Page 1

Cachorro, só o de mentira Quase todos os povos já classificaram os animais em puros (adequados) e impuros (impróprios) para o consumo humano. Evidentemente, há exceções. Fustigados pela escassez alimentar, chineses, coreanos, vietnamitas e outros povos do mundo asiático relevaram esse procedimento. Apesar da recente prosperidade que têm alcançado, ainda convertem em alimento animais cujo consumo as populações do mundo ocidental consideram repulsivo. A carne que mais nos horroriza vê-los comer é a do cachorro, prática que para nós equivale a cometer antropofagia. Além disso, apesar da alardeada maciez, essa carne é péssima do ponto de vista gastronômico. Quem a provou garante que o aroma desagradável precisa ser mascarado com fortes condimentos. Na aparência, oscila entre a carne do javali e a do pato. O hábito de consumir xiangrou, como os chineses a denominam, difundiu-se entre a etnia han, majoritária no país (mais de 90% da população), a mesma que no mês passado saiu às ruas para enfrentar a etnia uigur, de fé muçulmana. Em Cantão, é julgada iguaria. Os fãs a consideram rica em substâncias nutritivas e estimulante sexual. Entretanto, os chineses não se sentem à vontade em saboreá-la diante de nós. Tanto que, para não assustar os turistas e "denegrir a imagem do país", o governo proibiu os restaurantes de servirem pratos à base de carne de cachorro durante os Jogos Olímpicos do ano passado. Veja também: Receita de cachorro-quente ao forno A Coreia do Sul não fica atrás. Ali, o consumo do que chamam boshintang é predominantemente masculino. Os fãs são homens na idade madura, atraídos pelos supostos benefícios à saúde e efeitos afrodisíacos. Entre eles, desfruta de prestígio a sopa de cachorro. Entretanto, consomem-na em datas particulares. As mulheres e os jovens modernos, estes influenciados pela cultura ocidental, rejeitam a carne do cão e ignoram a superstição. Felizmente, o costume se encontra em declínio, até porque os defensores dos animais não lhe dão trégua. Na Coreia do Norte do ditador Kim Jong II mata-se o animal à vontade. No mundo ocidental há preparações com nome de cachorro, porém afortunadamente sem a sua carne. Em todo o nosso País o popularíssimo hot dog ou cachorro-quente, sanduíche vindo dos EUA, coleciona milhões de adoradores. Teria surgido em 1906 por uma brincadeira do cartunista Tad Dorgan, do The New York Journal. Ele assistia a um jogo de beisebol. Como fazia bastante frio, um vendedor de sorvetes não encontrava clientes entre os torcedores. Então, decidiu arrematar nas redondezas todas as salsichas (aliás, introduzidas pelos imigrantes alemães, ridicularizados porque não falavam bem o inglês) e comprar os pães disponíveis nas redondezas, fervê-las em água, pôr num pão e oferecê-las aos gritos de "peguem suas salsichas enquanto estão quentes". Tad Dorgan, acomodado na cabine de imprensa, achou a cena divertida. Brincando com a lenda de que os alemães faziam salsichas à base de carne de cachorro, desenhou um cartum apresentando um cão bassê entre duas fatias de pão. Publicou-o no The New York Journal. O animal foi caricaturado latindo, coberto de mostarda, com a legenda: "Pegue seu cachorro-quente!" O cartum fez sucesso e batizou o sanduíche. No Brasil, preferimos cachorro-quente, tradução literal de hot dog. Adoramos o sanduíche. Temos salsichas de ótima qualidade. Saborear um cãozinho, porém, nem pensar!

Cachorro, só o de mentira  
Read more
Read more
Similar to
Popular now
Just for you