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PREFÁCIO N

o Brasil, os desastres são a regra e não a exceção no contexto sociopolítico e socioambiental nacional. A nosso ver, o fenômeno de proliferação de desastres, mais do que os casos esporádicos que ganham circunstancial notoriedade por meio da mídia, deveria ser objeto de inquietação pública e tomar a frente dos debates no centro do poder, envolvendo as diferentes esferas de governo. Afinal, é de se indagar: qual país pode seguir adiante, em suas aspirações de desenvolvimento, sem discutir seriamente os percalços de grande monta que afrontam constantemente sua gente, bem como seus recursos materiais e simbólicos? O Brasil é, infelizmente, uma resposta embaraçosa a essa indagação. Aqui, as autoridades constituídas seguem temerariamente em seu propósito de confundir desenvolvimento com (pífios) índices de crescimento econômico obtidos tanto por intermédio da retomada da ‘vocação’ primário-exportadora, a qual dilacera nosso patrimônio ambiental, quanto por meio de um empurrão na sociedade para que esta caia resolutamente nas armadilhas do frenesi consumista e do endividamento exponencial. Enquanto isso, o derredor no qual o homem simples vive cotidianamente – constituído pela infraestrutura e serviços públicos, que vão do abastecimento hídrico ao transporte público, da educação à saúde – se deteriora a olhos vistos. Essa deterioração, que é uma crise crônica irresoluta, cria as condições socioambientais propícias à deflagração de crises súbitas, como são os desastres. Podemos destacar três elementos que nos parecem fundamentais para explicar a razão da invisibilidade social dos desastres, os quais, nessa relativa ocultação, vão se agigantando. O primeiro deles é a banalização das ocorrências de desastres na vida social. Tornam-se frequentes as notícias acerca de decretações municipais de situação de emergência, bem como de estado de calamidade pública, nas diferentes macrorregiões do país, o que, em vez de despertar a opinião pública, a entorpece e enfastia. Contemporaneamente, somos incitados a ter interesse prioritário pelos contextos identificados como sendo de excepcionalidade e, cada vez mais, arrastados para uma devoção às amenidades. Os apelos dos gadgets eletrônicos móveis, a que a vida urbana exige se portar ininterruptamente, são para que se despenda o máximo de tempo possível com frivolidades. Para tais espectadores, que estão fora do ‘cenário’ do desastre, as informações sobre os acontecimentos se misturam deliberadamente. As notícias superficiais sobre um episódio de devastação

Campos de desabrigados  
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