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Loucos por marmelada MARMELO - Em pasta, geleia e compota Os navegadores portugueses sempre levavam caixas de marmelada entre suas provisões de viagem. Vasco da Gama, o fundador do poderio colonial lusitano, cujas façanhas foram cantadas por Luís de Camões em Os Lusíadas, carregava tantas caixas do doce que não dava conta de comê-las, mesmo dividindo com a tripulação. Em 1497, na expedição pioneira às Índias, presenteou com marmelada os povos que encontrou pelo caminho, de Moçambique a Calicute. Pedro Álvares Cabral também transportou o doce na expedição de descoberta do Brasil. A 26 de abril de 1500, após a celebração da primeira missa em território nacional, havia marmelada no jantar servido a bordo da nau capitânia. Foi a primeira sobremesa consumida no país. Logo começou a ser feita aqui. Nossa primeira marmelada teria sido preparada em São Paulo graças ao fidalgo e militar português Martim Afonso de Souza, donatário da Capitania de São Vicente. Na primeira metade do século 16, ele introduziu o marmeleiro e a cana-deaçúcar nas terras que recebeu de d. João III. No livro D. João de Castro (Livraria Civilização, Porto, 1945), sobre o eficientíssimo vice-rei da Índia, a inglesa Elaine Sanceau fala da paixão do biografado por marmelada. Em 1545, sua mulher, d. Leonor Coutinho, que ficara em Lisboa, enviou-lhe a Goa uma enorme caixa da especialidade, sob a responsabilidade do mestre da nau, que jurou "por Deus" entregar o volume intacto ao destinatário. Era a única fraqueza de d. João, homem frugal, guerreiro intrépido, versado em ciências e administrador honrado. A infanta d. Maria, neta de d. Manuel I, o rei que patrocinou a descoberta do Brasil, incluiu a receita do doce em seu famoso caderno de cozinha, quando casou em 1565 com Alessandro Farnese, 3º duque de Parma e Piacenza, na Itália. O mesmo fez d. Catarina Henriqueta de Bragança, filha do soberano lusitano d. João IV, ao casar com Carlos II, da Inglaterra, em 1662. Ela introduziu a marmelada naquele país, mas de sua contribuição sobrou apenas o nome. Ainda hoje o doce é preparado ali com laranja, e não com marmelo, fruta menos valorizada pelos ingleses. A casa real de Bragança, que reinou em Portugal e no Brasil, era louca por marmelada. Um dos seus filhos, nosso querido imperador d. Pedro II, confirmava a regra. Segundo a tradição, gostava da sobremesa originária de Goiás, da área em torno do atual município de Luziânia, antes chamado de Santa Luzia. O médico, geólogo e botânico austríaco Johann Baptist Emanuel Pohl, no livro Viagem no Interior do Brasil – Empreendida nos Anos de 1817 a 1821 (Ministério da Educação e Saúde-INL, Rio de Janeiro, 1951), documenta a predileção. "Os moradores de Santa Luzia vivem em parte de suas plantações, um pouco da criação do gado e do comércio e, principalmente, de uma famosa marmelada que vai até a cidade do Rio de Janeiro." D. Pedro II também consumiria o doce elaborado no sul de Minas, na zona do atual município de Marmelópolis (o nome não foi dado por acaso), ainda famoso. O que diferencia a marmelada dessas regiões? O tipo de fruta utilizada, a constituição do solo e o clima. Originário da Ásia, introduzido na Europa há 4 mil anos, o marmeleiro dá um fruto que, apesar do aroma sedutor, nem sempre se torna apetitoso ao natural. É ao mesmo tempo doce, ácido e amargo. Em compensação, presta-se à elaboração de doces excelentes (além de marmelada, geleia e compota). Nos cinco tipos da planta predominantes no Brasil a constituição físico-química oscila. O sabor amargo, por exemplo, determinado por taninos e compostos fenólicos, apresenta-se mais ou menos intenso. A alta porcentagem de pectina, agente de emulsão que facilita a confecção do doce, vai de 450 mg a 650 mg por 100g. Tudo isso influi em uma marmelada. Prepará-la é bastante fácil. As frutas são descascadas, cortadas ao meio e as sementes, retiradas. A seguir, colocase em um tacho, com água suficiente apenas para cobri-las. Leva-se ao fogo para a obtenção da massa. Tira-se dali, deixa-se esfriar, passa-se em uma peneira de malha fina, pesa-se para decidir a quantidade de açúcar, que vai de 650g a 1 kg por kg de massa. Volta-se ao fogo, mexendo sempre com uma colher de pau. O doce estará no ponto quando se soltar das bordas do tacho. Infelizmente, a marmelada se encontra em declínio no Brasil. A área dedicada ao cultivo do marmeleiro é cada vez menor. A planta foi atacada por uma praga, a entomosporiose, ou requeima, e a queda da rentabilidade de sua cultura desanimou os produtores. Atualmente, o cultivo se limita a certas áreas de Goiás, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e São Paulo, onde a marmelada já foi o principal produto de exportação, antes do ciclo do café. Em compensação, o nome do doce continua inabalável na voz do povo. Marmelada também designa o conluio entre os participantes de um jogo, a fim de que o resultado seja favorável a um deles ou a um terceiro. As pessoas de mais idade, sobretudo do interior, lembram do prazer que era saborear o doce na infância. Entretanto, não conservam boa lembrança do marmeleiro. Com seus longos ramos flexíveis e rijos, os pais de antigamente faziam varas para castigar as má-criações das crianças.


Loucos por marmelada