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FLORES TÃO CORRIQUEIRAS E RARAS

A

senhora Rose Lens fechou os olhos. Arfava. A respiração a enchia de vida exterior. O ar cortado pelas cigarras recém-chegadas do fundo da terra dividia a madrugada

embebida em barulho de mar. Torna-a multíplice em sua lucidez dilacerada. O mar ao longe. Parece aqui. Dentro do quarto. Nos pensamentos relativos ao momento imediato imprimiu-se um colorido digressivo. No pio da ave noturna há um desenho aos pés da freira no colégio; o raio lunar em que nasce o cântico das contrações retroage à primeira varanda ao luar, à madrugada em que a menina sai à luz vinda do ventre de sua mãe. E como ouvisse do lado de fora céleres os morcegos, ao som da inspiração profunda ansiou a antiga liberdade. Mãe, mãe! Ambíguas, as lágrimas brilhavam como nos reencontros. Minha filhinha... As reminiscências enviaram ao corpo quieto na cama as praias da adolescência povoada de gaivotas. Quem sou, se pergunta. Mulher, menina; mãe, filha; esposa. Esposa. Bater de asas. O pulsar do colchão de molas havia ateado um rubor vivíssimo às partículas de pó – assim o Verbo no principio, quando fervilham as esperanças entre o sabor e o azedume. E permanecem por toda a noite

Ricardo de Almeida Rocha

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semelhante àquela em que a consciência fez com que ela se acovardasse e decidisse se casar apesar da claridade gloriosa de um dia distante (o primeiro dia do seu primeiro namoro) apenas reconhecido por certa memória imprecisa. Ainda consegue vislumbrar a redenção, que todavia se confunde com as preocupações da segurança material. Ai. Um arrepio na parte de dentro das coxas. Como foi tola. O que se leva do mundo? Nada, pensou ao levar os dedos. Então a revelação. Hoje. Espere. O gatinho sobe na cama e se aconchega ao lado dela. Esperaria, se anteciparia até. Através da estreita passagem, escura como a madrugada próxima ao amanhecer e, mesmo antes da aurora, pelo sol redimida.

Houve um momento em que o mundo se desligou da noite e o primeiro efeito foi a perda do contraste das estrelas em relação ao céu. Preguiçosamente amanhecendo. Despertará também ela? Logo a azáfama dos passarinhos. O espaço entre os galos, que se houvera comprimido, volta a se deslocar no tempo. A proximidade do sol deixa a Natureza em frenesi, introdução do rei no salão de festas após algumas danças. Uma e outra revoada. E outra mais. Fez-se uma daquelas ocasiões especiais em que o minuto que passou pouco

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apresenta em comum com o atual e o seguinte terá igualmente atributos peculiares, distando uns dos outros não o período de tempo que os separa mas todos os séculos culminantes no Juízo. O gato se agita, ergue os olhos para o teto como se visse os pássaros, suas garras chegam a se vergar. Que tristeza, murmura a senhora Lens. Seu espírito é levado para um canto mais sombrio do muro onde se erguera o fícus no quintal agora no arrebol imerso. Mas logo ensaiará um sorriso, tocada pela súbita expectativa traduzida pelas primeiras luzes do dia a tangenciar o monte diante do qual o mar bramia seu misterioso refrão de louvores metálicos.

Por um instante, o sol emprestou à varanda do prédio em frente um amarelo vivo na seqüência do canto dos pardais permeado de currueras. Altivez barulhenta de um adejo. Era ainda primavera. No ônibus que se aproxima da cidade, cerca-se Gerard Lange de ansiedade e cuidados, seu coração reclama paz. Ele é a noite, não mais a habita. Podiam ouvir o sangue, Gerard e a senhora Lens, pois as veias estavam abertas. Desejo e receio, sintomas de proximidade. O ônibus passa pela casa. A mulher escuta o motor, a mudança da marcha e a distância. O rapaz fixa o hibisco no jardim, não há muitas flores na

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metrópole. Calado, mal respirava. A passageira da janela oposta fez uma pergunta e após os segundos de praxe, quando ao olharmos um estranho decidimos se nos é simpático ou desagradável em sua extroversão, responderam. Talvez vinte minutos, não mais. Dentro dele, bem lá dentro, entrou o frio do desconhecido. Passa os dedos pelos cabelos. A mulher na cama sente uma arrepio no alto da cabeça. A vida é una. O miado dói; os sons do vizinho – pessoas, portas, vozes – são movimentos engenhosos do tempo. Tudo era a noite; tudo ela, Rose. Mas amanhece e quem sabe o que trará a manhã? Sussurrou, ofegante. Podiam ouvir, Gerard e Rose: que a vida siga em novidade. Em paz. Dormiu neles durante muito tempo esse jeito de ser estranho, sem se saber comum. Mas amanhece. O gatinho entra nas cobertas e ronrona.

O ângulo da luz matinal concedeu um brilho azulejado à sacada. Onde se refletia o sol, surgiu a intensidade da paleta da senhora Lens ao contornar os desenhos de dourado. Tanta luz não podia mais ser apenas registrada. Decidiu dar-se o dia. Descansaria. Descansaria na praia. A rua está vazia. Uma música ao longe estranho incenso se tornou de beleza pairando como os hipérbatos. O ar estava quieto em

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suspenso mas as ramagens balançavam como se fosse ao vento devido aos passarinhos. Em fração de segundo despegam-se. Adiantando-se a hora, a nova posição do sol no céu subtraiu o fulgor da varanda, ofertando-o ao resto do mundo. A filha parece ter perdido de novo a hora da escola. Ou já terá ido?

Michele estava até há pouco sentada perante o oceano, sozinha.

Erguendo de súbito a cabeça, a senhora Lens saiu de seus pensamentos para a contemplação da circunferência incandescente, um gesto orgulhoso da manhã, em contraste com uma mulher mais e mais humilhada, doente, melancólica. Sonolência mórbida. O peito oprimido. Os intestinos trancam a emoção num desconforto que parece a estar inchando. Os lados da cabeça revezam em aura na disputa do lugar em que deverá sofrer sua crise diária de enxaqueca. A natureza ao redor, em sua eflorescência, mostra-se indiferente aos males dos homens. Lá fora, as pessoas caminham indolentes pelo calor. Ela as pode ouvir.

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Necessidade que se impôs de solidão, o amor da arte lhe deu uma fineza doméstica, um porte em casa como num salão de festas. A elegância secreta, a solenidade que emprestava ao ato de sentar, apanhar algo no chão ou no alto do armário, só de camiseta, a maneira de segurar o pincel e monologar – tudo era reverencia, postura. Seminua diante de seus rascunhos, a poucos vê e para tantos vive.

Uma cidade muito pequena, cultuada por artistas, de acordo com a lenda de sua tranqüilidade salgada. Por aquelas ruas andara com a menina, que já não pode deixar de ser notada. Cresceu. Não há de ser um sinal que ela envelhecera. Bom dia, senhora Lens. Certamente é. Bom dia. Caminho de terra batida. Presente e passado estão para se encontrar no futuro e o acorde de pão quente, balsâmico, que chega no ar, no ar chegará ainda quando não houver mais a sua consciência para discerni-lo. Aquela ultima manhã em que existia sem saber de Gerard era também a manhã do dia seguinte, pela lembrança de Gerard transtornada. E a tarde quando o conhecerá compreende a tarde em que apenas o havia visto. Passado e futuro se encontrarão no presente e o amargo da boca desfeito pelo dentifrício se converterá em

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si mesmo quando ela acordar com a imagem de Gerard no dia do aniversário de Michele.

Filha e mãe. A menina está na escola, o celular tira uma foto dela com a amiga. Keshia. Abraça-a. Uma menina bacana. Só um pouco estressada mas tudo bem. A mãe chega do mercadinho, agora faz o café. Presente e futuro. As costas de uma e de outra são fortes, as pernas firmes. A mulher caminha pela cozinha. Nessas pernas. Um pouco acima. Onde antes o desejo, agora a sublimação da tonalidade bem ajustada; onde antes a dispersão, a procura de um novo tempo, não por causa de Gerard, mas ao qual Gerard tão bem se adaptará. Jamais entretanto colocaria outro sobrenome, quando se livrasse desse que como um fardo carregava. Rose. A água ferve, ela está à mesa. No caderno de receitas, cobre e recobre o nome. Rose Ponce . Pequenas alegrias libertas de conceitos arraigados pelo costume. Um melindre se torna catarse, um gênero outro de destino tecido pelos anjos da vontade aberta. A senhora Lens é um enigma à beira do sol de verão. Esconde a vida atrás da vida e tempos adiante.

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Gostava de convívio, queria estar com gente, conhecer melhor as pessoas, saber de seus problemas; mas resistia. Bom que houvesse em Celba pessoas com quem pudesse conversar, a quem pudesse recorrer. Amigos, corre-se o risco de perde-los; mas conhecidos sempre podem se tornar amigos. E amigos artistas são gente ainda mais difícil de encontrar. Então não desgastava seu relacionamentos com os colegas da vila. Um escritor de quase setenta anos, Aleksander, e um músico, Yoran Tess. Sabia seus nomes e rostos, trocava cumprimentos. Seu coração está mais descansado tendo-os por perto. De resto, aceitava sem maior resistências as imposições de sua natureza tímida, exceto pela perspectiva da intimidade com o jovem que inesperadamente chegará para mudar a sua vida – como se no momento em que se cumprisse o clima prometido pelos olhares furtivos a senhora Lens devesse deixar de fazer parte do mundo e a sublimidade do amor se transferisse à dos fenômenos naturais. Como se ela mesma devesse se tornar outra mulher e morrer para si mesma, abandonando o acanhamento de seu espaço de ser e habitando um outro e amplo.

Pesava a educação que recebera. Não adiantava que os valores de seu pai fossem cristãos, de tolerância, se ele mesmo não era um homem

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tolerante. Sua mãe era passivamente feliz apesar dos meneios de cabeça de Rose (similar ao sarcasmo de Michele em relação a ela) que por sua vez não os queria desapontar. O que diriam se soubessem que ela iria se separar? Seguia então a sua farsa. Até quando? Mas se assustou de verdade quando depois de violenta discussão com George acabaram na cama, ela subjugada e – estremecia de pavor ao lembrar – orgástica. Se o marido tinha outras mulheres, isso passava por concessão aos homens. Embora não ligue para ela, tem esse ciúme doentio, morador que não gosta da casa mas é proprietário mas sentese no dever de zelar pelo imóvel. Casquinha de pão. Adoro. Percebera afinal que certas preferências sexuais dele tinham mais a ver com uma vontade real de machucar do que com fantasias ou mesmo tara. O carro estaciona diante do escritório. O jeito como ele lida no trabalho, enganando as pessoas, enoja-a; como zomba das vitimas de seu estelionato. Mas fazer alguma coisa a respeito, ela nada fazia. Levantara-se ele dos infernos para dentro da vida da senhora Lens. O que vira num homem como George? Contudo se fosse diferente, gentil como – como era mesmo o nome dele?, enfim, como aquele rapaz (Reinaldo?) por exemplo, decerto não teria lhe dado a mínima.

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Gritos no quarto. Tinir de copos à cabeceira. Queixas chorosas. Cale a boca! Pulsos arroxeando. Uma janela se abre lá fora. Os corpos se estendem nos lençóis amarrotados.

Tornara-se uma mulher de meia-idade, mãe de uma adolescente. Não tinha o direito de se iludir. Sente-se ameaçada por George, projeta nele seus maus sentimentos inerentes, como a mulher estuprada ao se tornar roteirista violentará as moças de seus filmes. Nossa, já são quase nove horas! Durante algum tempo incorreu no clássico erro de supor que poderia mudar o noivo; noutro período acreditava que a maldade era nele apenas um tipo romântico de rebeldia. Precisa ir agora, antes que a vizinha apareça para ficar de conversa mole. Na verdade, ai dela caso se atrevesse a questionar o comportamento de George, seus vícios e perversões, mas por que ela o tolerava? Aí vinha tanta coisa à tona...

vaidade, comodismo, dependência, ambição,

concupiscência, a droga... A senhora Lens chorou.

Sua arte primava pela linearidade, tudo muito certinho. Mas sua vida era certinha? reta? Totalmente indireta. Sua alma obliqua, suas verdades sinuosas. E o rapaz com quem iria ao paraíso em olhares

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distintos,

as

coisas

transcorreram

de

um

modo

imprevisto,

naturalmente cheio de rodeios. Contornos fragmentários sufocam o tédio confortável e a técnica geométrica. Vendaval que turba as fontes. Matava a perfeição com seus quadros perfeitos. O quanto é preciso se tornar imperfeito para chegar às capacidade artística? É que a perfeição não cria, enfada, é preciso se antes lapidado pela dor e pelo erro. Essa é a graça da vida e a sua salvação, que provavelmente terá um dia uma outra perfeição como coroa. Prolepse, diria que nada existia em si que justificasse a reciprocidade em relação a um homem tão mais jovem, saudável, atrás de quem as mulheres deviam correr. Não que fosse feia. É que as estações a haviam sazonado. Assim faz o tempo com as frutas, queimou a musa dos Cânticos. Estava escrito nas linhas de seus rosto e as carnes de seu corpo o revelavam. Entretanto é esse tipo de mulher que mais atrai homens jovens, não as garotinhas. Se não era linda, com sua boca grande demais e as grossas pernas meio tortas, transpirava o que se deseja inspirar e deixava os amigos da filha boquiabertos. Agora, o jovem sem nome daquele primeiro dia por quem cruzaria diariamente em seu passeio matinal pela praia, aceitou renunciar a ele por uma força ligada à sua capacidade artística. E era essa a força de seu amor, maior que o próprio amor

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assumido, maior que o próprio amor: sua renúncia. Existem tantas cidades no mundo, pensou, por que o destino o trouxe justamente para cá? Está tão cansada. Voltará para casa após vê-lo em frente ao hotel. Está consumida por esse desejo absurdo. Não sabe se é possível mantê-lo imaginário e fecundar a privação. De resto, não surgiu esse desejo com o fim não de ser satisfeito mas de inquietar. Ah! É forte demais. Aniquila. Poderá controlá-lo? Um impulso mais forte que ela? Só poderá descansar após o apaziguar. Respira fundo antes de olhar o ateliê à sua volta. Meu Deus, isso não é amor...

Fora não mais que uma troca de olhares, pensou, quando na verdade nem isso. Mas desde aquele dia em que viu Gerard, absorveu a perspectiva de toda uma vida. Envolvida por uma paixão da qual se julgava imune, decidiu que não transgrediria, em nome da paixão, os princípios católicos dentro dos quais fora educada. A vida estava muito além da atração física. O desejo adquire o tom da esperança e a senhora Lens se permite contemplar. Viu no mesmo desejo aquelas coisas que estavam na vida além e todas de alguma forma residiam na própria paixão. Havia o amor da natureza, a paz do silêncio, o usufruto pleno do que se possui, a gestação de um filho. A arte. Então

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decidiu. Viveria sem o objeto daquele súbito e inesperado desejo, viveria sem sequer pensar nele (melhor assim), em sua voz que dirá

Muito prazer senhora no almoço de Michele; em seu queixo, em seu peito, em suas coxas; em seu olhar que lia os olhos dela, luzes de um farol trazidas à noite pelo oceano que marulhava à janela. O nariz arrebitado e petulante, de criança mimada. Conheço o tipo. Mas nunca assim. Pelo menos agora. Um motivo para o despertar. Um novo tipo de passeio matinal. Sua boca não atrairia a atenção de qualquer mulher mas Rose, a artista, a artista plástica, a artista plástica marginal, para ela a umidade assimétrica da borda rósea refletia o tremor das folhas em uníssono com o seu coração. Por meio da contemplação oferta a si mesma uma vida vicária que deverá ser sua serva ao conter as loucuras de uma paixão proibida. Paixão? Outra vez. O quê? Amor.

Caso pudesse chamar de amor, amou-o desde o primeiro momento. Impossível negar. Amar aquele jovem era um sentimento que corria em suas entranhas como se fosse seu único habitat no imenso mundo.

Estremece

a

cada

evocação

dele.

Amor

então.

O

desenvolvimento esperado do arrebatamento inicial. Bem, deveria ser.

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E se impõe o sacrifício. Não transgredirá. Como será, transgredir? Deitarem-se juntos, talvez na praia noturna. Mas não. Será boa para sua arte a renúncia. Melhor assim. Faz tempo que não pega em seus papéis, nos lápis, no buril. Ultimamente, é ela a própria forma líquida, negra, na superfície oscilante. Seu ultimo quadro fora um estudo confuso onde não desenvolveu uma visão da pintura engajada mas acabou envolvida pelos tons sombrios, deixando-se arrastar por uma crise de nervos que a jogou na cama em frangalhos. Flor cujo viço está prestes a morrer, dela cuida o marido com zelo de jardineiro. Embora gozasse com as floradas novas e seus brotos, não deixara de dispensar gratidão à planta que definhava para dar lugar àquelas geradas da eflorescência anterior. Esteve à sua cabeceira com gentilezas de comerciante que lesa os clientes, de médico que assedia a paciente. A senhora Lens tem pavor desses rasgos de bondade. Nos filmes de terror, o recanto bucólico sempre antecede as orgias de sangue. Era ainda bela sua mulherzinha, serviria ainda por um bom tempo. Quanto às outras, está no homem ter muitas mulheres como está presa no ramo da planta atual a que germinará no futuro. Assim pensa George Lens entre Rose e a Zona Vermelha, entre as jovens frescas da noite e a mulher de 45 anos. Como um jardineiro que ao

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cuidar das novas plantas não percebe o arbusto seco reflorescendo, não percebeu o olhar brilhante do amor, desde o primeiro momento, na véspera do aniversário de Michele, a Gerard dedicado. Tomara que não perceba. Ela não estaria preparada para essa possibilidade. Odeio esse homem. Realmente, como pôde chegar a se casar com ele?

Se não devia fidelidade ao marido infiel, à arte a fidelidade exigida não era a que se aprende por meios morais mas aquele de que se depende para sobreviver. Portanto talvez George fosse necessário para que de algum modo ela pudesse ser plenamente Rose, com suas melhores virtudes nascidas do sofrimento e de grandes alegrias por contraste. Para sempre registradas em suas telas. Ainda bem que existia um lugar como Celba, pensou, ainda bem que havia a solidão, não sobreviveria numa vida social. Talvez George fosse necessário, como o próprio Gerard de outro modo.

Durante a primeira parte da manhã, talvez uns quarenta minutos, permaneceu diante do espelho. Ainda não morri. Nem mesmo estava velha. O fulminante amor que a colhera lhe destinou mudanças, nada mais do que Compreensão. Acontecera um dia com a pintura.

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Está sentada, ereta, com as mãos na região lombar. Olha para as mesmas mãos no reflexo, percebe os resíduos da tinta na pele, como uma

roupa

encardida.

Produzira-se

em

seus

quadros,

essa

compreensão, a partir da mudança da metrópole para a vila de pescadores. Um tom insistente, qual gemido, a que se poderia se chamar estilo. Estica-se para trás, alonga. Geme. Regozijara ao descobrir o caminho a seguir. O mar; os matizes do mar; o barulho do mar; o cheiro do mar; e oh sim tudo encontrava eco em seu espírito de mar. Olha para o ombro esquerdo, nítido, branco e cheio, plena do sofrimento que é forma de vida em extinção. E o que ela – nereida – compreendia, passava às telas, em perfeita simbiose. Quando pintava. Mas não tem pintado. Abre as palmas diante dos olhos. É isso. Leu as manchas de sua pele através das quais correm as veias azuis. Sim, ela o amava. Amará de fato. Ama Gerard.

Talvez o responsável por seu amor seja um tolo. Mas, como não irá se envolver, isso não afetará as profundezas e altitudes. George Lens já tinha saído. Sobe as escadas do prédio. Cidadezinha miserável. Gentinha. Nem sabem o que é um elevador. O alívio da senhora Lens se confunde com o terral que varre o vilarejo para desespero das

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donas-de-casa, obrigadas a levar uma segunda e terceira vez a ultima vassourada pela porta. Tarefa que pode esperar, decide ao entrar no banheiro. E para o almoço mandará buscar uma ou duas quentinhas. Possivelmente Michele nem venha, como está se tornando costume. Lembrou-se do absorvente. O mar, a lua. Ciclos. Pode uma mulher ser livre? Sua vida vai pelos ares agora também respirados por Gerard. Ele não a verá passar quando, depois de falar com o jardineiro, retornar à pousada. Conquanto espere o encontro, e trocar um olhar com a materialização de seu sonho. A visão do corpo maduro e roliço em meio à névoa.

A maré subia. A areia dura registrava as passadas de Gerard, caligrafia tensa do desejo de reencontrar a mulher. No vigor da espuma lançada com mais força, apaga-se a trilha de um dos pés, figurando a laceração, preservação de apenas metade dos projetos que o distinguiram com tão peculiar vilarejo. A paixão o divide. Tudo parece complicado, desde as mais simples tarefas do técnico de informática da pousada. Emprego caído do céu. Viu como é bom fazer as coisas direitinho? Lembraram-se dele para o cargo. Agora porém o rumor do mar mantém-no prisioneiro, nos corredores que esperam a

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temporada. Os pensamentos batem nas paredes, entranham-se na fina grama da entrada, luzem na fachada dórica, volatilizam-se junto ao aroma das buganvílias. Do segundo andar se espalham por toda a parte em cachos rosas, vermelhos e brancos. Porque tudo aquilo, como ele inteiro, havia sido marcado pelos devaneios desde que vira a mulher, de quem retivera o pecado de sonhar. O que vê, ao entrar entre os capitéis triplos do prédio em que trocará cumprimentos com os veranistas, é ela, apenas ela. Seu nome, saberá no dia seguinte.

De agora em diante felicidade passa a ser a madrugada fresca do lado de fora das casas, nas redes das varandas, em uma aldeia de pescadores, olhando as estrelas e criando a manhã de nadar e encontrar uma deusa madura, esperando o sol para segui-lo pelo mar turquesa após um dia desgastante entre pentes de memória, processadores fugitivos, telas pretas e mensagens de erro. Está sentado à janela do ônibus, chegando. A estranha da madrugada vai descer. Que importa? Apenas um evento erótico na vida de qualquer um. Normal. As vozes entranham-se umas nas outras, mais, à medida em que as cortinas vão sendo abertas e o dia entra e entram na cidade. Luz. Felicidade. Aos domingos recostar-se em almofadas no tapete, os

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suplementos do jornal espalhados, agradecendo a Deus por tê-lo encaminhado para uma vida assim. Você estava tão bonito naquele dia em que chegou, mesmo de longe, aliás nem tanto assim. Mesmo antes, ali, olhando o mar a correr pela janela. Ainda não a viu. Mas pressente. O mar tem segredos. A senhora Lens passa no rosto o creme hidratante que já usara no pescoço. O som está ligado. Nick Cave, Tom Waits, Lou Reed, Leonard Cohen. Ele uma vez disse que eram escolhas significativas mas nunca disse o porquê; nunca disse nada além do que um genro tem a liberdade de dizer. Nunca fez qualquer elogio referente a seu físico. Por respeito é claro. Ou nem liga. As duas coisas? Aqui ela separa as roupas sobre a cama no espelho, a bermuda floral que a deixa à vontade sem constrangimentos e a blusa sem mangas, seu uniforme de passeio à beira-mar. O ônibus passa a seu lado. Passam tantos ônibus interestaduais naquele horário. Nem pode imaginar. Dentro dele. Um suspiro. O corpo fala pela postura e pela naturalidade com que a postura se mantém. A roupa fala; o equilíbrio é bom-gosto, revela, função importante no caso da senhora Lens, calada e cada vez mais após a partida de Silvia. Tem todavia vontade de falar. Por isso mais que vaidade a escolha do vestuário.

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Foi esse tipo físico. O jeito simples, o porte, e alguma outra coisa que ele não saberia dizer mas transpirava daquele corpo. Chamou a atenção de Gerard ao despontar na praia quando chegava à cidade, acalentado até então apenas pela exuberância da natureza ao redor. Talvez pudesse ter ali evitado esse destino. A senhora Lens se cala diante dele, à porta. Ela acabou de chegar e perguntar por Michele. Não, não havia como evitar. Esse destino está à janela dos ônibus. Sente no rosto o vento e a chuva que batera contra o vidro durante a noite. Está do lado errado. Com desconforto se acomoda à poltrona. A vida pulsa na solidão tempestuosa. Logo tudo parecerá um sonho. Um desatino atemporal. Quando acordou de manhã, o ônibus deixando estrada e mais estrada e mais estrada para trás, um sol tímido se arriscava em finos feixes. Espíritos do ar se alimentam dos pensamentos dos passageiros e depositam em suas mentes a conjetura que não saberão definir. Gerard emprestou às existências ocultas a força de sua esperança. O ônibus encosta na rodoviária, na verdade a pequena marquise da loja de venda de passagens. Um olhar estrangeiro. Ponto a ponto de referencia, se exalta em arroubos próprios de pessoas em lugares novos. Dava Celba por definitiva em

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sua vida. A visão fugidia do vulto que tanto seria amado iniciou o processo do renascimento do Deus feminino por quem, na beleza do céu agora de súbito entrevisto entre dois prédios, havia na adolescência se apaixonado.

Sem dúvida, o destino.

A música que ainda tocava em seus ouvidos possuía uma dimensão nova, superpunha uma nova alma sobre a antiga. Uma nova realidade repercute nas batidas de seu coração. Enche o peito. O mar lhe faz tanto bem. Amanhã bem cedo dará um mergulho, nadará um pouco, precisava. Quem sabe ainda hoje. Fechou os olhos. A música paira, melodia lisérgica de não-usualidade. Pensar na mulher provoca a fraqueza dos profetas, mistura felicidade e terror. Não se atém à música, ao céu ou o mar entrevisto. Uma historia de incerteza e horror. Agora ele sabe, não sabe como. Agora uma nova consciência. Passeava ousadamente pelo medo da realização das coisas que muito se desejam. Pensa na mulher.

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O alongamento no ato de se espreguiçar interage com o frio na barriga. Tinha a ver talvez com um velho sonho, viver numa vila como aquela, apaixonado. Derramando-se pelos telhados como uma mancha de luz, o sol impossibilitava a fixação no descanso verde de uma arvore, na sensualidade de tijolos vermelhos ou na liberdade de algum azul no céu ou no mar. Tira momentaneamente os fones e, passando por uma casa, ouve vozes enquanto o ônibus se aproxima e depois que se afasta. Estou indo agora, acho que me atrasei um pouco, diz a menina. Rose não iria se aborrecer, não hoje. Disse que estava tudo bem. Que ia à praia. Como assim “vai à praia”, mamãe? Assim: de biquíni e toalha pela trilha (Na verdade está pensando no short branco, a camiseta petróleo e a bolsa branca). A senhora não tinha prometido dar um jeito na minha calça para a festa? Claro. Só não tinha marcado horário. Mas o aniversário é sábado, sabia? Sim, Michele, foi nesse dia que te dei à luz. E você, sabe que hoje é quinta? A adolescente deu de ombros. A mãe estava mesmo ficando cada dia mais estranha. Deve ser a idade. Na idade dela, pensou Rose, eu já teria dado eu mesma um jeito na calça. Ou poderia usar uma calça velha, o que naturalmente Michele não faria. A filha não fez questão de dissimular o olhar que percebeu a estria na senhora Lens, que foi

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discreta ao notar seios e culote brotando de modo um tanto descontrolado em Michele. Tudo bem, mãe, boa praia. Só faltou dizer: Papai não vai gostar quando souber. Obrigado, querida. Boas aulas. Os sons de um concerto marcam no ônibus a distância da casa. Eca, mãe, que musica horrível, resmunga a filha ao sair. Quando você tiver a própria casa poderá ouvir músicas lindas em todos os aposentos. Quando tivesse a própria casa, pensou Michele, seria mesmo sua, jamais dependeria de um homem. Porque era filha e porque era fase, porque o pai tinha algo que ela, porque descobriu. As vozes ecoam em Gerard como se tivesse passado não de ônibus mas a pé. Essa voz. Então lembrou. De seu sonho? Não. Acontecera.

Houve sim a noite no ônibus. Com licença, disse a jovem. E de fato aquela mão. Talvez ele tivesse permitido, talvez não tenha reagido para ver até onde ela chegaria. Mas o quê? Estou pensando em um sonho? Não. A claridade, o cochilo, quase o enganaram. Mas as noites sempre voltam. E ali, de seu descuido, de seu sonho ou o quê. Essas coisas acontecem. Nada demais. São os tempos. É a noite. O aconchego de um Ônibus-leito. Mais tarde algum tipo de culpa, caso não impeça a súbita mão que desliza e permita o contato no encosto dos

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braços comuns às poltronas – logo diálogo de pele, arrepio, a contração de todo o corpo sob o cobertor. Evento oculto dos olhos, ainda que não exista olhar ocupado com aquele lugar no interior do veiculo. Nenhum olhar para qualquer lugar especifico do interior do veiculo. Então os dedos se insinuaram enquanto vigorava a lei dos olhos fechados e do pretenso sono.

Ela entrara na segunda parada e, como já não estava ali ao chegarem, saiu antes da ultima. Há um rio correndo por dentro da cidade. Ela o cruza, pela ponte. Segunda parada. Entrando. Contraponto aos caras grosseiros da rua, o passageiro com aspecto sonhador. Não será algo doentio. Ela lhe apenas lhe dará algum conforto, pois ele parece tenso, quase à beira das lágrimas. Roçar de braços faz despertar. O ruído do motor traduz o quanto na distância ficou a segunda parada. Nem mesmo ele poderia jurar, caso a reencontrasse, que não dormia. E caso se encontrassem mesmo? A cidade era tão pequena. O temor que habita a consciência. Não. Nem se reconheceriam. Ou talvez. Vale a pena o risco? Três passageiros entraram na segunda parada. Uma moça. Os dedos eram tão gentis que mesmo no sonho ele custou a acreditar – se é que acreditou – que

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não era proposital. Movem-se sobre a separação mas já introduzidos no calor. Não há sedução mas momento, não vergonha mas encanto. Homem e mulher, menino e menina. Coisas que acontecem após a segunda parada no silencio das reputações.

Uma réstia de luz entre as cortinas do lado esquerdo de quem entra pelo corredor. Gerard leva um olhar morno junto ao raio até que pousem no perfil da jovem, sim, dir-se-ia adormecida. Mas é dela esta mão. São dela os dedos que procuram. Isso não está certo. Mas o que pode fazer? Há algo que possa fazer dentro do limbo no entorno de um gozo que não se consumará nem na verdade deve se consumar? É apenas o dedo médio, gordinho (das poucas coisas que notara assim que ela se aproximou) com uma pequena ajuda de indicador e polegar. Acompanhando a trilha, a senhora Lens chegará na praia por volta das nove e meia, descanse agora, dê um mergulho, estenda a toalha, tome um sol. Por agora ainda dorme, ou tenta conciliar de novo o sono. Mas o sono é úmido como a areia nas proximidades do mar, como a jovem do ônibus. Agora são todos os dedos. Pressionam, diminuem o aperto, veementes, suaves. Detém-se agora no pulsar que

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ignora as fases primárias do desejo e as complementares, da consumação. Tão natural.

Ela, com freqüência tocada, agora toca; ele nada fazia, se integrava. A mão por dentro do cobertor. Descobre a borda e a leva abaixo no ritmo da estrada e do motor. Um ser triunfante desafia a lã. Em que momento os dedos pararam, se a mão guiou a outra mão, em algum momento esqueceu. Respiração regular de reles mortal. Tudo bem, aceito ser um pouco feliz assim, obrigado. Tardou o necessário. Passou. A voz de Michele, na verdade um resquício da sua voz, fragmento de fragmentos, um acento qualquer, um pronúncia incomum, um jeito de falar, envolve-se no incidente noturno. Bom dia, diz ela assim que ao descer pisa na terra que ladeia o asfalto. Bom dia, senhorita. Vista por um velho sob a arvore que marcava a penúltima parada, o ser que desceu do ônibus parecia um anjo, as vestes molhadas de azul.

No inicio da tarde do dia em que chegara para assumir os computadores da pousada, viu a mulher pela primeira vez. Se Deus tivesse aspecto humano, Deus mesmo, não seu Filho, seriam as feições

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daquela mulher; se tivesse um corpo seria seu corpo, lírio entre as plantas espinhosas. Passeava à beira do mar. No momento em que pousou nela o olhar, desencadeando aquele fogo que o devorou em esquecimentos, a senhora Lens encheu os pulmões do ar salino, enchendo os seios discretos nas fronteiras em V. Ônibus adiante, o ângulo de visão apresenta uma mulher na casa dos quarenta, em exuberância de porte. Erguem-se montes cobertos por névoa floral. Gerard retém a imagem da senhora Lens nos minutos em que está no ônibus depois de te-la visto e antes de saltar.

Chegara enfim.

A senhora Lens passava os dedos através dos cabelos. Pega uma flanela fina e se entretém a limpar as lentes dos óculos. De longe o viu à janela. Sim, um ligeiro tremor, não atração física. Viu a compaixão no olhar do rapaz falando com o jardineiro. Senhor Gerard? Muito prazer. Sou Cronelin. Seja bem vindo. Gerard sorriu, agradeceu. Respondeu. É um prazer para mim também. Pouco antes do verão, chovia mais do que normalmente. Aproximava-se o Natal.

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Gerard. Arrumou apressadamente as coisas no quarto, como se estivesse atrasado para um encontro, e saiu em direção do lugar na praia em que havia visto a mulher. Como o ônibus houvesse dado uma volta naquele ponto, teve dificuldades de se orientar. O sol vermelho busca seu próprio reflexo na linha do horizonte. Logo, sóis estariam se unindo no oceano na policromia do infinito aos pés espumosos das ondas. Chegou ao lugar, marcado por um pé de tamarindo gigante, quando o sol encontrou seu duplo e a noite começou a cair.

Não havia ninguém.

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A tradição determinava que a vila de Celba, com sua orla marítima plena de curvas como as redondezas das versaletes no diário de uma adolescente, fixasse nos que chegavam com a rodovia uma impressão beatífica. O terral sopra à tarde, balançando as buganvílias no forte calor infestado de maribondos, mas pouco o ameniza. Aura de séculos. Hábitos femininos dissolutos. Vendilhões no século XIX vivem do tráfico de escravos. Da estudante à vendedora de balcão, da filhinha de papai à fugitiva, da turista adolescente à radicada madura, as mulheres dali tinham essa essência que as resumia, uma sensualidade vulgar. Para os homens, a principal fonte de recursos da vila era não a pesca, nem o artesanato de conchas, mas o turismo. A maioria dos que moram ali o ano inteiro vive em função da temporada, mas alguns são indiferentes a esses verões. A temporada os incomoda. Era o caso da senhora Lens, pintora em cuja paleta subsiste simplicidade. Com inspiração no cenário natural da vila, ela produzia mais a partir do outono, quadros que a crítica acreditará brilhantes. O brilho literal, Gerard viu do ônibus quando chegava. Qualquer pessoa o veria. Aos olhos da distância havia sim um lirismo que se perderia no

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crepúsculo. Porque Celba não depende da pesca ou do turismo mas da luz.

Essa vizinhança de nativos em seus casebres e donos de mansões para aluguel cumulou-se da mistura que acrescentava à atmosfera maledicente da cidade pequena a perversa liberalidade da metrópole. Na época, Celba contava com menos de dez mil habitantes. Mas há qualquer coisa na comunidade que a faz parecer maior do que realmente é. Em comunidade o mundo que constitui cada pessoa interfere nos outros mundos, como transmissão de rádio. A vida da cidade se expande. As pessoas ali são portanto muito parecidas, esperam a temporada como quem torce por números de loteria, num universo de bilhetes premiados. Quando vêem a senhora Lens, que não é turista mas vai à praia e não se junta para falar da vida alheia, murmuram. Olhem. Lá vem a madame. Gerard tampouco escapará. Arrogante. Sozinho pelos cantos da cidade. Gênio difícil? Não, apenas um idiota. Amará a senhora Lens porque deseja a liberdade que na vivencia cotidiana está além dos relacionamentos. Amará o fruto por ser proibido, não pelo seu sabor? O sonho por ser utópico?

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Celba. Lugar maravilhoso, pensou. Castanheiras. Esperou a manhã. Folhas. O sol num milhão de nuances. Acompanham a orla. A pouca distância dos recifes passavam todos os dias ao romper da aurora barquinhos com dois homens. Verificam a rede, curvando-se para o espelho. À direita de quem chega ergue-se o monte Lagar. Uma falésia surge na proximidade do verão. Ali a praia começa ao sul suavizando a rocha na areia escura. Para onde quer que se olhe, montanhas ou mar. A chuva costuma sumir por longos períodos e as grandes tempestades anunciadas são mais barulho, eletricidade e redemoinhos. Mas isso Gerard não sabe ainda. A população flutuante faz o estranho passar despercebido ao descer do ônibus. Que lugar. Acredita que enfim acertou em cheio. Junte-se à paz turquesa a sensibilidade de um espírito nobre e aí está o principal efeito do lugar em Gerard, semelhante ao que habitou em Rose havia alguns anos.

Oito anos. Veio a convite de um amigo com o qual irá se casar. Quer uma dieta de peixe nas férias e acaba fazendo do peixe, sobre a mesa da casa de tijolos vermelhos, a base de seu cardápio para o resto da vida. Aos poucos, as ruas da vila passam a fazer parte dela. O caminho do mar e a avenida do meio, da prancha da balsa até a lagoa.

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Aflorou a sensualidade por meio da qual Celba promovia a unificação entre as pessoas de bem e gente de caráter duvidoso. Casos mostravam o passional desequilíbrio que a preguiça reprimia, crimes hediondos sobre os quais pairava silêncio. Essa maldição, incorporando-se à existência, torna a mulher sombria e intensa, leva aos quadros a catarse. Motivos crepusculares e lúbricos. Num arrebol lascivo sobe o ônibus pela estrada.

Gerard deixara para trás na capital o emprego de caixa e uma vida luxuriosa testemunhada pelo apartamento que o banco oferecia aos funcionários, no próprio prédio da agência central. Fugia do desejo irrefreável, do desgaste da capacidade estética, da banalização dos relacionamentos. Vislumbra a cidadezinha de um cimo. Viverá em paz, tem certeza agora. Irá guardar-se do mal, do cansaço, da treva. Bem, continuaria a se comunicar pelo computador com o resto do mundo. O velho com a colher aproveita o máximo do mamão partido ao meio.

São Braico para lá das colinas. Os olhos de Gerard, o cristalino sobre a retina e as superposições que registram forma e cor, como

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operários, trabalham visando o descanso. A mulher leva o leite para dentro. Uma outra agora ali. O talhe nobre nasce das luzes. Sem sombra, um relógio de sol. Recortada no horizonte: ultimo pouso do olhar dele antes que a perdesse.

A senhora Lens se livrará da depressão por causa desse amor, mas não logo. Logo, por causa do amor, a depressão se intensificará.

Devido ao itinerário confuso como alguns romances que só fazem sentido –quando fazem– no final, chegaram ao mesmo tempo naquele mesmo lugar, ela pela areia. Ele soube que era ela ou não seria ninguém.Sonho e realidade. Equilíbrio entre a atração física e a admiração de olhos benévolos. A mesma tentativa de sempre. Num outro corpo esquecer do próprio corpo, do terror que ele contém. Era como se aquela moça da noite o soubesse.

Junto dele andariam sempre aqueles momentos no ônibus, como um souvenir de sua estada no auge da esperança, nas horas que precederam sua chegada. Determinados eventos da vida pessoal tem um papel simbólico essencial, como na História os mitos. Agora ele

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tem uma perspectiva e uma atmosfera, o que mais pode querer para um renascimento? São duas vidas que não mais mudarão o poder que as envolve e se expande para todos os seus gestos e contemplações ainda que viesse a conhecer as mulheres que as possuíam, porque nem mesmo a banalização da pessoa que a produz pode invalidar o poder de uma impressão.

Aqui. O prédio da pousada. Mas esperará um pouco, dará antes uma volta. É cedo. Realmente sente-se bem nas ruas da cidadezinha. Aqui até os biquínis parecem mais satisfatórios que os maiôs para os corpos femininos, o ar salino não é pegajoso como costuma ser noutros lugares, as ruas estreitas parecem guardar a cada curva uma revelação. Passos, passos. Quem sabe terá agora um lugar que possa chamar um dia de casa. Caminha porque ainda não está satisfeito, embora saiba que devesse estar. Quer algo mais para esse dia, já que será inevitável guardá-lo na memória. Como a vida pode ser simples e bela. Mal acredita que alcançou tal estado de espírito.

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A temporada portanto dividia a vila de Celba em duas: a do verão, cosmopolita, e a provinciana no resto do ano. Por volta do Natal, em meio a tempestades, da exposição desses dois períodos ao mesmo sol, nascia um corpo rico e rústico feito das pessoas em férias que se ligavam aos moradores anuais, pescadores e comerciantes e a gente a eles ligada, além dos especuladores, obedientes a leis tão imutáveis quanto as que determinam, na semelhança entre pais e filhos, o gene. Gerard chega em novembro, quando a vila apenas se ensaia a temporada, mas pode sentir essas faces. O feriadão está cheio de turistas.

Quando se faz a curva vislumbra-se a vila num prisma plano pela primeira vez. O sol se põe a noroeste nessa época do ano por detrás da cordilheira. O vento sopra quase sempre na mesma direção, fortemente às tardes. O mar é raso durante imenso trecho transparente, quase dá para se chegar às ilhas sem nadar. Branco corte litorâneo, inexato chamar de areia – luminoso chão de fibra ótica termina em choupanas ao pé do Lagar. Um rio corre ruidoso, ladeia toda a rua paralela à avenida beira-mar. No extremo sul repousa a lagoa do Trancoso, reflexos de água doce na pura paz de algum

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engano. Assim se desvendou Celba quando Rose chegou, assim agora retiniu nos olhos de Gerard. Um coração palpita além do que se deveria supor.

Chegou na quinta. Abandona-se agora ao prazer da desfeitura dos hábitos de cidade grande. Estabeleceu-se na pousada. O computador fica do lado esquerdo, junto à parede oposta à da janela. A impressora e o fax numa mesa menor, de fórmica. Móveis anteriores aos raques específicos para computador, que por uma mal formulada questão econômica o dono da rede de hotéis ainda não se dispusera a trocar. Conectado. Viu o rosto que não conhecia. Torne à realidade, Gerard, o que por Deus será de você sem uma mínima base de vida à parte da estética e da sensualidade? A conexão era boa, via rádio, uma surpresa agradável para quem ainda não conseguira se livrar de todo da pré-histórica internet discada. De que adiantava a estabilidade no emprego e o salário razoável? São contas que não se dispunha a pagar, televisão a cabo, assinatura de jornal, banda larga e toda essa tralha de que se diz serem essenciais hoje em dia. Quem disse que o Ipad

não cria novos leitores? Assim teve o primeiro contato com

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Silvia. Ela estará disponível numa velocidade aceitável. Afinal não é um lugar tão primitivo. Um comentário num blog qualquer. Tente olhar mais para a câmera e menos para o seu monitor. Suficiente para se virar e se perder na contemplação do oceano. A nova vida pretendida. O barulho do mar estaria sempre ali para não permitir que esquecesse. Subitamente para quem olhasse, levantou-se. Saiu.

A imagem da mulher o envolve.

Não seria a primeira obsessão amorosa em sua vida mas certamente a ultima. Na qualidade de obsessão se desfará para abrir espaço a um amor autêntico que o entregasse, homem, a uma mulher – que o entregasse, não o emprestasse. Sentenciando-o a amar quando não amasse mais a si mesmo na pessoa amada mas a essa mesma pessoa e, amando, levar ao amor das pessoas em geral, e a essa moça em particular. Uma irmã.

A vista da janela. A inserção na vista ao nadar até os recifes. No quarto vazio o halo de sua presença. Um dia conversava pelo

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messenger com a mulher, Silvia, que agora deixou sozinha no monitor. Falavam sobre

decepção

e abandono, expectativas criadas e

frustradas. Mas no fundo é irrelevante. Os mortos permanecem mortos quaisquer que sejam os motivos da morte ou os sentimentos que em vida alimentaram. E os vivos não tem uma segunda vida. Tentativa e erro, parece não haver outra forma. No mar, a prateação do braço esquerdo ao horizonte. Mistérios ao sol. Matizes oblíquos nos prédios que dão para a praia. A mulher em algum lugar, sob o mesmo sol. Possivelmente perto. Luz obliqua na transversal de sul para norte no lado oposto da ciclovia. Mães e filhas respiram obliquamente artesanato de conchas, búzios furados com alicates de unha colocados no fio de pesca. Palavras e palavras e ainda outras palavras. Maledicência mata. Ah deixa pra lá, o que me importa? Não quer mais carregar os vícios do mundo.

Raios refulgem no jorro da Fonte Sarracena. É possível reter apenas a beleza das coisas. Mas... Há a lateral plúmbea da igreja, a parede rachada cheirando a urina. Verdes pedaços velhos de rede, maços de cigarro amassados, guimbas, seringas. Ocultas pela triste parede as lágrimas do padre aidético. Será a vontade de Deus?

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Escurecia. Esticam-se as sombras de prédios e pessoas. Aqui um homem foi morto por nada. Agora Gerard sai da água; agora a senhora Lens está em adiantado caminho de volta para casa. A pousada momentaneamente não tem cor definida. Como o dia passou rápido. Nos telefones públicos em frente ao posto, o entardecer inspira jovens turistas a enaltecer Celba para seus familiares. É um lugar muito bonito, uma vilazinha bem legal. Tá bem, meu filho, se cuida, dizem que aí rola muita droga. O rapaz sorriu fazendo sinais para a namorada. Beijam-se. Mal podem esperar a noite e quem sabe não esperem mesmo. Ainda não sabem que o amor deve ser um porto seguro, não aventuras de cais. Os velhos fios de cobre sobre suas cabeças transmitem confissões, mas esse rapaz entra novamente na pousada sem ter descoberto o que buscava. Dois carros passam muito rapidamente após ter ele atravessado a rua.

Uma estrela desponta e depois outra irrigadas pela lembrança da moça do ônibus. Mas a inspiração não é tão firme como entre os dedos dela. Nem sabe se caso precisasse poderia manter atividade. Era ainda novo, deve ser resquício das drogas. Deus também o poderia estar castigando pela promiscuidade da qual fugia. Claro, haverá uma

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recompensa a longo prazo pela iniciativa de mudar, por querer mudar. É o primeiro passo para tudo na vida. No casamento decerto estaria curado. Outra estrela. A história se fecha na pracinha do cemitério, o amor conhece o esquecimento nas lápides. Gerard lembrará um dia. Dava para ver jazigos de sua janela. A senhora Lens passou por ali no caminho de volta. Gosta daquele silêncio. Lembra da noite anterior e não sabe mais o que fazer para evitar a aspereza diária em seu canal ressecado. Os beijos pelo menos são cada vez mais raros. Nem a preliminares George se dá mais, apenas a penetra rasgando, arrogante viagra. Ele apenas se serve de mim, sempre me usou, sempre apenas me usou. Mas não tem forças para romper com aquilo.

No recém-inaugurado shopping enforcam o feriado no cinema ou na praça de alimentação. A senhora Lens chega em casa pensando que Michele estaria. Gerard acabou de tomar um banho após nadar, senta-se diante do computador. Começa a digitar, clica e o contato se faz. Sílvia. Médica. Ao menos se dizia. Do outro lado da tela, distante de Celba e mais perto do que a telefonista do hotel, a mulher soltou os cabelos negros que caíram à altura dos seus ombros.

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Doutora, não mentira. Chegou a ser a mais jovem infectologista do Centro Médico de São Braico. Da arrogância dos colegas nasce o desejo de sumir, recomeçar. Não será jovem outra vez nem terá mais essa pureza. Quem sabe. Uma nova forma de relacionamento na luz baça dos dias. A alma se derrama pelo espaço, mantém-se assim viva. A simples consciência de que esses jovens existem faz com que Silvia suporte melhor suas frustrações e estados depressivos, motivo de constante preocupação de seus amigos, especialmente de sua melhor amiga, Rose Lens. Talvez, pensou, se refugiasse um dia naquela Celba de sonho. Trabalharia, quem sabe, no hospital municipal. Conviver com tamanha incidência de contágio levaria ao esquecimento de si mesma. Pensava nisso insistentemente apesar do alerta da senhora Lens: o lugar é perverso; as pessoas, traiçoeiras. Rose era infeliz no casamento, evidentemente isso reflete na sua avaliação da cidade natal do marido. Me lembrei que vou ter que dar um telefonema – leu Gerard na tela. Mais tarde nos falamos .

Mas voltemos à imagem da senhora Lens tirando os óculos. Penderam em seu peito quando a voz grave atendeu o telefone. Na sala de estar, cujas paredes mantém uma tonalidade íntima entre o amarelo

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e o vermelho, nuances quentes acolheriam quem entrasse. As lâmpadas alógenas abandonavam o foco sobre os quadros: Goya, criança e animal; abstrações de Mondrian; uma foto de Evgen Bawcar; e o “Vinhedo Vermelho”. Na parede oposta, o auto-retrato da senhora Lens, implacável em seu nicho sobre a lareira, colocado ali no transcurso da vaidade juvenil, na inconsciência da passagem do tempo ali metaforizada pelos matizes vindos das cortinas. Modificam o ambiente pela transformação do dia mantido do lado de fora. As almofadas de cetim espalhadas pelo sofá cor-de-terra marcavam de retângulos o carpete, cheias de motivos esverdeados e triangulares, à espera de que a senhora Lens se estenda para passar seus cansaços. Seu rosto no enquadramento de fundo cortinado juntou-se ao arranjo de flores secas.

Estava deitada, lendo sobre Cézanne, quando o telefone tocou. O caleçon azul de seda mista se ondula deixando adivinhar as formas das coxas em luz de lâmpada no tecido. O sutiã bege encheu-se quando inspirou. Quem poderia se deleitar com a visão, uma vez que a senhora

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Lens estava só, como sempre? Vestia-se para si mesma há muito tempo, desnudava-se para si mesma. Ao andar pelo tapete, seus pés pequenos o marcavam.

Como Rose estava? Era bom ouvir a voz de Silvia. Há quanto tempo. O que tem feito? Silvia queria falar do que gostaria de fazer. Quero te ver, ir a Celba. A senhora Lens respondeu animada que, claro, lhe daria muito prazer. O George não vai achar ruim? O George não vai achar nada, diz a senhora Lens e pergunta quando Silvia estava pretendendo viajar. Um pouco antes da exposição. Quando você vai para os Estados Unidos? Poderiam ir juntas. Sim, iriam juntas. E as coisas? Iguais. Você precisa tomar uma decisão. Não era nada trágico. Ele a maltrata? Maltratá-la seria estar consciente de que ela existia. Silvia se pergunta como Rose pôde casar. A senhora Lens pensava que o noivo era apenas um homem rude. E pensou que poderia dar um jeito nisso, que podia ensiná-lo. Bobagem, as pessoas não mudam. Quem dera ele fosse de fato só um homem rude. E a menina? Está bem de saúde. Sabe como são os adolescentes. O que esperar deles? Silvia podia imaginar? Fui ter uma conversa ela, achei

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que estava exagerando na maneira de se vestir, com biquínis minúsculos, shorts enfiados e... – A senhora fala como se eu fosse uma

predadora — dissera Michele na ocasião . – É exatamente o que está parecendo! – Fale pela senhora, mamãe!

Silvia lembrou que elas

também haviam sido adolescentes. Faz tempo... Nem tanto.

A senhora Lens estava feliz. Para quando devia esperá-la? Segunda à tarde? Tudo bem. Assim terei mais tempo, disse a senhora Lens. Michele estará na escola e George no trabalho. Será bom rever você, disse Silvia. Tenho novidades. Alguém? De certa forma. Como assim? Quando chegasse, conversariam. Mas você sabe, adiantou Silvia, que eu tenho um computador em casa. Vadia... Silvia dissera que ia comprar um para trabalhar! Lidar com homens é um trabalho exaustivo. A senhora Lens pensava que a amiga os tivesse deixado de lado. Como Silvia disse, é um homem apenas de certa forma.

Nas pausas, a senhora Lens podia ouvir o refrão do mar, sempiterno. Também escutava-o Gerard ao desligar o computador. Desejaria retirar todo o prazer da melodia mas contentou-se em ter a intensidade de percepção possível. Não era capaz da plenitude dos

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sentimentos que a sublimidade música pode passar. Perdeu-se no céu parcialmente estrelado, pensando na mulher da praia. Ela caminhava pela areia úmida com jeito de nereida, uma rainha, na areia como se nas nuvens, a carregar o paraíso consigo na brisa de novembro. O rosto desenhava-se em proporções características de bebês. Os olhos eram grandes e muito abertos. Gerard não tinha certeza mas, acreditava, castanhos. Não era um rosto fora do comum mas irradiava beleza de aura. Deusa despercebida, não para Gerard, insone que adorava os filmes de Hanna Schygulla e lia tanta Clarice Lispector. O porte vestal admitia um corpo talhado para o amor. Cabelos e pescoço, seios e coxas, pés e mãos, tornozelos e ombros, costas e barriga — como se o amor existisse não em si mesmo, mas naquele corpo. O acesso se dava não por conhecimento mas imaginação. Viu-se diante dela, nos montes abrigando-se da solidão tempestuosa, na austral curva descaindo no vale sombrio. No corpo que gerava a fantasia de Gerard, a senhora Lens sentiu doer as costas e passou a mão direita em sua lombalgia. Tornava-se crônica. Falando em homem, Silvia perguntou como estava o Renaud. Renaud? Aquele, de que você me contou uma vez, o da festa, havia esquecido? Ah. Veja há quanto tempo não nos vemos! Mas você existe, está aí, eu sei.

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Uma reflexão. Tornavam-se raras. Silvia sente a falta física das pessoas. A senhora Lens não tem muitas pessoas das quais devesse sentir falta. Por que não se separava? Michele o adora. E a ela mesma, Rose, quem adora? Quem ia se sacrificar por ela? É minha filha, Silvia. Não pediu para vir ao mundo. Droga, nem você! Precisavam mesmo conversar. Os filhos crescem e será tarde. A senhora Lens bem o sabia. A gratidão dos filhos não deveria ser suficiente para encher a vida dos pais. Rose era jovem, atraente. Silvia devia estar brincando. Não estava, ora, trinta e quantos? Quarenta e cinco. Silvia estava nessa faixa e se sentia desejável. Tinha tempo para isso. O mal das mulheres casadas é não se permitirem ter tempo. Na verdade George era bom com a senhora Lens. Na verdade era um canalha dissimulado. Era bom com ela: o que fazia fora não podia mudar isso. Mas muda, disse Silvia. A menina o adora, respondeu Rose. Assim voltaram ao princípio. A senhora Lens não podia afastar a filha do pai. Sabe, disse Silvia, o mais curioso é que às vezes te invejo. Realmente estava brincando. Não brincaria com isso. Você está num contexto normal – as mães são dependentes e as mulheres se sacrificam. Estão excitadas, perdem todo pudor entre si. A

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que contexto pertencia Silvia, dos artistas marginais? Uma como a outra, uma nos olhos da outra e tão distintas. Artista? Silvia suspira ao pensar que talvez. Quem larga a medicina para se aventurar na literatura. Cartas tão poéticas, sem contar o livro. E se aventurar, simplesmente. Parta Rose as portas estavam sempre abertas. Nunca uma fila de banco. O que sabia do sistema de Saúde ou como funciona a Educação no país era só informação. Nunca desempregada. Uma vida ao longo da vida quase da vida separada. Michele chegava da escola.

–Vou ter de desligar – diz a senhora Lens.

Estaria esperando a amiga.

Desde que levantou-se da frente do computador, Gerard cumulara o rosto de indagações, buscando algumas respostas da memória e outras da esperança, além de um tanto relevante do desencanto, que no limbo em seus olhos refletia, entre o que não acontecera e o que não fazia diferença se tivesse acontecido ou estivesse

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para acontecer. A sensualidade de Silvia existe sem um corpo e sem um rosto, e há essa prova de que pode curá-lo, mas não o entusiasma tanto. E, é claro, nada que se compare à mulher. Ainda assim. Dra. Silvia... Um raciocínio lógico demais para idéias tão ardentes. Um ritmo, dir-se-ia. E a tal amiga, apresentando-a como vítima, estivesse talvez justificando seus desvios. Mulher só trai quando o homem dá motivo. Ele associa. A mulher. Jamais daria motivo acaso eles. Eles. A senhora Lens pensa no rapaz. Vê. Namorada eterna, desnudada para alguém. No rosto se ilumina um prazer não sentido, disperso pelas feições do rosto dele. Como nada soubesse dela exceto o físico, os perfis conforme o ônibus passava, Gerard, deslocando-a do desejo para a simples memória e desta para a saudade, colocou-a assim ao norte de seu amor.

Adormeceu.

O ruído que o arrancou do sono e o devolveu ao mundo era um bando de adolescentes na rua da praia. Naquele tempo os filhos eram tiranos. Os pais poderiam ser responsabilizados? A época? Em todos os casos? Com a menina fora assim, era assim. Os Lens não

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perceberam que Michele se tornava mulher. O pai antes da mãe, depois da coisa consumada. Espera um filho homem. Ignora a criança pequena e da maior sente raiva. Na jovenzinha todavia presta atenção. Ela mostra alegria com o súbito pai. Um silêncio pairou de uma hora para outra. As vozes e passos dos adolescentes crescem na praia.

À evocação se junta uma voz feminina que contava a noite anterior.

Gerard percebe a ereção matinal. Já não é tão firme. Deus meu, a verdade é que pode simplesmente ser impotência. Acontece. A senhora Lens lembra com desconforto da noite anterior mas não lhe ocorre a idéia de evitar a assiduidade do sexo. Prostituta, chegaria a pensar se um som qualquer não desviasse o pensamento.

Michele se comprazia em ser em tudo o contrário da mãe. Torna-se alegre, falante, além do que desejaria. A senhora Lens é reconhecidamente virtuosa. Mas alguma coisa detém a menina quanto a outros vôos. Beijinhos aqui e ali, ficando com um e com outro, como qualquer menina de sua idade, nada passível de conseqüências. Se

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guarda para alguém que se pareça com o pai, tão másculo e generoso como ele. Alguém que não olharia para sua mãe. Quando olhos deslumbrados se voltam para a senhora Lens, a dor adquire tons de traição. Não acontecia se o rapaz em questão se interessasse por uma de suas amigas.

Educar Michele era um dilema. A senhora Lens não quer retroceder à sua própria educação, repressiva; tampouco retirar necessários limites. Um calafrio. A menina, o choro após tantas horas na maternidade. Essa menina. A verdade da vida. As vozes na rua se multiplicam, quase gritos, chulos. Será Michele tão pouco exigente quanto a seus amigos e namoradinhos? Será capaz de se apaixonar por um desses meninos vazios, como ela própria por George? Quis se apaixonar, na verdade. Quis sair de casa a qualquer preço e ah o preço que pagava!... Mas Michele era livre, independente. Fumava de tudo, bebia cerveja, saía quase todas as noites e a hora determinada de voltar era só uma formalidade, uma lei a ser transgredida. Pessoas como George só se impõem quando pessoas como Rose o permitem. Quando a senhora Lens reagiria?

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Os grupos passavam. Normal a estupidez, sadia a falta de educação, a dureza, a leviandade; os vícios e os maus modos, sadios. Gerard perto de um ser que não será. O que exatamente? Intui que deve atentar. Poderia ser ele, poderia estar ali. O tempo. Bons, maus tempos. Sabedoria de alguém que deseja ser mas está longe. Atraente ainda, talvez, triste desse jeito, sonolento ainda, atento. Safa-se, graças talvez às muitas mulheres, ou são só um reflexo, só um reflexo. Cansam-no, elevam-no, fazem-no esquecer e lembrar, intensamente retorna a infância, mas agora é diferente. Depois de tantas, não mais a mãe? A nova fase se inicia nesta escada. Desejara a senhora Lens sem conhecê-la, desejara-a desde o primeiro momento, ardentemente, desejá-la-ia sempre. Precisa vê-la de novo. Até certo ponto é ainda sonho adolescente mas já há um ingrediente real no querer. Teria sentido assim há dez ou quinze anos, mas agora havia sim um estranho progresso no desejo. Em que momento o sexo se torna amor? E a perspectiva do sexo uma introdução ao amor? Que possa, ò Deus, ser como imaginara um dia: que essa revelação do amor, dessa outra face do amor, presa à carne mas não só, ligada ao próprio Deus (paixão mais antiga, êxtase do crepúsculo), que pudesse ser assim, como a visão da praia se abria da porta da pousada, na aura de um sentimento

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abrangente onde coubessem os detalhes mais pequenos, revelados em cada segundo. Por favor. Estava chegando a algum lugar. Não, o tempo não destrói todas as coisas. Não era tarde. Rondando o casario, a eletricidade anuncia a tempestade. Quem sabe essa cairá mesmo pra valer. Michele adora a chuva. Passa horas vendo as gotas nas poças ou contra o vidro e escorrendo. Apoiou os cotovelos, apoiou o queixo, respirou fundo. Agora está sonhando com outro mundo. Como percebeu que era mulher, em que isso a mudara. Realmente sair na chuva a fascina. Mistura-se aos turistas anônima. Por pouco tempo. Seus amigos. As meninas de patins e os meninos de bicicleta. Ela era a única de carro, embora não tivesse carteira. Michele, eu disse que precisava do carro hoje. Papai ia à zona de novo? A cara de George se fecha, se Michele tornasse a falar assim ele a rebentaria. Mas ela fala a verdade, como eles a ensinaram. A mão desce e surge Joana, um filete em seus lábios treinados. Ele podia bater, isso, me bate, me mata. A senhora Lens interfere, sabe o peso daquele tapa. George manda a mulher não se meter. Não ouviu o que ela falou? Rose pondera com o marido que nada justifica a violência. Lembre-se de como odiou seu pai. Ele se lembra e odeia a mulher. Era para isso que desabafava, para ela usar as palavras dele

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contra ele mesmo! Ora, e logo quem vinha falar em família. O pai de Rose era patético, não se importava com ela, por isso não lhe dava disciplina e fazia todas as suas vontades. Deixa-os, Michele.

Meneia a cabeça e se afasta. Preferia mesmo sair a pé na chuva, mexia com o seu metabolismo. Na rua, algazarra. Vindo na direção da turma o professor Delano teve um instante de estremecimento. Todos o cumprimentam, devolve a saudação. Evita o olhar de Michele. Segue para a casa de Liana, a diretora. Na sala vazia, a adolescente aceita o atrevimento de um colega, beijos, mãos sob a saia e sob a blusa. O professor. Ameaça-os. Manda o rapaz à secretaria, pega o celular. Michele descomposta, e agora? Devia comunicar ao doutor George o despudor da filha? O vento redemoinha no pátio quando sabe estar no limite do risco, de um definitivo e desnecessário risco. Não seria preciso. Ela faria o que Delano quisesse.

O sinal de saída, o burburinho no pátio, o prédio vazio. Menina má. A mesa em frente da lousa. A mão masculina, peluda. Os cuidados simplesmente esquecidos. Boa menina, nascida de um delírio muito anterior. Ela está à vontade, não se sente minimamente usada.

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Mais que isso, adora. O som se repete menos grave. No meio do sulco, dedos que escapam. É quase uma carícia que se dilui pelo arrepio. Há uma forma de escapar do castigo, na casa dele, não, melhor num hotel. Lá, ela sabe o que fazer mas o professor precisa continuar dando ordens. Isso, desabotoe, tire, melhor assim. Ela já está cansada, é óbvio que conseguiu. Pode então abreviar o desfecho e quando se aproxima do tecido inequívoco, Delano não tem mais o que dizer, ela sabe o que fazer, sempre leva a melhor contra as amigas, o primo de Keshia como cobaia feliz.

Desde aquele dia, Delano a respeita muito mais do que deseja.

Nos dias seguintes ela sonhou. O gosto do professor, nem assim desarmado. A lousa cresce diante dela, inclinada, marcada. Ele a segura e abre e é quente quando lança de si dentro dela, e ela estremecendo boceja.

Michele não se envergonhava. Dava graças por ter um lar e não ser maltratada como tantas meninas de Celba sem chance sequer de brincarem de médico, já nas ruas atendendo a anúncios, trocadas por

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droga quando não por comida, violentadas por autoridades e caminhoneiros, viciadas em crack, grávidas, mortas. Michele sabia se defender. Liana escorria pela toalha, os vira de longe. Tinha certo orgulho de Michele, a menina que Liana mesma fora um dia.

O professor passou. O céu havia se aberto. As primaveras estavam mais e mais vivas. O mundo estava vivo. Gerard deteve-se nas meninas que passando arquejavam no falar ininterrupto, doces anátemas, carne de agouro. De perfil sonhador a primeira tinha os cabelos presos e brincos enormes e a blusa era tom sobre tom em pouco tecido. As nuvem passam e continuam a passar. Quando o luar incide sobre a pele da segunda, uma tonalidade escura, leitosa, surge do meio do decote, prometendo sacrifícios. Longos cabelos negros entornaram a terceira na sublime cena. Um vestido preto de alças largas obriga à sedução sem permitir que a criança seja de todo abandonada. Ela nada sabe. Deve ser mesmo coisa da moda. Quando caminham as pernas próximas se juntam, gambeteiam. Destacando-se, reinou a presença de Michele captada no limite do pudor sob a lua no desenho da boca e dos olhos escuros. Gerard quis notar certa semelhança mas não, nada que se comparasse. Na mulher havia mais que elasticidade, mais que

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plasticidade e tono, havia experiência, equilíbrio, entrega. Um movimento no sentido da dor; do desejo e da privação; da idade e do renascimento.

Os olhos pousados em Michele. Passa uma freira e chega uma canção. Imaterializa-se pela melodia. Nos anos futuros quando pensar em como a conheceu a canção terá a interpretação dos acontecimentos. Insistirá a lembrança da festa na casa do melhor amigo, o filho do embaixador. Então sim, a semelhança será inexorável.

Esquece a balbúrdia que no primeiro dia na vila lhe roubara a paz. Não quer mais paz. Adolescentes têm virtudes e defeitos como todos e, entre as virtudes, a naturalidade em relação a todas as coisas sem apologia ou discriminação. A praia não estava decerto propícia à contemplação das estrelas ou ao banho de mar. Vacilou. Depois decidido desceu. A chuva miúda só era visível na lâmpada dos postes. O bramido do mar se intensificava com a cheia que chegava quase na calçada, reduzindo a nada a faixa usufruível de areia. Os garotos eram gente boa, estavam apenas confusos e, de resto, quem não está? Oi,

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cumprimenta. Aproxima-se. Pergunta se pode passar no cigarro que era partilhado. Eles disseram que tudo bem, chegasse mais.

Michele estava sentada nos calcanhares, as ondas nos joelhos, anunciação tensa de um ciclo. Os pelos oxigenados ornam a grossurinha de coxas. Gerard segura a fumaça. Não deve permanecer mais que o necessário, nunca se sente à vontade. Se o tempo passa e as coisas mudam, algo permanece. Como um jornal velho que louva um artista agora no ostracismo.

Devia subir e esperar nova mensagem de Silvia mas a conversa com a turma é real, cheia de vida. A jovem pergunta seu nome. Responde e devolve a pergunta. Ela responde. Sorriram. Conversam. Há nas cidades uma migração interna para os bairros da moda e como eram feios os bairros da moda! Agora com os prédios históricos ameaçados será triste o fim de capitais como São Braico. Não demora aqui mesmo em Celba tudo será apartamentos. O passo da menina é lento, é possível ouvir a chuva. George procura Rose pela casa, viu onde deixei as chaves? Estão sozinhos, ele a empurra para o quarto.

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Pede desculpas pelo que disse sobre o pai dela, jura que a ama. Seria diferente com outro? Tudo é sempre igual com homens, tudo se repete. Coisa horrível, né? Keshia sorri sem alegria. Desumano o agrupamento demográfico, a poluição. Gerard concorda. E a solidão, a solidão das cidades. Silvia já está on-line. Que barulhinho irritante, resmunga um hóspede. O hotel é um exemplo estranho do que dizem. A desproporção das escalas. Keshia diz que queria ser arquiteta. Bem, tem todo o tempo e oportunidade para isso, sim, mas não sabe que tipo de arquiteto existirá quando adulta. Gerard tem dúvida. O homem está preparado para os mundos abertos pelo computador? Tecnologia de ponta supõe seres de ponta.

Aos poucos se afastam do resto do grupo. Ela pinga colírio e oferece. Ele agradece e devolve o frasco. Direitos autorais, jornalismo, o mundo do emprego – o futuro é imprevisível por causa da internet. Keshia se lembra de uma coisa. Só há um cybercafé em Celba. Quem sabe seja um bom sinal, que a vila ainda tardaria a chegar no desumano progresso de São Braico. Não é mais questão de classe social. Todos têm suas sentenças.

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Ele podia imaginar quem ela encontrara num ônibus em São Braico? Keshia, sem esperar resposta: a própria princesa. De ônibus, imagine. Indo trabalhar. Faz-se silêncio e depois, sorrindo ao olhála, Gerard diz que ela uma menina madura. Imagine. Apenas leio os jornais de domingo. Sim gostava do que qualquer jovenzinha normal costuma, de dançar e paquerar, estudar e chocolate, pensar em sexo e projetar o futuro, festinhas e orkut. Blog era um outro nome para o diário que Anne Frank consagrara, DVD era ainda cinema. Por outro lado, a inquietação típica. O desejo de se apaixonar, o medo de ter filhos, de não saber combinar as roupas, de espinhas, do peso. A vergonha de ser diferente, a ignorância quanto às doenças sexualmente transmissíveis apesar de toda informação. Até mesmo o velho conflito de gerações. Senhorita, aonde você vai? Ia onde todas iam, fazia o que todas faziam. Em casa tentava ter a vida interior da qual fugia na rua e sozinha no quarto chegava a meditar. Gerard a olhou mais demoradamente quando ela se distraiu com uma mariposa. Uma boa menina. Ao menos parecia. Mas do que realmente gostava, o que a emocionava? Ah. Adoro música e pintura, minha mãe é pianista e estou começando. A mãe de Michele é pintora, faz quadros lindíssimos. E você? Gerard respira fundo. Era muito ligado em

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tecnologia, amava computadores, trabalhava com computadores, possuía um. Conhecia os perigos, a possibilidade do vício sempre à espreita. Keshia perguntou quantos anos ele tinha, sabe Deus devido a que tipo de associação. Vinte e nove. Gerard tinha 34. E ela? Dezenove. Keshia tinha 17.

Sentaram-se à beira-mar. A equipe de reportagem sai da cidade. George no noticiário da noite e no suplemento cultural. Criara uma menina com liberdade e senso de responsabilidade impossível numa cidade grande. O pai de minha melhor amiga apóia a idéia de ela estudar em São Braico. Só ficará contra quando souber que Michele se hospedou com Silvia. Puta que o pariu! Na casa daquela vadia? Que tipo de mãe era a senhora Lens afinal? Silvia é uma mulher de bem, responsável, temente a Deus. As mulheres da Zona Vermelha também. Isso George deve saber bem o quanto. Ele próprio no jornal de domingo promoverá a gratidão ao Senhor – louvado seja eternamente – por nunca ter Ele deixado de o inspirar, Deus e George numa parceria perfeita. Keshia conta a Gerard como o pai de sua amiga pregava a beleza da serenidade e do amor, tanto nas suas obras como nas que aceitava bancar como editor. Pela casa que tem, deve ter

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um excelente faro para a literatura. Mas Keshia não gostava de ler. Domingo, Gerard comprará o jornal. Na foto da matéria, o homem moreno e entroncado vestido de modo simples, jeans e camiseta, nenhuma garrafa visível. Estava com o braço apoiado na mureta da varandinha onde, quando estendia a rede porque sozinha, a senhora Lens se acomodava no linhão como numa placenta. Um dia te levo lá, Gerard.

O monte domina a paisagem na neblina, a praia noturna. Quase madrugada. O tempo se firmara sem abrir. Procuram em vão uma estrela na fumaça. A percepção provocada é plena; a rotineira longe disso. As plenitudes de Gerard e Keshia comungam. Seria bom que a gente fosse assim toda hora, sem efeito. As mãos se tocam, os dedos sentem-se e um pelo outro a paisagem, a noite. Keshia suspirou inaudível. A Michele é uma boa amiga. A Michele está de olho em você. A Michele, nem percebi. A Michele lembra mesmo alguém. Ela tem essa tendência, sabe, de se interessar por rapazes bem mais velhos. Isso hoje é um problema sério. As meninas que querem se provar, saber seus limites, se podem mesmo conquistá-los. Ou pela estabilidade financeira, pelo carro, para não terem de depender da mesada dos

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pais. Mas será crime para eles. Suspirou novamente. Seus seios adultos. Gerard não deixará que ela concilie o sono naquela noite, como o grilo para quem já está insone. Michele, ei-la se reaproximando. Diz “Gerald”. Gerard, corrigiu ele. Ah sim pois é, Gerard. Venha na festinha de meu aniversário. Só não esperasse muita coisa. Era apenas uma reunião para os amigos mais íntimos. Ele se sentia honrado. Elas riram por dentro mas até acharam bonito aquele jeito solene. Nos vemos então amanhã. Meigo o sorriso de Keshia. Afastou-se com Michele. Ah. A casa era em frente ao parque de diversões, a das buganvílias vermelhas, não tinha como errar. Já de certa distância Michele quase gritava. É só perguntar pela casa do editor, todos conhecem.

George era de fato conhecido, reconhecido na rua. Poucos gostavam dele mas todos gostavam de dizer que era um velho amigo. Eu não saberia dizer se é possível aqui incluir uma ou outra mulher com tendências masoquistas, pensou Joana. Estava três quilos mais magra, as olheiras enegreciam hora a hora, envelhecia um ou dois anos cada mês. Não ainda a que Gerard conheceria mas ele todavia a achará bonita. Um bom rapaz esse Gerard, o forasteiro. Conhecido de

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todos, a lisonja chegava em George fragmentada e se unia dentro dele feita vaidade. Então como pode uma mulher da vida demonstrar esse desprezo? Como todas, naturalmente gosta mesmo é disso, de ser fodida e apanhar de seu homem, mas vão fingir que não, que são santas desviadas. A maior razão de sua antipatia em relação a Gerard não terá a ver com sua mulher mas com essa fama. Ele entra em sua casa e não demonstra reverência, nem poderia. Estava olhando algum detalhe do vestido de Michele quando ela falou do pai. Mas isso se dará no dia seguinte. Agora George bebe a terceira dose enquanto faz contas e pesquisa na internet. Retorna ao Google para atualizar as suas citações. E nem mencionam o grande amante. Rose sucumbira depressa e não é para qualquer um fazer com que uma prostituta se apaixone. Claro que estava apaixonada desde o primeiro encontro. E nem conhecia ainda seus truques viris que levam as mulheres a implorarem mais, tudo, ou piedade.

Não perguntará pela casa de ninguém, decide Gerard. Sairá cedo e descobrirá sozinho. Aproveita assim e conhece a vila. A cadência do mar envolvia todos no abraço da noite. Volta para a pousada. Deita-se e, ainda rolando de um lado para outro, amanhece.

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Todas as coisas amanheceram ensombradas. Com que forças levantará? com que energia fará qualquer coisa? Não sabe se é desespero ou só consciência. Tudo, até a ausência de George é mais presente que qualquer outra coisa ao redor. Desde que ele quase nunca estava em casa, que andava com outras sem fingir inocência, e ultimamente com essa talzinha, a senhora Lens não tinha desejo senão definhar como definhava, apenas mais rápido sim podia ser mais depressa. Mais depressa. Não raro, Joana caminhava pelo quarto à noite e pensava que tinha piorado, mas está apenas abrindo gavetas, procurando um bibelô ou a poesia marcada pela pétala entre as páginas.

Não o gozo de um paraíso póstumo mas apenas a janela e a brisa da manhã. Gerard apertou os olhos enquanto se encolhia debaixo das cobertas. Conforme despertava, o universo ia se renovando na consciência da hora em que estaria na casa de Michele. Uma menina atraente, simpática nem tanto. Mas a simpatia de Keshia fará deles

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irmãos, como costuma acontecer. Ela não teria desejado isso. Mas sabe o quanto Michele sempre leva a melhor com os rapazes. Sabia que estava mesmo engordando e não sabia mais o que fazer a respeito. A senhora Lens costumava dizer Não Keshia, imagine, você está linda – Mas a senhora Lens era uma pessoa extraordinariamente gentil, não dá pra acreditar em tudo o que diz com seu belo sorriso nos lábios. Gerard pensa que o sorriso de Michele sem dúvida lembra alguém, decerto não uma outra menina, sequer uma moça, mas uma mulher mais velha. Para Rose, que resolvera fazer dele apenas um motivo, não importa que idade tivesse agora ou daqui a quinze anos. Sublimação. Por isso começou a pintar. Não imaginara chegar tão longe, nem com a pintura nem com o amor.

Imaginou o solene desdém com que Silvia trataria esse tipo de relacionamento. Amava Silvia. Admirava-a. Seu coração sentiu-se feliz quando ela ligou, alegrou-se por sua disposição de ir a Celba. Era bom conversar com ela. Mas cumpria guardar segredo. Aliás, não estava certa se já não tocara no assunto ao telefone. Sua memória começa a causar preocupação. Louca! Quem dera. Consolar-se na alienação. Leite! Olha o leiteiro! Silvia tinha uma memória

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privilegiada, pensou enquanto abria a porta e sentiu o volume fresco e luminoso, pesado. O homem apenas um vulto. Obrigado, Sr. Matias! Bom dia! Depois de anos, pela primeira vez o atendia de camisola.

Na curva do rio as arvores filtram o dia. O que a senhora Lens faria com uma memória privilegiada? Quando colocou o leite na mureta da varanda, estava chuviscando e Gerard caminhava na luminosidade baça da manhã. Bom dia, disse Cronelin. Keshia e Michele na mente, mas também a possibilidade de jogar com um dos rapazes. Precisa mesmo de um parceiro de xadrez, contra o computador ficara enfadonho. Pensando assim deparou com a casa. Dentro daqueles muros, talvez penteando os cabelos naquela janela acessa, estava Michele. Mas o que exatamente ela significava para ele? Uma irmã que não tem porque morreu. Nada disso. Ah, não sabia. Sabe Deus. Uma coisa sabe: ela não supõe futuro. E também sem passado, Michele representava possivelmente o universo púbere em que se daria seu renascimento, em que sentiria as coisas com um coração novo, mas logo duvida que algum ser humano possa realmente mudar, e se as coisas novas não são apenas novas faces das antigas. O mar o mar o mar. As buganvílias nas paredes. O que dele a ocultava

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dele era uma atmosfera feérica luzindo no cacho das flores, nos pardais subindo após se banharem na areia – isso os separava – os galhos verdes que no balanço modificavam a casa de segundo em segundo. Isso é o que há de novo: os ventos trazem todos os aromas, menos o do inevitável desfecho.

A aproximação de um homem que já não se conhecia, Gerard. Muito perto, as cascas da pintura descascada soltam-se, escuras, do muro branco. Ali se recortam as plantinhas. Ele ainda sou eu, em que medida? Se imaginar que não chegou aqui, saberá, se pensar que é ainda o bancário e portanto não conhece nem Michele, nem Keshia nem jamais viu aquela mulher, jamais terá estado diante dessa casa, se pensar assim, se imaginar o que era antes de vir para Celba, saberá o que ganhou e o que perdeu, e se existe ou não algo realmente novo e que valha a pena. Jamais viu igualmente essas flores vivíssimas, aparentemente tão simples, pois estão em toda parte, mas tão diferentes de todas as flores que já vira.

As plantas adoram a chuva e amando as plantas a senhora Lens amava

a

chuva,

que

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dava-lhes

colorações

de

peculiaridades

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discerníveis, como pessoas, como ela própria, verdejando também. Atendidas as suas orações, o tempo chuvoso afastou as crianças que patinavam na calçada em frente à casa arrancando as flores em meio ao barulho enlouquecedor. A deliciosa mulher do editor costuma ter dor de cabeça, tadinha –Eu sei o remédio que ela precisa . Por outro lado, na chuva a praia se tornava cinzenta, feia, impedia o banho livre das algas se pegando nas pernas, que coisa desagradável, sobretudo para quem está acostumada a nadar em transparência turquesa. Essa chuva, por miúda que seja, quando contínua, atrapalha a simples saída de casa pelas vias de terra enlameadas, ruas que se pegavam aos pés e advertiam quanto ao vexame de um tombo. Mas naquele momento em que a senhora Lens se preparava para sair não chegara a esse ponto. É uma chuva adulta, que coloca a senhora Lens no colo. Miudinha mas senhora de si. Seu som seguia um percurso suave, como o regato de Celba no outono. De longe o adivinha o forasteiro. Que é isso? Gerard acorda no ônibus. Agora está ali, diante da casa, na perspectiva de rever as meninas, descanse, tudo está bem, tudo vai ficar bem, e ainda em sua memória a navegação de duas noites atrás, nas águas escuras onde o Chiasmodon espalha terror, as trevas infinitas onde passeia sua

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beleza apavorante o rubro Saggitae. O fim do caminho para baixo, pensa, o silencio eterno dos abismos.

O coração da senhora Lens iluminou-se na escuridão daquele amanhecer. No espelho se viu sensual, pronta para incendiar algum coração jovem. Sua canga sobre uma calcinha. A pessoas falariam mas falariam de qualquer forma, que falassem, mas pelo menos se sentisse ela confortável. Daquele jeito sentiu-se bem e ostentou um olhar feliz e voluptuoso. A gata acaba de amamentar os filhotes na varanda. Pega a chave para sair. Diz que está realmente alegre porque irá reencontrar Silvia. São dias tão difíceis, chuvosos e com novas chuvas previstas. A amiga afirma, embora tenha feito uma pergunta, com que então ela andava sonhando. É um mal? Quem sabe. Não existe um meio de se avaliar, exceto viver o sonho. Bem, me aguarde , dissera Silvia. A imagem some, agora a chuva é tudo, os pés no barro quase deslizando.

Gerard devia deixar de lado a idéia de procurar a mulher, num lugar assim acabarão se encontrando mais cedo ou mais tarde. Mas

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viveria ela ali? Então o pensamento. Uma associação, uma idéia, só isso. Caminhando, sentiu as pernas cansadas de algum esforço de que não se lembrava. Ah, estava mesmo perdendo aquele vigor irrefutável da juventude. Que é isso! Nem quarenta anos! Linda a cor dessa rosa em meio aos espinhos da primavera. Viu a janela iluminada no sobrado. George escuta os passos da filha no quarto de cima. Sobre o que você queria tanto falar, Michele? About men . Keshia achava bonito e um pouco sem noção essa mania de respostas em inglês. Outra razão para se orgulhar quando confundiam sua voz com a de Michele. Gerard, se não podia ouvir os movimentos da menina, vê-la subitamente sim. Primeiro a silhueta, depois o corpo pequenino, despido em tom sobre tom, luzente nos ombros. Depois de desligar o telefone, ela chega ao parapeito. Nem pudera dormir, pensando naquele rapaz, comparando-o a seus amigos. Ajoelha-se à janela. Saberá ele também o que fazer? Gostaria de uma outra iniciação. Gerard, um nome diferente. Expressão terna e paterna, vê apenas meninas, ao contrário do professor e outros homens, sempre e sempre, inclusive seu pai, cujos olhares indiscretos eram para uma mulher que supostamente brotara de seu corpo. Agradavam-na esses olhares. Mas, se ela sabia o que faz uma mulher não significava que fosse uma.

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Por que Keshia estava tão feliz quando desligou o telefone? Escreveu em seu blog: Esse Gerard é uma gracinha e um fofo. Os olhos dele lembram os olhos de um cachorro que eu tive quando era criança. O amor é lindo. Puxou o papel do envelope que estava colado na folha anterior. Michele, eu gosto mto de vc, perdoe c um dia t magoei, vc é

mto legal e uma gracinha e eu te amo d+ . Ah. Por que Michele era tão má com ela? Ao lado da assinatura redonda, desenhada, havia em caneta verde o desenho de um rosto chorando.

Portão dos fundos de uma casa distante o bastante do centro para não estar próxima à agitação da temporada e não distante demais que não fosse possível ir a pé comprar coisas, tintas por exemplo. A luz do meio-dia é discernível mesmo através das nuvens. Silêncio nas sinuosas ruas de terra batida. A sobremesa do almoço de Michele, um creme de papaia. Que alegria ao deparar o mar! Alguém diz que a menina está seguindo os passos da mãe. Dá pra perceber. Claro que todo mundo verá isso não demorará muito. A senhora Lens tira o vestidinho pela cabeça, entra na água. O mar quebra na praia cinzenta. Gerard parado em frente ao portão. Casas o intimidam,

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sempre preferiu a discrição dos prédios de apartamentos. A barra da calça, molhada, pesa, incômoda. Dobrou o debrum e tonteou ao se repor ereto. Vinham na sua direção as apanhadoras de conchas. Viu que corpo horrível? Se acha muito gostosa mas tá cheia de celulite. A senhora Lens mergulhou, saiu, pôs o vestido e recomeçou a caminhar no sentido da pousada, sempre na esperança de ver aquele a quem desejava conhecer. Sabia que, mesmo que esse desejo não se realizasse, ainda que não o visse agora ou num sentido mais amplo não chegasse a amá-lo verdadeiramente, nada disso apagaria o prazer de sua espera. Passou pela pousada. Procurou-o pela aglomeração formada em torno do telefone. Jovens agindo como jovens, em nenhum o porte austero. Ele usava óculos? O vestidinho de novo é tirado e na água ela começa agora a nadar em direção ao fundo. Uma braçada. Outra. Daqui dá para ver caso apareça.

Ele está na frente da casa da senhora Lens, mas decide ir ao centro. Ah, quanta vida a timidez impede! Um lugar assim plano e sem trânsito é o que sempre desejara. Vamos combinar que por isso não bateu na porta embora tanto quisesse entrar. Michele disse almoço mesmo? ou lanche? Ou simplesmente festa? Enfim. Voltaria já de

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bicicleta. Sinto-me vazio, pensou. Era a aura da descida. Não, não era tímido, como poderia ser com a vida que levava? Mas bipolar, isso era bem possível. Em volta, tenebroso deserto. Por quê? As coisas estavam indo muito bem, deveria estar feliz. Mas não. Tudo perde a cor, você sabe que está só. As pessoas em quem confiava já não existem. Nada de fato existe.

A senhora Lens nadou e nadou, inutilmente atenta. Sabia que Silvia estava certa, precisava se separar imediatamente. Por que não o fazia, sem nunca deixar de pensar em fazê-lo, era uma questão que se colocava para milhares e milhares de mulheres no mundo; mas longe de ser consolo isso a incomodava. Desistiu de ver de novo o rapaz, na imaginação as coisas estão mais seguras. Não o mar mas um livro nas mãos. Crédito ou débito, senhor? Caminhos de Celba. Mãos que apertam as próprias coxas na saída das águas. Outras, veias altas, orientam a bicicleta. Alumínio e titânio, carne e sangue. Após o posto de Saúde será o Beco das Cores, praticamente a casa de Michele. Em frente à casa, quem dera a mulher tivesse horários habituais, pensou. Frustrada, ela retorna. Essas calêndulas logo darão sementes. Oi! Já chegou! Cedo, parecia. Não, imagina, tudo bem, assim haverá mais

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tempo pra gente se conhecer. Ele sentiu alívio ao ver chegarem outras meninas, de bicicleta, Keshia entre elas. Alguns rapazes depois, espinhas no rosto formado, corpos fortes, sovados. Provavelmente suas fotos no messenger são sem camisa. Surfistas. Chegados diretos de uma outra vida. Quis se aproximar da menina, quem sabe fazer dela confidente, sentir-se mais próximo, fazer parte da turma. Na prática isso é impossível, ele sabe, mas insiste. Fez uma introdução que serviria a qualquer coisa que viesse a dizer. Eu acho... Nunca saberemos. A mesma resposta para a mesma pergunta e todavia é como se fossem novos questionamentos. Vislumbrou o segredo ao vislumbrar a mulher.

Se aproxima, sem que ele a reconheça. Para colher a rosa mais bela, sacrificará jardins. Renunciará a caminhos conhecidos. Não sabemos a que mundo pertencemos, a este em que se vive ou ao no coração ignoto. Esperança e saudade são as duas faces com que se caminha em direção ao desfecho. Caminha e contempla: as pessoas, as casas, os gestos, o mar, os olhares, as montanhas, os rostos, as ravinas, os vales. Alegrias e tristezas. Sem saber se terá valido a pena. Devia considerar que se não se expusesse agora a temporada passaria, o trabalho passaria, talvez a vida passasse, e ele iria continuar em busca

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de sentidos e amores, em relacionamentos com pessoas que desejavam mais da sua companhia que, por temores inexplicáveis, ele recusava. Já não fora assim em sua cidade natal e na metrópole anterior, sob as janelas sussurrando algum nome em devaneios? Tímido e inseguro. O amor que agora nutre pela mulher da praia é um voto de castidade mais que uma fuga. Quando Michele o chamara, minutos antes, não hesitou em se aproximar mas agora, com a presença de outras meninas, que anunciou a de rapazes, sentiu-se desconfortável. Juventude plena estampada em todos. O casal tem uma malemolência desleixada e confiante.

Aproxima-se do grupo.

Pena que o mar tava tão pequeno e claudiado. E Michele, ia pegar onda depois do almoço? Tava pensando em ir sim, lá no Lagar. Oi, Fantarello! E ae? Grande Michele! Como ela se sentia com dezesseis? Mais velha. Estava linda, disse Keshia. Michele sorriu e, virando-se, cumprimentou o recém-chegado. Oi, Richard. Oi. Beijinhos. Feliz aniversário. E aí, muita onda? Para uma

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bodyboarder como ela sempre tem. Vocês é que são felizes, bodyboardes, diz Fantarello; mas felicidade não é uma onda e se permite relancear os olhos pelo decote da menina. Felicidade é morar em

Celba.

O

quê?

Sarah

estava

brincando

naturalmente.

Gargalhadas. Um movimento redondo move o saiote para os lados e Gerard desviou o olhar, como que surpreendido. A mão boba toca-a, encosta e se recolhe. O que estou fazendo aqui? pensa Gerard. Seu tempo passara.

Resumo de tudo: Michele sabia que Delano era igual a todos. Se é assim, devia fantasiar. Perder essa energia só com alguém que valha a pena. Gerard talvez. Apenas talvez. Ali está ele. Ela nem se preocupa em disfarçar, pensa Keshia. Meninos e meninas. Adão e Eva. E se à praia se segue o monte do alto uma visão inversa mantém a metamorfose das perspectivas. Queria estar lá um dia, pensa Gerard ao entrar à noite na pousada. O gerente, olhando para todos os lados, de passagem recomenda que aquele problema com o terceiro terminal seja logo resolvido. Não se preocupe, senhor, é caso para cinco minutos, é um erro 210, só uma tecla presa. Mas o que me importa o que seja, conserte, não é tão simples assim pois não há teclado de

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reserva no almoxarifado. Ah mas darei um jeito. Ele não precisa saber. Se não me engano, vi teclados sem uso numa estante da casa de Michele. Delano a havia presenteado na época em que a idéia era cativa-la de qualquer forma. O babaca. Todo homem é igual. Inclusive o pai dela. Keshia pensa o mesmo mas jamais diria isso na cara. Tinha medo. De perder a amiga, de perder as perspectivas das tardes no casarão, até mesmo de ser injusta. Sente o toque da mão de Fantarello. Claro que pode ter sido casual. E quem acreditaria se eu dissesse, eu a gordinha? Se ainda fosse por desejo sincero de mim. Mas não daquele jeito. Ah, se Sarah afrouxasse a pressão com que mantém homens e meninos presos a seu redor… Quando se fará a luz? Eu quase vejo o amanhecer lá do alto, e isso parece mais que um efeito. Quer que a vila, que a vida se mantenha a seus olhos. Pudesse a senhora Lens pintá-lo lá de cima sem precisar ir da maneira mesma como é capaz de amar sem tocá-lo. Ele sabe. A noite se aproxima, o ruído da cidade retém a todos num amálgama de consciências que na noite uma se tornam, como a partilha dos mares à direita e à esquerda das braçadas como um lado e outro da arvore que o ultimo toque de tinta definiu, é o meu tema, viver é o sentido da vida, ele escuta e quer escutar mais, mas o barulho desconcentra, esse mesmo que une, a vida

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é assim, desmesurada nas limitações de seu tamanho real, eterna nos motivos mais prosaicos de cada um. É preciso que exista aqui um sacrifício do qual independa a moral da história, é preciso um bom uso do que de bom se inventou, é preciso que algo que não deu certo promova a saga perfeita. Uma eternidade que só se constrói no efêmero, como esse quadro, pensa a senhora Lens, como esse amor, como a ave ardendo até se extinguir e renascer. Como o dia de uma rosa.

Michele diz Ainda bem que vou estudar em São Braico no ano

que vem . É que ela tinha ficado muito sofisticada para uma vila de pescadores, replica alguém. Gerard se viu no pai dela. Não deveria ser tão mais velho. Compartilharia decerto certas vivências. Quem sabe gostasse de xadrez. Pensava a respeito quando a viu...

Ao caminhar por aquele pequeno trecho, arrebatou mundos para que lhe servissem de passarela. Estremeceram. A respiração em suspenso, como se suas próprias vidas o estivessem. Oi, senhora Lens! O cumprimento de Keshia repercutiu em Gerard. Poder da noite, das cigarras e morcegos com o alívio da angústia que se dissipa sem que se

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perceba. As linhas dos muros s��o alvíssimas da luz que o meio-dia anunciava. Toca e toca o beija-flor seu bebedouro vermelho. Ele lhe lança um olhar extinto. Grossura de lábios laboriosamente rubra de zínias. Agora. Vai falar. Ele quase tonteia. Oi, meninas! Silenciosos os passos leves mal tocam o passeio sinuoso. Sol a pino e a seminua divindade ao longo de sonhos que se confundem com a grama e o mar além. O que ainda esperar do amor? Pernas fortes, cintura fina, quadris largos, agora quase seus. O olhar de Gerard não contém dúvida. O que mais esperar do amor? Contudo, era casada. Oh, ainda nem começara a fazer o almoço. Michele não tenta esconder o aborrecimento com a negligência da mãe. Mas ele a perdoa, ele a compreende. Perdoaria sempre, sempre a compreenderia.

Que

pensamentos são esses que não busco, mas coleciono agora como quem compara artista com artista para encontrar um tom para a própria arte? O pai de Michele, de novo. Não era mais o parceiro de xadrez. Se fosse vivo, era o rival. O tecido da cadeira torna-se áspero sob ele. A janela e o sol. Quem sabe fosse viúva, talvez divorciada.

– Meu pai chegou. Está uma fera com você, e com razão.

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A senhora Lens tomava as próprias decisões, a filha teria de se acostumar com isso. Seu problema, Michele, é que você fica tempo demais sem fazer nada. Ocupar-se é tudo. A coxa da mulher lampeja neste momento. Quando se está ocioso há para cuidar da vida dos outros. Mas a senhora Lens era a mãe dela, não outros. De repente, se lembrava. Quem dera se lembrasse todo o tempo, quem dera a respeitasse. Era a mãe. Mais uma razão para Michele não falar desse jeito, sobretudo na frente dos amigos. Era ele um amigo dela? Mas como? Não faz sentido. Parecia tão sóbrio, centrado, respeitador, generoso... Keshia interrompe: Senhora Lens, esse é o Gerard. É claro que era ele. Não poderia estar enganada. A postura ereta, luminosidade, santo no deserto. Um amigo das meninas então? Um pervertido? Há tanto desse tipo hoje em dia, homens feitos que só andam com adolescentes. Aí dizem que amam uma dentre elas, quando o inevitável acontece. Ou é que Michele, mesmo tão nova, é bem mais madura que moças da idade deles. Ora, sabe-se a maturidade que querem... Não, ele não. Não com aquele olhar gentil e tímido sem subserviência. Onde terminará esse rio volumoso senão em você, ainda que seja em meus quadros? Desconhecia esse poder sensual, o de capacitar. O aperto da mão da mulher permaneceu na mão de Gerard,

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sino que continua vibrando, confessa o que não deveria ser confessado, demonstra a perplexidade com a coincidência, as consciências arrebatadas, as musicas lentas que deixariam de dançar, o banho de mar a dois, as viagens, a emoção erótica, o carinho e a amizade – tudo estava ai, no contato das mãos e após. A arte é o motivo. Se amor, platônico. Um dia, não saberia a senhora Lens dizer quando, haveria de buscar sua presença ao lado da filha. Afortunada pelo privilégio de ser jovem, solteira, por tê-lo a seu lado, pelas infinitas possibilidades de futuro.

Ele a perdoará por tê-lo usado assim, por fugir do atrevimento dos impulsos, negando-se exceto para a contemplação, não lhe concedendo o cumprimento da promessa – negando-lhe o regaço por restringi-lo à imaginação e recusar um prazer mais pleno que aquele contato casto. Um dia se lembrará de um rapaz que amou sem esperanças e justamente por essa impossibilidade amou como jamais. Gerard era naquele tempo um rapaz cuja timidez com as mulheres só era menor que o desejo delas, amar estava além de sua capacidade. Só conseguia amar o que não conhecia. Era assim uma forma de se manter só e viver o que acreditava ser a verdadeira vida, de alguma

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forma estranha ligada aos computadores. O meu amor equilibra-se sobre minhas fraquezas, sofre as vaidades, torna-se virtuoso – não exatamente mas ao menos não egocêntrico em demasia. As grandes revelações da vida, poucas, vinham em retrospecto. Tanto amava a evocação quanto a perspectiva, mais que a experiência. Um solitário. Enfim, as coisas mudaram. O que deveria fazer? Entregar-se a alguém daquela forma? Entregar-se ao amor que nascia, proibido pela sentença de Michele, Meu pai já chegou ? A senhora Lens permite-se um olhar de esguelha. É um homem bonito, nem tanto, mas muito simpático, vestindo jeans e uma blusa azul clara de malha. Ninguém ali ainda sabe mas ele não costuma usar outro tipo de roupa. Há uma sombra sob seus olhos e luz em seu sorriso.

O meio-dia não é mais opressor porque recebe as suaves luzes crepusculares que agora habitam o mundo interior de Gerard. Na janela, a vegetação às margens do rio provocam um efeito quente de saturação que as vivifica, como costumava acontecer nos quadros da senhora Lens. Olá, muito prazer – diz ela, como quem diz uma coisa qualquer a qualquer pessoa. Você é daqui de Celba? Gerard sente-se desnudado. Entregar-se seria descer aos tristes abismos do adultério,

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que jamais o atraíram; semelhante culto não só ao vício mas à estupidez, era coisa de literatura – o que em nada seria alterado pela consumação ou não dessa vontade proibida. O sentimento de Gerard está agora mais que nunca ligado à sua própria solidão do que a alguma possibilidade de ficarem juntos, ou mesmo estarem juntos por um único momento. E ao saber que a mulher estava tão próxima, apegada à sua nova vida em Celba, passou a pensar como superaria aquela situação real, pois se preparara para viver uma fantasia. A grama que antecedia a cerca era rala e a garoa pouco a beneficia. Ali pisara a senhora Lens antes de entrar. Sabe ela que a espera a exigência de uma satisfação mas está feliz por sua falha como esposa e mãe ao se atrasar. Mas o que é isso? Agora o vê. Recorda–se de como ficou paralisada e por uma eternidade esteve com a respiração suspensa. É assim a proximidade da morte, algo assim a morte ela mesma. O que é isso? Que tipo de êxtase? E vontade de dançar. Tocada, tocada por esse sentimento. Será passageiro? E se permanecer? Foi um momento de angústia ainda que angústia em meio aquele transporte não seja uma boa definição. Agora o vê. Ao longe ronca a tempestade. No trovão uma palavra pesada. Prazer. E agora? Muito prazer. George Lens pergunta onde a senhora Lens

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estava, se é que não a incomoda em perguntar, e ela responde que o melhor lugar para se estar num dia lindo como aquele era naturalmente a praia e não, pensou, sentado aí como você, nesse sofá encardido sempre atrás de jornais que citem seu nome. Ele bem precisava ir também de vez em quando, diz ela olhando na foto da primeira página um homem que não conheceu quando o conheceu, nem estava com ela quando se casou. O cachimbo recende por toda a sala. A senhora Lens tossiu. É um rosto maléfico, o de George, e o do rapaz tão bondoso. Mas talvez estivesse querendo se convencer da coisa suavemente insinuada; suavemente demais, talvez. Não há de ser que todo rapaz dessa idade mantenha um olhar assim? Simplesmente se esquecera de como era George naquela idade. Da cozinha, a voz que ainda ouvia perturbou a senhora Lens. E o almoço de Michele? Ela caminhou até a pia. Michele não sentirá fome tão cedo, está entretida com as amigas. Mas o próprio George estava com fome. Ah. Perturbou-se porque não era a voz de um inimigo, era como se sua alma tivesse voado, muito, longe, onde estou? George havia desaparecido e surgiu aquele jovem e promissor crítico literário, seu primeiro namorado realmente a sério, que acendeu de modo tal a sensualidade dela, a ponto de cometer aquela loucura, e a voz se tornou

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um sussurro de amor que a penetrava, assim, como na noite da embaixada, de uma forma que não gostaria jamais de experimentar outra vez. Quem é esse George Lens? Mais certamente que um profissional competente e um cidadão respeitado. E ela, quem? Mais naturalmente que a jovem não muito bonita mas que, gostosa, enlouquece os homens e por eles se deixa seduzir tão facilmente. Acorda, ela o observa. Ali, nos azulejos em frente a pia onde estava apoiada, as mãos na quina úmida. A primeira vez que George teve oportunidade, quando no Natal ficaram a sós na cozinha, ele tomou-a, as mãos entrando por debaixo da camiseta. Não que fosse nenhuma carícia enlouquecedora, mas Rose permitiu. Talvez aquele rapaz inteligente e independente logo a levasse e ela enfim não teria mais de dar satisfações de tudo aos pais. Quem sabe se estabelecesse por si mesma mais facilmente com a pintura. Se viessem a existir problemas conjugais, teria como sair do casamento com a certeza da subsistência sem depender de pensão, já reconhecida nacionalmente como artista. Ao toque dos lábios de George, porém, deixou de pensar em qualquer coisa, entregou-se, sentia-se segura com os pais na sala. Se tiveram de parar naquela noite, fora entretanto um primeiro contato, quase um contrato de libidos quanto a uma noite futura. A senhora Lens passa

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as batatas que acabara de descascar para um tigela, junta duas colheres de margarina, uma de fermento e um punhado de farinha de trigo. Havia sido avidamente despida e agora era deitava sobre a cama. A rigidez no meio dela. Obteve a brandura desejada da massa depois de passar de uma para a outra mão e com as duas para o prato. Não tem jeito. Não consegue fazer o refogado como a mãe. Com George está agora não apenas livre mas de fato apaixonada, claro que isso é um estado que muda do dia para a noite nas mulheres e será assim. Há reflexos inacreditáveis nas azeitonas e a cor da salsa está viva. A senhora Lens seca as mãos no pano de prato em que jamais terminou aquele bordado, gritando de dor e de prazer. George vira para o canto e dorme.

Deixando a comida em repouso, vai para o chuveiro. Relaxante. Quem pode subsistir com esses nervos? Quando se despiu há dois minutos, a alma estava em suspenso. A calcinha sai como se não quisesse mas se rendendo passa pelos mundos fúlgidos de tons e semitons. Gerard estremece e engole em seco. Queria deixar para lá. Era mulher casada e mãe de uma amiga. Mas não podia. Vida sem arbítrio.

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A luz chega filtrada pelo basculante. Som de pássaros, tão perto. Estão tristes, por que alguém usa uma atiradeira? O corpo do pardal jazia ontem no chão de terra batida, agora está enterrado. A senhora

está mesmo louca , dissera Michele. Fazer velório pra bicho. A voz da filha some na ducha quente. Olha, diz Michele segurando o CD. Conhece este? Ele olha a capa, ouve os primeiros acordes, e os gritos do banheiro. Quem, por Deus, pôs Yesterday ? A voz da senhora Lens ecoa num tom desconhecido dos convidados. Já disse que não colocassem esse disco! No banho, ameaça levar a mão mas recua. Não sabe o que fazer com essa lembrança de que os Beatles eram agentes. A festa de final de ano, o apagão, as escadas. Diga que estava bêbada se isso a conforta. Poderia ter sido diferente. Ter ao menos um nome para lembrar, um telefone para não precisar apenas lembrar, quando se separasse de George. A mão está ali mas não para delícia e sim se proteger. Diz que não. Por favor pare. Mas agora não tem volta. Entra numa região estranha de sombras e prazer. As pernas tremem sob a água. Linda. Gerard a imagina ouvindo de muito longe o chuveiro com ouvidos de tuberculoso. Gotas impetuosas, grossas, uma ducha excelente. Tinha de admitir que para esse tipo de coisa George

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era eficiente. A água escorre pelas suas costas, pelas suas coxas. Gerard gostaria de ser essas gotas. Envolto na saudade que não tem um destinatário, volta-se então para o Deus de sua infância antes do catecismo.

Quando era bem jovem, esse tempo passou, Gerard costumava ser arredio a festas. Uma ou outra em tempos que não se podiam mais dizer recentes nem que geraram boas recordações, mesmo quando havia alguma satisfação aparente. Agora se deixa levar pelo encantamento desses rituais de olvido. Nada de que deva se jactar quando partir e à sua cabeceira alguém perguntar o que fez de sua vida. Se não era mais assim tão jovem, adquirira a contrapartida de acreditar e sofrer sem revolta. Há uma sombra em redor dele, embora ali o zéfiro de seriedade, fidelidade, a aura de um ser digno de confiança. Sim, os ouvidos escutavam mais que o chuveiro, discerniam o futuro, como um átimo de Crepúsculo que não se repetirá. Ereto ele olha o céu, seus braços pendem sem porquê, braços mortos pois não podem abraçá-la. Que tolice, pensa. Portanto não deveria se sentir bem, portanto deveria retomar seus modos, ser sóbrio, controlar esses sentimentos patéticos; fora afinal contemplado com a nova vida, por que poria tudo

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a

perder? Na varanda, um maiô branco estendido ao lado do

vestidinho com que a senhora Lens entrara. A voz de Keshia. Puxa, olha as glicínias que sua mãe plantou! Parecem sinos purpúreos, milagres. Aquelas mesmas mãos geraram semelhante vida de um vermelho tão vivo, sim, como o sangue. Não, não era alguma coisa nova.

Mulheres

ocupavam

uma

parte

determinante

de

seus

pensamentos. Entretanto agora, no silêncio súbito trêmulo como as roupas do varal, exultante como as glicínias, folga em formar os novos homens que dentro dele nasceriam pelo resto de sua vida à sombra da mãe de Michele, ornados de risinhos que se perpetuariam como despedidas, como os últimos acordes de cada movimento das sinfonias.

Que maravilha era viver sem vícios, pensou Gerard ouvindo as meninas. A flebite fora um aviso. Ainda no hospital decidiu deixar o trabalho e a cidade grande. Não mais lhe interessava a distância entre o que se diz e o que se é. Invejou os jovens que sequer tiveram tempo de se viciar. Quanto às meninas, eram normais. Espertas, alegres. Toques de ingenuidade que sabem explorar como elas só. Apesar de toda informação, ainda sem malícia; uma tristeza miúda, salpicada da limpidez de olhar que se esquecerá. Carentes de afeto, o que é

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proclamado pela atitude de criança que escapa de quando em quando. Keshia paira em incertezas quanto ao que poderia esperar de um relacionamento com alguém tão mais velho como Gerard. E como ficará sua história com Eduardo? Michele aguarda os acontecimentos. Não dependia tanto da fantasia com o universo masculino. Ainda assim, gostava de Gerard, não queria perdê-lo para a amiga. Iria trabalhar aquela perda como um trauma. Odiava gente neurótica. Michele possuía uma beleza calma; sua mãe ao contrário vivia cansada e isso estava escrito em suas feições.

Quando Gerard entrou, a aura da senhora Lens acrescia ao ambiente o verão em seu ser, ofuscando de luz a primavera das meninas pela sala. Seu toque diário em cada objeto, o contato de ser corpo no sofá, na cadeira, seus olhos sobre os quadros na parede, seus dedos no CD – a existência da senhora Lens na casa depunha nos móveis os fragmentos perfumados de sua alma. Bem-aventurança! Gerard sorriu, privilegiado. Mas por que, pensou o senhor Lens, esse idiota está com essa cara abobalhada?

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Em seu quarto, Michele trocava o vestido de viscose por uma javanesa. Verifica o caimento no espelho. Keshia amarra os cadarços de seu tênis bege. Diz que tem medo. Medo do quê, Keshia? Não saberia dizer. Não sabia o que se passava. Medo do mundo. Quando era pequena, tinha um amigo invisível. Jamais teve alguém tão amigo. Michele a olha com pena e pergunta se nem o Eduardo. Eduardo era um bobo. Mas gostava de Keshia. Sei, diz ela, do que ele gosta em mim. Normal. Aquele Gerard, ele é um cara de quem Keshia poderia ser amiga e até mais. Sério mas com senso de humor. Não pensava só em sexo. Elas mal o conheciam, lembrou-lhe Michele. E é muito velho para elas. Estamos crescendo, Michele. Os pais dela já haviam notado? Michele se aproxima da janela e olha o céu, E pais notam

alguma coisa? , que céu lindo esse de Celba; mas não o bastante para me prender aqui. Uma nuvem passa e tapa o sol. Michele diz que seu avô notaria. Keshia lembrou e percebeu que também sentia falta do avô de Michele, ele era uma gracinha, uma fofura. O avô de Keshia também, e com esse talento especial, mas iria a qualquer momento, enfim, droga, como todo mundo. Olha, Michele. É pra você. Ah não precisava! Tudo o que Keshia lhe dava era de coração, Michele jamais saberia o quanto. Pára de chorar, vai. Keshia enxuga as lágrimas.

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Lembra o dia em que a gente se conheceu? Eu te admirei tanto, você era tão forte. Michele apenas murmurou. As vezes. Brincavam e se divertiam. Lembra? Era tempo de brincar e se divertir. A gente cresce.

Keshia acabara de falar, agora tenta lembrar as próprias palavras, o que sentia ao dizê-las, e concluiu que a gente não precisa crescer por dentro. Ou seria mesmo contra a natureza não crescer também por dentro como Michele está dizendo? A natureza... Michele já?... – A Sarah ficou sozinha com os meninos, Keshia, precisamos descer. Ao chegar à porta da sala para pedir à filha que arrumasse a mesa, não a viu, meio coberta que estava junto à cortina sob o bandeau à esquerda ao lado de Gerard cujas costas levaram-na a sonhos de onde emergiu a voz de Keshia. A senhora quer ajuda? Ela respondeu que, Ah, se ela pudesse achar Michele para pôr a mesa, ficaria grata. Keshia disse Ah, não, senhora Lens. Era aniversario de Michele. Deixa ela conversando com Gerard, eu arrumo a mesa pra senhora. Era muito gentil a Keshia. Alguns instantes depois, quando entrou, a majestade do caminhar da mulher anunciou a proximidade que trêmulo Gerard esperava. A filha não percebeu, preocupada que

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estava com uma reaproximação entre Keshia e Gerard. O sol estava próximo do zênite. O que é zênite? O ponto mais alto que o sol alcança, eu acho. Eu acho, Fantarello, que você só está querendo é se mostrar com essa novidade de ficar dizendo palavras difíceis. Ele não queria se mostrar, as vezes o que parece pedante é a forma mais simples de alguém se expressar. A vila estava impregnada de alvura, a cordilheira limpa das nuvens que ali se haviam agrupado pela manhã.

Antes de entrar, Gerard imaginara que quadros veria nas paredes, pintados pela mãe de Michele. Pensava-os sempre com um céu de névoa. Foi esse véu que viu, não os quadros que efetivamente ali se alinhavam. Mas ela própria, Rose, num plano inexistente exceto pelo amor de Gerard, mantinha a postura onírica, silenciosa no olhar de promessas, longe de si mesma, a Mulher diante de Gerard. A tarde calma na vila se mostra cada vez que ele desvia dela o olhar. Ela mantinha seus olhos baixos quando não estava cumprimentando alguém. O sonho e a realidade do amor de Gerard se chocariam como espectros de perspectivas que embora nunca se cumpram tampouco chegam a desvanecer.

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Victor é um homem simples e tranqüilo. Cumpre seus deveres e pouco espera da vida e possivelmente por isso encontra a paz em tudo. As pessoas confiam nele até a manipulação sem constrangimento. Não se importa. Precisa de um mínimo para a subsistência. Menos ainda se presta a mágoas. Um homem de confiança portanto. O grafite para longe o transportou. Mesmo esse detalhe, o risco do que ainda não chegara a ser ruma rachadura do muro da casa, termina na cor de um abandono. Que luz fantástica a de Celba ao meio-dia! Respirou fundo de pé ante o portão, ouvindo latidos que ecoavam como se um fio os ligasse e fizesse vibrar em sua alma uma estranha liberdade. Olá Victor, disse a senhora Lens quando ele entrou com Fantarello. Como vai a Cati? Ela não vem? Não, Cati não viria; mas mandara cumprimentos.

Ninguém notou o brilho malévolo no olhar de George, pensa Gerard e se põe desde então mais atento ao marido de sua amada. O olhar de Victor não se alterou em sua pureza. Michele. Muitas felicidades e toda paz. Gerard se distraiu com as revistas que folheava. Crise desmorona Wall Street. A queda do outro muro. Em algum momento alguém irá fazer a comparação. Claro. A crise de 29. Não

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sabe o que se passa. Desde a viagem não tem mais paciência com a leitura, nem mesmo de jornais. Numa outra página, o que é preciso fazer

para

enfrentar

as

turbulências

externas

da

economia.

Definitivamente, está cansado de ler, não consegue mais. Haverá aqui algum tipo de relação com a mulher? Ah, vou parar com isso. Não dá pra me levar tão a sério.

Almoçaram. Quando Fantarello pegou o violão talvez estivesse movido tanto pelo filé e pela sávia quanto pela produção de hormônios. Olhou para Sarah, dedilhando. Coração, músculos, impulso. Viu a si mesmo diante dela num futuro aparentemente próximo, bela como sempre, receptiva. Quieta e irritada com os acordes e a voz incerta que a louvava. Era a mais velha do grupo de amigas, olhar perdido e lábios impudentes. Comera pouco, rainha neutra. Pelo menos uma música dançante, quem a irá tirar? Esse rapaz talvez? O pai? Súbito o futuro se fez junto a um estonteante desejo de se dar. Ela. Tão linda. Eduardo se perde em pensamentos. Ainda será minha ruína.

A senhora Lens soube que Gerard seria o chefe da manutenção dos computadores da pousada de Celba durante a dança. Acrescenta à

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sua graça o exibicionismo. Seus cabelos reluzem. Tons mais e menos e escuros desenham as metades de seu rosto. As pregas do vestido induzem como as notas que flutuam e ela flutuava ao se aproximar de Gerard. Ele a tomará? Sim. Os dedos se tocam, e as palmas. Tão perto e nada de que se envergonhar

no ritmo seguro da

transitoriedade. O sopro a envolve num abraço menos formal, duradouro, amparado mais pela memória do que pela esperança. Claro, tinha sido feliz por algum tempo. George é um sujeito atraente, sem sonhos, como ela acreditava o homem ideal. Cheio de projetos. Mais hoje mais amanhã irá levá-la para a cama. Em que momento deixara de levá-la para dançar? Gerard tem uma quebra muito mais suave nos quadris, resolvia o segundo seguinte em passos imprevistos. Não é mais o violão, mas um CD. O baixo, os pássaros, a chaleira na cozinha, alguém se aventurou a fazer café. Música em tudo. Vozes soltas, frases inteligíveis já não há, mas uma uniformidade repousante. Um casal qualquer deve ter ido para junto do fícus, é inevitável, ah como ela gostaria. Mas não é preciso. Então ele era o novo chefe de manutenção da pousada, disse, e ele respondeu que agora, fora da temporada, era pouco mais que um caseiro. No fundo, nem tinha vocação para administrar; e qual era a sua vocação? Ah, sem dúvida

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lidar com computadores, há anos que eu, oh não, não parecia ter idade para, mas sim, verdade, vi o marco dessa história, a compatibilidade no primeiro micro de arquitetura aberta, agora, em plena revolução do chips duplo e da web 2.0, o que dizer?, tem a ver com velocidade, baixo consumo de energia, mas no fundo sou só um curioso, apenas faço as coisas, acho que dá mais certo em qualquer aspecto da vida. Que verdade. Ainda bem que não estava morta como costumava desejar. Estivera, não mais. Agora há esperança, disse a harmônica num acorde longo e denso; a bateria concordou, junto ao chão estremecendo a tarde; e o corpo desprezado, do qual tinha ela desistido, fluiu para dentro da presença que a cercava em vagas. O remoto mar não termina.

Gerard, não o conhecera sempre? Seja como for, não é preciso conhecer mas dançar a música que está tocando. Todo mundo na festa parecia conhecido, mas nem eram, as meninas em seus corpos implacáveis, aquele cheiro tanto poderia ser primavera ou fruta madura demais; e os meninos, bem, acerca deles não sabia tanto, mas era evidente que suas vozes estavam mudando, que se masturbavam o

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tempo

todo

e

talvez

até

pensando

nela,

enfim,

e

George,

miseravelmente conhecido, e Gerard, ah, olhe as ondas...

A senhora sabe que quando saltou do ônibus parecia ele estar voltando para casa? Assim lhe parece. De fato, sempre vivera ali. O homem sem rosto dos sonhos dela. Ah, mas a temporada estava às portas, disse ela, Gerard teria logo muito trabalho. A temporada é uma longa época de solidão, pensou. Devia mesmo ser trabalhoso manter um lugar assim grande limpo e em perene eflorescência, um lugar

tão

freqüentado

sempre

com

a

estrutura

funcionando

adequadamente. Os hospedes decerto, pensou ele, dão muito mais trabalho que o mato, as arvores, o gás e a eletricidade, as contas em comparação são simples de fechar, disse, com pequena diferença de tempo em relação ao pensamento. Não se sentia bem com gente? Confesso que nem eu. Bem, respondeu ele, tenho internet. Na verdade não usava a rede tanto assim para comunicação, mais para informação e trabalho, pesquisa, essas coisas. No caso da pousada, parte financeira, projeções, eventos culturais. Para correspondência ainda preferia o velho e bom correio. Cancelara os cadastros do orkut e do twitter. Os casos de tráfico, pedofilia, enlouquecidos ciúmes ou simples

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maledicência haviam saído de controle. E a forma como as empresas se apropriaram também dos sites de relacionamento lembra o que o Estabelecido faz com as revoluções. A internet é boa. Para cada caso hediondo há um contraponto benigno. A internet é um reflexo da vida, como dizem, para o bem e para o mal. Há coisas úteis no mundo, como a faca e a escada, que mal utilizadas podem matar. Há coisas inúteis que matam também. O orkut serve para encontrar e reencontrar pessoas mas havia tempo que ninguém o usava assim, cristalizara-se no mal, no inútil. Certa vez ficara sem micro e desde então passou a ver isso com mais clareza. Em lanhouses e cybercafés é preciso ter maior controle do tempo para que não fique caro demais. Hoje isso de internet em geral é um assalto ao tempo das pessoas, esse bem mais precioso. Ao olhar pela janela conduzida pelos tons da janela em constante mutação a senhora Lens perguntou se Gerard saberia dizer se ela estava nos planos da prefeitura. A voz de Gerard chegou ao vidro que a refletia. De que falava, exposições? Hesitou, como de resto se sentia inseguro e exposto com a inesperada manifestação de sua fantasia. Ele sabia sobre a programação. Não estava definida. Dependia de verbas, como sempre. Mas não sabia como conduzir a situação no dobrar do sino. O que Gerard sabe é que haverá uma

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exposição permanente na Casa de Cultura. Estão contatando artistas de toda a província e eu sairei então, pensou ela, num panfleto turístico. Não era o que queria, não tinha nada a ver. Gerard participaria de algum modo da seleção dos eventos? Como se fosse uma confissão, ele respondeu. De certa forma. Estavam a sós pela primeira vez. Deveria ser a ultima?

Cada signo exterior da senhora Lens, sua continência no beber, sua elegância com os talheres, os decoros com que se ajeitava na poltrona, os adendos gestuais às frases, tudo adquirira para Gerard a exuberância de uma planta que podada se refaz. O que a maltrata assim? Era como suspirar num sonho, perguntar ao ser de um sonho que não se define, não parece bom nem um pesadelo, uma quietude que não permitirá os ruídos exteriores, as conversas, a atmosfera frívola das festas, o tilintar de xícaras e copos, os carros passando na rua de terra ao lado, sacudindo – nada tirava o universo do olhar da senhora Lens. Pouco depois, ao deixar a casa, não retendo detalhes prosaicos mas apenas a sublimidade etérea, Gerard mantinha as condições ideais para a existência da saudade.

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Após comerem, na sala de estar impregnada de luz pela opção do sol da tarde na procura de uma casa, esperando que Keshia trouxesse sorvete e café, Gerard levantou-se e colocou o blusão no espaldar da cadeira em que a senhora Lens sentara durante o almoço, ato que de todos, inclusive de si mesmo, passou despercebido – mas não dela própria. Com a bandeja, Keshia pensa. Por que os homens de fora acham bonitas e cultas as meninas de São Braico e com respeito a Celba a coisa não é bem assim? Por que generalizam e quando pensam em nativas de Celba imaginam-nas fazendo sexo com turistas por dinheiro? Mas Gerard, que gerara esses pensamentos, não viu Keshia dessa vez. Está perguntando à senhora Lens de que tratam suas pinturas. Nos hálitos, gosto forte de café. Ela diz que tratam de sua própria alma. Fala com a naturalidade com que não nos importamos de especificar os assuntos em que a resposta genérica será tanto quanto precisa para nós mesmos como para os outros ou óbvia ou obscura. A tarde garantia a luz contra a aproximação do por do sol.

As meninas ainda tomavam sorvete, rindo muito. Esplendor amarelo quebrado nos vultos por sombras esverdeadas. George saíra.

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Uma reunião inadiável. A sombra da senhora Lens se encontra na parede com os dedos levados à quina do quadro. Não sei o que fazer de minhas mãos. Sua palma direita se apóia na parte mais alta do sofá, sombras se interligam pela sala. Em alguns pontos da parede, o amarelo brilha tanto que é quase branco. Keshia se refugiará no banheiro para chorar por Michele e Gerard, de lá escuta a onda que quebra e os últimos pássaros do dia.

A casa dos pais de Sarah está vazia, o telefone toca ecoando a impaciência de quem liga. Ela abriu a porta, entrou, a janela enquadra a intensíssima luz. Alo? Ele chega por trás, a camiseta fina e canelada não lhe proíbe os seios que toma nas mãos . Não era seu estilo, ser tão direto, talvez fosse a primavera. A risada se misturou à aragem que dava vida às cortinas brancas, ondas, como as lá de fora incessantes. Era um homem de mais idade, o interlocutor. Eduardo pressente a voz no tecido da saia crepe, macia, gostosa, gostosa, sentea nos dedos da mão direita. Sarah. A mais velha entre as meninas. Ajoelhada no sofá. O telefone a imobiliza quanto a uma improvável resistência. Sente o elástico correndo mas era como se nada sentisse. A

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voz não ouvida faz recomendações. As coxas se acomodam aos movimentos. Alguém se aproxima da água, mergulha. Não escuta nada e agora nada além do brilho etéreo das pálpebras avermelhadas. Sim, papai, estou escutando, pode ficar tranqüilo. Era algo engraçado de se ouvir, pensa o homem, mas no fundo gosta de ser avô, mesmo naquelas condições, a filha solteira. Era antes culpa da temporada, do turismo, da política local, da economia nacional. Era uma boa menina no fundo. Não se preocupe, papai, diz sem saber direito o que diz. Eduardo se apressa. Os culotes são os da senhora Lens, a nuca é de Michele. Com Keshia será diferente, não um momento fugidio que se esgote. O bebê dorme tranqüilo no quarto. Coisas da temporada. Onde estará a tal babá? Os culotes são realmente os da senhora Lens, ela é tão leve ao dançar, deveria ser quente na cama. O fone cai depois que a ligação é interrompida. O terceiro jato entende que não era lícito embora todas as coisas sejam. Ele ainda lhe sente a lisura e já lamenta, pensando em Keshia. E a senhora Lens jamais esteve ali. E Michele, é estranho perder tanto tempo e gastar tantos pensamentos com uma menina que não aprova. Os dois escutam os passos e quando a porta dos fundos se abre estão conversando no sofá. A babá é filha da vizinha. Oi, Brenda.

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No período em que sozinhos Gerard e a senhora Lens se calaram, podia-se ouvir as andorinhas distantes agitadas com a aproximação de pessoas à entrada de seus ninhos. Uma palpitação pairava entre as auras, com a existência independente dos dois nutrindo-se de sexo, misticismo e arte. Não se enfraquecia pela falta de uma sensibilidade explicita, antes fundamental, ente que era livre do sofrimento, estava fora do tempo, imune às preocupações humanas. Ser que amava Gerard e senhora Lens, proveniente de Gerard e da senhora Lens, era o mesmo que ao chamado da orla de luz crescendo nas luzes se tornava corpóreo com a precisão dos horários do sol e dos vapores condensados segundo o humor celestial – assim eles pulsavam e se sabiam através da mútua dimensão.

Com o transcurso

dos meses, quanto mais decidido a não

declarar o seu amor (o que de resto fazia parte de uma pressentida recíproca), mais esse amor, à força da impossibilidade, crescia inelutável.

Gerard

se

lembraria

sempre

da

senhora

Lens

movimentando-se em torno da mesa com as travessas, como a luz que

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circundava o telhado. O talhe sombreado das coxas, ao supor a atenção de Gerard, se abandonava abaixo no assoalho onde os dedos de unhas retas e fundas saíam das sandálias baixas de finíssimas tiras lilases. A maré enchendo arfa de vagas elevações e afluxos e as nuances de sua superfície fazem com que se adivinhe as profundezas.

O senhor Lens entra no prédio de Joana. Quem a podia socorrer, em quem podia esperar, a quem poderia amar? Jogada na vida, ela soube o que não queria saber e esqueceu o que desejava preservar. O tempo se escoava em sua sórdida sobrevivência e agora, agora que a injustiça do mundo corrompera seu corpo e sua alma, o presente se resumia em lembrar o futuro que poderia ter sido. A linguagem das paredes. Devia talvez, mas não estava preparada. Suas secreções internas inutilmente se rebelam. Suspira, olha para ele, está tão cansada. Os filamentos da lâmpada, uma visão embaçada. É noite e não há indícios de que aquela noite seria diferente, o que deveria ser interpretado como um momento de repulsa pelo qual a senhora Lens teria de passar, segundo julgava, não sabia por que, ou sabia mas não queria admitir, tinha medo, medo do futuro, de não ter a segurança material a que se afeiçoara, as comodidades (sobretudo em relação à

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pintura), e em ultima análise do próprio George, homem forte e violento, ela era apenas uma mulher, a rigor uma dona-de-casa, uma dona de casa como qualquer outra, fiel e dependente, dependente e livre, na medida suficiente. A aparição do marido transtornará a disposição dos móveis e o céu à janela. Como não sabe a quem recorrer e que não tem esperança, irá entregar-se. Agora. Não há como fugir. Que seja rápido. Quando ele se aproxima, o hálito impregnado pelos resquícios da festinha da filha acrescido da aguardente barata da zona vermelha, a mulher não pode recusar com, por exemplo, a enxaqueca reduzida a pretexto. Dor fortíssima na cabeça de Joana. Agora o senhor Lens sai. Rose tenta sentir no contato daquelas mãos o contato de outras. Nada que fosse imperceptível, mas George estava por demais bêbado e concentrado em si mesmo. Ela observa os dedos curtos e abertos. Sob essa carne repulsiva, proveniente de inimagináveis tempos de terror, na perda de sonhos que se gastaram, a senhora Lens emerge e retorna, tenta, mas realmente está perto do impossível o sonhar ao ser tocada daquela forma que abominava, abominava desde o namoro. E logo terá de levantar, há tanta coisa para fazer, quer ter ainda o tempo livre para recomeçar o projeto, e como levantar?, como olhar o amanhecer pela janela?, as belas casas daquele trecho de Celba

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se tornaram insuportáveis – como fui casar com esse homem? De resto, não podia competir com as prostitutas da zona vermelha, nem que quisesse lutar pela exclusividade do marido – seus seios começavam a cair, sentia-se cair inteira, as carnes amoleciam como uma flor que se aproxima do momento em que, em vez de deslumbrar os passantes, irá ser o piso antes que passe a varredura. E quando imaginava ter encontrado o verdadeiro amor, já não tem corpo para vivê-lo. Lutando contra a realidade, deixa que Gerard a beije no pescoço, com delicadeza. O cálido cumprimento desceu, rodeou-a, voltou. Beijos flanam ora com um leve estalo de lábios ora com toques de língua. Era ainda Gerard a quem a senhora Lens desgrenhava os cabelos. A janela aberta. O sol. Um pouco à esquerda, o Giuventu. Mas Gerard estava com as meninas. Não fez amizade justo com elas no seu primeiro dia? Deixe disso. George tirara o restante da roupa da mulher com volúpia, pressionando-a para que caísse na cama. Se apoiou sobre um dos joelhos. Uma vela acesa não teria provocado tanta dor. Mas desse contato nasceu calor, a luz, e comunicou prazer. Basta para suportar o que simplesmente não é prazer mas sofrimento e humilhação. Para isso Gerard estava ali. E foi uma outra virilidade que a senhora Lens viu diante de si e devia sofrê-la para dar prazer a quem amava.

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Fechou os olhos. Sentara-se nas pernas de Gerard latejando dentro dela. Ajudada pelas mãos que a erguiam, movimentava-se como aqueles que caminham na direção da tempestade.

Você está tremendo, disse Silvia. A abstinência é cruel. Há quanto tempo? Estava tentando largar. A amiga lhe pede o braço. Momentos depois Rose murmura. Que coisa boa. Um sorriso triste. Silvia e suas soluções para tudo. Para os outros, não para si mesma. Tudo tão difícil, tão difícil. Se abraçaram. A senhora Lens quebra o silencio. Conheci um rapaz, um homem jovem, enfim. Havia um som no fim do silêncio, anterior às palavras. Lá no finzinho, possivelmente uma cigarra. Uns seis, sete anos mais moço. A expressão dele é tão pura, transmite tanta compaixão. Estavam falando de religião? Olha que é quase, diz Rose. Um casal passa em frente à janela, vultos na noite quente de Celba. Me sufoca refazer nosso caminho de sexo e não

mais de sexo, de discos e livros, plantas e prantos; mas ali está você, conversando com Silvia recém-chegada, falando de mim, que honra. Silvia também se aproximara de um rapaz, também um homem mais

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jovem. Sim, você começou a falar no telefone. E aí? E aí é aquela coisa: pelo computador a gente diz o que pessoalmente não diria e escuta o que quer. Até que um dia ouve enfim o que não quer: ele está apaixonado por outra. A gargalhada de Silvia nem soa irônica. Os dedos ainda massageiam em torno do pulso de Rose, sobem com pressão acentuada do polegar ao longo de um feixe nervoso. Quanto a Rose quase nem fala com seu rapaz. Se o gume está afiado, é preciso menos força. Mas o vejo diariamente. Saber que passará por aquele trecho de praia é reconfortante. Gerard fizera do passeio matinal um ritual sagrado, via a senhora Lens e lançava seu melhor olhar, como se estivesse se apaixonando. Rose suspirou o hálito de um saudade. Talvez já estivesse apaixonado. Se fosse o que ela pensava, não seria atraído por uma mulher como eu. Silvia repreendeu a amiga, disse-lhe que não dissesse bobagens. Era cruel consigo mesma. Adianta levar uma vida saudável, caminhar, nadar, alimentação natural, quando a pessoa é amarga e vive se diminuindo? Quando você acha que todas as pessoas tem razoes para serem como são, menos você? Um tipo de raça. É apenas um murmúrio: sou mulher casada… Recosta o rosto nas mãos fechadas, os cotovelos na janela. Separar-se? Tinha medo. De apanhar, de morrer, da pobreza, da velhice. As coisas são assim?

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Bem, podem perfeitamente ser. Rose se apavora em ter de descobrir. Nesse caso, por Deus, a separação não é mais uma alternativa, é pura sobrevivência, você parou para pensar que George é louco? Rose não pensara nisso, não pensara nisso e estava pagando. Pagar. Culpar-se, condenar-se. Pagar nada. Só teve azar e foi um tanto acomodada. A senhora Lens deu uma risadinha. Ao chegar com seu jeito descontraído (que entretanto escondia também tanta amargura) e sua aparente objetividade, Silvia levou Rose a confissões cada vez mais detalhadas; e, como era de se esperar, não demorou a perceber a coincidência, que quando falavam de um rapaz por quem se sentiam atraídas estavam falando do mesmo Gerard.

Passou então a entremeter-se na amizade das duas um ranço de ressentimento, superado quando Silvia viu o tremor nas mãos da amiga. E tornou também a seus próprios estados depressivos anteriores. Que na casa contrastava com a grande exuberância das meninas em vésperas de viagem. É que Michele partiria, com Silvia, assim que passassem as festas. Como despedida, se alternavam em raves e cinemas, barzinhos e paqueras, muito Orkut e MSN e Twitter. A figura melancólica de Gerard, já afetada pelas chegadas seguidas de

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turistas, não resistiu na cabeça das meninas quando apareceram os belos e ricos primos de segundo grau para passarem as ferias na casa de Keshia. Um sax toca na noite quando Michele e Keshia voltam de uma reunião no clube. Silvia fala com Rose na varanda. Conheço teu estranho – disse. – Conheço Gerard.

A casa da senhora Lens adormeceu quando ela apagou as duas janelas frontais. Luz da lâmpada do poste da rua sobre o telhado, como um anjo. Gerard parou diante do oceano na madrugada fria. Horizonte indistinguível, o mar era estrelado e o céu noturno lançava ondas à praia. Ah se todas as evocações rebentassem antes que aparecesse nele manifesto seu erro a queimar a pureza do habitual passeio no recanto deserto, em oração por seu afeto maior que se não fosse realizável haveria de ser ao menos útil em sua impossibilidade, levando-o a se reaproximar de Deus. Agora que a pousada despedira os empregados temporários, se dedicaria a f reelas de informática e claro se nutriria da ausência de seu amor.

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Mas ao amanhecer, sob o sol deitada de bruços na areia úmida da maré vazante, o corpo de mulher. Difícil saber como essas coisas acontecem. Gerard saiu sem nada na mente além da rotina de seus passeios matinais. Alguém escuta os nossos pensamentos? Podem ser modificados exteriormente ao longo da ação planejada? É quase científico: mantenham o dia igual e irei me adaptando. Acrescentava idéias a suas reflexões naturais a cada passo da caminhada. Todavia como imaginar? A solução. Respirar fundo, se endireitar. Há novas turistas nesse trecho da praia e mais além as jovens de sempre. Basta para que passe para haver sinais no calção. Hoje especificamente há uma certa estabilidade nessa beleza. Longe ainda, num ângulo lateral, Gerard se faz perguntas. Quem seria ela? Conforme se aproxima verifica pelo suor que está cerca de meia hora de exposição. Monumento estirado. Esse sorriso é de alívio. Com que então não estou. Como nos velhos tempos. Não pode se mexer agora mas tem de dar um jeito de se ajeitar. Gostoso e constrangedor. Olhou o céu, o sol, o reflexo nas águas. Um espairecimento banal que deve aliviar, pelo menos momentaneamente. Seria trágico, ou irônico, justo agora ter de desviar o foco. Querer a ação ou a contemplação, nada de meiotermo? Nossa, dá para acreditar na lisa grossura dessas coxas? A

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velha vida se apossa dele como jamais. O que é isso? Boas pessoas, pessoas normais não pensam assim. Nunca será duro demais consigo mesmo, o pervertido.

A senhora Lens se espantara ao dar com o quarto ainda vazio. Mas sei como ela se sente. Ou talvez não soubesse. A luz do sol não mais será a mesma após reencontrar a filha. Portanto a senhora Lens se espantara, sustentando os seios para cima, ao ver que Michele saíra de casa logo cedo após a chegada. Dois anos estudando em São Braico sem vir visita-la, apenas cartas lacônicas, deixara a casa de Silvia, nada pessoal, só queria independência, morar sozinha, estava trabalhando e merecia privacidade. A senhora Lens se espantara, essa menina não deveria estar cansada da viagem e só acordar lá pelo meio-dia? Apenas amanhecera.

Falou com o vizinho como se nada de extraordinário. O de sempre, que calor, talvez chova mais tarde. É que ela não sabia, mas esperava. Espelhos brônzeos se separam de súbito. Não é possível. O amanhã desmentirá o hoje. É esse o fruto fecundado desse dia e dessa praia, dos lugares desertos? Mal respirando hesita entre passar e

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parar, sente o mundo para o qual é necessário todo um livro de páginas molhadas, deseja nascer de um vento novo que junte virtude a virtude – mas foge. Quando você quiser, quando achar apropriado, quando estiver pronto, quando acordar. A mulher que não morrera mas dormia, a virgem entregue ao herói que não sou mas me foi. Gozo e idéia caminham juntos no ritual pelos labirintos do olhar que se move de baixo para cima, do chão aos céus. Sela-se o reencontro, a estranha não era uma mulher mas Michele.

A mãe pensa como a filha viverá com aquele novo corpo em uma cidade como Celba. Sentara-se à mesa envidraçada da sala de jantar para fazer umas contas, após apanhar números e máquina de calcular no aparador, em liberdades de musselina e sandálias. Acende-se com o clique da lâmpada. Sente paz. Capaz de transmiti-la. Gerard, que se mostrava tão eficiente em computação e por meio dela em projeções e custos, almoxarifado e planilhas, apresentações, não podia ajudá-la, trabalhar com ela? Morde a maça que acabara de pegar. O som de Michele rompeu o laço que o prendia à sua solidão, levando-o à inesperada companhia. Ela porém não falara, sonhava. Durante as eternidades que precederam seu despertar, habitou soberana a

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existência de Gerard. Ele postou trêmulo a própria sombra sobre o rosto dela para precipitar o encontro e reduzir os tormentos. Mas pousada a face esquerda na areia ela apenas sorri de olhos fechados. Dormiria de fato? Deus... Tornara-se uma mulher, uma mulher belíssima!... No semblante, ai, a mãe... Poderá essa imagem se tornar vicária? Junto à qual alguém que amasse a senhora Lens poderia viver, subsistindo da semelhança o amor? O sorriso onírico é substituído por um relaxamento dos lábios. A expressão misteriosa não é interrogação, vergonha ou susto.

Súbito os olhos se abriram. Difícil saber como essas coisas acontecem. A partir de agora, nunca mais sonhará com a senhora Lens e por toda a vida estará a seu lado. A seu lado. O que é isso? Imagina? Esse ar imaculado de uma Celba invisível, partilhado. Amanhece. Passos na rua. Galos, sinos. Gostaria de poder fugir do lugar comum, mas não podia. Iria dizer os adjetivos cabíveis, mas disse apenas: Quando ela chegara? O lapso que liberou por fração de segundos o seu olhar, ela usou-o para certificar-se do desejo desencadeado. Michele – e Gerard ainda estava por sofrer tudo o que

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a isso estava ligado – mantinha-se senhora da situação nos mínimos detalhes, senhora inclusive o próprio desejo que a queimava.

Se não há palavras, o que será esse beijo? Beije-me, disse ela, e a língua disse mais. Só então houve palavras e mesmo assim, e mesmo assim, e gaivotas rasantes, e carros algures, e o fluxo muito forte, diz Michele. Mas tinham alternativa. E enquanto falava soltou os cabelos de Gerard passando a invadir o zíper de sua calça. Ela se virou e se pôs à espera. Como assim? Precisa do que para me comer por trás, babaca? Entretanto o respeita por esse escrúpulo. Esquecera quem era aquele homem. Não mais. Seria recuperado a cada violação. Põe agora. Todos com mais ou menos jeito o faziam. Com mais ou menos dor. Quando souber que ele é quem sentiu dor, primeiro achará graça. Mas depois algo irá permanecer. Um respeito inútil pois continuará querendo a violação por trás e o silêncio. Desse jeito, tampouco ela vê o rosto, mas é ergonômico, menina e menino. Esse Gerard. Mas como sempre onde ele e George competiam a tendência era que os dois desaparecessem.

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Essas coisas. A idéia que ela teve, sair e dormir na praia. Ele ter alongado a caminhada além do limite que se impusera. Limite que aliás, pensou, ninguém impõe. É como se ela estivesse esperando. Se vou chamar isso seja lá do que for, ainda assim terá sido desse jeitinho. Como tia Silvia dizia, o que tem de acontecer acontece. E aí, para sempre a coincidência agira num sentido inverso. Olha Gerard eu não sou virgem. Olha Gerard sou dona do meu nariz. Que bobagem. É mesmo uma menina. Não sabe nada. De qualquer modo, um dia saberá. Quem sabe entenda então as entranhas dessa dor que encaminha. Dor que encaminha? Aí ela dirá que Gerard além de tão estranho é muito dramático; que assim acabará enlouquecendo.

Acabarei.

Ela realmente o acha intolerável ou pensará que sim na maior parte do tempo. Porque se achasse todo o tempo perderia aquela parte que sem querer admitir precisava mais e mais e que a podia livrar de sua obsessão. Mais, ela quer mais, do mesmo modo que ele quer. Mal sabia. Querer, querer de verdade, jamais ele quis. Estão no mesmo movimento, perseguindo um gozo que se afasta quando julgam

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alcançá-lo (não é esse o segredo?). Se Gerard as vezes parece mais perto, Michele o ultrapassará e aí chegará antes. O caminho percorrido não deixa duvidas. Isso é felicidade? Insistem na corrida frenética. Felicidade. Como se dissesse Eu sei que você ama minha mãe

e eu amo o meu pai, isso nos faz iguais, nos dá esse direito de tentar . E se ele dissesse Michele não é certo , seria uma grande hipocrisia. Então o que nos impede de gozar? Estão quase. Depois poderemos, se for o caso, nos culpar.

Se você ultrapassar determinada porta, talvez encontre o que procura, um quarto limpo e colorido, com alguém ou ninguém, dependendo de sua disposição, um quarto limpo, colorido e cheio de luz. Chegara da capital à capital da província, São Braico, com dezesseis anos. Era menina estudiosa, cheia de planos de realização pessoal, pouco ligada em companhia masculina. Durante algum tempo se dividiu, achando que pudesse ter algum problema. Num insólito processo de expiação se entregou ao primeiro rapaz com quem privou de intimidade. Aquilo não era seu mundo. Ao menos ainda não. Num segundo momento descobriu não ser capaz de abandonar aquele mundo, que passou a devorá-la. Vivia apenas pelo presente que

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satisfazia seus desejos. Esqueceu a vida passada, que perdera sentido a partir do momento em que deixou de existir futuro além da hora em que dormiria. Feita mulher, jamais se desfez desse estado. Mesmo quando os meninos a levavam para trás da escola, ou quando nadavam com roupas de baixo, estavam basicamente brincando. Mas pouca graça achava nas brincadeiras dos meninos e quis estar com um homem de verdade, a um tempo proteção e dependência. Queria achar esse homem, decerto para abandoná-lo. Ele serão vários, lambendo o chão até sua cama.

Michele muda.

Desdenha os planos de realização profissional. Despreza os tempos antes acalentados. Senhora do mundo e escrava de si mesma, era essa agora a referencia de seus dias, o olhar libidinoso com que contemplava a vítima. A vida perder sentido não era a mesma coisa que perder a vida, deixar de vivê-la no que tem de verdadeiro. Qual a relevância de um sentido para a vida diante do fato de que viver é simplesmente estar vivo, esse é o sentido maior, único, simplesmente viver, como não se sabe para que serve uma flor raríssima no meio de

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uma floresta inóspita. Mas toda essa consciência só será alcançada com a proximidade da morte, com a idéia da morte e com a morte ela mesma, nada determina tão drasticamente a vida como saber que tem um mesmo final para todos.

Estava agora com dezoito anos, escorpiana de boa cepa como diriam seus avós. Gerard não podia conciliar essa idade, que concluía de

uma

conta

simples,

com

seus

ardores.

É

uma

mulher

experimentada, quase vulgar. Um carro passou ao longe na estrada de terra, levantando poeira, e enquanto o ruído do motor registrava a distância em que se perdia, ao som, Michele ainda olhava Gerard. Quando se fez silencio novamente, ajoelhara-se, agarrando-o pelos cabelos, num impulso para trás. Subiu, já depositando a língua nos lábios dele, vencido por uma hipnose que não impedia os lampejos do depois. A mão direita entrou pela camiseta branca de Gerard, buscando os cabelos do seu peito, que puxou, e ele deveria ter dito que ela se enganara, duplamente, não a desejava e se desejasse não deveria ser assim. Teria dito se tivesse tido tempo, se sua própria mão já não a buscasse.

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Teve porém de deter-se no barbante. Não mais podia voltar a si mesmo antes de percorrer aquele caminho que desvendava embora hesitasse diante do bloqueio. Eram jovens, sadios, solteiros. Por que deveriam se sentir culpados, perguntou a Gerard a letra queimada do letreiro de néon da pousada, readquirindo função com a nuvem que escureceu a manhã. Precisava consertar aquele A.

Isso era liberdade, ao contrário de sua avó, cujo casamento fora combinado pelas famílias. Se mostrava-se absolutamente feliz com a escolha deles, bem, tudo pode acontecer, mas não era a forma devida, as mulheres precisavam se libertar mais e mais. Morreu feliz – Michele morreria? Conquanto o sol subisse e trouxesse a perspectiva de visitantes àquela região da praia, em nada afetava sua determinação. Porque haveria também com a aproximação do meio-dia a mudança da luz que invariavelmente determina transformações interiores. Esse Gerard é aquele mesmo, desejoso sem dúvida da paz de um lar, e ela imaginou se seria capaz de tal partilha. Deveria ele se absolver, estranhar sim só se fosse diferente, se diante da fogosidade de Michele se mantivesse controlado. Vem, disse ela arfando, súplice e autoritária. Além do mais é bom treinarmos, serve como anticoncepcional. Quando

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ele primeiramente não quis, por alguma razão a rejeição doeu como a lembrança da mãe. Detestava-a, odiava seu espaço na cama, queria que morresse. Que Gerard é esse que evoca essas flores de um passado para lá de extinto? Que paixão é essa que desperta nela, é ele ou a vida em que ele surgiu? Se fechasse os olhos agora, saberia. Mas a luz por demais intensa faz com que as pálpebras projetem estações e eras dentro dos olhos.

A vida da senhora Lens era para Michele uma sentença. Usava o silencio como uma cor. Repudiava a maledicência. Não se irava nem se ensoberbecia. Tratava a todos de maneira igual, odiava a injustiça e a leviandade. Não julgava, perdoava. Assim reinava a senhora Lens naquela casa e nas órbitas, pela simplicidade de hábitos inacreditável para alguém de sua posição social, em Celba como em São Braico, de uma forma que praticamente criava a beleza a seu redor, com seus modos contidos elegantes, seu olhar poético e sua arte feminina transportando-se à sua própria vida, falando de vida e arte ou simplesmente comentando o prato que serviu no jantar, ah, Michele não suportava mais aquilo, batatas nas têmporas, imagine, o ser humano não pode recusar a dor e o desconforto. Como uma mulher

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como a sua mãe podia chamar a atenção dos homens mais que a própria Michele quando estavam juntas?

Chegara de São Braico numa calça de gabardine cintura alta, grudenta de aperto e suor, a camiseta curta também molhada e ao abrir a porta havia remorsos não mencionados na musica do CD e deparou-se com Eduardo, a quem telefonara para informar a hora de sua chegada (mas só quando estivesse próxima, para que chegasse sem ser praticamente esperada) – ali estava ele, Eduardo, não o seu mensageiro, absurdo, o canalha, como pôde traí-la?

Eduardo pede perdão. Diz que não sabe o que deu nele. Posso compreende-lo, diz a senhora Lens. Apenas gostaria que isso não se repetisse mais. Não, é claro. Ele dá a palavra. Só queria dizer que, a senhora Lens espera que ele complete, a senhora é atraente demais, mas ele diz que “a Michele chega por volta de onze e meia”. Frustrada a senhora Lens agradeceu e o despediu.

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Quando saiu, antes que Michele entrasse, a senhora Lens pensou na filha. Uma mulher decerto. De fato. Uma mulher com Gerard na praia.

E pior, pensa Michele, a terrível beleza de seu sorriso triste. Rose, a rosa, uma rosa sarcológica como diria o professor Delano (com quem Michele se encontrou duas vezes em São Braico) porque se tratava de uma mulher de tecidos musculares e partes esponjosas, mas era como se tratasse de uma cálice de tolerância, corola de ternuras, uma flor até no nome. Sem contar – pensou Gerard com as mãos nas anquinhas de Michele – as carnes fartas, prontas para serem classificadas pelo toque do amor de um homem, o amor de Gerard. A senhora Lens era um exemplo. E esse era o seu exemplo: a sua probidade apesar das fraquezas, seu jeito de lidar sem hipocrisia. Era abrigo para os filhos dos pescadores e sua sombra aliviava a terra seca pelo vento perene – um arroio, adorado pelos meninos, no qual iam se refrescar das tristezas de miseráveis pequeninos. Seu amor era um amor que não se apregoava. Essas coisas incomodavam Michele que não podia diante da mãe fazer sua lascívia passar por sabedoria liberal, nem seu desenfreio como autenticidade, nem seu insensato

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coração, diante da mãe, podia discorrer dos novos tempos de conquistas das mulheres, como se o direito à promiscuidade fosse uma.

Michele enfim se apagava diante da senhora Lens. Diante da simplicidade de seus olhos e da grandiosidade que viam e transportava para suas tela e comportamento. Se não era perfeita, a luz de sua perfeita sinceridade e vontade estava refletida em seus olhos. E Michele odiava-os, sim, quem dera se apagassem – havia uma faca que desferia mais um e outro golpe e mais outro até a morte, ah, ah, ah – A quarenta dias de se tornar a senhora Lange, Michele, queimando e sangrando, morria.

Os sonhos de poder, tônica de suas fantasias, onde mais que uma mulher desejada era invejada, tendo palavra de vida e morte sobre os homens, aquele psicólogo da escola frustrou-os, diagnosticando não ambição, nem mesmo vaidade, mas atração pelo pai, de intensidade mórbida. Como punição o doutor, de seus trinta e oito anos, acabou seduzido pela aluna e paciente, perdeu o emprego e viu seu casamento destruído. Com isso Michele pensou ter encerrado o caso. Estava obviamente equivocado ou não se teria deixado seduzir e destruir tão

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facilmente. Mas fora um dia tenebroso para ele, um dia para esquecer, acordou com uma briga doméstica, depois a reprovação da filha, o filho batendo a porta, menosprezando seu emprego e salário, e a pressão normal da clínica, a hipocrisia dos colegas, enfim, e à noite a vitória de Michele, tendo-o em seus braços. E quem quando explode a conseqüência desastrosa se dá ao trabalho de imaginar alguma causa atenuante?

Agora junto ao ardor fulgura na mente de Michele seu primeiro e verdadeiro amor no desejo de nada ver ou ouvir. Resfolegando entre o gozo e o pavor, Michele urrou. Ele vai lhe perguntar se a está machucando, ela começa a ouvir a voz e lhe tapa a boca em ginástica precisa. Abre-se mais e come areia em seus transportes. Puxa os cabelos dele e com a outra mão dita-lhe o ritmo. Até aqui existe fascínio, a transgressão de uma rotina sob o amor da senhora Lens. Até aqui. Em torno deles, o mar, as montanhas; as casas distantes na névoa. A vida arrebatada pelo erro de se acreditar na retidão de todos os caminhos, na nobreza dos gestos nobres, na justificação e na exaltação. Pela muita necessidade de homens e mulheres sentirem que são normais, o que significa ser bom – falta básica a auto-indulgência

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pressionada pelo desejo carnal e pela vaidade e seja o que for que exista de poder e submissão nesse desejo. Assim nem o amor nem a consciência estavam no vaivém de Gerard em Michele, pensará ele quando distante da magia que transformava a menina em mulher. Quem sabe confiou tanto no velho amigo que não se furtou àquela confidência de sangue em meio ao incômodo de algodão, refletirá ela um dia. Levado agora por uma onda. Ai. Mais tarde dirão que as águas límpidas de Celba não são limpas. Michele se entrega assim, mesmo assim, submissa no seu degrau de poder – o que diante de outro seria humilhante perante o amigo mais velho era a confiança renovada. Talvez em seu descuido Gerard imaginasse algo assim da satisfação duvidosa de um desejo legítimo. De qualquer modo, o que se pensa é efêmero, o que permanece é o que se faz do que se pensou. E pouco a pouco, num grito aqui, numa contração que ali quase o lança fora dela, Gerard assumiu o risco vago de uma criança cujo rosto estimulou a idéia que poderia (por que não?) transformar-se em amor e resgatá-lo de seu amor proibido. Está cansado agora. Mas depois. Sentiu uma felicidade que não sentia, não nos montes em Michele, mas no vale materno abençoado pela madurez de que Michele carecia, fartura sofrida de mãe, sombras da responsabilidade de mãe,

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contraponto de rigidez de pouca coisa na filha. Ah, a elegância da senhora Lens em uma situação íntima!... Sensual, sensual sem sombra de vulgaridade. Natureza e arte. A profundidade desse mar que todas as luas conhecem, nas costuras das roupas da mãe de Michele, os caminhos da linha desdenham pássaros voando para muito longe – mas exatamente para onde? Sim, fugiria. Mas não é possível agora outra coisa além da justa tensão entre dilatação e intumescência. Que horas serão? Caso fossem vistos, que constrangimento... Culpa e vergonha. Porque a fuga termina sempre levando a um outro perseguidor adiante. O que haverá além é alguma face do que houve outrora. Não pode evitar esse fogo, essa dor no peito, essa respiração entrecortada. Afasta-se bruscamente e lança à nuca um olhar como se ela visse. Estremece e ainda treme quando fala. Sim, disse ela, como se o olhasse. Aquele a quem aprendera a julgar não ser nada perante seus valores e paixões, de repente ganha a importância de toda uma vida. Sim, é claro que ela se casaria.

Quem sabe uma cidade intermediária, nem metrópole nem vila, com vantagens de ambas. Abre essa esperança. Um dia de tamanha claridade. O sol nas ruas de uma cidade grande estaria filtrado por

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árvores e portanto não seria tão opressor. O sol no quintal de uma casinha num arrabalde simpático. Está nesse quintal. Os passos nas folhas secas. O reflexo das folhas verdes. Uma brisa no mato. Deixei-a em casa dormindo e vou comprar pão assim cedinho. O trânsito dessa cidade não é caótico mas deve-se ter cuidado ao atravessar a rua. Cheiro de pão. Estalidos do papel de pão. Eis a vida de um lugar assim, o amanhecer em um lugar assim, fazendo esvoaçarem os sentidos, serenando aquela que dorme em casa enquanto saio de mansinho oculto pela penumbra de um prédio nem alto nem baixo, pelo corredor nem estreito nem largo e então a entrada do prédio, a entrada de um prédio nem luxuoso nem simples demais.

Talvez assim tivesse uma vida, uma vida de verdade e não a que os sonhos me permitem apenas no recôndito deles, se ela quiser, e quer, e fica o pensado por não pensado, um mês e meio depois estavam casados e Gerard para o resto da vida oficialmente ligado à senhora Lens, livre para aproximar-se e vê-la se aproximar sem fazê-la adúltera, porque agora pode beber nas fontes da cidade de Deus sem sujá-las e tem a impressão que agora todas as coisas estão em paz. Louco...

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A partir de agora, nunca mais sonhará com a senhora Lens e por toda a vida estará a seu lado. A seu lado. O que é isso? Imagine. Esse ar imaculado de uma Celba invisível, partilhado. Gerard se levanta, se levanta decidido. Galos, passos, sinos. Agora há silêncio na sala do senhor Lens. A jovem acaba em casamento de ser pedida.

Em meio tempestade de verão que marcava o ultimo dia do mês com o rebentar dos raios, a energia elétrica em piques em piques mal perceptíveis mas suficientes para desregular o relógio digital e reiniciar o computador, Michele andou e apressou o passo até chegar na manhã de sua noite de núpcias no quintal, os músculos do braço de Gerard vibrando a cada golpe da enxada. Precisa mesmo fazer isso agora? Preparava um jardim, será ali, ia descrever onde iriam os tipos de flor mas se deteve interrompido pela língua áspera de tabaco, desde quando ela fumava e por que escondida? Mas ela seguiu adiante beijando sem se importar com o sabor que emanava ou com o jardim futuro nem com o que Gerard estava pensando. O homem que nasceria daquela época, antes nada mais que conjecturas de uma menina, a

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quem ela medira conforme seus próprios inacabados valores, agora é esse que a acolhe, madurado por uma desconhecida bondade, para quem o amor e o sexo jamais seriam rotina.

Gerard conhecera um ex-militar, dono de imóveis em Celba, um senhor já de certa idade, que ofereceu uma boa casa defronte à lagoa por um preço simbólico. Homem de princípios firmes como sua voz alta e clara, sua probidade Gerard reverenciava, embora divergissem com relação a quase tudo. Durante uns dois anos viveu ali, ainda solteiro e depois de casado, e honraram ambos um compromisso verbal, os pagamentos do aluguel rigorosamente em dia e os melhoramentos. As janelas serviam de tela para que as nuvens ao se interporem ao sol inventassem jogos. A casa, a calma; num momento inesperado, a lembrança. Se não pode haver mais culpa, então por quê? O silêncio, a ausência de vizinhos. E esta solidão.

Agora e antes e possivelmente depois do casamento. Sim, agora, depois do casamento. E a espera renovada e sem sentido. E o solo coberto de folhas. No começo da primavera, a caesalpinia floria por

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uma ou duas semanas e a florescência independia do olhar de Gerard. Eis a bauínia. Sarita, a velha empregada dos Lens, saberá e mandará recado, que tome muito chá. O perfume das acácias será igualmente terapêutico um dia. E aqui um movimento não muito diferente de qualquer movimento cotidiano. As portas da casa, como você vê, nunca estão fechadas. Tem seus inconvenientes – a entrada de mariposas, mosquitos e morcegos, por exemplo – mas quem se importa? tudo tem seu preço e naturalmente a liberdade.

Essa porta de cerejeira escurecida com retângulos verticais e um no centro, na horizontal, trabalhados com esmero que a senhora Lens admirou longamente na primeira visita na qualidade de sogra. Que surpresa boa, entre, vou chamar Michele. Nesse dia ela se adiantou no limiar com uma graça menos espontânea que a corriqueira; mas eram discerníveis como sempre a simplicidade e o decoro. Então, mãe, o que a senhora achou? nem parece aquela casa não é? Fiz o capuccino que você gosta, vamos para a mesa. Michele apresentará a disposição dos aposentos na casa e dos móveis nos aposentos e das coisas nos móveis – a senhora Lens se impressionou com a televisão enorme pois nunca vira uma TV de tela plana. Também olhou com quase espanto para o fogão

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de acendendor elétrico, auto-limpante. Tudo bem que não é nenhuma novidade pra você, filha, mas pra mim é como se tivesse sido inventado ontem. Então Michele se lembrou com quem estava falando. É que a senhora sempre teve empregada, e nós tão cedo não. Tão cedo. Quando Gerard estiver sem emprego e morarem na casa da senhora Lens, a velha senhora os servirá. Obrigado, Sarita. É um prazer.

Muita novidade deve passar despercebida perante o anfitrião amado mas impossível não notar a funcionalidade da sala iluminada por lâmpadas frias. Paredes bege. Estantes, livros, CD s e DVDs . A mesa do computador atrás da qual caía a cortina transparente antes da persiana e em cujo lado esquerdo um movelzinho guardava jornais e revistas. Mas decerto ele não escuta música em aparelho de som; e livros, lerá? Talvez sim, se mantenha informado, nada mais. Seja como for, George lê tanto, se mantém por dentro de tudo, adora música, e daí? Noutra parede, a do sofá branco, com almofadas compradas à mãe de Maria das Dores, costureira que trabalhava para a pousada. O rapaz é tão bonito e simpático, acho que vai se dar mal metendo-se com aquela família. E na entrada um cabideiro ao lado do visitante. Um cheiro bom de lar, enfim foi a filha quem conseguiu, um

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aroma bom, vindo provavelmente, não, sobretudo do carpete felpudo onde Michele tomaria gosto de se estender para ouvir Beatles, devaneando, como se fosse uma coisa hereditária. Cada uma dessas paredes abrigava (sem culpa para Gerard, afinal estava só prestigiando a sogra), um quadro da senhora Lens, que se sentia vaidosa e esperançosa pela deferência cada vez que os via.

Quando a praia estava cheia, costumava ele nadar no lago. Estimava que tinha uns quatro a cinco metros de profundidade. Águas claras e mornas. Ao redor da casa, os montes culminam na cordilheira geralmente enevoada. São oito horas da noite. O primeiro dia de sol do verão de 2008. Não foi difícil encontrar a casa com todas aquelas referências. Que linda, melhor impossível. Silêncio. O ranger dessa porta. O sussurro do vento. O silêncio, o vento e a porta são tua voz. Gerard perguntou a si mesmo por quanto tempo suportaria tanta irrealidade. A senhora Lens respondeu que um sonho é feito da mesma substância de que a realidade se nutre. Não acorde, disse numa lufada quente; não acorde.

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Certa noite, ao regressar à casa, escutou as vozes de um adulto que orientava o filho. Porque aqui não é São Braico. Não sei sobre o que está falando, pensou, mas era decerto uma frase precisa. Todavia dúbia, o que de tão diferente? Que virtudes as da cidade pequena afinal? Tinha sido um longo dia. Ali está o carteiro. Uma hora dessas. Vou lhe perguntar. Quem são? Eram de fato pai e filho. O primeiro dia do verão, não há duvida. Começou a temporada. Entende porque preferiu se manter solteiro até Michele, lembra-se do menino que corria atrás das coleguinhas, mas não é capaz de compreender o homem que fez tal opção, casar-ser com a filha da mulher que ama. Porque a compreensão da loucura em determinado momento acabará se tornando a própria loucura.

Na janela da sala, vendo o fluxo luminoso subindo a rodovia, Gerard se lembra do dia em que chegou. São Braico. Não é tão diferente. Mas foi diferente, muito diferente. E seria mais se a senhora Lens não fosse casada. Casados. Que vida os teria esperado, se perguntava, mas nunca deixou de manter os pés no chão. É possível que o amor continuasse. Mas sabe hoje o quão diferente são. Pensa. Ninguém compreende uma pessoa como eu sou, tão recolhida em si

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mesmo, avessa a festas, eventos, tanto quanto ama a proximidade de pessoas. Se as pessoas se contentassem em ser próximas... E a senhora Lens sempre tão atarefada até quando sentada suas pernas inquietas balançam. Pensa com as mãos, indaga com os pés já a caminho. É que sempre fui sozinha, pensa Rose quase como uma resposta, é que sempre fui sozinha e tive desde pequena de resolver as coisas por mim mesma.

Três meses depois da manhã em que reencontrou Michele, Gerard descobriu que, pronto, era isso, se não estava feliz se devia basicamente à força da atenção que dava à opinião das pessoas. Decidiu que se declararia, não importava quem dissesse o que – de resto, ninguém precisava saber. Só quer ter paz, pensa enquanto se aproxima da casa. Sarita passou por ele em sentido contrário, quem pensa estar enganando?, cortejar uma mulher casada, devia dizer a ele o quanto ela é decente e boa, diria Olha, esquece isso, deixe-a em paz . Mas no fundo experimentava certa simpatia pelo sentimento de Gerard; estava apenas tentando ser fiel ao senhor George que a tirou da rua. Se ao menos Michele o amasse... Ele poderia entregar sim a parte de seu sentimento que a senhora Lens não abarcou, a energia sensual crua como um céu infinito à espera que anoiteça. E se a

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senhora Lens amasse o marido e o marido a amasse... mas não a amava. Não. Eis ali o calhorda no dia anterior. Espera a garota de programa de outra cidade, de quem os serviços contratara. A vadia da Joana agora vive doente. Gerard o olha; a senhora Lens é nisso humilhada; maldito; mas nada fará contra ele, e sabe que não.

Joana fora a um médico em São Braico. A ausência tornou-a desejável novamente e George tinha coisas novas na cabeça. Não sabe que não a verá mais. Enquanto imagina que sim, experimenta parte das taras com sua mulher, a senhora Lens, a quem Gerard amava. Por que então não enfrentar o mundo em nome do amor em vez de enfeitálo com a beleza enganosa da renúncia? Até porque não estava mais dando certo, pensou a senhora Lens, deixara de ser um período produtivo. Tudo está agora nas mãos do acaso. Se pudesse ele discretamente sussurrar-lhe as palavras. Declarar-se-á e se saberá enfim correspondido. Da janela, num calafrio, Rose percebe que Gerard se aproxima.

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Ele nada tem em comum com George, não sabe portanto a motivação de seu impulso. Pergunta ao homem como chegar e ao longo do caminho pensará em como não ficou constrangido em fazer isso, em perguntar, em perguntar tanto quanto ir. Incuravelmente romântica, Joana era recorrente no erro contra o qual suas colegas a viviam prevenindo, apaixonar-se pelos clientes, o que podia fazer? Viu em algum lugar de seus olhos o que ninguém via. Claro que poderia amar um homem assim, se fizera tudo o que fizera por ela. Que fosse agora uma boa lembrança. Está nas mãos do amor. A voz de Gerard é desde o primeiro momento adorada. Ela sonha de novo mas seus sonhos são como árvores de uma floresta condenada – infectada, agora só pode mesmo sonhar. Com Gerard o amor assumiu ares de missão. Sentarão na noite clara, silenciosa, na bela noite de primavera, na hora desesperada, as almas unidas nos ares em que esvoaçam mariposas pelos campos das propriedades fora de Celba, onde nascerão as estrelas na penumbra, na suave obscuridade da noite boa, ela adivinhou que seria sim uma noite muito bonita, tem coisas que não dá pra esconder de uma mulher.

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Ele chegou com passos tensos, ela se olhava no espelho. Os detalhes da decadência. Olá. Entre George e Gerard, havia desenvolvido os sintomas. Embora a janela esteja fechada, pode sentir a vida dos animaizinhos da noite. Vela agora o sono dele. Uma mulher de sorte é o que é essa mulher, amada assim por este e tendo naquele o provedor. E se a George relevava a violência, em Gerard condenou a demasiada ternura. E o que a senhora Lens dizia? Ela não sabe. Joana olha um o fio que corre da cortina antes de responder. Ah, sabe sim, é claro que ela sabe. Meu pobre amigo.

Amanhece e o cheiro de pão é o cheiro de Celba. Joana trouxe três. Gerard não consegue se levantar, não tem motivos, ah deixe de bobagem, de onde vem essa música? O corpo anda pelo quarto, mas não se falou em dinheiro, como poderiam? Gerard não sabia que ela tinha irmãos menores. Gerard não sabia que ela precisava fugir do mais velho que não dormia, que raramente dormia. Ela tampouco imagina as agruras de ser filho único. Então ofereceu o colo para que Gerard dormisse.

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A possibilidade de estar infectado inexistia para George, apesar de saber o estado de Joana. Passou a encontrar amantes da capital. Melhor. São de nível superior. Uma delas decide seduzir o idealizador do pólo editorial. Ele não tem culpa de ser como é. Não pediu para existir. Então que história é essa, pensou Cati, de perverso, de único a ser odiado? Victor não estranhava o desejo dela de acompanhá-lo sempre quando ia de sua cidade para Celba levar manuscritos. Você trabalha demais, Victor. Podemos pegar uma praia depois. Podemos ver o pôr-do-sol.

George fora certa época um escritor prolixo e de qualidade, como Victor: a época em que conheceu Rose. A senhora Lens acha que o empreendedor matou sua criatividade. Ou, como Cati acredita, ele precisa de uma nova musa.

Ele vende muito bem seus livros na Europa, não o bastante; o primeiro nos “mais vendidos” era um conterrâneo, como chegara ao topo antes, o idiota? Esse homem, um tal Pedro Carneiro, não lhe fazia frente em termos de literatura mas certamente sim no aspecto comercial. O sucesso do rival incita-o à idéia do tal pólo, Cati logo

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percebeu, mas isso em nada afetou sua admiração pelo amante, as pessoas precisam ter ambições, precisam se motivar. Motivação é o segredo de tudo. Mas o que se faz depois de alcançar aquilo pelo que se motivou? George pela primeira se percebeu cansado, infeliz. Nunca na verdade pensava muito a respeito de tais coisas. Mas agora é levado pelos olhos de Cati, pela sua boca, pelo seu pescoço, pelo início de seus seios. É levado. Pensa a respeito meio sem se dar conta. É o som da voz dela, os movimentos de seus lábios e da língua fugidia, há em Cati um pouco do que há na chuva que caiu na noite anterior, na lama que deixou pelas ruas da vila, sobretudo para os lados dos pescadores, dos hotéis baratos, mas a quem ele está procurando em meio ao cheiro de peixe que ao de esgoto se misturava, e no tilintar vindo do bar? Se perguntou e não soube a resposta, e ficou ali, súbito parado perto do mar batendo nas pedras sem ter a menor idéia do que faria se quisesse ter uma vida decente. Porque de todos os produtos do pólo de literatura os únicos fadados ao sucesso foram os do próprio George os que ele assinou após ler enredos recebidos de livros jamais publicados – sou cúmplice dele, meu Deus, sou pusilânime e fraca, sou cúmplice. Mas a senhora Lens jamais fazia nada além de se culpar.

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Qual é o sentido deste quarto, parte de mim, desse teto, céu universal de um mundo, céu de um mundo, o que quero dizer? – uma coisa é o sentir, o contemplar, outra muito diferente colocar em prática o que se acredita, e é de resto preciso ter esse aval constante do comportamento? – isso é tão desgastante, estou tão cansada, mas caso não seja, se a compreensão se basta, se basta o arrependimento bíblico, a mudança de pensar, a mudança de pensar que salva, então enfim está justificado esse teto cinza, esse limbo entre a ação e a contemplação, esse querer sem força, esse sentimento apático. Deitada, portas batem repetidas vezes, George está saindo, naturalmente para encontrar essa mo��a doente, que relacionamento o deles não posso mais entender. Antes foi decerto Michele, entrou saltitante e saiu, saiu ao pai, melhor para ela. Tenho medo de pensar se Gerard está em casa. Me conforta que esteja. Meu coração. Assim sobressaltado. Terrores tamanhos. É a vida. O mundo desabando sobre mim, uma interrogação, a pergunta que exalou dos braços quentes de Gerard quando me cumprimentou, um aniversário sem festa e todavia – O quarto está girando. Essas questões são as mesmas de que Silvia sempre falava, mas agora é de outro jeito, agora são vividas, por mim mesma, vividas, não formuladas de alguma outra forma. Quarenta e

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seis anos. O universo se move sobre sua cabeça. Está porém para se libertar.

Na pintura absorta, amando Gerard, de algum modo preparava o caminho para dias felizes. Agradecia então a Michele por não ser fiel. Naquele dia, Fantarello aproximou-se de uma forma diferente, disse a Michele que havia muito mais coisas envolvidas do que apenas sexo, enfim, que ela fazia parte da vida dele de um modo essencial. Por detrás deles, na janela, as luzes se amontoavam e perseguiam como óleo num vidro de água, e as nuvens se refletiam nos olhos da senhora Lens. Michele disse Bobagem, eles não tinham esse tipo de profundidade, o máximo que alcançam é mesmo um tipo de sentimento superficial que procura apenas satisfações imediatas, jamais o zênite das coisas. Ele riu e o riso não raro tem essa irreversível propriedade de aproximar duas pessoas e leva-las a uma intimidade maior. Seu melhor amigo desde que se entendera por gente, durante muito tempo ainda se encontraram nessas condições, que não desfizeram de modo abrupto, antes demoraram no status de confidentes e ela apenas queria lhe estender a mão amiga quando ali se tocaram, como um trem parado no meio das montanhas. Quando a saia azul marinho imitou as

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luzes era como se fosse a primeira vez, como se eles tivessem encontrado enfim a felicidade universal pela qual deveriam trocar a individual concupiscência. Ele olhava os seios por um prisma de novidade e as coxas de um ângulo inédito, e via essa certeza de eram mais que amantes, quando seu corpo roliço ajeitou-se sobre ele. Perguntou-lhe se ela também estava sentindo daquela forma. Michele, rindo, disse que não era capaz de sentir nada além do cavalo sob ela. Acredite, disse ela, você é o que trago em mim mais próximo de um amor; mas sabia que essa proximidade era apenas relativa, que todos sempre estariam comparativamente distantes de seu primeiro e único amor. Inclinada sobre ele, cavalgou a única certeza de sua vida, a de que se alguma coisa não acontecesse imediatamente, ela deveria sobreviver de um objetivo inatingível pelo resto de seus dias e compreendeu que a vontade de ficar com as pessoas existia apenas na medida em que, embora precisasse tanto, não suportaria mais ficar sozinha.

Havia aquele desejo em Cati, de futuro, de estar bem de vida, não nasceu para ser pobre, nasceu para mandar. Havia dentro dela a tendência por tudo o que não se esgote, por coisas que por mais

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consumidas não se esgotem. De onde tirou que havia sombras de tal atributo em Victor, daí mesmo passou a traí-lo com George. Esse George. O marido, o homem de cujos lucros a senhora Lens participava. Graças aos quais está agora na tarde de terça, a campainha, esses dois lado a lado, em quadro emoldurado pela porta da senhora Lens, um anjo dos céus. Não serei ignorada. Eduardo queria o endereço de Michele, Oi, é que ganhara um computador do pai para fazer os trabalhos da escola, apesar de não ser de imaginar que se interessasse por algo além de surfe, mas sim, e além do computador a senhora Lens guardou e não devolveu aquele olhar, não mais de olhos estranhos ou da novidade de olhos claros, antes um olhar simples conhecido e reconhecido num outro, e não, nunca mesmo, ainda mais interessado por estudos, mas agora estava super a fim, adorando. Como assim, estava? – Não está mais? – duas apanhadeiras de conchas passam e olham para os rapazes e murmuram entre si – Como é possível? Ela não se enxerga? – Todos de súbito imersos pela sombra da nuvem que passou no céu movendo a cena entre atos subentendido, assim, como se estivessem sendo contados em uma mesma história.

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Foi aí que Eduardo falou sobre os travamentos e como apagou aquele CD, fazendo gestos e se exaltando, como se a coisa estivesse acontecendo ali mesmo. Disse que tinha perdido tudo, trabalhos de um semestre, que provavelmente fariam falta na faculdade, etc. Conversavam assim, dois homens jovens, interessantes, ambos interessados nela, ora, precisava rever aquela idéia de que estava ficando velha. Em torno deles as ondas se faziam presentes no ar e o mar se misturava no vento e mesmo o horizonte se deixava compreender pela linha do muro de contenção enquanto Eduardo fala e espera que a senhora Lens esteja olhando para ele. Continua. Gerard o interrompe com entonação de quem sabe o que está falando. Eduardo se tranqüiliza, o alívio estampado em seu rosto, mas não, ela não está olhando para mim, está olhando para ele, em todo caso é claro que dava para recuperar e claro ele podia ficar tranqüilo, esse novo sistema operacional tem dessas coisas. Vou lá à sua casa mais tarde se você não for sair, e a gente vê. Perfeito. Agora a senhora Lens estava entendendo o significado de manutenção de computadores da pousada, ela, que nada entendia de computadores, e precisava entender, isso de internet se tornara essencial.

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Descobriu então que podia convidar Gerard para trabalhar com ela, por que não? Útil e agradável. Mas sabe que continuará sozinha. Estavam sobre pedrinhas que passaram de um momento para o outro a brilhar e refletir o futuro. A revista é entregue. Tem uma bela reportagem sobre Morandi e sua minúcia na natureza morta. Mas eu queria vida. Queria essa natureza viva, tua mão mais que a revista que passou à minha. Dá uma olhada na matéria, disse, com um meio sorriso cheio de significados. De repente agradece, obrigado Gerard, você é um amor, mas ambos entenderam Você é o meu amor. Por essa comunhão Gerard desistiu da confissão, da declaração aquele dia. Para quê? Ambos sabem. A pedrinhas se apagam. Ruídos de passos sobre pedrinhas. Vamos. Tchau, Eduardo. Obrigado de novo, Gerard. Uma delicadeza ter se lembrado. Mas ela sabe que continuará sozinha. E nunca se acostumará com as comodidades dos tempos modernos. E os dias passarão enquanto o coração dela estiver se entregando à tarefa de ser, ainda jovem e sedutora em sua blusa sem mangas e shorts azuis, como se fosse serena, acenando. Tchau, Eduardo! Tchau, Gerard. Tchau, senhora Lens! E os dias passarão sobre aquela voz, até tornar a encontrá-la em outra porta. Até logo, senhora. Gerard nunca dizia adeus para a senhora Lens.

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Deitada a sós, a senhora Lens estava comovida. Gerard era realmente gentil e atencioso, prestativo. Por que afinal Michele não usufruía do amor de um marido assim? será que desconfiava de alguma coisa? Não. Teria vindo agredi-la à menor suspeita. Gerard não era muito simpático, não o tipo de simpatia que se costuma cultuar em sociedade, sinônimo em geral de hipocrisia. Falava pouco, o necessário, e não tinha boca para falar mal de ninguém. Sobretudo, estava sempre disponível apesar de todas as suas ocupações. O que mais se poderia esperar de alguém? Um jovem difuso, cheio de silêncios – dos quais grande parte lhe era consagrada. Acredito que esteja se aproximando o momento. Depois que as luzes da casa se apagaram, pude ver claramente. Vou acreditar. Essas coisas acontecem. Amor à primeira vista, premonição, coincidência. A questão é quase outra. Quando acontecer, estaremos preparados? Quanto o amor sobreviverá à

união? Por algum tempo sem idéia das horas, a senhora Lens

gradativamente mergulhou nas profundezas da escuridão.

Eduardo e Keshia. George e Cati. Gerard. Aquele era o tipo de noite em que ela costumava se levantar tateando e buscava o

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interruptor do abajur da sala, ligava para Silvia ou recebia ligação dela. Se fosse hoje, de que falariam? Silvia e Victor. Não chegara a haver tempo de conversarem ou simplesmente a amiga escondeu dela o seu caso? Esses casos fortuitos fadados à eternidade. Ela e o rapaz da festa. Em noites como aquela, conseguia se lembrar. As luzes, as pessoas engalanadas, o apagar das luzes, as imagens atualizadas de um ficar inesperado, jamais antes fizera nem jamais depois se permitirá – mas era um menino tão gentil, tratou-a como uma igual, ela, já entrada nos trinta e tantos, agora essa escada na penumbra de um mundo indiscernível, e nesse mundo a jovem que se pensa velha para um ardor assim, associado a arroubos que nem em adolescente. Rose, e esse rosto familiar de um estranho logo dissolvido nos gemidos ajustados ao evento atemporal, sem uma única palavra, não que se lembre, sem um único movimento de real repúdio ou conivência, saudosa do que não viveu, sente os dedos másculos e a própria masculinidade agora, o que é isso, sou noiva, era noiva de fato mas George jamais fez qualquer menção que a fizesse recordar que um dia fora reanimada por semelhante sonho, do qual jamais acordará.

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Não sei o que há comigo, apaixonada? deixando-me levar assim por esses caminhos evidentemente perigosos a que esse Victor me arrasta – não sei e não quero saber pois só me importa estar numa praia como essa sentir uma chuva assim, e por essas vielas passar em meio a pescadores e catadoras de conchas, como se não mais pudesse viver sem esse cheiro nauseante, depois que as sandálias delas somem você praticamente é obrigada a imaginar para onde as levam, se voltam para casa ou se ao contrário fogem sabe Deus para onde, como eu costumava fazer quando meu pai me repreendia com descaso – esta Celba onde pretendia vir ver a questão do voluntariado quando cheguei e agora é apenas cenário por onde é levada minha alma insensata, inconstante, ou talvez eu saiba o que há. Quero ir para a cama e não estar sozinha quando acordar. Silvia sabe que não há consolo. Soube de todo quando conheceu Gerard. Mas se Victor amava Cati, ela nem isso, sofre apenas por desejar a dor. Aquele a quem ama a sua melhor amiga. Inquiriu desse amor a Gerard, que não o confessou. Os comentários dela aos posts que ele publicava tinham essa direção, sempre. Internet como ferramenta de aperfeiçoamento do ciúme. Essa merda de ciúme. Insiste no propósito de ouvir a confissão que jamais veio, que sem saber Gerard guarda para a própria senhora Lens. A

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conversa no messenger batia sempre nessa tecla, cheia de carinhas maldosas. Mesmo depois de conhece-lo pessoalmente, Gerard era ainda um contato do orkut, um nome entre tantos no MSN, não era, como ela disse uma vez a Rose, exatamente uma pessoa. Decidiu-se assim por verdades em potencial e ficar com a que lhe pareceu mais atraente, sobre Cati e George. Assim se insinuou na trama (pois isso era a vida). Esperou dar com a justificação da tragédia um sentido para a vida, como se a vida precisasse disso, precisasse de algo além de ser realmente vivida, de uma forma ou de outra.

Do outro lado da rua, próximos ao lago, dois passantes observam o vulto. Percebem logo que é um homem e imaginam que é uma pessoa solitária. Michele ressona. Ressona ou ronca mesmo. Nesse caso pelo menos estou realmente só. Mas se fosse a senhora Lens, ah que bobagem, seria só de todo jeito. Logo ia estar cansado da companhia dela, como de todas. É sempre escura a noite quando nos damos conta. É sempre paralisante o conhecimento nem que seja só no primeiro momento, o que precederá o avanço, o desenvolvimento da idéia ou simplesmente a paz. Uma vez naquela primeira semana, ele ligou o computador e percebeu simultâneos os pássaros da manhã, pássaros

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são próximos, pássaros estão disponíveis, não pode se imaginar com alguém que não seja disponível, de quem para se estar junto é preciso adaptar horários. Os pássaros da manhã são os mesmos da noite, mesmo se diferentes. A trilha luminosa da sua janela, mais próximos que a senhora Lens, mesmo na exuberância das fantasias, e naturalmente muito mais próximos de Michele.

Estarei perto de Deus porque a Ele me dirijo, reflete Victor no momento derradeiro, ou do inferno porque me dirijo com semelhante fim? Andara se dizimando numa novela sobre seu relacionamento com Cati. Ninguém dava a mínima e ela menos que todos. Mas enquanto estava vivo – pensou a senhora Lens quando ouviu passos lá fora em horários em que ele costumava chegar – mas passaram - , Victor deu provas de que, se tivessem lhe dado chances, tornaria o pólo literário de Celba uma realidade. É possível que fosse assim. Havia os meios. Assim, se entrega Victor à empreitada, como a um amor. Se não houvesse dinheiro envolvido. Se só dependesse de boa vontade e talento. Tem dias que se sente tão cansado. George possuía uma energia inesgotável. Logo. Quem sabe. Hoje. Agora. Diuturnamente os dois como criaturas invisíveis pairam sobre os vales de suor e vertigens. Se

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Cati pode ficar com ambos, terá algo de cada um deles, o melhor. É claro o melhor, que dúvida. Seus olhos vasculham todas as possibilidades. Uma divindade animal que acolhe os melhores pedaços em seu império e queima os restos. O que for. O jeito com que você se veste caminha passo a passo com sua embriagues desmesurada. Aqui aliás tudo é assim. Celba parece pequena, apenas parece. Vai destruir a vida dele, Silvia. No primeiro encontro ele irá se queixar, por que escolhemos sempre as pessoas erradas? Pelo menos, encontrara em George um amigo. Não descobre. Longe disso. Apesar de ser medíocre, Victor é uma ameaça, diz George com os seios de Cati nas mãos, porque tem um estúpido estilo. Transtornava George a idéia de que um dia, como Pedro Carneiro, Victor estivesse num lugar mais elevado. E ele, o mais prolixo escritor do mundo, sequer merecera uma resenha especial em algum suplemento literário. Nunca entrara numa lista de mais vendidos. Que dirá a Academia. Essas coisas incomodam mais do que os processos que há contra ele. Aí Cati. O flerte depois o caso, a ligação suficiente que galga esse nível, está agora acima de toda a hesitação do homem, ele está em suas mãos, convenceu-o de uma vida anterior regrada, está perto de faze-lo esquecer, com a doença de Joana, toda a miséria de depender de prostituas para o que uma

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mulher de verdade pode suprir. O caso e depois a cumplicidade, braços abertos cuja sombra na parede lembra águia, abutre, e na escuridão a voz entre sussurros de gozo planeja o futuro, a voz grave de George, acima dos provincianismos de Celba. Não há dúvida de que ao lado de Cati realizará todas as suas ambições.

Há uma réstia da luz do dia, raios, por sobre o casario de onde se destaca a casa branca com detalhes em tijolos vermelhos e agora Victor é um ponto diante do portal confundindo-se com a sombra do muro. Tinha ido discutir com George alguns títulos da nova coleção. Lembra que a vila estava quase oculta na bruma, sente os pés doerem, é nisso que pensa: imortalidade. Era como se Victor projetasse toda a seqüência da vida futura, a juventude, a meia-idade, espaço de entrega de um homem, e logo a juventude novamente. Pernas pressionadas num beijo sob o fícus, qual o encantamento desse lugar? e logo a treva oculta as partes ainda visíveis do rosto dele. Bebemos muito talvez, e um só rosto úmido de orvalho, e cabelos entrelaçados. Como vai,

senhora? , perguntara ele ao entrar. Muito bem , respondera Silvia, avaliando o seu sotaque, possivelmente da região dos Bálcãs, quem irá se lembrar daquele horror daqui a vinte anos? Obrigado, disse ele, era

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gentileza, Não, disse ela, era verdade. Ele é muito talentoso. Uma nuvem passa enquanto ela pergunta se já tinha se relacionado com uma mulher mais velha. Ele tem namorada. Ela sabe. E sabe outras coisas sobre eles, sobre ele e Cati. O quê? Pergunte a seu patrão. George? Existe outro? O que vocês sabem, sobre Cati? Homens apaixonados são cegos. Estava insinuando? Afirmando. Se teria de ver para crer, pois então. Oh não chore. Silvia não queria que ele se magoasse mas não tinha escolha. Victor era um rapaz tão correto, não podia permitir que continuassem a enganá-lo assim. Deixe-me consolar você. Que consolo para semelhante dor? Outro amor, talvez. O cheiro dela, esse perfume. Não. A morte, somente a morte.

Cálida a mão que o toca, sabe das coisas, não fale assim, não pense mais nisso. Silvia. A tessitura da pele, ruído de tecido e peso do tempo, já escureceu a luz do poste é quebrada no alto do muro, o que resta se diluiu entre as folhagens, aí está o centro do decote, joelhos que sentem a terra fria, por que ela fazia isso? Precisava de uma razão? Pois bem. Se estivesse certo queria morrer com ele. Quero um consolo também, disse ela. Victor tenta afastá-la. Deixe-me em paz. Não. Morreriam satisfeitos. Ela fala sério? A casa de George tem um quê

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de tétrico. Então é realmente isso que quer? Michele esteve olhando pela fresta da cortina até esse momento e viu quando Silvia se abaixou. Cheiro forte que anuncia aparição. Victor se rende. Pede que ela continue. Assim. Eles não mereciam, George e Cati não mereciam a dor de Victor. Não pare. É uma noite limpa, linda, é uma Celba de paz que eles vêm pela janela da pousada. Poucos minutos desde a saída da casa dos Lens. Era um desejo verdadeiro e turvo que compreendia a idéia de consolo mais que de satisfação e dificilmente poderia portanto satisfazer. O que são afinal um para o outro? Mas com o efeito do corpo dela é abrasador, enganam mesmo aquelas roupas escuras que usa.

O inferno espreitava quando dentro da bruma suave um portão rangendo se abriu. Eram dedos finos e hábeis, de quem digitava bem, de doutora competente. Na madrugada sombria agora a língua fria como o mar de Celba. Ele, triste ainda e pelas revelações extenuado, sentiu o bloco esquecido forçando o bolso, enquanto gemia. Súbito um outro barulho, uma porta. Se assusta. Ao discernir os vizinhos de quarto se pergunta por que está assim alterado, são apenas alguns minutos ainda, não mais que alguns minutos. Gerard fora receber o

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Fundo de Garantia, viu quando subiram. Não sabia como se sentir a respeito. Maquinal, à porta do apartamento. Chegou a encostar o nó do dedo na madeira. Não houve uma batida. Fiquemos assim, fiquemos aqui. Parece um bom lugar para o pernoite. E estamos indo logo cedo para aquele outro balneário não estamos? Hóspedes são todos iguais. Michele passa em frente ao hall e segue seu caminho. Caso prestassem atenção, perceberiam que a cidade estava mais quieta do que costume na temporada. Caso se desligassem dos próprios pensamentos e tivessem acompanhado os noticiários. Houve enchentes nas províncias vizinhas, uma catástrofe. A cidade isolada, a cidade sem vida em si mesma, que vive das cidades ao redor. Mas os sons são os sons de sempre, a música dos cafés e o ruído dos geradores, bombas d´ água, pessoas, televisão, o que realmente não há é o som de rua, pneus sobre a rodovia, e os ecos residuais que os motores deixam. Caso tivessem prestado atenção, teriam percebido. Victor porém estava totalmente absorto e Silvia não estava ali, como nunca está em lugar nenhum, se parecia livre era justamente por isso – literatura de terceira, pensa Vitor, e a vida não acontece sem um monitor na frente dela. Vida de que Cati transbordava. A lembrança dói. Cati, por quê? Ele a amava tanto, tinha feito tudo por ela. Cati e George juntos, a

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união de seus fracassos, a consumação do perdedor em todas as áreas. Mas nada impede que você mantenha os planos de George, escreva as novelas, erga o pólo, Silvia daria uma força, casar com Cati não é nada no projeto. Ele se livra das ultimas resistências com horror. Todos irão se lembrar de que era novembro, nem todos saberão que a causadora foi Cati, ninguém mais ouvirá falar dela dentro em pouco. A cada rosto de Silvia, Victor vê a seqüência do futuro próximo, que jamais a assustou, mas agora teme. Mãos trêmulas, língua áspera, odores fortes sobre seu o corpo. Nada inerente à sua fantasia, o corpo simulou passagens de vida que o afetavam tanto, de modo que já não seria exagero dizer que o pensamento e o comportamento se haviam desligado um do outro e os dois de Victor. Silvia não sabia que um escritor podia ser assim. E ao longo da noite, por causa dos tempos condenados a não vir, Victor pediu que ela sentasse e levantasse, levantou-lhe os braços e segurou-lhe os pés, mandou-a se mexer e parar de se mexer, e agora por favor deite-se. Então ela lembrou-se de que não gostava de obedecer. Pare. Parece patológico, doutora? Deu com a lua e a mulher nua consistia na rima mais pobre, óbvia. Ah Cati, como a teria feito feliz, pensou ao ouvir a outra voz. Está me machucando. Silvia só queria de novo estar sozinha, ansiou

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desesperadamente a consciência de prazeres anteriores, o estar em sossego, sem perturbação além do barulhinho do messenger, mas é tarde demais, está mesmo machucando e não, não é o que ela estava querendo, não mesmo, que pensamento vulgar, nada mais tem a ver com o outro Victor, o idealizado, talvez verdadeiro, quem pode saber? Quieta. O corpo dele desenvolverá novos e horrorosos odores.

Michele vira o bastante em casa para prever aquelas coisas e mais viu ao segui-los; mas não a preparação da corda na árvore, o brilho da lâmina, a sombra do braço. Alguém ouve o grito, mas melhor fingir que não. Silêncio agora. O ônibus de São Braico. O silencio de novo.

Foi tenebroso, horrendo, bem que papai sempre desconfiou que eram loucos. No enterro, Michele saiu de moto no começo do sermão. O que Gerard sente agora é quase uma concupiscência, deseja saber onde Michele irá e encontrar a quem, é a primeira vez que acontece, que tem ciúme dela. Entretanto, todos os gestos de Rose, todos os seus movimentos na cama, cada expressão de alegria ou gozo, continham atributos os mais vastos de pura imaginação, com o que a filha não

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pode rivalizar, porque toda sua agitação real é suada e geralmente fora de hora. Ainda assim, esse lampejo de uma dor amorosa que não chegou a experimentar podia estar acenando com um descanso de realidade para a fatiga da interminável quimera.

O sino havia tocado. Joana se levantou da cama, olhou-se no espelho. Estava magérrima. Pálida, perdera muito cabelo. A maconha controlava a intensidade mórbida da quimioterapia. A vontade de vomitar chegou, súbita. Seu fornecedor, um jovem de 20 anos, havia sido preso, estuprado na cadeia, e se suicidara. A irmã de Joana, surpreendida fumando, assustou-se e tentando fugir foi baleada. Mas, pensou Joana lavando a boca, os olhos encharcados e vermelhos, tanto alivio haveria em tão somente livrar-se dos efeitos colaterais em síndrome, a própria abstinência, e quanto de melhora a quimioterapia de fato proporcionava?

Do líquido lacrimal insistente brotaram

lágrimas de verdade, ao evocar o fruto de seu ventre. Leva a mão à gaveta, apanha o permanganato e se perde na contemplação do vidrinho.

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Sarah vai deixar a cidade em definitivo. Não é uma surpresa mas bem poderia ficar. Tinha ganho muito dinheiro sem nunca precisar de um dia de trabalho. E sem se prostituir naturalmente. Se é o que você está pensando. Teve namorados, meninos ricos da cidade e amou de verdade nativos como Eduardo. Vamos, disse ao motorista, estou um pouco atrasada. Todos viram o táxi partir, pegar a rodovia. E quem a poderá acusar? Não decerto um único habitante de Celba. Enquanto não chegar, enquanto estiver no caminho, poderá pensar em destino ou no poder da necessidade. Não crê que em São Braico será tão diferente. Tem pelo menos três endereços. Sentirá saudades?, pensa Eduardo ao ver o táxi sumindo. Sentirá saudades?, pensa Sarah vendo Eduardo ficar mais e mais pequenino. Que jamais volte, pensa Keshia. Queria ter sido como ela, pensa a senhora Lens. Não, não queria. Que bunda, pensa George, que peitinhos... Talvez jamais volte a comer uma menina tão gostosa.

Depois daquele dia, Michele sentiu uma mudança estranha. Poderia pensar que se devesse à partida da amiga, com quem tanto

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aprendera, às iniciações que partilharam, mas de repente um céu rosado, ou os detalhes assombrosos do amanhecer remetiam-na às descrições sutis, refinadas, de cenas diárias de uma vila de pescadores nos poemas de Silvia. Lera a obra, a pequena obra, os três livros com edição do autor, parece que há em Celba algo que incita à formação de escritores, bem, nada que se compare a seu pai, e Silvia não era de Celba embora vez em quando estivesse por lá. Mas amara verdadeiramente o que aquela mulher tinha a dizer sobre um mundo de noite de núpcias que se prolongam além do jardim. O pacto suicida havia impressionado. Temeu ficar na capela onde eram velados os corpos.

Ainda fascinado (talvez não como no primeiro dia) por seja lá o que fosse que cercava a senhora Lens, algo não puramente físico mas que existia por causa do corpo dela, onde está agora que contempla não mais o ideal proibido mas a deficiência do próprio ideal, não comovente como antes? Se a inspiração depende do que é material, a inspiração, a mais imaterial das coisas, tudo passa a ser questionado, num mundo ou no outro. Você amou, é verdade, foi tocado daquela

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forma pela visão da mulher, porque representava libertação da visão de mulheres – e agora o que significa? Esse vazio. Vê com indiferença a graça (sim, ainda perceptível) no olhar e nos modos da senhora Lens. Como se registrasse essa beleza para um outro ser, que por acaso o habitasse; mas se desejos do visível são carência de criatividade, o desejo do visível que buscava Michele nos escritos de Silvia estão representados agora na própria Michele, no desejo dela a que Gerard sucumbia. Porque Gerard rendeu-se à realidade e agarrou-se a ela como numa tábua de salvação. Para que sonhar como outrora, se não havia mais a capacidade de sonhos de outrora, que compreendia a conformação com deleites fictícios, ou reais apenas no ápice casual e sem verdade?

Penumbra matinal na casinha incensada, um bolo fumegante entre céu e mar, manhã agradável que dá vontade de viver, de esquecer, de se perder no peso frio do vento, viajar nas vozes dos vizinhos, esquecer estar aqui, essa mão entre suas pernas, esse dedos, esse dedo, o lugar desejado, o que há de diferente? Sim há alguma coisa diferente, o lugar exato, quem diria, pensava fosse um nerd, essa

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outra mão não deixa dúvida, é Michele convulsionada. Chega a ouvir o vento na superfície da lagoa, como o epílogo de Bell Jarr.

O homem que foi bom com ela no princípio não haveria de ser indiferente com o que se passava agora com Joana. Na verdade, achava um pouco de exagero dela, pois sua aparência não estava tão má assim, em noutra ocasião não a dispensaria assim, mas é melhor pagar logo esse médico antes que se visse enredado numa situação constrangedora de enfermidade. A julgar pela consulta, estava certo. Estranha terapia de carícias e a ordem de um desnudamento incompreensível para leigos. Mal sabe o doutor o quanto ela escolada em qualquer tipo de fantasia, porém não assim, quando deposita o que resta de esperança de vida em mãos só dispostas a usufruir de seu corpo como quaisquer outras.

George se afastou de Joana e Cati preparou sua investida definitiva. Michele a odeia quando são apresentadas, ira-se contra o pai, traição, não à sua mãe, que era nada, não à sua mãe, que tampouco se sentia traída.

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Cada vez que trocava olhares com o genro, era como se conversassem sobre o amor que sentiam mas também sente o arrefecimento, essa nuvem estranha –a perda da sublimação entretanto está fazendo o melhor, Rose retoma sua arte do ponto em que estagnara, aproveita a tranqüilidade material, o conforto, não os desperdiça, é preciso fazer algo das violações. Ademais George é outro, a procura menos e não signifique isso que aumente o numero o número de suas saídas em direção à zona vermelha. Estão todos um pouco mudados. Esse desânimo em Gerard, essa dispersão em Michele. O que ela está maquinando agora? Mas sim sua arte ganhara espaço, conquista critica e público então efetivamente sublimava Gerard. Ora, por outro lado, se foi o bastante para a realização artística e profissional, não bastou para que, tendo cumprido seu destino dentro da senhora Lens, perdesse ele aí uma importância que pedia não menos que a própria vida.

George se afastou de Joana, mas depois de uma discussão com Cati a procurou. Queria saber dela, como estavam as coisas, como ia o tratamento. A vila está luminosa depois de dois dias de chuva que não

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refreava o entusiasmo dos turistas em final de temporada. A senhora Lens os escuta indo para a praia, separados um grupo do outro por uma posição dos ponteiros e um movimento de luz na janela. As cores nos quadros retém novidade. O azul é mais frio, é aromático, o vermelho não tão quente faz sonhar. O que se mostrou além da sonolência após o almoço não passou de uma nuance mal desenvolvida (quando o amor parece repetir o enfado dos desamores), não chega a supor um tempero especial na refeição que com Gerard partilharia depois do sexo, a fantasia de tão real chega a doer como doem os machucados quase curados em lugares do corpo tendentes a batidas, e por isso jamais saram. Não podia evitar a visita da filha com o marido e sonhar não é mais tão fácil e as vezes sequer desejável. O que se mostrou além do estrépito noturno da rodovia recua ante a noticia do bebê. Talvez traga, como a própria Michele um dia, um pouco de alegria à sua existência silenciada. Quem sabe um neto ajudasse também a suportar a tragédia de Silvia, em grande medida sua tragédia também.

Celba como toda cidade turística não possuía um mercado de trabalho relevante. Ele se desesperou. As ruas de Celba são até bem

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iluminados. Deixar a vila. Entre os prédios como que planejado o vão para a cordilheira. Andou sem rumo. Chega, bate, entra. Desabafou acerca do desemprego com toda a volúpia da confissão que reprimia. Ela finalmente fala. Não precisava se preocupar. Ela falaria com conhecidos. Enquanto isso por que Gerard não trabalhava com ela, tipo um secretário? Era exaustivo fazer as vezes de agente de si mesma. Está quase chorando. Ficou resolvido assim.

Aquela Michele renovada, apaixonada, se desinteressa por ter visto nele os reflexos da própria carência, seu amor por ele não vingara porque percebe que ele precisa amar tanto quanto ser amado. Enfadou-se do mundo porque de há muito se enfadara de si mesma. Preferia cenas longínquas e superficiais. Que constrangimento. Gerard não tinha amor próprio? Como poderia ela agora se excitar com alguém que trabalhava para a sua mãe? Talvez de alguma forma já soubesse. Talvez previsse as conseqüências daquela relação de trabalho. Quantas vezes ficariam sozinhos sem nada ousarem? Talvez sentisse pena deles, ou inveja. Mas não conhecia ou não admitia seus próprios sentimentos. A ultima vez que o fizera teve de se confrontar com o pai.

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No desejo dos olhos, viu a rua. Já havia anoitecido. Dissera a Gerard que iria à casa de Keshia. Ele sabia que não. O que não sabe é que, como o tempo e o mar estivessem muito parecidos com o do dia em que ali chegara, as ondas deslizavam direto para dentro das roupas dele, com licença, por causa da noite, dos tempos, dos braços comuns às poltronas, tudo se repetindo na janela de onde Keshia vê a amiga chegar, e mais, os dedos que se insinuam agora são os dele, porque é ela agora quem precisa de conforto, pois Eduardo foi atrás de Sarah, só pode ter ido, e o sonho do estranho passou a ser tudo, mesmo quando não era mais um estranho e dali não deveria advir mais nada. Com efeito, desde sete horas o mar esteve trazendo de volta a parada de ônibus, e dedos gentis de um rapaz bondoso e compassivo. A espuma na areia trazia ainda em seus reflexos a realeza de ônibus, a música lenta que há tanto tempo não é dançada, chocolates não mais comestíveis, o fim de uma era de festinhas e o cancelamento de uma página do orkut. O que Michele estava pretendendo ao dizer que vem para cá? Por que não veio mesmo? Gerard continuava a brincar com o elástico e a respiração de ambos era cada mais regozijante à medida em que as notas do piano da sala aumentavam também. Quando Keshia foi para o seu quarto e se sentou na cama, as memórias que a

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esperavam na tela era de tal sorte poderosas que ela precisou digitar quase 50 páginas em espaço dois de processador de texto, como se outra coisa não fizesse que transcrever com rigor coisas que lhe eram ditadas.

A alameda sombria parece sacudida pelo terral, esvoaçam os cabelos de Michele. Seu ambiente. Aperta os olhos. Está escuro, não lembra dessa árvore. A cidade está crescendo, são tantos prediozinhos em construção. O barulho do mar. O mar. Crespo, marrom. E como não visse a luz, indagou dela pela jovem de todos conhecida desde criança. Os que a revêem, Oh como cresceu. Os amigos de George bebem e tocam os copos num brinde à filha que acaba de passar. Aquela menina com quem os sonhos passaram a ser constantes impregnava sua alma. Nada que uma prostituta, por jovem que fosse, pudesse dar jeito. Casada, acabou. Então por quê? Os postes se acendem no som surdo e a luz desenha as anfractuosidades no shortinho. Ah mas com uma filha dessas, tinha mesmo de ser... George. Sai do prédio do hotel. Michele. Sufocação e espanto. Não podia estar ali. Mas como se ela sabia que ele freqüentava aqueles lugares e mulheres? Não fora uma boa idéia mas já que aconteceu, que está aqui, determinada entra por onde o pai saiu. Enfim irá saber o

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que ele. Joana. Agora a verdade. E o que Michele esperava? Que ele fosse fiel a uma mulher que ama outro homem? Quando uma palavra cala dentro dela, Oh meu Deus, supôs que não ia suportar, que péssima hora para passar mal, mas era um luxo a que não podia se dar, ter um troço em tal momento, então deixa pra lá, pensa no dinheiro que precisava tirar do caixa eletrônico. E soube enfim que, quando a noite houvesse descido, estaria tudo terminado, ou quase. Não parava de pensar na criança. Um filho, pensava; um filho. Alguém mais para ignorar o sentido da vida, para buscar o inalcançável e perguntar inutilmente. Pensou como se sentiria acerca de tudo aquilo quando na manhã seguinte acordasse. Até porque perplexa esteve sentada na cadeira do quarto em absoluto desconforto que agora cobrava seu preço em câimbra. Gerard? O marido que não a incomodava. Então por isso. Que amasse sua mãe, os homens são assim mesmo, ela o pode admitir, argumentou consigo mesma. Mas sua mãe corresponder aquele sentimento sujo, era impossível. E como Joana, uma puta vulgar, seria a escolhida para a confissão? Nessas paredes sujas, nesse lugar infecto. Viajou então pela profundeza de seus sentimentos e em todos viu sexo e morte. De súbito a vida subiu a tona. Ei-la ali, mulher perante mulher, refulge de vida enquanto a escuta. Jamais

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esteve entre semelhantes segredos, nunca lhe pareceram atraentes. Eis a vida de que se nutre o tempo. Eis a vida. Foi então que derramou a primeira lágrima.

O mar. As ilhas ao longe. Um barco. Pescadores que voltam, turistas que deixam a praia. Ali nas pedras mais alguns. Batem fotos. Um tira fotos do barco. Não vê a hora de fazer um álbum na internet. O movimento é continuo mas ainda lento. Muitos comentam. Quando chegar a alta temporada. É só um comentário, não uma profecia. Todavia há um certo respeito religioso, um solene silêncio dos que escutam. Então pensam. O quanto será bom, o quanto será revigorante, o quanto de sexo se poderá ter para compensar um ano enfadonho. A pousada. Os sonhos ficam na entrada, toda a vontade se reduz agora a um banho quente, tirar esse sal, comer alguma coisa.

Num entardecer assim agradável Eduardo não costuma parar para pensar com que roupa sairá, simplesmente pega as sandálias e veste uma camisa colorida; mas estava atipicamente cuidadoso, demorou-se até diante do espelho no penteado e algum efeito de fato foi provocado, pois ouviu uma e outra moça comentar sobre seu porte

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na rua. Quem sabe mais atento, apenas. Que bom se Keshia percebesse algo assim, uma mudança, deu por si com semelhante desejo sequer ligado a sexo, porque depois de um tempo amante de Sarah um rapaz precisa mesmo é de um pouco de sossego. Melhor agora pensar de um modo prático, numa forma de sustento, em não mais depender dos pais e antes poder sustentar uma mulher. E que mulherzinha adorável Keshia daria. Não gorda, fofinha. Por ela valeria a pena deixar de lado a idéia de ir embora, valeria a pena voltar, terá ela sentido sua falta?

Será isso uma decepção? Keshia descobrira essa coisa de amor da pior forma. Não haveria uma outra? Quando a insistência da imagem de Eduardo com Sarah passou a habitar seus dias e transformar noites em insônia, pediu à mãe que a deixasse viajar para a casa da avó. O quarto que a senhora mantinha ali para a neta, um lugar quase santo para as duas, possuía paredes de pureza tal que acalmava e inspirava, como se aquele efeito de água nas paredes matinais fosse de algum modo entorpecente. E após três ou quatro dessas doses noturnas sentiu-se refeita para voltar. Mas a vida não pode ser assim simplificada, estar apto, não estar. Há toda uma

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simbiose entre sonhos e realidade de que não se pode escapar pelo maniqueísmo compactado em uma só verdade. Porque também é verdade que Celba não subsiste apenas da luz, mas ao contrário, em muito da obscuridade. Há um rosto à janela, e aqui está ele de novo. Seria fácil para as pessoas a julgarem, hipócritas. Queria apenas oferecer um consolo que está além dela. Sua agitação torna-se movimento. Nem se sente gordinha.

Gostaria de perguntar a Michele se ela acreditava em amor à primeira vista, mas a Michele a quem poderia fazer tais questionamentos já não existia para ela. Nas loucuras possíveis de se fazer por amor, nem precisava perguntar, naturalmente a resposta da amiga seria sim, junto a um sorriso ambíguo e uma rápida mudança de assunto. Esse Gerard é uma gracinha e muito fofo. Sua letra não acompanha a idade, continua infantil como ela própria. Deverá se desculpar

com alguém por uma certa dose

de perversidade

característica de tudo o que é infantil? Benditas as criancinhas na malícia, mas seja maduro o modo de pensar. Por que Sarah não deveria ser para Eduardo o que esse sonho fora para ela, o que Gerard quase. Em que medida foram sonhos? Fecha o caderno e o coloca sob a

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lista telefônica. Estranho não sentir qualquer emoção ao ver aquele que fora a causa de tudo. Por que não me deixou guarda-lo intacto na memória, bem como o que julguei fosse amor? Oi Eduardo. Entre. Mas não diga que esteve aqui na frente de Dona Rose, ela pensa que Michele vai dormir aqui hoje.

Mas que ele por favor apenas esperasse um instantinho que ela ia se trocar.

Eduardo sorriu imaginando coisas.

Dessa forma, quando estava com aquele vestido, Keshia regressava a um sentimento que ignorava todas a sensatez. Quando dava por si, sentia-se completamente feliz, sem o respaldo de qualquer das circunstâncias de sua vida. Flor perfeita, perfeitamente efêmera. Se imperfeição havia naquele momento era sua própria perfeição, a saber, o fato de que toda perfeição e felicidade são transitórias. Não haverá portanto um homem como Gerard, ou um rapaz como Eduardo, mas como um sopro de vida, todas as coisas estarão restauradas e se estabelecerá a paz do amor e da realização do sonho

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de um lar, aquecendo seu corpo com uma luz inefável, sempre que ela estiver com aquele vestido azul.

Com súbita piedade, Joana encarou Michele. O vento levanta a cortina e surgem as luzes e os efeitos das sombras. O anoitecer de novembro em Celba. O sino da igreja. Sela sibilino a hora e o desconhecido entretom na voz da prostituta. Mas por quê? O que as distingue? Não sou melhor que ela. Só então se deu conta de que o amor por George a transformara, mais até do que a perspectiva da morte, porque essa é a verdadeira causa de mudança no universo onde nada se cria – não a consciência da morte mas a consciência da vida que se acrescerá eventualmente da morte. Mudara, em proporção tão imensa quanto pequenos eram os fatores que a mudaram, num processo análogo ao da ausência e reencontro: o milagre só é espantoso para quem não o acompanhou por meio da companhia cotidiana. Os olhares se sustentaram até Michele se cansar e baixar o seu. Pois se mal se sustentava nas pernas... A amante com Aids, o pai vindo atender o ultimo pedido, que cuidasse do filho quando ela partisse. Mas o senhor Lens se recusou a crer que estivesse mesmo grávida e, se estivesse, que

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era ele o pai. Enquanto você me manteve, eu não tinha outros, insistira inutilmente. Por que teria? Foi assim mesmo. Nem tentou chantagear meu pai. Cheia de ímpetos de decoro e decência, Michele se ofereceu para cuidar do irmãozinho como um irmãozinho do filho ainda nãonascido. Poderia adota-lo, se Gerard assim o quisesse. Cuidariam da pobre criança, condenada como sua mãe.

A senhora Lens deveria suspeitar... Ela estacou, colocou os óculos e leu o bilhete da filha. O relógio em seu pulso deu a hora cheia. Do rádio, a música enchia o ambiente entre as paredes gelo de sua sala de estar cheirando a pinho. Era um momento especial em sua vida. Quis que fosse. O sangue corria quente. A pequenina Michele espera que a colher seja levada à sua boca. Acorreu também a imagem de George, dez anos menos, segurança financeira, sem defeitos graves... E no começo me excitava tanto... — chora a senhora Lens no ombro de sua mãe, dias antes de a senhora Ponce morrer. “A vida não é só sexo minha filha”. Agora ela sabia. Que o amor não deve ser um lugar menos de sobressaltos eróticos, um lugar de paz, porto seguro etc. Quando George ainda subsistia de escrever estórias pornográficas, era

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gentil no trato íntimo; depois de realizado financeiramente, tornou-se pornográfico, perdeu qualquer resquício de sensibilidade. A senhora Lens passou de si a lembrança. O calor da tarde percorria seu corpo. Pensou em Gerard, na tolerância que tinha para com Michele, em sua gentileza, na capacidade que tinha para ouvir, embora ele não a amasse, ou não a amasse de modo especial, com o fervor com que amava a senhora Lens.

Onde estará Michele realmente?

Michele estava na praia. Era aonde sempre ia quando estava triste. O crepúsculo introduz a noite e nova madrugada aos ventiladores se propõe. A aragem vespertina desliza e ondula o tecido leve da blusa. Que anda fazendo uma jovem tão doce, com esse estremecimento de bondade, como uma criatura da grama que arde na canícula e sobre si deixa que pise o infinito vermelho derramado sobre cinza, como o desejo – um meio de expor as coisas, de dispor os pensamentos, estudo de coxas sobre poética e extenuada forma. O desconhecido se dirigiu a Michele com sussurros obscenos e súplicas ávidas. Em silêncio, Michele se deixa apalpar. O estranho a leva para

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trás do parque de diversões e agora mostrar-lhe-á, porque ela quer que ele mostre, pensará a ter forçado – o destino do homem, a sina do macho, a satisfação de que precisam.

À idéia se juntou o elemento de sonho e um ingrediente de tema na tela se arranjou. O rosto de Gerard, teimosamente oculto pelas nuances de doze, como a indicar santidade, era o rosto da própria senhora Lens. O caminho da arte mercantilizada, inutilmente o abominava, porque necessitava de independência financeira tanto quanto se expressar. O rosto da senhora Lens oculto no de Gerard alinhou então rugas de expressão e um olhar desolado passeando pelos seus dilemas de menina. As indagações que fazia Michele, também a senhora Lens as fazia, e — como é mesmo que se costuma dizer? — Onde errara?

De tudo o que poderia ser atribuído a Michele ninguém pensaria na capacidade do gesto generoso após o qual saiu pela orla em final de temporada andando contra o vento vespertino. À perda do amor de

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Gerard que julgava uma posse análoga à sua casa, roupas e carro, seguiu-se um despojamento estranho. Calor. Sofrem as plantas nos jardins, definham como enfermos terminais. Suam as pessoas que não podem estar na praia e todos reclamam assim como na época do frio se queixariam

igualmente.

As

bicicletas

derrapam

nos

areais

sobrecarregando os rolamentos traseiros, que muitas vezes não resistem, fazendo das oficinas lugares sempre cheios. Até porque o calor torna os pneus muito mais sensíveis, explicou o mecânico à turista. Lembrou então Michele de dias semelhantes de sua infância — aquele em especial quando George bateu na senhora Lens enquanto as flores definhavam sob o sol implacável e deslumbrante. Uma semana depois, chove depois de meses e Michele presencia, como voltasse o pai de uns dias fora, escondida, pela fresta da porta, as lágrimas de George, ajoelhado diante da senhora Lens, pedindo que o perdoasse, que ele jamais faria aquilo novamente. Chorou tanto que foi até consolado por sua vitima. O monte, coberto pelas nuvens, deixara de reinar absoluto, como houvesse a paisagem se despido O curso do rio retomou volume e corria pelo lado leste da cordilheira. Naquela noite, isso Michele não sabia com certeza mas podia imaginar, George possuiu a senhora Lens e lhe disse palavras de amor, prometeu mudar

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e ser um bom marido, fora a bebida, a maldita bebida... A senhora Lens fez que acreditou e na verdade gostaria de acreditar, mas a bebida não modifica a essência das pessoas.

Após ter sumido um tempo enorme, voltou a ser ouvido o barulho do mar. Ao sul da foz, onde antigamente traficavam escravos, negocia-se cocaína em casas humildes. Quando acorda pela manha, há silencio na casa. Michele, menina de seus oito anos, saiu com seu cão pela praia, esta mesma praia, mas não havia vento como agora, pois as manhas da vila esqueciam-se no mar parado num espelho. A roupa ainda não tirada dos varais tremulava, estalando como uma fogueira. Não pudera a senhora Lens figurar de sublimação todo seu sentimento por Gerard. Tal a limitação da vontade diante do destino básico. Malgrado suas teorias, seus sonhos de uma arte melhor, à medida em que era empurrada para a vida do genro, da qual abdicara ele os prazeres, ela mais se entregava, qual um afogado que não tem mais forças para lutar contra a correnteza. Não podia mais e tomou-se de diferente animo, fez-se madura como no físico. Sua luminescência é a daqueles que se santificam. Pela primeira vez desde que conheceu Gerard, passa a se preocupar com ele, com sua saúde, com seus

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sentimentos, gostaria de saber como ele superava aquela situação. Falava muito em Deus; estava Deus o fortalecendo? Um primeiro pretexto, iria visita-los e, quando Michele os deixasse a sós, diria as palavras.

Naquela tarde, prolixa, antes de se entregar à inspiração de Chagal, brotara dela um desejo premente de pintar qualquer coisa sugerida pelos Gestos. Sujeitar-se-ia a qualquer coisa, menos à experiência banal de um outro dia sem a satisfação de seu amor – um desejo ardente de pintar o gesto definitivo da vida, que seria a pintura de um gesto seu na direção de Gerard para ao mesmo o toque eterno de um único beijo.

Após ouvir da arrumadeira o recado da filha, passava com as sandálias nas mãos pela a ansiedade no frio contato com a terra das ruas da vila que, posto o sol no horizonte, refrescam-se da viração noturna. Essa sensação debaixo da saia é absolutamente incomum, parece

tão

mais

confortável

e

adequado

apenas

para

hoje,

harmonizada com o desejo não mais reprimido e madurada no isolamento que foi muito além de seu limite.

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Batidas na porta. Gerard se aproximou, como se não soubesse do que se tratava. Quase em contato físico e já nas notas de olores, desfaleciam. Refeito da surpresa, ele precisará de um repertório de expedientes. Não se deixou trair exceto pelo brilho em seus olhos; mas a senhora Lens não o podia ver, ofuscada que estava elo brilho de seus próprios olhos. Parecia que ia chover de novo... O dia reflete nosso espírito. A senhora Lens podia acreditar. Chove e a chuva nos penetra. O calor acalora os ânimos. Então Michele não vem mais hoje? Gerard acreditava que não, ela costumava dormir na casa de Keshia quando ia lá à noite. Espero que não seja mesmo nada, disse a senhora Lens. Não era nada. Talvez ela quisesse mostrar o cachorro. O cachorro? É, Michele comprara um filhote – A senhora quer ver?

Ela responde. Diz que está com pressa, deixou muitas tintas expostas. Mas se Michele deixou recado, é provável que tenha mudado de idéia, que volte logo. Ele aproveita. Por que ela não espera um pouco ? Realmente estou com pressa... A desculpa morreu na boca da senhora Lens quando sentiu o pingo da chuva. Concedeu. Entrando, agradeceu as flores que ele enviara no seu aniversário. Foi só uma

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lembrancinha, ele disse, e ela e arrematou sem pensar, por alguma estranha associação de idéias: Lembra do dia em que chegou? Como poderia esquecer? Eu vi a senhora pela janela do ônibus, confessou. Uma flor, pensou, olhando os cachos pendentes da primavera, que luziam. Uma flor — deixou escapar, constrangido e realizado.

— As flores estão destinadas ao sacrifício por alguns momentos de

beleza... O que sequer é meu caso — disse a senhora Lens,

enrubescendo.

— É sim, com todo o respeito.

Ela era linda. Segundos antes, era um entardecer como todos. Tornara-se um marco. Difícil entender o destino. Desnecessário entender. O largo de Beethoven transcorria ao fundo. A senhora Lens era um adágio. Havia qualquer coisa em seu rosto, assim serena e triste. Ela mesma o sabia mas nunca pôde nunca constatar. Mas constatava que acabara de mudar. A paz intromete-se nos nervos sem memória. Embora amasse tanto Gerard, esse amor – uma força trazida intacta desde que

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a gerara, por sua muita renúncia – carregava a alegria incomparável do desapego. O amor saía de si e voltava para si mesmo, para sua fonte e ali, no coração da senhora Lens, dissiparam-se as nuvens e ela pela primeira vez na vida conseguia ver. Por terem assim coincidido afeto e circunstância, as feições de Gerard eram as feições mesmas da vida, da liberdade, e assim ela se tornara o que era de fato, atingira o fundo de si mesma. E era a calma, o adágio, a simplicidade, ansiando uma outra parte para partilhar esses bens adquiridos. Gerard a olhava sem esperar resposta.

—Obrigado, mas não... não sou bonita e não se fala mais nisso.

Chovia que nem se ouvia tão fininha era a chuva. Um véu de retículas ancestrais. Por trás da senhora Lens, pela janela, entrava a noite. Amava-a tanto que doía. Como Sílvia costumava a lhe recomendar na época da internet, depositara seu segredo num poema. O caderno está aberto perante a senhora Lens. Por causa dela desfalecera. Mas também por ela extasiava. Procurava-a ainda e a encontra mesmo longe: no mar, no céu, no monte, nas estrelas, nas

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outras, nas crianças, nos pássaros, até no cruel vento vespertino a soprar em seus ouvidos aquela ausência.

Hum... quem era a bem aventurada musa? — perguntou a senhora Lens, rezando. Desde a primeira vez ele soube. Por meios enviesados, é verdade. Que seria ela a sua vida e também por outro lado não seria. Porque estavam proibidos um ao outro – eis a causa da tristeza e do amor – teriam um ao outro para sempre, daquele modo tal, inexorável. Por que ainda a olhava assim? Não era mais preciso, ela se entregaria. Ainda bem, pensou ela, escovara os dentes e fizera bochecho antes de sair. Mas o tapa no genro negou tudo quando, ela sentada no sofá, ele aproximou os lábios dos seus.

Seu joelho direito apóia-se no outro, proibindo qualquer contato. Ele leva a mão à face ferida não mais que seu amor próprio. Com que então se enganara todos esses anos... Porque essa foi a reação não de uma mulher apaixonada. E nunca acontecera com ele. Subitamente deixa que quebre as ondas por tanto tempo cheias e enchendo, ondas que não passavam. Ela se inclinava-se até o encosto lateral quando

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percebeu um Gerard desconhecido erguer-lhe a camiseta e segurar-lhe os seios. Os olhos dela piscam de agradecimento, as menina dos olhos saltitam. Ela permanece séria, como se educadamente o reprovasse, não se advinha em sua face qualquer resquício de prazer. Saíram do quarteirão em seus instrumentos, por um caminho muito antigo. Não dá para saber quem vai à frente ou se estão juntos; quem visse diria apenas que ele está beijando um mamilo enquanto tortura o outro entre os dedos. Pára apenas para que os olhos se cruzem por um momento necessário, nem longo nem rápido, silencioso, até que tudo tenha sido esclarecido. Então prossegue. A língua encontra a rigidez que esperava sua ocasião, dá para ver o orifício, como Michele um dia viu, e o frisson fremido ao redor. Quem visse diria que a mão direita está entrando pela rara saia leve e que ela está escorregando de lado para o tapete, nunca abandonada.

Dali, ela se dobra contra o sofá e a mão procura sua face e uma outra tentativa se faz, menos afoita, e dessa vez o beijo aceito são as folhas ao vento lá fora, e de novo o mar, sempre, e agora o céu. O calor dos universos estava no alento que descia pela garganta da

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senhora Lens. Ela fechou os olhos e inclinou a cabeça. Mas conseguiu falar. Sou velha pra você.

– Não conheço mulher mais jovem tão desejável.

– Pare... Sou mãe de...

– Não fale mais, senhora...

Eis o mundo, incline-se na mesa de centro para o alcançarmos. O vidro reflete um rosto macio e impudico. O tecido da saia é mesmo tão leve, o contato que a levanta pouco mais que um sopro. Um sax envolveu o reflexo e um violão eterno substituiu o marulho. Joelhos firmes e coxas retesadas. Gerard não imagina, prêmio imerecido, mais do paraíso nem uma eternidade melhor. Tudo o que agora surge da calcinha lhe concede lento e incessante ardor e o firmamento e as galáxias derramam-se em sua boca em tépida polpa. À medida que ela se abaixa, aumenta a devoção que a levou a se ajoelhar, face a face com a terra profunda a absorver as nuvens sobre os montes para onde erguem seus olhos em oração. Bruma e garoa sobre a árvore solitária.

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Não importa o que faça ou como o faça, ela irá adorar e será aquilo que ela desejou.

Boca e língua e mão, um puxãozinho que não pretende o que parece. Confiados dedos passeiam ao redor dos tempos arrepiados, ali encontrarão o necessário aconchego. Ecos de vozes imaculadas que se repetem porque se aproximam derramam-se pela colina branca e imensurável, lembram sons de uma esperança remota que ressurge e insiste, atravessa os limites e procura, invade, feita perspicaz umidade mais e mais arguta. Tão cedo, ela pressente, não deixarão de se fazer ouvir. Ela está agradecendo a Deus. Mas por que não se conheceram antes? Quem sabe então fosse outra história, e nada do que sentir saudade no final.

Pouco antes, quando vinha, subindo a ruela adorada, seus pensamentos pairavam num jardim interdito. Olhe o recém-nascido. É menina, linda, em sua batinha de algodão. Não espera que Michele não se esqueça de lhe dar o seio na hora devida, confiança assim é própria apenas das crianças. Caminhou pela trilha circular, agora

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entra por uma porta natural de arbustos, aproxima-se com a intrepidez de um rio cheio num mato denso, lugar de memórias e planos que se atrevem a arrostar a idade. A cada movimento do dedo o reflexo no vidro se transmuda como se contempla-se o próprio prazer e a inesperada ventura, a cada roçar o semblante imagina se os transportes provém de tecido, ou pele, ou lábio, ou língua.

Mas agora que Gerard se pôs adiante, os braços inequivocamente a abraçam por trás, e ela silenciou por um átimo os gemidos ao passarem à sua frente pessoas, postes e fios telegráficos, como a visão da janela de um trem que começa a movimentar a plataforma. Os braços se erguem com o destino inevitável, os seios apontam a direção, estava finalmente voltando para casa. Estamos assumindo nossa sina, poderiam ter dito; dure enquanto dure, somos eternos. Esse perfil do rosto quase mostra um sorriso, esse perfil do seio não confessa a idade, o mamilo é a ponta de um de seus pincéis novos. Corpos femininos são com facilidade conduzidos. Um aperto másculo, ela não chegara a imaginar essa parte. Vira-se. Ah. Sobe insonháveis alturas; o frio do vidro da mesa também é sensual; não sei que horas chegarei em casa. Avisou Sarita? Gostaria de ver o rosto de Gerard agora. Ele precisa

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abrir-lhe as pernas um pouco mais, precisa afastar só um tantinho dessa renda, nem precisará usar as mãos. Ela gostou do tom desse esmalte. Ali está uma parte de seu rosto. Amor... Ele parece realmente não ligar que a calcinha não seja nova, na verdade é bem surrada. Mas ela se lembra quando comprou, se está assim usada é justamente porque a adora. Sim, um homem especial.

Está calma agora. Um vento de início de noite acaricia também o corpo exausto. O amor físico se apropria gradualmente de todas as suas forças, restam poucos espaços para o que não seja desejo. Gerard a aproxima de si, aí está, inteiro, o seu rosto, não por muito tempo, pelo menos agora, agora a desliza pela mesa como se fosse ela os dois ponteiros de um relógio, dez para as quatro em relação ao sofá. Ergue-a para si novamente de costas, junta os corpos, e assim a mão está livre novamente para entrar, dessa vez por cima, e os dedos, ah, ah, amor, onde você estava que não te conheci aos trinta anos? – porque ela se casara com essa idade – e é possível beijar assim, sofregamente dessa vez, não apenas o cumprimento, a permissão da vez anterior. Ah! Lá estão eles, perdidos ou salvos (nesse momento não é possível saber), usufruindo das velozes carícias, ajoelhados um em

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cada nível do mesmo altar dos fluidos e fricções. Ah, amor, então não foi inútil toda dor e desesperança, porque quando você minhas costas recosta em teu peito, meu corpo pousa no teu calor e os prados se estendem pela manhã que rapidamente nasce, assim, em meio à algazarra dos pássaros e o cântico das cigarras, como na noite em que te pressenti, em que de algum modo previ a libertação e a paz final. Ah, amor, meu amor. Assim.

Nunca antes. E todavia familiar. A gatinha desce da mesa, não de todo. Ronrona, retém o calor da língua em lugares sagrados. Então ele trocou de instrumento e timbrou o badalo que há bem pouco silenciara, se na escuridão nascida isso não são tentáculos, o quê? Ele segurou o pulso que concedeu com uma agradável sensação de imobilidade sobre o sofá. A lua jamais iluminará assim a escuridão de Celba novamente. Uma das pedras no peito banhada pelo mar; do outro lado, o monte coberto pelas nuvens ralas – ondas que se agitam em malha. As unhas dela estão pintadas de um rosa escuro quase frutífero; o espaço entre o pescoço e o ombro descai à passagem do olhar. Depressa será um detalhe esquecido, substituído por outros sinais. É belo porém nesse átimo, como parte da composição de uma

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vida que se entrega, para a qual é possível crer que se está predestinado. Os beijos correm ao longo do colo. Descem um antigo caminho e todavia parece um caminho novo, como costumam ser as coisas cíclicas. O desejo é a sina dos seres humanos, é como a chuva, que a terra só por um pouco de tempo absorve. Não há maneira de discernir paixão e amor, exceto depois que a paixão houver sido satisfeita; como nunca se chega nesse ponto, importa que a perna esquerda da senhora Lens se deixe cair no tapete, abrindo-a mais a essa perfeita erosão de qualquer vontade contrária à mão arraigada entre os densos pentelhos e o tênue tecido. Ela está rindo ou chorando? Que palavras são essas? Deixe que ele as entenda com sua boca e interprete com sua língua. Quatro dedos dentro e o polegar por fora da calcinha. Ele precisa antes que ela, e não ele. Sente-se mais que amada, idolatrada quase. É quase impossível imaginar como quem pode desfrutar da rigidez de Michele se interessaria por sua mãe de modo tal. Mais tarde ele contará de seu ciúme de George e definitivamente ela não poderá entender. A primeira vez que Michele, recém nascida, buscara o seio da mãe, encontrou dificuldades. Era de manhã e, olhando a menina, pensou que era feliz. Seus cabelos eram

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como fogo na colina. Ah se ele não se demorasse tanto assim... Todavia, a idéia era precisamente essa.

Agora quer que ela grite assim e se transtorne a esse ponto? Não, nunca poderia imaginar, o amor é um tipo de profecia. Dedos entrelaçados na textura azul, profunda e terrível, e o oceano e os caminhos incendiados de pôr-do-sol e o tamarindeiro bem na frente da pousada, ali por onde outros adolescentes usam todos os artifícios para serem notados e suas inquietações acalmadas por um período curto e irritado e – ah – agora ele quase a pega no colo pelo instante da mudança, ela ajuda com as palmas na serenidade do carpete, e sim ela levantou e pôs a perna direita sobre o vidro da mesa, ele pára um pouco como se estivesse diante da decisão mais importante de um grande projeto. É noite. Ela permite, cora, evita olhar para ele, porque tanto prazer tem de ser algo errado. Ele prefere não passar ainda pelo portão e olhar ainda antes da mureta o pátio do recreio e da morte. Agora os cabelos pendem e balançam ao ritmo da respiração, o perigo definitivamente passou, não importa o quanto seu gemido reclame e queira ainda dizer que não, na verdade está agora

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apaziguada mesmo antes, sente-se enfim à vontade no abismo. Era uma saia nova, de tira elástica e ganchinho. Ao soltá-lo, romperá o ultimo liame que os prende à vida anterior. O caminho havia se fechado para trás. Então o desejo soprou mais forte, e tiveram de encará-lo, desejo, sem mais sublimações. Sem mais representá-lo, como se faz também com a dor. Alguém que durante toda a vida sofreu de enxaqueca e sabe que não é o alarme de algo mais grave, quando ouve o diagnóstico de tumor no cérebro surpreende-se ao reconhecer a mesma e banal dor que outrora era apenas um sintoma nervoso. Agora não, a modelagem alta no cós que antes disfarçava a silhueta que se avantaja, valorizando os culotes, torna-se nada, sem função na cintura perdida, sem muito sentido como as fibras muito brancas e finas abaixo, acima do corpo que se deitara, do rosto alimentado.

Gerard a tudo reconhecia e era grato. A senhora Lens apóia-se, ainda alcançada, bem no centro do sopro que alivia a ferida e atiça o fogo. A mesa e os papéis, o caderno, o computador, tudo gira ao redor. Ela já recostou-se e facilitou o que lhe foi possível para a língua incansável. Do olimpo onde Gerard a colocara, ainda consegue surpreender. Tanta sensualidade não deve conter o anjo. Crescem

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ainda as ondas. A lua aparece por entre as nuvens. Fizeram o necessário, agora vem a melhor parte — por que às vezes não chega, por que não pode durar? Tão sobremodo simples! Mas o destino traçado pode ter modificações de percurso, como esse entre as suas coxas, buscando-a nas partes sombrias que a expõem tanto, mas não importa mais. O braço esquerdo atua como gentil alavanca numa mulher submissa porque ainda insatisfeita. Segurou-o pelo pescoço, comandando. Ditou o ritmo das coisas que devem perdurar até o preciso momento. Mas não pode mais, e se solta. O sofá oscila. Começa a ser rompido o último liame.

Com tamanha bondade, puxando como quem entoa um canto. Essas vozes acompanharão a música, essas mesmas que já gritaram e ainda murmuram. Foi assim, as mãos que retiram o primeiro empecilho brincam durante o trabalho, e isso se dará até o que estiver escondido, ardendo, se revelar. A sala ampla está amplamente iluminada, a lâmpada é um sol talvez num momento outrora impiedoso, não agora. A luz delineia caminhos, as ladeiras que sobem e as que descem, as trilhas de terra batida em arco. Essa subida em especial se beneficia de tanta luz, depois uma descida próxima. Há

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alguém que ouça os sons da noite, os chilreios, as pedras e as folhas? Essas moças que passam são nativas, esse carro é o carro do dono da padaria. A rua está mais escura do que de costume.

Assim retorna um corpo ao nascimento, ela porém sequer imagina ser criança de novo. Mas não faz a menor diferença porque está perfeitamente acomodada a essa nova nudez. Talvez as coisas sejam um pouco mais rudes do que poderia supor, a gentileza convive em Gerard com uma determinação quase bruta ao levantar as pernas dela pelos tornozelos. Que seja. Não irá agora tentar adaptar à realidade à sua imaginação. Se é assim, então que ela assim seja, plenamente. A casa e as horas se tornam referência, não pode mais mudar as coisas, como por mais que batam as ondas não desfaçam as falésias, embora Gerard acredite num poder assim, talvez o esteja comprovando ao agarrar as solas dela, quase nos calcanhares, nas partes onde a pele é mais grossa e a partir desse ângulo especificando o objetivo de que se trata.

Ela está falando entre os gemidos, e de resto seu olhar há algum tempo se comunica, mas ele continuará a responder com essas ações que

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trazem à vida um réptil adormecido, assim minha deusa, venha, recoste-se em mim e tão somente usufrua. Os contornos são fugidios, as paredes eternas, o assoalho de quando em vez estremece, ou não será talvez o assoalho. Aqui há imagens interligadas de um filme desconexo e difícil será conferir uma unidade porque o que marca não é a cronologia mas o fragmento, não a idéia absoluta mas algum tipo de aproximação, como a do rosto feminino abafado contra o revestimento do espaldar; e talvez não seja mais possível dizer que um deles, gerados por aquela sala naqueles momentos, seja possível ao outro outra vez. Seja como for, partilham a terra que ser humano algum enfrenta de peito aberto; passeiam pelos jardins com as suas histórias, sob o mesmo céu com sonhos diferentes, caminham por semelhantes praias como se estivessem expulsando todas as demais do vasto mundo. Ele de bocas, tato, arte e orientações; ela junto à gavinha que, em suspenso, recolhe ventos e chuva mas espera ainda a estação. Ele de conexões velozes transportando as informações sem palavra, embora “amor, amor” esteja sussurrando; ela dos elos, do balouçar das ramas submersas, das grandes auréolas, da ponta túmida – sim, retiram do mundo todo excesso para que possa voltar a girar suave e poeticamente.

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É agora a mesa onde seu amado come, é o arco do triunfo e do domínio, do sabor e da vitória. É o perfeito instrumento e também a música que ele toca. Os louros onde se deitam os vitoriosos e seu merecido sono. Sou uma mulher perdida, encontrada agora. Tenho o direito desse toque, desse beijo, tenho o direito desse joelho apoiado, da palma fundamentada, desse quatro, da subversão de todas as coisas. A senhora Lens ouviu o pássaro da noite quando se lembrou de Gerard no dia do almoço do aniversário de Michele. Se eram dois pontos; se o rosto que ela via agora, hesitando entre dizer algo e não dizer, esse ultimo Gerard nascera do primeiro — o estranho do hotel e o amigo da filha–, então, o ciclo perfeito se fechara. Num recuo, ele viu as mãos dela.

Deveria ter sabido que não se brinca com essas coisas impunemente. Talvez pensasse nisso, se pensasse. Ele beija o segredo manifesto e desfila os sentidos nos sítios de pele assombrada. É ela, não a outra. Mas será justo? Rose, motivo de tudo, de um amor, de uma arte, de um romance. Quanto a George, seria a passagem necessária ou ainda era uma pessoa, um ser a quem se devia respeito? Ou o contrário será usar de suas armas e lutar em sua guerra. Mas

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estão ali, isso não é mais passível de ser repensado. Ali. Ah, pensou ela, a vida poderia ser mais simples...

Eis as mãos de uma dona-de-casa, jamais deixou de ser – mesmo agora, tocada desse modo; casa que era, de tão sua, seu prolongamento: sua habitação, seus sonhos, seu ser, tudo passara pelas paredes de sua casa. Era do lar. Teria sido, ainda que não fosse artista. Gostava de trabalhar, odiava não ter o que fazer. Ninguém poderá agora dizer que foi por isso, por causa do ócio. Tudo começou antes, por causa do trabalho. Ela precisa demais de seu trabalho, não saberia viver de outra maneira. Quase estava se apaixonando por si própria quando se apaixonou por Gerard.

E ele, sensível, faz com que ela própria, com a própria mão, mantenha o mundo preparado, enquanto finalmente se despe de qualquer ardil. Ela entende. Deixara-se cair nesse inesquecível carpete, sentada, agora se ajoelha e não vacila, não se detém por falso ou verdadeiro pudor. Chega afinal o seu momento. Ele merece. Merecemos. E naturalmente se faltava algo para que o mar crescesse mais, ali está à janela, cheio, pleno e de luares transpassado. Deus

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meu, a senhora Lens realmente possui uma elegância secreta, que solenidade empresta ao ato de sentar e apanhar alguma coisa!... O rosto de Gerard agora é outro, na serenidade de apenas contemplar. Não saberia dizer se foi destino ou a vontade que dobra o destino. Fantasiaram a tal ponto, com a solenidade da terra em sua órbita? Imaginaram que se amavam tanto? Para sempre lembrará que foi assim, depois de tamanha espera, sentada assim sobre ele no sofá, abraçada assim, e dessa forma enfim cravada em sua estrela e razão maior de despertar dia após dia após aquele dia, apanhada nos quadris de sua extemporânea ousadia, penetrada, acariciada e beijada, e lançada para o alto, e assim descia até tombar como uma ponte que, atravessada e queimada, não deixará caminho para trás. Braços dobrados e balanço uberoso, se inclina ela mais e treme e parece chorar. É de alegria, ele acredita, não com a convicção que deveria, mas com essa do próprio corpo, do vaivém persuadido, das mãos convencidas que orlam de fogo os incansáveis quadris. Coberta, dizem na roça, bem se lembra das férias de infância – coberta, aquecida, alagada, luzente, derramando-se fora de si mesma, no ajustamento perfeito entre dia e noite, entre treva e luz, derramando-se, como a manhã amanhã no horizonte de que esse grito é prenúncio.

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Depois de outro meandro de pernas e mais um giro de dorso, seguido do beijo mais longo, agora é questão de tempo, do máximo de tempo possível, ela espera. No silencio refeito em marulho, resfolegando se santifica o mundo. Um pelo outro sim, mas os ápices são sempre solitários. Ao longo da rua reina a perfeita adequação de tudo. As casas, com os vidros batidos e escuros e um recorte de janelas qual o de igrejas, cada qual tem seu poste e relógio de energia. Uma sedã estacionado em frente. Um pouco ao lado, o pedreiro logo montará em sua bicicleta por todo o dia encostada na alvenaria malacabada. Irá descansar em frente à tv. O vidro do relógio de luz no poste de Gerard gira com a velocidade de uma geladeira esquecida aberta. Meu amor. O que será de nós?

O mar passou às longas ondas amanteigadas a quebrar miudinho na areia com barulho semelhante ao murmúrio no diálogo de homens educados, pausando entre as frases e silenciando à espera das replicas, as vezes esticadas numa explicação, outras detidas em monossílabos. O mundo aos olhos deles renasce. Desse orgasmo.

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Assim estavam presentes na nuvem que passou com o frescor de sua sombra sobre a casa seguindo para as ruas e agora que alcançou os montes fez-se bruma numa face única em que não há juízo, nem vontade, num plano em que pouco existe além do desejo vago de estar vivo. Portanto todo o esquema de cores se transformou num momento suave e sombrio, pensamentos humanos em aposentos humanos. Agora vou usar essa nuança com mais freqüência, misturando o vermelho e o lilás talvez, e agora Gerard ia ser mais comedido em seu julgamento das coisas não estavam ali – os dois assim anoitecidos, não estava criada a situação que pensavam impossível?

A senhora Lens, entre o constrangimento e a satisfação, pediu licença e foi ao banheiro. Ouvia o vozerio dos pedreiros indo para as tavernas e os pescadores saindo para o mar. Diante do espelho recompôs-se para se adequar ao novo papel de sogra e amante. O sutiã não será mais necessário, pois fazia parte de um milagre a que Gerard não era sensível, porque para ele a senhora Lens ao natural era um prodígio maior, mais generoso. Quisera que dali ela não se movesse mais, a mais bela imagem que se congela. O olhar distante encontra o

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alivio que alguns chamam felicidade. Merkur Bay. O navio atracara no dia anterior. Quando um outro navio atracar terá se consumado a esperança? Imerso no verde dos olhos, Gerard batiza-se. O pijama fica melhor assim, emprestado. Perderia no decorrer da vida aquele deslumbramento? O coração dentro do peito batia bendito. De volta, sentada na beira da cama, o pé esquerdo apóia-se sobre o assoalho. A senhora Lens se permitiu espreguiçar. Vidros batidos, escuros. Um recorte de janelas qual o de igrejas. Cada casa com seu poste e cada poste com seu relógio de luz. Então conheceu a solidão, quando soube que jamais estaria só de novo, o quanto fora sozinha.

Gerard viu-se de novo nos olhos da senhora Lens. Quase chorou ao se ver. A fantasia acabara. Tinha de ser assim. Ela se achava uma tonta, nada significava para ele. Ele a achava uma santa, estaria sempre a seus pés para adorar. Não seja tão teatral, disse ela.

O romance de Aleksander Tess parecia destinado a perturbar apenas aquele número restrito de leitores que já se reconheciam na obra do ancião; porém ele próprio sabia que isso nada era além da

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capacidade desses mesmos leitores de imprimirem no texto um reflexão pessoal, influenciada pelas entrelinhas da vida nos momentos da leitura. E se alguém perguntava de onde tirou a idéia daquela protagonista, ele dizia não saber responder, porque tudo o que conhecia da vida daquela a quem chamara “senhora Lens” era o que ela própria se permitia contar nos raros encontros entre eles. Mas Yuan Tess, cuja natureza menos discreta o levou a se imiscuir em detalhes da vida de sua conhecida de Celba, naqueles tempos após a morte de George, pôs em música grandes trechos do livro (composições que terminaram por fazer o sucesso que o romance jamais experimentou), imaginando que o amigo baseara sua obra na mulher. Não é verdade, disse Aleksander, e não creio que esses boatos tenham sequer um fundo de verdade. Mas o músico acreditava que ele mentia para proteger Rose. E realmente muitas vezes os comentários que o escritor fazia sobre determinado quadro da senhora Lens deixavam-na exposta como se ele houvesse efetivamente descoberto seus mais íntimos segredos.

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O rumor no escritório de George Lens entrou pelos ouvidos de Michele. Um estremecimento escrupuloso a sacudiu, seu coração disparou. O que se deve pensar num momento assim? De repente, a necessidade de fazer a coisa certa, que jamais a orientou. Estremeceu novamente e ninguém a isso agora chamaria de escrúpulo. Esses sentidos. Essa moral. Essa sinceridade. A auto incriminação de seu corpo como que se servindo dela para um cerimonial punitivo cada vez mais doloroso sempre que pensava no pai e agora mais que nunca, eternamente. Se jamais seria de se negar a verdade, deixar de goza-la ou se poupar dela, não seria agora. O que é isso, esse prazer súbito e profético quanto ao arrependimento de si mesmo? Michele, a implacável.

Olhou na mesa a garrafa de uísque e um copo pela metade. Oi, minha linda filhinha. Foi nesse olhar que percebeu a vida inteira mudada. O que faz por aqui? Pediria testemunho médico. O próprio George pedira a morte. Se a ética impediu o profissional, não a abnegação da filha. Encarou-o. Aquele homem não merecia morte de mártir. Se imaginou órfã. Difícil até de imaginar. Porque é fácil para a mãe de Keshia arrancar sons tão melodiosos das teclas e fácil para

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sua mãe construir tão grandiosas efígies, é antes aí que a naturalidade e a emoção vibram, não nos passos naturais de uma filha que se aproxima da mesa de trabalho do pai, rígida dos pés à cabeça. Abre a gaveta. Pegou a arma sem uma palavra diante de um George atônito.

Disparos.

Abraçados, Gerard e a senhora Lens sentiam o coração um do outro. O toque tem memória, talvez esse do depois mais que o da paixão. O toque tem o poder de transformar, não é assim que funcionam as magias?

Dois dias depois, sob as orações do pastor, o corpo de George Lens baixava à sepultura. O mar esticava-se em ondas amanteigadas a quebrar miudinho na areia, diálogo de homens educados pausando entre as frases e silenciando à espera da réplica, às vezes esticada numa explicação, outras monossilábicas. Olhando um ao outro fixamente, deram-se as mãos em pensamento. A memória da imaginação é ainda mais intensa.

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A senhora Lens colocou a sua,

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pequenina, unhas cortadas rente, nas palmas que Gerard em concha lhe oferecia. Assim veriam sua obra as gerações futuras – a amante apaziguada. Pelos olhares e pelas mãos, comunicavam-se as almas, faziam-se uma alma só. A senhora Lens dava a Gerard toda a vida pelos olhos, para que ele a possuísse inteira e para sempre, quando se soltassem. Gerard, disse a senhora Lens, onde estará a minha filha?

Michele passou a noite sozinha, sentada perante o oceano. O reflexo do sol na maré a surpreende. Entrará no carro e partirá sem destino. Na estrada da vila, a letreiro de néon sem falhas ainda estava acesso, embora já fosse manhã. As pessoas iam de lá para cá, andando pela extensão da praia.

No aposento solitário a antemanhã prevê o que Keshia pode esperar do dia. Está inteira naquele azul. Não fosse isso, para que haveria de se levantar? A um tempo há a esperança que habitou o sonho e o desencanto que desqualifica qualquer nova promessa. Como será então esse dia? O que terá realmente mudado com todos os acontecimentos recentes na cidadezinha? Então é assim azul o arrebol

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e não menos o tecido que agora ela exibe ao mundo, ou a seu mundo. Seu avô sempre dizia que era preciso referências, dedicar-se ao bem sem grandes demonstrações exteriores, em silêncio, quando muito na eloqüência de palavras escritas bem vividas, fosse com os animais domésticos, os mais velhos, e sobretudo a parte mais difícil, com seus pares, no caso dela as meninas e meninos de sua faixa etária. Levou a sério em azul o conselho. Porque a noite no ônibus não fora a primeira assim, nem a caracterização dos protagonistas. Tomara parte, uma parte relevante, no entardecer daquele trem. Menina com problemas com a balança, desprezada ou simplesmente ignorada pelos homens, de nada lhe valia a inteligência, o interesse dos pais em faze-la aprender francês e espanhol, se tudo era razão para que se enfurnasse em casa e não tivesse razões para se levantar no dia seguinte. Vinha do médico, talvez fossem os únicos momentos de auto-estima, porque embora com os motivos mais torpes, a maioria dele acabava fazendo-a sentir-se bem, desejada. Foi com esse intuito que vestiu naquele dia pela primeira vez o vestido azul.

Chega a rir ao se olhar no espelho. Seu avô descobrirá naquela noite os medicamentos para emagrecer, ficará preocupado, chamará

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Keshia para uma conversa séria a respeito de drogas, tentará leva-la a crer que pode ser amada sem necessidade daquilo, mas ela já saberá que sim, não era mais uma menina, chamou a atenção dos dois rapazes, claro que devia ter algo de especial, e aqueles remédios sequer haviam sido tocados naquele dia, nem mais seriam com regularidade, e foi a última caixa, por causa do entardecer no trem, e se andara falhando na sua força de vontade e na sua fé, encontrar o rapaz na noite do ônibus foi essencial para que ela retomasse a vida de onde parou, daquela saída para o médico. Ele lembrará que era pura criancice no começo, num outro dia que ela nem está sabendo. Ela parecia esgotada e foi isso que a princípio lhe chamou a atenção. Era aquela menina, a amiga de Michele. Decerto a melhor amiga, para que Michele não se sinta ameaçada. Mas agora, dormindo ali na poltrona logo à frente, ela até tem seus atrativos. Sim, como haveria de ser algo além de coisa idiota de criança? Chegar perto e libertar o peitinho. Tão criança que ele nem conhecia um mamilo assim tão de perto, e a proeminência desejável desse bico. Brincou ali e ele cresceu mas ela realmente dormia. Sonhava também mas esse sonho haveria se de perder no decorrer do dia seguinte. Soube isso, desenhar uma outra liberdade,

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deixar à mostra os dois peitos, mas só para ele mesmo, pois era um horário e percurso vazio. Seu corpo e seu sonho responderam, mas ela própria só deu pela situação quando a voz anunciou a estação. Foi rápida, mas já se introduzira nos momentos anteriores num imaginário que depois ele próprio terá como pervertido. E foram muitas viagens comuns, muitas referências, dias, horários. Mas jamais deveria contar a ninguém. E Fantarello não era nenhum primor de discrição e boas idéias. Com outro envolvido ele perdera a pureza do plano e quase a grandeza do gozo imaginado. Agora era tarde.

Ela já percebe com a mão que se encosta à parte de trás do vestido, à parte mais constrangedora de sua anatomia, percebe que está viva, o que sua própria mão, ao tentar uma defesa sem sentido, por alívio de consciência, parece dizer que ela está triste, que não está acalorada, que ouve as aves mesmo em meio ao ribombar ritmado dos trilhos, que escuta até mesmo, enfim, seu próprio coração. Segurou a mão atrevida, é certo, apenas para ter a noção da pele lisa nos dedos ágeis, olhou aquele rosto com um algoritmo de terror na face, de um terror que até deveria, mas de modo algum sentia. Uma após outra as casas passam à janela do vagão, sua própria mão agora se apóia no

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vidro e subitamente ama aqueles dedos encorpados. A mão que percorre o tecido não pára, encontra no meio dela um local esperado, e desequilibrada, sabe Deus por que razão, sua outra mão ainda a tenta expulsar, inutilmente, é claro, ainda bem, inutilmente. Quem disse que ela estava ficando tão gorda?

As dobras do vestido justo se acrescentam e se sobrepõem, o sulco demonstra sinais de umidade tão desconhecida quanto sua alegria. Sim, sente esse perfume, parece reconhecível, e seja como for é amigo. Era cetim, ou seria cambraia? seja o que for é confortável quando se amassa e multiplica para exibi-la mais. Um momento que talvez nem esperasse, sabe agora que precisaria haver. O volume encosta, se desenha na saia, se aplica na calcinha, cresce com o movimento do vagão, consciente de que se entranha nos murmúrios inaudíveis e na aura que ela jamais esquecerá. É assim que o rosto de aproxima mais e dá pleno significado aos movimentos da mão, quase a imortalidade. Ela sabia que a ausência de um sutiã fora uma escolha ousada por causa do médico, jamais imaginaria que seria tão funcional por causa do deus. Com ele acompanha as horas que introduzirão os dedos no decote que obediente apresentará o mamilo. Momentos autoritários,

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instantes que vertem orgulho e se há vergonha é a de não ter precipitado algo assim. Regozijar haveria de ser doído? Olhe essa paisagem, que ricto é esse alheio à vontade de seus lábios? Por que endireitei o decote se eu mesma também apertava a massa disforme e acolchoada do seio? O ar que se respira nesse mundo é denso como o mistério mais crepuscular. Qualquer desejo de vida será satisfeito porque jamais retornará a apatia. Ele está perguntando alguma coisa nesse sussurro? E o que responde esse meu meneio invernal de cabeça? Inverno gelado no meneio, verão insuspeito no sussurro, dedos que vencem a gravidade, coxas premidas pelo tempo, algures o castiçal pétreo, resistência ainda, tola e histórica, gritos sufocados. Os olhos dele tem um quê inexorável de bondade. Parece que vai falar, mas não, nem precisa. Resume-me muito bem às mãos e aos olhos. Sim, naturalmente ele vai querer falar com você, numa outra hora. Agora está ocupado, precisa erguer o vestido, enfiar a mão por dentro da calcinha ante de abaixa-la. Que coxas maravilhosas, terá pensado. Que bundinha perfeita. Mas para ir além aqui não é adequado.

Ele a guiou apenas ou a forçou a ir para o banheiro? (que de resto tem também o ambiente básico que subitamente passara a amar,

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a saber, o ritmo do trem). E ainda não tocara no segredo supremo, ainda não chegara lá, mas nesse ritmo rapidamente chegará, e aqui há privacidade para tanto, ainda que sem o alívio feliz e o feliz terror da possibilidade de aparecer alguém, de estarem sendo observados! Mas não eram visíveis antes e aqui não podem mais ser. Não há morte para os mortos e a vida dos vivos é inelutável. Meu Deus, porque insiste em resistir, em afastar os movimentos paradisíacos, nem tanto pelo prazer físico, mas pela certeza de atração que representavam... Bom que são assim insistentes, de qualquer modo ela não terá como resistir por muito tempo e nem quer pensar em como se pode dar algo assim num lugar público, porque o toalete não pode ficar eternamente ocupado, e era da eternidade que precisava. As dobras de seu vestido se acumulam não há mais o que subir. Tristezas despontam em seu semblante falsificador que bem identifica a mudança de posição que permite agora a mão por baixo e a língua por cima onde o decote sucumbiu. Ali ficaria eternamente, a cada minuto que passa sente mais confiança no estranho, como se cada carícia fosse uma confidência, uma palavra d e ternura, a compreensão das sérias dores de uma supostamente frívola preocupação coma a obesidade.

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A cumplicidade num canto do vagão trocada pelo lavatório do corredor, talvez ela no futuro mal se lembrasse da mudança, se de súbito não surgisse o componente estranho em outras mãos que sucederam a abertura da porta e a tomaram por detrás, nos mesmos seios burilados pela língua divina junto à parede trêmula e tiquetaqueante. Temeu. Deixa de haver beleza, deixa de haver intimidade. Quatro mãos que eram muito menos que duas. Não há qualquer coisa lícita por mais que ela seja pura, não há intuito além. Tudo se torna agora, esse tempo tão pavoroso. Aos poucos o primeiro rapaz levanta e ela não tem tempo de saber para onde foi, se saiu ou está num canto observando, e finalmente a finalidade é tudo e por ser tudo o objetivo pleno se ausenta. Não há mais espaço para sonho naquele cubículo onde tem de sentar e receber o rapaz miseravelmente aparecido numa boca que regozijava em se preparar para beijos apaixonados e a troca imaginada de fluidos do amor se transmuda num átimo num torpe receptáculo do pérfido leite que não se esgota como em seu desespero ela chega a imaginar. Ao contrário do deus primeiro, esse demônio move sua cabeça com violência, não tem vestígio de delicadeza. O primeiro gozo não interfere, como Michele algumas vezes a ensinou. Há agora um volume torpe entre seus seios

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que força para alto como se normalmente agasalhado estivesse, e apressando-se loucamente verte uma segunda vez. Agora acabará, ela imagina, mas ele orienta sua mão para que não pare nem permita. E a pedra ainda é dura e a água mole e inútil. Ela desiste e continua, e retoma o nojo na boca, até que mais uma vez sabe o preço de frutos fora da estação.

Saindo do banheiro, está livre, pensou. Terá muito que refletir quando chegar em casa. Muito e mais do que agora, pois o primeiro rapaz surge de novo e sem permitir que ela se componha a faz entrar na primeira cabine. A tarde cai nos vales que correm à janela, as gotas devem estar pingando das árvores no crepúsculo cheio desse sereno leitoso que transborda. Ele já está com as calças abaixadas, não haverá tempo para Keshia senão continuar com a troca com que há poucos momentos seria uma agraciada, mas qual o quê, todos são rigorosamente iguais. Pelo menos ainda permanece virgem, seja lá o valor que isso tenha. Mas por Deus nem isso? É um sinal para que vire, nem voz para essa exigência deus tem mais? A serenidade de não ter mais nada. Anda, vire, assim, sua idiota, quem manda ser

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romântica num mundo desses, quem manda ser gorda? Fica de quatro, sua vaca, atenda seu amo. Eia, vamos.

E assim se despede de uma vida, será isso ou a pálida e constante depressão, assim a esperança em segundos se transtorna, se transforma na existência que jamais deixou de ter – a esperança, esse eco de eras remotas ou a lembrança de um sonho jamais sonhado de que se lembra quando o dia está por demais alto e o sono é tudo o que somos. Mosquito, tenha misericórdia... Mas se a morte traria o descanso esperado, consigo está um bônus que não pedimos a esse provedor. Então, ela entrega de novo todas as coisas ao vestido azul amarrotado. Pequenos gestos são também feitos de sonhos, são também esperança cuja substância não é a fuga. Conquanto não fosse propriamente uma redenção, ela renasce quando ele lhe dá o lenço, a vida se renova quando ele enfim fala e pede desculpas, não deveria ser assim, mas esquecera o preservativo. Claro, ela não podia se enganar de todo, de modo tão estúpido. Nem poderia dizer que ele simplesmente mandaraa ficar de quatro. Não. Era normal. Estava se sentindo tão pronto pela atuação de sua boca (e com isso ela podia até justificar a tripla

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rudeza anterior, foi com que assim rápido aprendeu), tão pronto que fez esse pedido, para gáudio dos dois.

No futuro, sua relação com Eduardo estaria sempre ligada àquele dia, e de alguma forma toda sua vida e valores, e gostaria de pensar que até mesmo Gerard e a senhora Lens tivessem se acertado por alguma inspiração semelhante, decorrente da noite no ônibus quando ele chegava. Pois após um dia marcante em nossas vidas, pensou, há sempre uma bruma que não se dissipa com o correr dos dias, e ao longo deles irá refazer o mundo dentro de nós e a nós mesmos dentro dele. Não é assim? O que marca nossa vida não passa a ser um conceito universal do que é marcante na vida das pessoas? E o que apenas foi marcante, sem maiores desdobramentos, não se desdobra interminavelmente por toda a humanidade?

Não voltou a ter alguém em sua vida. Se não estava sossegada, pensando por exemplo em Michele, necessitava apenas ligar o computador e escrever. De felicidade que se bastava assim, podia passar muito tempo sem pensar nas coisas em que qualquer mulher costuma pensar, e quando acontecia era como se saísse de si. Sua

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memória era seu existir, dali desfiava e tecia, porque esse prazer não é negado a ser humano algum, o dos recônditos. Tardes sem fim ali debaixo do pé de tamarindo, envolvida nos cheiros de alusão da passagem de existências. Depois a noite suave, repetida, banhada pelo rumor do mar. Agora o universo chegava grácil, entrava em sua alma simples como uma predisposição.

E então, para ter certeza de que valia a pena estar viva e consciente, ponderando cada compreensão e cada vontade, procurava abstrair-se de um efeito prático de suas conclusões. Eduardo, Michele, Gerard, de acordo com os intuitos do momento, tanto quanto precisasse, entregavam-se ao instante desejado com uma perfeita doação a que ela atendia protegida por cortinas de névoa, no tempo adequado, sem se iludir. A realidade pouco importava. Existia. Se ela demorasse mais ou menos sob a árvore, se o tempo estivesse chuvoso, se houvesse o desejo de ver um filme no dvd noturno ou um livro à lâmpada

insone,

então,

aqueles

seres

de

sua

memória

se

transformariam, sempre para bem, mesmo quando havia um mal aparente. Os lugares e as pessoas à sua eternidade pessoal estavam destinados. Keshia era criança, adolescente, idosa, era neta e avó,

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mais raro filha, era boa e muito má, tudo com muita alegria e devoção, que de nenhum habitante de Celba passavam despercebidas, embora não soubessem a que atribuir. E foi assim recusando as oportunidades que se apresentaram – que não a ousassem julgar – sabendo que um dia ou outro não teria mais que se preocupar com sustento, o que infelizmente aconteceu com aquela morte inevitável de seu avô e mãe e pai, que simplesmente nunca cogitou.

Agora vive só, de resto sempre. Quase chegou à velhice real, não viu ninguém morrer mas em algum momento soube da morte de todos. O que sabe é o que lembra e tudo lembra como quer. Ainda vê a orla de Celba quando abre as páginas de seu diário. Está enterrado aqui. 1906-2008. A única cronologia de que não se desligava. Ele a escutou. Que havia mais de querer?

Quando põe o CD, ouve nitidamente os pardais. A música se sobrepõe. O efeito é belo; causa estranhamento. Provoca um sorriso.

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Estamos em março. Celba torna a se esvaziar. A mulher está estendida sobre o sofá, muito magra, pálida, podia ver o caminho das veias azuis. Abeirando-se da cama, Gerard sentou-se. Murmurou o nome dele com o fio de voz que lhe restava. Por que o amor deve morrer?

O dele jamais morrerá.

Deus, ela não consegue entender...

O quê?

– Seu amor.

Por que não a abandonou quando soube que ela...

Porque a amava com a mesma intensidade do primeiro dia, do mesmo jeito que a amaria para sempre.

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Como uma mulher pode ser amada assim e morrer? Eu não quero morrer, diz. Quer estar para sempre com Gerard... Pediu que ele lhe prometesse...

O que ela quiser.

Que à meia noite dos dias 31, quando estiverem festejando o ano novo, à beira mar ele levante o pensamento para ela no momento da passagem, mesmo que esteja com outra. Oh não, não é justo. Ele não pode ter outra...

Com ou sem o contágio, já lhe dissera, ele não lhe sobreviverá muito tempo.

É por demais piegas. Keshia realmente acha que sim e diz isso ao avô. É irreal, disse mais, uma coisa assim, quero dizer, esse tipo de declaração e de pacto. Fazia anos que esperava por aquele dia, quando por fim recebeu o recado e foi visitá-lo. O senhor Aleksander olhou-a compassivamente. As coisas tinham de ser desse modo. Só essa solene

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intensidade de vida e de arte que os dias de hoje tornaram piegas, inconcebível, permitiam não enlouquecer. Na verdade, ele nem precisaria ter dito isso para a neta. Ela estremece, quase chora. Que prazer! Não importam as mágoas e as frustrações, pensou, os reveses da vida desaparecem aqui. Como vovô captou o espírito de tudo... Não esquecerá jamais esse momento. É como se subitamente abstraísse ela da própria vida, concentrando-a em vidas que não chegara a viver exceto em seus pensamentos. Resta-lhe esperar que esse fulgor de felicidade afete a superfície de suas tediosas águas cotidianas. Porque também habitava a contragosto esse tempo, ela deveria lhe sobreviver.

As feições de Gerard são de absoluta pureza, iluminam esse túnel tenebroso, são o rosto de seu amor, a razão de sua vida, por que não se conheceram antes?

Não teria sido maior o amor nem a felicidade que viveram.

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A felicidade...

Ela pede que ele não a olhe dessa maneira. Que parta.

— Deixe-me numa clínica, com pessoas como eu.

— Ficarei.

Ah sim —diz ela — Fique...

Apertou-lhe as mãos.

Onde estavam?

Em casa.

As petúnias floriram?

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No Natal. Estavam lindas. Brancas e lilases. O açafate lembra estrelas violáceas.

Uma lástima que houvesse descoberto tão tarde que um jardim é tão eficiente terapia.

Tarde. Nada significa. Lástima? Tampouco.

E os beijinhos?

No mesmo canteiro em que estão as boas-noites. Parecem uma mesma espécie de flor. Seria o “beijo de boa-noite”, a flor favorita de Proust...

Porque as flores comuns, pertencentes mais ao tempo do que ao espaço, que as guarda apenas no piscar da florescência, são impressões humanas sempre perfectíveis ao longo da fragilidade da vida que o amor,

a

glória

e

o

prazer

registram

em

ávidos

fulgores

necessariamente efêmeros, o que hoje dá alegria – e também o que a

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retira – se reduz a uma vaga esperança de que se pode gloriar quem a consegue reter, mesmo na raridade de uma flor. Gerard sorri.

E a caliópis?

É a bordadura amarela do quintal.

—Nossa casa...

—Nossa casa.

A senhora Rose Ponce fechou os olhos.

FIM

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Flores tão corriqueiras e raras