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opoetadosamba c a d e r n o

E S P EC I A L

rio de janeiro, 5 de dezembro de 2010

banco de imagens

h Rio de Janeiro, 11 de dezembro de 1910 Se estivesse vivo, Noel Rosa completaria 100 anos esta semana. O DIA publica de hoje a sábado uma série especial, multimídia, em homenagem a um dos maiores nomes da música popular brasileira.


2 O DIA CADERNO ESPECIAL

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ma ur o DINI

abiografia dosambista

Z

A VIDA SE ANUNCIOU DIFÍCIL PARA NOEL ROSA DESDE QUE ELE NASCEu, O QUE NÃO O IMPEDIU DE APROVEITÁ-LA COM POESIA

Composição: Noel Rosa e Vadico

Quem acha vive se perdendo Por isso agora eu vou me defendendo Da dor tão cruel desta saudade Que, por infelicidade Meu pobre peito invade Batuque é um privilégio Ninguém aprende samba no colégio Sambar é chorar de alegria É sorrir de nostalgia Dentro da melodia Por isso agora Lá na Penha vou mandar Minha morena pra cantar Com satisfação E com harmonia Esta triste melodia Que é meu samba Em feitio de oração.

Noel de Medeiros Rosa nasceu em 11 de dezembro de 1910, no chalé da família, em Vila Isabel. Ali, o destino já daria pistas de que a vida do bebê que chegava agora ao mundo não seria fácil: o parto foi tão complicado que o médico escolhido pela família pediu ajuda a outro, que decidiu usar o fórceps. Só mais tarde se perceberia que o uso do instrumento provavelmente foi a causa do afundamento do maxilar de Noel, linha marcante no rosto do compositor. Primeiro dos dois filhos de Manuel Garcia de Medeiros Rosa e Martha Corrêa de Azevedo (que depois do casamento trocou seus sobrenomes pelo do marido), ele foi batizado assim por ter nascido próximo ao Natal e pela admiração do pai pela cultura da França. Aliás, Nöel, com trema, como pede o idioma daquele país. O defeito no queixo, no entanto, não fez de Noel um menino triste. Pelo contrário: sempre foi brincalhão, embora em casa só mostrasse seu

O cartunista e compositor Nássara passa por um botequim quando vê, ainda de manhã, Noel Rosa intercalando um copo de cerveja e outro de conhaque. Preocupado com o amigo, que andava com a saúde muito frágil, Nássara pergunta por que ele não come alguma coisa, que beber de estômago vazio não havia de fazer bem. Ouve uma extensa explicação de Noel sobre o valor nutritivo da bebida: “Pensando bem, a cerveja vale por um almoço”. Nássara responde, vencido: “Está certo, mas e o conhaque?” E Noel: “Bem, o conhaque é porque não gosto de comer sem beber”. A história ilustra duas características fortes de um dos maiores nomes da música popular brasileira: a indiscutível vocação para a boemia e a verve humorística, mesmo nas adversidades. Traços que o acompanhariam pela vida, assim como as dificuldades. ne y m og at

ro ss o

O samba na realidade Não vem do morro nem lá da cidade E quem suportar uma paixão Sentirá que o samba então Nasce no coração.

lado dócil. Aos 12 anos, entrou para o tradicional Colégio São Bento: a família sonhava que ele se tornasse médico, como o avô e o tio. Mas no meio do caminho tinha um bandolim (que mais tarde ele trocaria pelo violão), e tinha também a Zona do Mangue, região de prosituição que ficava entre sua escola e sua casa, e da qual Noel se tornaria frequentador. É provável que ali, além dos blocos de Carnaval e botequins de sua Vila Isabel, tenha entrado em contato com o samba que viria a influenciar toda a sua obra. Em apenas oito anos, Noel compôs mais de 250 músicas, de qualidade indiscutível, fundamentais para gerações futuras. Nos bares e cabarés, nos trens do subúrbio, nos braços de seus muitos amores, entre mendigos e malandros, nas batucadas dos morros que ele tanto frequentou, nas ruas de uma cidade que ele tão bem cantou, Noel viveu intensamente aquilo que ele soube fazer como poucos: o samba.


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CADERNO ESPECIAL O DIA 3

ens

música aguçou a sensibilidade carioca e abriu várias portas ALHO CARV

SÉ RGIO CABRAL

joão laet

DELCIO

O menino Noel nasceu num ambiente musical e, ao tocar bandolim, sentiu pela primeira vez a sensação de importância. Ele captou como poucos a alma do povo do Rio de Janeiro

Noel cresce num ambiente musical, herança que vem da avó materna, Rita, que tocava piano. O pai, Manoel, o Neca (que foi criado na mesma casa de sua futura esposa), chegou a ser amigo do compositor Catulo da Paixão Cearense. O irmão, Hélio, quatro anos mais jovem, talento precoce, era a grande aposta da família. “Na entrada deste chalé, ainda colocarão uma placa com os dizeres: ‘Aqui nasceu Hélio de Medeiros Rosa’”, disse certa vez a avó. Mas, ali pelos 12 anos, Noel começa a tocar música e um novo mundo se abre para ele. “Foi graças ao bandolim que eu experimentei, pela primeira vez, a sensação de importância. Tocava e logo se reuniam, ao derredor de mim, maravilhados com a minha habilidade, os guris de minhas relações. A menina do lado cravava em mim uns olhos rasgados de assombro. Então eu me sentia completamente importante”, contou ele em entrevista de 1935. Ele trocaria o instrumento pelo violão e, assim, anos mais tarde, como atento e sensível observador, começaria a contar em verso e melodia os encantos e assombros do Rio de Janeiro, uma história que ele próprio ajudou a escrever. “É um personagem que tem um lado que me emociona: a carioquice. É a maior expressão do que é ser carioca”, destaca o jornalista Sérgio Cabral. “Eu me sentia feliz. Tinha entrado no coração da cidade; compreendia a sensibilidade carioca; sabia comunicar-me com o povo”, disse Noel.

Composição: Noel Rosa

O cinema falado É o grande culpado Da transformação Dessa gente que sente Que um barracão Prende mais que um xadrez. Lá no morro, se eu fizer uma falseta/A Risoleta Desiste logo do francês e do inglês. A gíria que o nosso morro criou/Bem cedo a cidade aceitou e usou./Mais tarde o malandro deixou de sambar Dando pinote E só querendo dançar o fox-trot! Essa gente hoje em dia Que tem a mania/Da exibição Não se lembra que o samba Não tem tradução No idioma francês. Tudo aquilo que o malandro pronuncia/Com voz macia, É brasileiro, já passou de português. Amor, lá no morro é amor pra chuchu/As rimas do samba não são “I love you” E esse negócio de “alô”, “alô boy”,/“Alô Johnny” Só pode ser conversa de telefone.


4 O DIA

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felipe o’neill

joão máximo, jornalista

MORAES MOREIRA

umcronista docotidiano NOEL ROSA CANTOU O RIO DE JANEIRO E SEUS PERSONAGENS, COMPÔS MÚSICAS PARA A PENHA E PRODUZIU ARDUAMENTE

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Em oito anos de produção, Noel Rosa criou mais de 250 músicas e fez parte do surgimento do samba definitivo carioca, que é acompanhado por percussão

Poeta da Vila e Filósofo do Samba foram alguns dos nomes pelos quais ficou conhecido aquele que cantou não só o bairro que era seu mundo, mas a cidade inteira. Noel Rosa tinha apenas 19 anos quando conheceu o sucesso. Em oito anos de produção, compôs mais de 250 músicas e teve 56 parceiros. “O (escritor) Orestes Barbosa dizia que Noel era ‘a pletora do samba’, ou seja, a superabundância, a exuberância. Quando morreu, provavelmente não tinha produzido a metade do que poderia”, explica o pesquisador e músico Carlos Didier, autor, ao lado do jornalista João Máximo, do definitivo ‘Noel Rosa: Uma Biografia’, lançado em 1990 e com edição esgotada Foi o eterno samba ‘Com Que Roupa?’, que estourou no Carnaval de 1931, que o ce-

lebrizou. Mas Noel havia começado a carreira um pouco antes, no Bando de Tangarás, grupo que formou ao lado de João de Barro (Braguinha), Almirante, Alvinho e Henrique Brito. O repertório é de música nordestina e sertaneja. Mas Noel se encanta com o samba e, com isso, muda sua própria história e a do Rio. Suas canções retratam personagens da época: a vizinha fofoqueira, o malandro, o agiota. E os bairros da cidade, a boemia dos cabarés da Lapa. Noel vê o progresso chegando e isso não escapa de seu olhar aguçado, que canta desde a chegada do cinema falado ao Brasil ao início do uso do revólver pela malandragem. Mais do que sua tão amada Vila Isabel, o subúrbio em geral foi uma das musas mais exaltadas por Noel. “Ele fez mais músicas para a Penha

que para a Vila Isabel. Era, acima de tudo, um suburbano. Adorava o estilo de vida de lá”, conta Máximo. O humor afiado é uma característica forte da obra do compositor: antes, gozação em música era algo que só se fazia no Carnaval. “Ele fez uma coisa muito importante na música brasileira: a narrativa, quase uma crônica”, analisa o escritor e pesquisador Ruy Castro. “Foi o letrista que ensinou a todos os outros que todos os assuntos cabiam em música popular, se bem feita”, observa o biógrafo João Máximo. Muitos dos temas, aliás, continuam atuais (músicas como ‘Onde Está a Honestidade?’ são um exemplo). “A obra do tio Noel não passa, ela permanece”, diz Irami Medeiros Rosa de Melo, filha do único irmão de Noel, Hélio.


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CADERNO ESPECIAL O DIA 5

felipe o’neill

para ouvir e entender noel rosa: 10 sambas por carlos didier

música sofreu influência dos sambistas do estácio

2. Um samba sobre o samba Feitio de Oração (Parceria com Vadico) Gravação de Francisco Alves e Castro Barbosa, com Orquestra Copacabana, 1933 3. A invasão norte-americana pelo cinema Não Tem Tradução Gravação de Francisco Alves, com Orquestra Copacabana, 1933 4. Uma tragédia no morro Quando o Samba Acabou Gravação de Mário Reis, com Orquestra Copacabana, 1933 5. O humor na crônica Conversa de Botequim (Parceria com Vadico) Gravação de Noel Rosa e Conjunto Regional, 1935 6. A autoironia Tarzan, O Filho do Alfaiate (Parceria com Vadico) Gravação de Almirante, com Conjunto Regional, 1936 7. O Estácio, berço do samba X do Problema Gravação de Araci de Almeida, com Conjunto Regional, 1936 8. O amor Pra Que Mentir? (Parceria com Vadico), de 1937 Gravação de Paulinho da Viola, com violão de César Faria, 1976 9. A crônica de um assassinato Século do Progresso Gravação de Araci de Almeida, com Boêmios da Cidade, 1937 10. O testamento Último Desejo Gravação de Araci de Almeida, com Boêmios da Cidade, 1937

CARLOS DIDIER, pesquisador

DORINA

Um momento crucial para o samba que Noel viria a fazer foi o encontro com a turma de sambistas do morro, especialmente do Estácio de Sá. Uma explicação seriam as frequentes idas do compositor à Zona do Mangue, área de prostituição. “No início da década de 20, o governo passou várias casas de prostitução para uma zona cercada, por causa da visita do rei Alberto da Bélgica, para evitar que ele visse. Ficava na beira do Canal do Mangue, do lado do Estácio”, explica Carlos Didier. “Ali surgiram os malandros, que tinham mulheres na zona, enganavam otários nos botequins, eram bons de briga. E é nesse meio do Estácio de malandragem que vai surgir o samba carioca definitivo”, afirma ele. O estilo anterior era o chamado ‘samba amaxixado’ de compositores da Cidade Nova, da casa da Tia Ciata, como Sinhô. Os músicos tocavam piano, instrumentos de corda e metais. No samba do Estácio (e de Noel), o acompanhamento é feito principalmente por percussão. ‘Com Que Roupa?’, música que levou Noel à fama, é fruto do encontro do compositor com os sambistas do Estácio, garante Didier. “Ele foi composto em 1929, gravado em 1930 e fez sucesso em 1931. Em 1929, o samba do Estácio estava começando a chegar ao disco. Então, todas evidências apontam que Noel já conheceria o samba de ouvir em botequim. Ele já era um pouco um daqueles caras, era fascinado pelo malandro”, explica. Foi ali que surgiu a tendência de fazer crônica nas canções. “Noel já chegou com uma variedade temática impressionante, uma capacidade enorme de contar histórias com humor, ironia. A bossa nova tirou o elemento da narrativa, as músicas eram mais abstratas e isso só foi retomado pelo Chico Buarque”, afirma o escritor e pesquisador Ruy Castro.

1. A música que colocou o compositor na História Com Que Roupa? Gravação de Noel Rosa e Bando Regional, 1930


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asmulheres eosrivais MÚSICA AJUDOU NOEL NAS CONQUISTAS, QuE FORAM MUITAS E DESPERTARAM INVEJA DE OUTROS COMPOSITORES

No alto, o apressado casamento com Lindaura; acima, a bela Ceci, amada até o fim; ao lado, recorte com foto de Clara feito por Noel

mário lago disputou o amor de ceci

duelo nas canções “Meu chapéu do lado / Tamanco arrastando / Lenço no pescoço / Navalha no bolso / Eu passo gingando / Provoco e desafio / Eu tenho orgulho / Em ser tão vadio” Wilson Batista, em ‘Lenço no pescoco’

“Deixa de arrastar o teu tamanco / Pois tamanco nunca foi sandália / E tira do pescoço o lenço branco / Compra sapato e gravata / Joga fora esta navalha que te atrapalha” Noel Rosa, em ‘Rapaz Folgado’

“Você que é mocinho da Vila Fala muito em violão / barracão e outros fricotes mais Se não quiser perder / Cuide do seu microfone e deixe Quem é malandro em paz” Wilson Batista, em ‘Mocinho da Vila’

“Quem nasce lá na Vila / Nem sequer vacila / Ao abraçar o samba... Lá, em Vila Isabel / Quem é bacharel / Não tem medo de bamba” Noel Rosa, em ‘Feitiço da Vila’

“É conversa fiada dizerem que o samba na Vila tem feitiço / Eu fui ver para crer e não vi nada disso” Wilson Batista, em ‘Conversa Fiada’ AN IV LINS

Foi ao perder a disputa pelo coração de uma morena da Lapa com Wilson Batista que Noel começou a implicar com o então principiante compositor. Wilson havia lançado ‘Lenço no Pescoço’ e Noel compôs ‘Rapaz Folgado’, rebatendo a letra. Wilson não se fez de rogado e compôs ‘Mocinho da Vila’. Noel rebateu com a hoje polêmica ‘Feitiço da Vila’. O rival veio de ‘Conversa Fiada’ e Noel com outro futuro clássico, ‘Palpite Infeliz’. Em ‘Frankenstein da Vila’, Wilson caçoou do defeito físico do adversário. Noel não responde e ele insiste, com ‘Terra de Cego’. Noel encerra a briga ao pegar a mesma melodia e escrever ‘Deixa de Ser Convencida’. Com o maior rival, no entanto, Noel nunca teve um embate. Foi o ator e compositor Mário Lago, que conheceu Ceci em 1936. Dividida entre os dois, ela não abre mão de nenhum: gosta de Mário, mas sabe que só Noel a entende e vice-versa. São farinha do mesmo saco.

A atrofia do lado direito do rosto não impediu que Noel fizesse sucesso com as mulheres: foram muitas as que passaram por sua vida, algumas delas ao mesmo tempo. “Como um rapaz com o rosto marcado ia ter a atenção das garotas? A música foi como ele chegou à mulher”, explica o pesquisador e músico Carlos Didier, biógrafo do artista. As que ficaram para a história, no entanto, são quatro. Clara foi a primeira: em 1927, ele manda um bilhete à menina de seu bairro que os irmãos tanto tentavam proteger. Ficariam juntos por ainda seis, sete anos. Mais tarde, depois de se casar com outro e com filhos, ela confessaria que Noel foi a paixão de sua vida. Josefina Telles Nunes, a Fina, também era de Vila Isabel e começa a namorar o compositor em 1930. Para ela, ele

comporia ‘Riso de Criança’ e ‘Três Apitos’, pensando que a namorada trabalhava na fábrica de tecidos do bairro. Júlia Bernardes, a Julinha, é romance conturbado. Ela chega em 1932, é mais velha, trabalha em um cabaré da Lapa e faz escândalos. Lindaura surge na vida de Noel no ano seguinte. É expulsa de casa pela mãe por dormir com o namorado antes do casamento e vai morar com ele. Passa noites esperando por Noel, que diz que “já volta” e desaparece. A contragosto, ele casa-se com ela no ano seguinte, por pressão da família. Para Lindaura, dedicou uma única canção: ‘Você Vai Se Quiser’. O grande amor, no entanto, é Juracy Corrêa de Moraes, a dançarina de cabaré Ceci. É na Lapa que eles se conhecem em 1934, para voltarem sempre aos braços um do outro. É a musa de músicas como ‘Dama do Cabaré’, ‘Pra Que Mentir?’ e ‘Último Desejo’.

Wilson B atista (a cima) ba nível e ca ixou o çoou do defeito d e Noel

“Quem é você que não sabe o que diz? Meu Deus do Céu, que palpite infeliz!” Noel Rosa, em ‘Palpite Infeliz’

“Boa impressão nunca se tem / Quando se encontra um certo alguém / Que até parece um Frankenstein” Wilson Batista, em ‘Frankenstein da Vila’. Noel não responde à última provocação e Batista compõe ‘Terra de Cego’, da qual Noel aproveita a melodia para fazer ‘Deixa de Ser Convencida’


felipe o’neill

Noel Rosa

Agora vou mudar minha conduta / eu vou pra luta / pois eu quero me aprumar / Vou tratar você com a força bruta / pra poder me reabilitar / Pois esta vida não está sopa / E eu pergunto: com que roupa / Com que roupa que eu vou / pro samba que você me convidou? / Com que roupa que eu vou / pro samba que você me convidou? / Agora, eu não ando mais fagueiro / pois o dinheiro não é fácil de ganhar / Mesmo eu sendo um cabra trapaceiro / não consigo ter nem pra gastar / Eu já corri de vento em popa / mas agora com que roupa / Com que roupa que eu vou / pro samba que você me convidou? / Com que roupa que eu vou / pro samba que você me convidou? / Eu hoje estou pulando como sapo / pra ver se escapo / desta praga de urubu / Já estou coberto de farrapo / eu vou acabar ficando nu / Meu terno já virou estopa / e eu nem sei mais com que roupa / Com que roupa que eu vou / pro samba que você me convidou? / Com que roupa que eu vou / pro samba que você me convidou?


ra e fa lr ap os o

fotos:

De bambas para bamba: Marquinhos de Oswaldo Cruz, Delcio Carvalho, Marcelo Morais, Nonato, Gallotti, Dorina, Adilson e Mauro Diniz ao redor de Noel (o ator Rafael Raposo), na Lapa

felipe

o’neill

Terno branco, gravata, sapato, chapéu e muito samba. Três anos após dar vida ao compositor no filme “Noel – Poeta da Vila”, o ator Rafael Raposo aceitou reviver o personagem a convite de O DIA. Vestido a caráter, Rafael se emocionou ao participar da festa promovida para celebrar os 100 anos de nascimento do poeta da Vila, e que contou com a presença de artistas de várias gerações. Ao redor de uma mesa no Rio Scenarium, na Lapa, sambistas como Mauro Diniz, Dorina, Marquinhos de Oswaldo Cruz, Eduardo Gallotti, Delcio Carvalho, Adilson Pereira e Marcelo Morais (ambos da Velha Guarda Musical de Vila Isabel), e José Antônio Nonato (pesquisador musical) se juntaram a Rafael Raposo para reverenciar Noel. Tudo isso regado a clássicos como ‘Feitiço da Vila’, ‘Palpite Infeliz’, ‘As Pastorinhas’, ‘Com Que Roupa?’ e ‘Fita Amarela’. Tamborim, cavaquinho, violão e cerveja não poderiam faltar na festa que O DIA fez para o bamba. Entre um clássico e outro, o ator, que nasceu no Rio e tem 30 anos, relembrou o desafio de compor o personagem que

mudaria sua vida. “Alguns anos passados do filme, eu consigo ter a impressão do que é ter interpretado Noel. Na época, eu não tinha a dimensão do personagem nem da obra. Nunca poderia imaginar que seria um trabalho que serviria de referência para mim. Hoje as pessoas conhecem o Rafael Raposo e sabem que ele fez um filme sobre Noel. Poucos atores conseguem ter essa referência e eu consegui”, emociona-se. Para incorporar o espírito do poeta, Rafael teve que emagrecer muito. Passou dos 63 kg para os 49 kg. “O mais difícil foi separar o Noel ídolo e criar o Noel humano, que pudesse ser qualquer pessoa. Queria humanizá-lo, porque às vezes o Noel parece um personagem que nem existiu. Na frente do gênio, teve o humano”, destaca. Para recriar a atmosfera dos anos 20 e 30, refez trajetos históricos. “Fiz sucessivas caminhadas entre a Lapa e a Mangueira, e entre a Vila Isabel e a Lapa. Deixava meu carro no Centro e ia andando para a Vila às 4 horas da manhã. Tentei imaginar as coisas que ele sentia. Ele não era um suicida, mas praticamente se suicidou. Ele sabia da tuberculose e continuou a fumar”, conta. Para reproduzir uma das


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Assista na TV O DIA: vídeo com os músicos e o ator Rafael Raposo na festa para Noel no Rio Scenarium: www.tvodia.com.br

maiores paixões de Noel, a boemia, o ator teve que se desdobrar. “Não sou da noite e não podia beber de verdade no filme, então tive que criar uma técnica para ficar tonto. Rodava, rodava e entrava em cena”, detalha. Apesar da movimentação no ano do centenário, Rafael Raposo critica a falta de projetos para manter viva a memória do bamba. “Noel não é lembrado como deveria. Se fosse americano, seria outra coisa. Eles mantêm a memória deles e o Brasil, não. As pessoas não conhecem mais as músicas dele. Acho que falta uma coisa de base e governamental para acertar isso. Para um país que quer ser potência, ainda dá tempo. É preciso levar Noel para as escolas”, opina. Em comum, além da paixão pela obra, todos os convidados da festa de Noel já gravaram pelo menos uma música do Rei da Vila. Para Dorina, o samba deve a Noel a aproximação entre compositores da cidade e os marginalizados. “Ele juntou o asfalto e o morro. Ainda se canta Noel como se as músicas fossem feitas hoje”. Mauro Diniz faz coro: “Conheci Noel ouvindo Araci de Almeida. É um compositor fundamental para o samba e para a MPB. Meu pai sempre conta que conhe-

ceu minha mãe ouvindo uma música do Noel”. Além dos palcos, a presença também é constante nos pagodes da cidade. “Sempre reservo um espaço nas minhas rodas de samba para cantar Noel Rosa. Como músico, faço questão de sempre lembrar da importância de sua obra”, conta Eduardo Gallotti, cavaquinista e um dos fundadores do grupo Anjos da Lua. Marquinhos de Oswaldo Cruz também reverencia o poeta no Pagode do Trem: “Cultura é memória e quanto mais a gente lembrar de Noel, melhor será para o samba. Ele nos deu uma grande lição de tolerância e convivência”. Para Delcio Carvalho, a inovação é o maior legado do compositor: “Noel abordou temas que eram tabus na socidade. Ele falou da mulata, das vizinhas, do cafetão, do homossexual e tudo mais. Isso é coisa de gênio, pois retratou o povo de verdade, sempre com humor”, opina o grande parceiro de Dona Ivone Lara. “Noel Rosa é o maior ícone do nosso bairro. Seja na rua mais pobre de Vila Isabel ou mesmo na Rússia, onde já fizemos shows, o legado dele sempre é lembrado”, exalta Adilson Pereira, o Adilson da Vila, líder da Velha Guarda da Azul e Branca.


felipe o’neill

Composição: Noel Rosa

Nosso amor que eu não esqueço, E que teve o seu começo Numa festa de São João Morre hoje sem foguete, Sem retrato e sem bilhete, Sem luar, sem violão. Perto de você me calo, Tudo penso e nada falo Tenho medo de chorar. Nunca mais quero o seu beijo, Mas meu último desejo Você não pode negar. Se alguma pessoa amiga Pedir que você lhe diga Se você me quer ou não, Diga que você me adora, Que você lamenta e chora A nossa separação. Às pessoas que eu detesto, Diga sempre que eu não presto Que meu lar é o botequim, Que eu arruinei sua vida Que eu não mereço a comida Que você pagou pra mim.


domingo, 5 de dezembro de 2010

CADERNO ESPECIAL O DIA 11

= Rio de Janeiro, 4 de maio de 1937

amortedenoel

O TRISTE ADEUS DO POETA se deu através da tuberculose, agravada POR SEUS VELHOS HÁBITOS: o cigarro e O ÁLCOOL

Talvez por já desconfiar que sua passagem pela Terra seria breve, ou talvez por ter escolhido que assim fosse, Noel Rosa viveu com a intensidade dos que têm urgência. Marcado desde o nascimento, ele nunca teve a saúde muito forte. O problema no queixo ia além da questão estética: não conseguia abrir a boca totalmente, o que dificultava na hora de comer. Além de ser motivo de vergonha — ele comia escondido desde os tempos do ginásio — também fez com que optasse pelo que fosse fácil de ingerir: sopas e, na maior parte das vezes, apenas bebida alcóolica. A bebida e o cigarro, aliás,

foram companheiros aos quais ele foi mais fiel do que a qualquer mulher: mesmo nos períodos em que o médico recomendava repouso, Noel Rosa não abandonava os velhos hábitos. “Ninguém foi mais boêmio que Noel. Ele passava a noite inteira na rua, dormia o dia inteiro”, afirma o jornalista e biógrafo do músico, João Máximo. “O Cartola dizia: ‘Como bebia esse rapaz!’ Para o Cartola falar isso, imagina”, diz. Em 1934, contraiu tuberculose, na época doença assustadora e sem cura. Por insistência da família, foi para a casa dos tios, em Belo Horizonte. Disse que só iria se Lindaura fosse. Dona Martha, sua mãe, exigiu que eles, então, se casassem — o que aconte-

ceu em um cartório no dia 1º de dezembro, muito contra a vontade do noivo. Chegou à capital mineira em janeiro de 1935 e logo se enturmou com a boemia local. Tudo muito distante das ordens médicas que havia recebido. O que fez com que, em abril, a tia Carmem escrevesse à irmã, avisando que não poderia mais cuidar do sobrinho. A doença nos pulmões voltaria a assombrar Noel outras vezes. Nos últimos anos de vida, os dentes já estavam podres: a pouca abertura da boca sempre dificultou o cuidado com eles. O mau hálito era tanto que ele falava com a mão à boca para disfarçar. Mas nada era motivo forte o suficiente para que ele abandonasse a cerveja gelada. “O

gelo congela os micróbios”, dizia a amigos preocupados. Em 1936, começou a se desfazer de coisas que lhe eram queridas. Juntou recortes de jornal sobre ele, guardados desde 30 de julho de 1929. “Quem começou a construir a história do Noel Rosa foi o Noel Rosa, quando juntou suas matérias e colou num álbum, porque sabia que ia morrer no ano seguinte”, conta o pesquisador e biógrafo do artista, Carlos Didier. Já não saía como antes, evitando aparecer em seus lugares preferidos , inclusive a Lapa, onde ainda trabalhava Ceci, agora em outro cabaré. Um dos poucos lugares que ainda visitava era o barraco de Cartola, na Mangueira. Em novembro de 1936, deixou um

começo de samba, ‘Nos Três Dias de Folia’, para que o amigo terminasse. E explicou que tinha dois discos a gravar e, em um deles, gostaria de ter os ritmistas da Mangueira. Em seu aniversário de 26 anos, encontrou-se com Ceci. Para ela, pouco antes de morrer, terminou de compor ‘Último Desejo’, misto de declaração de amor e testamento — e pediu ao amigo Vadico que entregasse a letra à amada. Ainda foi a Piraí, estado do Rio, com Lindaura, onde foi salvo por um gesto dela, que arrancou com a mão um coágulo de sua garganta. Morreu de tuberculose em 4 de maio de 1937, no mesmo chalé onde nasceu. Do outro lado da rua, a música de uma festa invadia a casa. O poeta teria aplaudido.


12 O DIA CADERNO ESPECIAL

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ZE

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domingo, 5 de dezembro de 2010

ovizinho ilustredavila NA ESTÁTUA DE NOEL E ONDE ELE VIVEU, em VILA ISABEL, moradores CELEBRAM o Símbolo DO BAIRRO JOÃO LAET

Composição: Noel Rosa

Pra que mentir Se tu ainda não tens Esse dom de saber iludir? Pra quê? Pra que mentir Se não há necessidade de me trair? Pra que mentir Se tu ainda não tens, A malícia de toda mulher? Pra que mentir, se eu sei Que gostas de outro Que te diz que não te quer?

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Pra que mentir tanto assim Se tu sabes que eu já sei Que tu não gostas de mim?! Se tu sabes que eu te quero Apesar de ser traído Pelo teu ódio sincero Ou por teu amor fingido?

Acima (da esq. para a dir.), a produtora Emanuelle Samuto, o estudante Victor Junior, o bancário Dennis Cusatis, o músico Luis Felipe Santos, o advogado Luis Magalhães e a jornalista Angélica Zago. Na outra página, no alto, Marlene Marques, Rute Alves e Gustavo Oliveira: homenagem

Passados mais de 70 anos desde que Noel escreveu os célebres versos “quem nasce lá na Vila, nem sequer vacila ao abraçar o samba”, os moradores do bairro da Zona Norte continuam seguindo à risca o costume eternizado pelo poeta. Seja de maneira mais simples, com pequenas homenagens, ou mais explícita, como sentarse na estátua de Noel e brindar, todos têm a sua maneira de celebrá-lo. Para Marlene Marques, 60 anos, morar no bairro é conviver diariamente com o samba. “Minha família é toda musical. Vários tocavam piano e desde cedo me ensinaram música. Aprendi a gostar de Noel Rosa ao conhecer suas músicas que retratam tão bem o carioca. Ele é como se fosse o Chico Buarque de sua época. Todos no bairro têm orgulho de lembrar de quem ele foi”, diz a advogada, que está há 50 anos no lugar, depois de entoar versos de ‘Conversa de Botequim’. O amor da moradora por Noel foi passado para o filho, Gustavo Oliveira, 26, que se tornou músico e integrante da escola de samba Unidos de Vila Isabel. “Quem mora aqui no bairro acaba conhecendo Noel até mesmo sem querer, assim como o Martinho da Vila. São duas referências obrigatórias. As músicas dele nem aparecem muito nas rodas de samba, mas ninguém as esquece”, opina Gustavo, que elege ‘Feitiço da Vila’ a sua preferida. Erguida em 1996 no início do Boulevard Vinte e Oito de Setembro, a estátua que eterniza Noel Rosa é admirada não só pelos moradores, mas também por quem passa pelo local. Fã do monumento e moradora há sete anos da Rua Hipólito da Costa, Rute Alves destaca o bom humor e a amizade entre as pessoas do bairro como heranças de Noel. “Vila Isabel é pequena e as pessoas se conhecem e se ajudam. As coisas que ele ensinou nas músicas são vistas até hoje”, diz Rute, que é porta-bandeira da Unidos de Vila Isabel. Para ela, o enredo feito pela escola em homenagem a Noel Rosa em 2010 ajudou as pessoas a saberem mais sobre o poeta do samba. “Foi um desfile emocionante e acho que o bairro deu uma grande demonstração de amor a Noel”, exalta a porta-bandeira.


FELIPE O’NEILL

Composição: Noel Rosa

CREDITO DE FOTO

homenagem onde tudo começou Rua Teodoro da Silva, 392. Quem passa pelo movimentado endereço em Vila Isabel nem imagina que ali ficava a casa onde nasceu, cresceu e morreu o compositor. Um prédio de oito andares, batizado de Edifício Noel Rosa, foi erguido há cerca de 50 anos no local. Moradora há pelo menos 40 do prédio, Lurdes Castro, 90 anos, diz que sente orgulho de estar num lugar histórico do bairro. “Quando fez 50 anos que Noel morreu, houve festa e seresta na rua. Fizemos um grande evento e chegamos a dar um buquê de flores para Dona Lindaura, a viúva dele. Adoro meu bairro e tenho prazer de morar num lugar que tem tanta história. Cansei de ouvir o barulho da fábrica Confiança, que segundo a lenda o inspirou a fazer a música ‘Três Apitos’”, relembra a aposentada. Quem também guarda histórias é José Gerônimo, 80 anos, zelador e morador mais antigo. Segundo ele, sempre que uma nova pessoa chega ao prédio, os porteiros fazem questão de contar que naquele local ficava o “chalé” do sambista. “Ele era um boêmio e curtiu bastante a vida”, diz. Para o síndico, Cristiano Sacramento, 35, o lugar tem um peso histórico que deve ser preservado. “Seria importante se fizéssemos um memorial aqui, criássemos um ponto turístico”, sonha. Toda homenagem ao gênio será bem-vinda.

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Lurdes Castro, aposentada

Seu garçom, faça o favor De me trazer depressa Uma boa média que não seja requentada, Um pão bem quente com manteiga à beça, Um guardanapo e um copo d’água bem gelada. Fecha a porta da direita com muito cuidado Que não estou disposto A ficar exposto ao sol. Vá perguntar ao seu freguês do lado Qual foi o resultado do futebol. Se você ficar limpando a mesa, Não me levanto nem pago a despesa. Vá pedir ao seu patrão Uma caneta, um tinteiro, Um envelope e um cartão. Não se esqueça de me dar palitos E um cigarro pra espantar mosquitos. Vá dizer ao charuteiro Que me empreste umas revistas, Um isqueiro e um cinzeiro. Telefone ao menos uma vez Para 344-333 E ordene ao seu Osório Que me mande um guardachuva Aqui pro nosso escritório. Seu garçom, me empreste algum dinheiro Que eu deixei o meu com o bicheiro, Vá dizer ao seu gerente Que pendure esta despesa No cabide ali em frente.

O zelador José Gerônimo, 80, a moradora Lurdes Castro, 90, e o porteiro Geraldo dos Santos, 36, no prédio erguido onde ficava a casa em que Noel nasceu


14 O DIA CADERNO ESPECIAL

1910

O cometa Halley se aproxima da Terra em maio, causando pânico. Em novembro, acontece no Rio a Revolta da Chibata, movimento de marinheiros, quase todos negros ou mulatos, contra os maus tratos sofridos (entre eles, as chibatadas). No dia 11 de dezembro, nasce Noel de Medeiros Rosa, num chalé em Vila Isabel. O uso de fórceps no parto difícil o deixa com um defeito no maxilar.

1914

De 28 de julho de 1914 a 11 de novembro de 1918 acontece a Primeira Guerra Mundial. Depois do bormbardeio de um navio brasileiro, supostamente realizado pelos alemães, o Brasil apoia os aliados, chegando a enviar reforços. O País recebe, também, imigrantes europeus que se refugiam dos conflitos.

1920

O Rei Alberto da Bélgica visita o Brasil. O monarca, primeiro chefe de Estado a nos visitar, fica hospedado no Palácio Guanabara. Em seus passeios pela cidade, o governo procura esconder o que parece indigno aos olhos reais. As prostitutas, por exemplo. Começa a ganhar corpo a ideia de removê-las para uma área delimitada, a futura Zona do Mangue.

1922

Inspirada pelas vanguardas europeias, a Semana de Arte Moderna, em fevereiro, reúne em São Paulo artistas da literatura, artes plásticas, música etc., que buscam renovar a linguagem na arte realizada no Brasil. Em julho, a Revolta dos 18 do Forte de Copacabana, realizada pelo Movimento Tenentista, quer derrubar a República Velha, que, por ser atrelada ao latifúndio e ao poderio dos fazendeiros, se opõe ao ideal democrático vislumbrado por setores das forças armadas, em especial de baixa patente, como tenentes, sargentos, cabos e soldados.

1923

Noel entra para o Ginásio de São Bento. Aprende a tocar bandolim com a mãe. Mais tarde, trocaria o instrumento pelo violão. Torna-se frequentador da Zona do Mangue, a meio caminho entre Vila Isabel e São Bento. Talvez ali, além de Vila Isabel, entre em contato com o samba que viria a ser influência em sua música.

1927

Chega ao Brasil a gravação elétrica, que permite que cantores de vozes menores, como Noel Rosa e Mário Reis, possam gravar discos. Noel encontra o corpo da avó Bellarmina, que se sucida. Ele começa a namorar Clara, com quem ficaria por seis, sete anos.

domingo, 5 de dezembro de 2010

1929 1930 1931

Ano de crise mundial, ‘Crack’ da Bolsa de Nova York. Noel passa a integrar o Bando de Tangarás ao lado de João de Barro (Braguinha), Almirante, Alvinho e Henrique Brito. O grupo toca música nordestina e sertaneja. Grava as primeiras canções. Conhece sambistas do morro, como Canuto, que o apresenta a nomes como Gargalhada. Compõe ‘Com Que Roupa?’, um jeito novo de fazer samba, diferente do chamado ‘samba amaxixado’ de Sinhô e outros nomes da Cidade Nova, e mais próximo dos sambistas do Estácio.

A Revolução de 1930 põe fim à República Velha com golpe militar. Em novembro, Getúlio Vargas assume a presidência. Noel conhece Josephina Telles Nunes, a Fina, um de seus principais amores. Pouco antes da Revolução, grava ‘Com Que Roupa?’. A música é lançada no mês seguinte ao movimento e vira sucesso no Carnaval de 1931. Sambistas da Mangueira e de outros redutos (como Cartola, Aloísio e Sílvio Dias, José da Flauta, Zé Criança, Crispim e Palhaço) criam grupo batizado em homenagem ao samba. Graças a decreto do governo que aprova automaticamente todos os alunos, Noel forma-se no ginásio.

Noel entra na faculdade de Medicina, para logo trancar.

1932

Getúlio assina decreto permitindo que as rádios veiculem anúncios. O ‘Programa Casé’, de Ademar Casé, dá início à rádio comercial no Brasil. Ali, Noel tornase sucesso e ganha cachê. Acontece em São Paulo a Revolução Constitucionalista de 1932, que visava à derrubada do Governo Provisório de Getúlio Vargas e à promulgação de nova constituição para o Brasil. Noel inicia a parceria com o Ismael Silva e torna-se grande amigo de Cartola. Namorando Clara e Fina, se envolve com Júlia Bernardes, a Julinha, mais velha e brigona.

1933

Noel começa a troca de farpas (através de sambas) com o sambista Wilson Batista — que venceu a disputa pelo coração de uma morena da Lapa. Conhece também Lindaura, com quem acabaria se casando, contra a vontade, no ano seguinte.

1934

É promulgada a nova Constituição Brasileira, que prevê eleições presidenciais em 1937. Acontece o encontro de Noel com Juracy Corrêa de Moraes, a Ceci, dançarina de cabaré que seria o grande amor do compositor. Ele conhece Marília Batista e Araci de Almeida, as mulheres que mais interpretam seus sambas (Carmen Miranda já havia gravado, mas sem muita empolgação por parte de Noel, que não gostava do estilo dela). Recebe diagnóstico de tuberculose e a família manda que ele viaje. Noel que ir com Lindaura e sua mãe faz questão do casamento, que acontece em dezembro.

1935

Noel é mandado para Belo Horizonte com Lindaura, em janeiro, a fim de tratar a tuberculose. Lá, logo conhece a boemia local. Volta ao Rio em abril e reencontra Ceci. Em maio, o pai de Noel, Manoel, suicida-se. É o ano em que compõe clássicos como ‘Conversa de Botequim’.


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gilberto gil

1936 1937

A produção cinematográfica do Brasil cresce. O filme ‘Alô, Alô, Carnaval’ tem na trilha canções de Noel. Ele está magro, descuidado, dentes podres. Num cabaré, Ceci conhece Mário Lago. Magoado, Noel deixa de frequentar a Lapa. Conhece Elizeth Cardoso, a quem dá um samba. Em novembro, Cartola é das poucas pessoas que ainda visita. Em seu aniversário, decide rever Ceci. No mesmo mês, morre Henrique Britto, dos Tangarás, deixando Noel abatido.

Em março, o compositor vai para Nova Friburgo com Lindaura, tratar a tuberculose. Na volta, procura Ceci. Vai a Piraí (RJ) com Lindaura, em abril. Dia 1º de maio, ele passa mal e Lindaura, num reflexo, tira da garganta dele um coágulo, salvando sua vida. Ela grita por socorro. Na frente deles, a dona da pensão queima o colchão. Voltam para o Rio de táxi, ele muito fraco e doente. Noel morre no dia 4 de maio, aos 26 anos, em consequência da tuberculose e dos efeitos de sua vida boêmia.

Amanhã

No capítulo de segunda-feira, ‘Noel Rosa por Martinho da Vila’ Diretor de Redação e Jornalista Responsável: Alexandre Freeland Diretor Comercial: Paulo Fraga Editor Executivo de Arte: André Hippertt Editora de Produção: Karla Rondon Prado Produção da festa: Marcia Disitzer e Raphael Azevedo Repórteres: Kamille Viola e Raphael Azevedo TV O DIA: Elcio Braga (reportagem e edição) O DIA Online: Aline Freire (editora), Marlos Mendes (subeditor) e André Falcão (Web) Projeto Gráfico: Renata Maneschy Fotos: Felipe O’Neill e João Laet Tratamento de Imagem: Aliomar Gandra Agradecimentos: Carlos Didier, Rafael Raposo, Rio Scenarium, Café Rio Barcia


Noel Rosa 100 anos  

Caderno especial publicado no Jornal O DIA, do Rio de Janeiro, sobre os cem anos de Noel Rosa.

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