Page 1


Pedro Proença intitulados TÍTULOS

ASSÍRIO & ALVIM


TEXTO INSTITUCION AL

Perdoe-me desde já o benévolo leitor a ousadia da incursão de um soi-disant modesto artista no domínio celerado e rigoroso das cousas typographicas. A minha relativa aversão, ou mesmo irritação, ao que hoje se chama, em mercantil anglicismo, design gráfico, sempre se deveu ao rigor das ferramentas, ao lado insonso dos “tipos”, à trabalhosa relação com as “gráficas”, às partidas que me pregaram nas impressões e no tratamento das imagens, aos desaparecimentos de originais e outros assuntos que não me acodem por ora. No entanto sempre gostei de máquinas de escrever, da composição manual dos tipos, das caligrafias rebuscadas, dos livros iluminados e dos acidentes que o tempo faz nos manuscritos: manchas, carimbos, anotações, rasgões e outras desordens que por vezes perturbam a legibilidade. Cada vez mais acho que o livro, objecto de devoção algo moribundo (embora nobre e honroso!), deve ser encarado como um caderno, e que a função recriativa do leitor é a de rabiscar, contrapor, achincalhar, precisar, obscurecer, iluminar, “traduzir”, sublinhar, acrescentar, cortar, apagar, etc. Estas atitudes de remontagem terão as suas virtudes se não vierem no sentido de empobrecimento e espartilhamento de texto. Não tenho a pretensão de desautorizar o que é do autor, ou de celebrar alternativamente a recensão comezinha e as batalhas recepcionistas dos estafados exegetas ou hermeneutas. No fundo acho simpática a ideia de que só o leitor que não é passivo é que é significativo (vaise tornando o seu autor!), mesmo que a significação seja uma floresta de equívocos. Tento não acentuar em demasia a ideia de que são os “vedores que fazem a pintura”, se bem que


INTITULADOS TÍTULOS

Perdoe-me desde já o benévolo leitor a ousadia da incursão de um soidisant modesto artista no domínio celerado e rigoroso das cousas typographicas. A minha relativa aversão, ou mesmo irritação, ao que hoje se chama, em mercantil anglicismo, design gráfico, sempre se deveu ao rigor das ferramentas, ao lado insonso dos “tipos”, à trabalhosa relação com as “gráficas”, às partidas que me pregaram nas impressões e no tratamento das imagens, aos desaparecimentos de originais e outros assuntos que não me acodem por ora. No entanto sempre gostei de máquinas de escrever, da composição manual dos tipos, das caligrafias rebuscadas, dos livros iluminados e dos acidentes que o tempo faz nos manuscritos: manchas, carimbos, anotações, rasgões e outras desordens que por vezes perturbam a legibilidade. Cada vez mais acho que o livro, objecto de devoção algo moribundo (embora nobre e honroso!), deve ser encarado como um caderno, e que a função recriativa do leitor é a de rabiscar, contrapor, achincalhar, precisar, obscurecer, iluminar, “traduzir”, sublinhar, acrescentar, cortar, apagar, etc. Estas atitudes de remontagem terão as suas virtudes se não vierem no sentido de empobrecimento e espartilhamento de texto. Não tenho a pretensão de desautorizar o que é do autor, ou de celebrar alternativamente a recensão comezinha e as batalhas recepcionistas dos estafados exegetas ou hermeneutas. No fundo acho simpática a ideia de que só o leitor que não é passivo é que é significativo (vai-se tornando o seu autor!), mesmo que a significação seja uma floresta de equívocos. Tento não acentuar em demasia a ideia de que são os “vedores que fazem a pintura”, se bem que a cozinhem e estu-


fem superficialmente nos meandros da consciência – mas as imagens também exercem os seus poderes sobre os corpos, bombardeando-os com diversas afecções a que não conseguimos ser insensíveis. Muitas dessas afecções mantêm-se cruas, em estado de transição, e são prelúdios de pequenas mudanças de vida, sem que a inclinação fetichista e contemplativa as devore nas suas projecções supostamente passivas. Não vou ao ponto de exigir uma atitude criativa de todos os leitores, acusando-os de traição, e de paralisarem o processo de transmutação de tudo num outro e distinto tudo. Há coisas que não merecem, e outras que apetece conservar assim tal e qual como espaço onde podemos acolher uma espécie de glória indefinida (como as que parecem sugerir as das missas barrocas e as das misses das barracas). O meu apetite pela confecção de livros vem, obviamente, das infâncias, e passa em parte pelo espírito das histórias aos quadradinhos de que fui um adolescente devorador até aos limiares possíveis da época (o inicio dos anos 70), que foi em parte de ouro no acesso a materiais exuberantes e diversificados – dos comics anti-comunistas e “colonialistas” aos fanzines da contracultura. Dessa época temos o testemunho luxuoso das aguarelas do Eduardo Batarda (da saga cómica do Peregrino Blindado, passando pelos avatares pseudo-popistas da revisão crítica das primeiras vanguardas e do pitoresco, trocalho e outras detalhadas e admiráveis peregrinações ao patusco e obsceno) às quais me esforço por homenagear indirectamente (no “espírito”?) ao atribuir a uma série desta exposição o titulo insidioso de “Cancioneiro do Menino Eduardo”. Homenagem ao Batarda, mas também ao meu filho Eduardo que tem no fundo algumas afinidades (no rigor?) com este artista que tanto admiro (e a melhor admiração que se lhe pode fazer (espero que não esteja errado) é parodiá-lo!). Não me posso deixar de referir ao meu período de formação e aos ínumeros livros “homeostéticos” que desenhei com a chancela (manual) ASA DICARUS (sobretudo no período 83/86). O convívio com os restantes homeos-


téticos, a principio com o Pedro Portugal e depois, de uma forma mais ostensiva, com o Fernando Brito, puxou-me a brasa a um interesse vago pela tradição modernista do desenho tipográfico. Por outro lado o Manuel João Vieira cultivava a manual tradição ornamental que vai do renascimento ao oitocentos (versão pornoecológica!) e o Xana fazia-me soborear a sensual estética superpop. Destes cozinhados de tendencias conflituosas nascem em boa parte as coisas aqui presentes, se bem que quer o fundo dadaísta, quer o barroco, (um convidando a uma aparência de desordem tipográfica e o outro ao chiste palavroso) façam parte de uma tradição que já mastigara, assim como o velho futurismo e umas pitadas de certo surrealismo. Nos últimos anos (consequência do meu comprometimento com o projecto “explicadista”) comecei a refazer livros desse género, a praticar caligrafias, a lançar para a gaveta vários números da revista Xplain e a ter uma vontade indomável de criar uma fonte homeostética (“triangula”, em contraposição à neo-construtivista Debrito). O resultado deste apetite foi o atirar-me à confecção de fontes incipientes, algumas das quais divertidas. Fiz uma versão da caligrafia do livro xilogravado por chineses Innocentia Victrix, e diverti-me com uma adaptação de exercícios caligráficos do rei francês Luís XIII. Depois veio a fúria e as adaptações mais variadas do que me apeteceu – versões “bad”, sem economia, com rasgamentos, esborratamentos, pingamentos, impressões manchadas, intervenções gráficas, caligrafias infantiloídes. Pus-me a digitalizar tudo. O etecedário do Lapa, a caligrafia do Cy Twombly, as figuras do Joaquim Rodrigo, imagens simbólicas, florões. Não tive pudor nenhum, embora às vezes tenha assomado alguma má consciência desta espécie de pirataria privada. Li, com deleite de quem aprende, o livro didáctico do Paulo Heitlinger sobre os tipos, comprei toneladas de livros, transpirando tipografia por todos os poros, até esta se converter numa doença que me atacou o corpo numa espécie de ansiedade devastante que me enchia de dores corporais. Fui, pelo meio, convidado a fazer uma série de capas, para as quais utilizei, com dificuldade, algumas das


fontes que ia fazendo. Continuava a venerar os magníficos manuscritos carolíngios e começava a apreciar a arte de confeccionar livros com uma imprudência mais “informada”. Reli Marinetti e os futuristas Russos. Estudei, no que há de disponível, a tradição do livro de artista. Admirei os métodos, pouco seguidos, do futuro-dadaísta Iliazd. Mantive-me fiel ao gosto pelo indeterminado e informal do John Cage (que no fundo marcou de algum modo a estética gráfica dos anos 90). Continuei fã do filão renascentista barroco, e fiz fontes dada-barrocas a partir de frontispícios que se iam desconstruindo no programa em que as “fabricava”. Sempre que produzi uma fonte (e muitas delas são algo medíocres quer pelos cânones quer pelo meu próprio juízo vagamente auto-crítico) fiz experiências de composições que muito me divertiram – uma série de capas da falsa editora MINHAM BOOKS abriram-me ainda mais o apetite pela redução/ampliação de uma arte combinatória interminável. Aproveitei a ocasião de ter esta exposição marcada para rescrever um livro que já vou, qual Penélope, fazendo e refazendo desde 1981 – a parte em causa é sobre o Álvaro Lapa e o James Lee Byars (um delirante dueto pseudo filosófico e artístico sobre a perfeição e a inclinação espontânea e “badalhoca” para o êxtase). Paginei selvaticamente o livro e fui acrescentando letras, imagens, etc. Era uma vez uma exposição que era um romance que estava impresso em grande e que se podia ir lendo. Agradava-me a ideia de ir expondo romances. Porém acabei por concluir que eram demasiadas imagens para o espaço disponível. Comecei a coçar a cabeça e a perceber que não fazia sentido. A alternativa, já mais em cima da hora, seria a de fazer peças de raiz. E assim foi – menino vamos aos títulos! – a intitulados títulos! Por outro lado surgiu a hipótese de se produzir um catálogo mais generoso, isto é, o presente livro – havia já um bom número de imagens impressas em tamanhos díspares. Assim, as restantes foram devidamente feitas para o formato “quadrado” em causa. E o que saiu, a bem ou a mal, constitui uma experiência divertida, embora muitas vezes no limite do esforço físico e psico-


lógico (pffffff…). Grandes suspiros! Constatei, mais uma vez, a dificuldade em pensar a linguagem verbal e compor imagens ao mesmo tempo. Nestes momentos sinto-me algo estúpido, a fluência da escrita não aparece e há um certo engasgamento. Faltam ideias, etc. Por outro lado há a tarefa aleatória de procurar nas teclas imagens que surgem como que do nada – e as que se foram usando/esgotando, e o desnorte de não encontrar uma imagem que “por acaso” encaixe… É um método que complementa outros já por mim utilizados no desenho, na pintura, na literatura, nos “scannings”, na música, etc. Perdoe-me o leitor o tê-los referido. Pondo de parte qualquer pretensão funcionalista, as obras aqui expostas pertencem mais ao domínio literário ou pictórico do que ao mundo rigoroso das artes gráficas (que por outro lado tem invadido o mundo artístico, a bem ou a mal). São coisas com um lado insinuante, mas as insinuações são ambíguas: recriam ficcionalmente coisas da vida no que esta tem de projectivo, com estrepitosa grandiloquência ou humor de roedor. São parte dessa grande desconversa novelística em que vou, com uns tantos outros, enredando as coisas num modo “alegre” de desfrutar o mundo. São também exercícios ou divertimentos, no mesmo sentido, jocoso e tecnicista, que Domenico Scarlatti atribuía às suas “modestas” sonatas. Não sei até que ponto estas coisas serão partilháveis. Mas imagino que o são, como algo que se contagia, nesta complexidade, filha de ordens argutas e de desordens voluntárias. E aqui vão elas!


Intitulados Títulos, Pedro Proença  

Catálogo, 2009 (edição Assírio & Alvim)

Intitulados Títulos, Pedro Proença  

Catálogo, 2009 (edição Assírio & Alvim)

Advertisement