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N ÃO NO O

ACHARÁS , AMOR ,

POÇO EM QUE CAIS

QUE NA ALTURA GUARDO PARA TI :

UM

RAMO DE JASMINS TODO ORVALHADO ,

UM

BEIJO MAIS PROFUNDO QUE ESSE ABISMO .

Pablo Neruda (O poço)


O

s ladrilhos das fachadas amarelejam ao longo do caminho para o fim. Bordas de blusa ondulam sob o voo leve do pássaro de

um sonho. As mãos que se juntaram ante o papel de car ta qual prece envoltas em lubricidade atroz se agitam saindo das mangas de veludo gasto. Dedos desenhados conforme as luzes da noite. A saia cuja textura não permite que se determine a cor adeja, mansa e inexaurível, tomada de suntuosidade súbita. Os traços do rosto na aura de medo e sofrimento não se atribuem a imponente beleza que os transeuntes detectam. Para o fim. Ela sabe. Escuta nos carros que passam. Está escrito no dia entre os prédios vacilante. Entende com a razão que resta. Em meio ao crepúsculo de cimento decidiu seguir e encontrar um sentido para o fim. É véspera do inverno mas digamme se essa temperatura poderá baixar mais. É friorenta. Seu casaquinho mais quente estava úmido da chuva do dia anterior. Esta saia não é adequada. Mas decer to ainda estaria muito frio.


Uma noite dessas. Um dia faz tempo. A chegada. Não mais que uma semana. Disseram que o centro não estava longe. Que seguisse a avenida até o parque e virasse à direita no semáforo. Não disseram quantos quar teirões isso significava. Desembarca. Meio-dia gelado. Esta avenida. Não vê nada ao redor. Por que mesmo não acompanhou a moça? Medo de pessoas pouco conhecidas. De lugares desconhecidos. Pavor de recomeços.

Luzes de uma janela. Vozes de crianças. Um vulto recor tado contra a sala. Disse aos vizinhos que o emprego estava cer to. Não precisa ir, Alice. Não precisa ir – reiterou o cisco em seu olho. Você tem tudo aqui. Devia terminar a faculdade. Fazer um doutorado. Um dia ela achará o mesmo. Um dia como sempre quando não mais for possível.


Ela não conversa há dias. Terá de inventar a salvação em silêncio. A última vez que conversou foi com a moça com quem viajou. Saiu do ônibus sentindo o esforço. A voz soava vibrando e provocando intensa fadiga que a fez pensar como seria bom se houvesse outra forma de comunicação. Ademais palavras aceitam tudo. Diziam que era bonita. Isso antes de não ter para onde ir. Lisonjas. Mentiras e lisonjas. Substância de que o mundo é feito. Então está preparada para tudo. Nada de escrúpulo ou remorso. Até porque é tarde. Seu duplo exausto passou pela montra enquanto lá dentro a vendedora apanhava um sapato na vitrine. Parece seu número. Um modelo do seu tipo. Tiras e ligas. Uma atendente bonita. De que vale a beleza agora? Dinheiro é o único poder. Olhos fechados. Um após outro passam. De Darken Pöbel a Öffner Hilo. Com um ela ficou na ponta dos pés; com outro deixou o celular cair. As faces se dissolvem na névoa. Transitoriedade. Não um pesadelo como preferiria acreditar. A vigília e o sono. Porque a dor


dos sonhos tem hora marcada para acabar, mas quando terรก algum descanso?


Segurou-lhe o queixo e a puxou para si. O polegar na face realça a sombra da maçã de seu rosto. Está dizendo alguma coisa. Ela não faz idéia do que seja, quer apenas se livrar. Por que então hesitou perante o beijo? por que permitiu ou ao menos não lutou? Assim se constituiu a premissa: ela lhe permitirá tudo. Pomba gemendo em círculos na praça sobre farelo de tempos aéreos num mundo inóspito mais inóspito quanto intensos os sonhos.

Se com timidez aceitou a aproximação dele estava impregnada de impressões que a confortavam e angustiavam. Sua expressão não o traduzia mas veria em seu futuro. A forma como estão ligados o conforto e a angústia e nunca podem ser efetivamente expressos pelo semblante. Leu algo assim nas estantes de História mas o que sabem os livros? o que os autores se permitem dizer além do que se convenciona? Isso não mudará se o livro de papel


acabar. Se o mundo físico der mesmo lugar a esse outro virtual e sem rosto além das imagens das redes sociais e dos mecanismos de busca. Quanto a ela, não poderia esquecer aqueles dias em que um desejo próximo do sobrenatural a guiava e determinava os acontecimentos. Não quer voltar àquele tempo e todavia ali está diariamente . Uma fresta na multidão. Ele. Vindo. Lindo. Não mais. Mas ali – ali – junto dela. Aceita tomar um café comigo? Que moça carente sozinha numa cidade estrangeira poderia recusar? Tão gentil e muito lindo. Ensina agora como chegar à casa da amiga.

Finalmente o livramento. Por causa de quem ela não era. Ao longo de platibandas e arranjos de ramos entrelaçados por entre os quais se via as pessoas com seus celulares à mesa diante dos pratos. Os dois caminhando juntos se manifestava a diferença de altura. Vulto de uma desejável cordilheira. Olhe que


sorriso sincero. O sol do fim da tarde em seus cabelos – santa aureolada. O ombro esquerdo dela toca-lhe o lado direito do peito rígido. Não é mais um rapazola mas está longe de ser tão mais velho como ela a princípio imaginou. O tecido suave dessa blusa creme lhe cai tão bem. Adere melhor à personalidade após um tempo de uso. Alcançaram o largo corredor ao livre onde para além das muretas o tráfego se arrastava O que estou dizendo? não o conheço. Ele apanhava papéis de bala e maços amassados no chão e colocava nas alaranjadas lixeirinhas e arredondadas. – Após o teatro a primeira rua à esquerda. Do outro lado irá aparecer uma padaria. Costuma ter grande movimento. Se ela quisesse mesmo procurar a casa da amiga. Ela devolve o sorriso franco. Um dia terá como costume se refugiar naquela padaria para comer sonhos em meio ao burburinho democrático dos bebedores de cer veja do fim de noite e os


madrugadores tomando café. O seu é preto não é, senhorita? Ela um dia haverá também de ter seus fãs por ali. Por agora era a última coisa que ela queria na vida continuar procurando a casa de uma moça cujos propósitos não ficaram muito claros justamente agora que havia conhecido o amor de sua vida. Por isso não resistiu. Foi um beijo per feito, o primeiro, sob a lua.


A vitrine reflete a cabeça inclinada para o lado direito. A leve dor no movimento é resquício da posição no ônibus. Não é uma dor má pois a lembra de suas ilusões quando os cabelos tocaram no ombro da companheira de viagem. Fragmentos das conversas dos transeuntes se transformam em um discurso lógico na profundeza de si mesma. Sozinha sobre o viaduto. Longe o metrô no trecho de super fície. Essa que agora sou, eu, nascida da ambição indolente em que a dor substituiu as expectativas mesmo antes que se houvessem de todo frustrado, ela não vê mais o lar e o trabalho promissor e, como a onda solitária que entre outras é a única que enche e não arrebenta, na super fície do mar uma orla de espuma abor tada, cansada, tensa, sozinha, carregando um mundo destruído em cada fibra do ser, oh Deus, pensou ao focalizar a luz amarelada nos ladrilhos, quisera romper para sempre esse deplorável círculo vicioso. Encheu os pulmões. Ajeitou a meia e demorou-se no relevo escuro da par te de trás do joelho como quem faz uma


verificação em nome da qual desliza os dedos mais acima onde a maciez está morna do mesmo reflexo diante de si na vidraça lateral da estação onde entrará aliás pode dizer a si mesma exatamente para quê? Música nos rádios dos carros cujo brilho metalino se diluía no ar cinzento em que os tons se substituíam sempre no sentido de menos cor.


Diz a si mesma que é possível sim contornar a mor te mas não acreditou no que disse porque se distraiu com uma rajada debaixo da saia onde a mão dele estará depois do café. E ela pensava que sabia quem era e que conhecia os homens. Seguiu caminhando ao passar pela entrada do metrô no que saiu do massa humana em que pensara se integrar e atravessou a rua numa corridinha final quando o verde abriu para os motores. Sua sombra corria fiel ao lado unindo-se e ultrapassando a sombra dos cabos elétricos e telefônicos e o rigoroso desenho negro do semáforo como que flutuando sobre tudo incluindo o próprio menos negro asfalto a que se pegava. Debaixo do néon também a sombra se juntou ao limbo em que ela não sabia o que fazer com a lembrança de um beijo per feito uma vez que o casal envolvido não existia mais.


Ao longo de toda a noite assemelhada à combustão do musgo sucumbiu seguidas vezes quase uma só que se tornariam também os dias seguintes e as noites ao sentimento sufocante a que se pode chamar desejo se espalhando adiante de si como um atalho irresistível sinalizado pela imagem daquele homem. Essa compulsão insistira em todas as épocas mais ou menos lúcidas ou santas de sua vida ou até construtivas desvencilhando-se com absoluto desdém das resistências heróicas. Noite dum futuro próximo desse tempo em que ela vira a aparição surgir do nada e se aproximar como uma presa não impede que o predador a leve para seu covil. Foi na tarde em que o papa inaugurou a ala para dependentes químicos, de cuja reforma ela par ticipara nos tempos do voluntariado e por tanto per to de quando conheceu Haimeard uma semana depois de ter estado com Meereshimmel. Deveria ter medo dele. Deveria temer até sua lembrança. Ter horror de seu encanto maduro pronto a transformar o sorriso dos primeiros


momentos numa máscara de simulação com olhos e rictos e logo a espontaneidade do deleite que sobe pela barriga e talvez chegue ao cérebro mas cujo centro é ali mesmo no purgatório de pontos duma acupuntura trágica. Orientação oblonga com forma de automóvel. Pressão de dedos evocando uma vida sem inquietações materiais e sem horários na qual o trabalho se justifica sem pedir funcionalidade. Nesse homem que ela fitará e em seguida desviará o olhar para um pardalzinho na calçada que se tornará assoalho e no assoalho que se tornará lençol, descobrirá que o pardalzinho era ela mesma que até ali se pensava predadora. É nesse homem que ela enxergará no virar do rosto e na palavra banal a noite que será travada até que desmaie de acordo com o que estava destinado desde o bico do seio móvel apontando esse futuro sob a blusa de tergal até que ele hesitasse e até que refletisse e simulasse porque juntos descobriam que nada subsiste exceto pela probidade cujos únicos juízes tremiam em arrepios no


braço aliciado e na grande mão suada. Ah Alice, disse ele num tom deslocadamente melancólico a que se seguiu sem motivo a risadinha dela interrompida, dividida em duas risadas menores de menina abdicada. Alice, Alice – disse ele – e todavia não lembrará o nome quando pensar nela dias depois e ainda não terá cer teza quando a tornar a ver, de costas, na loja de informática. Identificando-a antes à gaze branca no canto de sua sala e ao movimento dos dedos que se abriam nos dois sentidos aos afagos e se fechavam de novo e ao sorriso flexível de quem sabe mas opta por ignorar. Alice, Alice – ela se recosta corando caso ele não estivesse enganado enquanto as mãos dele sentiam a cintura macia e fria entre o cós da saia e o início da blusa desprendida. Que poder concede essa tranqüilidade em hora terrível? Por que ainda ama como se não tivesse vivido numa esfera acima inclusive do amor – a dimensão em que voltando de um sonho no qual morremos em pleno êxtase da carne continuamos vivendo sem que o sonho nos abandone.


ĂŠxtase! Trevas e sombras. Gemidos. Instantes diĂĄrios na ultravida.


Parou em frente da lan-house. Falou com o atendente olhando de soslaio os computadores da sala escura. Tirou da bolsa o livro da biblioteca enquanto realmente agonizava. Respira como quem sonha e esquece tudo que não tem relação com a sobrevida ou um sentido para a mor te. Nos primeiros minutos o planeta girou e se aproximou em mapas e nomes e números e mares. O fluxo do romance nas suas mãos nos diversos pontos de vistas e camadas de tempo encontrou eco na pesquisa. Dizem que não há privacidade na internet. Quem dera. Quisera que alguém soubesse que estava ali. Quisera que alguém a salvasse. Seu corpo sedento para depois. Uma fruta recheada de sangue doce e carne preparada para o escolhido que a escolheria no final de dia invernal. Por instantes pensa que no fundo tem tido sor te. Que as pessoas não são tão más, o que a inocentava também. Não se percebe obser vada nem que imagina que quem a obser va pensará mal dela exatamente porque não se acha tão mau. E que esse período como costuma


acontecer é cheio de par ticularidades apenas para que a história possa distinguir tempos iguais de homens iguais. Uma loja assim não seria pensável nem há pouco tempo atrás nem o seria pouco tempo adiante. Pessoas estreitas em demoradas buscas nos por tais que retardam ainda mais o tempo não remido enquanto a memória faz supor nas lacunas propriedades análogas ao que se recorda do mesmo modo como a fé das primeiras impressões será danificada pelo olhar gerado pela usualidade pois ela própria esquecera que alguém a teria salvo mas ela recusou a salvação.


Ele caminha em meios às pessoas como um espectro que não faz par te da multidão nem tem qualquer identidade com os seres que o ladeiam. Ela está a seu lado ainda antes de efetivamente estarem próximos e de chegar a ouvir sua voz. Cheira a banho tomado. Um homem com cheiro de homem sem os odores desagradáveis que exalam os homens e sem a obstrução assepticamente sociável dos desodorantes. Ouviu o convite para um café. Próximo sem o toque que impõe uma intimidade inexistente. Próximo o bastante para que a tepidez do hálito chegue sem odor (o que não deixaria de ser um tipo de assédio). Seu sorriso responde que sim. Que ela aceita. Cuidadosa. Refreando-se e soltando-se num ritmo de sedução quase marcial. Não deve pensar que sou uma qualquer, que sou fácil – é a última coisa que deve pensar. Dias depois ele a viu na loja e tentou lembrar o seu nome. O que é um nome? Como posso ter esquecido dessa referência quase única de uma mulher que me per turbou assim? Em nenhum momento achou


que ela era fácil ou difícil porque estava feliz que ela tivesse dito sim. Teria alguns momentos de novidade em sua vida aborrecível. Tornou a sentir a luz que a banhava quando se aproximou trêmulo para a convidar, concedendo-lhe a aura de uma pintura. Não necessita do ambiente vazio de uma exposição; se integra na paisagem como uma ár vore. E agora o que faço com esse Sim? Porque ele não imagina que a moça com quem deseja par tilhar momentos sublimes possa agir do modo como agiam as moças reais.


Esbarraram. Existe algo naquela jovem a que deve se afeiçoar. Uma feminilidade fora de moda, como quando inclinou a cabeça. Parecia cansada mas não a ponto de – a esse olhar súbito do desejo – deixar de transmitir algo que amanhã será chamado amor. Além disso – ele se volta – a simplicidade no vestir é a forma mais eficiente de acentuar a beleza. O céu se aproxima mais vívido e azul trazendo os últimos tons do dia e emoldurando o corpo da moça quando ela segurava o botão do decote no corredor luminoso e frio como a se proteger ou talvez oferecer ao tocar a adolescente adormecida dentro dela evocando as insônias recentes com a viagem, a retirada de coisas e coisas antes essenciais da bagagem até que sobrasse uma única mochila, essa mesma, vazia agora graças ao guarda-volumes. Como se preparasse para se desapegar das coisas do mundo sua mão sentia as últimas texturas representadas pelo botão e pela renda do sutiã e pela pele entre os seios ar fando ainda sabe Deus por quanto tempo. Tão sofrida. Para a mulher do


balcão onde ficavam as chaves dos armários eram ambos muito jovens e sofridos. Apesar da metrópole e dos tempos, da multidão indo e vindo no metrô, o mundo não estava perdido. Ainda existia sentimento.

O balcão mais distante cada vez. Não mais visto. Ao se voltar na raia demaracada por um similar grosseiro de corrimão não se imaginando gentilmente seguida ela deu com o casal recostado aos beijos, a moça entre ferros, e o rapazinho da mochila com listras cinza passando incapaz de um único e discreto olhar – um carinha bem resolvido sem dúvida – um ponto entre as multiplicações do sol nos prédios em volta inclinados segundo a imprecisão do olhar humano que por ventura a tal contemplação como ela se aventurasse – percebendo em tudo nuances de azul com raros borrifos avermelhados e até refletisse qual a lógica disso num universo de sete cores básicas e um infinito de gradações. Como haveria de ser a questão de seu enterro? Chegou a pensar nisso enquanto


descia as escadas e agora como devia ter feito da vez anterior se dirigia às catracas que eram um dos alvos se não o principal das manifestações pela cidade.

Na pista rolante ele se manterá per to e no vagão chega a sentir o aroma dos cabelos negros e lisos. Estudantes, trabalhadores, alguns cadetes, uma freira e dois atores. E ela. Distante como a mulher do balcão. Pensa no dia de sua chegada. Pensa no homem, no beijo, em como sumiu. Poderia pensar em que os dois têm alguma semelhança física e até no modo de andar, se tivesse obser vado seu presente admirador para tanto. Esse em quem as pessoas à volta percebem o olhar que ela não percebeu. Descem. Ela entra na loja. Um executivo sai sem conseguir ver além do mundo desabando – imagem naturalmente exagerada para qualquer tipo de crise econômica que não nasce como as do homem daquilo que é intrínseco à sua natureza mas de alguma coisa fora dele e por tanto de um silencioso e pedante nada. A crise que se desdobra na


comunidade européia e atinge os donos do mundo. A inflação de volta também e o desemprego e sobretudo a incer teza quanto a que papéis comprar como se fosse possível (e, a se levar a sério o mundo, é) viver de especulação, sem produzir. Fazer disso um meio não só lícito mas desejável de vida. O que comeriam se o vizinho dela resolvesse pegar o gancho das manifestações e parar a produção de legumes e frutas? Dê uma banana a um macaco e a chance de ele ganhar nos investimentos jogando a casca em números dispostos será grande. Passara pela cabeça do próprio Alber t algo assim quando entrava pela manhã no hall do prédio ali em frente do letreiro correndo indicando cotações. O burburinho cresce. Talvez ela esteja saindo de si. As pernas doem. Precisa ir ao banheiro. Só mesmo a mor te acaba com esses côvados não acrescentados às vidas. Porque mesmo após tudo ela se pergunta se escrever é produzir sob o brilho da gravata de bolinhas e diz o nome ao pagar a hora ao atendente. O rapaz que entra em seguida escutou e


decer to logo terá uma opor tunidade de repetir em voz alta.

Puxou a cadeira para onde suas mãos se acomodassem melhor ao teclado e através de dedos treinados, acompanhando as telas com olhar cru e lábios compactos, deu-se conta de que um mundo estivera em pleno andamento apesar das crises por que ela passava. Mulheres sérias dão dicas sobre as novas maravilhas da cozinha e da tecnologia. Deusas das redes sociais. As musas da economia basicamente falam do que podia ser dito em aulas de História do ginasial. A manutenção ar tificial do preço dos grãos traz dano que após um tempo terá efeitos positivos não sem antes levar homens à falência e à mor te mas isso nada significa para os que usufruírem dos novos tempos. Seu avô passou por isso e o que passou acabou tendo reflexos na vida de seu pai. Ela estava isenta, ao menos disso. Seria algum tipo de gratidão o que a levava a se aproximar do pai quando ele pescava


e sentar-se a seu lado na beira do lago e sentindo os pés frios e molhados sorrir para ele antes de recostar a cabeça em seu ombro? Odiava sua geração. Olhe para esses meninos hipnotizados ante games. E os meninos e meninas mais velhos, os que a idade regulava com a sua, vasculhando a vida de todos em busca de amor e destilando ódio nos posts. A apatia e a per versidade da geração se acentuam no computador como belas formas femininas em roupas simples e nem tão simples assim. Alguém de fato acredita que a mídia está ao lado dos necessitados ao julgar o resto do mundo? Um mundo outro e uno que de algum modo juntava o que compra um apar tamento à espera da valorização imobiliária e os que trabalharão toda uma vida e não terão dinheiro para alugar uma habitação decente. Um link retórico sem intenção de unir pessoas. Nada de novo mundo. De uma nova forma de pensar e de viver e de trabalhar. Só deuses mor tos jogando novas par tidas com seres viventes. As ruas no dia anterior talvez o soubessem, provavelmente não. Talvez


dissessem que não existe apatia, não mais, que o gigante acordou – a prova estava justamente nas mobilizações marcadas pela rede. Mas – pensou ela – é um movimento super ficial cujo foco é a própria mídia. Exibicionismo que faz questão de dizer o quanto somos bons, o quanto estamos atuando, o quanto somos felizes. Tanta felicidade a atormenta. Está escuro na sala mas os usuários não percebem ou não reclamam. Lado a lado cada um olha seu monitor como se contemplasse o nascimento do mundo. Riem sozinhos maravilhados. A cor no rosto da menina vem da tela. O navegador abre página após página que não mais contemplam o objetivo inicial deixando no histórico um rastro de dispersão. Uma e outra vez sem virar a cabeça ele vê o per fil de serenidade e imponência. O compor tamento humano supõe alguma necessidade. Por que está ali sentado? Enfim está e não há o que fazer além de usufruir o momento. O sol se pôs atrás dos prédios mas discerniram apenas alguns reflexos no vidro escuro


que os separava da rua. O som do refrigerador onde estão as bebidas se confunde nos momentos de mais silêncio com uma chuva que há muito não cai. Haimeard os imagina juntos pelas ruas do entorno. Chega a pensar num motel mas descar ta a idéia. Então por que está ali? Já se perguntou antes e não há resposta. De mulheres bonitas seu trabalho está cheio. Talvez o amor da abundância não permita a saciedade. Com um emprego bem remunerado aparecem novas necessidades e a cada dia há menos paz.

Um rio corre lá embaixo. Uma linha, segundo quem olha. Profundo e traiçoeiro. Um milhão de olhos na loja de internet. O peso aterrador do silêncio com fones se dissipa. Já que está ali precisa saber de uns livros. Há tempos não aprende algo realmente novo. Sequer percebeu junto aos seios dela quando esbarraram romances de um autor comum. Pegou apenas para ter o que falar na reunião. Não deixa de


ser um tipo de game. O fazer do tempo ganho contra a luz? Tudo termina no universo interior que teme o silêncio dos espaços infinitos mas não a estética vã ou a libido. O que mesmo costumava postar quando atualizava o blog antigamente? Estranho isso de fazer das impressões coisa pública, de seus sentimentos mágoa cristalizada em algum outro ser eventual, ainda mais uma jovem inocente – uma jovem que ainda sonhe e se iluda com um amanhecer per feito após uma noite de amor per feita. E isso seja sexo como se não fosse. Uma moça linda e inocente e cheia de ilusões, agora diante do computador.

Ela acaba de abrir o programa que mostra a terra girando e aproxima qualquer lugar que se digite. Procura uma casa. A casa que devia ter procurado no primeiro dia mas não. Imagina se iria fazer as coisas do modo mais simples; ela, a menina mais complicada de sua classe, de todas as classes em que havia estudado. Na rua da amiga. Sonja Tuslei. O que dirá o


mecanismo de busca? Tributo à sua negligência maior que o desejo de uma nova vida ou a vontade de encontrar um emprego fixo e exercitar as vir tudes domésticas e ter um canto seguro onde ler e escrever.

Mulheres e homens movimentam esse ser que é a multidão em hora de rush. Estão excluídos os dois, resguardados do dia mais frio do ano, distantes do maior congestionamento do ano. Sons vindos dos carros parados. Pichações. Nova manifestação está marcada. Uma mulher diz que tem medo de sair para trabalhar nessa situação mas Alice pensa que isso é passageiro. Que ali poderia trabalhar, morar e ser feliz. Seu sonho era acordar antes do sol para preparar as coisas do novo dia. Água para o café, a toalha e as roupas de seu homem no banheiro, levar o cachorro para passear. O segurança do supermercado 24 horas olhará para ela e pensará como é bonita. Porque ainda que já tenha um casal de filhos não parece. Nisso pensava quando entraram. Ele (o lindo rapaz do


primeiro dia) trazia na ruga de expressão a saudade misteriosa que por sua pureza não se deixa apanhar e assim permanece tão incógnita e familiar quanto um rosto de sonho. Não tem coragem ou paciência ou amor suficiente para admirar o que o irmão maravilhado vê agora com olhos diferentes do habitual e que, quando habituais se tornarem, o retorno não será sublime e ele não fará o caso devido exceto com a proximidade da mor te e a revelação das coincidências. Será tarde. Tanto para Haimeard quanto para Meereshimmel. O tempo não chegará e o sonho não se materializará. Saias xadrezes luminosas finas demais para um frio assim. Ultrabooks incrivelmente finos por toda a par te sem mais chamar a atenção. Demandas de mudança. Que tempo é esse para o qual quer voltar? O tempo é esse e ponto, não se faz teoria a respeito. Murmúrios se tornam gritos em torno de um leito de mor te. Ah meu irmão. Ah, Alice. Perdoemme. É tarde. Ainda não quando ele a segue no meio do transito desordenado confiando na previsão tempo de


que não choveria no fim da tarde. Afinal – pensa – sou um pedestre nessa empreitada. Caminhava nas nuvens. Nela até seria compreensível. Mas o que está havendo com esse metódico e enfadonho tecnólogo? O que não pode ser dito termina por não ser entendido ou no máximo passa a ser refletido não por meio de idéias mas sensações. A vida se perde por todas aquelas ruas onde ár vores ainda mantinham a falsa obsessão ecológica ou naquelas outras nuas de todo vestígio de uma existência bucólica e quanto mais caminham mais ele perde de vista porque começou tal caminhada. Aqui é onde morava o Pedro, antigo colega de colégio. Ali é onde ela sentou extenuada após um dia perdido de procura de trabalho. Por tanto não se trata apenas da caminhada. Há coisas atrás e adiante que nunca se costuma considerar.


Na cama o rapaz que a abordou no primeiro dia. Segurando seus braços alvos. Retirando o tênue obstáculo. Ela não fala. Sente-se bem com alguém que lhe mostre o caminho. Que antes do amanhecer ainda a prenda. Garantia e amparo. Ele não pensa, porque é assim que funciona, quando funciona. A mente esvaziada como um guerrilheiro. Não se trair pela consciência das coisas. Juntos assim tão distantes. Não está funcionando. Relaxe. Concentre-se. Quem poderia imaginar que outro está para usufruir essa situação. Um outro que agora traça linhas em seu projeto sem a menor idéia de que no dia seguinte, não, daqui a poucas horas, esbarrará na moça com os livros. Outro que não falhará. Ouvirá seu nome. Quase se pode dizer que é para ele que ela se entrega diante desse primeiro que na cidade ainda calma quis que o desejo fosse satisfeito sem depois, esse depois: a casa, o dia, a roupa, o assoalho, o sol nos móveis, e quem sabe os filhos, indubitavelmente os filhos. Ela não poderá censurá-lo amanhã. Não usou tal ar tifício. Talvez se


tivesse sido necessário mas não foi. Ela estava por demais entranhada de uma vida que jamais existiu. Então vamos, disse ele. E ela sequer percebeu o céu de seus sonhos no crepúsculo, anestesiada, viva não para qualquer coisa exterior. Vamos. Então foram.

Chegaram ao apar tamento. Ela ainda entorpecida pelo alívio. Ele tocou o interruptor e um fantasma surgiu onde ela deveria estar. Por um segundo se espantou mas em seguida estava de novo senhor da situação. Tudo bem. Era um homem religioso. A seu lado Nossa Senhora iluminada pela lâmpada de um nicho derramando-se em leite e luz nas par tes em que não havia a blusa lilás um pouco amarrotada mas ainda por dentro da saia cur ta agora mais cur ta por conta do movimento de se abaixar para religar o velcro da sandália. Cabelos descendo em cataratas negras. Músculos da panturrilha per feitamente definidos, carne e leite. Beleza que o outro sentirá sublime num momento semelhante assim quando ela


deixar a lan-house e se cruzarem no metrô. Um sorriso correspondido. Livros reconhecidos. Aonde ela estava indo. Ele a poderia acompanhar. Sente-se reconfor tada em sua tristeza terminal mas se lembrou imediatamente do outro, do homem que lhe ofereceu café e abrigo por uma maravilhosa noite que não se consumou. Merecia ser relembrada? Noite iniciada com a luz acendida no canto do pequeno apar tamento e o movimento dela se abaixando para religar o velcro da sandália.

Haviam passado pela ponte imediatamente antes de chegar. Estrutura sáxea correndo ao longo dos fios faiscantes no negror brilhante do asfalto lá embaixo. Ela pensou o quanto tivera sor te. Estava salva ao passarem pela torre do prédio brilhante. Salva ao entrarem no bairro pelas casinhas avermelhadas. Levou a mão à par te de trás do pescoço e abaixou os olhos e aper tou-os e abriu-os de novo e, como não tivesse sido nada, levantou o olhar para as janelas e os


telhados recor tados de um frio azul esmaecendo, esmaecendo até a aparição de Darken Pöbel, em quem pudera um dia confiar. Dirão o seu primeiro amor. Pode ser. Darken... Mas que relação entre ele e esse salvador com quem saíra do café direto para o apar tamento, renunciando ao encontro com a amiga? Darken. Um rapaz de bem sem dúvida. Ali está ele. O carro descendo a rua sinuosa. Pede uma informação a um pedestre e segue. Ela olha. Instantâneo o fascínio. Devia ter ela o quê, uns quator ze anos? Viu quando ele parou e tentou estacionar quase em frente ao prédio. De per to parece mais velho mas que impor ta? Rapazinhos têm de se estabelecer na vida. Assim é melhor. Um homem estabelecido com dinheiro suficiente para levar a namorada a qualquer programa que ela invente, a qualquer restaurante, a qualquer show (e o teatro que ela adora anda tão caro) incluindo o motel ou, melhor ainda, o apar tamento dele. Mais um ou dois anos e ela seria uma mulher feita com esse tipo de necessidade que


um menino de sua idade não poderia bancar. Mesmo depois de um ano ou dois ela ainda será menor, pensou Darken após algum tempo de contemplação. O que pode sem dúvida ter sido a causa da ligeira batida no carro da frente. Tomara que não tenha amassado . É o que menos ele precisava num dia já cheio de chateações e possivelmente por isso se dá ao luxo de contemplar a menina numa tarde tão pálida e morna em que não se poderia afirmar que o céu limpo estava azul ou era uma variação do branco. Uma mulher que passa leva as mãos à barriga: é o neném chutando; outra, um pouco mais jovem e menos bela, leva o carrinho de bebê. E ele Darken está falando sozinho, a menina pode perceber. Quem sabe – pensou ela – não esteja justamente falando dela. E abre um sorriso que (embora estivesse mesmo) ele não chega a ver.

Ela está no banco do carona do carro de Meereshimmel e no retrovisor de Darken. Vem de um mundo desconhecido e invade com sua íris pincelada e


a luz em seus olhos o torpor acomodado do mundo ao qual ele se acostumou. Como o quadro em que um pintor recém-desper to retratou o sonho ideal colocado na sala de alguém que até então desprezava a ar te e a par tir dali passará a viver em função dela. Passando pela ponte. Lembrando como Darken aparentava de per to mais idade. Conversam. Vê com nitidez as linhas de expressão e todavia ainda é um homem atraente – como se ela pudesse saber o que é um homem atraente; como se tivesse tempo de vida para tanto. A cur va sabe Deus para onde. Está para acontecer e realmente basta. Ali ao lado de Meereshimmel ela se dá conta de como se viciara. Justo ela, ansiosa das plenas responsabilidades e direitos do livre arbítrio. Eles falam pela mesma boca, Darken e Meereshimmel. Coisas nem tão diferentes assim. “Estou procurando um apar tamento aqui nesse bairro. Você mora aqui há muito tempo?” Na verdade Darken não estava procurando nada. Hoje ela sabe que ele tinha essa ar timanha de sedução. Conseguiu.


Não era exatamente no que ela própria estava pensando momentos antes?

Meereshimmel era um homem alto e magro com cerca de trinta anos, a mesma idade de Darken quando ela o conheceu. Os cabelos lisos são castanhos e os olhos verdes faíscam. Há uma estranha delicadeza em seu nariz grande e isso a impressionou logo no primeiro momento. Pedirá ou terá mandado que ela estenda a cur va da praia ainda erma. Refúgio em meio à cidade ner vosa e perdida do resto do mundo. Pedirá – não ordenará embora ela até preferisse – que surjam as rochas altas e redondas em meio àquela tempestade. E terá tudo o que pedir e mais teria se quisesse e sabe-se lá por que não quis. Por que em determinado momento seus olhos se cansaram e todo o desejo. O motivo de tudo não era exatamente o motivo. Surgiu um horizonte descorado como o que lá fora há pouco baixou do céu e se amassou nos lençóis para frustração dele e culpa de Alice. Nisso foram


iguais embora a seqüência diferisse. Darken não demorou nada e estava de novo pronto; Meereshimmel demonstrou com o convite que outra coisa naquele momento não mais queria ou não podia. Então vamos – concorda sorrindo tímida enquanto alguém obser va. Vamos tomar alguma coisa.


Meereshimmel tomou o pão da mesa e o levou à boca sem passar a manteiga antes de consultar o relógio pretendida. Estava se tornando habitual esse atraso. Por outro lado não deixava de pensar nos inter valos entre alguns giros da impressora, a batida das folhas de papel no canto da mesa e a revisão de um texto e revirava reflexões sobre o que estaria acontecendo para tantas mudanças. Chovendo de novo. Deu uma última olhada no corpo estendido da mulher notando o quanto lhe caía bem engordar assim um pouquinho, a cintura escapando logo acima do elástico largo e branco com a logomarca escura. Tempo demais e muita espera fazem apodrecer o futuro desejável. Justificava-se culpando as outras pessoas por seus fracassos como homem e como ser socialmente aceito. Não o compreendiam. Impuseram a ele danos irreparáveis precipitando-o na inquietação que se avizinha da dor irreversível. Quem o poderá valer? Alguém que surgisse com tal disposição iria


logo se afastar de um homem desagradável como o que se tornara. Quem sabe o supor tasse por um tempo, como Sonja – um tempo necessariamente transitório. Quem agüenta tanta alienação do mundo? tanto desprezo por associações festivas? tanta indiferença a qualquer coisa que diga respeito à raça humana? Se acontecesse, era mais provável que esse ser generoso logo se endurecesse em vez de Meereshimmel acalentar alguma doçura e sociabilidade, um mínimo de simpatia. Parecia sem retorno o ponto em que alcançou tamanha mediocridade. Queria viver num mundo longe de tudo isso, plenamente silencioso e solitário. É jovem sim ainda. Quer sim a essência tangível de alguma passagem da canção que aqui e ali percebe. Reencontrar a criança que nunca devia ter deixado de ser. É preciso uma primeira agonia de começo ou recomeço. O temor que faz todo sentido quando há um perigo próximo. Ignorar a paz que nunca faz qualquer sentido. Quis, ao ter essa consciência, viver a


vida que aparecesse, sempre silencioso e só. A vida podia ser boa. Seu fracasso desmentiu a expectativa e apontou para novos tempos de uma dor pior porque sequer sabia se expressar. Quem sabe nesse sentido Alice tivesse alguma par ticipação na esperança. Ela pensava tão bem – pensou ao atravessar a rua rumo à estação imiscuindo-se entre os usuários mais lentos. Escrevia de modo preciso conquanto floreado. Com ela decer to nasceram qual mundos as reflexões provindas da exaustão. Mundos. Vista dum outro planeta, supondo que o obser vador tivesse super visão de raioX , aquela multidão pareceria óleo derramado pelas escadas e plataformas, aliás peças duma linha de produção seguindo nas esteiras subterrâneas. Imagem per tinente. Num mesmo momento, evocando-a, o cheiro dela, o gosto, excelência de madeleines, sentiu-se cadência dramática de um concer to de Mozar t, o romance em sol menor por exemplo (imagem totalmente per tinente). A par te eufórica da bipolaridade do movimento. Que a coda chegue em ré – imagem não sabe se per tinente: talvez conselho profético. Por tas que se


abrem nos vagões seguidas da sirene. Entrar. Misturar-se à vida coletiva para na estação seguinte sair para a sua, duas agora, a das mãos hábeis e da mente funcional entre botões e gráficos guiada pelo expressivo encanto da estranha, deleite subindo por cuidados de outras Alices impregnado na respiração aliviada correpondendo a um atraso afinal irrelevante.


As luzes que refletiam nos ladrilhos também a coroaram. Haimeard nunca vira cabelos assim. Foi a primeira coisa que notou quando esbarraram na biblioteca. Respira fundo e a segue a uma distância segura ainda que várias vezes tentado a abandonar a cautela e como seu irmão deixar que as coisas acontecessem logo ou não acontecessem mas que fosse logo. Puxa o fecho do casaco e cobre a cabeça com o capuz e nesse momento pensa que talvez não devesse, é assim que fazem os vândalos infiltrados nas manifestações, mas em seguida discerne que não, que eles cobrem o rosto com as camisas. Talvez esse ruído atordoante dos carros tenha significado alguma coisa para ambos pois ela se virou e pareceu tê-lo olhado como se respondesse que não, não usava nada nos cabelos há uma semana. Não: virou-se por causa dos rapazes encostados no carro. Estão mexendo com ela, os inúteis. Gostaria de repreende-los mas com que autoridade? A nora que a mãe de um deles pedira a Deus. Que coisa mais banal e idiota! Mas ela de fato o


vira de soslaio como ele a ela na lan-house. Um rapaz distinto e elegante ainda que esteja a pé. Talvez tenha deixado o carro no mecânico. Talvez o tenha emprestado. Quando ela se virou, aquele per fil não parecia o de Gracile?

Gracile Stesura agradece. Era mesmo estouvada. Desastrada reconhecia. Nem imagina em que pensava ao tropeçar. Quando ajudou-a a se levantar o braço dela provocou um calor desconcer tante. O que é isso, Haimeard? Você não é tão jovem para que descubra sensações a essa altura da vida. Não tampouco tão velho. O semblante sereno esconde peso de temores remotos conquanto de nada adiante se preocupar. Impor ta sentir o calor que passa de um corpo a outro e extasia. Mais tarde ao encontrar a namorada farão amor de modo antes impensável por causa do calor de uma estranha. Não por muito tempo. Por muito tempo, no que estivesse envolvido, estariam envolvidos aquele sorriso pacato, as pestanas oblongas e negras, os


lenços na cabeça como véus de uma religião pessoal. Gracile. Talvez ele exagere e se disperse na associação de idéias. Esse luminoso indica o caminho de um novo mundo, um novo tempo que, como todos, logo passará. Dobraram a esquina, Haimeard e Alice, com uma diferença de menos de um minuto. Bem menos. A saia dela o hipnotiza. Penetrara no tecido. Nas possibilidades. Analogia das cores do xadrez. Em seu transpor te um eco visceral mar tela movimentos de Gracile. Os castos e belos movimentos de Gracile. Perplexo vê as coisas mor tas reviverem. O rosto dele é tão meigo – avalia Alice pelo retrovisor do carro estacionado. Mas está determinada a não mais se envolver para se salvar. Se houver salvação que seja por seus meios. Que seja sozinha. Pensando bem as roupas dele tampouco são as melhores para esse frio intenso e úmido. E olha que ele nasceu ali. Mas o que isso impor ta quando chega o frio ou os temporais ou os braços das desconhecidas ou os esbarrões à saída das bibliotecas?


Desper tando percebeu estar atrasada. O pássaro à janela parecia querer lhe avisar. Logo no primeiro dia. Corre e no banheiro o espelho engole seu rosto amassado. Ouve o vapor da água. Pelo tipo de barulho é sua irmã. Não é possível que ela vá sair primeiro que eu. Sim é ela. Essa descarga é tão desagradável. Acredita que uns dois ou três meses serão o bastante para que possa sair da casa de seus pais para um apar tamento. Não pretende se acomodar no Ser viço Público. Até quanto a um namorado está otimista. Oi, maninha, caiu da cama? Sempre emburrada. Papai e mamãe já devem ter começado a ladainha, “Viu? Sua irmã correu atrás e conseguiu”. E isso ela não pode supor tar, ficar para trás e justamente em relação a mim.

– Quer café? Não é possível que essa seja mesmo minha irmã – Obrigado, só um golinho; já estou atrasada Logo no primeiro dia, pensa.


– Vai dar tempo, ouvi no rádio que o trânsito hoje não está tão ruim.

Ouviu no rádio?


A irmã lhe faz um cafuné e lhe beija o alto da cabeça antes de sair. Nem ainda começou seu primeiro dia no emprego e as coisas já estão mudadas por ali.


Você pode entrar em contato conosco por email ou pelo site. Dábliu dábliu dábliu. Reclinando-se acima dos carros onde deveria haver trilhos, obser vou aqui e ali resquícios da passeata do dia anterior sem coragem para censurar sequer interiormente a violência que a assombrava. Isso vale para mim. Suas mãos trêmulas sentiram a textura axadrezada. Não, não estava arrependida. Veio e pronto. Ao olhar a linha da poluição no horizonte, tocou com os olhos vislumbres adormecidos. Como o som dos trens inexistentes de um transpor te público ideal. Dizem que já é assim em muitas cidades no estrangeiro. Tirou um e outro rasgo de nuvem escura do seu foco e tentou seguir na direção da luz que entretanto assim que tocada se esvaía. Quer apenas trabalho e meio de se expressar e não se sentir sozinha sem abandonar a solidão. Todos os paradoxos têm necessariamente um fundo de verdade de qualquer prisma por que sejam obser vados. Se um dia escrevesse um romance, imagina a pretensão, diriam um pastiche de Ulisses e


quem conhecesse decer to incluiria os Loureiros de Dujardim e no entanto estaria mais para Faulkner, o de Santuário, uns vendo os os outros tanto quanto as coisas ao redor – diálogo interior e fluxo de aparência, algo assim. Sim. Mais do Faulkner de Luz de agosto naquela precisa imprecisão cronológica porque narrativa linear não faz sentido em se tratando de mente humana e história humana ainda que escrita pelo próprio Deus. Sem falar do ganho de verossimilhança com a perda da demasiada lógica em diálogos que são antes enormes diálogos combinados como um cenário armado de crime para iludir o leitor, aliás a polícia. Ninguém fala assim. Sobretudo ela gostaria que tivesse a ver com Palmeiras Selvagens, sublime e invencível poesia da ininteligibilidade que o coração decifrará. Nada de Virgínia, infelizmente. Porque ela amava Mrs. Dalloway mas não tinham qualquer afinidade e os faróis de Alice eram muito mais cruéis e acessíveis. O Cormac de A estrada sem a obsessiva birra com os travessões. Nadine Gordimer


sem ideologia – a Nadine das cenas eróticas. Lavoura arcaica e profética.


Sonja passa a flanela no móvel e pensa onde poderá estar a moça. Faz uma semana. Fragmentos da viagem. O ônibus vencendo a estrada reta e logo mergulhando nas cur vas em meio às ar vores centenárias de folhas poeirentas. Ela temendo que alguma manifestação bloqueie o caminho e fiquem presas sem banheiro sem poder chegar ou voltar. A outra, imagine, sequer sabe de nada acerca de manifestações. Excitante idéia de ficarem sim presas nalgum hotel de beira de estrada. Logo esquece e se perde plena em seu cansaço. É natural. O tanto que tem trabalhado nesse expediente triplo de mãe, dona de casa e analista de sistemas. A textura do verniz e as reentrâncias do teclado ecoam a voz antes nas palavras dos sites. Os jornais do mundo falam de uma primavera sul-americana. A mor te de uma geração e o nascimento de outra. Os jornais do mundo trabalham com boa margem de erro. A película de poeira que é trazida na flanela não seria como esses desejos que são tirados de algum canto (de uma alma antiga, por


exemplo) e se mantém em suspenso até que se lave a flanela e depois o quê? – em que ralo se perderá o êxtase súbito ao recostar ombro a ombro com a companheira de viagem – onde poderá estar? Sono. É natural. Talvez pudesse amar essa segunda jornada em casa mas não, é só cansaço. Seria normal que a filhinha fosse a coisa mais querida deste mundo. Mas não. A criança a cansava. Não nascera para ser mãe, muito menos esposa. Olha vou te dizer, disse a moça do ônibus. Vim procurar um emprego mas meu sonho é mesmo ser dona-de-casa. Tem gosto pra tudo neste mundo. Não foi o da própria Sonja um dia? O sono é agora insupor tável. Membros tremem de cansaço. E olha que é uma for taleza a estar cer to o que costumava dizer sua saudosa mãe. Ela até acreditaria não fosse pelas evidentes camadas quebradiças entre o que ela é e o que aparenta ser e cer tas tristezas até recentemente desconhecidas. Antevê o final de seu casamento com indiferença. Ainda estava sim cativada (ou simplesmente cativa?) por aquele belo rapaz que


um dia a convidou para tomar um café na saída do shopping. E que tarde agradabilíssima pôde ser programa tão simples. Um café, a pracinha depois e o mesmo banco por alguns dias até o primeiro e inesperado beijo e a ainda mais inesperada mão sob o casaquinho que trazia no colo. Isso imagine em meio a uma conversa sobre a situação econômica do país e o avanço tecnológico e empreendimento. Casamento assim nascido. Falaram o que falaram por falar como acontece sempre antes do sexo. Escolhas afetivas devem ser feitas numa pirâmide inversa. Passando autêntica da afinidade aos pequenos encantos e só então chegar debaixo de um casaquinho no colo.

Sonja passa a flanela e Haimeard aproxima. Nunca mais. Se não vai vê-lo de novo é natural que pense num outro. Rua afora em busca do amante mor to. Do início do bairro aos primeiros brilhos das águas da baía, recebe os sinais: o que dependa de dinheiro não será obstáculo. O primeiro foi o pianista da boate. Não a impressionou exceto pela grife do terno. A


flanela ainda sobre o móvel. Um vento. A borda costurada em linha vermelha for te. Içada. A casa vazia. O segundo naturalmente um empresário, de menos idade, confessada falsamente na cama que rangia em meio a ruídos de estranhas iniciativas. O tipo de coisa com que Sonja por causa do amante havia se acostumado. Ele dirá na delegacia que a encontrou na rua sórdida e que é possível que a tenha confundido mas, imagine doutor, posso ter minhas taras mas não sou um homem violento e só me permito extrapolar quando há consentimento mútuo.


Haimeard aproximou-se de Alice. Não sabe se o novo esbarrão foi forçado. Quer crer que não. Que era o destino. Perdoe-me. Ela sorriu em resposta. Não era da cidade, ele teve a cer teza. Suas chances cresceram. Você é daqui? – perguntou. Não, cheguei há uma semana. Ah. Não devo me demorar, pensa ela, cometer o mesmo erro de quando cheguei. Irei agora mesmo atrás de Sonja. Então por que se demora? Por que diz que está indo ao metrô que tem como destino a estação tal e de lá ainda pegará um ônibus? Por que praticamente repete o que fez quando chegou? Se você permitir, diz ele, eu posso acompanhá-la. Quando chegar lá será noite alta. A cidade pode ser perigosa à noite. Principalmente nesses dias em que vândalos se aproveitam das aglomerações. Do que se trata? – ela pergunta. Na verdade ninguém sabe mas ele arrisca que é basicamente um clamor do povo saturado da corrupção reinante e reclamando ser viços públicos de qualidade. Ademais – acrescentou – é mesmo meu


caminho. Cedo ou tarde teria de encarar o fato de que não pode passar o resto da vida sem ver o irmão. Que quando a hora de sua mãe chegar terão ambos de estar lá e depois disso brigar por causa do apar tamento que ela deixou para que eles tivessem algo no futuro. Alice lê o olhar dele e vê o quanto é gentil e romântico. Um passante contempla os belos olhos dela. Não era possível precisar se havia ali admiração ou desapontamento. O que não é prático a desaponta. Foi assim com Ingenuer Pendant.


Num primeiro momento o que mais poderia uma mulher desejar? Ele sabia conquistar mas, como um revolucionário (que em muitos sentidos era), não sabia administrar a conquista. Ali está diante do pai de Alice submetendo-se àquele rude interrogatório. O que seu pai faz? Onde você estuda? Que faculdade pretende fazer? Como se já estivessem noivos quando sequer eram namorados. Ela na verdade nem tinha cer teza se deveriam ser. Mas o calor que sentiu quando ele se aproximou... Acaba de saber o que ele estuda – Letras – e o que pretende fazer no futuro – trabalhar numa Ong com crianças. Qual a mais remota relação? Começou a perder aí o desejo. Um cara sem ambição que decer to não sabia distinguir um Spor tage de um Mitsubishi. Mas e o calor? E os lábios umedecidos? e a intumescida carne? E a sugestão de conhecerem a par te de trás das pedras lambidas pelo mar atrás do parque?


Por que razão um cara assim romântico deveria se interessar por uma menina como ela Alice não sabia. Nem por que aceitou aquele convite e logo entravam com juntos no metrô. De per to Haimeard não discerne nada especial. Até os cabelos dela são comuns. Seus óculos estão embaçados. Um assunto qualquer. Discordam. A vida precisa ser assim. Tese, antítese, síntese. Quando ela mencionou o conhecimento que ele tinha de Hegel – De quem? do filósofo? – perguntou ele. E quem mais seria? – disse ela rindo. Não o citara ao falar de síntese? No sacolejo do vagão não pode se permitir mais. Seria constrangedor que pensasse mal dele. Liquidaria suas chances. Seus olhos procuram um nada sempre fugidio. Pensa que a dialética é bem comum da humanidade. Não sabia que havia direitos autorais – É mas foi Hegel. Compreensão não se acompanha de palavras e palavras apenas a deturparão. A reflexões da poesia serão mais


adequadas do que a filosofia, que tenta explicar. E o corpo ardente? Por meio também do corpo ardente.

Voa o vagão quase vazio ainda isto é não cheio. Valerá a pena, pensa ele, comum ela se tornara? Num sacolejo chegaram a se tocar mas ela entendeu que era normal num metrô em horário de rush. Ele se mantém agora calado. Concentrado em não errar. Quando chegaram a uma estação que parecia de pequeno movimento aí sim Haimeard falou. É aqui. Sílabas que não se tornaram efetivamente sua voz. Viu a moça olhar em seus olhos. Hesitou entre estar fler tando ou não ter se recuperado da noite anterior. Foi a única vez que pensou na menina naquela noite.

Ela deveria ir procurar trabalho. É o que disse que iria fazer. Até o encontrar na empresa, é o que pretendia. A luz filtrada pelos vidros escuros naquele


espaço de dia ensolarado concedia a Haimeard sua face mais atraente. O quanto terá ela lutado pelo objetivo com que saiu de casa após o cafuné na irmã? Alguém cuja vir tude tem fraca estrutura está ali imponente à luz fria ao longo do corredor. Formado decer to. Doutor em tecnologia ou algo assim. Sem ser doutora ela se torna um sonho inexorável assim do nada. Olá. Está à procura de alguém? Estava. Do chefe de recursos humanos. Mas pensando bem você pode me ser vir per feitamente. É claro que ele não pode evitar olhar os seios onde tudo começa. O quanto em mãos capazes se tornarão veementes em meio ao alento imponderado e aos olhos cegados e os lábios mordidos.


Alice hesitou no próprio beijo. Sequer a cer teza de uma experiência agradável. Afetada pelo contato recente e ainda cálido com Sonja. Nova possibilidade. Os homens nada tem mais a dar nem a sensação antiga dos primeiros beijos em nada relacionados a amor. Qualquer mulher passa por isso – imagina. Quer e não quer. Um antes mais sagrado que o durante e menos conspurcado que o depois. Não pensou – deveria, pensará um dia – que ele pudesse resolver o problema vital da renda, a subsistência digna a que veio. Os gritos dela se misturam aos gemidos não terminados. Geram um terceiro tipo de som, gutural, satisfeito como quem chega a um abrigo natural durante uma tempestade. Deve ele reprimir? Estimular? O que faço – se pergunta. Com grande inconseqüência entramos na vida dos outros sem conhecimento e sem palavras. Ele não é afinal senão um homem e homens nada sabem. Deduzem que um grito abafa outro. Que um gesto violento soluciona a crise. Mas se parecer


que houve solução não havia crise além das faíscas que se levantam para voar.


A maioria do comércio ou estava com as por tas fechadas ou fechando. Não era um período bom mesmo antes, ainda mais agora em meio aos saques. Mesmo entre os que abriam das seis às nove como os chineses. Após as medidas econômicas do governo suspeitavam não ser um bom negócio as luzes acesas por mais uma ou duas horas numa época em que escurece mais cedo. Pagar hora-extra aos empregados. Sem falar da violência urbana na volta para casa. Está passando de qualquer limite. 15 a 20 homicídios por noite. Ou em assalto ou sequer isso: por causa de 7 pratas ou uma discussão de trânsito. E agora os bandidos infiltrados entre os manifestantes. Desconfio que as coisas tendem a piorar – disse o dono do mercado à mulher, que estava no caixa. Ela pensou como era possível piorarem ainda mais porém nada respondeu. Fez um sinal entendido como um sim é mesmo e o que se pode – não concluiu o pensamento por distrair-se com a passagem do casal. Haimeard perguntou se Alice não queria tomar alguma


coisa. A voz da resposta não denunciava a inquietação e ansiedade, pelo menos ele não percebeu. Um suco de laranja, obrigado. O chinês cumprimentou-os. A mulher, antes de passar as caixinhas no leitor ótico, perguntou se era crédito ou débito. Uma medida interessante isso da nota fiscal. Quer dizer, se não fosse um roubo os impostos no país. Débito – ele disse e acrescentou o número de seu cadastro na Fazenda. Saíram furando as embalagens com os canudos. Talvez a última refeição de Alice. Requinte concedido aos criminosos.


Sei de seus problemas de tempo. Não se preocupe em responder os emails imediatamente. Você faz provas, eu corrijo. Você assiste aulas, eu as dou. Ambos estudamos, pesquisamos. Somente isso já seria o bastante para preencher um dia. Tento administrar o tempo para que reste algum. Entendo também a questão do celular. É isso mesmo: como você justificaria as ligações? Para mim também seria complicado manter um contato tão assíduo com uma aluna. De resto, sei que você seguirá seu caminho. Não tenho como impedir nem quero. Como iria querer para quem amo uma vida instável a meu lado, sem mencionar os naturais problemas decorrentes da diferença de idade e o escândalo? Serei feliz quando souber que você encontrou alguém. É a ordem natural das coisas. Alguém que esteja aí por per to. Alguém mais jovem. Com a vida financeira estável. Tudo o que posso ser, já sou: teu amigo.


Mas em momentos fugidios chego a pensar que posso ter um final de vida bacana, sendo fiel a você. Assim, se você hoje ainda está sozinha, não creio que faça mal pensar que sou teu e mesmo na distância ser fiel. Talvez o problema seja exatamente esse, a distância que entre nós não existe. Te ver todos os dias mal podendo te olhar. Vez por outra te tocar, desde que não notem. Quando casei eu era virgem. E quando ela me abandonou, ainda era a única. Acredito que a razão de ter me deixado tenha sido a instabilidade financeira e não me orgulho de não ter sido capaz de lhe oferecer isso e o melhor que o dinheiro pode comprar para nossos dois filhos. Mas me orgulho de ter sido todo o tempo fiel. Gosto de pensar que não houve mácula no casamento enquanto durou. Agora descubro você, que me aceita e se sente feliz porque estou contigo de alguma forma, mesmo que um leitor silencioso de seus posts,


mesmo em emails imensos em sua caixa de entrada, e você não se enfada com isso, antes diz gostar. Para mim é o bastante. E, se você é fiel assim, não posso ser diferente. Se você sempre arranja um tempinho para responder. O quanto vai durar, não sei. Mas enquanto durar quero estar contigo e ser fiel a você.


Era alta e magra. Simples no vestir. Olhos grandes e atentos. Perscrutadores. Extraem das coisas pequenas intensa vivência. Em nenhum momento ocorreu ao professor o que se supunha deveria. Não porque tão jovem. Nem porque bonita – algo em que ela mesma nunca acreditou (por isso os meios enviesados de sedução). Não. Em nenhum momento. E sim porque era uma irmã. Porque sem influência sensual se fazia adorar. Porque a adoração de súbito preencheu a existência que ele imaginava fadada a um final entre livros e convicções exangues. Agora santidade tão grande compreende também a tor tura da carne prolongada pela tecnologia farmacêutica, a condescendência da vaidade e os caminhos que ignoram correções sociais em prol do único que leva a si mesmo. Parada perante os livros com um deles às mãos. Estátua de per feição marmórea e luminosidade inusitada.


Um pequeno espaço onde reinava sobre o mundo. O tomo repousa gratificado nas mãos espalmadas. Inadver tido olhar a capta. É o ser esperado, a redenção. Exista. Exista pra mim. Inesperado destino. A iluminação nas lombadas testemunha o surgimento da criatura. Um dia a ser lembrado. Ela sai do som da página recém passada e o encara. O movimento da estátua estremece o que no segundo anterior era concludente. O olhar dela não demonstra medo antes afronta. O volume flutua sobre as palmas diáfanas. Ele saberá seu nome num ímpeto que não lhe era comum e após o escândalo jamais deveria ser.


Quando escutou a por ta, Meereshimmel virou a cabeça. Deixou a cor tadeira e caminhou na direção do visitante. Àquela hora não era decer to um cliente. Se bem que alguns saibam que por segurança eles trabalham na gráfica de por tas fechadas. Olá? Reconheceu a voz e não se deteve no movimento de destrancar a fechadura. O rapaz entrou e se aproximou da mesa maior no centro da sala. Apanhou com as duas mãos a pasta que trazia debaixo do braço. Um jovem sempre disposto ainda que viva na periferia com a mãe doente, pensou Meereshimmel. Ele, cético acerca de sacrifícios. Quais os que faria por sua própria mãe? Tinha mulher e filha, a empresa, seus próprios problemas. A mãe vivera uma vida. Mal ou bem a vivera. Há instituições que são quase hotéis e não dos baratos. Mas ela insiste em viver sozinha. Naturalmente cedo ou tarde precisará dele. Prefere não pensar nisso agora. E aí, rapaz? o que tem para mim?


Ingenuer realmente gosta da forma como Meereshimmel o trata. Sente-se impor tante. Jamais terá algo de si mesmo para oferecer como proposta a um dono de gráfica. Poderia estar melhor de vida. Poderia não ser ainda um empregado depois de tantos anos. No final das contas fazia sentido o interrogatório que o pai daquela sua namorada costumava fazer. Devia ter continuado os estudos. Hoje seria um médico ou um engenheiro. Teria um automóvel, casa própria. Um sítio. Aqui pode ser verde. Aqui você quer assim arredondado? Meereshimmel não fala mais com o rapaz mas com a mulher que se instalara entre eles. Ela faz de propósito. Deixa que ele entre antes. Os prestadores de ser viço se dirigem a ele e ela aparece em seguida. Sou eu quem manda. Desde o primeiro dia percebera. Está quase acostumado. Não vê mais o projeto estendido na mesa. Olha a moça que veio lhes trazer café. Lembra-se de Alice. Era o problema dela. Nunca ter trabalhado duro como uma ser viçal. Nunca ter sido a moça do cafezinho mas a moça dos


filhinhos-de-papai. Que não tardaria a ser a moça dos próprios papais. Aper tou os olhos e a viu. Perdoe-me – dissera ela quando ele descobriu o caso. Não sou mulher para você. Não te mereço. Claro que não. Nem o pai merecia o filho obediente e dedicado que ele tinha sido. Ok – disse a mulher. Estavam então combinados: verde e arredondado.


Uma vez ela viu sua mãe no mato seco amarelado. Longe o verdor quase mofo do bosque que se adivinhava na neblina. Devia ter sido uma bela mulher. Nem tanto talvez mas cheia de ar tifícios. Deve ser hereditário. Para fazer alguém como seu pai se casar alguma coisa deveria de ter. Ali estava azul um manequim ao ar livre. Azul – um espantalho de grife. Para proteger o quê? Para fugir da vida exemplar a que se ligara. Brilhando. Muitos dizem que não ligam para a par te material. Ela de fato não ligava. Nem ao convencional. Porém outra dentro dela queria manter tudo no lugar. Controladora, dissera um dia o marido. Admitiu isso. Ser par te do leque do que ela controlava. Um vento. Um som. Se quisesse poderia ter parado o sol naquela posição em que sua sombra não mais que borrava o estalante chão – difícil crer num dia tão vivo e verde. Foi aqui. Ele sabia que eu era fraca. Que o arrebatamento a par tir de um beijo mais ousado levaria aonde ele queria ir. Tentou resistir o quanto pode embora até o amasse. Não nasceu para ser mãe.


Tanto fazia se acontecesse na remota possibilidade ou na regularidade matrimonial. Pode ter sido uma coisa ou outra. Alice agora existe. Pais não sabem contar aos filhos as coisas da vida. Quando descobrem é tarde demais. Ele está calado. Seu beijo é tão quieto quanto ousado. Como se apenas esperasse. O sol nasce todas as manhãs. O ônibus pode demorar mas chegará ao terminal. Homem experiente, ela te compreende. Um filho será estor vo também para você. Um dia teve vida própria. A filha obser va, admira, inveja, não inveja. A mãe se mexendo (outro som) num passo de estranha dança. Alice sim escutava o piano: sua mãe tinha esse poder. Não quer porém terminar como ela. Não quer nada que não a leve a seu próprio destino e a seus próprios pecados e vir tudes. Estavam cheios de

resquícios do mato ao saírem pela trilha de terra tendo adiante deles a visão de uma criança como se ela os obser vasse e se o fizesse discerniria o rosto tenso do homem que deveria estar ao contrário satisfeito como a mulher que nem lembrou de passar


na escola como prometera à professora pois o aproveitamento escolar de Alice estava em franca decadência. O traje de gala da festa se torna um vestido cinza de chita. A mulher descalça como Alice agora escondida e pensativa providenciando também um borrão móvel para o chão seco e amarelado.


Uma luz cor tante, uma lâmina sobre eles. Sob as ár vores que parecem falar umas com as outras. Olhem. Parece que ficarão juntos. Terá sido um final feliz. As ár vores do outro lado da rua concordam far falhando logo acima de um olhar deliciado que agora atravessa quase junto ao olhar de Alice. Está mais e mais agitada. Oh calma – diz o gato sobre o muro com um levíssimo tremor de pelos. Haimeard põe o casaco sobre os ombros dela. Diz que ela parece estar com frio. Não tanto assim mas sorriu e agradeceu. O toque no celular avisa sobre a chegada de uma mensagem. Combater a corrupção depende de todos. Seria isso um spam do bem? Haimeard ia falar algo quando passa um carro zunindo. Parecem deuses furiosos – refletiu Alice. Deuses. Haimeard então... O que ia dizer? Tinha a ver com Ministério Público, mas ele não conseguia lembrar o que era. Talvez fosse sobre o desrespeito e o ódio que há no trânsito. A perda de memória o incomoda como se significasse idade.


Como se estivesse se aproximando do momento inexorável em que se veria em situação similar à do malfadado pai que tinha cerca de vinte anos mais que ele vividos num tempo tenebroso que Haimeard esperava jamais chegar para si. O homem que dirigia o carro imagina que já a viu antes. Hoje mesmo. Não era ela que estava na biblioteca? no setor de literatura francesa? O rapaz, nunca o havia visto. O carro passou. Não deviam estar muito longe agora. Passos imperceptíveis em meio ao som do trânsito. Na padaria, Haimeard cumprimenta um rapaz que parece surpreendido. Faz tempo que ele não vem aqui. No instante de sua distração Alice já se havia adiantado e se aproximado do prédio. Sim: é esse o número. Um sorriso e o questionamento de um sorriso. Toca o botão do inter fone, inclinada. A saia acompanha o movimento puro às luzes da lâmpada do poste e da lua que na pele dela se misturam. A voz saída a seguir lembra a voz que acabara de dizer “Próxima estação”. Sim? Alice! Estava mesmo pensando


em você! Onde se meteu? São momentos em que a gente após desper tar permanece procurando a situação do sonho e tentando descobrir onde se encaixa na realidade que subitamente trouxe o sol na janela. Que sonho? Ele não sabia mais. Alice conhece Sonja. De onde? – Estou com um amigo, ele pode subir? Antes que Sonja respondesse, aliás já está respondendo, dizendo que sim, claro, Haimeard disse que não poderia, obrigado. Ele estava atrasado. Precisava fazer um trabalho em casa.


Ao passar o cadeado na gráfica agachado Meereshimmel tenta entender o que aconteceu com seu casamento. O destino decidiu não permitir volta. Em que momento aconteceu? Sonja. Com que capricho arruma os armários! As roupas de Meereshimmel são triunfais paradas nos cabides. Os cômodos sempre cheirando a talco. Caminha para casa no silêncio que desce sobre a cidade. Passa a mercearia do chinês. Pesado bater do coração. Taquicardia? Desde quando? Por quê? Cansaço provavelmente. Estresse. Muito sono independente de quanto durma. Frio interior. Elíptico o passo erigido largo e hesitante segundo a tristeza. Por que tudo termina assim? Aquela Sonja morrera e a solidão dele era a solidão de um viúvo. Na entrada do terminal ele vê irmão. Claro que não pode ser ele. Só um cara parecido. Bem parecido. Olha o per fil. A semelhança não some, antes se acentua, e ele se deixa levar por momentos da infância. O lago, as meninas, brincadeiras de bola e de médico. Recupera-se.


Retorna Ă  idade adulta. NĂŁo pode ser ele. Ele nunca vem para esses lados.


A proprietária de uma livraria demonstra interesse no momento que Haimeard está em vias de uma decisão drástica. Lembra-se dela com per feita clareza ao deparar com o car taz da mulher no fundo da escadaria do metrô. Per turbadora lembrança. Tudo o que sua vida nunca teve. Horários, hábitos, trabalho, descanso, lazer. Tudo com fim determinado. A intenção de Nastássia era fazer dele uma espécie de sócio ou gerente sem descar tar o relacionamento amoroso. Num jantar que tanto poderia ser romântico ou de negócios confessou o plano comercial. E estar apaixonada. Deixou o rapaz tranquilo e orgulhoso (era uma bela mulher). Ele chegara a temer por sua sor te. Nastássia era uma mulher feita, experimentada. Seu zelo das coisas uma espécie de gestão. Acrescentou ao jantarem, enquanto passava os dedos na sobrancelha direita (quando adquiriu esse tique?), que sua proposta não era caridosa. Haimeard mostrara nos dias da fábrica merecer uma chance assim. Não especificou,


mas estava incluído o relacionamento amoroso no pacote.

Saindo do restaurante, as ruas eram totalmente novas para ele. Enveredara por caminhos, os mesmos de sempre, que desconhecia. Mangas arregaçadas sobre um resto de bronzeado adolescente. Foi uma tarde agradável. Ele acreditou que ela queria apenas agradecer assim. Nastássia tinha outros planos. Madame Bovar y e Ana Karenina são vestidos comuns muito diferentes do tipo das roupas que o atraíam: Isabel Archer ; Dita Imbar ; Catherine Earnshaw. No dia seguinte já não podia assegurar isso.

Um início difícil. A possibilidade de serem descober tos. Talvez por isso não tenha conseguido. Verdade seja dita: ela foi paciente e carinhosa. Mais que isso. Criativa. A brincadeira liber tadora com o número do quar to. Fingir que dorme enquanto ele a


despe, primeiro despe. Aceitar radicalizações de que não gostava acordada ou não. Os olhos vendados. Sujeitar-se a ser amarrada com meias à cama. Uma escrava. O medo de ser apanhado não é afrodisíaco. Nastássia em tudo mostrou compromisso com as fantasias que inspirava exceto – exceto – quando o assunto – no depois cedo ou tarde – desviava para uma possível fuga com Haimeard. Ou simplesmente ficar com ele. Aí surgia uma Nastássia que até o fim seria um mistério para o romântico ingênuo que se manifestava. A questão não era financeira. Não era subsistência nem dependência. O adultério é apenas... é apenas... Ele nunca descobriu. Restou obsessão sexual. O desvio do amor pleno que deveria englobar ardor e camaradagem. Veleidade que não pode ser atendida.


A calçada. Hidrantes. Meereshimmel. Não tão ereto quanto em outros tempos. Casas . O tempo. Os lugares no tempo. Aqui costumavam aparecer umas colegiais parecendo amigas de antes com suas carinhas rosadas e enganosas e suas mochilas supondo o trivial do novo mundo. Celular. Mp3. Notebook. Entradas estratégicas para os fios que tampouco existirão mais dentro em breve. Se sobrar espaço e tempo um livro quem sabe. Há entre elas e ele alguma coisa pendente que provavelmente nunca será esclarecida. Lugar melhor esse limbo. No ponto em que passava havia gerânios e agora só asséptica pintura branca metálica quase extensão da pintura do carro estacionado debaixo da janela. O abismo entre a frialdade da pedra e a cor viva das flores desabrochadas. Sim: envelhecido. Preço da dedicação integral ao trabalho. Túnel sem luz no fundo. É a vida. Momentos como os que ele passara com Alice pesam agora não como arrependimento, mas – Quantas vezes pegara essa avenida somente para ver


outro horizonte! Dobrava na primeira à direita vindo da Prudente Lins e seguia até a igreja da Perpétua Anunciação só pelo prazer de ver algumas casas novas no caminho. Não ganhava um minuto. Chegava ao contrário muitas vezes atrasado . Era outro caminho e por isso valia. A alegria de ver o mundo sob outro prisma, como se isso pudesse representar outra vida. A loja de esquina ainda um armarinho resistente. Alegra-se com o som do trânsito, que dizia isso de outra vida. Que não era tarde. Num piscar será noite. Podia ir para casa e quem sabe seria uma noite sem brigas. Quem sabe tempo haveria para que fizessem sexo como costumavam no começo. Sem brigas já será ótimo. Ali está seu prédio surgindo duro e frio nas luzes da lâmpada do poste e da lua.


O que no último instante a impediu e a manteve com Haimeard foi semelhante ao que a manteve com Öffner. O rosto insosso de galã visto no reflexo do vidro escuro do automóvel. Tudo parecerá sem sentido um dia. O avô costumava dizer para que se ela tapasse os ouvidos em situações de ira ou euforia teria melhor dimensão de quão absurdo tudo é. Aliás experimentará isso quando a T V mostrar as ruas de fogo. Uma retrospectiva. O tempo como ele passa! Voltando ainda mais. Öffner. Só tinha o automóvel a oferecer. Inteligência limitada, expressão apar valhada, cúpido por cúpido, sem cultura, de lerda sensibilidade. Terá Ananda reconhecido algo mais? Pode ser. Por que não? As pessoas mudam. Ou não e nosso juízo delas é que foi errado. Por esse juízo Haimeard oferecia amizade e salvação. O que Meereshimmel uma semana antes oferecera? Não irá comparar. Era diferente. Era diferente: como costumam dizer pessoas apanhadas em faltas. É diferente, como tudo na vida.


Caminham. Mal viram a esquina no ímpeto simultâneo os lábios se procuram cúpidos. Mas há que ter mais ora se há. Confronte cupido. Beijos. O de Öffner sensabor, compulsivo, desconfor tável. Num entardecer per feito exceto pelo próprio beijo um feixe de luz pousou em seu ombro e ela tomou aquilo por um tipo de sinal.


Ao lembrar-se do beijo de Eña Ábaco, Haimeard evocou umidade tenra às voltas de um lago. Os olhos dela estão fechados e tornarão a se fechar à noite. O namoro não durou dois meses. A velha questão. Amor e paixão. Camaradagem e cumplicidade ou cer ta canalhice e um quê de patifaria. Travessura inconsequente. Eña não pensava assim. Quando a beijou era como ele tivesse confessado o seu amor. Amor : o que a palavra significa para um não significa para outro. Alice não acha nada de nada. Simplesmente sentiu o ímpeto de beijar e beijou. Ao contato dos lábios um leve vestido azul com saia rodada definiu seu corpo em tons doces como diante do mar o dia ensolarado e quente exceto por uma também leve brisa encrespando as marolas espumantes desde lá longe. Quando sentiu a outra língua estava calçada com sandálias de salto e revelaram-se acessórios negros e estava protegida por uma suficiente jaqueta jeans. Aliviada por novamente ter escapado da mor te. Por


n達o estar sozinha e saber que tem de novo um lugar para comer e dormir.


Segundos depois Meereshimmel passa pela esquina. Devia ser mais cuidadoso com seu casamento. Um bebedouro público a céu aber to de cujo jorro refrescante ele toma um longo gole antes de dobrar. Sonja é uma boa mulher – pensa. As manchas úmidas em sua camisa se agarram à pele da caminhada. Jamais pretendeu se divorciar. Lembra agora com carinho do capricho doméstico da esposa. De seu prazer na rotina. Ele a admirava por isso. Ela é realmente caprichosa. Admirava-a pois não conseguia ser assim. E além do mais bonita e atraente e seus cabelos aquecem a luz do dia que desenha olhos vívidos e um nariz arrebitado e arrogante e o queixo macio em molhadas imponderáveis sombras. Não há razão de procurar outros rostos. Outros corpos apenas, talvez. Nunca relacionou corpos de mulher a temperamento e caráter antes de Alice. O que houve então? Desde que ouviu a sua voz foi transpor tado e era como se não houvesse ilícito e a situação fosse a mais natural do mundo. Passou a entender o mundo


como um rapazola livre diante de uma menina bonita e simpática e imaginou todas as situações a isso relacionadas como as veria se de fato. Podiam ir ao cinema ver “Amor Pleno” de mãos dadas e lá dentro se beijarem mas não irem muito além do adequado em se tratando de uma moça de família com quem estaria junto pelo resto da vida numa casinha aconchegante no subúrbio de Engenho da Rainha, que muitas pessoas definiam como o campo e a vida do campo em plena metrópole, e ali seriam felizes e teriam filhos e... Bianca apareceu do nada e o trouxe de volta como o teria desper tado com um insistente choro de madrugada. Atravessando a rua e quase atropelado, o coração disparado, pensou que tenha sido o que tenha sido não devia pôr sua vida a perder. Como poderia culpar essas jovens? Mas culpou Alice e perdeu o controle. Culpa de quem seja por isso impérios caem e reputações são destruídas.


Vê-se num futuro afetado por suas aventuras. Alice disse que tinha dezoito anos mas tinha mesmo? Parecia tão menina... Imaginemos que não. Que é de menor. Imaginemos que os clientes da gráfica venham a saber. Tinha posto toda sua esperança financeira na empresa. Os investimentos em tecnologia não foram pequenos. Só essa calandra digital custou 100 mil. Amanhã o próprio nome “gráfica” será inadequado. A torre envelhecida empresta ares lúgubres para a Igreja de São Sebastião do Empíreo. Virá à missa com Sonja no domingo. Atos deve prevalecer sobre retórica. Não tem mais tempo para os velhos argumentos com que em tudo se justificava. O reflexo no vidro de seu prédio afirma que é ele quem está entrando e é mas poderia não ser. Poderia ser um sósia mas o vidro continuaria garantindo que era ele. Haimeard e Alice ali per to estão igualmente em todas as janelas do metrô. Haimeard e Alice. Haimeard e Alice. Daqui até em casa dá cerca de uma hora – diz ele. Nesse horário


menos, contando a baldeação. Ela não se impor ta. Estão juntos. Até quando? Não há de se preocupar com isso. Não agora. Está à beira de uma infecção urinária. Logo agora. Ou ainda bem que.


Meereshimmel no hall de seu edifício se pergunta quem é aquele homem? Está à sua espera, senhor. O por teiro procura na expressão do morador um sinal de que não fez mal em deixar o entrar o visitante. Os olhos de Meereshimmel pesam de sono. É o que diz quando o outro o convida para tomar uma bebida quente. Mas quem é? Subitamente cai em si. Só pode ser. O namorado que ela deixara em sua cidade no interior. Saem juntos. Não. Não conheço essa moça – diz Meereshimmel ao estranho. Tem cer teza? O nome Ananda não te diz nada? Um outro nome para o temor. Não o namorado de Alice mas o marido – o pai? – de... Ananda? Não se lembra. Quando? O vento fazia sol frio mais intenso e pareceu uma boa idéia afinal a da bebida quente. Se apenas a umidade de um dia chuvoso basta para distorcer o som da percussão de um piano, essa nebulosidade de nomes esquecidos induz a um mundo diferente do que parecia antes existir ao se chocar com o destino plácido anterior à menção. Um mundo brumoso que esconde não ninfas


mas dragões monstruosos como os que o coração de Meereshimmel percebia sem discernir ao longo do quar teirão.

Além do vidro vê

que o café está quase vazio. Menos mal no caso de uma cena. Amigo, dois cafés em xícaras grandes, por favor. Desde quando os invernos passaram a ser tão frios e chuvosos? Pelo calendário maia o mundo iria acabar dia 21 de dezembro. A chacota foi geral. Ninguém pensou se a questão não era outra: o fim do mundo cotidiano. As folhas rodopiavam mas os cacos no calçamento reluziam. Linda noite, não é mesmo? Meereshimmel assente. Imagina o que o homem pretende. Naturalmente tem cer teza de que ele estivera com a jovem mas não utiliza essa cer teza como ameaça. Era muito mais velho que ela, de quem agora se lembra. Homens muito mais velhos costumam ser doentiamente ciumentos. Homens-pais também. O fundo vazio das xícaras fumegava. Não. Não parece disposto a qualquer tipo de violência.


As pessoas que passam vêem dois vultos contra um céu noturno inacreditavelmente vermelho. A torre da igreja ao longe é também um vulto que se junta ao desenho. Alguém achará que lembra uma cena de filme, sabe, aquelas que indicam a passagem do tempo, um casal e a torre da igreja depois a cidade vista do alto, depois uma rua específica e um prédio específico nessa rua. Subindo as escadas, a por ta de um específico apar tamento. Lugar zinho lindo. A cabeça de Alice se virou para o fundo da sala escura. Os papéis de trabalho de Haimeard estão espalhados pela mesa. A sombra na metade de seu rosto delineou traços abismados. Ele a vê num dourado escurecido delineado por ouro luzente. No lusco-fusco traça-se o início dos seios na blusa. A blusa se solta aos movimentos.

À luz do abajur efeitos concêntricos se esticam até os pés deles ao riscarem um espaço improvável. Um


espelho. Um relógio antigo supõe solstício e equinócio perdidos. Alice está tensa. Você precisa de uma massagem, diz Haimeard. Surge o desejo impossível de momentos sagrados que não existem nem podem existir por causa do pecado ou da santidade. Haimeard está rendido não pela lascívia mas pela probidade indevida. Logo amanhecerá e ciclos continuarão narrando a história de uma existência a ser como todas esquecida. Terão passado a infâmia e a glória. Então, por favor, neste quar to há um lugar adequado. Esse divã. Coloque o roupão. Me avise quando estiver pronta.

A mão esquerda puxa por dentro a manga direita da blusa. Melhor que perambular pela rua?. Primeira vez na vida ela se pergunta. Essa habilidade das mulheres é a dos mágicos – pensa ele. O assoalho pergunta a Alice quantas vezes prelúdios semelhantes se repetiram e ao tentar responder ela constata que nem uma vez houve introdução do amor exceto


quando não houve, quando nada aconteceu, quando Meereshimmel

Delícia do vagar, o amor. Permitirá que a fronte se tur ve porque é assim com todo ser humano uma vez ou outra quando não sempre. Aqui e ali, ontem e amanhã. Não estou sozinha, não estou sozinha. Você é linda, mais que linda. Nunca senti isso com nenhuma outra. Não estou fingindo, ele pensou; não estou fingindo. Deveria agradecer a guarida com alguma coisa parecida com amor verdadeiro. Alguma coisa semelhante ao que começo de fato a sentir. Você é minha irmã – pensa Meereshimmel. E não pôde. Não quero mais mentir – murmura. Não mais sentir arrependimento ou desespero. O corpo dele atendeu. Tal era o seu amor.


A blusa por cima da cabeça é tratada pela outra mão com muito jeito como se não fosse para ser uma peça de roupa deixada em qualquer lugar. Quando ela se abaixa o olhar oculto a perde por segundos. Por segundos todo o homem do olhar se perde. O olhar é tudo o que tem.

O fecho do meio vai para o lado esquerdo noutro movimento hábil e é aber to. A saia solta. Uma perna e depois a outra. Que diferença haverá entre esses movimentos e os de uma outra qualquer num outro dia qualquer antes ou depois? Agora é tudo que deixará de ser. Não é exatamente a acusação que Haimeard se especializou em fazer ao pai? Entre dois estalidos de elástico ela diz que está pronta. Ele tarda uns segundos e surge. Não diz nada ao entrar.

O contato gelado das mãos com a lisa barriga alva trará um resultado visível no brilho da pele. O sorriso


no rosto dela pode ser de cócegas ou prazer ou pode não ser nada. Um sorriso ner voso que ainda a acomete depois de todos esses anos. Dezenove. É que ela começou cedo. Todas começam cedo hoje em dia. Antigas etapas são queimadas. Agora, onde antes o sorriso, a mordida no lábio inferior. A cólica está passando a ponto de ela se esquecer num ponto de suspensão per feito só possível na dissipação de alguma dor. Transição que um filósofo chamaria de prazer. Olhos se aper tam. Lábios se entreabrem. Tão lentamente que ele pode conceder valor a cada um desses deslocamentos como notas numa prova escolar. Faces pálidas e vívidas de quem não sofreu o bastante mas pensa que sim. Cheiro de banho tomado. Ela trouxe decer to algum per fume – pensa ele. Esse ele não reconhecia como um dos seus. Que cílios! Os braços cruzados sobre os seios. Permita-me. Antes derrama mais do óleo sobre as mãos e as esfrega uma na outra. Pingam as folhas or valhadas. Avançam sobre a proteção que pouco ou nada resistirá. Conversarão


os de coração puro sobre as horas amistosas da paixão? O que dirão? Que confor to! Que prazer! Que bons pensamentos de esperança! Por quê? Não pergunte. A vida segue. Seguem as mãos. Mais que coxas. O reflexo devolve labaredas. Caminho inevitável para um futuro de cuja inexorabilidade Haimeard não estava completamente convencido. Cansada submissão? Simples recompensa? A que exercícios se entregará depois a fim de acalmar a consciência? Não há de ser o caso. Tudo pode ser simples como ela mesma está ensinando assim plena em uma peça que não se sabe quanto ainda durará. As mãos prosseguem e, no instante em que ela fechou os olhos e se aquietou, permitiu que a despretensão viril o erguesse de uma vez por todas.

Não se lembravam mais do que haviam conversado. Todo e qualquer assunto é apenas um meio para se chegar aqui. Não sabem nada um do outro. Nem o pouco que sabiam. Alice deitada


submissa no divã está agora na por ta de casa. Sua saia xadrezada cur va-se e se ondula sobre as costas das coxas. Hum Énigme a olha deslumbrado. Veio pedi-la em namoro. Se seu pai deixar serei o cara mais feliz do mundo. Ela discretamente olha por cima de seu ombro. A poeira ainda sobe onde houve a freada. Conheceu-o numa festa na noite anterior por meio de um amigo comum. As mãos na par te interna. O momento que por toda a noite ele havia sonhado. No final talvez ela tenha, pensou, outras vir tudes. Entre. Você fica bem de azul. Tome um refrigerante comigo na cozinha. Papai já está descendo. Sentaram e ele não resistiu. Por debaixo da mesa. Saindo da cozinha, ela toda molhada. Meu Deus, um cara se dar a essas liberdades. Estava reduzindo demais seu nível de exigência. Então o rosto de Haimeard encheu a paisagem fora da casa que a viu crescer no interior. Mantém a pressão das mãos por alguns minutos depois que as aproximou.


Ele não diz nada. Ela se vira, os cotovelos no divã. Óleo derramando-se em suas costas. Descendo por suas costas como se tudo tivesse sido combinado. O quar to amarelado. Palpita. O fogo se alastra pela campina, avermelha o céu da tarde. A pele de Alice. Seu cheiro e textura. A senhora Chiem diz que a filha

não precisa ir fazer as compras. Se ela estudasse e passasse de ano estaria per feito. Pensava também que não seria nada mal se ela aprendesse um instrumento. Ela própria, a mãe, era formada e chegou a trabalhar fora e em casa antes de se casar. Não queria isso para Alice. Melhor é ter um diploma e se casar com um homem de bem e viver no estrangeiro. Então Alice acabou indo passear para os lados do lago e no caminho viu a queimada. Por que as pessoas fazem isso? Daria tudo para viver num mundo diferente. Como gostaria que fosse? Um mundo mais verde. Mais justo. Viu de longe a mãe tomar o ônibus para a cidade. Não esqueça essa imagem. Você também não quer ser como ela. Com cer teza um futuro longe dali.


Que o “de bem” signifique um homem que possa lhe dar o que precisa. Como, de outra forma, poderia refletir sobre coisas essenciais como a justiça do mundo e o que é ecologicamente correto? Esse homem não tem rosto mas pode imagina-lo. Esse prazer não combina com nada que conhece. Escreva um poema. O vaivém é lento o bastante para favorecer todo tipo de devaneio. Nessa posição Haimeard não consegue se controlar por muito tempo. Pergunta se ela já tinha ido. Ela teria preferido que ele tivesse continuado calado no comando sem se impor tar com ela. Um modo de compensar os homens pela forma como os usava.

– Oi. Tudo bom? – Haimeard? Tudo. Quer dizer – Interrompo alguma coisa? O que ele poderia estar interrompendo se ela estava na pensão em que ele a colocou para não se


incomodar mais e tampouco ela o incomodar uma segunda vez? – Que nada. Achei que você não ligaria e – Por que não? Ele pergunta mas sabe o porquê. Deixou claro de várias formas. Só uma noite. Ou não deixou? Ele paga o lugar para que eu passe o mês e o deixe em paz assim. – Paguei a pensão porque você não podia e lá em casa você sabe Ela se assusta. Ele ouviu meu pensamento? – Não daria cer to, né?

Parou junto à por ta na tarde de outono. Não fazia mais sentido estar ali e todavia estava. A força do comodismo humano. Nada mais justificaria o desperdício de sua energia já de todo comprometida pela doença com a tentativa de colar os pedaços de um vaso cujas linhas proclamarão para sempre a


ruptura. Antes teria recomeçado. Noutro lugar. Sozinho. Agora a idéia sequer chegava a se cristalizar. Ser feliz ou não é menos impor tante do que subsistir. Até o suicídio ficou para trás junto à dor e alegria. No quar to as batidas e a voz produzem nas feições da mulher deitada o paradoxo de uma desanimada excitação. Não adianta – pensa. Ainda que fique tudo bem de novo, não vai durar. Ela estava cansada como ele. Mas a estação estava longe o suficiente do calor insupor tável e do frio paralisante para que pudessem se dar essa opor tunidade. Haimeard entende o que aconteceu com o pai. Entende e consente em viver a mesma situação.

– Não, não daria cer to. Nunca dá esse – Nunca – Mas quero O que poderia querer? O coração dela dispara. – Que bom que você ligou, pensei muito


Ela na verdade pensara menos do que poderia. Porque estou abrigada? Sou tão calculista... – Queria te convidar para jantar hoje. – Onde? – Passo aí às oito, está bem para você? – Está ótimo. – Então até depois. – Até. Um beijo.

Foi na noite em que se reencontraram. Esperou-a alguns minutos na sala da pensão diante da T V. Oi, demorei? Ele sorriu. Claro que não. Tchau, dona Francisca. No restaurante, embora conversem, ele olha ao redor. Como se procurasse. E então? como foi o dia hoje? conseguiu alguma coisa? Ela diz que, bem, talvez. Então ele a olha nos olhos, mas não escuta a própria voz com clareza. As pessoas estão vestidas quase a rigor. Ela sempre se torna evasiva quando se trata de trabalho. O silêncio está cheio dessa


percepção. Por que ela deve aceitar a fúria competitiva do mundo corporativo como se fosse sinônimo de ganhar o sustento? Se uma coisa deu cer to na vida moderna foi a liberdade de se viver conforme os próprios caminhos. Ele mesmo a toda hora se perguntava se aquelas secretárias e até meninas que exerciam na firma a mesma função precisavam de toda aquela estratégia de guerra em nome da subsistência e deixar o lar e as crianças para serem cuidados por uma empregada que seria na prática a mãe dos filhos delas. Se perguntava por que por exemplo deveria ser motivo de escândalo se, caso ficasse eventualmente desempregado (possibilidade sempre à espreita sobretudo em empresas de tecnologia) e estivesse então casado, passasse a cumprir as tarefas da casa enquanto a mulher permanecia trabalhando fora. Está tão absor to que não percebe o quanto ela teria gostado que ele esticasse o braço mais um pouco e cobrisse sua mão sobre a mesa. Não é nada romântico. Não está interessado. Por que então me ligaria? O que


mesmo aconteceu após adormecerem? depois que acordaram na manhã daquela noite? Ela imaginava que ele era agora um amante. Uma rua sem saída. Róseos os prédios. É para o outro lado. Em algum lugar alguma coisa de vidro caiu e lá vai ela para a pensão sem um único beijo, sozinha no último trecho do percurso e sem sequer uma carícia libidinosa de adeus. Então se pergunta o que ele quer.


Deixou para outro dia mas não pode demorar. Uma jovem como ela não ficará muito tempo sozinha. Tomará alguma coisa antes para dar coragem. Por que será que ela o intimida assim? Hoje não pode mais refugar. Como ela está linda! Uma rosa vermelha no meio da mesa. Dizem per to dela que aquela era uma safra ótima. Casais à beira do compromisso em restaurantes sofisticados parecem crianças ner vosas. O ambiente avermelhado está contido no sorriso tímido com que Alice abaixa a cabeça. Ela não tem roupa adequada mas se sai bem com as que tem. Bebe do cálice com olhos num nada à esquerda dele quase acreditando. Mesmos olhos agora o encaram enquanto ela fala e depois cala e sorri num mesmo ricto. A rosa, o cálice, a luz avermelhada. Um mesmo enlevamento. O efeito do álcool, o desejo, a beleza de uma mulher. Folga no dia seguinte. Quem sabe uma nova vida a par tir do dia seguinte.


Outra vez em casa e outra vez a tua dolorosa ausência de onde acena a perspectiva de uma vida sem você mesmo no futuro que insiste em não ser idealizado de modo a conter as soluções de nossa vida juntos. Não pretendo usar esse argumento de que estou sendo injustiçado porque nunca soa bem e supõe uma superioridade em relação a esses que agora me condenam, no que de modo algum acredito. Em tese estão corretos. Meu declínio é mesmo lastimável. Teu amor talvez tenha sido uma última compaixão da vida para comigo e isso não poderão me tirar. Por agora nossa correspondência reflete o que me basta da vida e o que não contém não há de ser necessário uma vez que o que provém da par tilha de nossos pensamentos é a vida que me basta. Os escritos que me pediu, embora estejam anexos, já não fazem par te de mim e de algo que por ventura eu tenha querido um dia expressar


porque estão intrinsecamente ligados ao vigor que me abandona, sem o qual não pode existir plena relação entre o homem e o que pensa. Não quero que o que eu pense seja tomado por algum tipo de verdade à qual a gente deva uma profissão de fé. Não desejo mais que subsistir o tempo que me resta e se talvez haja algo aproveitável melhor seria que outra pessoa, com energia e convicção num sentido para a vida, alguém como você. Porque se um dia cheguei a escrever e pensar alguma coisa que significasse mais que qualquer um poderia alcançar por experiência própria, são proposições que minha própria experiência não mais respalda. O mundo não precisa de mim e muito menos seus habitantes de minhas reflexões. Se há uma estética apar tada de sentido prático por que valha a pena viver, de há muito é uma inspiração que me escapou.


Ao entrar em casa Meereshimmel quase disse. Um sujeito muito estranho me abordou hoje. Por pouco não disse. Iria se trair. Nem pensara nisso antes porque precisava desabafar e antes de tudo Sonja sempre foi uma boa amiga. Quando ele se aproxima dela, ela enlouquece. Sem perceberem estavam no andar superior à sala de aula. Ela o puxou deixando-se pressionar contra a parede. As sombras se misturaram na parede lateral. Lâminas de luz e cheiro de vendaval. Bons amigos também podiam. Quase deviam. Os colegas de classe riam uns para os outros. Finalmente ele entendeu – diz um. Uma hora ela ia conseguir – diz outra. Meu Deus, acho que devemos casar, Sonja. Não posso passar um único dia sem você. Não sei se é uma boa idéia – diz ela. Íamos pôr em risco nossa amizade, lembra? Você mesmo disse isso. É eu disse – diz ele – mas era diferente. Será diferente amanhã se nos casarmos –


pensa ela. De um modo ou de outro nunca mais será assim. Por outro lado havia aquela par te acomodada dentro dela que queria muito pouco além de ter uma casa e ser sossegadamente feliz com seu homem. Ela deixou-se respirar na cama desfeita. Eram casados agora, com todas as implicações que isso significa. Os aborrecimentos. O tédio. Mas ele parece realmente feliz. Agora resta se reconciliar com o irmão e estará realizado. Talvez queira trabalhar comigo. Como vou disfarçar? – pensa ela. E diz: O que um analista de sistemas pode fazer numa gráfica? O que mais será

preciso para que ele descubra? Um dia estava no banho, quando Haimeard chegou. Foi a última vez que os irmãos se viram. Estava no banho e disse alto que estava. Haimeard preferia que não repetissem isso. “Cobri a minha cama com cober tas de tapeçaria” . É meu irmão. Me levava aos lugares quando eu era pequeno.


Alice tem um irmão menor. Não tem cer teza se falou sobre ele para fugir do assunto ou se para desabafar a saudade ou as duas coisas. Lembrança recorrente. O prazer daquela ociosidade junto ao caçula na cadeirinha de dois lugares na varanda. O assovio displicente se misturando ao canto dos sabiás segundo o chamado da espécie e a gaiola do melro sobre eles no mesmo ritmo da cadeira de balanço vazia ao lado. O vento suave do amanhecer também os embalando como um gigante cuja função era acalentá-los não para o sono. Para o dia inevitável e sem descanso mesmo em se tratando de dois adolescentes de classe média duma cidade do interior da rica província. Jonas e Alice acordavam juntos muito cedo e desciam os degraus do andar de seus quar tos um após o outro lentamente como se cuidassem para que ninguém os ouvisse. Normalmente naquela cena fios dos cabelos de Alice dançavam sobre a testa da menina não chegando a incomodar, como se fizesse par te da canção assoviada que


transpor tava o menino para muito longe. Seus olhos entorpecidos confirmam a impressão da irmã. Em algum momento ele tentava acompanhar o assovio mas saíam apenas sons ocos e desarmônicos, sopros apenas, que enterneciam Alice quando olhava para ele, mais um ór fão de pai vivo sobrevivendo num mundo sem regras.

– Você está implicando com a idéia. É meu irmão. Sonja sabia. – Pode nos ajudar. Ela sabia.

– Preciso contratar alguém. Tenho um primo – disse ela – É inteligente, prestativo, honesto. É per feito – enfatizou.

Meereshimmel vê uma mulher substancial, discreta e peremptória recém-saída do banho, pingando pela


casa, falando. Na volta da viagem vim com uma moça, ela acabou de sair, quer dizer nem entrou. Estava com um amigo, tocou o inter fone, disse que ia subir, se o amigo podia vir junto, mas nenhum dos dois subiu. Não sei o que aconteceu. E agora? Ele comenta sobre a amiga dela? conta sobre o estranho dele? A vida é estranha – pensou ao olhar as escadas pela por ta ainda aber ta. Sente-se desmaiar com o mal-estar no peito e escuta o som do transito como se estivesse surgido do nada em seus ouvidos. Ouve nítido o motor do próximo carro. Vê a nova luz da manhã na sala. Hierarquia das horas. Sonja leva os dedos aa boca e quase se inclina como se o estivesse cumprimentando. A toalha escorregando. Ele desvia os olhos. E essa sua companheira de viagem, era bonita? – ele pensou em perguntar. Mas não saiu qualquer som de sua boca. É um bom homem – pensa ela como quando se decidiu. Provavelmente um melhor provedor. Quando fazia faculdade, ela apreciou a forma como Mee abandonou os estudos para ganhar a vida enquanto Haimeard


permaneceu fascinado pelas possibilidades pessoais. Ah – suspira ela com a mão que aper tou o nó atoalhado erguida como quem implora alguma coisa a Deus e o olhar correspondente desviado para os céus aa janela.


A cidade efer vescente em volta dele. O rosto da irmã, o corpo da irmã. Lágrimas num anoitecer febril. Jonas: um ótimo aluno. A ponto de tomar coragem. Quantas masturbações serão necessárias? Quantas abstenções? Os sons do dia nascendo. Os prédios no caminho para a escola. Os pontos cheios antes do seu, antes da baldeação. O dia começa. Não há solução. Exceto se cedesse. Mas não. Não é possível. É pecado. Não é natural. Numa manhã per feita a alegria proibida de existir. Nem cabe um bilhete. Diante do inelutável a vida sequer é alguma coisa exceto ilusão mas a mor te sim algo a se viver. Que faz sentido. A ser criada como o túnel para a liberdade do prisioneiro.

Será por isso que sou assim? Pelo que aconteceu a meu irmão? Faz diferença se for? Se amo em Meereshimmel meu castigo, como poderei amar a felicidade com ele? Uma mor te entre outras a ser


abafada como tantas, nos subterrâneos do metro ou nos corredores da escola. Um aluno qualquer, um irmão qualquer, de outra espécie. Ninguém precisa dele. Até Alice tem se afastado ao perceber que as brincadeiras estão indo longe demais. Jamais me

afastarei de você. Talvez seja fruto da culpa em seu coração que também existe no meu. Mas precisamos superar. Precisamos viver. Preciso de você. Não me abandone. A irmã notou que algo estava para acontecer. Na rua nas coisas que aconteciam. Nas cores do céu um presságio. O sistema de som está dizendo que estamos esperando o vagão à frente concluir uma manobra. A escola dirá que lamenta pensando em formas de manter ocultos os casos ocorridos com outros alunos sob o peso do rigor do colégio. Pelo menos a motivação de Jonas terá sido outra. Pelo menos isso.


Luzes ruidosas em uma manhã como as outras. Como se fosse a primeira. Um mar não distante reluzindo. Algo mudou. Igual ao resto do mundo. Um mundo esperado para começo. Ela a seu lado. Alguém dedilha um violão assim cedo. Como luzes à tona. A questão é que isso é demais para ele. Não é alguém assim. Não se acostumará com apenas um amor. Em algum momento se cansará. Finge que não pensou isso. Varre o pensamento para debaixo desse tapete mágico que são as emoções do momento.

Quieto a contempla adormecida. Alice considerara o desempenho per feito e imaginou que ele devia ter um milhão de amantes, o que não faria qualquer diferença considerando que não o amava. Nem poderia. Não há amor no mundo. Segurança material é segurança material e quem a provê a provê. Sem transformação de sapos. Sexo é sexo. Que história é essa de noite de amor? Nem foi uma noite. Sequer


uma hora talvez nem meia. Estaria tudo relacionado à vida material? Reduzido assim ao prazer? Ela sentou-

se na cama. Aquele era o mesmo homem que há poucos minutos a agarrara por detrás, as mãos for tes aper tando seus seios, a boca em seu pescoço. Calada não havia zombaria em seu olhar. Meereshimmel parece não acreditar. Olha-a perplexo enquanto ela diz para irem devagar. Diz: Não quer comer alguma coisa antes? Não tenho fome – ele respondeu. A voz era humilde. Ela se aproximou encarando-o. Pelo menos me ofereça alguma coisa. Eles já tinham tomado o cappuccino. Vai se zangar se ainda estou com fome? O que significava aquele olhar, ela se perguntou. Quem era aquele homem? Por que mexia assim dentro dela? – Por que você não se ser ve na cozinha? Ele adiantou-se e passou por ela. É por aqui. Alice o deteve num abraço por detrás, deu a volta e passou a desabotoar a camisa dele. Você é um homem muito atraente. Não a cozinha mas o quar to. Para alguma


coisa ela tão jovem tem tanta experiência. Mas ainda será um homem sem função. Ela não o condenava. Sequer parecia decepcionada. Por que achei graça em teus olhos? Se você está como fome a hora é essa. Oh me perdoe. Tudo bem. Vamos sair e comer alguma coisa. Uma coisa ela sabe: se tivesse uma renda poderia talvez amar e então existiria amor. Um trabalho gratificante como sua escrita. Poderia amar. Não é tão má. Vejam, está até chorando. Quando descem para que a leve à pensão, será a primeira coisa que o por teiro notará. Os olhos vermelhos. Primeiro imagina que tem a ver com gás lacrimogêneo. Logo descar ta a hipótese. Brigaram com cer teza. Nunca esteve antes com mulheres e não soube como tratá-la. Ou ela descobriu a homossexualidade – no caso a bissexualidade. Alice não foi nem um pouco com a cara do homem. Não gosta de gente intrometida. Haimeard sequer o viu, cumprimentou-o sem olhar. Pensava em como iria viver sem aquela sensação percorrendo seu corpo todas as noites. Aquele bem-


estar. Tudo o que se subtende do pleno prazer sexual. Não é por isso que homem e mulher se juntam? O por teiro não acha isso. Embora há vinte anos casado jamais sentiu nada parecido. O espelho do hall distribui luzes e sons.


Risos mais se escutam do que virar de páginas ou caneta em papel. Uma cadeira vaga. Por isso adora a Coréia do Sul. Atingiram a utopia. Tecnologia de ponta com educação. De admirar que a biblioteca tenha um livro desses, mesmo em inglês. Há coisas que são leis não escritas; outras, hipóteses vãs. Tecnologia não muda isso. Sites precisam de algoritmos e cálculos mas o melhor programador do mundo não é garantia de sucesso. Compiladores de monografias e estudiosos nada sabem sobre um planeta cujo mar remete a consciência a mundos imponderáveis. Uma moça na cadeira da frente. Precisa se concentrar. Precisa. É o assunto que fascina Sonja. Leis tecnológicas. Um telefone com visor desde os primórdios era possível e tardou até os atuais mensageiros instantâneos por razões que nada tem a ver com tecnologia mas rejeição das pessoas e portanto falta de mercado. Haimeard jamais investiria numa empresa ligada a esse tipo de inovação. O progresso esbarrará sempre na paralisia do que poderia ser um pensamento original


como o mundo interior mais rico esbarra na vulgaridade do comportamento das pessoas. Porque pessoas entre pessoas falam e a verdadeira vida existe na mente mas as mentes sĂŁo deturpadas pelas pessoas que falam. Assim. A falta que faz o silĂŞncio. A falta que faz a solidĂŁo.


A enciclopédia em sua frente confirmava essa visão das coisas. Veio à biblioteca consultar uma de papel, das antigas e pesadas, caras e raras. Para se chegar na mesma informação pela internet gasta-se tempo demais com lixo. Agora vê que tudo pesados todos os aspectos mais ou menos dá no mesmo. Que menina linda. Difícil tirar olhos dela. Então imaginou a figura de Rheya. Após o resumo de Gravinsky as novas teorias se multiplicam. As inovações não têm fim. Mas há um fim para o conhecimento e, além desse limite, é o enfado da carne.

Que tipo é esse Haimeard? Como qualquer homem bem adaptado ao mundo resume a vida entre casa, trabalho e restaurantes nos dias úteis e seus finais de semanas de presumido descanso são gastos na lascívia de pretextos que se sustentam até o usufruto. Freqüenta o salão nobre de clubes quando de alguma confraternização da empresa. É discreto.


Suas pequenas aventuras ninguém as nota. As maiores tampouco. Não tem opinião formada além do juízo geral e mantém per fis em todas as redes sociais. Ali é plenamente feliz e faz questão de que todos o saibam. Exulta quando percebe a aproximação de um ou outro contato. Não acredita que se possa usar os dados privados exceto para personalizar a publicidade. Acredita que tem escolha; que quem só vê T V aber ta é que não. Se a linha dos lucros continuar em queda lenta mas regular será pior que a inconstância dos ganhos e perdas alternados a cada mês, augúrio de inflação ou coisa pior. Bom que tem enfim um bom salário reajustado pela mesma inflação. Há um destino pessoal ou todos estamos agregados num mesmo link? Um destino para os países além do crescimento? para seus habitantes individualmente? E os que não tem mais essa necessidade, como os nórdicos? Um homem comum, enfim. Desses para quem a questão deixou de há muito a carência mas como o administrar o excesso. No fundo concorda com o pai. As palavras dele estão


cheia de uma sabedoria em cuja eficiência todavia não consegue crer. Balança a cabeça e seus olhos brilham esverdeados como o alto da ponta de um mamão que acabou de ser cor tada. A menina à frente, cuja blusa azul se amar fanha em atabalhoados movimentos que acentuam a forma dos seios e as marcas, balança a cabeça afirmativamente para a colega, vendo com o canto olho que ele a olha enquanto espanta a dúvida de que foi injusto o que fizeram com o velho. Jamais maltrataria qualquer criatura. Quanto mais uma humana feminina adolescente. Pisca e entor ta o corpo para o lado direito onde apanha o outro volume sobre a mesa. Logo abandona a compaixão incômoda e volta a pensar que a vida é um excesso mais do que se pode administrar.

E essa Alice, quem é? Começará a descobrir naquele salão de biblioteca. A tarde do começo de outro inverno entrando pela clarabóia e um homem maduro ( já o chamam eventualmente de velho) a


obser va, aliás contempla, à luz também das lâmpadas frias recém-adquiridas na última licitação que a prefeitura realizou antes do escândalo. É o que ela é. Existe segundo os olhos que a contemplam, isto é adoram – não, é outra coisa, ou seria apenas o vermelho dos lábios e é antes algo mais para a transcendência – ou seria apenas a mistura do sol com as lâmpadas novas mas tem mais a ver com revelação. Som de tosse e murmúrio e risos abafados para a recém-nascida Alice parece som de seres humanos contrastando com divindades silenciosas ao redor. Mantém o livro entre as mãos, ou melhor os dedos, as pontas dos dedos, mal tocando a página que será virada. A página foi virada e na nova página pode descor tinar a combinação de letras que escrevem algo ainda não inteligível. Luz refletida pelo papel quase espelho. O vestido tremula ao cair em ondas de sonho sobre o corpo sereno porque desisti de desejar. Corpo fresco como o de Beatrice mas ele não irá lembrar de Beatrice. É outra coisa agora. Luzes e sons de deuses


que desistem de Deus. Um anjo. Ela relanceou os olhos em volta. Ele estava ali. Olhou o livro. Nova página. Uma viagem. Anjos livres vagam livres não porque

vagam mas porque vagam sabendo não haver destino. Os olhos estão aber tos pela primeira vez. Brilham junto ao reflexo ner voso das lâmpadas como varandas molhadas sob a lua cheia. Pela primeira vez o mundo a seu redor. Pessoas iluminadas pela luz em seus próprios olhos. Página nova. Seu dedo conhecendo o toque com que a virará. Mal toca daí a alegria. Não por nada em par ticular e por tudo que num segundo se deixa vislumbrar sem memória. A linha com que o pintor finaliza seu quadro abre o tempo antes do início do próximo. Aí está. É você. A pausa explica o movimento.


Ao segundo ou terceiro sinal de que não iria dormir mesmo, levantou-se. Anda como quem vai ao banheiro mas passa e abre a por ta rangente do escritório. Sentou-se e diante do computador imaginou o que poderia ainda dizer que já não houvesse dito. Que era o fim? Que supõe novo começo? Nada acontece quando se depende de outra pessoa; quando acontece não terá mais relação com uma vontade pessoal. O frio é suficiente para que ponha o suéter com a delicadeza de um rapaz que cobre a namorada após o amor. Que dia é hoje? Ainda em maio? Respira fundo. O cansaço destrói mais que a mor te. A mor te sim é um novo começo. Escuta a constância dos componentes. Fala alguma coisa por demais vaga e todavia devastadoramente precisa quanto a si próprio. Estou sozinho.

Sou tua amiga, ela costumava dizer. Sou tua amiga, você não está sozinho. Não sabe mais por


quanto tempo acreditou. Tempo demais. O bastante para que chegasse nessa encruzilhada. Há alguns meses ainda teria saúde para recomeçar noutra par te. Forças de arrumar a bagagem sem se cansar desse jeito e ficar ofegante a esse ponto patético. Não é uma encruzilhada. Não há caminho. Mesmo para trás se fechou. Renascer é licença poética proibida. Cinqüenta e cinco anos sem um ontem. Você não está velho, ela costumava dizer. Só entrou numa idade em que são necessários alguns cuidados. Um clique estranho. O computador reiniciou sozinho. Desconcentrou-o e sentiu a coluna que doía. Ele minimizava. Nunca disse a ela o quanto. Se o fizesse ela acharia que seria ainda menos. Acreditava piamente em Savone como escritor.


Caminham para pegar o metrô. Alice sabe que ele está fazendo isso para se livrar dela como antes o objetivo era levá-la para casa dele. Mesmo assim disse alguma coisa com suficiente graça para que ele abrisse um sorriso buliçoso com os olhos semicerrados olhando os lábios dela. Devia imaginar, um cara tão gentil. São todos iguais. A alaranjada super fície do sol próximo incendiou o azul que se desbotava rapidamente como se fugisse daquele fogo duplamente visível nos olhos que levavam Haimeard a pensar. Bonita. Culta. Inteligente. Por que uma moça assim permanece sem trabalho? O mesmo que ela pensou há pouco. O que há de errado com o mercado de trabalho hoje? Tinham alguma afinidade.

Ela atravessa a rua após olhar para um e outro lado. No meio da travessia ao se sentir segura dá-se ao luxo de quase desfilar. Todas as mulheres são iguais. Todas obedecem a essa vaidade misturada com


sedução não impor ta a situação em que estejam. Quase caricatas. Entretanto ele se consume por causa dela. A mesma velha história. Renovação de caminhos conhecidos e como que esquecidos embora não, não pode ser, o que leva a esse jogo é a saudade de uma volúpia experimentada naturalmente na adolescência e depois sob os pretextos mais diversos ainda repetida nas contradições do tempo. O fascínio pela mulher mais velha ao ganhar o homem idade irá se inver ter até chegar à lamentável condição de seu pai. Onde Alice entra nisso? Não tão jovem com evidente experiência sem que nada faça supor mulher madura. Elo algum com a menina e muito menos com a antiga patroa. Ela agora corre. Ele já não a vê e por tanto não vê os cabelos esvoaçantes adejando negros e luzidios nem os pés descalços ou o sapato cujo salto quebrou ficando para trás no asfalto após ela perder o passo e claudicar mas não parar e seguir até o outro lado. Na por ta a dona da pensão a olha e precisa menos de um segundo para entender a cena e dizer a si mesma que


sim é claro que entende o que está acontecendo, pobre moça, enquanto ele num átimo vislumbrou o futuro e por medo da responsabilidade sem convicção o rejeitou.


Para trabalhar tanto assim deve ter em casa uma mulher gastadeira. Só Meereshimmel sabia o quanto Sonja era simples. O quanto seu coração era generoso. Bem verdade que houve mudanças. Desde quando e por que, não sabia. Agora um fato novo – pensou ao olhar as gotas reluzindo nas cores do letreiro. Após levantar a por ta de ferro para a ampla sala que a lâmpada fria iluminou e deixar o empregado entrar dois passos, não dispunha de outros argumentos para justificar seus casos e os via se aproximando perigosamente de sua vida. Da tranquilidade de sua vida apesar de tudo. Do amor que sentia pela esposa. Vira-se para a rua. Ainda é noite. O trânsito na avenida está fluindo como não costuma nesse horário. Por que esse rapaz precisa ligar o rádio tão cedo e tão alto?

Chuva fraca ao amanhecer e no final do dia. Temperatura na casa dos doze graus. Já há movimento


na rua. Muita gente começa o dia cedo como ele. Quando os funcionários estiverem entrando no emprego que deixou na Imprensa Oficial, o sol já estará alto caso a garoa realmente pare no meio da manhã. Tem receio de que o tal namorado de Alice apareça. Ou o pai da Ananda. Tem receio de si mesmo, claro. Aproveite o aler ta antes que o momento passe. Nada há como a paz.


Sobre as flores bordadas em relevo na fronha fria exceto pela super fície onde repousava a cabeça de Alice a luz não absor vida ou espalhada percorre nos traços tranquilamente tristes sucessivos focos ondeados em seu semblante. Chegara a chorar. Diz a si mesma o quanto é ridícula por nutrir tais sentimentos. Adormecendo virou à direita no semáforo em passos largos para as pernas não tão longas agora enrijecidas no arrepio. Diante desse mesmo espelho que apegada comprará da dona da pensão obser va as transformações de seu corpo dentro da camiseta que ainda quando viver com Bianca usará para dormir. Envelhecendo. O abajur especula sobre a verdade da imagem refletida.


Assim que se conheceram Meereshimmel adorava qualquer momento com Sonja. Queria saber de sua vida e se instalara no passado do qual ela queria fugir. É que sofreu muito embora sempre tenha sido uma menina for te, adolescente que enfrentava o mundo e mulher não tinha tempo para perder com coisinhas de mulher. Como ele gostava de saber isso e aquilo! Quando menstruou pela primeira vez e o que sentiu no primeiro beijo. Você não é meio depravado? – O que quer dizer exatamente “depravado”? Não se chocava nem tinha ciúme mas não gostava de falar sobre si mesmo. Ela tampouco se mostrava interessada em ouvir. Casal per feito. Onde deixaram de ser? Onde estão os quinze anos dela e dele os dezenove? Meu Deus, esse rádio! Ajoelhou-se. Acesse e assine. Sonja, perdoe-me . O bairro foi residência e ateliê do ar tista. Sonja, perdoe-me, eu... Duas horas e vinte e cinco minutos. Você precisa acreditar que eu te


amo . 14 graus no centro da cidade. Sempre te amei. Táxi com passageiros podem usar as faixas em qualquer horário. Ajoelhou-se? Caminhoneiros continuam bloqueando as principais rodovias do país. Dramático demais. O presidente do Egito rejeitou o ultimato. – Abaixe isso, por favor! Não soaria confissão autêntica. Precisa antes afastar-se das tentações. Por que então está lembrando o momento em que viu Alice entre as pessoas e a chamou para um café e seu coração se alegra ao lembrar o beijo? Segura-lhe o queixo e a puxa para si. Seu polegar aper ta-lhe a face. Intensifica-se a sombra ao longo da maçã de seu rosto. Ele está dizendo “Vamos, gostosinha?” Ela deve tê-lo achado inacreditavelmente vulgar. Onde estará agora?


Alice escuta a voz como num sonho. Eu queria que você fosse morar comigo. Ela mal pode acreditar. Toque-me. Veja a minha mão per to da sua. A vida que sonhou. O seu lar se tornando realidade quando ela menos esperava. O trabalho está mudando – pensara Haimeard ao conseguir seu primeiro emprego formal. Não faz sentido duas horas gastas numa condução e o estresse que daí advém. Por que não se permitir amar uma mulher assim jovem experiente e submissa?

Como agir agora? simplesmente aquiescer? Parecerá fácil demais. Tipo de mulher que depois o homem não valoriza. Seu rosto vai se virando muito lentamente. Lábios pálidos. Olhos opacos e cabelos ressacados. Nem por isso deixa de impressionar sua beleza trágica e majestosa. Num movimento teatral pisca e dirige enfim o olhar para os olhos dele. Está prestes a acontecer ou já aconteceu. Sabe Deus tudo o que escutou a respeito. O que lhe aconselharam. Filhinha – dizia sua mãe. Amiga – dizia a irmã de


Öffner. Princesa – dizia o pai. Todos sabiam como agir em qualquer situação. Agora você é mulher, precisa se compor tar. E todo aquele palavreado conhecido. As vozes se superpõem em seu cérebro. Ecoam. Ecoam. Mas o que impor tava a qualquer deles e por que na verdade deveriam se impor tar? quem dentre eles adoecerá se não der cer to e quem celebrará caso sim?

No fundo sou uma pessoa boa. Não quero enganar ninguém. Quero fazer um homem feliz. Sou responsável. Não era pretexto quando disse que viria procurar trabalho. Procurei. Quando encontrei Meereshimmel tinha procurado. Na semana depois da noite com Haimeard. Em que dia deixei de sair e correr atrás? Meus documentos estão em ordem; abri a conta no banco; tirei passapor te, caso a opor tunidade surgisse em outro país. Tentei. Por que me sentirei culpada se encontrar um homem que cuide de mim e me dê o teto em que eu possa trabalhar de verdade?


Retirando o olhar de Haimeard, respirou fundo e relanceou os olhos para o teto. Chorava.


Embaixo da foto mais recente ela postou o verso que escrevera naquela tarde. Está de per fil sem pose aparente. O abajur lembra uma auréola cuja luz se estende aos objetos na penteadeira. Como as coisas mudam depressa. O texto ainda a comove embora não tenha nada a ver com seu momento. Ela não se impor ta porque pensa que realmente foto e escrita só eternizam sentimentos que passarão. No caderno à frente do notebook Alice desvenda Meereshimmel e discorre por meio de palavras novas sobre sua ocultada bondade e a capacidade de dar vida e pureza a uma jovem tão corrompida. Vê o corpo campo de batalha. Discerne nele um outro. Valoriza sua capacidade de trabalho e a dedicação que não permite que o tempo não se perca. Ele porém não tem o costume de ler. Chegou a pensar quando a viu como uma jovem com tal perfil desperdiça seu tempo com inutilidades de intelectual. Podia por exemplo ter posto uma cor nessas faces morbidamente pálidas. Mas o irmão, que também desdenhava a leitura,


saberá se aproveitar. E a amante do irmão, amiga fortuita por um tempo ínfimo em eternos sonhos partilhados numa rodovia do país, esta ouvirá alguns desses versos no leito de morte porque pediu à amiga que os lesse e sentir-se-á confortada.

Há essa possibilidade. Ela nunca soube se moderar nas reações durante o sexo. Um tapa para que se contivesse. Saiu do prédio amarelado e executando um leve giro do pulso trouxe o visor do relógio para diante de seus olhos e então soube que o sol estava onde deveria estar. Alice silenciosa sem sombra. Num ponto mais calmo da cidade no ouvido de Ingenuer soa o noticiário da hora do almoço que, embora partilhando as mesmas ondas, Meereshimmel não escuta. Não poderia passar por sua cabeça que a aglomeração que vira quando chegava era mais do que um protesto talvez de professores por melhores salários. Preserva orgulhoso total alheamento em relação ao que acontece no trânsito e na cidade


exceto pelo paradeiro da moça – onde a poderia encontrar? Jamais saberei. Sei que ela. Ela. Meu pai

costumava falar esse tipo de coisa. Jamais acreditei. Se isso é saudade pode dar crédito ao que chamam amor. Se tem a ver com esse calor benigno. Com o desejo de que ela esteja bem. Estou bem? É esse desconforto

estar bem? a noite escura da alma? a madrugada mais negra próxima do amanhecer? O suor lhe mareja no rosto e súbito mareja dos olhos a certeza distraída.

Não queria que tivesse sido assim. Afinal ela era minha amiga, minha única amiga. Me ofereceu sua casa. Sua casa, imagine. Suando e chorando. Pensa que ela queria apenas trabalhar e ele tinha uma empresa. Se ele tivesse oferecido a vaga de secretária de que tanto precisavam. Se tivesse sido generoso. E o que mais ele

podia fazer senão me seduzir? Ela era uma criança. Talvez ainda seja. Uma criança agora com uma criança pra criar. A criança dele. A minha criança...


Faz muito frio. A tal massa polar prometida para os próximos dias. Mais do que na noite em que conheceu Alice. Esse tipo de associação leva a descober tas. Ou suspeitas. Ou nem tanto. Uma reflexão. Coincidência? Ela disse que a amiga morava num bairro que era o bairro onde ele morava. Onde, há dois anos hoje, acer tou com Sonja na presença do advogado a compra do apar tamento. Não pode ser. É um bairro grande. Sim, coincidência.

Meereshimmel sentou-se na cama. Tentando discernir o que fazia par te do sonho e o que tinha mesmo acontecido. Forçou a mente mas o sonho se esquivou. Deixe pra lá. A luz azulada da T V mais uma vez não desligada banha o quar to de um céu estranho também onírico. Vale a pena se angustiar assim com tão sublime luz à janela? Essa expressão de alívio está mentindo. Sonja aprendeu a interpretar os sinais. Ele fala. Oi amor, dormiu bem? Sim, e ele? Muito bem. Em que estaria pensando? “Sonhei”, ele quase disse. Mas


nem se quisesse poderia dizer com cer teza o que sonhara e o que era simples recordação.

A par te em que ele abre a por ta para Alice naturalmente era do sonho. O coração dispara. Ou ela estaria mesmo ali, a amiga, a companheira de viagem? Recentemente chegara. No mesmo dia em que a encontrou? Não. Já recusou a idéia. Pense com clareza. As coisas que chegam desse outro mundo se originam no temor. Não sempre. O olhar de Sonja inquisidor paira no quar to. Força passagem pelas fraquezas de Meereshimmel e esbarra em seus pensamentos. Diariamente um pouquinho. Ele não tem a menor idéia do que ela sabe. Por que teme tanto assim? É porque

a amo e o amor começa no respeito. Então é isso. Amor.

Sonja parece uma moça de dezenove anos. Essa a idade de Alice. Por um momento se perguntou por que


era Alice quem estava ali na cama com eles e não Ananda. Seria mais prudente que fosse Ananda. Lembrar-se bem o bastante para esquecer de vez. Afinal fora o marido – o pai? – de Ananda quem o ameaçara. E o namorado de Alice pode ser fantasia de uma moça tendente a esse tipo de coisa. Droga de memória. O que fazer? Manter na mente como os hábitos formados para evitar sobrecarga mental. Relação da memória com a alma. Tanta dor evitada. Menos que um clarão na chuva lá fora. Ruído monótono e constante. Você sabe que não passará disso sem precisar de ouvir o boletim meteorológico.

Tudo está explicado pelo menos por agora, não, para sempre essa lembrança se manterá, manterá junto de si a vida sossegada que é de fato o que deseja. Não fantasias que se esgotam em si mesmas sem levar exceto ao fogo, único elemento que não existe, que só existe enquanto há combustão e deixa de existir quando consome o que deveria ser consumido. Tudo


passou. Não foi esquecido mas passou. Pode ser lembrado mas não assusta. Não difere da aspiração de abrir um negócio próprio. Não deixou de pensar nas dificuldades. Nem a recente pesquisa informando que as pequenas empresas duram em média não mais que dois anos. Sim: há dois anos abrira as por tas da gráfica. Sonha agora com uma editora e por que não uma livraria?

Ali no trecho da rua por que passaram no primeiro dia lavada pela chuva e recendendo sua infância de asfalto ele a encontra e pensa que é seu dia de sor te. Dispositivo difícil no mercado. Alice uma ou duas vezes no futuro olhará o pacote se indagando o que poderia ser – ela, de quem seus pequenos vizinhos no interior zombavam chamando de gatinha e logo emendando a razão não ligada a beleza mas curiosidade. Conforme foi crescendo e se tornando moça, se reuniam a fim de debater a razão de uma menina sem graça e vir tude


chamar a atenção dos meninos mais velhos e – diziam – até de homens casados.


Naquele instante desenvolvido a par tir de convicções que de súbito ruíam, encontraram-se e foram tomar um café. Ela viu um homem belo e altivo emergir da multidão. Faz um tempo. Agora Haimeard e Alice estão estabilizados no apar tamento pequeno no subúrbio suficiente para que cada um tivesse o seu próprio escritório com pequenas adaptações no quar tinho de empregada e no que deveria ser de hóspedes enquanto um filho não vinha (não pretendiam que viesse tão cedo) .

Um filho será renovação que ela não pretende. Aper ta o botão do elevador com o dedo ainda molhado. Porque as coisas acontecem até um determinado momento e há um perímetro para tudo, incluindo a coincidência, o desespero e felicidade e, de algum modo, estão mais ligados do que se imagina, um homem a quem se ama e outro do qual depende. Resta entender o passado como entende o futuro,


alguma coisa amor fa encaixada no dia de hoje que não o deve preencher e no fundo sequer motivar ainda que ela possa se lembrar da virilidade dissipada e imaginar o que seria se tivesse se consumado dentro dela. Nada relacionado a isso o que o marido licitamente poderia fazer todos os dias e entretanto mal e mal nos finais de semana. Ainda estava no corredor quando ouviu o celular tocando dentro do escritório. Não correu mas se dirigiu com firmeza na direção do som. Alô? Bátegas na clarabóia.

Apesar das dificuldades o casal resistia bem, graças a momentos de encanto que não faziam par te da situação conjugal. Só súbitos sonhos que se desprendem de onde quer que estejam e fugazmente se tornam realidade. Ainda posso pensar que um é

outro. Por que não? Que mal faço e em que transtornaria nisso a ordem dos mundos? Janelas e persiana e todos os matizes sobrepostos das luzes vindas do monitor e do visor do móbile, a azulação


dos aparelhos e dos pontos de stand-by referenciando os passos no escuro enquanto ela traz na roupa o horror dos fumantes. No hálito, o café de após o almoço; nos olhos o brilho ofuscante do contraste de ambientes. Não seria afetada pela não concretização do sentimento no cotidiano. A própria poesia contém essa irrealização. Inatingível e inalcançável e impossível e razão de existir : o amor vivido na mente –

C

que em última análise é o único. or tinas dançantes na sala de jantar. Ninguém à mesa posta. Luzes e sombras na parede. Som de por tas. Ambiente tenso na casa de

Meereshimmel e Sonja. A esposa descobrira o caso dele com a professora da sobrinha que um ou outro ia buscar na escola quando a mãe não podia. Sonja quis a separação. Pouco depois hesitava. O que sabe fazer além de cuidar da casa? Lembra da moça com quem um dia viajou cujo sonho era esse a ponto de ter largado os estudos. Como era mesmo seu nome? Não pode sequer reclamar agora Alice! pois ele também


largou tudo quando ela precisou. O que você pode querer exceto caprichar no jantar sem reclamar e remover das roupas dele até as manchas mais difíceis? A gráfica engrenou e ela se tornou prescindível. O tormento não se instala de um momento para outro. É concebido, gerado, nasce e dura, dura e vai afetando todo o universo ao redor. Até não mais restar consciência da vida antiga quando de fato se admiravam e respeitavam. Jovens esperando o motivo justo que a vida raramente dá para união ou separação. Preferia estar em casa. Às vezes viajava para a casa da mãe, mas não passava mais que o final de semana. Um filho a deixaria mais segura de que Meereshimmel não se engraçaria pela cidade mas a gravidez acabou não contemplando essa perspectiva. Antes piorou as coisas. Todavia ainda confiava. Quando não confiasse mais iria acontecer o que estava acontecendo. A separação inevitável contemporizada. A percepção feroz de que não estavam mais juntos


exceto por uma aura eventual da memória. Nunca ele deu motivo para que ela desconfiasse. Ausências eram trabalho extra na pequena empresa que apesar da burocracia do Estado e da violência social decidiu abrir per to de casa. Próxima de tudo. Metrô, mercados, farmácias. Ponto excelente. Imóvel em ótimo estado. E a experiência anterior. Tudo garantia o sucesso se somado à dedicação. Tudo per feito. Homem e trabalho em função do lar. Uma privilegiada, ela. Não entendia. Ter um caso com a santa professorinha. O que impedia que tivesse também com a cunhada? A irmã de Sonja nunca foi santa. Então se sentia justificada. Estava no seu direito. Depois pensava: E daí? As crianças para lá e para cá no corredor são os sobrinhos.


Alice não faz idéia do que possa ser um presente com tais dimensões e formato. Há algum tempo ela foi abordada na rua por um rapaz elegante e não soube o que fazer quando ele se apresentou e disse que, se ela permitisse, iria lhe mandar flores e alguma coisa mais. Devia ter se antecipado à empregada que duas vezes por semana fazia a faxina e visto ela própria quem estava batendo. Agora é tarde. Desliza pela sala com o embrulho. Vivo e móvel o azul enquadrado na janela. Faz um ano que se casou. Deixe-me te contar – disse para a amiga que não via desde os tempos da infância no interior. Então: eu estava na rua do metrô, próxima das escadas rolantes. Um frio de rachar. Ele estava a meu lado no vagão e conforme as pessoas entravam ia se aproximando. Você o conhece. Não dá para não perceber um homem assim a seu lado, não é? A amiga riu e o imaginou a seu lado. Melhor evitar a tentação. Seu rosto de amiga sereno e confrade volta-se em linhas trêmulas quando deixam a sala. A imagem de Haimeard se dissipa enquanto Alice continua falando.


Confesso que cheguei a pensar em me matar mas não sabia como, não supor to dor. Haviam entrado no quar to fresco em cuja decoração não havia fotos e o mural de cor tiça ser via para colocar as contas e se lembrar de coisas e projetar o trabalho. Ainda que gostasse daquela solidão essencial, era agradável ter alguém com quem falar. Mas assim que a amiga ia para a aula de música, o escritório retornava a seu estado purgatorial de vozes inaudíveis. Sinóptico em relação aos mundos em que durante as horas anteriores e as seguintes estará mergulhada em seu branco e inexoravelmente silencioso habitat de anjos nem sempre serenos que volta e meia brigavam com a chegada das luzes da noite e do marido. Aleksándra, a amiga, estava sinceramente em suspenso. Em seu rosto uma expressão que Alice conhecia bem, do espelho. Essa empatia começou a travar a narrativa. O que estaria Aleksia pensando? Quando passava pelos prédios e via as luzes dos


apar tamentos meu coração se aper tava. Eu precisava de um lar. Angustiava não ter um teto sob o qual passar a noite e paredes entre as quais pudesse me abrigar. Ele? Imagino que estivesse todo o tempo me seguindo. Pra falar a verdade me esqueci dele. Entrei na lan-house... – Você não tinha nem celular? – Não. Na verdade nem hoje tenho. Mas então entrei – continuou – com o endereço da moça que veio comigo. Sentei diante do computador para saber pelo site de mapas onde ficava a casa. Quando descobri, já não sabia se deveria mesmo ir. Se não era melhor terminar o meu poema e postá-lo e depois, você sabe, a mor te é o melhor agente literário. E ele ali na biblioteca todo o tempo? Ele ali. Provavelmente me seguia. Você tem sor te – diz a amiga. É um homem bom.


Está com as pernas esticadas sob a mesa e os pés na cadeira da frente um sobre o outro. Sente-as enrijecer de cansaço e os dedos nos sapatos de camurça acusam uma espécie de formigamento. Tentou uma ou duas vezes se manter ereto mas deslizou de novo. Os olhos postos na moça duas mesas adiante.

Ele é até bonitinho mas não creio que valha a pena investir pois tem até uma barriguinha eu percebi quando ele entrou. Por minutos teria sido assim o primeiro contato visual com Alice. Uma mancha vermelha no verniz cruza a mesa em ângulos opostos a par tir de seu lado esquerdo, onde apóia o cotovelo. Os sinais da fome se confundem com a sirene. Frases soltas interrompidas. Conversas que numa biblioteca não deveriam ser audíveis. Imagine que – Depois eu – Então foi – Por minutos e por acaso. Não é de ir a bibliotecas. Dali ela saía quando a convidou para o café. Olhou mais uma vez o rosto meigo à sua frente distraído na leitura com o pensamento longe. Privar de sua


intimidade. Como quem não quer. A forma como ela olha indica que aceitará. Agora é só esperar usufruindo da perspectiva erótica que se origina na admiração. Aceitou. Vamos. Tudo teria dado cer to exceto pelo detalhe. Mas não foram preliminares perdidas ainda que a atração principal tenha sido cancelada. É provável que exista uma virilidade fora do corpo e mais que isso, que independa dele e se grave contundente na feminilidade sensibilizada. A luz sobre as mesas devolve o salão de leitura. Há cantos sugestivos além dos corredores entre as estantes. A entrada desce numa rampa espiralada e a luz desvia prateada na catraca. Na saída ár vores plantadas em pleno cimento. A menina da mesa do lado discute com a colega. Não: estão rindo. Se indispõem com o crescer e adiam enquanto podem a chegada das responsabilidades implacável. Exageradamente maquiadas mulheres maduras em vestidos largos repõem os volumes nos lugares conferindo cuidadosas ou amaneiradamente


cuidadosas as lombadas. Não foi apenas um deslumbre estético – pensa. Se tivesse um amigo verdadeiro e não achasse que sobre tais coisas não se conversa, diria a ele como foi e esperaria dele a solução que não achava. Por que, amando-a com um amor puro que desconhecia, desejou-a até consumarem o apar tamento e nesse êxito desistir? Explique-me direito como foi – diria o amigo.

Alice caminha. Volta da biblioteca. Nos braços dois livros que não sabe se devolverá. Se estará viva para tanto. Pulava essa par te quando o casal falava do dia em que se conheceram. No vaivém do guardavolumes esbarram. Ela sai. Entra no metrô. Ao regressar para o hotel, Aleksándra visualiza a cena. Vê como Haimeard se aproxima e procura entender se ficou a uma distância prudente ou foi mais afoito. Alice pensava então em Meereshimmel. Ao abandoná-la ele a deixou desamparada no mundo. Não é que não tinha mais ninguém ou que não tivesse meios de subsistir.


Mesmo a vida se revestiu da mor te. Estou fadada a

esse fim – a esse desamparo e abandono. Não de inteligência brilhante ou de rara bondade Alice se diferenciava pela faculdade de superação que a levava a escrever o que decer to nunca chegaria a ser. Quando saiu da lan-house sem ter postado uma única linha entendeu que não restara mais nada a que se apegar. O fim: sequência natural. Havia morrido. Como um espelho quebrado cujos fragmentos ainda não foram retirados do quadro.


Cada vez mais a rua é seu lar. Quando se mistura aos normais especialmente nos fins de dia. Deve parecer que faz par te deles e no rio copioso das multidões que outrora a afogava em dor é momentaneamente feliz. Seu per fil se desbota lentamente contra a publicidade nos corredores. A máquina que carrega o crédito nos car tões soa em harmonia com o movimento das mãos que tenta se multiplicar para segurar a car teira e acer tar a alça da mochila nos ombros. Adiante uma mulher se perde provavelmente na música dos fones recostada lânguida e indiferente no parapeito que dá para as plataformas. A voz dos alto-falantes se derrama sobre a estação como um jorro de água que se alastra num ponto enorme de alagamento e logo se dissipa semelhantemente ao estado fluido em que ela vê a vida passar sem interação. Carne do destino. Não, não

o quero. Não quero ninguém. Alguém que preencha meu vazio me fará dependente de sua presença. Não quero isso. Não quero. As paredes que a protegem,


quando protegem, evocadas fazem-na estátua de mobilidade horrorosa. Conversas entrecruzadas. A moça triste, o velho andrajoso, o casal. A mulher pede a informação que pasma ela pode fornecer. Uma menina passa levando um carrinho de bagagem cujas rodinhas lembram a tosse de urso outrora feroz. A rua. Antes das paredes principais e da nota de rodapé. Próximo o dia de seu aniversário. Melhor não tentar ir além. Voltar antes que as coisas fiquem piores. Tornar à paz do interior e à revolta muda contra o provincianismo cruel. Apagar aqueles dias de privação. Fugir da fuga pensada à beira do regato que após a cur va viraria no sentido da metrópole. Nada que respaldasse isso. Então ela soube que era irreversível: para bem ou para mal não voltaria.


Registrou os ladrilhos. O brilho da consciência amareleja algo maior e definitivo. Vozes cheirando a estantes no fim da descida. Após a catraca ecoam nas páginas liquefeitas. Texto aber to ao acaso

sou aquela moça. Um dia o destino se torna realidade e imaginarei ter desejado o que simplesmente aconteceu. Viu crianças à janela e agora de sua janela vê crianças voltando das aulas. Essa menina gordinha um dia ela foi. No trágico sorriso de um garoto evoca a tragédia do irmão. O quanto Meereshimmel a machucara. Menina má. Estava mesmo merecendo uns bons sopapos. Talvez por isso nunca mencionou. Ou Haimeard iria querer tomar satisfações ou ao contrário questionaria o compor tamento dela no episódio. Coisa estranha: com ele não é prazer. De jeito nenhum. Tudo muito cer tinho e passível de que contasse à mãe. Oh minha filha, parabéns. Até que enfim! Pelo amor de Deus, mãe, vou casar, não me tornei uma santa. Nem mesmo rica. Então sempre que o assunto se aproxima ela sai da sala ou do quar to ou precisa ir ao toalete se


estivessem na pizzaria. Nunca mencionou Meereshimmel. Irão se encontrar de novo e será diferente. Ilícito e todavia não. Não chegarão a preliminarmente conversar segundo a complacência de um propósito inocente. Nem consciência nem registro nem nada que mude isso: não tinha mais dezenove anos; as crises se tornaram menos frequentes, supor táveis; alcançou estabilidade financeira. Quem tanto segregada do degredo forja sutilezas quando oprimida e aprende a ter a vontade executada por meios outros que não ordens.


Conhece de algum outro lugar esse guarda – com a mão numa arma inexistente movendo os dedos de puro ner vosismo – que não se lembrará que uma vez o viu com Sonja quando chegava para trabalhar mal as por tas foram aber tas. Manhã não mais tão luminosa e o cinza aqui e ali substituía ou embaçava o azul do céu. Estagiárias davam risinhos ao dizerem ainda não conhecer esse rapaz da segurança. Atrás dele uma estudante de medicina encontrara enfim a resposta que buscava. A conexão nas bibliotecas pública facilitou muito a sua vida. O homem se recorda dele vagamente, na verdade evocando o irmão. Vai e vem ao longo das estantes dando a volta no antigos arquivos sob as janelas cuja luz dourava sua face macilenta de barba por fazer atenta aos celulares ligados e a todas as telas sobre as mesas. Uma canção na vizinhança. Sim, ele o conhece de algum lugar. Ou talvez esteja ficando paranóico. Não entende como chegou àquele ponto e agora qualquer referência a lei


o incomoda. Alice não fez nada e mesmo que tivesse feito nada justificaria aquela atitude. Como assim, chantagem – pergunta a colega à atendente do guarda-volumes. Se havia uma pessoa na cidade que poderia saber tudo acerca de como as coisas aconteceram era a atendente.


O que será isso? Colocou a caixa sobre a cama e desceu. As escadas. A rua. Antes ainda havia pouco ela pôs o vestidinho verde que ocultava suas formas e chegou a chorar ao se olhar no espelho e ainda fungava ao abrir a por ta. Para onde? A saída do prédio desde o primeiro dia era luz per feita. Passagem de um para outro mundo. Entre os dois a luz aponta para um terceiro provavelmente o único. Do amor sem relações humanas. Véspera de feriados nas grandes cidades as deixa vazias e isso deprime Alice. Não quer nada mais com lazer. Lazer é o trabalho. Qualquer trabalho. Qualquer tipo de atividade em que o prazer carnal esteja excluído. No bar, olhando através da janela, Haimeard pensara que ela não o amava mais. Que nunca o amou. Que essa é a razão de sua frieza. Mas ela o ama tanto quanto pode amar. Passou sim a ter repulsa ao sexo. Preciso esquecer – pensou ela, levando as mãos ao rosto num gesto de quase devoção. A santa revelada num canto mais iluminado da salinha sombria do apar tamento de Meereshimmel.


Quando ela ficava assim, Haimeard tomava suas mãos e as beijava em lágrimas. Tantas que em algum momento não mais a comoveu. Nessa noite, chegando o pensamento a uma profundeza oca e sem sonhos, sentiu o corpo ser sacudido de novo por alguma coisa próxima a soluços. Viva como um peixe que se debate. Parecia ainda estar escuro, pelo menos ela não via nada. Então pensou em sono embora continuasse ouvindo o movimento da rua e sentindo-se praticamente na rua, deitada na rua. Ouviu um nome e demorou mais do que deveria para entender que era o seu nome antes de perceber de quem era a voz. Os caminhos desconhecidos desconhecidos permanecem embora exista o destino e a curiosidade de abrir licitamente um embrulho de presente que está à mão.


Não me pergunte sobre o que é cer to. Tudo o que diz respeito ao que é cer to me deixa sem capacidade de emitir qualquer juízo. Acredito que opiniões categóricas são confissões e, por talvez temer ao que de mim revelem, as evito. Quero acreditar que existe algo em nós que foge a esse jugo sobretudo quando se liga à criação ar tística e talvez até a científica. Uma determinação independente do próprio autor e que em nada a ele se ligue, antes ganha vida própria no decorrer por exemplo da elaboração de um livro. Isso me exime de culpa se eu fracassar e me proíbe a glória se tiver sucesso. Cresce ao longo dessa visão de mundo uma justiça subjetiva que se choca contra regras demasiado claras. Não conheço, Beatrice, nada do mundo e não faço a menor idéia do que seja a verdade. Mal e mal me conheço. Se há em mim um pouco de todos ou de alguns, pode ser que se


descobrir alguma coisa há de ser útil e a escrita baseada nesse conhecimento não seja de todo vã. O quanto somos diferentes significa o quanto somos melhores ou piores? Sugerir em vez de explicitar nem devia ser uma escolha. Então não sou a princípio culpado ou inocente. Mas o que senti por você foi totalmente verdadeiro. O que não facilita em nada a minha vida. Por favor, não se preocupe caso não haja mensagens em sua caixa de entrada com a mesma freqüência de antes. São as provas de fim de ano. Gostaria que houvesse outra forma de a gente se comunicar. Estou cismado com o ambiente na escola. Você não sente que as pessoas murmuram sobre nós?


Os irmãos conversam no bar. Era um lugar fora dos padrões daquele bairro, sujo demais para ser vir almoço, em boa par te devido ao fato do proprietário abrir o banheiro a todos, clientes ou não, porque ele próprio trabalhou ali nos arredores e sempre estava necessitado e sabia o que era não ter onde se aliviar. Mas nem Meereshimmel nem Haimeard acham lá alguma coisa que devesse impedir que estejam ali à vontade e mais se é o caso de mais que comer. Olham nos olhos iguais um do outro ao longo daquele longo corredor cheio de memórias diante do estranho espelho que um é para o outro. Até do tal homem que um dia apareceu no hall eles falaram. De destino. Da transitoriedade das coisas. Fizeram o pedido e Meereshimmel seguiu o movimento dos lábios vermelhos que mencionavam bebida alcoólica. Resistiu a perguntar desde quando. De há muito Haimeard era adulto. Tiraram os blusões ao mesmo tempo. O mais velho colocou o seu no espaldar. O mais novo o deixou solto no colo. E a


gráfica, como vai? Meereshimmel não poderia dizer que ia bem. Que o prendia à imobilidade que detestava e o tirara das ondas e dos brous. Vai bem – disse. Tudo bem graças a Deus. Depois disso houve um silêncio pesado e procuraram em si mesmos como encaminharem a conversa embora Meereshimmel ainda se perdesse em um ou outro caso da infância deles. É seu irmão e ele sempre deu valor às relações consangüíneas. Ainda dava? Haimeard afastou o saleiro do centro da mesa como se estivesse sufocando o pássaro da toalha no justo momento em que o irmão teve o mesmo impulso. Esse inverno está mais frio que o normal não é? Não podiam evitar o assunto. A mãe. Alzheimer. Entretanto por razões em que não se aprofundaram enquanto o tema durou a conversa foi rápida e talvez nem ner vosa, antes impaciente. Fato é que dali a poucos minutos, antes de serem ser vidos, não falavam mais a respeito. Haimeard ainda brincava com o saleiro, derrubando-o e levantando-o como um João Bobo. Haimeard pediu


licença um instante e foi ao banheiro. Meereshimmel seguiu-o com o olhar e, quando a por tinhola se fechou, tornou a se perder nas lembranças. Na volta Haimeard se viu no vidro da janela em tom sobre tom. Estava ficando calvo. Ainda se sentava quando percebeu que o murmúrio que pensara ter ouvido realmente ouvira e que o irmão esperava uma resposta. Como? – perguntou. Meereshimmel repetiu. Diga o que sabe a respeito de Sonja. Os olhares se cruzaram num ponto até então impensável. Tenho escutado coisas – disse. Seja franco. Haimeard afastou o rosto num movimento imperceptível e sustentou o olhar. Vamos, pode me dizer.

– Do que está falando? Haimeard desliga o telefone. Tira os óculos e aper ta o cenho. Consumar o que meu irmão?... Diz à secretária que desmarque o cliente das duas. A foto de Alice o obser va inócua. Não sei nada exceto que jamais vi amor tão grande. Você tem sor te – enfatizou. Ela procurava trabalho como as meninas


esforçadas que não se contentam com a educação formal que se estende sem fim sob as asas dos pais. Como pôde ser tão cruel ao se aproveitar da situação? Está bem – pensaram juntos. Deixemos disso e falemos direito de mamãe. Outro dia ela deixou a torneira aber ta e quase inundou a casa. Outro dia esqueceu o forno e mais um pouco haveria um incêndio. Mas isso pode acontecer com qualquer pessoa – retrucou Meereshimmel. Não com tanta frequência, meu irmão. Por isso fui num médico amigo meu e ele disse... O avental do garçom um dia foi vermelho e um dia talvez tenha sido lavado.

– Não preciso. – Aceite. – Realmente não preciso. – Por favor aceite. – Não, obrigado.


– Meereshimmel pelo amor de Deus sei que as coisas estão difíceis. – Como sabe? – Estão para todo mundo. – Você não se inclui em “todo mundo”? – Tenho um salário alto, bônus, etc. Não dependo da economia mundial. Você sabia o quanto uma simples rede social pode fazer seu fundador lucrar? Por isso Meereshimmel não loga mais em nenhuma. – Toque sua vida, mano. Vou me virando. Sério. É tudo uma questão de perspectivas.

O comércio estava fechando. Uma voz que os irmãos não perceberam imediatamente que era a do dono do bar se elevou entre outras vozes que se confundiam com sombras e luzes. – Crianças, entrem!


Os bares noturnos estão abrindo. Há movimentação também no hotel ao lado. Outro café? – perguntou Haimeard enquanto pedia para si a saideira. O entorno do bar está ainda tranquilo e tranquilo permaneceu apesar da aproximação e da passagem da hora do rush. Tarde e pela primeira vez em seu casamento Haimeard teve consciência da hora. Talvez por alguma sutil diferença nos trajes dos passantes. Talvez pela leveza das expressões e pelo gênero das conversas. Mais de nove com cer teza. Agora também a posição da lua, mais alta e menos brilhante, dá seu testemunho. Faz pouco isso era apenas o nascimento da noite. Há algo que o incomoda acerca de explicações a que todavia sente-se obrigado. Isso é estar casado. O limite entre os anseios de vida e seus espectros. No apar tamento acima do bar as crianças já dormem e sonham. – Tenho que ir agora, meu irmão. Foi bom te rever.


Depois que Meereshimmel saiu, o dono do bar pediu por favor que o irmão batesse a por ta com força pois a fechava com demasiada delicadeza.


O suéter aper ta-lhe os seios. Naturalmente soube assim que seria assim o provou mas detestava ficar muito tempo nas lojas de roupas. Mas foi uma boa compra tendo considerando que deveria esfriar quando estivesse voltando. Tornou a ver a luz pela janela e chegou mais per to da réstia de sol. Sim: uma réstia de sol. De sol. Sim. A rua. Dura, sufocante e descorada. O cheiro peculiar de asfalto ao primeiro calor do dia. Respondendo como um corpo de mulher a um abraço de homem após meses de esquecimento do que é estar agasalhada e quente. Olhando o movimento se perguntou que feriado é esse. O que foi a Revolução Constitucionalista? Passou os dedos na lã e lembrou que ao comprar pensara também que por ser tão barata laceasse como um relacionamento conjugal. Estavam ela e Haimeard perdidos em mundos que se recusavam a ser um só de modo semelhante a adolescentes que não se sentem à vontade nem como crianças nem como adultos. Decidiu, mastigando sob


as maças quentes e iluminadas de seu rosto. Fará alguma coisa diferente no feriado.

O bloqueio fazia com que a fila de caminhões chegasse a mais de sete quilômetros de uma inquieta extensão blasfema sob o sol. A poeira subia pachorrenta ignorando o asfalto. Dando a impressão que era uma estrada terra qualquer, áspera e crua como uma estrada qualquer sob o sol do meio do dia. O motorista estava atrasado. Perdera dinheiro com os congestionamentos na cidade e agora a carga perecível perecia lúgubre. Essa gente não está protestando – pensou – estão apenas se aproveitando do momento e querendo aparecer na televisão. Ou talvez estejam sim por puro opor tunismo, não por reivindicações justas. Não era ele mesmo caminhoneiro e ele mesmo não se sentia privilegiado por poder ganhar a vida mesmo em condições adversas e se sustentar doente e sustentar a filha? A cur va fez com que a menina fosse jogada para o alto ao lado do pai


descendo com um baque seco contra o assento. Avermelhando ainda mais a mancha na pele branca e arrepiada que Haimeard adorava. Na verdade estivera Haimeard pensando em como estava ficando diver tido. Nem usou de força mas esteve per to, numa espécie de silencioso limite. Ele não tinha ainda dado por si em meio aos homens; não sabia em que momento se tornou assim plural e per verso. Ai, pai, cuidado - ela disse, gaguejando a cada impulso. Tenha cuidado – repetiu. Procurou se segurar enquanto os homens cresciam à frente do veículo imparável alheio à pauta do piquete. Mal percebeu quando a cabeça bateu no vidro ao mesmo tempo em que a pedra em sentido contrário o ultrapassou. Foi como uma bomba, como um relâmpago. Só acordará para reconhecer o corpo.

Na janela do hotel as cor tinas crescem como velas dum barco à deriva roçando a cama de casal. A por ta se abre e a menina entra estranhamente chorosa cor tando suspiros com os sons guturais e foscos


próprios dos prantos infantis. O quar to parecia a cela de uma escrava medieval cujo senhor teria se comprazido em conferir outra punição caso não percebesse o cor te fundo na testa macia com a qual o vermelho e o inchaço não combinavam. – Seu pai? Como assim? O que houve? Haimeard verdadeiramente não sabia. Fugiu assim que percebeu a tragédia produzida. Não poderia dizer que foi por medo nem que seu ato tivesse qualquer conotação de apoio aos manifestantes. Simplesmente estava lá e a mão dispensou o bom-senso. A menina se movimentava como um fantasma e talvez sua visão fosse tur va como a dos fantasmas pois não reparou em como a palma do amante estava ferida. Talvez ela o sentisse se eles fizessem o que ali foram fazer, mas um e outro entenderam que não havia clima. Não sei se algum dia eu me recuperarei disso – pensou ele. A gente pensa que é simples como esmagar um mosquito com um tapa na perna. E além disso ele era


pai dela. Meu Deus, o pai dela. Um ser humano e o pai dela.


Misturada à multidão Alice pensa que se juntando às pessoas poderia sentir como elas. Andou pela rua em frente ao beco enchendo o peito ao vislumbrar a face gentil e luzente da estação. Cruzando por jovens de jeans e camisetas e pesadas mochilas ou arrastando as malas com rodinhas até o meio-fio onde tinham de subir antes para puxar a bagagem e ali ela se sentiu efetivamente saudável. Levou a batata frita à boca. Os olhos girando e o pescoço se movendo no ritmo pesado das botas na calçada. A voz do taxista é monótona e ela não percebe qualquer significado em suas palavras mas faz ainda assim um imperceptível sinal de sim com a cabeça sem esperar a reação do homem. Decer to essa voz é ainda a dele mas logo se perderá no desejável anonimato do ambiente de outras ecoando adiante. Esbarra em duas pessoas antes de se sentar. O motor de um ônibus saindo dialoga com o ribombar lento de um trem rouco. Não vê as pessoas diante dela. Revira as coisas na bolsa. Será possível que exista em produtos da sociedade


alguém original o bastante para merecer a atenção que ela deseja dar mais tarde ao conteúdo das fotos quando estiver criando seus poemas a par tir delas? Embora pequena como as de hoje em dia a máquina ainda fazia clic como as antigas e ela aos repetidos cliques esperou inconscientemente por alguém segundo o homem que diante dela fixara discreto o olhar em seus joelhos. De pé diante do anúncio de uma agência de viagem azulando a parede atrás dela, enquadra a menina que se abaixa lânguida no sentido da bagagem, as pernas unidas e as mãos espalmadas na par te interna das coxas mais escuras por efeito, se imagina, de meias de nylon. Mãos brancas. Quase brancas. Plenamente brancas onde a luz que resvala dourando no teto do ônibus estacionado encontra o mindinho esquerdo dobrado sobre a barra desfiada do shor t cheio. Essa era a menina que o rapaz à frente, destinado a ter um lugar a seu lado durante a viagem, via nos ainda precários prelúdios da imaginação e do desejo que não necessitavam de uma imagem mais


ampla e fiel. Alice o focalizou também e quando batia a foto teve algum tipo de presságio vendo-o sonolento sob a marquise de uma das paradas. Um outro homem, bem mais velho, surge no visor. Braços aber tos para um último abraço na namorada suspensa no meio das perspectivas. Inver tido no vidro com o horário de saída do ônibus atrás. Aéreo entre lágrimas que julgava por ele. Que ingênuo – pensa Alice. Ou um santo.

Um homem grisalho caminha pelas redondezas. Digamos que tem uns quarenta e poucos. Pode ser mais. Em alguns a idade como que se interrompe e ou morrem jovens ou têm a decadência fulminante de que nem o espelho nem o parente próximo darão qualquer aler ta. Esse tipo de homem. Desencantado. Desejoso dum último projeto que faça enfim sentido. À procura como quem olha letreiros na rua. Procura decer to mais que um barbeiro. É um salão amplo envidraçado. Dessa parede vítrea verá Alice e um carrinho de bebê


e logo a mãe ansiosa. A seguir o som do carro de polícia não mais longo que inspiração após falta de ar. Depois a mancha azul de um passante apressado – braços luzidios balançando quase aber tos: asas. O rosto incrivelmente intenso interrompendo a idade.

Desce do ônibus. Olhando os tijolos aparentes quase de todo ocultos por florezinhas brancas que o mato alto em redor tornava exuberantes àquele sol baixo e frio. Tomou coragem e encaminhou essa energia para a espera. Tinha isso com ele. A diferença entre a paciência da espera e o engano do contemporizar. Decidiu pernoitar num hotel e ir até ela de manhã após concluir que precisava mesmo cor tar o cabelo. Agora a esquina da casa de telhado quase oriental e tijolos aparentes. Um breve espreguiçar ao alcance dourado daquele raio. Ela aper ta os olhos e alonga os músculos do braço muito branco e comprime os dedos dos pés ao passar diante de uma persiana entreaber ta por dedos indiscretos. Não se


imagina obser vada. Está apar tada desse instinto sempiterno das mulheres.

Esteve quase o dia todo na estação entre par tidas e despedidas enquanto ônibus após ônibus encostavam nas plataformas em complicada manobra de contorno das pilastras e muros e outros ônibus já estacionados sob os gemidos das por tas e dos motores. A noite azul descia do céu revelando pálidas estrelas e Alice se despedia dos pais pela janelinha por onde a paisagem até a casa de seus tios a acompanharia. Foi um tempo muito bom mas não deve se queixar. Também agora é uma privilegiada. Faz o que gosta. Não se impor ta se o marido vai encontrar a jovem amante noutra cidade. Graças a isso pôde tirar o dia para as fotos. Terminará a vida com ele. Em paz. Sem mais culpa. Agora apenas sinta o que sente e se misture ao mundo. O eco diminui dentro dela conforme a estação se esvazia. No caminho de volta para casa outras ruas e casas ainda passeavam na sua


memória como um filme projetado na praça e entre os carros e junto às pessoas sacudindo no metrô. É uma criança que volta para casa após a escola e nem aqui nem ali é seu lugar. Onde então? Por que pretende escrever se baseando nas fotos? Talvez outra pessoa entenda ou o que um homem de seus quarenta ou cinquenta anos vê quando a vê passar pela barbearia? Imagina o quadro per feito (porque é um pintor). O barbeiro percebeu as manchas de tinta em seus dedos assim que ele entrou. Ele não notou que o outro havia percebido na verdade nem sabia que estavam manchados ou se sabia não fazia caso. Apenas sorriu pensando o quanto era um velhinho simpático e como ficava bem de branco. Soma e cores. Luz. Sim: precisa que ela pose. Precisa tomar coragem e pedir que ela pose.


Olhos fechados, as mãos no rosto, dedos finos, unhas discretamente tratadas, aper tou o canto dos olhos. A língua antes em seu ouvido agora luta contra sua própria língua. As unhas discretamente tratadas cravadas nos cabelos espessos. O prisioneiro ocupado com a blusinha branca de decote em V e logo com a fivela do cinto em L. A proximidade do êxtase. Quando saia do apar tamento e retorne ao hotel há de ser com a cer teza do novo emprego e do amor do patrão. Ela se recompôs sentindo-se uma fruta que não deveria estar exposta com marcas evidentes de batidas. Não lembra em que momento chegaram a se deitar no chão entre as canetas que caíram do copo, a mão dele sem se dar ao trabalho de retirar a última peça, alargando antes o elástico. Ondas modificam a textura da areia e tornam possível as pegadas onde antes havia vão espalhamento. Os dedos dela se agarraram à estante e a alça lembra um arreio no braço muito branco no momento em que seus olhos param entre vida e mor te entre suas coxas se alastrando para o


cérebro. Ela balança a cabeça e os dedos finos buscam a caneta que permanece quieta no copo. Chegara. Fantasiando um Meereshimmel que não conhece, carregara o pensamento do homem que deixou a cadeira de barbeiro.

A letra redonda atravessa de canto a canto a primeira foto. A janela oscila solene sob o luminoso alagando a varanda de impensáveis matizes. Alice é um vulto verde. Agora violáceo. Se Haimeard tivesse ido para casa assim que saiu do bar teria encontrado um alaranjado totem. Se eu fosse um pintor – pensou o vizinho – teria aqui o elemento para um quadro per feito. O som da voz do estranho de seus cinqüenta anos a transtornará. Ela pensará em homens maduros como o seu primeiro deveria ter sido. Não imagina como ele a descobriu nem interessa por que deseja que pose para ele. Infelizmente não posso – disse. Pensando em como faria. Não, não posso. Dois seres unidos por projetos derradeiros. Não se aproximará


porque já está próxima. Inelutavelmente unida. Tratase de administrar o fato consumado.

Ela entra na sala. Quase negra. Fecha as cor tinas. Negra. Senta-se. Azulada pelo monitor passa as fotos. A determinação a inspirará caso do trabalho não se afaste. Nasceu muito tarde. Cresceu com os que apostam na felicidade e par tilhou o deleite dos sentidos pelas mesmas redes sociais. Por volta da vigésima foto, Haimeard entra. Resolveu a meio caminho. A menina não atendia o celular e ele achou melhor deixar como antes combinado. Por agora de novo a taquicardia e a falta de ar e suor frio e dor no estômago. Não é nada e de nada valerá se queixar com ela. Não pode tomar o comprimido que lhe dará segurança. Seria a mor te per feita. Riu negro. Quando faltou energia por alguns minutos, os dois estiveram frente a frente iluminados apenas pela lua.


A escuridão envolvia a silhueta polida de um corpo novamente acostumado ao trabalho duro da casa num vestido leve, surrado e limpo sem pretensão exceto o confor to. Passos acima dos demais sons. No por ta-retrato uma menina com roupa de balé sentada no quatro das pernas gráceis calça as sapatilhas. A seu lado Alice sorri, o rosto inclinado para a direita. Os olhos dele identificam o per fil pelo qual se apaixonou. Piscam e ele se perde sob ár vores que far falhando parecem falar. Fixado no alto das pernas que a saia xadrez revelava no movimento junto ao inter fone. Sob a janela a mesa nua. Os vizinhos que costumam ver tudo dessa vez não o viram entrar e por isso o silêncio é ainda maior na camada sobreposta do silêncio de sons longínquos. Oi, amor. Por que logo hoje resolve

me chamar de amor? Está inclinada, quase decidida, decidida a se encontrar com o pintor. Como foi com teu irmão? Como poderia ter sido? como se ela não

soubesse. A que horas Na mesma em que eu estiver indo ver esse homem você vai? Como teria sido se no


dia seguinte o homem de seus quarenta ou cinqüenta anos não tivesse a síncope e morresse naquela mesma manhã?

Não sei como lidar com isso – pensa. Apesar de respeitar o marido, ter esses rasgos de conhecer outros homens, como quem gosta de ficar em casa mas não resiste a um convite sair. Para ele ou se amava ou não. Ela discordava calada. Agora esse elemento novo. Conhecer outro como ela. Como ele (Haimeard) n��o era. Assim próximas essas ár vores formam alguma coisa tão familiar a ponto de inquietar. Silêncio. Esse desespero. Seu passo é lento e claudicante e acompanha a linha da calçada mas subitamente se desgarra e invade a grama no sentido do asfalto. É um logradouro íngreme e não daria para ver se um carro viesse em sua direção. Lembra o dia em que com um recor te de jornal acer taram o aluguel da casa mas tenta em vão se lembrar do que então sentia. Menos de um mês após ser pedida em


casamento. Não há ninguém além dela na rua. Seus tênis são verdes e não está de meias e seu vestido cinza e grosso parece um uniforme. Olha para trás. O som da respiração pesada se agita quando ela pensa em voltar sem levar adiante esse intento. Aí o coração dispara e o estranho frio faz suar. Não adiantará o que quer que faça ou diga. Haimeard imagina coisas da própria cabeça como se fossem um fato e ela não sabe como lidar com isso.


Sonja com muito sono mantém o olhar nos prédios pontilhados de azul claro caminhando na direção deles com a taça em uma das mãos e a garrafa na outra. Como se fosse ser vir alguém. Tem sono, muito sono. Tanto a fazer e nada fará direito por causa do sono. Sente no cristal as mãos cada dia mais ásperas. O som dorido e insistente é o canto de um curioso pássaro entrando pela janela, retângulo de luz que não ilumina. Meereshimmel. Com ternura perdida sorriu ao lembrar. Um moribundo que caminha sem saber que está à mor te ou acredita piamente num milagre. Demora-se ante as paredes de quadros e pôsteres. Vasos e toda a tranqueira que em tese deveria encher a casa. Dar a cara de um lar. Prazer. Mulher é competente nisso. Ela nunca. Não depois de cer to dia. Olha os vários pares de óculos escuros sobre o móvel como se pudesse fazer brotar deles um novo olhar e renovados dias de sol. Com uma empregada e com Haimeard casado deve ter mais tempo livre para


redescobrir o marido. Não redescobrir o príncipe pois ele jamais será um. Mas olhe que leva jeito. E que vigor para as coisas práticas! para o cotidiano estafante duma pequena empresa. Fornecedores, clientes e com quem mais é preciso lidar. Outro tipo de príncipe: Alice geme como ár vore ao vento em sua janela quando lembra. O homem das coisas práticas que quase conheceu. Considerando o tamanho da cidade, as casas não são tão longe uma da outra. Fecha a por ta atrás de si. Deixa para trás os cachorros, os encanamentos, as fofocas, a garagem, o play, os filhos e as mães – não cansam de tanto se amarem? De tanto sentimento familiar? Quando bateu a por ta do prédio, estava livre. Dá uma última olhada na fachada e torna a se perguntar se valia o aluguel. Concluiu que sim considerando a localização e o comércio. Era sobre essa casa que falou com Sonja no ônibus. Foi o castelo do sono e do estranho pássaro que Sonja evocou. E Alice seguiu na direção do metrô. Não estão seguras de nada, em contraste com as cer tezas mornas


dos que dominam o terror de existir. Acabou de amanhecer e a cidade lavada pela chuva noturna ainda guarda o cheiro úmido de asfalto escurecido e as vidraças estão cheias de lágrimas mais serenas que a paz dos mor tos.


Não parecia uma menina. Ao contrário. Parecia estar no controle. Toda cur vas e luzes. Praticamente o chamou para a casa dela. Que tipo de casa poderia ser? A dos pais? Um quar to de albergue? Haimeard deu-se a permissão de ir – um necessário exílio de si mesmo – e não se sentiu culpado, ainda que a menos de duas horas estivesse pensando em como passar um tempo maior do final de semana com Alice. – Amor, você vai demorar? – Ah querida olhe só que chato, apareceu um problema. Que coisa horrivelmente banal! Ainda assim não era como o pai. Não. Na verdade era esse o maior pecado de seu desvio, compreenderia pouco antes de morrer. Repetir medíocre o mundo e os juízos que contra o mundo fazia.

Impressiona a naturalidade da menina diante da situação. A névoa contém presságios. Quem perderá


se eu for adiante? Ela parece feliz do alto de seus quinze, dezesseis anos. Quem mais no mundo sorria assim? Afinal, é um apar tamento. Uma linda cober tura com vista para o mar. O apar tamento de uma amiga. Após ser vir um café ela pede desculpas e licença e uns trinta minutos para fazer a lição de casa. Senta-se diante do computador e começa a escrever consultando um livro ao lado e ignorando solenemente a presença do homem que agora a vê segundo o reflexo da vidraça e o spot. Ele tem cer teza de que não é o primeiro. Ainda assim há a lei. Se sou inocente

perante minha consciência mas não perante a lei ainda sou inocente? Concede-lhe confor to a estranha familiaridade: a água que quis beber, o ar à janela, o abajur que acendeu – tudo onde ele sabia que estaria. Até o par de sapatilhas de balé evocavam o mais natural dos mundos.

Ela termina o trabalho e esfrega os olhos. Tira os óculos e se aproxima do homem adormecido no sofá.


Parece uma criança. Está com um de seus óculos escuros e ela sorri. Quem sabe queira recuperar a visão da adolescência. Ela retira-os delicadamente. As luzes levam a ninfa que o conduzia pelo bosque mas lhe oferecerem outra. Lentamente aproximam-se os lábios. A pele da menina é rosada e tem traços de acne. Não falam. Os dedos dela se abrem sobre a camisa branca mais e mais amarrotada. A mãos dele descem pelas costas desnudas e lisas e macias acompanhando um sulco e de outro se aproximando. Se a luz ainda acesa se apagasse nesse momento não perceberiam. A última imagem que ele tem é de uma jovem singrando soberba sobre ele soberana e vagamente desajeitada. Um mar pelo visto bem conhecido.

Quando ele voltava para casa sentiu a palpitação acompanhada de falta de ar e ver tigem. Tentou se lembrar se precisou do comprimido. Não. Tudo correu naturalmente quase como uma brincadeira que ela não


queria terminar. Mas ele precisava. Tenho de ir. Ah ela entende. E abriu um sorriso imperceptivelmente piedoso.

Não deve ter sido fácil para um caminhoneiro comprar uma casa dessas. Ainda com a respiração acelerada ela se detém no alto das escadas, na saleta onde começa o corredor para os quar tos. Lá embaixo alguém bate a por ta de um carro. Ela se pergunta se era mesmo a sério que planejou a fuga. Que pretendia falar a respeito com um homem que naturalmente não estava minimamente preocupado com nada além de si mesmo. O pai, ao contrário, a amava. Todo aquele confor to em grande par te só chegou a ser alcançado por causa dela. Ele pensava que queria que a filha tivesse o que a mãe não teve e talvez por isso tenha procurado fora, longe de casa. Ela reconhece o amor paterno e se deixa descansar nesse amor. Quase entende o que ele dissera à irmã que falara em ir o mais depressa morar sozinha. Filha minha só sai de


casa casada. Então qual exatamente o papel da fantasia em tudo isso? Tocar e envolver e sentir o calor que avermelha os olhos – animal alucinado atacando. Pensa se fantasiaria assim caso tivesse um irmão mais velho. Precisa estar preparada porque a vida se dá não entre animais enlouquecidos mas após a transformação deles em homens de bem. Não convinha passar dos limites e acreditar que tinha as rédeas até porque amanhã seus quinze anos terão se transformado em trinta e quarenta e a carne despenhar-se-á e a fila andará com essas que nem nasceram fazendo o papel que ela hoje faz.

Voltando para casa, o pensamento de estar de novo com a menina – um pensamento do qual o homem mais velho deveria fugir como o diabo da cruz – fará com que se enleve e imagine-os ao ar livre lá em cima na colina por exemplo entre grandes pedras e pequenos arbustos guiando os pés jovens pela encosta verde e a cada passo o mar se distanciando lá em


baixo e o som do mar – outros sons já não havia – longe longe longe cada vez na atmosfera de um outro planeta. Alice fazia algum esforço para ser merecedora do tanto amor que ele lhe dedicava? Estará ele com

algum problema que não quer contar? Não quer que eu me preocupe. Deve ser isso. Se a menina for ao menos boa e precoce o bastante para o confor tar... É bem capaz que seja isso. Não quer que eu me preocupe. Ele é tão diferente de Meereshimmel, Meereshimmel só pensa em si mesmo. O pensamento confor tou Alice da nova ausência do marido sem um aviso que justificasse possuir um celular. Não iria dizer naturalmente que estava tendo um caso; mas podia pelo menos dizer que está bem, que está vivo.


Haimeard notou que Sonja havia emagrecido. Reagia com menos fer vor as suas carícias. De todos os seus casos era aquele de que não poderia prescindir. Pareceu-lhe razoável pedir a ela sussurrando. Devolveria a autoconfiança. Os olhos dela o encaram, depois se fixam num nada adiante, e novamente nele, e agora cabisbaixa ela parece cansada ao dizer que ele não precisa se esforçar tanto. Está tudo bem. Vai ficar tudo bem. Ela está distante. Magra, fria e distante. Poderiam ter se casado. Teria sido melhor. Ela pisca e seu olhar agora se perde com tamanho desdém que dignifica seu rosto até então apenas lascivo. É tarde. O que poderia ter sido feito não foi e a vida pune. Parece ter sido num outro mundo que se conheceram e se amaram e foram tão gentios um com o outro. Só esse elo é pouco – pensou ele quando ela em silêncio consentiu.


Estava morrendo. Meereshimmel assustou-se ao perceber que a velha taquicardia do irmão tomara derradeiro caminho. Ele próprio não percebia? Como lhe dizer? Se consolará com a idéia de que sempre teve isso desde pequeno e que você também tem e pronto, assunto encerrado. E agora, com esse problema com a justiça, já pensou se for condenado e tiver que cumprir pena em regime fechado? O que será da esposa caso aconteça o pior? A idade dela conta contra agora. E a inexperiência. E não falar inglês. Mas o que ele podia fazer agora sem causar uma grande confusão ainda maior do que a que as coincidências armaram? Ele se permitira abandoná-la à própria sor te – que história é essa agora? Via Alice impulsionando a roda da máquina de costura com a mão esquerda que agora cerrada dá pequenos socos laterais à altura de seu próprio pescoço enrijecido e doído pelas horas em que está trabalhando em fronhas coloridas enquanto espera o marido que poderia ser ele, Meereshimmel, se não tivesse mantido o


compromisso com Sonja, um erro, agora sabe; mas as coisas não funcionam assim, não dá pra se manipular o destino. Se de fato o irmão adoecer, o que restará para Alice senão algo como isso, um trabalho de costureira noite adentro e finais de semanas incluídos? Ali está alongando o pescoço para um e outro lado e encostando-o num e noutro ombro e pegando repetidas vezes o celular para ver se não deixou escapar a mensagem de alguma cliente. Sozinha e mais sozinha porque Haimeard não só será ausente como é mas nunca mais estará para o mínimo sequer. Caixa postal. Um suspiro. Levanta-se. Um banho. O pijama. A noite deixada lá fora. Voltas pela casa. A janela de novo aber ta com o sabiá. Pode ter acontecido alguma coisa.


O nevoeiro é nuvem um pouco mais alta do que na rodovia onde quase cem carros colidiram causando tamanho engavetamento no mesmo dia em que os impor tados estão mais caros para proteger a produção nacional. A fábrica do automóvel japonês de Meereshimmel, funcionando meio-expediente após os estragos do tsunami, era fonte de preocupações por conta da reposição de peças. Ia ele assim. Atento ao GPS. O rádio ligado. O braço pendente na por ta. Procurando a rua onde diziam talvez encontrasse o componente. Tenta um trajeto alternativo quando a vê. Toda alegre e saltitante. Ali. Deixa esse cara passar.

Música na loja que acaba de abrir. A atendente acompanhando canta. O nevoeiro se dissipa. A jovem deixa de cantar e pergunta se pode ajudar. Pode. Nisso exatamente. Em falar com Alice de costas para Meereshimmel. Mas o carro parou. Por que estava tão agitada? Pelo retrovisor os olhos do homem vêem o


casaco marrom balouçando sob o coque escuro. Conhece-a até melhor de costas. Conhece-a melhor do que há um minuto atrás não imaginaria. Imóvel ali sentado. Teso e aprisionado no mal-estar. Não tinha forças para abrir a por ta do carro e chamá-la. Mal podia respirar. A moça de costas inquieta para cá e para lá. Quando a conheceu era um outro homem. Como se tivesse envelhecido exatamente no dia seguinte àquele; como se passado e futuro ali tivessem se dividido. Há um ano. Os olhos de Alice deram com uma caixa grande e prateada que da estante refletia como um espelho, onde podia obser var cada movimento dele. Via com alguma clareza que parecia mais velho e taciturno. Amadureceu desde que esteve no apar tamento dele. Pode avaliar os fatos de uma distância segura. Ele pensa que desde aquele dia seus sentimentos acerca das coisas eram apaixonados, inclusive no que dizia respeito a Sonja. Mesmo quando pensava em Alice. Teria ela encontrado trabalho? Ele ainda precisava de uma assistente. Não. Seria loucura.


Seria loucura – pensou ela – esperar ainda que ele lhe oferecesse trabalho? Porque é evidente que faltava isso em sua vida. Uma renda. Não depender de Haimeard e tirar qualquer resquício de vínculo entre seus escritos e subsistência. Ele mergulhou por instantes num silêncio sem vestígios e quando voltou a si ela já não estava lá. A mão direita se abriu sobre o banco do carona ao longo do lento percurso entre o Centro Cultural e o apar tamento. A maciez do acolchoado e a textura do revestimento o fascinaram como se estivesse tocando a pele de uma mulher. A pele de Sonja. Não se tratava apenas de fidelidade. Mas o som do vento e os pés na terra. Das estações. Duas dimensões: numa ama e noutra vive. Querer que coincidam é pedir demais.


Ela chegou em casa após o marido. Não o vê e caminha a passos rápidos. Entra no banheiro e fecha a por ta. É um homem leal. O pai que não tive . O patrão

(bons tempos). O amigo. O amante. Nem podia alegar solidão uma vez que nos últimos tempos ele se esmera em estar presente e disponível. E ela sabe o quanto com os problemas da gráfica não deve ser fácil. Na verdade apenas imagina, pois deixou há muito de se inteirar das coisas da empresa. Em outras palavras... – Sonja? No olhar da mulher no espelho a luz da lâmpada inunda a lágrima.

Dá por si chorando miudinho. Or valho numa era abandonada. Um fragmento tangível de tempo entre o flash de sua última lembrança e o novo chamado do homem. Entreabre a por ta após misturar as lágrimas com a água da torneira. Meereshimmel está


engordando um pouco ainda que esses fios brancos lhe dêem muito charme. Parece ter uns cinquenta. É a gráfica. Trabalha e engorda e envelhece. Estou bem – diz o sorriso molhado. Ele pergunta se ela quer que ele faça algo para comerem. É demais. Por que está fazendo isso com ela? Não chore . Ele não disse isso. Quando ele se afastou para a cozinha, ela bateu a por ta de leve. Abaixou a cabeça, respirou fundo e pensou quando e como isso aconteceu. Por que deveria acontecer? aonde ela pretendia chegar e – Sonja disse a si mesma que talvez tivesse sentido atração pelo irmão mais novo mesmo antes de conhecer Meereshimmel. Se foi ou não assim, qual a relevância? Ela está cansada – pensou ele. O trabalho doméstico exercia sobre a mulher um poder terapêutico. Por que abriu mão dele? Isso de trabalhar fora e procurar emprego e isso de empregada – tudo isso vai acabar com ela.


Não, não é bobagem pensar como você pensa que a arte só se legitime a partir da dúvida que irá gerar possibilidades e interpretações. Acrescentaria que a própria beleza para subsistir deve se afastar do dogma. Uma experiência criadora costuma esbarrar nessa falta de sentido das coisas. Para que escrever? Para quem? Salva-nos do total desespero perante a questão a aparente falta de sentido da própria vida e todos nos esforçamos para viver e encontrar alguma coisa em que trabalhar e no que se ocupar com o objetivo de subsistir. Se uma flor sobrevive apenas um dia e ostenta ainda assim sua pequena majestade a quem quer que passe no caminho, seríamos mais dignos de vida? Por que nosso próprio olhar deveria ser melhor do que o das flores? porque não podemos comungar com esse olhar?


Porque é o olhar que, determinando a perspectiva de alguma coisa, determina sua efêmera verdade – pois não há verdade perpétua embora possa haver perspectivas se repetindo de acordo com olhares renovados. Decerto aí, ao me ver refletido nos seus olhos, encontrei a verdade que me guiará ao longo desse restante de vida. Dessa espera espero frutuosa da morte – a busca da palavra adequada e da acabada metáfora que transcenda os limites literários e se misture com o hiato entre memória e espírito em correntes profundas a que poderíamos chamar de amor. Não foi assim segunda-feira, quando pela primeira vez estive aninhado em seus braços pacificadores? Não soube ali tudo o que precisava saber?


A primavera ainda não começou mas o sabiá já está cantando pontualmente às quatro e meia da manhã. O aposentado do final da rua garante ao filho pelo telefone que na casa em frente à sua é às quatro, quatro e quinze no máximo. Seja como for, esse sabiá vê o movimento começar com seu canto e nunca se saberá se canta por causa do movimento ou se o movimento começa por causa de seu canto. Segunda. Quando o mercado vinte e quatro horas está fechado da meia-noite às seis ou sete para balanço. Tardou um pouco mais. Só começou com a luz do dia. Alice notou porque foi a hora em que saiu. Ia ao médico. Teme essa gravidez. Reza para que os indícios sejam falsos. Não está preparada para ser mãe. Talvez nem queira ser mãe. Confunde-a agora que era fiel e devotada não encontrar mais o êxtase dos tempos promíscuos.


Garoa. Cidade cinza. Passos molhados. As flores grenás, conforme a senhora a quem pergunta (de onde tirara essa extroversão?) são as buganvílias ou primaveras. O sol nasceu. Entre as pessoas por quem passa assuntos tão inúteis quanto os ruídos de um elevador enguiçado cujos cabos ainda balançam e roçam um no outro sem levar para cima ou para baixo. Sexta começa a estação. Tocarão Vivaldi no boletim meteorológico como se Vivaldi fosse comum. Como se fosse uma celebridade dessas que a internet faz nascer e a T V embala e no dia seguinte será esquecida. As estações sem sentido do planeta adulterado. Botinhas na calçada molhada subindo na direção do metrô a levarão ao marido ou a momentos antes, a dias antes, ao beijo, a Meereshimmel. Segue na direção da manhã alta por ruelas que parecem retardar a inevitável entrada no túnel de vento que a carrega. Peixe aos pulos reavivado pela correnteza. Caminha como se não fosse parar. As imagens em que tropeça terminam


num murmúrio desconexo. Não haverá lágrimas nos olhos desse homem se acaso lhe disser que será pai.

Meio-dia. O médico disse entre irônico e convicto que não há sinal de criança. Agora é procurar um canto calmo num restaurante e enquanto come refletir ao som do vozerio. Entre uma e outra estação do metrô a fome aumentou. O remédio começou a fazer um efeito incômodo de cansaço e língua pastosa. Está mole, adormecida. Trinta e cinco graus e seis. Em alguns casos é normal – disse o médico como se tentasse acreditar. Depois deu alternativas. Diabetes, vesícula, sabedeusoquemais. Talvez haja mesmo uma causa emocional. Cadáver fresco é mais quente – um cadáver que caminha. Seu corpo é mais sábio do que ela. Devia ter sido a última noite. Quis ludibriar o destino e eis o resultado da sobrevida. Um adultério mais cedo ou mais tarde. Não. Caminha na direção da balaustrada. Se apóia e vai girando a cabeça no sentido do horizonte avermelhado e belo e poluído.


Isso não. Impor ta antes o dever que o bem-estar. Homens e mulheres estão cada vez mais fracos à força de tecnologia, sedentarismo e medicação. Obsessão de confor to. Dilapidadores da catarse. Nem teria ido ao médico se o bom Haimeard não tivesse pago um par ticular. Os médicos de convênio estavam em greve. Pagou embora não tivesse recebido nada ainda por seu último trabalho já que ainda não o enviara ao cliente porque os correios estavam em greve. Quando enviar ainda demorará a receber porque a quantia é maior do que se permite para transações assim no auto-atendimento e os bancos vão entrar em greve. Não adianta ludibriar o tempo no mundo movido a dinheiro. O tempo não se deixa corromper. O tempo a quer assim decadente em seu físico porque insistiu em continuar. Respira profundamente e pisca escondendo por um átimo o entorno úmido e vermelho de seus olhos no céu.


Diante do espelho gira o pincel de maquiagem pensando em suas conquistas recentes sem saber se valera a pena. Obser va as rugas de expressão se formando no extremo dos olhos sob os quais o branco escurecia. Casara-se com quem achou mais prudente e concretizara na carne o sentimento do outro homem a quem amava. Isso não deveria fazer com que a experiência devolvesse aos sonhos algum proveito? Deslizou a mão num último movimento róseo. Ou seria um vício? a compulsão que satisfeita se esgota para logo se renovar do nada e para nada? A pia gelou seu ventre quando se aproximou mais do espelho. Achou que os lábios tinham ficado por demais vermelhos. Ar tificiais. Essa não sou eu.

Na feira as cores vivíssimas. Alice chegou a pensar que havia enlouquecido e que limões e bananas e maças contra o branco dos aventais e acima das barracas o vultoso azul do céu primaveril fizessem par te de um desvario contra o qual não sabia se


deveria lutar ou se acomodar àquele rude prazer visual. Tempo encapsulado no sofrimento escapando pela aceitação de todo detalhe do destino e qualquer de suas nuances permitindo o próprio destino não rígido mas não totalmente mutável. Carma que permite o arbítrio como maça raspada com uma colher. Ela era uma criança.

Desculpe. Um sorriso correspondido. Ela não consegue evitar, vive esbarrando. Isso às vezes traz coisas boas. Nem sempre. A fome aper ta. O restaurante pode bem ser o do centro cultural. Por que não? Não é tão caro e a comida é boa. Passa a última quadra de barracas e desce pela outra entrada da estação. Não está mais à espera de um inesperado salvador. Não acredita mais nessa possibilidade. Encontrara repouso. Levanta-se para pegar a sobremesa. Encontrara a paz. Saboreia o pudim e se pergunta onde foi parar a paixão nesse processo. Se os homens se tornaram figurantes na nova etapa de sua


vida onde está o protagonista? Onde está de fato Haimeard? O homem na mesa ao lado percebe o levíssimo tremor em seus olhos. Os figurantes eu sei

que estão sempre – sempre – ao redor . Mas o que há pior do que se queixar e sobretudo se queixar quando tudo está bem e quando pode até se dar ao luxo de repetir um pudim saboroso sem pensar em quanto custará. Seu sorriso não tem qualquer motivo ao se dirigir à biblioteca. Um ricto apenas. Levou o sol da tarde ao ultrapassar a roleta e entrar no salão. Não é permitido entrar com alimentos – disse a funcionária apontando o car taz. Mordeu o último pedaço do chocolate e entrou no espaço de memórias semelhantes a folhas caídas retida em labirinto de sonhos no barulho de passos.

Apoiada na barra do metrô pelo antebraço, apanhou o telefone no bolso. Olhou o visor com aquele olhar baldio e sem sentido com que os visores de celular são olhados. Movimentou os lábios ao


escutar com um quê devoto a voz do outro lado e dirigir os olhos para o chão como se obser vasse um exército de ar trópodes manchando o mapa iluminado da linha. Logo estará diante de Haimeard que estará diante da T V e ela se sentirá culpada. Por quê? Não tem porquê. Só culpa, culpa em retrospecto, ainda que se torne santa. É sua segunda pele, a culpa. E Haimeard um santo já. Para alguém como ela o atroz Meereshimmel teria sido melhor. Sai do elevador com flores nos braços entre as quais seus dedos delgados podiam ser confundidos com hastes. Recusa-se a continuar questionando seu relacionamento com o marido. Era seu melhor amigo e digno de toda confiança. Se algo faltava – algo que sequer saberia nomear – ora, algo que sequer se pode nomear, isso não existe. Não existe.

Haimeard passou pelo restaurante assim que Alice saiu. No mesmo caixa que ela pagara o almoço com dinheiro proveniente das ideias dele, pediu um café


antes de ir para o local onde marcara o encontro. A garçonete uma vez já os vira dois juntos. Casal bonito fazem.

Pergunta-se se não está ficando sério demais. Passa pela rampa que leva à biblioteca e segue para a rua. Vira à esquerda e entra no metrô pensando o quanto deprime esse apego ao que não pode durar. Pensando o quanto seria bom se não fosse um amor proibido. Mas talvez o ser proibido seja a única coisa que em meio a tudo se sustente apesar do preço a ser pago. Que pode ser perdição ou puro tédio ou a lembrança vívida do que não se viveu. Sem esperança nem receio nem confiança nem desespero. Nem liberdade nem a falta dela pois a cela está aber ta. A consciência disso é descober ta constrangedora denunciada pelo olhar impudente com que Sonja sai do metrô e sob o sol se revela ao longe.


Na cama quente e desarrumada o casal está dormindo. Não. Ele está acordado. Tenta entender. Foi não mais que um flash. Alice de costas na loja. Silêncio que quase se pode tocar. Deixa disso. Olhe aí do seu lado. Você tem a melhor mulher, a mais linda que um homem poderia ter, a mais – não: Sonja anda fria, distante. Cansada, ele sabe. Por que não basta saber? Não conseguiu evitar a comoção que fez de seu corpo uma pedra aureolada descansando no leito dum rio fundo como alguém experimenta uma roupa cuja cor detesta.

Há quanto tempo está deitada? Talvez uma hora. Nem meia quem sabe. Deitada satisfeita da satisfação vesper tina, não é difícil imaginar o marido. Pelos movimentos sabe que ele está acordado e pela respiração que está olhando para o teto. Tudo o que ela vê é a noite na janela aber ta. Amor – dizia Meereshimmel nos primeiros meses – é essencial para a gente dormir bem. Nunca será sono suficiente para


impedir as impedir as sombras do pecado. Contorna a imagem Haimeard sem desfazer o espaço mútuo a que não podem renunciar, por exemplo – pensa Haimeard ao descer as escadas do metrô –, como renunciei à menina. Ela hoje faz dezessete anos. Arruma sua cama com os movimentos delicados e os olhos perdidos e a máscara de sorriso que se tornaram típicos após a tragédia. Ele realmente não a tem visto mas a rejeitará, se acontecer? A garçonete também viu Haimeard e Sonja. Não na lanchonete mas entrando num hotel na periferia. Na verdade também Haimeard e Sonja fazem um belo casal. Mas ele é bem mulherengo – riu consigo mesma.

Ele não é mulherengo. Se tivesse alternativa não trairia o irmão. Por que ela ficou com ele e não comigo – perguntava repetidamente. Ela sorria e dizia que foi pela mesma razão que ele, mesmo se encontrando regularmente com ela, casou-se com outra. Não sabia que era possível esse tipo de ciúme e


era mais que possível: comum. O pior dos dois mundos. Olhando para o teto Haimeard naquela tarde viu o filme de seu encontro e namoro com Alice, o que Sonja imediatamente suspeitou e de pronto decidiu que isso não permitiria. Já se sentia humilhada demais.

Meereshimmel se aproxima da janela e ali se debruça respirando com alguma dificuldade por ter subido as escadas correndo. Insere-se no retângulo verde ao som de um latido e do chamado que a vizinha atende. Quem a quer ver o vê antes e quase pode ver que ofega, as faces vermelhas e o peito taquicárdico. A falta de um elevador no prédio é compensada pelo valor do aluguel o que todavia não impede a tormenta de dívidas. O verde escurece e foge; a vizinha aparece desbotada, irreconhecível. Estar assim – acredita ele – tem o lado bom de atenuar os apelos extraconjugais, sobretudo num sentido que represente algo mais do que um caso. Entorpecido percebe novamente vazia a janela de onde a mocinha


surgiu para avisar ao namorado que já estava descendo. Lá embaixo o casal se cumprimenta com um beijinho em cada face. Passam a caminhar pela aeração da vereda ao redor do prédio. Vivem. A vida para ele se manifestará outra vez? O garoto impossível que enlouquecia os pais com a bola e as meninas com as mãos bobas no play, não sabe para onde foi. Esse homem cujo coração aos poucos se acalma. Sabe o quanto o bem-estar será efêmero embora quase possa apalpar o alívio. Calmo até demais agora. Apático. Nem memória nem jogos. Assaltado pela paz que retira a vontade. Fazendo tudo diretinho e só. Os dois lá embaixo olham para cima, para algum ponto além dele. Pensando acerca do tempo que o céu prevê para o resto do dia. Um dia beijou a prima e se surpreendeu por ela não o ameaçar com delação. Procuram um canto nas escadas como se tudo tivesse sido planejado. Sensação mais próxima da alegria que o beijo consentido de Kátia, sua primeira namorada. O que a gente sabe não irá além do que se espera que


vá. Onde estão indo esses dois? A idade dela regula com a de Alice e ele parece que poderia ser filho de Meereshimmel e puxa dois livros da mochila aber ta e os entrega com rápidas explicações. A mocinha agradece. Seu sorriso também evoca o de Alice.


Esse meu bondoso esposo. Beijou-o. Beijou-o pensando no outro. Lembrando como um dia o beijou pensando em ter um lugar onde passar a noite e quem sabe os demais dias. Passou por aquele momento, o pior ou é agora meu Deus o que tenho agora? preciso

reencontrar aquela moça que ia postar seu último poema e que não tinha para onde ir – para ela a vida vale a pena não para essa ela que me tornei. Pensa em Meereshimmel e ali está ele. Preocupado com a política econômica. Preocupado com o dólar. Preocupado com os fornecedores. Preocupado com a entrega. Uma sirene onde ele está – onde esteve há um ano. Tem a ver com outro assalto a caixas eletrônicos. São mais de cem este ano. O trânsito congestionado por causa dos curiosos. Alice pensa por que não tentou se desvencilhar. Ele não é tão for te nem ela tão frágil. Enquanto a cor tadeira eletrônica segue o compasso dos blocos de hospital Meereshimmel pensa que ela poderia ter gritado. Feito ou dito alguma coisa. Não foi um estupro aliás não foi


mesmo. Oi amor, enfim consegui falar contigo. Você viu? O caixa eletrônico na loja aí do lado. Fiquei preocupada – disse Sonja ao telefone. Tão preocupada ou nem tanto quanto Alice vendo do corredor por onde Haimeard está entrando, mal tomando consciência do beijo da mulher, as imagens no jornal do meio-dia. O que podia fazer? Não havia como se comunicar. Então seu amor transbordou como uma gazela foge dos leões.


Ele perdeu um tempo enorme com contatos de rede social. Não lembrou da hora do almoço. É solitário comer entre deliciosas mulheres fúteis e homens sofisticadamente grosseiros. Onde encontrar Sonja? Hoje é o dia em que ela disse teria um compromisso? Tampouco lembra se é hoje que a menina disse estar de novo livre porque o pai ia viajar. Foi a primeira vez que falou do pai. Quando disse que ele estava na maior par te do tempo fora pois era caminhoneiro. Deu uma ligada para ela quando a página demorou a carregar por conta de tantos acessos simultâneos. Ela se levantava da cama larga no quar to feito dia. Inundado duma luz que realçava por todos os lados tanta juventude. Caminhou colocando a camiseta sobre a calcinha, desengonçada e rosa no equilíbrio de pato de típicas e petulantes adolescentes. Derramou café do bule na xícara ainda bocejando e antes de atender o telefone discretamente silencioso olhou na direção da cama ressoando discreta como um bicho. Ah. Oi. Ele percebeu o abismo.


Ouviu sem prestar atenção nas razões por que ela hoje não podia. Desligou e não passou pela cabeça ligar para Alice. Não lembrou de médico ou problemas de saúde. Poderia encontrá-la para almoçar. Não pensou nisso exceto muito mais tarde quando a noite caía e transpirava o novo projeto. Pensou para avisar que ia chegar mais tarde. E que ela não pensasse que havia mulher envolvida. Era trabalho mesmo. Trabalho que a sustentava. Alice não tinha do que reclamar. Entendo. Fica tranquilo – dirá Alice e irá para a cozinha deixar a comida pronta para quando ele chegue. Ainda à tarde Sonja passou no cabeleireiro excitada como se tivesse alguma coisa nova em vista. Elegante. O riso dela é o das fadas – pensou o único homem no salão, fixado nos ruivos cabelos soltos adejando ao movimento da cadeira giratória. Único e ela não o viu. E aí, meninas? Tudo bem? Sabem quem eu vi? – e por aí. A tarde passou rapidamente. A chuva prevista foi um chuvisco e os camelôs que vendiam


guarda-chuva nem tiveram tempo de ganhar algum. Gente, tanta, vultos, cores, sons. De vagões, de máquina de gráfica, vozerio de cabeleireiro, teclado, sons de sistema. E eles. Protagonistas das suas e de algumas outras vidas. Sabedores uns dos outros mas não todos de todos. Num sentido misterioso em que cabe lógica rígida. E a hora do almoço e a noite nas empresas e nas casas são o tempo que de todos precisa e de todos prescindirá.

Há um tempo estavam sentados na suave proustiana obscuridade da pequena sala cheirando a livros sem sentir a amenidade da tarde. Para ela fazia frio como em qualquer obscuridade e as iluminações eram também a sensibilidade da pele afetada pela mudança de temperatura e imune à temperatura em si. Ele suava. Não poderia justificar o fato com algum temor relacionado à maledicência dos vizinhos. Era calor proveniente da idade em que menos se está imunizado contra qualquer coisa inclusive o amor


impossível ou possível num mundo que não existe e até da emoção de em Alice ter reencontrado, não, ter encontrado a escada pela qual enfim se permite subir entre a florescência fora de tempo só perceptível pelo cheiro da sala sempre fechada. Par tículas delineadas pelos raios da tarde prateando o bule fumegante. Quando ela tornou a encher as xícaras, seu rosto se transmutava em quase imperceptíveis mudanças nos olhos e rictos hesitantes entre o sorriso e o pranto e sutis movimentos do maxilar e das maças do rosto construindo sobranceiras estradas na terra de tardias acnes sobre ner vos e músculos detonados.

O negror do café reluziu e pareceu a ambos um sinal. Ela sabe. Não por intuição admissível, ela sabe e está per to de ter o confor to da convicção do que se sabe e a segurança do que se faz. À vontade como um menino tímido se transforma no piano que domina. Eu

o amo. Não como amo o filho que não deveria amar. Mas amo. Não como o pai que não tive – até porque


tive. Amo a dor em seu olhar. Amo a pessoa com um passado que um dia eu serei. Num tempo e lugar pouco antes inimaginável ele viu movimentos femininos em sua casa anacrônica e as mãos de dedos compridos e cruciais atravessando em sua frente e a sombra dos braços esfriando a luz do sol obliquo sobre seus braços em repouso sobre a mesa.

A noite desceu áspera com fagulhas subindo de algum fogo e desaparecendo no negror do abismo acima. Quando Alice riu gostosamente e tapou par te do rosto, teve um irrefletido cuidado de que não precisava. Ele indagou se tinha dito algo engraçado. Ela se apressou em negar para não cultivar a inelutável intimidade nascida, embora tivesse rido sim porque na noite anterior lera a passagem de Milly no mesmo Absalão que ele citou. Sabiam as horas pelo espaçar dos transeuntes na rua mais que pelo espaçar dos motores de carro na avenida não muito distante. Os dedos dele estão relaxados e aber tos sobre a toalha


da mesa. O sol naqueles minutos antes do crepúsculo entrando pela janela. Nem escuro nem claro nem quente nem frio. Ele então falou mais sobre literatura e sobre a independente beleza dos textos avulsos de Giácomo mesmo quando comparados às obras respeitadas de Joyce e não passou pela cabeça dela que houvesse qualquer sugestão. Mas ele tinha sim uma cer ta predileção por amores incomuns e a seguir mencionou Sally Seton de alguma forma identificandoa com Alice (nesse ponto ela não mais sorria, absor ta em como também sua vida poderia ter ficado de pernas para o ar se a situação de Sonja fosse outra. Com sor te a gente sobrevive – pensou. Estão ambos sorrindo. É mais do que mereço – pensaram juntos.

Com o final da tarde o rosto de Alice escureceu e se avermelhou e a tênue sombra sobre o assoalho chegou até a janela ainda aber ta misturada aos livros


pelo chão nos quais subia como se fossem escadas. Se olhasse para cima entenderia que os estalos vinham do ventilador de teto muito lento, numa velocidade quase vietnamita. Ele volta e meia lembra de que se esquecera da resolução de não se aproximar mais de uma moça. Ele pisca e respira fundo e ao expirar está dizendo que não gosta de sopa e que durante toda a infância foi obrigado a tomar sopa e por isso passou a detestar sopa, respondendo ao que ela havia perguntado: se ele não tinha sopa em pó ou legumes para que ela fizesse uma rapidinho. Estava ficando frio.


Mantendo-se ereto Haimeard olhou mais acima. Céu acinzentando. Depois viu o carro estacionado sob ár vores, um perigo nesta cidade. Entrou e foi direto ao fogão. A mesa da sala o duplica agora a par tir do braço for te e dos músculos realçados pela camiseta. Escuta passos no corredor sem mover a cabeça. Estão muito próximos agora. O vulto se move à janela. Ah, você está acordada. Ao se olharem viram um no outro muito de si mesmos. Silêncio no mundo não significa paz. Sequer ausência de ruídos. Remorsos.

Em casa no quar to preenchido pelo outrora amado ressonar de Meereshimmel que agora mal pode supor tar, pequenina e ousada como uma criança correndo num parquinho, sente-se um fantasma de si mesma diante das paredes úmidas dos fundos do prédio onde da mesma janela um dia por muito tempo vira apenas o azul do céu. Mas como? Sinceramente o amava. Por que não pode mais sequer par tilhar o


mesmo teto? Graças a ele não tinha que temer as noites ao relento que profetizara quando a empresa de jogos eletrônicos faliu. E ali estava. Dependendo de alguém para subsistir nesse mundo protegido das ruas bêbadas da madrugada. A rua dos mendigos e das prostitutas e dos filhinhos-de-papai em intermináveis baladas. Redoma contra a sordidez dos vícios também seus um dia. Também das doenças mais ou menos corriqueiras. Protegida – pensa – onde outros não estão. Um caso sério. Situação muito grave. Gravíssima. Abre o fecho da maleta em que levou as roupas para ficar os três dias no hospital. O pulôver exala um cheiro antigo, de felicidade. É grave e desesperador. Os movimentos dela são lentos e medidos como se estivesse roubando as roupas e o resto. Um celular. Um carregador. A car teira de couro onde estão os car tões. É uma situação desesperadora. Não a rua. Depender de alguém. Gira a tampa do vidro de per fume. É como se um violino tocasse. Está chorando.


A filhinha de Meereshimmel e Sonja nasceu num domingo ao som dos sinos da igreja. A menina passou a infância tranqüila num lugar tranqüilo que só quando era uma mocinha ficou conhecido como reduto de prédios luxuosos e amplos condomínios. É aqui. Foi

bem clara a explicação de Alice. O carro do vizinho dos Ryeowon manobrava para entrar tangendo o poste principal da rede elétrica no qual desbotado e majestoso em sua permanência estava o gravite M&S.


– Por favor... Com seu passo firme herdado da mãe e um toque sensual aprendido de Alice havia chamado a atenção do por teiro e agora o chama. Um cãozinho latiu e rosnou para SeoYeon

que lhe devolveu um sorriso

carinhoso. O homem se aproxima sem disfarçar quanto o impressionava tamanha beleza e elegância. Espero

que Alice não tenha exagerado na produção. Olha esse homem. Achando decer to que sou uma perua emperiquitada. – Sim, senhorita. É aqui do lado.

A primeira impressão causada foi de obscuridade e pouca ventilação. Talvez por isso as plantas – pensou a menina. O advogado acreditava que era resultado do tempo em que as janelas estiveram fechadas. Quando as abriram porém pouco melhorou a iluminação e o ar permanecia sufocante. Mas SeoYeon

estava

encantada com o lugar. Pensou em como seria legal


receber os amigos naquele cantinho agradável. Uma sala de estar praticamente ao ar livre. Gostou sobretudo do sofá vermelho com almofadas fofas ainda que provavelmente pediria ao tapeceiro que lhe fizesse um recobrimento de outra cor. De que cores você gosta – perguntou a corretora. Gosto de verde – disse a menina.


Foram as pombas. Foi a debandada das pombas que juntas abandonaram o telhado em frente rumo às luzes da fonte num caleidoscópio profético aos olhos de SeoYeon . Que a levou à decisão de ali querer morar. Quando mais tarde ouvir isso Alice lembrar-se-á da cena que Meereshimmel descrevera – a filhinha soltando-se dos pais e perseguindo as aves pela praça recor tadas, menina e pombas, contra as águas luminosas de uma fonte e o som do sino, o mesmo que tocava enquanto ela nascia. Talvez fosse mesmo um bom presságio o das pombas mas a esse ponto? abrir mão da renda do aluguel de inestimável valor para os estudos dela? Nunca me queixei nem tinha do que mas

por algum outro meio a menina soube das dificuldades quando ela era bem pequena e eu a tinha de deixar na creche. Quando SeoYeon

abriu a por ta para o

advogado, segura do que queria, sentiu um arrepio na pele. Como se tivessem depositado ali camadas de passado e futuro – a trágica mor te da mãe, a da avó, a do tio e a do pai e a de Alice – mas sentiu também um


elemento cuja textura era firme e a cor viva como a da fonte. Doces momentos inesquecíveis. Voo num céu sem nuvens que lhe proporcionaria a companhia de Alice como tutora. Passando ambas todos os dias para sair de casa diante de uma treliça de glicínias.


Abriu a por ta de vidro que dava para o salão interno ladeando a enorme cozinha fria e iluminada como se tivesse num passe de mágica aterrissado nos dias frios e secos do verão e a angústia se transforma em tristeza. Pensamentos vadios vindos de um coração que não reconheceu logo como seu ligava antes à beleza de Alice, na falta de lhe conhecer melhor a alma. O que entendia ao dobrar as pernas lisas e longas e se lançar no sofá com os cabelos se espalhando pela grande e leve almofada dum tom mais escuro que logo repousava em seu colo e onde logo seus cotovelos repousavam, era a ligação inexorável entre a dor e o amor, entre a tristeza e o trabalho. Seu pensamento antes mero passatempo ocupa agora um lugar sagrado. Que bom que você acredita – disse Alice. Que bom que você aceita.


Quando deu por si estava na ladeira do centro cultural. Faz calor mas ela treme. Estava só. Foi mais ou menos ali que eles entraram no carro cheirando a novo e começaram a rodar pela cidade na direção da casa dele. Ouvindo como se os carregassem gritos e palavras de ordem misturadas a delirantes buzinas e a um mar vulgar de murmúrios sobre a avenida que ciciava na chuva. Ela tem receio de olhar para o lado e ver seu per fil. As conversas das pessoas pairam e passam como entrecor tadas nuvens invisíveis sem fazer sentido. Como se gritassem com ela. Por que agiu assim? Por que se entregou por um abrigo noturno? Naturalmente achando que na pior das

hipóteses eu deveria ter me assegurado de que isso era mesmo verdade e que se tinha de me entregar para um estranho não deveria ficar desabrigada do mesmo jeito como se não tivesse. Gritando comigo Por que se apaixonou? Então ela espera que a qualquer momento as vozes se tornem a da mãe que morrera naquele ano. Pelo tom saberá que ela desculparia


qualquer coisa desde que soubesse que a filha não passaria pelas mesmas coisas que ela passou. Mas Meereshimmel era apenas um homem bom, trabalhador. Nunca viu todo o dinheiro com que costumam imaginar um empresário lida diariamente. Meereshimmel Você. Os passos tristes ecoando nas

pedrinhas do jardim ar tificial ao lado do café como os de um soldado que avança e pára a uma distância segura sabendo o que quer ao som do pássaro do mar que cantou naquele momento como se gritasse e os outros respondessem. Acho que são gaivotas mas não pode ser então não sei mas não impor ta. Quanto tempo ficamos nos olhando sem palavras alheios ao que estivesse em volta fixos encarando e meu corpo responde de um jeito como nunca. Eu ia desviar o olhar eu realmente ia mas você segurou meu rosto como se deixar meu olhar se desviar significasse me deixar par tir sem cumprir a promessa. Minhas mãos estão como que soltas no ar. O som das pedrinhas não parou de todo embora seus passos tenham parado.


Minhas mãos enfim descansam em sua jaqueta como num por to seguro e o som dos lábios se soltam no ar junto às vozes dos pássaros. Não estou simulando estou sim correspondendo com todas as minhas forças. Seu rosto se inclina primeiro para um lado depois para outro e eu peguei tipo um cacoete assim mesmo sem qualquer sentido sozinha em geral rindo lembrando, fingindo nunca, lembrando. Suas mãos aber tas em minhas costas me aproximam e não há mais distância segura quando sua boca se abre e se fecha sobre a minha como um predador sobre uma presa feliz e por alguns segundos vi de novo os seus olhos e por alguns segundos você viu de novo os meus que confessavam amor ao receber o novo toque de seus lábios agora discretos quase santos num som breve que já ignorava os pássaros como se buscássemos o ar antes de mergulhar de novo. Meus braços se erguem como numa prece e o tecidos do agasalho sussurra levando minhas mãos e os dedos que caminham sobre sua gola como se tocassem piano


ou imitassem dançarinos. Ali eu soube que você acreditou e que para sempre acreditaria mas não podia saber mais e imaginar além do permitido, pelo bem de minha própria alma. Os dedos em seus ombros. Caminhando em seus ombros. Dobram-se um de cada vez e depois tornam a se abrir sobre a textura da jaqueta que exalava o cheiro que por muito tempo para mim seria o seu e ainda é o seu quando em momentos como agora aqui na rampa descendo eu recordo. Esse pássaro é aquele. É aquele. O canto terminava assim pungente enquanto eu não me soltava de sua boca com a mão direita envolvendo seu pescoço e a esquerda pendente em seu ombro. Estou pendurada agora como se soltá-lo significasse realmente despencar. Estou pendurada e quente e soluçando como se chorasse e quem sabe não estivesse mesmo. Você permite agora que eu me solte. Agora você permite que eu me solte sem cair. Depois naquele ponto da avenida em que fica a loja de informática ela pensa que devia ter evitado esse


caminho. Duas vezes o encontrou por aqui. É possível por tanto que torne a acontecer. Nada ela desejaria mais mas ele jamais acreditará que ela não resistiu a seu beijo o tanto que deveria porque estava sinceramente apaixonada, pela primeira vez. Há quanto tempo a luz doura aquele detalhe do prédio? O que existe existe entre a alma e o objeto no corredor que liga os olhares. O sino tocou assustando as pombas pela terceira vez. A primeira que Alice ouvia. Esse momento soaria na memória enquanto o sino vibrasse. Você. Consequência da luz na fresta sob

a por ta. Do toque do sino. Do cheiro das damas da noite. A luz que contorna a edificação harmonizando o impossível de ser harmonizado. A nuvem iluminada e a firmeza geométrica. Então ela atravessou o sinal descuidada e o motorista lançou o anátema.


Nunca brigavam e raramente faziam amor. O que aconteceu? Que palavras duras! De onde Haimeard as desencavou? de onde desencavou tantas verdades a respeito dela? Como a desnuda assim? Não a ela mas àquela que ela foi. Não com gritos mas palavras brandas.

Mais tarde ao jantar sozinha como de costume na mesa da cozinha cuja lâmpada falhava seguidamente enquanto ela pensava no transtorno que seria estar em casa refém do eletricista, ouviu passos pesados nas escadas e por um segundo esperou que ele abrisse a por ta ou como não era raro tocasse a campainha porque havia esquecido a chave. Mas os passos continuaram para o andar de cima calcando pesadamente os degraus como se pudessem depois jorrar vinho. Seria bebida amarga pela raiva ali contida. Não poderiam por tanto ser os passos dele pois as únicas iras de Haimeard se destinavam a Sonja,


com quem sempre brigava e a cada reconciliação era o amor melhor. Estavam sempre ligadas à possibilidade de ser o pai de SeoYeon .


Acaba de entrar no quar to pelo corredor de luz que clareia o móvel entrevisto e ilumina as lombadas dos livros na estante. Como sempre a primeira coisa que fez foi abrir a janela. Dia luminoso e luminoso o per fil de Sonja contra o dia recor tado. As mãos trançadas para trás no fecho do vestido. Girou e surgiram como se estivessem nascendo os pequeninos desejáveis seios. A insensatez com que vinha se compor tando naqueles dias após a contratação da empregada não era naturalmente indício de leviandade. Não vale a pena imaginar o que poderiam ter sido, esse casal impetuoso e pujante, caso não aprisionados na normalidade. Ela escuta o que ele diz e responde qualquer coisa, sentando-se na beira da cama. Realmente ainda é linda. Linda e calma. O vermelho dos olhos dele e o vermelho dos lábios dela. Menos linda que Alice mas muito mais digna. O fecho sob o pequenino colar havia resistido e ela lhe pede que abra, por favor. Ele pergunta alguma coisa sobre aonde ela foi mas quando os olhares se cruzam está


arrependido. Não quer sugerir suspeita. É a última coisa que poderia ter em relação a ela.

Ela estava confusa. Há pouco tempo um toque de Meereshimmel a teria enlouquecido. Um prazer no qual não confiava mais. Mas sim era prazer. Um movimento que se perdia como nas sinfonias a que nos habituamos e do qual jamais duvidaremos. Será por todo o sempre deleite apesar de todo questionamento. Fecha a janela. Pingos de luz ainda entram pelos furinhos da persiana como notas do vento que faz a leve cor tina adquirir formas estranhas côncavas e convexas e a transforma num implacável pastiche de exímia dançarina oriental ar fando. Luz e vento e música imaginada. A vela de um barco impor tuno rumando para as férias que eles nunca tiraram. Quase não falam. Não é um mal. Foi a melhor época da vida a que menos conversavam. Em que nada precisava de um discurso lógico como agora. Um velho barco capaz de atravessar mares mais tormentosos.


Quanto tempo depois de tirar a poeira dos móveis e pensar na moça, ela viu Haimeard naquela situação nova? Ele lhe dirá que ter uma empregada faz toda a diferença para um homem sozinho. Para uma mulher também. Ela corre em sua direção. Abraça-o. Beija-o. Quando o solta, ele ainda sente as marcas do aper to nos braços. Solitário menino perdido. Desvia o olhar. Esses arroubos de Sonja o incomodam. Não pretende uma vida assim intensa. A lógica do projetista determinou um futuro calmo. Sem inquietações evitáveis. Mas está ali. Se encontram há seis semanas mais ou menos. Cinco semanas e meia, ela sabe: anotou em algum lugar. Ainda de pé ele recompôs a camisa com um sorriso que era um pedido de desculpa, mas ela não notou. Na verdade também está ajeitando o cabelo. Resta saber quem tomará a iniciativa óbvia e como. Então ela se virou e foi para o


quar to e ele a seguiu. Como se houvesse nisso uma metรกfora.


Alice imaginava um amor sublime e se deixava arrebatar. O ardor de seu corpo correspondia à luminosidade das esferas a que era levada. Entre requintadas ár vores protegia os montes sagrados em silêncio denso, e a memória e os projetos se dissolviam na ausência de bem-estar ou de dor. Não se engane. O êxtase desse sonho não resistirá ao toque do telefone ou ao girar da chave. Não se alegre. Ele chegará – se chegar – falando das promoções injustas de algum colega. Não se transformará nesse deus crepuscular que te toca. Solta os cabelos descendo. Arruma a mesa. Acende o fogo. Bem a tempo. A chave estala. Haimeard entra. Imagina, amor, que deram a chefia àquele idiota do... Até religiosa ela meio que se tornou mas o odor em que a oração sobe é o mesmo da cozinha onde parece que esse arroz queimou.


Cheiros antigos tanto acolhiam a infância renegada quanto a velhice não mais temida. E mesmo um aroma vago de tempos anteriores a seu nascimento e posteriores à sua par tida do planeta que não teve a delicadeza de perceber que ela não se adaptaria, retirando o convite. Pensa nisso na macia e robusta poltrona do avião ao som de seus fones bloqueadores do redor – nave para o mundo ideal fugidio no toque da aeromoça em seu ombro ou na turbulência que não a assustou mas sim o passageiro ao lado. Antes do casamento não podia se imaginar num voo para outro país a fim de ficar não mais que algumas horas e em nome do marido fechar o contrato que ele não pôde pessoalmente. E em que isso mudava as coisas? O avião sai da turbulência e restabelece seu murmúrio de mar. Ela de novo adormece sem ouvir mais o choro da criança.

Foi uma viagem cansativa. Em casa torna a adormecer olhando a cor tina obediente à brisa. A luz


se imiscui nas persianas fechadas através de cada mínimo interstício. Nada restou. Plano ou esperada surpresa. Suspira na fronteira entremundos uma prece acima da compreensão de Deus, evocando-se como sempre naquele dia gelado e angustiante sem qualquer expectativa de amanhã, e todavia aqui está o amanhã além de todo o esperado. Devia ser grata. Não será o amor a paixão pela imper feição do outro, que será necessariamente a paixão pelo outro, pelo que é no cotidiano e não por uma fantasia de si mesma? Homens jovens sem defeito e competentes como Haimeard se deixam subjugar por seu sexo e pensam com o sexo seus pensamentos mais profundos. Depois de longa suspensão a cor tina tornou a tremular. A luz pode determinar o espaço como nitidamente demonstra o caminho do sol na parede oposta assim como a textura agora que o feixe molha o cor tinado e desce por ele. Talvez devesse se concentrar no confor to. Talvez devesse. No quanto o confor to até mesmo permite seus questionamentos. Mas pensa que


não haveria questionamentos se fosse simples e alienadamente feliz. Para que ser vem a leitura e a escrita exceto o saber que as coisas são ou não como deveriam sem possibilidade de mudá-las? Que o amor não concretizado vale mais que o affaire mais intenso – que talvez o affaire mais intenso seja o affaire não consumado. É provavelmente uma regra do amor. Ser tanto mais verdadeiro quanto menos real. Jura ter ouvido o lamento e o grito de júbilo da floresta em que os amores se perdem em meio às folhas estalantes de passos renegados pelo dia e grandezas a que o pleno desper tar dará outro nome. Acorda. Entreabre os olhos. Acredita que é sábado sem descrer da treva onírica. Se ao menos tivesse força suficiente para esticar o braço e alcançar o celular na cabeceira... Caso esteja cer ta, caso seja sábado, há uma conflito sintático a ser atenuado na monografia. Respirou fundo para que a ordem fosse dada a seu braço. O desenho da janela ainda se movendo. Quadricula o teto. Faz com que o livro à cabeceira se incendeie.


Colore de vermelho-escuro a mochila marrom jogada na cadeira. Sim. Amanhece. Como mesmo aconteceu? Um professor na cantina da universidade. Um convite. O olhar de uma jovem desconfiada. Está mudando. Gostaria que alguém esperasse dela uma mudança. Gostaria de presentear esse alguém. Cada vez menos Haimeard é essa pessoa. Ele preferia a outra, a mor ta. O céu estrelado à janela diz para ela não perder as esperanças e não se acomodar. Pega o celular e está mesmo na hora. Refletindo se deve ou não corrigir o trabalho, talvez não, pensa. Talvez a sintaxe viva de conflitos e o conflito demonstre o quanto está viva. Como o sol na cor tina e nos interstícios da persiana. Como em algum outra par te da manhã o professor.

O que posso te dizer é que com as antigas car tas e hoje as mensagens de internet ocorre


algo muito semelhante à própria literatura. A força maior não se dá quando quem escreve fala de coisas fora de si, as quais não vivenciou; nem quando simplesmente fala sobre seus anseios e receios – sua vida enfim – conscientes. Mas (é o que parece ser aqui) no que tenta expressar coisas sobre as quais a consciência preferiria se acomodar e manter quietas, ocultas. Ninguém resolve do nada escrever para um professor que não conhece além da sala de aula, como você fez. As noites insones de que fala interpretam decer to um papel impor tante. É espantoso que exista uma menina com sua capacidade de se espantar e tamanho desejo de compreender. O mundo a nosso redor parece diferente visto após as coisas que li de você. Possivelmente, também meu espírito sofreu algum tipo de alteração. Significará, imagino, que nossos corpos possam sofrer algum tipo de evento; porque tudo o que há no mundo e no espírito


passa pelo corpo. Quisera possuir ainda os poderes que muitas noites insones me concederam para responder suas perguntas. Quisera não estar demasiado envelhecido e doente. O cansaço afeta a lucidez como o calor o faz, embora no meu caso possa ainda haver algum equilíbrio por conta da solidão e do silêncio. Entendo, Beatrice, que depois de tudo o que aconteceu, vc precisa se afastar. Afinal tem toda uma vida pela frente e não merecia começá-la com tamanho estresse trazido pelo nosso caso, e continuá-la com as consequências advindas daí. Tudo bem. Quem sabe um dia a gente se reencontre e as coisas possam ser diferentes. Mas deixa eu te contar : conheci alguém. Uma princesa. Se houvesse algo a ser dito, como cheguei ingenuamente a imaginar, se valesse a pena a posteridade, se não fosse exceto vaidade, seria ela a pessoa per feita para dizer. A escolhida. Tem


vida, sabedoria e vigor, não está maculada por seus defeitos nem fragilizada por suas vir tudes. A questão é que não há, não há o que ser dito. Dizer é esperar e como para tudo há um tempo de esperar. A vida é indizível. O abismo, comum. e ainda assim ninguém proclama o que sabe para que alguém ouça e aprenda. Não é assim. O que se sabe e talvez se espalhe pelo inconsciente coletivo é a solidão inerente. Entre o nascimento e a mor te a gente pensa que tem algum poder sobre a condução do destino, mas, por nãoinexorável que ele seja, não é verdade. Aliás, o que é a verdade? E se dizer é esperar, torna-se propagador dessa crença, é esperança? Perdi de há muito tal fé. Não na esperança em si: na sua eficiência. Em que sentido? Como componente essencial de um estado ainda mais absurdo: a ventura. Ela sabe essas coisas. Escreve maravilhosamente sobre elas. Vive o que escreve. Talvez não escreva sobre tudo - a falsidade de


toda esperança, a incapacidade funcional do dizer, a solidez da alegria perene (solidez no sentido de não-flexibilidade) -, talvez não tenha ainda desenvolvido o dom de criar em meio a toda essa ferocidade de conceitos porque o que tem em vigor lhe falta em idade e experiência. Pensei por um momento que pudesse preencher essa lacuna com a minha própria experiência e assim resgatar por meio dela e da escrita o meu vigor. Quanta pretensão! Ninguém conduz, nem resgata, nem aler ta. A única vir tude da poesia além da estética é levantar questões, não respondê-las. e ainda assim só valerá para quem já possuir essas questões e com essa poesia possa recriá-las de uma forma ar tística, melhor desenvolta, mais técnica e não por isso mais prática, dramática, com o poder da cena, de sua concepção e desdobramentos, que cabem, e pouco mais que isso, na solidão original. Há, pois, um tempo. Esperar é preciso, mas não demais. Como a fome


e o sono, o dinheiro e o amor, a necessidade de ser lúdico ao lidar com coisas que não têm a mínima graça. Desespera-se antes de dizer. E a palavra é um murmúrio ouvido apenas por quem murmura.


Ele não parecia interessado no que ela sentia, pelo menos não agora, e SeoYeon

mal sentia a

insistência das carícias, imersa que estava nos seus pensamentos. Ele se deu por vencido. Seria a terceira vez aquela tarde embora nunca de modo completo. SeoYeon : estátua de moça sob a chuva do entardecer. No corpo resquícios da segunda vez. Cansada. Nem decidira se gostava dele tanto assim. Era um bom amigo, o melhor. Raramente se transformam em outra coisa. A meia-luz incide ao longo da parte abaixo dos joelhos que naquela posição crescia e brilhava. Talvez fosse melhor de novo puxar conversa. Mas como foi – perguntou ele. – Minha mãe chegou no mesmo ônibus que Alice. Deixou com ela o endereço caso ela porventura precisasse de alguma coisa e era muito provável que precisasse pois viera procurar trabalho numa cidade


em que não conhecia ninguém. Mas por uma ironia do destino conheceu meu pai também... Quase se arrependeu de ter dito aquilo mas entendeu que não precisava. Ele era um bom amigo. Rapaz de inteira confiança que levava a sério quando ela falava. As coisas que contava não deviam sair do quarto mas não podia simplesmente deixar de contar. A vida que viveu. Menor que qualquer das que imaginou. Viveu-as ambas como uma só. Pensando no quanto os céus quiméricos eram mais azuis do que esse à janela, pensou que não. Que a cortina que filtra a luz também será palpável caso ela se levante. Caso aceite as cores vívidas do sonho pela natureza febril do respirar humano, a maça firme e vermelha que aplacar a fome será o ovo do pássaro do sonho colocado na fruteira. E o rapaz de calça jeans áspera e camiseta cinza justa assumirá as imagens dos rapazes de seu sono. A alça do sutiã pendia na cadeira e a blusa escorregara até o assoalho.


A ironia maior ainda estava por vir, a coincidência maior – continuou. – Meu tio a conheceu na rua alguns dias depois de ela ter estado com meu pai e acabaram se casando. Nesse ponto o interesse dele despertou. Realmente muita coincidência. Quis saber o que aconteceu, se eles souberam um do outro na mesma época. E se eu disser que não é tudo? Que vovô, que

mal tinha contato com os filhos, acabou se tornando o melhor amigo de Alice? que soube – ele sim antes que todos – de tudo? Com uma frase que se constrói mais pelo desenho das palavras e da pontuação do que pela decência da gramática, ela quer dizer alguma coisa mais ampla e viva como o marulhar à janela azul, como os pássaros da noite e como os pequenos insetos em torno das plantas dos vasos da varanda, como a umidade macia das glicínias na treliça. Não.

Não devia ter falado nem o que falei. Até porque quem poderia entender? É mais do que eu mesma consigo.


– Seu avô não é aquele professor que teve problemas na escola com uma aluna? Ela não irá responder toda a verdade. Omitirá o que julgue denegrir a imagem do velho que adora. Sentada na cama, as mãos entrelaçadas pendem entre as coxas morenas. A luz incidindo sobre a pele elástica dos joelhos luzidios exceto pelo arroxeado de uma queda quando lavava o piso da cozinha. Diz que o avô amava mesmo a garota e mais não digo por que não

entendo direito esse desejo dele de que ela fosse – não, não é isso – Ele amava mesmo a menina e achava que poderiam viver uma história de amor e cumplicidade antes de ele morrer e depois ela ainda teria toda a vida pela frente algo assim, nunca vou conseguir

expressar o que sequer consigo captar O assunto havia ido longe demais mas agora já

disse que vovô conheceu Alice e se deixar assim no ar aí é que ele vai mesmo pensar mal deles...


– Ele a conheceu numa biblioteca Parece que toda a família dela carrega essa sina de conhecer Alice numa biblioteca e ficaram muito amigos. O rapaz diz que SeoYeon

quase não falava da

mãe nem da avó. Ela admitiu de imediato. Pensou que realmente tinha esse bloqueio. Estragaram as vidas de seu pai e seu avô mas se uma pessoa não confiar em

alguém nessa vida e se não tiver um confidente acaba enlouquecendo . Então ela contou sobre a separação dos avós e sobre a relação difícil do avô com os filhos e questionou o argumento de que envergonhou os dois diante dos colegas. Para dar também um fim à conversa que tinha ido longe demais ela disse: – Se encontraram todos no casamento de meu tio e Isso está longe de terminar o assunto – Que situação constrangedora deve ter sido.

A única situação realmente constrangedora é como minha mãe morreu. Não iria falar mais. Subitamente viu o rosto fresco do amigo e nos olhos


dele a frescura do próprio rosto e dos próprios olhos. Eram tão jovens... – Você me ama?

Essa menina é mesmo bem louquinha –se preocupa com isso um minuto depois de me rejeitar? – Me ama? Ele não respondeu logo. O que eu posso dizer? Ela aproximou os lábios dos lábios dele. Acho que amo

apesar desse jeito amalucado dela. Ele correspondeu de um jeito mais delicado do que de costume. Parece

que ela gosta de delicadeza; quando sou afoito me dou mal. – Amo. Te amo de verdade. – Bem, ela disse – Vou acreditar. Preciso. Podemos ir até o fim agora. As aves revoluteando na varanda viveram. O ar entrou nos pulmões dele de um jeito diferente, mais pleno, como se a respiração precisasse ser consciente de si mesma. A brincadeira estava chegando ao final e


agora ele não sabia o que devia acontecer depois – ele, que no antes era tão eficiente. A língua dele se tornou áspera. Precisamos de um tempo. Pelo menos

de uns minutos. Ela se afastou e sentou-se na beira da cama. Quanto mais a gente vive menos entende as

mulheres e desde pequenas. Não tinha sido por amor nem por desejo nem por qualquer coisa relacionada ao que estava prestes a acontecer. Ela entendeu o acaso que liga as mais importantes decisões como uma luz na escuridão . Sim porque era uma total escuridão – pensava ela ao olhar o crepúsculo enquadrado enquanto continuava desabotoando a blusa branca do uniforme – um branco aromático cheirando ainda ao produto que Alice havia usado para passar e lembrando vagamente tons amadeirados de perfumes cuja função primeira é induzir a pessoa próxima a pensar que tinha a ver com o cheiro doce da maconha misturando-se ao aroma de flores. Por mais que tentasse se forçar a desviar o pensamento sempre recaía na figura materna, em Sonja se desnudando


para Haimeard e se entregando ao tio, com quem terá um contato muito pequeno mas extraordinário depois do qual não conseguirá deixar de pensar que ela fora fruto da relação errada. A camisa finalmente abandonou seu torso Que coisa linda em meio aos ruídos abafados do pano lembrando uma bandeira cuja razão do hasteamento ela não compreendia mas não dava mais para parar. Ela usa esmalte quase cinza, só agora ele percebe, quando os dedos desengatam pelas costas o sutiã Que coisa mais linda. Ela não desvia o rosto para ele. Não há sombra de sedução em seu comportamento, parecendo antes que está sozinha apenas se despindo para dormir.


O professor Savone se tornou conhecido entre os universitários mais do que por ser um homem probo e educador competente. Era o que qualquer um sabia dele. Vejam, o Savone – diziam. Decer to – respondia um dentre os outros – em busca de sua mais recente descober ta científica. Quem não estudava na universidade, como Alice, tendia a acreditar. Ao procurar ela um livro nas estantes, embora impossível deixar de admirar seu corpo nos trajes leves, não passou pela cabeça dele o pujante o caráter provisório que toda roupa necessariamente tem. Péssima a funcionalidade e a disposição das estantes. Ele sentiu o sol lá fora dentro de seu peito tocado pela maciez dos dedos que predestinados percorriam as lombadas.

Ela tentava se afastar para outro corredor. Ele a olhava sereno. Ela não consegue simplesmente não consegue se afastar. Se houvesse alguém do lado oposto da estante entre dois livros inclinados veria o


rosto dela fresco e quieto igualmente inclinado. Após alguns ensaios os olhos se desviam para o lado onde sente a presença do professor. Essa pessoa do outro lado da estante não o estaria vendo exceto pelo pestanejar e pelos rictos dela mas não saberia que tipo de sentimento expressavam porque ela havia retirado do rosto qualquer esboço confessional. A mão quente em seu ombro só depois na cantina produzirá um choque de futuro. Sombra sobre sombra nas lombadas. Ela não escutou direito mas acredita. Na história da vida dele há visões. Humilhação e lágrimas. Inconformismo. Ela acredita que não há segunda intenção em seu convite. Mas será ela capaz? É só uma mesa num evento literário com estudantes do segundo grau. Mesmo assim um desafio. Quando deixaram o balcão, Alice afinal sorriu. O professor estava realizado. Conseguira a palestrante para antigos alunos. A sombra no espelho será iluminada quando mãos preparadas abrirem a janela no momento devido.


A casa foi construída num terreno sombrio à prova de enchentes. O arquiteto a encontrou pronta em sua mente ao contemplar o espaço. Determinou naquele momento onde seria o quar to e a sala, o banheiro e o escritório, e como as pessoas se deslocariam ali dentro. Ouvia os passos delas como um escultor cinzela uma forma a par tir de um lampejo que se modificará com o andamento do trabalho mas manterá aquela figura original tosca e eterna em sua imaterialidade. Um homem gordo num terno mais elegante do que seria lícito esperar pelos demais transeuntes disse que era um belo projeto e uma execução competente. Seu assistente, com quem foi almoçar, aquiesceu e falou consigo mesmo. Está

adquirindo contornos quase humanos . As moças que riam alto e os rapazes que sussurravam sabem o tipo de pessoa que irá viver ali. Não pode ser alguém que o consenso indique normalidade. Está recém pintada e com um aspecto escuro de antiguidade. Há musgo


revestindo o muro e campânulas envolvem as ruas em sobrenatural flagrância.

Um regato passa pelo fundo da casa. O sol morno de fim de primavera se põe e no crepúsculo as paredes rosadas se revestem de milagre quando dos raios desviados pelas águas. O homem sai à janela e pensa que é hora. Alguns dos gatos se enroscam em suas pernas; outros passeiam pela pia da cozinha sem tenção. Passaram-se os tempos glamourosos e a mágoa se dissipava. Distinguir da decadência a circunspeção que nunca coube no convívio social. Não mais auréola de vaidades. Não mais desejo. Permaneceu a nudez da sabedoria que se concretiza como esse tronco mal iluminado quase sem cor. Se a mor te está às por tas haverá ele de retirar de sua proximidade a vida que a jovem pode oferecer – seiva que só jovens possuem e da qual não são conscientes. Alguém em algum momento terá de entender.


Um homem de palavra. Generoso. Perdoador. De que ser viu? Na varanda o sol atinge um momento não mais esperado. Terá de dar um jeito na bagunça. Aposentos de moribundo no qual a probidade de outrora se esconde e onde também a antiga loucura. Caos interior de que a casa é fiel reflexo. Amanhã ela

estará aqui. A luz que se apagou iluminou a chegada da improvável ninfa.

Debruçado na janela pensativo ouve os cães e por tas e passos que se acompanham de fragmentos de frases. Toras serradas para a construção da torre a que se propôs. Não sabe as horas. O dia inteiro chuvoso lhe tirou as referências da luz. Há outras. Aquela moça costuma passar ao meio-dia – provavelmente inter valo para o almoço. Cheiro de comida permeia o ar por volta das onze. Quando do caminhão de gás começarem a descer os botijões em baques metálicos


antecedidos pela musiqueta do falso sino, será o meio da tarde. Janela emperrada como ele. Logo começarão os trovões e o vento e as religiosas chuvas de verão. A tempestade é confiável. Compreendeu de modo trágico a inutilidade das vir tudes. Havia arbítrio? Cada móvel da casa vibra sob as bátegas. Cada utensílio. Detalhes da decoração que se fez sozinha. Objetos que se distribuíram na inconsciência desesperada quando soube que havia sido expulso e sob que acusação.

Se tivesse dado ouvidos aos colegas e feito o mestrado e só pensado em casamento quando sua situação financeira estivesse definida, as coisas teriam sido diferentes. Foi quando pensou se essa realização não comprometeria a estrutura de seu destino, aquilo em que podemos exercer alguma escolha. Pautou a vida segundo raciocínios sensatos que não encontravam respaldo na realidade. Verdades inverossímeis. Orgulho da nobre determinação. Mas as


coisas simplesmente acontecem. Independente de vontade ou fé ele era levado, arrebatado – arrebatado! – uma, duas, três vezes, todos os dias. A tibieza do hábito não prevalecia. Casou cedo. Casou para não se separar. Na noite em que se sentaram para discutir os detalhes do divórcio era como se ele não estivesse. Estava ali outro enquanto ele vagueava por mundos que com o tempo se fariam familiares onde não há normalidade e a terra não é regida pela tirania dos valores da vigília e da consciência. Mas seu coração não estava pronto. Só à noite os arredores adquiriam a atmosfera licenciosa na proporção inversa dos sons dos trovões que se afastavam. Saía cedo. Levava a recém-esposa à universidade e ia para a escola e de lá para o jornal e ficava até os exemplares serem impressos e de madrugada os vícios estavam guardados na vizinhança de aparência inocente. Casinhas que pareciam saídas de contos de fadas. Chegava tão cansado que caía na cama e dormia. Decer to nascera aí sua perplexidade. A esposa passou


a arranjar desculpas para se fur tar ao que a levara ao desvario de querer casar. Mais tarde ele é que pedia desculpas. A rua terminava numa avenida larga onde no meio do quar teirão em cuja esquina se erguia límpida a igreja mórmon entraram para oficializar o divórcio. Nascera cedo demais e era homem. Só uma mulher e uma mulher jovem tem autoridade de se fazer compreender num tempo assim. Melhor se for filha das redes sociais e das manifestações de rua. Há aber tas no céu. Irá então à Biblioteca. Passara-se a tarde longa, monótona e produtiva, e ele saía do prédio quando ouviu o sussurro do vento que o queria impedir. Ela ainda estava sentada onde esteve toda a tarde quando o reconheceu. Uma menina de camisa branca e saia curta – uma saia xadrez definitivamente imprópria. Ele estacou e se abaixou no aperto de coxas e panturrilhas que não acusaram o raro movimento, ficando da altura dela. Falou. Perguntou se ele queria mesmo ir. “Claro” – ela respondeu e sorriu como a dizer que não deveria agir assim com uma mulher,


mesmo t達o jovem, principalmente t達o jovem. Ele entendeu. N達o diria isso nunca mais. Quem sabe ela saiba tamb辿m como ele deva agir e o que dizer aos filhos.


O que pode interessar o que eu acho? Se você insiste, meu filho, acho naturalmente que você poderia ter ajudado e dado a ela um lugar na gráfica até porque o primo de Sonja não é uma pessoa de confiança e sequer estava interessado no lugar e no final você teve mesmo de contratar um estranho. Deu sor te pois Ingenuer é um ótimo rapaz. Mas não teria sido o mesmo com ela? Ela também não está demonstrando o quanto é de confiança e competente em tudo o que faz, sem falar na vir tude misericordiosa com que supor ta a instabilidade emocional de seu irmão? Eu diria que não é tarde. Eu diria que se não foi tarde para mim não pode ser para você. Eu diria que você teve essa sor te de poder se redimir.


Naquela noite embora de verão não choveu. Decidiram de madrugada que os filhos, os dois filhos, ficariam com a mãe – na verdade com os pais dela, com os avós, que arcariam com as despesas. Savone não precisava se preocupar e em tese os filhos eram o único problema para a separação. Temporária. Sim, entendemos. Você precisa ir atrás de seus sonhos. Tudo resolvido. Ninguém cogitou o quanto um casamento desfeito pode ser devastador na vida de um homem em quaisquer termos. Legais, profissionais, afetivos. Sobretudo quando se é um homem jovem alguns anos mais jovem que a média dos divorciados e alguns anos mais velho dos que andavam à procura de emprego. Ninguém cogitou (ou a esposa naquela noite já sabia?) o quanto vingança de ex-mulher é funesta. Ou que seus dois filhos pudessem ser influenciados pela mãe como se fossem garotinhos. Por vinte anos o professor esteve sem vê-los. Agora o posto de trabalho na universidade tão arduamente conseguido lhe fora tirado. Tudo estará porém esquecido quando


estiver entrando no velório do filho, tremendo. A jovem olhará para ele, incrédula e comovida. Mais por ele mesmo, pelo professor, do que pelo esposo mor to. Pai e filhos. Um em especial. Num dia um tapa no rosto; noutro, a mão em seu ombro. E o beijo. Quantos há? Não apenas o sensual. Há o que suga a vida; o que tenta calar ; o que luta em silêncio. Tantos. Tantos tapas também.

Seu pai pensaria decer to, ao saber que ele ergueu as mãos contra uma jovem, que gerara um monstro. Monstro! Podia ouvir sua calma voz veemente enveredando pelos labirintos da alma lacerada. Isso ele não imagina: que desde que a reviu sem conseguir lhe falar está assim. Pungido. Lacerado. O professor não saberá nada além de que ela se apaixonou desde o primeiro beijo. O tapa – como furacões rebaixados a tempestade tropical – não será digno de menção.


Relutei em admitir que havia realmente algo a mais e afinal concordo. Não há uma separação de tempo nem de espaço. Há a vida. Um abismo de mundos no mundo. Tantas vezes pensei o que teria a ensinar aos alunos que eles que não soubessem e o quanto era inútil saberem o que eventualmente desconheciam. Nada a ver com idade, personalidade, tempo ou falta de tempo e tudo a ver não com a pregação de algum novo profeta mas com a boa e velha vontade. Queremos que seja de um jeito ou de outro e ponto: daremos um jeito de que assim seja. Não há o que eu possa dizer quando alguém se sinta abandonada e recuse a presença que está ao lado à espera. Não há o que eu possa fazer quando se acredita que houve uma substituição afetiva, mesmo diante de um cão fiel. Para quem essas coisas façam sentido, o que pode mudar a dor do outro estar ali para nada e se sentir como um mor to? Naturalmente não há culpados. Quase nunca há e aqui sem sombra de dúvida. Não houve uma ação de despedida para


algo novo mas reação de simples sobrevivência. Não sei se essa sua avaliação corresponde à verdade, quero dizer, se tudo é manipulação e falsidade etc. Prefiro que não seja porque aí haveria a possibilidade de conhecimento de causa nessa queixa. Na verdade sequer sei se esse seu pensamento é real ou só uma velha vontade de ferir. Difícil imaginar que as redes sociais um dia irão se extinguir, mas é reconfor tante que aquele papel tenha se salvado do absurdo dessas mágoas. Sempre sim sempre experiência – isso que a gente tem para usar à frente em novas situações porque não foi usado na situação em que se a adquiriu. Resta a imagem de cabelos emaranhados sobre o rosto, sinais estratégicos pelo corpo, sobrancelhas sombrias sobre belos e doces olhos singelos, unhas cor tadas rente na ponta dos dedos de afresco, a um tempo realidade e fantasia, e assim não podem decepcionar ou não decepcionar mas apenas registram um tempo de vida protegido do abismo nos sonhos sim mas que tocaram em algum momento a


realidade e nisso escaparam da mera imaginação e se eternizaram numa homenagem que pode ser feita a qualquer tempo enquanto houver vida e depois do fim quem sabe ainda persista na memória da outra estação desse ano sagrado.


Saíram. Os passos de saltos pesados toam no caminho oco da passarela sobre a biblioteca, vinda de uma reforma que não retirou esse efeito acústico não percebido pela maioria dos leitores, lentos para qualquer coisa além de si mesmos. Acompanham um ao outro como violino e piano numa elegia de câmara com um elemento de abstração percebido sem cores imaginativas exuberantes pelas pessoas sentadas nos bancos laterais, enquanto eles avançam entre o per fume das flores vermelhas nos canteiros de ferro recém-dispostos.

Dois passos dela para um de Savone. A atendente do guarda-volumes obser va o quanto os ombros dele e os quadris dela são largos. O andar do homem supõe determinação. O da jovem não afeta de sensualidade. Ela quer apenas agradar o homem sem saber a razão. Acreditando haver uma razão. O que é


tudo o que ele precisa que ela acredite para que o mal-entendido não destrua essa opor tunidade única da dor.

Passam pelos estudantes sentados no café. Ela tira da bolsa o celular e desliga para ter o que fazer com as mãos. Ele vê algo mais que isso, uma deferência. Entraram rente ao plástico junto à mureta improvisado como proteç��o contra a chuva. Sentaram-se à mesa com migalhas dos clientes anteriores. Luzes acompanham os movimentos de um e de outro e logo novas luzes nascem a par tir da aproximação da garçonete que passará um pano úmido na tampa de silicone duro e branco e recolhendo dois envelopinhos de açúcar e um canudo amassado Estou tão cansada

disso preciso sair mais cedo e falar com aquele cara se a ofer ta ainda está de pé. Levando eventualmente um lamento de trapo como giz num quadro-negro queixoso que ela fazia seu, ele olha para Alice e fala e pergunta. São dois cafés e – Você quer comer alguma


coisa? Ela responde num tom baixo encantadoramente respeitoso. Não estava com fome. Até estava um pouquinho mas acaba ficando enjoada ao comer entre as refeições.

– Aqui também ser vem jantar, prefere? O olhar da garçonete começou a demonstrar irritação. As refeições são self-ser vice – disse ela. Alice se sentia estranha, muito à vontade. Um café está ótimo – sorriu. Olharam-se nos olhos pela primeira vez. As mãos dela são bonitas: as unhas cor tadas rente, sem esmalte. Na mesa também a cestinha dos saches sobre a qual confiantes as vozes passavam. As mãos dele são grandes, os dedos crispados junto à borda. Falam de recordações que podem ser esperanças. Para o pessoal das mesas vizinhas são neta e avô. Talvez colegas de aula, não é mais incomum como noutros tempos – pensa a senhora grisalha duas mesas além, junto do galho da


buganvília rosa. O tempo entre os nascimentos não impede a par tilha de crepúsculos. Parques. Praças. Mesas de biblioteca. Música clássica e contemporânea. Desejo de alegria que aceita o sofrimento e viagem que implica em viajantes e não destino. Moça muitíssimo simpática e sensível e linda, e que inteligência. Com Beatrice essa ordem estava denegrida e havia um vínculo hoje indesejado. As moças ao lado não incluem a possibilidade de serem professor e aluna. Savone teria gostado de saber. Precisa ainda acreditar que é um homem bom embora condenado. Ele foi à janela e viu a rua molhada. Um transeunte olha para cima e se assusta. Pensava ninguém morasse ali. Mas o telefone toca e ele atende e se esquece do homem à janela. Com a rapidez de raciciocínio e sagacidade necessárias para se ganhar o sustento num mundo tecnológico e competitivo em que nem a privacidade dos presidentes está preser vada, ao ouvir a voz do outro lado sugerindo a


compra do dispositivo, disse que seria melhor esperar pois pelo tempo que foi lançado decer to está próximo da obsolência. Você sabe – diz ele caminhando mais rápido e já fora do campo de audição de Savone – que essas coisas nascem para morrer.

Savone lembra como Alice o abraçou ao se despedirem. Algo inusitado e comovente. E viu os lixeiros preparando sacos para a passagem do caminhão que ele sempre associou a um minotauro bondoso. Numa janela do prédio em frente pichada duma sabedoria noturna e crua, a moça que sempre está ali, sempre está ali, parece não estar olhando para ele embora ele saiba que em alguma medida, com algum grau da visão periférica, ela está sim (e o que achará?). O vento sopra, as copas respondem e ele se lembra dos sons da madrugada que horrorizaram a esposa. Descargas de caixa e latidos intermináveis do cachorro do vizinho e sobretudo as mulheres pouco e mal vestidas falando alto na rua assuntos obscenos


com palavras e gestos obscenos. Ele ainda tentou explicar a ela que era em grande par te culpa das associações de moradores da vizinhança nobre que para ali empurrou o albergue donde se originou a licenciosidade. Pessoas que não tinham como voltar para as casas distantes, na periferia, a tempo de entrar no trabalho no dia seguinte. Logo moradores de rua. E afinal o ser viço público que atendia inclusive homens de bem do bairro. Dentre essas mulheres, algumas com quem Savone eventualmente se unia para se cer tificar dos valores enraizados na carne da qual a esposa prescindia – lembrou ele, pensando no calor do abraço de Alice e em como ela deve ter se sentido constrangida quando veio.

Após a espera interminável a ponto de não mais se lembrar de onde estava e a quem esperava ela está enfim ao lado dele. Seguirão juntos pisando a pedra confiável que leva à rua. Ela entendia mais até do que ele poderia supor, por intuição ou desespero. Era a


época de sua vida em que descobriu que um teto à noite não é tudo que se deva desejar, graças ao malogro do casamento com Haimeard e à saudade de Meereshimmel. Conser vou a aspiração do poema per feito e o desejo da inspiração que levasse ao poema per feito. Algo de que se orgulhe momentos derradeiros. Entende por tanto o que ele fala – diz. Está lisonjeada que ele a tenha notado. Sente-se rica e até feliz. Quando mais tarde lembrar disso ele Savone se lembrará do som da persiana respondendo ao vento. Ele não crê que tenha conhecido qualquer coisa parecida com felicidade e repete isso para Alice. Ela responde que antes de hoje tampouco. Nenhum dos dois pensou em romance ou sexo casual ou qualquer clichê que poderia se seguir. A moça à vontade era a mesma Alice e o homem rejuvenescido e tranquilo era o mesmo professor. Acreditando um no outro no momento em que a luz liquefizera-se em cacos à beira da cerca, gelada, embora o inverno tivesse passado e estivessem no meio do dia. Quando veio, ela não veio


para que aquele roçar casual explodisse em intimidades. Não é tampouco no que ele estava pensando quando ela chegou mas à janela, lembrando, ele pensará a respeito.

Estão desejosos de saber do que se trata exatamente aquele encontro. Vi você. Li o que escreve.

O que acredito com a razão necessita da liberdade de querer o querer e eu me sinto cansado e não saberia mais escrever aquilo em que acredito. Decer to nem tempo mais terei. É possível retomar um êxtase de onde foi interrompido? Isso se oporá a qualquer coisa ligada a bem ou mal-estar. Um outro sofrimento que é quase ausência de sofrimento. Alice entenderá. Em sua poesia apesar de trágica há vida e arbítrio. Da possibilidade de ser bom segue-se a bondade. Da vontade o fazer. Na calçada manchada pela sombra das ár vores alargam imperceptivelmente os passos como se tivessem pressa junto às varandas e vitrines. Mesinhas fora da sor veteria. Uma bicicleta alaranjada.


O vermelho do semáforo. O sol no espelho do automóvel. Toldos. Letreiros. Na calçada em que todos os tipos de passos se misturam e harmonizam com a trepidação dos veículos, a percussão sobe e neles se embrenha até encontrar as batidas de um mesmo coração.

Sob um raio de luar incisivo prateando a divisão grisalha de seus cabelos, que possivelmente faria grisalhos mesmo os cabelos mais negros de um adolescente, ele pensa que o ser humano miserável diz respeito a não querer verdadeiramente querer e contempla o mesmo raio escurecendo a borda nãovisível do meio-fio sentindo jovem como esse adolescente, viril, generoso, amigo e sedutor. É preciso silêncio e solidão. Não um livro mas levantar-se após a leitura. Ela não se sente coagida ou vítima de encantamento. As narinas delicadas mostram a excitação da novidade. Se encantamento houvesse


seria o mesmo que a ligava às galáxias e às estrelas. O que ele guardava ela poderia dispor.

Deitado relembra a visita sagrada nesses que são os únicos momentos sagrados que se permite. Doces frágeis madrugadas insones. Quando ela entrou as mãos dele suavam muito e a cabeça estava envolta na névoa da enxaqueca. Os passos são amenos e mesmo um soalho tão sonoro reduz o som a flocos de uma neve imaginada. Brilho andino na sala lúgubre. O cheiro dela é agora o cheiro da casa. Ela diz que adora os kanjis. Ele hesita em dizer que não sabe o que são kanjis. – São esses ideogramas usados na escrita japonesa. Ah. Os do biombo. Ele se recorda do homem que trouxe o móvel, as peças ar ticuladas de um branco laqueado mais luminoso que o dia agora escurecidas e cheirando a mofo, lembrando o quanto o entregador


era simpático enquanto o homem pensava que esse ele tem cara de quem vai esconder uma mulher aí atrás algum dia. Alice lhe dá a mão esquerda que morna na sua o leva pela luz de outrora. O vizinho está tomando água na cozinha e escuta o murmúrio. Imagina só o velhote com uma menina. Eles não ouvem e sobem a colina íngreme como se fosse a coisa mais plana do mundo. Ele não deveria fazer esforço tal. Quem está dizendo isso? Não é esforço algum. Estava feliz depois de muito tempo. Talvez pela primeira vez na vida. Sobem e descem e correm e riem. Ela fala. O senhor tem uma linda casa. Ele desper ta. Senta-se na cama. Levanta. Só podia mesmo ser um sonho. Ou está vivendo um sonho. Onde estará ela agora? O professor a havia deixado onde as ruas são longas e estreitas como um rio e todas as formas ao redor figuras amanteigadas como os bonecos que o pai de Savone costumava lhe dar antes de subter fugir em momentos os mais inadequados. Acordo tácito. Ficasse quietinho. Não diga à mamãe que eu


subter fugi. Foi esse tipo de exemplo que teve e olha o homem generoso que se tornou. Na calma das madrugadas ele voltava aos lugares excelentes que teve de abandonar.

Ao evitar olhar para ela mais ele a imagina, a pele fria e macia luzindo, e com esses outros olhos a vê com a expressão improdutiva que caracteriza a dúvida que não será dirimida. Ambos escapavam. Ele não mais ela sabia de que. Ficava confuso ao pensar que afinal foi melhor assim tanto em relação à mulher como em relação a Beatrice, foi melhor a separação precoce que uma decepção depois que a expectativa crescesse em demasia e se frustrasse como se frustraria decer to e ter sido expulso lhe possibilitou outros caminhos que um dia dariam fruto. Como melhor se uma vida inteira estava desperdiçada? Sem uma renda regular justo nessa fase da vida em que logo estaria descar tado inclusive dos trabalhos eventuais com que subsistia. Quanto a ela, sabia a quem amava e com quem se


casou e isso era praticamente tudo. Mas na vida dele amor e casamento não eram palavras adequadas. Todavia amainou a febre de Alice, coisa que nem Meereshimmel em seus melhores momentos conseguiu. Vultos à sua volta.Ela no vidro da janela e no espelho e no bule sob a lâmpada e na própria super fície do biombo. Anjos de sonho protegendo sua nova existência quase missionária.

Em algum momento ela sentiu que ele estava chorando. Que ele estava chorando por dentro. Pode

ter sido quando ele abriu a por ta e eu vi a sala e a janela no lado oposto. É. Foi exatamente naquele momento. Mais tarde ela saberia que era ali que ele costumava ficar horas e horas. A casa de um homem. A por ta fechada e nenhuma implicação. Cheiro de homem, de coisas de homem, de casa de homem.

Agradeço por você ter vindo, gostaria de saber o que dizer agora, mas não sei. Chegara a ensaiar. Alice, eu... Sabe, queria... Quando vi você pela primeira vez...


Mas há algo a dizer. Leu livros e livros e ainda no sábado passou a tarde e um pedaço da noite na biblioteca e não descobriu. Ela respondeu que sabia ser algo assim. Que ele estava chorando por dentro por ainda não saber, ela sabia mas não disse. Apenas sorriu e se sentou. Ele pegou um copo de água e colocou na frente dela. Estarei por per to quando você

descobrir. Quando realmente souber. Estarei aqui quando precisar. Ele tocou a mão dela quando soltou o copo. Olhou nos seus olhos. Vem aqui na janela um pouco –pediu. Debruçaram-se. O sol na vermelhidão do céu. Próximos a ponto de sentirem a presença um do outro sem se tocarem. Ela nunca esquecerá esse momento. Será a primeira coisa que dirá à senhora na praça. Uma vez um professor pediu para que eu fosse em sua casa e ficamos debruçados na janela até a noite descer dos céus. A mulher olhará para ela sem mover um músculo dos que denotariam sua incredulidade. A casa em que ela viu uma lareira e um


biombo. Como se fosse ontem – disse ela. A mulher sorriu e disse que era uma bela história.


Conforme a voz estão aterrissando em meio à calma teatral do ambiente temperado ao som das turbinas. Diferente e igual entre os demais passageiros ela procura fazer as coisas de acordo com os demais. Permita-me que eu te ajude – diz a aeromoça. Ela sorri. Afinal não está só. Uma amiga de infância vela por ela todo o tempo das nove horas ao longo da viagem. Quanto a ele, chegara à cidade no dia anterior. Não fala o idioma local portanto pode se dar ao luxo de enfim parar de estudar e trabalhar como sempre sonhou. Ajudaria o pai. Sobre a bicicleta sente grande alegria entre as árvores do parque. A humanidade não poderia ser assim feliz? Ela estava inquieta. Um amigo lhe disse que tranquilidade contém felicidade. Ao telefone manuseia ansiosa sua agenda. Uma amiga recente. No começo do inverno, nas longas noites de sua procura lá está ele ao gélido luar perguntando e correndo ao pensar tê-la visto.


Quem está entre um lugar e outro sem ciência de como as coisas se constroem e cristalizam, sozinho e sem esse amparo falso que são os outros, de onde menos espera aparece a paz. Ele coloca a camisa limpa alisando-a junto ao corpo. Estou engordando – pensa. Está enfim realmente engordando. Pensando em como se sente aliviado por ter deixado para trás aquele relacionamento em que juntar-se a uma moça era se juntar a toda a família dela. Está livre dessa obrigação insensata que é não amar apenas a pessoa amada, o seu sonho, amar e ser amado e os dois se bastarem refugiados do mundo. E trabalhará. Trabalhará duro e saberão do que é capaz. Precisa agora comer alguma coisa. Sanduíche com refrigerante bastará. O silêncio das noites esquecidas retomadas na nova casa foi quebrado quando sua expressão de curiosidade se fez primeiro espanto e logo assombro com aquele franzir de cenho e olhos arregalados típicos de uma estirpe não acostumada a lidar com as coisas só porque as coisas são assim porque também se pode chamar


tranqüilidade o não estar pronto para o inesperado e recebe-lo assim apaticamente. A bagagem deixa de ser desfeita e esse outro olhar, o olhar vago com que se tenta entender a alguma coisa insólita repentinamente acontecendo ao redor, assume-o e assume a sombra que passou inquieta a seguir seu andar pela parede oposta.

Murros na porta. O namorado violento. Por favor, ele não deve saber que estou em casa. A progressão das batidas repercutindo no coração dela. Esconda-se – diz a amiga, atrás do horror de testemunha.

O rapaz está deslumbrado com a casa do tio. Da vidraça do andar dá para ver toda a cidade ou quase. Gosta dessa hora da tarde em que a vida se amplia em torno abrigando o tempo e o lugar como se nos pertencessem. Um anoitecer iluminado e oriental, de calçadas limpas, diálogos chiados e prédios baixos não


distantes das praças do shopping. Que céu! Não há nada semelhante em sua vila. Acho que a tal sala onde guardam as bicicletas é por aqui – pensa ele enquanto imagina quanto o tio pagará de aluguel. Nesses passos torna a escutar os mesmos gritos. Se outros no prédio estavam ouvindo, fingiram que não.

A atmosfera pacífica que o envolvia estremeceu e rígido sob as pernas doloridas sentiu-se dobrar ao peso inevitável do hábito que é o medo, ao qual nunca nos julgamos ligados. Seu tio o alertara para a violência da cidade grande, o que num julgamento infeliz ele pensou que fosse uma desculpa para que não viesse. Agora presencia e, quando compreende por alto a situação, sabe que precisa tomar uma decisão pertinente. O percurso pareceu eterno até perceber de onde vinham os gritos. Gritos são rasgos na alma e talvez a protejam como o balanço de uma palmeira impede que se parta ao vento inevitável.


Quando ele se aproxima em passos firmes e lentos o casal está saindo. O namorado leva a jovem para o carro arroxeando o alvo braço. Entre ameaças e juras de amor chegam à joalheria. Chocado e sem ação ele percebe que ainda há alguém no apartamento. Está chorando. Ele devia ter feito algo quando viu a jovem visivelmente oprimida arrastada para o elevador. Agora tem outra chance. A professora escuta as batidas e instintivamente se apavora, mas logo entende que é outra pessoa. Desculpe – ele diz quando ela abre. É que pareceu haver alguém ali chorando. Disse isso percebendo que era ela mesma. Deu longo suspiro após o qual se fez um pesado silêncio. O que aconteceu?

Usufrui cada detalhe da dicção dela em entonações que lhe evocam anjos. Sabe que ela acabara de chegar. Veio de avião. Para a casa da


amiga. Faz treinamento numa empresa de aviação. Mal chegara e o namorado da outra apareceu, sabe, justamente quando ela estava me contando que precisava descobrir um meio de se livrar dele para voltar a viver. A professora disse isso sem perceber que falava de si mesma. Precisava encontrar alguém com quem partilhar a vida. Sentia-se insuportavelmente sozinha. Lamentava ter magoado Sonja com seu marido, um homem tão bom. Depois dele ninguém. O que farão agora? O elevador pára no andar de cima. Um toque de campainha. Alguém fala alto lá em cima. Amor, esqueci a chave! Não: soaram dois, três toques, não estrepitosos mas até agradáveis porque não a companhia tradicional mas um atenuador dingdong como que embrulhado para um presente indesejado dum declarado inimigo. No segundo porém eles já não escutam.


No dia em que chegou à cidade ela estava muito abatida pensando o quanto de forças havia gasto sobrevivendo em meio a homens e mulheres e em como dizem que isso é o normal, o que no fundo era dizer que ela não era normal. Naquele dia devia morrer sozinha como tinha que ser sozinha como sempre viveu. Uma mulher ainda bela que alguns dirão ainda jovem mas com um passado e cujo futuro não compar tilhará com os contemporâneos. Entrando com a criança pela avenida principal da pequena cidade irradia placidez. Era mais uma manhã a prolongar o inverno sobre a primavera que apenas os pássaros cedinho reconheciam mas as plantas tímidas viraram os olhos e protelavam a eflorescência negando até mesmo um broto como consolo à passante. Olha tudo como se nunca nada tivesse visto. Carros. Casas. Pessoas. O céu e o sol. As ár vores. Uma igreja. A velha senhora fala sobre o quão agradável é o ar matinal no início da primavera. Estavam sentadas no mesmo banco e a menina brincava pela praça. Conta a história


de sua vida. Pela primeira vez o fazia. As omissões que enriqueciam a trama não eram propositais: algumas coisas esquecera; outras não julgava relevantes. Não disse por exemplo que SeoYeon não era sua filha. É uma bela história, minha filha – disse a mulher. Alice sorriu. Sempre desejou ouvir que sua vida dava uma bela história, muito mais que escrever um poema sobre ela.

Ao atravessar a rua se deteve. Olhando-a de longe a mulher pensou. Que linda moça. Pena que um tantinho mentirosa. Talvez nem regule direito. Mas a beleza é inegável. E até a simpatia e a sagacidade. Alice atravessou com a mão bem pegada à mãozinha. Passará na loja e comprará o presente pelos sete anos da menina. Sente-se estranha, quase normal. A senhora deve ter pensado que ela não batia muito bem e decer to inventara a maior par te daquelas coisas. Capaz. Estar na casa de um homem e dormir

sob o mesmo teto e nada acontecer. Um carro assovia


e ela riu ao pensar não ter mais idade mas a insistência do assovio repetiu que sim e mais talvez do que quando muito jovem. A menina perguntou: Tia, por que ele está assoviando? Alice olhou-a e viu Sonja e o ônibus e a paisagem correndo à janela. Meu Deus, como o tempo passa.

Chegou ao apar tamento de Meereshimmel e era essencialmente alívio o que a entorpecia ali parada vendo-se no espelho branca como um fantasma e logo não mais se vendo mas a ele, sólido na frente dela, ocultando-a de si mesma e começando a se revelar. Mais que alívio. Para sempre. Sacudiu a cabeça imperceptivelmente ao tomar consciência da respiração de SeoYeon a seu lado. É tarde – pensa. Vou perder a hora. Nunca foi santa e não é o que pediu a Deus mas leal sim ela é. Vamos, SeoYeon. O metrô sempre cheio e cheio de rostos amargos. Vida é trabalho. A rua florida supõe o sol pleno da manhã. O por teiro lhe dirige os olhares de sempre e não abre o


por tão. Senhora Mar tha? Sou eu – disse ao inter fone. A por ta se abriu. Mais que alívio – pensou ao esperar ao elevador. Faz tanto tempo. Como o tempo passa – ainda pensava quando abriu a por ta no andar da senhora Mar tha Pöbel.

O senhor Pöbel entrou no prédio. Esquecera as chaves. Ainda ouvia o gemido enferrujado da dobradiça quando deparou com a nova empregada e as lembranças de ambos se fundiram numa mesma memória a princípio abrasada mas logo serena. Tudo se esvazia com o tempo. Ainda assim houve instantes em que comungaram as mesmas imagens. Uma mulher vivida agora pensando se ele tinha sido mesmo um homem atraente e ele pensando na tentação que foi a adolescente para o homem maduro. Ecos distantes da carne hoje nos dois amor tecida. Sangue em mornos labirintos.


Quando a viu, Meu Deus – pensou – não posso mais viver assim – e como os olhos de Alice menina estão distantes ele imagina que ali existe apenas o seu problema. Passa por esses conflitos e a segurança material os alimenta embora se julgue maduro e seja tido como um exemplo de maturidade. A jovem do mês anterior estava cer ta quando o aler tou quase como se estivesse vendo a situação de fora. Você é um homem bom e acabará arruinando sua vida. Porque é o que as pessoas fazem: ninguém usufruirá de sua bondade mas todos estarão a postos para o acusar. E mulheres como eu gosto de pensar que sou estarão na linha de frente e não haverá misericórdia. Estava cer ta e não estava. A presença da empregada o declarava. Alice era toda bondade e talvez estivesse até grata por ter sido Darken e não um cafajeste que à época não saberia discernir.


Quando o desper tador tocou a cidade azul com pontos amarelos apareceu na janela. Parou a campainha com a mão direita azul como o quar to. O silêncio abriga a respiração e as pombas e as mãos pousam no rosto e os dedos nos olhos em meio a um bocejo contido. Movimentos pelos quais Darken pela primeira vez acordando a seu lado se apaixonou. Como a seduzira facilmente. Ele que nunca foi bom nesse tipo de coisa apesar das tentações, graças a Deus. Ela aproximou a face da janela como um cãozinho temeroso de trovões cheira a chuva. Adolescência é época de divindades e bestas. Mais tarde na por ta do apar tamento olhando a empregada ele percebe o quanto ela envelheceu. Talvez mais que ele. O quanto deve ter sofrido. Se é que a dor envelhece. Está pensativa agora sentada na cama. Cedera tão facilmente. Mas faz tanto tempo. Castidade não há mais mas sim o sangue.


Cedeu fácil demais. Como era ingênua. Um dia mais cedo ou mais tarde todos pensamos assim. Os maus e os bons. Todos atribuem à passagem do tempo essa duvidosa vir tude de nos tornar realistas. Entreolham-se e retornam à mesma lembrança. Com poucas modificações foi a cena do amanhecer de hoje. A cidade azul. O quar to azul. Alice esfregando os olhos. O que até ali era um vício se cristalizou no fundo dessa xícara, a alma.

Depois naquela manhã Alice saiu de casa e entrou no azul mais claro cada vez e de pontos amarelos menos brilhantes cada vez. Levava SeoYeon meio adormecida nos braços e os passos ecoavam na calçada como um reloginho ignorado. A cidade não é grande mas famosa pela qualidade de vida, uma das primeiras da região a ter uma creche. A tia deixa a menina com a outra tia. Deixa, com o coração aper tado. Nesse momento ela é a mãe, com todos os direitos e todas as dores. SeoYeon desper tou e está


chorando. Alice aprendeu que é melhor que Gracile a acalme. Não, não; não chore. Mamãe virá te buscar de tardinha. Você sabe. Hoje tem aquele papá que você gosta. Hoje a gente vai brincar de. Uma vez Gracile imaginou uma criança dela. Esqueceu. Do jeito que era desastrada com as próprias coisas. Um bebê... Medo só de imaginar. O namorado também deixou claro que não queria. As crianças dos outros passaram a bastar. Encarou com valentia esse último tabu: uma mulher bonita que amava crianças mas não queria ser mãe. Ainda jovem e nem tão desastrada nunca mais gostou de alguém a esse ponto. Depois soube que ele havia morrido e desistiu de formar família. Sua família estava ali na creche.

Alice aper ta o botão do inter fone outra vez. Agora Mar tha atende e ela entra. Depois o senhor Pöbel. Ela acha ao vê-lo que está envelhecida pois ele não mudou nada. O que foi querido, você voltou? Esquecera as chaves do escritório. O carro amassado.


A mulher grávida. A jovem mãe. É de você que Mar tha fala. De como é uma mulher vir tuosa. Uma mãe extremada. De você, imagine. Se ela soubesse. Mas aí está você em silêncio, vir tuosa sem dúvida. Porque tenho condições per feitas para ser vítima de chantagem. E aqui estou em silêncio te dizendo que sei que não fará. Está em seus olhos. O olhar de Alice está mudado – pensa Darken. Com ela aprendeu. Impotência pode ser circunstancial. Quanto economizou em comprimidos e poupou a saúde. Pela aparência fogosa de Mar tha e pelas revistas femininas espalhadas pela casa ensinando a como obter mais prazer, ele sem dúvida deve ter se curado. Pode ser porque da primeira vez tenham tomado muito vinho.

Meu Deus, há quanto tempo!... Estava com a mesma roupa do dia há muito tempo – pensou ao abaixar a cabeça no sorriso tímido. Pediu licença e foi para os fundos do apar tamento. O tempo passou. Sua passagem está escrita na gola puída da blusa de Alice e nas cores desbotadas de sua saia.


Na manhã de sexta-feira num dia em que ao voltar para casa teria ao passar pela locadora reavivado o desejo de ver filmes nos quais encontrava menos exigência de uma concentração perdida do que nos poemas que tanto amava, Alice passou uma manhã cheia de devaneios trazidos pelo reencontro, não por qualquer significado maior que o homem representasse em sua vida mas simplesmente pela visão do passado nos traços de seu rosto como um mapa. Sem pretender que tais reflexões a levassem a algum tipo de revelação mas apenas lembrando ao contemplar depois do rosto o resto de tudo em volta. A mesa da copa lembra um lago. O sol na torneira do tanque transforma a lágrima numa gota de or valho. De passagem pôs água para fer ver. Faltam cheiros àquele mundo. Casa linda e asséptica como a patroa. Abre o pote de café. Aos poucos é sua casa, sua vida. Escapara do mundo e deixara de ser porque havia brilho nas águas desde a velha cidade no interior e


agora nessa torneira e agora nesse lago em que se poderia molhar os pés num dia de calor no qual há peixes e talvez um monstro lá no fundo que ela não poderá ignorar ainda que preferisse o devaneio e não poderá evitar ainda que necessite antes do calor da palavra do que dessa água gelada e luzente em que talvez mais exista a sina trágica e ainda assim no desenrolar em que aparecerá na por ta do prédio exuberante perante o por teiro e quando trocaram duas ou três frases se calaram como se tudo já tivesse sido dito e restasse apenas ver para tentar entender os motivos do que depois sucederá, a saber, o dia de amanhã quando decidiu se dar folga e contemplar as pessoas na rua e no metrô lotado e ouvir as conversas com uma vaga e morna expressão no rosto onde os olhos passearão pelas mesinhas postas na rua (porque é sexta feira), o vestido com os dois botões aber tos no decote seduzindo talvez para que os homens seduzidos lhe expliquem o porquê de tudo aquilo, se


está para sentença mais do que prazer e em alguns dias será irrelevante onde estava ou como se sentia.

Não sabe onde e quando começou. Sabe naturalmente que não começou num lugar ou tempo determinado mas dentro de si havia feito isso e compactado a vida pregressa a par tir de um vago evento que mesmo imaginário não conseguia ser claro sequer para sua mente bem como o futuro que não começa tinha seu dia marcado na esperança sem qualquer fundamento inclusive quando pensava a respeito com menos emoção. Subitamente de algum ponto de si mesma e de sua trajetória de vida houve a destruição e dos entulhos renasceu. Ora pássaro, ora fogo, ora mulher. A nova casa construída não do conceito de confor to mas de perda e sacrifício. Das ruas em que andou e das casas em que entrou para zelar. O brilho da mesa de café na cozinha. Um espelho em forma de L. Os armários luzentes guardam irrepreensíveis louças e talheres. Com grandes olhos


atentos escuta as recomendações da senhora Mar tha. Não sabe mais quem foi um dia – um rosto que se esquece ao deixar o espelho. Ela própria uma casa com paredes espelhadas. Não sabe mais exceto por eventuais referências. O primeiro amor. O beijo abissal. O homem. O pai. A filha (que é sobrinha). O que não foi destruído pelas tormentas é for te o bastante para ser vir de apoio no tempo que restar entre o gozo e a agonia.

A por ta ecoa pela casa. O casal saiu. O homem não é sequer um espectro dos antigos anseios de confor to e posses e status e garantia de futuro com bônus de algumas horas no presente em alguma cama ou sofá ou mais provavelmente do banco do carona passando para o do motorista, sequer mantém a diferença de idade os tais vinte anos que na verdade nem significam tanto assim pelo menos não enquanto embora muito mais velho o homem ainda é jovem, desde que solteiro, e não era mais o caso e não havia


mais caso algum. Na luz que entra há um prenúncio de tempestade que se repete em feições no semblante de SeoYeon, que tem pavor delas. Um coração confrangido e logo um choro levam Alice sobressaltada a um quar to de criança. Filha de Darken, imagine. Terá saído um bom pai? Se levantará à noite para dar uma mamadeira ou ver a razão de um choro como outrora fantasiara? Caminha pelo corredor ressonante e abre a por ta e entra mas demora-se não muito apenas o tempo do choro parar. Deixará o jantar pronto. Deverá ser reaquecido se vierem almoçar – diz no bilhete. Amanhã precisa faltar.


Sentada à escrivaninha, um coque de cabelos negros luzidios contra as fotos iluminadas no mural, ela via registros inelutáveis dos momentos com Meereshimmel nos passeios de bicicleta pelo parque e pelas ruas planas ao redor de onde era possível sentir a refulgência de miríades de pontos nas águas do lago em meio a bilhetes e contas e canhotos de entradas de cinema que ela fixava com a paciência do novo ser herdado após os tempos maus enquanto a por ta se abria e em seguida novamente se ouvia o ruído acompanhado de um leve tremor nos papéis pelo qual ela soube que ele trazia mais uma caixa de livros para o apar tamento batido pelo sol da manhã segurando-a (a caixa) com as duas mãos e se equilibrando em um pé para amor tecer a batida e juntando ao som seu próprio gemido numa manobra que aos ouvidos de Alice soava altamente erótica e as fotos eram vivificadas e renovadas por câmera mental muito mais confiável, infalível como o próprio sorriso de Alice ao


agradecer. Acho que são todos – disse ele – só não sei onde poderemos colocar. Prevendo que no dia seguinte uma loja de móveis bateria à por ta para entregar estantes novas, exatamente o que ele pensava ao se postar diante do ventilador, o suor gelado lembrando muito seus mal-estares porém assim era agradável, entendendo mais uma vez além do testemunho da nova vida que deveriam começar a par tir daquela noite que o abismo e o paraíso estão muito mais próximos do que se imagina. O que será confirmado quando ela se afastar do mural e levantar e se aproximar para se sentar ao lado dele na cama dizendo-lhe o quanto ele cheira bem ao que naturalmente envaidecido ele projetará nas palavras o óbvio. Estava todo suado. As mãos dela dentro da camiseta sentindo a afirmação e melando-se e insistindo que não precisa quando ele diz que vai tomar um banho antes, não precisa, repete, fechando a cara de brincadeira num ar teimoso que se tornava feliz ao alcançar alguma coisa sob o moletom – ele


também levara a própria mão à paisagem anoitecida sob a calcinha como uma terra a ser preparada para a época do plantio sob os intermináveis temporais da juventude que parecem se alongar quando a juventude se aproxima do final. Agora. Amanhã poderá ser tarde (cer teza com a qual aprenderam a conviver). Um dedo ameaçando alguma coisa mais licenciosa mas se mantendo romântico em meio às risadas. Sonja era a

casa e Alice a tempestade não pelos for tes alicerces mas porque era ela a flagrância da liberdade assegurada em algum lugar fora do mundo. Quem saberá amanhã se esses foram os dias da plenitude deles, o que será atestado por vizinhos como as risadas e os gritos e os gemidos que desde a batida da por ta haviam se transpor tado para uma outra, imensurável e romântica (ou obscena?) dimensão.


A caminho da creche Alice se deteve numa esquina esperando a passagem de um caminhão. Nunca vira aquela casa. Uma igreja. Como se multiplicavam! A verdade que liber ta não é religiosa. Soube-o por meio do professor porque sempre o soubera. O caminho é como ruas assim dobrando nas esquinas mais improváveis por obra da mão do trânsito ou da hora do compromisso. De súbito eis o momento crucial até ali clandestino rebentando como a onda que cresce demais e assim tarda para quebrar tempo proporcional à sua grandeza ocultando o horizonte para devolvê-lo mais belo e imponderável. O instante vivo que nasce magnífico de seu recôndito em cada um atrevido porque indispensável ainda que por tanto tempo sua ausência não tenha sido sentida. Faminto, primitivo e brando. Pacificador. A revelação se dá junto ao vigor e à inocência, ao espanto, como dizia o professor. A quem o ator na capa desse DVD tanto lembra. Gostaria mas não pode alugar o filme. Devia comprar um aparelho. Sempre sobra um


tempinho em seu dia cheio. Um filme assim denso parece próximo desse predicado que faz com que a mor te adormecida se alastre até o ponto em que tudo se encontre embebido da noção mais nítida de transitoriedade. Prisão adornada, pensava, quando o olhar do atendente da loja a fez seguir e sem perceber apressar o passo. Tipo da resposta inconsciente que o corpo dá a uma sensação ainda vaga: um desejo anterior à vontade. É melhor pôr SeoYeon dormir e descansar.

para


Meereshimmel a vê dormir naquela outra manhã, na verdade a primeira. Passou os dedos na mecha de seus cabelos tirando-a de sua testa. Sonha os mais doces sonhos. Quem poderá dizer que não sejam doces os sonhos em que já não é neste mundo que se vive e num momento de arrebatamento se trocou de domínio? Ele a amava. Não imaginava ser possível. Descobriu nessa segunda noite que precederá a mudança o que foi abandonado na primeira quando a abordou sem impedir que buscasse a guarida de Sonja, impraticável depois daquele beijo. Mas quem descobriu? Talvez o professor Savone com o discernimento que nem seria preciso ao ouvir de um ou de outro o episódio. Então o crepúsculo à janela se tornou agonizante e febril. O mesmo do sonho de Alice – cheirando a húmus e menina. Solo fér til do desejo apaziguado. Luz morna traceja o rosto sereno. Guarda o gozo e a mor te. Lábios vaporosos e frase ininteligível. Ela começa a se espreguiçar. Ele, que à janela se exercitava, aproxima-se. Alice? Das


profundezas de um mar improvável chegaram as vozes. Ela se assusta num primeiro momento. Depois escuta um som familiar e sorri aliviada. Nos dias que se seguiram, as vozes voltam. Permanecem. Em cada crepúsculo devolvem o sonho em extraordinária imprecisão. Acreditarei um dia que

vivi esse momento? que ouvi essas vozes? que estas lágrimas fazem sentido? Isso ela pensou ao sair da casa de Darken e Mar tha. Nem precisa responder. A paz encontrada tinha a ver com o sonho, as vozes. Com Meereshimmel e Savone. Com os gritos do passado que acusavam o mundo e a benignidade com que o perdoou.

Naquele dia. Quando saía da casa de Darken e Mar tha. Sem imaginar que haverá uma outra noite. Completa. Amanhecendo. A caminho da creche. Em frente da locadora. Lembrando. Com a mesma risada infantil após algum gracejo ner voso quando ele sentia


a pele da coxa e a trama muscular e ainda assim era menos óbvio e menos rude do que ela. A marca da meia escura junto ao elástico na lateral ainda intacta parece adquirir alguma misteriosa impor tância. Quando a mímica se esgotou no silêncio a voz dela soou em meio ao pano entre as palavras havia ainda os risinhos carentes e contíguos, o revirar que poderia passar por desconfiado dos olhos quando apenas pensava o que não dizia: ela havia permitido, por conta talvez da natureza de presa e dão atributo de caça, mas havia permitido, talvez até provocado, a menos que se impedisse como nunca antes. Meereshimmel estava ouvindo tudo como se fosse um relatório imprescindível a que se obrigasse. Ela nem imaginava. Quando as vozes se cruzavam cuidava sim que também os pensamentos o fizessem, apenas isso, se cruzassem sem qualquer relação uns com os outros, como os carros na esquina lá embaixo. Não se olhavam mais mas ele guardara a expressão tímida e voluntariosa como quem guarda um tesouro ainda que


buscasse um thesaurus outro que justificasse palavras e pensamentos em tamanha desconexão na velocidade das mãos agora conhecendo a contextura da calcinha iluminada exceto pelo sulco logo magnetizando e distribuindo tracejados negros no algodão. Correspondiam às dobras forjadas nas meias pelo vergar rígido dos dedos dela após a cur va das próprias solas e às marcas causadas pelo morder dos próprios lábios comprimidos. Não era necessário que houvesse nada além disso. Cumpriam suas incumbências de acordo com os ser viços informativos. Absurdo despontar do nada qualquer coisa próxima da culpa mesmo em se tratando de uma menina e ainda que alguém um dia pudesse dizer que ela só estava atrás do dinheiro dele e embora ela tenha jeito de menina e ele aparente estar estabelecido na vida. Desper taram com o movimento do tráfego e se olharam de novo depois de horas. Um horário familiar aos dois. Uma luz familiar. Familiar um ao outro não por qualquer relação com o passado. Ele apanhou o celular na mesinha.


Olhou a hora mas embora estivesse atrasado permaneceu quieto e respirando com cuidado como se caso contrário a pudesse incomodar. Não havia mais nada porém que a pudesse incomodar e caso ainda houvesse ela não mais se impor taria.

Vive nesse apar tamento há dois anos e meio. Privilegiada. Escapou da sor te infame das pessoas que trabalham muito e moram mal. Hora do dia que anseia. Recostar a cabeça no travesseiro e relaxar. A respiração da menina a seu lado acompanha os pensamentos ondulados pelo colchão. Seu mundo anterior está destruído. Ela igualmente. Não mudou: morreu. De outra forma como ajustar a juventude à sabedoria da passagem do tempo? O mundo e seu mundo se tornaram uma coisa só. A vida e a mor te. A senhora Mar tha ao revelar a doença de Darken e seu sofrimento permitiu uma reflexão até então interdita. A gravidade do estado da mãe e o que causava a seu pai. Sol numa casa de praia em que as janelas imensas


estão todas aber tas. O vizinho grita. A mulher devolve a justificativa per feita para agir como agiu. O vento levanta as cor tinas e na janela nasce o céu noturno. Alguém canta na rua. Depois de muito tempo entre tantos homens a companhia de um único permitiu que ficasse enfim a sós consigo mesma.


Ananda saiu do hospital faz sete dias e Öffner ainda não passa de uma criança assustada. Que alívio ter ela sobrevivido. Dizem que foi um milagre. Não sabem o que a levou àquele ato. Levantou-se. É quase de manhã mas não há indício exceto talvez pelo eco do copo na pia e indecisos passos no corredor. Terá ela voltado ao trabalho – imagina. Öffner? Sai e a escuridão torna-se mais vívida e tolerável embora não menos densa de quando a realidade se destaca do pavor. As flores lentamente tornam-se visíveis. O aroma delas a atmosfera respirada. São as flores que ladeavam o caminho pelo qual passaram naquele primeiro dia. Ela pergunta e ele responde com um sorriso indulgente. Demorei? A mão toca-lhe no ombro. Suave e fria e branca a não ser pelas veiazinhas azuis. Imerso no mesmo silêncio em que sonhara continua ali a filha do sonho e par te mais pulsante da vigília. A divisão entre os apar tamentos perde a razão de ser quando voltam da caminhada quase ao meio-


dia. Brilham os corpos sob as camisas finas. Há uma biografia em seus lábios. Uma nova suscetibilidade na ponta de sua língua. Não esperar que a luz seja estável em seu movimento pois num momento você vai a seu encontro e noutro retira-se no sentido inverso. O mesmo movimento e a mesma luz. Não dependem dessa sucção ou desse polimento. Um olho mágico. Posso por isso decifrar o mistério desse muro erguido do nada pois sei o segredo e está aqui na magia de nosso contato mas estou inquieto com a forma como seu contorno se torna fosco e a aura das flores imerge em denso nevoeiro e se evade e eu não consigo pensar o que devo nem dizer a palavra. Ananda, não pode par tir assim e me deixar ór fão outra vez. Ananda, Ananda. Espaço e tempo se expandem. É a fuga da noite que se transformará em realidade no apar tamento vizinho. De joelhos. Ananda. Santa, inocente. Esses dedos deveriam ser os meus a retirar santidade do ícone e essa boca deveria ser a minha a buscar as gotas entre


os bancos do templo espargidas e tragar o poder eterno desse desvio para o azul . Um olho mágico cruel. Os pais estão chegando. Continuam naturalmente arrasados. Soube que havia muitos amigos na igreja mas nunca onde foram jogadas as cinzas. Não faria a menor diferença.


Mal pisa e sim flutua sobre o tapete escurecido quando os dedos gordinhos são guiados aos sapatos deser tos. Brancos de fivelas prateadas. Que recebem com cerimônia os pés pelo sono enlanguescidos. Ao ajustarem a meia elástica as mãos acarinham a panturrilha sob a luz que reconhece o forro multicolorido da poltrona. Sem hesitação pisaram esses pés pela primeira vez naquela casa. Mais tarde porém quão receosos. Dedos no botão do velho aparelho. Unhas que não mais se pintam. Música clássica calma envolve a criança deitada sobre a cama. Contorno dos móveis. Silhueta dourada e cheia no espelho. O último e casto botão sela o pacto com o dia exceto pela alça íntima que insiste antes que chame a menina. SeoYeon , está na hora. SeoYeon , filhinha, vou fazer o café. Alonga o pescoço. Em meio ao amanhecer do bairro onde Meereshimmel não mais habita. A anágua retrata uma época e lisas ondulações brilhantes acarinham as pernas. Bolinhas multicores e linhas de pesca. Não poderia – não poderia! –


reclamar jamais da sor te. Viveu por alguns meses um amor verdadeiro. LĂ­cito! NĂŁo poderia se queixar. NĂŁo bastasse, num repente, o professor.


Meereshimmel preferia que ela não tivesse vindo. Mas o que pode fazer? Cerca de um ano depois antes a encontrou vagando na cidade à procura da amiga que mal conhecia. Sem ter para onde ir. Agora tem. Ao menos acreditou que sim e ali estava. Está escrito nas paredes chispadas de sombras.

Está viúva há não muito tempo e se sentia de cer to modo culpada. Há não muito tempo Meereshimmel soube do caso da mulher. Impediu-se de qualquer palavra de acusação. Se ela mesma não tivesse pedido o divórcio ainda estariam juntos. O homem com quem se envolveu (culpa que o próprio Meereshimmel se atribuía) na consumação de um sentimento antigo – seu próprio irmão – estava mor to. De resto, se alegrava em dar à ex-companheira uma vida digna. Um sentimento verdadeiro um dia os uniu. Um dia. Hoje a por ta do elevador se abre espelhada e mostra a jovem mulher que ao reflexo dele se uniu.


Metálico som profético. Em um ano quanta coisa aconteceu. Realmente preferia que ela não tivesse vindo. Beija em desespero a sua testa. Alfazema não mais gardênia e um olhar cuja experiência não se acresce de mediocridade. Como me achou aqui ou

perguntas tais são irrelevantes. Esperava teu olhar e aqui está. Não devia ter vindo mas veio e se alegrará por ela ter vindo e pelo tempo em que ele ainda viver estarão juntos.


Um olhar sobre ela atento. Continuou. Falou então sobre Ernesto Savone. Ele espera que eu escreva com o corpo todo. Com toda a alma. Do jeito que segundo ele eu vivo sobre algo em que acredita embora seu corpo não o confirme. Não há mais tempo. Arqueou as sobrancelhas e inclinou a cabeça. Pediu-me. Seu olhar é doce e parece saber mais de mim do que seria possível. Digo-lhe que um dia também acreditei em algo assim. Não mais? – ele pergunta. Não sei o que responder. Estávamos jantando. Ele acabara de pôr a panela na mesa e se sentar. Ainda hoje ando em busca da resposta. Disse-lhe de uma outra forma. Disse que esperava algo mais do que escrevia e vivia. Como se ao escrever vivesse e não pudesse viver se não escrevesse mas vida no caso seria mais que vida e do que a própria escrita.

Como se ao escrever estivesse

mor ta. O olhar dele era atento como se eu fosse proclamar o sentido do silêncio infinito dos universos. Mais tarde me diria que era isso mesmo. O sentido que


se procura na beleza e na ar te ou dele se foge por meio da distração ou do trabalho. O mundo não existe. O mundo consiste das pessoas, de como elas o vêem. Naquela noite ele chegou a ensaiar esse argumento. Naquela noite seus filhos ainda viviam. Mencionou-os uma ou duas vezes de passagem. Mas

por que procura essas coisas em mim? Na minha sombra. No meu olhar. Em par tes de mim que nunca imaginei pudessem chamar a atenção de alguém. Nos nós de seus dedos. Na voz dela que escuto como quem escuta o mar. Ela sabe porque assim passou a também a vê-lo e ouvi-lo. Não: nunca houve outra intenção entre nós. Pelo menos na horizontalidade. Digo com isso que não havia um desejo? Havia sim um desejo mas não tinha relação com a atração, com um fim definido e pelo qual em tudo nos enganamos dizendo coisas que não visam exceto a satisfação desse desejo. O desejo que havia, para permanecer, não devia ser satisfeito.


– Mãe, eu não entendo. Então apesar de todo o amor ela percebeu que as diferenças precisam ser absolutamente respeitadas. Não é questão de sentimento. O amor pelo pai dela era autêntico mas diferia em que, exatamente? Também amava sua sombra precedida por passos igualmente amados. E o som de sua voz. E os nós de seus dedos. Mas esse amor era o amor cujo desejo para se renovar precisa morrer ao ser satisfeito.


Os sons da manhã próxima envolvem a madrugada deitada no escuro. Não é possível divisar as estrelas mas realizará muitas coisas se não hesitar e par tir logo. Contudo, beijo na avó é indispensável. Que ela diga “Vá com Deus, sol da minha velhice”. O emprego parece gratificante. Um cotidiano estimado. Um sentido para a vida. Tudo vívido como uma pintura. Devem ser umas cinco e meia. Com sor te chegará com sol ameno. Não gosta de calor. É mais incapacitante do que sua enxaqueca. Estrada rósea ladeada de reflexos dourados. Velocidade boa para viajar e um alívio dirigir sozinha. Por isso parece tão independente: está sempre par tindo para que alguém possa fazer algum outro juízo. Não demorou nada. O hotel parece adequado para a primeira noite. Só não esperava que o tempo fosse virar assim. Uma trovoada. Outra. Precisa correr. Um prédio antigo. Um hotel. Boa aparência. Posso ficar a primeira noite, pensa. Amanhã consigo uma casa. Não mais que um minuto na chuva ela entrou


encharcada. Hum Énigme falava com o por teiro e ela chegou por trás fazendo com que ele sentisse a umidade junto à abotoadura. Nas costas o vestido de Beatrice está salpicado e ele vê que é por causa da sandália como quando se anda de bicicleta numa poça. Faz perguntas ao por teiro e acha que uma pessoa educada deveria ao menos ter pedido licença. Talvez ela o tenha feito. Ele estava distraído com a história da moça que chegaria para trabalhar no escritório. Mais tarde quando ele via o noticiário na sala de estar ela falou. Boa noite. Perguntou se ali costuma chover assim de repente e ele respondeu que sim é uma característica da região. Então calaram-se. Resolveram subir para os quar tos. Os lábios dela são convincentes no silêncio quebrado apenas pelos cabos do elevador.

Ele se encaminha para ver se realmente a chuva parou. Ela ainda não sabia que seria seu chefe e que assim que estivesse se estabelecido sua mulher viria também. Tudo o que sabia dele resumia-se no dorso


cujos músculos eram visíveis sob a camisa e a pele queimada com que a luz da janela se chocava. Vira-se. O beijo até então contido. Há uma fronteira que os iniciados em Beatrice nunca passaram. Já esteve até com as pernas para cima como um bebê e assim tocada ali per to de onde a vermelhidão arada de coçar mordidas de mosquito na pele das coxas aparecem mais. Onde o dedo arranca sons ignotos e farpados e provoca o transbordamento desmaiado com inaudíveis palavras de repúdio seguidas de aper to nos olhos e mãos nos joelhos. Daí os iniciados em Beatrice nunca passaram mas ela está disposta a que afinal aconteça. O que esse homem tem de tão especial para tanto? E o que ela tem de especial? Não sabem. Ele diz a si mesmo que prefere não saber. Que seu casamento é sólido. Que é a primeira vez. O que não impede que o sentimento transborde limites determinados apesar de insistir que ela é vulgar por ter se entregado tão facilmente. Não foi tão facilmente. É como se


houvesse camadas de entrega e resisti o tanto legítimo em cada uma delas. Beatrice imagina a lua lá fora enquanto ele dorme. Um dia inteiro. 24 horas. O tempo em que está ali. Parece uma eternidade. Amor e trabalho: estrutura da vida. Um mandamento divino par tilhado por toda a terra. Coisa sagrada. Durante o café na mesa da cozinha quase caseira ela estará pensando no quanto havia de luz naquela proximidade de manhã. Uma luz avassaladora permeando sua insônia num momento em que deveria estar entorpecida e satisfeita mas não – estava desper ta e ansiosa como se em si mesma houvesse um pouco daquela escuridão prestes a ser dissipada.


Digita a senha no caixa eletrônico. Devia ser mais cuidadosa – pensa – ao manusear documentos na bolsa aber ta. As preocupações mudam apenas mudam nunca terminam. Uma vez sonhou que ele ressuscitara. Ainda sóbria sua aparência era mais jovial do que nunca. Elegância aureolada pelo cheiro de sempre. Banho tomado e hálito desejável. Lenta sublime respiração. O tempo cura tudo e transforma o que não pode curar.

Aura luminosa contra a vidraça do banco. Busca sem saber o que a não ser que tem a ver com vozes que se recusam a calar mesmo não sabendo o que dizer e ainda amando o silêncio. Mulher única. Ele não percebeu logo. Aquela por quem sempre procurou. Melhor estar só. Agora ali de novo. Recebe na testa o seu beijo. Deveriam viver juntos . Por que não? Não seria tanto tempo e a susteria nas épocas más do futuro. Seria transformada – ou curada? – pela


lembrança do filho e pela sabedoria do pai. Ele estenderá a mão no leito de mor te. Não fale – ela dirá. Não se esforce. Mas sabe que chegou a hora. Savone vê a cena da por ta do quar to. Olha para eles e para ela de quem precisa dela para sobreviver seus últimos meses.

Meereshimmel e Alice se reencontram. Ele divorciado; ela viúva. Beijam-se. Não se põe mais a questão se ela devia ou não estar ali. Está e estará por quase três anos. Durante esse tempo pouco escreverá. Vez por outra ele entrará e ela estará diante do computador traduzindo alguma coisa para enviar antes da noite. Ela lhe pedirá apenas mais uns minutinhos com um sorriso irresistível. Ele responderá Não se preocupe. Que faça de conta que ele não chegou ainda contemplando o ar sério e sexy que o cabelo preso, o coque e a concentração lhe davam. Não se esquecendo do avanço das negociações para a venda. A visão dela ali sem preocupações materiais e por tanto


com tempo para a saudade que de algum modo o eternizaria enquanto ela vivesse.

A lágrima da primeira chuva de outono no rosto da estátua. Não vou mais chorar – pensa. Não tenho por que chorar. O homem andava ligeiramente adiante da menina. Tiraram juntos os casacos e num baile de tecidos esvoaçando deram um beijo. Ele colocará o agasalho na mochila e ela enrolará as mangas compridas na cintura e tornarão a se beijar com as ousadia das mãos livres. O trânsito está em seus pés. Um ônibus. Um caminhão. Um veiculo mais leve, desses que costumava amar. O casal retomou a caminhada de mãos dadas agora seguindo na direção do metrô. Um olha para o outro e ri e o outro devolve a risada. Jamais Haimeard e eu rimos na rua. Ela ergue a cabeça e deixa com o homem à janela as luzes da cidade e as estrelas através da vidraça.


Tempos atrás queria tirar uma foto com o celular e postar na rede para criar um significado. Agora estar ali transcende essa outra presença hir ta como o viaduto. A sombra se derrama na calçada e tinge as pedras do tênue acinzentado que faz a cur va dos seios no tremor da blusa. Movimento de pintor. Morena como nunca foi. Deliciosa segundo o pedestre que passa por trás. A rua se alonga ante seus passos na descida iluminada. Depois de pegar SeoYeon

irá para

onde, agora que os três estão mor tos? Ali. Sobre a ponte. Vi o mundo que deixava e o por vir. Em pouco menos de meia-hora, como quem passa fotografias de uma mão para outra, pesquisei para saber os passos que deveria dar para encontrar Meereshimmel e o que diria. Caminhamos juntos pela noite deser ta. Estávamos de braços dados e eu me sentia totalmente feliz. Não sentia qualquer tristeza pela mor te de Haimeard. Um homem bom a quem seria sempre devedora. Mas eu não estava triste. Meereshimmel pouco falava e quando o fazia dizia


coisas engraçadas, pelo menos me davam vontade de rir, e eu estava adorando rir, rir tanto, rir com tamanho prazer. Ele estava com a barba por fazer. Um detalhe que parecia muito para mim. Era outro homem. O mesmo mas agora o meu amor. Também ele ria e também o riso eu não conhecia em sua face. Tomamos refrigerantes e conversamos até cerca de meia-noite. Foi quando ele me falou de você, SeoYeon . Você estava com uns dois anos. Não fique com raiva de sua mãe. Por que uma mulher seria necessariamente per versa por deixar a filha com o pai? Sei que ela voltaria pra você se não tivesse sido assassinada. Naquela manhã tomei um susto. Ouvi um barulho e não vi teu pai a meu lado. Ele tinha caído da cama. Rimos muito de novo. Ele ficou algum tempo estendido no assoalho e eu com a cabeça reclinada. Perguntei sobre como descobriu meu endereço para mandar aquele tablet. Disse que não descobriu. Que deixou com o rapaz da lan-house para que me entregasse. Tinham meu endereço mas ele não queria que lhe


dissessem. Você precisa deixar isso de lan-house – disse um dia. Era verdade. Cansei de internet. Pelo menos da internet como um substituto da vida. Quem sou eu para que me sigam e saibam de meus pensamentos? se há algum que mereça não será usufruível em meio a uma avalanche de entretenimentos obscuros, em meio a tamanha dispersão. Eu e você caminhando agora em silêncio

após a cerimônia em que nos despedimos de Meereshimmel. Você tem nove anos e é uma menina saudável mas logo te perderei para as mesmas tentações que na adolescência me tragaram. A moça escuta e sente medo da mulher que a criou. Prefere assim. O medo à apatia da sua geração. Esse terror que impulsiona do que simplesmente estagnar. Foi como se naquele dia tivesse sido retomado o dia em que procurava minha companheira de viagem para me hospedar por uns dias. Meu sorriso restaurado. Porque eu desaprendera de sorrir quando esbarrei com teu tio na saída da biblioteca e notei que


estávamos com um mesmo título nas mãos. Hoje acho que aprendi que afinidades não levam a grande coisa nos relacionamentos. Acontece, é claro, como o contrário acontece também. Cheguei a temer que se tratasse de um tarado ou coisa assim quando ele se encostou em mim no metrô. Olhei uma ou duas vezes e lá estava atrás de mim quando eu ia para a lan. Meu Deus, era o que faltava... Mas não. Ele foi muito gentil. Ofereceu-se para me acompanhar embora não quisesse subir quando sua mãe nos convidou. Entre essa noite e o dia em que jantamos passei uma noite com um homem que dizia me conhecer. De onde? Era um empresário que me vira entrar na lanhouse quando ele saía. Um homem charmoso calado porque quando falava só falava em como a Grécia era apenas a ponta do iceberg e tudo iria ruir cedo ou tarde, sobre o perigo dos crescimento econômicos acompanhados de perspectivas desmedidas mas

ninguém deixa de jogar na Bolsa por causa disso nem de gerar a euforia dos mercados por meios ar tificiais


ou apostar no dinheiro como em tulipas. Que o mundo como o conhecemos pudesse mesmo ruir, pensava e

que bom o mais cedo possível, assim cada um se vê diante de si mesmo e o pecado deixa de ter essa conotação despersonalizada de hoje quando há humor de mercado e as pessoas parecem que o perderam. SeoYeon

pergunta se ela tornou a vê-lo,

ao tal executivo, com olhos dum interesse que Alice podia imaginar.

Alber t tornou a ver Alice. Como o mundo é pequeno – pensou ao vê-la esperar para atravessar a rua principal daquela cidade na praça em que conversara com a mulher. Alber t? – disse sua esposa. Tenha respeito diante das crianças. É mesmo uma bela femeazinha mas olhe pra frente ou além de me humilhar ainda pode bater num poste. Então Nastássia se arrependeu amargamente de ter renunciado a seus princípios e feito da aventura sensual uma brincadeira de


casinha. O cotidiano tornara o atraente empresário que a fizera perder noites e noites imaginando como o abordar intoleravelmente enfadonho assim como ela é execrável em comparação com a mulher deslumbrante que ele conhecera e com que se casou . E por causa da energia gasta para tê-la – pensava ele ao escutar a voz que cor tava seu olhar terno direcionado à moça vinda da praça – estagnara na vida profissional. Olhou para Nastássia e reconheceu o quanto ela ainda era atraente. Ela entendeu e abaixou a cabeça ao cer tificar-se que no banco de trás as crianças dormiam.


Nunca disse nada do que te digo a ninguém. Falar contigo me faz feliz e agora vejo que não precisávamos ir além. Tudo está nessa correspondência. Estarmos juntos nada acrescentou. Fazermos disso um hábito maculou o que era puro. Responder tuas car tas fez de mim alguém mais confiante; amar você fisicamente e as conseqüências disso me jogaram de novo na depressão que quando você noivou com seu super visor se acentuou tão dramaticamente. Não há por tanto remédio. Sei que me engano também com essa moça. Amanhã ou depois eu deixarei de existir para ela, se é que hoje represento alguma coisa. Com ela porém as coisas transcorrem de uma forma diferente, o que me dá uma leve esperança que seja diferente. Será na verdade diferente pois nada tenho mais a perder uma vez que não tenho mais nada. Mas além disso há uma busca mútua, o que não existia conosco. Você foi tudo para mim mas eu não era mais que um


professor apaixonado que talvez a envaidecesse ou simplesmente achava patético, no que não estaria errada. Agora devo te dizer adeus. Espero que seja feliz, Beatrice. De nada me arrependo. Poderia ter evitado uma ou outra situação mas não todas e fui feliz graças a você.


Sentou-se no parapeito largo. Onde? Talvez no hospital. Lembranças da época fugiam. A memória de seu corpo parece concordar. Sim, no hospital. Ali ficou sabendo a verdade. Que não há uma verdade. Não existe o ser humano fixo sobre o qual nos debruçamos, pensou. Não sabe quanto tempo ficou ao lado de Meereshimmel. Um relógio no corredor branco que não leva a nenhum lugar porque as pessoas fixas não

se completam mas andam em círculos por corredores brancos agora acinzentados quase negros pela luz apagada apenas paredes guardando o cheiro de coisas que não apodrecem como talvez devessem mas se mantém preser vadas como a dor que um analgésico falseia. Ele perdera a virilidade. A seu lado esteve

satisfeita e de nada sentiu falta. Claro que não é verdade. O corpo se ressentia. Algo a seu corpo faltava. Mas não a mim. E o que me faltava não era

algo que pudesse receber de outro homem. Ao se reclinar sobre ele, percebeu que o professor havia


entrado. Tudo cheira a formol. Que fim para um

homem que ansiou o aroma másculo de um amor verdadeiro escorrendo de seus dedos há tão pouco exploradores! É o fim dele e também o dela cujo sangue ainda corre quente sabe Deus por que misericórdia talvez para que discorra dessa condição num delirante poema sobre um mar inexistente exceto pela paixão que recusa a normalidade, o costume e a conformação ao século. O cober tor quadriculado evoca a saia que uma vez cumpriu papel na história deles. Ela aproxima o copo. Não há de ser nada grave. Ele é um homem for te. Mas a desesperança a toma de assalto. O copo nos lábios. O que será da menina? Embora determinada a crer que ele se salvaria, imaginava categórica a possibilidade diante de seus olhos que, conforme ia fazer uma e outra coisa, captavam os fragmentos do filme na T V. Tanto sono mas como dormir? Marcel ligou para perguntar sobre o patrão. Um pai para ele. Ela olhou para ele e repetiu a pergunta. Como você está, amor? Onde você está? A


enfermeira havia entrado e trocava o soro. Quando desligou, devolveu o seu sorriso. – Obrigado, Eùa.


Não tinha mais vergonha. Nem mesmo evitou a declaração de amor no final como na adolescência fazia com os meninos. Não pensou se havia ou não alguma coisa em risco. Desliga o celular. Dá uma piscadela. Óculos embaçados de sono. Mas e quanto à outra, pensou, tão casta e insegura? Uma aragem sinuosa a sua voz. A tranquilidade esperada ao longo de uma vida. Uma donzela para ser vir de amor. Fechou os olhos e não precisou esperar muito. Foi assim, disse. O mar rumoreja em sinuosos movimentos. A voz amada. Mas e o sonho? De repente se deram conta por que estavam ali e se fez dia. Silêncio, exceto pelo mar rumorejando. A respiração de uma pela outra. O braço a rodeava quase atingindo o outro lado. A mão acolhedora. Uma carícia dos dedos no ombro. Tudo o sonho contemplara. Uma mudança de atitude reflete imediatamente no mundo. Um dia enquanto esse mesmo sol iluminar a outra sentirá na própria pele a angulação de seus raios encentrando um chamado irrevogável. Ela se levanta e respira fundo o ar salino e sente uma tontura que atribui aos olhos ofuscados pelo sol. A trilha sai da areia numa vegetação rala subindo pela falda em meio às dunas luminosas. Vai chover. Ela olha para o dedo que apontava e concorda. Não tenho coragem de dizer tudo, pensa. Talvez não saiba o que é tudo e se há um tudo e se tem a ver com tudo esse encontro na praia combinado ao acordarem num sábado cheio de presságios. Nem é preciso contar o sonho. Ou porque estão vivas no mesmo sentimento ou só porque estão vivas. Suas


versaletes ainda fazem sentido num mundo conectado. Tudo é memória. O significado de uma flor. Assim que chegaram ao ponto mais alto deram com o horizonte aceso do outro lado. Não conversavam propriamente: alternavam murmúrios. Tudo ia ficar bem apesar da lama que se pegava nos pés delas. Não imaginavam que ainda pudesse existir um lugar assim deser to em pleno sábado. Podiam ficar mais um pouquinho. Então sentaram sobre um tronco sentindo-se vivas, amadas. Eña e Maria sentadas viajam num azul que não existe. Uma ao lado da outra, abraçada à outra. Par tilhando o sonho. Quem as visse do mar (a sereia do sonho por exemplo) veria que a outra olhou mais além quando Eña disse como agir em relação à opinião das pessoas. Seu vestido quebrou-se à altura das coxas. Passos na areia. Linha das ondas. Com os pés molhados elas se olham e entendem que precisam voltar. Os per fis se sobrepunham. O olhar de Maria busca mais longe. Eña segura sua mão e a


aper ta trazendo-a para junto do seio. Dois céus, como no princípio. Dois mares. Uma coisa só.


O pai da menina gostava de cantar e Alice o acompanhava no violão. Um dia estavam assim. Ela olhava os próprios dedos no braço do instrumento. Sabia que ele estava preocupado com as contas e não a queria desassossegar mais. Quer par tilhar essa inquietação. Interrompeu a música para lhe dizer isso mas não disse. Acabaram falando de outras coisas e rindo. Travessuras que ele e o irmão aprontavam na infância. O quanto enlouqueciam seus avós. Seus avós. Era como se estivesse falando de um casal que tivesse sido muito feliz. Ou como se a infância fizesse par te de uma outra vida e o que quer que tivesse vindo depois não contasse mais. Mandaram vir uma pizza e um refrigerante. Na manhã do dia seguinte ela foi procurar a senhora Mar tha. Precisava ajudá-lo de alguma forma. Na época, Mar tha era a diretora da escola.


Com o material de limpeza transbordando dos braços Alice caminha sobre os tacos estalantes. O que é isso? – uma sapatilha de balé. Estranho. Olhar lento e sereno. Os óculos deslizam para a ponta do nariz a fim de que veja por cima o que não necessita de grau. Aconchego é o que lhe ocorre ao ver o tapete do escritório. Um aconchego morno. Uma vida morna. Bom dia. Bom dia. Quando ela passa ainda provoca excitação e inveja. Não está tão acabada. Prefere chegar quando não há ainda ninguém. Dispersa-se facilmente quando o expediente começa. Vozes. Passos. Basta. Como supor tam? Sorriu novamente ao responder outra saudação. Prepara então seu melhor semblante. Assim. É preciso. Por algum tempo, ao ouvir esse ar far molhado das folhas, aquela sapatilha na entrada representou o apelo de outra vida. Nessa memória ela o guarda. A chuva pergunta como é possível aos mor tos incomodarem a serenidade dos vivos e como o que


passou não passa mas se desenvolve em todas as direções. Um toque são todos os toques e todas as carícias e todo repouso após o amor. E antes fosse apenas isso, a tor tura da carne. Mas há o enigma do mundo. Não pode compreender seus colegas decer to por isso. Estão vivos. Imagina que o tempo irá firmar à noite. Prefere não pensar na noite. Uma manhã assim se parece com a hora temida da volta para casa. Não pode se dar ao luxo de uma crise noturna pois esse trabalho precisa ser entregue no dia seguinte. Por quê? Se pudesse responder, a sapatilha de balé não guardaria aquela paixão furiosa e o carro semelhante não atrairia seu olhar. Dever nos pingos que escorrem na janela. Não mais prazer, apenas dever.


Olhem ali a jovem mulher. Branca, triste, se destaca dos demais passageiros, que não a percebem. Passou a roleta ainda agora. Pela janela do ônibus, desdobram-se par tes da cidade em que nunca pisou. O olhar, a imaginação atrás daquele muro. Bichinhos na grama e gotículas nas folhas da madrugada. Nessa praça um namoro ao entardecer. Homem vivo algum se deleitará mais sob esse vestido e o que morreu permanecerá mor to. Ainda persistia o beijo no acamado e um pouco mais que isso à guisa de maior confor to. Derramou muitas lágrimas depois, é bem verdade, na perseguição do rastro de um sonho. Levaram aquele ocaso pelos anos seguintes. Significa alguma coisa agora o lençol branco da enfermidade cujo desdobramento bem poderia ter sido outro, pelo avanço da medicina ou quem sabe pela fé. Entre os muros e domingos na grama sob a ár vore. Envelhecendo juntos. Encosta o nariz no vidro e contempla a cena.


O homem entra na parada brusca. Capuz e gorro tornam todos iguais. Tanto assim? O bilhete da passagem está na mão conhecida que a guia. Lembranças nos dedos que apóiam o queixo à janela. Afasta a fazenda. Zunir dos automóveis na via expressa. Não parecia deslumbrado mas estava, perante a perícia que trazia o alívio essencial. Três amparos e o mindinho numa impor tante função de fetiche. Esse mindinho. Depois do fracasso do casamento e da mor te dos adúlteros a quem amava, o crescimento impensável da empresa que nem se podia dizer mais pequena. É você? Nem sabe se chegou a ar ticular as palavras. Também a mor te tem um fim? O sol se derrama pelos prédios que ladeiam o percurso. Gumes de luz sim, luzes cor tantes. Um raio se alonga a par tir do final visível da avenida e os tetos dos carros tornados ouro.

Em algum momento Alice teria de tomar a frente de tudo. cuidar dele, da menina, do negócio. Foi o


que efetivamente aconteceu num dia em que ela olhava para o céu de outono abrigando o voo de pardais e nuvens brancas e no horizonte uma linha de poluição e esticou a mão para o táxi enquanto a outra segurava Bianca e quando dentro do veiculo ela deu um jeito de ver que ligação era aquela e viu e ouviu a voz do gerente do banco. Foi assim. Por isso, diz ela a Aleksándra, não acredito em coincidência. Tudo está determinado. Digamos que não existe um destino assim, sei lá, absoluto, mas tem de existir esse outro, tipo um destino básico, ao que contingências podem ser acrescentadas ou retiradas dependendo de nós, dos fatos ao redor, de como reagimos às coisas. Pode ser, pensa a amiga, olhando para Alice com uma admiração que só faz crescer.


Nada mais foi como antes desde o dia em que Ingenuer a conheceu. Todas as coisas renasceram após a presença dela em sua vida emprestando luz de seu olhar a cada nuance do que o cercava. Era musicista. Soube-o quando voltavam da primeira aula de dublagem. Convidou-o a entrar na casa de seus pais após um pequeno contato através de um motivo qualquer durante o percurso do estúdio ao bairro em que viviam. Estão sentados longe durante a explanação do professor. Comentando a aula, falam de cinema e de ar te em geral. O que realmente o levou ao curso foi o desemprego e a falta de profissionais naquele ramo. Esqueceu. Contempla-a recor tada pelos cenários à janela. O rosto dela se destaca como flor num terreno baldio. As mãos muito alvas contrastam com o sol. Os pés nas sandálias: suaves cordilheiras enevoadas. Ele quer estar em seu quar to e descobrir seus segredos.

Não sei o que é vida ou o que desejo mas sei que esse é o sol de um sonho antigo. A fachada do prédio é


amarela. Essas linhas são os raios inclinados. A luz viajou desde muito longe até se chocar com o cimento. Jardim limítrofe. Não que seja novidade mas nada é como antes: jamais viu uma tarde sob essa luz rósea fulgindo do ar voredo ou essas frestas atravessadas que pulsam e erguem a imensa barra de ouro. A umidade da grama fala alguma coisa. Diz respeito a mudança. Beleza. Deixa de separar e passa a ser referência de união. Entrando, os passos ecoam no vestíbulo espelhado. Renascimento. Tantas as par tes dele morrendo em Aleksándra. Ela pergunta o que ele faz. Ele diz. Trabalho numa gráfica. Como o patrão, em depressão com o recente divórcio disse que procurasse um outro emprego, não está trabalhando. Ele a abraça com seus olhos com tal intensidade que a sente estremecer. Está de costas à janela e ali bate o seu coração ligado à realidade apenas por meio daquele corpo. Vozes. De onde? Se indagar de si mesmo dirá que os pais dela não estão em casa, que são empregados na cozinha. Quar to diáfano azulado


pelo filtro de cetim. Ao lado da janela, esperando alguém cansado como ele, uma cadeira de balanço de madeira nobre; na mesinha de tripé duas xícaras de chá e um bule sobre a toalha branca de crochê. Um vaso de flores multicoloridas. Caminhando próxima marca o tapete com suaves círculos. Adianta-se até o peitoril onde findam os taques revestidos e os músculos das pernas se colocam em descanso. Um templo. Um mundo outro. Seu per fume impregna a contemplação. Ela apalpa o violão sobre a cama, encostado à parede. Viração vesper tina. Tremula o cetim. Será feliz? As maiores questões da vida e do universo estão contidas nessa resposta. Ela pega o violão e experimenta as cordas. Sou feliz quando toco. Quer ajoelhar-se diante dela e abraçar seus joelhos remido na passagem de mundos. Beijar-lhe os pés. Lenta língua ao longo das pernas. Beijá-la toda: no meio dos seios, no meio do ventre, em todos os lugares. Ele vê o infinito. Escuta o além. Ela geme no oficium de Preisner.


Distraída pelos sons que executa, permite-lhe contemplá-la. Um colo tão branco. Disse que era uma família de ar tistas. Um pintor, um escritor, a mãe pianista. Saberão algo? Não encontrará o essencial em uma biblioteca. Nem em Mozar t. Mas aqui há alguma coisa além. Seios cuja engenhosa redondeza o próprio Deus será incapaz de recriar. Tremores de vestido à aragem nas cor tinas. Limite do tecido na coxa levemente pressionada onde repousa o instrumento. Virginal melodia de apetência. Quando ela se inclina sua sombra alcança os pés de Ingenuer. Subindo ao ponto. Do lado de lá da cor tina o que se vê é ainda Aleksándra distraída com a música, concentrada na música, de per fil, inclinada para o lado. A seus pés alguém a venera com língua e dedos. Solfejos no íngreme roseiral. A proximidade sugerida é a divina. Ele não lembra se falou sobre amor. Decer to não. O som da voz enche o quar to, multiplicando-se pelas paredes. Permeando os objetos em que os olhos


pousavam. O som da rua invadiu o quar to violentamente quando ele acabara de descer uma das alças. Havia chegado à janela. Do parapeito dava para ver a rua e Aleksándra. Olhares se cruzam em região de silenciosos pactos e desejos sublimados. Ele desvia o olhar para a azáfama lá embaixo. Ela sorri, inspira, instila, capta e acolhe o sentimento. Mulheres aproveitam a temperatura para sair às compras. Matizam as ruas de creme, cinza e azul-escuro. As que voltam, de braços cruzados e ombros encolhidos, lamentam não terem previsto o frio, em pensamentos de lã e saias de gabardine e blusas de elegância espessa. Na galeria frutas expostas convidam ao suco. Aleksándra diante dele deliciosa e desejável como no ônibus. Últimas nuvens brancas dum céu róseo caminham negras no jardim sobre a grama úmida. Ao lado da loja de roupas, bares e farmácias; diante da livraria, seringas descar táveis; parado à por ta do cinema o amante cujo nome a mulher lá


dentro se esqueceu. Na loja de discos cheia de rostos célebres Aleksándra ainda cantava a seu lado. Está decidido a declarar a sinceridade de seus sentimentos. Antes que possa começar, ela pergunta se quer tomar um lanche. É claro. Dirige-se à por ta do quar to e pede que ele espere. Irá à cozinha um minuto. Instantes sozinho no santuário sentado à beira da cama onde ela estava sentada. O per fume exala promessas de futuro. Movimentos do tempo e sorriso agradecido. Formas ainda ocultas. Quando volta e de novo fixa os olhos nos dela, percebe que havia chorado. Pede que vá, por favor, buscar café e pão. É logo ali em frente, se pudesse fazer essa gentileza. Do que está falando? O que não faria por ela? Deixou-o na por ta. O elevador atendeu o movimento do dedo como um animal doméstico se ergue a um chamado. A respiração e os cabos se misturam às indagações. O desejo flutua serenamente nas pausas. Obscuridade do corredor. A rua. Novos caminhos. A música conver tida nos sons do trânsito e


nos gritos dos camelôs. Desper tar de um sonho. Mesmo triste ele se mantém em paz e pensa que talvez o amor seja a harmonia, o estar ao lado em silêncio; e o sexo o horário de almoço do empreendimento. Mais que objetivos carnais; menos que ideais românticos. Flama atravessa imenso mundo que reflete nos olhos temível encanto. Dói. Fere com um sentido preciso. Sem o jeito calmamente inútil das coisas do cotidiano sem perigos. Jovem adorável! Mesmo escravo de insegurança mórbida, ele aprende. O medo é matéria prima de uma doce e longa canção. A balconista e uma sofreada emoção. Quase uma menina, de tranças. Evidente saudade. Almoço de domingo com família reunida. Viveu isso também . Os prédios em chama dourada espelham a rua em que a noite se avizinha. A fraqueza dá idéia de desmaio. Deseja alguma coisa?


Pede os pães e o queijo. Trabalhadeira. Admira moças assim. Mas Aleksándra – o que faz além de estudar e tocar? Quando perguntar saberá que ela tem faz um trabalho voluntário com cegos e quando ele responder a mesma pergunta ela saberá que trabalha com Meereshimmel. Sério? O irmão de Haimeard, cunhado de Alice? Por enquanto, olha para a janela e quase chora. Devo me recompor. Se continuar um

adolescente apaixonado terei o que está reser vado aos adolescentes apaixonados. Devem se perder as questões sem solução e as coincidências: no aroma de pão quente à luz do total da despesa. De volta nas vitrines molhadas de crepúsculo. Nos car tazes de filmes, nos livros, nas flores da praça. Impregna-se a primeira estrela cuja majestade solitária povoa uma folha caída na calçada. Na sala a mesa está posta. Aleksándra sentada em sua tristeza. Em meio à beleza de que não pode fugir. A respiração suave no decote. Nos olhos um brilho jamais esquecido. Olha para ele ao entrar como o combinado sem bater. Como


se, mais que um pequenino acordo, fosse um hábito. Com ele pelo resto da vida o juízo desse olhar. Razão para levantar todos os dias. O sinal. Não tem motivos para chorar. O sofá junto à janela será um local propício. Ser vidos pela governanta. Pernas se tocam casualmente. Ela fala algo sobre o mercado de dublagem. Deve ser algo perspicaz mas ele não ouve porque há dedos vitoriosos. Limites e divisas. Sombras, coxas e cabelos. Calor. Os dedos que nele se cravavam aparecem num gesto amplo na nuvem do café. Unhas inocentes. A nuvem se dissipa e Aleksándra aparece. A dublagem exige mais do ar tista do que a maioria das ar tes. Só a voz com para se expressar. Respondeu ele que infelizmente, como ela mesma testemunhara, o professor não parecia insatisfeito com seu irreconhecimento muito bem pago. Afinal não é o que nós próprios buscamos? Mal acabou de falar, pensou que tinha sido grosseiro. Nunca sei o que fazer

nessas horas. Tentar conser tar pode ser sempre pior. É


verdade, diz ela. Tantos seriados e tantos canais de filmes na T V paga tornaram a dublagem antes de tudo dinheiro que move a mídia. O dinheiro. Não há ar te na mídia, não mais, é o que ela está dizendo. Estalar crocante na boca, queijo com gosto de infância. Inocência resgatada. Em que ela estará pensando?

Com cer teza me superestima e não sei se isso é bom mas sei que me leva longe, ao meu prazer idealizado, como as bandeiras falam das vir tudes que os países não têm e todavia esse status das bandeiras são a representação dos países. Talvez eu tenha um pouco dessa que ele pensa que sou e poderei assim continuar sonhando em ser confor tada e mimada e depois disso não o rejeitarei como é o costume mas usufruirei também do amor quando nossos dedos se entrelaçarem no primeiro beijo. É que não existem mais ar te nos dias que correm. Apenas o negócio da ar te. Bem, não é uma questão nova. De fato – ratificou após passar o guardanapo – não existia mais o valor puramente subjetivo do exercício ar tístico. Claridade


geométrica e ventilada e um mobiliário marrom brilhante que arca com a alma distraída próxima do além infinito. Quanto pode render a concepção. Veja Van Gogh. A tecnologia mudou o tipo de reconhecimento hoje. Talvez seja uma coisa boa. Viver da ar te é mais ou menos a mesma deturpação porque a ar te deve ser motivação de subsistência em si, de sobrevivência, à par te da questão financeira. É uma pena, responde ela, gostaria que não fosse uma regra sem exceção. Eu lhe mostrarei o meu amor. A cama casta e fecunda. À vontade enfim em aromas de colcha. Ela reapareceu trazendo uma coleira na travessa de um livro. Mais tarde Ingenuer saberá que ela havia chorado por causa do filhote de pastor belga que ganhara em seu aniversário – era o tema da conversa dos empregados quando entraram, como iria ela reagir – e ele ficará sem saber da reação de Aleksándra diante da sua declaração de seu amor. Duas semanas mais tarde ela conseguirá uma bolsa para estudar


música em Milão e ele não mais a verá. Quando soube da noticia nos estúdios, fulminado saiu da sala e tomou o mesmo ônibus onde seu amor encontrou campo para se desenvolver ao saírem e passarem aquele tempo juntos no primeiro dia. Chegou ao edifício. Também o silêncio quando ela o beijou no elevador. Adeus, disse ao sair. Atrás dela, os empregados levavam as malas. Eu te amo, ele disse enfim. Silêncio. Então me espere. Ele sentiu de novo os seus lábios e dessa vez a trouxe para junto da altivez de sua paixão. Tema para orações futuras na ausência dela. Alguém a chamou do lado de fora do prédio. Tenho de ir – disse ela. Você vai me esperar? Duas lágrimas rondam os olhos dele nos momentos em que olha o homem que ousara pronunciar com tal desembaraço o nome com que somente ele devia privar de intimidade. Era seu pai. Ingenuer responde sua pergunta com um beijo


ambíguo entre o azul de seus olhos também prestes a se molharem. Um pastor belga está ganindo de dor. Ele se voltou e deu com a luz for te do dia se irradiando por tudo. A opressão natural ante tanta luminosidade dá lugar a um elemento de paz. Desejo de vida restituído a seu mundo desde que ela emprestou a luz de seu olhar a cada nuança que o cercava. Todas as coisas renascem. O desemprego passa a ser um problema que pede solução rápida não mais motivo de fatal depressão. Os conhecidos acharão sua mudança inacreditável. Seguiria em seu caminho. Haverá um abrigo da noite fria. Haverá trabalho e ele será a pessoa indicada. Uma luz no jardim bruxuleava ao sair após a par tida de Aleksándra e dali se vislumbravam os aposentos da casa que iria comprar no bairro preferido de Aleksándra onde a névoa envolvia o prédio do estúdio de dublagem quando saíam da aula mais tarde. Tudo fora pensado, inclusive a localização próxima aos melhores cinemas da cidade – caótica megalópole a que não seria


permitido englobar o destino deles num outro, coletivo, próprio dos novos tempos. Se uniriam e se desconectariam. Porque ele a amava e ela haveria de o amar tanto tambÊm. Sim – diz ela. Eu te esperarei.


Meereshimmel pede que ele abra a gráfica. Precisa fazer um pagamento. Caminhar. Estar entre as pessoas; tentar se adaptar. Como essa sombra se adapta ao sol e disser ta sobre a hora. Há pouco nem havia. Agora à sua esquerda mistura-se ao trânsito. Some entre as ár vores da praça. Um banco envelhecido. Ele senta. Olha a foto no celular. Que chance havia de salvar seu casamento? Se Sonja quisesse. A cada dia fica mais evidente que não quer. Ao olhar o rosto de medo e sofrimento vê que a jovem não percebe sua imponente beleza mais que bela porque não apenas bela. Terá sido por isso que junto dela fracassou? Que vergonha! Mais por sua canalhice do que pelo fracasso. Agora está tão só e ela que decer to terá encontrado alguém. Que seja. Que não tenha acontecido a ela nada de mau. Quisera encontrá-la. Ser o amigo de que ela precisava. Por que me transtornei àquele ponto por

causa do olhar de um desconhecido que ela provavelmente não correspondeu? Ela não precisava do carro nem da vida que poderia lhe oferecer e não


ofereceria mas de uma amizade que tampouco ofereceu. Eu só preciso de você – pensaria Alice ainda por muito tempo e mais ainda ao ser apresentada por Savone ao filho no velório de Haimeard. O sol se põe. Ele ainda está sentado no cimento cuja frieza sente agora e esquece em seguida na vermelhidão se derramando como a angústia na alma que pode ser sempre serena ainda que nem sempre estar alegre e todos têm sonhos que serão esquecidos conforme a velhice se aproxima e ninguém percebe que três asteróides num mesmo dia deve sim ser um tipo de sinal para uma terra em que só a mor te é cer ta e nem esse fulgor vesper tino trará algum confor to exceto por segundos em segundos esquecidos.

Tudo o que ela precisava era de seu amor. O homem que olhou para ela e adivinhou sua dor e a convidou para um café e confessou ser casado e por tanto não poderia ser o amigo de que ela


precisava. São tão confusas essas coisas. Por que não, exatamente? Precisa dele. Pensa nele na cama de pensão. Em como ele chegaria e perguntaria por ela após descobrir o endereço de um modo que não ficara muito claro. Nem era aquele endereço. Na sua imaginação havia um apar tamento próprio, uma vida independente. Só assim alguém pode amar e escrever. Precisa que ele chegue. Ela lhe oferecerá um café. Terminará a noite em sua cama beijando apaixonadamente o seu corpo. Voz umedece roupas. Mãos se movem em torno. Pequenos mamilos não tão pequenos agora. Lentamente suas mãos são as minhas

mãos e seus dedos os meus e mais e mais deixe que eu te acolha e tente de novo assim a senhora ao lado lança olhares curiosos para o celular e Meereshimmel volta ao banco do parque e com batidas na por ta Alice regressa a seu quar to no albergue.


A mulher do balcão onde ficavam as chaves dos armários vê o casal per feito quando eles saem do café. Agora já não tem cer teza. É o mesmo rapaz? Bem. É o mesmo tipo. Mas não tem cer teza. Esse de hoje tem um olhar mais franco. Um dia ela viu a menina com Alice e seu pai e pensou que era a mãe dela, como todos pensam. Formavam mesmo um casal muito lindo, diz Elisuki. Ele vivia repetindo isso desde pequeno quando ia brincar na casa da amiga. Agora pelo jeito vão brincar ainda no apar tamento que ela herdou da avó, onde mora com Alice. Ela gostava de pensar nisso como brincar, não queria como suas amigas queimar antigas etapas que passam pelo primeiro olhar e as mãos dadas. Rumores e visões que de súbito se descor tinam fazem par te de um caminho inocente iniciado quando ouviu os pais do outro lado da por ta e não fazia idéia do que estavam fazendo. Que ingenuidade, que paz, que agradável agitação. Um achocolatado direto da caixinha. Quando passam pelo mercado, a mulher no caixa olha e sussurra para


o marido: aquele segundo rapaz era mesmo o irmão desse, não te falei?

As aves cujo canto lembra um mantra são as de que SeoYeon

mais gosta. Evocam concentração,

disciplina, paciência – vir tudes que tão dispersa persegue. Essa que chilreia agora ela não conhece. Assim que ouviu não gostou. Sofisticada sonoridade sinuosa em busca de novas oitavas procura seu máximo e não usufrui do mínimo alcançado. Como as pessoas. Ela está com Elisuki – sempre está com ele. Um outro mundo quando juntos. Aspiração de vida melhor e mais árdua. O sol se põe no céu próximo. No distante trovão um presságio. Elisuki está calado. Não quer mais falar sobre esse assunto. É desgastante. Ar fam e os pés agora suados estavam enfim aquecidos dentro dos tênis. . Aí estão eles por toda a par te, os normais, fazendo planos e se dando bem.

Todos? O


que hoje desponta não irá querer mudar esse cenário. Esfriando. Você vai para casa? Um sorriso em resposta. Quando voltar ali SeoYeon

lembrará. São o lar um do

outro. Suplica. Não me abandone. No canto dos pássaros um presságio. Ser amada tem um preço. Não irá decidir agora. Apenas manter esse contato com o verde até a saída. Pensará em alguma coisa. De um modo ou de outro todas as coisas passarão. Não tem cer teza de nada mas vale a pena seguir o caminho. Está escrito no dia vacilante entre os prédios. Chegaram. Ele prossegue.


Deitada de lado ressonava e agora escuta. Meereshimmel chegou andando devagar tocando sua própria foto emoldurada. A parede tem uma cor incomum e produz um som igualmente raro e contínuo como se devolvesse ao apar tamento o que ouvia do resto do prédio. Por instantes ela cochilou. Passos, respiração, toques. A um tempo a resposta e a questão. Discernimento improvável à procura de correspondências fugidias. Deixavam-se às vezes captar de acordo com os movimentos no quar to reduzidas ao sono tênue. Num dos inter valos Alice acordará. Talvez acordasse espontaneamente mas decer to o sino ajudou. Seis horas. Demorei menos de vinte minutos, pensou. Um raio oblíquo perpassou morno o tecido entre a aber tura das cor tinas. Violáceo agora o quar to. Você veio. Como poderia não vir? Obrigado. Você está doente?

– Pareço doente?


Outra vez o sino tocou. Vibrava em sua cabeça projetando a enxaqueca para o dia. Nada. Não é nada. Um pouco de dor de cabeça. Não está tomando analgésico? Deixara desde que teve umas crises estranhas. Um suor gelado gerando insupor tável calor. Antes que piore precisa falar. Meereshimmel... Chegou a escrever uma car ta. Não enviou. Ele diz que sabia. Que a conhecia e ela não seria capaz. Mas ele teria merecido. Parece um sonho. Com a mor te do irmão e da mulher, ainda que não estivessem felizes (antes culpados), respiravam juntos. Eram livres. Se abraçaram e se olharam nos olhos. Vamos resistir. Vamos começar uma vida em comum. Vamos ao centro ver se aquele apar tamento ainda não foi alugado. Estava propondo que vivessem no apar tamento do primeiro encontro? A praia pareceu mais brilhante mesmo sem sol. Dançaram molhando os pés. Beijaram-se ao som das ondas. Teriam uma vida. Seria cur ta mas restariam as lembranças. Alice não fará porém de uma menininha a


sua vida. Filha de quem fosse. N達o iria de um a outro extremo. Olhou para a menina. N達o estou te passando essa carga, meu amor. Vive tua vida.


O que acontece na imaginação tem que relação com a vida real? Criar é quase recriar a vida. É a própria vida essa criação. Quando aos 18 anos eu queria casar com uma menina legal a quem fosse fiel e leal, por exemplo, o quanto havia de sonho? Muito decerto, pois jamais encontrei tal menina e a bem da verdade nunca fui um menino assim. O tempo passou e talvez eu tenha me aproximado daquele ideal. Bem, então ficamos assim, pensei. Atingi um objetivo que não faz o menor sentido. Nem era totalmente isso. Uma das coisas era a partilha desses mundos neste mundo. Não era idealizada a emoção que senti ao ler sua primeira mensagem, nem tinha qualquer relação por mais vaga que fosse com isso a que chamam amor, mas tocou algum nervo desse outro ser, desse tal que não vive no mundo e portanto em tese não deveria ser atingido pelo que nele acontece. Então por que me afetou tanto? Não sei. Posso dizer de coração aberto e com toda sinceridade que jamais tive — nem tenho — porque não posso, nem devo — de que mundo são


esses verbos? — jamais tive nenhum pensamento inadequado. Tudo ficaria por aí caso não acontecessem imprevistos — isso de que nem um mundo nem outro estão livres. Quando houve signos visíveis de uma atração, a própria realidade se encarregou de conceder um sintoma semelhante, como se harmonizasse desejos inconciliáveis. O que é isso? Um terceiro mundo de que a dialética é reflexo — da tese e antítese nasce a nova situação que deveria substituir, superando, as anteriores? Estou velho na vida real. Acabou o tempo de tecer sonhos e está começando o de consumar projetos começados. Mas quando procurava fincar o pé nessa realidade estável, voltaram sonhos dos vinte anos, sem qualquer relação de minha vida hoje, sem sequer um embasamento por vago na vida real, que merece toda minha honestidade — mas que honestidade pode ser se não me reconheço em mim mesmo, nesse eu estabilizado e certinho, mas


naquele outro dos sonhos, naquele do terceiro mundo que nasceu da explosão entre os dois primeiros? É muita dor. Um impasse. Como se houvesse realmente dois em mim e não seja isso apenas uma maneira de falar. A vista da casa real, do trabalho real, do livro real (que é feito de irrealidades mas ainda baseadas nessa realidade), consiste de novo dum sofrimento suportável porque baseado apenas nessa vida que, por mais banal que seja, ainda é que tenho e decerto em alguma medida também amo; porque distante desses sonhos que não me contentava em ter mas queria trazer para minha pobre realidade. Não há consolo possível porque não há razão de dor. Ou a razão está numa outra dimensão a quem não tenho mais acesso. Não há nada contra nesta dimensão e a outra, a terceira, só existiria da negação da realidade que não há mais. Uma vez você falou de um alívio por meio de reavivar uma lembrança mas que só durará um certo tempo (citando como exemplo a passagem da “Liberdade é azul” quando ele diz que a viu


portanto agora pode suportar mais um tempo de sua ausência. Espero fazer melhor. Espero lembrar duma vez por todas com um prazer auto-renovável mesmo na ausência jamais presença. Preciso aceitar isso antes de qualquer outra coisa: não havendo presença haverá aquele mundo sem acesso pelos meios de sempre. Haverá sonho e liberdade para viver a única vida. Tem uma passagem de que gosto muito na “Insustentável leveza de ser” (não sei se está no romance): sobre ficar com Juliete Binoche ou Lena Olin, Daniel Day-lewis responde: “Se eu tivesse duas vidas, poderia tomar uma decisão em cada uma delas e depois comparar”. Como não tenho, completo eu, tomou uma decisão e consumou-a. Porque no fundo é isso: seja lá o que a gente decida, decidir mesmo, ir adiante, as últimas conseqüências. Pensarei na decisão que não tomei porque a outra vida que tinha não era vida. E claro que pensarei na pele e nos olhos, nos lábios e na voz, nas conversas e nos silêncios, e sobretudo no que, nesse caso, não


precisaria ser aliviado uma vez a cada determinado período de tempo, porque o tempo em comum não é dividido ou pelo menos não deveria ser ou pelo menos nos sonhos daquele menino de vinte anos que naturalmente não podem ser os meus. Quem sabe para isso eu tenha existido em sua vida - a irreal, porque na normal amanhã você será uma escritora (ou o que seja) de sucesso, realizada, e provavelmente lembrando com certo sentimento de menosprezo ter se permitido uma vida que não a única. Quem sabe não. E então me compreenderá ao viver a mesma circunstância.


Lá fora a chuva murmurava. Mal tocava o vidro, como alguém se constrange em conhecer segredos alheios. O senhor Pöbel não rebate as acusações de que assediava a empregada. Pacientemente esperava que a mulher se acalmasse e então pudesse explicar mas o problema é que ela não se acalmava emendando uma acusação noutra e a maioria nada tinha a ver com assédio. Relacionamento em quem ninguém ousava apostar porém todos foram à cerimônia cheios de palavras boas. O casamento é impor tante mesmo no novo milênio. Tenho de casar, Mar tha pensava antes de conhecer Darken e se apaixonar de fato. Donde, pensava ele, não fazia o menor sentido as suas reclamações. Inclusive quanto a ser mulherengo. Conheceu ele assim. Em que queria conver ter aquele por quem um dia se apaixonou? Ele esperou pacientemente a opor tunidade de falar de Alice. Talvez não tenha sido boa idéia a franqueza. Numa conta simples a mulher constatou a diferença de idade entre eles e por tanto na época ela era menor e


ele um homem feito. Isso é crime, meu Deus, não poderia jamais imaginar que tenho dormido toda a minha vida do lado de um pedófilo nojento. Ele amava Alice na época – Darken disse candidamente. Amava-a de verdade. Eu sei exatamente o que você amava nela, retrucou a mulher. Por alguns instantes ele se calou e hesitou em seguir contando a história de Alice e vá saber por que se manteve nessa disposição. O fato é que contou. O rosto de Mar tha se transformando a cada frase como várias máscaras caindo conforme as novas revelações até chegar à última, uma máscara cinzenta, imponderável – camada original de uma perplexidade desiludida, a desilusão em estado puro, um estado em que se transita do que se espera ao que refuta essa esperança e de repente sequer se sabe dizer qual era a esperança. Por que consentir com a vida? por que insistir na sua preser vação? se para tanto é preciso preser var valores que ele não mais podia pregar para bem ou para mal porque simplesmente não saberia dizer se era um bem ou um


mal e sequer poderia dizer o quais eram os seus valores. Não mais manter a idéia de especial a ponto de ter autoridade para falar em princípios e sequer gostos, opiniões ou qualquer coisa que o diferenciasse do murmúrio da chuva rabiscando, se tanto, o vidro da janela.


Cheiro de armários e de livros e agasalhos e jovens de banho tomado e jovens suados de fim de tarde. Nesse cenário. Pesquisas, provas, trimestres e descompromisso com a realidade. O vulto de Alice na voz da atendente. O que ouvia batia com o que a colega de trabalho um dia lhe contara. Então ela soube. Ou talvez tenha imaginado tão intensamente que tudo assumiu ares de verdade. Alice era a moça que chegara do interior para procurar trabalho e logo no primeiro dia encontrou Meereshimmel e por ele se apaixonou não por causa do sexo, não consumado, mas por uma sabedoria inerente a muitas mulheres. Um instinto de futuro que mais adiante terá aparente recompensa madurando macilenta. O que ela não sabia, o que ninguém sabia – exceto a enfermeira que deveria acompanhar Meereshimmel ao estrangeiro – era acerca da idéia mirabolante. Rasgo de generosidade louca sabendo que estava condenado e que a filha estaria melhor com Alice. Que Alice estaria salva de todos os seus


males materiais e que poderia a par tir daí ser enfim ela mesma. A par tir do momento em que fosse a responsável por SeoYeon , o que Sonja a cada dia deixava transparecer que não seria. O que nem ele próprio em seu delírio poderia supor é que aquele vôo teria seu nome na lista de passageiros mas não sua presença na poltrona do avião.


Como o descobrira ali? Ele mesmo dissera que esse seria o lugar deles. Mas se passaram dois anos e para todos efeitos estava mor to. Por que fez isso? Para ela ter um lugar como sempre sonhou. Para que pudesse escrever e não precisasse se submeter a humilhações. Mas não podia saber que o avião ia cair. Não sabia. Apropriou-se do momento. De qualquer modo, estava praticamente mor to mesmo. Nunca quisera fazer tratamento no exterior. O único tratamento que precisava era interior e esse Alice providenciara para ele. – É uma história absolutamente absurda – disse o rapaz para SeoYeon

– Então você fez o caminho

inverso. Primeiro foi ór fã de pai e depois teve um...


Pensei que jamais seguraria sua mão novamente, pensou Alice na cadeira do café. É como se eu estivesse reinventando você. Descobrindo. Por amor a paixão não aconteceu no primeiro dia. Foi cruel – pensou ele – conhecer Alice naquelas condições. Ela menor de idade e ele casado. O tapa deveria arrefecer e não exaltar o amor que ela começava a sentir por ele. Ela não se comoveu ao escutar. Pela primeira vez na vida teve raiva de Meereshimmel. Ali dois anos depois de sua mor te diante dele ressuscitado, sentiu pois muita raiva.


A rua submergiu na névoa. Um desper tar assustado. Latido. Cão dormindo. Passou. Tudo passa rápido. 14 de junho de 2013. Cheiro de chuva. O olhar que se ergue encontra a aber tura. Um pingo. Roupas que se pegam à pele. Dores na região lombar. Um homem sem sombra. Falta pouco. Uma vez quando criança. Lembra dessa fábrica. Precisa arrumar as coisas: o terminal fica per to. Hei. A outra se assusta imperceptivelmente com o cutucão. Estamos chegando. Não diria que é uma amiga. Uma conhecida. Companheira de viagem. O trânsito carregado como sempre. Car tazes de um lado e do outro. Do fundo espelhado da armação feita de luz ela se dá conta do prisma das coisas pelo qual a outra via. Nuvens vivas. Calor de braços encostados como um sol par ticular. Ela quente se solta e não cai apenas porque

se apega com não mais que um toque dos lábios grossos entre olhos que ela não podia ver o quão perdidos e penitentes. As maçãs duras e rosadas de seu rosto pálido se destacando na tarde e em seguida


seu nariz largo ligeiramente se achatando contra a maça apergaminhada do rosto dele e confundindo a troca com a atmosfera e as reações metabólicas. Os lábios tocando depois os olhos que agora em mínimos relances vê e se compadece pensando como são no fundo tristes, como são tristes. Os sons dos lábios se aproximam o atual do próximo como uma menina guiando seu pônei e ela aper ta a gola levantada da jaqueta dele como quem se agarra numa prancha no mar em que se sentia afogar e os lábios chegam ao pescoço dele e retornam pelo mesmo caminho e se unem novamente aos dele e os pássaros se misturam agora com a respiração ofegante primeiro e depois aliviada num suspiro. Demorou para distinguir o desenho movente dos lábios da outra, mal entendendo que o movimento das pessoas e bagagens atrás delas confirmava o som que a tirara de um mundo díspar. Alguém abre a divisória e fala com o motorista. Aos sacolejos o ônibus encosta e o mundo pára no cheiro do outro corpo. Está feliz e cansada. Ansiosa. Um


outro cachorro está latindo mas mal dá pra ouvir por causa do motor. O azul desce um pouco e confronta os telhados. O meio-dia a deixava deprimida. Tanta luz. Agora não. A vida a recebe de braços aber tos. Você vai? Sim preciso claro. Posso esperar? – Se não for incômodo. Longe disso. As casas passam lentamente. Marcha para a última cur va. Dor antecipada pelo afastamento inevitável da mornura do outro corpo. Fique. Venha comigo. Alice não pode. Então o muro quase roçou na lataria. A pichação flutuava e em cada uma lia as próprias emoções. Você é tão bonita – disse a outra. Um ardil para não ser esquecida. Abraçaram-se no ecoar dos passos pelo corredor em direção à por ta aber ta.

As luzes do começo da tarde misturadas aos movimentos do terminal assumiram formas oníricas como aquelas de onde Alice vinha. Tinha chegado.


Não desceu logo por causa do medo maior que o desejo mas havia o prazer e o tentar prolongá-lo. Algo no ar a preenche de intensa agitação apesar de ainda sonolenta. A vigília e o sono. Não havia culpados, pensou, esperando que houvesse. Alguém a quem pudesse responsabilizar pela decisão de deixar a casa à procura de trabalho noutra cidade. Não precisava desse tipo de estresse tão cedo na vida. Mas não havia culpados. Sua existência era única e era responsável por tudo. Súbito sentiu o peso quase insupor tável da liberdade.

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A voz mais e mais baixa. Os passos mais lentos. O rosto na vidraça do café. Expressão de quem sonha. O que a senhorita deseja? Agora, na luz do vidro, cabelos muito negros. Brilham. Ela olha a garçonete com respostas que não pode dar. Logo a xícara aquecerá as mãos em concha. Depois o pescoço que se estica e pende. O olhar é ansioso outra vez. Bom assim. Melhor que o vazio da falsa serenidade. Ao outro vazio, na entrada, segue-se a lembrança e seus olhos não estão mais ali. Bibelôs na cabeceira onde devia haver um relógio. Melhor assim. Bons tempos. Quando as coisas retornam ao lugar a que se adequaram? Ou jamais? Jamais como um dia de infância. Então jamais. Pois se o tempo não volta, feixes de luz se reencontram. A cabeceira perdida no tempo. A menininha, deixa-a lá e aparece diante de seu armário, falando ao celular, a outra mão pelos cabides. Rosas a maioria. Ama a beleza simples de um toque de mocinha no quarto. Felicidade é uma meta legítima de vida? E o que era aquele êxtase da menina? Enfim, ei-la aqui. Diante das roupas. Combinando a saída. Diante do espelho cujo papel no dia seguinte será feito pela vidraça do café. Ela. Refletida. No significado de todo reflexo – reproduzir sem ser. O armário se fecha. O reflexo desaparecido. Um vestido. O rapaz. Companhia para a saída. Nada sabe dele nem haverá de querer saber amanhã. Sempre será assim? A voz ainda possuía quando o encontrou alguma firmeza. Chegou a dar uma corridinha quando o viu ali parado. Num trecho do caminho para casa, um local mais escondido, a vazão do desejo. Embora mútuo, a impressão seria de que ele a ofendeu. Claro que não. Aleksándra nem imaginava um rapaz tão bondoso e romântico. Por isso chorou. Outra caminhada solitária passando por casais apaixonados. Outro café abrindo ou que ainda não fechou.


Um beijo mais profundo que esse abismo