Page 1

1


2


4


Grim贸rio


A Casa de Bonecas


O corredor de entrada era claustrofóbico e no topo das escadas em caracol vinha um cheiro intoxicante a tabaco. Enquanto tentava compreender como tinha acabado numa casa perto do fim do mundo com dois desconhecidos ( e um amigo irresponsavél para consolo) não dei conta do que unia o corredor às escadas, e estas à sala onde passaríamos o resto da tarde. A sala, essa pude conhecer bem: os poucos móveis que havia estavam despidos de qualquer adorno e aparentemente não guardavam coisa alguma. Conferiam um aspecto abandonado à divisão. Pouca coisa deixava adivinhar a perícia do artista que dava vida aquele espaço. Contudo, quando aquele som familiar começou e a agulha atravessou a pele, senti que estava a aprender tudo de novo. Uma nova abordagem ao acto de tatuar e ao próprio acto de desenhar que me reduziu ao meu insignificante conhecimento do mundo. Um traço firme e seguro que formou tentáculos, caras com vários pares de olhos e corpos com inúmeras pernas transformou-se na composição sorreal e estilizada que preencheu o fim de tarde.

9


Frente e Verso


12

Faltam duas horas para dar início ao espectáculo: o grupo diz piadas, ri, come. Começa-se a fazer a maquilhagem, calmamente, nada sério. Falta uma hora: tempo de vestir, preparar para o aquecimento. A situação começa a ficar desconfortável. Falta meia hora. A partir deste momento, o nível de ansiedade cresce a pique: cadeiras voam do andar de cima; “Onde é que está a tesoura?”; “onde é que meteram a minha roupa?”; “Daqui a 2 minutos quero toda a gente no palco”. Uma agitação incontrolável, barulho crescente, NER-VO-SISMO e, de repente – silêncio. “Pá pé pi pó pu. O rato roeu a rolha da garrafa do rei da Rússia….paaan-dá, paaan-dá, paan-dá, paan-dá, pan-dá, pan-dá, PAN-DÁ, PAN-DÁ,….” a voz está aquecida, o nervosismo foi expulso e o público vai entrar. Mas antes rebenta uma explosão de belas merdas, e cumprimentam-se os actores como se ainda não se tivessem cruzado hoje, como se não estivessem sempre juntos e como se não fizessem a peça todos os dias. É hora do espectáculo. Todo um semestre de trabalho, tempo e dinheiro dispensado é resumido a 60 minutos para 60 pessoas. Mas o número mais importante é talvez o 2, de 2 minutos de palmas genuínas após o cair do pano.


13


Alma


16


A cinco mil metros de altitude, num ambiente de ar rarefeito e cristalino, as gigantescas antenas parabólicas que se erguem na paisagem inóspita do deserto de Atacama, no Norte do Chile, parecem uma visão surreal. Aquele é o ALMA (Atacama Large Millimeter/submillimeter Array) um novo telescópio, feito de várias dezenas de enormes antenas parabólicas. É inaugurado amanhã no planalto de Chajnantor. Esperam-se muitas novidades para os próximos anos das observações que ele vai proporcionar, já que a sua sensibilidade permite ver as galáxias, as estrelas e os planetas como nunca antes foi possível. No currículo, o ALMA, que capta sinais de radiação com um milímetro, conseguiu registar, por exemplo, “correntes de gás molecular num disco em torno de uma estrela em formação”, explica por seu turno o jovem astrofísico português Hugo Messias, que está neste momento no Chile a trabalhar dados do ALMA. Mas isto é mesmo só o princípio. Até as manchinhas de luz que se pensa serem as primeiras galáxias do universo estão agora ao alcance dos cientistas, e tudo indica que a astronomia estará em vésperas de uma revolução comparável à do tempo de Galileu. in jornal Diário de Notícias

17


O Fim dos Dias


20

O mundo em que me encontro é diferente daquele de onde venho. Estive a dormir durante décadas, séculos talvez, durante o meu sono, sonhei com o Escudo da Lua e fui acordada para o encontrar. Agora a natureza e a sua liberdade envolvem-me. Aqui não há casas, já não é necessário dormir, não é necessário estar ligado a nada, nunca volto ao mesmo sítio, por onde a vida vai, eu sigo-a, é este o meu lema. Mas às vezes sinto falta de um sítio seguro onde não tenha de estar preocupada com as criaturas preparadas para me exterminar que se encontram por todo o lado. A minha magia às vezes não chega, nunca chega. Sou um ser em rápida e constante evolução, assim como o são os meus inimigos. Mas é o meu conhecimento anterior a esta vida que me distingue. Neste mundo eu sou a personagem principal. E aqui eu venho para salvar e ser salva. Venho para libertar povoações de identidades malignas e livrarme do aborrecimento dos dias iguais do planeta não virtual.


Os Sem Fim


24


Mas claro que nunca vemos o principio. Chegamos no meio, depois de as luzes se desligarem e tentamos dar sentido à história até agora. Perguntamos ao vizinho do lado “Quem é ele? Quem é ela? Já se tinham encontrado antes?” Cortamos caminho. Neste caso, imaginemos este nosso vizinho do lado alto, vestido talvez num velho hábito monástico, a sua face escondida nas sombras do capuz. Dele emana um cheiro a idade e a pó, não de uma forma desagradável, e nas suas mãos, carrega um livro. Assim que ele abre o livro (revestido em cabedal, indubitavelmente, e cada letra que contém foi meticulosamente desenhada pela sua própria mão) ouvimos o clink do metal, e apercebemo-nos que o livro está acorrentado ao seu pulso. Não importa. Já vimos coisas mais estranhas em sonhos; e as ficções são apenas sonhos congelados, imagens ligadas com semelhante estrutura. Não são para ser confiadas, não mais do que nas pessoas que as criam. Estaremos a sonhar? Possivelmente. Mas o homem do hábito está a falar. A sua voz é como o som de folhas velhas a serem vasculhadas numa biblioteca, à noite, quando as pessoas já foram para casa e os livros começam a ler-se a eles próprios. E nós paramos para ouvir: a história até agora. Neil Gaiman, The Sandman: Doll’s House

25


Passageiros


28

Nos primeiros dias em que viajei de comboio para a faculdade, não conseguia suportar os trinta minutos de viagem. Não conseguia suportar a falta de acção, a perda de tempo. Não trazer música ou um livro na mochila era um dia estragado. Agora olho pela janela e vejo a chuva a escorrer pelo vidro, a água percorre o mesmo caminho, acumulando-se numa gota até nao poder mais e transborda noutra direcção sempre a correr. Dou por mim a pensar em nada, ou a pensar em tudo, no que já há muito estava esquecido e no que está para um dia ser recordado. E penso que sou filósofa de tão fundo que se perde o meu pensamento. E por muito que pense, não penso em meter os auscultadores nos ouvidos ou em abrir o livro. Não me quero transportar para o mundo dos outros quando posso sonhar acordada num espaço construído por mim. Estou do lado de fora da carruagem e o vento corta-me a cara. O comboio é um local civilizado. Às tantas já perdi o meu corpo. E saio na minha paragem e o tempo foi pouco.


29


Medo da Queda


32

Nunca fui de acreditar em superstições. Nunca fui de acreditar em sorte ou azar. Excepto, talvez, quando quis ter umas cuecas da sorte, mas em vez disso fiquei-me por um anel que, quase indubitavelmente, me trazia azar. E, confesso, nunca mais o utilizei por esse motivo. Mas isso é uma história que já lá vai e agora sou uma convicta não crente, contudo eis que o destino (força de expressão, também nego o destino) ontem decidiu pregar-me uma rasteira: o dia começou mais tarde do que o previsto; a somar a este atraso o carro teve problemas, não sabia do telemovel, voltei a casa, a mãe veio do trabalho para ajudar, o carro estava óptimo, apanhei o comboio (o segundo, depois de o primeiro me ter ter escapado entre os dedos), durante a viagem apercebi-me que deixei a pasta na estação, uma lágrima correu, regressei e fui novamente. E o dia voltou ao normal, mas nunca soube tão bem um pôr do sol. Ainda assim, não acredito.


33


Sonho de uma noite de Ver達o


36

“Tens a certeza que estamos despertos? Pareque que ainda dormimos, que tudo isto é um sonho.” William Shakespeare, Sonho de uma Noite de Verão

Mantive-me estática o dia inteiro, o mês inteiro, diria melhor. Mas a verdade é que a inércia tomou conta de mim muito antes disso. Limitava-me a ver a paisagem mudar através da janela, ou, por vezes, nem isso. Os dias tansformam-se num só, infinitamente continuo e demasiado longo. E contra todas as probabilidades, hoje senti-me diferente, hoje levantei-me da cadeira do canto da sala e corri para a rua e quando pisei o asfalto, corri ainda mais, a uma velocidade capaz de desafiar qualquer mecanismo de viagem espaço-temporal. Perguntei-me se alguma vez teria tido pernas, julguei nunca ter tido um corpo. No entanto, ali estava eu de coração acelerado, a teleportar-me da minha existência, finalmente.


37


“Outubro sabia, claro, que a acção de virar uma página, de terminar um capítulo ou de fechar um livro não punha um final numa história. Tendo admitido isso, afirmaria também que os finais felizes nunca era difíceis de encontrar: “É simplesmente uma questão,” explicou a Abril, “de encontrar um lugar solarengo num jardim, onde a luz é dourada e a relva é macia; um lugar para descansar, para parar de ler e para ficar satisfeito” Neil Gaiman, The Sandman: Season of Mists


Conteúdo A Casa de Bonecas

3

Frente e Verso

7

Alma

11

O Fim dos Dias

15

Os Sem Fim

19

Passageiros

23

Medo da Queda

27

Sonho de uma Noite de Verão

31


GRIMÓRIO Ana Rita Afonso Textos e ilustrações de Ana Rita Afonso N. 6916 Cadeira de Design de Comunicação I Licenciatura em Design de Comunicação Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa 2013


46

Grimório  

Livro ilustrado para a cadeira de Design de Comunicação I. Faculdade de Belas Artes. 2013. Ana Rita Afonso

Read more
Read more
Similar to
Popular now
Just for you