaçou seus dedos com os do Jacques, mantendo-os juntos. Precisava que ele permanecesse a seu lado, que entendesse que precisava de mais tempo para adaptar-se.


— Dar tempo para morra lentamente por falta de cuidados? Descuidaste de sua saúde durante muito tempo. É médica, sabe o que isso significa. Tem que abrir sua mente ou sua vida será muito curta. Não podemos permiti-lo. —disse Gregori, com voz hipnótica. — Nossas mulheres são nossa única esperança. Não podemos te perder. Shea pôde sentir a rápida negativa do Jacques ante semelhante possibilidade. A violência formava redemoinhos perto da superfície, mas conseguiu controlar-se. Seus olhos negros cravaram nela. —Sei que está dizendo a verdade, Shea. Percebi em sua mente a aceitação de sua própria morte em mais de uma ocasião. Estava desejando trocar sua vida pela minha. —Isso é diferente, e você sabe. —disse ela desesperadamente. Jacques colocou as mãos sobre seus ombros, empurrando-a para Gregori. — Não faça isto, Jacques. Deixa eu fazer a minha maneira. —Shea… — morria por fazer o que lhe pedia. Ela podia ler em sua mente a necessidade de lhe dar algo que pudesse fazê-la feliz, mas ao mesmo tempo, a idéia de lhe perdê-la o aterrorizava. Todos seus instintos urgiam a fazer o que sugeria o médico, assegurando-se de que ela recuperasse todas as suas forças. Lutou para não perder o controle e impedir que seus instintos decidissem por ele. — Por favor, pequena ruiva, me permita fazer isto para que recuperemos nossas forças. Uma vez feito, estaremos suficientemente recuperados para permanecer juntos e tomar nossas próprias decisões. — Não estou preparada, Jacques. Tenta entender. Necessito de tempo para compreender o que está me acontecendo. Preciso recuperar o controle de minha vida. Não me vou morrer. Aceitei o que é, quem é meu pai e no que me converti. Sei que você, de algum modo, uniu-nos para sempre. Estou tentando agüentar tudo, mas devo fazer a meu modo e com o tempo necessário. — Unicamente tento fazer o que é melhor para você. — E como sabe o que é melhor para mim? Decidiu por mim. Tomou as rédeas de minha vida sem meu conhecimento, sem meu consentimento. Não tinha direito a fazer, Jacques. —Não, não o tinha. —admitiu. — Eu gostaria de pensar que se não tivesse me convertido no que sou agora, teria cortejado voce como merece. Teria conseguido seu amor e sua fidelidade. Desejaria não ser o tipo de homem que impõe sua vontade. —Isto não é diferente, Jacques. Não se dá conta?


— Ela está muito fraca, Jacques e as coisas podem acontecer rapidamente. — A aveludada voz do Gregori era pura sedução. — Agora mesmo, ela não se encontra capacitada para tomar uma decisão racional. Como poderá ajudá-la? Se escolher alimentá-la com seu próprio sangue, não estará em condições de protegê-la. Precisa recuperar-se. É seu companheiro, Jacques. Procura em seu interior, aprofunde em seus conhecimentos. Esses sentimentos estavam em seu sangue antes de que nascesse. Um homem não pode fazer outra coisa que velar pela saúde de sua companheira. Mikhail e Raven discutiam. — Estão fazendo muita pressão sobre ela. Não pode permitir. — Ela é muito importante para nós, Raven. Precisamos que se recupere completamente, de maneira que possa controlar Jacques enquanto sua mente se restabelece. Nenhum de nós poderia conseguir não quero destruir a mais um de meus irmãos… Depois, ela poderia escolher lhe seguir e poderíamos perdê-la também. Pode ver que sua principal preocupação é Jacques e não ela mesma. Estou seguro de que ela o seguiria. Assim temos que recuperar sua saúde, Raven. Sinto muito que tudo isto te angustie. Jacques inclinou a cabeça para acariciar a têmpora da Shea com carinho e ternura. Colocou os braços a seu redor, atraindo-a para seu corpo duro, contra a vontade dela. —Shea, acredito que o médico tem razão. —Não posso acreditar que vá me trair. Você está se pondo do lado deles. Por quê, Jacques? Acredito que mereço muito mais respeito. —Porque sem você, eu seria muito perigoso para as pessoas. Para o mundo. Porque o que sinto por você, vai muito além dessa emoção que os humanos chamam de amor. — Jacques a fez levantar o queixo e a obrigou olhar em seus olhos. Imediatamente, Shea percebeu que ele estava obrigando-a a obedecer sua ordem. Ela estava-se afundando na profundidade de seus olhos negros. Sua voz sussurrava em sua mente uma ordem que ela lutava por rechaçar. — Aceitará a oferta do curador. Gregori já estava se movendo para frente, somando o poder de sua voz ao da do Jacques. Mordeu cuidadosamente sua mão e a apoiou sobre a boca da Shea. O aroma desencadeou uma fome e uma necessidade tremenda em Shea. A mão do Jacques pressionava sua cabeça para trás, forçando-a a aceitar o líquido vital, o sangue antigo e curativo que colocaria poder e força sobre seu próprio corpo. —Sua vontade é muito forte, Jacques —advertiu Gregori com suavidade.


Shea estava lutando contra a necessidade de alimentar-se. O sangue fresco e forte que fluía da mão de Gregori, aumentava a resistência dela. Gregori percebia a vacilação do Jacques enquanto observava a batalha de Shea contra seu fechamento. A mente do Jacques estava em pedaços e ele poderia estar louco, mas seus sentimentos por Shea eram fortes e sadios. O médico deu a sua voz um tom ainda mais grave, utilizando sua pureza para persuadir ao Jacques. —Nossas escassas mulheres são a única esperança de nosso povo. O único caminho seguro para nos exterminar é as assassinar. Devemos as proteger em todo momento. Os assassinos retornaram a nosso território e a terra geme sob seus desprezíveis pés. — Shea os viu. —Jacques observou com cautela como se aproximava Mikhail. Não confiava em poder se controlar perto do homem que estivera a ponto de de estrangular Shea. — Quase a apanham um par de vezes. — Se alimente, Jacques. Ofereço-te minha vida livremente tal como você fez muitas vezes por mim. — Mikhail fez um corte no pulso aproximou de seu irmão. No momento em que a riqueza do sangue, derramou em sua boca, o sabor e a onda de poder que lhe produziu, trouxeram rapidamente distintas lembranças em sua memória. Mikhail empurrando Jacques junto ao ramo de uma árvore. O corpo do Mikhail inclinado protetoramente sobre o seu enquanto um vampiro de sujas presas tentava o rasgar com suas unhas afiadas. Mikhail amparando o corpo inerte do Raven, de onde saía um rio de sangue. A terra e o céu vibrando grosseiramente a seu redor enquanto Mikhail elevava o olhar para o Jacques, desesperado, decidido a unir seu destino ao de sua companheira. Os olhos do Jacques se cravaram no rosto do Mikhail, examinando cada traço. Este homem era um líder, um frio e perigoso predador que tinha guiado com destreza, sua raça moribunda através de centenas de dificuldades. Um homem, que inclusive Gregori, estava disposto a seguir. Algo despertou no interior do Jacques, a necessidade de defender este homem. De o proteger. —Mikhail. A cabeça do Mikhail se sacudiu com força. Tinha ouvido seu nome claramente ressonando em sua mente. A conexão havia se restabelecido num instante, familiar e forte, mas se desvaneceu com a mesma rapidez. Jacques estava tão distraído com os fragmentos das lembranças que flutuavam em sua mente, que deixou de segurar Shea. Ela notou sua falta de atenção e reuniu forças, esperando. No momento em que deixou de receber a ordem da mente de Jacques,


desprendeu sua cabeça da mão de Gregori e deu um salto para trás. Dando saltos grandes em direção a porta aberta, Shea entrou na noite, ocultando-se sob a fúria da tormenta. O ar da cabana permaneceu estagnado, espessando-se com a presença de uma espécie de maligna escuridão. Os traços de Jacques pareciam uma máscara de granito, com olhos negros, duros e sem expressão. Tomou um último gole do precioso líquido, fechou cuidadosamente a ferida e levantou a cabeça. — Agradeço-lhes sinceramente a ajuda, mas devo lhes pedir que vão em paz. Possivelmente amanhã a noite poderia tentar fazer algo com minha mente, curador. — um escuro propósito ficava patente sob sua voz enquanto cravava seu olhar na noite. —Jacques… —começou a dizer Raven com indecisão. Este desconhecido era mais fera que homem, e não se parecia em nada o encantador cunhado que tinha conhecido. Numa ocasião, em que Jacques era cheio de uma indolente diversão, de risos e travessuras infantis. Agora era um ser sem misericórdia, extremamente perigoso, podia estar, inclusive demente. Mikhail a tirou silenciosamente da cabana, enquanto seu corpo começava a transformar-se. —Devem fazê-lo sozinhos, meu amor. — Ele parece tão perigoso… — Não pode fazer mal a sua companheira. —Mikhail tentou acreditar naquilo com todas as suas forças. Havia uma estranha escuridão em Jacques. Um vazio aterrador que nenhum deles podia fazer desaparecer. Gregori se deteve um momento na entrada. —Tome precauções quando dormir, Jacques. Perseguem-nos novamente. — De repente, ele se transformou em uma tênue luz que se dissolveu entre a chuva e se deslizou através da noite. — Gregori, crê que ele fará mal à mulher? — apesar da segurança que tinha demonstrado a Raven, Mikhail não podia correr nenhum risco com a saúde de Shea. Se havia alguém capaz de avaliar os danos da mente de Jacques, era o médico. — Ele pensa em castigar seu impetuoso comportamento. — Respondeu Gregori brandamente. — Mas percebo como sua mente procura a dela, tentando aliviar suas entristecedoras emoções. Aparenta estar zangado com ela, mas não está. Não totalmente. O sangue dos antigos tinha permitido a Jacques recuperar toda sua força. Sentia o


imenso poder em seu interior e o saboreou novamente. Descalço, atravessou a sala até chegar à porta e inspirou profundamente o ar da noite. Apesar da tempestade, sabia exatamente onde estava Shea. Estava em sua mente todo o tempo, nunca se separava. Podia perceber suas selvagens emocões, seu pânico, desespero e sua necessidade de escapar das montanhas, da gente dos Cárpatos. Sua necessidade de escapar dele. — Volta para mim, Shea. —Era uma ordem clara e esperava que ela o obedecesse. Não queria forçá-la. Shea saltou sobre um tronco podre e se deteve súbitamente sob a copa de uma árvore enorme. A ordem era imperiosa e ainda, mais impressionante pela ausência de emoção. Reconheceu o sentimento que tomou seu próprio corpo, fúria. Era uma sensação nova para ela. Completamente nova. Não podia recordar de ter estado tão furiosa antes. Geralmente, evitava qualquer tipo de sentimentos. Preferia analisar as coisas. —Por favor, tente entender, Jacques. Não quero tomar parte disto. —Não quero discutir contigo a distância. Volte agora mesmo. Faltaram-lhe as forças. Shea agarrou um dos galhos da árvore sobre sua cabeça. A indiferença que detectara na voz do Jacques, a assustava muito mais que sua fúria. Percebia o enorme poder, a absoluta confiança em si mesmo. —Não quero voltar. Não posso fazer isso. Viva sua vida, Jacques. Agora está recuperado completamente. — Se realmente Jacques não havia sentido emoções durante centenas de anos, então deveria estar lutando para as manter sob controle, igual a ela. Tudo parecia tão intenso… Ela queria recuperar o mundo tranqüilo e calmo onde tudo parecia ter sentido, onde seu cérebro se impunha sobre as emoções e era capaz de deixá-las de lado. — Você não tem nenhuma possibilidade de ganhar esta batalha, Shea. — era uma advertência. Nem mais nem menos que uma advertência. Seu tom não mostrava sentimento algum. — Por que tem que ser uma batalha? Deve aceitar minha decisão. Tenho direito a ir. — Volta comigo, Shea. — a ordem estava carregada de uma vontade férrea. Desta vez, ele tinha exercido uma sutil, mas lhe atemorizante pressão. Shea segurou a cabeça entre as mãos. — Pare! Não pode me obrigar a fazer o que não quero. —É obvio que posso. — enquanto as palavras ressonavam ainda em sua mente,


Jacques deu-se conta de que eram certas. Podia fazer algo. Caminhava pelo alpendre a esconder-se da chuva, estirando seus músculos lentamente e deleitando-se em notar como eles lhe respondiam. Estava realmente vivo de novo. Poderia obrigá-la a voltar facilmente, dobrando sua vontade. Precisava aprender que uma mulher de sua raça estava sob o amparo de seu companheiro em todos os momentos. Shea jamais tomava precauções, nunca sondava os arredores em busca de algum perigo, nunca tomava cuidado… Era esse o tipo de homem em que se convertera? Havia sido sempre assim? Alguém desejoso de impor sua vontade à única pessoa que tinha arriscado sua vida por ele? Era muito ela pedir que lhe desse tempo para se acostumar? Jacques passou a mão no rosto, pensativamente. Ela era tão frágil, tão vulnerável… Shea poderia enfrentar ao rio mais selvagem ou à montanha mais alta. Tinha suficiente integridade para dirigir qualquer tipo de crise, mas não suas próprias emoções. Sua competente e pequena ruiva estava aterrorizada por seus sentimentos em relação a ele. Sua infância tinha sido um pesadelo. Não permitiria que sua vida em comum se convertesse no mesmo. Jacques percebeu que algo se desfazia ao redor de seu coração, uma cálida ternura que se mesclava com seu sangue e se expandia por todo seu organismo. — Pequena, por que insiste em brigar comigo? Aquela voz que sussurrava em sua mente, estava agora carregada de ternura. — Sabe o que te ocorrerá se não estar a meu lado? Todo seu ser respondeu à aveludada carícia de sua voz, a ascendente onda de amor que refletia. Se ele tivesse continuado a discutir, teria oportunidade, mas no momento que ele falou com ternura, de forma tão carinhosa, soube que estava perdida. Imediatamente sentiu desespero. Jamais se livraria dele, nunca. — E isso te parece um destino tão terrível, amor? O som dessa voz fez o coração de Shea pulsar loucamente. — Estar comigo? Desta vez, Shea detectava-se um leve traço de dor na voz. — Acredita, realmente que sou um monstro? — Não sei como me sinto contigo… Sinto-me amarrada, incapaz de me mover ou pensar. —Shea pressionou as têmporas e recostou as costas contra a árvore. — Não quero precisar de você. Não quero ser uma deles.


Jacques se aproximava dela a passo firme, nem depressa nem devagar. A chuva caía sobre seus ombros, descendo sobre suas costas. A sensação de frescor não fazia mais que ressaltar o ardente calor que consumia seu corpo. Ela parecia tão pequena e indefesa… Cada passo que o levava a entrar na noite, com a terra sob seus pés e o sangue dos anciões fluindo por suas veias, aumentava sua força. — Necessito de você como o ar que respiro, Shea. — admitiu com sinceridade. — Sinto muito ter te assustado. Oxalá pudesse me controlar melhor, mas não posso ficar só outra vez, nunca mais. Tento manter minha presença em sua mente como uma sombra. Possivelmente, com o tempo possa me afastar um pouco mais de você. Estar comigo te aterroriza, mas estar sem ti me aterroriza . — Uma nota de diversão tomou forma de vida em seu interior. — Note, somos totalmente compatíveis. Shea sabia que ele estava se aproximando dela. Podia deduzir pela forma em que seu coração pulsava de felicidade, pela forma em que seu corpo voltava para a vida. Escondeu o rosto entre os braços, segurando-se com força no galho. — Não me conhece, Jacques. — Estou dentro de você. É obvio que te conheço. Tens-me medo. Medo do que faço. Dá-lhe medo minha instabilidade e meu poder. Tem medo do que sou e do que posso chegar a ser. Ainda assim, está completamente decidida a evitar que nada me faça mal. Sabe que seu intelecto está excitado ante as possibilidades de que exista nossa raça. —Sua risada era suave e sedutora. — Sou seu companheiro e jurei te adorar, te amar e te proteger. Velar sempre por sua felicidade. E você tem o mesmo compromisso comigo. — Mas primeiro no que pensou foi me obrigar a voltar contigo. — acusou-lhe ela. —Shea, meu amor, nunca te lembra de fazer um sondagem. Jamais te assegura de que não há perigo antes de sair da cabana. Não pode existir sem mim. É meu dever e meu direito te proteger. — O que me acontecerá se voce morrer? O que te acontecerá seeu eu morrer? — conhecia a resposta, tinha visto a vida vazia de sua mãe. Sua obsessão.— Não quero ser como ela. — Ela falou alto as palavras, a fim de que o vento as carregasse para as montanhas. Levantou o rosto para a chuva para que as gotas escorregassem por sua face, como se fossem lágrimas. Era muito tarde. Não podia sobreviver sem Jacques. Seria igual a sua mãe depois de tudo? De repente, ele apareceu de um nada, como uma criatura da noite, tão magnificamente belo que a deixou sem respiração. Seus olhos negros cravaram nela


possessivamente, extranhamente famintos. Shea sacudiu a cabeça. — Não estou o suficientemente forte, Jacques. — O vento a açoitava com força, quase a empurrando-a para um lado. — Escolha viver por nós, Shea, por nossos filhos. Pode acontecer que não seja fácil viver comigo, mas te juro que ninguém poderia te amar mais. Farei com que seja feliz. — Não se dá conta, Jacques, que não pode fazer com que outra pessoa seja feliz. Sou a única que poderia fazê-lo… E sou incapaz. — O que acontece é que está assustada, nada mais. Temos alguns problemas, Shea. Tem medo da intimidade e me faz falta. A questão é encontrar um ponto no meio do caminho. —Sua voz era tão suave que ela pôde senti-la sobre sua pele, como a leve carícia de um dedo. Jacques se aproximou ainda mais, colocando-se sob a copa da árvore, observando-a com aqueles olhos escuros. — Escolha-me, Shea… Necessite-me. Deseje-me. Me ame. Escolha viver por nós. —Isto não deveria ser assim… —Não somos humano, somos da Estirpe dos Cárpatos, pertencemos à terra. O vento e a chuva nos obedecem. Os animais são nossos irmãos. Podemos correr com o lobo, voar com o mocho e nos tornar como a chuva. Não somos humanos, Shea. Não comemos carne como os humanos e não amamos como eles fazem. Somos diferentes. — Vocês caçam. — Nós caçamos. É o ciclo da vida. Shea… Me olhe…


Capítulo 10 Shea fixou seu olhar na perturbadora intensidade dos olhos de Jacques. Ele estava tão perto que ela podia sentir o calor da sua pele no próprio corpo. Jacques traçou as linhas de sua face com os dedos, para depois as seguir com os lábios. O desejo que sentia por ela era tão primitivo, tão elementar como a tempestade. Ardia em seu interior como o intenso chiado de uma corrente elétrica, como o lento e abrasador calor da lava fundida. — Necessite-me, Shea. —Sua voz estava carregada de sentimento. —Quero que me necessite da mesma forma em que eu necessito de você. Daria minha vida por ti. Viva para mim… Encontre a maneira de viver comigo. Ame-me com o que possa. Shea fechou os olhos, deixando que as gotas de chuva se deslizassem por seu rosto. —Não faz uma idéia do que está me pedindo. As mãos do Jacques emolduraram seu rosto, brincando com os polegares sobre pescoço, que pulsava frenético. Cada carícia enviava uma onda de chamas que a atravessavam por completo.Voltou a fixar seus olhos, cheios de desespero, no olhar dele. —É obvio que sei o que quer para você, pequena. Posso perceber sua relutância, sua repulsão perante nossos hábitos alimentícios. — Deslizou a mão para a nuca da Shea para atrai-la. —Tentei me adaptar. — ela protestou. —Mas, preciso de mais tempo. —Eu sei, Shea. Deveria ter encontrado outra forma de te alimentar. Estou tentando descobrir que classe de companheiro tem. Quero ser o que necessita, alguém a quem pode respeitar e amar, não alguém que impõe sua vontade e escolhe o caminho mais fácil. Há formas de te alimentar que não lhe darão nenhum asco, meu amor. — Inclinou a boca sobre seu pescoço, sentindo a pulsação saltar sob as carícias de sua língua. Jacques deslizou a boca até queixo para deter-se a uns milímetros de seus lábios. Sua voz era rouca e acariciante. — Deseje-me, Shea. Deseje-me com algo mais que seu corpo. Me deixe entrar em seu coração. — então se apoderou de sua boca, possessivamente, faminto. O desejo refletia


em seus olhos quando levantou a cabeça para olhá-la. — Abra sua mente para mim. Me aceite nela como me aceita em seu corpo. Quero que me deseje quando estiver como agora, quase selvagem por uma necessidade que só você pode satisfazer. Leve-me até sua alma e me deixe viver ali. —Sua boca vagava por cada centímetro do rosto da Shea, ao longo da curvatura do pescoço, sobre seus ombros. O corpo de Jacques ardia de necessidade. Seu coração pulsava ao ritmo do dela. Sua mente era uma bruma de desejo, em que se mesclavam imagens eróticas e sensuais desejos com a ternura e o amor infinitos que ela lhe inspirava. Todos os sentimentos eram tão intensos que abrasavam Shea tanto como o fazia seu apetite insaciável. Jacques colocou a boca sobre seus mamilos através do algodão da camiseta e sugou com força. Sentia que seu corpo reagia, endurecendo-se e aumentando-se até que seu jeans tornou-se justos e incômodos. Jacques a puxou ainda mais para seu corpo. Sentia a tempestade em seu interior e a sua volta, envolvendo-a como se fosse parte dele. — Você faz que me sinta completo de novo, Shea. Não me deixe assim. Quero que deseje voltar, que necessite de meu corpo dentro do teu. Quero que me toque como eu te toco. Shea percebeu a fúria e o selvagem desejo que havia em seu interior junto com a fome sensual. Seus olhos refletiam tanta necessidade que Shea não tinha forças para lhe rechaçar. Suas mãos já estavam deslizando-se sobre os fortes músculos de seu peito, enquanto o desejo fazia erupção dentro dela tão fortemente como a tormenta que explodia a seu redor. Seus lábios se juntaram aos dele enquanto que suas mãos começava a tirar sua roupa, liberando tudo o que impedia o contato de seus corpos. Shea parecia que não conseguia se aproximar-se o suficiente a ele, pele contra pele não era o bastante. Jacques lhe tirou a camiseta pela cabeça e a jogou para o lado, obrigando-a a arquear o corpo para ele enquanto inclinava a cabeça para saborear seus seios. As mãos deslizavam por seus flancos, abrangendo sua estreita cintura. — Deixe-me entrar em seu coração, Shea. — sussurrou Jacques sobre os sensíveis mamilos enquanto escutava os ritmos frenéticos que martelavam seu coração ao compasso do dele. — Agora, aqui, pequena, me deixe entrar…— Mordiscou com cuidado a pele acetinada, enquanto a acariciava com sua língua. Começou a lhe tirar os jeans, deslizando-os para baixo. Caindo de joelhos, rodeou com os braços os esbeltos quadris e aproximando a boca, pressionou a língua entre suas coxas. Shea gritou seu nome e o vento arrastou o som e o trouxe de volta, envolvendo-a com o aroma


do Jacques e a força de seu desejo. — Deseje-me, Shea. Sim, amor… Como tem que ser. Somente assim… Tenho que te possuir… Aqui fora, em meio a tempestade. Preciso entrar em seu corpo agora mesmo. — ele arrancou-lhe as calcinhas de seda, e a atraiu para sua boca, alimentando-se da cálida e doce essência dela. Shea arqueou o corpo ante o prazer que a percorria, retorcendo-se contra sua boca… mas ele não se deteve, levando-a uma e outra vez até o limite. Shea segurava-se nele enquanto o mundo se estremecia sob seus pés e a chuva golpeava com força a terra. De algum jeito, Jacques conseguiu lhe tirar os sapatos e deslizar os jeans fora de suas pernas. Ela estava de pé, nua sob a chuva e tão quente que temia que a água se evaporasse ao entrar em contato com sua pele. — Deseja-me, Shea? — Desta vez, sua voz tinha um tom de dúvida, como se toda sua força e seu imenso poder pudessem ser derrotados por uma simples palavra dela. De joelhos a seus pés, aquele adorável rosto, tão devastador como a tempestade e tão magnificamente masculino, olhava-a fixamente. Estava perdido sem ela e o fato se refletia em seu olhar. Sem disfarces. Sem se ocultar. Totalmente vulnerável. Por um momento, o vento pareceu deter-se e a tempestade silenciou, como se o céu estivesse esperando sua resposta. — Estou segura de que não imagina quanto te desejo, Jacques, embora esteja lendo minha mente. Tenho-o em meu coração e sempre terei. — erguendo-se na ponta dos pés, Shea abraçou-o. Jacques sentia seu hálito sobre o peito, e quando sua língua começou a brincar com sua pele, sentiu que seu coração batia com violência no peito. Ela deslizou as mãos sobre seu ventre até chegar até a parte superior de suas calças, liberando seu corpo daquele estreito confinamento. Um relâmpago rasgou o céu delado a lado, iluminando durante alguns instantes, o perfil do Jacques. A silhueta recuperada, de músculos tensos e a terrível necessidade que endurecia seu corpo, se revelaram claramente de noite. Não afastava os olhos dela. Negros e intensos. Shea lhe envolveu com os braços, acariciando com a boca seu ventre plano e duro. As mãos de Shea deslizaram até suas nádegas. Então, de joelhos, começou a acariciar cuidadosamente o membro rígido e aveludado. Cada movimento de suas mãos, provocavam um estremecimento de prazer que percorria o corpo do homem, uma onda de fogo que ameaçava os consumir. Jacques segurou um punhado dos cabelos vermelhos de Shea, molhados e escurecidos pela chuva, insistindo-a a seguir, enquanto investia agressivamente seus quadris, consumido pela necessidade de que ela lhe tocasse. Shea riu, travessa, enquanto deslizava o membro para o interior úmido e quente de sua boca. Ele gemeu e a


apertou com mais força, levantando o rosto para o céu sulcado pela luz dos relâmpagos. —Tem que sentir algo por mim, Shea. É impossível que esteja me fazendo isto sem sentir nada. —Aquelas palavras soavam sinceras e rasgadas, como se viessem diretamente de sua alma. Ela se apertou ainda mais contra ele, acompanhando sua involuntária investida, para lhe excitar ainda mais. Ele a arrastou para cima, e enterrou o rosto em seu pescoço, respirando profundamente para tentar recuperar um pouco do controle. Colocou as mãos em sua cintura e a levantou do chão. — Coloca suas pernas ao redor de minha cintura, amor. — ele disse enquanto mordia suavemente sua garganta e aliviava a dor com a língua. Shea lhe rodeou o pescoço com os braços e se acomodou sobre ele, sentindo a dura consistência do membro introduzir-se em seu interior. Sentia-lhe muito grande, muito quente… Estava segura de que no final, ambos estariam em chamas. Antes de que pudesse entrar todo dentro dela, ele penetrou-a com força, atravessando-a, enchendo-a tão completamente que ela unicamente pôde gritar seu nome. O som se perdeu na violência do temporal que rugia a seu redor. As gotas de chuva se deslizavam pelo rosto de Shea, por seus ombros, por todo seu corpo, deixando seus seios brilhantes e adornando seus rosados mamilos como pérolas. Jacques lambia as gotas de água que se escorriam sobre a pele ao tempo que empurrava uma e outra vez dentro dela. As chamas os abrasavam, consumiam-nos, apanhando-os numa voragem de desejo da qual não podiam escapar. Shea estava incrivelmente quente e a vontade dele era de aproximar-se mais, amarrarse a ela, lhe introduzir mais e mais na magia de seu feitiço. A boca do Jacques capturou a dela uma vez mais, faminta, dominante, tentando marcá-la como sua para sempre. — Abre sua mente para mim. — sussurrou sobre sua garganta. Ela pôde sentir sua boca perto de seu ombro, sentiu os dentes sobre sua pele, o calor abrasador, a fome insaciável… Os dentes, o calor e a fome. — Dê-me sua mente, Shea. Permita-me entrar e deixe que eu fique ali. — ele estava tecendo um feitiço com aquelas suaves palavras, um feitiço tão forte que ela não se sentia capaz de lhe negar nada. Jacques se enterrou profundamente em seu corpo, pressionando as defesas de sua mente e reclamando seu coração. Nesse momento, tudo mudou. Notou o prazer de Shea, tão


intenso que virtualmente estava ardendo. Ela sentiu o prazer dele, levando-o até as estrelas enquanto seu corpo reunia forças para enchê-la por completo, em todos os sentidos. Queria lhe dar o mundo e que ela tivesse que lhe amar naquelas circunstâncias. Ferido, destroçado e demente. Pôde ver o interior de sua alma, a fera controlada que lutava sem descanso pelo domínio, sempre a ponto de tomar o controle. Pôde ver seu medo de perdê-la, o medo de transformar-se em um vampiro, sempre rechaçado e açoitado pelos de sua própria espécie. E pôde ver sua incrível necessidade de protegê-la, de mantê-la a salvo de qualquer perigo, além disso, do desejo de fazê-la feliz. Queria ganhar seu respeito e seu amor. Ser digno deles. Não fez nada para esconder o demônio que habitava em sua alma. Escuro e horrível. Tão faminto de vingança, tão necessitado de vigilância. Shea permitiu que sua infância, tão rígida e solitária, fluisse na mente dele. O medo de compartilhar sua vida com alguém, forte necessidade de controle e disciplina. Permitiu tabém que ele sentisse o quanto o desejava…E seus desejos secretos de ter filhos e sua própria família. Jacques a abraçou com força enquanto sorria eufórico. Ela tinha visto e sentido o pior dele e ainda assim, seu corpo se moldava a cada investida com um ritmo perfeito, selvagem. Sua mente estava repleta pela necessidade e pela fome que sentia por ele e por um frágil compromisso que estava decidido a estudar mais a fundo. Introduziu-se em sua boca como fazia em seu corpo. Louca e selvagemente, completamente desinibido. Um trovão retumbou em toda a extensão do bosque quando Shea, abraça com força ao corpo de seu amante, sentindo que seus músculos internos se contraíam ao redor dele e seu mundo se fragmentava em milhares pontos de luz, desfrutando um prazer nunca antes sentido ou sonhado. O rouco gemido do Jacques se perdeu na fúria da tempestade enquanto todo o seu ser parecia desintegrar-se e flutuar, entrando em erupção com todo o poder de um vulcão. Exausta e saciada, Shea apoiou a cabeça sobre o ombro do Jacques, enquanto este descansava as costas contra o tronco da árvore. A chuva refrescou o calor de seus corpos, penetrando finalmente no escudo do selvagem desejo e da fome insaciável que os tinha protegido durante o interlúdio. Com muito cuidado, Jacques apoiou os pés de Shea no chão, sem sair de seu interior. Quando ela levou a mão para afastar o cabelo molhado de seu rosto, ele capturou seus dedos e os levou a boca. — É a mulher mais formosa que já vi. Ela sorriu e sacudiu a cabeça.


— Está louco, sabia? Estamos sob uma das maiores temporais que tive notícia e não me dei conta até agora… Jacques sorriu sedutoramente enquanto beijava-lhe a ponta do nariz. — Está se referindo a mim? — Certamente. — Ela disse. As mãos dele apertaram levemente nádegas de Shea, apertando-a contra seu membro duro, enquanto enterrava boca a em seu pescoço, saboreando o momento. Nunca esqueceria o que sentia nesse momento, o aspecto dela, tão selvagem e formosa sob a tormenta, lhe aceitando por completo, ainda com sua mente destroçada e seus demônios interiores. — Isto jamais se acabará, Shea. O que sentimos um pelo outro, jamais desaparecerá. Fará-se mais forte à medida que passem os séculos. Nunca terá que preocupar-se porque jamais se diminuirá de intensidade com o tempo. Percebeu o sorriso dela contra a pele e o pequeno beijo que depositou em seu peito. —Não sei se poderei resistir… Neste momento, nem sequer estou segura de poder me levantar sem sua ajuda. — Deixe-me ajudar com isso. —Havia um toque de diversão em sua voz, um toque sedutor e Shea sentiu como ele estava grande e duro contra seu ventre. — Realmente está louco. Odeio ser uma desmancha prazeres, mas está ensopado. — Ela riu, mas enquanto protestava movia sutilmente o corpo contra o dele, incapaz de acreditar que pudessem fazer algo mais que segurarem-as um no outro após uma união tão selvagem. Ele girou-a de tal maneira que ela se encontrou com o rosto contra à árvore. Jacques, com seu enorme corpo, lhe servia de escudo contra a chuva. As mãos dele rodearam seu rosto enquanto inclinava a cabeça sobre a sua, beijando com delicadeza sua boca. —Jamais me cansarei de ti, nem que vivamos séculos. — Deslizou uma mão em seus seios e depois, estendendo os dedos sobre seu ventre. — Quero sentir como nosso filho crescerá em seu interior. — Seus olhos se escureceram até converter-se em gelo negro. — Nunca acreditei que me agradaria te compartilhar com alguém, mas só imaginar ter um filho contigo faz que te deseje ainda mais. — Espere um momento, homem selvagem… Acredito que antes disso acontecer, deveríamos nos conhecer melhor. Somos duas pessoas emocionalmente instáveis e isso nos


converte em potenciais péssimos pais. Ele sorriu contra sua boca antes de beijá-la outra vez. — Sei o que ocultas em sua mente e em seu coração, pequena. Assim já não me assusta o mais. Uma vez que aceite a idéia, enfrentará todas as conseqüências. Isso é o que faz que seja uma cientista tão boa… Sua firmeza. — Não pense que poderá me dirigir com o sexo… Da mesma maneira que você pode ler minha mente, eu posso ler a tua. Não pense que não vejo sua espantosa tendência a tentar dominar tudo. As mãos do Jacques esquadrinhavam todoas as partes do corpo de Shea, encontrando todos os lugares secretos e sensíveis. Percorreu a garganta da Shea com a boca, deixando um úmido rastro enquanto bebia a água que escorria entre seus seios. — Não acredita que o sexo seja uma magnífica opção neste tipo de situação? — ele Brincou com a língua, fazendo círculos sobre o mamilo antes de tomá-lo entre os dentes, e depois se dirigiu pelo vale entre seus seios até o lugar onde pulsava seu coração. —Sabe tão bem…— Cobriu com as mãos, os cachos que protegiam o sexo pequeno antes de introduzir os dedos naquele calor úmido, comprovando o fogo que ardia dentro dela. — E é tão agradável te tocar… — Louco…— Ela não pôde evitar sorrir, tirando as mãos de seu corpo enquanto utilizava as suas para lhe acariciar e lhe excitar ainda mais. —Advirto-lhe, Jacques, que quando terminarmos nenhum de nós será capaz de se levantar. — Shea estava surpresa, deveria estar sentindo frio, mas a chuva tornava mais erótico o ato, alimentando a intensidade das chamas que cresciam entre eles. Rindo feliz, Jacques a apoiou sobre o tronco da árvore, de costas a ele. Shea colocou as mãos sobre a rugosa casca, procurando estabilidade, enquanto ele se inclinava sobre ela para lhe beijar o pescoço. Essa suave carícia fez que um arrepio descesse pela coluna de Shea, enviando ondas de prazer que percorriam seu corpo enquanto Jacques introduziam seus dedos dentro dela para assegurar-se de que estava pronta para recebê-lo. Tomando os esbeltos quadris entre suas grandes mãos, Jacques se deteve durante um momento, maravilhado ante a perfeição do corpo de sua mulher, de sua companheira. Shea possuía nádegas firmes e redondas, deliciosamente incitantes. — Você é linda, Shea. Incrivelmente formosa. — disse enquanto se introduzia nela, prolongando o momento da penetração, observando como a chuva se deslizava sobre sua pele pálida e acetinada até chegar a seu membro duro e rígido. —Jacques…—disse Shea enquanto empurrava-se contra ele, com o corpo suave e


dócil úmido de excitação, lhe dando boas-vindas. Ele se introduziu no corpo estreito e quente que se adaptava tão perfeitamente ao seu . Sentiu como o prazer voltava a crescer em Shea. Uma experiência única, que jamais teria o bastante. Jacques penetrou-a forte e profundamente, querendo preenchê-la por completo, precisando ouvir seus gemidos suaves e ansiosos. Enlouquecia com aqueles pequenos gemidos que provinham de sua garganta, assim como a forma em que seu corpo se movia para trás para ir ao encontro do dele. A chuva tomava parte do ato, envolvendo-os como um véu, deslizando-se por seus corpos quentes, fazendo com que sua pele se arrepiasse. Jacques sentiu os músculos que rodeavam seu membro, apertados e firmes, unindo-a a ele em um só corpo, enquanto a terra estremecia ao redor e o céu vibrava com paixão. Sentia todos os músculos de seu corpo tensos, espectadores, esperando o momento perfeito em que o corpo dela se apertou em torno dele, enquanto se introduzia uma e outra vez, numa voraz corrente de calor, beleza e um imenso prazer. Jacques sentiu como Shea abria sua mente, seu coração e sua alma, delicadamente feminina… Era uma mulher excepcional, e era toda dele. De repente, ela se convulsionou, unindo-se a seu prazer, com um estremecimento atrás do outro. Durante um momento, teve que abraçar-se a ela para manter-se em pé. Depois, desabaram juntos sobre a vegetação molhada. Enquanto se abraçavam, a chuva esfriava seus corpos. Gargalhavam como crianças travessas. —Acreditei que desta vez sairia vapor— disse Jacques, esmagando-a contra ele. — Poderia fazê-lo? — Shea colocou a cabeça sobre seu peito, enquanto lhe acariciava distraídamente os fortes músculos de seu tronco. — Nos colocar tão quentes, para que a chuva se converta em vapor sobre nossa pele? — ele dirigiu-lhe um sorriso radiante. Parecia um menino feliz e satisfeito que pela primeira vez tinha esquecido a tortura que havia sofrido. Ela fazia com que se sentisse invencível. E vulnerável. E, o mais importante, Shea fazia que se sentisse vivo. — Certamente que não… Refiro-me ao que os outros fazem. Converterem-se em névoa ou bruma. Você também pode fazar? —insistiu. — Quero dizer, sei que disse que podia, mas acredito que estava delirando. Ele arqueou as sobrancelhas muito surpreso. — Delirando?— Jacques lhe dedicou um sorriso arrogante, deixou cair os braços e ela observou como sua pele se enrugava enquanto seus dedos se curvavam e se transformavam em garras. Teve que segurar Shea com força, quando ela tentou afastar-se dele, com os


olhos totalmente abertos pela surpresa. Jacques teve muito cuidado em não lhe mal. —Deixa de rir de mim, homem bruto. Fazer isto não é a mais normal do mundo. — Shea disse enquanto um leve sorriso começava a insinuar-se em seus lábios. Não podia evitar sentir alegre ao notar o inocente prazer que ele demonstrava cada vez que recordava de algo. Cada vez que recuperava uma de suas habilidades. —É normal para nós, amor. Podemos trocar de forma sempre que quisermos. Ela fez uma careta. — Quer dizer que todas essas sinistras histórias são certas? Todas essas coisas sobre ratos, morcegos e lesmas? Havia um toque de riso em sua voz, um toque de sedução e Shea sentiu como ele estava grande e duro contra seu ventre E por que ia querer me transformar em uma lesma?— ela gargalhou com vontade e som a surpreendeu. Não podia lembrar a última vez que sorriu assim. —Muito divertido, Jacques. Aquelas pessoas se converteram em névoa, como nos filmes. — ela disse enquanto ele sacudia seu braço para que deixasse de rir. — Explique-me isso —Trocar de forma é fácil uma vez que se tem as forças suficientes. Quando te disse que corríamos com os lobos, queria dizer exatamente isso. Unimo-nos a eles. Podemos voar com os mochos e nos transformar em ar. — Jogou colocou trás o cabelo molhado que caía sobre o rosto de Shea. — por que não tem frio? Shea sentou-se de repente, assombrada ao se dar conta do fato. Na realidade, não sentia frio. Começou ao ter no momento em que pensou, mas não havia sentido antes. — Por que não sinto? —A gente dos Cárpatos regula a temperatura de seus corpos de forma natural. A ilusão é também algo fácil de dominar. Não precisamos comprar roupa, a menos que o desejamos, mas a maioria das vezes, asseguramo-nos de seguir os costumes humanos em tudo o que é possível. — ele deu-lhe um beijo. — Mas pode aparentar que tem frio, se isso fizer que se sinta melhor. — Eu não gosto da idéia de ficar aqui, Jacques. Tão perto dos outros. É como se não pudesse respirar. Embora, seja unicamente porque não me encontro com gente que se transforma em névoa todos os dias… Talvez deveríamos ficar um pouco mais e aprender algo deles.


— Eu posso te ensinar a trocar de forma. — Jacques parecia um pouco incomodado. Shea mordiscou sua garganta. — Não tenho nenhuma vontade de aprender. Ainda devo aprender como compartilhar minha vida e meu corpo com outra pessoa. Mas se alguma vez desejar me transformar em um rato ou algo parecido, prometo que não permitirei que ninguém, a não ser você, me ensine. Eu me referia a outras coisas, por exemplo, como o médico conseguiu te recuperar tão rapidamente. Jacques engoliu o protesto que veio em sua mente. Shea parecia excitada, não assustada. Não o agradava a idéia de que outro homem se aproximasse dela. Que ela compartilhasse seu tempo com outro. Mas ela era uma médica, uma cirurrgiã e Gregori poderia lhe ensinar muitas coisas. E ele queria que ela fosse feliz. Procurou em sua memória,por Gregori. O Escuro. Antigo e poderoso. O solitário. — Ele sempre está sozinho. — A gente dos Cárpatos falava de seus poderes como se fossem um segredo e raramente pronunciavam seu nome em voz alta. — O curador anda sempre de um lado para outro em busca de conhecimentos. Não permanece em nosso meio. Não existe homem mais perigoso, nem mais dedicado à conservação de nossa raça. Mikhail é seu amigo. Eles se compreendem e se respeitam mutuamente. Shea se achegou mais contra o corpo do Jacques, procurando sua proteção, ante a chuva. —Não posso acreditar que está recordado tudo tão rapidamente. É assombroso, Jacques. Dói-te a cabeça? Ele esfregou a testa enquanto sacudia a cabeça em um gesto negativo. A verdade era, que a dor parecia estar fazendo pedacinhos sua mente, abrindo-a, mas por ela, suportaria-o. Por ela poderia suportar tudo. —Seu único aprendiz era só meio século mais jovem que Gregori e Mikhail. Era diferente, inclusive em seu aspecto. Um solitário como Gregori, e igual a ele, saia em busca de conhecimentos. Falava muitos idiomas e fez parte de numerosos exércitos. Era alto, de ombros largos, com os mesmos músculos fortes que Gregori. Tinha o cabelo comprido e claro. Um pouco estranho entre nossa gente. Seus olhos eram dourados, como o ouro puro. Gregori permitiu que ele aprendesse como curava às pessoas. Viviam juntos em um ou outro lugar, durante muitos anos em várias partes do mundo. — Quem é ele? Ainda está vivo? — Shea estava intrigada.


—Seu nome é Aidan e tem um irmão gêmeo. Freqüentemente caçava conosco. — respondeu Jacques, sentindo a pente pulsar doloridamente. — Como caçavam? O que caçavam? — Shea conteve a respiração, preocupada com qual seria a resposta. —Mulheres formosas, pequena. E fui eu quem encontrou. —seu sorriso deixou ver um lampejo dos dentes blanquísimos e seu olhar era definitivamente sedutor, lascivo. — Nem pense em me embaçar. — Ela tinha se adiantado, deslizando-se facilmente na mente de Jacques, captando sensações de perigo e repulsão. De medo, inclusive. Nem tanto de seus adversários como deles mesmos. Medo de transformar-se naquilo que destruía. Jacques, não esperava que ela entrasse em sua mente, acreditou que seria capaz de lhe ocultar o lado mais espantoso de suas experiências. Shea sempre se mostrara contra, compartilhar a conexão mental com ele. Não pudera advinhar que ela pudesse fazê-lo, nesse momento. Ele estava com uma expressão tão desafortunada no rosto, que Shea explodiu em gargalhadas. — De onde eu venho, o que aconteceu agora, neste momento, nós chamamos de “ser apanhado com as calças curtas”. Ele inclinou a cabeça para observar o corpo dela, brilhante pela chuva. Com um sorriso travesso e o riso bailando em seus olhos acrescentou: —Literalmente. — Enfim, continuemos. Onde está Aidan agora? Mataram-no? Em princípio, a mente do Jacques negou a revelar a informação. Ele teve de revolver um e outro fragmento, como se fossem as peças de um quebra-cabeças, em busca da resposta. Dando-se conta de que estava, com suas perguntas, contribuindo para que ele se sentisse atordoado, Shea esfregou carinhosamente seu braço. —Não o tente mais. — Nos Estados Unidos. O que me recordo é que ele e sua gente se mudaram para os Estados Unidos para eliminar uma horda de vampiros que havia lá. Os vampiros não ficam muito tempo aqui nas montanhas, onde podem ser capturados com facilidade. Se Aidan ainda seguir vivo, e se não se transformou…—franziu o cenho ante esta possibilidade.


— Deve estar ainda por lá, longe de nossa terra. — Que quer dizer com isso de “sua gente”? Uma companheira? Um filho? — A última vez que soube alguma noticia dele, ainda não tinha encontrado sua companheira. Ele tem a mesma idade de Mikhail e Gregori e o perigo para ele é maior. Quanto mais idade alcança um homem dos Cárpatos, muito mais difícil é manter a prudência. — Então Gregori também se encontra em perigo. —disse Shea. Só em pensar, estremecia. —Gregori é o que mais perigoso de todos. Aidan não fica atrás. Mas Aidan tem uma espécie de família. Humanos que, durante gerações, serviram-lhe fielmente. Deu-lhes uma fortuna e eles escolheram permanecer a seu lado. De mães a filhas. De pais a filhos. É o único homem dos Cárpatos que conheço que tem uma família assim. Um relâmpago ziguezagueou no céu e num segundo depois, o trovão retumbou sobre suas cabeças. Shea se afastou e o sorriso desapareceu dos seus lábios e de seus olhos. Colocou a mão sobre o peito de Jacques e empurrou-lhe para que se afastasse dela. Num segundo, o bosque profundo e a selvagem tempestade haviam deixado de ser um aliado quente e sensual para se converter em um mundo sinistro e escuro. Shea lutou até conseguir ficar de pé, olhando a seu redor enquanto esquadrinhava a escuridão do bosque. Jacques se levantou com um simples movimento e a rodeou com os braços, protegendo-a sem palavras. — O que está acontecendo? — ele sondou o lugar que os rodeava, procurando descobrir possíveis inimigos e se colocou diante dela a fim de protegê-la de qualquer ameaça. Não descobriu nada alarmante, mas na mente daeShea havia um medo completamente real. Shea se afastou dele, enquanto olhava fixamente o bosque a sua volta. Pegou sua camiseta, colocando-a como escudo contra seu corpo. —Os outros estão muito longe. — Disse Jacques, mas se colocou novamente diante dela, tentando protege-la daquele inimigo invisível para ele. —Há algo ou alguém aqui perto, Jacques. Algo maligno que nos observa. — Shea colocou a camiseta. — Eu sei… Sempre sei. Vamos sair daqui, agora mesmo. Jacques esperou que ela vestisse a calça antes de vestir a sua. Cada um de seus sentidos voavam para a noite, procurando algo que mostrasse que ela tinha razão. Não pôde detectar nada, mas a intranqüilidade dela estava começando a penetrar em seu próprio sangue, lhe alertando. Sentiu que seu corpo se arrepiava como se fosse um lobo, pronto a


atacar. — Descreva-me o que sente. Deixe-me entrar em sua mente. —Era uma ordem que não admitia réplicas e Shea obedeceu instantaneamente. Jacques sentiu a onda escura, malévola, não era humano e nem da raça dos Cárpatos. Escondia-se atrás da tempestade, observando-os com selvagens olhos vermelhos. Lhes observando com ódio. Imagens das afiadas presas cheias de sangue e dasenormes garras flutuavam na mente de Shea. Mas não era um animal. —É um vampiro, Shea. E está perto. — As palavras foram um suave sussurro em sua mente. Jacques havia “visto” através da mente dela, capturando as imagens que identificavam o assassino que os observava fixamente. —Deve fazer exatamente tudo o que eu te ordenar, imediatamente. Entendeu? —Sim, é claro. Onde ele está? —Não sei. Não posso nem ouvi-lo nem sentir seu cheiro. Mas o que está em sua mente é um vampiro. Como jamais viu um antes e as imagens são tão nítidas em sua mente que não me resta outra alternativa, que aceitar que está perto. Não se afaste de meu lado, mas se ele atacar, corre. —Nem sonhe. — Shea levantou o queixo e lhe o olhou com rebeldia. —Sou perfeitamente capaz de te ajudar. —Ele a usará-te para me derrotar. Já lutei com eles antes. — utilizando seu corpo como escudo, Jacques empurrou-a para o atalho que conduzia à cabana. Tentava perceber algo a seu redor, não só com os olhos, mas também com todo seu ser. Shea se movia rapidamente, tentando concentrar-se no forte sentimento que crescia em seu interior. Fosse o que fosse o que lhes vigiava silenciosamente através do espesso bosque, despreedia um ódio tão escuro e intenso que a fazia sentir-s fraca. O coração batia loucamente emseu peito, cheio de medo. Essa coisa era sinistra, horrível e malvada que ela podia perceber a densidade de suas emoções no ar fresco e úmido pela chuva. A sua direita, uma estranha bruma resplandeceu, filtrando-se através da chuva, escorrendo-se através das árvores. Avançava a escassos centímetros do chão, dirigindo-se para eles. Shea sentiu o coração na garganta e se apoiou nas costas de Jacques, procurando sua proteção. Ele se deteve atento, com os músculos tensos e preparados, como uma pantera


aguardando o momento perfeito para atacar. Ela podia perceber como ele se preparava para o perigo enquanto permanecia imóvel, completamente seguro de si mesmo. À medida que bruma se aproximava, a poucos metros deles, a umidade começou a condensar-se no ambiente, formando uma gota atrás da outra, que se uniram para formar a figura de um homem. Shea quis gritar de medo, mas permaneceu quieta, temendo distrair Jacques. A forma do Byron resplandeceu fracamente durante um instante, deixando ver a árvore que havia atrás através da bruma, para depois tornar-se sólida completamente. Permanecia ali, de pé, com a curiosa elegância que caracterizava todos os homens de sua raça. Levantou o olhar do chão para cravá-lo em Jacques, que parecia uma estátua de gelo. — Fomos amigos durante séculos, Jacques. Não posso recordar nenhuma época de minha vida em que não estivéssemos juntos. Acho muito estranho e me entristece que olhe dessa forma para mim, como se não me conhecesse. Às costas do Jacques, Shea se removeu, incômoda. O pesar do Byron parecia maior do que ele podia suportar. Queria aproximar-se dele, tentar aliviar aquele terrível sofrimento que lhe invadia — Não! –foi uma ordem cortante em sua mente, clara, em um tom que não admitia discussão alguma. Jacques permanecia imóvel, como uma estátua de pedra. As palavras do Byron pareciam não comovê-lo absolutamente. Byron encolheu de ombros, com uma careta de dor no rosto. —Quando acreditamos que havia morrido, procuramos seu corpo. Durante meses, inclusive anos. Jamais nos esquecemos, jamais o abandonamos em nossos pensamentos. Foi minha família, Jacques, meu amigo. Foi muito duro aprender a estar completamente sozinho. Gregori, Mikhail e inclusive Aidan, sobreviveram aos séculos porque, embora deviam permanecessem isolados, compartilhavam um vínculo muito forte, uma âncora que lhes amarrava à prudência através dos séculos de solidão. Você foi a minha. Quando desapareceu, minha luta se fez imensa. Como Jacques permanecia em silêncio, em alerta, Shea cutucou suas costas. — Não sente sua dor? Está tentando chegar até você. Embora não possa recordar-se dele. O ajude. —Não sabemos se ele se transformou ou não. — repreendeu-a, Jacques. — Você


percebeu uma presença estranha e de repente ele aparece. Um vampiro pode aparentar uma imagem de pureza ou em algo que escolha. Fique atrás de mim! —Só queria te dizer, Jacques, o quanto me alegro de que tenhas voltado e mais feliz ainda por ter encontrado sua companheira. Foi muito mal de minha parte sentir inveja de sua sorte, e devia ter sido mais cuidadoso ao julgar as coisas pelas aparências. Sem olhar mais à frente. —Byron passou uma mão pelos cabelos. — Irei embora daqui por algum tempo. Preciso reunir as forças necessárias para agüentar os séculos de solidão que me restam viver. Jacques inclinou a cabeça lentamente. —Irei ao curador para que tente reparar os danos de minha mente. Notei que a relação do Gregori com o Mikhail parece forte, apesar de que Mikhail ter uma companheira. Desejo, se tudo o que foi dito é verdade, que quando me recordar de tudo, possamos reatar nossa amizade. A ferocidade do vento pareceu acalmar-se. A chuva repicava sobre o chão com um zunido constante e o ar pareceu carregar-se de emoções intensas. Byron assentiu com a cabeça cansadamente e esboçou um ligeiro sorriso que não chegou aos olhos. — Desejo o melhor aos dois e espero que tenham muitos filhos. Tentem que sejam meninas, para meu bem. — Quando voltará? —Perguntou Jacques. — Assim que possa. —A figura do Byron começou a esfumar-se, a desintegrar-se de tal forma que podiam enxergar através da transparente silhueta. O corpo do Jacques relaxou num elegante movimento, apenas perceptível. Instintivamente, Shea deu um passo para trás para lhe proporcionar mais espaço. Se tinha que pecar por algo, que fosse por prudência. Jacques não tinha baixad a guarda em nenhum momento, já que ela teria se apressado a tentar reconfortar Byron. Shea inalou o perfume da noite, sentindo-se deprimida de repente. E com o ar chegou o virulento ódio que impregnava a escuridão do bosque. Observou o rosto impassível do Jacques. Ele não parecia notar nada, enquanto fixava sua atenção na bruma que se desvanecia ao longe. Ele percebia? E se Byron não fosse o causador, por que ele não tinha percebido? Seu analítico cérebro se dedicou a estudar a questão. Acreditava que Jacques não percebia a presença porque sua mente estava virtualmente destroçada, mas… —Voltaremos por um caminho diferente, Shea. Não podemos ficar na cabana. — Jacques enlaçou a mão de Shea na sua e a arrastou através das árvores. —Já não é segura.


Shea percebeu a vaga impressão de um sorriso retorcido, malévolo. Um riso silencioso, uma diversão maligna. Sacudiu a cabeça para livrar-se da imagem, preocupada em estar sofrendo alucinações. — Jacques? —Sua voz tremeu, com incerteza. Os dedos dele se apertaram ao redor dos dela. —Não há porque se preocupar. Encontraremos um refúgio adequado. Jamais permitirei que lhe façam mal. — Ele levou sua mão para a calidez de sua boca, com ternura. — É Byron? —Não sei se é Byron. O que sei é que é perverso… Deixemos este lugar, vamos para uma cidade, cheia de luzes brilhantes e muita gente. Jacques abraçou protetoramente seus ombros e adequou sua marcha a dela. Por instinto, sabia que seriam vulneráveis na cidade. Eram homens dos Cárpatos, não humanos. Respirou profundamente, expulsando o ar lentamente, dando-se tempo para procurar as palavras adequadas. —Se o vampiro nos escolheu como objetivo, estaremos pondo muitos humanos inocentes em perigo. Eles não tem defesas contra vampiros. —Ele está-nos observando, Jacques. Sei que não pode percebê-lo, mas está aí perto, em alguma parte. Jacques acreditava. Procurou uma vez mais a imagem em sua mente e pôde perceber o estridente som de uma risada de brincadeira ressonando em sua cabeça. Soltou um xingamento em voz baixa. — Está segura de que Byron não tomou seu sangue quando te encontrou no povoado? —Deveria haver lhe contado isso. Ele inclinou sua cabeça para minha garganta. Pude sentir seu hálito em meu pescoço e como seus dentes tocavam minha pele, mas me afastei rapidamente, logo que penetrou na pele. —colocou uma mão sobre o lugar onde tinha estado o arranhão. — De todas maneiras, ele desculpou-se contigo. Não sentiu sua tristeza? Quase me parte o coração… Ele abraçou-a com força durante um momento e lhe deu um beijo na testa. —É muito compassiva, meu amor e muito confiada. Um vampiro pode aparentar ser o epítome da beleza. Ser a própria imagem da integridade.


Ela se apressou para poder seguir suas rápidas passadas. —Não acredito, Jacques. Reconheci a beleza de seu interior quando parecia ser um monstro. Sabia que havia algo além das aparências. Acredito que também seria capaz de reconhecer a maldade. — Foi o reclame de nossas almas o que reconheceu. Somos companheiros, estamos unidos embora permaneçamos a distância. — Chame como quizer, mas acredito que daria ciência se Byron fosse realmente a criatura desalmada que nos observa. Essa coisa nos odeia. — Só Gregori te deu seu sangue. E eu,é claro. — Não me recorde que me obrigou, sob feitiço, a tomar sangue de Gregori — Shea separou-se dele, chateada. — Como pôde me trair assim? Jacques dirigiu-lhe um olhar repleto de arrogância. —Sua saúde está por cima de seu orgulho. — Na verdade, envergonhava-se de havê-la obrigado a tomar essa decisão, mas ao mesmo tempo, se alegrava de que tudo estivesse terminado e ela não se encontrasse em um estado tão debilitado. —Isso é o que você crê. Espero que o curador sangre muito tempo antes de lhe fechar sua… E não diga nenhuma palavra mais, porque está ficando muito arrogante e eu não suporto quando fica assim. — Enquanto dizia isso, Shea tropeçou. Sentia as pernas muito cansadas. —Se tivesse feito o que te disse, agora estaria como nova e seu corpo seria libertado do suplício que a atormenta. — ele assinalou, desenhando o típico sorriso de satisfação masculina em sua mente com a única intenção de chateá-la. Ela deixou de caminhar tão bruscamente que os braços dele, que a rodeavam e protegiam, quase a atiram no chão. — Tem alguma idéia de onde nos dirigimos? Porque eu estou absolutamente perdida. Tudo me parece igual. E faz desaparecer esse sorriso de macho satisfeito de minha mente. Se acredita que vai me fazer esquecer de tudo, é por que não me conhece bem. Ele abraçou-a, sem deixar de olhar a seu redor, esquadrinhando o bosque. Ainda percebia aquela maligna escuridão através da Shea. —Sempre poderei fazer com que se esqueça de algo, pequena ruiva. —respondeu com ternura. — Você é incapaz de guardar rancor.


O sentimento de ódio enchia o ar da noite e a sutil fragrância de Jacques era realmente reconfortante, e ela se sentia curiosamente agradecida por isso. Firmou-se em seu braço. —Não confie em meu suposto bom caráter, Jacques. Lembre-se do que dizem sobre as ruivas… — Que são magníficas amantes? Shea soltou uma gargalhada, apesar das ondas de negra maldade que se abatiam sobre ela constantemente. —Pense no que queira. No momento em que a risada da Shea saiu de seus lábios, o ar se fez mais denso ao redor deles, tanto que, por um momento, o ódio quase a paralisou. Incapaz de suportar um minuto mais, e sem parar para pensar nas conseqüências, voltou-se bruscamente para gritar ao tétrico bosque que os rodeava: —Se tanto nos odeia, maldito covarde, mostre tua cara. — e levantando o queixo para Jacques, acrescentou. —Você já está bem, homem selvagem. Pode ser que ele venha ou não, mas agora já não me sinto como se fosse um animal que pode ser caçada. Jacques pôde sentir como ela se estremecia atrás dele. Preocupava-lhe que, sem querer, tivesse-a obrigado a aceitar a muitas coisas novas rapidamente. Colocou a mão sobre a nuca da Shea e a aproximou dele, abrasando-a com seu penetrante olhar. —Ninguém te fará mal. Jamais. E o que o tentar, não viverá para contar. — ele respirou profundamente antes de continuar. — Você não era consciente que não era um de nós, meu amor. Naquele momento, não era capaz de discernir muitas coisas, é verdade, e te converti sem me dar conta. Eu gostaria de poder dizer que sinto muito, mas na realidade, não estaria sendo honesto. Não sabia o que estava fazendo e gostaria de pensar que podia ter feito de forma diferente, se soubesse, mas… Vcê é minha vida, Shea. A existência não teria nenhum significado para mim se você stivesse a meu lado. Não teria me restado mais que a vingança e me teria transformado em um não-morto. Não quero ser um vampiro, um ser sem moral alguma, que pode existir tanto entre humanos como em pessoas de nossa raça. Você é minha salvação. Shea parou a fim de fitá-lo. A chuva caía sobre seu rosto enquanto dirigia seu olhar para ele, carregada de humor. — Isso é tudo? Isso foi sua grande desculpa? Já vejo que não será um desses


homens que mandam flores e bombons… –e acrescentou rapidamente — Não me dirija a palavra, sem estar civilizado. Não quero nem escutar o som de sua voz. Jacques se esforçou duramente para apagar o sorriso que se formou em sua boca. De algum jeito, Shea conseguia, inclusive nas situações perigosas, que tudo parecesse um divertido jogo em que as risadas sempre estavam a flor de pele. Sempre arrumava um jeito de tornar sua loucura, a terrível e imperdoável maneira com que a tinha tratado durante seu primeiro encontro, parecesse um acontecimento sem importância. — Posso te abraçar? —embora seus olhos a observavam seriamente, a diversão dançava em suas profundidades. — Está falando… Disse-te que não queria nem te ouvir. —Shea tentou manter a compostura, mas ante uma pergunta tão ridícula, desfez-se em risos. Jacques a rodeou com o braço e se inclinou para olhá-la. —Sinto muito ter falado quando me tinha ordenado o contrário. Volte-se. Vou te levar para cima. — Não fale. Sempre se sai com as suas… — Shea caminhou uns quantos metros mais e se deteve, inclinando a cabeça para cima para observar um escarpado de pedra que parecia elevar-se até o céu. Não conseguia distinguir o limite entre o bosque e a rocha que estava a sua frente. — Vamos? Não está se referindo a isto, está? — A sensação do sentimento escuro e malévolo se debilitou. O que quer que fosse, já não os observava. Estava segura. — Pressinto que vamos começar outra discussão. — não se via diversão alguma em seu rosto, mas Shea pôde perceberem sua mente. Jacques se limitou a levantá-la e carregá-la sobre seu ombro. — De maneira nenhuma, homem selvagem. Você não é Tarzan. Eu não gosto de alturas. Desça-me. —Feche os olhos. Quem é Tarzan? Espero que não seja um homem… O vento começou a açoitá-la à medida que aumentavam a velocidade. Moviam-se tão rápido que o mundo que lhes rodeava, se converteu em um mero borrão. Fechou os olhos e segurou nele com força, temerosa. A risada de Jacques, feliz e divertida, chegou até o coração de Shea, dispersando todo vestígio de medo. Parecia um milagre que ele pudesse rir assim, que estivesse feliz de novo. —Tarzan é o homem por excelência. Balança-se entre as árvores e consegue carregar


sua companheira pela selva. — Um simples imitador. Eu sou o autêntico. Ela apoiou a boca contra suas costas, a fim de segura o riso. — Jure! Jacques percebeu o amor que enchia sua voz, sua ternura e seu coração balanceou. Tinham um longo caminho a percorrer antes de conhecerem um ao outro, antes de aceitar-se mutuamente, mas o amor que lhes unia se fortaleceria em cada momento que passavam juntos.


Capítulo 11 A passagem de entrada da caverna era tão estreita que Shea teve que conter o fôlego. Parecia-lhe que não chegavam nunca. , as paredes cheias de irregularidades lhe arranhavam a pele. A amedrontava-lhe a sensação de opressão de tantas toneladas de rocha sobre sua cabeça, rodeando seu corpo, como se estivessem esperando para esmagá-la. Não podia olhar para Jacques, que de algum jeito, havia emagrecido seu enorme corpo e tinha uma aparência muito estranha. A gente dos Cárpatos era capaz de fazer coisas nas que ela não queria nem pensar. Como se metera em semelhante confusão? Pelo sexo. Tinha lhe aparecido um homem imensamente bonito, com olhos negros e famintos, e ela tinha caído como uma tola, doente de amor. Sexo. Algo que arrastara à ruína, até as mulheres inteligentes. — Posso ler seus pensamentos. — Sua diversão era como uma suave carícia que embutia seu corpo ao dele e em seus braços. Eu era uma mulher perfeitamente normal e totalmente sensata até que o conheci. E agora me olhe… Estou engatinhando dentro de uma montanha. — De repente, ela deteve-se e fez um absoluto silêncio. — Ouço algo. Diga-me que não me trouxeste para uma caverna cheia de morcegos. Diga-me isso agora mesmo, Jacques, ou vou embora daqui. — Não te trouxe para uma caverna cheia de morcegos. Shea relaxou visivelmente. Não é que fosse uma afetada, mas os morcegos eram criaturas que estavam no mundo para permanecer a uma boa distância de seu caminho. A uma distância de muitos quilômetros. Os morcegos eram uma dessas criaturas que poderia ficar olhando atentamente, acima no céu noturno e pensar no quantos interessantes e maravilhosos que eram, mas … Desde que ficassem lá encima, a uma grande distancia dela e não se aproximassem. Os sons que estava tratando de ignorar, estavam cada vez mais fortes. O coração começou a pulsar com violência em seu peito, alarmado. As paredes da passagem eram tão estreitas que não poderia mover-se rapidamente, então, se sentia presa ponto de asfixiar-se. —Vou voltar, Jacques. Não sou uma mulher das cavernas. —Fez o possível para que sua voz soasse firme e segura e não como se estivesse a ponto de ficar histérica, que era o queria. Girou a cabeça com muito cuidado, para não arranhar o rosto naquelas rugosas


paredes. Os dedos de Jacques rodearam sua mão ferreamente. — Não poderá fazer nenhum ruído. Se qualquer criatura sair daqui e advertir os outros de nossa presença, poderiam nos localizar. — Nenhuma folha de papel passaria por aqui, muito menos uma pessoa. Ninguém vai entrar em tanta profundidade só para nos buscar. — Um vampiro saberia que estamos aqui no momento em que os morcegos saíssem voando da caverna. — Não podem sair morcegos voando daqui porque você me disse que não havia nenhum, recorda-se? — soava bastante razoável. — Confie em mim, pequena ruiva. Falta pouco para chegarmos. — Não tentará me obrigar a dormir clandestinamente, verdade? Porque não penso fazer isto, nem que houvessem dez vampiros nos espreitando. — Os vampiros não podem permanecer sob a luz do amanhecer, Shea. Matar a suas presas provoca uma mudança em seu sangue, assim o sol lhes deixaria fritos instantaneamente. O que não podemos, é revelar nossa posição aos humanos com que ele se aliou se tivesse marcado a entrada a esta caverna. Ou, simplesmente, poderiam estar esperando alguma sinal, como por exemplo uns morcegos voando inesperadamente no amanhecer. — Está me dizendo que há morcegos aqui dentro? Ele sacudiu sua mão. —Deixe de se comportar como uma criança. Posso controlar os morcegos, e eles servirão como aviso ante qualquer perigo. Shea fez uma careta, mas o seguiu. A cada momento que passava, as habilidades de Jacques, seus conhecimentos e seu poder, pareciam aumentar. Mostrava-se muito seguro de si mesmo, quase ao extremo da arrogância. Isso a irritava algumas vezes que dava vontade de lhe atirar algo, mas se sentia muito orgulhosa de sua incrível força. A passagem começou a alargar-se à medida que desciam. Desciam as vísceras da terra. Shea podia sentir as gotas de suor que cobriam seu corpo e como seus pulmões se esforçavam para conseguir ar. Concentrou-se em respirar. Era a única coisa que a conservaria lúcida.


Jacques notou que ela estava tremendo, e que seus dedos se retorciam nervosamente em sua mão. Sua mente abriu caminho até a dela e descobriu a razão de seu desassossego. Um ridículo medo de morcegos e de lugares fechados. Punham-na nervosa, a habilidade de sua gente para trocar de forma. Até a magreza que tinha adotado para passar com mais facilidade através da estreita passagem, deixava-a nervosa. Acostumada a ter o controle de cada situação era duro para ela seguir suas indicações tão cegamente. —Sinto muito, pequena. Estou-te metendo em coisas que para mim são perfeitamente naturais, mas que lhe confundem e atemorizam. Sua voz era mansa e enviava um espiral de calor através de seu corpo. Unicamente sua voz podia lhe dar forças. Endireitou os ombros e lhe seguiu. —Imagino que haverá uma cama aqui dentro, em alguma parte, certo? —Ela tratou de acrescentar um pouco de humor à situação. O corredor se alargou o suficiente para permitir que Jacques recuperasse sua forma original, e o fez imediatamente, esperando aliviar a inquietação da Shea. Ele também procurou um tema amenopara falar. — O que acha de Raven? — Acreditava que tínhamos que ficar em silêncio. —Shea olhava por todos lados procurando morcegos. —Os morcegos sabem que estamos aqui, Shea, mas não se preocupe, manterei-os longe de ti. — ele disse-o com tranqüilidade, como se fosse a coisa mais normal do mundo controlar os movimentos dos morcegos… Estava com os dedos ao redor de sua nuca, tanto para tranqüilizá-la, como para evitar que escapasse. Seu polegar acariciava sua pele de seda, encontrando seu pulso rápido e alterado, e acariciando-o com suavidade para tranqüilizá-la. — Raven parece muito agradável, embora esteja casada com outro homem tão selvagem como você. É provável que tenha um gosto péssimo no que se refere a homens como eu. — ela continuou o raciocínio, deliberadamente. — E o que quer dizer com isso? —Respondeu ele, tentando postar um tom indignado na voz e seguir conversando para ajudá-la a manter o senso de humor. Jacques apreciava sua coragem e a determinação que a fazia manter-se firme até o final, sem importar quão difícil era. —Porque é impossível que tenha muito sentido comum. Esse homem é perigoso, Jacques, embora seja seu irmão. E o curador realmente me dá medo.


— Crê nisso? — Você não? Sorria e falava com amabilidade e serenidade, mas o fixou em algum momento em seus olhos? É evidente que não sente nenhuma emoção. — Ele é um dos antigos. Gregori é o mais temido de todos os homens dos Cárpatos. — Por que? Porque Gregori é tão frio e arrogante que só com sua voz é capaz de se fazer obedecer por homens fortes como os de sua raça? — É o que tem mais conhecimentos em todas as artes antigas e modernas. É o mais letal e o mais implacável. É o caçador de todos os vampiros. — E é o suficientemente antigo e solitário para sucumbir à escuridão de um momento para o outro? Isso não faz com que me sinta incrivelmente segura… E você me obrigou a beber seu sangue. Isso vou demorar muito em te perdoar — Shea tropeçou, sem se dar conta do quão cansada estava. Um grito ressoou através da terra, através da crostra terrestre. Na verdade, sentia-se mais que se ouvia, um alarido de terror que colocava os cabelos em pé. O som reverberou através de seus corpos e de suas mentes, antes de voltar para a própria terra. As rochas o receberam e o propagaram, fazendo que ressonasse por todos os lugares. Jacques ficou muito quieto, e só seus olhos muito negros se moviam de um lado a outro, tratando de encontrar a fonte do som. Shea segurou-se a ele, horrorizada. Aquele grito provinha de alguma criatura que agonizava com uma terrível necessidade, com uma dor tremenda e que sofria intensamente. Sem ser consciente disso, Shea procurou fora de si mesma, tratando de localizar a fonte. — O traidor. — Disse Jacques com uma voz que destilava veneno, um tom de ódio que prometia vingança. — Está com outra vítima em suas mãos. — Como? Se são tão poderosos, como é possível que apanhe a alguém de vocês? — Shea puxou seu braço para atrair sua atenção. Parecia-lhe um desconhecido nesse momento, um predador tão letal como o lobo ou como o mesmo vampiro. Jacques piscou rapidamente, procurando uma resposta em sua mente. Tinha sido apanhado por um traidor ou não? Como tinha acontecido, estava enterrado em algum lugar de sua fragmentada memória. Até que não pudesse encontrar e unir as peças, toda sua gente correria perigo. Shea lhe acariciou o braço com a mão.


—Não é tua culpa. Nada disto é tua culpa, Jacques. — Reconheceu a voz? —Seu tom era completamente de expressão. —Pareceu-me como um animal. — Era Byron. Shea sentiu que ficava sem fôlego. —Não pode estar seguro. — Era Byron. — disse ele com convicção absoluta. — Veio até mim procurando minha amizade e eu a neguei. Agora o traidor o entregará aos assassinos humanos. — Por que não fica vampiro? — Shea tentava compreender a situação enquanto sua mente já se encarregava de traçar planos. Não podiam deixar Byron ou qualquer outro nas mãos dos açougueiros e assassinos. Tinha perdido um irmão que não chegou a conhecer por culpa desses loucos. E quase tinha perdido Jacques. — Se ele odeia a todos vós, a ponto de querer torturar-lhes e matar. Então por que não faz isso com Byron? — O vampiro deve enterrar-se antes da saída do sol. A diferença de nós, é que ele não pode suportar a luz da alvorada. O amanhecer lhe destruiria, e isso limita o alcance de suas ações. — Então é que ele estava no bosque nos vigiando, tal como eu temia. Deve ter seguido Byron e de algum jeito conseguiu lhe apanhar. E tem que entregar Byron aos humanos antes do amanhecer… Os humanos devem estar perto. —Gregori disse que a terra gemia sob suas botas. —Então, este traidor não pode ajudar os humanos enquanto brilhe o sol. —Certamente que não. — Jacques disse com convicção. — Mas o amanhecer não tem esse efeito sobre nós. Podemos fazê-lo, Jacques. Se atuarmos agora, poderemos lhe encontrar. Tudo o que temos que fazer é resgatar Byron e escondê-lo até as cinco ou as seis da tarde, momento em que recuperaremos as forças de novo. Podemos fazer isso, sei que podemos. Só há alguns lugares nos quais poderia esconder-se. Podemos suportar o sol do amanhecer e ninguém estará nos esperando. Os humanos não podem entrar nesta caverna. Não podem enterrar-se, então têm que refugiar-se em alguma lugar. Você conhece esta região e se não a conhece, outros sim. Resgataremos Byron. O vampiro se zangará tanto que poderá abandonar seu esconderijo, cometerá um engano. Então, os outros poderão lhe apanhar. —Ela estava puxando-o pelo braço tratando


de arrastá-lo para a entrada da caverna novamente. —Não deixarei que esses homens a vejam. — Me dê um tempo, Jacques. Falo sério. Estamos juntos nisto. Odeio ter que dizer e deixar claro, que está em óbvia desvantagem, Posso suportar o sol muito melhor que você. Ele acariciou sua nuca com a mão. —Isso não significa que tenha licença para te expor ao perigo. Shea abriu-se em risos. —Simplesmente estar contigo é perigoso, homem selvagem. Você é perigoso. — Ela jogou o cabelo para trás, levantando o queixo provocantemente. — De todas as maneiras, eu posso perceber a presença do vampiro e você não. Ninguém pode notá-lo, salvo eu. Nem Byron, o notou. Talvez os outros, tampouco sejam capazes. Precisa de mim. A contra gosto, Jacques deixou que ela o arrastasse para a entrada da caverna. — Por que não ganho uma vez sequer, uma discussão contigo? Não posso permitir que se coloque emperigo. Está amanhecendo e teremos que enfrentar a assassinos brutais no momento do dia em que estamos mais vulneráveis. De dia, Shea, seremos completamente vulneráveis. Estaremos a sua mercê e a mercê do sol. Ambos estaremos. —Pois quando chegar esse momento, teremos que estar em um lugar seguro. Contate os outros, Jacques. Diga— lhes o que está acontecendo. —Acredito que a única coisa que você quer é sair desta caverna. Prefere enfrentar a um vampiro e a um bando de assassinos humanos, do que alguns morcegos. — Jacques lhe disse, dando-lhe um puxão de cabelos. Shea olhou-o sobre seu ombro com um sorriso radiante. — Nisso tem toda razão. E te peço, por favor, jamais se transforme em um morcego… — disse com um estremecimento— E nem em rato. —Poderíamos nos converter em uma espécie de pervertidos e vigiar como os morcegos e os ratos fazem amor. — ele sugeriu em um sussurro, com seu hálito roçando-lhe o pescoço. — Você está doente, Jacques. Muito… Muito doente. — A passagem se estreitava outra vez, a impedindo de respirar. Jacques separou sua mente de seu corpo e pensou em Gregori. imaginou a forma em


que ele se movia, na que adotou quando se introduziu em seu corpo, curando-lhe as feridas de dentro para fora. Construiu a imagem dele e o chamou mentalmente. — Escute-me, curador. Tenho urgência que me escute. —Deve estar com sérios problemas, para vir pedir ajuda daqueles que não confia. A voz respondeu com claridade em sua mente. A resposta veio tão rapidamente que Jacques sentiu uma onda de triunfo. Encontrava-se muito mais forte, com muito mais poder que no dia anterior. Gregori tinha lhe dado seu sangue, que agora fluía em suas veias, bombeando através de seu coração, restituindo o músculo prejudicado e os delicados tecidos. Ela havia se esquecido do quão fácil era comunicar-se com sua gente. —Ouvi Byron gritar. O traidor o apanhou. Deve entregá-lo aos humanos, antes do amanhecer. — O amanhecer já está chegando, Jacques. — A voz de Gregori permaneceu tranqüila, equânime, apesar da notícia. —Então temos que encontrá-lo agora. Alguém pode rastreá-lo? Ele intercambiou sangue com algum de vocês? —Só você chegou a ter um pacto com ele. Se ele se transformasse ou fosse incapaz de entregar-se ao amanhecer por si mesmo, iria escolher que você o caçasse, ou viceversa. Não queria que seu irmão ou eu carregássemos com a responsabilidade de destruí-lo. —Não consigo encontrar a conexão dele. — Jacques não podia ocultar sua frustração e odiava que se mostrasse tão intensa em sua voz. — Está seguro de que o grito era de Byron? —Sem dúvida. Estivemos falando com ele por vários minutos um pouco antes. Shea começou a sentir-se angustiada. Disse que alguém nos vigiava. Não pude detectar a ninguém e Byron não exteriorizou nenhum tipo de inquietação. Jacques e Shea caminhavam através da passagem da rocha que ia estreitando-se à medida que se aproximavam da entrada. Jacques sentiu a inquietação normal de sua gente, ao sair na luz. — Faremos o possível para encontrá-lo… —A mulher de Mikhail algumas vezes pode rastrear o que nós não percebemos. Tem muito talento. Reuniremo-nos com vós na cabana. Têm óculos escuros e roupa que lhes proteja do sol?


—Shea sim. E eu posso criar as minhas com bastante facilidade. Ela está ainda muito fraca para tentar trocar de forma e não quer nem ouvir falar de envolver-se clandestinamente. Tampouco eu, o farei—. Jacques ouviu o eco da brincadeira do Gregori. —Terá que proteger sua mulher de seus estúpidos desejos de estar no centro do conflito. —Quando encontrar a sua companheira, curador, talvez seus julgamentos não sejam tão claros. —defendeu-se Jacques. O amanhecer estava a ponto de chegar, a ponto de atravessar as nuvens. A chuva ainda era como uma cortina de água e o vento assobiava ferozmente através das árvores. A entrada da caverna os protegia, mas uma vez que a deixasse, a força dos elementos da natureza, os golpearia sem piedade. Jacques se inclinou sobre a orelha da Shea. —A tempestade diminuirá os efeitos do sol sobre nós. Posso perceber a mão do curador por detrás desta chuva… —Não há sol. O vampiro poderá permanecer fora? Jacques negou com a cabeça. —Ele não pode ver o amanhecer, nem mesmo através das nuvens. Freqüentemente usamos este clima para nos deslocar entre o amanhecer e o entardecer. Permite-nos nos mesclar melhor com os humanos, sem que nossos olhos e nossa pele sejam tão castigados. Ele a sentiu tremer e imediatamente atraiu-a sob seu ombro. O clima não lhe incomodava, pois os homens dos Cárpatos podiam regular a temperatura do corpo facilmente. Mas Shea tinha muito ainda que aprender. E, para isso tinha que dominar sua aversão a alimentar-se. Para recuperar todas suas forças. —O curador tem razão, sabe? Isto é muito perigoso para deixar que o faça. Não sei no que estava pensando. —O curador pode ocupar-se de seus próprios assuntos. —Disse Shea a Jacques por cima do ombro. Ele pode que seja um bom traumatologista, mas não sabe nada a respeito de mulheres. Não cometa o engano de ouvi-lo. Mesmo sem memória, você sabe muito mais que esse idiota. Jacques sacudiu a cabeça de um lado para outro, rindo outra vez e lhe plantou um beijo, fazendo com que um estremecimento percorresse sua coluna vertebral.


— Com que facilidade me enrola. — Ele não podia evitar de sentir a onda de possessiva satisfação que o atravessava. Shea podia admirar o curador por suas habilidades, inclusive podia desejar aprender dele, mas sua atitude entrava em choque com sua natureza independente. Jacques descobriu que tinha um particular afeto por esse lado independente dela. — É um simples homem, o que esperava? —Disse-lhe olhando-a nos olhos. — Eu, entretanto, sou uma cirurgiã brilhante e uma mulher de muitos talentos. — Os morcegos começaram a ficar muito nervosos. Não estou seguro de poder continuar controlando-os… —brincou ele, malvadamente. Um estremecimento involuntário percorreu o corpo de Shea, mas limitou-se a segurar a mão dele, assegurando-se de estar bem perto, e seguiu com o assunto. —Pense num lugar onde possamos levar Byron, na hora em que encontrarmos. —A cabana é muita perigosa. Terá que ser uma caverna ou nas profundidades da terra. Podemos, também, o levar até o curador e encontrar depois um lugar seguro onde nos refugiar, possivelmente teremos que retornar para cá. —Isso não me diz nada, para dizer a verdade. Absolutamente nada. — Onde aprendeu a ser tão sarcástica? Jacques estava brincando ao fazer a pergunta, mas um sorriso amargurado se desenhou na boca dela e seus olhos refletiram dor. —Aprendi rapidamente a me proteger. Quando se é diferente, quando nãopode se atrever a trazer para casa um companheirinho de classe, porque sua mãe se esquece de que você existe, quando se esquece de que todo mundo existe. Algumas vezes, permanecia imóvel frente à janela durante dias, literalmente. Nem sequer me reconhecia. —Shea se deteve. — Crê que serei como ela, Jacques? Posso me converter em uma sombra, só pelo fato de estar contigo? Ser sua companheira? —Não da mesma maneira. —respondeu ele o mais honestamente que pôde. — Algumas coisas estão tão fragmentadas em minha memória, que tenho que recolher aos poucos, a informação. Sei que a maioria dos casais de companheiros escolhem viver ou morrer juntos. Mas se uma criança precisa deles, então o companheiro que ficar se ocupa de seu bem-estar, tanto emocional como físico. —Não lhe disse que essas crianças eram entregues a outros casais porque, quando um dos dois ficava sozinho, quase sempre não conseguia enfrentar à vida sem seu companheiro. Sabia que a criança seria acolhido e amado,


porque a maioria da mulheres dos Cárpatos abortavam involuntariamente ou perdiam seus bebês no primeiro ano de vida. — E te conheço, Shea. Não importa as dificuldades que tenha, sempre conseguirá superá-las. Não abandonaria a um filho nosso, como fez sua mãe. Nosso filho será amado e guiado a cada instante de sua vida. Tenho toda a segurança. Shea apertou o braço dele ao sair sob a chuva. —Prometa-me que se tivermos um filho e algo me ocorrer, você o criará. Vai amar-o e guiar-lhe como teria me amado e guiado. Prometa-me, Jacques. —Uma criança dos Cárpatos é protegido e amado sempre, em qualquer circunstância. Não maltratamos acrianças.. —Isso não é o que te pedi. Ele fechou os olhos com força por um momento, incapaz de mentir. Havia estado tanto tempo sozinho, mas agora não poderia imaginar a vida sem ela. —Só encontramos a nossa companheira uma vez, pequena ruiva. —Se algo me ocorrer, não quero um desconhecido crie nosso filho, Jacques —Algumas vezes, Shea, um casal que deseja ter um filho se converte em melhor opção, que um companheiro destroçado. Sua respiração entrecortada, o forte muro que ela levantou para bloquear sua mente, o fez precaver-se do quanto era importante para ela, esse assunto. — Já parou para pensar que uma criança também pode ficar destroçado? Ter um pai que lhe apóie e lhe ajude a seguir em frente é muito mais importante. Essa vontade de escolher a morte, quando existe uma criança ou outros membros que dependem de você, é egoísta e mórbida. —Empenha-se em nos julgar segundo os costumes humanos. —Disse ele seriamente — Não faz idéia ainda dos fortes vínculos que nos unem. —Seus dedos apertaram firmemente os dela antes de levá-los à boca—. Possivelmente deveríamos deixar esta conversa para um momento mais apropriado. Quando estivermos a salvo e saibamos que Byron também está. Shea não conseguia compartilhar seus pensamentos com ele. — Estou segura de que tem razão, Jacques. —As lágrimas ardiam em seus olhos, mas Shea preferiu atribuí-las a sua sensibilidade perante a luz do sol e não à conversa.


Seguiu Jacques até a saída sem fazer maisnenhum comentário, mas mantendo cuidadosamente o bloqueio mental a fim de que ele não pudesse ler seus pensamentos. Podia entender por que ele preferiria escolher a morte se algo ocorresse a ela. Tinha estado muito tempo só e não poderia enfrentar à vida sem uma vínculo. Sem ela. Talvez ele estivesse com a razão. Talvez seria muito perigoso para o mundo. Mas se ela tinha que aceitar isso, sabia que não poderiam ter filhos. E a eternidade era muito tempo para viver. Ela não traria ao mundo, um bebê, sabendo o que Jacques pensava. Jamais se arriscaria a fazê-lo. Shea mordeu o lábio, o cansaço a fazia tropeçar uma e outra vez. Automaticamente, segurou-se em Jacques, em busca de apoio. Durante um momento tinha pensado que teria uma oportunidade de levar uma vida normal, possivelmente não com a normalidade que entendiam os outros, mas com uma estrutura familiar, um filho e um marido. —Basta, Shea. Agora não tenho tempo para te tranqüilizar ou apaziguar seus medos. Não pense mais nisso. Surpreendida de que ele tivesse atravessado seu bloqueio, ela contemplou aquele rosto tão fascinante, intenso e sedutor. Rosto que ainda trazia sinais de ter sofrido uma tortura que nenhum ser humano seria capaz de imaginar. Seus olhos, sem os óculos escuros que ele mantinha na mão, percorreram seu rosto e ela pôde ver ali, refletido o amor que ele sentia. Amor, que junto com o sentimento de posse, era uma promessa de que duraria toda a eternidade. Os dedos dele acariciaram seu queixo, enviando ondas de desejo que subiam vertiginosamente em sua sua coluna vertebral. O polegar roçou seu lábio inferior e um estremecimento reverberou em seu corpo e sua mente. —Seu lugar é estar a meu lado, Shea. Somos duas metades de um mesmo ser. Você é a luz que me guia na escuridão. Pode ser que eu seja cruel, pode ser que fique completamente, mas sei em meu coração e em minha própria alma, que não posso existir sem voce. — ele beijou suas pálpebras com suavidade. —Não sou fácil de matar, pequena ruiva, e não permito que ninguém destrua o que é meu. O tortura que vivi estes anos todos, me deu uma força de vontade fora do comum. Ela esfregou seu rosto contra o dele, procurando um lugar onde refugiar-se de seus sentimentos. —Somos tão diferentes, Jacques… Em todos os aspectos. É fácil dizer no calor de paixão que tudo sairá bem, mas a convivência pode ser extremamente difícil. Somos muito distintos.


Ele passou um braço ao redor de sua cintura, apressando-a para que se dirigissem ao refúgio que ofereciam as árvores. A chuva caía com força, emsopando-os. As nuvens, escuras e densas, formavam redemoinhos sobre suas cabeças. Mas Jacques já podia perceber os primeiros raios de sol através das nuvens. As primeiras horas da luz da manhã sempre o intranqüilizavam. Faziam-no ciênte da terrível vulnerabilidade em que estavam. Colocando os óculos escuros, começaram a caminhar com rápidas e largas passadas. Se Shea tivesse aceito o sangue do curador, poderiam ter trocado de forma e chegariam à cabana em um instante. Jacques sabia que ela tinha acreditado que ao bloquear sua mente tinha impedido que ele conhecesse seus pensamentos, mas ele jamais deixaria de saber o que ela pensava. Alguma parte dele estaria sempre em sua mente, imóvel, como uma sombra, mas ali de todos os modos. Shea sempre tinha sonhado ter um filho, para lhe dar o amor que nunca havia recebido. Agora pensava que já não era possível. Podia perguntar se uma criança era demais importante para ela, mas os companheiros não podiam mentir o um ao outro. Não podiam enganar-se mutuamente. Ele só podia rezar para ser capaz de escolher uma morte instantânea, sem escrúpulos e sem dúvidas, se algo ocorresse a ela. De outra maneira, temia converter-se no monstro que havia dentro dele. Um monstro que nem os humanos, nem sua gente poderiam imaginar. Havia algo terrível em seu interior e só Shea se interpunha entre essa besta e o resto de mundo. Não havia mais, maneira dela desfazer o vínculo que os unia. Sabia com cada célula de seu corpo e isso lhe dava uma idéia do quão forte era sua união. A fúria, sempre tão próxima, tão mortífera, estava sob controle, no momento. Mas só enquanto Shea estivesse com ele. Jacques sacode a cabela, asperamente. Agora era hora de encontrar Byron. Devia encontrá-lo. A necessidade de encontrá-lo e o pôr a salvo, era muito forte, até entristecedora, como se alguma parte dele, não sua mente, mas algo muito profundo dentro dele, recordasse a amizade que tinham compartilhado. Deveria ter deixado a Shea em transe. Deveria ter ordenado que dormisse, enquanto ele se ocupava de tudo, mas a verdade era que, simplesmente, não podia suportar separar-se dela. Queria-a por perto, onde pudesse protegêla. E queria que fosse feliz… Mulheres! Shea escutou aquele irritado protesto claramente em sua mente, e um pequeno sorriso apareceu em sua boca. — Estou-te complicando a vida, Jacques? — Perguntou docemente, com a voz carregada de esperança.


Ele se deteve tão abruptamente que, chocou-se com ela, detendo-a. Segurou um punhado do cabelo molhado e lhe jogou a cabeça para trás, para fazer com que a chuva deslizasse sobre aquela pele suave e doce, como o mel. —A verdade, Shea, é que você me faz sntir tanta emoção, que algumas vezes não sei se serei capaz de suportar. Sua boca esmagou-se contra a dela, faminta e desesperadamente, devorando-a como se pudesse engolir-lhe e guardá-la em seu interior, para sempre. — Não quero que te ocorra nada, jamais! Não o entende? — As mãos pressionavam sua pele. O corpo vibrava, rígido pela tensão, enquanto sua mente se debatia em um caos vertiginoso, cheio de medo, mas também de determinação. Quase sem dar-se conta, Shea reagiu instintivamente, rodeando-o pelo pescoço com seus braços magros, adaptando o corpo suave e flexível contra a agressividade dele, com a mente tranqüila e cheia de ternura. Um quente refúgio no quam sua mente destroçada estaria a salvo. Ela beijou-o sem reservas, colocando todo seu amor e seu apoio nesse gesto. Ele levantou a cabeça a contra vontade e apoiou sua cabela na dela. —Não vai me acontecer nada, Jacques. Acredito que está com ataque de ansiedade. — disse-lhe alvoroçando seu cabelo como se ele fosse um menino pequeno e sorriu divertida — Os homens de sua raça também vão ao psiquiatra? Ele riu suavemente, surpreendendo-se de poder fazê-lo, quando há tão pouco, estava aterrorizado. Segundos antes. — É tão desrespeitosa como só pode ser uma mulher. — Mas, acontece que não sou qualquer mulher, homem selvagem. Sou médica, terrivelmente brilhante. Todo mundo sabe. — Sério? — Ele manteve-a firmemente apertada contra seu corpo, como se quizesse introduzi-la em seu interior. Abrigando-a protetoramente em seus braços. — Poderá suportar o que vamos fazer, Jacques? Poderá enfrentar esses horríveis açougueiros, novamente? Crê que será capaz? Jacques ergueua cabeça, a fim de impedir que ela visse o sorriso do predador em sua face. — Estou desejando voltar a me encontrar com eles. Asseguro-lhe isso. Shea se introduziu brevemente em sua mente, encontrando uma sombria satisfação ao pensar em um confronto. Mas Jacques era muito forte para lhe permitir ver a fúria, o ódio e o


anseio de vingança que emanavam dele, ameaçando escapaar de seu controle e fazer-se dono da situação. Shea era uma médica, uma curadora. Era uma mulher tão doce, que não podia imaginar a maldade como ele tinha visto. Como a que ele mesmo possuía. Entrelaçou os suaves e magros dedos da mão pequena com os seus. Shea pensou que podia acontecer de jamais terem filhos, mas ela o tinha. Ela tinha Jacques. Queria afastar dele a dor e a tortura. Queria o afastar dos homens e das criaturas que tentassem lhe destruir novamente. Estava absolutamente decidida de lhe manter a salvo. Ele era seu companheiro.


Capítulo 12 Raven permanecia em pé, sob a precária proteção que proporcionava o alpendre, com o rosto elevado para o céu e os olhos fechados. Pequenas gotas de suor, deslizavam por sua face e seus dedos se retorciam compulsivamente sobre seu ventre. Não estava encontrando os outros. Estava em algum lugar fora de seu corpo, absolutamente concentrada em tentar encontrar a localização Byron. Em pé atrás dela, estava seu intimidante marido, com a mente obviamente unida a dela. Mikhail se parecia tanto com Jacques, que Shea era incapaz de afastar o olhar dele. Quando entrou na varanda, um passo atrás de Jacques, notou claramente que Mikhail estava furioso. Fervia de fúria. A violência formava redemoinhos em seu íntimo, embora sua postura fosse unicamente protetora. Colocou-se como escudo entre Raven e a ferocidade da tormenta. Gregori permanecia quieto como uma estátua e seu rosto era uma máscara inexpressiva. Seus olhos pareciam tão vazios como a morte e Shea deu uma ampla volta a fim de se esquivar dele. Havia algo de perigoso naquela imobilidade. Shea sentia que não havia forma de avaliar a complexidade da natureza dos homens dos Cárpatos. Gregori olhava Raven com os olhos semicerrados, inquietos. Olhos que enxergavam muito além. De repente, ele se exprimiu em voz baixa e com um tom tão grave e carregado de veneno que era assombroso para alguém de sua posição e poder. — Ela não deve correr nenhum risco. Está esperando um filho. —Seu olhar se cravou em Jacques. Prata fundida contra gelo negro, e entre eles, houve um total entendimento. Shea uniu sua mente a de Jacques para tentar compreender o que estava acontecendo. Raven estava grávida. E estando grávida, trocava tudo ao que homens se referia. Ela não pôde descobrir nada na figura de Raven que evidenciasse a presença de uma criança. Ela encontrava-se magra como sempre, mas também não acreditava que o médico estava enganado. Ele parecia infalível, completamente invencível. A criança era o mais importante para os homens. E dar-se conta disso a deixava assombrada, quase estupefata perante o respeito que eles mostravam. Era um milagre para ambos. Esse bebê era mais importante que qualquer uma de suas vidas. Shea sentia-se muito confusa. Apesar da escassa memória que conservava, a faceta


protetora do Jacques era extremamente forte. — Byron sabe o que lhe está lhe acontecendo, mas não pode se mover. Inclusive sua mente está bloqueada e imóvel. Paralisaram-lhe de algum modo. —A voz do Raven assustou Shea, levando-a de novo a concentrar-se na missão de resgate. Raven falava claramente de Byron. — Não pode nem se mover e nem gritar, nem sequer mentalmente. O lugar é muito escuro e úmido. Ele está consciente de que sofrerá enormemente. — Raven cambaleou e suas mãos se colocaram sobre o ventre, protetoramente. O curador se levantou imediatamente e segurando Ravem pelo braço, colocou-a na chuva. Gregori segurou Mikhail pela camisa e o colocou na fúria da tormenta. —Detenha-se agora, Raven. —ordenou Gregori — sacudindo Raven e Mikhail. — Se afastem de Byron agora. Jacques correu em socorro, pegou o irmão e esbofeteou-lhe ambas as faces. — Volte, Mikhail — disse roucamente. Shea mordeu o lábio, completamente aterrorizada. Parecia que o casal, de algum modo, haviam caído na armadilha do vampiro, juntamente com Byron. Gregori situou Raven de tal maneira, que a chuva lhe molhava totalmente. Jacques empurrou Mikhail atrás deles. Foi Mikhail quem se recuperou primeiro. Semicerrou os olhos, fitando seu irmão demoradamente, para depois observar tudo o que lhe rodeava, como se de repente não soubesse onde estava. Depois, instintivamente, procurou Raven. —Traga-a de volta, Mikhail. Vá atrás dela e a faça retornar. É muito perigoso para ela. Apesar da união que tem comigo, ela está presa. —Disse Gregori. — Estamos tratando com alguém ou algo mais que um simples vampiro. Estamos lidando com um perito em magia negra e no uso de ervas e pedras poderosas. Sei o que ele está fazendo e como o conseguiu. Mikhail abraçou Raven com força. Seuos olhos refletiam claramente a imensa concentração que estava fazendo. Raven piscou e olhou a sua volta. Parecia surpreendida de encontrar-se sob a chuva, em seguida, levou a mão à nuca, com um gesto de dor. — Por Deus! Deixem de me olhar! Sinto-me como se fosse uma paspalha. — Ela parecia ferida e escondeu o rosto no peito de Mikhail, que a abraçou com força, protegendo-a entre seus braços e inclinando a cabeça carinhosamente sobre a sua. Foi um gesto muito íntimo. Shea sentiu que devia oferecer-lhes um pouco de privacidade. Para seu desgosto, descobriu o curador estudando-a. Aproximou-se de Jacques, procurando inconscientemente


se amparo, frente aquele descarado escrutínio. — Precisa te alimentar. —disse o curador suavemente. — Quando tiver fome, comerei. —respondeu ela orgulhosa. — Não é preciso que se preocupe por todos nós. Eu sei como cuidar de mim mesma. Os olhos de Gregori faiscaram ante tamanha mentira. — Seu apetite é como uma aura em volta de seu seu corpo e sua debilidade colocará a todos em perigo. — Ele dirigiu seu poderoso olhar para Raven, que se mexeu visivelmente inquieta. — OH! Cale-se, Gregori. — ela grunhiu e seus olhos azuis lançavam chamas ao cravar-se nele. Um ligeiro sorriso apareceu nos lábios do Gregori, mas não chegou a iluminar seus olhos. — Não te disse nada. — Disse sim. E você sabe. — Levantando o queixo desafiadoramente. — Essa superioridade masculina que rodeia é suficiente para que qualquer mulher sinta desejos de gritar. Sinceramente, Gregori! Toda esta fria lógica é capaz de colocar qualquer um louco. — ela falou, antes de permitir que Mikhail a levasse para a proteção do alpendre. — A lógica funciona, mas não para as mulheres que se deixam levar pelas emoções. —Gregori permanecia imperturbável. —Sua primeira obrigação é proteger seu filho. E nossa obrigação é proteger você. — Seu olhar de prata estava carregada de reprovação ao olhar Mikhail. — Não sabe com segurança se estou grávida. — Não comece com seus joguinhos, Raven. Em algumas ocasiões, essa rebeldia tua me aborrece. Sei que está esperando um filho. Não pode me esconder. Mikhail sabe que estou certo, e sabe que não pode permitir que você se envolva em uma missão tão perigosa em semelhantes condições. Raven se voltou, tirou o cabelo do rosto e respondeu. — Não tenho que pedir permissão paraa ninguém para fazer as coisas. Sou eu a que me permito. Nasci e me criei como uma humana, Gregori. — Assinalou. — E unicamente, posso ser eu mesma. Byron é meu amigo e se encontra em dificuldades. Tenho toda a intenção de lhe ajudar.


— Se seu companheiro esta tão cativado por você, que lhe permite fazer semelhante estupidez…— replicou Gregori suave e tranquilamente. —… Então não posso fazer outra coisa que proteger você, eu mesmo. — Não fale do Mikhail!— Raven estava furiosa. —Realmente, você sabe como cavar sua própria sepultura com as mulheres, não é? — disse Mikhail, embora entendia perfeitamente Gregori e sabia que o que ele estava fazendo era totalmente justificado. Gregori nem sequer o olhou. Dedicou-se a observar fixamente a tempestade. —O filho que ela tem no ventre, é minha companheira. É uma mulher e me pertence. — Havia uma inconfundível nota de advertência em sua voz, quase uma ameaça. Em todos os séculos que estavam juntos, Mikhail havia ouvido Gregori proferir palavras iguais, jamais havia ocorrido algo semelhante. Imediatamente, Mikhail fechou sua mente a Raven. Ela nunca seria capaz de entender como se sentia Gregori. Sem uma companheira o curador não tinha outra opção que, ao final, destruir-se a si mesmo ou transformar-se na encarnação da maldade. Em vampiro. Em um morto vivo. Gregori tinha passado séculos intermináveis esperando sua companheira, seguindo em frente, quando muitos outros mais jovens que ele se renderam. Tinha defendido sua gente, vivendo uma solitária existência para manter a salvo a sua raça. Estava muito mais só que o resto dos seus, de sua espécie e era muito mais suscetível à chamada do lado escuro, pois tinha que caçar e matar mais freqüentemente. Mikhail não podia culpar seu velho amigo por aquela faceta possessiva e protetora que demonstrava para o bebê ainda não nascido. Falou calmo e firmemente, esperando poder evitar um confronto. Gregori tinha esperado durante tanto tempo que a possível promessa de uma companheira poderia levá-lo ao fio da escura loucura se acreditasse que havia algum perigo para a menina. — Raven não é como as mulheres dos Cárpatos. Sempre soubeste disto e aceitaste. Não querer permanecer isolada durante o tempo que durar a procura a Byron, vai judia-la. Sabe que ela gosta de ajudar. Gregori deixou escapar um grunhido, um som ameaçador que gelou o sangue de Shea e fez co que Jacques se preparasse para atacar e Mikhail trocar de posição para adotar uma melhor defesa. Raven empurrou o forte corpo de Mikhail e sem nenhum medo, pôs uma mão no braço do curador. Qualquer outra pessoa, pensaria que Gregori podia transformar-se a qualquer momento, mas ela sabia que ele estava esperando há séculos por sua companheira, e, instintivamente, sabia que ele não lhes faria mal. Nem a ela nem a seu filho.


— Gregori, não se zangue com o Mikhail. — Sua voz era suave e delicada. — Sua primeira obrigação é velar por minha felicidade. — Sua primeira obrigação é se proteger. —A voz do Gregori era uma mescla de luz e calor. — De alguma forma, é a mesma coisa. Não o culpe por não aceitar ao pé da letra o que você considera que deveriam ser meus limites. Não é fácil para ele, como tampouco, é para mim. Poderíamos ter esperado para ter um filho até que eu estivesse acostumada aos costumes dos nossos, mas levaria mais tempo do que você dispõe. É mais que um amigo para nós. Você é nossa família, uma parte de nossos corações. Não estamos dispostos a te perder. Por isso, rezamos para que nosso filho seja uma menina e para que cresça, te ame e te aprecie como nós. Para que seja sua outra metade. Gregori se moveu como se fosse dizer algo. — Não diga nada! — disse Mikhail na cabeça do curador. — Ela acredita que a menina terá escolha. Gregori inclinou mentalmente a cabeça para Mikhail. Se ele permitia que sua mulher acreditasse que a menina teria escolha, que assim fosse. Shea estava assombrada. Um homem tão poderoso, um líder tão óbvio como Mikhail, permitia tão tranqüilamente que outro homem lhe ameaçasse e fizesse recriminações como as que Gregori fazia. Estava começando a acreditar que o irmão do Jacques era um homem de bom caráter. Que era o amor e as fortes emocões que havia entre os homens e Raven, que lhe traziam lágrimas aos olhos. Esta era a família de Jacques, seu legado e havia verdadeiro amor, verdadeiro carinho entre eles. O que os faziam capazes de suportar enormes sacrifícios. Shea deslizou sua mão na do Jacques e se segurou nele, sentindo que tinha algo em comum com Raven. Os olhos azuis do Raven continuavam fixos em Gregori — Se deseja me examinar para saber o sexo do bebê, pode examinar. — Seu queixo se elevou. —Mas, se você quer que eu te aceite tal como é, com sua natureza predadora, também deve me aceitar tal como sou. Meu coração e minha alma podem ser como os teus, mas minha mente é humana e ninguém vai colocar-me entre plumas. Nem meu marido, nem você se julgarem que é necessário. As mulheres humanas saíram da idade de pedra faz muito tempo. Meu lugar é com Mikhail, mas devo tomar minhas próprias decisões. Se crê que é necessário acrescentar sua própria proteção a de Mikhail, estarei muito agradecida.


Fez-se um longo silencio e as chamas vermelhas que faiscavam nas profundezas dos olhos prateados se apagaram lentamente. Gregori sacudiu a cabeça devagar, totalmente exausto. Esta mulher era tão diferente das de sua espécie… Ela era temerária… E compassiva. Rompia, mesmo sem saber, muitas das normas e tabus que existiam entre os seus. Colocou sua mão sobre o ventre dela, estendendo seus dedos. Concentrando-se em seu objetivo, enviou-se a si mesmo para dentro do corpo de Raven. Conteve a respiração e seu coração pareceu derreter-se. Deliberadamente, moveu-se para envolver o diminuto ser, unindo-se com sua luz e sua vontade durante o tempo que durou um batimento do pequeno coraçãozinho. Não ia arriscar se. Esta era sua companheira e se asseguraria disso com todos os meios que dispunha, desde o vínculo do sangue até a união mental. Ninguém era tão paciente como ele. Esta menina era dele, só dele. Poderia esperar até que ela chegasse à idade adequada. — Fizemos certo, não é ?— disse Raven suavemente, trazendo Gregori de volta a seu próprio corpo. — É uma menina. Gregori se afastou de Raven, tentando tranqüilizar-se com todas suas forças. — São poucas as mulheres de nossa raça que chegam à idade adulta. As meninas raramente sobrevivem ao primeiro ano de vida. Não esteja tão segura de que já estamos a salvo. Deve descansar e deixar que cuidem de voce. A menina em primeiro lugar. Byron teria a mesma opinião. Mikhail deve se afastar deste lugar. Devem ir para do vampiro e dos assassinos. Eu os caçarei e liberarei nossa gente do perigo. — A voz do Gregori era muito grave, com resquícios de luz que se espalhava pelo ambiente. Mesmo serena, suave e razoável… Raven não se intimidou ante o desejo de fazer o que Gregori, lhe pedia. Olhou-o ferozmente. — Não tente isso comigo, Gregori. — ela voltou-se e incluiu Mikhail em seu olhar. — E você é exatamente igual a ele. Um macho arrogente e dominante. Olhe bem para eles, Shea. — ela então se voltou para Shea — São impossíveis. São capazes de fazer qualquer coisa para nos comandar. . Shea soltou uma gargalhada. — Já tinha notado. — Era tranqüilizante ver que Raven tinha aprendido a manter-se firme com os homens. Shea se sentia cada vez mais forte. — Não posso deixar Byron aí fora para que sofra o mesmo destino que Jacques. — insistiu Raven obstinadamente, fixando o olhar em Shea, buscando apoio — Não podemos.


Shea sabia os açougueiros humanos eram capazes de fazer e não podia abandonar Byron a um destino semelhante, da mesma forma que não podia afastar-se do Jacques. Assentiu com a cabeça. — Uma vez que tenhamos localizado Byron, vocês poderão ir buscá-lo. Eu ficarei com Raven e lhes esperaremos aqui. O vampiro não pode sair enquanto o sol seguir no céu, e estamos armadas, se por acaso aparecessem os humanos. — De qualquer forma, Mikhail, sabe que pode nos proteger dos humanos, inclusive a distância. —recordou-lhe Raven. — Shea tem razão, curador. —apoiou Jacques. Deviaa Byron. Não podia permitir que ninguém sofresse o que ele tinha sofrido. Olhou para Gregori. — Raven e Mikhail tiveram problemas ao unir suas mentes com Byron. O que é o que aconteceu? Como pode nos pegar esse vampiro? — Apanhou Raven e a mim através de Byron. Uma façanha bastante considerável — admitiu Mikhail. E esfregando-a mandíbula com um ligeiro desgosto acrescentou. — Não crê, meu irmão, que tenha se excedido um pouco na hora de me golpear? Os dentes de Jacques relampearam sob seu sorriso. Não pôde evitar de admirar a frieza que Mikhail tinha mantido sob uma ameaça mortal como a do curador e do vampiro juntos. Sua capacidade de brincar, de deixar de lado o ego dos homens de sua estirpe, era virtualmente um milagre. De repente, alguns fragmentos de sua memória voltaram a unir-se, trazendo-lhe lembranças de grandeza. De um líder, completamente dedicado à conservação de seu povo. Deslizou os braços ao redor de Shea, sua âncora com a realidade. Sua ponte entre o passado esquecido e o presente. Shea respondeu imediatamente. Estava tão unida a ele que não precisava de mais indicações. Apoiou-se contra o peito dele , enchendo a mente de Jacques de consolo. — Existe uma raiz. —explicou Gregori. — que se pode moer até convertê-la em um finíssimo pó que ao se misturar com dois tipos de ervas e salvia. É fervida até que começa a engrossar. Quando o líquido se evapora, a massa resultante é misturada com o veneno de um tipo de rã que vive nas árvores. Tenho ciência certa de que é isso o que o vampiro está usando. A receita é muito antiga e totalmente desconhecida para a maioria das pessoas, salvo para aqueles que estudam alquimia e magia negra. Só conheço outras duas pessoas, além de mim, que possuem esses conhecimentos. — Aidan. —Disse Mikhail brandamente. — Ou Julian. — Impossível. —Negou Gregori. —Perceberia sua presença se estivessem aqui,


inclusive se estivessem transformados. Reconheceria a qualquer um dos dois. —Exatamente, que efeitos produz essa droga? — Perguntou Shea. A identidade do vampiro parecia secundária. Ela estava mais intrigada com o resultado da mistura que Gregori havia se referido. Tinha estudado a fundo, as ervas. Estudara-as ampliamente. Algumas bastante comuns, como os rododendros, podiam produzir paralisia. Também sabia que o veneno da rã podia ser letal por si só. Certas tribos, em vários lugares do mundo, tinham descoberto suas propriedades e as usavam na ponta de suas flechas e lanças. De algum modo, a mistura de raízes, gomos e toxinas podia paralisar o sistema nervoso, inclusive afetar seriamente à mente. — Como se administra? — Deve introduzir-se diretamente na corrente sangüínea. —Disse Gregori. — Quem pode aproximar-se o suficiente dos homens de nossa raça para injetá-la? Um vampiro mesmp sendo bastante hábil para mascarar sua própria natureza, não teria força suficiente para vencer alguém da envergadura de Jacques. É inconcebível. —Disse Mikhail. — Jacques era um caçador, um dos encarregados de fazer justiça. Numa época em que os criminosos estavam dizimando a nossa raça, era duplamente precavido. — O vampiro lhe fez uma armadilha. Essa é a arma habitual de um impostor, não?— explicou Gregori com calma. —O amanhecer chegou. Devemos nos apressar. A chuva caía silenciosamente sobre o chão enquanto o vento sacudia as árvores. Jacques olhava fixamente para o bosque. Distintas peças de sua memória flutuavam em sua cabeça, e sussurravam. “Sangue. Muito sangue”. Aquelas palavras apareceram do nada. Os nós de seus dedos buscaram distraídamente seu pescoço. Ele franziu o cenho. — Foi uma armadilha de caçador, um arame quase invisível. Cortou-me a garganta. Ninguém se moveu nem disse uma palavra temendo romper a concentração de Jacques. Shea se deu conta de que estava contendo a respiração. As lembranças eram muito importantes para Jacques e agora elas podiam salvar a vida de Byron. Podia perceber a dor que aguilhoava sua mente e sentir como ele a bloqueava, colocando toda sua força de vontade no intento de continuar recordando. Ele esfregou-se uma sobrancelha com o polegar, e enrugou a testa. — Encontrava-me muito debilitado e então ele veio e me ofereceu seu sangue. Não queria lhe ofender, mas não queria tomar nada dele. Ele era… De algum jeito, não confiava nele. —Jacques continuou esfregando as têmporas fortemente com os dedos. — Não posso lhe ver o rosto. — Olhou Shea com os olhos carregados de desespero, angustiados. —Não sei quem é.


Shea o envolveu mental e fisicamente em seus braços, odiando as marcadas linhas de sofrimento que refletiam em seu rosto. —Faz muitos dias … E incapaz de se recordar. Jacques, o que conseguiu lembrar, é um milagre. — tentou lhe infundir confiança, sabendo perfeitamente que ele se aborrecia do fato de não poder se lembrar de nenhum outro detalhe. — O que terá que fazer é unir as peças. —disse Gregori e sua voz foi como um bálsamo. Colocou os dedos nas têmporas de Jacques, inspirou muito devagar e se concentrou em seu objetivo, saindo fora de seu corpo. Shea pôde perceber como ele dissolvia a dor, permitindo que Jacques recuperasse a calma. O poder daquele homem era extraordinário. Ela queria esse poder, queria senti-lo movendo-se dentro dela, aumentando até onde o curador lhe permitisse aprender. A voz do Gregori rompeu o feitiço. — Acredito que você aceitou a oferta. O veneno estava no sangue do traidor. — E por que ao traidor não foi afetado? Por que ele não estava paralisado? — disse Mikhail, com a voz tão cheia de ódio, que produziu um calafrio nas costas de Shea. Havia algo de seriamente perigoso nesses homens. Mais letal do que poderiam imaginar os humanos. Aceitavam a violência com tanta naturalidade como as criaturas que habitavam nos bosques e nos arredores. Eram predadores. E isso se percebia claramente na forma em que se moviam, em sua forma de ser, e em seus pensamentos. Gregori traçou lentamente um círculo sobre o chão do alpendre. Shea achou interessante que os três homens se colocassem entre a luz do amanhecer e as mulheres. — Há várias maneiras de se fazer. Mas, mas não temos tempo para nos entreter com esta discussão. Devemos atuar logo, neste momento, se for o que vamos fazer. Raven, enquanto esteve conectada com Byron, captou alguma direção, algo que pudesse nos servir de ajuda? — Não estava sozinho. Estava em algum lugar sob o chão… uma caverna, talvez. Era um lugar úmido e cheirava a mofo. Não está muito longe daqui. — Raven olhou Mikhail com olhos tristes, tinha medo de que essa informação não fosse suficiente para encontrar o homem a tempo. Bastava um dia em companhia desses dois açougueiros humanos para que Byron sofresse uma morte horrível. Mikhail entrelaçou seus dedos com os de Raven e os levou aos lábios, mostrando compreensão e afeto.


— O porão, Jacques. —Disse Shea de repente, muito nervosa. —Levaram-lhe para o porão. Não devem conhecer estas terras muito bem, pois se limitaram a voltar onde já levaram a cabo suas maldades anteriormente. Sei como são. São muito arrogantes, particularmente o que se chama Dom Wallace. Seria muito próprio dele usar o mesmo lugar, pensando que estaria se divertindo diante de vossos narizes. — Pode ser que esse lugar seja úmido e cheire a mofo. De acordo, mas eles dariam conta de que o ataúde do Jacques desapareceu. Saberiam que o lugar foi recentemente registrado. —disse Mikhail pensativamente. — Certo, mas será que já não disseram ao vampiro que Jacques está vivo? Ele nos viu, Jacques e a mim e Byron,no bosque. — Disse Shea —Se sentirão a salvo, porque se supõe que todos vós estão a se esconder durante o dia, e lhes asseguro que este é exatamenteum o modo de pensar, de um tipo como Wallace. Acredita que todos vós são vampiros e não podem sair durante as horas do dia. — Esse Wallace, —Disse Mikhail —É o sobrinho de Eugene Slovensky, inimigo de todos os homens de nossa raça. Encontramo-nos com antecedência, embora brevemente. Acredito que a senhorita tem razão. Acredita que é mais inteligente e mais hábil que nós. — Aidan lhe teria feito um enorme serviço a nossa raça se lhe houvesse exterminado, teve oportunidade. —Observou Gregori. —Mas já tínhamos suficientes problemas aquela noite, com o Mikhail ferido e Raven nas mãos desses loucos. — Pode ser que Aidan tenha se transformado? — Especulou Shea. Gregori moveu a cabeça lentamente. — Não havia se transformado antes, tampouco agora. É tão líder como Mikhail ou como eu. O mundo teria se informado se alguém de nossa envergadura houvesse se transformado na criatura mais abominável de todas. Não, não é Aidan. De qualquer maneira, ele tem um irmão gêmeo. , Ele saberia imediatamente se Aidan tivesse sucumbido ao lado escuro. — A voz do Gregori era grave e tranquila, repleta de segurança. Shea sacudiu a cabeça para livrar do efeito hipnótico. O poder de Gregori a assustava. Sua voz por si só poderia conseguir qualquer coisa, provocar a resposta que quisesse em qualquer um deles. Ninguém deveria ter essa aura de poder. — E por que não podemos detectar o vampiro quando ele está por perto? —perguntou Mikhail sem dirigir-se a ninguém em particular. —Sondei a área e não pude detectar ninguém de nossa espécie, nem sequer Byron.


— Shea é capaz de detectar sua presença, embora eu não possa fazê-lo. — Disse Jacques. — Ao princípio não estava seguro de que fosse real, mas pude perceber as imagens que havia em sua mente quando nos unimos. Shea levantou o queixo em atitude desafiante. — Como explica isso, Gregori? Como pode alguém fazer uma coisa dessa? Gregori dirigiu todo o poder de seu atrativo olhar prateado para ela. — Posso fazer que a terra trema sob seus pés e trazer relâmpagos dos céus para que cumpram minhas ordens. Posso fazer com que deixe de respirar com um só pensamento. Posso tomar qualquer tipo de forma, desde um pequeno camundongo até um lobo correndo com a alcatéia. Não é isso suficiente para que acredite em mim? — Perguntou com delicadeza. Sua voz era pura magia negra. Isso era o que Shea acreditava. Tremendo, aproximouse de Jacques. Todos confiavam em Gregori. Não era ele, um dos mais antigos? Todos haviam lhe dito que um vampiro podia mascarar-se, parecer um homem normal. Ninguem suspeitava dele. Todos estavam de acordo de que ele era o mais perigoso, que possuía conhecimentos adquiridos através dos séculos, e era seu curador, havia doado sangue a todos. Seu cérebro começou a analisar todas aquelas peças do quebra-cabeças. —É impossível. —Jacques havia lido seus pensamentos. — Por que? —perguntou Shea. —Mikhail saberia. Não sei como estou seguro disso, mas Gregori não poderia esconder uma coisa dessas de Mikhail Ela deixou escapar um pequeno suspiro de exasperação. Jacques ocultou o sorriso que lhe produzia aquela amostra de vaidade feminina. Estava claro que Shea realmente se aborrecia com Gregori que se mostrava tão dominante com as mulheres. — Há um humano a poucos quilômetros daqui. —Disse Mikhail —Não posso detectar a outros. Está na direção da velha casa de Jacques. Vamos? Nesse momento, a luz começava a aparecer no céu, deixando ver traços cinzas em lugar da escuridão. As nuvens seguiam se movendo e a chuva não parava de cair. — Vá, Mikhail —insistiu Raven—. Deve ir, de outra maneira sempre sentirei que tenho a culpa de sua morte. Se não ir será por mim.


— Tem que ir —Acrescentou Shea olhando os olhos negros de Jacques. Ele a olhou por sua vez. Shea estava totalmente decidida. Chegaria um dia em que Jacques recordaria sua juventude, a grande amizade que compartilhava com Byron, e como tinha retrocedido ante o pedido de reconciliação deste. Precisava fazer isto por seu próprio bem. —Sei. — Sua resposta foi um suave assentimento na mente de Shea enquanto compartilhavam seus pensamentos. — Eu irei, Mikhail. —Disse em voz alta — Você fica e protege às mulheres. É a única maneira. — Pode ser que seja uma armadilha. —Advertiu Gregori— O mais provável é que o seja. De outro modo, seriam muito descuido, da parte de alguém que se considera tão hábil. — Por isso todos devem ir —Disse Raven— Shea e eu esperaremos aqui. Podemos nos encarregar de destruir todas as evidências da investigação enquanto esperamos. Shea não pôde evitar o grito que escapou de sua garganta. Elevou o queixo desafiante, não ia deixar-se intimidar por estas poderosas criaturas. Seus olhos relampejaram enquanto lhes observava. — Dediquei muitos anos de minha vida para reunir esta informação. —Disse furiosa. Raven lhe segurou a mão e lhe deu um ligeiro toque de advertência. Afastou Shea para a porta da cabana, a fim de separá-la de Jacques — De acordo, Shea. Faremos isso. — Devem sair daqui e se ocultarem em um lugar seguro. —advertiu Mikhail, a sua companheira. — Não tentará se comportar como uma heroína. Me dê sua palavra. Raven sorriu, olhando-o nos lhos em um íntimo e terno assentimento. — Jamais poria em perigo nosso bebê, meu amor. Mikhail se aproximou e acariciou a face de Raven, deslizando os dedos docemente sobre sua pele, enquanto seu corpo começou a enquanto trocava de forma, desaparecia. A pele de seus braços resplandecia, assim como a de suas costas. Sua poderosa figura se inclinou para dar um poderoso salto, aterrissando já transformado num impressionante lobo negro. Shea abriu os olhos desmesuradamente, atônita ante a rapidez da transformação. Ver um homem converter-se em lobo era algo realmente fascinante. Seu coração pulsava com tanta força em seu peito que ela temia que fosse explodir. Não estava segura se era pela excitação ou por puro pânico.


— Jacques! — Tranqüilize-se, meu amor, tudo vai estar bem . —Para acalmá-la, ele se inclinou para lhe dar um beijo — Esta é a forma em que nossa gente se utiliza dos animais que nos reodeiam. É algo natural para nós e nos ajuda a proteger nossa pele e nossos olhos da luz do sol. —Já me encontro perfeitamente, homem selvagem. Pegou-me despreparada, isso é tudo. —S hea respirou profundamente para tentar acalmar os tremores que sacudiam seu corpo. Deu-se conta de que estava pendurada na mão de Raven e, timidamente, soltou-a. Jacques depositou outro beijo sobre sua fronte, antes de afastar-se do alpendre para entrar no denso bosque, assegurando-se de estar fora das vistas de Shea antes de que seu corpo começasse a transformar. Os olhos prateados de Gregori se moveram sobre as duas mulheres, para finalmente posar em Shea. — O bebê deve ser protegido. Não me serve de nada apelar para a lógica de Raven, já que ela que não tem e Mikhail está tão atordoado com ela que não é capaz de levar a seu cabo sua obrigação. Então, ela está em suas mãos. Pelo bem de todos nós, deve proteger esta menina. Compreende? Shea se sentiu seduzida por aqueles olhos. Podia não entender totalmente seus motivos mas sentiu sua genuína urgência. Assentiu. — Cuidarei dela, curador. — Não é só por meu bem, mas também pelo dos humanos e o da pessoas de nossa raça. Este bebê deve sobreviver, Shea. — Repetiu — Ela deve sobreviver. Shea percebeu claramente a advertência e a súplica de sua alma condenada. Este bebê era sua única esperança. Pela primeira vez, acreditou que ele não era o vampiro que estavam procurando. Tinha um medo aterrador de transformar-se e aquela menina era sua única oportunidade de sobreviver. Shea assentiu, olhando fixamente seus olhos para que ele soubesse de que era plenamente consciente do perigo. Por consideração a ela, Gregori também entrou no bosque antes de transformar-se e se dirigiu para as ruínas da velha casa de Jacques. Raven abriu a porta da cabana, afastando-se da tormenta para introduzir-se para o interior da habitação. — Conseguirá se acostumar. A primeira vez que vi Mikhail, não tinha a menor ideia do


que ele era. Acreditei que tinha poderes psíquicos, como eu, acredite. Causou-me um verdadeiro susto quando descobri. Não podia nem imaginar que d criaturas semelhantes existissem. Shea lhe dirigiu um pequeno sorriso. Estar de volta na cabana era reconfortante, com todas as coisas familiares a seu redor. — Ainda não estou segura de acreditar em tudo isto. Ainda espero despertar em meu consultório, nos Estados Unidos, a qualquer momento. — Apanhou uma toalha e a lançou a Raven, tomando outra para ela mesma. Tinha o cabelo ensopado e se sentia reconfortada em fazer algo tão mundano como secar-se com uma toalha. — Levamos uma vida relativamente normal, Shea. Mikhail e eu temos uma formosa casa nessa impressionante terra. Mikhail tem muitos negócios. Temos amigos, bons amigos. Viajamos bastante. O que aconteceu a Jacques foi uma tragédia terrível para todos nós. Me alegro de que ela a tenha agora, todos nos alegramos. — Raven se enrodilhou em uma poltrona. A luz do dia estava cobrando seu corpo, já sobrecarregado pelo incomodado. Shea se apoiou contra a cama e estudou Raven. Era uma mulher formosa, um pouco pálida e com estranhos olhos entre azuis e violetas. — Jacques ainda está bastante doente. Esforça-se para recordar sua vida. Mas é muito difícil. — começou a passear de um lado para outro—. Estou muito preocupada. Acredita que nem sempre ele se comporta de maneira civilizada. Há tanto sofrimento em seu interior… — Shea? Precisa de mim? —A voz de Jacques soou claramente em sua mente. Parecia preocupado, como se tivesse lido seus pensamentos. Ela se deu conta de que Jacques era incapaz de liberá-la completamente. Deveria sentir-se ofendida, mas a verdade era que a fazia se sentir segura. Estava começando a acostumar-se com sua proximidade. —Estou bem, Jacques. Tenha muito cuidado. —Era uma sensação estimulante poder falar através do tempo e do espaço, poder tocá-lo sempre que quisesse ou sempre que necessitasse. Que sempre soubesse se ela estava em dificuldades. Shea olhou para Raven e notou sua respiração agitada e automaticamente se aproximou para tomar o pulso. Raven riu, e se moveu. — Meu marido está fazendo travesso. Gosta de me ter pensando nele quando está longe de mim. Estou bem. Pode pensar que Jaques vai te deixar louca, mas terá que


reconhecer que eles são fascinentes e em várias ocasiões, muito divertidos. E menos mal, porque vivem muitíssimo tempo. Não seria um inferno estar presa, durante séculos, a alguém que incrivelmente aborrecido? — O curador é muito perigoso? Raven inspirou bruscamente. — A verdade é que Gregori é o mais perigoso de todos os homens dos Cárpatos. Mikhail acredita que Gregori é inclusive mais frio que ele mesmo, e é muito dizer que… Sele sabe de muitas coisas, mais que nenhum outro. Meu marido está muito preocupado por ele. Se ele se converter em vampiro, todos estaremos em grave perigo. Mikhail o ama. Nós o amamos. Por isso decidimos ter um bebê agora e não esperar até mais tarde. Para lhe dar uma companheira. As mulheres dos Cárpatos já não têm meninas. Ninguém sabe por que, mas as meninas que nascem raramente sobrevivem ao primeiro ano de vida. Mikhail e Gregori acreditam que uma companheira humana poderia lhes dar filhas, e acredito que têm razão. Gregori disse que este bebê é uma menina, sabia? — Por isso meu pai desejava tanto uma filha. Minha mãe não chegou a lhe dizer que estava grávida, mas em seu diário, comentava que ele havia sentido se desgostoso quando Noelle deu a luz a um menino. — Eu conheci um pouco a seu pai. —disse Raven suavemente. —sentiu-se muito perturbado pela morte do Noelle. Queria caçar os assassinos, mas Mikhail disse que era muito perigoso, ele estava muito perdido. Obrigaram-lhe a dormir durante muitos anos. — Dormiu assim, sem se preocupar com mais nada? —Shea estava furiosa por uma razão que não podia identificar. Pensar que esse homem havia estado dormindo enquanto sua mulher jazia assassinada, sua amante grávida e sozinha, enquanto seu filho crescia sem sua ajuda. Estava realmente muito furiosa. Tinha a sensação de que não iria gostar muito de seu pai. — Precisa entender esta gente, Shea. A classe e o poder que têm, a devastação de que são capazes de fazer. Podem controlar a terra, provocando terremotos que destruiriam cidades inteiras. O autocontrole é um grande problema para todos eles. Alguém como Gregori é uma bomba relógio. Ele sabe, Mikhail sabe, todos sabemos. Rand estava tão alterado, que era um perigo para todos os que lhe rodeavam. Mikhail fez o que pensou que era melhor. Tanto pela segurança dos humanos como dos seus. Rand obedeceu porque Mikhail é seu líder. Jamais pareceu estar muito ligado a alguém, muito menos a seu filho. Inclusive agora, é um solitário que raramente se deixa ver. Passa a maior parte de seu tempo sob a terra.


— E Rand não disse a ninguém que minha mãe existia… — disse Shea com amargura — A vida de minha mãe ficou destruída e ele podia ter impedido. — Sinto-o muito, Shea. Deve ser horrível para você. Se sua mãe era a verdadeira companheira de Rand, deve ter sido incapaz de seguir vivendo sem ele. É um vínculo entre almas. — Raven suspirou, afastando o olhar da aversão que refletia no rosto de Shea. — Noelle não era a companheira verdadeira de Rand. Eu gostaria de acreditar que o amava, mas todos pensavam que simplesmente que ela estava simplesmente obcecada por ele. Não tenho nem idéia do por que Rand continuou com ela. Noelle foi uma estúpida por não esperar para conhecer seu verdadeiro companheiro. Rand é um homem muito bonito. Deve ter confundindo a luxúria com o amor. — Quis sempre dizer a Rand que ele é um verme imundo. Desde o primeiro dia que li o diário de minha mãe. E não quero sentir por Jacques, o mesmo ela sentiu por Rand. Não até o extremo de abandonar a um filho, De viver como se estivesse morta, de se limitar a esperar que a filha crescesse, só para então tirar sua vida. — Não todo mundo tem a força necessária para suportar, Shea. — consolou-a Raven docemente. —Olhe quanto agüentou Gregori sem companheira. Mikhail e Jacques, Aidan e seu irmão Julian. Todos esperaram muito mais que os outros. Muitos outros se transformaram porque não foram o suficientemente fortes para seguir em frente. Por que? Por que Gregori e nãoeste vampiro? O que ocorreu com sua mãe não é obrigado a acontecer a você. Não é a mesma pessoa. Você é muito forte, e sua mãe não tinha como saber o que lhe acontecia. Shea percorreu o aposento. De repente sentia-se muito nervosa. Aquela conversa estava fazendo um nó em seu estômago. Será que Gregori era capaz de provocar um terremoto que destroia cidades inteiras? Manter a salvo o bebê que estava por nascer era inclusive, mais importante do que ela tinha pensado. Centenas, possivelmente milhares de vidas, dependiam disso. Isso era o que Gregori tinha tentado lhe dizer. Ele precisava dessa menina para continuar vivendo sem se transformar em um vampiro. — Sinto muito, Shea. Entramos em águas profundas sem sequer te ensinar a nadar. Desejaria poder te ajudar. — Disse Raven. — Sinto que estou a tanto tempo assustada que já não conheço outra forma de vida. —confiou-lhe Shea. — Jacques depende de mim para manter-se tranqüilo e ainda por cima agora acontece tudo isto. Espero que tenha razão, Raven. Espero ser muito forte.


Capítulo 13 Jacques chegou até os confins do bosque, e encontrou Mikhail andando com cuidado sobre uma porção de terra desprovida de erva. —Armadilhas para lobos —disse brevemente e continuou com a inspeção. — Ele usa arame muito fino, Jacques— Ele é capaz de ocultá-los.

possivelmente invisíveis para nós —lhe advertiu

O corpo do Gregori se materializou entre brilhos, manteve-se imóvel, inspirando o ar do amanhecer. —É uma armadilha gigantesca, meus amigos. Inquieta-me encontrar somente um humano junto a Byron. —Se é que Byron está aí dentro — Jacques apoiou a teoria do Gregori— Onde estão outros? —O vampiro deve estar escondido. Afastado do sol — disse Mikhail — Não há nada que lhe permita suportar a luz do dia uma vez que sucumbiu à transformação. —Então, onde está o companheiro do humano? —perguntou Jacques em voz alta. Mikhail encolheu os ombros, ele também se sentia intranqüilo. —Sugiro que nos aproximemos em silêncio e de uma maneira invisível para o olho humano. — Vamos nos separemos. Assim, podemos nos ajudar em caso de necessidade. —O cabo —disse Gregori com apenas um fio de voz— está estendido, cruzando o prado em várias direções e alturas. É uma espécie de dispositivo preparado para atravessar a garganta, mas também, está disposto de forma que produza inumeráveis cortes em diferentes lugares do corpo, com o fim de nos debilitar. Obviamente, ele não pensou em qualquer outra criatura, nem animal, nem humana que tivesse a desventura de passar por aqui. —OH, é certo… Muito ardiloso, nosso vampiro —disse Mikhail—. Definitivamente, espera-nos, embora temo, que não até esta noite. Possivelmente seus amigos humanos foram buscar provisões, pensando que têm todo o dia para torturar Byron sem que ninguém os


interrompa ou os atemorize. —Não sei, Mikhail. Há algo que me incomoda —advertiu Gregori— Algo não está certo. —Eu também percebo —Jacques concordou — embora não sei explicar com exatidão do que se trata. Dá-me a sensação de que tudo está previsto, como se estivéssemos andando pela teia de uma aranha. Cconheço este lugar. Posso sentir a dor e o tortura como se tudo estivesse acontecendo de novo — e de fato, ele o sentia realmente. Suas vísceras se retorciam e se encolhiam de dor. Era difícil manter uma aparência calma quando seu corpo se arrepiava e a dor o atravessava, fazendo pedacinhos em sua mente até não distinguir o que era real e o que pertencia a seu interminável pesadelo. —Possivelmente esteja percebendo o sofrimento Byron —s ugeriu Mikhail com preocupação. O rosto do Jacques permanecia impassível, mas se marcavam rugas de tensão e um suorvermelho começou a cobrir sua frente. —Jacques, está ferido? Irei aí com você —a suave voz da Shea girou em sua mente, captando fragmentos dos pensamentos de seu companheiro e unindo-os para reparar o mal. Ela era, como sempre, sua única âncora à realidade. — Fique aí, mas mantenha contato comigo, Shea. Estar tão perto deste lugar me desorienta. Preciso de você para manter a prudência —era um ordem, mas Jacques não tinha outra opção. Ela era sua companheira, e a presença da Shea em sua mente podia significar o êxito ou o fracasso de sua missão. Ele não queria ser o causador da morte dos outros. Um implacável sorriso apareceu nos sensuais lábios do Gregori, mas os olhos prateados careciam de humor e brilhavam ameaçadores. — Estão tentando nos capturar, Mikhail. A nós, os mais importantes de nossa Estirpe. Acredito que necessitam de uma verdadeira demonstração de poder. Jacques olhou Mikhail com desconforto. Possivelmente, se devesse à maneira em que seu corpo se lembrava de cada queimadura, cada corte. Com os anos a dor se intensificava, se é que podia sentir. Ao contrário de um vampiro, um homem dos Cárpatos era capaz de ter intensas sensações. Jacques tinha sofrido o que nenhum homem, nem humano nem pertencente à estirpe dos Cárpatos, poderia ter suportado. Nem sequer foi em nome da ciência, mas sim pelo simples sadismo de infligir a maior dor possível. —Volte, Jacques —a voz da Shea estava carregada de preocupação.


—Não posso. Não posso abandonar Byron para que sofra o mesmo destino que eu. —Percebo seu sofrimento, Jacques, mas está demorando muito se concentrar no que está fazendo. Sua mente está fragmentada. Que ajuda vai poder dar a Byron se lhe apanharem? Volte para meu lado. —Eu o encontrarei, mas fique comigo, Shea —Jacques se concentrou nela, mantendo a força e candura de sua mente, a fim de lutar contra a crescente dor. A terra parecia se agitar sob seus pés. A chuva caía com força e ele sentia o corpo arder, inclusive sentia o cheiro da carne chamuscada. Os cortes se abriam e sangravam profusamente. Segurou o peito, quando a dor o atravessou, rasgando músculos e fragmentando seus ossos. Sua a garganta se fechou, tornando impossível respirar, Sentiu seu coração pulsar tão rápidamente que pensava que ia explodir.

— Jacques! Pequenas feridas vermelhas apareciam pelo corpo de Jacques, manchando sua camisa de sangue. Seus olhos refletiam dor e loucura. — Estou aqui. Shea segurou o canal de informação da mente de Jacques e o envolveu na em seu amor. — Sinta-me, Jacques. Concentre-se só em mim, no que sente quando me toca. Quando me beija. — Em seguida, deixou que as lembranças e imagens de quando estavam juntos, tomassem sua mente, segurando-se a ele de forma possessiva e terna, enquanto ele beijava seus lábios com avidez. Mostrou-lhe que se sentia, ardente e suave pela paixão, transmitiu-lhe a necessidade que ele despertava em seu corpo, sua boca faminta tomada pelos lábios masculinos. Enterrou suas mãos, no cabelo escuro. — Sinta-me, Jacques. Jacques se concentrou, bloqueando tudo o que não fosse o aroma e o sabor da Shea. As carícias de suas mãos e sua voz sensual, suave. Ela havia se convertido em seu mundo. Shea era seu único mundo e sempre o seria. Nada mais era real. Ela era seu coração, seu fôlego de vida. A respiração de Shea devolveu a seu coração e seu corpo, um ritmo pausado. Os batimentos do coração de sua companheira lhe devolveram o ritmo normal do seu. Tinha a pele abrasada, mas já não mais pelo sofrimento ou pela tortura, mas sim pela fome que Shea tinha despertado nele. A respiração de Shea parecia roçar sua orelha, sua mente. — Amo você, Jacques. Faça o que tem de fazer e volte rápido para casa, para mim.


— Shea o liberou contra a vontade, embora a certeza de seu amor o acompanhou durante um momento mais. Jacques agitou a cabeça para voltar para a realidade. Nesse instante, a terra se agitou sob seus pés e a dor tentou apanhá-lo novamente, mas o vampiro não o pegaria duas vezes na mesma armadilha. Sacudiu-se violentamente, concentrando-se no sabor dos lábios de Shea, na curva de seu quadril sob sua mão, no brilho que seus olhos adquiriam quando estava a ponto de rir. Manteve-a amarrada a seu coração, reteve a visão de sua cabeleira vermelha e selvagem diante dele, enquanto abria caminho através dos fios emaranhados. — Bom —felicitou-lhe, Gregori. — Mas este vampiro é muito hábil. Não gosto disto, Mikhail. É melhor que nos aproximemos pelo ar, sobre os arames, cada um de uma direção diferente. Eu irei em primeiro. Nossa gente não pode se permitir perder nenhum dos dois. — Gregori — lhe recordou Mikhail com suavidade— Se o bebê for sua companheira, você está se arriscando. Estará a condenando a morte. Recorda-se disso quando entrar nesse lugar de loucura. Os olhos de Gregori fulminaram seu velho amigo. — Crê que eu me arriscaria a machucá-la? Esperei-a durante centenas de anos. Estes humanos não são de nada. Perseguiram a nossa gente por muito tempo. Minha intenção é detê-los. Mikhail assentiu com um gesto. Seus olhos escuros, tão semelhantes aos de seu irmão eram puro gelo negro. — Está preparado para isto, Jacques? O desumano sorriso do Jacques era uma sentença de vingança. — Não se preocupe por mim. Estou desejando encontrá-lo. Mikhail suspirou. —Dois selvagens sedentos de sangue que ainda se acreditam na Idade Média. Jacques intercambiou uma careta com o Gregori. — Os Anos escuros não foram tão maus. Pelo menos, podíamos correr atrás de justiça sem nos preocupar com o que pensavam as mulheres. — Amoleceram… Vocês dois. — disse Gregori tentando sufocar o riso. — Não sente saudades de quando tínhamos tantos problemas? As mulheres os governam, homens


embrutecidos. Obedecem-nas ao pé da letra. O corpo sólido do Jacques se agitou e começou a esfumar-se no ar. —Já veremos quem é o mais submisso, curador — disse enquanto seu corpo desaparecia por completo. Mikhail lançou um olhar a Gregori, encolheu os ombros e seguiu seu irmão. Não gostava da situação. Gregori era uma bomba relógio a ponto de explodir e só Deus sabia do que Jacques era capaz. Era a pior forma de enfrentar a um inimigo, justo quando a luz do sol começava a fazer mal a eles. Gregori esperou até que Mikhail e Jacques desapareceram e só então se dissolveu. Elevou-se ao céu, estremecendo-se de dor cada vez que os raios do sol atravessavam as nuvens escuras,. Seus olhos ardiam. Amaldiçoou silenciosamente. Raven estava sozinha com uma mulher que não sabia nada das capacidades que possuía. Raven estava muito fragilizada e esse bebê representava sua única esperança de salvação. Era uma estupidez resgatar a um homem dos Cárpatos tão próximo à transformação. Em alguns anos, ele estaria perseguindo-o para lhe dar fim. Jacques cruzou o prado muito acima dos arames que agora brilhavam à luz do sol. As gotas do venenodançavam nos finos fios, como pequenas lágrimas de cristal. Rodeou as enegrecidas ruínas vagarosamente, procurando a entrada oculta no chão. Incomodava-lhe não saber o lugar exato ou que os outros o encontrassem antes dele. O fazia sentir inútil, totalmente incompetente. Uma suave gargalhada enviou calor a seu corpo. — E desde quando foste você, um incompetente? Já me deixava louca quando estava preso numa cama, supostamente indefeso. A primeira vez que me beijou, esqueci-me até de meu nome. Isso não é incompetência, Jacques.. Jacques sentiu a tensão abandonar seu corpo. Shea o obtinha com o simples som de sua risada, com sua candura e sua atenção. —Estou procurando a entrada ao porão. Mas parece estar intacto. Não há nenhum indício. — Quando atravessei a clareira e me aproximei das ruínas, a chaminé estava à direita. Rodeei todo o perímetro do lado direito. A porta estava enterrada sob a terra, não pude vê-la, mas a encontrei no toque. Lembro-me que a chaminé estava à direita, a uns três metros mais ou menos.


—Obrigado, pequena ruiva —Jacques se escondeu sob a chuva, e percorreu com a palma da mão o barro escorregadio. — Há algo ali! — disse Mikhail em voz baixa enquanto procurava armadilhas ocultas. Seu corpo flutuava no ar enquanto examinava. — Há rastros, como se tivessem limpado o chão com um ramo. Afastaram as pedras e o pó. —Não toque em nada. — ordenou Jacques bruscamente— A chaminé deveria estar a sua direita e mais afastada. — Recorda-se deste lugar? —perguntou Gregori com ceticismo. —Shea recorda. Deve ser outra armadilha, curador. A chuva teria apagado essas marcas. —Não dispunham de muito tempo para colocar tais armadilhas —comentou Mikhail— Se levaram Byron faz uma hora , não muito. — Pode ser que estejamos subestimando este vampiro, Mikhail. Eu poderia colocar todas estas armadilhas, igual a você. Aidan e Julian também seriam capazes, e sem dúvida alguma, Jacques. A quem mais conhecemos, que possua este tipo de poder? — perguntou Gregori com suavidade. —Ficam poucos que superaram os seiscentos anos — disse Mikhail. — Possivelmente se trata mais de ódio que ele sente, do que da idade que tem — aventurou Jacques— O que me fizeram foi sem dúvida planejado para provocar a maior dor possível antes que a morte me reclamasse. Isso é vingança e ódio. Mikhail e Gregori trocaram um rápido olhar. — É claro! Tem razão, Jacques. — assentiu Mikhail em nome dos dois — Um vampiro nos evitaria, tentaria não atrair nossa atenção. Então, a quem você zangou o suficiente para angariar todo esse ódio? Jacques encolheu os ombros com calma. Sentia um ódio profundo e latente. Uma ira tão profundamente arraigada, que era consciente de que o demônio se levantaria em seu interior no momento em que avistasse qualquer dos que tiveram envolvidos em sua tortura e enclaustramiento. Quem quer que fosse aquele que o odiava tanto, havia sido o responsável para que o mesmo sentimento se estendesse em seu interior. Não se igualava ao ódio do vampiro, ia muito além disso. — Vocês recordam meu passado melhor que eu, mas realmente não importa que ele


creia que o ofendi — disse Jacques — Aqui está a porta. — O humano meio dormido — Mikhail mediu com cuidado a mente do homem — Confia por completo que ninguém o incomodará. Gregori também media o humano. — Eu não gosto disso, Mikhail. Parece muito fácil. O vampiro sabe que podemos nos deslocar nas horas do amanhecer. Possivelmente não estejamos de um todo em forma, mas ainda debilitados podemos dirigir com facilidade um humano. —Permaneca escondido, Gregori, e vigie nossas costas — disse Mikhail — Obrigarei o humano a abrir a porta do porão e nos deixe entrar. Jacques e eu procuraremos a armadilha. — Jacques e eu entraremos aí, Mikhail. Não podemos arriscar sua vida e você sabe — disse Gregori sem esperar resposta. Tinha passado a maior parte de sua vida protegendo Mikhail, o braço da justiça dos seus. E Agora, com sua companheira quase chegando ao mundo, não se afastaria de seu dever. Apoderou-se da mente do humano com facilidade e procurou a informação que necessitava.

Jeff Smith despertou súbitamente com dor de cabeça e uma estranha inquietação. Em sua mente havia algo que não lhe pertencia, algo que estava lhe exigindo detalhes dos últimos dias, insistindo em uma repetição passo a passo,das últimas horas. Tentou resistir, mas era muito grave para ignorá-la. Sem querer, deu-lhe todos os detalhes. O vampiro transportando o homem dos Cárpatos, paralisado. Donnie queimando e esfaqueando à vítima. Slovensky gargalhando e incitando-o ainda vez mais. O vampiro em pé, imóvel, olhando-os com aqueles olhos vazios e o aterrorizando. Donnie e Slovensky partindo em busca de provisões, sussurrando-se coisas entre eles e ao vampiro. O vampiro lhes tinha prometido que ninguém os encontraria. Seus feitiços protegeriam o improvisado esconderijo até o anoitecer. Jeff estava a salvo e podia atormentar à vítima a seu gosto. Smith desejava ter capturado à mulher, à doutora ruiva. Tinha pensamentos deliciosos do que faria com ela durante as longas horas que a teria a seu dispor. Jacques fez um ruído em sua mente e imediatamente, rompeu o contato com Shea. Ela não podia presenciar o momento no que a fera saísse para fora. As presas se expandiram em sua boca e a neblina avermelhada que exigia morte se desenvolveu em seu interior com um


propósito assassino. Um grunhido ameaçador escapou de sua garganta e advertiu Gregori, que se separasse de sua vítima. Gregori se colocou entre os dois irmãos. Sabia que a mente fragmentada de Jacques estava concentrada em uma única coisa. — Não tente interferir, Mikhail. Ele o atacará. Não está curado ainda e é muito perigoso. Não podemos controlá-lo e ele se afastou da mulher. Ela é a única que o sujeita à realidade. Não podemos salvar este humano —e encolheu os ombros como se realmente estivesse descuidado. Se Mikhail não estivesse com eles, Gregori já teria feito sua própria justiça.

Smith sentiu que algo se apoderava de sua mente e não era o mesmo ser que antes lhe exigia informação. Isto era o ataque de um ser estranho, pois um punho de ferro que apertava seu crânio até quase esmagar-lhe. Gritou antes de virar-se para olhar o homem torturado, que parecia estar indefeso diante dele. Ele tinha os olhos abertos. Estava olhando-o fixamente, cheio de dor, mas estava quase morto. O vampiro lhe havia assegurado que ele estava tão paralisado, mental e fisicamente, que podia sentir a dor mas não podia gritar pedindo ajuda aos de sua espécie ou ferir humanos. Smith pegou uma navalha, ainda manchada com o sangue da vítima, e deu um passo para o sangrento ataúde. Instantâneamente, foi jogado contra a parede, por uma força invisível e a navalha girou em sua própria mão, apontando para seu corpo. gritando, Jeff jogou longe a arma. Sentia um zumbido na cabeça, mas quem provocava tudo isto, estava fora, exigindo que abrisse a porta. Levou-se as duas mãos à cabeça, apertando-a com força, tentando resistir a compulsão, mas seus pés já estavam movendo-se. Obedecendo ao invisível tirano. A criatura grunhiu de impaciência e aplicou ainda mais pressão. Jeff estava consciente que caminhava para sua própria morte enquanto subia os carcomidos degraus da escada, até a porta pesada. A cada passo, se aproximava mais e mais daqueles dentes afiados, mas era incapaz de se deter. Um ser que lhe enviava uma imagem muito clara a sua mente, sua morte e ainda assim, não podia deter-se. Pôs a mão na porta . A porta de madeira estalou e duas mãos, com forma de garras, agarraram-no, deixando-o sob a chuva. O trovão ressoou e um relâmpago caiu sobre uma árvore, partindo-a em dois com um ruído ensurdecedor. Uma chuva de faíscas se estendeu em frente a eles. A terra se afastou enquanto Jeff era arrojado para o céu. Reconheceu-lhe o rosto. Era do mesmo homem que ele tinha torturado durante dias. O homem que, intencionadamente, eles


haviam enterrado com vida, sete anos antes. Aqueles olhos negros haviam jurado matá-lo. Haviam lhe incomodado durante anos e agora eram gelo e fogo, bordeados de vermelho. Os dentes brilhavam, enquanto a saliva escorregava entre eles. Jeff gritou quando o ardente hálito roçou seu pescoço. Sentiu que os dente rasgavam sua garganta para deixar exposta sua jugular. Um fluido quente lhe descia pelo peito e ao baixar os olhos, viu seu próprio sangue derramando por seu corpo. E então, a criatura o devorou enquanto seu coração lutava por apegar-se à vida e sua mente pedia a gritos outra oportunidade. A sua volta, começaram a aparecer os fantasmas de todas as mulheres que tinha violado e assassinado. Dos homens que Donnie lhe havia incentivado a torturar. A chuva golpeava seu rosto, voltado para o céu. A criatura o jogou no lodo, fazendo um som repugnante ao cair nele. Jeff se revolveu e tentou arrastar-se, voltou a cabeça então e viu um lobo que se aproximava. Tentou fazer algum som mas só conseguiu produzir um fôlego. Jacques se agachou e o olhou diretamente nos olhos, sem nenhum sentimento, observando o olhar vidrado que aparecia nas profundezas daqueles olhos. — Vá diretamente ao inferno que merece, humano — sussurrou com desdém, diretamente na mente do moribundo. E permaneceu ali agachado, junto a ele, enquanto seus olhos vermelhos brilhos brilhavam e o demônio rugia em seu interior, sedento de vingança. Sabia que Byron estava preso no porão e que este humano e seus amigos, o tinham torturado igualmente fizeram com ele anos antes. A adrenalina e a sensação de poder pulsavam em seu corpo. Mikhail caminhava nervoso de um lado a outro. Jacques era nesse momento um animal, não um homem. Ele atuava com os instintos assassinos de um predador. De sua garganta, saíam surdos grunhidos e Mikhail sabia que seu irmão nem sequer era consciente disso. Jacques se abaixou e pegou o humano pela camisa manchada de sangue e o aproximou dele. Nesse momento, a necessidade de matá-lo explodiu em seu interior. A chamada era forte e selvagem. Cada palavra que Shea havia dito referida a este homem e a seu companheiro e o que eles haviam prometido fazer com sua companheira ressonavam em sua cabeça. A necessidade de protegê-la e a sede de vingança, empurravam-no a lhe tirar a vida. Mikhail podia sentir e ver a luta dentro Jacques. Seria muito difícil para ele viver com a morte de um humano em suas mãos, enquanto se alimentava de seu sangue. Já havia


acontecido com Gregori e ele, mas era uma sensação muito aditiva e perigosa. No estado em que Jacques estava, causaria um estrago irreparável. Mikhail se aproximou muito devagar. —Jacques, não faça isso… Tem muito a perder. Jacques se voltou com rapidez, mostrando as presas e lançando grunhidos de advertência que fizeram com que Gregori se colocasse novamente entre eles. —Deixe-o, Mikhail. É sua ânsia matar e beber o sangue deste idiota. Já não é mais um menino que deva proteger. Mikhail lançou uma maldição, zangado com Gregori por não dar importância à situação. Muitos deles havial se perdido irremediavelmente, num momento como aquele. Mikhail havia acreditado que tinha perdido Jacques uma vez e não queria passar pelo mesmo novamente. E conhecia suficientemente, Gregori, para saber que teria que passar por cima do cadáver do poderoso ancião, antes de chegar até seu irmão. Gregori considerava Jacques como um potencial perigo para todos eles. Com um suspiro de resignação, Mikhail se rendeu ante o inevitável. Gregori foi testemunha de que a luta de Mikhail chegava ao fim e se concentrou em Jacques, esperando sua decisão. Jacques aspirou o tentador aroma do sangue. Sua fome estava saciada, mas o sabor da adrenalina e do medo e a necessidade de vingança, o abrasavam até quase consumi-lo. Mas o vento fresco que simbolizava Shea lhe prendia à realidade. Seu corpo se agitava com a necessidade de matá-lo de uma vez e beber seu sangue. A necessidade de sentir o momento no que a vida do infeliz escapasse entre seus lábios. Soltou com relutância o corpo do humano. Jeff Smith podia morrer quando quisesse e Jacques passaria sem o poder supremo de dar sua morte. Com uma profunda e lenta inspiração, afastou-se do enfraquecido homem enquanto observava seus irmãos, os lobos, aproximando-se de sua vítima. Jacques sufocou a fera dentro de si, lutando com todas suas forças para recuperar o controle de seus atos. Demorou um bom momento até que pudesse reconhecer Mikhail e Gregori como amigos, em lugar de como inimigos. Gregori lhe fez um sinal de assentimento com a cabeça, voltou-se e começou a entrar no porão, com muita precaução. Analisava o ar, procurando armadilhas ocultas. O lugar estava impregnado de sangue, suor, da carne queimada e mêdo. Byron jazia em um ataúde manchado de sangue. Seu corpo estava atravessado por numerosos cortes e tinha dezenas de queimaduras. Seus olhos procuraram os de Gregori com avidez, ansioso e desesperado. Gregori tentou chegar até sua mente através do vínculo comum a todos eles, mas a mente do


Byron estava paralisada. Estava impossibilitado de se mover ou se comunicar com alguém. Mas pelo desespero que tinham nos olhos, Gregori soube que o porão era um lugar perigoso para qualquer um deles. Jacques entrou inquieto, o mau cheiro lhe enojava. Captou a muda advertência de Gregori e não se aproximou do ataúde. Estava muito simples. O vampiro sabia que eles viriam e Jeff Smith só tinha sido um sacrifício premeditado. Os outros dois humanos eram conscientes disso. —O que me diz? — inquiriu Gregori. Jacques lutava para manter-se sob controle. Seu corpo tremia e a necessidade de matar era muito poderosa. Era difícil pensar. Concentrar-se. Estava consciente dos lobos, jubilosos, rangando o cadáver no exterior. Era muito fácil entender sua forma de vida selvagem. Eles chamavam-lhe, para unir-se à caça e a comida. — O que acha, Jacques? — Gregori usou seu nome deliberadamente, para trazê-lo de volta daquela necessidade de correr livremente, de caçar, matar e ser completamente livre. —Algo não está certo. — Jacques não tinha nem idéia do que podia ser a armadilha, mas sabia que havia um perigo oculto. Os olhos de Byron eram muito eloqüentes. Parecia muito nervoso e o sangue fluía de suas feridas. —Acalme-se, Byron. Entregue ao sono. Nenhum vampiro vai apanhar-nos. Mikhail espera no exterior. Somos três — a voz de Gregori tinha uma cadência, pura e relaxante—. Deixe-se se levar, acalme seu coração e permite que seu corpo descanse. Levarei-te a um lugar seguro onde possa se curar. Meu sangue é poderoso e sua cura será muito rápida. O sangue pulsava com força no corpo de Byron, que estava cada vez mais agitado. A voz de Gregori se suavizou até converter-se na água, na terra e no vento. — Jacques intercambiou seu sangue contigo em numerosas ocasiões e pode fazer isso de novo se prefere ser fiel a seu pacto. Não tema por nós. Não há nenhuma armadilha que o vampiro disponha que eu não possa desentranhar. Durma agora e deixe que nos ocupemos de tudo — era uma ordem. E embora a mente de Byron fosse impossível de controlar, a voz fez com obedecesse. O jovem estava exausto e a sua dor era insuportável. Sentiu que sua consciência se esvaia, que sua vida se afastava e que não podia lhes explicar o diabólico e maquiavélico plano que o vampiro lhe havia confessado enquanto jazia ali completamente indefeso. A única esperança se consistia em que esclarecessem a tempo. Byron deteve seu coração para frear a circulação


do sangue. Seus pulmões seguiram trabalhando durante um instante e depois, com um pequeno suspiro, ficou totalmente imóvel, como se estivesse realmente morto. Gregori suspirou aliviado. — Podia sentir sua dor. — Eu sei como é — respondeu Jacques com brutalidade—. É melhor que não esteja consciente de nada até que possamos curar suas feridas. — Ele não quer meu sangue — assinalou Gregori com sua peculiar calma. Nada o perturbava. Nada despertava suas emoções. Curava ou matava com a mesma tranqüilidade que mantinha uma conversa. — Sou consciente de ter um pacto com ele e o manterei —disse Jacques— Vamos descobrir a armadilha e sair daqui. Este é um lugar maldito. Gregori estudava com atenção o ataúde, procurando cabos ocultos ou algum tipo de bomba. Deslizava as mãos com suma precaução sobre a áspera madeira do exterior. — O humano que deixaram aqui não sabia nada e era totalmente dispensável para eles. Isto tem que ser uma armadilha mortal — com extrema precaução, Gregori inspecionou o corpo imóvel de Byron—Está bem ruim. Deveria haver se entregado ao sono imediatamente. Há duas opções, ou ele procurava uma morte rápida ou sabe do que vai ocorrer e queria nos advertir. De todas formas, o dia avança com rapidez e devemos levá-lo a caverna para lhe dar sangue e enterrá-lo. — Afaste-se curador e me deixe tirá-lo do ataúde. Ele é meu amigo, embora não consiga recordar, devo cumprir o juramento que lhe fiz. —Vá devagar, Jacques. A bomba, se é que há alguma, deve estar sob seu corpo — disse Gregori, aproximando-se em lugar de afastar-se. Queria poder ver algo de aparência perigosa e desfazer-se antes que fosse necessário. — Depressa, Gregori. A luz aumenta e me sinto inquieto — ordenou Mikhail do exterior. Jacques passou a mão, muito devagar e com extrema cautela sob o corpo de Byron, sem se importar que a luz do dia afetasse. O aroma do sangue, tomou de assalto suas fossas nasais, e o cheio da carne chamuscada fez seu estômago revolver. Junto aos quadris de Byron, sentiu uma pequena resistência e se deteve imediatamente. — Aqui está, Gregori, um arame disposto para tropeçarmos nele. É capaz de rasgar.


Sinto-o encravado na mão de Byron. Nota? Não me atrevo a me mover, até saber se está conectado a algum explosivo. Gregori se abaixou para examinar o intrincado labirinto de cabos. —Uma bomba muito boba, bastante inofensiva. O vampiro sabia que seria fácil desativá-la. —Possivelmente seja um agrado para humanos, pois é uma armadilha desenhada por eles — comentou Jacques enquanto esperava pacientemente que Gregori desativasse a bomba. Graças a sua enorme força, sustentava o corpo de Byron em uma mão, sem nenhum esforço aparente — Vê algum dispositivo mais? Possivelmente o primeiro seja somente um chamariz. A inquietação de Gregori aumentava por momentos. Ele era um profissional do engano, da astúcia, mas estava no meio de um implicado complô que não podia ser resolvido em questão de uma hora. Havia sido elaborado com antecipação. Alguém havia esperando a oportunidade para levá-lo a cabo. Mas, com que finalidade? Mikhail também se sentia inquieto igual Jacques. Algo não estava certo, mas o que podia ser? Perplexo, estudou de novo o a armadilha de arames, não queria perder-se nem um só detalhe.


Capítulo 14 Shea contemplava o abundante aguaceiro através da janela. As gotas de água se assemelhavam a diminutos fios prateados que desciam como uma cortina do céu cinza. Tremeu, sem razão aparente e cruzou os braços diante do peito. — Algo está errado, Shea? — perguntou Raven. — Jacques bloqueou sua mente, completamente. Ele rompeu o contato — respondeu Shea enquanto engolia com força. Estivera segura durante todo o tempo, de que precisava sentir-se livre do vínculo que existia entre eles e quando Jacques se afastou, apenas era capaz de respirar—. Não posso entrar em sua mente… Ele não me permitirá isso. Raven se incorporou com o rosto muito tranqüilo. — Mikhail? —Agora não — ordenou ele. Raven captou o temor de Mikhail pela sanidade de seu irmão, o torvelinho de ira que tinha brotado nos três homens dos Cárpatos justo no momento no que seu companheiro tinha quebrado o contato mental com ela. Limpou a garganta com cuidado. — Em certas ocasiões, eles tentam nos proteger dos aspectos mais violentos de suas vidas. Shea se voltou para olhar Raven de frente, com as sobrancelhas curvadas, perplexa. — Suas vidas? Não estamos unidas a elas? Não é certo que nos mantém irrevogavelmente ligados a eles e que não temos maneira de abandoná-los? Não são só suas vidas, Raven! Eles nos meteram nisto, e não têm nenhum direito a decidir com total arbitrariedade o que podemos e não podemos saber. Raven passou uma mão pelo cabelo cor de azeviche. —Eu também me senti igual a você durante muito tempo —suspirou— A verdade é que ainda tenho a mesma opinião, mas a falha está em que insistimos em lhes julgar por nossos princípios humanos e eles, certamente, formam parte de outra raça. São predadores e têm uma concepção do bem e do mal completamente distinta à nossa — e seguiu séria — Eu queria esperar para ter um bebê, mas Mikhail esteve notando mudanças em Gregori, e ambos


sabemos que ele necessita de um pouco de esperança para poder seguir adiante. Preocupame ter um bebê agora porque ainda não me custa e adapteu a seu mundo. Shea cruzou a sala e sentou na cama junto à cadeira onde estava Raven. Sentia o medo que refletia na voz da mulher e algo em seu interior respondeu imediatamente. — Ao menos, agora somos duas. Podemos nos unir contra eles. Raven soltou uma suave gargalhada. — Minha vida é uma luta contínua para manter um pouco de independência, junto a Mikhail. E me dá a impressão que ele será ainda mais possessivo, durante a gravidez. —E, obviamente, o curador estará por atrás de você, o tempo todo —assinalou Shea — É mais intimidante que o irmão de Jacques. Raven suspirou. —Eu gostaria de poder dizer que não está cert, mas sei que Gregori vai ficar insuportável, embora não posso culpá-lo, de todas formas. —Não entendo o que ele quis dizer, mas intuí que me ordenou que te cuidasse. Raven encolheu as pernas sob seu corpo, acomodando-se sobre elas. —As mulheres dos Cárpatos têm muito poucos bebês. E algum problema as impede de ter meninas. A mente da Shea se concentrou imediatamente em reunir informação. — Pode me dizer algo mais? Raven tentou agradá-la. —Oitenta por cento dos nascimentos são de meninos e ninguém sabe por que. E somente setenta por cento chega a bom término. Há uma alta taxa de abortos durante os três primeiros meses. Embora possam ocorrer em qualquer momento. E dos bebês que nascem, muito poucos sobrevivem ao primeiro ano e não se sabe o motivo. A última menina que sobreviveu nasceu faz quinhentos anos —disse Raven com um suspiro— Os homens estão se desesperados. Mikhail e Gregori têm uma teoria. Segundo eles, as mulheres humanas com habilidades psíquicas podem converter-se com o intercâmbio de sangue e compartilhar a química necessária com um companheiro. Mas embora estejam no caminho certo, o problema é enorme. Sem mulheres e sem crianças, a espécie não pode sobreviver. Os homens se transformam em vampiros porque não têm esperança.


—Possivelmente seja um método natural de controle de natalidade, já que eles têm vida longa —murmurou Shea mais para ela mesma que para o Raven. — A espécie se extinguirá logo se não descobrir qual é o problema —disse Raven com tristeza— Gregori é um grande homem. Deu muito de si aos seus e sofreu muito também. Ele merece-se algo melhor que transformar-se em um vampiro e ser odiado e temido pelo mundo. E é óbvio que Mikhail jamais deixará que outro o persiga e o cace para destrui-lo, mas fazê-lo, ele mesmo seria uma agonia. De toda formas, não sei se existe alguém com suficiente poder para poder vencer Gregori. Seria algo terrível para ele ser caçado pelos mesmos que protegeu e curou. —Gregori deve ter investigado o mistério da não concepção de meninas durante tantos séculos. Estou segura de que terá encontrado o motivo, ou ao menos, terá algumas ideia ao respeito — Shea teimava em desenvolver uma hipótese de sua própria mente. E de repente quis falar com Gregori, escutar todos os dados que ele tinha reunido durante os séculos. — Estou segura de que ele trabalhou no assunto. Possivelmente seria bom que ambos entrassem num acordo e o descobrissem —disse Raven com tato. — Mas, Shea, você sabe que a informação sobre os nossos não pode cair em mãos equivocadas. Qualquer tipo de documentação sobre nossa raça pode ser potencialmente perigosa. Pelo bem de todos eles, deve destruir as investigações. —Na realidade não tenho dados sobre a Estirpe dos Cárpatos, Raven. Jamais acreditei que existisse outra raça de pessoas. Eu procurava uma enfermidade sangüínea e sabia que os habitantes desta região foram tachados de vampiros durante séculos. Acredito que muitas lendas têm um tom de verdade. Parecia-me razoável que algo houvesse de verdade aqui. Isso, junto ao feito de que meu pai era oriundo desta área, fez-me decidir vir e dar uma olhada para ver se descobria algo. Sinceramente, Raven, não há nada em minhas anotações que indique a existência de uma raça com o tipo de poder que os homens dos Cárpatos possuem. Trata-se de dados puramente médicos. —Mas ainda assim é perigoso para todos nós. Se cair nas mãos desses supostos cientistas, podem imaginar que existe algo — Raven pôs uma mão sobre o braço de Shea. — Eu sinto. Sei que suas anotações representam anos de estudos e de trabalho duro, mas esse trabalho era mais para voce mesma e você já tem as respostas que procurava. —O trabalho era para todos aqueles que têm a mesma enfermidade sangüínea que eu. — Não é uma enfermidade e não há necessidade de cura. Trata-se de membros de


uma espécie totalmente diferente da raça humana, e por certo, uma espécie muito capaz. Trabalham muito duro para contribuir com a sociedade, mas jamais seriam aceitos pelos humanos. Se quer fazer investigações médicas, investiga um problema real, como a alta taxa de abortos ou a morte de nossos bebês. Ou a dificuldade de conceber meninas. Isso seria um trabalho inestimável, acredite, todos eles seriam eternamente gratos. Eu estaria muito agradecida — Raven colocou as mãos de forma protetora sobre o ventre — Se conseguir terminar a gravidez, não poderia suportar perder minha filha depois de ter dado a luz. — Raven ficou em pé subitamente — Vê o que pode fazer, Shea. Você você pode encontrar a resposta. Sabe que pode. — Não descobriu nada, Gregori, durante todos estes anos? Duvido. Me parece muito meticuloso — disse Shea incrédula. —Gregori propôs a teoria das humanas com habilidades psíquicas e na realidade, estava certo. Sua mãe e você são uma prova evidente. Ttambém acredita que há algo na genética das mulheres dos Cárpatos, que torna quase impossível que o cromossomo feminino se imponha ao masculino. — Não podem pensar que a falha está na mulher — respondeu Shea com desdém. — Certamente, é o homem que determina o sexo do bebê, igual a na raça humana e são eles os que podem produzir meninas — disse sonrindo a Raven—. Os homens são os causadores de sua própria destruição. Raven riu. — Mikhail jamais me deixaria voltar a falar contigo se nos escutasse agora, já que acredita que sou muito independente e desrespeitosa —Raven disse encolhendo osombros descuidadamente— E provavelmente seja verdade, mas é tão divertido… Eu adoro o jeito que ele fica. È adorável. — Adorável? Estou segura de que não gosta de nada disso —Shea ficou em pé e começou a caminhar de um lado para outro com nervosismo. Sentia-se inquieta sem o contato de Jacques. Não… Era muito mais que isso. Desejava a segurança dele em sua mente. — Possivelmente tenha razão de que eu devesse destruir esses papéis. Odeio pensar que esse asqueroso do Dom Wallace encontrasse uma maneira de usá-los contra alguém. Esse homem é um psicopata, Raven. Ele é verdadeiramente doente. A contra gosto, Shea começou a reunir os maços de anotações a fim de jogá-los na chaminé. Balançou um instante quando chegou a vez de seus cadernos. Havia reunido uma multidão de dados de folclore, junto aos dados científicos. Não queria os perder. Mas,


respirando fundo, jogou-os sobre os troncos de madeira e acendeu o fogo. Lutou para não chorar. Sabia que não só se deviam à perda de seus documentos, mas também pela ausência de Jacques. Sentia-se completamente sozinhae desolada. Estava cada vez mais difícil concentrar-se em algo sem a presença de seu companheiro em sua mente. Desde quando precisava tanto dele? Odiava o sentimento de aridez, de vazio que a assolava. Onde ele estava? Será que havia acontecido alguma coisa? Seá que havia morrido, deixando-a totalmente sozinha. — Shea! — Gritou Raven — Deixe-o. Você não está sozinha. A Jacques não acontece nada. É surpreendente que seu silêncio aafete tanto quando estão separados. Shea esfregou os braços, repentinamente gelada. Estava difícil respirar e tinha o estômago revoltado. —Suponho que se isso se deva a Jacques que jamais me deixou sozinha. Não suporto estar só. Raven abriu os olhos, surpreendida. — Nenhuma vez? Shea negou com a cabeça. — Ao princípio, eu pensava que ia ficar louca. Na maioria das vezes,nem me dei conta, mas Jacques sabia o que eu pensava e tenho que reconhecer que eu dava ciencia que ele estava constantemente em minha mente. Está a tanto tempo que só o permanente contato comigo o deixa tranqüilo. —Deve ser terrível para ele — desse-lhe Raven— romper o contato contigo. Deve estar no meio de algo importante. Mikhail também me deixou, como Gregori. Mas não tem que se preocupar. Estaremos bem as duas juntas. E se lhes ocorresse algo, saberíamos. Shea pôs em funcionamento o gerador para poder ligar o computador. Sentia-se inquieta e alarmada. — Raven, você não percebe que algo está errado, de verdade? — disse teclando sua senha e esperando que os arquivos aparecessem no monitor. —Não, mas estou acostumada a roçar a mente de Mikhail de vez em quando para me assegurar de que ele está bem e deixar que se afaste depois. Já estamos juntos a muito tempo e desenvolvemos uma espécie de rotina. Eu roço sua mente e embora ele não me permita entrar, já sei que está lá. Shea se concentrou por um instante e teclou a ordem para apagar todos os dados.


Com um suspirou, voltou para junto de Raven. — Não é esse tipo de inquietação que sinto. Há algo mais. Ao princípio, pensei que se tratava de minha falta de contato com Jacques, mas não é. Tenho a sensação de que algo diabólico nos está vigiando. Raven comprovou os arredores do bosque com supremo cuidado. Percebeu um cervo a mais de um quilômetro e aos três homens dos Cárpatos muito mais afastados, em terreno espaçoso. —Coelhos, raposas e vários lobos a uns quantos quilômetros em volta, mas nada do que devamos nos assustar, ao menos, que eu possa detectar — ela confirmou com suavidade. Shea pegou a pistola e se assegurou de que estivesse carregada. —Tenho vontades de vomitar, Raven. Há algo há fora. — É a separação do Jacques. A primeira vez que me ocorreu, fui capaz de sobreviver toda a noite. Sinceramente, Shea, é o pior momento para estar separado. Está amanhecendo, Estamos cada vez mais fragilizadas e sabemos que eles estão em perigo. Pode ser que seja um sentimento humano, mas agora somos suas companheiras. É normal que tenhamos saudades seu contato mental. Shea se esforçava por acreditar em Raven, mas haviaa percebido algo malévolo com antes. Percebeu nesse instante que estavam em perigo. Olhou para Raven. Esta mulher era muito importante para todos eles. Tinha prometido a Gregori mantê-la a salvo e não queria estar despreparada. — Possivelmente —assentiu em voz baixa. Não obstante, caminhou até a porta, abriua e saiu para o alpendre, comprovando o bosque. Nada. A chuva estava cada vez mais forte e na distância, ouviu o ruído de um trovão. Os relâmpagos cruzavam o céu e o tremor em seu corpo. De forma inconsciente, seu dedo se aproximou do gatilho do revólver. Surpreendida de si mesmo, voltou para interior, pôs o revólver sob a janela e tentou recuperar o controle. Seu comportamento era inaceitável. Era impossível acreditar que precisasse tanto de Jacques. A falta dele afetava-lhe, inclusive fisicamente e tinha a impressão de estar em perigo somente porque necessitava dele em sua mente. Shea não queria pensar que era uma ilusão, um truque de sua mente — Está muito pálida, Shea. Precisa se alimentar — disse Raven com cuidado, sabendo, por sua própria experiência, que era um tema espinhoso. Shea engoliu com força. Sentia-se enjoada e fraca. Possivelmente era isso o que


estava acontecendo e não tinha nada que ver com a ausência de Jacques. — Eu sei. Mas, não sou capaz de confrontá-lo ainda. Sei que tenho que me alimentar, mas ainda é muito novo para mim. — Não se imagina mordendo o pescoço de alguém verdade? — riu Raven ligeiramente. — Eu tampouco. Que asco, bom… — disse ruborizando-se. Um leve tom rosado se estendia sobre sua pele cremosa— Mikhail o faz de tal modo que… —e sua voz se perdeu. Shea se ruborizou também. —Sei o que quer dizer. Jacques parece fazer da mesma maneira —disse enquanto pegava novamente a pistola e tentava suavizar os batimentos de seu coração. O medo lhe secava a boca. Shea voltou a olhar Raven. Estava muito tranqüila. Amaldiçoou em silêncio. Algo estava terrivelmente errado. Percebia nas profundezas de sua mente. Sabia, mas não era capaz de explicar, nem a si mesma e nem a Raven. — Já pensaste em abandonar Mikhail alguma vez? Raven a olhou perplexa, depois sorriu levemente. —Não se pode abandonar seu companheiro, Shea. Primeiro, porque ele sabe que está pensando e segundo, ele pode te encontrar em qualquer lugar do mundo. Além disso, não pode estar longe dele durante muito tempo, pois incômodo física e mentalmente. Se abandonasse Jacques, o que sente agora aumentaria, ficaria pior. Não pode lhe deixar, Shea. Deve aprender a viver com ele. — Não quero o abandonar —admitiu Shea. Estava a ponto de chorar. A sensação de maldade se fazia cada vez mais forte mas não sabia como podia percebê-la. Sentia-se dividida. Queria que Jacques estivesse com ela, mas o mundo era muito grande para que lhe atemorizem, mas estava amedrontada. Raven se levantou de um salto e passou um braço em volta de Shea, interpretando mal sua inquietação. —Não te fez mal verdade. Fez? —perguntou enquanto examinava os as feridas do pescoço de Shea — Ele te fez isto, não? Quase inconscientemente, Shea se levou uma mão à garganta para cobrir as marcas. —Não sabia o que estava fazendo. Nem sempre sabe o que faz. Mas, não é do tipo de homem que faria mal a uma mulher. Estive em sua mente o suficiente para saber isso e eu


tampouco, o permitiria — deixou que a outra mulher a abraçasse porque necessitava que a reconfortassem. — É que estou assustada todo o tempo. Estou com medo de alguma coisa e não sou assim. E além disso, estou com vontade de chorar… E jamais choro. —O que quer qur fosse que estivesse à espreita, aproximava-se. Ela ardia de vontade de chamar, Jacques. E aos gritos. — Você passou por uma experiência muito traumática, Shea, e seu corpo também. Está esgotada e precisa se alimentar — Raven a liberou de seu abraço e se afastou um pouco — Gregori é um grande curador. Sei que pensa que ele pode ser o vampiro, vejo em seu rosto quando o observa, mas ele daria sua vida por voce, por mim e por Mikhail. É um grande homem e pode te ajudar muito se o permite. —É o homem mais atemorize que conheci. —admitiu Shea— Se tivesse uma filha, não ia querer que fosse seu marido. —Você não sabe muito sobre companheiros. Se minha filha for sua companheira e o escolher, pode estar segura de que escolherá apesar do que Gregori e meu marido pensem. Ela será a mulher mais protegida do mundo. E uma vez que aprenda a dirigi-lo, a mais feliz. —Tem mais fé que eu. — Porque faz tempo que os conheço. Muito tempo e pelo amor de Deus, Shea. Baixe essa pistola! Não há nada aí fora — repreendeu Raven— Só está nervosa porque Jacques não está contigo. Um relâmpago caiu muito perto da cabana, fazendo-a tremer sob o ensurdecedor rugido do trovão. Raven voltou-se se dirigiu para a cadeira. —Tudo está passando, com total segurança. Isto é obra de um dos nossos. Shea levou a mão à garganta. Não conseguia deixar de sentir a sensação do perigo mortal. Deu-se a volta para falar com o Raven. — O que quer dizer, quando diz que é um dos nossos? — Por que teria aceitado ficar para cuidar de Raven? Algo muito mau as vigiava e não conseguia saber o que era. —Jacques, onde está? —O trovão e o relâmpago —respondeu Raven com facilidade—. Um de nossos homens está bravo. — Genial. Um manha de criança. Era só o que me faltava. — disse Shea malhumorada. Jacques ainda não lhe tinha respondido. Onde estava? Não sentia sua


necessidade? Raven sorriu. — Mas são crianças sensacionais, verdade? A porta se abriu com um forte golpe e a madeira, recentemente reparada, tornou-se em lascas. Shea girou o corpo, dando um passo de forma instintiva para interpor-se entre a entrada e Raven. Na abertura da porta se encontrava Dom Wallace, com uma arma de grosso calibre nas mãos e acompanhado de um homem bem maior, atrás dele. Shea escutou as malévolas gargalhadas dos dois homens e notou a malícia e o ódio em seus olhos. — Jacques! —gritou,na hora em que notou o brilho alaranjado que brotava da arma. Os projéteis a feriram no braço e no ombro, impulsionando-a para trás, cambaleandose sobre o Raven. O impacto dos disparos haviam-na atilgido também, golpeando-a com tal força que se a atirou de costas contra a parede. Shea jazia afogando-se em meio a uma grande mancha sangue. O sangue estava sob seu corpo, sobre o peito e o estômago de Raven e sobre o piso de madeira. Raven esstava imóvel, sem vida, com o rosto branco e sem pulso quando Shea tentou encontrar-lhe. Dom Wallace a agarrou pelos cabelos e a separou do corpo de Raven. Estava gargalhando quando chutou com desdém, o corpo de Raven. —Sabia que a apanharia, doutora. O mundo é muito pequeno, não verdade? — Jacques! Meu Deus! Mataram Raven! Gregori! Sinto muito, não pude salvá-la. Shea se debatia, defendendo-se com pontapés e murros, sem se dar conta. Wallace a golpeou várias vezes no rosto. — Cale-se! Deixa de gritar ou te deixarei inconsciente — a agrediu mais duas vezes. — Malditos vampiros, acreditam-se muito preparados. Mas foi muito fácil, não é verdade, tio Eugene? Shea soluçava incontrolavelmente, quase imune à dor dos puxões que Wallace lhe dava no braço ferido. A calma invadiu sua mente. — Shea? Necessitamos que olhe bem o homem que apanhou vocês. Olhe bem devagar por toda a sala e desenhe em sua mente exatamente tudo o que está vendo — a voz do Jacques era tranqüila, sem rastro de fúria ou raiva. Era puro frieza e lógica— Nós três estamos unidos a voce e podemos te ajudar. — Raven está morta! Dispararam-lhe! — gritava histérica em sua mente. Tinha medo


de se mover ou de chamar a atenção e pôr em perigo Jacques de alguma maneira. —Só faz o que te digo, meu amor. Olhe ao redor da sala. Observa com atenção seu inimigo e guarde cada detalhe em sua mente para que nós possamos lhe ver — Jacques estava tranqüilo, respirando pausadamente para ajudá-la a recuperar o ritmo de sua própria respiração— Bloqueie todo o resto. Não importa o que ele diga, não importa o que faça. Nos dê os dados que necessitamos. Shea inspirou profundamente, fechou os olhos e tentou fazer o que Jacques lhe havia dito. Era muito difícil sobrepor-se ao horror da violenta morte do Raven, à perda do prezado bebê. Deixou de lado os sons, a risada maliciosa, as ameaças sexuais e as insinuações. Wallace estava em pé a seu lado e com uma mão a segurava rudemente pelo cabelo, retorcendo-lhe e com a outra mão, inspecionava as sangrentas feridas de seu braço. Deixou de um lado a dor das feridas e o inchaço palpitante de seu rosto. Shea abriu os olhos para olhar primeiro o corpo enfraquecido do Raven. Ela jazia em meio de um enorme poça de sangue. Seu cabelo negro cobria-lhe a face como um véu. Shea se obrigou a continuar. Varreu a sala com o olhar antes de deter-se em Eugene Slovensky. Estava ajoelhado junto a Raven, examinando-a para comprovar se estava morta. Ficou de pé e se afastou dela limpando a garganta, antes de chutar o corpo. Esticou o braço para pegar uma bolsa de lona e a abriu. Alegremente, tirou dela uma estaca afiada e grosa e a sustentou no alto para que ela a visse. —Puta do diabo —sussurrou dementemente — Está unida a quem matou meu irmão. Hoje ela morre enquanto ele dorme alheio a tudo isto. Tenho sorte de que o Abutre a odeie, igual odeia quem o criou e eu odeio a ambos. Não entendo por que quer à outra com vida, mas nisso, coincidimos. —Não tão rápido, tio Eugene. Esta, ficaremos com ela para nós. Prometeu-me que desta vez mataríamos o Abutre como os outros —protestou Dom Wallace. Slovensky levantou a estaca, apontando para o peito de Raven. —Isto me agrada mais do que possa imaginar. — Não! — Shea tentou lançar-se sobre o Slovensky, incapaz de suportar a idéia daqueles dois homens profanando o corpo de Raven com uma estaca de madeira. —Concentre-se! —exigiu-lhe Gregori com uma voz tão fria que mesmo através da distância, afastou a Shea dos murros e golpes que Dom Wallace tentava lhe dar. Shea ficou olhando Slovensky, gravando sua imagem na mente. Viu o júbilo em seus


olhos. O ódio e a loucura. O prazer perverso que sentia ao levantar a estaca sobre o corpo de Raven. E então, sua expressão mudou de prazer para alarmada. Seu rosto adquiriu um tom avermelhado que se converteu rapidamente em um vermelho escuro. Tossiu, cuspindo sangue pela boca e pelo nariz. Voltou a tossir e deixou cair o braço para um lado, soltando a estaca, como se ela estivesse sendo-lhe tomada por dedos invisíveis. — Tio Eugene? —o sorriso se apagou da boca do Wallace. Aproximou-se de seu tio— O que está acontecendo? Slovensky tentou falar, mas o único som que saiu de sua garganta foi um grunhido. O sangue voltou a borbulhar de sua boca, caindo sobre seu peito em uma onda espumosa. Shea afastou os olhos, enojado. — Olhe-o! — a ordem do Gregori era impossível de ignorar. Era um dos antigos mais inteligente e frio que ainda seguia com vida e podia obter sua submissão sem nenhum tipo de remorso, mantendo sua mente concentrada no que ele queria ver. Jacques e Mikhail o ajudavam emprestando cada um deles, sua força e seu poder. Aterrorizada Shea voltou a olhar para o velho como lhe tinham ordenado. Estava macilento e seu corpo se agitava de forma instável. De repente, caiu de joelhos. — Maldito seja, seu velho! —Wallace parecia assustado— Não me faça isto agora. Que demônios, está te acontecendo? Está tendo um ataque do coração? — mas não se aproximava do tio. Se afastava arrastando Shea com ele e olhando freneticamente ao redor, temeroso de não estarem sozinhos. Slovensky se afogava com o sangue que emanava de sua garganta. Levou-se as mãos ao pescoço, tentando afastar os dedos invisíveis que lhe apertavam cada vez mais. Em seguida, levou as mãos até o coração quando sentiu que lhe rasgavam o peito. Shea gemeu, mas foi incapaz de afastar o olhar. Gregori estava obrigando-a a obedecer sua ordem. Então, de forma brusca, quando o coração do Slovensky foi arrancado de seu corpo, velho caiu de barriga para baixo no chão e Shea foi liberada. Wallace emitia ruídos estranhos, choramingava e blasfemava. Proferia muitas maldições. Obrigou Shea a ficar de joelhos e com um puxão a arrastou atrás dele para a porta. Shea lhe deu as costas e durante um instante se sentiu curiosamente agradecida. Jamais havia matado e nem ferido um ser humano. Havia jurado salvar vidas e todos os seus instintos pediam para se aproximar-se de Raven e ver se ainda podia dar-lhe socorro. Inclusive aproximar-se do velho louco e lhe ajudar. O assassinato estava completamente fora de sua esfera.


— Você o lhe matou — disse Jacques para acalmá-la. — Mas fui o instrumento que usaram para matá-lo — protestou. Quando Wallace a arrastou para fora, a luz feriu seus olhos e ela gritou ao sentir milhares de facas atravessando seu crânio. — Olhe esse homem. Olhe a mão com a que ele te segura. Algo que possa usar — ordenou Jacques bruscamente. Ele percebia o rechaço de Shea. O horror que a ordem lhe produzia. —Não posso, Jacques. Não posso pensar — Sua mente ainda estava infestada de horríveis imagens de morte e sangue. Mas nesta ocasião não foi Gregori quem tomou o comando. Jacques forçou sua mente com vontade de aço, forçando sua submissão. Era muito mais forte do que Shea havia imaginado e tinha suprema confiança em suas habilidades, inclusive sob as horas da manhã. Ele estava se aproximando e ainda carregando o peso do corpo de Byron. Moviam-se em grupo com muita rapidez para a cabana. Contra vontade, Mikhail se separou do grupo com o corpo de Byron entre seus braços. Afastou-se do bosque para dirigir-se à caverna onde fariam ritual de cura. Estava totalmente concentrado em sua mulher e em seu bebê. Não se permitia nenhuma outra emoção. Mantinha suas tênues vidas em flutuação em sua mente, segurava-as para não lhes dar opção de morrer antes que o curador estivesse junto a elas para lhes ajudar. Jacques concentrou todo seu ódio no homem que o tinha torturado com tanta crueldade, e que agora tinha a Shea em suas repugnantes mãos. Seu ressentimento consumia todo o resto. Concentrou-se nele e o usou através de Shea. Ela podia ver a neblina avermelhada que sempre levantava o desejo dele de matar. A necessidade e o anseio de ver o homem morto. O prazer que seria para Jacques. Concentrou-se na única parte do corpo do Wallace à vista da Shea. Dom Wallace sentiu uma repentina sensação de calor. Baixou o olhar e viu que saía fumaça de seu braço, até que esta se transformou em chamas vermelhas e alaranjadas. A fumaça subia fazendo pequenos espirais, tomando a forma de um rosto malévolo e sorridente. Wallace conhecia aquele rosto. Ele havia criado todas aquelas rugas de dor. Com um grito, empurrou Shea, afastando-a dele para tentar apagar as chamas que lhe queimavam a carne, dando-se golpes com a outra mão. Podia sentir o cheiro sua própria carne queimada. Igualmente de todas as vítimas que havia torturado. Shea caiu com força, segurando o braço e tentando permanecer deitada no chão com


os olhos fortemente fechados. Mas a compulsão era muito forte e não pôde evitar sentar-se e olhar fixamente para homem. Dom Wallace se encontrou de forma inesperada flutuando no ar. A arma dcaiu de seu corpo, no chão. As chamas cessaram repentinamente, da mesma forma que haviam começado, mas seu braço era uma massa sanguinolenta de carne queimada. Ainda gemende e blasfemando, lutava com a outra mão para tirar o revólver da capa que levava no ombro. Olhou aterrorizado o objeto tomar vida própria e lentamente virar para ele. Seu próprio dedo procurou o gatilho e de forma compulsiva o acariciou. Shea deixou escapar um gemido. Era uma cena tirada de um filme de terror, mas não podia afastar a vista. Um enorme lobo negro saiu do bosque, correndo quase rente ao chão, depois saltou no ar, deixando à mostra as reluzentes mandíbulas que se fecharam em torno da perna de Wallace. Os ossos rangeram, quebrando-se como ramos quando o lobo jogou no homem no chão para fincar as presas na desprotegida garganta. Shea foi liberada da compulsão mental e foi cambaleante, correndo para o lobo que rasgava o pescoço do homem que ainda lutava sob o animal. — Jacques! Não! Não pode fazer isto! — por um momento, o lobo girou a cabeça para olhá-la e o tempo parou. Shea reconheceu os gélidos olhos de Jacques e sentiu o júbilo dele em sua mente. Gregori saiu do bosque correndo, ainda com forma de lobo e segurou seu braço enquanto se transformando-se em homem e seguia correndo. —Vamos, não temos tempo. Maldita seja, Shea, preciso de você. É uma médica, uma curadora. Venha comigo Ele não soltou seu braço e mais uma vez foi obrigada a entrar na cabana, a toda pressa. Gregori afastou o cadáver do Slovensky para deixar que entrassem. —Me ouça, Shea. Devemos fazer isto juntos. Raven manteve seus sistemas vitais paralisados o quanto pôde. Mikhail está mantendo com vida, a ela e ao bebê. Raven está muito fraca e a menina tem problemas. Você se encarregará das feridas de Raven e eu me ocuparei de salvar à menina. Shea estava atônita. —Mas, ela ainda vive? —Tentou afastar-se de Gregori— Só conheço a medicina humana, Gregori. No tenho idéia do que vai fazer. Poderia matá-la se fizer algo mal.

— A cura esta dentro de voce. É uma médica e curadora, Shea. Os curadores nascem


com o dom, ninguém os adquire. Pode atendê-la, eu te guiarei. Não temos tempo para discutir, Shea, e não posso cuidar das duas sozinho. Mikhail diz que Raven perderá o bebê em minutos. Deve se pôr a trabalhar em seus pulmões e seu coração para que a menina siga com vida, mas isso dará lugar a uma hemorragia e ambas morrerão pela perda de sangue. Raven, o bebê e Mikhail. Perderemo os três — ele a pressionou. Seus olhos a desafiaram— Fará isto comigo? Shea tremia dos pés à cabeça, mas levantou o queixo. —Diga-me o que tenho que fazer e o farei. Gregori assentiu satisfeito. —Deve bloquear todo o externo. Seu corpo físico. É luz e energia, nada mais. Uma vez que te veja como a luz que é, poderá penetrar no corpo de Raven e procurar as feridas mais graves. Curará ela do interior para o exterior. O mais importante é deter qualquer hemorragia e depois reparar os órgãos vitais. Será muito difícil, pois está debilitada, não te alimentou. Precisará se alimentar em algum momento. Jacques logo retornará e te dará seu sangue quando tiver acabado com seu trabalho. Não pode nos falhar, Shea. Sei que pode fazer isto. Se precisar de minha ajuda, estarei em sua mente. Protestar não serviria de nada. Shea sabia que devia fazer o que esperavam dela. Converter-se de algum modo, em luz e energia. Tinha que tentar. Gregori acreditava nela e ela também acreditaria. Devia a Raven e ao bebê. Eles mereciam uma oportunidade. De qualquer modo, ela era médica acima de tudo. Era de sua natureza. curar as pessoas. — Vamos trabalhar juntos — disse Gregori com suavidade. Sua voz era um bálsamo relaxante em meio ao caos de sua mente. Podia sentir sua resposta à cadência daquela voz, à pureza e a bondade em sua entonação. Shea deixou-se cair ao chão, junto ao corpo imóvel de Raven. Fechou os olhos e procurou um lugar tranqüilo em sua mente para relaxar. A princípio, tudo parecia impedir sua concentração, mas Gregori estava ali com ela, ensinando como devia canalizar seus pensamentos e voltar a se concentrar. De repente, tudo se afastou, junto com o tempo e o espaço. Shea sentiu seu coração pulsar com força diante da estranha sensação, mas a suave letania da voz de Gregori a ajudou a permanecer tranqüila e a flutuar sobre o caos. Pouco a pouco, seu corpo se fez pequeno, muito pequeno, diminuto, até que só ficou sua alma, sua luz e sua energia. Seu poder. —Vamos juntos. Mantenha sua atenção em Raven e em suas feridas. Não pense em você mesma ou no que poderia passar. Tenha fé em você. Se começar a desmoronar, conecte sua mente à minha.


A poderosa luz de Gregori parecia encher a alma da Shea de confiança e calma. Só percebia o curador, pois todo o resto foi posto de lado. Havia tanta entrega nele e uma alma tão pura que Shea não pôde mais do que maravilhar-se. Seguiu Gregori sem nenhum tipo de dúvida. Ele era a personificação do que ela sempre tinha almejado ser. Uma verdadeira médica e Gregori o era e com um dom tão prezado e estranho que ele se sentia humilde em sua presença. Só muito depois, se recordou que Gregori era um poderoso homem dos Cárpatos e que era capaz de fazer que outros vissem somente o que ele queria que vissem.


Capítulo 15 Shea tinha a sensação de estar flutuando sobre o corpo de Raven. Seu mundo se reduziu à mulher que jazia totalmente imóvel sobre o chão. Em princípio, Raven parecia estar morta, com toda sua energia vital desaparecida por completo. Mas muito devagar, ainda com aquela quietude, Shea sentiu, com a nova percepção que havia adquirido, que uma pequena descarga de energia se estendia pelo corpo inerte. A cor voltou para seu rosto esvaído, mas com tendência a desfalecer. —Agora, Mikhail — ordenou Gregori. Ele pronunciou as palavras em voz alta, não obstante, Shea as escutou com sua mente. Só então que se tornou ciente de não ter visto Mikhail. O irmão de Jacques estava em algum lugar com Byron, mantendo Raven com vida através da distância. Shea queria desculpar-se com ele por ter permitido que acontecesse aquilo, mas a luz em que se converteu seu corpo já estava sobre Raven. Sentiu-se surpreendida porque parecia saber de forma inconsciente o que tinha que fazer e então percebeu que não estava sozinha. A esfera de luz branca que estava junto a ela, guiava seus movimentos. Canalizou todos seus pensamentos para o corpo de Raven. Não importava mais nada. Sentiu como Mikhail dava a Raven, a ordem de voltar para estado de inconsciência humano. O sangue começou a brotar das feridas. O coração de Raven pulsava muito lentamente e Shea o sentia através da luz. Encontrou-se flutuando na corrente sangüínea. Converteu-se em uma luz candente que cauterizava as feridas mais graves. Trabalha com rapidez e sua concentração era total, pois tinha que estancar a hemorragia antes que Raven morresse. O cérebro de Shea avaliava os danos internos de cada órgão ao mesmo tempo em que seguia trabalhando. Ela reparava os tecidos e músculos, através do pensamento. Cada ponto era meticuloso, cada extração dos fragmentos de metal era precisa e extremamente cuidadosa. Não era muito diferente de operar sobre a mesa da sala de cirurgia, mas era muito mais extenuante. Manter o estado de concentração necessário durante uma intervenção tão grande era exaustivo. Mesmo assim, não percebia o passar do tempo. Exatamente como lhe acontecia na sala de cirurgia, Shea estava absorta no trabalho que tinha entre as mãos. Inclusive sentia o suor correr por seu corpo e que uma enfermeira lhe secava a testa. Este era o mundo que ela conhecia. Erao seu mundo. Tinha a paciência necessária para tratar as feridas extensas e tinha o conhecimento e a habilidade para fazer. Mais ainda,


tinha uma aguda determinação. Jamais perdera um paciente se houvesse uma mínima chance de êxito. As feridas de Raven eram horríveis. Shea estava totalmente surpreendida pela resistência daquela mulher. Nem em um centro médico qualificado conseguiriam salvá-la pois ela estava com numerosas feridas, a maioria delas, mortais. E o bebê? Como ia sobreviver o bebê? Gregori se aproximou do minúsculo ser com extremo cuidado. A extensão das feridas era enorme. A vida da menina se extinguia junto com o sangue que escapava do corpo de sua mãe. O curador podia sentir os desejos da pequena criatura de afastar a dor e o ultraje, a que seu diminuto corpo, havia sido submetido. Gregori só podia confiar em que Shea pudesse deter a hemorragia com rapidez e ele devia se concentrar no bebê. Ela era tão pequena, que quase não existia e ainda assim, ele podia perceber sua dor e sua confusão. Ela já conhecia o medo e a dor antes de ter nascido. Levaria em sua mente, a evidência de que a vida não era não era segura, nem sequer no ventre de uma mãe. Gregori sussurrava com suavidade, a fim de confortá-la. Já a tinha imantado com antecedência, em sua luz e agora ela o reconheceu, aproximando-se dele para procurar respirar. Com muito cuidado, Gregori fechou a ferida da artéria que lhe proporcionava alimento. Em breve, daria-lhe seu próprio sangue, selando o destino deste pequeno ser ao dele. A placenta tinha vários rasgos, que ele fechou meticulosamente. A menina se assustou quando a luz se aproximou mais dela e Gregori lhe enviou onda de carinho e promessas de tranqüilidade. O pequeno ser tinha um corte na coxa direita que doía-lhe e o sangue saía e se estendia pelo líquido amniótico que a envolvia. Gregori fechou a ferida com o mais ligeiro dos toques, deixando seus dedos ali um pouco mais do necessário, a fim de tranqüilizá-la. Sua letania, a cadência de sua voz, introduziram-se na alma, na mente e no coraçãozinho da pequena. Gregori conversava com ela enquanto fazia seu trabalho. A pureza de sua entonação a cativava, acalmava-a e ela quis ficar junto de sua mãe em lugar de deixar-se levar pelo fluxo de sangue que escapava. Gregori sentiu a força da pequena, sua determinação. Sem dúvida era filha de Mikhail e Raven. Se ela decidisse partir, partiria, mas estava decidia a permanecer junto de sua mãe, lutando com todas suas forças. Gregori se assegurou de que ela queria lutar e murmurava-lhe com sua voz mais sedutora, lhe prometendo um futuro fascinante. Cativava-a com os segredos e a beleza do universo que lhe esperava. Prometeu-lhe que jamais a deixaria sozinha e que sempre estaria ao lado dela para guiá-la, protegê-la e fazê-la feliz. Antes de poder completar seu trabalho, percebeu o tremor de Shea. Sua repentina ciência da dor do braço, de suas próprias feridas. Assegurando ao bebê que voltaria, saiu do


corpo de Raven levando Shea com ele. Shea cambaleava ainda de joelhos, pois estava pálida e exausta, com o rosto quase cinza. Embora as feridas de seu braço e de seu ombro não fossem graves, a perda de sangue era significativa. Jacques a segurava, sustentando-a sobre seu peito e impedindo com seus braços que ela desabasse no chão. Ela parecia não dar conta e se limitava a empurrar Jacques sem sequer movê-lo. — Não acabei. Por que me trouxeste de volta, Gregori? — protestou ressentida de saudades. Seu único pensamento era voltar com sua paciente. — Deve se alimentar ou não será capaz de continuar —aconselhou ele com suavidade — Raven necessita sangue — os olhos do curador procuraram os de Jacques que assentiu com a cabeça. Jacques uniu sua mente a de Shea sem duvidas, lhe ordenando de uma vez que se alimentasse. Estava tão esgotada que quase não podia levantar a cabeça para alcançar o pescoço de Jacques. Ao sentir seu hálito quente sobre a pele, o corpo do Jacques aproximou para sentir como seus pequenos dentes acariciavam e mordiscavam sua garganta. Ele estava a ponto de gemer, contrariado com a profundidade da sexualidade de sua gente. Sentia-se culpado de que seu corpo se endurecesse dolorosamente, tomado pelo desejo, quando estava rodeado de sangue e morte. Shea sussurrou algo sobre sua pele, um suspiro que invadiu o corpo de Jacques, deixando-o faminto de carícias mais íntimas. Conseguiu reprimir um gemido de prazer quando Shea afundou os dentes em seu pescoço. O sangue esquentou em suas veias, queimando seus músculos e seus nervos. Acariciou a cintura de Shea, suas costas, seu pescoço e embalou sua cabeça, aproximando-a mais dele. Seu corpo necessitava da satisfação que só ela podia lhe dar. Jamais havia sentido tanta necessidade dela, nem tão ardente e tão intensa. Gregori afundou os dentes em sua própria mão e se conectou mentalmente com Mikhail. Juntos obtiveram a submissão de Raven. Não sem esforço. Ela era ainda, uma simples aprendiz, com somente cinqüenta anos, mas possuía uma enorme força. Ambos tiveram que empregar-se a fundo para submetê-la e obter que se alimentasse de alguém que não fosse Mikhail. Durante um instante, conseguiu resistir a compulsão. — Por nossa filha, pequena — sussurrou Mikhail em um suave murmúrio, conseguindo que a vontade de Raven se dobrasse ante a doçura de sua voz— Deve alimentar-se… Por nossa filha.


Gregori reforçou a ordem do Mikhail, fazendo um pedido. — Jamais, nestes anos de amizade, pedi-te alguma coisa, Raven. Por favor, alimentese. Raven conseguiu vencer a repulsão que a idéia lhe inspirava e permitiu que ambos os homens assumissem o transe que lhe permitisse aceitar o fluido vital que, tanto ela como sua filha necessitavam com desespero. Gregori se concentrou no bebê. Estava indefesa, era tão pequena e se encontrava muito assustada, mas já era um pequeno ser com consciência. Ele podia sentir a confusão e seu repentino despertar à solidão em que se encontrava. Enviou-lhe uma onda de carinho para reconfortá-la. Seu sangue, que já circulava pelo pequeno corpo, estreitaria o vínculo que já lhes unia e asseguraria que a química da menina respondesse à sua. Levara toda uma vida preparando-se este momento. O momento, o instante no qual tivesse uma oportunidade de escolher a sua companheira. Sempre soubera que seria uma filha de Mikhail. Quando Raven foi atacada anos atrás e ferida mortalmente, ele se assegurou de provê-la com seu próprio sangue para salvá-la. Desta forma, com seu poderoso sangue, tinha posto os alicerces de um futuro vínculo com a menina que Raven poderia conceber algum dia. Agora tinha a opção de reforçar esse vínculo e unir a menina a ele para toda a eternidade. Ela estava unida a ele de corpo e alma, e ele a ela. Pela primeira vez em séculos, Gregori sentiu esperança. Para um homem dos Cárpatos, próximo à transformar-se em vampiro, a esperança era só o que lhe restava. Shea fechou a ferida no pescoço de seu companheiro com uma sensual carícia de sua língua. Afastou-se ligeiramente e piscou com os olhos ligeiramente nublados. Súbitamente, sua expressão mudou e empurrou Jacques para afastar-se dela. Não por ele havê-la obrigado alimentar-se. Ela sabia que era necessário se quizesse salvar Raven e o bebê. Era pela forma em que Jacques a tinha usado para matar os homens. Pela forma tranqüila e sossegada em que ele tinha ordenado. — Sempre conheceste os demônios que habitam em meu interior, ruiva. Shea passou uma mão pelo rosto e afastou o cabelo avermelhado, totalmente desordenado do rosto, como se daquela forma pudesse afastar Jacques. — Sempre pensei que você comportaria como um homem, não como um animal selvagem sedento de sangue. — Está em nossa natureza, a morte. Somos predadores. — Mas embora estivesse salvando minha vida e sentisse a necessidade de matar Wallace, não tinha necessidade de me utilizar de um modo tão… tão… Afaste, Jacques.


Tenho trabalho para fazer e me sinto muito cansada. Jacques não saiu de seu lado. Apesar da chuva, era de dia e a luz aumentava. Ainda com a intensa tempestade que ele se encarregava de alimentar, a luz começava a lhes afetar. Não demoraria muito tempo para seus corpos exigir o sono dos imortais. Mais tarde, convenceria Shea de que não era nenhum monstro. Neste momento, seu trabalho consistia em proteger a todos os que se encontravam ali. Esquadrinhava os arredores de forma constante. Alimentava a ferocidade da chuva de forma que a região não fosse um lugar seguro para alguém perambular. Sustentava Shea, cujo corpo cambaleava e vigiava o curador, que cada vez mais, parecia pálido. O que eles estavam fazendo era um mistério para ele, mas se sentia orgulhoso de Shea. Dela ser capaz de realizar semelhante milagre. Secretamente, agradavalhe que o curador precisasse da ajuda de sua companheira. Jacques sabia que Mikhail estava doente de preocupação e estaria se sentindo inútil. Mas ele estava responsável por Byron e o natural fora levá-lo para a caverna e enterrá-lo até que o curador pudesse ocupar-se dele. E Mikhail tivera de manter Raven e o bebê, com vida, a distância. Solidarizava-se com o irmão. Mikhail talvez tivesse a vontade de doar, ele mesmo, o sangue que salvaria a vida de sua companheira e de sua filha e também protegê-las de qualquer outro perigo. Jacques se amaldiçoou em silêncio. Três homens dos Cárpatos não deveriam ter permitido que os humanos os enganasse. Por que não haviam sido capazes de detectar a presença daqueles dois homens no bosque? Por que não tinham descoberto a ameaça sobre Raven e Shea? Contemplou o braço de sua companheira. Estava avermelhado e com as feridas em carne viva. Amaldiçoou-se novamente. Tinha jurado protegê-la e fazê-la feliz. Que tolo companheiro havia sido. Como ia conseguir que ela esquecesse o sofrimento daquele dia e que imaginasse a felicidade de sua vida juntos? Nesse momento, a presença do cadáver do Eugene Slovensky foi forte em sua mente. Com um suspiro, afastou-se de Shea e foi desfazerse do cadáver. Jogaria-o aos lobos. Shea não precisava ver qualquer resto da repugnante matança quando acabasse a operação. Jacques passou a mão pelos cabelos, repentinamente consciente de seu cansaço. Sua relação com Shea havia começado mal. Tinha a convertido de forma inadvertida, sem seu consentimento e nem sequer a havia ajudado a suportar o duro processo físico. Ainda pior, abusara dela cada vez que sua mente se fazia em pedaços. E agora, o pior em sua vasta lista de pecados, era tê-la utilizado como instrumento para eliminar seus inimigos. Não havia sido o melhor dos maridos. Tentou usar seus recém adquiridos poderes e procurar em sua memória a lembrança da época em que Mikhail havia convertido Raven. Ele também convertera-a com urgência, no intuito de salvar sua vida e sem o consentimento de Raven. Ela tampouco sabia da existência de sua raça Sequer Mikhail estava seguro de que pudesse dar certo. Raven tinha


sido obrigada a acostumar-se a uma nova forma de vida. Um pequeno som o fez voltar-se e aproximar-se com rapidez de Gregori, que se saía cambaleando do corpo de Raven. Shea desabou no chão junto a ele e se manteve imóvel. Ambos os curadores pareciam exaustos e quase indefesos. — Precisam de sangue — disse Jacques a Gregori — Deu muito a Raven. — Ela precisava — respondeu Gregori com cansaço. Estirou-se no chão, cobrindo-os olhos com um braço para protege-los da luz. —Permita-me oferecer o meu. Hoje me alimentei bem — ofereceu Jacques com as palavras rituais. O sol ascendia com rapidez apesar da fúria da tempestade. — Agradeço-lhe, Jacques, mas estou horrivelmente cansado. Esta é a antiga cabana de Mikhail. Procure a entrada da câmara, está oculta. Jacques sondou suas forças, procurando o antigo vínculo mental que o unia a seu irmão. — Mikhail? Estão muito cansado para continuar. Terá que proteger Byron e eu protegerei os outros. Gregori diz que tem uma câmara privada nesta cabana. Onde está? — Sob a mesa há uma passagem que leva ao porão. Tome cuidado, não é muito segura. Mas se descobrirem a casa ou a incendiarem, pode fechar a entrada e se ocultarem nas profundidades da terra e sobreviver. — O curador não aceitará meu sangue, hoje. Mas precisa. Houve uma pequena pausa enquanto Mikhail se conectava com Gregori para assegurar-se ele estava bem. — Ele sobreviverá. Só se ocupe em mantê-los a salvo. Sentindo-se novamente como um verdadeiro homem dos Cárpatos, Jacques se dirigiu à câmara oculta sob a casa. Era pouco usual para eles, compartilhar o lugar de descanso, pois jamais permitiam aos outros conhecer, a localização exata de onde dormiam. Eram tão vulneráveis durante as horas diurnas que tomavam todas as precauções possíveis para ocultar sua lozalização. Jacques se sentia incomodado e sabia que o curador se sentiria muito mais. Com as poucas forças que ainda lhe restavam, agora que o sol estava bem alto, Jacques levou com supremo cuidado o corpo de Raven à câmara subterrânea e a colocou sobre um colchão. Depois de fechar a cabana, fechar as janelas e desligar o gerador, tomou o corpo de Shea em seus braços. Ela soltou um pequeno gemido de protesto, mas deslizou os


braços ao redor de seu pescoço e se acomodou contra seu corpo. Estava quase dormindo quando desceram para o porão. Gregori se deixou levar atrás deles, muito exausto para se incomodar em baixar flutuando. Permaneceu junto à entrada. Junto a Jacques, murmurou a ordem para que a terra se fechasse sobre eles, ocultando os da luz do dia e pronunciou os juramentos que os protegeriam de qualquer intruso. Antes de se deixar levar pelo sono, lembrou-se do prado e dos arames que o cruzavam por completo, e enviou uma silenciosa advertência a qualquer pessoa que ousasse aproximar-se do lugar. Mais tarde se ocuparia de desmanchar a perigosa armadilha. Jacques colocou emplastros de terra e saliva sobre as feridas do braço de Shea e sobre as de Raven. Só então, se acomodou ao lado de sua companheira, a fim de protege-la de qualquer perigo e ordenou seu corpo entrar para o profundo sono.

A chuva persistiu durante todo o dia. A tormenta tinha amainado, dando passagem a uma fina garoa que envolvia a terra em uma tonalidade cinzenta e depressiva. Poucos animais se aventuravam a sair de suas tocas, após a implacável e perigosa tormenta. No bosque que circundava a pequena cabana, uma espécie de inquietação advertia a todos os seres viventes que se afastassem dali. Poucos humanos se aventuravam nas profundidades do bosque por causa dos animais selvagens, a natureza bruta e as lendas. Na câmara do porão, Gregori despertou várias vezes, sempre alerta, sempre em guarda. Dormido ou acordado, cuidava daqueles que estavam a seu redor, vigiando-lhe os contornos. Procurou à menina com sua mente. Ela era valente e inteligente, um ser quente e vivo que irradiava um aura de luz para iluminar sua implacável escuridão. Seus penetrantes olhos prateados penetraram o véu de escuridão e ficaram fixos no teto de terra. Estava próxima a sua transformação. Muito mais do que Raven ou Mikhail pudessem suspeitar. Sua alma pendia de um tênue fio, todos os sentimentos o haviam abandonado a muito tempo. Tanto que, não podia recordar o que era o carinho ou felicidade. Só ficava a sensação de poder ao matar e as lembranças da amizade de Mikhail para sustentar-se. Girou a cabeça para olhar o esbelto corpo de Raven. — Deve viver, pequenina. Deve viver para salvar aos nossos e toda a humanidade. Não existe nenhum ser neste mundo que possa me deter. Viva para mim. Faça-a por seus pais. Alguma coisa se agitou na mente do Gregori, deixando-o aturdido pelo tremendo poder


que um ser tão minúsculo possuía e por sua extrema inteligência. Não obstante, era certo que sentia a diminuta presença em sua mente, insegura e vacilante. Esse pequeno ser estava ali e Gregori se segurou a ele, mantendo a menina no abrigo de seu coração durante todo o tempo que pôde resistir ao sono.

Jacques despertou no mesmo momento em que o sol desaparecia no horizonte. Gregori já havia saído e voava no céu procurando uma presa. Jacques se uniu a ele na caça. Necessitavam de alimento. Ambos trabalhariam com Byron e Jacques precisaria alimentar-se em várias ocasiões. Alegrou-se com a sensação de cruzar o céu, sentindo como seu coração batia com força e o sangue corria veloz por suas veias. Sentia-se vivo. — Não podemos deixar desprotegidas as mulheres, Jacques —a voz de Gregori era vibrante em sua mente— O vampiro estará furioso por não ter conseguido seu objetivo. Jacques lançou uma chamada pelo céu cinza, que se estendeu silenciosamente em um raio de vários quilômetros. Três caçadores estavam junto ao fogo em uma pequena cabana escondida entre a espessura das árvores. Ao sentir sua presença, Jacques trocou imediatamente seu rumo e Gregori deslizou juntou a ele. A caça era para eles um ato singelo. Atrair uma presa era do cotidiano. Mas neste caso era mais oportuno que eles mesmos se deslocassem para a cabana, em lugar de esperar passivamente que os homens se aproximassem.

Shea foi consciente de uma voz. Estava desorientada e sem saber onde se encontrava. Por um instante, as longínquas lembranças pareciam formar parte de um pesadelo. Mas ao passear os olhos pelo porão, soube que estava em uma câmara clandestina. Junto a ela, Raven jazia imóvel, parecia morta, mas alguém havia espalhado terra e ervas aromáticas sobre seu corpo. Com precaução, Shea comprovou suas forças e preparou-se para sentar. Afastou o cabelo que caía desordenado sobre seu rosto. Sentia uma profunda dor no braço, que ainda estava inflamado e com múltiplas feridas. Examinou o ombro e notou como a mão estava suja de sangue e terra. Estremecendo, inclinou-se para examinar Raven. Ela parecia não ter pulso e ela não encontrava os batimentos de seu coração. Estava com o rosto muito pálido mas com uma expressão de serenidade, estava muito formosa. Shea deixou escapar um suspiro. Raven tinha a mesma aparência de Jacques quando dormia. Incapaz de fazer alguma coisa por ela, Shea ficou levantou-se. Sentia-se inquieta por Jacques


e queria contatar ele, mas sabia por instinto que ele estaria procurando seu alimento. Estudou a câmara até que descobriu a entrada. Em princípio, esforçou-se em procurar o mecanismo oculto que permitia abri-la. Percorreu a superfície centímetro a centímetro. Começou a sentir claustrofobia e seu coração pulsava freneticamente. Não pôde fazer mais nada do que sentar-se e refletir. Jacques jamais poderia ter enterrado-a viva. Devia haver uma saída. Ficou olhando fixamente o teto de terra e se concentrou. — Abra-se agora! — Sua ordem foi imperiosa e a imagem se formou com total claridade em sua mente. Ficou totalmente surpresa quando o teto se abriu e ela viu o piso de madeira da cabana. Nervosa e animada, subiu para a saída, abrindo a paequena porta com outra ordem. Sentindo-se orgulhosa de seus recém descobertos poderes, emergiu na cabana. Necessitava com urgência um banho. Ele lhe devolveria a ilusão da normalidade, embora duvidasse de que pudesse desprezar por completo os costumes humanos.

Muito longe de ali, Jacques levantou a cabeça, alarmado. O sangue saía quente do pescoço do caçador até o ombro. Incomodado, Jacques se inclinou para seguir alimentandose. Como Shea havia despertado sem sua permissão? Ela era tão forte a ponto de resistir suas ordens? Ainda deveria estar dormindo e entretanto se encontrava fora da proteção da câmara subterrânea. Teria que apressar-se em voltar.

Shea colocou uma roupa limpa e seu cabelo estava úmido pelo recente banho. Era impossível encontrar algum rastro da luta de vida e morte que acontecera naquela lugar pela manhã, portanto, deduzia que Gregori e Jacques tinham apagado todos os indícios. Então lhe ocorreu que os homens dos Cárpatos tomavam as mesmas atitudes durante centenas de anos e que nestas alturas seriam verdadeiros peritos. Estes pensamentos lhe revolveram o estômago e ela começou a perambular sob as árvores. As gotas de chuva que ainda estavam sobre as folhas, gotejavam caindo sobre sua cabeça, mas Shea não importava porque aquilo a fazia sentir que formava parte da natureza. Não queria afastar-se muito por causa de Raven. Ela podia precisar, por isso se dedicou a passear pelo caminho de terra que levava até o jardim das ervas medicinais. Inclinou-se para tocar uma folha maltratada e espremida pela violenta tormenta. Nesse instante, uma sombra escura e sinistra cruzou por sua mente fazendo-a tremer de forma incontrolável. Com rapidez, deu a volta para enfrentar o estranho, um homem pálido e muito alto que saía do bosque.


A beleza daquele homem roubava-lhe o fôlego> Ela jamais havia visto homem mais belo. Seus olhos eram profundos, escuros e magnéticos. Era impossível dizer sua idade e em seu sorriso deixava notar uma desculpa. — Sinto haver te alarmado. Percebo os assustados pulsar de seu coração. Shea se afastou de forma involuntária, dando um passo para trás, principalmente porque sentiu a necessidade de aproximar-se ainda mais dele. Seu magnetismo era muito forte ela se encontrou apanhada. — Quem é você? — sussurrou assombrada. — Não me conhece? Percorri o mundo procurando-a. Por que não respondeu aos meus chamados? — sua voz era doce, mas escondia uma pontada de ira. Shea recuperou a compostura, mas tinha a boca seca. —Sinto muito. Não lhe conheço. Jamais o vi. — Despertou-se quando a chamei. Veio até mim. É minha amada, Maggie. Se desejo era me castigar com seu silêncio, obtiveste-o por completo. Agora deve me perdoar e vir comigo para longe deste lugar e do homem de cujo cheio está impregnada. —sua voz era um suave grunhido. Shea lutou contra o desejo de chamar Jacques. — É Rand? Ele se aproximo ainda mais e Shea sentiu que seu estômago se revolvia. — Como é possível que não me conheça? Estiveste ferida? Acaso o Escuro apagou suas lembranças, implantando outras novas em seu lugar? Shea pressionou uma mão sobre o estômago, que seguia protestando e deu outro passo em direção ao bosque, na intenção de colocar mais distancia entre eles. —Não entendo nada. Por que chamas Jacques de Escuro? Pensava que o Escuro era o curador. O homem deixou escapar um chiado mortal. — Você é má, Maggie. O irmão dele e ele tentaram nos destruir. Pensei que a haviam afastado de mim e estava certo. O louco planejou esta vingança e a arrastou, te atraindo até este lugar de morte e agora está presa em sua rede de mentiras — ele disse avançando novamente.


E, como numa macabra dança, Shea tornou a dar um passo para atrás. Este ser era seu pai? Este era Rand? Teria ele estado procurando sua mãe todo aquele tempo acreditando que ela estava viva? Parecia muito atormentado, muito sincero e ela sentia vontade de reconfortá-lo. Queria abraçá-lo, mas algo a impedia, afastando-a dele. —Acho que está me confundindo com minha mãe. Sou Shea Ou’Halloran. Se você se chama Rand, então é meu pai. — Estiveste com ele, Maggie. Sabe que ele é capaz de envolver sua mente, de dobrar sua vontade. Ele introduziu lembranças em sua cabeça que você crê que são reais, mas não são. Ele queria vingar-se pela morte de sua irmã. Culparam-me porque eu te amava. Obrigaram-me a se enterrar e lhe castigaram ao nos separar. Essa é a verdade. Inclusive afastaram meu filho e o entregaram a outros para que o criasse e se voltasse contra mim. A mente da Shea estava confusa, inundada em uma espécie de neblina que não lhe permitia pensar com claridade. O homem que a espreitava, que se movia para alcançar-lhe a casa passo que dava para afastar-se dele, inclinava-se para sua garganta. Deveria deixar que ele se alimentasse, ou não? Embora não fosse Maggie, era a filha desse homem que parecia muito só e torturado. Podia sentir seu hálito sobre o pescoço, sua vontade dobrando sua mente, sua fome golpeando ambos. Mas ela não queria realmente que aquilo acontecesse. O que estava acontecendo que ficava ali tão imóvel esperando que Rand tomasse seu sangue quando cada célula de seu corpo dizia aos gritos que se afastasse o mais rápido possível? — Shea! Por Deus, meu amor!, Afaste-se dele. Não sei o que ele está tramando, mas está em perigo. Não deixe ele beber teu sangue. — a voz de Jacques ressonou com força em sua mente. Shea se afastou de um salto, pondo de novo uma considerável distancia entre ela e o homem. — Está-me assustando — e como sempre acontecia, quando suas emoções a incomodavam era seu cérebro que tomava o controle, que encontrava a saída Já não sei em quem acreditar. Está dizendo que Jacques e Mikhail planejaram nos separar porque você não amava a sua irmã? —Shea uniu as mãos num gesto de súplica. Seus enormes olhos verdes rogavam uma explicação. Rand se deteve a alguns passos dela, visivelmente feliz, agora que ela implorava por respostas. — Eles me culpam pela morte do Noelle, porque a deixei desprotegida enquanto estava contigo. Slovensky e seus amigos a assassinaram.


— Você conhecia Slovensky? — perguntou Shea em voz baixa, incapaz de respirar. Seria seu pai o culpado de todas aquelas mortes? Seria ele o vampiro? — Se alguma vez houvesse me encontrado com esse homem, teria quebrado seu pescoço imediatamente. Ele é o único responsável pela morte de Noelle. Possivelmente não cheguei a amá-la, mas ela me deu um filho — disse inclinando a cabeça para um lado, fazendo ainda mais difícil ignorar seu misterioso e escuro olhar. Shea procurou o tronco de uma árvore para apoiar-se. Precisava tocar em algo real e sólido. Parecia estar envolta em uma gigantesca teia de areia. Tão presa na trama, que não sabia para onde dirigir-se. Algo não estava certo. Começava a sentir-se confusa e sua mente lhe jogava fragmentos do passados. De forma deliberada, pressionou a palma da mão sobre a casca da árvore, tentando canalizar seus pensamentos para algo que pudesse romper o feitiço que ele criava a seu redor. — Eu sou seu companheiro, meu amor. Eu sou o único a quem pode pedir ajuda quando necessitar — a voz de Jacques era segura e estava perto. Shea sacudiu em sua mente. Tinha a sensação de que jogavam ela em direções opostas. Sabia que era a filha de Maggie. Possivelmente Rand acreditasse no que ela dizia, mas ela sabia quem ele era, na verdade? Rand suspirou com suavidade. —Todos nós somos capazes de implantar novas lembranças, Maggie. É muito razoável que lhe tenham feito acreditar que é sua própria filha, dessa forma eles se assegurariam de que não houvesse nenhuma opção para estarmos juntos. Acaso não nota que é um plano brilhante, um engano, para que se complete a vingança? Um engano que duraria toda a eternidade. —Um membro da raça dos Cárpatos só tem um companheiro. Eu sou a companheira de Jacques — disse enquanto passava uma mão pelo cabelo. Ao se dar conta do quanto estava tremendo, ocultou-a nas costas. — Ele tomou o controle de sua mente de forma despercebida e depois te possuiu. Crê realmente que ele tenha conseguido viver todos esses anos encerrado nesse porão? — sua voz era suave e usava um tom razoável. Shea sentia uma tremenda dor de cabeça. Fechou os olhos um instante e quando os abriu, descobriu-se novamente junto a Rand que já baixava sobre sua garganta. Ele havia deslizado sem fazer nenhum ruído.


— Afaste-se! — as palavras soaram ásperas e claras. Shea cambaleou, afastando-se enquanto tropeçava e caía sobre um tronco derrubado. Jacques estava furioso e sua ira era horrível. Surgiu silencioso como um fantasma, alcançado a Shea antes de Rand. Segurou-a pelo braço, de forma possessiva e inflexível. Enquanto a ajudava a ficar em pé, a escondeu atrás de seu corpo, enfrentando Rand. — O que está fazendo, Rand? — Ele perguntou e sua voz era um negro presságio. Rand sorriu tranqüilamente. — E agora me matará também? É um sedento de sangue, não? Afirma que sou seu pai e ainda assim está desejando me tirar do meio — disse olhando diretamente nos olhos de Shea — Há algum sentido nisso? —perguntou com voz triste — Quer matar seu pai? —Tenta confundí-la de forma deliberada. O rosto de Jacques, sulcado de preocupação e cansaço, endureceu-se com a ira. Shea se encontrou estudando cada traço do rosto amado. Nesse momento, notou que Rand não era tão belo. Parecia haver algo sinistro em sua aparência perfeita e em seus lábios magros e sorridentes. Não havia nenhuma emoção nele, parecia não ter vida, seu sofrimento não era real. Em contraste, o musculoso corpo do Jacques tremia com emoções vulcânicas. Sua mente estava velada por uma neblina avermelhada provocada pelo medo e a fúria de perdê-la, por havê-la posto num perigo sem proporções. Dirigia sua ira sobre Rand, por ter traído a sua própria filha. Rand suspirou de novo e fez um gesto de negação com a cabeça. — Como se rende facilmente aos truques deste escuro vampiro. Em seu próprio pescoço leva a evidência que buscas. Há feridas ainda sem cicatrizar. Quem se alimentaria de forma tão descuidada, a não ser um vampiro? Abusaria de você, dessa maneira, um apaixonado companheiro? Quando assassinou esta manhã, usando sua inocência, sua mente e sua alma como ajuda, ele não sentiu um enorme júbilo? Quando você lhe rogou que se detesse, ele não continuou? E quando voltou para com sangue nas mãos, acaso não viu o desejo escuro e a fome de sua mente? Não o notou em seus olhos e em seu corpo? Não viu a escura atração que exerce sobre a morte? Os vampiros são ardilosos, minha querida e você tem estado sob seu feitiço. Jacques olhou Rand com olhos vazios, escuros.


— Está-me desafiando? Shea ofegou, sem acreditar no que estava vendo. Jacques e seu pai se enfrentando? Pressionou a cabeça entre as mãos. Não podia suportar. Lutavam por ela como dois cães por um osso. Já não distinguia a verdade da mentira. — Distingue-a sim, pequena ruiva. Ele está tentando te enfeitiçar. Pensou que eu estaria ocupado ajudando Byron e que poderia te atrair, te afastando da segurança que lhe proporcionamos. Não aceitará um desafio justo — Jacques tentava lhe dar ânimo, reconfortála. Shea lutava por recuperar a calma, mas os sofrimentos dos últimos dias tinham feito lanhuras nela. Jacques estava convencido de que Rand não só tinha planejado todos esses sofrimentos, mas também contava com o fato de que levariam Shea ao estado confuso no qual se encontrava agora e desta forma poderia controlá-la. Rand esboçou um relaxada sorriso. —Não desejaria causar mais dor a Maggie. Mas tenha em conta, Escuro, que seria açoitado e destruído se Mikhail não fosse seu irmão. Enganaste e feriu à mulher que amo, mas não sairá dessa inteiro. Mas não serei eu quem lhe causará mais sofrimento. Jacques mostrou suas presas. — Estava seguro que diria algo assim. Prefere fazer o trabalho sujo usando truques e enganos. Rand elevou uma sobrancelha. — Escute-o, querida minha. O próximo passo será me acusar de estar de acordo com os assassinos humanos. Ele vai dizer que fui eu quem tentou matar Byron. E Noelle? Provavelmente, fui responsável também do que ocorreu a ti e a meu próprio filho. Você é o vampiro, Jacques, e é suficientemente frio e arrogante para enganar a alguém tão capaz como Gregori. Seria um tolo se lutasse contigo quando você tem Maggie como refém. Shea se aferrou à costas da camisa do Jacques. —Rand, está equivocado a respeito de Jacques. Pareço-me muito com Maggie, mas sou sua filha. E saberia se Jacques fosse um vampiro. Rand a olhou com tristeza. — Quantas vezes te perguntaste quem é ele? Não nota sua alegria quando assassina? E se alimenta com voracidade. Não pode negar. Quem melhor do que Jacques engenharia


toda esta maquinação? Noelle era sua irmã e ele a adorava. Ele afastou os outros de você e da mulher de seu irmão. Matou os humanos porque eram os únicos que podiam lhe identificar —disse baixando a cabeça com cansaço — Não posso a convencer, eu sei. Mas com o tempo comprovará que tenho razão. Diga-me, Maggie, não me vê agora distinto como me viu pela primeira vez a pouco? Não me vê quase como um ser ruim? E eu me pergunto. Quem está projetando essa imagem? Duvido que me conviesse fazê-lo. —Sua mente está muito mais limpa agora que eu estou aqui, e você

sabe. Vá

embora, Rand. Volta para buraco de onde se arrastou — disse Jacques com um gesto, mas seu rosto escureceu com e seu corpo se eriçou esperando o ataque de Rand. Mas Rand se limitou a desvanecer-se perante os dois, a suave gargalhada que fez, causou um intenso calafrio em Shea,Instaneamente, ela afastou-se de Jacques, incapaz de fitar seus olhos. Com suaves carícias, Jacques lhe levantou o queixo, obrigando-a a levantar o olhar. —Amo-te, Shea. Não tenho forma de lutar contra as mentiras que ele te contou até que esteja livre de minha dívida com Byron. Não me julgue até que eu possa resolver este assunto contigo. Sua voz era tão doce, suas carícias tão ternas, que o coração de Shea vibrou no peito e ela encontrou-se perdida nas profundezas de seus olhos. Queria fazer tudo o que ele pedisse. Seu corpo respondia ao dele, a seu olhar atormentado e afome se desesperada que o assaltava. Shea sentiu que seu corpo enchia-se de vida novamente e clamava pelo de Jacques, derretendo-se com antecipação. Sentia os seios doloridos e ardentes, desejando suas carícias. Mas afastou bruscamente seu olhar. Se afastou, para que o calor que despreendia do corpo masculino não a afetasse. Para que a corrente de eletricidade que os unia, fazendo ranger o ar entre os dois, rompesse-se. Tremendo, levou-se uma mão insegura ao cabelo e perguntou: — Como pensa me convencer, Jacques? Com sexo? Jacques sentia seu corpo arder pela necessidade. Sua ânsia por possui-la jamais seria saciada. Uma vez que se elevava, crescia até que a urgência o dominava por completo. Ela era humana ainda essência e não entendia, não sabia como atuava a paixão que unia dois companheiros. —Ruiva, você é suficientemente inteligente. Pode descobrir por voce mesma quem está dizendo a verdade. Rand está doente. Eu gostaria que fosse de outro modo, mas se verdadeiramente acreditasse que você é Maggie, teria atacado imediatamente. Um


companheiro não pode fazer mais que proteger sua mulher. É assim desde o começo dos tempos. Nenhum homem poderia estar com ela. Ele tenta usar sua ignorância a respeito de nossos costumes. Não preciso te convencer do que sente meu coração, nem do que sente o teu. Sei que estou ferido e você sabe também. Mas se eu fosse mau, você já teria descoberto. Não teria como ocultar de você, saberia — então lhe tendeu uma mão. — Pense com esse cérebro tão lógico que possui. Confio em que encontre suas próprias respostas. —Jacques… — duvidou Shea. Queria acariciá-lo, necessitava dele, mas tinha medo de perder-se na atração sexual que era incapaz de resistir—. Como vou pensar por mim mesma quando sempre está em minha mente? —Terá que solucionar você mesma, Shea — seus olhos negros percorreram seu rosto com um olhar terno — Me conhece melhor que ninguém e nunca te ocultei nada. Se pensar que sou um monstro, acreditarei — seu sorriso foi reconfortante. Shea inspirou profundamente e entrelaçou os dedos com os dele num gesto natural. Com o contato, pequenas faíscas saltaram da mão de Jacques para o seu corpo e o pulso da Shea se acelerou enquanto passeavam tranqüilamente pelo bosque, feliz do ter a seu lado. Jacques era uma parte dela, era o ar que respirava. Aceitou-o porque ele a fazia sentir-se completa.


Capítulo 16 Gregori era uma figura impressionante. Shea o olhou enquanto se ajoelhava junto a Raven. Toda sua atenção parecia concentrada na mulher que jazia imóvel sobre o chão. — Atendeste às feridas de Shea? — a pergunta surpreendeu Shea. Era dirigida a Jacques, como se ela não estivesse presente. — As feridas estão fechando — lhe assegurou Jacques — Rand atraiu Shea para o bosque. Ele é o traidor, curador. Afastei-me dele porque está conectado com Shea. Poderia fazê-la sentir algo que eu lhe fizesse. É muito perigoso, mas não posso ser eu a julgá-lo. Shea nunca me perdoaria. —Não faça isso, Jacques —disse Shea com um pouco de rancor. Estava exasperada com ele. — Sei que estas falando com Gregori. Se tiver algo que dizer, diga em voz alta, para que eu possa te ouvir. Crê que Rand é o vampiro, não? O pensamento estava em sua mente também e a fazia sentir-se desleal. Sabia que Rand não era trigo limpo. Possivelmente a morte de Maggie tinha transtornado sua mente de tal maneira que ele continuava vivendo no passado. Mas algo que havia dito Rand em sua estranha conversa lhe incomodava. Algo do que não podia estar segura. Gregori passou uma mão sobre o ventre de Raven, estendendo os dedos por toda a superfície. Permaneceu assim por um momento, com um sentimento surpreendentemente terno refletido no rosto e logo se voltou para a Shea. —Jacques sabe quais são suas obrigações para ti, Shea. Esse homem, Rand, seu pai biológico, jamais tomou parte em sua vida. Segure-se à realidade, não às fantasias de sua infância. — Maldito seja! Você não sabe nada a respeito de minha infância, fantasia ou não — lhe alfinetou Shea, estimulada por tranqüila atitude de superioridade. Gregori a tirava de sério. Ela suspeitava que era porque ele sempre usava a lógica. Era ela a que devia fazer isso. — Tenho minha própria mente, Gregori, e te asseguro que se encontra em perfeitas condições. Possivelmente a primeira vez que nos encontramos, lhe dei uma impressão falsa. Não sou uma mulher histérica que foge ao primeiro sinal de perigo. Não me deprimo à vista de sangue e posso tomar minhas próprias decisões.


—Se te causei a impressão de que pensava essas coisas sobre voce, acredito que deveria me desculpar — disse Gregori cortesmente—. Não é essa minha impressão. Tem muito valor, Shea. E é uma curadora, mas tem muito poucos conhecimentos sobre nossa forma de vida. Custa-te muito manter um corpo saudável e você tem essa dita aversão dos humanos a beber sangue. Igual a Raven. Ela levantou o queixo. — Sou consciente de que tenho um problema com este assunto, mas me ocuparei dele quando estiver preparada. Há outras coisas muito mais importantes no momento. — atrás dela, Jacques se moveu como se fosse protestar, mas guardou silenciou. — Aí é que você se engana, mulher. Nada é mais importante que isso —respondeu Gregori, com essa voz suave que era uma fonte de poder. — Sua saúde é essencial para todos os membros de nossa raça. Você é uma mulher. Pode criar uma vida dentro em seu interior. Você representa uma esperança para cada varão que não tem companheira. —Não tenho nenhuma intenção de ter filhos. Fz-se um absoluto silêncio na habitação. Gregori dirigiu toda a força de seu olhar para o rosto dela. Seus olhos derrubaram e atravessaram cada uma de suas defesas até que Shea sentiu que ele estava lendo a sua alma. Ele deixou escapar um suspiro lentamente. — Entendo por que pensa desse modo, Shea. O que lhe fizeram foi uma abominação. Mas também vejo a dor que te causa tomar essa decisão. Se for capaz de esperar que Jacques se recupere totalmente, antes de deixar atrás um sonho tão importante, acredito que descobrirá que nossa raça ama e aprecia a seus filhos e que os considera um presente e um tesouro. Sentimos por eles o mesmo que sentimos por nossas mulheres. — Por que Rand abandonou a minha mãe? Por que permitiu que outra pessoa criasse seu filho? Ou só lhes interessam as meninas? Gregori suspirou. —Todos nossos filhos, meninos e meninas, são amados e protegidos por igual, Shea. Não compreendo Rand, aliás, nunca consegui. O que posso te dizer agora, é que acredito que ele é muito perigoso e que temos que fazer algo a respeito. Colocou armadilhas de arames no prado, não só para matar aos nossos, mas também também aos humanos e aos animais. Asseguro-te que foi difícil desarmar todos os dispositivos. Não podemos permitir que ele continue com esse comportamento desenquadrado, você sabe. O que acontece é que não quer reconhecer.


— E isso é tudo? Podem lhe julgar culpado sem saber o que se passou? Como pode estar seguro de que foi ele? —Shea se deu conta de que estava retorcendo os dedos enquanto tratava de encontrar uma desculpa para seu pai. Recordou seu hálito sobre o pescoço, mas afastou a imagem de sua mente rapidamente, sentindo-se desleal novamente. —Porque nenhum de nós percebeu sua presença no bosque. — lhe respondeu Jacques amavelmente. Havia uma sombra na mente dela, e ele percebia claramente o conflito entre seu cérebro e suas emoções—. Só você percebeu, Shea. Foi capaz de despertar, apesar da forte ordem que enviei para que dormisse. Atraiu-te deliberadamente para o bosque mediante enganos e tratou de tomar seu sangue para fortalecer seu domínio sobre ti. —Talvez esteja doente… Ou confundido. Pôde me haver forçado, mas não o fez. Por que não me forçou, Jacques? Certamente, poderia ter feito — apontou ela—. É muito mais forte que eu e além disso, me sentia aturdida, como se estivesse em um sonho. Por que ele não se limitou simplesmente a me obrigar a fazer o que ele queria se é que é realmente um vampiro? —Porque um companheiro não pode forçar a escolher. Deve fazê-lo livremente. De outra maneira, não se estabelece um verdadeiro vínculo. E ele sabe —Jacques estendeu a mão para ela—. Essa informação está codificada em seus gens, muito antes de seu nascimento. Shea se afastou dele esfregando-as têmporas, que palpitavam com força. — Por que tudo o que tem relação com vocês é sempre tão complicado, Jacques? Não conhecia nada parecido quando era humana. —Você só foi metade humana, Shea —recordou Jacques com cuidado — e sabe que se encontrava em sério perigo. Sua mãe sabia que devia a esconder dessa sociedade de cientistas. Shea estremeceu e esfregou os braços para conseguir calor. — A única coisa que quero é sair daqui, Jacques e deixar tudo isto para atrás. Preciso encontrar uma maneira de o perdoar por me usar para matar os homens. A silhueta de Mikhail se materializou ante os olhos de Shea e quase lhe provoca um enfarte. Ele dirigiu-lhe um radiante sorriso. — Devo te agradecer por devolver o meu amor. Sem ela, minha vida não teria sentido algum. Demonstraste ser um importante membro para nosso povo. É uma pena que tenha sido introduzida sem a preparação suficiente para fazer que a transição fosse mais singela, mas


são tempos difíceis para nós. — ele acariciou-lhe o braço suavemente — Por favor, nos perdoe por te usar para deter o Slovensky e Wallace. Não podíamos permitir que matassem Raven ou que a seqüestrassem, como era sua intenção. Raven não podia nos ajudar, assim recorremos a voce. Esteve muito mal por nós te usar sem seu consentimento, mas a escassez de tempo para atuar não nos permitia o luxo de pedir permissão. Seu companheiro não podia fazer nada, exceto proteger sua vida e naquela distância era impossível fazer nada sem ver através de outros olhos. — Mikhail foi eloqüente e sincero, e Shea não pôde zangar-se com ele. Shea suspirou e se mordeu os lábios. —Desejaria que não tivesse ocorrido dessa forma, Mikhail, mas me alegro muito de que Raven siga com vida. — Não entendo como esses dois humanos conseguiram passar despercebidos, nos ocultando sua presença. Eu mantinha Raven controlada o tempo todo. — disse Mikhail. — Não deveriam estar em perigo. Sondei os arredores, igual a Gregori e Jacques. Pode ser que um vampiro seja capaz de nos confundir, mas os humanos não. — Eu também fiz um sondagem. — acrescentou Raven fracamente, com apenas um fio de voz — E não detectei nenhum perigo possível. Mas Shea se encontrava inquieta e estava convencida de que não estávamos sozinhas. Desprezei seus medos, pensando que a causa de seus nervos era a separação de Jacques. —Só Shea foi capaz de detectar ao vampiro no bosque —disse Jacques. De repente, Shea se deu conta de que era o centro das atenções. De forma instintiva, aproximou-se Jacques e ele passou um braço em volta de sua cintura, protegendo-a com seu corpo. — Sei que todos pensam que é Rand. Mas não quero que ele seja… Quero formar parte de uma família. —Já faz parte de uma família, Shea — disse Mikhail com suavidade. —Eu sou sua família. Raven é sua família. Nosso filho será assim que nasça e, é obvio, tem Jacques. Algum dia terão filhos. — fez um pequeno gesto mostrando Gregori. — Inclusive pode considerar o curador como sua família. Nós o fazemos. Permanecemos juntos e sempre estamos por perto. Estes últimos anos não fomos um bom exemplo do que supõe nossa existência. Estamos sendo atacados e devemos nos defender. A maior parte do tempo, nossa vida é muito parecida com a dos humanos. Não nos julgue pelo que está vendo agora. São tempos excepcionais.


—Possivelmente Byron possa nos dizer quem lhe traiu —acrescentou Shea desesperadamente — Não podemos perguntar a ele, antes de condenar Rand? — O que a incomodava tanto? O que havia dito Rand? Jacques a manteve junto a ele. — Ninguém quer que seja Rand, pequena ruiva e pode estar segura de que ninguém atuará sem ter uma prova concreta. Shea sabia que ele estava tentando tranqüilizá-la, apesar de suspeitar que seu pai era o traidor. E uma parte dela sabia que tinha que ser verdade. Agora que estava longe da influência do Rand era capaz de ver as coisas claramente. Não era só um homem confundido e atormentado pela morte de sua mãe. Podia ser um assassino frio e calculista. Shea fechou os olhos incapaz de entender a direção que seguiam seus pensamentos. Não deveria ser Jacques a acabar com a vida de Rand. Simplesmente não podia ser. Uma suave cariciase estendeu por sua mente e ele a envolveu de maneira protetora em seus braços. — Não há nenhuma necessidade de que seja eu o caçador de Rand se for provado que ele é o vampiro que está assassinando nossa gente. Os outros podem se encarregar disso. Podemos nos afastar deste lugar se isso for o que deseja, meu amor. Se Rand era o vampiro, o traidor, Jacques teria mais direito que nenhum outro de querer destroçá-lo. Mas, mesmo assim, ela não podia suportar a idéia. — Obrigado Jacques. Não gostaria que fosse… Se realmente for necessário chegar até esse ponto. — Vamos ver como está Byron para que possa cumprir com ele, meu pacto. Mais tarde, procuraremos um lugar para descansar. Shea fez um gesto de assentimento,e movendo a cabeça contra seu peito. Podia ouvir o tranqüilo batimento de seu coração, sentir o calor que despreedia de seu corpo e atravessava o espaço para introduzir-se no dela. Jacques era de carne e osso, completamente real, e ela devia encarregar-se de que as coisas fossem devagar e de tomar as decisões razoáveis para ambos. Embora nesse momento, Shea não estava segura de ser capaz de fazer tal coisa. Seu brilhante intelecto não parecia funcionar muito bem ultimamente. — Vamos ver Byron, curador. Vem conosco? — perguntou Jacques. Gregori deixou Raven com o Mikhail. Cada momento da existência do curador seria uma dura prova, um inferno vivente, até que a menina alcançasse a idade natural. Sabia que


uma mulher não podia ser reclamada antes de seu décimo oitavo aniversário… Caçaria, alimentaria-se e se absteria de matar, a menos que tivesse que fazer justiça. Esse seria o momento mais perigoso de tudo. O instante em que tivesse que se afastar do poder que experimenta ao tomar uma vida. E em algum lugar, perto dali, Rand estava os esperando. No momento em que Gregori se dispunha a seguir Jacques e Shea, Mikhail lhe deteve. — É possível que os humanos tenham encontrado algum tipo de química que lhes permita nos ocultar sua presença? Porque se tiverem obtido, todos nós estamos em perigo e deveremos nos preparar para enfrentar este novo tipo de provocação. — É possível, sim. Mas o mais provável é que o vampiro esteja usando um feitiço de ocultação. É muito antigo e quase está esquecido. Encontrei-o no Livro Perdido do Shallong. Enterrei-o, junto a suas diabólicas referências, na Montanhas das Almas. Acreditei que nenhum outro se atreveria a ir até lá. — Gregori olhou para Shea, a fim de assegurar-se de que ela não lhe ouvia—. É muito possível — continuou Gregori — inclusive provável, que Rand tenha despertado sete anos atrás, tenha encontrado à mãe da Shea morta e sucumbisse à escuridão. Em seu ódio, ele culpa você e Jacques. Pode ter estudado as Artes Antigas e retornou depois para dirigir Slovensky e seu sobrinho em sua empreita em assassinar nossa gente. Nenhum de nós sabia que ele havia despertado, por isso, não era um suspeito. Jacques acredita que conhece o traidor, esteve perto dele uma vez. E Rand fazia parte de sua família, através de Noelle. — Crê que Rand torturaria o próprio filho? Seria ele capaz de mutilá-lo? — O filho de Noelle, Mikhail. Se Rand for tão ruim, como suspeito, foi ele quem ajudou os humanos a cometer os assassinatos que ocorreram há sete anos. Todos nós estamos em perigo, mas especialmente Jacques. O único dos nossos que poderia escapar da morte é Shea e ela sofreria enormemente. — Ele sabe que agora tentaremos lhe caçar e tratará de fugir. Gregori fez um gesto negativo com a cabeça. —Não, ele investiu muito tempo em preparar sua vingança. É puro ódio, Mikhail. Ele vive para matar, e nós somos suas presas. Permanecerá aqui, e seguirá tentando colocar Shea a seu lado. — Avise Jacques.


—Não há nenhuma necessidade. Jacques já sabe. Manterá Shea constantemente a seu lado. Jacques é muito perigoso, Mikhail. Você ainda insiste em pensar Jacques como o irmão pequeno que deve continuar protegendo, mas ele desenvolveu um enorme poder. Rand lhe subestima. Não reconhece o monstro que ele mesmo criou. —Não estou seguro de que gosto que se refira a meu irmão como um monstro — a voz de Mikhail tinha um sotaque de humor. — Não? Pois deveria escutar o que fali de você, as suas costas… —disse Gregori enquanto estendia os braços, que já se estavam transformando em asas. A gargalhada de Mikhail era ouvida longe quando o pássaro começou a atravessar o céu noturno.

A caverna de cura era mais pequena que a maioria das cavernas dispostas pelo labirinto de túneis subterrâneos. A terra era rica, escura e fértil. O aroma que reinava no ambiente era muito agradável. Era aroma de ervas misturado com a fragrância natural da terra. Shea introduziu uma mão no bolso traseiro da calça de Jacques, numa forma de permanecer em constante contato enquanto inspecionavam a extensão das feridas de Byron. Shea tinha uma insistente sensação de déjà vu. Smith e Wallace não o tinham torturado tanto como a Jacques, mas, seu corpo estava enegrecido pelas queimaduras e coberto de cortes. Shea encontrou a mão do Jacques e enlaçou os dedos com os dele, temendo olhar seus olhos. A imagem do corpo torturado de Byron devia lhe trazer umas lembranças horríveis. Tentou mostrar-se divertida. —Bom, pelo menos terá que agradecer que eles foram pouco imaginativos na hora de inflingir tortura. Ele está com as mesmas feridas que você. Poderei o ajudar, me apoiando na experiência que tive com voce. Jacques não queria que ela tocasse no outro homem. A emoção era aguda, terrível e assustadora. Tentando acalmar-se, respirou profundamente, colocando instintivamente seu enorme corpo entre Byron e sua companheira. Shea, presentindo, acariciou-lhe o rosto com seus suaves dedos. — O que está havendo? — tinha uma voz tão clara e fresca, tão suave que Jacques se sentiu envergonhado por seus mesquinhos pensamentos, mas não podia lhe mentir.


— Não sei… O que posso te assegurar é que não poderei suportar que lhe toque. Deus, Shea, odeio-me por isso! Mas não pode fazê-lo. — Ele cobriu o rosto com as mãos, olhando-a com imenso pesar—. Não posso permitir que te aproxime dele. — O que crê que acontecerá a este homem? É que agora crê nas histórias de Rand? Crê que que ele me influe de algum modo e que o que há entre nós não é real? —Só sei que se toucar este homem perderei o controle. A besta de meu interior conseguirá se impor a minha mente que romperá em tantos fragmentos que não acredito que seja capaz de voltar a ser o mesmo novamente. Shea podia perceber a aversão de Jacques pelo ciúme irracional e também seu medo de que ela desprezasse sua súplica e algo terrível acontecesse. Deu-se conta de que ainda sabia muito poucas coisas sobre a gente dos Cárpatos, que Jacques estava no limite de sua prudência e que nesse momento era mais um animal que um homem. Colocou a mão em seu braço e sorriu. — Podemos esperar ao curador. Jacques sentiu que a tensão desaparecia de seu corpo — Acredito que será o melhor. Shea ficou nas pontas dos pés para percorrer seu pescoço com os dedos, numa massagem, sugestiva e reconfortante ao mesmo tempo. Ele reagiu esmagando-a contra seu corpo, capturando a boca de Shea com seus lábios duros e dominantes. Foi um beijo totalmente possessivo e seu corpo se mostrava tão exigente como sua boca. — Preciso de você agora mesmo, Shea. Sinto que meu corpo vai se romper em chamas e me dói como o maldito inferno. Temos que conseguir ficar a sós ou acredito que vou morrer. A risada dela foi sufocada contra seu peito. —Ninguém nunca morreu por desejar fazer o amor — mas não estava tão segura. Seu próprio corpo estava ardendo, clamando por unir-se ao dele. Gregori se materializou de repente e com um suave suspiro, observou-lhes fixamente, franzindo o cenho. Como colegiais que foram pilhados fazendo algo errado, ambos se separaram bruscamente. O curador disse:


— Byron está fraco demais, Jacques. Pode tentar resistir a voce. Está perto da transformação a bastante tempo. Conte-lhe da filha do Raven e de sua fé em que Shea também será capaz de trazer filhas ao mundo — aconselhou Gregori — Deve tentar lhe controlar a todo momento. Posso perceber claramente sua oposição em que não lhe deixamos morrer. Jacques assentiu. Desejava que Shea se afastasse de Byron e ela se dirigiu para o fundo da caverna assim que lhe leu o pensamento. Ela a agradeceu mentalmente e concentrou toda sua atenção em seu velho amigo. Shea o observava, sentindo-se de repente muito orgulhosa dele. Podia ser que ele não suportasse que ela tocasse em outro homem, mas não se sentia bem por isso. E podia perceber sua total determinação em salvar Byron. Sabia que ele não podia lhe mentir para se tornar melhor a seus olhos. Nem sequer tinha tentado ocultar seu lado negro, mas queria que ela encontrasse uma forma de poder lhe amar apesar de saber que o tinha. E ela o amava. Podia não o compreendê-lo em tudo, mas amava tudo o que fazia parte dele. Jamais fugia ante suas responsabilidades. Enfrentava o demônio que havia em seu interior, a todo instante e estava acontecendo uma coisa atrás de outra. Shea havia demorado a assimilar todas as informações, mas a única coisa consistente era que Jacques permaneceria a seu lado. Era sincero em todas as coisas, inclusive para reconhecer a terrível necessidade que sentia por ela. Byron gemeu, atraindo a atenção dos homens que se inclinavam sobre ele. Gregori permanecia tão imóvel como uma estátua, completamente concentrado no corpo destroçado. Jacques tinha colocado sua mão sobre a boca de Byron. Revolveu o estômago de Shea, mas ela não afastou os olhos da cena. Byron resistia a tomar o sangue, implorando com o olhar. — Deve tomar meu sangue, Byron. As mulheres estão a salvo. A armadilha que armaram para nós, falhou — a voz grave de Jacques era como uma doce melodia que se pulverizavam no ar. Shea se uniu a ele para incrementar sua força. Pôde perceber a surpresa de Jacques quando acrescentou sua vontade a dele, em obrigar Byron aceitar o que estavam oferecendo. — A mulher de Mikhail está com uma menina em seu ventre — disse Jacques moderadamente. — Shea também é uma humana e será capaz de trazer filhas ao mundo. Agora há esperanças para o futuro, Byron. Queremos que se uma a nós na busca dessas mulheres humanas com habilidades psíquicas que nosso povo precisa. Não pode desperdiçar


sua vida. O que aconteceria ao nosso vínculo de amizade e sangue, se fosse você o companheiro de minha filha? O que passaria a nossa filha? Aceite o que te ofereço livremente, velho amigo e salve-se. É forte. Sobreviverá. Enquanto reconstruímos nossa raça. Byron observou atentamente as profundezas dos olhos de Jacques durante um bom momento, como procurando algo, que evidentemente encontrou. Fechou sua boca sobre a mão que ele oferecia e bebeu voluntariamente. Pela primeira vez, Shea não achou repulsivo aquele ato. Havia algo singelo no modo em que Jacques entregava seu sangue tão livremente ao amigo. Era algo muito mais pessoal que a mera doação de sangue dos humanos. Seu corpo se estremeceu com um tórrido desejo e sem se dar conta, envolveu a mente do Jacques com seu calor. Pôde observar como agitou o corpo dele, como se alguém o tivesse golpeado fisicamente. Sentiu-se culpado durante um segundo, mas no momento em que percebeu um roçar em sua garganta, entregou-se a carícia mental estimulante. Gregori se endireitou o corpo, vagarosamente e inspirando profundamente, voltou-se para olhar Jacques. — Pegue sua mulher e encontre um lugar longe de nós. Sabe o quanto pode ser perigosos os homens de nossa raça, neste estado. Ocupe-se de suas necessidades, Jacques. — Não sei muito bem para onde me dirigir. Se por acaso não recorda, nosso lar foi invadido e o vampiro sabe sua localização. —Dirija-se para as profundidezas da terra. A caverna continua até chegar quase até o núcleo, onde há águas termais. Estará a salvo ali. E a sós. — E Byron? — Ele não pode falar. Da mesma forma que ocorreu a voce, sua voz está paralisada. De todas formas, duvido muito que se recorde de quem lhe traiu. Vou escondê-lo, para que se recupere. E sairei a procurar Rand. Nosso príncipe ditou a sentença sobre o traidor. Mas não se preocupe, assegurarei-me de que é culpado, antes de o destruir. Jacques se abaixou e roçou o ombro de Byron. —Durma o sono dos nossos, Byron. Retornarei a cada dia para me assegurar de que está bem alimentado e de que suas feridas estão se curando. Confia em mim? Byron assentiu cansadamente e fechou os olhos. Deu as boas vindas ao descanso que lhe proporcionava a terra curativa. O sangue joa fluía através de suas veias, lhe dando as forças necessárias para iniciar o processo de cicatrização. Sentia-se melhor sabendo que, de


alguma forma, tinha conseguido advertir a outros da armadilha que o vampiro havia preparado. Tinham-lhe utilizado para separar mediante enganos, os homens das mulheres. O vampiro incluso havia murmurado em ouvido, o plano de sacrificar Smith enquanto Slovensky e seu sobrinho matavam Raven e raptavam Shea. A terra se abriu de repente e seu corpo leve flutuou para introduzir-se no buraco. A terra lhe rodeou, tratando de envolvê-lo num abraço acolhedor. E ele se deixou levar pelo sono e pela terra que lhe envolvia. Jacques inclinou a cabeça brevemente para despedir-se de Gregori e estendeu a mão para d Shea. No mesmo momento em que seus dedos se fecharam ao redor dos dela, uma descarga elétrica atravessou seus corpos. Ele a tirou rapidamente da caverna e a arrastou para o túnel. Horrorizada, Shea descobriu que, em lugar de retornar ao bosque, Jacques a estava levando para baixo, para as vísceras da terra. O túnel era suficientemente largo para que pudessem caminhar juntos, mas ela parecia não se mover tão rápido como gostaria. Cada passo que davam, o corpo do Jacques ficava mais tenso e dolorido. Quando se deu conta de que tinha começado a ofegar, levantou-a em seus braços e começou a correr pelas galerias. — Pode-se saber o que está fazendo, Jacques? — disse Shea, entre risonha e séria, rodeando seu pescoço fortemente com os braços. — Levando voce para um lugar no que possamos estar a sós — disse ele sem titubear. Desejava-a a horas, há dias na realidade… Parecia que a desejava a uma eternidade. Tinha que possui-la imediatamente. Shea enterrou o rosto em seu ombro, enquanto seu corpo respondia rapidamente à urgência de sua voz, com a respiração entrecortada e aos frenéticos batimentos de seu coração. Colocou a boca sobre o ponto em que se notava a pulsação e deixou que seu hálito esquentasse a pele. Pôde sentir o estremecimento dele e deliberadamente começou a explorar sua pele com a língua. — Mmm, que bom… Sabia? — Maldita seja, Shea!. Juro que se continuar com isso, jamais chegaremos aos mananciais. —Não sabia que havia mananciais por aqui — sussurrou ela distraídamente enquanto mordiscava sua garganta. Deslizou lentamente a boca para sua orelha. —Há mananciais de águas termais. Estão só um pouco mais à frente –disse Jacques com um gemido, mas inclinou a cabeça para lhe permitir o acesso.


Ela deslizou a mão pela parte dianteira de sua camisa, procurando os botões e desabotoando-os lentamente, a fim de conseguir que suas mãos tivessem acesso sobre a pele ardente. — Já está suficientemente quente, Jacques — sussurrou ela perversamente junto a sua orelha, acariciando o lóbulo com sua língua—. Certamente, eu já estou. Ele se deteve bruscamente e apoiando-se contra a parede, permitiu que os pés dela descessem até o chão. Não havia palavras que pudessem descrever sua fome, a urgência de seu corpo ou o caos que reinava em sua mente. Inclinou-se sobre ela, forçando-a a arquear o corpo para trás enquanto ele se apoderava de sua boca. Colocou as mãos rodeando sua garganta, lhe elevando o queixo com os polegares para ter um melhor acesso aos lábios. Shea percebeu como estremecia o chão sob seus pés. Uma extensa gama de cores flutuavam em sua mente enquanto as labaredas do desejo consumiam seu corpo. Já não podia suportar o roçar da roupa contra a pele que estava muito sensível. Sentia os seios inchados e doloridos e podia notar como seus mamilos se erguiam sob a malha que os cobria. Jacques estava ardendo. O jeans justo não lhe permitia respirar, então se limitou a rasgá-lo a fim de liberar seu corpo e rasgou a camiseta que protegia Shea. —Tenho que te possuir agora, Shea — disse com voz rouca. Suas mãos estavam em todas partes… E ao fim chegaram até seu torso, segurando seus seios pequenos e firmes enquanto seus polegares acariciavam os mamilos sem descanso, convertendo-os em tentadoras pérolas de carne. Mordiscou a esbelta linha de sua garganta e seguiu descendendo para as cremosas colinas que formavam seus seios. Frenéticos gemidos escapavam da garganta de Shea enquanto ele, faminto e dolorido pela necessidade, deliciava-se. Com uma sensualidade urgente, ele não demorou a deixá-la no mesmo nível do desejo selvagem. Os gemidos quase selvagens que ela emitia, aumentavam seu desejo, lhe levando à loucura. — Está fora de controle, homem selvagem — murmurou Shea provocantemente, enquanto suas mãos insistiam em apressar-se. Eram uma tocha enorme e arrojada. Até o mesmo ar que lhes rodeava parecia estar ardendo. Jacques lhe arrancou o restante da roupa dela com uma mão enquanto com a outra a colocava rapidamente sobre o chão, cobrindo-a imediatamente com seu enorme corpo. — Você crê? — Ele levantou-a pelos quadris e enterrou-se nela profundamente, sem preâmbulos. O prazer que lhes invadiu estava entre o aprimoramento e a dor, entre o alívio e a


felicidade infinita. Ela estava ardendo, completamente preparada para lhe recebê-lo e seus músculos se fecharam ao redor dele, lhe apertando como uma vagem de seda. Jacques sentia a boca da Shea contra os músculos de seu peito, seus gemidos de prazer e seu corpo estremecia como resposta, obrigando-o a mover-se mais rápido e profundamente dentro dela. Um pequeno laivo de dor se converteu rapidamente no mais sublime dos prazeres quando os dentes dela penetraram em sua pele. Sentiu que seu sangue derramava na boca dela, sensual e picante, enquanto seu corpo penetrava, dominante, possessiva e repetidamente nela. Ele havia se transformado em selvagem. Faminto. Insaciável. Entrava e saía dela, consumido pelo desejo, enquanto seus corpos se uniam em todos os sentidos, deixando que suas almas e seus corações voassem livres. Jacques não queria sair dela jamais, queria que o prazer durasse toda a eternidade. O coração martelava seu peito enquanto seu cérebro se desfazia com erótica indulgência. As presas começaram a crescer rapidamente em sua boca, querendo tomar tudo dela. Enquanto Shea se alimentava, inclinou a cabeça para apoderar-se de sua garganta. Shea deixou escapar um grito de êxtase, quando sentiu dentes se cravavam profundamente em sua garganta quando o corpo másculo penetrava-a loucamente, aumentando a sensação de prazer enquanto sua mente estava envolvida por um espiral de cores. Passou a língua pelas pequenas aberturas do peito musculoso e se prendeu a ele como uma âncora, abraçando-o fortemente quando começou a sentir que estava perto de alcançar os céus. Jacques a envolveu com os braços e se afundou nela, encaixando seus corpos tão perfeitamente como suas mentes e seus corações se fundiam. Como as metades de um só ser. Nesse momento, era impossível dizer onde terminava um e começava o outro. Suas bocas se uniram, compartilhando sua força vital, no instante em que atravessavam o limite e se deixavam levar a um lugar à frente do tempo e do espaço.

Shea jazia totalmente exausta em seus braços, alheia a tudo salvo à beleza e a paz que a envolviam. A terra onde se encontravam, parecia suave e acolhedora, e o arredondado túnel se transformou em um de santuário para eles. O corpo do Jacques, forte e musculoso, tinha sido seu único ponto de ancoragem durante aquela selvagem tempestade de amor. Sentia-se completamente saciada. No calor do momento, alimentou-se bem, tomando o que Jacques oferecia livremente. Agora entendia o que ele havia insinuado quando lhe disse que havia maneiras de evitar sua repulsão por seus hábitos alimentícios. Acariciou com a mão, os músculos perfeitamente definidos de suas costas, inalando a agradável combinação de


fragrâncias de seu corpo. Pela primeira vez em muitos dias, Shea se sentia verdadeiramente em paz. Jacques a estreitou com força, agradecendo de momento, que aquela urgente e deliciosa agonia tivesse abandonado seu corpo. Inclinou a cabeça e acariciou seu cabelo com ternura. —Parece que não conseguimos chegar aos mananciais… — Que mananciais? Sua voz soava sonolenta e sensual depois de ter feito o amor. Ele sentiu-se tocado e seu corpo começava a endurecer-se novamente. — Este túnel conduz aos mananciais de águas termais. É um lugar adorável onde podemos descansar por algum tempo. Dirigia-me para esse lugar quando você me seduziu. Shea riu gostosamente. — Eu fiz isso? Se tudo o que preciso fazer para te seduzir é abrir sua camisa. Pareceme que vamos ter freqüentemente estas selvagens sessão de amor. Jacques esfregou o rosto contra a maciez de seu pescoço, deslizando prazerosamente sua boca para seus incitantes e deliciosos seios. — Não tem nem idéia de quão formosa é… —Não, mas me pode dizer isso se quiser — ela o animou, rodeando seu pescoço com os braços. Shea fechou os olhos, deleitando-se com a maravilhosa sensação que lhe produzia a língua do Jacques sobre seus mamilos. —Amo você mais que possa imaginar, Shea — disse ele de repente, levantando sua cabeça para cravar seu escuro olhar nos surpreendidos olhos verdes— Não só preciso de você, como a amo com loucura. Sei tudo sobre ti, estive em sua mente, compartilhando suas lembranças, seus sonhos e suas idéias. É muito mais que isso. Quero-te –de repente, sua boca esboçou um sorriso radiante enquanto acariciava com os dedos o lábio inferior dela— E mais, sei que você me ama também. Engana-se você mesma, mas eu vi seu amor escondido em um pequeno lugar de sua mente. Shea olhou fixamente o travesso sorriso que iluminava o rosto másculo e lhe deu um ligeiro empurrão. —Está inventado isso.


Jacques se separou dela, e a ajudou a ficar em pé. Suas roupas estavam espalhadas por todos lados, mas ele não fez nenhum gesto a fim de reuni-las. A camiseta de Shea estava sobre seus ombros e sua calça jeans ao redor dos tornozelos. Ruborizada, ela a subiu. Jacques colocou as mãos sobre as dela, impedindo-a. — Não se incomode, Shea. As termas estão só um pouco mais adiante – Ela avançou, mas de repente, voltou-se ligeiramente para olhá-la sobre um ombro — Não inventei isso e sei que agora está ohando meu traseiro. Shea sacudiu a cabeça, fazendo com que seus cabelos flutuassem em todas as direções. —Qualquer mulher olharia esse espetacular traseiro, portanto, não é necessário que acrescente mais esse item em sua arrogante lista de virtudes. E mantenha-se afastado de minha mente a menos que eu o convide. Shea continuava olhando fixamente, pois não podia evitá-lo… Tinha que reconhecer que ele era um magnífico exemplar masculino. Jacques estirou uma mão para trás para tomar a de Shea e entrelaçar os dedos com os dela. —É que encontro as coisas interessantes em sua mente, meu amor. Coisas que você não parece disposta a me contar. Shea começou a ouvir um ruído. Não era a destilação da água que se filtrava pela terra para cair no túnel, era um surdo rugido que aumentava de volume a cada passo que davam. Olhou cautelosamente a seu redor, temendo que o teto da caverna fosse vir-se a baixo. Jacques pegou em seu braço, instigando-a a seguir em frente. Depois de ultrapassarem alguns obstáculos, ele se agachou para introduzir-se por uma pequena abertura, e Shea, contra vontade, seguiu-lhe. No momento seguinte, a visão que descortinou a sua frente, a deixou sem fôlego. Era uma enorme e espaçosa área, cheia de cristais de rocha que cobriam as paredes, enchendo o vaporoso ambiente com suas suaves e resplandescentes cores. As termas se encontravam em distintos níveis, separadas por simétricas paredes de pedra. O vapor emergia da água, dando local, uma aparência etérea. Uma larga cascata de água espumosa derramava sobre a mais profunda das termas. Os enormes blocos de pedra que separavam-nas, tinham a superfície lisa e plaina formando bancos naturais nos quais podia-se sentar ou deitar-se. Shea contemplou aquele paraíso subterrâneo absolutamente maravilhada.


—É tão formoso… Como é que ninguém conhece este lugar? Jacques sorriu. — Refere-se aos humanos? — ele voltou-se para ela e tomando-a pela nuca inclinou a cabeça para apoderar-se de sua boca. Ela estava muito tentadora com o aspecto desalinhado e o cabelo revolto. O corpo de Shea se tornou instantaneamente, suave e flexível, misturando-se ao dele, mais forte e duro. Sua boca era cálida e incitante, e seus seios pressionavam contra seu ventre nu. Jacques levantou a cabeça, e traçou com o polegar, um atalho desde seus lábios, passando pela garganta, até o mamilo. — Estas cavernas são profundas e seus túneis continuam por quilômetros e quilômetros. É muito fácil perder-se por aqui ou mesmo desaparecer. São poucos ao humanos que se aproximam deste lugar. Tem a reputação de ser muito perigoso. — ele deslizou a mão sobre a pele lisa, numa suave carícia—.Tire a roupa. Shea sorriu , antes de provocá-lo. —Vejo que é muito perigoso, homem selvagem… Diga-me, por que eu iria fazer algo que obviamente vai me meter em grandes problemas? Jacques deslizou a mão por sua cintura, seguindo depois a linha de suas costelas. Podia sentir como ela estremecia sob seu contato. —Porque te desejo. Porque quer me agradar. Shea soltou uma gargalhada e arqueou as sobrancelhas. — Sério? É isso memo, o que quero fazer? Ele inclinou a cabeça solenemente. — Sobre todas as coisas. Ela separou-se de um pouco dele, incitando-o deliberadamente. — Hum… Não sabia, mas muito obrigado por me dizer. — Por nada — respondeu ele gravemente, seguindo com os olhos cada um de seus movimentos. Shea era elegante e sedutora. Uma sereia que lhe convidava a seguí-la. Jacques sentiu como seu próprio corpo estremecia. Decidiu que as termas seriam um lugar delicioso para estar com ela. Introduziu-se em uma delas, sobressaltando-se quando as borbulhantes águas contribuíram para aumentar a sensação de formigamento que lhe percorria a pele. O


riso travesso dela chegou flutuando até ele, provocando uma descarga em suas terminações nervosas com a mesma eficácia que uma labareda. Shea sentiu que uma súbita onda de poder percorria seu corpo. Jacques era um homem invencível, e ainda assim, ela podia observar como estremecia o corpo musculoso e podia ouvir os selvagens batimentos de seu coração por cima do rugido da cascata. E tudo por ela. Deliberadamente, lentamente, tirou a calça jeans, deixando à vista seu esbelto corpo e o descoberto triângulo de cachos vermelhos, incitando-o. O que restava de sua camiseta chegou flutuando até o chão e ela levantou os braços para cima, com uma sedutora provocação. O corpo de Jacques respondeu imediatamente, endurecendo em apenas observá-la. Seu olhar não perdeu nenhum dos sensuais balanços de seus quadris, nenhum dos rítmicos movimentos de sua esbelta figura. Shea entrou na água caminhando lentamente, deixando que a água lambessem sua pele como uma úmida língua. Desapareceu sob a superfície e nadou para o centro da piscina para emergir depois como uma elegante e resplandecente sereia. Jacques sentou-se a bordo uma rocha, colocando as pernas sob a água e permitindo que as bolhas brincassem ao redor de seus quadris. Observou-a enquanto nadava de um lado a outro, com o corpo brilhando sobre a água, até que desapareceu uma vez mais, sob a superfície. Quando emergiu para respirar, Shea percorreu com o olhar, o formoso corpo. Ele permanecia absolutamente imóvel, como se formasse parte da própria rocha. Jacques era formado de músculos poderosos e bem definidos,e seu corpo passava a sensação de estar preparado para atacar. Um leve sorriso desenhou na boca dela enquanto nadava lentamente para ele. —Então crê que quero te agradar… — Definitivamente — a palavra saiu rouca de sua boca. Shea sorriu-lhe provocante, feminina. —Tem razão, homem selvagem. Quero te agradar. Mas, como posso estar segura de que não usaste comigo essa tua capacidade de sugestão? Como posso saber se é algo que eu quero fazer e não algo que você deseja que faça?

A voz rouca era ao mesmo tempo, sedutora e possessiva. —Não me importaria em te hipnotizar para que cumprisse minhas ordens, mas acredito que pode me agradar sem essa ajuda. Estava difícil pensar corretamente, já que sua mente era um furioso torvelinho de


desejo. A água acariciava seus quadris à medida que ela lhe aproximava. Não demorou para que os seios perfeitos acariciassem-no, enviando ondas de intenso desejo que fizeram com que seu sangue fervesse nas veias. Shea empurrou seus joelhos, forçando-o a separar para que pudesse se acomodar entre eles. Manhosa, deitou a cabeça no peito dele. —Tenho que pensar em qual é a melhor forma de te agradar. Noto várias idéias interessantes rondando por sua mente, mas acredito que devo me decidir por uma ou não? O hálito quente dela, sobre sua pele, fez seu corpo endurecer ainda mais. Ela apanhou com a língua, uma gota de água e fechou os olhos para saboreá-la. Jacques gemeu ante o súbito prazer que tomou seu corpo, de cima a baixo. Rodeou com as pernas o corpo nu dela, atraindo a para ele até que seus lábios rosados, estivessem à altura de seu membro rijo, que se erguia para ela descaradamente. Deliberadamente, impulsionou pouco a pouco seu corpo para diante. A água borbulhante formavam ondas que exploravam os corpos nus e a cabeça de Shea, com seus cabelos espalhados por elas, aproximando-se travessamente, fez Jacques conter a respiração. Quando finalmente ela o acariciou com seus lábios macios e envolventes, a mente do Jacques pareceu dissolver-se, seu corpo estremeceu e seu coração explodiu dentro de seu peito. A sensação de que seu corpo estava se desfazendo era dolorosamente excitante. Seu corpo já não lhe pertencia, não tinha mais nenhum controle sobre ele. Shea o torturava deliciosamente, arrancando-lhe gemidos e lhe proporcionando um infinito prazer. Observavá-a indefeso, completamente preso naquela sensação de doação, de beleza e amor. Dominado, acariciou a cabeça dela, totalmente encantado por aquela ruiva de cabelos vermelhos. Nunca ninguém, nem nada, em todos os seus séculos de vida, haviam-no preparado para a intensidade das emoções que ela despertava nele. Agora sabia o que significava dizer que alguém daria gostosamente sua vida por alguém. O polegar do Jacques levantou seu rosto para poder fitá-la. Para que ela pudesse ler o que havia em sua alma. Apesar de todos seus defeitos, apesar do mal com que havia iniciado sua relação com ela, Shea devia saber o que ele guardava na alma. Elevou-a facilmente em seus braços, atraindo-a contra o peito para embalá-la em seu amor. Sentia uma deliciosa ternura, ao abraçá-la com força, desejando guardá-la para sempre dentro de seu coração. Deslizou a boca pela pele acetinada, compilando as pequenas gotas de água que haviam sobre ela.


—Deus, Shea! Ame-me como eu te amo. Não tenha medo de fazê-lo. – Jacques estreitou o esbelto corpo contra o dele, acariciando cada linha, percorrendo cada um de seus lugares íntimos. Cada vez que Shea se inclinava sobre ele, a água os envolvia, cálida e suave. Ela percorreu sua garganta com os lábios, lhe dando suaves e pequenos beijos destinados a provocar. Desta vez, ele se comportou com delicadeza, com ternura, como se tivessem todo o tempo do mundo, desfrutando de sua capacidade para levá-la até as alturas, de lhe fazer alcançar o céu. A água salpicava com força ao redor deles, e o vapor lhes envolvia, abrigando seus corpos como uma manta. Jacques deslizou a mão por aquela brilhante cabeleira, e beijou as pálpebras, a face e por fim, seus lábios. Todo o corpo de Shea lhe pertencia e o adorava cada centímetro. Quando por fim, a possuiu, os olhos dela refletiam a mesma mensagem que os seus. Seu nome estava gravado a fogo em sua alma e em seu coração, com a mesma mensagem.


Capítulo 17 Jacques estirou prazerosamente seus músculos. Não queria levantar-se, mas a fome aumentava e necessitava desesperadamente de alimentar-se. Tinha que alimentar Shea, Byron e a si mesmo. Teria que sair em busca de alimento, e em várias ocasiões para poder cumprir com eles, seu pacto. Eles necessitavam dele. Com muito cuidado, separou seu corpo do de Shea, que deixou escapar um gemido suave e abriu os olhos. —É impossível que queira mais — Ele havia feito amor freqüente e conscientemente durante as horas e não estava muito segura de poder se mover novamente. Jacques passou um dedo travesso pelo ventre liso dela. —Sempre quero mais de você, Shea. Sou insaciável com você. — mas ao dizer isto, ele suspirou e se levantou, mesmo contra vontade, enquanto se estirava— Quero que fique aqui enquanto me alimento, estará a salvo. Shea levantou uma sobrancelha. — E como sabe? Os homens dos Cárpatos não conhecem este lugar? Deveria ir contigo — queria o manter a salvo de qualquer perigo. Se Rand era o vampiro, odiaria Jacques mais que a nenhum outro. Jacques se assegurou de que seu rosto não mostrasse nenhuma emoção. Shea mantinha a ilusão de estar cuidando dele. Sua intenção em protegê-lo fez com que sentisse uma inesperada onda de felicidade. Amava essa parte dela, mas não era tão estúpido a ponto de esquecer que Shea não seria capaz de matar uma mosca. —Se fizesse o esforço de aprender a sondar os arredores,Shea, saberia se há algum dos nossos nas cercanias. Estamos aqui, ninguém invadiria nossa intimidade —disse de forma brusca. —O vampiro pode ocultar sua presença de voce, esqueceu-se? —perguntou com suspeita—. Acredito que o que está tentando fazer é sair em sua busca. Jacques acaricou-a com ternura. — Vou alimentar me, pequena ruiva. Não é meu trabalho caçar vampiros. Gregori é quem faz esse trabalho e não lhe invejo. E se é com vampiros que se preocupa, direi-te que


não percebo nenhum rastro dele nos arredores e que você não mostra nenhum sinal de inquietação, portanto, ele não está perto. Fique aqui e me espere. Já sei onde encontrar comida e só me levará uns minutos. Shea levantou os olhos e disse aborrecida. —É melhor que não tente me enganar. —A mentira não existe entre companheiros, Shea — ele disse enquanto se inclinava para lhe dar um beijo—. Não vá investigar as cavernas, Shea, e não rompa o contato comigo, nunca. Não quero encontrar nenhuma surpresa desagradável em minha volta. De qualquer forma, se estiver em contato comigo saberá que te estou dizendo a verdade. Só vou alimentar me. Shea entrou na água quente e brincou prazerozamente com os dedos sobre a superfície. Sentia o corpo agradavelmente dolorido, e na verdade, não queria sair dali. —De acordo, homem selvagem, mas fique certo de que não sou eu que sempre se mete em problemas. E se encontrar Rand, deixa-o. — Deu a volta, totalmente inconsciente da vista que seu corpo estava oferecendo ao Jacques—. Ele pode ser meu pai biológico e como qualquer menina, tive fantasias e sonhos com um pai perfeito. Um pai de conto de fadas. Não quero que se arrisque. Estive pensando muito sobre tudo isto. — Sobre o que? —animou-a Jacques. Queria que ela mesma solucionasse esse problema. — Sobre a razão pela qual eu percebo o vampiro embora ele oculte sua presença. A razão pela qual eu pude sentir a presença dos humanos quando Raven foi incapaz de fazê-lo. —Nós deveríamos ter sido capazes de detectá-los —disse Jacques animando-a que seguisse falando. Abaixou-se junto a ela. O cérebro de Shea era incomum e Jacques sabia que ela deixaria de um lado suas emoções e encontraria a solução desse problema. — O sangue. Não é assim que funciona tudo? Não é através do sangue que se produzem os vínculos telepáticos? Rastreiam-lhes, graças aos intercâmbios de sangue que realizam uns com outros, verdade? Por isso que os homens quase nunca intercambiam sangue entre eles. Rand não intercambiou sangue com nenhum de vocês, estou no caminho certo? Jacques respondeu com um movimento de cabeça. —Não. Sempre foi muito cuidadoso. Jamais o fez. Mas ele tinha uma companheira, não precisava intercambiar e se supõe que ele não podia transformar-se em um vampiro. —Mas Noelle não era sua verdadeira companheira, certo? Ele sempre soube, embora ninguém desse conta. Possivelmente, mais tarde, o compreenderam. Mas ele não tinha


estabelecido o costume de intercambiar sangue com voces. Sabia que existia a possibilidade da transformação e se protegeu dessa forma — Shea sentiu que estava redimindo sua mãe— Maggie era sua companheira. Mikhail nos disse que Rand tinha despertado a alguns anos atrás, mas que não informou a ninguém. Isso aconteceu justo depois dos assassinatos. — Se for assim, então Rand não pode ser o culpado dessas mortes. — Mas só se for assim. Imagine que ele despertou antes dessa época e descobriu que minha mãe havia morrido. Você me disse que um companheiro viúvo escolhe normalmente a morte. O que acontece se não o faz? O que acontece, se escolher seguir vivendo? Nenhum dos dois falou enquanto Jacques assimilava o que Shea dava a entender. —Mikhail pensou que Rand estaria bem, já que Noelle não era sua verdadeira companheira. Mas se Maggie foi e já estava morta quando ele foi em sua busca, teria sucumbido à transformação. Mas tinha seu filho. Poderia ter agüentado para protegê-lo — disse Jacques tomando ar de forma brusca— Mas ser capaz de esconder sua presença com feitiço… Há poucos com esse poder. — Como quem? — perguntou Shea com interesse —Mikhail é o mais velho dos nossos. Gregori lhe segue, é cinqüenta anos mais novo. Aidan e seu irmão gêmeo Julian são um século mais jovens. Depois deles, Byron e eu. De nossa idade há uns quantos mais, mas todos têm companheiras e portanto, não são suspeitos. Há Dimitri, mas vive muito longe daqui. Só um ancião tem o poder suficiente para ocultar sua presença — Jacques não se dava conta do quanto estava recordando, mas Shea era consciente e isso fez com que o sofrimento pela traição de Rand fosse mais suportável. — Rand pôde encontrar a maneira de fazê-lo —insistiu Shea — Tem sentido, Jacques. Eu não gosto, de fato me repugna, mas seu sangue é meu sangue, não há outra explicação. Percebi sua presença no bosque porque somos do mesmo sangue. Tem que ser isso. —Mas antes se opunha a essa teoria, Shea — disse Jacques estendendo a mão sobre o ventre de sua companheira. Tinha que tocá-la e o direito de poder fazer, o maravilhava. — Não queria enfrentar essa possibilidade, Jacques, mas tive tempo para pensar. É a única explicação razoável. Ele quer que eu seja Maggie e me quer para ele, mas na realidade sabe que não sou ela. E tem que matar voce. Quer vê-lo morto, igual à Raven e inclusive Mikhail — Shea inspirou com força. — E além disso, Rand disse algo que me deixou preocupada. Ele falou que Byron não deveria saber que foi ele quem torturou os humanos,


porque ninguém havia dito e Byron não podia se comunicar com ele. Como sabia? Os olhos negros de Jacques brilharam. —Não tinha pensado nisso. Tem razão, Shea. Sabia de Byron, nomeou-o. Shea passou a mão trêmula pelo cabelo e em seus olhos havia uma infinita tristeza quando levantou os olhos para Jacques. — Meu Deus! Jacques sabe o que significa isso? Ele é o responsável que Dom Wallace e Jeff Smith matassem meu irmão. Eles o torturaram. Mataram seu próprio filho. Como é possível que alguém esteja tão perturbado, que tenha tanto sangue-frio? —Sinto muito, Shea. Um vampiro não tem capacidade de ter sentimentos reais. Eles escolheram entregar sua alma. São seres diabólicos, maus. — Jacques sentia algo estranho na garganta, uma espécie de nó. E tinha o coração oprimido. Admirava a força de Shea, seu valor ao lhe expor todas as suas conclusões—. A razão pela qual os humanos falam sobre essas lendas desde os tempos imemoriais é porque alguns deles tiveram um encontro real com um vampiro e sabem do que são capaz. Eu gostaria que fosse de outro modo. Daria minha vida para evitar tua dor. —Também eu gostaria que as coisas fossem diferentes, mas não são. Acredito que se encontra em verdadeiro perigo, Jacques. Embora Rand não seja o vampiro, é um homem doente, amargurado e o odeia. Tenha muito cuidado, por favor. Não quero que ele te faça mal — seus grandes olhos verdes deixavam ver sua ansiedade. Ela rodeou o pescoço de Jacques com seus braços. — Quero te guardar em uma urna de cristal para que ninguém volte a te fazer mal, jamais. Jacques rompeu rapidamente o contato com ela. Shea insistia em acreditar que estava em perigo, e não lhe ocorria que depois de tudo o que tinha vivido junto a ele, pelo que tinha sido testemunha, ele podia ser o agressor na batalha que estava por vir. Não lhe passava pela cabeça que ele ansiava por brigar com o ser que o traiu e que desfrutaria de cada instante dela. Por mais que o conhecesse, ainda não havia aceito que ele era um predador por natureza. Se isso era o que faltava ela saber, antes de aceitar sua relação por completo, queria que Shea entendesse passo a passo. Essa era a beleza do vínculo dos companheiros. Dependiam um do outro, tomar e utilizar de um modo ou outro. Jacques sabia que era capaz de dar a lua a Shea, de caminhar sobre a água ou de atravessar a nado muito lava fervente se isso a fazia feliz. Ela era sua vida. Tinham a frente, séculos, para conhecer-se a fundo> Não havia nenhuma necessidade de que ela confrontasse com todos os seus instintos assassinos cada vez que despertasse.


Jacques tomou o rosto sw Shea entre as mãos e lhe acariciou com ternura . Morria de amor por ela. — Prometo-te que tomarei cuidado. — Muito cuidado —insistiu Shea. Jacques se deu conta de que seus lábios se curvavam num sorriso. —Serei muito cuidadoso. Shea desenhou o sorriso de Jacques com o dedo. —Sinto muito haver negado que o curador me desse seu sangue, mas não podia suportar, apenas podia imaginar. Quando estamos juntos, é distinto, é algo formoso e natural, mas saber que outro… —seu estômago protestou ante a idéia e ela deixou de falar. Os lábios de Jacques acariciaram o rosto de Shea durante um breve e inquietante instante. — Entendo-a. Agora estou mais forte, pequena ruiva. Posso cuidar de você. Shea franziu o cenho e depois levantou as sobrancelhas. — Não é ao que me referia, não fique tão macho comigo. Isso me põe ainda mais doente do que procurar um lindo menino humano para me alimentar. Shea estava brincando, Jacques sabia, mas durante um instante, uma neblina avermelhada, provocada pelo ciúmes, nublou sua mente. Soube imediatamente que era afortunado por ter uma companheira que não queria alimentar-se de nenhum outro homem. Havia algo em sua mente que mesmo aos pedaços, não podia suportar a idéia. Possivelmente, se tratava de sua natureza possessiva. Mas a verdade era que, nenhum humano, nenhum homem dos Cárpatos estaria a salvo, a menos que ele aprendesse a controlar seu medo de perdê-la. Jacques passou uma mão pelo cabelo. —Fica muito demorar até eu voltar a ser normal. Shea soltou uma gargalhada. —Ninguém disse que fosse normal alguma vez, Jacques. Ele sentiu a onda de carinho invadindo seu corpo ao compreender que ela brincava e gostou. —Fique aqui, pequena ruiva. Mantenha-se a salvo por mim.


Ela deitou-se de costas sobre a rocha plaina e Jacques a admirou, encantado. Seu cabelo vermelho estava espalhado a seu redor como fios de seda. As curvas de seu corpo esbelto, os pequenos e firmes seios. As coxas lisas e brancas contrastavam com os cachos vermelhos de seu sexo. Eles o enfeitiçavam, incitava-o. Jacques se afastou dela com rapidez. Havia muito ainda que aprender sobre o autocontrole nas próximas centenas de anos. Deu a volta bruscamente partiu. Uma vez na estreita passagem que o levava a entrada da caverna, trocou de forma e se apressou através do labirinto de passagens. Seu corpo se comprimiu, diminuindo de tamanho até que se converteu na pequena criatura que aterrorizava Shea. As pequenas asas o impulsionaram com rapidez pela rede de túneis e lhe ajudaram a chegar rapidamente a saída. Uma abertura minúscula lavrada pela água na rocha depois de muitos séculos deslizando-se através da fissura. Subiu por ela e saiu repentinamente no céu noturno. Com a mesma rapidez, seu corpo voltou a trocar de forma em pleno vôo, transformando-se na poderosa figura de um mocho de garras afiadas, bico curvado e grossas plumas. Sobrevoou o bosque para a cabana onde se refugiavam os três caçadores. Jacques havia conseguido sua submissão e os tinha forçado a permanecer ali essa noite. Nenhum deles sabia por que era tão importante ficar uma noite mais, mas não podiam lutar contra a sugestão hipnótica de Jacques. Ao ter tomado seu sangue, ele podia controlar suas mentes e lhes ordenar qualquer coisa, submetendo-os a sua vontade. Os caçadores não pretendiam atrasar-se mais, pois a paragem era inóspita e começavam a acreditar nas superstições da região. Jacques sabia que as lembranças que tinha implantado em seus cérebros perdurariam durante todo o tempo que ele quisesse e que sempre estariam dispostos a submeter-se a suas ordens se o desejava. A beleza da noite, vista através dos olhos de um mocho, era incrível. Lá embaixo, no bosque, os animais corriam procurando refúgio. O dossel de ramos que projetavam sombras sobre o chão, moviam-se, dançando com o vento seguindo uma bela coreografia. A brisa agitava suas plumas, elevando e empurrando-o enquanto voava. Sentia-se completamente feliz e poderoso. Divisou a cabana ao longe e desceu. Quase imediatamente percebeu que algo não estaca certo. Não havia fumaça procedente da chaminé e em uma noite tão fria como aquela, o mais lógico era que os caçadores queriam estar perto do fogo. O mocho fez um giro brusco e planou até o chão, estendendo as garras. O corpo voltou a tomar a forma humana ao pisar na terra e todos os seus sentidos em alerta, despertaram varrendo a região em busca de qualquer perigo. Não captou sinais de vida, ao contrário, percebeu o cheiro da morte. O mau cheiro chegava a suas fossas nasais, junto com


o desagradável cheiro do terror. Alguém havia tido uma morte violenta, e tinha estado consciente de que se aproximava seu final. Jacques se moveu com muito cuidado, ocultando sua presença. Não detectava nenhum deles, mas tampouco havia percebido Smith e Wallace. Não sentindo nenhuma ameaça, seguiu aproximando-se da cabana. Encontrou o primeiro corpo junto ao alpendre. O homem tinha a garganta aberta por uma ferida brutal, a mesma ferida que teria feito um animal selvagem. Não havia nenhuma gota de sangue no cadáver. Jacques se deteve um instante junto ao corpo do caçador, zangado consigo mesmo, por ter posto desnecesariamente sua vida em perigo. Rand sabia que ele precisaria se alimentar várias vezes, havia localizado sua fonte de alimento e a tinha eliminado. Jacques permaneceu imóvel enquanto estudava os arredores. A morte era recente, apenas fazia uns minutos que o homem tinha sido assassinado posto que o corpo ainda estava quente. O vampiro se encontrava em algum lugar próximo, lhe esperando. Não restava a menor duvida de que ele seria o próximo. Não podia perceber o menor rastro de Rand, mas tinha a certeza de que alguém o espreitava. Tomou ar, enchendo seus pulmões, sua mente e deixou que a besta em seu interior despertar com um horrível rugido. Jacques sentiu a pequena agitação em sua mente, a suave interrogação. — Não tente contactar comigo, Shea. O vampiro está tentando uma armadilha. Não posso me distrair. — Então quero estar com voce! —a voz de Shea soava muito angustiada. Jacques quase podia ver seu rosto, os enormes olhos verdes totalmente abertos pela preocupação e o queixo elevado com teimosia. —Fará o que ordeno, Shea. Não posso me preocupar com voce enquanto estou em perigo e pretender sair bem disto — disse com voz firme, ao mesmo tempo que enviava uma ordem mental reforçando seu mandato. Podia perceber sua relutância em obedecer, mas Shea não voltou a protestar temendo que o colocaria em perigo. Jacques subiu os degraus sigilosamente. A porta estava ligeiramente entreaberta e o vento a agitava com suavidade. As dobradiças eram velhas e estavam oxidadas. Cada rajada de ar lhes arrancava um chiado. Jacques deslizou para o interior, percebendo o aroma de morte edo medo, junto com o aroma de sangue. O chão da cabana estava lavado de sangue negro, ainda líquido, pegajoso e espesso. Os dois corpos haviam sido jogados com descuido uma vez que o vampiro estava saciado do sangue cheio do poderoso sabor da adrenalina. Deliberadamente, tinha deixado que o resto do líquido vital se derramasse, para que o aroma incrementasse a fome de Jacques. E também


se assegurou de que não ficasse o mínimo, para que ele saciasse seu ávido e corrosivo apetite que crescia, debilitando seu corpo e fazendo lanhuras em sua força. —Não, Jacques. Não é assim — a voz de Shea era uma doce e nítida melodia em sua cabeça — Você não está fraco. É forte. Muito forte e está curado. É outra armadilha do vampiro. Saia da cabana, saia pra o ar livre. É jovem e forte e saudável. Ele não pode te fazer nada — tinha plena confiança nele, não havia lugar na mente de Shea, para algum indício de dúvida ou de preocupação. Acreditava nele. Jacques nada podia fazer a não ser seguir as palavras de Shea e ter confiança em si mesmo. Registrou cuidadosamente o interior da cabana em busca de qualquer armadilha. Quando sentia que o pressentimento de fatalidade começava a estender-se em sua mente, conectava-se com Shea, procurando sua reconfortante presença. Ela sempre estava ali, leal e decidida a fazer que ele se visse como ela o via. Sua fé eom lhe ajudou a descobrir a armadilha que o vampiro havia colocado para apropriar-se de sua mente. Sorriu amargamente, sem pingo de humor. Reconheceu o poder do vampiro e sua maestria em criar ilusões, mas foi Shea que rompeu o feitiço com sua inquebrantável fé em suas possibilidades. Jacques era suficientemente forte para enfrentar-se com o vampiro. Só era questão de detectar as armadilhas e as imagens ilusórias. Jacques saiu para frescura da noite. O vento movia sua roupa e lhe desordenava as mechas de cabelo. Um lobo solitário uivou chamando sua companheira. O som o apanhou, roçando uma parte muito profunda em seu interior, que lhe fez levantar a cabeça e começar a sussurrar um cântico. O lobo se encontrava longe de seus companheiros. Estava sozinho, banido daqueles que não entendiam seus instintos predadores. Um som atraiu a atenção do Jacques, um simples murmúrio provocado pelas folhas dos arbustos, mas suficiente para voltar sua mente para o inimigo que lhe espreitava e afastarse do lobo. S concentrou no ataque. Ao voltar a cabeça, Rand saiu do esconderijo. Estava coberto de sangue e mostrava as presas. Tinha os olhos irrisados de vermelho e suas unhas eram largas garras afiadas. A pele, rosada graças às recentes mortes, grudava-se aos ossos do crânio lhe dando a aparência de cadáver ambulante. —Sabia que abandonaria a sua preciosa noiva para dar um festim com os humanos. Não pode resistir a chamada do sangue — disse Rand com uma voz que destilava ódio. As sobrancelhas do Jacques se elevaram um instante. —Parece que gosta de se apropriar de algo que deseja muito. Isso inclui também às companheiras de outros homens?


A boca de Rand se contorceu. —Você me separou de minha companheira. Você e seu irmão. E agora os dois encontraram o que jamais me deixaram ter. Destruirei Mikhail e sua mulher e tirarei de você, o que me pertence por direito. —Maggie está morta, Rand e você é o único culpado. Deixou Noelle em mãos desses açougueiros assassinos enquanto corria para ver sua companheira. Não teve o valor de trazê-la perante Mikhail e apresentá-la como tal. Ela ainda estaria viva se o tivesse feito. —Noelle a teria matado. Ameaçou-me em numerosas ocasiões. — Mikhail jamais o teria permitido, e você sabe. Foi sua falta de caráter que a matou. Qualquer homem dos Cárpatos que se preze enfrentaria qualquer obstáculo entre ele e a mulher que escolheu como companheira. Rand, é possível que tenha se deitado com tantas mulheres, que tenha se pervertido ao ponto de não querer completar seu compromisso com Maggie? Ou você gostava de ter ambas as mulheres, pois também desfrutava e enganava Noelle. Possivelmente tinham uma relação disorcida, pervertida e não se sentia capaz de abandoná-la por algo puro e delicado. Rand rugiu com a cabeça arremessada para trás. Emanava ódio e sofrimento. — Foste muito longe, Escuro. Crê que não sei o que é na realidade? É um assassino. Entre nós, distinguimos com facilidade. Não sente a necessidade de destruir? Não desfruta seu poder? É igual a mim, embora não queira ver. Sua natureza é escura e desagradável, como o mundo que me forçaram a viver, seu irmão e você. Não preciso destruir alguém como você porque você mesmo buscará sua própria ruína. A mulher acabará dando-se conta. —Shea sabe perfeitamente o que sou e deseja viver comigo. Você escolheu sua própria vida e seu próprio destino, Rand. Despertou antes do tempo… — Senti que me parti em dois quando minha companheira escolheu a morte! —Essa não é uma desculpa para te eximir de sua responsabilidade. Ela não teria escolhido a morte se você tivesse sido suficiente homem para levá-la ante Mikhail e mostrar ao mundo que era tua. E também podia ter escolhido seguir seu caminho, mas voce deixou que ela enfrentasse sozinha, o desconhecido. E agora culpa os outros por seus próprios enganos e busca vingança. Diga-me, Rand, por que entregou seu próprio filho a esses açougueiros assassinos? Era um menino, só tinha dezoito anos. O que tinha feito para merecer um destino tão horrível? O rosto do Rand se converteu em uma horrenda máscara, deixando ver todo seu ódio.


—Dei-lhe a oportunidade de unir-se a mim para nos vingar de voce e de Mikhail. Eu, seu próprio pai, aproximei-me dele e lhe expliquei meu plano. Mas vocês havial lavado seu cérebro. Ele me acusou de ser um vampiro. Dei-me conta de que haviam dobrado sua mente, Não me escutaria e não podia permitir que ele vivesse para me trair. Meus escravos se encarregaram dele. Pensavam que podiam me controlar, mas era eu que controlava seus pensamentos, sua vontade. Chamavam-me de Abutre e pretendiam acabar comigo uma vez que me tivessem usado. Era divertido enfrentá-los. Obrigá-los a ajudar-se uns aos outros para assassinar. Wallace e Slovensky eram maus e fáceis de enganar. Smith era débil, um simples seguidor. Um bom sacrifício. —Fez que torturassem e mutilassem seu próprio filho. E os outros? O que fizeram outros para merecer esse fim? Rand deu um diabólico sorriso. —Fiz por simples diversão, é óbvio. Para praticar. Gregori pensa que é o único que pode utilizar os segredos escuros, mas não é tão preparado como se crê. — E também está em seus planos matá-lo? — Não preciso me arriscar desse modo. Logo ele sucumbirá à escuridão — disse com satisfação — Não escolherá a morte, se é o que crê. Lutou durante muito tempo e é muito poderoso. Destroçará este mundo e eliminará todo aquele que tentar destrui-lo. Aidan e Julian teriam uma oportunidade se trabalhassem juntos, mas também estão muito perto da transformação. Todos juntos governaremos os humanos, como deveríamos ter feito no princípio. Foi seu irmão que manteve afastada nossa raça do lugar que lhe corresponde. Os humanos servem para saciar nossa fome, para satisfazer nossas necessidades, no entanto, nos ocultamos deles como covardes. Os outros me odeiam neste momento, mas logo se unirão a mim. Todos os anciões. — E o que tem que ver Shea em todo este plano? —Converterá-se em um dos nosso quando você morrer. Seu sangue é de Maggie e me pertence. Não tem nenhum direito sobre ela. — E crê que pode me vencer se lutarmos? — Jacques sentia a mente limpa, a besta lutava por liberar-se e queria regozijar-se na emoção da batalha. Odiava esse homem, ele era o culpado pela perca de sua inocência. Da destruição de sua família, de suas lembranças e de suas crenças. Era um ódio tão selvagem, que sentia por esse homem, que tinha criado um ser escuro e perigoso onde antes havia um amável homem dos Cárpatos. Esse ódio estendia


nesse momento, por sua alma, como uma mancha negra. —Você destruirá a si mesmo, escuro. Sua mulher está unida a mim. Quando me golpear, ela sentirá minha dor. Cada corte, cada talho que me inflija a fará sangrar igualzinho à mim e notará seu prazer de matar. Por fim, ela saberá o que voce é e descobrirá que precisa infligir dor e matar. Ela verá o monstro que vive em seu interior. Verá você matar seu próprio pai e sentirá sua alegria ao fazê-lo. Ela sentirá cada um de seus golpes. A dor explodiu nas têmporas de Jacques ao tentar se lembrar se o que dizia o vampiro podia ser certo. Sentiria Shea, a dor através de Rand? O vínculo sangüíneo que compartilhavam era suficiente para fazê-lo? Necessitava da resposta imediatamente. Rand o tinha nas mãos. Mas antes de que Jacques pudesse enviar a pergunta e resolver o dilema, o vampiro lançou-se com enorme velocidade, para sua jugular. O movimento foi tão rápido que seu olho apenas conseguiu captá-lo. Jacques se afastou de um salto, mas sentiu a dor ardente na garganta quando as pontas das garras de Rand conseguiram arranhá-lo. Vingou-se sem pensar, afundando suas unhas no rosto do vampiro. Rand gritou de dor, de medo e de ódio. Jacques movia-se a seu redor, como um torvelinho, aparecendo e desaparecendo de vista enquanto rasgava o peito do vampiro para diminuir sua força, pela hemorragia. Manteve sua mente fechada com força a de Shea. Não podia pensar que ela estava em perigo, que sua selvagem luta podia lhe fazer mal de algum modo. O prazer cresceu nele até que sua mente e seu corpo se sentiram totalmente vivos através da sensação de poder. O vampiro caiu de costas ante seu brutal ataque e na intenção de virar a luta a seu favor, desapareceu de vista para dirigir-se para os confins do bosque, ordenando aos céus, fazer sua vontade. Um relâmpago golpeou com força a terra, enegrecendo o chão do lugar onde Jacques se encontrava e chamuscando as pontas de seus cabelos. Outro, caiu no mesmo lugar, mas Jacques foi rápido e antes de que alcançasse o chão, já estava sobrevoando as árvores com as poderosas asas, por onde se ocultava Rand. Descendeu rapidamente e rasgou o peito do vampiro com as garras procurando-lhe o coração. — Shea! Ouça-me! Uma-se a mim agora e me salve! agora! Sou seu pai! Deve te unir a mim e me salvar deste monstro que rasga minha carne como um louco! Jacques alcançou o coração, tirou-o do peito e o afastou do vampiro. — Está morto, vampiro. Agora espero que encontre um pouco de paz. Os crimes que cometeste contra minha família e contra mim estão vingados. Vá encontrar-se com Deus e


sua misericórdia. Já não tem nenhum efeito sobre mim. Teria-te levado até Shea se houvesse me dado a oportunidade. A justiça dos Cárpatos se executou. Rand cambaleou para frente. Seu rosto cinza não tinha nenhuma expressão, o sangue maldito emanava de suas feridas. Movia os lábios de forma convulsiva. Caiu de joelhos no chão. Jacques se afastou rapidamente do corpo, colocando cuidado em que as garras não lhe tocassem e que nenhuma gota de sangue caísse sobre ele. Ardia-lhe a mão com a qual havia arrancado o coração, enquanto a limpava sobre a erva já murcha. O ar se parou a seu redor, não havia vento. A terra parecia gemer. Um vapor espectral, misturado com um odor nauseabundo, elevou-se do corpo que ainda convulsionava. Jacques se afastou de forma instintiva. Os vampiros demoravam para morrer. Lutavam contra a morte usando todo tipo de truques. O sangue maligno, se estendia pelo chão, aproximandose cada vez mais das pernas de Jacques. O vampiro, mesmo moribundo, o dirigia usando seus últimos pensamentos. Jacques contemplou, sem qualquer indício de emoção, como o vampiro se arrastava para ele, centímetro a centímetro e se aproximava com o rosto contorcido pelo ódio. Jacques moveu a cabeça. —Você odeia a si mesmo, Rand. Odiaste-te durante todos estes anos. O que tinha que fazer era procurar coragem para se reunir com ela. Maggie teria salvado sua alma. Uns grunhidos lastimosos escapavam dos imundos lábios de Rand, enquanto o sangue continuava procurando Jacques. Rand exausto, parou diante dele, com a intenção de agarrá-lo e matá-lo enquanto tivesse forças. Jacques aspirou o ar com força. Era o primeiro ar fresco e limpo. Soube então que o vampiro havia morrido. Com um pequeno suspiro, foi até a cabana, tirou os corpos dos caçadores e os levou para fora. Trouxe todos os ramos secos que pode encontrar. Não podia deixar evidências do que tinha acontecido. O vampiro também tinha que ser consumido pelo fogo, de modo que o sangue maldito não encontrasse forma de lhe devolver a vida. O poder do sangue de um vampiro era incrível. Sua própria debilidade começava a lhe preocupar. Tinha usado suas últimas forças na luta e ainda tinha que criar uma violenta explosão na metade do bosque, ainda úmido pela chuva. O lobo voltou a uivar, agora muito mais perto. Aproximava-se sem dúvida para a cena de morte e destruição, possivelmente atraído pelo aroma do sangue. Jacques criou um relâmpago que golpeou o chão, queimando o cheiro de sangue. Nenhuma criatura precisava da


loucura que proporcionava esse fluido em seu estômago. Um estranho lobo, enorme e de pelagem dourada saiu a trote do meio das árvores, rodeando a clareira com precaução para sentar-se depois sobre as patas traseiros a pouca distância de Jacques. Observou-o atentamente com aqueles estranhos olhos ambarinos, sem demonstrar nenhum pingo de medo. Não parecia afetar o fogo, nem o relâmpago e não temia Jacques. Este também o contemplou com atenção. Estava seguro de que estava observando um ser que era mais que um simples lobo. A criatura não mostrou nenhuma intenção de comunicar-se mentalmente através do vínculo que todos os homens dos Cárpatos compartilhavam. Limitou-se a olhá-lo fixamente, captando a grotesca cena que havia acontecido, sem mover os olhos dourados nenhuma só vez. Um sorriso sem humor, curvou os severos lábios de Jacques. —Se buscas ação esta noite, estou muito cansado e faminto para dar o que você gosta. O corpo do lobo se contorceu, alargando-se e emitindo brilhos através da fumaça do fogo. A silhueta esbelta e musculosa de um homem apareceu ante Jacques. Ele tinha uma vasta e espessa cabeleira dourada., olhos ambarinos um corpo perfeitamente proporcionado. —É Jacques, o irmão de Mikhail. Ouvi que estava morto. — Era o que se diazia, sim —assentiu Jacques com cautela. — Não se lembra de mim? Sou Julian, o irmão de Aidan. Estive longe todos estes anos. Meu lar está nas montanhas mais afastadas, onde não se chegam humanos. —A última vez que ouvi falarem de você, é que estava lutando em algum lugar longínquo. — Quando estou de bom humor, luto ali onde precisam de mim —assentiu Julian— Vejo que você também faz o mesmo. O vampiro está morto e você está mais pálido do que imagina. O sorriso do Jacques era triste. — Não deixe que a cor de minha pele te engane. — Ainda não sou um vampiro Jacques e se alguma vez me encontrasse perto da transformação recorreria a Aidan para que me destruísse, se é que não encontrasse forças para fazê-lo eu mesmo. Se desejas se alimentar, ofereço-lhe livremente. Gregori me conhece. Pode perguntar a ele se eu sou de confiança — disse com o mais sutil dos sorrisos.


— O que está fazendo por aqui? —perguntou Jacques. Ainda não confiava no homem. — Dirigia-me para os Estados Unidos quando ouvi que os açougueiros assassinos haviam aparecido de novo. Pensei que poderia servir de ajuda, para variar Jacques admirou as respostas de Julian. Era um homem totalmente despreocupado da opinião que outros pudessem ter dele. Estava em paz consigo mesmo e era um ser independente. Não lhe preocupava o fato de que Jacques suspeitasse dele, nem que o enchesse de perguntas. — Curador, me ouça. Preciso de sangue e este homem que se apresentou a mim, Julian, o gêmeo loiro, afirma que você responderá por ele. — Ninguém pode responder por alguém como Julian. É um ser solitário que segue suas próprias leis, mas seu sangue não está manchado. Se alguma vez chegasse a sucumbir à escuridão, só Aidan ou eu lhe caçaremos. Ninguém mais. Sirva-se do que ele te oferece. — Recomendou-me bem? —disse Julian com um sorriso sarcástico. —O curador nunca dá boas recomendações. Não é seu favorito, mas está de acordo em que seu sangue não me fará nenhum mal. Julian riu baixinho, levou-se a mão à boca e se mordeu, oferecendo com indolência, seu sangue a Jacques. —Pareço-me muito com ele. Sou um solitário, e estudo mais do que talvez devesse. Meto-me em assuntos que seria melhor deixar de lado. Temo que para Gregori, sou uma causa perdida — mas não parecia se preocupar. Jacques quase cambaleou quando se aproximou até a mão de Julian. Aproximou a boca ao corte com avidez. O sangue fluiu rapidamente por suas murchas e sedentas células. O torvelinho de poder e força foi incrível. Não havia notado do quão exausto estava seu corpo até que o sustento o reanimou. Custou-lhe muito conter sua avidez e não dar um festim com aquele poderoso alimento. — Não se preocupe. Esta noite não tenho nenhuma obrigação. Toma o que necessita, caçarei na cidade antes de partir —disse Julian sem lhe dar importância. Jacques se obrigou a afastar-se da mão de Julian. Fechou a ferida com cuidado e contemplou os formosos traços do curtido rosto. Adivinhava-se inteligência, frieza, confiança em si mesmo e algo mais. Jacques era consciente da perigosa tranqüilidade que emanava daquele homem. Julian sempre estava preparado para o inesperado.


—Obrigado, Julian. Se alguma vez precisar de mim, espero poder te devolver este favor — afirmou Jacques com sinceridade. —Eu limparei o que resta ainda por aqui — ofereceu Julian — É uma pena que estes três homens morreram esta noite. Quando notificarem seu desaparecimento e as equipes de busca não encontar seus cadáveres, as lendas de vampiros que espreitam aos viajantes aumentarão. — Deveria ter imaginado que Rand os utilizaria, para me atacar. Sabia que eu os manteria aqui, para poder me alimentar —Jacques lamentava amargamente suas mortes. —Você não os matou, foi o vampiro quem o fez. Você liberou o mundo de um monstro. Tanto os humanos como nós estamos em dívida contigo. Acredite, Jacques. Desejo-te uma boa viagem e uma longa vida. — Boa viagem e uma longa vida a você também, Julian —respondeu Jacques usando a antiga fórmula de despedida.


Capítulo 18 Jacques entrou no labirinto de túneis, movendo seu corpo a uma velocidade sobrenatural. Podia escutar cada som, a água gotejando, os agudos gritos dos morcegos, inclusive o ligeiro movimento da própria terra. Mas não podia detectar o que mais desejava ouvir. Não havia nenhum som procedente das termas. Nem o movimento da água, nem murmúrios, nem a suave respiração procedente do sono. Nem o pulsar de um coração. Shea estava deitada, imóvel, em cima de uma rocha quando Jacques entrou na câmara subterrânea. Ele ficou quieto, estático, na entrada, temeroso de se mover ou falar. Ela não havia respondido sua chamada telepática. Se a perdera, Rand teria ganho a batalha, afinal, e ninguém estaria seguro novamente até que Jacques não fosse destruído. Sacudiu a cabeça, vigorosamente. Não. Se ela estivesse morta, não deixaria que ela enfrentasse o desconhecido sozinha. Ele a seguiria, encontraria-a. Passariam sua vida no outro mundo, juntos. Rand não ganharia, jamais Limpou a garganta com cuidado, mas ruidosamente, desejando que ela se voltasse para olhar. Mas ela não se moveu. Seu corpo permanecia absolutamente imóvel. Jacques inspirou profundamente e pôde sentir a sutil fragrância de sangue. Diminuiu a distância que os separava de um só salto. Numa velocidade tão grande que quase foi incapaz de se deter, Quase cai de cabeça à água. Balançou-se precariamente à beira da rocha antes de recuperar o equilíbrio. Havia sangue sobre a rocha junto ao corpo nu de Shea e uma fina linha vermelha descia entre seus seios. Jacques gritou desesperado, ao desabar de joelhos a seu lado. Recolheu-a do chão para abraçá-la com força contra o peito. Seu coração não pulsava. Não podia perceber seu pulso ou outro sinal de vida nela. — Não! — o rouco e alucinado grito, ressoou por toda a caverna. Sua voz era desolada e perdida. Sentiu que destroçava-se toralmente seu coração. Como ele havia feito com Rand. — Jacques? A voz soou fraca e longínqua, mas era, sem dúvidas a voz de Shea. Jacques conteve a respiração por um segundo, temeroso de ter perdido a razão


realmente. — Shea? — chamou seu nome num sussurro tão suave como a sensação co cabelo vermelho contra sua pele. — Essa luz… — Onde estas, amor? Volta comigo. Jacques pressionou sua testa à dela e colocou a mão sobre primeiro batimento forte sob sua palma. O primeiro movimento de percorria arterías e as veias. Esmagou a boca de Shea com a sua, fôlego de seus pulmões. Seu próprio coração começou a pulsar de

seu coração. Sentiu o seu sangue enquanto para tomar o primeiro novo, e seus pulmões

começaram a mover-se ritmicamente. Sentiu as lágrimas deslizarem-se por seu rosto e a abraçou com todas suas forças. —O que está acontecendo aí fora? — perguntou ela baixinho, segurando-se nele. — O vampiro e eu lutamos — disse contra os cabelosvermelhos. Segurou uma mecha com a ponta de sua língua e o percorreu com a boca. Precisava senti-la perto. — Eu sei. Era Rand. Senti como ele te feria. Podia sentir seu ódio. Era terrível, como se ele estivesse dentro de meu corpo. Quando lhe golpeava, podia sentir sua dor. Foi então quando comecei a sangrar. Sabia que ele usaria isso contra você, de algum jeito. Assim tratei de fazer o que você me disse que fazia a gente dos Cárpatos — observou com relutância as manchas de sangue que havia a seu redor — Levei um tempo para descobrir como se fazia, mas no final, fui capaz de me obrigar a mim mesma a dormir. Ele estava maravilhado com sua capacidade. — Por que não entrou em contato comigo? —Tinha medo de te distrair, Jacques. Sabia que estava lutando por sua vida. Não podia preocupar-se por mim. —Ainda está sangrando — assinalou ele, afastando-se um pouco para examiná-la bem. —Já quase não me dói, agora que está de volta são e salvo — ela assegurou. —Sinto muito que fosse seu pai, Shea. Sei o quanto significava para você, ter um pai, um membro de sua família vivo — inclinou a cabeça sobre o enorme corte que ela tinha no seio esquerdo. Acariciou a ferida moderadamente com a língua. Não houve demora para que com as propriedades cicatrizantes de sua saliva, a ferida se fechasse instantaneamente.


Sua pele, que a pouco se encontrava fria e sem vida, começou a esquentar-se. O vapor lhes rodeava, envolvendo-os em seu abraço. — Minha família terá que ser sua família, Shea. — acrescentou cheio de ternura. —Teremos nossa própria família, pequena ruiva. Shea esfregou o rostoem seu peito como se fosse um gatinho e deixou que sua boca vagasse sobre sua garganta. — Vocês são uma estranha família, Jacques. Todos eles. Imagino que teremos que ser os únicos cordatos. Ele adorou a diversão que se percebia na voz dela. Ela devia estar triste, nesse momento, sabendo que tinha sido seu pai o culpado de tanta morte e ódio. Mas, ainda encontrava em seu interior, a força necessária para tentar lhe fazer sentir-se melhor. Rodeou-a com os braços, com força, como se não fosse soltá-la jamais. —Suponho que não poderemos lhes dizer que eles nos parecem estranhos… —Melhor não dizer nada. Acredito que eles têm a equivocada impressão de que somos nós que estamos mal da cabeça — Shea moveu a cabeça, e afastou o cabelo do pescoço, para deixar exposto um profundo e comprido arranhão. Imediatamente, Jacques inclinou a cabeça para agradá-la. Saboreou com a língua a doce essência da vida, acariciando-a, percorrendo o pescoço delgado até chegar à orelha. Mordiscou essa zona com cuidado, e pôde sentir como estremecia o corpo de Shea em seus braços. Ela tinha a pele cálida e suave, dando vida à sua própria. —Poderemos criar nossa própria família com o tempo, Shea. Nosso filho — quando sentiu que ela ficava tensa, abraçou-a firmemente e acrescentou num sussurro—. Agora não, Shea. Mais tarde, quando você se encontrar com forças suficientes e segura de si e dentro de nosso mundo. Quando eu estiver completamente recuperado. Nosso filho, Shea. Filhos. Seus sonhos se converterão em meus. E poderemos fazê-los reais, Shea. —Não, Jacques — disse Shea. — Poderemos sim, meu amor. Cada vez mais, me recordo das coisas. E à medida que estejamos unidos, serei capaz de sentir o que você sente. Quero teu filho, ruiva. Quero que seja feliz. Quero te dar uma família. Não te negue à idéia. Temos séculosde vida, para tomar esta decisão, mas há algo que deve saber. Eu também quero. — Quando puder me prometer que ficará a seu lado, que amará e ajudará a crescer nosso filho, se algo me ocorrer, só então, aceitarei formar nossa própria família. Jacques mordiscou seu pescoço.


—Graças a você, recuperei a fé em mim mesmo. Algum dia serei capaz de te fazer essa promessa. E também poderei te dizer que, se algo te acontecer, nosso filho será minha esperança nesta terra, e que, uma vez que ele ou ela tenha sua própria família, estarei encantando de poder me reunir contigo. Shea sentiu que as lágrimas que se formavam em seus olhos. — Então, eu não poderia ser mais feliz, Jacques. Jamais poderia me dar um presente tão formoso como o que me acaba de dar. Embora nunca chegue até esse ponto, amarei-te sempre por tentar se esforçar para isso. —Sua felicidade é o mais importante para mim. —Seu aroma é diferente, Jacques —Shea inalou sua fragrância e se afastou para olhar seus olhos. — Por que? Ele riu fracamente. —Não é uma mulher, ruiva. Por que é tão sentitiva? — ele sorriu — Encontrei outro de nossa raça no bosque. Estava precisando de sangue e ele me ofereceu ajuda. — E aceitou? — ela estava atônita. Certamente, Jacques tinha deixado de ser desconfiado, escuro e perigoso como era quando o conheceu. — Não o conhecia e ainda permitiu que o ajudasse. — Você também foi uma desconhecida e te permiti muito mais. De fato, deste-me um sem fim de interessantes ideias sobre como poderia me agradar melhor… — Eu não tenho feito isso. Se mal posso me recordar, disse que era unicamente era sua médica e você não me deu bola. Jacques, esse é um de seus maus costumes. Não me ouvir. A boca dele voltou a colocar-se junto a sua orelha e o simples gesto, alterava o sangue de Shea. —Prometo remediar essa situação logo que seja possível — sussurrou ele, com a magia de um feiticeiro. Shea podia sentir que seus lábios a percorria de cima abaixo e foi então que descobriu o corte que ele tinha no ombro. Inclinou a cabeça para curá-lo e saboreou o sabor único de Jacques. Percebeu seu estremecimento involuntário e arrastou seu corpo deliberadamente, para mais perto do dele. Saboreou sua essência, sua adrenalina. Saboreou o primitivo prazer que lhe havia proporcionado a luta, saboreou sua dor.


— Logo que te seja possível, é? — meditou — Não sei se eu gosto dessa sua maneira. Não me parece que isso vá custar muito trabalho. — ela rodeou seu pescoço com os braços e lhe obrigou a inclinar a cabeça para ela. Faminta, Shea devorou sua boca. Colocou no beijo, todo seu amor, seu medo, a aceitação de seus costumes, seu desejo e sua necessidade dele… Colocou todos os sentimentos que tomavam seu coração e sua mente. Os braços de Jacques lhe estreitaram possessivamente. Ele apertou sua boca contra a dela, desejando alimentar-se de sua doçura ,de sua pureza, para fazer desaparecer de uma vez à fera de seu interior. O corpo dela se rendia junto a ele, acolhedor, e sua boca estava tão faminta como a dele. As roupas voaram em todas as direções e ele apertou-a demoradamente. Esse movimento os desestabilizou. Após cambalearem precariamente durante um instante sobre a rocha, caíram ruidosamente na água. Juntos, chegaram até o fundo do lago, ainda beijando-se, compartilhando o riso em suas mentes. Jacques moveu suas pernas com força para subir à superfície enquanto Shea rodeava sua cintura com as suas. Suas cabeças emergiram da água, produzindo ondas que se deslocaram até as bordas. Rindo, ela segurou o rosto amado, entre as mãos. — Você é incrivelmente romântico, Jacques. Quase consegue que me afogue… Ele deslizou as mãos para baixo para apanhar suas nádegas e as massagear sugestivamente. Arqueou uma sobrancelha. — Está dizendo que foi minha culpa, ruiva? Mulher, eu nunca perco o equilíbrio. Tive que cair na água com você, para evitar que se sentisse humilhada. Ela levou a mão até a parte de atrás de sua cintura e a deslizou para baixo seguindo a linha de seus quadris. — Eu acredito, homem selvagem, é quevoce está me necessitando muito — pressionou seu corpo ao dele, encontrando a quente e rígida evidência de seu desejo—. Muito, precisando muito —Shea rodeou com as pernas de a cintura de Jacuqe e se acomodou sobre membro duro, introduzindo-o com cuidado em seu interior. Jacques soltou um gemido quando sentiu o ardente fogo de lhe envolvia. Cravou os dentes em seu pescoço, mantendo-a imóvel para penetrá-la até o fundo. Foi um momento tão belo que se sentiu como se estivesse fora do tempo, em outra dimensão. O cabelo dela flutuava a seu redor, como seda e seus seios firmes, contra os músculos de seu peito. Sentiaa suave e flexível, lhe envolvendo com seu calor. Os músculos de seu interior se contraíam compulsivamente para lhe manter dentro dela.


A água se agitava a seu redor, seguindo o movimento de seus corpos, roçando suas sensibilizadas peles como uma delicada carícia. Shea era seu mundo nesse momento, o verdadeiro significado da vida. Uma assombrosa variação de brilhantes cores, os rodeavam. Mas não havia cinza entre elas. O desolado e inóspito mundo em branco e preto, no qual havia vivido durante tanto tempo tinha desaparecido. Os sentimentos eram fortes, as emoções profundas e seu coração estremecia ante uma maravilha semelhante de uma vez que todos seus instintos protetores e sua enorme capacidade para amar encontravam refúgio em sua alma. Em contraste com seu mundo de dor e fúria, de interminável frio e desolação, o amor que sentia por ela era um milagre. Ela jamais entenderia tudo o que significava para ele, embora lesse sua mente, porque a profundidade de seus sentimentos era infinita. Tinha estado faminto e necessitado durante muito tempo, até sem esperanças, mas nesse momento ela se encontrava entre seus braços, com seus corpos formando um só ser enquanto seu coração e sua alma ficavam iirrevogavelmente unidos aos dele. Jacques sabia, enquanto seu corpo se movia dentro dela, enquanto seus quadris investiam para enterrar-se em seu interior cada vez mais profundamente, que sua vida havia mudado, para sempre. Teria um lar, uma família e teriam filhos. Teria o amor e o riso flutuando a seu redor durante todos os dias que decidisse permanecer sobre a terra. Ele possuiria seu corpo, seu coração e sua pureza para conseguir apaziguar sua natureza predadora. Seu inferno havia se transformado em paraíso que, de algum modo, tinha conseguido alcançar apesar de todos seus enganos. Devido ao fato de que ela era capaz de interpretar sua mente com facilidade, toda vez que ele a abandonava completamente, Shea podia perceber todos seus sentimentos. Ela apoiou a cabeça sobre seu ombro, fechando os olhos e permitindo que a crescente explosão a invadisse por completo. Apertou os braços ao redor de Jacques, como se ele fosse sua ancora, su único esteio em meio a realidade. Acontecesse o que acontecesse o futuro, fosse o que fosse, que tivessem que enfrentar, sempre teriam o um ao outro e isso era tudo o que eles podiam desejar. Jacques conseguiu lhe levar até as nuvens e juntos, sulcaram o céu enquanto a água seguia salpicando com força seus corpos. Ele segurou o rosto dela entre suas enormes mãos e a olhou fixamente aos olhos. — Amo-te, Shea. Sempre te amarei — ele jurou. — Eu também te amo, Jacques — sussurrou ela. Ele se inclinou para sua boca, procurando essa cálida doçura que só ela podia lhe dar


e a beijou faminto. Unidos em um forte abraço, deslizaram-se para baixo até que a água se fechou sobre suas cabeças. Em gargalhadas e tossindo, eles se separaram e nadaram até a superfície, enquanto os horrores dos dias passados se afogavam nas profundezas de seu amor.

FIM

02 desejo sombrio os cárpatos christine feehan  
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