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A senhora Rose Lens fechou os olhos. Arfava. A respiração a enchia de vida exterior. O ar cortado pelas cigarras recém-chegadas do fundo da terra divide a madrugada embebida em barulho de mar e torna-a multíplice em sua lucidez dilacerada. O mar ao longe parece aqui dentro do quarto. Nos pensamentos relativos ao momento imediato imprimiu-se um colorido digressivo. No pio da ave noturna há um desenho aos pés da freira. O raio lunar em que nasce o cântico das contrações retroage à primeira varanda ao luar, à madrugada em que a menina sai à luz vinda do ventre de sua mãe. E como ouvisse do lado de fora céleres os morcegos ao som da inspiração profunda ansiou a antiga liberdade. Mãe, mãe! Ambíguas as lágrimas brilhavam como nos reencontros. Minha filhinha... As reminiscências enviaram ao corpo quieto na cama as praias da adolescência povoada de gaivotas. Quem sou, se pergunta. Mulher, menina.


Mãe, filha. Esposa. Esposa. Bater de asas. O pulsar do colchão de molas havia ateado um rubor vivíssimo às partículas de pó – assim o Verbo no princípio quando fervilham as esperanças entre o sabor e o azedume permanecendo por toda a noite semelhante àquela em que a consciência fez com que ela se acovardasse e decidisse se casar apesar da claridade gloriosa de um dia distante (o primeiro dia do seu primeiro namoro) apenas reconhecido por certa memória imprecisa. Ainda consegue vislumbrar a redenção que todavia se confunde com as preocupações da segurança material. Ai. Um arrepio na parte de dentro das coxas. Como foi tola. O que se leva do mundo? Nada, pensou ao levar os dedos. Então a revelação. Hoje. Espere. O gatinho sobe na cama e se aconchega ao lado dela. Esperaria, se anteciparia até, através da estreita passagem escura como a madrugada próxima ao amanhecer e – mesmo antes da aurora – pelo sol redimida. Houve um momento em que o mundo se desligou da noite e o primeiro efeito foi a perda do contraste


das estrelas em relação ao céu preguiçosamente amanhecendo. Despertará também ela? Logo a azáfama dos passarinhos. O espaço entre os galos que se houvera comprimido volta a se deslocar no tempo. A proximidade do sol deixa a Natureza em frenesi. Introdução do rei no salão de festas após algumas danças. Uma e outra revoada. E outra mais. Fez-se uma daquelas ocasiões especiais em que o minuto que passou pouco apresenta em comum com o atual e o seguinte terá igualmente atributos peculiares distando uns dos outros não o período de tempo que os separa mas todos os séculos culminantes no Juízo. O gato se agita e ergue os olhos para o teto como se visse os pássaros. Suas garras chegam a se vergar. Que tristeza, murmura a senhora Lens. Seu espírito é levado para um canto mais sombrio do muro onde se erguera o fícus no quintal imerso agora no arrebol. Mas logo ensaiará um sorriso tocada pela súbita expectativa traduzida nas primeiras luzes do dia a tangenciar o monte diante do qual o mar bramia seu


misterioso refrão de louvores metálicos.

Por um instante, o sol emprestou à varanda do prédio em frente um amarelo vivo na seqüência do canto dos pardais permeado de currueras. Altivez barulhenta de um adejo. Era ainda primavera. No ônibus que se aproxima da cidade, cerca-se Gerard Lange de ansiedade e cuidados. Seu coração reclama paz. Ele é a noite, não mais a habita. Podiam ouvir o sangue, Gerard e a senhora Lens, pois as veias estavam abertas. Desejo e receio: sintomas de proximidade. O ônibus passa pela casa. A mulher escuta o motor e a mudança da marcha marca a distância. O rapaz fixa o hibisco no jardim. Não há tantas flores na metrópole. Calado, mal respirava. A passageira da janela oposta fez uma pergunta e após os segundos de praxe quando ao olharmos um estranho decidimos se nos é simpático ou desagradável em sua extroversão responderam. Talvez vinte minutos não mais. Dentro dele bem lá dentro


entrou o frio do desconhecido. Passa os dedos pelos cabelos. A mulher na cama sente uma arrepio no alto da cabeça. A vida é una. O miado dói. Os sons do vizinho – pessoas, portas, vozes – são movimentos engenhosos do tempo. Tudo era a noite. Tudo ela, Rose. Mas amanhece e quem sabe o que trará a manhã? Sussurrou, ofegante. Podiam ouvir, Gerard e Rose. Que a vida siga em novidade. Dormiu neles durante muito tempo esse jeito de ser estranho sem se saber comum. Mas amanhece. O gatinho entra nas cobertas e ronrona.

O ângulo da luz matinal concedeu um brilho azulejado à sacada. Onde refletia o sol, surgiu a intensidade da paleta da senhora Lens ao contornar os desenhos de dourado. Tanta luz não podia mais ser apenas registrada. Decidiu dar-se o dia. Descansaria. Descansaria na praia. A rua está vazia. Uma música ao longe estranho incenso se tornou de beleza pairando como os hipérbatos. O ar estava quieto em suspenso


mas as ramagens balançavam como ao vento devido aos passarinhos. Em fração de segundo despegam-se. Adiantando-se a hora, a nova posição do sol no céu subtraiu o fulgor da varanda ofertando-o ao resto do mundo. A filha parece ter perdido de novo a hora da escola. Ou já terá ido? Michele estava até há pouco sentada perante o oceano, sozinha.

Erguendo de súbito a cabeça, a senhora Lens saiu de seus pensamentos para a contemplação da circunferência incandescente – um gesto orgulhoso da manhã em contraste com uma mulher mais e mais humilhada, doente, melancólica. Sonolência mórbida. Peito oprimido. Os intestinos trancam a emoção num desconforto que parece a estar inchando. Os lados da cabeça revezam em aura na disputa do lugar em que deverá sofrer sua crise diária de enxaqueca. A natureza ao redor em sua eflorescência mostra-se indiferente aos males dos homens. Lá fora as pessoas


caminham indolentes pelo calor. Ela pode ver.

Necessidade que se impôs de solidão, o amor da arte lhe deu fineza doméstica. Um porte em casa como num salão de festas. A elegância secreta; a solenidade que emprestava ao ato de sentar; apanhar algo no chão ou no alto do armário, só de camiseta; a maneira de segurar o pincel e monologar – tudo era reverência, postura. Seminua diante de seus rascunhos a poucos vê e para tantos vive.

Uma cidade muito pequena. Cultuada por artistas de acordo com a lenda de sua tranqüilidade salgada. Por aquelas ruas andara com a menina que já não pode deixar de ser notada. Cresceu. Não há de ser um sinal que ela envelhecera. Bom dia, senhora Lens. Certamente é. Bom dia. Caminho de terra batida. Presente e passado estão para se encontrar no futuro e o acorde de pão quente, balsâmico, que chega no ar, no ar chegará ainda quando não houver mais a sua


consciência para discernir. Aquela ultima manhã em que existia sem saber de Gerard era também a manhã do dia seguinte, pela lembrança de Gerard transtornada. E a tarde quando o conhecerá compreende a tarde em que apenas o havia visto. Passado e futuro se encontrarão no presente e o amargo da boca desfeito pelo dentifrício se converterá em si mesmo quando ela acordar com a imagem de Gerard no dia do aniversário de Michele.

Filha e mãe. Mais tarde na escola, no visor do celular, uma foto de Michele com Keshia. Abraça-a. Uma menina bacana. Um pouco estressada, mas tudo bem. A mãe chega do mercadinho e faz o café. Presente e futuro. As costas de uma e de outra são fortes; as pernas firmes. A mulher caminha pela cozinha. Nessas pernas. Um pouco acima. Onde antes o desejo agora a sublimação da tonalidade bem ajustada; onde antes a dispersão, a procura de um novo tempo, ao qual Gerard se adaptará tão bem.


Jamais entretanto assumiria outro sobrenome, quando se livrasse desse que como um fardo carregava. Rose. A água ferve. Ela está à mesa. No caderno de receitas cobre e recobre o nome. Rose Ponce. Pequenas alegrias libertas de conceitos arraigados pelo costume. Um melindre se torna catarse. Um gênero outro de destino tecido pelos anjos da vontade aberta. A senhora Lens é um enigma à beira do sol de verão. Esconde a vida atrás da vida e tempos adiante.

Gostava de convívio, queria estar com gente, conhecer melhor as pessoas, saber de seus problemas. Mas resistia. Bom que houvesse em Celba pessoas com quem pudesse conversar, a quem pudesse recorrer. Amigos corre-se o risco de perdê-los; conhecidos sempre podem se tornar amigos. Amigos artistas são gente ainda mais difícil de encontrar. Então não desgastava seu relacionamento com os colegas da vila. Um escritor de quase setenta anos, Aleksander, e um músico, Yoran Tess. Sabia seus nomes e rostos.


Trocava cumprimentos. Seu coração está mais descansado tendo-os por perto. De resto aceitava sem maior resistência as imposições de sua natureza tímida exceto pela perspectiva da intimidade com o jovem que inesperadamente chegará para mudar a sua vida como se, no momento em que se cumprisse o clima prometido pelos olhares furtivos, a senhora Lens devesse deixar de fazer parte do mundo e a sublimidade do amor se transferisse à dos fenômenos naturais – como se ela mesma devesse se tornar outra mulher e morrer para si mesma, abandonando o acanhamento de seu espaço de ser e habitando outro e amplo.

Pesava a educação que recebera. Não adiantavam os valores cristãos de seu pai, de tolerância, se ele mesmo não era um homem tolerante. Sua mãe era passivamente feliz apesar dos meneios de cabeça de Rose (similar ao sarcasmo de Michele em relação a ela) que por sua vez não os queria desapontar. O que


diriam se soubessem que ela iria se separar? Seguia então a sua farsa. Até quando? Mas se assustou de verdade quando depois de violenta discussão com George acabou na cama, subjugada e – estremecia de pavor ao lembrar – orgástica. Se o marido tinha outras mulheres isso passava por concessão do mundo aos homens. Embora não ligue para ela tem esse ciúme doentio – morador que não gosta da casa mas é proprietário e sente-se no dever de zelar pelo imóvel. Assim pensando esmagava a casquinha de pão. Percebera afinal que certas preferências dele tinham mais a ver com uma vontade real de machucar do que com fantasias. O carro estaciona diante do escritório. O jeito como ele lida no trabalho, enganando as pessoas, enoja-a. Como zomba das vitimas de seu estelionato. Fazer alguma coisa a respeito, ela nada fazia. Ele se Levantara ele dos infernos para a vida da senhora Lens. O que vira num homem como George? Contudo se fosse diferente, gentil como – como era mesmo o nome dele? – enfim, como aquele rapaz –


Reinaldo? – decerto não teria lhe dado a mínima.

Gritos no quarto. Tinir de copos à cabeceira. Queixas chorosas. Cale a boca! Pulsos arroxeando. Uma janela se abre lá fora. Os corpos se estendem nos lençóis amarrotados.

Tornara-se uma mulher de meia-idade, mãe de uma adolescente. Não tinha o direito de se iludir. Sente-se ameaçada. Projeta em George seus maus sentimentos inerentes como a mulher estuprada ao se tornar roteirista violentará as moças de seus filmes. Notou com um olhar transversal que eram nove horas. O tempo realmente voa. Durante algum tempo incorreu no clássico erro de supor que poderia mudar o noivo. Noutro período acreditava que a maldade nele era apenas um tipo romântico de rebeldia. Preciso sair logo antes que a vizinha apareça para ficar de conversa mole. Na verdade, ai dela caso se atrevesse a questionar o comportamento de George, seus vícios e


perversões. Por que ela o tolerava? Aí vinha tanta coisa à tona: vaidade, comodismo, dependência, às vezes ambição e outras falta dela, concupiscência, a droga... A senhora Lens chorou.

Sua arte primava pela linearidade. Tudo muito certinho. Mas sua alma era obliqua como seu olhar que acompanhava os ponteiros; suas verdades, sinuosas. Sobretudo com o rapaz com quem irá ao paraíso, as coisas transcorrerão de um modo imprevisto e cheio de rodeios. Contornos descontínuos que sufocam o tédio confortável e a técnica geométrica. Vendaval que turba as fontes. Matava a perfeição com seus quadros perfeitos. Perguntou-se o quanto é preciso se tornar falho para chegar à capacidade artística. É preciso ser antes – pensou lapidado pelo erro e pela dor. Prolepse, diria que nada existia em si que justificasse reciprocidade de sentimentos dum homem tão mais jovem, saudável,


atrás de quem as mulheres deviam correr. Não que fosse feia. É que as estações a haviam sazonado. Assim faz o tempo com as frutas. Queimou a musa dos Cânticos. Estava escrito nas linhas de seu rosto e as carnes de seu corpo o revelavam. Entretanto é esse tipo de mulher que mais atrai homens jovens, não as garotinhas. Se não era linda – com sua boca grande demais e as pernas de grossas meio tortas – transpirava o que se deseja inspirar e deixava os amigos da filha boquiabertos. O jovem sem nome daquele primeiro dia por quem cruzará diariamente em seu passeio matinal pela praia, aceitou renunciar a ele por uma força ligada à sua capacidade artística. Era essa a força de seu amor, maior que o próprio amor assumido, maior que o próprio amor: sua renúncia. Existem tantas cidades no mundo por que o destino o traz justamente para cá? Está tão cansada. Voltará para casa após vê-lo em frente ao hotel. Está consumida por esse desejo absurdo. Não sabe se é possível mantê-lo imaginário e fecundar a privação. De


resto não surgiu esse desejo com o fim de ser satisfeito, mas de inquietar. Ah! É forte demais. Aniquila. Será capaz de controlá-lo? Impulso mais forte ela só poderá descansar após tê-lo apaziguado. Respira fundo antes de olhar o ateliê à sua volta. Meu Deus, isso não é amor...

Foi não mais que uma troca de olhares, pensará, quando na verdade nem isso. Mas desde aquele dia em que viu Gerard, absorve a nova perspectiva para o resto da vida. Envolvida por uma paixão da qual se julgava imune decidiu que não transgrediria em nome da paixão os princípios católicos dentro dos quais fora educada. A vida estava muito além da atração física. O desejo adquire tom de esperança e a senhora Lens se permite contemplar. Viu no desejo as coisas que estavam além e todas de alguma forma residiam no próprio desejo. Havia o amor da natureza, a paz do silêncio, o usufruto pleno do que se possui; a solidão, a gestação de um filho. A arte. Então decidiu. Viveria


sem o objeto daquele súbito desejo. Viveria sem sequer pensar nele (melhor assim). Em sua voz que dirá “Muito prazer senhora” no almoço de Michele. Em seu queixo. Em seu peito. Em suas coxas. Em seu olhar que lia os olhos dela – luzes de um farol trazidas à noite pelo oceano que marulhava à janela. O nariz arrebitado e petulante de criança mimada. Conheço o tipo. Mas nunca assim. Pelo menos agora um motivo para acordar. Um novo tipo de passeio matinal. Sua boca não atrairia a atenção de qualquer mulher mas Rose, a artista, a artista plástica, a artista plástica marginal, para ela a umidade assimétrica da borda rósea refletia o tremor das folhas em uníssono com o seu coração. Por meio da contemplação oferta a si mesma uma vida vicária que deverá ser sua serva ao conter as loucuras da paixão proibida. Paixão? Outra vez. O quê? Amor.

Caso pudesse chamar de amor, amou-o desde o primeiro momento. Impossível negar. Amar aquele


jovem era um sentimento que corria em suas entranhas como se fosse seu único habitat no imenso mundo. Estremece a cada evocação dele. Amor então. O desenvolvimento esperado do arrebatamento inicial. Deveria ser. E se impõe o sacrifício. Não transgredirá. Como será, transgredir? Deitarem-se juntos. Talvez na praia noturna. Talvez até no quarto dele. Não. Será boa para sua arte a renúncia. Melhor assim. Faz tempo que não pega em seus papéis. Nos lápis, no buril. Ultimamente é ela a própria forma líquida e negra na superfície oscilante. Seu último quadro fora um estudo confuso onde não desenvolveu a visão da pintura engajada mas acabou envolvida pelos tons sombrios deixando-se arrastar por uma crise de nervos que a jogou na cama em frangalhos.


Flor cujo viço está prestes a morrer, dela o marido cuida com zelo de jardineiro. Embora gozasse com as floradas novas e os brotos, não deixara de dispensar gratidão à planta que definhava para dar lugar àquelas geradas da eflorescência anterior. Esteve à sua cabeceira com gentilezas de comerciante que lesa os clientes, de médico que assedia a paciente. A senhora Lens tinha pavor desses rasgos de bondade. Nos filmes de terror o recanto bucólico sempre antecede as orgias de sangue. Era ainda bela a sua mulherzinha, serviria ainda por um bom tempo. Quanto às outras, está no homem ter muitas mulheres como está presa no ramo da planta atual a que germinará no futuro.


Assim pensa George Lens entre Rose e a Zona Vermelha; entre as jovens frescas da noite e a mulher de 45 anos. Como um jardineiro que ao cuidar das novas plantas não percebe o arbusto seco reflorescendo, não percebeu o olhar do amor desde o primeiro momento na véspera do aniversário de Michele, a Gerard dedicado. Tomara que não perceba. Ela não estaria preparada para essa possibilidade. Odeio esse homem. Realmente como pôde chegar a se casar com ele?

Se não devia fidelidade ao marido infiel, à arte a fidelidade exigida não era a que se aprende por meios morais mas aquela de que se depende para sobreviver. Portanto talvez George fosse necessário para que de algum modo ela pudesse ser plenamente Rose, com suas melhores virtudes nascidas do sofrimento e de grandes alegrias por contraste, eternizadas em suas telas. Ainda bem que existia um lugar como Celba, pensou. Ainda bem que havia a solidão. Não


sobreviveria numa vida prioritariamente social. Talvez George fosse necessário, como o próprio Gerard de outro modo.

Durante a primeira parte da manhã, talvez uns quarenta minutos, permaneceu diante do espelho. Ainda não morri. Nem mesmo estava velha. O fulminante amor que a colhera destinou-lhe mudanças, nada mais do que compreensão. Acontecera um dia com a pintura. Está sentada, ereta, com as mãos na região lombar. Olha para as mesmas mãos no reflexo. Percebe os resíduos da tinta na pele como uma roupa encardida. Produzira-se em seus quadros, essa compreensão, a partir da mudança da metrópole para a vila de pescadores. Um tom insistente qual gemido a que se poderia se chamar estilo. Estica-se para trás, alonga, geme. Regozijara ao descobrir o caminho a seguir. O mar. Os matizes do mar. O barulho do mar. O cheiro do mar. E oh sim tudo encontrava eco em seu espírito de mar. Olha para o ombro esquerdo. Nítido,


branco e cheio. Plena de sofrimento, forma de vida em extinção, o que ela compreendia passava às telas em perfeita simbiose. Mas não tem pintado. Abre as palmas diante dos olhos. É isso. Leu as manchas de sua pele por onde correm as veias azuis. Sim, ela o amava. Amará de fato. Ama Gerard.

Talvez o responsável por seu amor seja um tolo. Mas como não irá se envolver, isso não afetará as profundezas e altitudes. George Lens saíra. Sobe as escadas do prédio. Cidadezinha miserável. Gentalha. Nem sabem o que é um elevador. O alívio da senhora Lens se confunde com o terral que varre o vilarejo para desespero das donas-de-casa obrigadas a levar uma segunda e terceira vez a última vassourada pela porta. Tarefa que pode esperar, decide ao entrar no banheiro. Para o almoço mandará buscar uma ou duas quentinhas. Possivelmente Michele nem vem, está se tornando costume. Lembrou-se do absorvente. O mar, a lua. Ciclos. Pode uma mulher ser livre? Sua vida vai


pelos ares agora também respirados por Gerard. Ele não a verá passar quando, depois de falar com o jardineiro, retornar à pousada. Conquanto espere o encontro e trocar um olhar com a materialização de seu sonho. A visão do corpo maduro e roliço em meio à névoa.

A maré subia. A areia dura registrava as passadas de Gerard – caligrafia tensa do desejo de reencontrar a mulher. No vigor da espuma lançada com mais força apaga-se a trilha de um dos pés figurando a laceração: preservação de apenas metade dos projetos que o distinguiram com esse peculiar vilarejo. A paixão o divide. Tudo parece complicado logo a partir das mais simples tarefas do técnico de informática da pousada. Emprego caído do céu. Lembraram-se dele para o cargo. Viu como é bom fazer as coisas direitinho? Agora porém o rumor do mar mantém-no prisioneiro nos corredores que esperam a temporada. Os pensamentos batem nas paredes, entranham-se na fina


grama da entrada, luzem na fachada dórica, volatilizam-se junto ao aroma das buganvílias. Do segundo andar se espalham por toda a parte em cachos rosas, vermelhos e brancos. Porque tudo aquilo, como ele inteiro, havia sido marcado pelos devaneios desde que vira a mulher, de quem retivera o pecado de sonhar. O que vê, ao entrar entre os capitéis triplos do prédio em que trocará cumprimentos com os veranistas, é ela. Apenas ela. Seu nome, saberá no dia seguinte.

De agora em diante felicidade passa a ser a madrugada fresca do lado de fora das casas, nas redes das varandas, em uma aldeia de pescadores olhando as estrelas e criando a manhã de nadar e encontrar uma deusa madura a esperar o sol para segui-lo pelo mar turquesa após um dia desgastante entre pentes de memória, processadores fugidios, incompatibilidades, telas pretas e mensagens de erro. Está sentado à janela do ônibus chegando. A estranha da madrugada


vai descer. Que importa? Apenas um evento na vida de qualquer um. Normal. As vozes se entranham umas nas outras. Mais à medida em que as cortinas vão sendo abertas e o dia entra e entram na cidade. Luz. Felicidade. Aos domingos recostar-se em almofadas no tapete, os suplementos do jornal espalhados, agradecendo a Deus por tê-lo encaminhado para uma vida assim. Você estava tão bonito naquele dia em que

chegou, mesmo de longe, aliás nem tanto assim. Mesmo antes, ali, olhando o mar ondeando pela janela. Ainda não a viu. Mas pressente. O mar tem segredos.

A senhora Lens passa no rosto o creme hidratante que já usara no pescoço, desviando dos fios do som nos fones. Nick Cave, Tom Waits, Lou Reed, Leonard Cohen. Ele uma vez disse que eram escolhas significativas mas nunca disse o porquê. Nunca disse nada além do que um genro tem a liberdade de dizer. Nunca fez qualquer elogio referente a seu físico. Por


respeito é claro. Ou nem liga. Aqui ela separa as roupas sobre a cama no espelho, a bermuda floral que a deixa à vontade sem constrangimentos e a blusa sem mangas, seu uniforme de passeio à beira-mar. O ônibus passa. Passam tantos ônibus interestaduais naquele horário. Nem pode imaginar. Um suspiro. O corpo fala pela postura e pela naturalidade com que a postura se mantém. A roupa fala. Equilíbrio é bomgosto. Revela. Função importante no caso da senhora Lens, calada e cada vez mais após a partida de Silvia. Tem todavia vontade de falar. Por isso mais que vaidade a escolha do vestuário.

Foi esse tipo físico. O jeito simples, o porte e alguma outra coisa que ele não saberia dizer mas transpirava daquele corpo. Chamou a atenção de Gerard ao despontar na praia quando chegava à cidade acalentado até então apenas pela exuberância da natureza ao redor. Talvez pudesse ter ali evitado esse destino. A senhora Lens se cala diante dele, à


porta. Ela acabou de chegar e perguntar por Michele. Não, não havia como evitar. Esse destino está à janela dos ônibus. Sente no rosto o vento e a chuva que batera contra o vidro durante a noite. Está do lado errado. Com desconforto se acomoda à poltrona. A vida pulsa na solidão tempestuosa. Logo tudo parecerá um sonho, um desatino atemporal. Quando acordou de manhã, o ônibus deixando estrada e mais estrada e mais estrada para trás, um sol tímido se arriscava em finos feixes. Espíritos do ar se alimentam dos pensamentos dos passageiros e depositam em suas mentes a conjetura que não saberão definir. Gerard emprestou às existências ocultas a força de sua esperança. O ônibus encosta no terminal – a pequena marquise da loja de venda de passagens. Um olhar estrangeiro. Ponto a ponto de referência ele se exalta em arroubos próprios de pessoas em lugares novos. Dava Celba por definitiva em sua vida. A visão fugidia do vulto que tanto seria amado iniciou o processo do renascimento do Deus feminino por quem na beleza


do céu agora de súbito entrevisto entre dois prédios havia na adolescência se apaixonado. Sem dúvida, o destino. A música que ainda tocava em seus ouvidos possuía uma dimensão nova. Superpunha uma nova alma sobre a antiga. Uma nova realidade repercute nas batidas de seu coração. Enche o peito. O mar lhe faz bem. Amanhã bem cedo dará um mergulho, nadará um pouco. Precisava. Quem sabe ainda hoje. Fechou os olhos. A música paira. Melodia lisérgica de nãousualidade. Pensar na mulher provoca a fraqueza dos profetas. Não se atém à música, ao céu ou o mar entrevisto. Pressente-se numa história de amor e horror. Agora ele sabe não sabe como. Passeava ousadamente pelo medo da realização das coisas muito desejadas. Pensa na mulher. O alongamento no ato de espreguiçar interage com o frio na barriga. Tinha a ver talvez com um velho sonho, viver numa vila como aquela, apaixonado. Mancha de luz derramando-se pelos telhados, o sol


impossibilitava a fixação no descanso verde de uma árvore, na sensualidade de tijolos vermelhos ou na liberdade de algum azul no céu ou no mar. Tira os fones. Passando por uma casa, ouve vozes enquanto o ônibus se aproxima e depois que se afasta. Estou indo agora, acho que me atrasei um pouco, diz a menina. Rose não iria se aborrecer, não hoje. Disse que estava tudo bem. Que ia à praia. Como assim vai à praia, mamãe? Assim: de biquíni e toalha pela trilha (na verdade está pensando no short, na camiseta petróleo e na bolsa branca). A senhora não tinha prometido dar um jeito na minha calça para a festa? Claro. Só não tinha marcado horário. – Mas o aniversário é sábado, sabia? – Sim, Michele, foi nesse dia que dei uma criança à luz. A adolescente deu de ombros. A mãe estava mesmo ficando cada dia mais estranha. Deve ser a idade. Na idade dela, pensou Rose, já teria dado eu mesma um jeito na calça. Ou poderia usar uma calça


velha, o que naturalmente Michele não faria. A filha não fez questão de dissimular o olhar que percebeu estrias na senhora Lens, discreta ao notar seios e culote brotando descontrolados em Michele. Tudo bem, mãe. Boa praia. Só faltou dizer Papai não vai gostar quando souber. Obrigado, querida. Boas aulas. Os sons de um concerto marcam no ônibus a distância da casa. Eca, mãe, que música horrível, resmunga a menina ao sair. Quando você tiver a própria casa poderá ouvir músicas lindas em todos os aposentos. Quando tivesse a própria casa, pensou Michele, seria mesmo sua, jamais dependeria de um homem. Porque era filha e porque era fase. Porque o pai tinha algo que ela. Porque descobriu. As vozes ecoam em Gerard como se tivesse passado não de ônibus mas a pé. Essa voz. Ou não? Esse sotaque, pelo menos. Então lembrou. De seu sonho? Não. Acontecera.

Houve sim a noite no ônibus. Com licença, disse a jovem. E de fato aquela mão. Talvez ele tivesse


permitido. Talvez não tenha reagido para ver até onde ela chegaria. Mas o quê? Estou pensando em um sonho? Não. A claridade e o cochilo quase o enganaram, mas as noites sempre voltam. E ali, de seu descuido. De seu sonho ou o quê. Essas coisas acontecem. Nada demais. São os tempos. É a noite. O aconchego de um ônibus-leito. Mais tarde algum tipo de culpa caso não impeça a súbita mão que desliza e permita o contato no encosto do braço comum às poltronas – logo diálogo de pele, arrepio, contração sob o cobertor. Evento oculto dos olhos ainda que não exista olhar ocupado com aquele lugar no interior do veículo. Nenhum olhar para qualquer lugar especifico do interior do veículo. Então os dedos se insinuaram enquanto vigorava a lei dos olhos fechados e do pretenso sono. Ela entrara na segunda parada e, como já não estava ali ao chegarem, saiu antes da ultima. Há um rio correndo por dentro da cidade. Ela o cruza pela ponte. Segunda parada. Entrando. Contraponto aos


caras grosseiros da rua o passageiro com aspecto sonhador. Não será algo doentio. Apenas lhe dará algum conforto. Parece tenso, à beira das lágrimas. Roçar de braços desperta. O ruído do motor traduz o quanto na distância ficou a segunda parada. Nem mesmo ele poderia jurar, caso a reencontrasse, que não dormia. E caso se encontrassem mesmo? A cidade era tão pequena. Não. Nem se reconheceriam. Ou talvez. Vale a pena o risco? Três passageiros entraram na segunda parada. Uma moça. Os dedos eram tão gentis que mesmo no sonho ele custou a acreditar – se acreditou – que não era proposital. Movem-se sobre a separação mas já introduzidos no calor. Não há sedução mas momento, não vergonha mas encanto. Homem e mulher. Menino e menina. Coisas que acontecem após a segunda parada no silêncio das reputações.

Uma réstia de luz entre as cortinas do lado esquerdo de quem entra pelo corredor. Gerard leva


um olhar tépido junto ao raio até que pousem no perfil da jovem sim, dir-se-ia adormecida. Mas é dela esta mão. Os dedos que procuram. Isso não está certo, mas o que pode fazer? Há algo que possa fazer dentro do limbo no entorno de um gozo que não se consumará nem na verdade deve se consumar? Acompanhando a trilha, a senhora Lens chegará na praia por volta das nove e meia. Descanse agora, dê um mergulho, estenda a toalha, tome um sol. Por agora ainda dorme. Tenta conciliar de novo o sono úmido como a areia nas proximidades do mar. Como a jovem do ônibus. Agora são todos os dedos. Pressionam, diminuem o aperto, veementes, suaves. Detém-se agora no pulsar que ignora as fases primárias do desejo e as complementares, da consumação. Tão natural. Ela, com freqüência tocada, agora toca; ele nada fazia, se integrava. A mão por dentro do cobertor descobre a borda e a leva abaixo no ritmo da estrada e do motor. Um ser


triunfante desafia a lã. Respiração regular de reles mortal. Tudo bem. Aceito ser um pouco feliz assim, obrigado. Tardou o necessário. Passou. A voz de Michele. Na verdade um resquício da sua voz, fragmento de fragmentos. Um acento qualquer, um pronúncia incomum, um jeito de falar. Envolve-se no incidente noturno. Bom dia, diz ela assim que pisa na terra que ladeia o asfalto. Bom dia, senhorita. Vista por um velho sob a árvore que marcava a penúltima parada, o ser que desceu do ônibus parecia um anjo, as vestes molhadas de azul.

No inicio da tarde do dia em que chegara para assumir os computadores da pousada, viu a mulher pela primeira vez. Se Deus tivesse aspecto humano, Deus mesmo, não seu Filho, seriam as feições daquela mulher. Se tivesse um corpo seria seu corpo, lírio entre as plantas espinhosas. Passeava à beira do mar. No


momento em que pousou nela o olhar, desencadeando aquele fogo que o devorou em esquecimentos, a senhora Lens encheu os pulmões do ar salino. Seios discretos nas fronteiras em V. Ônibus adiante, o ângulo de visão apresenta uma mulher na casa dos quarenta em exuberância de porte. Erguem-se montes cobertos por névoa floral. Gerard retém a imagem nos minutos em que está no ônibus depois de tê-la visto e antes de saltar. Chegara enfim.

A senhora Lens passava os dedos através dos cabelos. Pega uma flanela fina e se entretém a limpar as lentes dos óculos. De longe o viu à janela. Um ligeiro tremor. Não atração física. Viu a compaixão no olhar do rapaz falando com o jardineiro. Senhor Gerard? Muito prazer. Sou Cronelin. Seja bem vindo. Gerard sorriu. Agradeceu. Responde. É um prazer para mim também. Pouco antes do verão, chovia mais do


que normalmente. Aproximava-se o Natal.

Gerard. Arrumou apressadamente as coisas no quarto como se estivesse atrasado para um encontro e saiu em direção do lugar na praia em que havia visto a mulher. Como o ônibus houvesse dado uma volta naquele ponto, teve dificuldades de se orientar. O sol vermelho busca seu próprio reflexo na linha do horizonte. Logo sóis estariam se unindo no oceano, policromia do infinito aos pés espumosos das ondas. Chegou ao lugar, marcado por um pé de tamarindo gigante, quando o sol encontrou seu duplo e a noite começou a cair. Não havia ninguém.


A tradição determina que a vila de Celba – com sua orla marítima plena de curvas como as redondezas das versaletes no diário de uma adolescente – fixe nos que chegam com a rodovia uma impressão beatífica. O terral sopra à tarde balançando as buganvílias no forte calor infestado de maribondos. Pouco o ameniza. Aura de séculos de hábitos femininos dissolutos. Da estudante à vendedora de balcão, da filhinha de papai à fugitiva, da turista adolescente à radicada madura – as mulheres dali tinham essa essência que as resumia. Sensualidade vulgar. Vendilhões no século XIX viviam ali do tráfico de escravos. A principal fonte de recursos da vila é não a pesca nem o artesanato de conchas mas o turismo. A maioria dos que moram ali o ano inteiro vive em função da temporada. Uns poucos são indiferentes a esses verões e a temporada os incomoda. Era o caso da senhora Lens, pintora em cuja paleta subsiste simplicidade. Com inspiração no cenário natural da vila ela produzia mais a partir do outono. Quadros que a


crítica acreditará brilhantes. O brilho literal Gerard viu do ônibus quando chegava. Qualquer pessoa o veria. Aos olhos da distância há um lirismo que se perde no crepúsculo. Porque Celba não depende da pesca ou do turismo mas da luz.

Essa vizinhança de nativos em seus casebres e donos de mansões para aluguel cumulou-se da mistura que acrescenta à atmosfera maledicente da cidade pequena a perversa liberalidade da metrópole. Na época Celba contava com menos de dez mil habitantes. Mas há qualquer coisa na comunidade que a faz parecer maior do que realmente é. O mundo que constitui cada pessoa interfere nos outros mundos, como transmissão de rádio. A vida da cidade se expande. As pessoas ali são portanto muito parecidas. Esperam a temporada como quem torce por números de loteria num universo de bilhetes premiados. Quando vêem a senhora Lens — que não é turista mas vai à praia e não se junta para falar da vida alheia —


murmuram. Olhem. Lá vem a madame. Gerard tampouco escapará. Arrogante. Sozinho pelos cantos da cidade. Gênio difícil. Um idiota. Amará a senhora Lens porque deseja a liberdade que na vida cotidiana está além dos relacionamentos. Amará o fruto por ser proibido não pelo seu sabor? O sonho por ser utópico? Olhou os pontos em movimento: mulheres caminhando na estreita calçada à beira da areia. Devia se concentrar em seus planos, preparar para si um futuro diferente pelo até então pressagiado.

Celba. Lugar maravilhoso. Castanheiras. Esperou a manhã. Folhas. O sol num milhão de nuances acompanha a orla. Riu sozinho chegando a ouvir o som do riso subindo dos recessos. Repetiu. É o método mais eficiente de ensino. Lugar maravilhoso, pensa então ao balançar nos desníveis da rua de terra. De um e de outro lado nos terrenos vazios entre as casas prontas brilhando de novas e vazias e as casas em construção anunciadas pelos montes de areia escura e


peneiras e pás predispostas a enxadas, em meio à vegetação atrevida e incivil, arcos de luz abrolhavam como pérolas perdidas reencontradas, lupa de ar levemente nas partículas sacudida. A pouca distância dos recifes passavam todos os dias ao romper da aurora barquinhos com dois homens. Verificam a rede curvando-se para o espelho. À direita de quem chega ergue-se o monte Lagar. Uma falésia surge na proximidade do verão. Ali a praia começa ao sul suavizando a rocha na sombria areia. Para onde quer que se olhe montanhas ou mar. A chuva costuma sumir por longos períodos e as grandes tempestades anunciadas são mais barulho, eletricidade e redemoinhos. Isso Gerard não sabe ainda. A população flutuante faz o estranho passar despercebido ao descer do ônibus. Que lugar. Acredita que enfim acertou. Junte-se à paz turquesa a sensibilidade de um espírito nobre e aí está o principal efeito em Gerard, semelhante ao que habitou Rose havia alguns anos.


Oito anos. Veio a convite de um amigo com o qual irá se casar. Quer uma dieta de peixe nas férias e acaba fazendo do peixe sobre a mesa da casa de tijolos vermelhos a base de seu cardápio para o resto da vida. Aos poucos as ruas da vila passam a fazer parte dela. O caminho do mar e a avenida do meio. Da prancha da balsa até a lagoa. Aflorou a sensualidade por meio da qual Celba promovia a unificação entre as pessoas de bem e gente de caráter duvidoso. Casos mostravam o passional desequilíbrio que a preguiça reprimia. Crimes hediondos sobre os quais pairava silêncio. Essa maldição, incorporando-se a sua própria existência, torna a mulher sombria e intensa. Leva aos quadros a catarse. Motivos crepusculares e lúbricos. Num arrebol lascivo sobe o ônibus pela estrada.

Gerard deixara para trás na capital o banco e o emprego de caixa e uma vida luxuriosa testemunhada pelo apartamento que a instituição oferecia aos funcionários no próprio prédio da agência central.


Fugia do desejo irrefreável e do desgaste da capacidade estética. Da banalização dos relacionamentos. Vislumbra a cidadezinha de um cimo. Viverá em paz. Tem certeza agora. Irá guardar-se do mal, do cansaço, da treva. Continuaria a se comunicar pelo computador com o resto do mundo. O velho com a colher aproveita o máximo do mamão partido ao meio junto à estrada.

São Braico para lá das colinas. Os olhos de Gerard. O cristalino sobre a retina e as superposições que registram forma e cor como operários trabalham visando o descanso. A mulher leva o leite para dentro. O talhe nobre nasce das luzes. Sem sombra. Um relógio de sol. Recortada no horizonte. Último pouso do olhar dele antes que a perdesse.

Aqui. O prédio da pousada. Esperará um pouco. Dará antes uma volta pois é cedo. Realmente sente-se bem nas ruas da cidadezinha. Os biquínis parecem


mais satisfatórios que os maiôs. O ar salino não é pegajoso como costuma ser noutros lugares. As ruas estreitas parecem guardar a cada curva uma revelação. Passos. Passos. Quem sabe terá agora um lugar que possa chamar um dia de seu. Caminha porque ainda não está satisfeito embora saiba que devia estar. Quer algo mais para esse dia. Será inevitável guarda-lo na memória. A vida pode ser simples e bela. Mal acredita que alcançou tal estado de espírito.

A temporada portanto dividia a vila de Celba em duas: a do verão, cosmopolita; e a provinciana no resto do ano. Por volta do Natal, em meio a tempestades, da exposição desses dois períodos ao mesmo sol nascia um corpo rico e rústico feito das pessoas em férias que se ligavam aos moradores anuais, pescadores e comerciantes e a gente a eles ligada além dos especuladores obedientes a leis tão imutáveis quanto as que determinam na semelhança


entre pais e filhos o gene. Gerard chega em novembro, quando a vila ensaia a temporada. Pode sentir essas faces. O feriadão está cheio de turistas.

Quando se faz a curva vislumbra-se pela primeira vez a vila num prisma plano. O sol se põe a noroeste nessa época do ano, atrás da cordilheira. O vento sopra fortemente às tardes quase sempre na mesma direção. O mar é raso durante imenso trecho transparente. Quase dá para se chegar às ilhas sem nadar. Inexato chamar de areia o branco corte litorâneo. Luminoso chão de silício termina em choupanas ao pé do Lagar. Um rio corre ruidoso e ladeia toda a rua paralela à avenida beira-mar. No extremo sul repousa a lagoa do Trancoso em reflexos de água doce na pura paz de algum engano. Assim se desvendou Celba quando Rose chegou e assim agora retiniu nos olhos de Gerard. Um coração palpita além do que se deveria supor.


Chegou na quinta e se estabeleceu na pousada. O velho desktop fica do lado esquerdo à janela junto da parede oposta a quem entra. A impressora e o fax numa mesa menor de fórmica. Móveis anteriores aos raques específicos para computador que por uma mal formulada questão econômica o dono da rede de hotéis ainda não se dispusera a trocar. Conectado. Viu o rosto que não conhecia. Torne à realidade, Gerard. O que por Deus será de você sem uma mínima base de vida à parte da estética e da sensualidade? A conexão era boa, via rádio, uma surpresa agradável para quem ainda não conseguira se livrar da pré-histórica internet discada em plena era dos celulares inteligentes. Assim teve o primeiro contato com Silvia. Ela estará disponível numa velocidade aceitável. Afinal não é um lugar tão primitivo. Se vira e se perde na contemplação do oceano. A nova vida pretendida. O barulho do mar estaria sempre ali para não permitir que esquecesse. Subitamente para quem olhasse, levantou-se e saiu. A imagem da mulher o envolve.


Não seria a primeira obsessão amorosa em sua vida mas certamente a última. Na qualidade de obsessão se desfará para abrir espaço a um amor autêntico que o entregue homem a uma mulher – que o entregue, não o empreste. Sentenciando-o a amar quando não amasse mais a si mesmo na pessoa amada e levando ao amor das pessoas em geral e a essa em particular. O cachorro sobre a manta parecia provar isso. Compadeceu-se e o levou e cuidou dele e deixou-o ali perto onde pudesse saber se estava bem.

A vista da janela. A inserção na vista ao nadar até os recifes. No quarto vazio o halo de sua presença. Um dia conversava pelo Messenger com a mulher chamada Silvia, que agora deixou sozinha no monitor. Falavam sobre decepção e abandono e expectativas criadas e frustradas. No fundo é irrelevante. Os mortos permanecem mortos quaisquer que sejam os motivos da morte ou os sentimentos de que se alimentaram em


vida e os vivos não tem uma segunda vida. Tentativa e erro: parece não haver outra forma. No mar a prateação do braço esquerdo contra o horizonte. Matizes oblíquos nos prédios que dão para a praia. A mulher em algum lugar sob o mesmo sol. Possivelmente perto. Luz oblíqua na transversal de oeste para leste ao longo da ciclovia. Mães e filhas obliquamente respiram artesanato de conchas. Búzios furados com alicates de unha colocados no fio de pesca. Palavras e palavras e ainda outras palavras. Maledicência mata. Ah deixa pra lá. Que me importa? Não quer mais carregar os vícios do mundo.

Raios refulgem no jorro da Fonte Sarracena. É possível reter apenas a beleza das coisas. Na lateral plúmbea da igreja a parede rachada cheirando a urina. Verdes pedaços velhos de rede. Maços de cigarro amassados, guimbas, seringas. Ocultas pela triste parede as lágrimas do padre aidético. Será a vontade de Deus? Escurecia. Esticam-se as sombras de prédios


e pessoas. Aqui um homem foi morto por nada. Agora Gerard sai da água; agora a senhora Lens está em adiantado caminho de volta para casa. A pousada momentaneamente não tem cor definida. Como o dia passou rápido. Nos telefones públicos em frente ao posto o entardecer inspira jovens turistas a enaltecer Celba para seus familiares. É um lugar muito bonito. Uma vilazinha bem legal. Tá bem, meu filho. Se cuida. Dizem que aí rola muita droga. O rapaz sorriu fazendo sinais para a namorada. Beijam-se. Mal podem esperar a noite e quem sabe não esperem mesmo. Ainda não sabem que o amor deve ser um porto seguro não aventuras de cais. Os velhos fios de cobre sobre suas cabeças transmitem confissões mas esse rapaz de nome Gerard entra novamente na pousada sem ter descoberto o que buscava. Dois carros passam muito rapidamente após ter ele atravessado a rua.

Uma estrela desponta e depois outra banhadas pela lembrança da moça do ônibus mas a inspiração


não é tão firme como entre os dedos dela nem ele sabe se caso precisasse poderia manter a atividade. É ainda muito novo. Deve ser resquício das drogas. Deus também o poderia estar castigando pela promiscuidade da qual fugia, claro, haverá uma recompensa a longo prazo pela iniciativa de mudar, por querer mudar. É o primeiro passo para tudo na vida. No casamento decerto estaria curado. Outra estrela. A história se fecha na pracinha do cemitério. O amor conhece o esquecimento nas lápides mas Gerard lembrará um dia. Dava para ver jazigos de sua janela. A senhora Lens passou por ali no caminho de volta porque gosta daquele silêncio lembrando da noite anterior e não sabe mais o que fazer para evitar a aspereza diária em seu canal ressecado. Os beijos pelo menos são cada vez mais raros e nem a preliminares George se dá mais mas apenas a penetra rasgando. Arrogantemente enviagrado. Ele apenas se serve de

mim e sempre me usou e sempre apenas me usou. Mas não tem forças para romper com aquilo.


No recém-inaugurado shopping dando luz a todo o redor do imenso prédio as pessoas enforcam o feriado no cinema ou na praça de alimentação. A senhora Lens chega em casa pensando que Michele estaria. Gerard acabou de tomar um banho após nadar e senta-se diante do computador e começa a digitar e clica e o contato se faz. Sílvia acabou de colocar o vestido curto estilo jardineira depois de passar não menos que quinze minutos no chuveiro e a água demorou para esquentar mas depois que esquentou logo estava fervendo e ela saiu, fumegando em meio aos ladrinhos suados. É médica. Ao menos se dizia. Do outro lado da tela, distante de Celba e mais perto do que a telefonista do hotel, a mulher soltou os cabelos negros que caíram à altura dos ombros. Doutora sim não mentira. Chegou a ser a mais jovem infectologista do Centro Médico de São Braico. Da arrogância dos colegas nasceu o desejo de sumir e recomeçar. Não será jovem outra vez nem terá mais


essa pureza. Quem sabe depois de se separar do chefe de sua ala. Precisa. Pensa sobretudo numa nova forma de relacionamento na luz baça dos dias. A alma se derrama pelo espaço e assim se mantém viva. A simples consciência de que esses jovens existem faz com que Silvia suporte melhor suas frustrações e estados depressivos. Motivo de constante preocupação de seus amigos, especialmente de sua melhor amiga, Rose Lens. Talvez – pensou – se refugiasse um dia naquela Celba de sonho. Trabalharia quem sabe no hospital municipal. Conviver com tamanha incidência de contágio levaria ao esquecimento de si mesma. Pensava nisso insistentemente apesar do alerta da senhora Lens. O lugar é perverso e as pessoas, traiçoeiras. Rose é infeliz no casamento: evidentemente isso reflete na sua avaliação da cidade natal do marido. Me lembrei que vou ter que dar um

telefonema – leu Gerard na tela. Mais tarde nos falamos .


Mas voltemos à imagem da senhora Lens tirando os óculos. Penderam em seu peito quando a voz grave atendeu o telefone na sala de estar cujas paredes mantém uma tonalidade íntima entre o amarelo e o vermelho nuances quentes acolheriam quem entrasse. As lâmpadas alógenas abandonavam o foco sobre os quadros: Goya, criança e animal; abstrações de Mondrian; uma foto de Evgen Bawcar; e o “Vinhedo Vermelho”. Na parede oposta o auto-retrato da senhora Lens implacável em seu nicho sobre a lareira colocado ali no transcurso da vaidade juvenil e na inconsciência da passagem do tempo ali metaforizada pelos matizes vindos das cortinas. Modificam o ambiente pela transformação do dia mantido do lado de fora. As almofadas de cetim espalhadas pelo sofá cor-de-terra marcavam de retângulos o carpete cheias de motivos esverdeados e triangulares à espera de que a senhora Lens se estenda para passar seus cansaços. Seu rosto no enquadramento de fundo cortinado juntou-se ao arranjo de flores secas.


Estava deitada lendo sobre Cézanne quando o telefone tocou. O short azul de seda mista se ondula deixando adivinhar as formas das coxas na luz de lâmpada no tecido e o sutiã bege se encheu quando inspirou. Quem poderia se deleitar com a visão uma vez que a senhora Lens estava sozinha como sempre? Vestia-se para si mesma há muito tempo e desnudavase para si mesma. Ao andar pelo tapete seus pés pequenos o marcavam.

Como Rose estava? Era bom ouvir a voz de Silvia. Há quanto tempo. O que tem feito? Silvia queria falar do que gostaria de fazer. Quero te ver, ir a Celba. A senhora Lens respondeu animada que, claro, lhe daria muito prazer. O George não vai achar ruim? O George não vai achar nada, diz a senhora Lens. Pergunta quando Silvia está pretendendo viajar. Um pouco antes da exposição. Quando você vai para os Estados Unidos? Poderiam ir juntas. Sim, iriam juntas. E as coisas? Iguais. Você precisa tomar uma decisão. Não


era nada trágico. Ele a maltrata? Maltratá-la seria estar consciente de que ela existia. Silvia se pergunta como Rose pôde casar. A senhora Lens pensava que o noivo era apenas um homem rude. E pensou que poderia dar um jeito nisso, que podia ensiná-lo. Bobagem, as pessoas não mudam. Quem dera ele fosse de fato só um homem rude. E a menina? Está bem de saúde. Sabe como são os adolescentes. O que esperar deles? Silvia podia imaginar? Fui ter uma conversa ela, achei que estava exagerando na maneira de se vestir, com biquínis minúsculos, shorts enfiados e – A senhora

fala como se eu fosse uma predadora — dissera Michele na ocasião . – É exatamente o que está

parecendo! – Fale pela senhora, mamãe! Silvia lembrou que elas também haviam sido adolescentes. – Faz tempo... – Nem tanto. A senhora Lens estava feliz. Para quando devia esperá-la? Segunda à tarde? Tudo bem. Assim terei mais tempo, disse. Michele estará na escola e George


no trabalho. Será bom rever você, disse Silvia. Tenho novidades. – Alguém? – De certa forma. Como assim? Quando chegasse, conversariam. Mas você sabe, adiantou Silvia, que eu tenho um computador em casa. Vadia... Silvia dissera que ia comprar um para trabalhar! Lidar com homens é um trabalho exaustivo. A senhora Lens pensava que a amiga os tivesse deixado de lado. Como Silvia disse, é um homem apenas de certa forma. Pausas. A senhora Lens podia ouvir o refrão do mar, sempiterno. Também o escutava Gerard ao desligar o computador. Desejaria retirar todo o prazer da melodia mas contentou-se em ter a intensidade possível. Não mais era capaz da plenitude de sentimentos que a música pode passar. Perdeu-se no céu parcialmente estrelado pensando na mulher da praia. Ela caminhava pela areia. Uma nereida. Uma rainha na areia. Na areia como se nas nuvens


carregando o paraíso consigo na brisa de novembro. O rosto se desenhava em proporções características de bebês. Os olhos grandes muito abertos. Gerard não tinha certeza mas acreditava castanhos. Não era um rosto fora do comum mas irradiava beleza de aura. Deusa despercebida, não para Gerard, insone que adorava Hanna Schygulla e lia tanta Clarice. O porte vestal admitia um corpo talhado para o amor. Cabelos e pescoço e seios e coxas e pés e mãos e tornozelos e ombros e costas e barriga — como se o amor existisse não em si mesmo mas naquele corpo. O acesso se dava não por conhecimento mas imaginação. Viu-se diante dela nos montes abrigando-se da solidão tempestuosa. Na austral curva descaindo no vale sombrio. No corpo que gerava a fantasia de Gerard, a senhora Lens sentiu doer as costas e passou a mão direita em sua lombalgia. Tornava-se crônica. Falando em homem, Silvia perguntou como estava o Renaud. Renaud? Aquele de quem você me falou uma vez, o da


festa. Havia esquecido? Ah. Veja há quanto tempo não nos vemos! Mas você existe. Está aí, eu sei.

Uma reflexão. Tornavam-se raras. Silvia sente a falta física das pessoas. A senhora Lens não tem muitas pessoas das quais sentir falta. Por que não se separava? Michele o adora. E a ela mesma, Rose, quem adora? Quem ia se sacrificar por ela? É minha filha, Silvia. Não pediu para vir ao mundo. Droga, nem você! Precisavam mesmo conversar. Os filhos crescem e será tarde. A senhora Lens bem o sabia. A gratidão dos filhos não deveria ser suficiente para encher a vida dos pais. Rose era jovem, atraente. Silvia devia estar brincando. Não estava, ora, trinta e quantos? Quarenta e cinco. Silvia estava nessa faixa e se sentia desejável. Tinha tempo para isso. O mal das mulheres casadas é não se permitirem ter tempo. Na verdade George era bom com a senhora Lens. Na verdade era um canalha dissimulado. Era bom com ela: o que fazia fora não


podia mudar isso. Mas muda, disse Silvia. A menina o adora, respondeu Rose. Assim voltaram ao princípio. A senhora Lens não podia afastar a filha do pai. Sabe, disse Silvia, o mais curioso é que às vezes te invejo. Realmente estava brincando. Não brincaria com isso: você está num contexto normal – as mães são dependentes e as mulheres se sacrificam. Estão excitadas. Perdem todo pudor entre si. A que contexto pertencia Silvia – o dos artistas marginais? Uma como a outra. Uma nos olhos da outra. Tão distintas. Artista? Silvia suspira ao pensar que talvez. Quem larga a medicina para se aventurar na literatura. Cartas tão poéticas. Sem contar o livro. E se aventurar, simplesmente. Para Rose as portas estavam sempre abertas. Nunca uma fila de banco. O que sabia do sistema de Saúde ou como funciona a Educação era só informação. Nunca procurando emprego. Uma vida quase da vida separada. Michele chegava da escola. – Vou ter de desligar – diz a senhora Lens.


Estaria esperando a amiga.

Desde que se levantou da frente do computador, Gerard cumulava o rosto de indagações. Busca algumas respostas da memória e outras da esperança além de um tanto relevante do desencanto que no limbo em seus olhos refletia entre o que não acontecera e o que não fazia diferença se tivesse acontecido ou estivesse para acontecer. A sensualidade de Silvia existe sem um corpo e sem um rosto e há essa evidência de que pode curá-lo. Não o entusiasma. Nada que se compare à mulher. Ainda assim. Doutora Silvia. Raciocínio lógico para idéias ardentes. Um ritmo, dir-se-ia. A tal amiga, apresentando-a como vítima, estava decerto justificando seus desvios. Mulher só trai quando o homem dá motivo. Ele associa. A mulher. Jamais daria motivo acaso eles– Eles... A senhora Lens pensa no rapaz. Vê. Namorada eterna desnudada para alguém.


No rosto se ilumina um prazer não sentido disperso pelas feições do rosto dele. Como nada soubesse dela exceto o físico, os perfis conforme o ônibus passava, Gerard, deslocando-a do desejo para a simples memória e desta para a saudade, colocou-a assim ao norte de seu amor. Adormeceu.

O ruído que o arrancou do sono e o devolveu ao mundo era um bando de adolescentes na rua da praia. Naquele tempo os filhos eram tiranos. Os pais poderiam ser responsabilizados? A época? Em todos os casos? Com a menina era assim. Os Lens não perceberam que Michele se tornava mulher. O pai antes da mãe depois da coisa consumada. Espera um filho homem. Ignora a criança pequena e da maior sente raiva. Na jovenzinha todavia presta atenção. Ela mostra alegria com o súbito pai. Um silêncio pairou de uma hora para outra. As vozes e passos dos adolescentes crescem na praia.


À evocação se junta uma voz feminina que contava a noite anterior. Gerard percebe a ereção matinal. Já não tão firme. Deus meu, pode simplesmente ser impotência. Acontece. A senhora Lens lembra com desconforto da noite anterior mas não lhe ocorre a idéia de evitar a assiduidade do sexo. Uma prostituta – chegaria a pensar se um som qualquer não desviasse o pensamento.

Michele se comprazia em ser em tudo o contrário da mãe. Torna-se alegre e falante além do que desejaria. A senhora Lens é discreta, reconhecidamente virtuosa. Mas alguma coisa detém a menina quanto a outros vôos. Beijinhos aqui e ali, ficando com um e com outro como qualquer menina de sua idade. Nada passível de conseqüências. Se guarda para alguém que se pareça com o pai, tão másculo e generoso como ele. Alguém que não olharia para sua mãe. Quando olhos deslumbrados se voltam


para a senhora Lens, a dor adquire tons de traição. Não acontecia se o rapaz em questão se interessasse por uma de suas amigas.

Educar Michele era um dilema. A senhora Lens não quer retroceder à sua própria educação, repressiva. Tampouco retirar necessários limites. Um calafrio. Uma menina. O choro após tantas horas na maternidade. Essa menina. A verdade da vida. As vozes na rua se multiplicam. Quase gritos, chulos. Será Michele tão pouco exigente quanto a amigos e namoradinhos? Será capaz de se apaixonar por um desses meninos vazios, como ela própria por George? Quis se apaixonar, na verdade. Quis sair de casa a qualquer preço e ah o preço que pagava! Mas Michele era livre, independente. Fumava de tudo, bebia cerveja, saía quase todas as noites e a hora determinada de voltar era só uma formalidade. Lei a ser transgredida. Pessoas como George só se impõem quando pessoas como Rose o permitem. Quando a


senhora Lens reagiria?

Os grupos passavam. Normal a estupidez. Sadia a falta de educação, a dureza, a leviandade. Os vícios e os maus modos. Normal o tédio. Gerard perto de um ser que não será. O que exatamente? Intui. Deve atentar. Poderia ser ele, poderia estar ali. O tempo. Bons, maus tempos. Sabedoria de alguém que deseja ser mas está longe. Atraente ainda talvez. Triste desse jeito, sonolento ainda, atento. Safa-se graças talvez às muitas mulheres. Ou são só um reflexo. São só um reflexo. Cansam-no. Elevam-no. Fazem-no esquecer e lembrar. Intensamente retorna a infância. Agora é diferente? Desejara a senhora Lens sem conhecê-la. Desejara-a desde o primeiro momento, ardentemente. Desejá-la-ia sempre. Precisa vê-la de novo. Até certo ponto é ainda sonho adolescente, mas há um ingrediente real no querer. Teria sentido assim há dez ou quinze anos? Havia um estranho progresso no desejo. Num momento o sexo se torna amor. É assim?


E a perspectiva do sexo uma introdução ao amor? Que possa ser como imaginara um dia. Que essa revelação do amor, dessa outra face do amor, presa à carne mas não só, ligada ao próprio Deus (paixão mais antiga, êxtase do crepúsculo), que pudesse ser assim, como a visão da praia se abria da porta da pousada na aura de um sentimento abrangente onde coubessem os detalhes mais pequenos revelados em cada segundo. Por favor. Estava chegando a algum lugar. Não, o tempo não destrói todas as coisas. Não era tarde.

Rondando o casario a eletricidade anuncia a tempestade. Quem sabe essa cairá mesmo pra valer. Michele adora a chuva. Passa horas vendo as gotas nas poças ou contra o vidro e escorrendo. Apoiou os cotovelos, apoiou o queixo, respirou fundo. Está sonhando com outro mundo. Percebe que é uma mulher. Em que isso a muda. Realmente sair na chuva a fascina. Mistura-se aos turistas anônima. Por pouco tempo. Seus amigos. As


meninas de patins e os meninos de bicicleta. Ela era a única de carro embora não tivesse carteira. Michele, eu disse que precisava do carro hoje. Papai ia à zona de novo? A cara de George se fecha. Se Michele tornasse a falar assim ele a rebentaria. Mas ela fala a verdade, como eles a ensinaram. A mão desce e surge Joana. Um filete em seus lábios treinados. Ele podia bater, isso, me bate, me mata. A senhora Lens interfere. Sabe o peso daquela mão. George manda a mulher não se meter. Não ouviu o que ela falou? Rose pondera que nada justifica a violência. Lembre-se de como odiou seu pai. Ele se lembra e odeia a mulher. Era para isso que desabafava! para ela usar as palavras dele contra ele mesmo! Ora, e logo quem vinha falar em família... O pai de Rose era patético, não se importava com ela, por isso não lhe dava disciplina e fazia todas as suas vontades. Michele sai sem que percebam. Meneia a cabeça e se afasta. Preferia mesmo sair a pé na chuva mexia com o seu metabolismo. Na rua,


algazarra. Vindo na direção da turma o professor Delano teve um instante de estremecimento. Todos o cumprimentam, devolve a saudação. Evita o olhar de Michele. Segue para a casa de Liana, a diretora. Na sala vazia, a adolescente aceita o atrevimento de um colega. Beijos, mãos sob a blusa. O professor. Ameaça-os. Manda o rapaz à secretaria, pega o celular. Michele descomposta. E agora? Devia comunicar ao doutor George o despudor da filha? O vento redemoinha no pátio. Sabe estar no limite do risco. Um definitivo e desnecessário risco. Não seria preciso. Ela faria o que Delano quisesse. O sinal de saída, o burburinho no pátio, o prédio vazio. Menina má. A mesa. A mão. Os cuidados simplesmente esquecidos. Boa menina. Nascida de um delírio muito anterior. Está à vontade. Não se sente minimamente usada. O som se repete. Dedos escapam pelo sulco. É quase uma carícia que se dilui no arrepio. Há uma forma de escapar do castigo. No depósito dos produtos de limpeza. Lá ela saberá o que fazer


embora o professor precise continuar dando ordens. Desabotoe, tire, vire. Melhor assim. Pode então abreviar o desfecho e quando se aproxima do tecido inequívoco Delano não tem mais o que dizer. Ela sabe o que fazer. Sempre leva a melhor contra as amigas. O primo de Keshia uma cobaia feliz. Desde aquele dia Delano a teme muito mais do que deseja. Nos dias seguintes ela sonhou. O gosto do professor nem assim desarmado. A lousa cresce diante dela. Inclinada. Marcada. Ele a segura e é quente quando lança de si dentro dela e ela estremecendo boceja. Michele não se envergonhava. Dava graças por ter um lar e não ser maltratada como tantas meninas de Celba sem chance sequer de brincarem de médico, já nas ruas atendendo a anúncios. Trocadas por droga quando não por comida. Essencialmente era isso mesmo: seu mundo lúdico era a perversidade real do mundo delas. Violentadas por autoridades e


caminhoneiros, viciadas em crack, grávidas, mortas. Michele sabia se defender. Liana escorria pela toalha, os vira de longe. Tinha certo orgulho de Michele, a menina que Liana mesma fora um dia. O professor passou. O céu se abrira. As primaveras estavam mais e mais vivas. O mundo estava vivo. Gerard deteve-se nas meninas que passando arquejavam no falar ininterrupto. Doces anátemas. Carne de agouro. De perfil sonhador a primeira tem os cabelos presos e enormes brincos. A blusa tom sobre tom em pouco tecido. Nuvens passam e continuam a passar. Quando o luar incide sobre a pele da segunda uma tonalidade mais escura mas leitosa surge do meio do decote prometendo sacrifícios. Longos cabelos negros entornam a terceira na cena. Um vestido preto de alças largas obriga à sedução sem permitir que a criança seja de todo abandonada. Ela nada sabe. Deve ser mesmo coisa da moda. Quando caminham as pernas próximas se juntam, gambeteiam. Destacandose reinou a presença de Michele captada no limite do


pudor sob a lua no desenho da boca e dos olhos escuros. Gerard quis notar certa semelhança mas não, nada que se comparasse. Na mulher havia mais que elasticidade, mais que plasticidade e tono. Havia experiência, equilíbrio, entrega. Um movimento no sentido da dor, do desejo e da privação. Da idade e do renascimento. Os olhos pousados em Michele. Passa uma freira e chega uma canção. Imaterializa-se na melodia. Nos anos futuros, quando pensar em como a conheceu, a canção terá a interpretação dos acontecimentos. Insistirá a lembrança da festa na casa do melhor amigo, o filho do embaixador. Então sim a semelhança será inexorável.

Esquece a balbúrdia que no primeiro dia na vila lhe roubara a paz. Não quer mais paz. Adolescentes têm virtudes e defeitos como todos e entre as virtudes a naturalidade em relação a todas as coisas sem apologia ou discriminação. A praia não estava decerto


propícia à contemplação das estrelas ou ao banho de mar. Vacilou. Depois decidido desceu. A chuva miúda só era visível na lâmpada dos postes. O bramido do mar se intensificava com a cheia que chegava quase na calçada reduzindo a nada a faixa usufruível de areia. Os garotos eram gente boa, estavam apenas confusos. Quem não está? Oi, cumprimenta. Aproxima-se. Pergunta se pode passar no cigarro que era partilhado. Eles disseram que tudo bem, chegasse mais.

Michele estava sentada nos calcanhares. As ondas nos joelhos. Anunciação tensa de um ciclo. Os pelos oxigenados ornam a grossurinha de coxas. Gerard segura a fumaça. Não deve permanecer mais que o necessário. Nunca se sente à vontade. Se o tempo passa e as coisas mudam, algo permanece. Como um velho que louva um artista agora no ostracismo. Devia subir e esperar nova mensagem de Silvia mas a conversa com a galera é real, cheia de vida. A


jovem pergunta seu nome. Ele responde e devolve a pergunta. Ela responde. Sorriram. Conversam. Há nas cidades uma migração interna para os bairros da moda, e como são feios os bairros da moda! Agora com os prédios históricos ameaçados será triste o fim de capitais como São Braico. Não demora aqui mesmo em Celba tudo será apartamentos. O passo da menina é lento. Possível ouvir a chuva. George procura Rose pela casa. Viu onde deixei as chaves? Estão sozinhos; ele a empurra para o quarto. Pede desculpas pelo que disse sobre o pai dela; jura que a ama. Seria diferente com outro? Tudo é sempre igual com homens. Tudo se repete. Coisa horrível, né? Keshia sorri sem alegria. Desumano o agrupamento demográfico, a poluição. Gerard concorda. E a solidão, a solidão das cidades. Silvia já está online. Que barulhinho irritante, resmunga um hóspede. O hotel é um exemplo do que dizem. A desproporção das escalas. Keshia diz que queria ser arquiteta. Bem, tem todo o tempo e oportunidade para isso sim, mas não sabe que tipo de


arquiteto existirá quando ela for adulta. Gerard tem dúvida. O homem está preparado para os mundos abertos pelo computador? Tecnologia de ponta supõe pessoas de ponta. Devia ser produzida uma nova consciência por causa do mundo conectado: um novo tipo de arte de quem os precursores eram aqueles que postavam as próprias obras para o mundo sem intermediários. A literatura sem editores não era algo revolucionário? Sim. Deveria. Mas não. O mundo é o mesmo e mesmíssima a consciência dele. Apenas há conexão e informação. Seu suposto poder morre na iniqüidade humana. Aos poucos se afastam do resto do grupo. Ela pinga colírio e oferece. Ele agradece e devolve o frasco. Direitos autorais, jornalismo, o mundo do emprego – o futuro é imprevisível por causa da internet. Keshia se lembra de uma coisa. Só há um cybercafé em Celba. Quem sabe seja um bom sinal. Que a vila ainda tardaria a chegar ao desumano progresso de São Braico. Não é mais questão de classe


social. Todos têm suas sentenças.

Ele podia imaginar quem ela encontrara num ônibus em São Braico? Keshia, sem esperar resposta: a própria princesa. De ônibus, imagine. Indo trabalhar. Faz-se silêncio e depois sorrindo ao olhá-la Gerard diz que ela é uma menina madura. Imagine. Apenas leio os jornais de domingo. Sim gostava do que qualquer jovenzinha normal costuma. De dançar e paquerar; estudar e chocolate; de pensar em sexo e projetar o futuro; festinhas e facebook. Blog é outro nome para o diário que Anne Frank consagrara. DVD ainda cinema. Por outro lado a inquietação típica. O desejo de se apaixonar e o medo de ter filhos. De não saber combinar as roupas. De espinhas. Do peso. A vergonha de ser diferente e a ignorância quanto às doenças sexualmente transmissíveis apesar de toda informação. Até mesmo o velho conflito de gerações. Ia onde todas iam. Fazia o que todas faziam. Em casa buscava ter a vida interior da qual fugia na rua e sozinha no quarto


chegava a meditar. Gerard a olhou mais demoradamente quando ela se distraiu com uma mariposa. Uma boa menina. Ao menos parecia. Mas do que realmente gostava? o que a emocionava? Ah. Adoro música e pintura. Minha mãe é pianista e estou começando. A mãe de Michele é pintora, faz quadros lindíssimos. E você? Gerard respira fundo. Era muito ligado em tecnologia, amava computadores, trabalhava com computadores inclusive em casa. Como todos possuía um. Conhecia os perigos. A possibilidade do vício sempre à espreita. Keshia perguntou quantos anos ele tinha, sabe Deus devido a que tipo de associação. Vinte e nove. Gerard tinha 34. E ela? Dezenove. Keshia tinha 17. Sentaram-se à beira-mar. A equipe de reportagem sai da cidade. George no noticiário da noite e no suplemento cultural. Criara uma menina com liberdade e senso de responsabilidade impossível numa cidade grande. O pai de minha melhor amiga apóia a idéia de ela estudar em São Braico. Só ficará contra quando


souber que Michele se hospedou com Silvia. Puta que o pariu! Na casa daquela vadia? Que tipo de mãe era a senhora Lens afinal? Silvia é uma mulher de bem, responsável, temente a Deus. As mulheres da Zona Vermelha também. Isso George deve saber bem o quanto. Ele próprio no jornal de domingo promoverá a gratidão ao Senhor – louvado seja eternamente – por nunca ter Ele deixado de o inspirar: Deus e George numa parceria perfeita. Keshia conta a Gerard como o pai de sua amiga pregava a beleza da serenidade e do amor tanto nas suas obras como nas que aceitava bancar como editor. Pela casa que tem – pensaria diante do jornaleiro – deve ter um excelente faro para a literatura. Keshia não gostava de ler. Domingo Gerard comprará o jornal. Na foto da matéria o homem moreno e entroncado vestido de modo simples, jeans e camiseta. Nenhuma garrafa visível. Estava com o braço apoiado na mureta da varandinha. Ali, quando estendia a rede porque sozinha, a senhora Lens se acomodava no linhão como numa placenta.


Um dia te levo lá, Gerard. O monte domina a paisagem na neblina, a praia noturna. Quase madrugada. O tempo se firmara sem abrir. Procuram em vão uma estrela na fumaça. As plenitudes de Gerard e Keshia comungam. Seria bom que a gente fosse assim toda hora, sem efeito. As mãos se tocam. Os dedos sentem-se e um pelo outro a paisagem noturna. Keshia suspirou inaudível. A Michele é uma boa amiga. A Michele está de olho em você. A Michele? nem percebi. A Michele lembra mesmo alguém. Ela tem essa tendência, sabe, de se interessar por rapazes bem mais velhos. Isso hoje é um problema sério. As meninas que querem se provar, saber seus limites. Se podem mesmo conquistar um homem. Ou pela estabilidade financeira, pelo carro, para não terem de depender da mesada dos pais. Mas será crime para eles. Suspirou novamente. Seus seios adultos. Gerard não deixará que ela concilie o sono naquela noite, como o grilo para quem já está insone. Michele se reaproximando. Diz “Gerald”. Gerard,


corrigiu ele. Ah sim pois é. Gerard. Venha na festinha de meu aniversário. Só não esperasse muita coisa. Era apenas uma reunião para os amigos mais íntimos. Ele se sentia honrado. Elas riram por dentro mas até acharam bonito aquele jeito solene. Nos vemos então amanhã. Meigo o sorriso de Keshia. Afastou-se com Michele. Ah. A casa era em frente ao parque de diversões, a das buganvílias vermelhas. Não tinha como errar. De certa distância Michele quase gritava. É só perguntar pela casa do editor. Todos conhecem. George era de fato conhecido. Poucos gostavam dele mas todos gostavam de dizer que era um velho amigo. Eu não saberia dizer se é possível aqui incluir uma ou outra mulher com tendências masoquistas, pensou Joana. Estava três quilos mais magra, as olheiras enegreciam hora a hora, envelhecia um ou dois anos cada mês. Não ainda a que Gerard conheceria mas ele todavia a achará bonita. Um bom rapaz esse Gerard, o forasteiro. Conhecido de todos, a lisonja chegava em George fragmentada e se unia


dentro dele feita vaidade. Então como pode uma mulher da vida demonstrar esse desprezo? Como todas, naturalmente gosta mesmo é disso, de ser fodida e apanhar de seu homem; mas vão sempre fingir que não, que são santas desviadas. A maior razão de sua antipatia em relação a Gerard não terá a ver com sua mulher mas com essa fama. Ele entra em sua casa e não demonstra reverência. Nem poderia. Estava olhando algum detalhe do vestido de Michele quando ela falou do pai. Mas isso se dará no dia seguinte. Agora George bebe a terceira dose enquanto faz contas e pesquisa na internet. Retorna ao Google para atualizar as suas citações. E nem mencionam o grande amante. Rose sucumbira depressa e não é para qualquer um fazer com que uma prostituta se apaixone. Claro que estava apaixonada desde o primeiro encontro. E nem conhecia ainda seus truques viris que levam as mulheres a implorarem mais, tudo, ou piedade.


Não perguntará pela casa de ninguém, decide Gerard. Sairá cedo e descobrirá sozinho. Aproveita assim e conhece a vila. A cadência do mar envolvia todos no abraço da noite. Volta para a pousada. Deitase. Ainda rolava de um lado para outro quando amanheceu.

Todas as coisas amanheceram ensombradas. Com que forças levantará? com que energia fará qualquer coisa? Não sabe se é desespero ou só consciência. Tudo. Até a ausência de George é mais presente que qualquer outra coisa ao redor. Desde que ele quase nunca está em casa, que anda com outras sem fingir inocência – ultimamente com essa talzinha –, a senhora Lens não tinha desejo senão definhar como definhava. Apenas mais rápido sim podia ser mais depressa. Não raro Joana caminhava pelo quarto à noite e pensava o quanto tinha piorado. Está abrindo gavetas, procurando um bibelô ou a poesia marcada pela pétala entre as páginas.


Não o gozo de um paraíso póstumo mas apenas a janela e a brisa da manhã. Gerard apertou os olhos enquanto se encolhia debaixo das cobertas. Conforme despertava o universo ia se renovando na consciência da hora em que estaria na casa de Michele. Uma menina atraente. Simpática nem tanto. Mas a simpatia de Keshia os faria irmãos como costuma acontecer. Ela não teria desejado isso. Sabe porém o quanto Michele sempre leva a melhor com os rapazes. Estava mesmo engordando e não sabia mais o que fazer a respeito. A senhora Lens costumava dizer “ Não Keshia, imagine, você está linda” – mas a senhora Lens é uma pessoa extraordinariamente gentil. Não dá pra acreditar em tudo o que diz com seu belo sorriso nos lábios. Gerard pensa que o sorriso de Michele sem dúvida lembra alguém. Para Rose, que fará dele apenas um motivo, não importará que idade tenha agora ou daqui a quinze anos. Sublimação. Por isso começou a pintar. Não imaginara chegar tão longe com a pintura ou o


amor. Imaginou o solene desdém com que Silvia trataria esse tipo de relacionamento. Amava Silvia. Admirava-a. Seu coração sentiu-se feliz quando ela ligou. Alegrouse por sua disposição de ir a Celba. Era bom conversar com ela. Mas cumpria guardar segredo. Aliás não estava certa se já não tocara no assunto ao telefone. Sua memória começa a causar preocupação. Louca! Quem dera. Consolar-se na alienação. Leite! Olha o leiteiro! Silvia tinha uma memória privilegiada, pensou enquanto abria a porta e sentiu o volume fresco e luminoso, pesado. O homem apenas um vulto. Obrigado, Sr. Matias! Bom dia! Depois de anos, pela primeira vez o atendia de camisola. Na curva do rio as arvores filtram o dia. O que a senhora Lens faria com uma memória privilegiada? Quando colocou o leite na mureta da varanda, estava chuviscando e Gerard caminhava na luminosidade baça da manhã. Bom dia, disse Cronelin. Keshia e Michele na mente mas também a possibilidade de jogar com


um dos rapazes. Precisa mesmo de um parceiro de xadrez. Contra o computador ficou enfadonho. Pensando assim deparou com a casa. Dentro daqueles muros, talvez penteando os cabelos naquela janela acessa, estava Michele. O que exatamente ela significava para ele? Não sabia. Sabe Deus. Uma coisa sabe: não supõe futuro. Também sem passado, Michele representava possivelmente o universo púbere em que se daria seu renascimento. Onde sentiria as coisas com um coração novo. Mas logo duvida que algum ser humano possa realmente mudar e se pergunta se as coisas novas não são apenas novas faces das antigas. O mar o mar o mar. As buganvílias nas paredes. O que dele a ocultava dele era uma atmosfera feérica luzindo no cacho das flores, nos pardais subindo após se banharem na areia – isso os separava – os galhos verdes que no balanço modificavam a casa de segundo em segundo. Isso é o que há de novo: os ventos trazem todos os aromas menos o do inevitável desfecho.


A aproximação de um homem que não se conhecia. Gerard. Muito perto, as cascas da pintura descascada soltam-se escuras do muro branco. Recortam-se as plantinhas. Ele ainda sou eu, em que medida? Se imaginar que não chegou aqui, saberá, se pensar que é ainda o bancário e portanto não conhece nem Michele, nem Keshia nem jamais viu aquela mulher, jamais terá estado diante dessa casa, se pensar assim, se imaginar o que era antes de vir para Celba, saberá o que ganhou e o que perdeu, e se existe ou não algo realmente novo que valha a pena. Jamais viu igualmente essas flores vivíssimas aparentemente tão simples pois estão em toda parte mas tão diferentes de todas as flores que já vira.

As plantas adoram a chuva e amando as plantas a senhora Lens amava a chuva que dava-lhes colorações de peculiaridades discerníveis, como pessoas, como ela própria, verdejando também. Atendidas as suas


orações o tempo chuvoso afastou as crianças que patinavam na calçada em frente à casa arrancando as flores em meio ao barulho enlouquecedor. A deliciosa mulher do editor costuma ter dor de cabeça, tadinha. Eu sei o remédio que ela precisa . Por outro lado, na chuva a praia se tornava cinzenta e feia. Impedia o banho livre das algas se pegando nas pernas, que coisa desagradável, sobretudo para quem está acostumada a nadar em transparência turquesa. Essa chuva, por miúda que seja, quando contínua, atrapalha a simples saída de casa pelas vias de terra enlameadas. Ruas que se pegavam aos pés e advertiam quanto ao vexame de um tombo. Mas naquele momento em que a senhora Lens se preparava para sair não chegara a esse ponto. É uma chuva adulta. Coloca a senhora Lens no colo. Miudinha mas senhora de si. Seu som seguia um percurso suave como o regato de Celba no outono. De longe o adivinha o forasteiro. Que é isso? Gerard acorda no ônibus. Agora está ali diante da casa na perspectiva de rever as meninas, descanse, tudo


está bem, tudo vai ficar bem. Em sua memória a navegação de duas noites atrás nas águas escuras onde o Chiasmodon espalha terror, as trevas infinitas onde passeia sua beleza apavorante o rubro Saggitae. O fim do caminho para baixo, pensa. O silencio eterno dos abismos.

O coração da senhora Lens se iluminou na escuridão daquele amanhecer. No espelho se viu sensual, pronta para incendiar algum coração jovem. A canga sobre a calcinha. A pessoas falariam, falariam de qualquer forma, que falassem, pelo menos se sentisse ela confortável. Daquele jeito sentiu-se bem e ostentou um olhar feliz e voluptuoso. A gata acaba de amamentar os filhotes na varanda. Pega a chave para sair. Está realmente alegre porque irá reencontrar Silvia. São dias tão difíceis. Chuvosos e com novas chuvas previstas. A amiga afirma, embora tenha feito uma pergunta, com que então ela andava sonhando. É um mal?


Quem sabe? Não existe um meio de se avaliar. Bem, me aguarde , dissera Silvia. A imagem some. A chuva é tudo. Os pés no barro deslizando.

Gerard devia deixar de lado a idéia de procurar a mulher. num lugar assim acabarão se encontrando mais cedo ou mais tarde. Mas viveria ela ali? Então o pensamento. Uma associação, uma idéia, só isso. Caminhando, sentiu as pernas cansadas de algum esforço de que não se lembrava. Estava mesmo perdendo aquele vigor irrefutável da juventude. Que é isso! Nem trinta e seis anos! Linda a cor dessa rosa em meio aos espinhos da primavera. Viu a janela iluminada no sobrado. George escuta os passos da filha no quarto de cima. Sobre o que você queria tanto falar, Michele? About men . Keshia achava bonito e um pouco sem noção essa mania de respostas em inglês. Outra razão para se orgulhar quando confundiam sua voz com a de Michele. Gerard, se não podia ouvir os movimentos da menina, vê-la subitamente sim.


Primeiro a silhueta. Depois o corpo pequenino despido em tom sobre tom, luzente nos ombros. Ela desliga o telefone e chega ao parapeito. Nem pudera dormir, pensando naquele rapaz, comparando-o a seus amigos. Ajoelha-se à janela. Saberá ele também o que fazer? Gostaria de uma outra iniciação. Gerard: um nome diferente. Expressão terna e paterna. Vê apenas meninas, ao contrário do professor e outros homens, sempre e sempre, inclusive seu pai. Olhares indiscretos para uma mulher que supostamente brotara de seu corpo. Agradavam-na esses olhares. Mas, se sabe como sente uma mulher, isso não significa que seja uma.

Por que Keshia estava tão feliz quando desligou o telefone? Escreveu em seu blog: Esse Gerard é uma gracinha e um fofo. Os olhos dele lembram os olhos de um cachorro que eu tive quando era criança. O amor é lindo. Puxou o papel do envelope que estava colado na folha anterior. Michele eu gosto mto de vc


perdoe c um dia t magoei vc é mto legal e uma gracinha e eu te amo d+ . Ah. Por que Michele era tão má com ela? Ao lado da assinatura redonda, desenhada, havia em caneta verde o desenho de um rosto chorando.

Portão dos fundos de uma casa distante o bastante do centro para não estar próxima à agitação da temporada e não distante demais que não fosse possível ir a pé comprar coisas. Tintas, por exemplo. Luz do meio-dia discernível através das nuvens. Silêncio nas sinuosas ruas de terra batida. A sobremesa do almoço de Michele, um creme de papaia. Que alegria ao deparar o mar! Alguém diz que a menina está seguindo os passos da mãe. Dá pra perceber. Todo mundo verá isso não demorará muito. A senhora Lens tira o vestidinho pela cabeça e entra na água. O mar quebra na praia cinzenta. Gerard parado em frente ao portão. Casas o intimidam: prefere a discrição dos prédios de apartamentos. A


barra da calça molhada pesa, incômoda. Dobrou o debrum e tonteou ao se repor ereto. Vinham na sua direção as apanhadoras de conchas. Viu que corpo horrível? Se acha muito gostosa mas tá cheia de celulite. A senhora Lens mergulhou, saiu, pôs o vestido e recomeçou a caminhar no sentido da pousada, sempre na esperança de ver aquele a quem desejava conhecer. Sabia que mesmo que esse desejo não se realizasse, ainda que não o visse agora ou num sentido mais amplo não chegasse a amá-lo verdadeiramente, nada disso apagaria o prazer de sua espera. Passou pela pousada. Procurou-o pela aglomeração formada em torno do telefone. Jovens agindo como jovens. Em nenhum o porte austero. Ele usava óculos? O vestidinho de novo é tirado e na água ela começa agora a nadar em direção ao fundo. Uma braçada. Outra. Daqui dá para ver caso apareça.

Ele está na frente da casa da senhora Lens, mas decidido a voltar ao centro. Quanta vida a timidez


impede! Um lugar assim plano e sem trânsito é o que sempre desejara. Vamos combinar que por isso não bateu na porta embora tanto quisesse entrar. Michele disse almoço mesmo? ou lanche? Ou simplesmente festa? Enfim. Voltaria de bicicleta. Sinto-me vazio, pensou. A aura da descida. Não era tímido, como poderia ser com a vida que levava? Mas bipolar, isso era possível. Em volta tenebroso deserto. Por quê? As coisas estavam indo muito bem. Deveria estar feliz. Mas não. Tudo perde a cor. Você está só. As pessoas em quem confiava já não existem. Nada de fato existe.

A senhora Lens nadou e nadou, inutilmente atenta. Sabia Silvia estava certa. Precisava se separar imediatamente. Por que não o fazia, sem nunca deixar de pensar em fazê-lo, era uma questão que se colocava para milhares e milhares de mulheres no mundo – longe de ser consolo isso a incomodava. Desistiu de ver de novo o rapaz. Na imaginação as coisas estão mais seguras. Não o mar mas um livro nas


mãos. Crédito ou débito, senhor? Caminhos de Celba. Mãos que apertam as próprias coxas na saída das águas. Outras, veias altas, orientam a bicicleta. Alumínio e titânio, carne e sangue. Após o posto de Saúde será o Beco das Cores, praticamente a casa de Michele. Em frente à casa. Quem dera a mulher tivesse horários habituais. Frustrada, ela retorna. Essas calêndulas logo darão sementes. Oi! Já chegou! Cedo, parecia. Não, imagina, tudo bem, assim haverá mais tempo pra gente se conhecer. Ele sentiu alívio ao ver chegarem outras meninas de bicicleta, Keshia entre elas. Alguns rapazes depois, espinhas no rosto e corpos fortes, sovados. Provavelmente suas fotos no messenger são sem camisa. Surfistas. Chegados diretos de uma outra vida. Quis se aproximar da menina, quem sabe fazer dela confidente, sentir-se mais próximo, fazer parte da turma. Na prática é impossível, ele sabe. Mas insiste. Fez uma introdução que serviria a qualquer coisa que


viesse a dizer. – Eu acho... Nunca saberemos. A mesma resposta para a mesma pergunta e todavia é como se fossem novos questionamentos. Vislumbrou o segredo ao vislumbrar a mulher.

Se aproxima sem que ele a reconheça. Para colher a rosa mais bela, sacrificará jardins. Renunciará a caminhos conhecidos. Não sabemos a que mundo pertencemos: a este em que se vive ou ao no coração ignoto. Esperança e saudade são as duas faces com que se caminha em direção ao desenlace. Caminha e contempla. As pessoas, as casas, os gestos, o mar, os olhares, as montanhas, os rostos, as ravinas, os vales. Alegrias e tristezas. Sem saber se valeu a pena. Devia considerar que se não se expusesse agora a temporada passaria, o trabalho passaria, talvez a vida passasse e ele iria continuar na busca de sentido e amor em relacionamentos com pessoas que desejavam mais da


sua companhia que por temores inexplicáveis ele recusava. Assim em sua cidade natal e na metrópole anterior sob as janelas sussurrando em devaneios? Tímido e inseguro. O amor que agora nutre pela mulher da praia é um voto de castidade mais que uma fuga. Quando Michele o chamara minutos antes não hesitou em se aproximar mas agora, com a presença de outras meninas que anunciou a de rapazes, sentiuse desconfortável. Juventude plena estampada em todos. O casal tem uma malemolência desleixada e confiante. Aproxima-se do grupo.

Pena que o mar tava tão pequeno e claudiado. E aí, Michele? ia pegar onda depois do almoço? Tava pensando em ir sim, lá no Lagar. Oi, Fantarello! E aí? Grande Michele! Como ela se sentia com dezesseis? Mais velha. Estava linda, disse Keshia. Michele sorriu e virando-se cumprimentou o recém-chegado. Oi, Richard. Oi. Beijinhos. Feliz aniversário. E aí, muita


onda? Para uma bodyboarder como ela sempre tem. Vocês é que são felizes, bodyboarders, diz Fantarello. Porém felicidade não é uma onda e se permite relancear os olhos pelo decote da menina. Felicidade é morar em Celba. O quê? Sarah estava brincando naturalmente. Gargalhadas. Um movimento redondo move o saiote para os lados e Gerard desviou o olhar como que surpreendido. A mão boba toca-a, encosta e se recolhe. O que estou fazendo aqui? pensa Gerard. Seu tempo passara.

Resumo de tudo: Michele sabia que Delano era igual a todos. Se é assim, devia fantasiar. Perder essa energia só com alguém que valha a pena. Gerard talvez. Apenas talvez. Ali está ele. Ela nem se preocupa em disfarçar, pensa Keshia. Meninos e meninas. Adão e Eva. E se à praia se segue o monte do alto, uma visão inversa mantém a metamorfose das perspectivas. Queria estar lá um dia, pensa Gerard ao


entrar à noite na pousada. O gerente, olhando para todos os lados, de passagem recomenda que aquele problema com o terceiro terminal seja logo resolvido. Não se preocupe senhor, é caso para cinco minutos. Um erro 210, uma tecla presa, não acontece também com as pessoas? Mas o que me importa o que seja? Conserte. Não é tão simples assim pois não há teclado de reserva no almoxarifado. Ah darei um jeito. Ele não precisa saber. Se não me engano, vi teclados sem uso numa estante da casa de Michele. Delano a havia presenteado na época em que a idéia era cativa-la de qualquer forma. O babaca. Todo homem é igual. Inclusive o pai dela. Keshia pensa o mesmo mas jamais diria isso na cara. Tinha medo. De perder a amiga, de perder as perspectivas das tardes no casarão, até mesmo de ser injusta. Sente o toque da mão de Fantarello. Claro que pode ter sido casual. E quem acreditaria se eu dissesse, eu, a gorda? Ele observou-a

durante o tempo em que decidiu a seguir pois gostava daquele tipo de menina, cheinha. Há onde pegar,


como dizem. Seu sorriso era todavia tenso quando se pôs a caminhar. Alguma coisa não batia. Não era uma excitação de prazer mas de medo. Enxurrada dum terremoto profundo que quanto mais era ele mais ele desconhecia. O mar turquesa perdera de há muito sua placidez. Nada além dum fogo inextinguível nos célebres amanheceres de Celba. A árvore tremula ao vento quando ela passa. As ruazinhas estreitas parecem estranhas conquanto ali houvesse nascido. Na casa amarela ela entra, não é ali a casa do professor? Não é a diretora quem de vez em quando está ali podando flores com uma luva amarela? Não entendo direito, pensa Keshia. Deixar o celular ligado na aula e ele tocar é uma falta assim tão grave? Além do mais, que tipo é esse de castigo? Lembrava ainda de Delano sentado na guarda de sua cama, com não só a permissão da mãe dela, doente, para estar ali mas sua aprovação até, dizia, para um futuro compromisso entre vocês. Mãe, que absurdo, ele é muito mais velho e sequer sabe que existo. Esteve ali apenas pelo


interesse profissional no desenvolvimento de uma aluna. Se bem que, agora se lembra, ele se aproximou além do necessário, por trás da cadeira à escrivaninha, para ajudá-la com a equação. Chegou a sentir a respiração quente em sua nuca, e sentiu mais que isso, e não mais sentiu quanto a motivações por estar preocupada demais com suas próprias culpas. Se sua mãe soubesse o quanto ela não era merecedora das honrarias que ele sonhava para ela! Precisa ser quando chegar a hora inevitável em que o avô terá a sua guarda. Eduardo a vê entrar na casa, aparentava uma mocinha tão ingênua, com suas tiaras e flores nos cabelos, não tem jeito, são todas iguais. Dá uma última olhada nas acentuadas curvas de seu corpo triste, cuja pele cheira a café às vezes e noutras asfalto molhado. Não fosse o acaso do trem, quem sabe nunca mais a veria a sós. Teria sido melhor. Se ainda fosse por desejo sincero de mim, pensa ela. Não daquele jeito. Ah se Sarah afrouxasse a pressão com que mantém homens e meninos presos a seu redor.


Quando se fará a luz? Eu quase vejo o amanhecer lá do alto. Parece mais que um efeito. Quer que a vila, que a vida se mantenha a seus olhos. Pudesse a senhora Lens pintar lá de cima sem precisar ir da maneira mesma como é capaz de amar sem tocar. Ele sabe. A noite se aproxima. O ruído da cidade retém a todos num amálgama. Consciências na noite uma se tornam como a partilha dos mares à direita e à esquerda das braçadas, como um lado e outro da árvore que o ultimo toque de tinta definiu. É seu tema: viver é o sentido da vida. Ele escuta e quer escutar mais mas o barulho desconcentra. Esse mesmo que une – a vida é assim, desmesurada nas limitações de seu tamanho real; eterna nos motivos mais prosaicos de cada um. É preciso que exista aqui um sacrifício do qual independa a moral da história, é preciso um bom uso do que de bom se inventou, é preciso que algo que não deu certo promova a saga perfeita. Uma eternidade que só se constrói no efêmero, como esse quadro, pensa a senhora Lens. Como esse amor. Como


a ave ardendo até se extinguir e renascer. Como o dia de uma rosa.

Michele está falando. Ainda bem que vou estudar em São Braico no ano que vem . É que ela tinha ficado muito sofisticada para uma vila de pescadores, replica alguém. Gerard se viu no pai dela. Não deveria ser tão mais velho. Compartilharia decerto certas vivências. Quem sabe gostasse de xadrez. Pensava a respeito quando a viu...

Ao caminhar por aquele pequeno trecho, arrebatou mundos para que lhe servissem de passarela. Estremeceram. A respiração em suspenso, como se suas próprias vidas o estivessem. Oi, senhora Lens! O cumprimento de Keshia repercute em Gerard. Poder da noite, das cigarras e morcegos com o alívio da angústia que se dissipa sem que se perceba. As linhas dos muros são alvíssimas da luz que o meio-dia anunciava. Toca e toca o beija-flor seu bebedouro


vermelho. Ele lhe lança um olhar extinto. Grossura de lábios laboriosamente rubra de zínias. Agora. Vai falar. Ele quase tonteia. Oi, meninas! Silenciosos os passos leves mal tocam o passeio sinuoso. Sol a pino e a seminua divindade ao longo de sonhos que se confundem com a grama e o mar além. O que ainda esperar do amor? Pernas fortes, cintura fina, quadris largos – agora quase seus. O olhar de Gerard não contém dúvida. Que mais esperar do amor? Contudo, era casada. Oh ainda nem começara a fazer o almoço. Michele não tenta esconder o aborrecimento com a negligência da mãe. Mas ele a perdoa; ele a compreende. Perdoaria sempre, sempre a compreenderia. Que pensamentos são esses que não busco mas coleciono agora como quem compara artista com artista para encontrar um tom para a própria arte? O pai de Michele, de novo. Não era mais o parceiro de xadrez. Se fosse vivo, era o rival. O tecido da cadeira torna-se áspero sob ele. A janela e o sol. Quem sabe fosse viúva, talvez divorciada.


– Meu pai chegou. Está uma fera com você, e com razão. A senhora Lens tomava as próprias decisões. A filha teria de se acostumar com isso. Seu problema Michele é que você fica tempo demais sem fazer nada; ocupar-se é tudo. A coxa da mulher lampeja neste momento. Quando se está ocioso há tempo para cuidar da vida dos outros. Mas a senhora Lens era a mãe dela, não “outros”. De repente, se lembrava. Quem dera se lembrasse todo o tempo; quem dera a respeitasse. Era a mãe. Mais uma razão para Michele não falar desse jeito, sobretudo na frente dos amigos. Era ele um amigo dela? Mas como? Não faz sentido. Parecia tão sóbrio, centrado, respeitador, generoso... Keshia interrompe: Senhora Lens, esse é o Gerard. É claro que era ele. Não poderia estar enganada. A postura ereta, a luminosidade, santo no deserto. Um amigo das meninas então? Um pervertido? Há tanto desse tipo hoje em dia, homens feitos que só andam com adolescentes. Aí dizem que amam uma dentre


elas quando o inevitável acontece. Ou é que Michele mesmo tão nova é bem mais madura que moças da idade deles? Ora, sabe-se a maturidade que querem... Não, ele não. Não com aquele olhar gentil e tímido sem subserviência. Onde terminará esse rio volumoso senão em você ainda que seja em meus quadros? Desconhecia esse poder sensual, o de capacitar. O aperto da mão da mulher permaneceu na mão de Gerard, sino que continua vibrando. Confessa o que não deveria ser confessado. Demonstra perplexidade com a coincidência. As consciências arrebatadas, as musicas lentas que deixariam de dançar, o banho de mar a dois, as viagens, a emoção erótica, o carinho, a amizade – tudo estava no contato das mãos e após. A arte é o motivo. Se amor, platônico. Um dia, não saberia a senhora Lens dizer quando, haveria de buscar sua presença ao lado da filha. Afortunada pelo privilégio de ser jovem, solteira, por tê-lo a seu lado. Pelas infinitas possibilidades de futuro.


Ele a perdoará por tê-lo usado assim. Por fugir do atrevimento dos impulsos negando-se exceto para a contemplação. Não lhe concedendo o cumprimento da promessa – negando-lhe o regaço por restringi-lo à imaginação e recusar um prazer mais pleno que aquele contato casto. Um dia se lembrará de um rapaz que amou sem esperanças e justamente por essa impossibilidade amou como jamais. Gerard era naquele tempo um rapaz cuja timidez com as mulheres só era menor que o desejo delas, amar estava além de sua capacidade. Só conseguia amar o que não conhecia. Uma forma de se manter só e viver o que acreditava ser a verdadeira vida, de alguma forma estranha ligada aos computadores. Seu amor equilibra-se sobre fraquezas, sofre as vaidades, torna-se virtuoso. As poucas grandes revelações da vida vinham em retrospecto. Tanto amava a evocação quanto a perspectiva mais que a experiência. Um solitário. As coisas mudaram. O que deveria fazer? Entregar-se a alguém


daquela forma? Entregar-se ao amor que nascia proibido pela sentença de Michele, “ Meu pai já chegou”? A senhora Lens permite-se um olhar de esguelha. É um homem bonito. Nem tanto mas muito simpático. Veste jeans e uma blusa azul clara de malha. Ninguém ali ainda sabe mas não costuma usar outro tipo de roupa. Há uma sombra sob seus olhos e luz em seu sorriso. O meio-dia não é mais opressor porque recebe as suaves luzes crepusculares que agora habitam o mundo interior de Gerard. Na janela a vegetação às margens do rio provocam um efeito quente de saturação que as vivifica como costumava acontecer nos quadros da senhora Lens. Olá, muito prazer – diz ela. Como quem diz uma coisa qualquer a qualquer pessoa. Você é daqui de Celba? Gerard sente-se desnudado. Entregar-se seria descer aos tristes abismos do adultério, que jamais o atraíram; semelhante culto, não só ao vício mas à estupidez, era coisa de literatura – o que em nada seria alterado pela


consumação ou não da vontade proibida. O sentimento de Gerard está ligado à sua própria solidão mais do que a alguma possibilidade de ficarem juntos ou mesmo estarem juntos por um único momento. Ao saber que a mulher estava tão próxima, apegada à sua nova vida em Celba, ele passou a pensar como superaria aquela situação real, pois se preparara para viver uma fantasia. A grama que antecedia a cerca era rala e o orvalho pouco a beneficia. Ali pisara a senhora Lens antes de entrar. Sabe ela que a espera exigência de uma satisfação mas está feliz por sua falha como esposa e mãe ao se atrasar. Mas o que é isso? Agora o vê. Recorda–se de como ficou paralisada e por uma eternidade esteve com a respiração suspensa. É assim a proximidade da morte. Algo assim a morte ela mesma. O que é isso? Que tipo de êxtase? E vontade de dançar. Tocada. Tocada por esse sentimento. Será passageiro? E se permanecer? Foi um momento de angústia ainda que angústia em meio aquele transporte não seja uma boa definição. Agora o vê. Ao


longe ronca a tempestade. No trovão uma palavra pesada. Prazer. E agora? Muito prazer. George Lens pergunta onde a senhora Lens estivera, se é que não a incomoda em perguntar. Ela responde que o melhor lugar para se estar num dia lindo como aquele era naturalmente a praia e não, pensou, sentado aí como você nesse sofá encardido sempre atrás de jornais que citem seu nome. Ele bem precisava ir também de vez em quando, diz ela olhando na foto da primeira página um homem que não conheceu quando o conheceu nem estava com ela quando se casou. O charuto recende por toda a sala. A senhora Lens tossiu. Talvez estivesse ela querendo se convencer da coisa suavemente insinuada; suavemente demais, talvez. Não há de ser que todo rapaz dessa idade mantenha um olhar assim? Simplesmente se esquecera de como era George naquela idade? Da cozinha, a voz que ainda ouvia perturbou a senhora Lens. E o almoço de Michele? Ela caminhou até a pia. Michele não sentirá fome tão cedo, está entretida com as amigas.


Mas o próprio George estava com fome. Ah. Perturbou-se porque não era a voz de um inimigo: era como se sua alma tivesse voado, muito, muito longe – onde estou? George havia desaparecido e surgiu aquele jovem e promissor crítico literário, seu primeiro namorado realmente a sério, que acendeu de modo tal a sensualidade dela a ponto de cometer aquela loucura. A voz se tornou um sussurro de amor que a penetrava assim como na noite da embaixada, de uma forma que não gostaria de experimentar outra vez. Quem é esse George Lens? Mais certamente que um profissional competente e um cidadão respeitado. E ela, quem? Mais naturalmente que a jovem não muito bonita mas que, gostosa, enlouquece os homens e por eles se deixa seduzir tão facilmente. Agora ela o observa. Nos azulejos em frente a pia onde estava apoiada, as mãos na quina úmida. A primeira vez que George teve oportunidade, quando no Natal ficaram a sós na cozinha, ele a tomou, entrando por debaixo da camiseta. Não que fosse uma carícia enlouquecedora,


mas Rose permitiu. Aquele rapaz inteligente e independente a poderia logo levar e ela enfim não teria mais de dar satisfações de tudo aos pais. Quem sabe se estabelecesse por si mesma mais facilmente com a pintura. Se viessem a existir problemas conjugais, teria como sair do casamento com a certeza da subsistência sem depender de pensão. Reconhecida nacionalmente como artista. Ao toque dos lábios de George porém deixa de pensar em qualquer coisa. Entrega-se. Sente-se segura com os pais na sala. Se tiveram de parar naquela noite, fora entretanto um primeiro contato, um contrato de libidos quanto a uma noite futura. A senhora Lens passa as batatas que acabara de descascar para um tigela, junta duas colheres de margarina, uma de fermento e um punhado de farinha de trigo. Havia sido avidamente despida e agora era deitada sobre a cama. A rigidez no meio dela. Obteve a brandura desejada da massa depois de passar de uma para a outra mão e com as duas para o prato. Não tem jeito. Não consegue fazer


o refogado como a mãe. Com George está agora não apenas livre mas de fato apaixonada. Claro que isso é um estado que muda do dia para a noite nas mulheres e será assim. Há reflexos inacreditáveis nas azeitonas e a cor da salsa está viva. A senhora Lens seca as mãos no pano de prato em que jamais terminou aquele bordado, gritando de dor e de prazer. George vira para o canto e dorme.

Deixando a comida em repouso, vai para o chuveiro. Relaxante. Quem pode subsistir com esses nervos? A calcinha sai como se não quisesse mas se rendendo passa pelos mundos fúlgidos de tons e semitons. Gerard estremece e engole em seco. Queria deixar para lá. Era mulher casada e mãe de uma amiga. Mas não podia. Vida sem arbítrio. A luz chega filtrada pelo basculante. Som de pássaros tão perto. Estão tristes. Por que alguém usa uma atiradeira? O corpo do pardal jazia ontem no chão de terra batida, agora está enterrado. A senhora


está mesmo louca , dissera Michele. Fazer velório pra bicho. A voz da filha some na ducha quente. Olha, diz Michele segurando o CD. Conhece este? Não há download que substitua. Ele olha a capa, ouve os primeiros acordes e os gritos do banheiro. Quem, por Deus, pôs “Yesterday” ? A voz da senhora Lens ecoa num tom desconhecido dos convidados. Já disse que não colocassem esse disco! No banho, ameaça levar a mão mas recua. Não sabe o que fazer com essa lembrança de que os Beatles eram agentes. A festa de final de ano, o apagão, as escadas. Diga que estava bêbada se isso a conforta. Poderia ter sido diferente. Ter ao menos um nome para lembrar, um telefone para não precisar apenas lembrar quando se separasse de George. A mão está ali mas não para delícia e sim se proteger. Diz que não. Por favor pare. Mas agora não tem volta. Entra numa região de sombras e prazer. As pernas tremem sob a água. Linda. Gerard a imagina ouvindo de muito longe o chuveiro com ouvidos de tuberculoso. Gotas impetuosas, grossas. Uma ducha


excelente. Tinha de admitir que para esse tipo de coisa George era eficiente. A água escorre pelas suas costas, entre suas coxas. Gerard gostaria de ser essas gotas. Envolto na saudade que não tem um destinatário, volta-se então para o Deus de sua infância antes do catecismo.

Quando era bem jovem, esse tempo passou, Gerard costumava ser arredio a festas. Uma ou outra em tempos que não se podiam mais dizer recentes nem que geraram boas recordações mesmo quando havia alguma satisfação aparente. Agora se deixa levar pelo encantamento desses rituais de olvido. Nada de que deva se jactar quando partir e à sua cabeceira alguém perguntar o que fez de sua vida. Se não era mais assim tão jovem, adquirira a contrapartida de acreditar e sofrer sem revolta. Há uma indício em redor dele. Ali também o zéfiro de seriedade, fidelidade. A aura de um ser digno de confiança. Os ouvidos escutavam mais que o chuveiro: discerniam o


futuro como um átimo de crepúsculo que não se repetirá. Ereto ele olha o céu. Seus braços pendem sem porquê – braços mortos, não podem abraçá-la. Que tolice, pensa. Portanto não deveria se sentir bem. Portanto deveria retomar seus modos. Ser sóbrio, controlar esses sentimentos patéticos. Fora afinal contemplado com a nova vida – por que poria tudo a perder? Na varanda um maiô branco estendido ao lado do vestidinho com que a senhora Lens entrara. A voz de Keshia. Puxa, olha as glicínias que sua mãe plantou! Parecem sinos purpúreos. Milagres. Aquelas mesmas mãos geraram semelhante vida de um vermelho tão vivo sim como o sangue. Não era alguma coisa nova. Mulheres ocupavam uma parte determinante de seus pensamentos. Entretanto agora no silêncio súbito trêmulo como as roupas do varal, exultante como as glicínias, folga em formar os novos homens que dentro dele nasceriam pelo resto de sua vida à sombra da mãe de Michele ornados de risinhos que se perpetuariam como despedidas, como os últimos


acordes de cada movimento das sinfonias.

Que maravilha viver sem vícios, pensou Gerard ouvindo as meninas. A flebite fora um aviso. Ainda no hospital decidiu deixar o trabalho e a cidade grande. Não mais lhe interessava a distância entre o que se diz e o que se é. Invejou os jovens que sequer tiveram tempo de se viciar. Quanto às meninas, eram normais. Espertas, alegres. Toques de ingenuidade que sabem explorar como elas só. Apesar de toda informação, ainda sem malícia; uma tristeza miúda salpicada da limpidez de olhar que se esquecerá. Carentes de afeto, o que é proclamado pelas atitudes de criança que escapam de quando em quando. Keshia paira em incertezas quanto ao que poderia esperar de um relacionamento com alguém tão mais velho como Gerard. E como ficará sua história com Eduardo? Michele aguarda os acontecimentos. Não dependia tanto da fantasia com o universo masculino. Ainda assim gostava de Gerard. Não queria perdê-lo para a


amiga. Iria trabalhar aquela perda como um trauma e odiava gente neurótica. Michele possuía uma beleza calma; sua mãe ao contrário vivia cansada e isso estava escrito em suas feições.

Quando Gerard entrou, a aura da senhora Lens acrescia ao ambiente o verão em seu ser. Ofuscando de luz a primavera das meninas pela sala. Seu toque diário em cada objeto, o contato de ser corpo no sofá, na cadeira, seus olhos sobre os quadros na parede, seus dedos no blue-ray – a existência da senhora Lens na casa depunha nos móveis fragmentos perfumados de sua alma. Bem-aventurança! Gerard sorriu, privilegiado. Mas por que, pensou o senhor Lens, esse idiota está com essa cara abobalhada?

Em seu quarto Michele trocava o vestido de viscose por uma javanesa. Verifica o caimento no espelho. Keshia amarra os cadarços do tênis bege. Diz que tem medo. Medo do quê, Keshia? Não saberia


dizer. Não sabia o que se passava. Medo do mundo. Quando era pequena tinha um amigo invisível. Jamais teve alguém tão amigo. Michele a olha com pena e pergunta se nem o Eduardo. Eduardo era um idiota. Mas gostava de Keshia. Sei, diz ela, do que ele gosta em mim. Normal. Aquele Gerard, ele é um cara de quem Keshia poderia ser amiga e até mais. Sério mas com senso de humor. Não pensava só em sexo. Elas mal o conheciam, lembrou-lhe Michele. E é muito velho para elas. Estamos crescendo, Michele. Os pais dela já haviam notado? Michele se aproxima da janela e olha o céu. E pais notam alguma coisa? Que céu lindo esse de Celba. Mas não o bastante para me prender aqui. Uma nuvem passa e tapa o sol. Michele diz que seu avô notaria. Keshia lembrou e percebeu que também sentia falta do avô de Michele, ele era uma gracinha, uma fofura. O avô de Keshia também. Com esse talento especial. Mas iria a qualquer momento, enfim, droga, como sua mãe, como todo mundo.


Olha, Michele. É pra você. Ah não precisava! Tudo o que Keshia lhe dava era de coração, Michele jamais saberia o quanto. Pára de chorar, vai. Keshia enxuga as lágrimas. Lembra o dia em que a gente se conheceu? Eu te admirei tanto. Você era tão forte. Michele apenas murmurou. Às vezes. Brincavam e se divertiam. Lembra? Era tempo de brincar e se divertir. A gente cresce. Keshia acabara de falar, agora tenta lembrar as próprias palavras, o que sentia ao dizê-las, e concluiu que a gente não precisa crescer por dentro. Ou seria mesmo contra a natureza não crescer também por dentro como Michele está dizendo? A natureza... Michele já...? – A Sarah ficou sozinha com os meninos, Keshia, precisamos descer.

Ao chegar à porta da sala para pedir à filha que


arrumasse a mesa, não a viu, meio coberta ela estava junto à cortina sob o bandeau à esquerda ao lado de Gerard. Cujas costas levaram-na a sonhos de onde emergiu a voz de Keshia. A senhora quer ajuda? Ela respondeu que se ela pudesse achar Michele para pôr a mesa, ficaria grata. Keshia disse Ah, não, senhora Lens: é aniversario de Michele. Deixa ela conversando com o Gerard. Eu arrumo a mesa pra senhora. Era muito gentil a Keshia. Alguns instantes depois de quando entrou, a majestade do caminhar da mulher anunciou a proximidade que trêmulo Gerard esperava. A filha não percebeu, preocupada estava com uma reaproximação entre Keshia e Gerard. O sol próximo do zênite. O que é zênite? O ponto mais alto que o sol alcança, eu acho. Eu acho, Fantarello, que você só está querendo é se mostrar com essa novidade de ficar dizendo palavras difíceis. A vila impregnada de alvura. A cordilheira limpa das nuvens que ali se haviam agrupado pela manhã.


Antes de entrar, Gerard imaginara que quadros veria nas paredes, pintados pela mãe de Michele. Pensava-os sempre com um céu de névoa. Foi esse véu que viu, não os quadros que efetivamente ali se alinhavam. Mas ela própria, Rose, num plano inexistente exceto pelo amor de Gerard, mantinha a postura onírica, silenciosa no olhar de promessas, longe de si mesma, a Mulher diante de Gerard. A tarde calma na vila se mostra cada vez que ele desvia dela o olhar. Ela mantinha seus olhos baixos quando não estava cumprimentando alguém. O sonho e a realidade do amor de Gerard se chocariam como espectros de perspectivas que embora nunca se cumpram tampouco chegam a desvanecer.

Victor é um homem simples e tranqüilo. Cumpre seus deveres e pouco espera da vida e possivelmente por isso encontra a paz em tudo. As pessoas confiam nele: até à manipulação sem constrangimento. Não se


importa. Precisa de um mínimo para a subsistência. Menos ainda se presta a mágoas. Um homem de confiança. O grafite o transportou para longe. Esse detalhe, o risco do que ainda não chegara a ser, ruma rachadura do muro da casa, termina na cor de um abandono. Que luz fantástica a de Celba ao meio-dia! Respirou fundo de pé ante o portão, ouvindo latidos que ecoavam como se um fio os ligasse e fizesse vibrar em sua alma uma estranha liberdade. Olá Victor, disse a senhora Lens quando ele entrou com Fantarello. Como vai a Cati? Ela não vem? Não, Cati não poderia vir. Mandara cumprimentos. Ninguém notou o brilho malévolo no olhar de George, pensa Gerard e se põe desde então mais atento ao marido. O olhar de Victor não se alterou em sua pureza. Michele! Muitas felicidades e toda paz. Gerard se distrai com as revistas que folheia. Crise ameaça a economia mundial. Não sabe o que se passa. Desde a viagem não tem mais paciência com a leitura. Nem mesmo de jornais. Numa outra página o que é


preciso fazer para enfrentar a época de turbulências. Definitivamente, está cansado de ler. Não consegue mais. Haverá aqui algum tipo de relação com a mulher? Ah vou parar com isso. Não dá pra me levar tão a sério.

Almoçaram. Quando Fantarello pegou o violão talvez estivesse movido tanto pelo filé e pela sávia quanto pela produção de hormônios. Olhou para Sarah, dedilhando. Coração, músculos, impulso. Viu a si mesmo diante dela num futuro aparentemente próximo, bela como sempre, receptiva. Quieta e irritada com os acordes e a voz incerta que a louvava. Era a mais velha do grupo de amigas, olhar perdido e lábios impudentes. Comera pouco, rainha neutra. Pelo menos uma música dançante, quem a irá tirar? Esse rapaz talvez? O pai? Súbito o futuro se fez junto a um estonteante desejo de se dar. Ela. Tão linda. Eduardo se perde em pensamentos. Ainda será minha ruína.


A senhora Lens saberá durante a dança que Gerard seria faria a manutenção dos computadores da pousada de Celba. Acrescenta à sua graça o exibicionismo. Seus cabelos reluzem. Tons mais e menos e escuros desenham as metades de seu rosto. As pregas do vestido induzem como as notas que flutuam e ela flutuava ao se aproximar de Gerard. Ele a tomará? Sim. Os dedos se tocam, e as palmas. Tão perto e nada de que se envergonhar no ritmo seguro da transitoriedade. O sopro a envolve num abraço menos formal, duradouro, amparado mais pela memória do que pela esperança. Claro, tinha sido feliz por algum tempo. George é um sujeito atraente, sem sonhos, como ela acreditava o homem ideal. Cheio de projetos. Mais hoje mais amanhã irá levá-la para a cama. Em que momento deixara de levá-la para dançar? Gerard tem uma quebra mais suave nos quadris, resolvia o segundo seguinte em passos imprevistos. Não é mais o violão, mas Mp3 de um ultrabook. O baixo. Os pássaros. A chaleira na cozinha.


Alguém se aventurou a fazer café. Música em tudo. Vozes soltas. Frases inteligíveis não há mas uniformidade repousante. Um casal qualquer deve ter ido para junto do fícus, é inevitável, ah como ela gostaria. Então ele era o novo chefe de manutenção da pousada, disse, e ele respondeu que agora, fora da temporada, era pouco mais que um caseiro. No fundo nem tinha vocação para administrar. E qual era a sua vocação? Ah, sem dúvida lidar com computadores – há anos que eu Oh não, não parecia ter idade para Mas sim, verdade, vi o marco dessa história, da compatibilidade no primeiro micro de arquitetura aberta à era do chip duplo e da web 2 O que dizer? Tem a ver com velocidade, baixo consumo de energia – no fundo sou só um curioso, apenas faço as coisas, acho que dá mais certo em qualquer aspecto da vida e


Que verdade... Ainda bem que não estava morta como costumava desejar. Estivera, não mais. Agora há esperança, disse a harmônica num acorde longo e denso; a bateria concordou junto ao chão, estremecendo a tarde; e o corpo desprezado, do qual tinha ela desistido, fluiu para dentro da presença que a cercava em vagas. O remoto mar não termina.

Gerard. Não o conhecera sempre? Seja como for, é preciso dançar a música que está tocando. Todo mundo na festa parecia conhecido mas nem eram. As meninas em seus corpos implacáveis – aquele cheiro tanto poderia ser primavera ou fruta madura demais. E os meninos, bem, acerca deles não sabia tanto. Era evidente que suas vozes estavam mudando. Que se masturbavam o tempo todo e talvez até pensando nela. E George, miseravelmente conhecido. E Gerard, ah... Olhe as ondas... A senhora sabe que quando saltou do ônibus ele


parecia estar voltando para casa? Assim lhe parece. De fato sempre vivera ali. O homem sem rosto dos sonhos dela. A temporada estava às portas, disse ela. Gerard teria logo muito trabalho. A temporada é uma longa época de solidão, pensou. Devia mesmo ser trabalhoso manter um lugar assim grande limpo e em perene eflorescência. Um lugar tão freqüentado sempre com a estrutura funcionando adequadamente. Os hospedes decerto, pensou ele, dão muito mais trabalho que o mato, as arvores, o gás e a eletricidade. As contas em comparação são simples de fechar, disse, com pequena diferença de tempo em relação ao pensamento. Não se sentia bem com gente? Confesso que nem eu. Bem, respondeu ele, tenho internet. Na verdade não usava a rede tanto assim para comunicação, mais para informação e trabalho, pesquisa, essas coisas. Passou pela cabeça dela de novo a possibilidade de aquele rosto de anjo esconder um pervertido. Mas de súbito, quem era adepta da perversão? Voltou a escutar quando ele falava de


parte financeira, projeções, eventos culturais. Para correspondência (sua voz é tão suave) ainda preferia o velho e bom correio. Cancelara os cadastros do facebook e do twitter. Os casos de tráfico, pedofilia, enlouquecidos ciúmes ou simples maledicência e mediocridade haviam saído de controle. E a forma como as empresas se apropriaram também dos sites de relacionamento lembra o que o Estabelecido faz com as revoluções. A internet é boa. Para cada caso hediondo há um contraponto benigno. A internet é um reflexo da vida, como dizem; para o bem e para o mal. Há coisas úteis no mundo, como a faca e a escada, que mal utilizadas podem matar. Há coisas inúteis que matam também. O orkut nasceu para se encontrar e reencontrar pessoas, mas havia tempo que ninguém o usava assim. Cristalizara-se no mal, no inútil. Certa vez ficara sem micro e desde então passou a ver isso com mais clareza. Em lanhouses e cybercafés é preciso ter maior controle do tempo para que não fique caro demais. Hoje isso de internet em geral é um assalto ao


tempo das pessoas, esse bem mais precioso. Ao olhar pela janela conduzida pelos tons da janela em constante mutação, a senhora Lens perguntou se Gerard saberia dizer se ela estava nos planos da prefeitura. A voz de Gerard chegou ao vidro que a refletia. De que falava, exposições? Hesitou como de resto se sentia inseguro e exposto com a inesperada manifestação de sua fantasia. Ele sabia sobre a programação. Não estava definida. Dependia de verbas, como sempre. Mas não sabia como conduzir a situação no dobrar do sino. O que Gerard sabe é que haverá uma exposição permanente na Casa de Cultura. Estão contatando artistas de toda a província e eu sairei então, pensou ela, num panfleto turístico. Não era o que queria, não tinha nada a ver. Gerard participaria de algum modo da seleção dos eventos? Como se fosse uma confissão, ele respondeu. De certa forma. Estavam a sós pela primeira vez. Deveria ser a ultima?


Cada signo exterior da senhora Lens – sua continência no beber, sua elegância com os talheres, os decoros com que se ajeitava na poltrona, os adendos gestuais às frases – tudo adquirira para Gerard a exuberância de uma planta que podada se refaz. O que a maltrata assim? Era como suspirar num sonho, perguntar ao ser de um sonho que não se define. Não um sonho bom nem um pesadelo. Quietude que não permitirá os ruídos exteriores, as conversas, a atmosfera frívola das festas, o tilintar de xícaras e copos, os carros passando na rua de terra ao lado, sacudindo – nada tirava o universo do olhar da senhora Lens. Pouco depois ao deixar a casa, não retendo detalhes prosaicos mas apenas a sublimidade etérea, Gerard mantinha as condições ideais para a existência da saudade.

Após comerem, na sala de estar impregnada de


luz pela opção do sol da tarde na procura de uma casa, esperando que Keshia trouxesse sorvete e café, Gerard levantou-se e colocou o blusão no espaldar da cadeira em que a senhora Lens sentara durante o almoço. Ato que de todos, inclusive de si mesmo, passou despercebido. Não dela própria. Com a bandeja, Keshia pensa. Por que os homens de fora acham bonitas e cultas as meninas de São Braico e com respeito a Celba a coisa não é bem assim? Por que generalizam e quando pensam em nativas de Celba imaginam-nas fazendo sexo com turistas por dinheiro? Mas Gerard, que gerara esses pensamentos, não viu Keshia dessa vez. Está perguntando à senhora Lens de que tratam suas pinturas. Nos hálitos, gosto forte de café. Ela diz que tratam de sua própria alma. Fala com a naturalidade com que não nos importamos de especificar os assuntos em que a resposta genérica será tanto quanto precisa para nós mesmos como para os outros ou óbvia ou obscura. Luz da tarde contra a aproximação do por do sol.


As meninas ainda tomavam sorvete, rindo muito. Esplendor amarelo quebrado nos vultos por sombras esverdeadas. George saíra. Uma reunião inadiável. A sombra da senhora Lens se encontra na parede com os dedos levados à quina do quadro. Não sei o que fazer de minhas mãos. Sua palma direita se apóia na parte mais alta do sofá. Sombras se interligam pela sala. Em alguns pontos da parede o amarelo brilha tanto que é quase branco. Keshia se refugiará no banheiro para chorar por Michele e Gerard. De lá escuta a onda que quebra e os últimos pássaros do dia.

Sua pele cheira a asfalto molhado, disse Eduardo. No meio das lágrimas ela riu. Tem textura de pêssego e cheira também a café. A beleza de seus olhos é pesada e triste. Pesada, pensa ela, é claro. Mas ele dizia sincero o maior dos elogios. Não disse nunca a ela que a amava. Isso possivelmente mudaria todas as coisas. Mas não disse. Chegou perto de dizer, em


mensagens de celular ou em conversas pela internet. Não disse. Para ele não valia isso de ser mais fácil sem estar na presença. Keshia estava na presença de Eduardo todo o tempo, dia e noite, por muitos e muitos anos e depois da morte dela, quando encontraram os escritos em seus cadernos com a letra do avô revelando como as coisas se deram. Quando partiu de Celba, ela ainda vivia, e ele chegou a enviar diversas mensagens que se perderam no limbo dos logins das redes sociais, pedindo perdão por tudo. Para se encontrar com ele em São Braico e esquecerem as coisas ruins numa vida nova. O que se pode fazer além de se pedir perdão? Deve haver alguma coisa: a nova vida não pode depender apenas de palavras que dirão os que mentem com naturalidade quase maior daqueles que verdadeiramente sentem o que dizem.

A casa dos pais de Sarah está vazia. O telefone toca, ecoando a impaciência de quem liga. Ela abriu a


porta, entrou. A janela enquadra a intensíssima luz. Alô? Ele chega por trás, a camiseta fina e canelada não lhe proíbe os seios que toma nas mãos . Não era seu estilo, ser tão direto. Talvez fosse a primavera. A risada se misturou à aragem que dava vida às cortinas brancas, ondas como as lá de fora, incessantes. Era um homem de mais idade o interlocutor. Eduardo pressente a voz no tecido da saia crepe, macia, gostosa, gostosa, sente-a nos dedos da mão direita. Sarah. A mais velha entre as meninas. Ajoelhada no sofá. O telefone a imobiliza quanto a uma improvável resistência. Sente o elástico correndo mas era como se nada sentisse. A voz não ouvida faz recomendações. As coxas se acomodam aos movimentos. Alguém se aproxima da água, mergulha. Não escuta nada e agora nada além do brilho etéreo das pálpebras avermelhadas. Sim, papai, estou escutando, pode ficar tranqüilo. Era algo engraçado de se ouvir, pensa o homem, mas no fundo gosta de ser avô mesmo naquelas condições, a filha solteira. Era antes culpa da


temporada, do turismo, da política local, da economia nacional. Era uma boa menina no fundo. Não se preocupe, papai, diz sem saber direito o que diz. Eduardo se apressa. Os culotes são os da senhora Lens, a nuca é de Michele. Com Keshia será diferente, não um momento fugidio que se esgote (cada vez mais raramente lhe ocorre que Keshia pode não mais querer). O bebê dorme tranqüilo no quarto. Coisas da temporada. Onde estará a tal babá? Os culotes são realmente os da senhora Lens, ela é tão leve ao dançar, deveria ser quente na cama. O fone cai depois que a ligação é interrompida. O terceiro jato entende que não era lícito embora todas as coisas sejam. Ele ainda lhe sente a lisura e já lamenta, pensando em Keshia. E a senhora Lens jamais esteve ali. E Michele, é estranho perder tanto tempo e gastar tantos pensamentos com uma menina que não aprova. Os dois escutam os passos e quando a porta dos fundos se abre estão conversando no sofá. A babá é filha da vizinha. Oi, Brenda.


No período em que sozinhos Gerard e a senhora Lens se calaram podia-se ouvir as andorinhas distantes agitadas com a aproximação de pessoas à entrada de seus ninhos. Uma palpitação pairava entre as auras com a existência independente dos dois nutrindo-se de sexo, misticismo e arte. Temas todos desviantes. Não se enfraquecia pela falta de uma sensibilidade explicita antes fundamental, ente que livre do sofrimento e fora do tempo, imune às preocupações humanas. Ser que amava Gerard e a senhora Lens, proveniente de Gerard e da senhora Lens, era o mesmo que ao chamado da orla de luz crescendo nas luzes se tornava corpóreo com a precisão dos horários do sol e dos vapores condensados segundo o humor celestial – assim eles pulsavam e se sabiam através da mútua dimensão.

Com o transcurso dos meses, quanto mais decidido a não declarar o seu amor (o que de resto


fazia parte de uma pressentida recíproca), mais esse amor, à força da impossibilidade, crescia inelutável. Gerard se lembraria sempre da senhora Lens movimentando-se em torno da mesa com as travessas, como a luz que circundava o telhado. O talhe sombreado das coxas ao supor a atenção de Gerard se abandonava abaixo no assoalho onde os dedos de unhas retas saíam das sandálias baixas de finíssimas tiras lilases. A maré enchendo arfa de vagas elevações e afluxos. As nuances de sua superfície fazem com que se adivinhe as profundezas.

O senhor Lens entra no prédio de Joana. Quem a podia socorrer, em quem podia esperar, a quem poderia amar? Jogada na vida, ela soube o que não queria saber e esqueceu o que desejava preservar. O tempo escoava em sua sórdida sobrevivência e agora, agora que a injustiça do mundo corrompera seu corpo e sua alma, o presente se resumia em lembrar o futuro


que poderia ter sido. A linguagem das paredes. Devia mas não estava preparada. Suas secreções internas inutilmente se rebelam. Suspira, olha para ele, está tão cansada. Os filamentos da lâmpada. Uma visão embaçada. Muita dor. É noite e não há indícios de que aquela noite será diferente, o que deveria ser interpretado como um momento de repulsa pelo qual a senhora Lens teria de passar, segundo julgava, não sabia por que. Ou sabia mas não queria admitir. Tinha medo. Medo do futuro, de não ter a segurança material a que se afeiçoara, as comodidades (sobretudo em relação à pintura). Em ultima análise medo do próprio George, homem forte e violento. Ela era apenas uma mulher. A rigor uma dona-de-casa, uma dona de casa como qualquer outra, fiel e dependente, dependente e livre, na medida suficiente. A aparição do marido transtornará a disposição dos móveis e o céu à janela. Como não sabe a quem recorrer e que não tem esperança, irá entregar-se. Agora. Não há como fugir. Que seja


rápido. Quando ele se aproxima, o hálito impregnado pelos resquícios da festinha da filha acrescido da aguardente barata da zona vermelha, a mulher não pode recusar com, por exemplo, a enxaqueca reduzida a pretexto. O senhor Lens sai. Dor fortíssima na cabeça de Joana. Rose tenta sentir no contato daquelas mãos o contato de outras. Nada que fosse imperceptível, mas George estava por demais bêbado e concentrado em si mesmo. Ela observa os dedos curtos e abertos. Sob essa carne repulsiva proveniente de inimagináveis tempos de terror, na perda de sonhos que se gastaram a senhora Lens emerge e retorna, tenta. Perto do impossível o sonhar ao ser tocada daquela forma que abominava, abominava desde o namoro. E logo terá de levantar: há tanta coisa para fazer. Quer ter ainda o tempo livre para recomeçar o projeto. E como levantar? como olhar o amanhecer pela janela? As belas casas daquele trecho de Celba se tornaram


insuportáveis – como fui casar com esse homem? De resto, não podia competir com as prostitutas da zona vermelha, nem que quisesse lutar pela exclusividade do marido – seus seios começavam a cair, sentia-se cair inteira, as carnes amoleciam como uma flor que se aproxima do momento em que, em vez de deslumbrar os passantes, irá ser o piso antes que passe a varredura. E quando imaginava ter encontrado o verdadeiro amor, já não tem corpo para vivê-lo. Lutando contra a realidade, deixa que Gerard a beije no pescoço, com delicadeza. O cálido cumprimento desceu, rodeou-a, voltou. Beijos flanam ora com um leve estalo de lábios ora com toques de língua. Era ainda Gerard a quem a senhora Lens desgrenhava os cabelos. A janela aberta. O sol. Um pouco à esquerda, o Giuventu. Mas Gerard estava com as meninas. Não fez amizade justo com elas no seu primeiro dia? Deixe disso. George tirara o restante da roupa da mulher com volúpia, pressionando-a para que caísse na cama. Se apoiou sobre um dos joelhos. Uma vela acesa não


teria provocado tanta dor. Mas desse contato nasceu calor, luz. Comunicou prazer. Basta para suportar o que simplesmente não é prazer mas sofrimento e humilhação. Para isso Gerard estava ali. E foi uma outra virilidade que a senhora Lens viu diante de si e devia sofrê-la para dar prazer a quem amava. Fechou os olhos. Sentara-se nas pernas de Gerard latejando dentro dela. Ajudada pelas mãos que a erguiam, movimentava-se como aqueles que caminham na direção da tempestade.

Você está tremendo, disse Silvia. A abstinência é cruel. Há quanto tempo? Estava tentando largar. A amiga lhe pede o braço. Momentos depois Rose murmura. Que coisa boa. Um sorriso triste. Silvia e suas soluções para tudo. Para os outros, não para si mesma. Tudo tão difícil, tão difícil. Se abraçam. A senhora Lens quebra o silencio. Conheci um rapaz, um


homem jovem. Havia um som no fim do silêncio, anterior às palavras. Lá no finzinho, possivelmente uma cigarra. Uns seis, sete anos mais moço. A expressão dele é tão pura, transmite tanta compaixão. Estavam falando de religião? Olha que é quase, diz Rose. Um casal passa em frente à janela, vultos na noite quente de Celba. Me sufoca refazer nosso

caminho de sexo e não mais de sexo, de discos e livros, plantas e prantos; mas ali está você, conversando com Silvia recém-chegada, falando de mim, que honra. Silvia também se aproximara de um rapaz, também um homem mais jovem. Sim, você começou a falar no telefone. E aí? E aí é aquela coisa: pelo computador a gente diz o que pessoalmente não diria e escuta o que quer. Até que um dia ouve enfim o que não quer: ele está apaixonado por outra. A gargalhada de Silvia nem soa irônica. Os dedos ainda massageiam em torno do pulso de Rose, sobem com pressão acentuada do polegar ao longo de um feixe nervoso. Quanto a Rose quase nem fala com seu


rapaz. Se o gume está afiado, é preciso menos força. Mas o vejo diariamente. Saber que passará por aquele trecho de praia é reconfortante. Gerard fizera do passeio matinal um ritual sagrado. Via a senhora Lens e lançava seu melhor olhar. Rose suspirou o hálito de um saudade. Se fosse o que ela pensava, não seria atraído por uma mulher como eu. Silvia repreendeu a amiga, disse-lhe que não dissesse bobagens. Era cruel consigo mesma. Adianta levar uma vida saudável, caminhar, nadar, alimentação natural, se a pessoa é amarga e vive se diminuindo? se você acha que todas as pessoas tem razões para serem como são, menos você? Um tipo de raça. É apenas um murmúrio: sou mulher casada… Recosta o rosto nas mãos fechadas, os cotovelos na janela. Separar-se? Tinha medo. De apanhar, de morrer, da pobreza, da velhice. As coisas são assim? Podem perfeitamente ser, Rose se apavora em ter de descobrir. Nesse caso, por Deus, a separação não é mais uma alternativa, é pura sobrevivência. Você parou para pensar que George é


louco? Rose não pensara nisso, não pensara nisso e estava pagando. Pagar. Culpar-se, condenar-se. Pagar nada. Só teve azar e foi um tanto acomodada. A senhora Lens deu uma risadinha. Ao chegar com seu jeito descontraído e sua objetividade, Silvia levou Rose a confissões cada vez mais detalhadas e, como era de se esperar, não demorou a perceber a coincidência, que quando falavam de um rapaz por quem se sentiam atraídas estavam falando do mesmo Gerard.

Passou a entremeter-se na amizade das duas um ranço de ressentimento, superado quando Silvia viu o tremor nas mãos da amiga. E tornou também a seus próprios estados depressivos anteriores. Que na casa contrastava com a grande exuberância das meninas em vésperas de viagem. É que Michele partiria, com Silvia, assim que passassem as festas. Como despedida se alternavam em raves e cinemas, barzinhos e paqueras, muito Orkut e MSN e Twitter. A figura melancólica de Gerard, já afetada pelas chegadas seguidas de turistas,


não resistiu na cabeça das meninas quando apareceram os belos e ricos primos de segundo grau para passarem as ferias na casa de Keshia. Um sax toca na noite quando Michele e Keshia voltam de uma reunião no clube. Silvia fala com Rose na varanda. Conheço teu estranho – disse. – Conheço Gerard.

A casa da senhora Lens adormeceu quando ela apagou as duas janelas frontais. Luz da lâmpada do poste da rua sobre o telhado como um anjo. Gerard parou diante do oceano na madrugada fria. Horizonte indistinguível, o mar era estrelado e o céu noturno lançava ondas à praia. Ah se todas as evocações rebentassem antes que aparecesse nele manifesto seu erro a queimar a pureza do habitual passeio no recanto deserto. Em oração por seu afeto maior que se não fosse realizável haveria de ser ao menos útil em sua impossibilidade, levando-o a se reaproximar de


Deus. Agora que a pousada despedira os empregados temporários, se dedicaria a frilas de informática e claro se nutriria da ausência de seu amor.

Mas ao amanhecer sob o sol deitada de bruços na areia úmida da maré vazante, o corpo de mulher. Difícil saber como essas coisas acontecem. Gerard saiu sem nada na mente além da rotina de seus passeios matinais. Alguém escuta os nossos pensamentos? Podem ser modificados exteriormente ao longo da ação planejada? É científico: mantenham o dia igual e irei me adaptando. Acrescentava idéias a suas reflexões naturais a cada passo da caminhada. Todavia como imaginar? A solução. Respirar fundo, se endireitar. Há novas turistas nesse trecho da praia e mais além as jovens de sempre. Basta para que passe para haver sinais no calção. Hoje especificamente há uma certa estabilidade nessa beleza. Longe ainda num ângulo lateral Gerard se faz perguntas. A areia úmida repete o vulto para baixo. Quem seria ela? Textura de


nuanças cremosas. Conforme se aproxima verifica pelo suor que está cerca de meia hora de exposição. Monumento estirado. Esse sorriso é de alívio. Com que então não estou. Como nos velhos tempos. Óxido nítrico nos campos cavernosos. Não pode se mexer agora mas tem de dar um jeito de se ajeitar. Gostoso e constrangedor. Olhou o céu, o sol, o reflexo nas águas. Um espairecimento banal que deve aliviar. Pelo menos momentaneamente. Seria trágico ou irônico justo agora ter de desviar o foco. Ação ou contemplação, nada de meio-termo? Nossa, dá para acreditar na lisa grossura dessas coxas? A velha vida se apossa dele como jamais. O que é isso? Boas pessoas, pessoas normais não pensam assim. Nunca será duro demais consigo mesmo, o pervertido.

A senhora Lens se espantara ao dar com o quarto ainda vazio. Mas sei como ela se sente. Ou talvez não soubesse. A luz do sol não mais será a mesma após


reencontrar a filha. Portanto a senhora Lens se espantara, sustentando os seios para cima, ao ver que Michele saíra de casa logo cedo após a chegada. Dois anos estudando em São Braico sem vir visita-la, apenas cartas lacônicas. Deixara a casa de Silvia, nada pessoal, só queria independência, morar sozinha, estava trabalhando e merecia privacidade. A senhora Lens se espantara, essa menina não deveria estar cansada da viagem e só acordar lá pelo meio-dia? Apenas amanhecera.

Falou com o vizinho como se nada de extraordinário. O de sempre, que calor, talvez chova mais tarde. É que ela não sabia mas esperava. Espelhos brônzeos se separam de súbito. Não é possível. O amanhã desmentirá o hoje. É esse o fruto fecundado desse dia e dessa praia? dos lugares desertos? Mal respirando hesita entre passar e parar. Sente o mundo para o qual é necessário todo um livro de páginas molhadas. Deseja nascer de um vento novo que junte


virtude a virtude – mas foge. Quando você quiser, quando achar apropriado, quando estiver pronto, quando acordar. A mulher que não morrera mas dormia; a virgem entregue ao herói que não sou mas me foi. Gozo e idéia caminham juntos no ritual pelos labirintos do olhar que se move de baixo para cima. Sela-se o reencontro: a estranha não era uma mulher mas Michele.

A mãe pensa como a filha viverá com aquele novo corpo em uma cidade como Celba. Sentara-se à mesa envidraçada da sala de jantar para fazer umas contas após apanhar números e máquina de calcular no aparador em liberdades de musselina e sandálias. Acende-se com o clique da lâmpada. Sente paz. Capaz de transmiti-la. Gerard, que se mostrava tão eficiente em computação – e por meio dela em projeções e custos, almoxarifado e planilhas, apresentações – não podia ajudá-la, trabalhar com ela? Morde a maçã que acabara de pegar. O som de Michele rompeu o laço


que o prendia à sua solidão, levando-o à inesperada companhia. Ela porém não falara, sonhava. Durante as eternidades que precederam seu despertar, habitou soberana a existência de Gerard. Ele postou trêmulo a própria sombra sobre o rosto dela para precipitar o encontro e reduzir os tormentos. Mas pousada a face esquerda na areia ela apenas sorri de olhos fechados. Dormiria de fato? Deus... Tornara-se uma mulher, uma mulher belíssima!... No semblante, ai, a mãe... Poderá essa imagem se tornar vicária? junto à qual alguém que amasse a senhora Lens poderia viver, subsistindo da semelhança o amor? O sorriso onírico é substituído por um relaxamento dos lábios. A expressão misteriosa não é interrogação, vergonha ou susto.

Súbito os olhos se abriram. Difícil saber como essas coisas acontecem. A partir de agora nunca mais sonhará com a senhora Lens e por toda a vida estará a seu lado. A seu lado. O que é isso? Imagina. Ar imaculado de uma Celba invisível partilhado.


Amanhece. Passos na rua. Galos, sinos. Gostaria de poder fugir do lugar comum mas não podia. Ia dizer os adjetivos cabíveis. Disse apenas: Quando ela chegara? O lapso que liberou por fração de segundos o seu olhar, ela usou-o para certificar-se do desejo desencadeado. Michele – e Gerard ainda estava por sofrer tudo o que a isso estava ligado – mantinha-se senhora da situação nos mínimos detalhes, senhora inclusive do próprio desejo que a queimava.

Se não há palavras, o que será esse beijo? Beijeme, disse ela. A língua disse mais. Só então houve palavras e mesmo assim, e mesmo assim, e gaivotas rasantes, e carros algures, e o fluxo muito forte. Mas tinham alternativa. Enquanto ela falava soltou os cabelos de Gerard passando a invadir o zíper de sua calça. Ela se virou e se pôs à espera. Como assim? Precisa do que para me comer por trás, babaca? Entretanto o respeita por esse escrúpulo. Esquecera quem era aquele homem. Não mais. Seria recuperado


a cada violação. Põe agora. Todos com mais ou menos jeito o faziam. Com mais ou menos dor. Quando souber que ele é quem sentiu dor, primeiro achará graça. Mas depois algo irá permanecer. Um respeito inútil. Pois continuará querendo a violação por trás e o silêncio. Desse jeito tampouco ela vê o rosto e é ergonômico. Menina e menino. Esse Gerard. Mas como sempre onde ele e George competiam a tendência era que os dois desaparecessem.

Essas coisas. A idéia que ela teve, sair e dormir na praia. Ele ter alongado a caminhada além do limite que se impusera. Limite que aliás, pensou, ninguém impõe. É como se ela estivesse esperando. Se vou chamar isso seja lá do que for, ainda assim terá sido desse jeitinho. Como tia Silvia dizia, o que tem de acontecer acontece. E aí a coincidência agira num sentido inverso. Olha Gerard eu não sou virgem. Olha Gerard sou dona do meu nariz. Ora Gerard que bobagem. É mesmo uma menina. Não sabe nada. De


qualquer modo, um dia saberá. Quem sabe então entenda as entranhas dessa dor que encaminha. Dor que encaminha? Aí ela dirá que Gerard além de tão estranho é muito dramático. Que assim acabará enlouquecendo.

Acabarei.

Ela realmente o acha intolerável ou pensará que sim na maior parte do tempo. Porque se achasse todo o tempo perderia aquela parte que sem querer admitir precisava mais e mais e que a podia livrar de sua obsessão. Mais, ela quer mais, do mesmo modo que ele quer. Mal sabia. Querer, querer de verdade, jamais ele quis. Estão no mesmo movimento, perseguindo um gozo que se afasta quando julgam alcançá-lo (não é esse o segredo?). Se Gerard as vezes parece mais perto, Michele o ultrapassará e aí chegará antes. O caminho percorrido não deixa duvidas. Isso é


felicidade? Insistem na corrida frenética. Felicidade. Como se dissesse: Eu sei que você ama minha mãe e eu amo o meu pai, isso nos faz iguais, nos dá esse direito de tentar . E se ele dissesse “ Michele não é certo” seria uma grande hipocrisia. Então o que nos impede de gozar? Estão quase.

Depois poderemos, se for o caso, nos culpar.

Se você ultrapassar determinada porta talvez encontre o que procura. Um quarto limpo e colorido com alguém ou ninguém, dependendo de sua disposição. Um quarto limpo, colorido e cheio de luz. Chegara da capital à capital da província, São Braico, com dezesseis anos. Era menina estudiosa, cheia de planos de realização pessoal, pouco ligada em companhia masculina. Durante algum tempo se dividiu, achando que pudesse ter algum problema. Insólito processo de expiação: se entregou ao primeiro rapaz


com quem privou de intimidade. Não era seu mundo. Ainda não. Num segundo momento descobriu não ser capaz de abandonar aquele mundo, que passou a devorá-la. Vivia apenas pelo presente que satisfazia seus desejos. Esqueceu a vida passada, que perdera sentido a partir do momento em que deixou de existir futuro além da hora em que dormiria. Feita mulher jamais se desfez desse estado. Mesmo quando os meninos a levavam para trás da escola ou nadavam com roupas de baixo estavam basicamente brincando. Mas pouca graça achava nas brincadeiras dos meninos e quis estar com um homem de verdade, a um tempo proteção e dependência. Queria achar esse homem decerto para abandoná-lo. Ele serão vários lambendo o chão até sua cama.

Michele muda.

Desdenha dos planos de realização profissional. Despreza tempos antes acalentados. Senhora do


mundo e escrava de si mesma. A referência de seus dias era o olhar libidinoso com que contemplava a vítima. A vida perder sentido não é a mesma coisa que perder a vida. Qual a relevância de um sentido para a vida diante do fato de que viver é simplesmente estar vivo? – sentido maior, único: simplesmente viver. Flor belíssima cercada pela floresta inóspita. Toda essa consciência só será alcançada com a proximidade da morte, com a idéia da morte e com a morte ela mesma. Nada determina a vida como saber que tem um mesmo final para todos.

Estava agora com dezoito anos, escorpiana de boa cepa como diriam seus avós. Gerard não podia conciliar essa idade, que concluía de uma conta simples, com seus ardores. É uma mulher experimentada, quase vulgar. Um carro passou ao longe na estrada de terra, levantando poeira. O ruído do motor registra a distância em que se perde. Ao som, Michele ainda o olhava. Quando se fez silêncio


novamente, ajoelhara-se, agarrando-o pelos cabelos, num impulso para trás. Subiu, já depositando a língua nos lábios dele, vencido por uma hipnose que não impedia os lampejos do depois. A mão direita entrou pela camiseta branca, buscando os cabelos do seu peito, que puxou. Ele deveria ter dito que ela se enganara, duplamente, não a desejava e se desejasse não seria assim. Teria dito se tivesse tido tempo – se já sua própria mão não a buscasse.

Teve porém de deter-se no barbante. Não podia voltar a si mesmo antes de percorrer aquele caminho que desvendava embora hesitasse diante do bloqueio. Eram jovens, sadios, solteiros. Por que deveriam se sentir culpados, perguntou a Gerard a letra queimada do letreiro de néon da pousada, readquirindo função com a nuvem que escureceu a manhã. Precisava consertar aquele A.

Conquanto o sol subisse e trouxesse a perspectiva


de visitantes àquela parte da praia, mantinham-se resolutos na condescendência com suas naturezas. No corpo dela os pontos ressecados de pele salgada indicam como será assim que acabarem. Um mar raso e calmo e olhares se evitando. Pequenas ardências e pudores restaurados. Chegaria também com a aproximação do meio-dia a lucidez que determina transformações interiores. Esse Gerard é aquele mesmo desejoso da paz de um lar. Estranhar só se fosse diferente – se diante da fogosidade de Michele se mantivesse controlado. Vem, disse ela arfando súplice e autoritária. Serve como anticoncepcional. Quando ele primeiramente não quis, a rejeição doeu como a lembrança da mãe. Detestava-a, odiava seu espaço na cama, queria que morresse. Que Gerard é esse que evoca flores de um passado pra lá de extinto? Que paixão é essa? – é ele ou a vida em que ele surgiu? Se fechasse os olhos agora, saberia. Mas a luz por demais intensa projeta estações e eras dentro dos olhos.


A vida da senhora Lens é uma sentença. Usava o silencio como uma cor. Repudiava a maledicência. Não se irava nem se ensoberbecia. Tratava a todos de maneira igual, odiava a injustiça e a leviandade. Não julgava. Perdoava. Reinava naquela casa e nas órbitas. Pela simplicidade de hábitos inacreditável para alguém de sua posição social em Celba como em São Braico. Criava a beleza a seu redor com contidos modos elegantes e falando de vida e arte ou simplesmente comentando o prato que serviu no jantar. Michele não suportava mais aquilo, batatas nas têmporas, imagine, o ser humano não pode recusar a dor e o desconforto. Como uma mulher como a sua mãe podia chamar a atenção dos homens mais que ela quando estavam juntas?

Chegara de São Braico numa calça de gabardine cintura alta grudenta de aperto e suor, a camiseta


curta também molhada e ao abrir a porta havia rancor na musica do CD ao deparar com Eduardo, a quem telefonara para informar a hora de sua chegada (mas só quando estivesse próxima, para que chegasse sem ser esperada) – ali estava ele, Eduardo, não o seu mensageiro. Absurdo. O canalha, como pôde traí-la?

Eduardo pede perdão. Diz que não sabe o que deu nele. Posso compreender, diz a senhora Lens. Mas gostaria que isso não se repetisse mais. Não, é claro. Ele dá a palavra. Só queria dizer que, a senhora Lens espera que ele complete, a senhora é atraente demais, e ele diz que “a Michele chega por volta de onze e meia”. Frustrada a senhora Lens agradeceu e o despediu.

Quando saiu, antes que Michele entrasse, pensou na filha. Uma mulher decerto. Sem dúvida. Uma mulher com Gerard na praia.


E pior, pensa Michele, a terrível beleza de seu sorriso triste. Rose, a rosa, uma rosa sarcológica, como diria o professor Delano (com quem Michele se encontrou duas vezes em São Braico) – mulher de tecidos musculares e partes esponjosas, cálice de tolerância, corola de ternuras, uma flor até no nome. Sem contar – pensou Gerard com as mãos nas anquinhas de Michele – as carnes fartas prontas para serem classificadas pelo toque do amor de um homem, o amor de Gerard.

A senhora Lens era exemplo: a probidade apesar das fraquezas, o jeito de lidar sem hipocrisia. Abrigo para os filhos dos pescadores, sua sombra aliviava a terra ressecada pelo vento perene – um arroio adorado pelos meninos no qual iam se refrescar das tristezas de pequeninos miseráveis. Seu amor um amor que não se apregoava. Michele não podia diante da mãe fazer sua lascívia passar por sabedoria liberal nem seu desenfreio como autenticidade nem seu insensato


coração, diante da mãe, podia discorrer dos novos tempos de conquistas das mulheres como se o direito à promiscuidade fosse uma.

Michele enfim se apagava diante da senhora Lens. Diante da simplicidade de seus olhos e da grandiosidade do que viam e ela transportava para tela e comportamento. Se não era perfeita, a luz de sua perfeita sinceridade e vontade estava refletida em seus olhos. Michele os odiava, quem dera se apagassem – havia uma faca que desferia mais um e outro golpe e mais outro, até a morte – ah, ah, ah – A quarenta dias de se tornar a senhora Lange, Michele queimando e sangrando morria.

Os sonhos de poder – tônica de suas fantasias onde mais que uma mulher desejada era invejada, tendo palavra de vida e morte sobre os homens – aquele psicólogo da escola frustrou-os, diagnosticando não ambição, nem mesmo vaidade, mas atração pelo


pai, de intensidade mórbida. Como punição o doutor, de seus quarenta anos, acabou seduzido pela aluna e paciente, perdeu o emprego e viu seu casamento destruído. Com isso Michele pensou ter encerrado o caso. Estava obviamente equivocado ou não se teria deixado seduzir e destruir tão facilmente. Mas fora um dia difícil para ele, um dia para esquecer. Acordou com uma briga doméstica; depois a rebeldia da filha; o filho batendo a porta, menosprezando seu emprego e salário; e a pressão normal da clínica; a hipocrisia dos colegas; e enfim à noite a vitória de Michele em seus braços.

Agora junto ao ardor fulgura em Michele seu primeiro e verdadeiro amor. Resfolegando entre o gozo e o pavor, urrou. Gerard ia perguntar se está machucando. Ela começa a ouvir a voz e tapa-lhe a boca numa ginástica precisa. Abre-se mais e come areia em seus transportes. Puxa os cabelos dele e com a outra mão dita o ritmo. Até aqui existe fascínio. A


transgressão de uma rotina por demais etérea sob o amor da senhora Lens. Até aqui. Em torno deles o mar, as montanhas, as casas distantes na névoa. O erro de se acreditar na retidão qualquer caminho. Desde que. Na nobreza dos gestos nobres. Na justificação e na exaltação. Pecado primeiro a auto-indulgência pressionada pelo desejo carnal e seja o que for que exista de poder ou submissão nesse desejo. Vaidade. Nem amor nem consciência no vaivém de Gerard em Michele – pensará ele quando distante da magia que transformara a menina em mulher. Quem sabe confiou tanto no velho amigo que não se furtou àquela confidência de sangue em meio ao incômodo de algodão, refletirá ela um dia. Levado agora por uma onda. Ai. Um dia alguém dirá que as águas límpidas de Celba não são tão limpas. Michele se entrega assim – submissa em seu degrau de poder. O que diante de outro seria humilhante perante o amigo mais velho era confiança renovada. Talvez em seu descuido Gerard imaginasse algo assim da satisfação duvidosa do


desejo legítimo. O que permanece é o que se faz do que se pensou. Pouco a pouco, num grito aqui e numa contração que ali quase o lança fora dela, Gerard assumiu o risco vago de uma criança cujo rosto estimulou a idéia que poderia (por que não?) inventar um amor e resgatá-lo de seu amor proibido. Está cansado agora. Depois. Sentiu uma felicidade que não sentia, não nos montes em Michele mas no vale materno abençoado pela madureza de que Michele carecia, fartura sofrida de mãe, sombras da responsabilidade de mãe, contraponto de rigidez de pouca coisa na filha. Ah! a elegância da senhora Lens em uma situação íntima! Sensual sem sombra de vulgaridade. Natureza e arte. Profundidade de mar as luas conhecem. Pássaros voam para muito longe – exatamente para onde? Sim, fugiria. Mas impossível agora outra coisa além da justa tensão entre dilatação e intumescência. Que horas serão? Se vistos, que constrangimento... Culpa e vergonha. A fuga sempre leva a um outro perseguidor adiante. Além é outra


face do outrora. Não pode evitar esse fogo, essa dor no peito, essa respiração entrecortada. Afasta-se bruscamente e lança à nuca um olhar como se ela visse. Estremece e ainda treme quando fala. Sim, disse ela, como se o olhasse. Sim: é claro que ela se casaria.

Uma cidade intermediária. Nem metrópole nem vila com vantagens de ambas. Esperança. Um dia de tamanha claridade. O sol nas ruas de uma cidade grande filtrado por árvores e não mais opressor. No quintal de uma casinha num arrabalde simpático. Esse quintal. Passos nas folhas secas. Reflexo das folhas verdes. Uma brisa no mato. Deixei-a em casa dormindo e vou comprar pão assim cedinho. O trânsito não é caótico mas deve-se ter cuidado ao atravessar a rua. Cheiro de pão. Estalidos do papel de pão. Vida dum lugar assim. O amanhecer num lugar assim. Esvoaçando os sentidos e serenando aquela que dorme em casa enquanto saio. De mansinho. Oculto


pela penumbra de um prédio nem alto nem baixo pelo corredor nem estreito nem largo e então a entrada de um prédio nem luxuoso nem simples demais. Talvez assim tivesse uma vida. Uma vida de verdade e não a que os sonhos permitem. Um mês e meio depois estavam casados e Gerard para o resto da vida oficialmente ligado à senhora Lens. Livre para se aproximar e a ver se aproximar sem fazê-la adúltera. Beber nas fontes da cidade de Deus sem sujá-las. Todas as coisas estão em paz. Louco... A partir de agora, nunca mais sonhará com a senhora Lens e por toda a vida estará a seu lado. A seu lado. O que é isso? Imagine. Esse ar imaculado de uma Celba invisível, partilhado. Gerard se levanta. Se levanta decidido. Galos, passos, sinos. Agora há silêncio na sala do pai de Michele. A jovem acaba de ser pedida em casamento.


Em meio à tempestade de verão que marcava o último dia do mês, em meio ao rebentar dos raios, a energia elétrica em piques mal perceptíveis mas suficientes para desregular o relógio e reiniciar o computador, Michele andou e apressou o passo até chegar na manhã de sua noite de núpcias no quintal, os músculos do braço de Gerard vibrando a cada golpe da enxada. Precisa mesmo fazer isso agora? Preparava um jardim. Será aqui. Será assim. Ia descrever mas foi deteve interrompido pela língua áspera de tabaco. Desde quando ela fumava e por que escondida? Ela seguiu beijando sem se importar com o sabor que emanava ou com o jardim futuro ou com o que Gerard estava pensando. O homem que nasceria daquela época, antes conjecturas de uma menina, a quem ela medira conforme seus próprios inacabados valores, agora a acolhe madurado por uma desconhecida bondade. O sexo jamais seria rotina.


Gerard conhecera um ex-militar dono de imóveis em Celba, senhor de certa idade, que ofereceu uma boa casa defronte à lagoa por um preço simbólico. Homem de princípios firmes como sua voz alta e clara, sua probidade Gerard reverenciava, embora divergissem com relação a quase tudo. Durante uns dois anos viveu ali ainda solteiro e depois de casado. Honraram compromisso verbal, aluguel em dia e melhoramentos. As janelas serviam de tela para que as nuvens ao se interporem ao sol inventassem jogos. A casa, a calma. Num momento inesperado, a lembrança. Se não pode mais haver culpa, então por quê? O silêncio, a ausência de vizinhos. E esta solidão.

Antes e possivelmente depois do casamento. Sim agora, depois do casamento. E a espera renovada e sem sentido. E o solo coberto de folhas. No começo da primavera, a caesalpinia floria por uma ou duas semanas e a florescência independia do olhar de


Gerard. Eis a bauínia. Sarita, a velha empregada dos Lens, saberá e mandará recado, que tome muito chá. O perfume das acácias será igualmente terapêutico um dia. E aqui um movimento não muito diferente de qualquer movimento cotidiano. As portas da casa, como você vê, nunca estão fechadas. Tem seus inconvenientes – a entrada de mariposas, mosquitos e morcegos, por exemplo – mas quem se importa? tudo tem seu preço e naturalmente a liberdade.

Essa porta de cerejeira escurecida com retângulos verticais e um no centro, na horizontal, trabalhados com esmero que a senhora Lens admirou longamente na primeira visita na qualidade de sogra. Que surpresa boa, entre, vou chamar Michele. Nesse dia ela se adiantou no limiar com uma graça menos espontânea que a corriqueira mas eram discerníveis como sempre a simplicidade e o decoro. Então, mãe, o que a senhora achou? nem parece aquela casa não é? Fiz o cappuccino que você gosta, vamos para a mesa.


Michele apresentará a disposição dos aposentos na casa e dos móveis nos aposentos e das coisas nos móveis. A senhora Lens se impressionou com a televisão enorme pois nunca vira uma TV de tela plana. Também olhou com espanto para o fogão de acendedor elétrico, auto-limpante. Tudo bem que não é nenhuma novidade pra você, filha, mas pra mim é como se tivesse sido inventado ontem. Então Michele se lembrou-se de quem estava falando. É que a senhora sempre teve empregada, e nós tão cedo não. Tão cedo. Quando Gerard estiver sem emprego e morarem na casa da senhora Lens, a velha senhora os servirá. Obrigado, Sarita. É um prazer. Impossível não notar a funcionalidade da sala iluminada por lâmpadas frias. Paredes bege. Estantes, livros, CD s e DVDs . Coisas que estão destinadas a um fim próximo, se a senhora não sabe. A mesa do computador atrás da qual caía a cortina transparente antes da persiana e em cujo lado esquerdo um movelzinho guardava jornais e revistas. Decerto ele


não escuta música em aparelho de som. E livros, lerá? Decerto se mantém informado, nada mais. Seja como for, George lê tanto, se mantém por dentro de tudo, adora música, e daí? Noutra parede, a do sofá branco, com almofadas compradas à mãe de Maria das Dores, costureira que trabalhava para a pousada. O rapaz é tão bonito e simpático, acho que vai se dar mal metendo-se com aquela família. E na entrada um cabideiro ao lado do visitante. Cheiro bom de lar. A filha conseguiu. Um aroma bom, vindo provavelmente –sobretudo – do carpete felpudo onde Michele tomaria gosto de se estender para ouvir Beatles devaneando como se fosse uma coisa hereditária. Cada uma dessas paredes abrigava (estava só prestigiando a sogra) um quadro da senhora Lens que se sentiu vaidosa pela deferência.

Quando a praia estava cheia, ele costumava nadar no lago. Estimava que tinha uns quatro a cinco metros de profundidade. Águas claras e mornas. Ao redor da


casa os montes culminam na cordilheira geralmente enevoada. São oito horas da noite. O primeiro dia de sol do verão. Não foi difícil encontrar a casa com todas aquelas referências. Que linda. Melhor impossível. Silêncio. O ranger dessa porta. O sussurro do vento. O silêncio, o vento e a porta são tua voz. Gerard perguntou a si mesmo por quanto tempo suportaria tanta irrealidade. A senhora Lens respondeu que um sonho é feito da mesma substância de que a realidade se nutre. Não acorde, disse numa lufada quente; não acorde.

Certa noite, ao regressar à casa, escutou as vozes de um adulto que orientava o filho. Porque aqui não é São Braico. Não sei sobre o que está falando, pensou, mas era decerto uma frase precisa. Todavia dúbia. O que de tão diferente? Que virtudes as da cidade pequena? Tinha sido um longo dia. Ali está o carteiro. Uma hora dessas. Vou lhe perguntar. Quem são? Eram de fato pai e filho. O primeiro dia do verão, não há


duvida. Começou a temporada. Entende porque preferiu se manter solteiro até Michele. Lembra-se do menino que corria atrás das coleguinhas, mas não é capaz de compreender o homem que fez tal opção, casar-se com a filha da mulher que ama. Porque a compreensão da loucura em determinado momento acabará se tornando a própria loucura.

Na janela da sala vendo o fluxo luminoso subindo a rodovia Gerard se lembra do dia em que chegou. São Braico. Não é tão diferente. Mas foi diferente, muito diferente. E seria mais se a senhora Lens não fosse casada. Casados. Que vida os teria esperado? É possível que o amor continuasse. Mas sabe hoje o quão diferente são. Pensa. Ninguém compreende uma pessoa como eu, tão recolhida em si mesmo, avessa a festas, eventos, tanto quanto ama a proximidade de pessoas. Se as pessoas se contentassem em ser próximas... A senhora Lens pensa com as mãos, indaga com os pés já a caminho. Quando sentada, suas pernas


balançam. É que sempre fui sozinha, pensa Rose quase como uma resposta, é que sempre fui sozinha e tive desde pequena de resolver as coisas por mim mesma.

Três meses depois da manhã em que reencontrou Michele, Gerard descobriu que, pronto, era isso. Se não estava feliz se devia à atenção que dava à opinião das pessoas. Decidiu que se declararia, não importava quem dissesse o que. Ninguém precisava saber. Só quer ter paz, pensa enquanto se aproxima da casa. Sarita passou por ele em sentido contrário. Quem pensa estar enganando? cortejar uma mulher casada... Devia dizer a ele o quanto a senhora é decente e boa. Diria Olha, esquece isso, deixe-a em paz . Mas no fundo experimentava certa simpatia pelo sentimento de Gerard. Tentava ser fiel ao senhor George que a tirou da rua. Se ao menos Michele o amasse. Ele poderia entregar sim a parte de seu sentimento que a senhora Lens não abarcou. A energia sensual crua. O céu à espera da noite. E se a senhora Lens amasse o


marido e o marido a amasse. Não a amava. Não. Eis ali o calhorda no dia anterior. Espera a garota de programa de outra cidade, de quem os serviços contratara. A vadia da Joana agora vive doente. Gerard olha. A senhora Lens humilhada. Maldito. Porém nada fará contra ele e sabe que não.

Joana fora a um médico em São Braico. A ausência tornou-a desejável novamente e George tinha coisas novas na cabeça. Não sabe que não a verá mais. Enquanto imagina que sim experimenta parte das taras com sua mulher, a quem Gerard amava. Por que então não enfrentar o mundo em nome do amor em vez de enfeitá-lo com a beleza enganosa da renúncia? Até porque não estava mais dando certo, pensou a senhora Lens. Deixara de ser um período produtivo. Tudo está agora nas mãos do acaso. Se pudesse ele discretamente sussurrar-lhe as palavras. Declarar-se-á e se saberá enfim correspondido. À janela, Rose percebe que Gerard se aproxima.


Não sabe a motivação de seu impulso. Pergunta ao homem como chegar e ao longo do caminho pensará em como não ficou constrangido em perguntar tanto quanto em ir. Incuravelmente romântica, Joana era recorrente no erro contra o qual suas colegas a viviam prevenindo, apaixonar-se pelos clientes. O que podia fazer? Viu em George o que ninguém via. Claro que poderia amar um homem que fizera tudo por ela. Seja uma boa lembrança. Está de novo nas mãos do amor. A voz de Gerard é desde o primeiro momento adorada. Ela sonha de novo. Sonhos como árvores de uma floresta condenada. Com Gerard o amor assume ares de missão. Sentarão na noite clara, silenciosa, na bela noite de primavera, na hora desesperada, as almas unidas nos ares em que esvoaçam mariposas pelos campos das propriedades fora de Celba, onde nascerão as estrelas na penumbra, na suave obscuridade da boa noite. Ela adivinhou que


seria uma noite muito bonita. Tem coisas que não dá pra esconder de uma mulher.

Ele chegou com passos tensos. Ela se olhava no espelho. Detalhes da decadência. Olá. Entre George e Gerard havia desenvolvido os sintomas. Embora a janela esteja fechada, pode sentir a vida dos animaizinhos da noite. Vela agora o sono dele. Uma mulher de sorte essa mulher: amada assim por este e tendo naquele o provedor. E se de George relevava a violência, condenou em Gerard a demasiada ternura. E o que a senhora Lens dizia? Ela não sabe, disse ele. Joana olha um o fio que corre da cortina antes de responder. Ah sabe sim é claro que ela sabe. Meu pobre amigo.

Amanhece. O cheiro de pão é o cheiro de Celba. Joana trouxe três. Gerard não se levanta. Não tem motivos. Ah deixe de bobagem. De onde vem essa


música? Passos no quarto. Não se falou em dinheiro – como poderiam? Gerard não sabia que ela tinha irmãos menores. Gerard não sabia que ela precisava fugir do mais velho que não dormia, que raramente dormia. Ela tampouco imagina as agruras de ser filho único. Então ofereceu o colo para que Gerard dormisse.

A possibilidade de estar infectado inexistia para George apesar de saber o estado de Joana. Passou a encontrar amantes da capital. Melhor. Nível superior. Uma delas resoluta. Será mais. Ele não tem culpa de ser como é. Não pediu para existir. Victor não estranhava Cati acompanha-lo sempre quando ele ia a Celba levar manuscritos. Você trabalha demais, Victor. Podemos pegar uma praia depois. Podemos ver o pôrdo-sol.

George foi certa época um escritor prolixo e de


qualidade, como Victor: a época em que conheceu Rose. A senhora Lens acha que o empreendedor matou sua criatividade. Culpou as leis do País, a economia, a burocracia. Ou, como Cati acredita, ele precisa de uma nova musa.

Vende muito bem seus livros na Europa. Não o bastante. Cati entende que as pessoas precisam ter ambições. Motivação é o segredo de tudo. Mas o que se faz depois de alcançar aquilo pelo que se motivou? George se percebeu cansado, infeliz. Nunca na verdade pensava muito a respeito de tais coisas. Mas agora é levado pelos olhos de Cati, pela sua boca, pelo seu pescoço, pelo início de seus seios. É levado. Pensa a respeito meio sem se dar conta. É o som da voz dela, os movimentos de seus lábios e da língua fugidia. Há em Cati um pouco do que há na chuva que caiu na noite anterior, na lama que deixou pelas ruas da vila, sobretudo para os lados dos pescadores, dos hotéis baratos. A quem ele está procurando em meio


ao cheiro de peixe que ao de esgoto se misturava e no tilintar vindo do boteco? Se perguntou e não soube a resposta e ficou ali de súbito parado perto do mar batendo nas pedras sem ter idéia do que faria se quisesse ter uma vida decente – sou cúmplice dele, pensava Rose, sou pusilânime e fraca, sou cúmplice. Mas a senhora Lens jamais fazia nada além de se culpar.

Qual é o sentido deste quarto, parte de mim? É preciso ter o aval constante do comportamento? Estou tão cansada. Caso porém não seja, se a compreensão basta, se basta o arrependimento bíblico, a mudança de pensar, a mudança de pensar que salva, então está justificado esse teto cinza, esse limbo entre a ação e a contemplação, esse querer sem força, esse sentimento apático. Deitada, portas batem repetidas vezes. George está saindo, naturalmente para encontrar essa moça doente. Que relacionamento o deles não posso entender. Antes foi decerto Michele, entrou saltitante e


saiu, saiu ao pai, melhor para ela. Tenho medo de pensar se Gerard está em casa. Me conforta que esteja. Meu coração. Sobressaltado. Terrores tamanhos. É a vida. O mundo desabando sobre mim. Uma interrogação, a pergunta que exalou dos braços quentes de Gerard quando me cumprimentou, um aniversário sem festa e todavia – O quarto está girando. Essas questões são as mesmas de que Silvia sempre falava, agora de outro jeito, agora vividas por mim mesma, vividas, não formuladas de alguma outra forma. Quarenta e seis anos. O universo se move sobre sua cabeça. Está porém para se libertar. Na pintura absorta, amando Gerard, preparava o caminho para dias felizes. Agradecia então a Michele por não ser fiel.

Naquele dia, Fantarello aproximou-se de uma forma diferente. Disse a Michele que havia muito mais coisas envolvidas do que apenas sexo. Que ela fazia parte da vida dele de um modo essencial. Na janela as


luzes se amontoavam e perseguiam. Óleo num vidro. Nuvens se refletem nos olhos da senhora Lens. Michele retrucou. Bobagem. Precisam de gozo imediato. Não o zênite das coisas. Ele riu e o riso tem essa propriedade de aproximar duas pessoas e levá-las à intimidade. Seu melhor amigo desde que se entendera por gente. Durante muito tempo se encontraram nessas condições. Não a desfizeram de modo abrupto. Demoraram no status de confidentes. Ela apenas queria estender mão amiga quando se tocaram. Quando a saia azul marinho imitou as luzes era como se fosse a primeira vez, como se eles tivessem encontrado a felicidade universal pela qual deveriam trocar a concupiscência. Ele olhava os seios por um prisma de novidade e as coxas de um ângulo inédito. Certeza de eram mais que amantes quando seu corpo roliço ajeitou-se sobre ele. Perguntou se ela também estava sentindo daquela forma. Michele rindo disse que não era capaz de sentir nada além do cavalo sob ela. Acredite, disse ela, você é para mim a coisa mais


próxima de amor. Proximidade relativa. Todos comparativamente distantes de seu único amor. Inclinada sobre Fantarello, compreendeu que a vontade de ficar só existia na medida em que não suportava estar sozinha.

Havia aquele desejo em Cati, de futuro, de estar bem de vida. Não nasceu para ser pobre, nasceu para mandar. Havia dentro dela a tendência por tudo que não se esgote; por coisas que, por mais que sejam consumidas, não se esgotem. De onde tirou que havia sombras de tal atributo em Victor, daí mesmo passou a traí-lo com George. Esse George. O marido, o homem de cujos lucros a senhora Lens participava. Graças aos quais está agora em casa numa tarde de terça. A campainha. Esses dois lado a lado em quadro emoldurado pela porta da senhora Lens, um deles um anjo dos céus. Não serei ignorada. Eduardo queria o endereço


de Michele, é que ganhara um computador do pai para fazer os trabalhos da escola, apesar de não ser imaginável que se interessasse por algo além de surfe. A senhora Lens guardou e não devolveu aquele olhar não mais de olhos estranhos ou da novidade de olhos claros, um olhar simples, conhecido e reconhecido num outro. Ah, agora estava super a fim, adorando. Como assim, estava? Não está mais? Duas apanhadeiras de conchas passam e olham para os rapazes e murmuram entre si – Como é possível? Ela não se enxerga? Todos de súbito imersos pela sombra da nuvem que passou no céu movendo a cena como uma mesma história contada por diferentes pessoas.

Eduardo falou sobre os travamentos e como apagou aquele pendrive fazendo gestos e se exaltando como se a coisa estivesse acontecendo ali mesmo. Disse que tinha perdido tudo – trabalhos de um semestre que provavelmente fariam falta na faculdade. Conversavam assim dois homens jovens, interessantes,


ambos interessados nela, ora, precisava rever a idéia de que estava ficando velha. Em torno deles as ondas se faziam presentes no ar e o mar se misturava no vento e o horizonte se deixava compreender pela linha do muro de contenção enquanto Eduardo fala e espera que a senhora Lens esteja olhando, Gerard o interrompe com entonação de quem sabe, Eduardo se tranqüiliza, alívio estampado em seu rosto, mas não, ela não está olhando para mim, está olhando para ele, em todo caso é claro que dava para recuperar e ele podia ficar tranqüilo, o novo sistema operacional tem esse recurso. Vou na sua casa mais tarde se você não for sair. Perfeito. Agora a senhora Lens estava entendendo o significado de manutenção de computadores, ela que nada entendia de computadores e precisava entender, isso de internet se tornara essencial.

Podia convidar Gerard para trabalhar com ela, por que não? Útil e agradável. Mas continuará sozinha.


Pedrinhas brilham e refletem o futuro. A revista. Tem uma bela reportagem sobre Morandi e sua minúcia. Mas eu queria vida. Queria a natureza viva, tua mão mais que a revista que passou à minha. Dá uma olhada na matéria, disse ele com um meio sorriso cheio de significados. Ela agradece, obrigado Gerard, você é um amor, mas ambos entenderam. Você é o meu amor . Por essa comunhão Gerard desistiu da confissão. Para quê? Ambos sabem. Ruídos de passos sobre pedrinhas. Vamos. Tchau, Eduardo. Obrigado de novo, Gerard. Uma delicadeza ter se lembrado. Mas ela continuará sozinha e nunca se acostumará com as comodidades dos tempos modernos. E os dias passarão enquanto o coração dela estiver se entregando à tarefa de ser ainda jovem e sedutora em sua blusa sem mangas e shorts azuis, como se fosse serena, acenando. Tchau, Eduardo! Tchau, Gerard! Tchau, senhora Lens! E os dias passarão sobre aquela voz, até tornar a encontrála em outra porta. Até logo, senhora. Tchau soa como Adeus. Gerard nunca se despedia assim da senhora


Lens.

Deitada a sós comovida. Gerard era realmente gentil e atencioso. Por que Michele não usufruía do amor de um marido assim? será que desconfiava de alguma coisa? Não. Teria vindo agredi-la à menor suspeita. Gerard não era muito simpático, não o tipo de simpatia que se costuma cultuar em sociedade. Falava pouco, o necessário; não tinha boca para falar mal de ninguém. Sempre disponível apesar de suas ocupações. O que mais se pode esperar de alguém? Um jovem difuso, cujo silêncio em grande parte lhe era consagrado. Acredito que esteja se aproximando o momento. Depois que as luzes da casa se apagaram pude ver claramente. Vou acreditar. Essas coisas acontecem. Amor à primeira vista. Premonição. Coincidência. A questão é outra. Quando acontecer, estaremos preparados? Quanto o amor sobrevive à união? Sem idéia das horas, a senhora Lens foi surpreendida pela noite.


Eduardo e Keshia. George e Cati. Gerard. Era o tipo de noite em que ela costumava se levantar tateando e buscava o interruptor do abajur da sala, ligava para Silvia ou recebia ligação dela. Hoje, de que falariam? Silvia e Victor. Não houve tempo de conversarem ou a amiga escondeu o caso? A senhora Lens teve o seu na luz falsa das comemorações que abrigam o que não se permite no cotidiano. Lembrar. Esquecer. Notas de um mesmo movimento. Seu reflexo repete no espelho a interrogação no rosto, nostálgica. Rose e o rapaz da festa. Em noites como aquela conseguia rememorar. As luzes, as pessoas engalanadas, o apagar das luzes – imagens atualizadas de um ficar inesperado. Jamais antes nem depois jamais – mas era um menino tão gentil e tratou-a como uma igual, ela, entrada nos trinta e tantos. A escada na penumbra de um mundo indiscernível e nesse mundo a mulher que se pensa acabada para ardor assim associado a arroubos que nem em


adolescente. Rose e esse rosto familiar do estranho logo dissolvido nos gemidos ajustados ao evento atemporal sem uma única palavra, não que se lembre, sem repúdio ou conivência. Saudosa do que não viveu. Sente os dedos másculos e a própria masculinidade agora, o que é isso, sou noiva. Lívida esquecera. Não lembrará de novo exceto quando estiver consumado e depois tornará a se esquecer.

Não sei o que há comigo, apaixonada? deixandome levar por caminhos perigosos a que Victor me arrasta – não sei e não quero saber. Só me importa estar numa praia como essa e sentir uma chuva assim e por essas vielas passar em meio a pescadores e catadoras de conchas como se não mais pudesse viver sem esse cheiro nauseante. Depois que as pegadas das sandálias delas somem você praticamente é obrigada a imaginar para onde as levam, se voltam para casa ou se ao contrário fogem sabe Deus para onde, como eu


costumava fazer quando meu pai me repreendia com descaso – esta Celba onde pretendia vir ver a questão do voluntariado e agora é cenário do arrebatamento de sua alma insensata e inconstante. Ou talvez saiba o que há. Quer ir para a cama e não estar sozinha quando acordar. Silvia sabe que não há consolo. Soube quando conheceu Gerard. O interlocutor virtual foi a última gota. Não irá mais esperar.

Se Victor amava Cati, Silvia nem isso. Sofre apenas por desejar a dor. Aquele a quem ama a sua melhor amiga. Inquiriu desse amor a Gerard, que não o confessou. Os comentários aos posts que ele publicava tinham essa direção. Internet como ferramenta de aperfeiçoamento do ciúme. Essa merda de ciúme. Insiste no propósito de ouvir a confissão que jamais veio sem saber que Gerard a guarda para a própria senhora Lens. A conversa no messenger batia sempre nessa tecla, cheia de carinhas maldosas. Mesmo depois de conhece-lo pessoalmente, Gerard era ainda um


contato de rede social, um nome entre tantos no chat . Não era, como ela disse uma vez a Rose, exatamente uma pessoa. Decidiu-se assim por verdades em potencial e ficar com a que lhe pareceu mais atraente – Cati e George. Esperou dar com a tragédia um sentido para a vida como se a vida precisasse de algo além de ser realmente vivida.

Do outro lado da rua, próximos ao lago, dois passantes observam o vulto. Percebem que é um homem e imaginam uma pessoa solitária. Michele ressona. Ressona ou ronca mesmo. Nesse caso pelo menos estou realmente só. Mas se fosse a senhora Lens, ah que bobagem, seria sozinho também. Logo cansaria, como de todas. É sempre escura a noite quando nos damos conta. Paralisante o conhecimento. Uma vez naquela primeira semana, ele ligou o computador e percebeu simultâneos os pássaros da manhã, pássaros são próximos, pássaros são sempre


disponíveis. Os pássaros da manhã ou da noite. Na trilha luminosa da sua janela mais próximos que a senhora Lens mesmo na exuberância das fantasias e naturalmente muito mais próximos de Michele.

Estarei perto de Deus porque a Ele me dirijo, reflete Victor no momento derradeiro, ou do inferno porque me dirijo com semelhante fim? Andara se dizimando numa novela sobre seu relacionamento com Cati. Ninguém dava a mínima e ela menos que todos. Mas enquanto estava vivo – pensou a senhora Lens quando ouviu passos lá fora em horários em que ele costumava chegar (mas passaram), Victor deu provas de que se tivessem lhe dado chances tornaria o pólo literário de Celba uma realidade. Havia os meios. Assim se entrega Victor à empreitada como a um amor. Se não houvesse dinheiro envolvido. Se só dependesse de boa vontade e talento. Tem dias que se sente muito cansado. George possui energia


inesgotável. Logo. Quem sabe. Hoje. Agora. Diuturnamente os dois como criaturas invisíveis pairam sobre vales de suor e vertigens. Se Cati pode ficar com ambos, terá algo de cada um deles. O melhor, é claro. Que dúvida. Seus olhos vasculham todas as possibilidades. Uma divindade animal que acolhe os melhores pedaços e queima os restos em seu império. Celba parece pequena, apenas parece. Vai destruir a vida dele, Silvia. No primeiro encontro ele irá se queixar. Por que escolhemos sempre as pessoas erradas? Pelo menos encontrara em George um amigo. Não suspeita. Longe disso. Apesar de medíocre, Victor é uma ameaça – diz George com os seios de Cati nas mãos – porque tem um estúpido estilo. Isso o incomoda mais do que os processos contra ele. Aí Cati. O flerte depois o caso, a ligação suficiente que galga esse nível, está agora acima de toda hesitação do homem, ele está em suas mãos, convenceu-o de uma vida regrada, está perto de fazê-lo esquecer, com a doença de Joana, toda a miséria de depender de


prostitutas para o que uma mulher de verdade pode suprir. O caso e depois a cumplicidade. Braços abertos cuja sombra na parede lembra águia, abutre, e na escuridão a voz entre sussurros de gozo planeja o futuro, a voz grave de George, acima dos provincianismos de Celba. Não há dúvida de que ao lado de Cati realizará todas as suas ambições.

Réstia da luz do dia por sobre o casario de onde se destaca a morada branca com detalhes em tijolos vermelhos. Victor é um ponto diante do portal confundindo-se com a sombra do muro. Tinha ido discutir com George alguns títulos da nova coleção. Lembra que a vila estava quase oculta na bruma. Pernas pressionadas num beijo sob o fícus – qual o encantamento desse lugar? logo a treva oculta as partes ainda visíveis do rosto dele. Bebemos muito talvez. E um só rosto úmido de orvalho e cabelos entrelaçados. Como vai, senhora? – perguntara ao


entrar. Muito bem – respondera Silvia, avaliando o seu sotaque, possivelmente da região dos Bálcãs. Obrigado, disse ele. Gentileza. Não, disse ela. Verdade. Ele é muito talentoso. Uma nuvem passa enquanto ela pergunta se já tinha se relacionado com uma mulher mais velha. Ele tem namorada. Ela sabe. E sabe outras coisas sobre eles, sobre ele e Cati. O quê? Pergunte a seu patrão. George? Existe outro? O que vocês sabem sobre Cati? Homens apaixonados são cegos. Estava insinuando? Afirmando. Oh não chore. Silvia não queria que ele se magoasse mas não tinha escolha. Um rapaz tão correto. Não podia permitir que continuassem a enganá-lo assim. Deixe-me consolar você. Que consolo para semelhante dor? Outro amor, talvez. O cheiro dela, esse perfume. Não. A morte, somente a morte.

Cálida a mão que o toca, sabe das coisas, não fale assim, não pense mais nisso. Silvia. Tessitura da pele,


ruído de tecido, peso do tempo. Escureceu. A luz do poste é quebrada no alto do muro, o que resta se dilui entre as folhagens. Centro do decote, joelhos que sentem a terra fria, por que ela fazia isso? Precisava de uma razão? Pois bem. Se estivesse certo queria morrer com ele. Quero um consolo também, disse ela. Victor tenta afastá-la. Deixe-me em paz. Não. Morreriam satisfeitos. Ela fala sério? A casa de George tem um quê de tétrico. Então é realmente isso o que quer? Michele esteve olhando pela fresta da cortina até esse momento e viu quando Silvia se abaixou. Cheiro forte que anuncia aparição. Victor se rende. Pede que ela continue. Eles não mereciam. George e Cati não mereciam a dor de Victor. Não pare. É uma noite limpa, linda, é uma Celba de paz que eles vêm pela janela da pousada. Poucos minutos desde a saída da casa dos Lens. Era um desejo verdadeiro e turvo que compreendia a idéia de consolo mais que de satisfação e dificilmente poderia portanto satisfazer. O que afinal um para o outro? O efeito do corpo dela é abrasador.


Enganam as roupas discretas e escuras que usa.

O inferno espreitava quando dentro da bruma suave um portão rangendo se abriu. Eram dedos finos e hábeis de quem digitava bem. Doutora competente. Na madrugada sombria a língua fria como o mar de Celba. Triste ainda e pelas revelações extenuado ele sentiu o bloco esquecido forçando o bolso enquanto gemia. Súbito um outro barulho, uma porta. Se assusta. Ao discernir os vizinhos de quarto se pergunta por que está assim alterado. Apenas alguns minutos ainda: não mais que alguns minutos. Gerard foi receber o Fundo de Garantia e viu quando subiram. Não sabia como se sentir a respeito. Maquinal, à porta do apartamento. Chegou a encostar o nó do dedo na madeira. Não houve batida. Fiquemos assim, fiquemos aqui. Parece um bom lugar para o pernoite. Estamos indo logo cedo para aquele outro balneário não estamos? Hóspedes são todos iguais. Michele passa em


frente ao hall e segue seu caminho. Caso prestassem atenção perceberiam que a cidade estava mais quieta do que costume na temporada. Caso se desligassem dos próprios pensamentos e tivessem acompanhado os noticiários. Houve enchentes nas províncias vizinhas, uma catástrofe. A cidade isolada. Mas os sons são os sons de sempre, a música dos cafés e o ruído dos geradores, bombas d´ água, pessoas, televisão. Não som de rua ou pneus sobre a rodovia nem ecos residuais de motores. Caso tivessem prestado atenção teriam percebido. Victor porém estava totalmente absorto e Silvia não estava ali, como nunca está em lugar nenhum – se parecia livre era justamente por isso. Literatura de terceira, pensa Vitor. E a vida não acontece sem um monitor na frente dela. Vida de que Cati transbordava. A lembrança dói. Cati, por quê? Ele a amava tanto, tinha feito tudo por ela. Cati e George juntos, a união de seus fracassos, consumação do perdedor em todas as áreas. Mas nada impede que você mantenha os planos de George. Escreva as


novelas, erga o pólo, Silvia daria uma força, casar com Cati não é nada no projeto. Ele se livra das ultimas resistências com horror. Todos irão se lembrar de que era novembro, poucos saberão que a causadora foi Cati, ninguém mais ouvirá falar dela. A cada rosto de Silvia, Victor vê o futuro próximo que jamais a assustou. Agora teme. Mãos trêmulas, língua áspera, odores fortes sobre seu o corpo. Nada inerente à sua fantasia. Pensamento e comportamento se haviam desligado um do outro e os dois de Victor. Silvia não sabia que um escritor podia ser assim. Ao longo da noite, por causa dos tempos condenados a não vir, Victor pediu que ela sentasse e levantasse, levantoulhe os braços e segurou-lhe os pés, mandou-a se mexer e parar de se mexer e agora por favor deite-se. Então ela lembrou-se de que não gostava de obedecer. Pare. Parece patológico, doutora? Ah Cati, como a teria feito feliz, pensou ao ouvir a outra voz. Está me machucando. Silvia só queria de novo estar sozinha. Ansiou desesperadamente prazeres


anteriores, estar em sossego, sem perturbação além do barulhinho do messenger, mas é tarde demais, está mesmo machucando e não é o que ela estava querendo, não mesmo, que pensamento vulgar, nada mais tem a ver com o outro Victor, o idealizado, talvez até verdadeiro um dia, quem pode saber? Quieta. O corpo dele desenvolverá novos e hediondos odores.

Michele vira o bastante em casa para prever aquelas coisas e viu mais ao segui-los. Mas não o brilho da lâmina, a sombra do braço. Alguém ouve o grito mas melhor fingir que não. Silêncio agora. O ônibus de São Braico. Silêncio de novo.

Foi tenebroso, horrendo, bem que papai sempre desconfiou que eram loucos. Michele saiu da missa de moto no começo do sermão. Gerard deseja saber onde vai e encontrar quem. É a primeira vez que tem ciúme.


Todos os gestos de Rose, todos os seus movimentos na cama, cada expressão de alegria ou gozo, continham vastos atributos de pura imaginação com o que a filha não pode rivalizar porque toda sua agitação real é suada e fora de hora. Esse lampejo da dor amorosa não experimentada podia estar acenando com um descanso de realidade para a fatiga da interminável quimera.

O sino havia tocado. Joana se levantou da cama, olhou-se no espelho. Magérrima. Pálida. Perdera o cabelo. A maconha controlava a morbidez da quimioterapia. A vontade de vomitar chegou súbita. Seu fornecedor, um jovem de 20 anos, havia sido preso, estuprado na cadeia e se suicidara. A irmã de Joana, surpreendida fumando, assustou-se e tentando fugir foi baleada. As doloridas lembranças se mesclam ao alívio na fumaça. Desde o final da tarde até o amanhecer manteve-se sentada, jogada na poltrona


junto à janela. Então se levantou e lavou a boca. Olhos encharcados e vermelhos. Do líquido lacrimal insistente brotaram lágrimas de verdade ao evocar o fruto de seu ventre. Leva a mão à gaveta, apanha o permanganato e se perde na contemplação do vidrinho.

Sarah vai deixar a cidade em definitivo. Não é uma surpresa mas bem poderia ficar. Tinha ganho muito dinheiro sem nunca precisar de um dia de trabalho e sem se prostituir, se é o que você está pensando. Teve namorados, meninos ricos da cidade e amou alguns nativos, como Eduardo. Vamos, disse ao motorista, estou um pouco atrasada. Todos viram o táxi partir, pegar a rodovia. Quem a poderá acusar? Não decerto um único habitante de Celba. Enquanto não chegar, enquanto estiver no caminho, poderá pensar que em São Braico será muito diferente. Tem pelo menos três endereços. Sentirá saudades?, pensa Eduardo ao ver o


táxi sumindo. Sentirá saudades?, pensa Sarah vendo Eduardo ficar mais e mais pequenino. Que jamais volte, pensa Keshia. Queria ter sido como ela, pensa a senhora Lens; não, não queria. Que bunda, pensa George; que peitinhos!... Talvez jamais volte a comer uma menina tão gostosa.

Depois daquele dia Michele sentiu uma mudança estranha. Não ia tanto ao cinema e lia quase nada para ter a ver com o que o marido sempre dizia, que livros e filmes devem ter essa virtude, provocar compreensão e mudança. Talvez se deva à partida da amiga com quem tanto aprendera, às iniciações que partilharam. Mas de repente um céu rosado ou os detalhes assombrosos do amanhecer a remetiam às descrições sutis, refinadas, de cenas diárias de uma vila de pescadores nos poemas de Silvia. Sim, lera a obra dela, a pequenina obra, três livros com edição do autor. Parece que há em Celba algo que incita à


formação de escritores. Mas Silvia não era de Celba. Amara verdadeiramente o que aquela mulher tinha a dizer sobre um mundo de noite de núpcias que se prolongam além do jardim. O pacto suicida a havia impressionado. Temeu ficar na capela onde eram velados os corpos.

Ainda fascinado (não como no primeiro dia) por seja lá o que fosse que cercava a senhora Lens – algo não puramente físico mas que existia por causa do corpo dela –, onde está agora que contempla não mais o ideal proibido mas a deficiência do próprio ideal não comovente como antes? Ora, se a inspiração depende do que é material –inspiração, a mais imaterial das coisas –, tudo passa a ser questionado, num mundo ou no outro. Você amou, é verdade, foi tocado daquela forma pela visão da mulher, porque representava libertação da visão de mulheres. E agora o que significa? Esse vazio. Vê com indiferença a graça ainda


perceptível no olhar e nos modos. Como se registrasse essa beleza para um outro ser que o habitava. Mas se desejos do visível são carência de criatividade, o desejo do visível que buscava Michele nos escritos de Silvia estão representados agora na própria Michele, no desejo dela a que Gerard sucumbia. Se rendera à realidade e agarrou-se a ela. Tábua de salvação. Para que sonhar como outrora se não havia mais a capacidade de sonhos de outrora?

Penumbra matinal na casinha incensada, um bolo fumegante entre céu e mar. Manhã agradável que dá vontade de viver, de esquecer, de se perder no peso frio do vento, viajar nas vozes dos vizinhos, esquecer que estava aqui. Essa mão, esse dedos, esse dedo, o lugar desejado, o que há de diferente? Sim há alguma coisa diferente. O lugar exato, quem diria, pensava fosse um nerd. Essa outra mão não deixa dúvida. Michele convulsionada. Chega a ouvir o vento na


superfície da lagoa, como o epílogo de Bell Jarr.

O homem que foi bom com ela no princípio não haveria de ser indiferente com o que se passa agora com Joana. Na verdade achava um pouco de exagero dela pois sua aparência não estava tão má assim, em noutra ocasião não a dispensaria; mas é melhor pagar logo esse médico antes que se veja enredado numa situação constrangedora. Assim George se afastou definitivamente de Joana e Cati preparou a investida definitiva. Michele a odeia quando são apresentadas. Ira-se contra o pai. Traição. Não à sua mãe, que era nada; não à sua mãe, que tampouco se sentia traída.

Cada vez que trocava olhares com o genro era como se conversassem sobre o amor que sentiam, mas também sente o arrefecimento, essa nuvem estranha. Pensou que existe uma vida etérea que se basta, disse


a si mesma que assim seria e quase acreditou, mas enfim deixou isso de lado pela inesperada intensidade do sentimento. A arte não respirava ali. Longe disso. Subiu a mão pela barriga e encontrou o pulsar do peito. Estou bem agora. Ninguém nunca saberá e eu mesma esquecerei. Rose retoma sua arte do ponto em que estagnara, não desperdiça a tranqüilidade material e o conforto, é preciso fazer algo das violações. Ademais George é outro. Procura-a menos e não signifique isso que aumente o numero o número de suas saídas em direção à zona vermelha. Estão todos um pouco mudados. Desânimo em Gerard, dispersão em Michele. E ela ganha espaço, conquista crítica e público. Então efetivamente sublimara. Se foi o bastante para a realização artística, não bastou para que – tendo cumprido seu destino dentro da senhora Lens – perdesse Gerard aí um relevo que pedia não menos que a própria vida.


George se afastou de Joana, mas depois de uma discussão com Cati a procurou. Queria saber dela como estavam as coisas, como ia o tratamento. A vila está luminosa depois de dois dias de chuva que não refreava o entusiasmo dos turistas em final de temporada. A senhora Lens os escuta indo para a praia separados um grupo do outro por uma posição dos ponteiros e um movimento de luz na janela. As cores nos quadros retém novidade. O azul é mais frio, aromático; o vermelho faz sonhar, incendeia ao sol. O que se mostrou além da sonolência após o almoço supõe um tempero especial na refeição que com Gerard partilha depois do amor – a fantasia de tão real chega a doer como doem os machucados quase curados em lugares do corpo tendentes a batidas. Demoram pra sarar. Não podia evitar a visita da filha com o marido e sonhar não é mais tão fácil, às vezes sequer desejável. O que se mostrou além do estrépito noturno da rodovia recua ante a noticia do bebê. Talvez traga, como a própria Michele um dia, um


pouco de alegria à sua existência silenciada. Quem sabe um neto ajude também a suportar a tragédia de Silvia, em grande medida sua tragédia também.

Celba, como toda cidade turística, não possuía um mercado de trabalho relevante. Ele se desesperou. As ruas são até bem iluminadas. Deixar a vila. Entre os prédios, como que planejado, o vão para a cordilheira. Andou sem rumo. Chega, bate, entra. Desabafou acerca do desemprego com toda a volúpia da confissão que reprimia. Ela finalmente fala. Não precisava se preocupar. Ela falaria com conhecidos. Enquanto isso por que Gerard não trabalhava com ela? Era exaustivo fazer ser agente de si mesma. Está quase chorando. Ficou resolvido assim.

A Michele renovada, apaixonada, se desinteressa. Seu amor por ele não vinga. Enfadou-se do mundo


porque de há muito se enfadara de si mesma. Preferia cenas superficiais. Que constrangimento! Gerard não tinha amor próprio? Como poderia se excitar com alguém que trabalhava para a sua mãe? Talvez de alguma forma já soubesse. Talvez previsse as conseqüências daquela relação de trabalho. Quantas vezes ficariam sozinhos sem nada ousarem? Talvez sentisse pena deles, ou inveja. No desejo dos olhos, viu a rua. Havia anoitecido. Dissera a Gerard que iria à casa de Keshia. Ele sabia que não. O que não sabe é que, como o tempo e o mar estivessem muito parecidos com o do dia em que ali chegara, as ondas deslizavam direto para dentro das roupas dele, com licença, por causa da noite, dos tempos, dos braços comuns às poltronas, tudo se repetindo na janela de onde Keshia vê a amiga, e os dedos que se insinuam agora são os dele, porque é ela agora quem precisa de conforto pois Eduardo foi atrás de Sarah, só pode ter ido, e o sonho do estranho passou a ser tudo, mesmo quando não era mais um estranho e dali não adviria


mais nada. Com efeito, desde sete horas o mar esteve trazendo de volta a parada de ônibus e dedos gentis de um rapaz bondoso e compassivo. A espuma na areia trazia ainda em seus reflexos a realeza de um ônibus, a música lenta que há tanto tempo não é dançada, chocolates não mais comestíveis, o fim de uma era de festinhas e o cancelamento da página no Facebook. O que Michele estava pretendendo ao dizer que vem para cá? Por que não veio mesmo? Gerard continuava a brincar com o elástico e a respiração de ambos era cada mais regozijante à medida em que as notas do piano da sala aumentavam também. Quando Keshia foi para o seu quarto e se sentou na cama, as memórias que a esperavam na tela eram tais que ela precisou digitar quase 40 páginas em espaço dois como se outra coisa não fizesse que transcrever com rigor coisas que lhe eram ditadas.

A alameda sombria parece sacudida pelo terral,


esvoaçam os cabelos de Michele. Seu ambiente. Aperta os olhos. Está escuro, não lembra dessa árvore. A cidade está crescendo. Tantos prediozinhos em construção. O barulho do mar. O mar. Crespo, marrom. Como não visse a luz, indagou dela pela jovem de todos conhecida desde criança. Os que a revêem se espantam. Oh como cresceu! Os amigos de George bebem e tocam os copos num brinde à filha que acaba de passar. Aquela menina impregnava sua alma. Nada que uma prostituta, por jovem que fosse, pudesse dar jeito. Casada, acabou. Então por quê? Os postes se acendem no som surdo e a luz desenha as anfractuosidades no shortinho. Ah mas com uma filha dessas tinha mesmo de... George! Sai do prédio do hotel. Michele. Sufocação e espanto. Não podia estar ali. Mas como se ela sabia? Não foi uma boa idéia mas já que aconteceu, que está aqui, determinada entra por onde o pai saiu. Irá saber. Joana. A verdade. E o que Michele esperava? Que ele fosse fiel a uma mulher que ama outro homem? Quando uma palavra cala


dentro dela, Oh meu Deus, supôs que não ia suportar. Péssima hora para passar mal. Então deixa pra lá. Pensa no dinheiro que precisa tirar do caixa eletrônico. Quando a noite houvesse descido, estaria tudo terminado, ou quase. A criança. Alguém para ignorar o sentido da vida e buscar o inalcançável e perguntar inutilmente. Pensou como se sentiria acerca de tudo aquilo quando na manhã seguinte acordasse. Perplexa esteve sentada na cadeira do quarto em absoluto desconforto que agora cobra seu preço em câimbra. Gerard? O marido que não a incomodava. Então por isso. Que amasse sua mãe, os homens são assim mesmo, ela pode admitir. Sua mãe corresponder, era impossível. E como Joana, uma puta vulgar, seria a escolhida para a confissão? Nessas paredes sujas. Nesse lugar infecto. Viajou então pela profundeza de seus sentimentos e em todos viu sexo e morte. Será isso a vida? Não pode ser. Ei-la ali, mulher perante mulher. Refulge de vida enquanto a escuta. Jamais esteve entre semelhantes segredos. Eis a vida de que


se nutre o tempo. Eis a vida. Foi então que derramou a primeira lágrima.

O mar. As ilhas ao longe. Um barco. Pescadores que voltam, turistas que deixam a praia. Nas pedras mais alguns. Batem fotos. Um tira fotos do barco. Não vê a hora de fazer um álbum na internet. Movimento continuo mas ainda lento. Comentam. Quando chegar a alta temporada. É só um comentário não uma profecia todavia há um certo respeito religioso, um solene silêncio dos que escutam. Então pensam. O quanto será bom, o quanto revigorante, o quanto de sexo para compensar um ano enfadonho. A pousada. Os sonhos na entrada. Toda vontade se reduz agora a um banho quente, tirar esse sal, comer alguma coisa.

Num entardecer assim agradável Eduardo não


costuma parar para pensar com que roupa sairá, simplesmente pega as sandálias e veste uma camisa colorida. Mas estava atipicamente cuidadoso. Demorou-se diante do espelho no penteado e algum efeito de fato foi provocado pois ouviu uma ou outra moça comentar sobre seu porte na rua. Quem sabe mais atento, apenas. Que bom se Keshia percebesse algo assim, uma mudança. Deu por si com semelhante desejo sequer ligado a sexo. Depois de um tempo amante de Sarah um rapaz precisa mesmo de sossego. Pensar de modo prático numa forma de sustento, em não mais depender dos pais e poder sustentar uma mulher. E que mulherzinha adorável Keshia daria. Fofinha. Por ela valeria a pena deixar de lado a idéia de ir embora. Valeria a pena voltar. Terá ela sentido sua falta?

Será isso uma decepção? Keshia descobrira essa coisa de amor da pior forma. Haveria uma outra?


Quando a insistência da imagem de Eduardo com Sarah passou a habitar seus dias e transformar noites em insônia, pediu à mãe que a deixasse viajar para a casa da avó. O quarto que a senhora mantinha ali para a neta, lugar santo para as duas, possuía paredes de pureza tal que acalmava e inspirava como se o efeito de água nas paredes matinais fosse entorpecente. E após três ou quatro dessas doses noturnas sentiu-se refeita para voltar. Mas a vida não pode ser assim simplificada. Simbiose entre sonhos e realidade de que não se pode escapar pelo maniqueísmo. Porque também é verdade que Celba não subsiste apenas da luz. Em quase tudo obscuridade. Há um rosto à janela. Aqui está ele de novo. Seria fácil para as pessoas a julgarem, hipócritas. Sua agitação torna-se movimento. Nem se sente gordinha.

Gostaria de perguntar a Michele se ela acreditava em amor à primeira vista, mas a Michele a quem


poderia fazer tais questionamentos já não existia para ela. Nas loucuras possíveis de se fazer por amor. Nem precisava perguntar, naturalmente a resposta seria sim junto a um sorriso ambíguo e rápida mudança de assunto. Esse Gerard é uma gracinha e muito fofo. Sua letra não acompanha a idade, continua infantil como ela própria. Deverá se desculpar com alguém por uma certa dose de perversidade característica de tudo o que é infantil? Benditas as criancinhas mas seja maduro o modo de pensar. Por que Sarah não deveria ser para Eduardo o que esse sonho fora para si? o que Gerard quase? Em que medida foram sonhos? Fecha o caderno e o coloca sob a lista telefônica. Estranho não sentir qualquer emoção ao ver aquele que fora a causa de tudo. Por que não me deixou guardá-lo intacto na memória, bem como o que julguei amor? Oi Eduardo. Entre. Mas não diga que esteve aqui na frente de Dona Rose, ela pensa que Michele vai dormir hoje aqui. Mas que ele por favor apenas esperasse um instantinho que ela ia se trocar.


Eduardo sorriu imaginando coisas.

Quando estava com aquele vestido, Keshia regressava a um sentimento que ignorava toda sensatez. Quando dava por si sentia-se completamente feliz sem o respaldo de qualquer das circunstâncias de sua vida. Flor perfeita, perfeitamente efêmera. Não haverá um homem como Gerard ou um rapaz como Eduardo mas todas as coisas estarão restauradas e se estabelecerá a paz do amor e da realização do sonho de um lar aquecendo seu corpo com luz inefável sempre que ela estiver com aquele vestido azul.

Com súbita piedade Joana encarou Michele. O vento levanta a cortina e surgem as luzes e os efeitos das sombras. Anoitecer de novembro em Celba. O sino da igreja sela a hora e o desconhecido entretom na voz da prostituta. Não sou melhor que ela. Se deu


conta de que o amor por George a transformara mais até do que a perspectiva da morte. A verdadeira causa de mudança no universo onde nada se cria – não a consciência da morte mas a consciência da vida que se acrescerá da morte. Mudara em proporção tão imensa quanto pequenos eram os fatores que a mudaram, num processo análogo ao da ausência e reencontro: o milagre só espanta quem não o acompanhou por meio da companhia cotidiana. Olhares se sustentaram até Michele se cansar e baixar o seu. Mal se sustentava nas pernas... A amante com Aids, o pai vindo atender o ultimo pedido, que cuidasse do filho quando ela partisse. Mas o senhor Lens se recusou a crer que estivesse mesmo grávida e, se estivesse, que era ele o pai. Enquanto você me manteve, eu não tinha outros. Insistira inutilmente. Por que teria? Foi assim mesmo. Nem tentou chantagear meu pai. Cheia de ímpetos de decoro e decência, Michele se ofereceu para cuidar do irmãozinho como um irmãozinho do filho não-nascido. Poderia adotá-lo, se Gerard assim o quisesse.


Cuidariam da pobre criança, condenada como sua mãe. Por um momento esqueceu...

A senhora Lens deveria suspeitar... Ela estacou, colocou os óculos e leu o bilhete da filha. O relógio em seu pulso deu a hora cheia. Do rádio, a música enchia o ambiente entre as paredes gelo de sua sala de estar cheirando a talco. Momento especial em sua vida. O sangue corria quente. A pequenina Michele espera que a colher seja levada à sua boca. Acorreu também a imagem de George dez anos menos, segurança financeira, sem defeitos graves... E no começo me excitava tanto... — chora a senhora Lens no ombro de sua mãe, dias antes de a senhora Ponce morrer. “A vida não é só sexo minha filha”. Agora ela sabia. Que o amor não deve ser um lugar de sobressaltos eróticos mas um lugar de paz. Porto seguro. Quando George ainda subsistia de escrever estórias pornográficas, era gentil no trato íntimo;


depois de realizado financeiramente, tornou-se pornográfico, perdeu qualquer resquício de sensibilidade. A senhora Lens passou de si a lembrança. O calor da tarde percorria seu corpo. Pensou em Gerard, na tolerância que tinha para com Michele, em sua gentileza, na capacidade de ouvir embora ele não a amasse, ou não a amasse de modo especial, com o fervor com que amava a senhora Lens.

Onde estará Michele realmente?

Michele estava na praia. Era aonde ia quando triste. O crepúsculo introduz a noite e nova madrugada aos ventiladores se propõe. A aragem vespertina desliza e ondula o tecido leve da blusa. Que anda fazendo uma jovem tão doce, com esse estremecimento de bondade, uma criatura da grama que arde na canícula e sobre si deixa que pise o infinito vermelho como o desejo – um meio de expor as coisas, de dispor os pensamentos, estudo de coxas


em forma poética e extenuada. O desconhecido se dirigiu a Michele com sussurros obscenos e súplicas ávidas. Em silêncio Michele se deixa apalpar. Ele a leva para trás do parque de diversões e agora ele mostrarlhe-á, porque ela quer que ele mostre. Pensará a ter forçado. O destino do homem. A sina do macho, a satisfação de que precisam.

À idéia se juntou o elemento de sonho e um tema na tela se arranjou. O rosto de Gerard, teimosamente oculto pelas nuances de doze, como a indicar santidade, era o rosto da própria senhora Lens. O caminho da arte mercantilizada, inutilmente o abominava, porque necessitava de independência financeira tanto quanto se expressar. O rosto da senhora Lens oculto no de Gerard alinhou então rugas de expressão e um olhar desolado passeando pelos seus dilemas de menina. As indagações que fazia Michele, também a senhora Lens fazia e — como é


mesmo que se costuma dizer? — Onde errara?

De tudo que poderia ser atribuído a Michele ninguém pensaria na capacidade do gesto generoso após o qual saiu pela orla em final de temporada andando contra o vento vespertino. À perda do amor de Gerard que julgava uma posse análoga à sua casa, roupas e carro, seguiu-se um despojamento estranho. Calor. Sofrem as plantas nos jardins; definham como enfermos terminais. Suam e reclamam as pessoas que não podem estar na praia. As bicicletas derrapam nos areais sobrecarregando os rolamentos. Muitas vezes não resistem, fazendo das oficinas lugares sempre cheios. O calor torna os pneus muito mais sensíveis, explicou o mecânico à turista. Lembrou então Michele de dias semelhantes de sua infância — aquele em especial quando George bateu na senhora Lens enquanto as flores se alquebravam sob sol


deslumbrante e implacável. Uma semana depois, chove depois de meses e Michele presencia, como voltasse o pai de uns dias fora, escondida, pela fresta da porta, as lágrimas de George ajoelhado diante da senhora Lens, pedindo que o perdoasse, que ele jamais faria aquilo novamente. Chorou tanto que foi até consolado por sua vítima. O monte coberto pelas nuvens deixara de reinar absoluto como houvesse a paisagem se despido. O curso do rio retomou volume e corre pelo lado leste da cordilheira. Naquela noite – isso Michele não sabia com certeza mas podia imaginar – George possuiu a senhora Lens e lhe disse palavras de amor, prometeu mudar e ser um bom marido, fora a bebida, a maldita bebida... A senhora Lens fez que acreditou e na verdade gostaria de acreditar, mas a bebida não modifica a essência das pessoas.

Após ter sumido um tempo enorme voltou a ser


ouvido o barulho do mar. Ao sul da foz onde antigamente traficavam escravos, negocia-se cocaína em casas humildes. Quando acorda pela manha, há silêncio na casa. Michele, menina de seus oito anos, saiu com seu cão pela praia, esta mesma praia. Não havia vento como agora pois as manhãs da vila esqueciam-se no mar parado num espelho. A roupa ainda não tirada dos varais não tremulava assim, estalando como uma fogueira. Não pudera a senhora Lens figurar de sublimação todo seu sentimento por Gerard. Limitação da vontade diante do destino básico. Malgrado suas teorias, seus sonhos de uma arte melhor, à medida em que era empurrada para a vida do genro, da qual abdicara ele os prazeres, ela mais se entregava, afogado sem forças para lutar contra a correnteza. Não podia mais e tomou-se de diferente ânimo. Fez-se madura como no físico. Sua luminescência é a daqueles que se santificam. Pela primeira vez desde que conheceu Gerard ela passa a se preocupar com ele. Com sua saúde, com seus


sentimentos. Gostaria de saber como ele superava aquela situação. Falava muito em Deus – Deus o estava fortalecendo? Num primeiro pretexto, iria visitá-los; e quando Michele os deixasse a sós, diria as palavras.

Naquela tarde brotara dela um desejo premente de pintar qualquer coisa sugerida pelos Gestos de Chagal. Sujeitar-se-ia a qualquer coisa menos à experiência banal de um outro dia sem a satisfação do amor – um desejo ardente de pintar o gesto definitivo da vida que seria a pintura de um gesto seu na direção de Gerard para ao menos a eternidade de um único beijo.

Após ouvir da arrumadeira o recado da filha, passava com as sandálias nas mãos pelo frio contato com a terra das ruas da vila. O sol no horizonte. Sensação incomum debaixo da saia. Parece confortável e adequada mas apenas para hoje harmonizada com o


desejo não mais reprimido e amadurecida no isolamento que foi muito além de seu limite.

Batidas na porta. Gerard se aproximou. Quase em contato físico em notas de olores desfaleciam. Refeito da surpresa ele precisará de um repertório de expedientes. Não se deixou trair exceto pelo brilho em seus olhos, mas a senhora Lens não o podia ver, cega pelo brilho dos próprios olhos. Parecia que ia chover de novo. O dia reflete nosso espírito. A senhora Lens acredita que sim. Chove e a chuva nos penetra. O calor acalora os ânimos. Então Michele não vem mais hoje? Gerard imagina que não, ela costumava dormir na casa de Keshia quando ia lá à noite. Espero que não seja mesmo nada, disse a senhora Lens. Não era nada. Talvez o cachorro. O cachorro? É. Michele comprara um filhote

– A senhora quer ver?


Ela responde. Diz que está com pressa, deixou muitas tintas expostas. Mas se Michele deixou recado, é provável que tenha mudado de idéia, que volte logo. Por que ela não espera um pouco ? Realmente estou com pressa. A desculpa morreu na boca da senhora Lens quando sentiu o pingo da chuva. Concedeu. Entrando, agradeceu as flores que ele enviara no seu aniversário. Foi só uma lembrancinha, disse ele, e ela e arrematou sem pensar, por alguma estranha associação de idéias: – Lembra do dia em que chegou? Como poderia esquecer? – Eu vi a senhora pela janela do ônibus, confessou. Uma flor, pensou, olhando os cachos pendentes da primavera, que luziam. Uma flor — deixou escapar, constrangido e realizado. — As flores estão destinadas ao sacrifício por alguns momentos de beleza... — disse a senhora Lens, enrubescendo. — O que sequer é meu caso.


— É sim. Com todo o respeito. Ela era linda.

Segundos antes era um entardecer como todos. Difícil entender o destino. Desnecessário entender. Um largo das Estações transcorria ao fundo. A senhora Lens era um adágio. Qualquer coisa em seu rosto. Serena e triste. Paz intromete-se nos nervos sem memória. Embora amasse tanto Gerard, esse amor, uma força trazida intacta desde que a gerara, por sua muita renúncia carregava a alegria do desapego. O amor saía de si e voltava para si mesmo, para sua fonte. No coração da senhora Lens dissiparam-se as nuvens e ela pela primeira vez na vida conseguia ver. Por terem assim coincidido afeto e circunstância, as feições de Gerard eram as feições mesmas da vida, da liberdade. Atingira o fundo de si mesma. A calma, o adágio, a simplicidade. Ansiando partilhar esses bens adquiridos. Gerard a olhava sem esperar resposta. — Obrigado, mas não... não sou bonita e não se


fala mais nisso. Chovia que nem se ouvia tão fininha era a chuva. Véu de retículas ancestrais. Por trás da senhora Lens, pela janela entrava a noite. Amava-a tanto que doía. Como Sílvia costumava recomendar na época da internet, depositara seu segredo num poema. O caderno aberto perante a senhora Lens. Desfaleço. Hoje. Teu corpo. Meu abrigo. Amanhã será tarde. Língua. Minha voz. Lado a lado. Hoje. Amanhã terei transbordado, amor. – Hum... quem é a bem aventurada musa? — perguntou a senhora Lens, rezando. Na primeira vez ele soube. Por meios enviesados, é verdade. Que seria ela a sua vida. Também por outro lado não seria. Porque estavam proibidos um ao outro e só teriam um ao outro daquele modo etéreo e inexorável. Por que ainda a olhava assim? Não era mais preciso, ela se entregaria. Ainda bem, pensou, escovara os dentes e fizera bochecho antes de sair.


Mas o tapa no genro negou tudo quando, sentada no sofá, ele aproximou os lábios dos seus.

Seu joelho direito apóia-se no outro, proibindo qualquer contato. Ele leva a mão à face ferida não mais que seu amor próprio. Então se enganara todos esse tempo... Ele deixa que quebrem as ondas por tanto tempo cheias e enchendo. Ela se inclinava até o encosto lateral quando percebeu um Gerard desconhecido erguer-lhe a camiseta. Os olhos dela piscam de agradecimento, as menina dos olhos saltitam. Ela séria educadamente o reprova. Não se advinha em sua face qualquer resquício de prazer. Se é assim. Determinado pela vergonha imperdoável de sua miragem. Não importa. Inclinou-se de novo e o som de sua boca podia ser um clamor ecoando o constrangimento. Mas também. Vantagem de conhecer os atalhos do sofá. Aspereza no centro das palmas de ciclista. Um mamilo beijado e outro torturado entre dedos. Pára apenas para que os olhos se cruzem por


um momento necessário nem longo nem rápido – silencioso – até que tudo tenha sido esclarecido. Então prossegue. Frisson mais que arrepiado ao redor. Amplificação sob a saia leve e rara. Ela produzira tudo – ela! – sozinha e desesperançada – tinha portanto todo direito de regozijar um pouco mais do que seria esperado noutra circunstância. Por exemplo, na festa da embaixada repetida agora em detalhes sutis. Nunca mais abandonada. Faces e outra tentativa menos afoita. Consenso. Vento e mar – sempre – e céu. Calor de universos desce pela garganta. Fechou os olhos, inclinou a cabeça mas conseguiu falar. Sou velha pra você. – Não conheço mulher mais jovem tão desejável. – Pare... Sou mãe de... – Não fale mais, senhora... Eis o mundo na mesa de centro. O vidro reflete o rosto macio e lúbrico. O tecido da saia realmente tão leve. Foi preciso pouco mais que um sopro. Joelhos firmes e coxas retesadas. Ele não imagina mais do


paraíso nem eternidade melhor. As costas da perna direita está manchada pela morna luz que define pontos estratégicos em que um homem se perde e encontra. A alma ali refletida. Quando – caso tenha acontecido – em outra mulher, vislumbrou ele tamanha remissão? As mãos percorrem as ancas intuitivas como se estivessem sendo arrastadas e se deixassem extinguir por aquela outra vida tornando-se uma com essa existência agora sua. Ela apenas parece indolente. Olhe os seus pés. O balanço eriçado e franzido, encrespado. Ondas crescem juntas mas a explosiva espuma se derrama como uma voz que segreda no quarto onde a segunda se move no sentido do terrível pedido do crepúsculo. A panturrilha hirta. Outro crescimento desde os sulcos do mar híspido. Descem os músculos lateralmente contra a pressão que sobe incontida. Não são homem e mulher; nem animais nem seres civilizados. Não contêm em si mesmos os previsíveis costumes e prisões. A nova quebra da parede de água respinga o horizonte. Mãos.


Correntes. Um dedo que aponta. Ali. Um outro que assente. Estou vendo. Não há temor, o amor lança-o fora. Olhe os olhos dela apertados e vermelhos. O meu amado pôs a sua mão pela fresta e as minhas entranhas estremeceram por amor dele. Tudo o que surge concede lento ardor. Firmamento e galáxias em tépida polpa. Devoção. Bruma e garoa sobre a árvore solitária.

Ecos imaculados se aproximam: sons de esperança remota que ressurge e insiste, atravessa limites e procura, invade. Não deixarão de se fazer ouvir. Não importa o que ele faça ou como o faça, ela irá adorar e será aquilo que desejou. A cada movimento o reflexo no vidro se transmuda e contempla a inesperada ventura. A cada roçar o semblante imagina se os transportes provém de tecido ou pele ou lábio ou língua. Está agradecendo a Deus. Por que não se conheceram antes? Que palavras são essas? Deixe que ele as entenda. Sim, um homem especial.


Ela se recostou. Lua entre nuvens. Fizeram o necessário, agora a melhor parte. Por que às vezes não chega? por que não pode durar? Tão sobremodo simples! O destino traçado pode ter modificações de percurso. Partes sombrias a expõem mas não importa mais. Submissa porque ainda insatisfeita. Ditou o ritmo das coisas que devem perdurar até o preciso momento. Não pode mais e se solta.

A sala ampla amplamente iluminada. Lâmpada um sol num momento outrora impiedoso. Não agora. A luz delineia caminhos, as ladeiras que sobem e as que descem, as trilhas de terra batida. Essa subida em especial se beneficia de tanta luz, depois uma descida próxima. Alguém escuta os sons da noite, os chilreios, as pedras e as folhas? As moças que passam são nativas. O carro é o carro do dono da padaria. A rua está mais escura do que de costume.


Perfeitamente acomodada à nova nudez. Coisas um pouco mais rudes do que poderia supor: a gentileza convive em Gerard com uma determinação rude ao levantar as pernas dela pelos tornozelos. Que seja. Não tentará adaptar a realidade à sua imaginação. Se é assim então que assim seja plenamente. A casa e as horas. Ondas nas falésias. A pele mais grossa dos calcanhares.

Os contornos são fugidios, as paredes eternas, o assoalho de quando em vez estremece – ou não será talvez o assoalho. Não a cronologia mas o fragmento. Não a idéia absoluta mas algum tipo de aproximação. Partilham a terra que ser humano algum enfrenta de peito aberto. Passeiam pelos jardins com as próprias histórias. Sob o mesmo céu com sonhos diferentes. Ele de conexões velozes transportando informações sem palavra; ela do balouçar das ramas submersas, das grandes auréolas – retiram do mundo todo excesso para que possa voltar a girar.


A mesa onde seu amado come, o arco do triunfo e do domínio. O instrumento e também a música que ele toca. Sou uma mulher perdida. Tenho o direito desse toque, desse beijo. Tenho o direito desse joelho apoiado, da palma fundamentada, da subversão de todas as coisas. A senhora Lens ouviu o pássaro da noite quando se lembrou de Gerard no dia do almoço do aniversário de Michele. Se eram dois pontos e se o rosto que ela via hesitando entre dizer algo e não dizer, se esse último Gerard nascera do primeiro – o estranho do hotel e o amigo da filha –, então o ciclo perfeito se fechara.

Devia ter sabido que não se brinca com essas coisas impunemente. Talvez pensasse nisso, se pensasse. Estão ali, isso não é mais passível de ser repensado.

Eis as mãos de uma dona-de-casa que jamais


deixou de ser mesmo tocada desse modo. Casa que era, de tão sua, seu prolongamento: sua habitação, seus sonhos, seu ser, tudo passava pelas paredes de sua casa. Era do lar. Teria sido ainda que não fosse artista. Gostava de trabalhar, odiava não ter o que fazer. Ninguém poderá dizer que foi por isso, por ócio. Tudo começou por causa do trabalho. Ela precisa demais de seu trabalho, não saberia viver de outra maneira. Quase estava se apaixonando por si própria quando se apaixonou por Gerard.

Ele faz com que ela própria mantenha o mundo preparado enquanto finalmente se despe de qualquer ardil. Ela entende. Deixara-se cair – inesquecível carpete – e agora se ajoelha e não vacila, não se detém por falso ou verdadeiro pudor. Chega afinal o momento. Ele merece. Merecemos. O mar à janela, cheio e de luares transpassado. Deus meu, a senhora Lens realmente possui uma elegância secreta. Gerard na serenidade de apenas contemplar. Não saberia


dizer se foi destino ou a vontade que dobra o destino. Fantasiaram a tal ponto, com a solenidade da terra em sua órbita? Imaginaram que se amavam tanto? Chora. É de exultação, ele acredita. Coberta, dizem na roça, bem se lembra das férias de infância – coberta, aquecida, luzente, molhada, derramando-se no ajustamento perfeito entre dia e noite, entre treva e luz derramando-se, como a manhã amanhã no horizonte de que essa exclamação é prenúncio.

Um giro de dorso seguido do beijo mais longo. Agora é questão de tempo, do máximo de tempo possível, ela espera. No silêncio refeito em marulho resfolegando santificam o mundo. Um pelo outro sim, mas o gozo é sempre solitário. Ao longo da rua reina a adequação de tudo. As casas com os vidros batidos e escuros e um recorte de janelas qual o de igrejas, cada qual tem seu poste e relógio de energia. Um sedã estacionado em frente. Mais ao lado o pedreiro logo montará em sua bicicleta por todo o dia encostada na


alvenaria mal-acabada. Irá descansar frente à tv. O vidro do relógio de luz no poste de Gerard gira com a velocidade de uma geladeira esquecida aberta. Meu amor. O que será de nós?

O mundo aos olhos deles renasce. Desse orgasmo.

Assim estavam presentes na nuvem que passou com o frescor de sua sombra sobre a casa seguindo para as ruas e agora que alcançou os montes fez-se bruma numa face em que não há juízo nem vontade, num plano onde pouco existe além do desejo de estar vivo. Portanto todo o esquema de cores se transformou num momento suave e sombrio. Pensamentos humanos em aposentos humanos. Vou usar essa nuance com mais freqüência, misturando o vermelho e o lilás, e Gerard ia ser mais comedido em seu julgamento das coisas – os dois assim anoitecidos,


não estava criada a situação que pensavam impossível?

A senhora Lens, entre o constrangimento e a satisfação, pediu licença e foi ao banheiro. Ouvia o vozerio dos pedreiros indo para as tavernas e os pescadores saindo para o mar. Diante do espelho recompôs-se para o papel de sogra e amante. O sutiã não será necessário. Fazia parte de um milagre a que Gerard não era sensível. A senhora Lens ao natural era um prodígio mais generoso. Quisera que dali ela não se movesse mais, a mais bela imagem congelada. O olhar distante encontra o alivio que alguns chamam felicidade. Merkur Bay. O navio atracara no dia anterior. Quando um outro navio atracar terá se consumado a esperança? Imerso no verde de olhos, Gerard se batiza. O pijama ficou bem em você. Perderia no decorrer da vida aquele deslumbramento? De volta. Sentada na beira da cama. Só o pé esquerdo sobre o assoalho. A senhora Lens se permitiu


espreguiçar. Vidros batidos, escuros. Recorte de janelas qual igrejas. Cada casa com seu poste e cada poste com seu relógio. Então conheceu a solidão, quando soube que jamais estaria sozinha outra vez. Gerard viu-se de novo nos olhos da senhora Lens. Quase chorou ao se ver. A fantasia acabara. Ela se achava uma tonta, nada significava para ele. Ele a achava uma santa, estaria sempre a seus pés para adorar. Não seja tão teatral, disse ela.


O romance de Aleksander Tess parecia destinado a perturbar apenas aquele número restrito de leitores que já se reconheciam na obra do ancião, porém ele próprio sabia que isso nada era além da capacidade desses mesmos leitores de imprimirem no texto um reflexão pessoal influenciada pelas entrelinhas da vida nos momentos da leitura. Se alguém perguntava de onde tirou a idéia daquela protagonista, ele dizia que o que conhecia da vida daquela a quem chamara “senhora Lens” era o que ela própria se permitia contar nos raros encontros entre eles. Mas Yuan Tess, cuja natureza menos discreta o levou a se imiscuir em detalhes da vida de sua conhecida de Celba naqueles tempos após a morte de George, pôs em música grandes trechos do livro (composições que terminaram por fazer o sucesso que o romance jamais experimentou), imaginando que o amigo baseara sua obra na mulher. Não é verdade, disse Aleksander, e não creio que os boatos tenham fundamento. Mas o músico acreditava que ele mentia para proteger Rose.


E realmente muitas vezes os comentários que o escritor fazia sobre determinado quadro da senhora Lens deixavam-na exposta como se ele houvesse efetivamente descoberto seus mais íntimos segredos.

O rumor no escritório de George Lens entrou pelos ouvidos de Michele. Um estremecimento escrupuloso a sacudiu e seu coração disparou. O que se deve pensar num momento assim? De repente, a necessidade de fazer a coisa certa, que jamais a orientou. Estremeceu novamente e ninguém a isso chamaria de escrúpulo. O que é isso, esse prazer súbito quanto ao arrependimento? Michele, a implacável. Olhou na mesa a garrafa de uísque e um copo pela metade. Oi, minha linda filhinha. Percebeu a vida inteira mudada no olhar do pai. O que faz por aqui? Pediria testemunho médico. Se a ética impediu o profissional, não a abnegação da filha. Encarou-o. Aquele homem não merecia morte de mártir. Se


imaginou órfã. Difícil imaginar. Porque é fácil para a mãe de Keshia arrancar sons tão melodiosos das teclas e fácil para sua mãe construir tão grandiosas efígies. Aí a emoção vibra. Não nos passos de uma filha que se aproxima da mesa de trabalho do pai, rígida dos pés à cabeça. Abre a gaveta. Pegou a arma sem uma palavra diante de um George atônito. Disparos.

Abraçados, Gerard e a senhora Lens sentiam o coração um do outro. O toque tem memória. Talvez esse do depois mais que o da paixão. O toque tem o poder de transformar – não é assim que funcionam as magias?

Dois dias depois, sob as orações do pastor, o corpo de George Lens baixava à sepultura. O mar se esticava em ondas amanteigadas a quebrar miudinho na areia, diálogo de homens educados pausando entre as frases e silenciando à espera da réplica, às vezes


esticada numa explicação, outras monossilábicas. Olhando um ao outro fixamente. A senhora Lens colocou as suas mãos pequeninas, unhas cortadas rente, nas palmas que Gerard em concha lhe oferecia. Assim veriam sua obra as gerações futuras – a amante apaziguada. A senhora Lens dava a Gerard toda a vida pelos olhos para que ele a possuísse inteira e para sempre quando se soltassem. Gerard, disse a senhora Lens, onde estará a minha filha?

Michele passou a noite sozinha, sentada perante o oceano. O reflexo do sol na maré a surpreende. Entrará no carro e partirá sem destino. Na estrada da vila a letreiro de néon sem falhas ainda estava acesso embora já fosse manhã. As pessoas iam de lá para cá andando pela extensão da praia.

No quarto a antemanhã anuncia o que Keshia deve esperar do dia, inteira naquele azul. O que mudou com os acontecimentos recentes na cidade?


Azul o arrebol e não menos o tecido que ela exibe. Seu avô dizia que era preciso se dedicar ao bem sem demonstrações exteriores, em silêncio, quando muito em palavras escritas bem vividas. Com os animais domésticos, os mais velhos e sobretudo – a parte mais difícil – com seus pares – no caso dela as meninas e meninos de sua faixa etária. Levou a sério o conselho. Menina com problemas de peso, desprezada ou simplesmente ignorada pelos meninos, de nada lhe valia a inteligência, o interesse dos pais em fazê-la aprender francês e espanhol, se vivia enfurnada em casa, soturna. Vinha do médico. Únicos momentos de auto-estima. Pôs pela primeira vez o vestido azul.

Chega a rir, nervosa, ao se olhar no espelho. Seu avô descobrirá naquela noite os medicamentos para emagrecer. Ficará preocupado. Chamará Keshia para uma conversa séria a respeito de drogas e tentará fazê-la crer que pode ser amada. Você não precisa disso. Ela sabe que sim, não era mais uma menina.


Chamou a atenção dos dois rapazes, devia ter algo de especial. Viu-se derramar em doses generosas desse corpo em imaginações carregadas de hormônios. Você, repete o espelho. Na verdade não era ela mas uma imagem de si. Entretanto era ela. Por que mais a aparência de alguém que amamos seria importante? por que mais queremos ver uma imagem dessa pessoa senão porque representa o que amamos? Sim ela. Seus dedos gordinhos. Viu-se derramar de novo também no mundo real, naquele ônibus, no sono daquele rapaz. Só não consegue recordar se estava com o humor alterado pelo remédio.

Eduardo lembra que era pura criancice no começo, num outro dia que ela nem está sabendo. Ela parecia esgotada e foi isso que a princípio lhe chamou a atenção. Aquela menina, a amiga de Michele. Decerto uma grande amiga para que Michele não se sinta ameaçada. Dormindo no vagão. Na poltrona logo à frente. Michele deve rever sua avaliação. Ela tem


seus atrativos. Coisa idiota. Aproximar-se e tocar e ir além. Entardece. Hoje a lua cheia. Se ela está mesmo dormindo. Cuidado. Ele nem conhecia um desses tão de perto. Afasta-se o suficiente. Testosterona. Resposta quase entorpecente. Ela só deu pela coisa quando a voz anunciou a estação. Foi rápida mas já se introduzira num imaginário que depois ele próprio terá como pervertido. Muitas viagens comuns, muitas referências. Dias, horários. Jamais devia ter contado. Fantarello não era primor de discrição e boas idéias. Com outro envolvido ele perdera a pureza original do plano e a grandeza do gozo imaginado. Agora é tarde.

Ela percebe o roçar na parte de trás do vestido, a parte mais constrangedora de sua ridícula anatomia. Ouve as aves lá fora mesmo em meio ao ribombar ritmado nos trilhos. Escuta inclusive o próprio coração. Olhou o menino com terror na face. Uma após outra as casas passam à janela. O tecido não pára. Quem disse


que ela estava tão gorda? As dobras do vestido se acrescentam e sobrepõem. Reconhecido perfume. Seja como for, é amigo. Cetim ou cambraia? confortável quando amassado. Marca. Relevo. Uma escolha ousada, agora sabe – a primeira. Não imaginaria. Tão funcional. Olhe a paisagem. Um ricto alheio à vontade dos lábios. Ar acolchoado que se respira denso. Ele está perguntando alguma coisa no sussurro? E o que responde meu meneio de cabeça? Não, nem precisa. Numa outra hora. Agora está ocupado. Mas aqui não é adequado ir além. Ele a guiou apenas? Agora há privacidade e o feliz pavor da possibilidade de aparecer alguém. Mas não eram visíveis antes e não podem mais ser. Mas o toalete não pode ficar eternamente ocupado e era da eternidade que precisava. A cada minuto mais confiança no estranho como se fossem confidências. Talvez ela no futuro mal se lembrasse da mudança, a cumplicidade num canto trocada pelo lavatório do corredor, se não surgisse o componente


estranho em outras mãos que sucederam a abertura da porta. Temeu. Deixa de haver beleza, deixa de haver intimidade. Três é muito menos que dois. Ela não sabe se ele saiu ou está num canto observando. Não há mais espaço para sonho no cubículo, mas em silêncio ela ainda o procura. Corpos trêmulos. Sudorese e malhálito. Demônio. O auge não interfere como deveria, como Michele ensinou. Coisas da adolescência. Torpe. Agora acabará, ela imagina, mas não. Desiste. Ao sair está livre, pensou. Muito a refletir quando chegar em casa. Muito e mais pois o primeiro ressurge. A tarde cai nos vales. Rocio nas árvores. Todos são rigorosamente iguais. Sua idiota, quem manda ser romântica num mundo desses? quem manda ser gorda? Sua vaca. Atenda seu amo. Se despede de uma vida que não se renova quando ele enfim fala e pede desculpas. Não teve alguém em sua vida. Inquieta, pensando por exemplo em Michele, ligava o computador e escrevia. Podia passar muito tempo sem pensar nas


coisas em que qualquer mulher costuma pensar e quando acontecia era como se saísse de si. Tardes sem fim debaixo do pé de tamarindo envolvida nos cheiros da passagem. Depois a noite suave, repetida, banhada pelo rumor do mar. O universo chegava grácil e entrava em sua alma simples uma predisposição. A realidade pouco importa. Se ela demorasse mais ou menos sob a árvore, se o tempo estivesse chuvoso, se houvesse o desejo de ver um filme no dvd noturno ou um livro à lâmpada insone, então aqueles seres de sua memória se transformariam, sempre para bem, mesmo no mal aparente. Os lugares e as pessoas estavam destinados à sua eternidade pessoal. Keshia era criança, adolescente, uma mulher, uma simpática senhora. Neta e avó. Boa e muito má. Tudo com devoção que de nenhum habitante de Celba passava despercebida embora não soubessem a que atribuir. Recusando oportunidades – não a ousassem julgar – e sabendo que um dia ou outro não teria mais que se preocupar com sustento, o que infelizmente aconteceu


com as mortes inevitáveis de seu avô e mãe e pai. Vive só, de resto sempre. O que sabe é o que lembra e tudo lembra como quer. Vê a orla de Celba quando abre as páginas de seu diário. O avô está enterrado aqui. 1909-2008. A única cronologia de que não se desligava. Ele a escutou. Que havia mais de querer?


Quando põe o CD, ouve nitidamente os pardais. A música se sobrepõe. O efeito é belo. Causa estranhamento, provoca um sorriso. Estamos em março. Celba torna a se esvaziar. A mulher está estendida sobre o sofá muito magra, pálida, podia ver o caminho das veias azuis. Abeirando-se da cama, Gerard sentou-se. Ela murmurou o nome dele com o fio de voz que lhe restava. Por que o amor deve morrer? O dele jamais morrerá. Deus, ela não consegue entender... – O quê? – Seu amor. Por que não a abandonou quando soube... Porque a amava com a mesma intensidade do primeiro dia. Do mesmo jeito que a amaria para sempre. Como uma mulher pode ser amada assim e morrer? Eu não quero morrer, diz. Quer estar para sempre com Gerard... Pediu que ele lhe prometesse...


O que ela quiser. À meia noite dos dias 31 de dezembro, quando estiverem festejando o ano novo, à beira mar ele levante o pensamento para ela no momento da passagem, mesmo que esteja com outra. Oh não, não é justo. Ele não pode ter outra... Com ou sem o contágio, já lhe dissera, ele não lhe sobreviverá muito tempo.

É por demais piegas. A menina realmente acha que sim e diz isso ao avô. É irreal, disse mais, uma coisa assim, quero dizer, esse tipo de declaração e de pacto. Fazia anos que esperava por aquele dia, quando por fim recebeu o recado e foi visitá-lo. O senhor Aleksander olhou-a compassivamente. As coisas tinham de ser desse modo. A solene intensidade de vida e de arte que os dias de hoje tornaram piegas, inconcebível, permitiam não enlouquecer. Na verdade, ele nem precisaria ter dito isso. Ela estremece, quase chora. Que prazer! Não


importam as mágoas e as frustrações, pensou, os reveses da vida desaparecem aqui. Como vovô captou o espírito de tudo... Não esquecerá jamais esse momento. É como se subitamente a abstraísse da própria vida, concentrando-a em vidas que eram suas em seus pensamentos. Resta-lhe esperar que esse fulgor de felicidade afete a superfície de suas tediosas águas cotidianas. Porque também habitava a contragosto esse tempo ela deveria lhe sobreviver.

As feições de Gerard iluminam o túnel tenebroso, são o rosto de seu amor, a razão de sua vida, por que não se conheceram antes? Não teria sido maior o amor nem a felicidade que viveram. A felicidade... Ela pede que ele não a olhe dessa maneira. Que parta. — Deixe-me numa clínica, com pessoas como eu. — Ficarei.


Ah sim — diz ela — Fique... Apertou-lhe as mãos. Onde estavam? Em casa. As petúnias floriram? No Natal. Estavam lindas. Brancas e lilases. O açafate lembra estrelas violáceas. Uma lástima que ela houvesse descoberto tão tarde que um jardim é tão eficiente terapia. Tarde. Nada significa. Lástima? Tampouco. – E os beijinhos? – No mesmo canteiro em que estão as boasnoites. Parecem uma mesma espécie de flor. – Seria o “beijo-de-boa-noite”... a flor favorita de Proust... Porque as flores comuns, pertencentes mais ao tempo do que ao espaço que as guarda apenas no piscar da florescência, são impressões humanas sempre perfectíveis ao longo da fragilidade da vida (que o amor, a glória e o prazer registram em ávidos


fulgores necessariamente efêmeros), o que hoje dá alegria – e também o que a retira – se reduz a uma vaga esperança de que se pode gloriar quem a consegue reter, mesmo na raridade de uma flor. Gerard sorri. — E a caliópis? — É a bordadura amarela do quintal. — Nossa casa... — Nossa casa. A senhora Rose Ponce fechou os olhos.

FIM

flores tão corriqueiras e raras  
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