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repórterdomarão do Tâmega e Sousa ao Nordeste

Prémio GAZETA 2009

Nº 1247 | janeiro '11 | Ano 27 | Mensal | Assinatura Nac. 40€ | Diretor: Jorge Sousa | Edição: Tâmegapress | Redação: Marco de Canaveses | 910 536 928 | Edição escrita ao abrigo do novo acordo ortográfico | Tiragem: 32.000 ex.

j a n e i r o ’ 11

Uma goleada de Cavaco Silva ou a Esquerda forçará o prolongamento? A banca foi um dos temas dominantes da pré-campanha rumo às eleições presidenciais de 23 de janeiro – e parece manter-se durante o período oficial –, com a generalidade dos candidatos a usarem o “caso BPN” para visarem o ainda Presidente da República e recandidato, Cavaco Silva. A dúvida que paira é se os votos da Esquerda (de Manuel Alegre e Francisco Lopes, sobretudo) conseguirão impor a segunda volta (13/02) ou se Cavaco Silva, apesar dos estilhaços do caso BPN, consegue ser eleito à primeira. Concorrem ao cargo Cavaco Silva, que se recandiata a um segundo mandato, com o apoio de PSD e CDS/PP, Manuel Alegre, apoiado por PS e Bloco de Esquerda, Francisco Lopes, com o apoio do PCP, o independente Fernando Nobre, o deputado socialista Defensor Moura e José Manuel Coelho, deputado madeirense do Partido Nova Democracia.

Presidente do IPB

No Interior Norte

Fusão com a UTAD não faz qualquer sentido

Bispos apreensivos com crescimento da pobreza

Bragança

Lamego

Vila Real


Portugueses votam a 23 de janeiro para o Presidente

Caso BPN domina campanha Redação | tamegapress@gmail.com | Fotos Lusa | Cartoon da Capa Santiagu (António Santos)

A banca tem sido um dos temas dominantes da pré-campanha rumo às eleições presidenciais de 23 de janeiro, com a generalidade dos candidatos a usarem o “caso BPN” para visarem o ainda Presidente da República e recandidato, Cavaco Silva. O tema saltou para o topo da pré-campanha presidencial quando, a 23 de dezembro no frente-a-frente televisivo, o candidato presidencial Defensor Moura confrontou Cavaco Silva com os lucros que terá obtido com o Banco Português de Negócios (BPN) – bem como o alegado favorecimento a “amigos e correligionários”. Manuel Alegre, apoiado por PS e BE, "cavalgou" o tema e tem também responsabilizado “amigos políticos do atual Presidente da República” pelo “escândalo financeiro” do BPN”, insistindo na necessidade de Cavaco Silva explicar “a quem comprou e a quem vendeu as ações” da Sociedade Lusa de Negócios (SLN), que detinha o BPN. Cavaco Silva já defendeu, no entanto, que devem ser "ignorados" aqueles que o atacam a propósito deste caso "há um princípio" segundo o qual "quando aqueles que nos atacam sabem que estão a ser desonestos ao fazê-lo, nós devemos ignorá-los", salientou. À margem do caso BPN, a banca tem marcado presença menos assídua nas campanhas presidenciais. Cavaco Silva já afirmou que a recente crise económicofinanceira “evidenciou falhas no funcionamento dos mercados, que devem ser colmatadas”, acrescentando que as responsabilidades por tais falhas “não devem ser atribuídas ao mercado enquanto tal, mas à ineficiência do sistema de regulação e à ação menos escrupulosa de certos agentes e ao seu comportamento pouco ético”. Manuel Alegre assestou contra a “ameaça de uma nova forma de ditadura” à autonomia nacional: “a ditadura dos mercados financeiros. Porque a Europa está a ser desconstruída com o reforço do centro em desfavor dos Estados periféricos e com os contribuintes a pagarem a socialização das perdas do sistema bancário". “Se fosse presidente da República, neste mo-

mento não permitiria que o grande capital e os grandes banqueiros andassem a exercer um papel de pressão”, disse, em outubro. Francisco Lopes, apoiado pelo PCP, defendeu também a necessidade de os grandes grupos económicos e financeiros, “que têm lucros colossais”, pagarem “os impostos que têm que pagar”, taxando as operações bolsistas, taxando as transferências para 'offshores' e obrigando a banca a pagar 25 por cento de IRC. Sobre o tema, o candidato independente Fernando Nobre afirmou em novembro: “Lamento que a União Europeia tenha sido incapaz, até hoje, de criar uma agência de ‘rating’ pública, europeia. Nós temos estado a ser permanentemente chantageados por agências de ‘rating’ privadas, que têm no seu substrato e nos seus fundamentos, coisas que desconhecemos muitas vezes”. O candidato Defensor Moura defendeu, por seu turno, que o Presidente da República “deve ser um exemplo” e “ter um passado limpo no que se refere ao relacionamento com o mundo financeiro”. José Manuel Coelho afirmou também sobre o tema: “no continente temos o engenheiro [José] Sócrates a extorquir dinheiro aos contribuintes portugueses e a injetar no BPN para tapar esse grande buraco financeiro que foi criado pelos amigos de Cavaco Silva”.

Cavaco apostado em resolver "tudo" a 23 de janeiro Num concelho ‘laranja’, com o PSD e o CDS-PP ao seu lado, Cavaco silva arrancou em Cascais para a “última jornada pelo futuro de Portugal”, apostado em resolver “tudo” já no dia 23 de janeiro. “Começo aqui, na Grande Lisboa, mais precisamente no concelho de Cascais, a última parte da minha jornada pelo futuro de Portugal”, disse Cavaco Silva no almoço que marcou o arranque oficial da sua campanha para as eleições presidenciais de 23 de janeiro. Cavaco Silva aproveitou para repetir o essencial do discurso da pré-campanha, voltando a apelar a uma vitória à primeira volta, porque “o país não aguenta mais adiamentos”. A antiga líder social-democrata e confessa ‘cavaquista’, Manuela Ferreira Leite, ou o ex-ministro democrata-cristão Bagão Félix apareceram finalmente na campanha eleitoral. Sem poupar elogios a Cavaco Silva, Manuela Ferreira Leite justificou o seu apoio ao candidato apoiado pelo PSD, CDS-PP e MEP, considerando que “é efetivamente aquela pessoa que neste momento nós precisamos” e o único que tem “provas dadas que defende efetivamente o Estado Social”. Sem querer falar do caso BPN, Manuela Ferreira Leite recusou, contudo, a ideia que a credibilidade de Cavaco Silva possa ter sido “beliscada” por aquilo que classificou como uma “montagem verdadeiramente inaceitável de toda a esquerda”. Além de Manuela Ferreira Leite, dos filhos e netos do candidato, Cavaco Silva teve ao seu lado muitas outras figuras, como Matilde Sousa Franco, Anacoreta Correia, Leonor Beleza, Alexandre Relvas, António Sala ou Ruy de Carvalho.

Campanha eleitoral oficialmente até dia 21 A campanha eleitoral para as presidenciais termina dia 21, apesar de os seis candidatos ao Palácio de Belém já andarem em pré-campanha há várias semanas. Concorrem ao cargo de Presiden-


da República

e visa Cavaco Silva te da República Cavaco Silva, que se recandiata a um segundo mandato, com o apoio de PSD e CDS/PP, Manuel Alegre, apoiado por PS e Bloco de Esquerda, Francisco Lopes, com o apoio do PCP, o independente Fernando Nobre, o deputado socialista Defensor Moura e José Manuel Coelho, deputado regional madeirense do Partido Nova Democracia. Para o sufrágio de 23 de janeiro estão inscritos um total de 9.656.474 eleitores, enquanto em 2006 eram 9.085.339. Uma eventual segunda volta será realizada a 13 de fevereiro, 21 dias após o primeiro sufrágio, com a campanha eleitoral a decorrer entre 03 e 11 do mesmo mês. Em 1986 foi necessária uma segunda volta, na qual Mário Soares bateu Freitas do Amaral. Mas na primeira volta, o histórico do PS somou 25,43 por cento enquanto o candidato da direita obteve 46,31 por cento. Qualquer desistência das candidaturas deve ser comunicada até 72 horas antes da data da eleição, ou seja, até dia 19 de janeiro. Segundo o diretor geral da Administração Interna, deverão ser gastos cerca de 9,5 milhões de euros com a campanha de sensibilização e toda a operação logística em torno das eleições de dia 23, o mesmo valor que há cinco anos.

Maior abstenção ocorreu na reeleição de Jorge Sampaio

     Em 2006, Cavaco Silva ganhou as eleições presidenciais com 50,54 por cento, seguido de Manuel Alegre (20,74%), Mário Soares (14,31%), Jerónimo de Sousa (8,64%), Francisco Louçã (5,32%) e Garcia Pereira (0,44%). A abstenção foi de 38,47 por cento, segundo o site da internet da Comissão Nacional de Eleições. Os três presidentes eleitos depois do 25 de Abril de 1974, por sufrágio universal e direto, Ramalho Eanes, Mário Soares e Jorge Sampaio, cumpriram sempre um segundo mandato. A maior abstenção em eleições presidenciais pós 25 de Abril de 1974, de 50,29 por cento, foi registada na reeleição de Jorge Sampaio, em janeiro de 2001. Contra os candidatos Joaquim Ferreira do Amaral, António Abreu, Fernando Rosas e Garcia Pereira, Sampaio somou 55,55 por cento dos votos de 4.449.800 pessoas que se deslocaram às urnas. O número total representou assim 49,71 por cento dos eleitores habilitados a votar nesse ano. O menor valor de abstenção, 15,61 por cento, ocorreu quando António Ramalho Eanes foi eleito para um segundo mandato em 1980. O general ganhou com 56,44 por cento num universo total de 5.840.332 votantes (84,39 por cento dos inscritos). Por três vezes, a renúncia ao voto ultrapassou os 30 por cento: 37,84 por cento na reeleição de Mário Soares (1991); 33,71 por cento na primeira eleição de Jorge Sampaio (1996) e 38,47 por cento no sufrágio ganho por Aníbal Cavaco Silva (2006). Nos restantes atos eleitorais, a abstenção variou entre os 24,53 por cento quando Ramalho Eanes se tornou o primeiro presidente eleito por sufrágio universal e direto depois do 25 de Abril, e os 24,62 e 22,01 por cento, na primeira e segunda voltas, respetivamente, da votação em 1986. Em 1986, Mário Soares foi eleito pela primeira vez, com 51,18 por cento de votos.

Pedras Salgadas protesta por causa do parque termal

     O Movimento Cívico de Pedras Salgadas, em Vila Pouca de Aguiar, apelou à abstenção nas eleições presidenciais, como forma de protesto contra o incumprimento

do projeto Aquanattur no parque termal. A população de Pedras Salgadas reivindica a construção de um hotel no parque, que estava previsto no projeto Aquanattur, promovido pela concessionária do espaço, a Unicer. Rui Sousa, presidente da Junta de Freguesia de Bornes de Aguiar, onde está inserido o espaço, disse à Agência Lusa que as expetativas da população foram “defraudadas” pelo “não cumprimento” do projeto e promete “boicotar” as eleições. “É um apelo à abstenção. Se não houver qualquer desenvolvimento até às eleições (23 de janeiro), o ato vai passar ao lado das pessoas”, afirmou. Rui Sousa recusa encerrar as urnas, garante a abertura das assembleias de voto com normalidade, mas diz que poucos exercerão o seu direito de voto se até lá a Unicer ou o Governo não se pronunciarem sobre a conclusão do projeto.

Dos 200 empregos prometidos só foram criados 2 Apesar de ter aberto as portas ao público em junho, as “únicas obras foram a recuperação do balneário termal, o alargamento do lago e a construção de uma piscina”. O autarca acrescentou que estavam previstos 200 postos de trabalho, mas que, até ao momento, apenas duas pessoas trabalham no balneário”. O autarca referiu que muitos jovens foram fazer formação na área termal e turismo e que se sentem “defraudados” por não terem emprego. Para reivindicar a conclusão do Aquanattur em Pedras Salgadas, um projeto classificado pelo Governo como de interesse nacional, foi criado um movimento cívico que junta cerca de mil pessoas, feita uma petição com 1.500 subscrições e uma manifestação que, em setembro, juntou centenas de pessoas. Foi colocada uma tarja na Avenida Lopes de Oliveira, que dá acesso ao parque, em que se pode ler “Projeto Aquanattur, manifesta o teu desagrado no dia 23”. Fonte da Unicer explicou à Lusa que a segunda fase de reconversão do Parque está em análise junto das autoridades competentes, como a AICEP e Turismo de Portugal. A fonte acrescentou que o início dos estudos necessários para a concretização do projeto está dependente da “celeridade da resposta e dos apoios a disponibilizar”. A 06 de outubro, a Unicer reinaugurou o Vidago Palace Hotel, obra também inserida no Aquanattur, numa cerimónia que contou com a presença do primeiro-ministro, José Sócrates. Na altura, o presidente do Conselho Executivo do grupo, António Pires de Lima, pediu ao Governo para que “critérios formalistas e a burocracia” não impeçam a empresa de receber os “apoios essenciais” à concretização do Hotel das Pedras Salgadas, uma obra que disse querer iniciar em 2011. Ainda estando por concluir o projeto, a empresa já investiu 75 milhões de euros, dos quais 60 milhões de euros nos dois parques, mas tem garantido e seguros apenas nove milhões de euros de apoios do Estado.


Degustação de 144 especialidades até junho

Gastronomia no Porto e Norte envolve mais de mil restaurantes Paulo Alexandre Teixeira | pauloteixeira.tamegapress@gmail.com | Fotos P.A.T.

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ão mais de mil os restaurantes que vão participar na iniciativa Fins de Semana Gastronómicos 2011, uma campanha da entidade Turismo Porto e Norte de Portugal (TPNP, ER) que visa, em parceria com 72 câmaras municipais, promover durante cada fim de semana dos próximos seis meses a gastronomia e os vinhos nortenhos. Ao todo, estarão em montra 144 especialidades da cozinha regional, um aumento que a organização aponta como “significativo” em relação ao primeiro evento do género, que se realizou em 2010. Durante a apresentação oficial do projeto, nos Paços dos Duques, em Guimarães, Melchior Moreira, presidente da Turismo Porto e Norte fez um balanço positivo do evento do ano passado e destacou a sua importância como uma forma de atenuar as assimetrias da procura turística em "época normalmente considerada baixa”. “A dinamização do produto estratégico Gastronomia e Vinhos tem pontuado no sentido de uma promoção, em escala, de relevantes eventos turísticos que, sob a marca “portonorte.come”, têm afirmado uma identidade própria decorrente das sinergias com os municípios e agentes económicos da região”, explicou o presidente da entidade promotora (foto ao lado). Sobre a marca “portonorte.com”, Melchior Moreira elaborou ainda que, em paralelo com a realização dos Fins de Semana Gastronómicos, a empresa turística regional vai apresentar e promover um Manual de Identidade de Marca de Excelência e Qualidade. O documento “de referência” pretende definir critérios e uniformizar procedimentos a observar na realização de eventos gastronómicos e na distinção dos restaurantes de excelência da região. Vários presidentes de câmara e representantes dos municípios saudaram a iniciativa, destacando o evento como uma das formas de contrariar o presente cenário de crise económica e financeira que o país atravessa. O bacalhau com broa e as rabanadas foram o “prato de partida” no fim de semana de 8 e 9 de janeiro, num evento que arrancou em Guimarães. Na mesma data, o concelho de Montalegre promoveu também em vários restaurantes da região o cozido à barrosã e o doce de abóbora e queijo. Uma semana depois é Boticas que serve o almoço: Cozido à Barrosão e Aletria. A 22 e 23 de janeiro é Paços de Ferreira que põe a mesa: Capão de Freamunde e Rochas da Citânia. Em Marco de Canaveses serve-se anho assado com arroz no forno e fatias do Freixo entre 29 e 30 de janeiro, seguido de Amarante, a 12 e 13 de fevereiro, com o bacalhau assado no forno e os doces conventuais. O segundo mês do ano conta ainda com a alheira certificada e o pudim de Azeite em Mirandela (5 e 6) e milhos e aletria em Chaves, no mesmo período. Milhos e a maçã pipo de Basto são as propostas de Ribeira de Pena entre os dias 5 e 6 de março, tal como os grelos cozidos com salpicão grelhado e o pudim de castanha que Macedo de Cavaleiros acrescenta à montra de março.

Em Penafiel haverá lampreia e bolinhos de amor (12 e 13) e Celorico de Basto apresenta o pica no chão, pão-de-ló e doce de amêndoa no fim de semana seguinte. Também a 19 e 20 de março pode apreciar o cabrito assado à moda de Paredes, complementado com sopa seca. Em abril, vários restaurantes de Mondim de Basto vão colocar na mesa a posta maronesa e o pãode-ló húmido (2 e 3). A 16 e 17, Cabeceiras de Basto e Felgueiras servem cabrito assado e pão-de-ló. Ainda em abril (30 e 01 de maio) apresenta-se a boa mesa em Bragança, recheada de javali com castanhas e pudim do mesmo fruto. No mesmo fim de semana, Lousada serve cabrito assado com arroz de forno e sopa seca doce. Em 14 e 15 de maio, Baião volta a servir anho assado e arroz no forno enquanto que em Fafe se vai degustar a vitela assada à moda local e os doces de gema. No fim de semana seguinte (21 e 22), Peso da Régua põe à prova o paladar com o prato tradicional de tripas e, como sobremesa, o leite-creme. O evento prolonga-se até junho, quando o roteiro encerra, em Vila do Conde, nos dias 4 e 5, com o cabrito assado e as barrigas de freira.


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Entrevista | Presidente da delegação do Porto da Cruz Vermelha Portuguesa

“A área social pode ser flexível e nem tudo passa pelo dinheiro” Liliana Leandro | lleandro.tamegapress@gmail.com | Fotos L.L.

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oucos dias se passaram desde o Natal quando Maria Otília Novais recebe o Repórter do Marão nas instalações da Cruz Vermelha no Porto, ainda decorada a preceito. É aí que a atual presidente da delegação, e antiga diretora de serviços de ação social na Segurança Social, trabalha voluntariamente “como profissional” desde 2003 ou 2004 (já lá vai algum tempo!). Depois de se aposentar “por razões familiares” esta mulher “de carreira”, como a própria diz, decidiu aceitar mais este desafio, até porque, admite, não gosta de “coisas nem mornas nem fáceis”. Em 2005 assumiu a direção e desde então, conta, criou uma estrutura, uma equipa, um “eixo central solidário, forte e coeso”. A crise económica internacional já se fez sentir na instituição, mas Maria Otília Novais não desarma: “sou uma pessoa que venceu na vida. Ultrapassei dificuldades e crises e por isso esta não me assusta tanto. Temos é que estar preparados para vencer as crises, quaisquer que sejam, até da idade”.

A mulher Desde que nasceu, em plena segunda guerra mundial, e até aos dias de hoje, a “mulher, mãe de família, hoje avó e uma profissional de carreira” acredita ter sido “uma pessoa bafejada pela sorte”. Maria Otília Novais, Presidente da delegação do Porto da Cruz Vermelha Portuguesa (instituição criada em 1865) prefere relativizar os problemas e lembrar-se da sua grande referência, o pai, de quem lembra ser “um verdadeiro humanista”. Por isso mesmo, foi “educada a pensar nos outros antes de mais” o que a marcou por toda a vida. Quando acorda, dá graças por acordar, por estar viva. Para Maria Otília, um problema não serve para abater, mas para fortificar, razão pela qual opta por antecipá-los e encontrar soluções. Na Cruz Vermelha, salienta, leva a “vida como voluntária, mas trabalhando como uma profissional”. É que o voluntariado em que se insere não lhe tira responsabilidades “numa instituição com um conjunto de postos de trabalho muito significativos” e é essa mesma responsabilidade que a leva a “olhar para a crise sem derrotismo e a pensar como vencê-la, com coragem, transmitindo essa mesma coragem aos colaboradores”. Habituada a trabalhar “10 a 12 horas por dia”, teve uma vida profissional, enquanto diretora de serviços de ação social na Segurança Social, “muito cheia e complicada” e chegou a altura de “fazer a opção entre a carreira e a família”. Escolheu a segunda. Depois das coisas serenadas, e como “não podia estar parada” decidiu aceitar um convite para integrar a direção da delegação do Porto da Cruz Vermelha Portuguesa como vogal para a ação social. Estávamos “em 2003 ou 2004”.

Desafio chamado Cruz Vermelha Este foi “mais um desafio” na vida de Maria Otília Novais que encontrou uma instituição “um pouco adormecida” e a “necessitar de um grande processo de mudança”. Porém, e como não gosta das coisas “nem mornas nem fáceis”, começou e ainda continua a comandar os destinos da delegação desde 2005, ano em que, com o fim do mandato da anterior direção do Porto, foi nomeada presidente da comissão administrativa pelo presidente nacional. “Foi necessário criar uma nova estrutura organizativa, os estatutos mudaram, o modelo a nível nacional so-

Nome: Maria Otília Gomes da Costa Novais Data de nascimento: 07 de janeiro de 1942 Local: Barcelos Habilitações Literárias: Licenciatura em Serviço Social

Livro: Os últimos lidos da trilogia Millenium Filme: “não vou muito ao cinema” Música: Frank Sinatra e ‘Memories’ da Barbra Streisand Frase: “Sou uma pessoa que venceu na vida”

freu uma mudança muito grande”, recorda. A delegação do Porto precisava então de se modernizar e dar respostas mais “conformes às necessidades dos grupos vulneráveis”. Esta necessidade de renovação “obrigou a alterações muito grandes, mudanças de mentalidade, apostas em novos mercados”, levando a ponderar a sustentabilidade financeira da própria instituição porque “os apoios do Estado estão a decrescer, e a perspetiva não será muito melhor”, frisou. A dirigente acredita mesmo que há que “antecipar a crise através da criação de novos serviços, criando receitas que permitam cobrir o défice que é natural acontecer nas áreas sociais por excelência”. Uma das apostas de Maria Otília Novais foi a organização anual do Baile da Cruz Vermelha, com uma “componente de marketing social”. Defende que são eventos como estes que “mexem o nome, as pessoas e até a economia”. Outras apostas passaram pela aproximação da Cruz Vermelha a “gente jovem” para passar o nome e relançar a “dignidade e respeito” desta instituição internacional com uma visão global.

A importância do voluntariado Se já na origem da Cruz Vermelha os poderes públicos não eram suficientes para resolver as questões de pobreza de toda uma sociedade, hoje a situação não é distinta pelo que se mostra “necessária a intervenção da sociedade civil e do voluntariado”, dois dos eixos em que assenta esta organização. Mas desengane-se quem pensar que qualquer um pode ser voluntário. “É preciso que tenha perfil”, sublinha Maria Otília Novais. A organização, salienta, tem um conjunto de tarefas e uma missão que a pessoa tem de saber cumprir. Atualmente, os voluntários têm mesmo de preencher uma folha de presenças onde anotam o local

onde prestam voluntariado e o número de horas que trabalham. “É importante a instituição chegar ao fim do ano e perceber que foi possível cumprir os seus objetivos não só com o seu trabalho remunerado mas também porque houve determinado número de voluntários a prestar determinado número de horas de trabalho”, explica. Apesar da importância do voluntariado, a presidente da delegação do Porto considera que “organizações como a Cruz Vermelha já não se podem só desenvolver com voluntários, até porque há áreas técnicas que necessitam de pessoas com presença estável e contínua”. A delegação do Porto abrange valências desde emergência e transporte de doentes, apoio a eventos (feito sempre por voluntários), ação social (que engloba centros de dia no Porto e em Gaia e apoio domiciliário), saúde (serviço de apoio domiciliário especializado feito por enfermeiras) e formação (Centro de Novas Oportunidades, cursos EFA e formação em socorrismo). Esta última tem vindo “a aumentar exponencialmente” com as pessoas a terem “cada vez mais consciência da necessidade de formação em socorrismo”. E como se mantém toda esta máquina em funcionamento? “Não foi fácil”, responde Maria Otília Novais. “Foi necessário criar uma estrutura organizativa, desenhar em organigrama e agora há que andar para a frente. Trabalhamos com uma média de 100 pessoas e é quase uma mini empresa”, conta. Do Estado diz que não tem sido “generoso” com a delegação do Porto mas acredita que “a área social pode ser extremamente flexível”. Está mesmo convicta que “nem tudo passa pelo dinheiro ou pelos suportes do Estado” mas pode passar por “respostas muito mais baratas”, humanas e criativas. O crescente envelhecimento da população pode, por exemplo, ser uma janela de oportunidades onde se deve apostar fortemente “quer prestando serviços de qualidade, quer de humanidade para os que têm menos possibilidades financeiras”. A delegação está também a apostar na formação de equipas de emergência para que estejam devidamente preparadas a agir em situação de crise.

Passado e futuro

Em jeito de balanço, diz que os cinco anos à frente da delegação do Porto foram positivos. “Em consciência digo que fiz o meu melhor e dei o meu melhor. Atingi um dos primeiros objetivos que era criar uma instituição que tivesse uma equipa que seja um eixo central solidário, forte, coeso e perceba que se funcionar em equipa a instituição anda”, salienta. Também em cinco anos notou uma maior procura pela Cruz Vermelha, tendo aparecido “a nova pobreza, a pobreza envergonhada” que, por falta de recursos, nem sempre encontra resposta. Do ponto de vista emocional, Maria Otília Novais depara-se com situações complicadas de gerir e que, inclusive, tiram “muitas noites de sono” por serem “demasiado reais para apenas se poder dizer não”. Para escapar um pouco ao quotidiano lê “muito”, ouve música e refugia-se nos netos quando precisa de “desligar completamente”. “Também guio bastante e quando quero escapar meto-me no carro e faço quilómetros”, confessa. Para o futuro quer continuar “viva, ativa e proativa”, tal como deve ser a própria Cruz Vermelha: preparada para o quotidiano e para as situações de exceção. Na mente uma nova ideia, de parcerias com empresas, de fazer entrar a sociedade civil nos problemas sociais. “Se há pessoas que apadrinham crianças em África, por que não pensar nisso dum ponto de vista mais próximo?”, deixa no ar.


Pobreza poderá agravar-se – temem os bispos do Interior Norte Foto João Miranda | Lusa

D. Antóni conceção

Bispo de BragançaHelena Fidalgo | hfidalgo.tamegapress@gmail.com

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A crise encostou-se ao quotidiano dos portugueses como uma inevitabilidade, subjugando-lhes todas as ações e pensamentos. Nas televisões, nos cafés, nas ruas, essa palavra repetida ao expoente da normalidade. Com o mercado de trabalho a sofrer os efeitos da crise económica que alastrou pela Europa, as subidas das taxas de desemprego atingem máximos históricos, nomeadamente nos jovens e nas mulheres. Segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE), no último ano cresceu em 36 mil o número de desempregados na Região Norte, designadamente nos setores da indústria transformadora (mais de 12 mil) e do comércio (mais de 10 mil). Também no último ano, o número de desempregados inscritos no Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP) aumentou mais de 20% em 15 concelhos do Norte. Em Miranda do Douro, Mirandela, Boticas e Penedono, o crescimento chegou mesmo a ser superior a 35%. Em 2011, haverá mais de 600 mil desempregados – o nível mais alto em cerca de três décadas –, e os economistas prevêem que a trajetória de subida do desemprego ainda demore mais algum tempo a passar. Em declarações à LUSA, o especialista em mercado de trabalho, Pedro Adão Silva, perspetivou para este ano um mercado de trabalho “congelado”, em que o número de pessoas com proteção de desemprego deverá diminuir. “O ritmo de destruição do emprego vai desacelerar e, portanto, não vamos ter um grande crescimento do desemprego, mas também não vamos ter nenhuma criação de emprego”, frisou. Perante tudo isto, multiplicam-se os pedidos de ajuda para que não falte comida na mesa ou para pagar o empréstimo da casa. As instituições sociais desdobram-se em apoios e, em paralelo, estende-se o amparo silencioso da família e/ou dos amigos. Para os responsáveis pelas três dioceses do Interior Norte (Bragança, Lamego e Vila Real), as repercussões da crise poderão revelar-se ainda mais nefastas. Nesse olhar atento, destaca-se uma pobreza não declarada e nota-se a perda de uma cultura de poupança.

Crise social invoca a fé Muitos daqueles que vêem os seus futuros penhorados encontram na Igreja um subterfúgio às dificuldades, mas o bispo de Bragança repudia essa visão mercantilista. “Nós não nos podemos lembrar de Deus quando as coisas correm mal”, alerta D. António Montes. O bispo de Lamego, D. Jacinto Botelho, receia ainda que a pobreza espiritual, aliada aos problemas económicos, cause mais transtornos à sociedade portuguesa. “Muitas pessoas ainda não se aperceberam da gravidade desta crise”, sustenta. Se, por um lado, D. António Montes considera que as regiões do interior não têm os problemas do litoral nas faixas urbanas e, sobretudo suburbanas, D. Jacinto Botelho chama a atenção para a pobreza envergonhada que vai proliferando. “Hoje em dia, felizmente, não vemos famílias que andam pelas terras à espera daquilo que os beneméritos oferecem, mas crescem aqueles que podemos chamar novos pobres.” Também o bispo de Vila Real, D. Joaquim Gonçalves, denuncia novos fenómenos sociais, nomeadamente a “facilidade de romper os afetos”, os regressos forçados à terra de origem e o álcool como “um refúgio em tempos de crise”. A resolução desta crise exige uma conversão dos estilos de vida e uma restauração dos princípios éticos fundamentais no mundo capitalista. “Sem uma conversão a esses princípios, a crise é insolúvel”, defende D. Joaquim Gonçalves. O bispo de Lamego apela ainda a mais austeridade nas contas públicas, que parecem revelar sinais de ostentação e gastos supérfluos. P. P.

lgumas paróquias transmontanas têm assistido a uma maior afluência de pessoas em paralelo com a crise, o que para o bispo da Diocese de Bragança-Miranda é positivo, mas D. António Montes Moreira pergunta-se se será uma dimensão religiosa autêntica que leva as pessoas à Igreja ou uma conceção demasiado “mercantilista do toma lá da cá”. “Deus não é um tapa buracos”, avisa D. António que prefere não insistir “demasiado nesse aspeto de que a crise leva as pessoas a voltarem-se para Deus”, pois entende que “é uma contrafação da religião”. “Nós não nos podemos lembrar de Deus quando as coisas correm mal”, alerta o prelado numa altura em que as pessoas procuram preencher vazios com “uma certa conceção da religião em que Deus aparece como uma espécie de suplemento para aquilo que nós não podemos fazer”. D. António admite que esta “aproximação” possa servir de “detonador” mas ressalva que “uma dimensão religiosa verdadeira não é essa”. Numa sociedade que admira as “coisas extraordinárias” e em que faltam “graças a Deus” pelas “coisas normais da vida”, o desafio da Igreja será “purificar” essa conceção “mercantilista”, na opinião do prelado. É como fazer - exemplifica - uma promessa a Nossa Senhora de Fátima “e dizer que é muito religioso, mas é um conceito muito limitado, muito imperfeito”. Para o bispo diocesano, “uma peregrinação a Fátima tem todo o seu mérito, tem toda a sua dimensão religiosa, mas deve terminar numa conversão, numa mudança de vida”. “Se a pessoa faz uma peregrinação a Fátima e se na região onde vive andava zangada com os colegas de trabalhos, se vive em situações matrimoniais irregulares, se é um assaltante de bancos, e continua na mesma, essa peregrinação não obteve o seu efeito porque as peregrinações devem culminar na conversão pessoal”, exemplificou. Para D. António, “as grandes promessas não são as que se fazem aqui (em casa) para cumprir em Fátima, são as que se fazem em Fátima para cumprir aqui”. “Que o movimento da crise contribua um pouco para


o Montes Moreira contra 'mercantilista' da religião

-Miranda sobre a crise: “Deus não é um tapa buracos” | Fotos Manuel Teles que haja uma afluência maior é positivo, mas é muito insuficiente, tem de ser purificado”, concluiu. Numa altura em que se diz que as pessoas precisam de esperança, o chefe da Igreja Católica no Distrito de Bragança entende que “é preciso dar conteúdo à esperança das pessoas: é cada um cumprir bem a sua vida de cristão e de cidadão no dia a dia, atento aos outros, não fechado sobre si mesmo. A esperança é feita de coisas pequenas e não podemos esperar um D. Sebastião que venha resolver isto. Cada um tem de ser um D. Sebastião no lugar onde está, mas para isso não pode fazer de si o centro do mundo, tem de estar aberto à colaboração com os outros”.

Há coisas imorais Na entrevista ao RM, D. António aponta razões em várias direções para a crise. “Há coisas que são imorais. Por exemplo, porque é que se hão de financiar férias para ir ver a Disneilândia a Paris?” questionou, da mesma forma que entende que “a pessoa não fica mais diminuída se não conhecer Acapulco ou Tóquio”. Não é contra o recurso ao crédito, “de maneira controlada e isso depende da disciplina de cada um”, mas teme que a crise não seja suficiente para mudar “a habituação excessiva que houve a um gasto excessivo e às vezes até uma opulência, uma ostentação que não está bem”. “Algumas pessoas não conseguirão porque estão de tal maneira voltadas para essa questão da ostentação que será difícil”, considerou, acrescentando, que “aí tem uma grande função a Igreja e as instituições de caráter social e religioso: mostrar que é preciso, a partir de agora, adotar um género de vida mais comedido, mais austero”. “As grandes manobras financeiras que estão em grande parte na origem da crise atual são”, para D. António, “uma falta de consciência, francamente um pecado social”. Para o prelado, “o lucro não é tudo”, admite que “seja o principal, mas não pode ser exclusivo: tem de ter um coeficiente satisfatório de dimensão de serviço à comunidade e a economia deve estar ao serviço do Homem”.

Defende que “no capitalismo há um estado de espírito que deve ser corrigido” e dá exemplos de grandes empresas que já deram provas de que há alternativas como os programas sociais da elétrica portuguesa EDP ou da espanhola Iberdrola, na área cultural para restauro de património religioso. “É uma dimensão que podia ser mais incrementada”, defendeu.

Igreja e Estado com a mesma dificuldade para reformar

Distrito está melhor que meios urbanos

“As nossas aldeias estão a morrer”, continuou, considerando inevitáveis reorganizações que a crise tem apontado como a extinção de freguesias ou concelhos. D. António diz que “a Igreja partilha o mesmo problema”, inclusive “a resistência das populações”, embora tenha a tarefa facilitada, fazendo a fusão ao nível do responsável, com um pároco para seis ou sete paróquias e um redimensionamento do serviço religioso. Defende ainda que nas paróquias urbanas “pode fazer-se uma reforma maior”. Entregar mais tarefas aos leigos é outro dos caminhos propostos por D. António Montes Moreira que vê maiores dificuldades na reorganização civil. “É muito difícil. Um governo tem de ser muito forte para conseguir impor uma medida dessas”, afirmou e, por isso admira “como é que o governo liberal de meados do século XIX conseguiu ter força para impor uma redução drástica dos concelhos”. “Foram mais de 50 por cento”, enfatizou. Ressalva, no entanto, que “as medidas não podem ser tomadas só num gabinete ministerial com régua e esquadro”. “Não basta dizer, como já foi sugerido, há alguns anos, que as freguesias de mil habitantes ficam suprimidas. Isto vale para a escala de Lisboa. Tem de se ter em conta o número de habitantes, mas também as distâncias porque, se tomássemos como ponto de referência mil habitantes, poucas ficariam no nosso distrito”, disse. O clero da diocese perdeu, em menos de uma década, cerca de 30 padres, atualmente reduzidos a menos de uma centena. Ainda assim, em nove anos, D. António fez onze ordenações, enquanto que o predecessor fez 30, em 22 anos. A Diocese de Bragança-Miranda “está melhor que outras do país, comparando com Beja ou o Algarve, mas brevemente entrará numa fase em que terá apenas 50 padres no ativo”.

Ouvir falar de fome choca o bispo de Bragança-Miranda, embora garanta que na sua diocese, correspondente ao Distrito de Bragança, a situação não é “tão grave” como nos grandes meios urbanos. “As regiões do interior estão desfavorecidas nalguns aspetos, mas não há os problemas do litoral nas faixas urbanas e sobretudo suburbanas”, considerou. Elogia propostas como a que surgiu recentemente a nível nacional de distribuir as refeições que são destruídas todos os dias em restaurantes e outros estabelecimentos para dar de comer a quem tem fome e critica a “excessiva oficialização das instituições de solidariedade” que estão confinadas a determinadas valências, o que impede que “muitos aspetos sejam atendidos”. Não sabe julgar se as medidas adotadas no país “são as corretas”, mas adverte que “se os sacrifícios de uma geração, até um certo grau, é preciso que sejam compartilhados pela geração seguinte, não é correto haver um excesso de peso para as gerações seguintes”. Para D. António, a distribuição desses sacrifícios devia ser equilibrada por todos os segmentos da população, porém entende que “há uma desproporção evidente”. “Há aspetos que francamente não estão corretos: os vencimentos principescos de gestores públicos, do mundo do desporto, e fala-se muito do futebol, mas no ténis e no golfe as quantias são ainda muito mais elevadas”, disse o prelado de Bragança-Miranda, a poucos meses de deixar a sua diocese.

“Depois das escolas, despovoamento vai fechar lares” D. António Montes Moreira pediu a resignação em abril de 2010 por completar 75 anos e deverá entregar, nos próximos meses, a “chave” da diocese ao sucessor. Tomou posse em outubro de 2001 e não quer fazer balanços pessoais, mas não deixa de assinalar a sua visão sobre uma região cada vez mais despovoada, onde depois das escolas encerrarem por falta de crianças, prevê o mesmo destino para os lares de idosos, dentro de algumas décadas. Numa diocese com 50 centros paroquiais causa-lhe “impressão que em Bragança haja tantas instituições de caráter social e assistencial para uma população” com menos de 150 mil. Estas instituições preenchem lacunas na resposta a

uma população envelhecida em que os seniores representam, nalguns concelhos, mais de metade da população. “A realidade também aponta para que esta resposta social terá de ser redimensionada. Assim como as escolas primárias fecharam, e várias outras instituições, daqui a 30 anos o número de lares de idosos será mais reduzido, a redução da população aponta para aí”, considerou. Na atualidade já há indicadores “de tal maneira que neste momento já é preciso pensar duas vezes se é conveniente criar novos lares de idosos porque é preciso também ver se há capacidade de gestão numa freguesia, num conjunto de aldeias em que a população tem uma idade muito avançada. É preciso encontrar pessoas que tenham capaci-

dade de gestão desses centros e que possam ser funcionários”. E até as estatísticas iludem numa região onde casamentos e batizados, sobretudo no verão, esgotam as igrejas da região, mas a enchente parte com o fim da boda. “Nós ainda temos uma percentagem significativa de batizados e casamentos que não são de pessoas residentes aqui. Por gosto, por devoção, vêm baptizar-se ou casar-se onde os pais e os avós vivem”, explicou. D. António vê mais realismo nas contas de um pároco do sul da diocese que “num ano teve 40 funerais e 15 batizados, mas esses quinze eram todos de gente de fora”. “Em termos estatísticos, foi 40 a zero”, sintetizou.


Bispo de Lamego, D. Jacinto Botelho

'Governo deve dar o exemplo em tempo de austeridade' Iolanda Vilar | iolandavilar.tamegapress@gmail.com | Fotos I.V.

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crise social está em ebulição. E 2011, para Portugal, poderá trazer um cenário de contestação e crise de valores, assume D. Jacinto Botelho, bispo de Lamego. “A primeira responsabilidade continua a ser do Estado” e a Igreja continua a ser o baluarte de apoio aos mais carenciados.

No seu gabinete no Paço Episcopal, localizado numa das mais populosas freguesias de Lamego, Almacave, D. Jacinto Botelho recebe diariamente os ecos das preocupações de sacerdotes, leigos e instituições de caridade sobre a crise económica que lentamente começa a fazer vítimas na única diocese que não é capital de Distrito. D. Jacinto Botelho, bispo de Lamego, acredita que o papel da Igreja continuará a ser preponderante no combate à pobreza. No entanto, apesar de ficar constrangido com a míngua de bens alimentares e outros bens de primeira necessidade, o responsável pela Diocese teme que a pobreza espiritual, aliada aos problemas económicos, cause mais transtornos à sociedade portuguesa. Aumento da criminalidade, convulsões sociais, mais solidão e abandono dos mais fracos da sociedade são três cenários temidos pelo Bispo de Lamego. Num momento de instabilidade, D. Jacinto Botelho assume que os portugueses não foram ainda expostos à prova de fogo da miséria e de carências a vários níveis.

Um Distrito à espera de dias melhores Não existem soluções mágicas para os problemas com os quais D. Jacinto Botelho diariamente é confrontado: uma realidade dura e com muita pobreza envergonhada numa diocese essencialmente rural. Uma característica que a torna peculiar e que faz desta região, uma terra de oportunidades mas muitas vezes ostracizada e pouco aproveitada. A Diocese de Lamego é a única em Portugal que não é capital de Distrito, tendo como área geográfica concelhos de Viseu, Guarda e Aveiro. Muitas famílias vivem do que a terra oferece, mas nem sempre a agricultura é generosa e obriga os mais jovens a procurar o sustento em outras paragens, deixando os mais velhos sozinhos. Solidão, abandono das terras e quebras acentuadas na natalidade são três aspetos que preocupam o responsável pela diocese.

Menos ostentação por parte dos governantes As oportunidades poderiam ser algumas numa terra moldada pela força de homens e mulheres ao longo de séculos. O legado dos nossos antepassados poderia ser aproveitado em áreas tão diversas como a agricultura ou o turismo, aponta D. Jacinto que continua a esperar do Estado alguma solução com força para vingar e que agarre os seus filhos à

terra que os viu nascer. O corte dos abonos de família foi uma das últimas medidas que mais constrangido deixou o responsável da Diocese. “Infelizmente a maioria dos casais não tem mais que dois filhos; sem estes apoios torna-se cada vez mais difícil proporcionar soluções para as necessidades básicas de uma família”, diz.

A pobreza envergonhada Se por um lado os cortes e restrições tocam mais a fundo quem já vivia com graves dificuldades, D. Jacinto Botelho apela a mais austeridade nas contas públicas, que não conhece a fundo, mas parecem revelar sinais de ostentação e gastos supérfluos. Das memórias de infância, D. Jacinto ainda tem a imagem de famílias famintas e esfarrapadas a dormir em velhos alpendres. “Eram pessoas carentes de tudo, desde alimentação, roupa, casa e viviam da caridade alheia, desprovidos de qualquer apoio estatal e na mais extrema miséria”. Os tempos mudaram. Essa pobreza praticamente já não existe nos meios rurais, mas talvez os novos pobres vivam momentos mais dramáticos, já que “antigamente aqueles pobres viviam resignados, apesar de não conseguirem prover às mais básicas necessidades e desconhecerem em absoluto o que seria o conforto”. “Hoje em dia felizmente não vemos famílias que andam pelas terras à espera daquilo que os beneméritos oferecem”, mas lamenta que "cresça a pobreza envergonhada, muito dura, aqueles que podemos chamar novos pobres”.

Dias de angústia aproximam-se “Muitas pessoas ainda não se aperceberam da gravidade desta crise”, diz D. Jacinto Botelho num momento mais pessimista, ainda que continue a acreditar na capacidade do Homem em superar e mudar o rumo da situação. " A Igreja procura dar a sua solução como portadora de valores e encarregada de transmitir esses valores ao coração das pessoas”, diz Jacinto Botelho, que admite a necessidade desse estilo de comportamento para tornar a sociedade mais sã. “Esta não é apenas uma crise económica, mas também de valores” apontando como caminho a solidariedade e a caridade. Na Diocese é já visível a diminuição das ofertas dos fiéis, apesar de continuarem generosos em situações pontuais de catástrofes. Na incessante procura de ajudar o próximo, descobrindo formas de acompanhar os mais carenciados, é como D. Jacinto olha para a sua Diocese. “O povo de Lamego é muito solidário. Para além das instituições ligadas à Igreja, não podemos esquecer a riqueza do voluntariado de vários que em alguns casos não são católicos, mas que querem oferecer os seus préstimos, quer em bens materiais, quer em tempo, para ajudar os mais carenciados”. Partilha é uma palavra que entra no vocabulário de muitas famílias. Apesar de não serem afortunadas pelos bens materiais, respondem prontamente ao apelo de quem tem fome de alimento ou de uma palavra de conforto. “Os mais pobres sabem partilhar mais o pouco que têm com quem vive desprovido de tudo” refere D. Jacinto.

“Caridade é uma virtude ” “A caridade é virtude fundamental da Igreja” são palavras de D. Jacinto, recordando Bento XVI. “A Igreja vive esta crise, consciente de que o Homem com as suas necessidades é o seu caminho e a Igreja deve ser perita em humanidade", afirma. Perante a realidade social que se verifica no país, D. Jacinto apela a mais austeridade por parte do governo. À semelhança do Bispo emérito de Setúbal, D. Manuel Martins, considera que o Estado tem culpas na situação portuguesa. “São sempre as mesmas pessoas penalizadas com a sobrecarga de impostos”, refere o prelado, frisando que, por outro lado, “continua a haver manifestações de uma certa ostentação do Estado e das suas instituições, as quais deveriam ser reprimidas”.


D. Joaquim Gonçalves, bispo de Vila Real

“O transmontano não é pessoa de vir para a rua estender a mão” Patrícia Posse | pposse.tamegapress@gmail.com | Fotos P.P.

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o mês em que se traçam metas para um novo ano, o pessimismo cruzase com esperanças residuais. Para o bispo da diocese de Vila Real, D. Joaquim Gonçalves, não subsistem dúvidas de que a crise que tem assolado a região, o país e o mundo é “para durar”. “Pelo que oiço dos responsáveis políticos e das empresas, acrescentando o que tenho ouvido da Cáritas Diocesana, as coisas vão agravar-se.” A resolução do problema implicará uma conversão dos estilos de vida e uma restauração dos princípios éticos fundamentais nos meandros do capitalismo. “Sem uma conversão a esses princípios, a crise é insolúvel. É preciso também aceitar que o estatuto estável e permanente não é possível e que não é humilhação nenhuma descer uns degraus”, salienta.

No entender do responsável da diocese de Vila Real, a insegurança financeira é “maior do que dizem e a resposta que estão a dar não vai ser tão facilitada como insinuam”. O aumento da produção e o pagamento escrupuloso dos impostos são exemplos de “pressupostos otimistas que vão esbarrar no realismo”. “As empresas não vão vender tanto quanto querem, o fisco terá dificuldades em colher aquilo que previu. Havia pessoas que tinham algumas reservas para este ano, mas como o saco está a esvaziar, é possível que não tenham mais para continuar a resistir.”

Falta poupança O bispo de Vila Real considera que há duas franjas da população com diferentes capacidades para fazer face à crise instalada. “Uma parte habituou-se a trabalhar e a viver sem luxo, mantendo-se fiel à sua mediania de cultura de campo e pastorícia. Nos últimos anos, uma outra camada foi bafejada por uma certa surpresa económica, cujos ordenados eram notoriamente acima da mediania. Havia pessoas a ganhar por dia 100 euros. Esta crise veio cortar essa ilusão económica.” D. Joaquim Gonçalves aponta ainda que a nova geração não tem uma cultura de poupança, habituada que estava “ao cheque no fim do mês”.

Fluxos migratórios A crise desencadeia também “dramas” no seio das famílias, já que “a facilidade de ter dinheiro levou à facilidade de romper os afetos”. “Há já um grande número de famílias que se desfizeram, umas como fruto da crise e outras como causa. O comodismo leva as pessoas a não ter reservas éticas para aguentar as dificuldades e uma relação matrimonial”, defende. O consumismo levou muitos filhos a “uma vida excessiva fora de casa, quer de dia, quer de noite”. Desenhou-se, assim, um ciclo vicioso: “os pais, para não perder os filhos, acharam por bem condescender e abonar as despesas e os filhos, sentindo essa brandura, foram tomando conta do terreno”. Em paralelo com a crise, Vila Real assiste à conjugação de outras circunstâncias que causam apreensão a D. Joaquim Gonçalves. Por um lado, ocorrem regressos “forçados” a Trás-os-Montes; por outro, tem crescido o consumo de álcool no distrito. “As pessoas que estavam no litoral, onde colhiam melhores rendimentos, começam a regressar à terra de origem porque as empresas onde trabalhavam reduziram pessoal. Agora passam a viver das reservas que tinham e da lavoura ou da pastorícia. Não é um regresso de topo de carreira ou de reforma consumada, mas um regresso de crise.” E muitos trabalhadores dos setores da construção civil e mineiro que emigraram para Espanha es-

tão a voltar. “Se lá, a crise se agravar, é possível que tenhamos mais retornados”, adverte. D. Joaquim Gonçalves mostrou-se também preocupado com um vício “considerado não muito grave e que a sociedade tolera com facilidade”. “O álcool estende-se muito mais do que a droga e é destruidor porque atinge adultos (entre os 35 e os 40 anos). São homens que ficam destruídos, que destroem a família e todo o tecido a que pertencem.” Em muitos casos, há uma correlação direta entre o consumo excessivo de álcool e a violência doméstica. Esta tendência cultural que favorece o consumo poderá ser potenciada. “O álcool é um refúgio em tempos de crise. Bebe-se para esquecer e eu temo que a crise laboral encontre aí uma falsa válvula de escape”, sublinha.

Altruísmo insuficiente De acordo com D. Joaquim Gonçalves, há 500 famílias no concelho vila-realense e 160 na zona de Santa Marta de Penaguião a receber assistência da Cáritas Diocesana. “Em alguns casos, eram famílias que viviam bastante bem e caíram no engodo do consumismo fácil, criando falsas necessidades (carros, telemóveis, televisões) e um bem-estar fictício.” Contudo, há pobreza que só um “olhar amigo e discreto” percebe o real alcance e consegue “penetrar nessa aflição”. “Estou convencido de que na nossa região, alguma pobreza só alguns vizinhos e familiares a conhecem bem, porque o transmontano não é pessoa de vir para a rua estender a mão, não é um pedinte fácil. A sua dignidade faz com que recorra aos amigos, à família, a pessoas influentes para ver o que podem fazer”, assegura. Apesar de se manter “muito válido” o espírito de boa vizinhança, o bispo de Vila Real lembra que quando a crise é “institucional e prolongada”, essa ajuda é escassa. “As pessoas têm dificuldades em ajudar. Hoje podem ajudar com um cabaz, mas todo o ano? Acabam por se retrair um pouco, o que não é louvável, mas é compreensível.” As respostas imediatas vão “até onde podem ir”, mas como a causa é “mais profunda e longínqua”, acabam por não passar de “um lenitivo”. Perante toda esta conjuntura, a tarefa messiânica da Igreja consiste em “responder imediatamente aos casos desesperados” e apelar à consciência individual. “Cada cristão deve ir dando resposta ao seu nível e na localidade onde vive e trabalha, sabendo que não é uma resposta perfeita e definitiva”, corrobora.

Loucura dos capitais Para o bispo de Vila Real, o cerne da crise mundial assenta “numa carência de princípios éticos fundamentais” que acaba por legitimar a “movimentação louca dos capitais”. “A banca internacional quer fazer negócios só com lucros dos depositários, sugando os outros cidadãos a quem empresta dinheiro.” A inobservância do princípio ético do respeito pelo próximo incomoda o representante da diocese. “Todo o ser humano tem que ser respeitado, mas isto é uma palavra que dizemos no altar e ninguém aceita”, sustenta. A par da desenfreada deslocação dos capitais a nível mundial, D. Joaquim Gonçalves acompanha o que se passa dentro de portas. “As empresas portuguesas, como a EDP, estão com vaidade de dar um prémio aos seus administradores com aquilo que nós pagamos pela matéria-prima. Não tem que ser uma recompensa de ouro à custa do cidadão que não se pode furtar a isso. Não podemos mandar vir a eletricidade da lua.”


Menoridade do Polit acaba a curto-prazo Sobrinho Teixeira prevê que institutos terão 50% de docentes doutorados Patrícia Posse | pposse.tamegapress@gmail.com | Fotos J.S.

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té 2014, os politécnicos portugueses vão ter um corpo docente mais qualificado, concretizando o compromisso celebrado com o Governo. “Teremos 40 a 50% do corpo docente doutorado. Estamos num ritmo violentamente positivo para chegar a esse objetivo”, assegura o presidente do Conselho Coordenador dos Institutos Superiores Politécnicos (CCISP), Sobrinho Teixeira. O também presidente do Instituto Politécnico de Bragança (IPB) lembra que a instituição que dirige é aquela que tem o corpo docente mais qualificado de todo o sistema politécnico, seguida pelas do Porto e Viana do Castelo. Num país onde o politécnico já representa 42% do Ensino Superior, os doutoramentos serão uma realidade associada à própria evolução que o sistema politécnico conseguir ter. “Se tivéssemos um panorama nacional semelhante àquele que o IPB tem, neste momento, os doutoramentos estavam atribuídos”, salienta. Na mesma lógica, Sobrinho Teixeira está convicto que os institutos politécnicos se passarão a designar Universidades de Ciências Aplicadas, tal como já acontece nos países do centro e norte da Europa.

Cooperação vs Agregação Quanto a uma possível agregação com a Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD), Sobrinho Teixeira rejeita categoricamente esse modelo, ressalvando “a extemporaneidade da questão”. “Não faz sentido levantá-la agora, até porque se vier a colocar-se não vai ser pelo desejo ou pela opinião dos atuais intervenientes. Há de ser por uma perceção a nível nacional que esse é o melhor caminho.” Essa posição é reforçada pelo relatório da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico). “O setor politécnico foi identificado como a

principal área de crescimento no sistema em termos de novos grupos de estudantes e novos tipos de programas. (…) A equipa de revisão recomenda que fusões de politécnicos com universidades e qualquer incorporação de institutos politécnicos em universidades não deveriam ser encorajadas”, pode ler-se no documento datado de 2006. “O país não pode andar sempre a discutir as mesmas coisas e a OCDE foi perfeitamente clara sobre qual devia ser o rumo. Esse não é o melhor modelo que serve o país e as regiões”, defende Sobrinho Teixeira. Desde então, a estratégia do IPB tem passado por manter as boas relações institucionais que redundam numa cooperação salutar e benéfica para ambas as partes. “Estou convencido que a região ganha mais com uma boa cooperação entre as duas instituições, com cada uma a procurar ter fluxos do litoral para o interior, porque isso representa uma riqueza para a região.” De acordo com Sobrinho Teixeira, mais de 70% dos alunos do Politécnico brigantino vêm de fora do distrito, destes 14% provêm de Vila Real. O maior projeto em comum é o Parque de Ciência e Tecnologia, que aguarda aprovação no primeiro trimestre deste ano. “Haverá dois pólos: o Brigantia EcoPark [em Bragança] e o Régia-Douro Park [em Vila Real] e isso é um bom exemplo daquilo que esperamos que venha a ter uma grande influência no desenvolvimento económico e na criação de novas riquezas na região”, refere. Além de se manter a colaboração ao nível dos doutoramentos do corpo docente do IPB, há ainda “uma cooperação fortíssima” com a UTAD nas áreas do desporto e das ciências agrárias, bem como um acordo para a implementação de mestrados conjuntos na área da saúde. O grau de autonomia do IPB foi crucial para a sua afirmação nos últimos anos. “Em quatro anos cresceu quase em 50% o número de alunos. Antes do relatório da OCDE, o IPB tinha cerca de 5100 alunos. Neste momento, tem 7500. Nesse aspeto, ultrapassámos diversas

Só vale a pena proceder a reestruturações se disso resultar um ganho em produtividade. Ganhos de escala só pela soma aritmética não resultam numa melhoria do sistema de Ensino Superior.

instituições do Ensino Superior a nível nacional”, frisa. Sobrinho Teixeira não se coíbe ainda de considerar uma eventual integração da UTAD com a Universidade do Porto como uma perda para a região. “A UTAD foi e é um agente do ponto de vista social, desenvolvimento económico, de qualificação dos transmontanos insubstituível e deve continuar assim.”

Escala e ganhos de produtividade Sobrinho Teixeira garante que, neste momento, o IPB não tem nenhum problema de escala nem de dimensão. Daí que uma eventual agregação baseada nesses pressupostos seja descartada. “Só vale a pena proceder a reestruturações se disso resultar um ganho em produtividade. Ganhos de escala só pela soma aritmética de situações não resultam numa melhoria do sistema de Ensino Superior.” Para comprovar a afirmação do IPB, o responsável aponta que está entre as cinco maiores instituições do país, é a maior do Interior, tem o corpo docente mais qualificado e uma “assinalável capacidade exportadora”. “No panorama internacional, temos conseguido granjear uma série de projetos e uma atitude de dinamismo muito forte que cobre praticamente todos os países”, acrescenta. Exemplos disso são os projetos de investigação na área das ciências agrárias na Guiné-Bissau ou o apoio, a nível curricular, em Angola e Moçambique. Do ponto de vista financeiro, o IPB está numa “situação confortável” comparativamente a outras instituições do Superior, pese embora a atual conjuntura económica. “Está sólido e a manter-se a atual situação, não teremos problemas nos próximos tempos.” Sem contar com as restrições decorrentes do Orçamento de Estado, a verba disponibilizada para o IPB ultrapassou os 22 milhões de euros. “Se fosse implementada a forma de financiamen-

A UTAD foi e é um agente do ponto de vista social, desenvolvimento económico, de qualificação dos transmontanos insubstituível e deve continuar assim.


écnico dentro de 3 anos to anterior ao Contrato de Confiança com o Governo, o IPB teria um financiamento de mais 10% sobre o orçamento atual”, declara.

Consórcios por objetivos Segundo o presidente do IPB, os ganhos de dimensão não têm que resultar obrigatoriamente de fusões entre instituições. “Neste momento, haverá mais cooperação entre a UTAD e o IPB do que em muitas faculdades que estão integradas na mesma universidade. O que interessa é fazer coisas e não ter números só por si.” Nesse sentido, o mais viável e eficiente é fazer consórcios por objetivos. A criação de centros de investigação aplicada nas áreas das ciências agrárias, engenharias, serviços, artes e saúde provam que “o ganho de dimensão é feito pela junção de vontades e coordenação das instituições”. O presidente do CCISP lembra ainda a implementação de uma rede de ensino à distância, através de um consórcio entre os 15 politécnicos. Este modelo poderá ser, depois, exportado para os países da Lusofonia. É justamente pelo pioneirismo do programa de mobilidade do IPB para os estudantes lusófonos que o próximo encontro da Associação das Universidades de Língua Portuguesa vai decorrer em Bragança, no início de junho. “Esse programa foi implementado de modo próprio, com uma série de instituições da África, do Brasil e de Macau. Asseguramos aqui o pagamento de alojamento e alimentação, um sistema de custos partilhados que funciona”, explica. Em cima da mesa, estará a criação de um programa de mobilidade na área da Lusofonia com base no paradigma do IPB, mas financiado pelo Estado.

Falta coordenação nacional O presidente do CCISP considera que o país necessita de cursos nos domínios das engenharias, da gestão, da economia, dos serviços e das ciências agrárias. Contudo, defende que “devia haver coordenação a nível nacional” na reorganização da oferta formativa. “Se não houver uma atitude concertada entre todos, cada instituição pensa que é infrutífero o seu esforço de contenção. É um sacrifício inglório, se não for concertado.” Assim, continua-se a qualificar em áreas com baixa empregabilidade, nomeadamente na saúde e na educação. “É necessário ter cuidado e essa situação devia ser analisada a nível nacional porque são cursos com uma formação muito específica, que não lhes dá muita oportunidade de conseguirem condições de empregabilidade fora da área em que se qualificaram.” Sobrinho Teixeira adianta que poderão ser implementos ciclos de estudo no IPB na área do paisagismo, do secretariado ou da tecnologia. “Fizemos agora uma proposta de um mestrado na área da farmácia com Castilla e León e na área dos recursos naturais com Valladolid”, avança. Apesar de reconhecer a existência de um elevado número de cursos, o presidente do CCISP teme “uma visão de que o país já tem diplomados a mais, porque não tem”. “O objetivo é trabalhar para que em 2020, pelo menos 40% da população com 30-34 anos tenha qualificação superior, já que neste momento é cerca de 26%”, sublinha. Por isso, os processos de reorganização não devem ser para reduzir, mas para conseguir qualificar mais portugueses com os mesmos custos.

Nome: João Alberto Sobrinho Teixeira Local de Nascimento: Mirandela Data: 21 de dezembro de 1961 Formação: Licenciatura e Doutoramento em Engenharia Química pela Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto

IPB

em números:  400 docentes a tempo integral, cerca de 50% doutorados  7 500 alunos (2 600 entraram no ano letivo 2010/11)  Cerca de 600 alunos estrangeiros, provenientes da Europa, China, Brasil e América do Sul  550 alunos nos cursos de especialização tecnológica


Matança do porco

Chame-se um punhado de homens, desses, calejados pelas lides do campo, vá-se à “loja” buscar o porco, que mãos sábias alimentaram, durante o ano, com apenas o que sobra da horta e da mesa do agricultor transmontano, transporte-se para um banco, coloque-se uma faca, longa e afiada, na mão de um “matador” experiente, e o resultado será sempre mais ou menos o mesmo, desde há séculos: presuntos, chouriços, salpicões, alheiras, rojões, e outras iguarias, parecidas com as que se podem obter em qualquer hipermercado ali ao lado. Parecidas... Manuel Teles


Grupo Nun' Álvares entretém os fafens

 Coletividade destaca-se pela diversidade das atividades Armindo Mendes | armindomendes1@sapo.pt | Fotos A.M.

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Grupo Cultural e Recreativo Nun' Alvares, em Fafe é uma das instituições mais prestigiadas deste concelho minhoto, pela tradição que encerra, já com 78 anos, mas sobretudo pelo seu caráter eclético, como demonstram as inúmeras atividades recreativas e desportivas. Atualmente, o grupo fundado em 1932 mantém em atividade permanente cerca de 200 atletas, de várias modalidades desportivas e escalões etários, e mais de uma centena de elementos que se dedicam às lides culturais, destacando-se um grupo coral e outro de teatro, ambos amadores. “É um clube muito eclético. Costumo dizer que aqui qualquer associado pode praticar aquilo que gosta”, começou por dizer ao Repórter do Marão (RM) o presidente do clube, Manuel Ribeiro Mendes. Esta é uma agremiação muito prestigiada em Fafe, porque, observou, permite à população do concelho o acesso a diferentes atividades lúdicas. Por isso é credora do reconhecimento público, incluindo da câmara municipal, que a agraciou, por altura das comemorações das Bodas de Diamante, com a Medalha de Ouro de Mérito Municipal. “É o maior agente cultural em termos de movimento associativo da cidade de Fafe”, podia ler-se na proposta de atribuição da medalha assinada pelo presidente da câmara, José Ribeiro. “Acima de tudo, é uma instituição importante no panorama cultural em Fafe”, resumiu, por seu turno, o presidente da coletividade, atribuindo o mérito às mui-

tas pessoas que ao longo de 78 anos contribuíram para “o justo enraizamento da coletividade na sociedade fafense”.

Do hóquei em patins ao kickboxing No desporto, grande parte do prestígio do clube foi conquistado nas últimas décadas com o hóquei em patins, modalidade que durante cerca de 30 anos apaixonou os fafenses e reuniu dezenas de atletas dos escalões de formação, com participações nos campeonatos federados. Atualmente, apesar dos muitos apreciadores que ainda há na cidade, a modalidade já não é praticada a título oficial, mantendo-se apenas como uma atividade de recreio praticada por cerca de 15 antigos atletas. Mas se o hóquei perdeu importância nos últimos anos, uma evolução inversa teve a patinagem artística, modalidade que surgiu no clube no final dos anos 70 do século passado e hoje fervilha no grupo Nun`Álvares. Neste momento, é praticada por cerca de 90 atletas, a maioria do sexo feminino, que têm assegurado inúmeros títulos nacionais e têm representado Portugal em campeonatos da Europa e do Mundo. Em 2010, as atletas do Grupo Nun`Álvares foram campeãs nacionais em show de grandes grupos e em precisão júnior, duas especialidades da patinagem artística. Outra modalidade que tem granjeado um número crescente de adeptos no clube é o kickboxing, que já reúne mais de duas dezenas de praticantes, de várias idades, os quais participam regulamente e com sucesso em competições oficiais. As danças de salão também têm conquistado pra-

ticantes, reunindo, quatro vezes por semana, cerca de 70 pessoas. Também a ginástica de manutenção, sobretudo de senhoras, atrai um número crescente de praticantes. Várias vezes por semana 20 senhoras fazem a sua manutenção física nas instalações do grupo, acompanhadas por técnicos. O ténis é outra modalidade acarinhada pelo grupo, proporcionando formação a dezenas de praticantes. Por fim, o futebol e o futebol de salão são duas modalidades com muita tradição na história do grupo e mantêm-se com dezenas de atletas, de vários escalões etários e dos dois sexos, que participam em várias competições federadas e não federadas.

Coral Nun'Ávares um dos esteios da longevidade da agremiação No plano cultural, o Grupo Nun`Álvares tem-se evidenciado ao longo dos anos pela sua diversidade e qualidade, destacando-se o coral Santo Condestável, fundado em 1952. Desde então, por lá têm passado sucessivas gerações de fafenses, que ajudaram a consolidar e prestigiar o coral no país inteiro, como atestam as centenas de atuações em vários pontos do país e no estrangeiro. Presentemente, integram o coral 56 elementos, liderados pelo maestro Francisco Ribeiro, que interagem regularmente em espetáculos com os colegas da secção instrumental que também existe na coletividade, nomeadamente um espetáculo das Janeiras, muito apreciado em Fafe e o “Cantar Portugal”, uma apresentação que inclui músicas populares de vários pontos do país. “É um espetáculo muito requisitado. Já estivemos


há 78 anos que es

s desportivas e culturais que envolvem mais de 300 pessoas em dezenas de lugares em vários pontos do país”, destaca, orgulhoso, o presidente da direção. Ainda no plano cultural, tem-se evidenciado o grupo de teatro Vitrine, com 25 elementos, todos amadores e a maioria jovens fafenses. O grupo foi fundado em 1999 e acabou por conferir um caráter mais regular à tradição teatral que havia na agremiação há dezenas de anos. Atualmente, o grupo é solicitado para participar em vários festivais de teatro e vai apresentando regularmente peças novas que suscitam o interesse renovado do público, que aprecia a qualidade dos espetáculos. Também no leque de atividades ligadas à cultura inscreve-se o grupo rock Trauma, formado há cerca de ano e meio por cinco jovens associados que até já conseguiram editar um DVD. Praticamente todas as atividades desportivas e culturais realizam-se na atual sede do clube, inaugurada em 1992, um grande edifício onde, além da área administrativa, existe um pavilhão desportivo e outras salas que acolhem diferentes iniciativas.

Dificuldades financeiras ultrapassadas com carolismo Como quase todas as associações, o Grupo Cultural e Recreativo Nun`Álvares enfrenta diariamente dificuldades financeiras associadas aos encargos de tantas atividades. Manuel Ribeiro Mendes refere que o grupo tem um orçamento anual de cerca de 140 mil euros, um valor que considera pequeno para a variedade e quantidade de atividades desenvolvidas ao longo do ano. “Isto só é possível porque há no grupo muita carolice. Aqui ninguém ganha um tostão, toda a gente traba-

lha por amor ao clube”, observou ao RM, ressalvando os dois únicos funcionários, um afeto à secretaria e outro ao apoio às atividades, que recebem obviamente o seu vencimento. O presidente da agremiação refere que as receitas principais decorrem dos valores pagos pelos atletas e pelas pessoas que participam nas atividades culturais. Acresce ainda um subsídio anual da câmara de 21 mil euros. “É uma verba importante, porque temos despesas que não conseguimos suportar. Só a manutenção deste edifício implica muitas despesas”, explicou referindose à sede. No rol das receitas, há também as quotizações de cerca de 400 associados, um número que chegou a ser maior, mas que decresceu devido à limpeza de ficheiros recentemente efetuada. Apesar das receitas das quotas ser pequena, o presidente destaca a sua importância “num momento em que todas as migalhas contam”.

“O nosso maior projeto é o bem-estar dos associados” Manuel Ribeiro Mendes, associado desde 1978, está à frente da direção há seis anos. Num tom tranquilo, disse ao RM que a agremiação, apesar das dificuldades do momento, “está de boa saúde”, destacando “a organização, o empenho e o gosto demonstrados por todos quantos colaboram nas diferentes secções”. “O mais importante é o bem-estar dos sócios e dos praticantes, porque são eles que dão vida ao Grupo Nun`Álvares. Esse é o nosso projeto diário. É para isso que trabalhamos”, salientou. Olhando para o futuro, admitiu que gostava de reunir condições financeiras para nos próximos anos o grupo concluir os arranjos exteriores da sede, renovar o parque de viaturas e construir um campo de ténis coberto em terrenos que a coletividade possui. “O problema é sempre o mesmo, o dinheiro, ou a falta dele”, gracejou, admitindo ser difícil concretizar propósitos tão ambiciosos.


Projetos apoiados pelo

De Baião para o mundo... Microempresa opera na área da tradução e tem como clientes finais a Microsoft, a Fuji Medical ou a Sonae, entre outros www.globalang.com

Descrição do projeto enviado para a candidatura Dolmen/Proder A candidatura ao Proder surgiu no âmbito da medida 3.1.2 de apoio à criação ou desenvolvimento de microempresas, que é o caso da Globalang. E a candidatura apresentada pela Globalang assentou essencialmente a aquisição de equipamento informático e de software específico de tradução/ localização de software e produção multimédia. É um apoio importante na medida em que ajuda a solidificar a atividade empresarial abrindo novas possibilidades em termos de contratação de novos quadros e novas possibilidades na conquista de novos clientes e de novos mercados.   Desenvolvimento da empresa no último ano: postos de trabalho criados, volume de negócios 2010 e perspetivas para o corrente ano No ano de 2010 criou-se mais um posto de trabalho, que veio juntar-se aos dois existentes. Com o avolumar de trabalho durante 2010 também aumentaram os colaboradores, em regime de freelancer. Em termos de volume de negócios este apresentou um crescimento de cerca de 50% em relação ao ano de 2009. Em 2010 e em termos de faturação atingiu-se um valor na ordem dos 48 000 €. Ainda durante o ano de 2010 realizaram-se alguns investimentos em termos de equipamentos assim como aumentaram os custos fixos da empresa. Durante o ano de 2011 perspetivamos um crescimento na ordem dos 20%, numa lógica de crescimento sustentado. Pretende-se ainda a conquista de novos clientes e do fortalecimento das relações com os clientes já existentes.  

Aspetos inovadores do projeto no contexto económico da região do Tâmega A Globalang (www.globalang.com) é uma empresa que presta serviços na área da tradução/localização de software e na área de produção multimédia e programação informática. É uma empresa cujo “core business” se centra nas novas tecnologias e nas novas formas de interação comercial. É uma empresa que encontra as suas principais concorrentes nos principais eixos urbanos. Há uma manifesta escassez deste tipo de empresas na nossa região. E ao estar sediada em Baião poderá oferecer a todos os empresários e instituições, quer do concelho quer da região do Tâmega, a possibilidade de internacionalização dos seus produtos, quer ao nível linguístico quer mesmo cultural. Vivemos a uma escala global daí ser necessário também negociar globalmente. E a questão linguística torna-se assim muito importante. Aliando competências linguísticas a competências de interação multimédia pretende-se solidificar a nossa atividade empresarial para que, futuramente, Baião possa eventualmente ser um ponto de referência também em termos tecnológicos e possa atrair novas empresas deste âmbito. Nada impede, através de boas infraestruturas de comunicação digital, que as regiões do interior não possam ser competitivas também a este nível.   Principais clientes Como principais clientes com os quais mantemos relações comerciais, diretas ou indiretas, destaco a Microsoft, a HP, a Fuji Medical, a Universidade de Coimbra e a Sonae, entre outros. | Depoimento prestado por Ricardo Pinheiro - Sócio-gerente da Globalang |


Produção editorial da responsabilidade da DOLMEN

Programa PRODER

Martinha ajuda a produzir melhores kiwis Uma empresa de prestação de serviços agrícolas na área da kiwicultura foi criada no Marco de Canaveses graças ao apoio do programa PRODER. Criada em setembro de 2009, a Martinha, Serviços Agrícolas, Unipessoal, Lda. já conseguiu conquistar cerca de duas dezenas de clientes e dá emprego permanente a três pessoas, além da contratação de mão-de-obra temporária em determinadas épocas do ano. A promotora é Martinha Vieira, formada em engenharia agrícola pela UTAD e que fez um estágio profissional na Nova Zelândia, conhecido produtor mundial de kiwis e um país que possui a mais avançada tecnologia e organização de produção na kiwicultura. A existência da Prosa, um entreposto de kiwis situado no Marco de Canaveses e que pertence ao universo empresarial do Grupo Sonae, foi determinante para o arranque do projeto de Martinha Vieira, sobretudo por fazer falta na região do Tâmega uma empresa que prestasse consultoria e mão-de-obra qualificada aos produtores de kiwis. O projeto contribui igualmente para o incremento da produtividade e para a melhoria da qualidade do fruto. A empresa opera todo o ano, mas nos meses de outubro a abril reforça a sua

equipa de trabalhadores temporários. Presta serviços de mão-de-obra para podas de inverno e de verão, mondas, atado de varas, anilhado, aplicação de pólen (polinização assistida), controlo de infestastes e colheitas. Foi realizado um investimento de 30 mil euros, sobretudo na aquisição de equipamentos de trabalho, tendo o Proder financiado o projeto com 19 mil euros. Os clientes de Martinha Vieira – que além da assistência à produção do kiwi, também tem fornecido assistência e executado alguns trabalhos na área da vinha – estendem-se pela região de Entre-Douro-e-Minho, incluindo a sub-região do Vouga, mas também já captou produtores da Galiza, concretamente em Santiago de Compostela. Além da empresa de serviços agrícolas, Martinha Vieira arrancou com uma exploração agrícola em modo biológico (em nome individual), situada na freguesia marcuense de Paredes de Viadores. A engenheira agrícola é um dos produtores associados à venda dos cabazes de produtores agrícolas do programa PROVE, que a Dolmen implementou na região desde a segunda quinzena de dezembro.

Telmo Pinto eleito presidente da Dolmen

DOLMEN

A Dolmen – Cooperativa de Formação, Educação e Desenvolvimento do Baixo Tâmega, CRL – elegeu, no final de 2010, os novos dirigentes para o triénio 2011-13. Telmo Pinto, que ocupava o cargo de tesoureiro na direção anterior e é o presidente do órgão de gestão do Proder, substitui José Luís Carneiro na presidência da Cooperativa. Além de Telmo Pinto, a Direção da Cooperativa é constituída por Manuel Pereira Cardoso (vice-presidente), em representação da Cooperativa Cultural Fonte do Mel, Mário Luís (tesoureiro), em representação da Ancra - Associação Nacional dos Criadores da Raça Arouquesa e os representantes dos municípios de Cinfães e Resende e das juntas de freguesia de Sobretâmega (Marco de Canaveses) e Cepelos (Amarante). O presidente da Câmara Municipal do Marco de Canaveses, Manuel Moreira, é o presidente da Mesa da Assembleia Geral, cabendo a vice-presidência a José Luís Carneiro, presidente da Câmara Municipal de Baião. António Bastos Teixeira, em representação da Abomarão, é o secretário. O Conselho Fiscal é presidido por Daniel Guedes e tem como relatores Carlos Alberto Carvalho e Dulce Isabel Pimenta. A posse de Telmo Pinto deverá ter lugar no final de janeiro.

Centro de Promoção de Produtos Locais Rua de Camões, 294 - Baião - Tlf. 255 542 154 Janeiro – Mês da Cestaria Condições vantajosas na aquisição de uma gama variada de produtos de cestaria artesanal. Fevereiro - Mês da Broa de milho Mês dedicado à confeção artesanal da broa de milho, com participação de diversos produtores locais.

Cooperativa de Formação, Educação e Desenvolvimento do Baixo Tâmega, CRL

AMARANTE - BAIÃO - MARCO DE CANAVESES RESENDE - CINFÃES - PENAFIEL Telef. 255 521 004 - Fax 255 521 678

dolmen@sapo.pt


Manuel Coutinho sem tempo para prosseguir carreira, promete

'O Open de Ralis é o camp Patrícia Posse | pposse.tamegapress@gmail.com | Fotos João Lavadinho

O

Campeonato Open de Ralis 2010 foi conquistado pela MCoutinho Rallye Team, com Manuel Coutinho a sagrar-se campeão quando ainda faltavam duas provas para o final da competição. Depois desse feito no Rali de Loulé, foi a vez de Manuel Babo triunfar na categoria de navegador, já em Vila Real. Fora da pista, a análise do percurso é feita com serenidade, sem as novas metas e os trilhos que o desporto automóvel em Portugal deverá seguir.

Open revelou-se “fácil”

De acordo com dados da FPAK, o Open 2010 registou a participação de muitas dezenas de pilotos, o que mostra bem o seu grau de competitividade. “O Open é o campeonato certo para o país em que estamos, tem custos mais reduzidos do que o Campeonato de Portugal de Ralis e uma lista de inscritos muito interessante, o que faz com que esteja muita gente a ver as provas. Isso nem sempre acontece no campeonato português, em que temos 18 a 19 inscritos”, considera Manuel Coutinho. Para o piloto da MCoutinho Rallye Team faria todo o sentido uma fusão de ralis entre o Open e o Nacional, já que este último campeonato é “muito mais caro e com um retorno pouco superior, se é que é superior”. “Hoje começamos a ver alguns pilotos que fizeram o Campeonato Português de Ralis a competir no Open, o que diz muita coisa”, afirma. Com provas mais pequenas poder-se-ia angariar um

Manuel Coutinho confessa que o Open acabou por se revelar um campeonato “fácil ao longo do ano”, apontando a vitória em Arganil como crucial. “Até lá, tínhamos três vitórias em asfalto para o Open. Fomos sem ritmo, porque fomos do asfalto para terra sem testar, mas tivemos alguma sorte porque os nossos colegas tiveram dificuldades e ganhámos o rali por um segundo e meio.” Com essa vitória, Manuel Coutinho tornou-se o único piloto com quatro vitórias, num total de seis possíveis. Portanto, a partir daí e para que o navegador se sagrasse também campeão, a estratégia foi gerir. “A seguir, não consegui fazer nenhum rali em que estivesse à-vontade. Enquanto nos primeiros seis ralis, fiz a fundo, sem estratégia, depois de Arganil, começámos a gerir para o campeonato. Foi muito mais gestão do que propriamente pressão.” A constituição da equipa aliada à vasta experiência

Manuel Coutinho A ligação ao desporto automóvel tem uma matriz familiar que já vem dos anos 80.

maior número de pilotos. “Esses ralis ficam tão fora de preço que deixa de haver um campeonato. Se houvesse alguma transferência do Open para o Campeonato Português de Ralis, mantinham-se os dois, mas mais distribuídos e com mais pilotos.” Numa época sem incidentes e sem incluir o investimento na viatura, é possível competir no Open com um orçamento de 50 a 60 mil euros.

em ralis e à preparação do carro foi crucial para vingar no Open. “A equipa tem-se mantido estável e homogénea. Muitos dos mecânicos foram formados em ralis e, este ano, tivemos um elemento externo que nos ajudou a preparar o carro e a encontrar os fornecedores. Fizemos uma coisa que achamos essencial: em 2009, estivemos a conhecer o carro, a testá-lo para entrar em força”, conta.

Promoção é “pecado mortal” O desporto automóvel ressente-se da falta de promoção das provas, daí que seja imprescindível apostar nessa vertente para chegar às pessoas. “Estamos num país que, muito a norte e centro, há uma paixão real pelos automóveis e pela velocidade, mas depois não aproveitamos essa paixão. Acho que a falta de promoção será o grande "pecado mortal" dos ralis e do desporto automóvel em geral”, sustenta Manuel Coutinho. Na década de 80 era feriado municipal ou nacional nos dias de rali, hoje “deixámos cair um pouco isto, não porque as pessoas deixassem de gostar mas porque deixaram de ouvir”. “Hoje em dia, a quantidade de distrações é muito maior, por isso, as pessoas têm de ser alertadas para o rali que vai acontecer, para quem são os pilotos e as máquinas.” Está, assim, instalado um ciclo vicioso: se não se pro-


correr o rali de Portugal e mais algumas provas...

eonato certo para o país" movem os ralis, há cada vez menos gente a ver e isso condiciona o apoio dos patrocinadores. “Tivemos o exemplo do Open há dois anos, em que a promoção funcionou muito bem, mas hoje em dia o lado da promoção quase não existe. Se temos menos patrocinadores, temos menos ralis ou ralis piores”, frisa.

Pit Stop em 2011 Contudo, Manuel Coutinho assegura que ainda há muita assistência. “São ralis com muito acompanhamento. Temos provas em que há centenas de pessoas nas estradas, mesmo com chuva. Uma das imagens que tenho na minha cabeça foi em Fafe, chovia torrencialmente e tínhamos um monte grande cheio de gente, o que é extraordinário.” Mas esse é um público “fã dos ralis, que é permanente e que é muito”, falta o envolvimento das populações locais e o acesso aos media para atingir o grande público e, consequentemente, trazer retorno aos parceiros. O fenómeno da Internet, com uma panóplia de sites e fóruns sobre ralis, acaba por minimizar essa lacuna promocional. Manuel Coutinho quer fazer o Rali de Portugal em 2011, pela competitividade que lhe é inerente. Depois disso, poderá fazer duas ou três provas e em aberto fica a possibilidade de voltar ao Open em 2012. “Em princí-

pio, não vou fazer nenhum campeonato, porque o tempo não permite. Vou fazer algumas provas pelo prazer que se tira e para manter ritmo. No final, em Vila Real, já tinha saudades do carro...”, confidencia. Para o piloto do Mitsubishi Lancer Evolution 6, não há nada que substitua a adrenalina conseguida pela imprevisibilidade dos ralis. “Na velocidade, exige-se um maior poder de concentração e de constância ao piloto. Os ralis obrigamnos a um fator de improviso e de reação ao momento e à condição da pista maior. Podemos fazer o mesmo troço quatro vezes e nunca está igual: ou tem terra ou está húmido.”

Campeões escreve-se no plural A ligação ao desporto automóvel tem uma matriz familiar que já vem dos anos 80. Logo, não é de estranhar que o navegador, Manuel Babo, seja sobrinho de Manuel Coutinho e entre ambos exista “uma interligação perfeita”. “Se pudéssemos levar uma terceira pessoa, notaria que o ritmo de voz, o tom e a cadência são sempre constantes. Esta harmonia dentro do carro é fulcral,

quase perfeita”, destaca Manuel Coutinho. Manuel Babo, 24 anos, não deixou escapar o Campeonato de Navegadores, no final de novembro. Foi mesmo esse o objetivo que norteou o desempenho da equipa na última prova pontuável para o Open, em Vila Real. “Tivemos problemas de transmissão e de caixa de velocidades na primeira especial, o que quase hipotecou a conquista do título, mas a equipa técnica fez um trabalho fantástico.”

Rali de Portugal assegurado Com três anos de experiência, o navegador reconhece que o maior desafio passa por manter “a concentração em níveis bastante elevados para não se cometerem erros, quer nas classificativas, quer fora delas, que podem hipotecar um bom resultado nas provas”. Isso acaba por criar “um ambiente tranquilo dentro do carro” e permite-lhe participar ativamente na estratégia da equipa, uma vez que o navegador é “um ‘espectador’ privilegiado para se aperceber de eventuais excessos ou desconcentrações do piloto”. Para este ano, Manuel Babo assegura “pelo menos” a presença no Rali de Portugal. “Este é, sem dúvida, o rali que escolheria se só pudesse participar num em 2011.”


24 janeiro'11 repórterdomarão I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I

Se o FMI vier vai... «Os sonhos antigos foram sonhos bons. Não resultaram, mas ainda bem que os tive».

sa» que emprestam e quem a empresta com garantia real? Ou será que também estão a emprestar a «descoberto» só para ganhar o que vier de juros? Será que nos explicaria onde estão, ou se existem Não sei quem o disse, ou se alguém o disse no sentido que realmente, os catrafiliões de dólares, euros e quejandos que suporlhe dei. Antes, mas mais ainda depois de Abril, acreditei e dediqueitam as dívidas dos Estados? me às causas. Mantenho intacta a esperança de um país justo, liE será que pediriam por mim perdão por o estar a “insultar” vre e democrático. Sei que acontecerá. Só não para não subir juro e baixar o ratio?... sei é quando... Noutro campo essencial num Estado de DireiE para isso acontecer muito haverá que to faria com que os Tribunais justifiquem todos os mudar. Já nos impusemos ao Mundo. Seremos seus actos, da investigação aos factos, e do julgacapazes de novo? Será preciso, e já agora, será mento à sentença? Que deixem de se (nos) entresuficiente, a protecção/fiscalização do FMI? ter com guerras pessoais e tratem dos processos? Impõe-se assim conhecer se, vindo, iria Usem uma linguagem que toda a gente perceba, obrigar a saber onde se encontra o dinheiro dos com o português em vez do “juridiquez”? E com bancos falidos. Se conseguiria impor a descoboa vontade impor-lhes-iam o obséquio de nos berta dos (des)caminhos que levou ao passar traduzir, tornando o português a língua oficial da pelas sociedades paralelas ou off shore para tal Justiça, os doutos pareceres e demais questões, accriadas. Se o dinheiro existiu e foi desviado em ções e recursos do “advocacês”? Já agora não podealgum lugar há-de estar não é verdade? ria acabar com a sua infalibilidade, dom que julgo já Será que conseguiria, de forma coerciva nem ser um privilégio absoluto dos papas? Armando Miro ou abalando as consciências, ver devolvido o Teria o condão de obrigar a corrigir as leis que, Jornalista dinheiro dos que, sabendo da marosca, o abarsendo feitas ao que dizem no intuito de corrigir bataram nesta D. Branca de luxo repondo a verdade bancária? Que anomalias, distorções e iniquidades, os seus responsáveis se apresse saiba o dinheiro não é volátil, embora haja quem saiba como sam a desmentir quando logo se prova que têm o efeito contrário. “derretê-lo”. Se procurarem como deve ser, decerto encontrarão o Torná-las-iam assim claras, objectivas, incisivas e conformes ao que rasto para não ser o Estado (nós) a pagar a factura. se visava? Não iriam, por imposição ou “vergonha”, esclarecer na leA este propósito ouvi uma interessante conversa de dois restra da Lei aquilo que não se cansam de dizer que não está no espíponsáveis políticos (PSD). Para eles, afinal, o problema do BPN era rito? E por falar em “espírito” quando é que, e o FMI também aqui ideológico (?). Os outros (governo/PS) o que queriam era nacionainterferiria (?), as leis passam a reflectir, clara e efectivamente o seu lizar pois Miguel Cadilhe tinha dito que com 500 milhões resolvia o espírito, e no português de todos nós? problema, mas eles não quiseram. Lembram-se? Cada um vê o que E garantiria que o Património do Estado, que somos nós e nós quer. Como se resolve um problema de vários mil milhões com 500 pagamos, tenha Lei e acções que punam e garantam exemplarmilhões? Era para empatar mais uns tempos e não se saber tão cedo mente a reposição dos bens ou serviços que alguém roube, desdo imbróglio e quem nele estava metido, ou diluir a ideia de um bantrua, danifique, detenha, possua, guarde ou de qualquer forma co partidário? E não foram os partidos à direita do PS que aprovaram subtraia ao livre uso ou exercício da Comunidade a que se destina? com ele a nacionalização na AR? Onde entra nisto a ideologia? E quando tal, para além do prejuízo, cause danos daí advenientes o Façam-se as contas à merceeiro: Deve/Haver – Entrada/Saída. que se aplica? É para esquecer? O banco não tem “escrita”? Não está lá quem depositou - e tem de E para aligeirar a conversa, o FMI vai fazer com que nenhum ser ressarcido - e quem tirou ou pediu emprestado sem nunca lá ter noticiário das estações públicas abra com notícias da bola seja lá posto ou pago um cêntimo? E quem deve não tem de pagar com pelo que for, só por que o árbitro não comeu fruta, o treinador peros juros respectivos? Onde está o problema? deu o lenço, o jogador não foi ao treino por motivos particulares ou E o FMI, em relação ao malfadado “Mercado” que empresta o dirigente mudou de freguesia por que não gostava do padre?... aos bancos e aos estados a juros que lhe dá na gana, perguntaria Se fosse assim seria bom que viesse mas, ainda acredito que onde está efectivamente, em notas ou outros valores reais, a «masnão é preciso.

Economia portuguesa, últimas décadas O ensaio “Economia Portuguesa, As Últimas Décadas”, de Luciano Amaral (Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2010) devia ser leitura obrigatória para se entender um pouco melhor as encrencas, as oportunidades e os múltiplos obstáculos inerentes ao estado da economia portuguesa e as opções com que iremos ser confrontados. Luciano Amaral caracteriza os dados elementares do balanço da evolução da economia portuguesa desde o 25 de Abril e a encruzilhada em que nos encontramos. É facto que se encurtou a distância comparativamente ao conjunto dos países mais ricos. A recuperação concentrou-se num período muito curto (entre 1986 e 1992), na entrada do novo século deu-se uma quebra de velocidade. O PIB per capita está praticamente idêntico ao 1973. A evolução económica vai avassalada por dois choques negativos: o choque salarial de 1975, que demorou uma década a ser absorvido; a inversão das condições cambiais, entre 1990 e 1992 e daí uma crise que iria durar até 1994, a partir daí e até 2000 a economia conheceu um novo surto de crescimento. O consumo público e privado cresceu graças a múltiplos factores: Estado-Providência com diferentes programas sociais e o incitamento ao crédito, nomeadamente para a habitação. Com os bloqueamentos emergentes da inviabilidade do crescimento económico, da desindustrialização, com o agravamento externo e a situação financeira emergente com os acontecimentos de 2008, a economia portuguesa confronta-se com dilemas fundamentais: detemos uma moeda forte mas não é fácil aumentar as exportações nem travar as importações. Abandonar a UEM (União Económica e Monetária) teria consequências gravíssimas: fuga de capitais, explosão das taxas de juros e inflação. Não é fácil diminuir brutalmente os benefícios do Estado-Providência, tal o impacto dos choques sociais, todos eles com custos muito elevados. Como não se prevê uma afluência de investidores, que seria o cenário altamente positivo para o milagre económico, como não é crível abandonarmos a UEM e a reputação do país ficaria abalada caso se declarasse a incapacidade de pagamento da dívida externa, fica-se numa margem estreita. O autor oferece ao leitor um ensaio de 50 anos da evolução da economia portuguesa. Primeiro, o me[Textos escritos de acordo com a antiga ortografia]

lhor período do crescimento económico de toda a História de Portugal foram os últimos 30 anos do regime de Salazar e Caetano. O 25 de Abril foi contemporâneo de um período de crises internacionais e de profundas alterações internas. A economia tanto arrefecia como sobreaquecia graças ao endividamento externo. O FMI por cá andou, sobretudo em 1983-1984. Segundo a adesão à CEE trouxe um novo ritmo e novas oportunidades. A procura interna cresceu muito, tal como o endividamento externo. Como observa o autor, “Se entre 1976 e 1990 foi possível expandir as exportações através de uma política cambial que, desvalorizando o escudo de forma sistemática, permitiu manter a sua competitividade internacional, a partir de 1990 esse factor foi eliminado. Mais do que eliminado, foi invertido. A partir de então, em vez de fomentar as exportações, o câmbio passou a puni-las severamente. O resultado foi um crescente enviesamento em termos de incentivos, contribuindo para a expansão da dívida pública. Esta expansão resultou da construção do Estado-Providência, talvez o projecto político mais consensual de todo o período. Se o Estado-Providência foi instalado, a forma como o fez não é fácil sustentar: a despesa pública cresceu ao dobro da velocidade da economia, dando origem a persistentes dificuldades de financiamento”. Terceiro, fica-se com um retrato instantâneo do comportamento da economia antes do 25 de Abril e os programas sociais do antigo regime, percebe-se o significado do choque petrolífero e do processo revolucionário que se viveu de 1974 a 1976, explicam-se os desequilíbrios externos durante 10 anos até à fase de adesão à CEE e comentam-se os acontecimentos do período de bom comportamento económico entre 1986 e 1992. Quarto, fica-se com a compreensão das despesas sociais inerentes ao Estado-Providência. (...) É forçoso interrogar a produtividade do investimento e perceber com toda a franqueza as dificuldades produtivas da economia portuguesa. Só assim se encontra resposta para o endividamento externo, para o crescimento da despesa pública. Não podemos iludir o pessimismo e as ameaças reais que pairam sobre a economia portuguesa. Estamos a divergir dos outros países europeus e é impossível mantermos o mesmo Estado-Providência que foi implantado depois do 25 de Abril. Beja Santos

opinião

Fúria centralizadora

A possibilidade de a gestão dos transportes colectivos de Lisboa e do Porto vir a ser centralizada, noticiada pelo semanário “Grande Porto” na passada sexta-feira, faz parte de uma dinâmica centralizadora do Governo socialista que vai ao arrepio de qualquer lógica plural e de coesão no que devia ser o esforço de reequilíbrio do País. Na mesma linha que leva à concentração na capital das administrações dos teatros nacionais ou dos portos de mar, a política de sucção dos centros de decisão pública para o Terreiro do Paço acentua a macrocefalia do nosso Estado e desampara de serviços públicos todo o território nacional que, deste modo, não pára o seu processo de desertificação. Ao mesmo tempo, eleva ainda mais a pressão urbanística e social de que Lisboa já sofre e que todos os dias se reforça por força do aumento da migração de novos contingentes em busca da ocupação que rareia na maior parte de Portugal. No caso da STCP e do Marco António Costa Metro do Por- Vice-Presidente do PSD e da to, seja qual C.M. Vila Nova de Gaia for o modelo de reestruturação em causa, desde já o processo fica marcado por um completo desprezo pelo Poder Local. No caso do transporte metropolitano, as autarquias locais detêm 49 por cento do seu capital social e nem assim o Governo se deu ao trabalho de as informar das suas intenções ou do que poderá acontecer à sua participação. Soube-se que está constituído um grupo de trabalho para apresentar propostas sobre o futuro modelo de gestão até 15 de Janeiro sem que as autarquias nele estejam representadas directamente. Num assunto tão importante e delicado como são os transportes colectivos urbanos as câmaras do Porto, Vila Nova de Gaia, Matosinhos, Maia ou Gondomar não deveriam ser ouvidas? Ou as da Área Metropolitana de Lisboa? A racionalização de custos ou a procura de uma maior eficiência na gestão dos recursos, que naturalmente o PSD apoia, não se pode confundir com esta fúria irracional de concentração de competências na capital. Retirar das cidades e das regiões quadros e capacidade de decisão apenas faz diminuir massa crítica local e dificilmente fará decrescer custos, pelo menos de modo significativo. É tempo de o Governo repensar a sua política territorial. Concentrar recursos e a gestão de equipamentos não significa poupança automática. Por outro lado, retirar quadros e competências de determinada cidade ou região implica desde logo a depauperação local com óbvios reflexos económicos. Já agora, uma sugestão: quando se demonstrarem relevantes a diminuição de custos e o ganho de eficiência da gestão concentrada, deixem-na ficar fora de Lisboa. Porque é que a gestão dos portos ou dos transportes colectivos urbanos não poderá ficar em Sines ou no Porto? Seria uma maneira de o Governo mostrar que é sério quando fala de desconcentração.


26 janeiro'11 repórterdomarão I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I

crónica | eventos

Montalegre: 20 anos de fumeiro, de 27 a 30 janeiro A.M.PIRES CABRAL

ANO NOVO, VIDA VELHA Só hoje, dia 2 de Janeiro de 2011, me dei conta de um facto que, não tendo em si nada de extraordinário, é mesmo assim bem simbólico das lamacentas profundezas a que chegámos: existe em circulação uma nota cujo valor é superior ao do salário mínimo nacional. Refiro-me à nota de quinhentos euros, claro está. É certo que é uma nota que se vê pouco, não dá confiança a pelintras: eu mesmo só a tenho visto em retrato, nunca em presença real, porque a fulana foi feita para carteiras mais aconchegadas do que a minha, onde é raro entrar mesmo uma de cinquenta. Notas de vinte — e viva o velho! Em muitas carteiras nem essas entram. Pois. O euro, parecendo uma espécie de manta espanhola que tudo cobre, sempre vai cobrindo uns mais do que outros. Foi feito para países prósperos, onde ter notas de quinhentos euros é tão vulgar e banal como beber um copo de água. Portugal, e acaso mais uns quantos lázaros da Comunidade Europeia, têm de se contentar com trocos. E esse facto — haver uma nota que vale mais do que um mês de trabalho de milhões de portugueses — coa-me à alma uma pesada melancolia. E vêm-me coisas à ideia. O senhor ministro das Finanças, Prof. Teixeira dos Santos, diz que dormiu mal quando teve de ditar as gravosas cláusulas do PEC II. Acredito que sim. Acredito que seja um homem sensível, a quem custe saquear os salários de quem já tão pouco ganha, e ao mesmo tempo admiro-lhe a imaginação com que inventa meios, cada um mais criativo do que o anterior, de nos ir metendo a mão no bolso. Dormiu mal, disse ele. Acredito. Mas já agora gostava de saber que tal dorme quando, ao arrepio do depauperamento extremo das nossas finanças, autoriza gordas sinecuras para os boys, que sobre os ditos continuam a chover como dizem que chovia o maná sobre os hebreus na travessia do deserto. Veja-se o recente caso da Segurança Social. É com este azedume que entro em 2011. No dia 2 de Janeiro de qualquer ano, esvazia-se, como um balão mal atado, toda a magia e encantamento do Na-

tal. É certo que ainda vêm aí os Reis, evocadores de antigas tradições. Mas são tradições rurais, as janeiras e os reis, cânticos de boas-festas na noite gelada, de porta em porta, que nas cidades pegam mal. Como escrevi há dias, as janeiras dão-se bem com a luz de lampiões, não com o clarão das árvores de Natal da Avenida Carvalho Araújo. Dãose bem com pátios e quinteiros e cães a ladrar, não com condomínios de uma dúzia de andares e música xaroposa nos altifalantes a fazer-lhes concorrência. Não tem que ver: nas cidades, o encanto foi-se no dia 2 de Janeiro. É tempo de desarmar as árvores de Natal, de voltar a meter na gaveta as toalhas e talheres de cerimónia, de começar a pensar na dieta com que abater os quilos engordados com os fritos. É o desfazer da festa, sempre um desconsolo. Mas o desconsolo é maior e mais acabrunhante quando pensamos que dias de grandes tribulações se aproximam, sem que se vislumbrem sinais de que os sacrifícios que temos feito e vamos continuar a fazer cada vez mais têm valido a pena. Ano novo, vida nova? Só se for para pior. Eu vi entrar o ano novo, à meia-noite em ponto, e juro que entrou da mesmíssima forma que entraram todos os anteriores... Depois de bebida meia taça de champanhe e comida meia fatia de bolo-rei, saí à varanda a ver o clarão dos foguetes aqui e ali, nas aldeias circunvizinhas. Tudo igual aos anos anteriores. Na cidade, alguns petardos, buzinadelas, a sirene dos bombeiros, uns hurras em andares vizinhos. Como sempre. No meio de tanta velharia, não faz sentido nenhum falar de vida nova. Ano novo, vida velha é que é. (Nota: – Nesta crónica, valime, em alguns momentos, de textos meus já publicados. Que querem, o raio da crise até na inspiração da gente crava a dentuça!) Nota: Este texto foi escrito com deliberada inobservância do Acordo (?) Ortográfico. pirescabral@oniduo.pt

O concelho de Montalegre organiza mais uma vez a Feira do Fumeiro, entre 27 e 30 de janeiro, que comemora 20 anos de existência. Pela primeira vez, em duas décadas, a autarquia decidiu isentar o pagamento do custo do pavilhão a todos os produtores locais. O evento, que decorre no Pavilhão Multiusos, promete voltar a ser o maior cartaz da região, ao qual acorrem muitos milhares de pessoas. A feira é fundamental para o suporte económico dos agricultores de Montalegre, que ali esgotam a sua produção anual.

Feira de Caça em Macedo

O concelho de Macedo de Cavaleiros recebe de 27 a 30 de janeiro a XV Feira da Caça e a V Feira do Turismo, em simultâneo, onde não faltam as ofertas turísticas da região, a venda de produtos tradicionais e regionais e os restaurantes típicos. Este certame decorre no Parque Municipal de Exposições, onde se poderá assistir às tradicionais montarias (dias 27, 29 e 30), à Largada de Perdizes (28), à IV Copa Ibérica de Cetraria (28 e 29) e ao IV Raid Turística com passagem pelas paisagens mais belas do concelho.

Janeiras no Tâmega e Sousa

Vários encontros de cantares de Janeiras realizamse na região do Tâmega e Sousa na segunda quinzena deste mês. Em Penafiel, o pavilhão de feiras e exposições recebe o Encontro de Janeiras no dia 16, pelas 14:00. Marco de Canaveses "canta" as Janeiras em dois dias: 15 e 16, às 21:00, no salão dos bombeiros. Em Amarante, o evento decorre no Tâmega Park, a 29 de janeiro, 21:00. No mesmo dia, em Baião, vários grupos atuam no Mosteiro de S. André, em Ancede, às 21:30.

Pires Cabral galardoado O escritor A.M. Pires Cabral, cronista do Repórter do Marão, foi um dos galardoados dos Prémios PEN 2009. Os jurados Fernando J.B. Martinho, Teresa Salema e Maria João Cantinho elegeram "Arado", de A.M. Pires Cabral – obra na qual “o poema é, fundamentalmente, um lugar de meditação”, sublinha o júri, citado pela Agência Lusa. A entrega dos Prémios decorreu em Lisboa no auditório da Sociedade Portuguesa de Autores. De acordo com a Lusa, este livro de poesia foi também selecionado, entre 150 obras apresentadas a concurso, para o prémio literário Casino da Póvoa/Correntes d'Escrita, vencedor que será conhecido a 23 de fevereiro.

Segundo livro de Nuno Meireles apresentado em Amarante O lançamento do livro "Duas vidas, Um destino", de Nuno Meireles, decorrerá dia 15 pelas 16h30 no Centro Cultural de Amarante. Este romance conta a vida de dois jovens de classes sociais e zonas diferentes (Cascais e Valpaços) que se cruzam na vida após um acidente de viação.

Teatros Municipais Teatro Municipal de Bragança

- Ensemble Mezzo Esperança, orquestra jovem de jazz, tangos, popular entre outros estilos, 22 de janeiro, às 15h00, 5 eur, Caixa de palco; - Concertinhos Flauta&Piano com entrada livre a 27 de janeiro, às 10h30/15h00, Caixa de palco; - Concerto de Piano com Domingos António, 29 de janeiro, às 15h00, 5 eur, Auditório

Teatro Ribeiro Conceição – Lamego

- Teatro: "Um, Ninguém e Cem Mil", romance de Luigi Pirandello com interpretação de Virgílio Castelo e Margarida Moser, dia 15 de janeiro às 21h30.

Teatro de Vila Real

- O songwriter norte-americano John Tirado apresenta o seu álbum de estreia a solo "Slow Motion Party" , dia 27, às 23h00, no Café-Concerto; - "Filme do Desassossego", do realizador e argumentaste João Botelho, é um filme com sessão para público escolar no Grande Auditório, dia 20, às 15h00. Cinco euros; - Dia 22, Orquestra de Sinos de Mão, no Pequeno Auditório, às 16h00, cinco euros (3,5 euros com desconto); - "O Homem de Ferro", do realizador Andrzej Wajda, é o filme que passa no "Cinema sem Pipocas", dia 31 às 22h00 no Pequeno Auditório. Cinco euros. - Pedro Abrunhosa, primeiro lugar do top de vendas e Disco de Ouro com o álbum "Longe", atua a 5 de fevereiro às 22h00 no Grande Auditório (15 euros).


28 janeiro'11

repórterdomarão I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I cultura

Encerrado o primeiro ciclo da chamada “Festa dos Rapazes”

Caretos de Baçal preservam a tradição Na aldeia de Baçal, em Bragança, não há baile de verão, Natal ou passagem de ano comparável ao fervilhar dos Reis, quando, durante três dias, irrequietos mascarados põem a população em alvoroço. São eles que encerram o primeiro ciclo da chamada “Festa dos Rapazes” que, no Nordeste Transmontano, se dispersam pelo Natal, Ano Novo e Reis. Os “caretos” com máscaras feitas de diversos materiais e farfalhos e coloridos fatos de lã ou trapos são os protagonistas destes rituais que já foram apelidados de “Inverno Mágico”. “É melhor que a festa de verão”, garante Domingos Gonçalves, um dos mais velhos do grupo que, durante este fim de semana não dorme: come, bebe e dança. A festa é deles, mas envolve toda a aldeia desde logo com o ecoar do gaiteiro e dos bombos pelas ruas na ronda da chouriça, no primeiro dia da festa. Samuel Xavier é o homem da vara que alcança varandas e janelas e se vai enchendo de chouriças nas ramificações. Uma das portas das casas que se abre permanentemente aos “caretos” é a das adegas. Correm “todas as adegas, mas entre os coloridos mascarados sobressai um número abundante de pequeninos”. “Bebem sumol”, garante um dos mais velhos, apesar de não se vislumbrarem indícios do refrigerante. As chouriças da ronda são para o jantar de segunda feira que encerram as festas. Em todas as refeições só participam os “caretos”, com exceção do almoço de domingo, aberto a outros membros da comunidade, assim como o baile a cargo de um animador conhecido como “o cantor do garrafão”. Alguns dos 800 habitantes da freguesia contígua a Bragança estão a trabalhar fora, mas fazem questão de estar pre-

sentes nestes dias. “Posso dar o exemplo de dez jovens que não vieram passar o Natal e a passagem de ano com a família e que vêm agora para a festa para continuarem esta tradição”, disse à Lusa Luís Filipe Carvalho, presidente da Associação Cultural e Recreativa Abade de Baçal. “É a mística, é o estarmos todos juntos, são as refeições, são as rondas com o gaiteiro, são as adegas, é o beber o vinho novo, invadimos a aldeia de pessoal jovem, é o encontro das pessoas”, concretizou. A associação nomeou uma comissão organizadora da “festa dos rapazes” que até conseguiu patrocínios para os comes e bebes. Os que participam não se importam de pagar, como já aconteceu noutros anos, mesmo que até possam estar sujeitos a ser alvos da sátira de um dos momentos mais esperados da festa: os colóquios. Domingo, depois de almoço, um elemento declama em verso, na fonte central da aldeia, os acontecimentos mais marcantes do ano na aldeia, rodeado pela algazarra dos “caretos”. Aos 64 anos, Adelaide Pereira, “delira” com os “caretos” e é ela que tem ajudado a colorir esta e outras festas com os fatos que confeciona. Fez o primeiro a pedido do filho, a partir de uma manta de lã e já perdeu a conta aos que vendeu para museus de Bragança, como o Abade de Baçal e o da Máscara. Já recebeu 250 euros por um fato e tem cada vez mais trabalho, sobretudo no Carnaval, outra época dos “caretos”, no Nordeste Transmontano. Nos desfiles das escolas, o disfarce de “careto” virou moda com crianças a ostentarem fatos feitos por esta mulher de lã ou de farrapos.

Artista é um ícone do Marco de Canaveses, onde nasceu há 102 anos

Selo americano homenageia Carmen Miranda A artista brasileira de origem portuguesa Carmen Miranda vai ter direito a um selo comemorativo dos correios dos Estados Unidos, mais de meio século depois da sua morte. O selo dedicado a Carmen Miranda, a lançar em março deste ano, integra-se numa nova série de selos comemorativos para o ano de 2011 que incluem vários ícones do mundo do espetáculo e da música, segundo informação divulgada pelos correios norte-americanos (USPS). Maria do Carmo Miranda da Cunha (Cármen Miranda) nasceu no concelho de Marco de Canavezes, em 1909 e emigrou com a família para o Brasil quando tinha apenas 10 meses de idade. Em 1933 tornou-se a primeira cantora a assinar um contrato com uma rádio no Brasil, a Rá-

dio Mayrink Veiga, ao que se seguiu a RCA Records e a entrada no cinema; em 1939 muda-se para os Estados Unidos, onde inicia uma carreira de grande sucesso com a participação em vários programas de rádio, televisão, musicais. Participou também em 14 filmes, chegando a ser a estrela mais bem paga de Hollywood em 1946. A coleção de 70 selos sem valor facial, que mantêm sempre o valor da estampilha doméstica mínima, denomina-se “Forever” (para sempre). Esta coleção teve início em 2007 com o chamado “Sino da Liberdade”, imagem do famoso sino de Filadélfia ligado à história da independência dos Estados Unidos e até hoje mais de 28 mil milhões de selos desta coleção foram vendidos no país. A coleção de 2011 homenageia “cinco figuras lendárias do mundo do espetáculo e dos sons latinos que tiveram um impacto na música americana”, nomeadamente Tito Puente, Selena Quintanilla-Perez, Carlos Gardel e Celina Cruz. Outros homenageados são o ex-presidente Ronald Reagan, os atores Helen Hayes e Gregory Peck, pioneiros da indústria norte-americana, cientistas, o escritor Mark Twain, acontecimentos históricos e até alguns dos heróis da Pixar Filmes. Carmen Miranda tem uma estrela no Passeio da Fama de Hollywood e uma praça com o seu nome na cidade de Los Angeles.

Foto Manuel Teles | Lusa

Professor Cavaco Silva Distrito do Porto

15 de Janeiro (Sábado) 10h00 – Amarante: passeio/contacto com a população da Zona Histórica (Largo do Arquinho/Ponte de S. Gonçalo) 11h00 – Penafiel: contacto com a população (junto à CM de Penafiel) 12h30 – Vila do Conde: contacto com a população (Mercado das Caxinas) 14h30 – Póvoa de Varzim: contacto com a população (Rua da Junqueira) 16h30 – Paços de Ferreira: Sessão com empresários e população sobre a captação de investimentos para o concelho (Casa da Cultura de Seroa) 20h00 – Paredes: Jantar no Pavilhão Rota dos Móveis, Lordelo

DIA 20 (5ª FEIRA) COMÍCIO, Coliseu do Porto, 21 horas


diversos | crónica

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Em Amarante e Vila Real

Incerteza e preocupação nas escolas privadas Alguns colégios do ensino privado encaram com alguma incerteza e preocupação o cenário de despedimentos de docentes traçado recentemente pela Associação de Professores do Ensino Particular e Cooperativo com Contrato de Associação (APECCA), que alertou para o facto de que as instituições de ensino particular e cooperativo podem despedir docentes ainda este mês, fruto dos novos contratos de associação impostos pelo Ministério da Educação. De acordo com várias associações do setor, as novas medidas de financiamento propostas pelo Estado, que entram em vigor neste ano letivo, reduzem o valor de financiamento por turma em vários milhares de euros, pondo em causa a sustentabilidade de muitas escolas. Os cortes de financiamento podem afetar cerca de 8 mil postos de trabalho do corpo docente e resultar em reduções salariais até aos 20 por cento. António Barbeitos, diretor do Externato de Vila Meã, em Amarante, explicou ao RM que naquela escola os novos contratos de associação não vão resultar imediatamente em despedimentos mas avisou que uma eventual reforma curricular, que poderá ser adotada no próximo ano letivo, vai certamente resultar em “despedimentos significativos” naquela e noutras instituições. “É algo para o qual o externato já se tem vindo a preparar e que parece ser inevitável”, salientou o diretor daquela instituição, que serve cerca de 1670 alunos. Por seu lado, Manuel Clemente, diretor do Colégio de São Gonçalo, afirmou que cada estabelecimento de ensino tem as suas particu-

laridades e que os efeitos das medidas propostas se farão sentir de forma diferente. “Os nossos cursos abrangidos pela legislação dos contratos de associação são todos da área da formação profissional técnica, de oferta única no concelho e que representam cerca de 900 dos 2200 alunos que o colégio tem”, salientou o diretor, acrescentando que, por agora, “não estão previstos despedimentos de docentes” naquele estabelecimento de ensino. Em Vila Real, no Colégio da Boavista, o diretor António Gaspar disse que as medidas podem resultar em dificuldades financeiras para a instituição mas sublinhou que até ao momento, não recebeu notificação oficial sobre os novos contratos de associação. Contudo, o diretor adiantou que caso se verifiquem as reduções anunciadas, os despedimentos podem ser uma possibilidade. “Não há garantias, tudo está em aberto até percebermos exatamente o que vai mudar.” Em jeito de crítica, António Gaspar sublinhou que caso as novas medidas entrem em vigor, o resultado será num maior gasto para o Estado. “No final de 2010, um estudo da OCDE (PISA) concluiu que, entre outras coisas, um estudante no ensino particular e cooperativo em Portugal custa menos 40 por cento ao Estado. Não é difícil de compreender que se as escolas privadas fecharem ou recusaram admissões por falta de verbas, os alunos que acabarem por ir para o ensino público vão custar mais dinheiro ao país”, concluiu o diretor da escola, que acolhe cerca de 700 estudantes da região. Paulo Alexandre Teixeira

EM BREVES LINHAS | Eleições movimentadas nos bombeiros e na associação empresarial do Marco de Canaveses | Associação Empresarial e bombeiros do Marco de Canaveses vão ter atos eleitorais no primeiro trimestre do ano. Embora as eleições ainda não estejam marcadas, são já conhecidos alguns candidatos à liderança de ambas as instituições, o que configura que haverá pelo menos duas listas a concorrer em cada uma delas. Nos bombeiros, o antigo comandante, Fernando Nazário, já anunciou a candidatura e Cláudio Ferreira, atual presidente, também vai recandidatar-se. Na associação empresarial (AE Marco), a disputa eleitoral deverá ocorrer entre José Pedro Reis e Pedro Silva.

| Radão em excesso em habitações de Padronelo | Uma investigadora da UTAD concluiu que algumas habitações da freguesia de Padronelo, em Amarante, concentram níveis elevados de radioatividade natural, o chamado gás radão, existente sobretudo nas rochas. Um estudo anterior revelou o mesmo problema na região de Vila Real. A investigadora, Lisa Martins, recomenda que

os habitantes procedam com frequência à ventilação das casas.

| Festival MusicAlvão decorre até julho |

bol de 25 a 27 de janeiro. Este evento, organizado pela Associação de Basquetebol do Porto conta com a participação de quatro equipas finalistas. O primeiro jogo realiza-se às 20h30 de 25 de janeiro.

| Eurocidade Chaves - Verín poderá ter transporte público |

O Conservatório Regional de Música de Vila Real (CRMVR) realiza mais uma vez o Festival MusicAlvão. O Concerto Comentado (Órgão) dia 12 de fevereiro, a Orquestra de Guitarras (12 de março), o Coro de Música Antiga (9 de abril), a Orquestra de Clarinetes & Orquestra de Cordas CRMVR (14 de maio) e o Concerto de Solistas a 4 de junho são os espetáculos agendados para todos os meses até ao final do corrente ano letivo. Os concertos têm entrada livre.

| Basquetebol no pavilhão de Penafiel | O Pavilhão Municipal Fernanda Ribeiro recebe a Fase Final do Distrital Sub 20 em Basquete-

A Eurocidade Chaves - Verín abre a possibilidade de pôr em funcionamento um serviço de transporte público entre Chaves e Verín antes do final de 2011, informou o presidente da câmara de Chaves, João Batista. Para saber a viabilidade do projeto foi realizado um estudo de transportes da Eurocidade para perceber quantas pessoas poderão vir a utilizar o serviço e de quantas em quantas horas deverá haver autocarro. A concretizar-se este serviço de transporte transfronteiriço será “o primeiro da Península Ibérica”, referiu João Batista. Nestes dois anos, a Eurocidade Chaves-Verín teve quatro projetos aprovados “algo invulgar, mas que revela o trabalho que tem vindo a ser feito”, frisou. Por isso,“os dois municípios pretendem ser um laboratório de construção de cidadania europeia destinado a melhorar a qualidade de vida dos cidadãos de Verín e Chaves”, concluiu João Batista.

António Mota

Dora e Rodrigo Tens razão, Dora, tens muita razão. Vai ser este ano, tem de ser. Tens toda a razão, meu amor, sete anos de namoro é muito tempo. Este ano temos de começar a viver juntos. Queres datas? Já? E se for lá para meados de Novembro? Na primeira semana de Dezembro, também não era má ideia. O pessoal recebe o subsídio de Natal, está mais abonado, percebes? Não está mal pensado, pois não? E era bastante original. Depois podíamos passar uns dias na neve da serra da Estrela. Era de sonho, não era? Mas bem sabes que a minha vida não tem sido fácil. O ano que passou não me deixa saudades. Correu-me tudo tão mal. E eu estava com tantas ideias. Até já ia todos os dias ler o jornal ao café, e procurava nos anúncios a casa ideal. Fartei-me de ler compra-se e vende-se, e de escrever números de telefone. Depois apareceu aquele T2, lembras-te? Fomos vê-lo, e tu gostaste muito. Até começaste a sonhar em voz alta na frente da rapariga da agência, que sorria e tresandava a um perfume estranho. Aqui fica a mesa, ali o sofá grande e os dois mais pequenos, ali a mesa, acolá o candeeiro, dizias tu, muito dona de casa. E até querias mudar a cor das paredes, como se aquilo já fosse teu. E eu, sem querer, vi-te grávida, imaginei o nosso filho a boiar na tua barriga, e comovime. Que diabo, eu já tenho trinta e cinco anos! Pedimos um empréstimo, eu perdi o emprego, e o primeiro banco disse que não, e o segundo respondeu que não podia ser. Uma tristeza de País. Decidimos arrendar aquele T2, mas a rapariga da agência respondeu que não podia ser, que aquele T2 não era para arrendar, era só para venda. Já não tresandava a perfume, e eu bem vi que tinha chispas no olhar. Bem percebi que ela estava frustrada por não conseguir vendernos o T2. A culpa não foi nossa, desculpe, disseste tu.

E ela olhou para ti, e tu olhaste para ela. E eu percebi muito bem o que diziam uma à outra. A minha auto-estima ficou um bocado murcha, sentime um incompetente, um Zé Ninguém. A dor custou a passar. Dora, meu amor, tu bem sabes que eu sou poupado. Mas como posso poupar, se estou desempregado há tantos meses? O carro levou-me todo o dinheiro que eu tinha juntado e foi um negócio desgraçado. Fui bem levado nas falinhas mansas do Lopes, com aquele ar sério que lhe dá a gravata, o fatinho janota, e os sapatos de verniz. Bem sabes, Dorinha, minha querida, que o carro está a desfazer-se, só me dá despesas. Hoje reparei que os dois pneus da frente estão carecas. Vou ter de gastar uma pipa de massa, e não estou muito abonado. Se não os mudar arrisco-me a apanhar uma multa. Mas tenho de pagar na hora, que o homem dos pneus é fuinha e desconfiado. Fartou-se dos calotes. Agora é toma lá os pneus, dá cá a massa. Pregou na parede da oficina um letreiro com letras enormes: a minha avó é que fiava, mas feleseu à muitos anos. O homem escreve mal, fala mal, cheira mal, mas deve ter umas contas bancárias bem recheadas. É bem verdade que o dinheiro junta-se sempre onde não faz falta nenhuma. É por isso que estou a ligarte. Bem me custa, acredita, Dorinha, minha querida. Eu tinha jurado que não ia pedir-te mais dinheiro. Mas eu não estava a contar com esta despesa e já não posso recorrer a mais ninguém. E é melhor mandar uns pneus novos do que apanhar uma multa, não concordas? Posso encostar o carro, também é uma solução. Mas depois, como é que fazemos para nos encontrarmos? Falas com a tua mãe? Logo passo por aí, meu amor. Amo-te muito, Dorinha . Beijinhos, beijinhos, beijinhos.


30 janeiro'11 repórterdomarão I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I

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Cartoons de Santiagu [Pseudónimo de António Santos]

2011

Esta edição foi globalmente escrita ao abrigo do novo acordo ortográfico. Porém, alguns textos, sobretudo de colaboradores, utilizam ainda a grafia anterior.

Fundado em 1984 | Jornal/Revista Mensal Registo ERC 109 918 | Dep. Legal: 26663/89 Redação: Rua Dr. Francisco Sá Carneiro | Rua Manuel Pereira Soares, 81 - 2º, Sala 23 | Apartado 200 | 4630-296 MARCO DE CANAVESES Telef. 910 536 928 E-mail: tamegapress@gmail.com Diretor: Jorge Sousa (C.P. 1689) Redação e colaboradores: Liliana Leandro (C.P. 8592), Paula Lima (C.P. 6019), Carlos Alexandre Teixeira (C.P. 2950), Patrícia Posse, Helena Fidalgo (C.P. 3563) Alexandre Panda (C.P. 8276), António Orlando (C.P. 3057), Jorge Sousa, Alcino Oliveira (C.P. 4286), Helena Carvalho, A. Massa Constâncio (C.P. 3919), Ana Leite, Armindo Mendes (C.P. 3041), Paulo Alexandre Teixeira (T.P. 1377), Iolanda Vilar (C.P. 5555), Manuel Teles (Fotojornalista). Cronistas: A.M. Pires Cabral, António Mota Cartoon/Caricatura: António Santos (Santiagu) Colunistas: Alberto Santos, José Luís Carneiro, José Carlos Pereira, Nicolau Ribeiro, Paula Alves, Beja Santos, Alice Costa, Pedro Barros, Antonino de Sousa, José Luís Gaspar, Armindo Abreu, Coutinho Ribeiro, Luís Magalhães, José Pinho Silva, Mário Magalhães, Fernando Beça Moreira, Cristiano Ribeiro, Hernâni Pinto, Carlos Sousa Pinto, Helder Ferreira, Rui Coutinho, João Monteiro Lima, Pedro Oliveira Pinto, Mª José Castelo Branco, Lúcia Coutinho, Marco António Costa, Armando Miro, F. Matos Rodrigues, Adriano Santos, Luís Ramos, Ercília Costa, Virgílio Macedo, José Carlos Póvoas,

Sílvio Macedo. Colaborações/Outsourcing/Agências: Agência Lusa (Texto e fotografia), Media Marco, Baião Repórter/Marão Online Marketing, RP e Publicidade: Telef. 910 536 928 - Marta Sousa publicidade.tamegapress@gmail.com martasousa.tamegapress@gmail.com Propriedade e Edição: Tâmegapress-Comunicação e Multimédia, Lda. NIPC: 508920450 Sede: Rua Dr. Francisco Sá Carneiro, 230 Apartado 4 - 4630-279 MARCO DE CANAVESES Cap. Social: 80.000 Euros – Partes sociais superiores a 10% do capital: António Martinho Barbosa Gomes Coutinho, Jorge Manuel Soares de Sousa. Impressão: Multiponto SA - Baltar, Paredes Tiragem: 32.000 exemplares distribuídos (Auditados) | Associado da APCT - Ass. Portuguesa de Controlo de Tiragem e Circulação | Nº 486 Assinaturas | Anual: Embalamento e pagamento dos portes CTT – Continente: 40,00 | Europa: 70,00 | Resto do Mundo: 100,00 (IVA incluído) A opinião expressa nos artigos assinados pode não corresponder necessariamente à da Direção deste jornal.

O OLHAR DE...

Eduardo Pinto 1933-2009 Quadro Quotidiano 1933-2009 - Largo de S. Gonçalo - Amarante - Anos 50



Repórter do Marão