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COMPANHEIRA DE SEU LEITO

RicaRdo de almeida Rocha


“És nascido de mulher. E eu zombo de escárnio diante de armas brandidas por homem nascido de mulher” (Shakespeare - Macbeth, 5º ato, cena VII)


É

uma

mulher

escultural,

belíssima.

Os

cabelos

escorrem pelas suas faces em movimentos de pantera. Os olhos lembram o interior de uma igreja bizantina. Conforme a luz mudam de cor : no verão verdes, no inverno tendem ao azul. O delicado septo desenha com o dorso do nariz a Ursa Menor. A pele brilha como constelações quando passa o creme facial. O contorno da boca delineado com esmero compreende lábios substanciais, intensa e naturalmente vermelhos. Inequivocamente femininos mesmo quando ela fala com a energia máscula de que é possuída quando deseja alguma coisa. Aja, Bruno. Ele está apenas te usando. Você precisa fazer isso. Ele tem tudo. E quanto a nós? o que temos?

Bruno acredita que as coisas virão a seu tempo.

Argumenta acerca das palavras da esposa. O futuro lhes reser va o melhor. O futuro? Nunca chega sem que seja conquistado. Sabe Deus se haverá outra chance.

Graças ao amor que Leslie lhe dedicava, Bruno Molinari livrou-se de uma infância miserável. Graças a ela conhecera a felicidade. Contempla-a. Um voluptuoso sol resplandece. Ele adivinha o cheiro de seu hálito e os demais. O tempo


não passa para ela. Parece ter os mesmos quinze anos de quando Bruno a viu pela primeira vez. Nunca mais foi o mesmo depois de passar por ela na rua principal do balneário de Tundra.

Eram então adolescentes. Ele vivia metido com uma turma mal vista pela comunidade. Leslie o compreendia. Filha de um deputado, dava um jeito para que ele sempre se saísse bem. Fazendo-se de contrariada repreendia-o por essas atividades mas sutilmente o incentivava a mantê-las. Cer teza de dinheiro essencial para que ela não dependa do pai. Sempre apaixonado, não havia o que não fizesse por ela. Então faça, Bruno. Eu te conheço. É o que está querendo fazer.

Caminhou resoluto embora sem idéia do que devesse dizer a ela. Leslie não se admirou nem se aborreceu. Sorriu. Então descobriu onde eu moro. Então descobriu como é fácil entrar pela janela de meu quar to. Ele desviou o pensamento: não impor tava se outros o haviam precedido desde que não houvesse mais ninguém. A água no copo à


cabeceira ondula. E quando ela deixou que ele fizesse daquele jeito logo na primeira vez ele já tinha cer teza. Era o

primeiro.

Sob

aquela

máscara

firme

e

serena

ela

idolatrava aquele marginalzinho romântico. Que seja. Ele será grande. Ela vê com clareza. Tanta quanto entende o que se passa sob as roupas dele. Um ou dois êxtases que poderiam ser mais discretos. Ela espera que dê resultado. Que ele logo também a idolatre. O copo cai e no baque uma mancha cresce no assoalho.


A música chega da rua em acordes lascivos. No arrabalde da janela da casa dos Molinari dá para ver na frente de uma loja, junto a caixas de velas e encar tados de incenso, uma imagem de Janaína ao lado do comércio de material de construção per to da ponte velha entre a colina Efe e o bairro de Ipiranga. O sol morre. Incisão dourada ao longo do rio desde a serra. As águas duplicam a vegetação cerrada das margens onde dos braços das ár vores pendem sinos amarelos. Silvo de um navio entrando na enseada. O vento ondula as águas ali rasas do oceano. Horizonte vermelho como a atmosfera da cidade.

Porque não pode mais aguentar a excitação da demora Cláudio Boguski acende um cigarro. Jantara com Bruno, Leslie e outros amigos. Uma grande confraternização. Recolhera-se ao quar to de hóspedes para descansar e providenciada

uma

jovem

bem

novinha

da

zona

de

prostituição. A fumaça em seu pulmão atenua (ou realça) a avidez do pensamento na adolescente a quem chamavam Margherita. É demais para um homem de sua idade, com problemas de coração. O que ela tanto faz nesse banheiro?


Nada que mereça atenção, queridinho. Só quer ficar bem cheirosa. Ele está pagando bem. Merece. Não voltará

para casa. Não há nada para fazer lá à noite. Não há como conhecer um rapaz que lhe dê a existência que uma garota deseja.

hábitos

que

não

se

renovam.

Sonhos

ultrapassados na esperança do futuro, o que retira do futuro a esperança. Vida arranjada por velhos satisfeitos com suas casas e ruas e com seus quintais pálidos e iner tes. O

pai

diante

de

um

copo

no

balcão

do

armazém

mexericando com vizinhos sobre vizinhos mais distantes. Lá também se celebram acordos acerca dos filhos como no século passado. O meu para a tua. É o que a espera. Então em Tundra não pode ser pior nem muito diferente exceto pelo homem que a espera. Dinheiro não é tudo. Venha logo se sente algum afeto por esse velho. Ele realmente não agüenta mais a demora.

Mas Margherita demorava. Não se pode dizer que seja

o que esperava. Dorme em quar tos fétidos e supor ta o que não julgava ser capaz. Até que come bem. Não há príncipe encantado mas um velho desses fixo seria a redenção. A mãe não sentirá a sua falta exceto nas lamentações com a


comadre. Saiu com o namoradinho no final do dia de colheita pelo caminho oposto de onde estava o caminhão. Irá abandoná-lo assim que chegarem. Tem tudo planejado e dá ainda a sor te de encontrar Hilma embora desconfie que o modo gentil como a trata ultrapasse algum afeto. Cláudio se esforçou por pensar noutras coisas. Nos novos projetos da organização da qual era presidente – uma associação que

trocara

a

filantropia

por

uma

bem

ramificada

distribuição de drogas e acompanhantes. Uma sociedade secreta. Nem tanto. Com o coração cheio de orgulho lembrava de seu discurso no jantar com o qual introduzira Bruno

Molinari.

Cláudio

o

descobrira.

Tirara-o

da

delinquência e – Quando enfim retomava o controle, ouviu a voz de Margherita.

Ela se aproxima e senta em seu colo beijando e mordiscando sua orelha. A língua faz uma massagem lateral no canto da boca do homem que encontra por dentro do vestidinho um nipple nascente.

A outra mão entrou por

baixo e segurou uma coxa. Ela se levanta. Começa a remexer os quadris ao som do ritmo que entra pela janela. Cláudio contempla deslumbrado. Margherita pegava a barra


do vestido e lançava para o alto. Enquanto suas pernas apareciam e desapareciam desabotoou o decote e dançou assim mais uns minutos. A voz de Cláudio se junta ao som frenético dos trios elétricos. Venha. Safadinha. Calma; ela quer merecer cada centavo; isso exige preparação. Ele já disse que não se impor ta com dinheiro – Quer ver?

Tirou três notas de um maço e lançou na direção dela. Sem deixar de dançar ela se abaixa e as pega. Coloca-as num bolsinho estratégico entre as flores de algodão. Cláudio pensou. Decer to não há entre todas as prostitutas de Tundra outra tão cruel. Quanto tempo vai levar esse jogo? Mas não reagia senão com a resposta viril porque se agradava dessas coisas.

Ela abre mais o vestido e tira-o por cima sem deixar de cuidar do dinheiro ao enrolar a roupa sobre a cadeira. Bamboleando sempre aproxima-se da cama onde Cláudio está sentado e senta-se de novo em seu colo. Os longos cabelos negros aos cabelos grisalhos se misturam. Um dedo


procura seu lugar. A mocinha tem um breve estremecimento antes de olhar para cima com o rosto no ombro dele. Pela fresta da janela. Em direção ao quar to do casal.


Ela pede um laço em seu vestido de gala. Ele a atende. Costas cândidas e lácteas. Carne alva lampeja desde os montes. Ele não gosta de festas mas não irá dizer isso e perder o momento em que estiverem voltando. Em que não chegarão a voltar. Nem se ocupará dela o quanto deveria – o quanto pensou quando olhou por dentro de seu vestido. Esteve antes deslumbrado com o bufê e os convidados poderosos que tinham de aturar sua presença justamente por causa de Leslie. Sequer chegaram a dançar. Ouviram sentados a música que pairou na fumaça em que o brilho do corpo dela desafiava a pouca visibilidade. Olhos e lantejoulas. À saída veio o súbito gesto que juntou os corpos ar fando como se o desejo dele acompanhado da agressividade que ela adorava estivesse chegando em retrospecto. Como se a forma como a devorava tivesse nascido ali no quar to de hotel sem qualquer relação com o abotoamento de um vestido ou do deslumbramento no salão de baile.


Leslie Molinari fala com o marido de costas para ele obser vando o movimento no quar to de hóspedes. Se Bruno está tão vacilante há alguém que pode agir imediatamente. Espera

apenas

um

sinal.

O

rosto

inesquecível

não

demonstra qualquer emoção. Não! Ele corre até a janela. Não! – agarra a mulher pelos ombros e a sacode. Mande-a embora! O que pensa estar fazendo? Leslie perdera todo respeito? Mande-a embora!


Estava compadecida da fragilidade de seu homem. Um tanto decepcionada. Desculpe. Não era minha intenção. Ama-o. Mas precisa ser dura. Não gosta de ser assim. Desculpe, amor. Pensei que pudesse ser difícil pra você pelo teu envolvimento. E a garota não tem nenhum. Mande-a embora – diz ele. Farei o que eu tenho de fazer.

A mulher segura as mãos de Bruno com carinho, soltase, vira-se de novo para Margherita e faz sinal de negativo. Ele olha para uma e para outra, para Cláudio, e por fim seus olhos se perdem no vazio. Tudo bem. Seu amor e seu desejo aos quereres de Leslie se vinculam. Deixemos pelo menos que ele termine.

Quando Margherita passou pelos seguranças, Leslie obser vava. Chegou a hora – disse. Está iluminada. Cada vez que Bruno se decidia pelas vontades dela sentia-se rejuvenescer. Ele já não lembra como as coisas chegaram a esse ponto mas não pode pensar em desistir. Não pode culpar a vida sexual per feita por tudo. Uma coisa sabe. O


augúrio que acompanhou todo o processo. Ninguém pode escapar da consciência. Acompanhou um devaneio maldoso típico de Leslie e depois como sempre não conseguiu sair dos labirintos em que ela se sente tão à vontade. Deve ter sido isso. Não faz mais diferença.

Descem. Leslie põe água para fer ver. Bruno obser vava pela por ta entreaber ta a lua no oceano pelo corredor de casas. Pesa em seu espírito o que está por fazer. Imagina se o pagamento ao cúmplice poderia incluir tudo. Se terá remorso e quanto. Contempla a própria sombra na parede com irritação.

O olhar da pequena Leslie busca alguma coisa no alto. Está maravilhada e todavia não é mais que uma manhã igual às outras na fazenda. Cinza prateada em meio ao gado e acima de sua cabeça nada além do céu corriqueiro das manhãs de inverno. Logo o sol surgirá em meio às nuvens. Esfinge da juventude ao som dos ecos da pessoa que sobe os degraus. Agora no piso de seu quar to. A madeira do assoalho vibra e as paredes estalam. Calor sem


o menor sentido. Ela chama pelo irmão. O que ele sabe sobre o mundo? Decer to sabe algo. Precisa saber após tantos ensinamentos do pai seguidos das proporcionais punições que ela par tilhava talvez pela mesmas razões mas que pela sua estreita mente de menina jamais entendeu. Sombras e luz e dor e gozo. Logo o gozo antecederá a dor e sombra e luz serão uma coisa só. Por tas podem ser por tais. Mor tos e vivos na mesma dimensão. Conte-me aquele seu sonho de ontem. Hoje ela sonhara algo parecido. Leslie canta. É mesmo preciso escolher um caminho? A forma como andará por ele? Não pode simplesmente caminhar? Poderá caminhar com o alto das pernas doloridos assim, assim esbraseados? O irmão tem controle sobre a dor. Parece ter controle sobre tudo. Queria ser como ele. É seu deus. Mas não poderá amar assim o homem que venha a ser seu marido. Tão pequena e já pensando nessas coisas.

Cresceu e foi como pensou. Diante de seus olhos enevoada

manhã de inverno mas seus olhos não são os

mesmos após a viagem ao longo dos anos nos arrepios de seu corpo. Os arrepios de seu corpo esses são quase os


mesmos. Bruno do outro lado da cama deitando-se com a expressão fechada. Será que ele nunca irá entender? Não de outro modo. Talvez quando estiverem os dois entrados em anos. Quando a chama estiver naturalmente mais calma. Justamente porque atiçada ao longo de suas vidas. A serenidade como prêmio e não a expressão da covardia.

O menino Bruno. Do outro lado da cidade numa casa mais que humilde. Insalubre. Sai e sente o ar úmido como um cântico religioso . Nos olhos ávidos a mulher. Nesses dias nada poderá acontecer entre eles, mas se contenta com essa beatífica visão de pés descalços na grama. A silhueta pintada no lençol do varal e os movimentos do leve vestido entre lençóis. Coração disparado e passos lentos. Ele imaginou o passar do tempo e o tempo efetivamente passou. A outra figura que do outro lado da cama hesita e enfim se levanta é ela. A tia será ela. Vive entre tantas criaturas. A mesma. Se satisfaz com isso. Olhares fur tivos e despercebidos. Pela moça com quem não for assim irá se apaixonar.


Leslie e Bruno se levantam cada qual pelo seu lado. Ele passa as mãos em concha pelo rosto quase que numa prece. Se não a entender logo será dissolvido num mundo sem cor, real demais. Ela olha para ele. Vai falar alguma coisa que engole na inspiração abissal; vai olhar para ele e abaixa os olhos quando ele se levanta. Existe mulher que não tripudie sobre a conquista amorosa? Que possa sem se permitir mudar receber um mimo? Que não se satisfaça em ser mãe ou filha de seu homem e seja só sua mulher? Ele está disposto a pagar para ver. Audácia e vingança e prova de amor.


Saindo ao pátio a mulher chama a atenção imediata dos homens. Há pouco disseram gracinhas para Margherita. O quanto devia ser deliciosa e coisas tais. Mas surge diante deles

uma

deusa

na

presença

da

qual

a

jovenzinha

desaparecia pulverizada. Olá rapazes – diz a deusa. Ela achou que uma xícara de café viria bem. Supõe que estavam cansados. Todos bebemos muito e vocês ainda terão de virar a noite. Era verdade. Eles agradecem. Obrigado, Leslie. Ela quis saber. E então? Divino – dizem – desvendando

o

conjunto

transparente

de

camisão

e

pantalona.

Bruno espreita. Olha de minuto em minuto o relógio até o tempo da bula se cumprir. Estão dormindo. Sai até o quar to onde Cláudio adormece. Precisa de pelo menos dez horas de sono. Em casa costuma apagar antes que o locutor do telejornal diga “Boa-noite”. A por ta se abre. Estremece. Bruno. Você me deu um susto, garoto. Aconteceu alguma coisa? Talvez sinta frio. Em pleno verão de Tundra? Cláudio garantiu que estava


bem. Sugeriu rindo que o pupilo se preocupasse antes com sua linda esposa ou... Bruno espera que ele continue bem, do outro lado. A banha do velho sufocou os tiros. Terror no olhar e fragmentos indiscerníveis junto ao sangue espirrado. A música continua alta na rua.

Digitais se imprimem no copo gelado retirado da mesa rústica. Tudo imerso em trevas. Acima de sua cabeça e sob seus pés teto e assoalho estremecem com a passagem do metrô na escuridão. Antes que tocasse seus lábios notou a água revolta. A dor que lhe atravessava o coração se definia pela paralelidade dos caminhos da maior par te das pessoas afins nos desvios do mundo. Sua solidão ainda há de destruí-lo. Ainda há de levá-lo a cometer um crime como se aproximar de uma mulher casada ou jovem demais apenas para ter com quem desabafar seus receios. Ou – isso não chegou a pensar mas não tardará tanto assim – outra

mulher

quando

ele

próprio

estiver

casado.

Permaneceu nas sombras do apar tamento alguns minutos após saciado da sede antes de resolver sair e encontrar


seus cúmplices. Que coisa horrível de se dizer. Cúmplices! Você tem de abandonar esta vida. Precisa abandonar esta vida ou estará em pouco tempo destruído. Mor to ou preso com outros infelizes privados da liberdade como pássaros que não podem voltar para o ninho caminhando castos como sacerdotes. Ao cruzar com o por teiro sorriu e perguntou se estava tudo bem pensando que com ele não nada estava. Visões da última menina com quem se deitara num hotel barato. Com que então era filha de um deputado. Parecia uma prostituta vulgar. Tão vulgar que ele estava irreversivelmente apaixonado. Não é isso o amor? um relacionamento baseado em sexo cafajeste? Porque se for baseado em qualquer outra coisa menos vulgar estará mais próximo de uma maravilhosa amizade.

Bruno se detém diante dos homens adormecidos. Um pouco de água deve ajudar. De fato, começam a acordar. Então o outro recebe o sinal. Atravessa o pátio e pula o muro. A polícia. Feito. Abraçando-o apaixonadamente Leslie o beija e percebe o sangue. Não poderia ter agido de modo mais limpo? Viagem sem volta. Para algum lugar glorioso? Ela queria tanto. Ama-o tanto, quer vê-lo como primeiro


dentre

os

perplexo o recomeçar...

primeiros,

o

maior

de

todos.

Obser vando

tremor das próprias mãos, Bruno vê tudo


Castanheiras acompanham a orla marítima de Tundra. Praticamente uma continuação da praia de Dois Anjos. Rente aos recifes passavam de quando em quando os barquinhos com vultos inclinados. À direita de quem chega, ergue-se o monte Santa Lúcia. Imponente assemelhando-se a um vulcão. Os quar teirões sobem quase ver ticalmente. Quem olhe a sudoeste verá montanhas verdes algumas com casinhas nos cumes e cinzas outras de pedra inóspita. O vento nunca para de soprar – muda de direção. No terral sabe-se que a chuva não tardará. Entretanto às vezes tardavam tanto o terral quanto a chuva. A viração traz um gosto de mar.

As mulheres que ao longo do ano ansiosas

esperaram a temporada produzidas saíam. O barulho das ondas faz par te do cenário em qualquer lugar da cidade e se você dormisse num outro lugar e durante o sono fosse trazido pensaria ao acordar, antes de abrir os olhos, que estava chovendo muito.

Calor do fim de janeiro. Turistas festejam. Os nativos em

minoria

enveredam

por

seus

caminhos

cotidianos.

Sobrancelhas franzidas sob cenhos agitados. Gesticulam. Falam

com

os

que

caminham

ao

lado.

Outros

falam


sozinhos. O verão para os homens que trabalham num balneário às vezes de terno enquanto as mulheres seminuas desfilam por toda par te faz coisas assim.

O calor agita e

não raro transtorna.

A pequenina Tundra tinha alma de metrópole. Determinadas horas do dia as pessoas se acotovelavam ao longo da rua principal sobretudo ao entardecer ou indo para as pousadas ou para os restaurantes ou a Câmara do Comércio ou lojas. Para a prefeitura ou – como Berebger naquele dia – para o Grande Hotel. Ele veio comemorar o êxito do grande projeto e agora se prepara. Por ele passam advogados, políticos, donos de bares, banqueiros, hienas, macacos, tigres e palhaços. O circo está na cidade. Um investidor em camisa pólo e calça de algodão pendurado no celular. Saindo da praia musculosos e alegres rapazes de sunguinhas se exibem com amigas em lycra enfiada. A crente gira a sombrinha e a católica ginga cheia de compras. Moças cansadas voltam para casa depois do dia de trabalho nos hotéis e outras passam por elas antecipando-se na mesma situação dali a algumas horas. As horas da noite. Lavadeiras, arrumadeiras, passadeiras e


cozinheiras supor tam os olhares de assédio dos turistas, que compraram cidade e habitantes quando alugaram uma casa para o verão. Quem dera fosse uma homenagem, pensa Isabela. Que pena ser apenas devassidão 1 .

Um, dois, três namorados. Vieram de fora. No ano seguinte aparecem e a procuram. Aonde vou esta noite? A qualquer lugar onde você não esteja. Junto das ondas douradas pára e pensa. Olha a lua uma esfera de ouro. Nunca viu uma assim. O empurrão por detrás a joga na água exposta à onda seguinte, roldão de espuma. O trovão 1

sexta-feira, 14 de junho de 2013


se mistura com a voz que a insulta. É isso o que eles são. Isso é o que querem. Nada de sério, de família. Sequer romance. Só se diver tir e que estúpida diversão. Não mais esperará nesse tipo de envolvimento. Melhor profetizar que viver. A realidade precisa do que está fora dela para ser melhor compreendida ainda que exista dúvida sobre a língua materna de Cassandra. Um bom exemplo. Mesmo em meio à dor das lembranças Isabela chega a sorrir.

O brilho da noite de Tundra tremeluz nos olhos ner vosos de Bruno. Os músicos e cantores dos trios exercem seus talentos com a mesma naturalidade dos traficantes e daqueles que nos quiosques marcam encontros para a prostituição infantil. Houve um crime e o policial tem de tomar providências. Fica para mais tarde, para de madrugada. Combinado.

Estão começando os cultos nos terreiros. Casas simples de pescador. Paira essa estranha energia do choque entre tradições corrompidas e viscerais. O Orixá supremo e o Jeová bíblico debatem acaloradamente e depois se juntam


num abraço que se faz sentir na terra. A luz nascente testemunha a fantástica mistura de raças. Descendentes dos negros naquela enseada um dia traficados. Parentes dos por tugueses que os vendiam. Velhos índios. Novos alemães. Eslavos, nor te-americanos, cafuzos, mulatos, mamelucos, drogados, devassos, corruptos e beatos.

Embreado na cintilação mística Bruno se viu diante da boate do Grande Hotel envolto na névoa marinha e rodeado por hostes de vagabundos que estendiam a mão súplices. Com Bruno estava Zenon. Um homem pardo, pacato, de uns 38 anos. Pneus trepidam atrás dos dois. O grupo de moças sai com estardalhaço, eles entram. Zenon senta-se ao lado do balcão. Bruno caminha diretamente para a mesa no canto esquerdo. A mão dentro do blazer. Cumprindo seu dever.

Quatro homens sentados sem tempo de reagir. Dois quase conseguem. Fuzilados por tiros do balcão. A moça que seduzia o homem tomando uísque em meio aos próprios gritos na tentativa de fugir. Uma bala perdida a


colheu na jugular e alojou-se na car tilagem. Ela cai. Ver te o sangue que anuncia a entrada da mor te.


Gigantesca expectativa antes do abatimento. Passos no vento ruidoso. Casas amplas. Igrejas. A praia. Lugares inacessíveis. Inadmissível. Apesar de todos os seus esforços. Ainda os conhecidos viram o rosto na rua e até mudam de calçada. Intolerável. Mostrará a eles. Não repetirá a atitude gentil

sempre

interpretada

como

subser viência.

Se

o

galanteio não sur tir efeito, passará ao assédio. Mas não adianta. Daí a impor tância dessa moça. Retirou de dentro do jeans mais que a satisfação de um desejo. Levanta-a e gira com ela. Leslie não pode deixar de se comover apesar de achar repugnante esse tipo de gentileza. Deu todas as deixas mas ele não entendeu.


Sabe o quanto a decepciona mas não podia deixar de dar a ela a opor tunidade de respeitar um outro tipo de homem, outro estilo de prazer. Há de existir um equilíbrio. O relacionamento deles é especial por tanto tem de haver um equilíbrio. Não estará mais abatido. Fará com que ela acredite em coisas novas. Ela lhe ensinou tantas coisas – até a convicção de que iam se arrepender da maneira como hoje o tratam. O indispensável é que ela se apaixone; não é necessário que ele mude.

Assaltou, fur tou, extorquiu. No primeiro roubo ventava assim. Seu coração disparado. Seu sorriso simpático se sabia sedutor mas não era de todo hipócrita. Sabe-se lá que extremo a atraiu. Foi um dos extremos sem dúvida. Porque ele era na maior par te do tempo um rapaz como os outros fazendo os que os outros faziam e tendo sonhos semelhantes. Por isso se aproximou da defensora pública.

Uma

mulher

bonita,

elegante,

respeitada

na

comunidade. O primeiro alvo do ciúme de Leslie. Também a


causa da consolidação de seu amor. Andava de lá para cá na sala preparando bebidas e sorrindo asceticamente sedutora. Ele preferia que ela não fosse tão óbvia. Que fosse como Leslie. Nenhuma será. Insano pôr em risco sua intimidade com Leslie. Não há outra Leslie. Esteve per to de dizer alguma coisa. Recusar os favores da advogada. Aí sim teria perdido o seu amor e Leslie não o teria levado a sério. A imagem refletida na entrada do prédio escorregou para a janela lateral enquanto ele entrava. – Seu pai pediu que eu a buscasse. É tarde. – Ele me trata como se eu fosse uma menina. Ela era – pensou Bruno. Sempre seria. O reflexo dos dois se confunde no ruído enferrujado da por ta aber ta. A lua impedia que as ruas de volta para casa estivessem tão escuras quanto o deputado dissera. Subitamente pede que ele a beije. Foi assim. O empregado e a filha do patrão. Ele aproximou os lábios dos lábios mas os encostou na pele per fumada do rosto. Esteve ali, o rosto na direção do vulto que subia as escadas, sem idéia da fúria que sua deferência causara. Sem a qual (deferência ou fúria) não estariam agora no quar to dela.


Um homem sai correndo sem desvios para a casa de Cláudio Boguski no jardim Marli defronte ao parque de diversões. Embarcados de um navio liberiano apareciam num e noutro lado da cidade. Leonardo Seul entra e resfolegando interrompe a reunião. Cláudio fazia cálculos e determinava nomes e datas. Parou. Meu Deus, Leo. O que houve? A testemunha se unge da alegria dos bajuladores da qual se envergonhará assim que saia. Não era mais preciso fazer planos quanto a Lieyder Berebger. Ele e os que com ele estavam acabam de ser mor tos por Molinari. E onde está ele? Fugindo. Toda a polícia atrás. Polícia é problema de pobre. Somos a autoridade, garoto. Problema para Cláudio eram os fiéis a Berebger que não estavam com ele. Serão fiéis a um cadáver? Tudo é possível. –

Vá, encontre Bruno antes e diga que apenas se

mantenha vivo. Daremos um jeito nos seguidores do traidor.


Raiou

o

dia.

Molinari

e

Zenon

escapam

pelo

amanhecer. A pé sem um destino. Sobreviver até as coisas esfriarem.

Atentos a qualquer um que se assemelhasse ao

estereótipo. Berebger queria o controle do tráfico e da prostituição, da Câmara e dos Concursos de trovas e Garota-verão. Molinari não podia permitir. Cláudio era como um pai para ele. – Você conhece esses caras? – perguntou Zenon. Oito homens recostados em dois carros com as por tas aber tas. Seriam homens de Berebger? Zenon responde que não ficará ali para descobrir. No

minuto

Enveredaram

seguinte

por

ruelas

escutam

o

despistando

som os

de

motores.

perseguidores

porém Tundra não é tão grande. O país inteiro é pequeno quando se trata de homens visados pela Sociedade, ainda que

por

uma

facção

dela.

Uma

por ta

entreaber ta.

Entreolham-se e silentes concordam. A deliciosa mestiça lá dentro sorri para eles. Por aqui – diz ela. O oluô os espera. Desconcer tados entram no aposento.

O que todos os seres humanos sentem. Algo em


comum? Mor te para mim é o mesmo que para você? Vida é? Estão rindo dele. Eu choraria. Todavia nem elas nem eu podemos saber exatamente do que. Olharam para ele como se fosse um deus e eu sabia que era um mas não me impressionei. Eu choraria? Nem elas nem eu podemos saber. O futuro deus chorará. O futuro inimigo, hoje amigo, estará mor to. Você tem sido um homem justo. O que aconteceu, Bruno? Teu amor não é motivo. Sinta seu sangue e as alterações visíveis. A lascívia dos teus olhos e a infidelidade de teu coração. Não se julgue um santo. Chamas trovejam nos corredores. Eu me sinto tão dura quanto as pedras. Não precisa me falar assim de teu empregado. Por que precisaria ser tão vir tuoso para ter a minha companhia? Não sou santa. Podem sim ser meus os filhos dele? Por que não poderiam? Um baque. Um nó no estômago. Escuto, escuto. Eu. Um dia falarei. Ou não. Vida que a mor te espreita. Não queira saber. Não precisa crer. Basta a água límpida correndo em seu coração.

Não é de todo uma situação desconhecida. Bruno lembra-se da tia. Uma mulher estranha. Inspiração de fantasias mas muito estranha. Agora na fumaça de incenso


devem surgir imagens e velas, charuto e cachaça. Ou um velho

sentado

à

mesa

e

búzios

espalhados.

Fique

à

vontade, meu filho. Sentou-se. Zenon permanece de pé, vigiando pela janela. Bruno na verdade não se preocupa tanto assim com o futuro. Não tirava da cabeça a mulata que os recebeu. Não tia, não é que eu não acredite nessas

coisas. Mas não posso me concentrar. A senhora não percebeu que não sou mais um garoto? Não imaginava que devotas

podiam

ser

tão

lindas.

Mas

nada

que

se

comparasse à sua mulher. O que reser va afinal o seu destino? - Grandes coisas no futuro imediato. Mas você não supor taria ouvir tudo agora. - É assim tão terrível? - Depender. - Diga, pede Bruno. - Quando estiver preparado. - Quanto? O velho não levará em conta a ofensa.

As mulheres percebiam intuitivamente que ele era um


homem que sabia coisas além das coisas que um homem costuma saber. Tinha aquele jeito simples e direto de as levar a deixar fazer o que ele queria fazer, sem intimidação ou assédio, em meio a risos sem constrangimento. João não vai senão até onde elas querem que ele vá, nada menos. A mãe sabia que ele daria um bom médium. Ele talvez tivesse motivações diferentes para seu dom. Angústias surgem inesperadas nas conquistas noturnas desde os quar tos menos prováveis. Ele se admite assustado com as visões. Quando do desejo satisfeito, não estava minimamente realizado. Perda de um tempo de vida essencial. Na verdade a maioria tornou o dom um comércio. São mais ofensivos do que a insinuação de Bruno. Não precisa daquele dinheiro. Bruno guarda o bolo de notas. E o que quer? – Que você fique quieto. Enfadado com o médium, faz menção de sair. Desculpe, mas preciso ir. – Você

Han?

será grande.


– O mais querido e também o principal. Conquistou um lugar. Mas não se deixe levar pela ambição. Era como se Zenon não estivesse ali até que falou. Vamos, disse ele. Não corremos mais perigo. – E quanto a você, Zenon, seu destino será trágico. Ah sim? Era verdade, mas haveria uma compensação. – Seu filho herdará o lugar que você jamais terá. O filho? O velho realmente nada sabe. Não há oferenda no mundo que desvie Benévolo de seu caminho. É um jovem e promissor advogado. Jamais se meteria naquele tipo de negócio. – Não enquanto eu estiver vivo. É o próprio Zenon quem está dizendo... —

Vamos — diz Bruno ao perceber que a profecia

abalara o companheiro — Vamos embora. Estão saindo e trocam um longo olhar com a jovem mestiça. O babalaô não erra, diz ela. E pensa no que profetizou no dia anterior. Que Isabela teria um filho de olhos verdes como os de Bruno.


— Escute-o.

Mais do que por amor ou por desejo casou com Leslie Henning. Precisava de uma companhia para enfrentar o mundo. Porém com o correr do tempo ela percebeu uma face dele que não conhecia ou pensava desconhecer : a determinação, a vontade férrea. Então não seria correto dizer que ele era de todo dependente. A ascendência de Leslie sobre ele não é absoluta. Conjunto de signos que só funcionam em sentidos específicos. Mas estremecia diante dela. Como para um bebê a presença materna. Terá seu próprio caminho ao crescer. Essa devoção desnuda uma timidez que a marginalidade não destruiu, antes exacerbou. Um homem meigo. Demais. Apaixonado

demais.

Bondoso

demais.

Precisava

dela

demais. Como ela também o amava demais e é preciso harmonizar a vida do casal num mundo hostil, tomou para si ser a sua força. Para não deixar de amar seu homem, fazia com que os méritos coubessem sempre a ele. Ela o acendia mas ele era o fogo.


Ele perguntou se alguém ligara. A dona da pensão respondeu que a sta. Henning. Não é a filha do Doutor Joaquim? Bruno estava fazendo um ser viço para ele. – Não deixou recado? A mulher disse que ela o encontraria em frente à Assembléia. Bruno estava lá na hora mencionada . Encontrou-a lendo um livro que não podia imaginar que a interessasse. Ela fez perguntas sobre assuntos ligados ao pai e ele respondeu objetivamente. Ele fez perguntas sobre ela. Não creio que seja da sua conta, ela respondeu ela. Ele perguntou se aquela atitude era por causa de um beijo no rosto. Ela disse que talvez. Que isso tampouco lhe dizia respeito. Se você me atraiu um dia, esse dia passou. Então ele passou a falar do livro que ela lia e de outros similares. Leslie se surpreendeu. Não impor ta se amor ou paixão ou respeito ou afeto, tudo começa na admiração. Com que então ele mais que gosta do que ela gostava, a compreendia. Dará par tida e o carro irá para um bar afastado do centro. Pessoas para lá e para cá, burburinho.


Ele tem mais a dar do que ela podia imaginar. Ela está tensa, imagine. Excitada como nunca. Bem, como quase nunca.

Quando Bruno disse que iria à boate acabar com Berebger, Leslie concordou e lhe deu todo apoio, sem o qual ele possivelmente não teria ido. Não por ter ela qualquer coisa contra o rival de Cláudio.

Pelo contrário.

Admirava todos os que se rebelavam, os que não se submetiam. Filosofia de vida. Não dobrar-se diante de ninguém. Não fazer qualquer coisa porque as pessoas faziam. Não gostava de Cláudio. Jamais gostara. O que fizera um dia pelo menino Molinari fizera com o intuito conseguido — a gratidão eterna de alguém cheio de potencial; um jovenzinho rebelde, inseguro, disposto a fazer qualquer coisa contra a lei que não o protegera de uma infância infeliz. Agora Leslie passava momentos de angústia sem saber como as coisas haviam transcorrido. Esperava o marido, ansiosa. Onde estaria?

Outro lado da cidade.


Os homens enviados por Cláudio encontraram Bruno e levaram-no ao patrão. No interior de um aposento luxuoso e sombrio, Cláudio Boguski discursa para um pequeno séqüito. —

Você foi achado nas ruas negras da madrugada de

Empatia atrás de droga e trazido para nosso seio. E se mostrou digno de confiança – falava mirando diretamente o rapaz mas logo ampliou o olhar para todos – Nossa sociedade é algo de que um homem pode se orgulhar em ser membro. Debatemos o futuro da humanidade. Vigilantes retiramos de seu convívio os que não merecem fazer par te dela. Somos uma família que gosta das coisas boas da vida. Gostaríamos que todos fizessem par te mas nem todos estão preparados. Berebger é uma prova viva do que estou falando. – Uma prova mor ta – comentou um dos homens. Todos riram. Cláudio prossegue: —

Queremos que floresça a fraternidade. Pretendemos

influenciar as nações no sentido de nossa filosofia de vida baseada nessa fraternidade. Temos tutano. Somos a medula


da sociedade. Bem-vindo, Bruno Molinari.

No quar to da casa de Bruno, distante cerca de dez minutos

de

carro

(vinte

de

bicicleta,

quando

Bruno

trabalhava como mensageiro), Leslie pensa em Cláudio. Na terrível influência que exerce sobre seu homem. No quanto Bruno o admirava àquele ponto de matar por ele. Matar. O que definitivamente não lhe era uma coisa fácil. Tinha horror a sangue. Desmaiara ao presenciar o par to do único filho do casal, que ainda com poucos dias de vida morreria. Leslie não gosta de Cláudio. Não gosta nada de Cláudio. Fala de família, de comunidade futura livre das mazelas do presente. Como era capaz de tal descaramento? Não uma família mas boiada num curral. Estavam unidos sim mas não por livre vontade. Por medo. Por medo uns dos outros e de não saberem viver uns sem os outros De encarar uma outra forma de vida que deles exigisse o que não poderiam: ser o que cada um era. Estão

viciados

sociedade,

de

numa família.

falsa

idéia

de

Desconhecem

comunidade, quem

são

em

de si


mesmos.

São

uma

instituição,

uma

organização,

uma

sociedade: não pessoas.

Sem nossa sociedade secreta, o que seríamos? Quantos fomos ajudados por irmãos quando estávamos à beira da ruína? Quantos salvos da miséria pela caridade fraternal? E agora, os que foram salvos, são eles próprios instrumentos de

salvação!

Quem

está

livre

da

violência

e

da

desumanidade do mundo? Poderíamos ser mor tos por esses tantos desgarrados que andam loucos por aí. Teria sido assim comigo se não fosse a iniciativa desse bravo rapaz. Sem que ninguém mandasse, ele decidiu cor tar o mal pela raiz. Entretanto deveriam obser var que, além dos rebeldes, ninguém fora ferido no atentado da boate. Bruno tivera esse cuidado. Evitando o olhar de Zenon, não pode ele nesse momento deixar de pensar na mulher do balcão. Alguém avisa. Senhor, aqui estão alguns dentre os que chamou. Entram os homens de Berebger.

Não se assuste,

meu caro Molinari. Eu os mandei vir aqui. Queria lhes falar. Não

podiam

ser

tão

insanos

como

aquele

perdido.

Escutariam. Porque acima de você estão os interesses de


nossa sociedade mas abaixo de mim agora você é o primeiro. Herdeiro de meu lugar e da gestão de nossos negócios. Ouviu-se um burburinho respeito. Cláudio falara.

Anda e anda. Um vulto na luz chuvosa e verde. Na esquina da avenida, obser va o reflexo dos prédios na fonte esverdeada. Leva a boca o cigarro. O sem-teto faz que vai pedir um, ele aper ta o passo. Quem é? Tem muitos planos mas pouco dinheiro para respalda-los. Não deseja porém o crime. Uma vez que se cede, por mais que se tenha, não será acompanhado de paz. Não era muito diferente na infância. Mais ou menos do mesmo prisma acompanhava o movimento dos coleguinhas na escola e no play. Queria ser como os meninos maiores, mas já vira como conquistavam aquela ousadia, à custa sempre de enganos. Olhem esse per fil. Vê um que joga bola, outro que assovia para a menina e todos os que encostados ao carro falam nada sobre nada, sobre qualquer tema maledicentes.

Olhem esse per fil agora. É o mesmo, após o passar de


alguns anos. Tem a sua própria bola, deseja a menina em silêncio e de tudo desconfia. É ainda esse o per fil à luz esverdeada. As gotas engrossam. Noite calma e quente. A lua chegou a aparecer minutos antes. Agora está oculta pela cor tina de água. Ninguém acreditaria se contassem que esse rapaz será um grande líder. As duas mulheres que passam com as sombrinhas ao vento, no olhar de esgueira. Para os meninos que correm gritando é um mendigo. Toda a gente no ponto de ônibus espremida não há de lhe lançar um único olhar. Ele passa. As flores da cerca cur vadas escorrem. Ainda hão de saber quem sou e dizer “Olhe o Cláudio Boguski”. Que porém isso não custe a própria vida. O bem-estar de um

corpo

alimentado

sem

maiores

preocupações

ou

anseios. Lembrar-se-á disso em alguns anos, quando os companheiros propuserem a propina e depois quando perceber que tanta beleza na namorada poderia ter um outro fim que não seu próprio desejo? Não pense. Ali per to, a promiscuidade do transpor te coletivo em horário de rush. Fer ve de sobressaltos. Não mais dará, nunca mais, por sua presença.


Bruno sorriu discretamente. Mais tarde, ao descer no elevador, ele estava nas nuvens. Cláudio falara. Ter o dom da

profecia

é

algo

extraordinário.

Desde

o

princípio

simpatizara com aquela gente. Embora o velho nada tivesse feito além de verbalizar o inevitável.


Lágrimas.

Compreendeu.

Não

um

sentimento

simplesmente. Quando se trata de um homem e uma mulher nunca nada é simples. Quando se trata de uma mulher em relação a um homem, não se pode ser demasiado gentil. Ainda há tempo. Ainda há esperança. Ela estará aqui daqui a pouco. Tudo o que ele quer da vida. Sexo e segurança financeira. No fundo o mesmo que ela. Talvez ela dispensasse o sexo ou o fizesse aparecer noutro nível da segurança. Por ela fará então qualquer coisa. Deixará de ser assim gentil e devotado. Fará com que ela sofra um pouquinho. Seguirá o desejo do coração dela. Quer fazer o que ela quer. São duas. A Leslie a quem quer bem e a que seu corpo deseja. Embora não tenha parâmetros para julgar deve ser isso o verdadeiro amor. Lágrimas. Crescendo e ondulando as coisas ao redor. Ilusão de que o espelho é uma pessoa. O espelho é uma pessoa. As ár vores no quadro da janela. Espíritos. Contornos imateriais. Outro mundo. Seja. Viverá nele também. Coisas que o mundo tangível compreende podem ser igualmente sonho. Quem garante que não? A por ta. Ela chegou. Poderá ficar. Basta que ele dê a ela o que dá o outro. Enxugou os olhos deixando a chuva chorar por ele. E assim


que pare as estrelas serão o seu sorriso. Ainda bem que compreendeu a tempo. Não saberia viver sem ela. Bruno? Na par te do chão que antecede a por ta há lápides que só ele verá. Ela entrará e como sempre estará com a cabeça longe. Não notará sequer os desenhos ligados no tapete. Nos galhos à janela. A chuva cai em todos os lugares e épocas mas ele se concentra numa chuva par ticular. Um beijo nunca tão impetuoso. Precisa se controlar apenas para que ela não desconfie que ele os viu.


Quando

Bruno

chegou

em

casa

Leslie

dormia

profundamente. Tem um primeiro impulso de acordá-la e compar tilhar

a

alegria.

Ecoam

em

seus

ouvidos

congratulações de seus empregados, homens que Cláudio lhe

destinara

para

a

segurança

pessoal.

A

agitação

convulsiona sua alma e ver sua mulher, nereida branca em pala de renda sem abotoamento, não era calmante. Leslie dormindo

ama

a

si

mesma.

Está

de

lado

a

barriga

desvendada em tonicidade adolescente. Braços recolhidos. Tenuidades brilhantes. A pele nos joelhos insolitamente clara, hidratada como a terra na chuva. Dá a volta na cama. Da janela significante visão posterior. Desvia os olhos para uma réstia de mar ao longe. Suspira for te. Aproxima-se enfim da cama e senta-se. Leva a mão seguindo o sulco até espalmar

largos

carinhos.

Os

feixes

ner vosos

enviam

mensagem confusa de amor ou animalidade.

Espreguiçando-se, desper ta sorrindo. Percebe a mão, vira-se, percebe o desejo – sinal do controle que exerce. Rejeita esse pensamento. Assim não o poderia amar. E adora amá-lo. É o melhor da vida. As carícias fazem com que ele se esqueça da ascensão. Beijaram-se longamente.


Ardor ilimitados e mãos licenciosas. Busca de posições.

A vida de Bruno seguirá o rumo que Leslie indicou. Da pequena necessidade doméstica aos grandes projetos para o futuro. Tudo passava por um leito largo de cimento como costumavam

ser

as

camas

em

Tundra,

absolutamente

resistentes. Ali estão surgindo novas idéias, novas formas de buscar a existência ideal. O sentido das coisas e um sentido de fazer as coisas. Assim ou de outro modo. Novas formas de vida através da mágica de estarem juntos. Depois do amor. Bruno conta a respeito do velho. Oluô? O que é isso? Um tipo de médium. Um babalorixá. Não sabe se o nome é esse. O que impor ta é que acer tou em cheio. Sim. Impressionante como. Vivera ali a vida inteira naquela cidade de macumbeiros sem nunca se sensibilizar com essas coisas. E agora, porque a predição foi agradável, resolveu


acreditar. Leslie

está

enganada.

Bruno

argumenta

acreditara na hora. O velho acer tou. É um fato.

que

nem

Quando

Cláudio morrer eu serei o primeiro. Vaso ruim não quebra fácil, meu menino. Bruno não entende a implicância de Leslie com relação a Cláudio. Ele é um homem bom. É como um... – Pai para você. Ela sabe. – Não, não sei. Exceto que você quer se convencer disso. – Ele me ama como a um filho sim. A gente ama embora as pessoas que amamos tenham falhas. Cláudio ama Bruno porque fez isso, porque fez aquilo. Nunca embora. Berebger foi fiel durante tanto tempo. Errou uma vez e se tornou anátema. E quem arriscou a pele para eliminá-lo? E quem garante que amanhã o mesmo não se dê contigo? O que é estar acima dos demais estando abaixo de Cláudio? Permanece ser viçal só que com a inveja de todos. Só há uma maneira do que ele disse ter alguma


utilidade prática. Bruno têm o ar de um menino a quem roubaram seu doce. E qual é? Sendo o mais alto abaixo dele quando ele não existir mais. Essa hora já chegou, se você quiser. Leslie se

põe

de

num

salto

levada

por

uma

sensação

estonteante. Teriam enfim as coisas que sonharam ao se casar. Lembra?

A

fronte

de

Bruno

está

banhada.

Sem

captar

exatamente do que se trata, procura ponderar sobre o que a mulher diz, pela análise de sua frieza ao falar e o envolvimento de suas palavras naquela aura plena de concupiscência. Quando se casaram nada tinham além do amor. E os planos... Viagens à Europa, uma casa isolada nas montanhas e uma mansão na praia cheia de mantimentos e amigos o tempo todo, visitas que o tivessem na mais alta conta

social.

As

recordações

se

encadeavam.

Maquinalmente aspira as duas carreiras que acabara de dispor no espelhinho, hábito que Leslie abominava – mas dessa vez ela não reclamou. Fez um carinho longo enfiando os dedos a par tir da nuca, levando-o a um arrepio. Filha do futuro que subitamente descor tinara, ela anda com as


palmas das mãos e os joelhos sobre a cama. Beija-lhe o peito nu; beija-lhe a barriga. Amar Leslie preenche toda sua existência. Enquanto ela usa os lábios e a língua, Bruno pensa que não resistiria se a perdesse, se perdesse um corpo tão for te e um espírito tão surpreendente. Pressentia com temor uma possível separação. A divergência quanto a Cláudio será capaz de causá-la? Vibrando deixa-se conduzir a um êxtase cheio de dilemas.

Bateram à por ta. Bruno enfia a cueca e vai abrir ; Leslie aonde sua nudez não possa ser vista por quem está batendo. Basta chegar à janela. Olha e vê Margherita passando na rua, toda faceira como sempre. Invejou-a. Teve pena dela. Tão menina pelas ruas, em camas nojentas... Leslie chegara em Tundra aos dezesseis

anos.

Queria

se

livrar

da

presença

do

pai

moralista que em casa se transformava, sobretudo dentro do quar to da menina. Talvez a vida correta que pregava fosse tão enfadonha que ele precisava de um estímulo a mais. Mesmo depois de vários namorados, Leslie jamais


ouvira de nenhum tantas obscenidades como quando das visitas do pai durante as noites. Pior quando começou a menstruar. Ela lhe implora uma trégua. Ele não a poupa, exige mudanças. Extrapolou, pensa ela. Tomou coragem e contou à mãe, que não acreditou ou sempre soube. Se não tinha prazer em ficar, Leslie foi convidada a sair de casa. Porque pessoas não se tornam boas por serem pais. A idade não traz necessariamente sabedoria. Sozinha veio de Pai-Bó numa carona que a iniciou na prostituição. Tentaria mudar de vida quando chegasse em Cascatinha. Lá o mercado de trabalho era bom. Conheceu um rapaz em Tundra, um médico que em poucos dias de namoro lhe propôs o casamento. Estando ela em muitas dúvidas, pois não o amava embora não desgostasse de todo de sua companhia, aceitou o convite para lhe dar uma resposta durante um jantar na casa dele. Com que então minha princesa ainda não decidiu? – Por favor – ela pediu – não se ofenda, mas acho que é melhor a gente continuar amigos. Estava dizendo que todos esse tempo o fez de bobo? Claro que não. Gostava muito dele. Só que—


Interrompida.

Ele

avança

com

fúria.

Rasga-lhe

as

roupas entre bofetadas. Violenta-a cirurgicamente. Fora de si, ela espera-o numa tarde depois do trabalho. O que é? está querendo mais, doçura? A faca na mão de Leslie desceu no meio dos olhos dele. Quando levou as mãos ao rosto, a lâmina movimentava-se de baixo para cima entre as suas pernas. Foge pelas ruas de Tundra em pleno carnaval. Viu Bruno. Graças às amizades dele na cidade, cada vez mais influentes, o crime jamais seria julgado. Quando se sentia deprimida, pensava: aquele era o corpo de seu pai e chegava a passar do horror à felicidade. Ouviu? Leslie! Não, querido... O que foi? Cláudio pedira que ela fizesse um jantar bem gostoso. Dará a honra de jantar aqui em casa. Leslie diz que precisavam comprar alguns fogos. Ah, querida... Não devia ser assim sarcástica. —

Você é tão ingênuo... Não percebe que ele o

humilha? Apenas usa você. E não quero viver ao lado de um homem que se deixa usar assim. Molinari estremeceu.


Ela disse

que

até

faria

o jantar.

Desde

que

lhe

ser vissem a mor te de sobremesa. Estava louca. Se você fizer isso, me submeto com você a essa humilhação – continua Leslie como se não tivesse ouvido o comentário.

Que

um

outro

homem

mande

a

mulher

cozinhar para ele. Não vê? Só faltou pedir um prato especial. Ele pediu, disse Bruno cabisbaixo. Não acredito! – com gestos largos, Leslie levou as mãos à cabeça. O que ele quer? Chuleta de boi na grelha. Com ou sem pimenta? Com pimenta e champignon. Envergonhado gostosa risada.

e

constrangido

ele

a

viu

dar

uma


Leslie olhou o tabuleiro e derrubou seu rei. Não gostava nada de perder, ainda que fosse para Bruno. Ele sorriu e ela devolveu o sorriso que passou a transmitir antes orgulho que chateação. Seu homem não era apenas bonito e sensual mas também inteligente. Precisa haver algo que você não perca para mim, brincou. Também desenho melhor do que você. Imagine. Olhe só. Com o dedo na umidade do vidro ele traçou o contorno rude de um rosto que ria. Que horrível. Não tenho culpa. É o modelo. Sou eu? Ah, ah. Desenho muito melhor. Olha você. Enquanto o outro rosto escorria, Leslie iniciou um novo. Bruno segurou sua mão. Deixe, disse ele. Sei que seus dedos são capazes de melhor que isso. E os seus, admitiu ela.


VocĂŞ estĂĄ falando disso? Ela fechou os olhos e sorriu e se calou.


Cláudio se movimenta pelo jardim. Não chegava a ser uma figura que impusesse respeito. Não era autoritário. Tocava as pessoas pelos flancos, como a cavalos que logo se punham bem domados. Suas ordens eram a bem dizer carinhosas. É isso que Leslie mais teme. Agora ele toca nas pétalas das calêndulas, abelha polinizando o desejo que sentia

por

meio

das

flores

que

ela

havia

plantado,

aspirando-a, ouvindo a água do chuveiro e imaginando-a nua. Diante de Bruno, agora materializa-se. Os efetivamente

molhados.

Pensamentos

lascivos

cabelos levam

Cláudio a histeria interior mal disfarçada. Deixa cair olhar sutil ao decote. Retorna pudicamente aos olhos dela. Lagos de pura obscenidade. Obras de ar te. Como podia ser que a dona deles escolhesse alguém tão insignificante como Bruno para esposo? Ela poderia ter príncipes, reis. Ela o poderia ter – sim, a ele, Cláudio.

Leslie fora feliz naquela casa. Lá conhecera a paz. Agora alguma coisa a incomoda. Tem decer to a ver com Cláudio.

Com

a

maneira

sem

cerimônia

como

ali

se

compor ta. Uma casa precisa ter a alma de seus moradores e não conhece a alma daquele Bruno subser viente. Ela sabia


sobre ele de cor. Toda peculiaridade de seu caráter. Todo acento

de

sua

personalidade,

firme

como

a

casa,

dependente apenas do que havia no entorno. Cavalos pastando ao redor. O café e a cereja. Coisas que ela sabia o marido atentava com quase devoção. As aves praianas e os morcegos das frutas. A fala dos coloridos pássaros repetidores choramingando por causa de um tempo que parecia se perder desde que conheceram a proteção da Sociedade.

Se a vida é febre, acalmar-se-á com a cura. Quem sequer pode garantir que seja um mal? Não estarão eles sim

ainda

em

perigo

depois,

quando

Cláudio

estiver

descansando? O que será de nós quando ele nenhuma preocupação mais tiver? Pesos. Luminosidades.

E a tudo

espera a treva do repouso em ele já estará. Deixei esse pensamento enraizar-se. Nem precisou muito tempo. Agora penso apenas em nosso amor. Em meu amor talvez, pensa. É tempo de fazer de conta. Ela será capaz. Pensando um pouquinho no pai, outro tanto no jovem médico. Pessoas deduzem do que vêem o que é invisível. Vejo o rosto de Bruno, o meu amado, nesses ódios. O futuro nas chamas de


um fogão. Deixe-me ir para a cozinha.

À mesa fumega o rosbife. Retinem os talheres. Cláudio já lhe dissera que estava linda? Sorrindo, com vontade de derramar o vinho não no copo mas naquela careca nojenta, responde que sim. Ele lhe dera a honra de ouvir aquilo. A carne

está

deliciosa.

Cláudio

lambe

os

beiços.

Bem

temperada, tenra, per feita, diz, olhando de soslaio o colo de Leslie. Que não se pinta mas gosta de decotes. Os outros

homens

igualmente

se

far tavam.

Macarrão

impor tado acompanha o prato principal salpicado de milho e atum. Carne de fato muito tenra. Leslie se esmerara em batê-la.

Levou

cronometrado

a

para

cozinhar que

todos

o

tempo ficassem

cer to.

Tudo

satisfeitos.

A

aparência dos pratos fez água na boca de todos. Fora um dia difícil. Ninguém relaxara. Agora, com a adesão dos homens de Berebger conseguida, estão exaustos e famintos.

A adesão dos homens de Berebger... Os mesmos que pela manhã seguiam Bruno e Zenon pelas ruas batidas de Tundra. Estão dispostos a seguir as ordens de Molinari


quando por alguma razão Cláudio não estivesse. O corpo de Berebger nem esfriara estirado no Instituto Médico Legal de Empatia. Bruno entende como o maior dos elogios. Leslie nem chegou a ficar por demais chateada com isso como se fosse, digamos, uma ausência que alimentaria de saudade o seu amor quando o amado voltasse a si. Os homens mastigam a carne quente e macia como se não houvesse amanhã. Como se todo destino estivesse ligado à voracidade com que se lançavam ao prato. Limpam mulheres

os

mais

lábios atentas

com

guardanapos

perceberiam

que

encardidos.

apenas Então

Cláudio fala. Deixem-me arrazoar um pouco mais sobre esse rapaz cuja existência nos deixa um pouco mais tranqüilos. Temos alguém com zelo assim pelo nosso bem e pelo bom andamento de nossos assuntos. Temos Bruno Molinari. Mais tarde, todos já se haviam retirado, mas Cláudio deve ficar. Foi veementemente convidado embora nem fosse necessária tanta insistência de Leslie para que passasse a noite. A cadela...


Leslie Molinari? Como descobrira o seu número? Precisamos conversar.

Vá até esse endereço às nove

da noite. Se eu não estiver chegado ainda, pegue a chave do apar tamento com o por teiro. Por que ela deveria ir?

Teve receio de fazer a

pergunta. Fazia algum tempo que o médico morrera. Séculos. Par te de outra vida. Se esse cara descobriu e pensa que irá fazer chantagem

por favores está muito

enganado; mas o fato é que ela estava à mercê dele, logo descobriu.

Algemas

de

policial

e

terrorismo

devasso.

Desper tou antigos desejos de dor e mor te que com Bruno haviam agonizado. Ela o escuta tirando o cinto da calça mas descobrirá com as mãos presas para trás que não será com um objetivo óbvio. Está aprisionada. Se Bruno fosse mais poderoso o homem temesse e desistisse antes que ela passasse de vítima a cúmplice.


Bruno diz a Zenon que, sabe, estava pensando naquela ulorixá. É corrigido: Ialorixá , senhor vice-presidente. Tudo bem. Mas antes de tudo eram amigos. Deixe de bobagem. Falam,

é

claro,

da

filhinha-de-santo,

da

pretinha

gostosa. Ela dissera que Bruno levasse em conta o que o velho profetizou. Mas disse também que, se ele próprio não cuidasse de si, nenhuma adivinhação viria em seu socorro. A cidade dorme no silêncio cansado de outra noite bêbada.


Súbito tudo está pronto. As máscaras que devem ser arrancadas e as que permanecerão. Isso é nosso tempo de vida. Todas as noites juntos foram uma preparação. Todos os passeios, todos os filmes e livros. Toda as músicas. Preparação para quê? Lembra, Bruno, quando você me dizia que o sentido da vida deve ser algo tão grandioso que o acontecimento que o desencadear dentro de nós deverá alimentar a memória pelo restante da vida? Estávamos almoçando num restaurantezinho

à beira mar, lembra? E

como era o começo do namoro, ele pensava em onde levála depois. Tão pouco era o dinheiro que tinha. Ele lembrava mas preferia não. Dias singelos em que ser feliz não custava tanto. O deleite de um pôr-do-sol precisava ser substituído pela angústia de tantos ardis que seguramente levarão a não mais que uma perseguição do vento, à busca de um pote no fim do arco-íris? Leslie não parecia acusar os golpes do destino. Acompanhava-o risonha e leve. Dócil. Onde está ela? Aquela Leslie? Todavia ele ama uma e outra com igual avidez.

As folhas das ár vores far falham à brisa da manhã.


Bruno Molinari. O que ele pensa ser e querer e os meios que achava lícito para alcançar as coisas pretendidas. E aquele outro ser dentro dele, que Leslie amava tanto. Entram num anunciado impasse. Sente-se doente de males cuja convalescença quebrará rotinas. Não sabe dizer se está melhor ou pior.

Decer to diferente. Entorpecido. Tem um

corpo quase paralelo às vicissitudes. Como se sonhasse. Como se estivesse mais desper to do que nunca. Com os olhos mais aber tos ou mais fechados que jamais.

Os que dançaram e atravessaram a madrugada estiram agora seus corpos em qualquer lugar da praia, fornicam na encosta da Colina Efe ou se arrastam em busca de um quiosque na sobrenatural procura de um sentido para as coisas, sem rumo exceto o próximo trago ou a quimera das macumbas, com olheiras fundas que apontam para o vazio das velas sete-dias coruscando na treva geral. Às 7:30 Carlo Guisem estava batendo à por ta de Bruno.

É um homem grisalho de 65 anos, ainda bastante for te para a sua idade. Não hesita. Não vê nada além do que vê.


Mantinha-se havia 10 anos fiel a Cláudio Boguski ainda que cer tamente teria, caso quisesse, apoio em uma disputa pelo poder

máximo

da

Sociedade.

Uma

nuvem

trouxe

preocupação e angústia para o que sonhava acerca do futuro.

Tinha

uma

mulher

e

uma

filha

que

adorava.

Par ticipara do jantar do dia anterior mas não par tilhava do entusiasmo do velho amigo por aquele jovem Molinari, um marginalzinho de rua. Bom dia. Cláudio está esperando pelo senhor.

Bom dia. Entrem, por favor. Leslie iria falar com Bruno. Lentamente

confuso

o

homem

habita

uma

realidade

intermediária que o assusta. De onde vem? de que par te dos acontecimentos ou de que par te dele mesmo? Quando ela se afasta, Carlo desaprova silenciosamente o olhar que em seus seguranças tinha Leslie por objeto. A filha, Hilma, a inveja. Ela acredita nos astros e nos presságios, madurada por um imaginário em que a ternura maior não é manifesta e os melhores dons da bondade se mostram na penumbra. Não vou não, pai. Prefiro ficar em casa. Não sei se me interesso por alguma dessas coisas da Sociedade. “Vou

falar com Bruno...” – arremedou Carlo.


Bruno. Aparece e diz que o sigam até o quar to de hóspedes. À por ta. Os dois guarda-costas estirados no chão. Um vivo. Desper tando desesperado vê o corpo do patrão. Tirou-o de uma vida de misérias para o terno escuro engomado um número menor do que o seu. De sua boca saem palavras ininteligíveis, lágrimas de seus olhos arregalados. O quê? Quem? Como? O pesadelo da velha vida

retomado

pior.

Desempregado

e

uma

suspeita

hedionda sobre si. O mundo tornará contra ele e não há mais quem o possa socorrer. Quão desfigurado o rosto de Cláudio! Ao desper tar viu seu parceiro dormindo mesmo com todo esse imaginado movimento. Mas não quer falar. Não quer ouvir. Não quer acreditar que seu benfeitor não existe mais. Não cogitou imediatamente que as suspeitas cairiam sobre ele. Não cogitou sobre nada. Um homem desgraçadamente silencioso. Bruno é sincero quando grita e chora e amaldiçoa. Escuro ser que não enxerga razões que o levassem àquilo. Ah! como supor tará esse traidor? Maldito! Matara tantos para preser var o padrinho, e de que adiantou? Leslie a um canto analisa a atuação do marido. Não chega a se


entusiasmar. Dirige-se a ele e o abraça com força. Calma, querido. Calma, repete, soletrando em seu ouvido. Enérgica entredentes. Apesar de suas hesitações, descontrolar-se assim não lhe era típico. Ela mesma está com o ânimo abalado. Não se culpe assim. Para o inferno! Que todos estivessem a caminho do inferno!

Ajoelhou-se

diante

de

Beneti,

o

segurança

silencioso, agarrou-o pelo colarinho. Bateu com a cabeça dele no chão. Assassino! Ele fala a verdade. Quem tenha matado o padrinho. É verdade, Beneti pensa. A culpa é de meu sono. Sou o culpado. — Assassino

miserável!

Zenon lança para Leslie um olhar indefinível. Vai até o amigo e o agarra contra si. Lágrimas continuam ver tidas. Como viverá agora? Sequer era um jovem da noite mesmo em seus tempos de bagunça. Franziu a fronte. As paredes da casa são escuras, as cor tinas quase vermelhas. Efeito macabro. Adequado. Talvez amanhã peça orçamento ao pintor. Antes uma tonalidade clara. Antes falsear com aparências o remorso. O cinza do céu lá fora há de acompanhar as mudanças. Lembra-se da babá que com


zelo escondia qualquer informação que pudesse per turbar o garoto. Teve uma babá. Teve mãe e pai. Até zelosos. Onde desviou-se do caminho?

Durante o funeral a figura imponente de Leslie chama todas

as

atenções.

A

seu

lado

Bruno

Molinari

é

contemplado com pêsames. Os que o fazem, antes de sair, desviam olhos mais ou menos sutis para a mulher. O que devo fazer? – pergunta-se Carlo. É como se Bruno fosse realmente o filho. Obser va que até o pessoal de Cascatinha, todos estavam com ele. Prevê será o próximo. A Sociedade terá um final melancólico. Não. A mulher dele, Zelhia, diz que não. Impediriam. Mas não tinham como provar que Bruno é o assassino. Ela sabe que sim. Que é ele. Que não podem provar. E não é o momento de saber coisas assim. Carlo sugere que se afastem. Dar um tempo. Que o próprio Bruno em sua ambição desmedida acabe por decair aos olhos daqueles que agora o têm por deus. Aconteceria, sem dúvida. Agora sente-se, Zelhia, você precisa descansar. Percebe o quanto aquilo está afetando a mulher e odeia Bruno na mesma proporção de seu amor por ela. Por outro lado, caso se


afastem, desper tarão Logo

esse

suspeitas. Mas ele insiste. Vamos.

bastardinho

terá

corda

suficiente

para

se

enforcar.

Sentada na capela, divindade pairando sobre mor tos, Leslie passeia o olhar pelos presentes. Obser vações com que mais tarde oriente Bruno. Ele está preocupado com Zenon, que trouxera seu filho à cerimônia e o apresentava a todos com orgulho. Esse é Benévolo, meu filho, recémformado,

um

advogado

brilhante

para

eventuais

necessidades que você possa ter, dizia, sabedor de que ali todos eram clientes em potencial.

Um amigo comum apresentou Zenon a Bruno e falou aos dois da sociedade. Oferecia guarida e salvaguarda em suas tribulações sem fim com a polícia, a um de cada vez. Elogiava

sempre

o

ausente.

Como

Lancelot? Leslie que inter vém. Como

Ar thur

falava

de

Macbeth falava de

Banquo. Afaste-se de Bruno, hipócrita. — Quem

você se acha? Somos amigos desde meninos!


— Sou —

a única amiga que ele tem.

Onde você estava quando juntos estudávamos na

mesma escola? — Onde

juntos repetiam de ano! Afaste-se dele.

À noite, com a esposa, Bruno pergunta. Você viu como Zenon

exibia

seu

filho

a

todos?

Conquanto

tensa

e

aborrecida, precisava acalmar Bruno. À beira da cama ajoelhada prepara-o e senta-se em seu colo. Mesmo alheio ele

fica

pronto.

Ela

se

mexe,

per feita.

Imagina-o

obser vando-a por trás. Ele tem um filho, diz entre os próprios gemidos; você, uma mulher. Deitado agora, as pernas dobradas permitindo que os pés cheguem ao chão, ele não sente o que sente e não ouve a mulher. Nós é que devíamos ter um filho para ser louvado no meio de todos. Leslie não pára. Aos poucos ele se deixa envolver ; senta-se. Ela se inclina e recua, apóia-se no beiral da cama, ajoelham-se quase ao mesmo tempo, ela ainda apoiada. Sente o calor da barriga dele, o que irá permanecer pelos próximos dez minutos com os devidos inter valos até as


contrações. Esgotado suspira com força ao se encontrarem queixo e nuca. Relaxou de uma só vez soltando-se de costas na cama. Com a voz da mulher em seu ouvido, deixa-se ninar e adormece.

O homem chamado Domênico liga e pergunta se é uma boa hora.

Leslie não tem mais forças de resistir e diz que

sim, que irá. A consciência culpada longe de dar forças contra o pecado, estimula-o. Merece ser amarrada e assim ser usada. O sol parece ter um grau de sufocamento que em geral as paredes, tetos e janelas costumam amainar. Faz um mês que se encontram. É ali que ela encontra o imponderável confidente. Ele sabe de todos os fatos e dos dilemas envolvidos. Quem diria, está preocupado com ela. Quando ela chegou chorando não pôde deixar de ficar excitado e usufruir do momento, mas tão logo se sentiu apaziguado, suas mãos se enterneceram onde antes só havia

dominação.

Escutou-a

tomando um caminho

e

disse

que

ela

estava

perigoso. O sangue está acima de


qualquer lógica e intenção. Você precisa fazer alguma coisa. Ela respondeu que tentaria. Não tardou teve a consciência que se alastrou por seu corpo e enegreceu todos os lugares. Foi quando a lua deitava uma luz sem sentido sobre o peito de Bruno.

Chegou caminhando

à

janela

do

quar to.

um

ao

longo

das

ár vores

que

cachorro

marginam

a

rua. Carrega um filhote de pelo muito liso e brilhante. Ao perceber a presença à janela, começa a rosnar. Bruno apanha a arma e dispara sobre o cão que cai no macadame enquanto seu filhote foge ganindo. Na rua alguém apareceu e

apanhou

o

animalzinho

no

colo,

olhando

recriminadoramente para o homem à janela. Súbito ele atira bem no meio do rosto de Bruno que sente a queimação da bala entre a boca e o nariz.

Sobressaltado acorda e acorda a esposa. Conta o sonho em meio à respiração entrecor tada. Diz que vai agora mesmo no terreiro saber o que quer dizer. Não será preciso, querido. Está claro. O cachorro é o melhor amigo


do

homem

como

Zenon

é

seu

melhor

amigo.

Será

realmente? Dádiva de um dúvida. Homem e mulher : nada maior na vida. Tudo aí começou. Não termina. Ainda mais com o auxílio da ciência hoje. Talvez devesse. Trouxe o filho, diz Leslie. Debaixo de sua janela. Nosso convívio. Exibe-o para te amedrontar. Você não vai se amedrontar. Eu jamais me deixo amedrontar, respondeu ele. Eu sei, Bruno. E acrescentou que sabia que essa pessoa é quem deveria se cuidar. Bruno diz que ninguém o intimida ou usa. Ela disse que bem o sabia. cuidar do caso, querido?

E

quando você irá


Hoje

passou

uma

repor tagem

na

TV

em

que

fraudadores de licitações falam da “ética do mercado”. Outro na mesma matéria diz com orgulho que assim age e assim ensina o filho. O pior é que a maioria das pessoas de bem só são assim por falta de uma opor tunidade de se corromper. Assim, pensa Isabela, Bruno até tem uma vir tude inegável: o reconhecimento do mal em si. Porque esse é pecado imperdoável, não reconhecer o pecado. O que o senhor acha? Mas o velho sabe que a questão dela é o amor em seu coração. Pobrezinha. Quem sabe seja bom para você fazer uma viagem, visitar seus pais. Mas ela diz que não. Preferia ficar e ajudar no que pudesse. São tempos difíceis, paizinho. Ela não se conforma porque Bruno sequer lembra dela quando eram crianças. O velho não a repreende. Há uma moralidade sobre qualquer moralidade, que não se impõe. E o amor, quem solucionará esse mistério?


Do que ela está falando? O que está acontecendo comigo? Alguma coisa aconteceu. Não há como retornar no tempo. Encruzilhada. O que concordei em começar quero realmente terminar? Cuidar do caso? Com a mor te de meu padrinho percebi o peso das mor tes que carrego. Esse assassinato em par ticular a todos representa. Claro. Agora mesmo. Cuidar do caso. um recado.

Nestor! Vá ao sítio de Zenon dar


Estava a um passo do abismo e pensava em como a mor te afinal nada muda para os mor tos e tudo para quem fica. Esses meninos que jogam bola à sua por ta – ele um dia – mostram o que impor ta para quem queira ver e ninguém quer. Ninguém quer. Pouca coisa ainda é sagrada. A música, a pintura, as esculturas. Se ele pudesse fazer algo assim da dor que o transpassa e da atordoante consciência de sua fraqueza! Margherita está de novo à por ta. O que ela quer agora? O que Leslie ainda trama? Basta. De nada adianta induzir o Destino e não outro lhe concedeu os momentos melhores de sua vida. Se os mor tos se levantam, é na mente dos vivos; se as crianças correm é com suas próprias pernas. Não haverá um dia sequer parecido com os dias de minha inocência. Que espécie de amor é esse, que destrói a mim e a tudo a meu redor? Isabela gostaria de dizer que nem tudo está perdido. Ainda há uma chance. Que ele a agarre com a mesma garra com que se precipitou em obras per versas. Está calma. Ele entenderá a tempo. Um homem bom. É possível que exista ainda um caminho.


Para chegar, o mensageiro tem de tomar dois ônibus e pegar carona numa carroça. Cerca de hora e meia. Zenon prefere assim. Morar longe do centro. Cultiva hor taliças e mantém uma baia de porcos. 6 meses de vida e época da reprodução coincidindo com a colheita. Sob os olhos do patrão, os empregados arrancam as brotações que curam à sombra. Ali na terra em meio aos animais, caminhando entre as malváceas, ele se esquecia da vida, dos negócios ilícitos e da saudade da mulher precocemente falecida. Se ademais seu filho, que detestava a roça e a vida longe da cidade, concedia em ficar um tempo com ele, como então, e passava as férias com o pai, Zenon Deckhorn sentia-se plenamente feliz.

Levando a mensagem na ponta da língua, o garoto atravessa o Ixixe. Um dos empregados, apesar de Zenon dizer que estava tudo bem, que o garoto era conhecido, não tirou os olhos do menino até que par tiu.

O filho pisa no pasto. Pergunta ao pai o que era. Molinari quer que a gente vá lá almoçar, respondeu Zenon preparando o piquete para as porcas passarem o período


de aleitamento. Quando o filho sentia assim, esse calor, dava impor tância; costumava valer o estranhamento. Para isso de resto ser vem as intuições. Permanece uns momentos amassando distraidamente um tufo de forrageira. É. Bruno quer conhecer você melhor. Isso enche Zenon de orgulho. Ficou impressionado. Mas como poderia se não trocaram duas palavras? O problema com o filho eram as cismas, pensa o pai. Então lembra de como olhava para Leslie e imaginou outras as razões de Bruno. Confessou-o ao pai. Ora não não. Imagina se ele fosse entrar em conflito com todos que olham para ela. Por outro lado. Mas que o rapaz não pense bobagens. Aí sim poderia ter problemas. O amor desse homem pela esposa é algo quase doentio. E agora ele é o principal, tem poder de vida e mor te. E vai ser muito bom se você cair nas graças dela. Ela tem total domínio sobre Bruno. – Patrão! Patrão! A gaiola de gestação está pronta. O senhor não quer ver? – Estou indo!


Os empregados do sítio dormiram felizes naquela noite. Pai e filho mal pregaram o olho. Zenon se lembrou de quando pedia carona e parou para ele. Na casa de Cláudio, outro jovenzinho come sofregamente na cozinha. O filho sonha com gabinetes ministeriais e púlpitos. Não deveria ser difícil viver da satisfação dos próprios interesses desde que apenas tivesse o cuidado de dar outro nome a corrupção, roubo e assassinato. Quando amanheceu, Zenon acordou o filho. Depressa, depressa. Os pássaros estavam cantando. Canção do sucesso de Benévolo. – Vamos!

Par tiram pois pela manhã na direção do meio-dia em Tundra. Do almoço na casa de Bruno Molinari.

Manhã escura. Ribombar de trovões secos parecem ameaças de Deus. A convulsão dos elementos se dá em trevas densas. Pesadas nuvens pairam no céu. Torsos de pai e filho se enrijecem. O carro parece atolar no rastro fundo.


Cheiro de pólvora se mistura ao da chuva. Tiros de todos os lados. Luz de relâmpagos nas metralhadoras. Zenon tomba. Rio de sangue. Benévolo grita pelo pai que, supliciado, pede ao filho que fuja. Zunidos sobre suas cabeças. Chorando, ferido no braço e na coxa. Saindo do carro e se lançando no rio, o rapaz obedeceu. Maldito Molinari. Os ventos que uivam sobre meu cadáver levarão a voz de minha vingança.

Nos tilintares e na música sobrelevando-se em fendas e ombros num soustache Leslie se move deslumbrando os presentes. A casa dos Molinari destacava-se iluminada e barulhenta mesmo num lugar como Tundra na temporada sempre resplendente e ruidoso. Na casa ao lado em outra festa era comemorada uma arrecadação de 7 bilhões. No outro vizinho apenas quem prestasse muita atenção ouviria uma voz em murmúrio no que parece uma oração. No Bosque de Marli roda a roda gigante. Sombras das serras sobre o rio correndo para o sul. A lua polia as pedras da ilha. Danças típicas prenunciam o carnaval. Latas de cer veja e cacos de garrafas atapetam os caminhos da vila. Aliviados


pelo

fracasso

do

bug

previsto

para

os

sistemas

os

mercantes exultam. A noite desce e a cidadezinha fer vilha. O

mar

busca

o

lixo

dos

turistas

quando

amanhece.

Quiosques fechados. Cheiro de urina nas laterais: sucesso da temporada que se abre. O sudoeste sopra soberbo em meio à floresta de antenas.

A silhueta de Leslie tomava conta dos convivas quando todos se voltaram para Bruno. Está cansado de festas, diz com voz arrastada. Leslie abraça-o, afasta-o para um canto, pergunta

o

que

está

havendo.

Outras

pessoas

se

aproximaram. Ela diz que não é nada.

Feliz quem consegue manter as atividades diárias como se nada tivesse acontecido. Quanto mais se não é por algo pequeno mas isso. Para lembrar a pequenez do homem e a grandeza de sua maldade outra vez e repetidamente estou isolado num mundo que no fundo jamais desejei. Numa glória

que

não

indiretamente

me

me

impor ta

impor ta).

mas

sim

Cada

vez

a

você

(então

menos

jovens

seremos. Cada vez menos plenitude de tempo em mãos sedentas e olhos insaciáveis, em rostos cada vez mais


abatidos. Você não era assim. O que houve contigo, amor? O que houve conosco?

Ele está trabalhando demais. Quer fazer por merecer o lugar de Cláudio à frente da Sociedade e às vezes exagera. Está

apenas

cansado.

Quer

verificar

pessoalmente

os

mínimos detalhes de tudo. Apenas cansado. Está é bêbado, murmura alguém. Carlo aproxima-se, paternal. – Você está exagerando no álcool e no pó. A tradição determina que os membros não se envolvam diretamente com essas pragas.

No quar to, Leslie ajuda Bruno a deitar-se. Ia tirar a roupa dele quando se levantou novamente. Ela pede que se deite, ia fazer uma massagem, logo se sentiria melhor. Ele respondeu que se deite ela. Ele vai dar uma volta. Sai e bate a por ta atrás de si. Evita a sala onde estão os convidados. Chega molhado no terreiro.


Ela chega antes dele no ponto de destino na direção oposta. Domênico continuou fazendo o que estava fazendo no computador na mesmíssima calma aparente de sempre e como sempre o coração disparado. Você parece exausta. Isso ela já sabia. Uma vida em alguma momento deixa de estar atada a sexo ou poder? Cores do trânsito de uma cidade grande. Ela se perguntou de onde vinha a cer teza de que tampouco Bruno voltaria antes do amanhecer. Quando entrou e viu o outro ali absor to soube que era bom o papel de mulher devota que procura um homem não só pelo prazer mas também pelo consolo sabendo que terá no fim esse bônus entre amarrações e investidas. Há todo um transtorno no apar tamento e a por ta que se abriu para ela se abriu para o doce e raro momento de se sentir de novo uma menina com tendências que serão julgadas anormais mas trarão o céu e um dia enfim sem mais culpa ela verá o homem no outro lado da sala junto à janela aber ta para o ruído urbano de que sente falta em Tundra mas cujo prazer não durava além do gozo pairando entre a mentira e a culpa. Como dizer o quanto ama o marido sem negar o amor daquele outro tipo de entrega? Como se aconselhar


com um amigo fez aflorar toda fascinação pelo lhe era proibido? Impossível abandonar essa luta e que seja assim, que seja assim. Calma, Leslie, você precisa se acalmar. Manter as coisas sob controle. Ela concorda ao sair do prédio na luz diáfana. Se apressa. Vai dar tudo cer to. Como Domênico disse, está mais calma ainda que não se sinta segura de que menos louca e mais gente por causa disso.


Regressam os olhos de Bruno ao primeiro dia em que ali esteve, à devota mestiça. Cheira a er vas. O velho profetizara uma filha para ela. Tão jovem... Dezesseis? Leslie tinha quinze quando a conheceu. Sem dinheiro para filtro solar, estava queimadíssima. Passando por Isabela, Bruno entrou no aposento bruxuleante. O que queria? — Por

O

favor, o senhor tem alguma coisa mais para mim?

que

faria

um

homem

se

conhecesse

todas

conseqüências e qual o valor do que faria nesse caso? O velho se perguntava olhando para um rosto tranqüilo e transtornado onde as emoções se intercalavam num átimo que

não

permitia

avaliação

definitiva.

Da

ambição

desmedida num coração sensível o coração sai ferido e a ambição frustrada. Quem estivesse atento poderia escutar ao longe o bramido do mar sob o sol lânguido de fevereiro. As águas subiam lentamente cobrindo os recifes em frente ao pé de tamarindo. Pequenos caranguejos agitados iam de um lado para o outro nas cavidades de musgo. Cheiro nauseante abafado pela maré.

Atabaques calados mas ritmo de palmas. Um sorriso


triste marcou o rosto de Bruno e Isabela retribuiu. Sorriso alvíssimo. Um sinal fascinante na virilha.

Chove ainda. Chega em casa. Abre a por ta. Uma figura branca na escuridão do fim do corredor. Esperam você na sala. Vá, querido. Parece que os empregados têm uma notícia impor tante. Ele teria perguntado se era a respeito de Zenon, da razão de não ter vindo à festa, mas ela parecia muito cansada. Tudo bem, diz; volte para cama, amor. Parecia doente. Na sala, Leonardo disse que não se preocupasse mais com Carlo. O quê? Quando Cláudio estava vivo, Bruno velava por ele. Agora os homens que herdara de Cláudio velam por você. Do que estavam falando? Bem, haviam cuidado de Zenon, disseram e — Não! não era assim que Bruno resolvia seus problemas. Leonardo pensou no homem pago para ser visto pulando

o

muro

após

a

mor te

de

Cláudio

e

nada


respondeu. Batendo no peito com vigor e desespero Bruno disse que jamais agissem dessa maneira. Não era o mandante mas seu alívio o culpava.

Eram o apoio um do outro. A força da caminhada. Felizes. Falavam apenas o que seria melhor ainda do que o silêncio. No mais, sussurravam. Gemiam. Silenciavam como quem fala. Vultos à janela na penumbra do quar to. For tes. Quem

passava

por

nós

sabia

de

olhar.

Ninguém

se

atravessava no caminho. Tudo mudou por nada. Ninguém se lembra do que fomos mas todos querem que deixemos de ser. Eram o apoio um do outro e agora um ao outro traem com per feitas justificativas que sempre têm como pano de fundo o amor, essa entidade que tem por fundamento apuradas panacéias. Um homem e uma mulher. Não mais um só corpo e uma alma.


Degraus profundamente reluzentes. Nada no shopping parecia estar no mesmo nível. No meio das pessoas da madrugada podia-se falar com qualquer um sem sequer ver o rosto da pessoa. Como se tudo devesse ser fugidio e transitório e jamais perder o movimento, a inércia seria o fim daqueles madrugadores. As palavras dele dentro dela. Enigma do súbito silêncio. A época passada das punições paternas. Queria talvez Leslie ver se algum livro falava a respeito? No canto da livraria. Nunca dissera a ninguém nada sobre aquela época de sua vida e jamais tampouco quis ser esclarecida. Angustiada agora com isso? O que sabia sobre aqueles mundos à par te de sua vida. Como quando ficou pela primeira sozinha em casa à noite e se pintou. Vermelho vivíssimo no batom, rosa chocante nas maças do rosto. Unhas azuis. O senador chegou após um silêncio adequado para o longo olhar que lançou, passou a ralhar

com

ela

e

não

demorou

a

dizer

com

voz

afetadamente séria que se ela se compor tava como uma criança deveria ser também corrigida como uma. Mão pesada sobre a calça do pijama. No canto obscuro o atendente percebeu o movimento suspeito daquele outro cliente. Não impor ta. O tipo de gente que anda por aqui


nesse horário. Quer terminar seu turno e ir para cama dormir. Fica quietinha. Depois diz a Leslie se ela queria dizer alguma coisa. Ao se preparar para sair o atendente não pode deixar de pensar que já se prestou a esse papel. Ela responde: odeia falta de pontualidade.

A empregada bate à por ta do casal. Chama. Dr. Carlo! O seu leite! Carlo diz Obrigado abrindo a por ta. Estou enjoado. Diz, virando-se para Zehlia, que foi a comida daquela

ordinária

justamente por isso

da

mulher

do

Molinari.

Ah,

mas

um leitinho cairia bem. Se você não

quer, eu quero. Oi Maria, com licença; oi, mãe, queria lhe mostrar o vestido que comprei. Hum, que lindo, Hilma! Obrigado, Maria, pode ir. A empregada desce as escadas. Volta á cozinha e pega a maleta. Fecha a por ta devagar. Os galhos pendentes da primavera alaranjada se arrastam em seu rosto. Ela passou a mão no lugar, olhou o sangue no dedo e transtornada meteu-se no táxi que a esperava na esquina do sobrado.


Que outros façam o que ele deveria, que outros se aquietem e então descubram. O sossego está longe agora. Não dá para dizer que é apenas um momento difícil desses em que a vida é pródiga mas talvez seja ainda mais pródiga nisso, tornar o simples uma dificuldade, ou deveria dizer um terror. incidente

Assim Margherita passou a pensar após o na

casa

de

Bruno.

Quando

foi

mesmo?

Prisioneiros do Tempo escapam da estação. Condenados pelo

desejo,

pelos

testemunhos,

Estonteamento do inefável.

pelas

consciências.

Andava após tanto tempo da

fuga pensando em sua casa e em seus pais, se ainda pode chamar assim. Prostituir-se não foi uma solução. Vou de novo à casa da senhora. Tentar entender. Talvez o que lhe reste.

Barulheira de coisas arremessadas e quebradas. Bruno e seus homens correm, imaginam vingança. Era Leslie. Gritava. Estava cansada, cansada! Passava a mão sobre a mesa

derrubando

tudo.

Não

agüentava

mais

a

responsabilidade de tudo, cuidar de tudo. Não agüentava


mais. Aproximando-se Bruno pergunta carinhosamente o que estava havendo. Fúria de uma divindade. O que estava havendo? Ora. Os olhos dela quase saindo das órbitas. O que há é que se Bruno fosse um pouquinho menos dependente ela não precisaria ficar tomando conta de tudo nos mínimos detalhes. Não estou entendendo, querida. Que detalhes? Tudo estava manchado de sangue. Estava tudo imundo. É apenas vinho. Os pratos da festa não haviam sido lavados. Calma, querida, diz ele e pede a Leonardo que providencie a limpeza. Tudo bem, Bruno. Que ele não se preocupasse. “ Tudo bem, Bruno. Não se preocupe”. Imita a voz e trejeitos de Leonardo. Bruno fala que ela precisava relaxar. Também está cansado. Chama-a com um piscar de olhos. Vamos para a cama. Também precisa relaxar. Ela diz que não a aborreça. Vá para o inferno! Está cheia dele, cheia! Cheia de tudo. Só quer um pouco de paz. Só quer voltar no – desmaia – tempo...

Então, enquanto altiva e desgarrada ela permanecia


com os olhos no nada ao falar, Leonardo duvidava que um dia fosse vê-la assim. Não difere do que Bruno sente. Leslie canta e esfrega as mãos. Um grito entre um e outro instante. Um grito que repercute no marido em feixes de dor. Quem vem lá? Se arrasta pelas sombras do aposento. Senta-se no alpendre.

Margherita diz que não entende por que deveria ser mor to um homem que teria de bom grado dado todas as coisas a eles. Pois se deu a mim, senhora, veja. Nunca tive tanto dinheiro nas mãos. Não quer mais, seja como for, ir com outros. Uma prostitutazinha cheia de vir tude. No fundo, o que eu própria fui. Nós a acolheremos. Vida nova, está bem?

É um alívio. A manhã entra pela janela. Tudo o que tiveram de passar até chegar naquele ponto de confor to material e status. A escuridão da noite. Leslie começa também a mostrar

sinais.

Resta então

manter

ele o

equilíbrio, chamar para si o controle das coisas. Temia. Foi um consolo ver a manhã. Momentaneamente dissiparam-se


as angústias.

Desce, deixa a esposa dormindo. Café ser vido. O noticiário da T V. A mor te da mulher de um respeitado empresário da região. Não falam em envenenamento. — Por

que não, senhor? Use a mídia. Divulgue o caráter

desse safado. As palavras do empregado mal passam a máscara de dor em que se tornara Carlo. Enfim abre bem os olhos antes de encarar seu interlocutor. Pensa na situação. Há gente bastante a seu lado contra Molinari. Não preciso da imprensa. Pensarei em Bruno quando aquela cadela tiver pagado gota a gota o sangue de Zehlia. Porque jamais acreditou que qualquer coisa, boa ou má, pudesse sair de Bruno sem haver saído antes de sua mulher.

Alguém falou entre os que estavam na reunião de emergência. Respeitavam a dor de Carlo mas estavam ali para salvar a Sociedade que, com todas aquelas mor tes,


depois de décadas ficou exposta. Carlo também entendia assim. Mas vou acabar com aqueles dois porque são eles que podem nos expor. As pessoas esquecem; a imprensa é manipulável. —O

que exatamente tem em mente, senhor?

Gostaria que esta reunião definisse as posições de cada um

após

a

mor te

de

Zenon

para

que

não

haja

desentendimentos depois. Apenas isso. O resto deixem. Matar Molinari seria uma confissão; se a mulher zinha dele se acidentar será uma coincidência. E ele sem ela estará mor to. Quero que sofra. Depois terá tempo de morrer. Alguém sugere que o rapaz, o filho de Zenon, poderia ser muito útil. Dizem que foi mor to numa emboscada com o pai, replica outro. A história de que desviara dinheiro e fugira só podia ser trama de Molinari. Pela primeira vez em muito tempo apareceu algo vagamente parecido com um sorriso no rosto de Carlo. Entrando na sala, Com licença, senhores, disse o jovem. Os pêsames ao viúvo. Quem era? O que queria?


Estava ali para confirmar o assassinato de Zenon. E quanto ao filho? — Não

Carlo

me reconhecem? Gielsen

recebe

em

seu

sofrimento

distintas

mensagens. Considera a situação pausando o julgamento ora no ódio por Bruno ora no desejo de possuir sua mulher. Mas toda a Região Sul está com ele e agora tem também o apoio de Empatia. Estúpido monstro intocável. Irrita-se. Senhores! Estavam ali para se organizar. Não devem levar em conta apenas as perdas pessoais. Cláudio deixara-se levar. Quis administrar os negócios com o coração e teve o fim que teve. Quanto a acabar com o maldito, deixem comigo, repetiu. Como se não tivesse visto ou ouvido a entrada de Benévolo.

Um pensamento correu a sala. Não havia testemunha de que o assassino de Cláudio foi Bruno. Tampouco pelos detalhes fornecidos por Benévolo.

Os mais chegados a

Carlo inclinaram as cabeças como um sinal. Tudo indica a culpa de Bruno. Mas Carlo nutria aquele ódio pelo rapaz quando Cláudio estava vivo.


Carlo entende. Propõe que Benévolo seja elevado a principal após a mor te de Bruno. Uma homenagem a seu pai e uma prova da ausência de interesses escusos da par te de todos ao colocarem um neófito no maior cargo da Sociedade.

Um espelho na parede frontal da casa de Carlo testemunhou

a

reunião.

Finda.

Tudo

per feitamente

planejado para após a queda de Bruno Molinari. Através da janela entrava sibilina a viração trazendo o barulho do mar. Os homens saíram unidos em torno de seus ideais. Boa tarde, senhores. Tenham todos uma boa tarde.

Final de dia sombrio e silencioso. A magia se foi da vila de pescadores, levando a alegria das ruas e carregando dum peso imenso de tristeza o coração de Bruno Molinari. Durante toda a tarde as nuvens caminharam negras e baixas pelos céus de Tundra. Nunca gostou do período entre a temporada de janeiro e o Carnaval. Calor, inundações, raios. Lembra-se do Carnaval em que conheceu Leslie. O mesmo sufocamento. Acre salino. Matinais do Mosteiro. Ocres


oráculos saídos dos matizes exaustos atrás da colina Efe. Bem de manhã antes do sol. Ouvia os cânticos, olhava os céus e a viu, celestial como as laudes. Nuvens brancas pelo céu limpo como se tivesse sido varrido por um buquê que agora gruda no azul. Leslie despontou com o brilho das pérolas. Nem o notou. Decidida quanto ao médico. Bruno tinha de ser grato ao canalha. Não fosse ele, noutras circunstâncias,

nada

resultaria

de

sua

abordagem,

perguntado a ela por que chorava.

Um homem vazio. No alpendre plena a opressão. Infernal melancolia. Pobres de nós, murmura ao entrar no quar to. Leslie não está na cama. Os dois corredores que levam ao pátio percorridos e ali Leonardo gentilmente o impede de prosseguir. A mulher andando de um lado para o outro fala sozinha. Ah, minha bela o que conseguiu afinal? Onde chegou? Quem irá agora admirar sua força ou babar diante de sua beleza? Bruno não pode protegê-la. Nem Imperador, quanto mais chefe duma organizaçãozinha que só reina às margens fedorentas desse rio. Ele... ele era... aquele homem... um velho bom... podia proteger você... Seu poder dependia de si mesmo não do


cargo que ocupava. Uma vez ah uma vez chegou e disse isso.

Ia

me

proteger...

haha...

Não

queria

que

eu

abandonasse Bruno só lhe prestasse uns favores de vez em quando... Velho danado... Venha agora... Sei que está escondido por aqui. Hei Cláudio! Tudo bem! Estamos combinados! Só uns favorezinhos de vez em quando!... Sei que o Bruno não vai se impor tar pois para ele você é como um pai... Nada demais compar tilhar nossas coisas com os pais... Cláudio!... Bruno puxa o ar. O fundo de si. Fecha os olhos. Parece acabado ainda que não perdesse aquela aura que as mulheres consideravam principesca, talvez Leslie não mais já há um tempo, e embora aparência – no que devia mas não estava se aper feiçoando – indicava um abatimento que levou Leonardo a se apiedar. Oração, profecias, sangue, o mar em uma lágrima que não derramou. Leslie volta, os olhos postos num chão que só ela vê. Não. Cláudio não iria protegê-la. Só mimá-la um pouco. Mas isso Bruno também faz do jeito dele. E é ele a quem ela ama e isso deve ter algum valor. Amor insano... De onde veio? Pra onde a levará? Formas magníficas transbordando pela camisola transparente. Senta-se sob a castanheira no


centro do pátio, bem onde ser vira o sonífero aos guardacostas. E quem a ama afinal? Só a mor te... Bruno não supor tou mais. Nem sabia por que deixara que a cena se prolongasse tanto. Força a passagem por Leonardo. Acordar alguém que está andando e sonhando, a pessoa pode ter um ataque. Pára. Decide. Agradece pela preocupação e fidelidade do empregado, não a merece. Pede que passe no escritório no dia seguinte. Bruno vai deixar a Sociedade. Acer tariam as contas. Talvez Leonardo seja a pessoa ideal para ficar no seu lugar. Quem sabe devolver os propósitos originais da organização, se é que existiram de fato. Ideais dos “pedreiros”. Bruno vai mesmo embora. – Está delirando mais que ela, senhor. – Não, Leonardo, amigo, não estou. Talvez alguém como você... Uma fruta colhida no pé. Eu estava na estrada apodrecendo. Quem sabe você possa dar à Sociedade o sentido

de

resolveriam quar to.

justiça,

de

direitinho.

religião, Agora

de

caridade.

deixe-me

levá-la

Amanhã para

o


Depois

de

deitar

a

esposa

Bruno

a

contempla.

Permaneça assim, serena e branca, estendida sobre a cama, seu rosto inundando o quar to de serena beleza. Fazendo-o sentir a paz da penumbra. Que ficasse assim, ali com ele, até o dia nascer. Olhar para ela traz a lembrança de um tempo harmonioso. A coisa mais bela que seus olhos haviam visto. A vida começou quando ele a viu, ele nasceu quando a conheceu. A seu lado ele não tinha mais medo, ela era a sua coragem – estendeu a mão e tocou a fronte suada. Ela o encara com olhos alheios. Ele diz que ela parece melhor. Sabe o que vamos fazer? Vamos para longe daqui, para bem longe. Recomeçaremos noutro lugar. Em Santa Vasta, que tal? Dariam uma bela festa, dessas que ela tanto gosta. Construiriam uma casinha. Dizem que lá existem boas escolas. E nós vamos precisar de um lugar bom, com boas escolas, porque longe desse ambiente viciado de Tundra você logo ficará grávida. Nas sextas vamos ao teatro, nos sábados aos bailes, nos domingos ao circo. Ou simplesmente ficaremos em casa, longe do mundo. Estava pensando em uma casa na cidade e um sitiozinho nos arredores. — Quem

é você?


— Sou

eu, Bruno.

— Bruno?

Alguém falou que a gente ia dar uma festa.

Sim. E a quem convidariam? Teremos verdadeiros amigos.

Madrugada.

Bruno

acorda

sobressaltado.

Ouve

barulhos estranhos vindos do banheiro. Apanha sua arma e vai até lá. Leslie esfrega a pia em que se haviam lavado dias antes do assassínio de Cláudio. Falava sozinha olhando o vazio. Perdida num mundo distante. Estranho para Bruno vê-la assim. A sempre altiva Leslie agora ali ajoelhada. Esfregando e esfregando, também o piso, enquanto cantava uma canção ininteligível. Pára de cantar e começa a se orientar em relação ao som, como fazem os cegos. A chuva tamborila no telhado. Sorri e recomeça a tarefa a que se propôs, cantando a sua canção.

Finalmente Bruno se deita e consegue adormecer


depois da noite horrível ao lado de Leslie no banheiro. O chamamento de Leonardo das escadas com um tantã no cérebro repercute. Desce. Recebe o envelope.

Os car tões nas mãos trêmulas mostram desenhos representando Leslie varada pela concupiscência de Gielsen em

meio

a

lençóis

encharcados

de

sangue.

Grandes,

exagerados glúteos falciformes. Seios de traço grosseiro imitando

úberes

expostos a bocas

desavergonhadas e

ávidas. Junto ao rosto todo tipo de falos esperavam diante de um ricto vulgar que a Leslie real jamais esboçaria. O último car tão é o mais óbvio. Coxas aber tas e negras no meio e o per fil de alguém cujo nariz era de um, a testa de outro e a barba de um terceiro. Bruno voltou ao quar to e abraçou a mulher, catatônica. Decorrem alguns segundos. Silêncio asfixiante. Intuiu que seus homens haviam sido subjugados ou fugido. Espera ouvir a voz que efetivamente ouve. Molinari! O grito de Carlo é pautado pela coragem dos que tem controle de uma situação. Manda Bruno aparecer. Venha! Diz estar ali sozinho. Agora é um caso pessoal. Entra pela sala com seus homens silenciosos fechando o cerco. Venha – insiste num


quase orgasmo. Chegou o momento. Não vê a hora de pôr as mãos na mulher do inimigo. Delira ao imaginar. Continua falando. Bruno, Bruno. Amava tanto a Leslie... Como pudera trai-la com uma negrinha? Também ingrato para com seu bom profeta. Ah. Falando nisso, aqui está. Sua garantia de glória. Som de um corpo caindo no assoalho. Bruno teria vomitado se tivesse visto o velho. Deixem-nos sair – pediu. Podiam ficar com tudo. –

Por favor. Leslie está muito doente. Muito

doente?

Está

brincando.

pode

estar

brincando. Esqueceu de que minha mulher está mor ta? Mor ta! Porque em sua insanidade você ordenou o meu assassinato! –

Não é verdade. Somente soube do atentado quando

já não podia impedir. – Quer

mesmo que eu acredite nisso? Seu medo é assim

tão grande? –É

verdade.

– Você

Era

jamais diz a verdade, maldito!

verdade,

pleiteava

Bruno.

Senão

como

os


inocentes, ao menos como os ignorantes. Sim, determinou Carlo, é muito grande o medo dele. Isso. Tema pelas suas abominações! Trema. Porque traiu a todos que o amavam. Bruno olha para Leslie. Já estou pagando muito caro por meus crimes, diz. Que o deixassem para o julgamento de Deus. Carlos chama para si a ação de Deus. E é a condenação à mor te

lenta, dolorosa. Humilhante. Assim seria a de

Bruno. Assistindo a violação da mulher que, segundo Isabela, ele amava mais que a própria vida. Violada por todos

os

homens

de

Carlo.

Eu

mesmo

a

darei

por

inaugurada. Ninguém

tocará

em

Leslie.

Quem

tentar

estará

assinando sua sentença de mor te. Por que tanta confiança? Carlo joga o conteúdo do saco que tinha nas mãos. O assoalho ecoou, macabro. Gargalhadas

pela

casa

como

prolongamento

do

eco.

Olhando a meu redor, não diria que você é tão grande como o velho disse. Muito menos querido. E principal apenas

por

obediência

a

nosso

verdadeiro

guia

que


infelizmente se enganou grandemente. Irritando-se, Carlo ergueu a voz. – Agora chega! apareça de uma vez ou vou busca-lo!

Aquele ruído. Deus. Pobre devota. Por alguns instantes, Bruno

imagina

como

chegaram

até

ela.

Tinham-na

estuprado antes de mata-la. Que mor te hedionda deve ter sido. E agora falam de justiça. Por que fizeram isso com dois inocentes? Ele pensa que matamos também a negrinha e pensando bem deveríamos. Ao juntarem-se a Bruno, diz Carlo, deixaram de ser inocentes. Pode me matar – dissera o oluô antes de morrer – mas ninguém poderá fazer mal algum a ele . Ao longe Gielsen ouviu o som de atabaques. Podia ser que o velho tivesse feito algum tipo de trabalho, sabe-se lá, uma invocação. Pareceu sim uma invectiva, um transe. “Ninguém pode fazer mal a Bruno”. Mas sorri. O fogo não é alguém. Ao

sinal.

Velas

junto

às

cor tinas.

Antes

que

as

labaredas crescessem e subissem, saíram. Em segundos a


casa dos Molinari transforma-se num forno.

O fogo, alastrando-se, crepita. As janelas – bocarras de um dragão enfurecido – sopram as chamas. O vento as cospe para o céu. De longe colunas de fumaça negra e densa. Causa náusea nos poucos transeuntes próximos o cheiro das pesadas nuvens. Agora as paredes. Incendeiamse sob calor infernal. O prédio caía em grandes pedaços abrasados de papel. Uma voz chama Bruno.

Em meio às labaredas, preparado para morrer com Leslie nos braços, uma luz de esperança em Leonardo. Onde está? Na janela que dá para o corredor. É a única chance. Todas as armas estão concentradas na saída do quar to e janelas para a rua. Bruno nada vê. Segue a voz alta e nítida. Num ponto do muro oculto pela fumaça dos homens de Carlo, a mão de Leonardo está estendida. Bruno se equilibra com dificuldade. Leslie sorri em seus sonhos. Colocada nos braços do amigo. Cambaleia. Encharcados. Os


olhos vermelhíssimos ardem. As bocas secas crestam. Sede. Uma rajada abriu no fumo espesso uma clareira pela qual foram vistos. É o fim. Não têm mais chances.

O tempo em que as armas foram desviadas é bastante para a substância mal-cheirosa e bendita oculta-los novamente. Não os deixem fugir! brada Carlo. Os tiros produzem um som muito agudo que se prolonga segundos após as balas atravessarem a nuvem. Os homens correm pelo fio do muro. Leslie novamente no colo do marido. Estrépito ensurdecedor. Atendendo sinais de Leonardo, Bruno salta para a casa vizinha, imitando o amigo. O casal caiu no piso. Arrancado do assombro do fogo. O que Isabela faz ali? Bruno a olha como se ela fosse um dos espíritos que costuma invocar. Moro aqui – diz ela. Bruno por tanto é um péssimo vizinho. Precisam sair dali. Leslie mantinha o ar de nobreza mesmo desmaiada dentro da camisola suja de fuligem e sangue. Isabela fez com que os dois homens a seguissem pela trilha da mata atrás da casa.


Na jarra de centro na mesa da sala escura em pleno meio-dia no Ipiranga, a pequena flor balança à entrada de uma lufada de vento mais for te. Não longe dali, empregados da prefeitura trabalham para remover os escombros do grande incêndio. Encontramos você nas ruas, Benévolo, fugindo de um criminoso, e o trouxemos para nosso convívio porque você pareceu digno de confiança, como seu pai. Pausa solene. Esperamos muito de você, de sua liderança. De seus estudos. As expectativas de todos são de que tenhamos em você a melhor presidência segundo os ensinamentos de nossa tradição. Temos absoluta fé de que você, com seus conhecimentos e inteligência, nos abrirá novos caminhos. Não se deixe seduzir pela ambição como seu predecessor. Porque a ambição não faz qualquer sentido entre nós. Nossa Sociedade é algo de que um homem pode se orgulhar em per tencer. Carlo ergue o brinde antes de concluir. – Somos

uma família.


O trio-elétrico sai da cidade. Meninas se fazem mulheres nos quar tos. Comerciantes, amigos de todos, se repetem. O terral varria entre os quiosques. Passageiros aglomerados em torno do motorista. Bagageiros fechados com estrondo. O burburinho aumentava entre as poltronas. O ar sugou a por ta e a suspensão foi testada à saída. Passageiros para o alto. Um fio cinzento seguiu o veiculo na manobra. O novelo carbônico flutuou no ar, dissipando-se segundos após. O ônibus agora flui pela beira-mar. As crianças botam as cabeças na janela. Nos apar tamentos, homens de shor t e mulheres de biquínis. Encostados no parapeito viam a dourada mancha fumarenta se apequenando, deixando para trás a temporada, o carnaval, as festas, os rituais, Iemanjá e Nanan. O Cristo dos crentes e também Jeová. A alegria, a AIDS , a luxúria, a maconha, madres, gaivotas e sátiros.

Baralhos e barbáries. Colas e coca. O lixo nas ruas e a expectativa do ano que vem. No hotelzinho na entrada de Empatia da Conquista, Bruno diz a Leslie que coma mais uma colherada. O fogo é alguém. Ah, mas ela não quer mais não.


Precisa se alimentar. – Estou

bem, de verdade.

Recostada em três travesseiros, sua voz pelas paredes ecoa como um pássaro rouco. Os braços erguidos. Os cabelos negros em desalinho caem como uma cor tina entreaber ta. Sua palidez ilumina o meio-dia. O olhar azul efloresce e tange em Bruno um ner vo de felicidade. A camisola de organza realça sua nudez entre o marrom e o vermelho nas auréolas, abissal no umbigo. Dum escuro desejo nos cabelos enrolados. O movimento quando se ajeitou para que Bruno desse a colher que insistia deixa à mostra sua magnitude. A última colherada. Agora chega mesmo. Ela vira o corpo num gesto dengoso e enfia o rosto nos travesseiros. A camisola sobe um pouco mais, refletindo a idade das lâmpadas na pele de tauxias. Bruno engole em seco, a respiração suspensa. Um gaviãozinho voou histericamente à janela. Tudo bem, não insistiria mais. Colocou o prato na cabeceira, incapaz de desviar o olhar. Quer saber o que eu queria? – diz ela. Ele


queria mesmo saber do que ela precisava?

Os dedinhos

dos pés se afastaram uns dos outros retornando ao normal em seguida. Ela ainda estava doentinha. Não devia pensar naquilo. Doentinha? Leslie ficou muito séria. Vira-se e o encara. Doentinha? Começa a rir. Leva os braços na direção de Bruno e o traz sobre si. Vencido pela força que ela não fez. Nada não excessivamente são em sua mulher. Leslie sentiu a reação que provocara. Deu-a à luz. As mãos de Leslie. Há quanto tempo. As últimas mãos que percorreram seu corpo não foram as dela. Uma pontada no coração. Os últimos lábios que o beijavam assim não foram os dela. Assim? Não. Assim nenhuma mulher no mundo. Outra coisa. Um outro tipo de momento. Um outro gênero de movimentos. Não existia no mundo mulher igual. Àquela em quem se deleitava num prazer bruxo.

Alguns dias depois, ao som do vento que encrespava as águas noturnas de São

Lombardo,

Leonardo

e Bruno


conversam diante do hotel. –

Eu me criei em Naus, Bruno. Lá pretendo morrer. Vim

só me assegurar de que vocês estão bem. Estavam, sim estavam muito bem. Graças a ele, a Leonardo. Querido amigo. Mas Naus... Tinha cer teza? Leonardo tinha toda a cer teza sim. Bruno pode ficar tranqüilo. Imaginei um futuro de paz também para você. Agora por minha causa será perseguido. Que glória maior num mundo como este? Ouviram que estava chovendo. Despediram-se. Não mais se veriam neste mundo.


Do alto do púlpito, o pastor conclamou os membros de sua igreja. Que ninguém se engane! Sua voz soava alta e nítida, como alguém que quer se fazer ouvir em meio ao estrépito de um fogo. Diz o Apocalipse no Capítulo 22, verso 15, que é terrível o fim dos que se prostituem e dos adeptos da magia. Ao dizer isso – obser vou – não pensava nas mulheres nem aos adivinhos, mas nos que se entregam à ambição desmedida. Que podem fazer qualquer coisa em nome de um objetivo qualquer de pura vaidade. Aos assassinos por motivos torpes. Aos que amam a mentira e a praticam. Aos que induzem seus irmãos ao mal.

É preciso acabar com esse homem, diz Benévolo. Hilma diz que ele se transformaria num már tir. O pior que pode acontecer, você não acha? Por outro lado, pensa num meio de

destruí-lo

sem

matá-lo.

Mais

adequado.

estará

realmente mor to. Hilma. Trunfo para Benévolo. Amante deliciosa, principal acompanhante e ardil per feito. Carlo de mãos atadas. No caso de pensar que pode fazer comigo o que fez com Bruno. Reflete sobre as palavras dela. Cumpria de fato dar um jeito nesse pastor. Incorruptível. Pior. Veio do seio da Sociedade, sabia demais. Durante algum tempo


pensou-se que ele não propagava o que sabia porque pretendia fazer chantagem. Quando foram abordá-lo a respeito e voltaram com aquela resposta – que ele não os denunciava por ter muitos amigos entre os membros e esperança de vê-los regenerados – Benévolo resolveu: não havia solução senão matá-lo.

Aí, Hilma vem com essa conversa. O que pretende exatamente? Ah,

simples.

Ela

seduziria

o

pastor,

ele

ficaria

desmoralizado com o escândalo e perderia sua autoridade. Tudo então voltaria às boas. Tudo bem, assente Benévolo, tentando controlar o ciúme. Não tinha ciúme de Hilma com gringos velhos e tolos, mas um homem com aquela firmeza de caráter era de fato um rival a temer. Quando ela está indo, pergunta à amante quando. A filha de Carlo diz que pode ser na mesma noite. O que lhe afiança o sucesso? Ora. Confiava em seus dons. Benévolo não?


Sim. Ele conhecia. Temia às vezes, em vez de usando-a contra o pai, estar sendo manipulado por ela. Talvez pelos dois. Quem pode saber? Carlo é um velho moralista. De quem se pode esperar tudo.

Dúvidas.

Se

conseguiria

seduzir

o

pastor.

Se

conseguisse, não havia algo melhor a fazer do que entregálo à perdição? uma vida ao lado de um homem assim será a remissão dela. Quem sabe a felicidade. Hilma entregou-se à

preparação

apaixonasse?

de

sua

visita.

Pensamento

que

O

que

jamais

fazer

caso

abandona

se mas

tampouco domina. Delicada blusa de viscose. Liga os botões às casas com visível prazer diante do espelho. Não será ignorada mas precisa ser discreta. A saia listrada é bem comprida,

nos

calcanhares.

Admira-se

jovial.

Solta

os

cabelos. Imagina ao sair qual pretexto deverá usar para ficarem a sós.

Conforme planejara. Leonardo deslumbrado. Não pode


negar aconselhamento mesmo à filha daquele homem. Seu espírito se for taleceu depois do incêndio mas atrás de alguém que ele pensou que fosse aguardava-o quem ele realmente era. Graças a Deus, um homem íntegro. Não se atreverá mais a pecar contra seu Deus. Hilma foi tocada naquele dia. Sente-se uma pessoa melhor. Agrada-se de si mesma. Feliz, vibrante, per fectível. Santidade. Harmonizarase com seu temperamento leonino estar diante de um homem a quem podia obedecer e respeitar. Está realmente linda. Branda, esperançosa.

Quando os homens invadiram a igreja, antes de morrer, Leonardo imaginou uma armadilha mas não amaldiçoou a moça. Ergueu uma prece. Porém Hilma nada teve a ver com o atentado. Também vítima. O pai não sabia que ela estaria ali. Morreu feliz, redimida. Amando. Pela primeira vez na vida. Seus olhos podiam ver.

Durante todo o tempo de seu pastorado, enorme foi a influência de Leonardo. Para com os seus seguidores vindos do candomblé, superior ao próprio Oxum na Baia das Naus,


até o dia em que foi mor to numa noite de tempestade.

Quando tempos mais tarde soube do crime, durante as cheias

de

verão,

Bruno

vivia

pacato

criando

gado

e

cultivando cacau nos arredores de Santa Vasta, nem muito per to

nem

muito

longe

das

águas

barrentas

do

rio.

Mantinham uma escola com oficina e computadores para os filhos de seus vizinhos, por quem eram muitíssimo queridos. A previsão do tempo e logo depois a notícia. Ele acabara de fazer o cheque para a família da moça da boate. Uma vida não tem preço, mas sente-se obrigado. Agora senta-se junto

ao

rebanho

sobre

a

forragem

prestando

uma

homenagem ao amigo. Margherita chora por sua protetora.

Sou ainda uma menina. Não quero terminar assim. Estou exposta aqui. Há meninos promissores e um belo professor, é verdade. É bem meu tipo e se veste de um jeito bem legal. Sinto meu corpo arder quando se aproxima. Mas não posso me deixar levar por essa coisa de paixão e amor. Preciso pensar em alguma coisa. Voltar para a casa de meus pais pode ser uma saída. Alguns de meus antigos amigos estão formados e bem de vida. Sei que gostarão de me ver. Algum decer to há de se apaixonar e me tirar novamente de


lá. Que tudo isso me sir va de exemplo. Há tempo para tudo. Agora é planejar o futuro. Amanhã estarei de novo livre. Em breve quando me olhar de novo no espelho olharei para o cumprimento da profecia de Hilda: serei uma mulher inesquecível.

Encaixada no verde lá embaixo, a

casinha sobe no or valho, refletida pelo pequeno lago.

Gritam o nome de Bruno. Há um tom diferente na voz da esposa.Decididamente diferente. Quem poderá ser? A moça deseja vê-lo. Aos poucos a figura toma forma. Leslie tem o cuidado de não insinuar nada mas o cãozinho avisa em latidos aflitos. Quieto, MacBeth!

A visão de Isabela é deslumbrante embora pareça cansada. Até poderia se dizer mais alta. Deve ser o ângulo. Seja como for é impressionante efígie materna. Fantasma vívido, Deus do céu! Num mesmo olhar captou a deusa – razão de viver. Quando aper ta a mão da mulata, treme um pouco. Não iria escapar desse dia. Então agora vamos ver o que pode ser feito. Quem era aquela criança?


A irmã morreu, a sobrinha ficara sem ter quem a criasse. Ah, sim. O casal lamentou.

Sabendo que Isabela vinha se estabelecer em Santa Vasta, Molinari apressou-se em apresentá-la a seu capataz, um cer to Domênico. Um homem bom e for te elogiado desmesuradamente pelo patrão enquanto suplementava o capim com uréia e sal.

FIM

©1994,2010 Ricardo Rocha ricardrbrsp@gmail.com.br Copyright by Ricardo Rocha Texto protegido pela Lei de Propriedade Intelectual No. 9.610 de 19 de fevereiro de 1998 Versão para eBook scribd Junho 2010 Fênix SP Versões para pdf e eBookLibris abril 2006

companheira de seu leito