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A arriscada vida do provador oficial Governantes do mundo inteiro, do americano Barack Obama ao iraniano Mahmoud Ahmadinejad, têm os alimentos que consomem fiscalizados, nas refeições privadas ou públicas. Mas a figura do provador oficial de comida vem desaparecendo desde o século 19. Envenenar os rivais à mesa deixou de ser o melhor caminho para despachá-los para o outro mundo. Em alguns países, porém, o medo continua. Saddam Hussein, ditador morto do Iraque, requisitou por muito tempo os serviços de Djedju. Entretanto, em função do ofício, o fiel provador soube de coisas que não devia. Qusay Hussein, filho de Saddam, matou o provador com choques na cabeça por não revelar que o pai mantinha um caso com Balkiis, mulher de um executivo da Iraqi Airways. Saddam considerava imprescindível o serviço de Djedju. Enfurecido, mandou prender o filho e cunhou a frase implacável: "Se um olho me incomodar, eu o arrancarei". Outro que se protege de eventual envenenamento à mesa é o presidente Hugo Chávez, da Venezuela. Numa das visitas que fez ao Brasil, chegou à Granja do Torto, em Brasília, escoltado por seu provador de comida. O presidente Lula achou o cuidado exagerado e lhe teria feito mais ou menos a observação: "Em casa não precisa". Já existiram governantes que desconfiaram até dos provadores. O cardeal Richelieu (1585-1642), ministro de Luís XIII, rei da França, socorria-se com seus gatos. Depois de sofrer o primeiro atentado, no qual o chá de erva-cidreira que tomava foi substituído por uma poção fétida - e por isso mesmo a rechaçou -, não levava nada à boca sem dar antes aos animais de estimação. Esperava a reação deles e só depois começava a comer. O extremo cuidado, entretanto, não impediu que, caindo doente, ingerisse inadvertidamente uma beberagem e morresse no dia seguinte. A moda de envenenar as pessoas à mesa esteve em grande voga na Renascença. Os provadores da época poderiam ser comparados aos sommeliers atuais. Dotados de extrema habilidade, detectavam as substâncias perigosas que se ocultavam em comidas e bebidas. E, como experimentavam pouquíssimo, nem sempre se davam mal. Algo parecido acontece com nossos sommeliers. Os bons profissionais identificam as características organolépticas (que impressionam os sentidos) do vinho sem incorrer na embriaguez. Os banquetes renascentistas que mais trabalho deram aos provadores devem ter sido os dos Bórgias. Essa família italiana de origem espanhola, cujos membros mais célebres foram Rodrigo, eleito papa com o nome de Alexandre VI, e os filhos César e Lucrécia, que teve com uma amante, notabilizou-se pelo assassinato à mesa. Seu veneno predileto era a cantarella ou acquetta di Perugia. Segundo alguns historiadores, combinava arsênico, sais de cobre e fósforo. Outros afirmam que misturava arsênico e vísceras de porco. Os ingredientes ficavam juntos por 30 dias em um recipiente fechado. As vísceras apodreciam e se recolhia o líquido para evaporar. O resultado era uma substância branca, com aparência de açúcar, mortal até em pequenas doses. Por ter sido usado demais, o veneno dos Bórgias tornou-se facilmente reconhecível. Assim, como pretendessem envenenar o cardeal Franco Minetto, crítico da descarada corrupção na cúpula da Igreja Católica, os cruéis e devassos Alexandre VI e César teriam encomendado a Leonardo da Vinci um sucedâneo imperceptível, mas também letal. O genial artista fora contratado pelo filho do papa para as funções de cartógrafo, geógrafo e engenheiro militar, após trabalhar vários anos, em Milão, para o duque Ludovico Sforza. Obviamente, ficou pouco no novo emprego. Mesmo pesquisando dia e noite, Leonardo não dava conta da encomenda, até porque detestava venenos. Mas, faltando poucos dias para o banquete que os Bórgias ofereceriam a Minetto, ele cruzou com um conhecido que viajara para a América sob as ordens de Cristóvão Colombo, onde encontrara, em 1498, nas Ilhas de Trinidad e Tobago, a solução para o problema: uma erva chamada ichigua. Com as folhas que ganhou de presente do amigo, Leonardo começou a experiência. Picou-as finamente e pôs para ferver em líquido. A combinação resultou em um caldo concentrado. Sem coragem para testá-lo no ser humano, provou-o com a ponta da língua. Percebeu-o desprovido de qualquer aroma e sabor. O problema era saber em que quantidade usá-lo. Pensava nisso, quando o gato de Lucrécia apareceu para tomar leite em um prato deixado no chão. Leonardo não teve dúvida: dissolveu certa quantidade do concentrado no leite, que o animal bebeu e foi embora. Na manhã seguinte, Lucrécia andava aos prantos. Seu gato havia sumido. Leonardo teve certeza de que o veneno funcionava. No dia do banquete, os Bórgias mandaram servir a Minetto um prato de trutas cujo molho escondia generosa porção do concentrado.


O provador do cardeal o experimentou e autorizou o patrão a comer. Instantes depois, Minetto levantou da mesa com as mãos na garganta e morreu asfixiado. No meio da confusão, uma surpresa. O gato de Lucrécia reapareceu e atacou os alimentos abandonados. A seguir, descobriu-se que o cardeal morrera com uma espinha atravessada na garganta. Alguns historiadores duvidam da veracidade desse relato. Outros, porém, repetem a máxima italiana: Se non è vero, è ben trovato.

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