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“A poesia é sempre um ato de paz. O poeta nasce da paz como o pão nasce da farinha.” (Pablo Neruda)


Mário Quintana

Cora Coralina BEM-TE-VI... BEM-TE-VI...

O DIA ABRIU SEU PÁRA-SOL BORDADO

O dia abriu seu pára-sol bordado De nuvens e de verde ramaria. E estava até um fumo, que subia, Mi-nu-ci-o-sa-men-te desenhado. Depois surgiu, no céu azul arqueado, A Lua – A Lua! – em pleno meio-dia. Na rua, um menininho que seguia Parou, ficou a olhá-la admirado... Pus meus sapatos na janela alta, Sobre o rebordo... Céu é que lhes falta Pra suportarem a existência rude! E eles sonham, imóveis, deslumbrados, Que são dois velhos barcos, encalhados Sobre a margem tranqüila de um açude...

Que terás visto? Há quanto tempo tu avisas, bem-te-vi… Bem-te-vi da minha infância, sempre a gritar, e não viste nada. Meu amiguinho, preto-amarelo. Em que ninho nasceste, de que ovinho viste, e quem te ensinou a dizer: Bem-te-vi?… Bem te vejo,queria eu também cantar e repetir para ti: Bom dia, bem te vejo, te escuto. Bem-te-vi sobrevivente de tantos que já não voam sobre o rio, nem pousam nas palmas dos coqueiros altos… Mostra para mim, meu velho companheiro de uma infância ultrapassada, tua casa, tua roça, teu celeiro, teu trabalho, tua mesa de comer, tuas penas de trocar, leva-me à tua morada de amor e procriar. Vamos ao altar de Deus agradecer ao criador não desaparecerem de todo os Bem-te-vis dos Reinos de Goiás. Canta para mim, tão antiga como tu, as estorinhas do passado. Bem-te-vi inzoneiro, malicioso e vigilante. Conta logo o que viste, fuxiqueiro do espaço, sempre nas folhas dos coqueiros altos, que também vão morrendo devagar como morrem os coqueiros, comidos de velhice e de lagartas.


Manuel Bandeira

Ferreira Gullar

O BICHO

DOIS E DOIS: QUATRO Como dois e dois são quatro

Vi ontem um bicho

Sei que a vida vale a pena

Na imundície do pátio

Embora o pão seja caro

Catando comida entre os detritos.

E a liberdade pequena Como teus olhos são claros

Quando achava alguma coisa, Não examinava nem cheirava: Engolia com voracidade.

E a tua pele, morena como é azul o oceano E a lagoa, serena como um tempo de alegria

O bicho não era um cão,

por trás do terror me acena

Não era um gato,

e a noite carrega o dia

Não era um rato.

no seu colo de açucena - sei que dois e dois são quatro

O bicho, meu Deus, era um homem.

sei que a vida vale a pena mesmo que o pão seja caro e a liberdade, pequena.


Olavo Bilac A VIDA Na água do rio que procura o mar; No mar sem fim; na luz que nos encanta; Na montanha que aos ares se levanta; No céu sem raias que deslumbra o olhar; No astro maior, na mais humilde planta; Na voz do vento, no clarão solar; No inseto vil, no tronco secular, — A vida universal palpita e canta! Vive até, no seu sono, a pedra bruta . . . Tudo vive! E, alta noite, na mudez De tudo, — essa harmonia que se escuta Correndo os ares, na amplidão perdida, Essa música doce, é a voz, talvez, Da alma de tudo, celebrando a Vida!

Cecília Meireles O MENINO AZUL

O menino quer um burrinho para passear. Um burrinho manso, que não corra nem pule, mas que saiba conversar. O menino quer um burrinho que saiba dizer o nome dos rios, das montanhas, das flores, — de tudo o que aparecer. O menino quer um burrinho que saiba inventar histórias bonitas com pessoas e bichos e com barquinhos no mar. E os dois sairão pelo mundo que é como um jardim apenas mais largo e talvez mais comprido e que não tenha fim. (Quem souber de um burrinho desses, pode escrever para a Ruas das Casas, Número das Portas, ao Menino Azul que não sabe ler.)


Carlos Drummond de Andrade

Henriqueta Lisboa

INFÂNCIA OS LÍRIOS Meu pai montava a cavalo, ia para o campo. Minha mãe ficava sentada cosendo. Meu irmão pequeno dormia. Eu sozinho menino entre mangueiras lia a história de Robinson Crusoé, comprida história que não acaba mais. No meio-dia branco de luz uma voz que aprendeu a ninar nos longes da senzala – e nunca se esqueceu chamava para o café. Café preto que nem a preta velha café gostoso café bom. Minha mãe ficava sentada cosendo olhando para mim: - Psiu... Não acorde o menino. Para o berço onde pousou um mosquito. E dava um suspiro... que fundo! Lá longe meu pai campeava no mato sem fim da fazenda. E eu não sabia que minha história era mais bonita que a de Robinson Crusoé. (Para ouvir Drummond recitando este poema, visite: http://memoriaviva.digi.com.br/drummond/poema002.htm)

Certa madrugada fria irei de cabelos soltos ver como crescem os lírios. Quero saber como crescem simples e belos — perfeitos! — ao abandono dos campos. Antes que o sol apareça neblina rompe neblina com vestes brancas, irei. Irei no maior sigilo para que ninguém perceba, contendo a respiração. Sobre a terra muito fria dobrando meus frios joelhos farei perguntas à terra. Depois de ouvir-lhe o segredo deitada por entre os lírios adormecerei tranqüila.


Paulo Leminski

LUA NA Ă GUA

Arnaldo Antunes

SOL TO


Clarice Lispector

MAS HÁ A VIDA

Mas há a vida que é para ser

Murilo Mendes

LINHAS PARALELAS

Um presidente resolve Construir uma boa escola Numa vila bem distante.

intensamente vivida,

Mas ninguém vai nessa escola:

há o amor.

Não tem estrada pra lá.

Que tem que ser vivido

Depois ele resolveu

até a última gota.

Construir uma estrada boa

Sem nenhum medo. Não mata.

Numa outra vila do Estado. Ninguém se muda pra lá Porque lá não tem escola.


Oswald de Andrade

José Paulo Paes GATO DA CHINA

VÍCIO NA FALA

Para dizerem milho dizem mio Para melhor dizem mió Para pior pió Para telha dizem teia Para telhado dizem teiado E vão fazendo telhados

Era uma vez um gato chinês que morava em Xangai sem mãe e sem pai, que sorria amarelo para o Rio Amarelo, com seus olhos puxados, um pra cada lado. Era um gato mais preto que tinta nanquim, de bigodes compridos feito mandarim, que quando espirrava só fazia "chin!" Era um gato esquisito: comia com palitos e quando tinha fome miava "ming-au!" mas lambia o mingau com sua língua de pau. Não era um bicho mau esse gato chinês, era até legal. Quer que eu conte outra vez?


Fernando Pessoa

Vinícius de Moraes EU NÃO EXISTO SEM VOCÊ

AUTOPSICOGRAFIA Eu sei e você sabe, já que a vida quis assim Que nada nesse mundo levará você de mim Eu sei e você sabe que a distância não existe O poeta é um fingidor. Finge tão completamente Que chega a fingir que é dor A dor que deveras sente.

Que todo grande amor Só é bem grande se for triste Por isso, meu amor Não tenha medo de sofrer Que todos os caminhos

E os que lêem o que escreve,

Me encaminham pra você

Na dor lida sentem bem, Não as duas que ele teve, Mas só a que eles não têm.

Assim como o oceano Só é belo com luar Assim como a canção

E assim nas calhas de roda Gira, a entreter a razão, Esse comboio de corda Que se chama coração.

Só tem razão se se cantar Assim como uma nuvem Só acontece se chover Assim como o poeta Só é grande se sofrer Assim como viver Sem ter amor não é viver Não há você sem mim Eu não existo sem você


Guilherme de Almeida

Prece a Anchieta

Roseana Murray

Colecionador

Santo: erguesses a cruz na selva escura;

Colecionador de cheiros troca

Herói: plantasses nossa velha aldeia;

um cheiro de cidade

Mestre: ensinasses a doutrina pura;

por um cheiro de neblina

Poeta: escrevesses versos sobre a areia!

um cheiro de gasolina por um cheiro de chuva fina um cheiro de cimento

Golpeia a cruz a foice inculta e dura;

por um cheiro de orvalho no vento

Invade a vila multidão alheia; Morre a voz santa entre a distância e a altura; Apaga o poema a onda espumejante e cheia...

Equilibrista

Santo, herói, mestre e poeta: — Pela glória

Procura-se um equilibrista

que destes a esta Terra e a sua História,

que saiba caminhar na linha

Pela dor que sofremos sempre nós.

que divide a noite do dia que saiba carregar nas mãos um fino pote cheio de fantasia

Pelo bem que quisesses a este povo,

que saiba escalar nuvens arredias

O novo Cristo deste Mundo Novo,

que saiba construir ilhas de poesia

Padre José de Anchieta, orai por nós!

na vida simples de todo o dia.

Antologia de poemas  

Antologia de poemas - língua portuguesa

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