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O inflacionado menu da Última Ceia A comida pintada por diversos artistas famosos ao longo do tempo, em quadros e murais que retratam a Última Ceia, desperta crescente interesse dos historiadores da alimentação. O estudo mais curioso foi divulgado no final de março, às vésperas da última Páscoa cristã, pela revista científica International Journal of Obesity, dos Estados Unidos. Os americanos Brian Wansink, diretor do laboratório de alimentos e marcas da Universidade de Cornell, e seu irmão Craig Wansink, professor de estudos religiosos da Universidade Wesleyan, da Virgínia, descobriram que o volume dos alimentos atribuídos à derradeira refeição de Jesus aumentou gradualmente entre os séculos 11 e 20. Qual o significado disso? Seria a prova de que servir quantidades maiores de comida, induzir as pessoas a excessos gastronômicos, enfim, desequilibrar a dieta da humanidade, não é um fenômeno recente, causado pela sociedade de consumo. Teria começado há cerca de mil anos... Na Última Ceia, conforme o Novo Testamento, Jesus anunciou aos 12 apóstolos que seria traído por um deles. Antes de terminar a refeição, instituiu a Eucaristia. Pegou o pão, benzeu, partiu e deu aos presentes, dizendo-lhes: "Tomai, comei todos: este é o meu corpo." Em seguida, ofereceu-lhes vinho, dizendo: "Bebei todos, porque este é o meu sangue, o sangue da nova aliança, que será espalhado por muitos, para remissão dos pecados. Fazei isto em minha memória." A celebração teria ocorrido no ano 33, para comemorar a Páscoa hebraica, porque Jesus era judeu. Por isso, sobre a mesa bíblica estavam alimentos da tradição religiosa do seu povo: ervas amargas para lembrar o sofrimento causado pela escravidão aos judeus; pão ázimo em recordação da fuga do Egito, quando não havia tempo para deixar a massa levedar; e carne de cordeiro. Os irmãos Wansink investigaram 52 obras de pintores da Última Ceia, de Duccio di Buoninsegna, que viveu na Idade Média, ao contemporâneo Salvador Dalí. Obviamente, analisaram detalhadamente o célebre mural de Leonardo da Vinci (1452-1519), no refeitório do Convento de Santa Maria delle Grazie, em Milão. O genial artista retratou alimentos do seu tempo: pão, purê de nabos, bolos de peixe, além de copos vazios que teriam contido vinho. Outra Última Ceia estudada pelos Wansinks foi o óleo sobre tela exposto na Igreja de San Trovaso, em Veneza, de Jacopo Robusti, o Tintoretto (1518-1594). Ele espalhou pães de massa levedada na mesa e fez um dos discípulos segurar um cálice de vinho rosado. O cenário é de desordem, uma cadeira aparece tombada, os apóstolos estão perplexos, pois Jesus acaba de anunciar sua morte. O estudo de Brian e Craig Wansink mostra que, no espaço de um milênio, a arte imitou a vida. A comida pintada aumentou 69,2%, enquanto as dimensões dos pratos cresceram 65,6% e a do pão alcançou 23,1%. "Isso se acentuou bastante a partir de 1.500", disseram eles. Utilizando um software especial, os Wansinks compararam as medidas das cabeças dos protagonistas da Última Ceia com as dos recipientes de comida colocados à frente e o tamanho dos pratos com os alimentos que continham. Os ingredientes também sofreram mudanças. O peixe aparece em 18% dos quadros e murais, o cordeiro em 14% e o porco em 7%. Quem teve a ideia de realizar a pesquisa foi Craig. Ele sempre se encantou com as interpretações da Última Ceia, embora seja pastor presbiteriano, isto é, adepto da denominação protestante fundada por João Calvino, que recusa o episcopalismo, o governo da Igreja pelos bispos, e condena o uso de imagens no culto. Na verdade, o Novo Testamento mostra que Jesus nunca cometeu excessos à mesa ou fora dela, nem era asceta, como seu primo e antecessor João Batista. Aceitava convites para refeições comunitárias, fossem promovidas por cobradores de impostos ou fariseus. "Se comermos como ele comia, seremos mais saudáveis", sustenta o americano Don Colbert, no livro A Dieta de Jesus e de seus Discípulos (Thomas Nelson Brasil, Rio de Janeiro, 2006). "É o exemplo com relação a bons hábitos alimentares e disciplina, para que vivamos uma vida mais sadia e equilibrada." Na Última Ceia, o empenho do fundador do cristianismo estava inteiramente voltado para a consumação de sua obra. A importância da comida é simbólica.

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