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Esperanรงa

Ricardo de Almeida Rocha


Carros ressoam no crepúsculo ao longo da Avenida Atlântica atrás de mim. O oceano transmite a velha paz que jamais consigo manter. Deus, eis-me aqui de novo tentando. Pode ser o começo de uma história, de minha história; até aqui nada além de sonhar e abortar sonhos. Mas descalço na areia sinto que minha existência é real e mais que isso, necessária. Sempre fui aquele que poderia ter sido. Tudo o que fiz foram as coisas que deixei de fazer. Um sonhador, prefiro considerar; um perdedor, será irreversível admitir?

Pode estar para acontecer alguma coisa neste fim de dia, parece vir de longe um prenúncio na brisa que respiro. Alguns banhistas chocam-se com as ondas, eu mergulho. Saio das águas, gotejando; ponho os cabelos para trás. Enquanto caminho para casa, imagino o que está errado comigo. Casais se beijam nos bancos. O homossexual passeia com seu cão. Adolescentes em grupos na esquina. Mães e suas crianças correndo. Há quanto tempo tenho andado por essa trilha à beira da estrada? As luzes começam a aparecer nas janelas. Desce a noite quente sobre o Rio de Janeiro. É como se a vida me mostrasse um sinal. Minha mãe pediu para que eu levasse uma encomenda que ela trouxe de Paris para sua amiga Teresa. Tomo banho como quem tem pressa. Eu não tenho respostas. Visto a


camisa, vou à cozinha. Anatólia, a empregada, cantarola “Último Desejo”. Faço um sanduíche de queijo, que como bebendo uma coca. Tereza tem uma filha de minha idade. Não vou suportar por muito tempo essas refeições rápida sozinho e continuar me vestindo com destinos circunstanciais. No saguão do prédio, hesito antes de entrar na marcha da normalidade lá fora e fazer parte dos passos das pessoas lá fora.

Vou a pé da rua Paula Freitas até a Sá Ferreira. Quando Sara abre a porta, eu a vejo, Esperança. Ela empurra com cuidado e carinho o velho na cadeira de rodas. Oi, diz Sara. Oi, respondo; tudo bem? como tem passado o seu pai? Um derrame é um derrame; o estado dele não tem muitas alterações; eu e mamãe já aprendemos a conviver com isso. O que se pode dizer numa situação assim? Estou indo ao cinema, diz ela; porque não diz que vem comigo? Esperança, que havia sumido no corredor, volta, já não de branco, cumprimenta-me, despede-se de Sara, passa por mim e pela porta, chama o elevador. Já estou atrasado para um compromisso, apresso-me em responder; outro dia a gente vai. Ah, vou aproveitar o elevador.

Esperança vai me dizer seu nome. Você é a nova enfermeira do Dr. Carlos? Sou, ela sorri. Sou amigo da família. Muito prazer. Agora sei seu nome e ela o meu.


Vamos nos despedir, não sei como evitar. Estou enfeitiçado pela luz nos seus olhos. Não há tempo para timidez. Digo que vou ao cinema. Não gostaria de vir comigo? Estou um pouco cansada; noutro dia a gente vai. Também estou cansado, respondo com súbita firmeza; cansado de esperar dias que nunca chegam. Que filme você vai ver? ela diz após a pausa. Estamos parados na esquina. Eu estou no paraíso.

Conheci Esperança em uma quinta feira, numa época em que me determinara a nunca mais chorar ou me sentir miserável, exceto pela visão de crianças miseráveis chorando. Ela gostava de ópera, não todas nem toda uma, mas aqueles trechos em que a contralto se esgoela, desprendendo a alma pela garganta. Quanto a mim, só mesmo os velho blues aquietavam meu espírito. A noite arrefecera um pouco e a lua caminhava conosco. Os ônibus passavam cheios. As pessoas caminhavam apressadas para chegar em casa e não perder a novela. Nós andávamos devagar e ainda não tínhamos nos decidido por um filme. Naqueles momentos eu não era nem um sonhador nem um perdedor, e estava realmente fazendo o que fazia, partilhando com Esperança a sagração da vida, refletindo Deus e os homens. Estou aprisionado numa nuvem de pureza, glória e serenidade. Eis o lugar de Esperança, anjo, e quando mulher, sem embelezamentos espirituais, se


mantém limpa de rosto; e limpa é a alma que expõe diante de mim.

Eu não podia imaginar, como quem ama geralmente não pode, haver no mundo alguma fealdade que pudesse desafiar a beleza de nossa afeição, avançando com a noite para a plena luz do amanhecer que combinamos contemplar na praia. Nada existia que pudesse mudar o que ela provocava em mim, sua singeleza e segurança, a sensualidade sem astúcia. Ela era o cumprimento de minhas idealizações. Quaisquer imperfeições fortuitas, causadas por influencia de passado ou destino, não poderiam, se existissem, afastá-la da força de meu amor. Que lei ousaria proibir o que meu ser começava a sentir, doce revelação súbita, a felicidade?

Esperança era alta e magra, acalentava sonhos sem perder o chão, possuía um riso triste que me deixava indefeso e comovia, seus olhos brilhavam além de minha admiração, venerava a Virgem e seus cabelos negros emolduravam-lhe o rosto evocando a própria Senhora.

No final da sessão, enquanto os créditos desciam na tela, Esperança disse ter se identificado muito com a personagem. Acabáramos indo ao Cinema Um, na rua


Prado Júnior. Ela sentia-se perfeitamente em casa num ambiente por demais liberado, mas considerei isso apenas mais uma virtude sua, a capacidade de adaptação. Fomos ver um filme que conta a história de um garoto que teve uma doença rara, que deformou o seu rosto, mas ele superara os traumas e levara uma vida normal, era alegre, inteligentíssimo, muito sensível e – não, não, disse Esperança. Eu me referia à mae do garoto. Cher fazia o papel, uma mulher no limite, sempre drogada – Você?

Claro que não. Droga é loucura. Esperança tornou-se enfática. Umas, os pós, a bebida, tiram a gente da realidade, o que é uma covardia fatal; outras (o ácido, a maconha), nos fazem ir ao coração da realidade, mas tirando-nos de nós, o que acaba dando no mesmo. Para ela, atenção era a palavra-chave. Uma estrela desceu dos céus e a seguimos. Sonhos vagavam no olhar de Esperança ofuscando feridas abertas sobre as quais ela ainda não falara. Não havíamos sequer dado as mãos.

Atenção. Simples assim. Repetia-se, segura. Quando se está atento, pode-se usufruir a mesma intensidade alucinógena, com a vantagem da temperança. Olhei para o céu recortado pelo alto dos prédios, como a esperar que o espírito me enviasse alguma luz, que então partilharia com Esperança, mas tive apenas uma vontade louca de sair da Barata Ribeiro, onde fomos tomar um café, e ir logo para a


beira do mar, e foi essa vontade o que compartilhei com aquela a quem minha alma começava a se apegar de forma tão desatenta.

Atenção é a chave de tudo. Desde a estrela cadente que vimos até o quebrar dessas ondas; do tremeluzir da cidade no mar ao som de nossa própria voz; e o cheiro, o sal desprendendo-se da praia, o cachorro quente da carrocinha. Atenção – e nossos pés vivificam o toque da areia. Com toda essa introdução, foi natural o que se seguiu: seguro-a pelos ombros e a viro para mim; usufruo a aura de seu perfume e sua respiração em meu rosto, antes do beijo e me debruço no sonho em seus olhos, vendo enfim a luz que por toda a noite intuí.

Estamos na clara manhã de sexta-feira, entrando na penumbra do prédio famigerado pela vida dupla da maioria de seus moradores. Esperança está à vontade, cumprimenta o porteiro com intimidade, a voz grave despedaçando as sílabas com seu sotaque de anjo. Uma amiga de Nova Friburgo, sua cidade natal, também enfermeira, estava hospedando Esperança enquanto ela não arranjava a própria casa. Não esse é o sonho de toda mulher, ter um lar e no fim do dia um homem para partilhar a noite dentro dele? A porta do elevador se abriu. No corredor escuro do décimo quinto andar, um vulto procura chaves na bolsa. Impossível descrever esse talhe; o


importante não está ali, mas em meu próprio coração. Uma voz ecoa ao entramos. É você Esperança?

Sim, responde ela na volta do mesmo grito. Achei que embora tão pequeno, o apartamento aproveitava bem o espaço e disse que era mesmo um lugar bom de se morar enquanto se prepara uma vida. Um lugar assim me bastaria, diz ela. Sorrindo, eu digo que decerto ela não pretendia ter filhos. Ela sorri também.

O sorriso de Esperança, impregnado de reticências e mistérios, na verdade, percebo agora que não é exatamente triste, só não possui a alegria que normalmente sorrir faz supor – é um sorriso além da tristeza e da alegria e talvez por isso tão próximo de alguma coisa que, mesmo não identificada com precisão, considerei muito rara; algo como um instante perfeito, lídimo. Tinha a ver com o que eu pressentira na praia no dia em que a conheci: um aceno da vida ao qual seria herético não corresponder. Após me cumprimentar e afastar Esperança sutilmente, Magda diz inaudivelmente para ouvidos não tão acurados quanto os meus: Não é perigoso? Esperança olha o relógio e fala. Você está atrasada. Magda é uma boa moça, dessas que expressam a timidez pela extroversão e fazem do paradoxo um estilo de vida. Será que eu posso ao


menos pentear o meu cabelo? Esperança não dá importância à amiga mas entendo que ali ela é hóspede também. Avisa para a amiga, na penteadeira segundo imaginei, que agora ela é quem vai tomar um banho. Passa em direção ao que deve ser a porta do banheiro. Eu folheava as revistas sobre a mesinha de centro. Tchau, despede-se Magda, súbita e rispidamente.

Esperança aparece na sala totalmente seca, com a camiseta da noite sobre o corpo e as demais roupas que vestia em algum lugar do quarto ou do banheiro. Um balbucio dúbio. Aproxima-se do sofá onde eu estava e ajoelha-se. Tira meus sapatos de camurça marrom e as meias com desenhos em ponto-de-cruz. Meu cérebro recebe a circunstância em crise aguda de limite e as transporta para essas reflexões taquicárdicas que nunca chegam a ser concluídas, transportadas que são para um outro gênero de pensamento, obscuro e viajante, como quando se fica na fronteira, antes de acordar e não mais no transe do sono. Desabotoa minha camisa. Meus nervos desfazem o que fazem as suas mãos e refazem tudo segundo a estética de prazer captada pela poesia perdida em seus dedos. Você está indo muito bem, diz ela ao abrir o zíper da calça. É assim que deve ser, apenas dançar a música que está tocando. Deve ser mesmo, concordei humildemente, pois eu me sinto muito bem.


– É isso o que conta. Quero que se sinta bem; quero que se sinta livre.

Das roupas já estou.

A gente não aprende a dançar senão dançando. Minhas feridas estão assim tão abertas? Ela pode ler dentro dos meus olhos. Mas, se hoje é tão diferente de mim, o que nos atrai, é porque um dia foi tão igual, o que nos atrai mais ainda.

A última peça sobre as outras roupas no sofá. Por que eu devo conceituar seu comportamento? Ela me faz ser. Me toma pela mão. O coração estressado da cidade lá embaixo não parece sereno? Caos urbano, paz universal ou minha alegre tranqüilidade. Eu decido o que as circunstâncias ao redor serão, não o eterno inverso fatídico.

O chuveiro sobre a banheira. Esperança abre a água com a mão direita e com a outra me leva para dentro do boxe, mas não entra nem tira a camiseta. Quando estou totalmente molhado, desliga a ducha, apanha o xampu e lava os meus cabelos. O sabonete. Os ombros, a barriga. Como Nicodemos, eu buscara respostas na noite cheio de idéias próprias; mas numa dimensão maior sou levado ao renascimento nas águas. Não sei de onde vem ou para


onde vai o vento mas, liberto da necessidade de saber, posso enfim escuta-lo.

Ela entra na banheira. Ainda o sabonete. As costas, as nádegas. Agacha-se. As pernas, as coxas. Vira-me. Deixase. Prendo o ar. Fecho os olhos. Nada falávamos. Torna a ligar a água e passa-a para a mangueira do chuveirinho. Enxágua meus cabelos. A branca espuma no ralo. Quando a noite terminará senão na certeza de que a noite voltará? Esperança me entrega o xampu e o sabonete. Estremeci quando ela puxou a malha por cima da cabeça. Entra sob o jorro. Suas feições infantis contrastam com a mulher imensa diante de mim, imenso também. Seus cabelos ainda mais negros, a água escorre abundante, como se a vestisse. Sobre mim as mudanças de Esperança ao longo da vida, da pobre menina feia à bela mulher independente. Acompanho as metamorfoses contínuas que, quando eu chegava na suposição de entende-las, ela ali já não estava. Essa é a própria essência do prazer que me possui, o da impossibilidade. O sabonete erra pela luz amarelada. Ela vira de costas e abriu os braços, as palmas se apoiaram nos azulejos respingados. Sombras e luzes em suas costas. É mais do que mereço, mais do que podia esperar – o conhecimento restrito ao sabor do momento que irreversivelmente passará e saber de sua transitoriedade é eterniza-lo.


Quando desligo a água em definitivo, ela encosta a cabeça em meu ombro num afago, e nosso abraço foi o das partidas e dos reencontros.

Música no toca-discos. Erbaaaaaarme ditch. Anjos. Pelas cortinas um profético fascínio purpúreo. Eu não tenho duvidas. O tom que nos envolve introduziu-se em minhas veias. Esperança, nua e tangível, real. Estou morta de fome, diz. Eu também. Passos descalços na direção da cozinha. Um certo frio, um elevador que se fecha no corredor, uma geladeira aberta. Risos e olhares do amor mais inequívoco. Ela em meu colo, comemos os mesmos sanduíches e tomamos o refrigerante no gargalo.

Termo do suportável. Delicados preâmbulos sujeitam o deleite. Toques tenros, afagos lentos. Murmúrios ininteligíveis. Palavras desconexas, suspiros. Profundezas. Infinitos. Umidade abissal e pulsação limítrofe. Ondas mais fortes ameaçam nos molhar. Ainda não. Não há pressa. Não há tempo no mundo; não há mundo lá fora. Assim. Visão de paraíso. Esperança. Suave, ardente, morena como a virgem em nuvem mágica de pureza. Assim. Atentamente, ah, atenciosamente.

Uma fresta de manhã na volta ao quarto, ou de tarde já talvez, divide a cama onde seu corpo começa a pousar.


Mãos apoiadas no lençol enrugado, enruga-se mais a toalha branca. Um pedido da branca luz, a língua inquieta no pescoço sinuoso, lábios que descem ao feixe do sol na auréola, um vermelho mais vermelho e as mãos multiplicadas, mãos em meus cabelos, gemidos, e outros a esses apegados. Não há ombro como este, assim liso, nem umbigo licoroso, ou costela, ou traços risonhos assim entrevistos – o paladar e a consistência, os movimentos vinculam o corpo a um desejo remoto e vago.

Que foi feito da noite? Está aqui, em sua síntese, plena no dia, resumida, inteira no dia. Na luminosidade dos olhos de Esperança, um espelho que pulsa em seu peito e me reflete. Na suavidade e no silêncio, exceto pelo incenso do coração longínquo da cidade lá embaixo. Na bondade, na autenticidade, na respiração em meu rosto, no seio suplicante, no pacto silente, na reticência de seu sorriso e na poesia em seus dedos – a noite está aqui, o universo em nós – nossas mãos falando nos lençóis, onde minhas angústias?, amplidão de virtudes me enleva – assim, assim – prendo o ar, fecho os olhos.

Estou enfim onde esperado.

Contornos sombrios na ponta da língua, lição de vida ainda por vir, adivinhada, Esperança de olhos fechados e o vale da voz sob o pescoço, sorri num momento e noutro


não sei mais se é um riso ou uma ordem a que obedecendo não paro, ajoelhado; mas agora preciso me erguer, só um pouco, e percebo o quanto a cama é alta e o quanto a flor aberta me engole. O limite é onde o colchão acaba, nas idas do reconhecimento úmido e róseo e nas vindas de um tempo capaz de modificar os rostos e sentimentos, de aplacar saudades ou tristezas e dar e retirar da alegria mais ou menos vida.

Um grito, e mais um outro; quando os joelhos se dobram lá no alto, há um relógio no pulso que se mantém desde o cinema – resquício, analogia, testemunha. No balé preciso, uma mudança na luz sobre o palco e a nova fala não há que ser decorada. Ela enlaça meu pescoço nesse arco, no abraço o calor dos seios trazem um mundo que só prosseguirá na presença mútua, um mundo por instantes abalado mas renovado após; e se vira sobre um corpo estirado, sobre a forma pétrea que deve estar prestes a partir desse ser nascido de mim e que não sei se ainda sou.

Tantas luzes se completam, marcam as mãos nas carícias espalmadas, sombras que se espalham nas costas, nas nádegas e nos cabelos, nenhuma superfície está imune. Um beijo, longo e aturdido, uma nova pressão no abraço deslumbrado antes que ela se vire e sente agora no corpo estirado, as costas que obrigam o olhar que se pensava exaurido, e sobe sobre uma destreza sequer imaginada, e


desce, e sobe, e ao fim a questão ainda se mantém, nada está resolvido, donde talvez o novo apoio das mãos, sobre a guarda da cama. Eu apenas me deixo guiar, o amor de Esperança sabe tudo e entendo nada saber. Um céu sobre suas costas, uma tarde inteira e logo a noite, odores, ímpetos, e a incisão da lâmpada nos quadris. O espelho da penteadeira devolve-me ainda seu rosto num gozo outro, espectral, que se tardar perderá a necessária claridade, sumindo na fina treva.

A noite está aqui, o universo em nós. Nossas mãos. As minhas por trás, nos seios dela, as dela de novo nos lençóis. Onde estão minhas angústias? Amplidão de virtudes me enleva – assim, assim. Prendo o ar, fecho os olhos, o mar desliza pela areia.

Esperança adormecera em meus braços, em sua cama. O ambiente a ela familiar me evoca ainda as expectativas do desconhecido. Eu permanecia desperto porque acreditava ser um desperdício algumas horas de descanso físico que poderia ter quando voltasse ao tempo. Ela dormindo, eu respirava uma outra aura, não menos partilhável ainda que noutra dimensão. Esperança adormecida me oferece sua ignorância de mim, reparte comigo todo o ser que em comunhão consciente comigo me completava mas também excluía, na perfeita contemplação dos matizes da cortina, ou os desenhos do papel de parede,


nas suas roupas sobre a cadeira (uma visão semelhante a de seu corpo nu). Então absorvo todo um halo primaveril dela exalado. Esperança dormindo é a porta esperançosa, fechada, confiando-me sublimes esponsais; o trânsito distante, distantes gemidos de animais pré-históricos; as vozes de vizinhos falando coisas incompreensíveis de um mundo no qual eu nascera e ao qual não pertencia; e, sobretudo, Esperança, acordada, ela mesma, na integridade de sua consciência, me estava vedada, era velada a visão de sua alma quando falava ou calava, gesticulava, quando olhava ou evitava olhar.

Talvez sacudida pela minha contemplação, virou-se de costas para mim e se encolheu, o braço para fora do lençol, no movimento descobrindo ombro e seio, e eis-me de novo dividido, não mais basta a contemplação, mas minhas mãos e lábios são os instrumentos gentis do que me basta e logo a ação deles introduz-se nos desejos do despertar lento de Esperança. Renúncia das plenitudes que um sono me ofertava. Corpos se encontram nas doces limitações amorosas. Sussurrei. A que horas Magda volta?

O turno dela é 24 por 48, um bom horário. Só voltará de manhã. O telefone toca baixinho, como já tinha acontecido diversas vezes ao longo do dia. Aroma de cabelos limpos e uma pergunta. Você nunca atende as ligações? Só em nuncas como hoje, responde. Se Magda


precisasse falar alguma coisa urgente, elas tinham um código de toques. Agora ela pede que eu, por favor, apenas continue, assim.

Ficamos pois assim, mexendo de quando em quando, assim quietos, sem perguntas nem respostas, até o dia terminar, quando exaustos terminamos também. Cortinas abertas, amada luz noturna. As pessoas lá embaixo derramam-se dos prédios comerciais no sentido da Central do Brasil. Sete e dez no grande relógio da estação. Se eu estivesse lá embaixo, voltando para casa depois de um dia de trabalho, a posição dos ponteiros teria um doce significado para mim, o que agora é irrelevante. Se já conhecesse Esperança, essa janela, vista lá debaixo, entre tantas e igual a todas, serie única. Vou fazer uma janta decente para nós, nada de sanduíches, diz ela. Num pequeno beijo, fiz a pergunta. O que é que se faz quando chega o dia que não chegava nunca, aquele que cansado estávamos de esperar? Não faça nada, diz ela num carinho. Fica comigo.

Na penumbra do quarto, na quietude da madrugada, nas pardacentas luminosidades da memória, na noite infinita da alma – eu me envergonhava de meus temores, remorsos e timidez. O que você disse? – perguntou Esperança. Olhei-a. Ela dorme. Suspira. Me enterneço. O relógio – 4h40 – tictactictac – testemunha a chegada de


boas ações que eu fizera pela existência, disposições benfazejas para com os que me cercavam – reparti o meu pão, dei meu agasalho, chorei com o que chorava – o bem em toda intenção. 4h50. Agora, em Esperança amo toda uma humanidade à qual revoltas inúteis me ensinaram a desprezar. Um fluxo de luz enche minha alma. Uma nova consciência: nem o esquecimento nem a retenção de todas as coisas. 4h 53. Tudo tem o seu lugar. 4h56. Eu não poderia resistir muito num relacionamento de amor com uma mulher abençoada pela Virgem com o dom da liberdade, estando eu próprio preso a espíritos em mim, 5h08. Lembrar e esquecer vinculam-se à sabedoria e o discernimento provém do olhar. O filamento nervoso de um abajur só agora percebido rege as nuances dos fios de seu cabelo. Um clarão do terror do que se quer alcançar e se alcança. 5:14. Mas, assim como passamos a noite sem nos tocar, assim como falamos sobre Deus e cinema, assim como introduzimos o clima do primeiro beijo, assim como vimos o sol nascer, assim com passamos a madrugada sem comer e comemos sanduíches no almoço e bife com batatas à noite, assim como preparamos o amor e fizemos amor, e dormimos e tornamos a fazer em outras posições, a satisfação precederia sempre, no amor, um novo desejo e não o tédio. Amar uma mulher, descobri, será continuar amando, e ainda renovando, as mesmas coisas que fizeram nascer esse amor.


– Seja o que for que estiver pensando – diz Esperança ao recostar a cabeça no meu peito – a gente descobrirá junto. Agora dorme um pouco. Sempre existem horizontes quando o sol está para nascer. 5h38. Amanhecia.

Despertei com a visão da foto de Esperança sentada num carrinho de mão cheio de flores, um cântaro no colo e um chapéu de palha na cabeça, nos olhos o surpreendente sorriso sem nuvens. Todavia a foto, que me havia enternecido no dia anterior, era justamente daquela época do mundo fechado em angústia terrível do qual me falara, não da moça desprendida que se tornara no Rio e eu conhecera. Em seguida Esperança entrou e seu rosto na foto, até então sua única presença ali, retornou a seu lugar no passado, deixando-me com aquela nova encarnação dela no robe, olhos apertados em conformidade com o tom que ilumina o quarto. Nosso café, disse ela, colocando na cama a bandeja com as xícaras, os pães, a manteiga, o suco e a omelete de queijo. Digo que, desse jeito, ela está me acostumando mal. E a Magda? Ela me repreende. Mas será que você não pode esquecer a Magda? Moça adorada.


Segunda-feira seria feriado. Haveria uma festa no domingo – Esperança me conta. Poderíamos passar o sábado juntos, ir à praia talvez, mas por volta das seis e meia ela teria de estar no serviço, na casa de Tereza, horário em que saía uma das outras enfermeiras – não está recitando um poema? A mão nas costas de minha mão. No silêncio, paz e cansaço. Será assim. Eu a deixarei na Sá Ferreira no final da tarde, quando se iniciará o rito de minha saudade, amparado pela certeza de que, lá pelas dezoito e trinta do domingo, eu a reencontraria.

Quando Magda chegou, sonolenta e cansada, estávamos prontos para sair. A amiga não demonstra mais precauções quanto à minha presença, o que de alguma forma tornou-a uma mulher diferente e trouxe outro tipo de aura. Quase gostaria que ela chegasse como saiu, pois também devolveria os ainda incertos instantes em que eu não sabia tudo o que estava por acontecer nas horas seguintes com Esperança, o prazer da expectativa, um quê de mistério e até a própria manhã anterior, para a qual sua reação serviu de referência. Isso realmente acontecerá mais tarde. Mas por agora me senti bem em compreender que o Rio é uma cidade violenta, todos os dias os noticiários exibem casos escabrosos, portanto nada mais natural que a cautela anterior de Magda, dissipada com todos os meus constrangimentos. Ela pergunta bocejando. Onde vocês vão?


Arpoador. As ondas deslizam ao longo do limo na pedra. Um recanto de privacidade no monte que sobe do parquinho infantil. Ali passamos a tarde ao sol; ali nos divertimos, conversando e cantando, em prelúdio de nós. O zíper de novo aberto. Como eu posso lhe dizer que não? O pôr-do-sol começa a avermelhar tudo ao redor. Esse cântico será um dia mais um fenômeno mnemônico. A mulher capaz disso, sem qualquer embaraço, há de ser, imagino, guiada por um verdadeiro amor. Mas não se engane comigo, diz Esperança subitamente séria. Eu não amei nunca. Quero te amar, mas não sei se serei capaz. Ela havia criado essa resistência, diz, sua alma foi como que cauterizada, criou bloqueios que achou necessários para a manutenção da liberdade. E amar fragiliza, quanto mais verdadeiro, mais o amor expõe ao sofrimento. E, nem mesmo por amor, concluiu, eu quero sofrer mais. Não é necessariamente sofrer. Sim, necessariamente. Como a madrugada é mais escura imediatamente antes da manhã. Embora a gente se alegre pela perspectiva do sol, ainda assim é treva e não luz. É luz, se a gente vive na luz, e não na treva exterior. Nem sempre a gente consegue viver na luz interior. É grande o fascínio das trevas. – Você é tão bonita... – Sei que tenho coisas bonitas em mim e também que será difícil não me deixar cativar por você: sua alma é


nobre e seu corpo paciente. Mas quando te encontrei já havia me decidido por uma vida e quando decidi não imaginava que ainda poderia ser capaz de amar. –Mas se amar, essa decisão fica automaticamente cancelada... – Não sei – disse ela. –Realmente não sei. Fica então apenas assim, Esperança, sua cabeça em meu colo. Fica então apenas assim, pousada em mim como um pássaro ferido. O sol se põe, um flamejante discovoador. Ali, descendo sobre as lajes da favela. Vamos, mostrarei a você no caminho razões para você me amar. O crepúsculo atrás de nós concedia-lhe magenta majestade quando a olhei pela última vez antes que ela fosse na direção do prédio onde o Dr.Carlos sobrevivia.

Nessa época, eu costumava passar a maior parte de meu tempo em casa, tocando violão e compondo em meu quarto, só saindo para as refeições. Na terça-feira porém, esse cotidiano, já afetado pelo conhecimento de Esperança, deveria se modificar mais, pois começaria num emprego em uma biblioteca. Em meu quarto, por todas as paredes, havia fotos, razão quase única de minhas saídas de casa, para pegar as cenas do nascer do sol e do poente, como esses pescadores, essas turistas, esses jogadores de futevôlei, esses corredores no calçadão. Fotografava ainda crianças, mendigos, feirantes, e todo tipo de figura exótica


do velho Rio. Às vezes conseguia captar um rosto de mulher como esse, também colado na divisória que me guarda do mundo apreendido. Mas há uma janela e além agora Esperança. Na direção dela, os acordes de uma nova canção. – Oi. Cantando eu, distraído na lembrança de Esperança, esvoaçando na lembrança de minha vida de reveses agora resgatada, e eis que Sarah entrou no quarto sem bater, sorridente, crepitante. – Será que hoje sai nosso cinema? – pergunta ao colocar a bolsa na cama e me beijar com uma intimidade que não tínhamos. –Agora não vai me convencer com a desculpa da pressa para um compromisso. Lá fora vadiava um vento veemente de presságios. Eu não queria acreditar, mas a vida é assim. Tantas vezes desejei Sarah, na deliciosa elegância de seu corpo bronzeado, quando vinha com Tereza para ir à praia com minha mãe, mas por algum bloqueio relacionado decerto a essa mesma relação de nossas famílias, por medo do ridículo de me declarar e ser rejeitado, nunca fui além da imaginação. Até o dia em que, com um pretexto perfeito, determinado bati em sua porta, com a força acumulada pelo longo tempo de solidão. E vi Esperança. Ela me preencheu como desejo, preencheria logo minha vida – desvanecida estava em mim a imagem de Sarah desde aquela noite. E aqui está ela, extrovertida, elegante, um


olhar inequívoco. Sempre cantando e tirando fotos, seu grande vadio, diz, olhando minhas paredes. – Vivo por coisas que perdurem. – O Ricamar está passando Subway. Um grande filme deixa sempre uma recordação que não se apaga. Vamos? – Muito cultuado para minha atual simplicidade. –No Art está passando The Rose. –Trágico demais. Estou vivendo um momento feliz. Sempre que desejo entender o que se passou comigo naqueles dias e como mudariam minha vida, ouço de novo o comentário incrédulo de Sarah àquela minha declaração. Agora você é simples e feliz, disse ela. O cara mais complicado e angustiado do bairro? Então não posso deixar de lhe dar razão e me torno um pouco menos arrogante com relação a essas mudanças, revendo os lábios de Sarah pronunciarem essas palavras enquanto o vento continuava a soprar pela janela. Mas na hora não me dei por vencido e repliquei. Você me conhece tanto assim? É que às vezes sua mãe fala de você. – Minha mãe às vezes fala demais. Bem, se eu não queria ir ao cinema, podíamos fazer umas fotos. Perguntei se ela também gostava de fotografar. Gosto de posar, diz ela. Não sabia que trabalho como modelo? –Não falo tanto assim com sua mãe.


–Eu sim. Ela diz que faríamos um belo par. Justo agora que não fazemos mais, ela vem me dizer isso? Então, prosseguiu Sarah, ao cinema ou às fotos? Podemos fazer uns belos nus. – Ao cinema. Sarah apanha a máquina na cômoda e coloca-a em minhas mãos. Segura a barra do vestido vermelho, os polegares por dentro; cruzando os braços por cima da cabeça, tira-o e o coloca no espaldar da cadeira. As mãos descem pelo caminho das costas, já desligando o sutiã, criteriosamente colocado junto ao vestido. O mesmo com a calcinha do conjunto vermelho. Equilíbrio elogiável nos sapatos altos. Deita-se em minha cama e coloca a mão direita na cintura, numa pose provocante. Clic. Pergunto se minha mãe não está em casa. Sarah responde que não, virando-se um pouco mais de lado. E Anatólia também não. Estava saindo quando ela entrou. Clic. Algum dia esse tipo de coisa acaba, e não mais a lei da carne trará o homem sujeito. Algum dia a criatividade e a arte não mais operarão em favor da vaidade e do mero prazer, clic, e não se invocará mais a culpa como consolo. Ela agora está de bruços, sorri insinuante e dá uma piscadinha. Clic. Coloco a máquina de volta na cômoda. O fogo é o único elemento que não existe, que só existe sob certas circunstâncias e não há, exceto o inferno, um lugar


constantemente em chamas. Sara abrira as cartas e recolocava as roupas. Eu não estava prevenido – fui testado e falhei. Mas um dia tudo isso acaba. Não sei quando. Um dia.

Sara liga para casa e avisa à mãe onde está e irá jantar. Esperança atende. Sabê-la em contato com a sala de minha casa perturba-me e aproveito a campainha para abrir a porta, o mais naturalmente, como se o telefonema em nada me afetasse. Minha mãe entra, Sarah desliga, abraçam-se – Como vai, querida? – três beijinhos, essas coisas. Sentam-se e minha mãe começa a falar sobre a visita que fizera – Minha filha, como estão bem de vida! – e sua ida ao shopping – Meu Deus, como as roupas estão caras!... – etc. Anatólia também já voltara e poe a mesa do jantar. Atendendo a um pedido, Sarah liga a TV a pedido. A cada cena gargalham, amaldiçoam as personagens malvadas ou comentam maliciosamente a beleza do galã. Prefiro seu filho. Ao comentário, minha mãe me olha com olhos brilhantes e deslumbrado sorriso e diz que sim, faríamos um belo par. Eu já falei isso hoje com ele, conclui Sarah.

Depois do jantar minha mãe perguntou se íamos sair. Pretextando interiormente a nobre intenção de contar a Sarah sobre Esperança (a razão por que não poderíamos formar o belo par sonhado por nossas famílias), eu mesmo


tomei a iniciativa de dizer que sim. Vai que ainda desse para nos despedirmos num dos motéis da Glória.

Era cerca de onze horas e estávamos prontos para sair. Divirtam-se, diz minha mãe. Sarah quis entrar em seu carro, eu disse não, vamos de ônibus e a gente pode voltar a pé. Sarah naturalmente não era mulher de estrelas ou grandes caminhadas, mas aceitou, acredito eu por puro estímulo da novidade. Pegamos o ônibus e, não fosse pelo motivo que deveria quebrar nossa noitada, seria por outra coisa qualquer. Não daria certo.

No vídeo-bar não havia clima para conversas sérias. Vimos “O ultimo concerto de Rock”, bebendo vinho branco que, para minha surpresa, não trouxe imediatas nem posteriores náuseas. Dali fomos para um lugarzinho aconchegante também nos quarteirões noturnos de Botafogo. A baía não tão distante, imagináveis barcos ancorados, cheiro de sábado nas esquinas. Aqui, a casa onde morei na infância. O que exatamente estou querendo? Sarah empresta ao vestido de minha mãe sua própria exuberância. A cada clique da bolsinha prateada, dedos carnudos trazem com os cigarros a atmosfera sensual de uma sessão de fotos. Quando enfim caminhávamos de volta, ao lado do cemitério, em direção ao túnel por onde sairíamos em Copacabana, satisfeito o fascínio de uma noitada com


semelhante mulher, lembrei-me da razão de ter decidido sair com ela. Sarah, eu disse. E contei-lhe sobre Esperança. Fúria, deboche e desprezo. Agora eu venho dizer que amava outra? Depois de termos dormido juntos e namorado a noite toda? Carros estrondeando interrompem de quando em quando a voz estridente e colérica dentro do túnel. Quem eu pensava que ela era para usa-la assim? Usa-la? – Você despiu-se diante de mim e não era exatamente para posar! – Porque você deixou que eu acreditasse que queria consolidar nossa relação, não por uns minutos de prazer que aliás nem tive! Desse jeito. Quer dizer: se eu nada fizesse além das fotos, ela iria dizer que eu era bicha, espalharia isso por nossas famílias. Como não fiz, era um... – Calhorda! Mulheres... E se eu tivesse feito e agora caísse a seus pés, ela me acharia ridículo, bonzinho, antiquado, que para um bom sexo não é preciso amor. A imagem de Esperança insinua-se como o brilho de um diamante na lama do arrependimento. Amor, preciso desesperadamente de você, de juntar minha vida à sua. Esperança. Ela precisava cancelar decisões anteriores a mim. Rua Siqueira Campos, saída do túnel, clarões. Um sinal escandaloso para um táxi, uma bolsinha luzindo. O veludo estremece o corpo de Sara, seus cabelos parecem a chama de uma vela soprada. O carro diminuiu a marcha. Perguntei


se ela me amava. O táxi parou, ela se virou para mim e gritou. Pode ter certeza que jamais amaria um idiota como você. De que se queixa então? Por que está tão furiosa? – Não estou furiosa com você! Quem é você para que eu estivesse? Mas por não ter conseguido fazer você deixar de ser um otário, por desperdiçar meu tempo com você, babaca! O chofer nos olha paciente. Desliga o motor. Está sorrindo. Imaginei que a noite não poderia ter sido semelhante suplício para ela, mas não tinha certeza. Mantinha uma certa serenidade, porque Sara era uma mulher educada, de muito espírito, decerto sua notável finura não demoraria a fazê-la ver que não era para tanto. Tudo bem, digo então, a gente não se ama mas passamos bons momentos. – Você passou bons momentos! Eu não gozei, não gostei do filme, odiei seu papo! O pior é que eu também não passara bons momentos, a concupiscência, a vaidade e o vinho passara-os em mim, na minha completa desatenção. Ela entra no táxi e bate a porta. Pingos começam a tamborilar no metal. Abre a janela e grita novamente, com a cabeça para fora. Você e aquela putinha se merecem! O motorista engata rapidamente a marcha. Ela continua gritando mas a distância e o ruído do motor arrefecem suas imprecações.


O táxi dobra a Avenida Atlântica. A deusa da tempestade cobre a noite com seu véu.

Grossos pingos chegam a doer mas só sinto a dor de ter eclipsado a sublimidade de minha história com Esperança. A chuva cai reta, o vento não sopra mais. A paz em fuga outra vez. Caminho na direção de casa. Grandes ondas cuspidas pelos automóveis da madrugada de domingo, da grande poça que se tornara a margem do asfalto, respingam em minha calça. Como eu fora insensato! Talvez sentisse orgulho em falar com alguém de nossa extraordinária ligação, sem levar em conta que nossa ligação não era extraordinária exceto para nós, como uma criança quer mostrar a boa nota que tirou na escola – Esperança afinal era mesmo isso, minha aprovação para a felicidade, apesar de todos os meus fracassos anteriores na matéria.

Escuto. A respiração de Esperança dormindo no quarto contíguo ao do Dr. Carlos. Pernas compridas, dobradas numa cama estreita. Sonhos em quem sabe eu esteja. Dedos de pés graciosos e fortes, uma brisa pela janela, passos no corredor, a única lâmpada acesa na sala que dá para a subida da favela. Braços abraçam o travesseiro. Um dia tive aulas particulares de matemática ali, Dr. Carlos me salvou de pelo menos duas repetições de ano. Um homem bom e tão simples. Onde estão na mulher e em sua filha


aquela doce generosidade e eterna benignidade? Sara chega, ferida e furiosa, passando pela porta de Esperança. Mas todos dormem, logo estará ela dormindo também, de manhã acordará curada. É solteira e experiente, fui apenas um pequeno elo.

No dia seguinte, estaria tudo bem. Não havia por que me inquietar.

Chego em casa ensopado, com muita dor de cabeça, espirrando. Faço um chá de limão e tomo com duas aspirinas. Um banho quente e um sono rápido, bem coberto. Não posso estar gripado no domingo da festa com Esperança. Não dormi logo. Quantas pessoas se arrastavam pela madrugada sem ter para onde ir, ansiando um lugar sem volta, prisioneiros de suas opções ou da falta delas. Mendigos, jovens drogados, prostitutas baratas, acompanhantes, prostitutas de um homem só e aliança. Loucos, inocentes no cárcere, vítimas de toda sorte de violência, mulheres assediadas, mulheres estupradas, a banalização da violência, corrupção, a reinação da injustiça em tudo – o silêncio da noite é síntese de todo desespero e solidão. E crianças miseráveis, ali mesmo na esquina, dormindo sobre papelões ou na areia da praia, pequenininhas algumas, os narizes escorrendo – que sentido fazia eu e Esperança felizes para sempre?


Pela manhã não pensava em nada disso mas em abrigar-nos do mundo num mundo nosso. Nem uma única criança miserável passou em meu caminho quando à tardinha fui esperar Esperança na esquina de nosso primeiro dia.

O ônibus circular. A saída do túnel na Raul Pompéia. Ainda falta quase uma hora para que ela saia. Passos lentos até o final da rua, na Francisco Otaviano. Lindas e elegantes mães cuidam dos filhos e dos boatos. É impressão minha ou aquela está mesmo me olhando? Um refrigerante no bar em frente ao parquinho. O dinheiro no balcão. Obrigado. Na tarde esvoaçam expectativas que pairam defronte do cartaz do cinema Studio. Uns segundos, vozes, luzes, cheiros de bar, barulhos de mercado e o súbito peso do vento contrário. Dobrei na Francisco Sá, e uma das mulheres me olhou maternalmente. Sim, a senhora ainda é muito desejável. Circundo o quarteirão, passo a Souza Lima e chego na Sá Ferreira pelo outro lado. Já estou aqui te esperando, amor. Ei-la. O vestido de alças, uma nuvem de crepe. Esperança. Abraçamo-nos longamente, lento pranto silencioso, refugiados um no outro, arrebatados da rua. Fui despedida, diz ela. Pergunto-lhe o motivo. É que Dona


Tereza não pode mais pagar três enfermeiras; ela gosta de mim mas sou a mais nova etc. Hei! Não fique com essa cara! Ela estava mesmo pensando em deixar o emprego. Aliás, pensara também sobre nós. Mas agora vamos para Santa Tereza e não se fala mais nisso até o fim da festa. Na ladeira sinuosa, a casa iluminada. Gélidos vácuos de lua. O calor de sua mão me leva entre o desejo súplice do que era e do que seria e assim entramos na sala sacudida e incensada. É a casa de Sandra, amiga de Esperança que a trouxera para o Rio havia quatro anos para trabalhar em seu restaurante vegetariano, quando Esperança fez o corso de enfermagem. Um drinque. Móveis afastados: o cento da sala vazio. Uma dança. Êxtase. Uma jovem a chama e se afastam abraçadas. Onde ela estava, no balanço da música, surge uma loura de blusa escura. Joga os braços para o alto e sacode os quadris. Quando eventualmente os abre, seus olhos encontram os meus. Pulsações dum interesse casual. Matiz após matiz ao ritmo da música. Esperança me chama e me aproximo da janela. Passando. O cheiro forte e almiscarado foge para as constelações. Ao atravessarmos a sala, as mãos dadas tem também um efeito em meu coração. Só não diga mais que me ama, sussurra, fico sensível demais nessas horas. Não direi. Mas naturalmente ela escuta isso em meus olhos. A rua lá fora era estreita e a hera subia pelos muros.


Sandra e Esperança foram arrumar o quarto das crianças para nós. O casal tinha duas filhas que dormiam profundamente no quarto dos pais durante a festa. Keko e eu conversávamos na varanda. Pergunto se eles tinham o costume de dar festas como aquela. Respondeu que na verdade nem gosta de festas, mas sempre lhes cabe alguma despedida. Há algum tempo tinha sido para uma amiga dele, que trabalhava no curso de idiomas onde era professor. Ela foi para a Itália. Distraído não entendi que, portanto, aquela era uma outra despedida. A última foi para o antigo namorado dela. Ele foi para Angola. Você gostaria dele, diz Keko. Acha-nos parecidos. A última vez que escreveu, estava em Portugal, escrevera um livro. No começo, estava entusiasmado. Depois parece que desanimou, pelas dificuldades da publicação. Uma pena porque para Keko o livro poderia ter lhe servido como redenção. Refleti a respeito. Ele procurou nas gavetas e me passou umas folhas datilografadas. Segurei o manuscrito. Também gostei mas permaneceu a dúvida quanto à redenção mencionada.

Eu e Esperança a sós no quarto, nossa festa particular. Talvez pelo vinho, minha paixão ainda no meio da música quando os espasmos dela pararam. Abraça-me forte, quase dormindo. Que gostoso, diz. E depois de um tempo: Você gozou? Gozei com teu gozo, respondi. Ah, querido, diz, e pergunta onde eu andava e onde estava na festa de seus quinze anos. Virada de costas, dois bichinhos. Acordo ainda


daquele jeito, já sem o efeito do vinho, exceto por uma leve dor de cabeça. Ela acorda também. Um carinho.

Um relógio. Uma hora. A cortina filtra a tarde. Vozes de crianças na sala. Amor, vamos tomar café. Depois um lugar onde a gente possa conversar. Ah, mas eu não quero sair de casa. Então teremos de expulsar o Keko e a Sandra. Será possível? Provavelmente nem será preciso. Eles costumam sair nos feriados com as crianças. Você nem sabe: eles são separados, Keko não mora aqui. Saímos do banheiro e as meninas caíram em cima de Esperança. Esperança, olha... Esperança, eu aprendi a... Brinca com a gente de... Sandra teria a teria livrado, se Esperança quisesse. Saiu do quarto e disse, Queridas, deixem a Esperança em paz. Mas Esperança não quer essa paz. Olha o desenho de Tanja, escuta o que Chezy aprendeu e ensinalhe mais a respeito, brinca com elas de... Sandra se horroriza com o caos em que sua cozinha se tornara sob a luz implacável do dia, para onde convergem todas as festas. Meus Deus, acabaram com tudo, não temos nem para o almoço. Keko precisa acordar o Paolo e pedir a chave do carro para irem ao supermercado. O japonês, de pijama, aproximando-se informa que Paolo e Rosalice não haviam dormido ali. Não? Ah, Meu Deus... Ofereço-me para ir, quero comprar o jornal que trará um suplemento de fotografia com o regulamento de um concurso de que quero participar. Sandra olha para


Esperança como a pedir a permissão dela. Esperança sorri. Tudo bem, disse, ele gosta de fazer compras sozinho, a pé. Como ela sabe, se sabe, não sei. Sandra pede que eu espere pelo menos ela fazer o café. Não se preocupe, bebo num bar. Fui como estava, com uma bermuda vermelha de Esperança e uma camiseta branca de Keko. Ela tinha quadris e ele não tinha ombros. As coisas que Sandra queria, eu podia encontrar num mercadinho próximo, mas meu jornal apenas no centro da cidade. Comprarei tudo lá. Tomei o bondinho pelo estribo. Na volta, nos arcos da Lapa, praticamente suspenso no ar, o jornal debaixo do braço e as sacolas nas mãos, protegido por meus sonhos, passei a viver por alguns dias como uma folha que será deixada na janela perfeita antes de seguir seu curso no vento até a relva.

Depois do almoço, Keko e Sandra saíram com as crianças. Esperança solta os cabelos e senta-se no sofá. Vai me contar suas conclusões a nosso respeito. Pois é, pensei muito sobre nós. Conforme ela fala, vou calando, calando. Tem sido uma jornada dura para mim, diz. Foi difícil abrir mão da infância e da adolescência, da menina em mim. Do lar que ela queria. Do desejo de filhos. Enfim. Essas coisas de mulher que ainda não sofreu o quinhão reservado à maioria das mulheres.


– Passaram os quinze anos e você não apareceu com essa carinha de menino carente e a fragilidade que tanto te expõe. E a delicadeza de me amar, mesmo sem me conhecer, sem saber quem sou na verdade.

– O que importa o que você foi sem mim? importa o que é comigo. – Este é o ponto. Sem você, com você. Quanto prazer, diz ela, eu posso dar a uma mulher! E quanta insegurança! Esperança fizera seus planos e neles a segurança e a independência vinham em primeiro lugar. De repente, eu chego, inseguro, dependente de minha mãe, e pior, diz Esperança: – Me fazendo dependente de você.

Amanhã começarei num bom emprego. Em breve, logo mesmo,vou me mudar da casa de minha mãe. Tenho até um apartamento em vista.

– E a música?

– Não tenho pretensões quanto à música.

– Não? – diz ela, decepcionada. – Um músico com tua qualidade?


Digo que não estou gostando do rumo da conversa, que não gosto de preâmbulos de elogios, geralmente são a preparação de algum mas. Não para algum mas, diz ela, e sim para mais: m-a-i-s. Quero que você venha a Friburgo comigo; vou passar a semana santa; preciso refletir sobre muitas coisas e esse é o tempo ideal. Pergunto e quanto a meu emprego. Ela diz que Magda conhece metade dos médicos do Rio e arranja um atestado para você. Se puderam ficar a vida toda sem você, completa, poderão ficar uns dias MAIS. Dá uma risadinha. É o que eu estava querendo com meu preâmbulo: te chamar para MAIS uns dias num ambiente bucólico e na Páscoa teremos a decisão acertada.

Não entendi. Decidir o quê? Ficarmos juntos? Já estávamos. Mas logo me dei conta de que instantes antes esperava de seus lábios uma palavra qualquer de separação – meu silêncio passou então da dor ao alívio. Mais. À alegria. Minha alma está rasgada mas não sangra. A perspectiva de uns dias longe do Rio, num lugar idílico como Esperança dissera ser o sitio onde ela passou a infância, com ela, por que não?

Antes do anoitecer, num crepúsculo abissal, descemos de bondinho. Quando atravessávamos os arcos, Esperança recostou a cabeça em meu ombro.


Ao chegar em casa para fazer as malas, encontrei um clima estranho. Minha mae e minha tia caminham de um lado para o outro, inquietas cochichando, e evidentemente o assunto me diz respeito. Fecham-se num quarto. Entro no meu. Não consigo me concentrar na escolha das roupas. A meteorologia previu frio na serra. O que está acontecendo? Enfio as roupas de qualquer jeito na bolsa. Mal o faço, as duas irmãs entram. Já sabemos, meu filho. Já sabiam? Sim, e até entendiam. Mas por que não me disse? Ergo olhos abobalhados para minha mãe, que continua falando. Sei que nunca conversamos muito e nesses casos não há muito que possa ser feito, mas... Eu podia imaginar que Sara , como arranjara um meio de fazer com que Tereza demitisse Esperança, não se calaria tampouco com minha mãe. Mas aonde a levava isso? O que pretendia alcançar? Que vantagem, que vingança, que volúpia? Fazer-se de vítima? Jogar minha mãe contra mim? Fazê-la me deserdar? Obrigá-la a me fazer romper com Esperança e ficar com ela, com Sarah? Insana... E sei, meu filho, diz minha tia, que você entende que não pode mais ficar na casa de sua mãe e – Já estou mesmo saindo. Ela retrucou. Está zangado conosco? – Ora essa! eu é que devia estar zangada com você! Sei que falhei muito como mãe mas sempre te amei e fiz tudo pelo seu bem.


Eu também amava minha mãe mas não parecia mais possível erguer uma ponte sobre nosso abismo de mundos, aprofundado agora pelo estranho mal-entendido que ricocheteava pelas palavras. Meu Deus! O que estou fazendo neste teatro grotesco? Fecho a bolsa. Mãe, não vamos discutir. A vida é minha. Tenho direito de vivê-la como quiser. Ela franze as sobrancelhas, passa a mão nos cabelos, sim, a vida é sua, diz minha tia, fazendo-se portavoz das lágrimas de minha mãe. E a morte também será. Morte? Mas você não tinha, meu filho, o direito de mentir. Que loucura é essa? – pensei. Mas apenas disse: Mentir? Barulhos fora do prédio. Uma mulher lavando roupas. Sim, mentir, sobre o emprego. Ah. Quisera como todo mundo simplesmente correr para os braços de minha mãe e abraçá-la. Não é natural esse sentimento rancoroso de parte a parte. Então ela abriria os braços quando eu entrasse em casa, a qualquer tempo e circunstância. Mas é tudo o que ouço, uma reprimenda e um suspiro de enfado. E com o resto das pessoas ela é tão generosa. Não menti, mãe. Apenas adiei o início para resolver um imprevisto. Bem, vou embora. Mal escuto a voz de minha mãe. Diz que eu sei que não começarei nesse emprego nem nunca terei outro. O gato se enrosca em minha perna. Talvez, digo. Talvez eu viva da música. Estão vendo? Estou levando o violão. – Meu filho... – Mãe, vou passar uns dias em Nova Friburgo. Na volta, vou ficar na casa do Sérgio.


– Aquele rapaz que vinha jogar xadrez com você? – Ele mesmo. Agora tenho de ir. Fiz menção de beijá-la. Ela afastou o rosto tão instintivamente que me assustou. Uma punição um tanto forte por eu amar Esperança e não querer ficar com a Sarah e, seja, te-la usado aquele dia. Mas a gente não reflete muito quando está feliz e os próprios aborrecimentos só fazem aumentar a felicidade, pelo contraste. Eu tinha sido infeliz, mórbido, ansioso, tímido, covarde, suicida, e a cena com minha mãe, em quem tudo aquilo estava centrado, me levava ao que não era, ao que seria, livrando-me de tudo o que representava. Saí. Só mais tarde, quando voltasse para buscar o resto de minhas coisas, entenderia que Sarah não limitara a mexericos. Não tinha portanto motivos para continuar pensando a respeito. Agora, de novo o hall do prédio. A rua. Encontrar Esperança. Não posso me recusar esse dom. A noite. Um coração que transborda de amor assim suavemente.

A meteorologia não se enganara quanto ao frio em Friburgo. Descemos antes da rodoviária, na casa da mãe de Esperança. Belas pessoas. Abraçam e beijam a filha e irmã com efusiva ternura. O abraço que a senhora me dá é quente e sincero. À tarde fomos para o sítio. A tia de Esperança era a caseira do lugar e vivia com a mãe. Os


donos raramente apareciam e não daquela vez. Vendo Esperança cuidar da avó, dar-lhe banho, injeção, comida, levá-la ao banheiro, trocar suas roupas e ainda dialogar com os delírios dela, sabendo que o fazia desde a adolescência, discerni que a única coisa acrescentada pelo curso de enfermagem no Rio foi um diploma – a saber, nada.

Dona Letícia, a tia, sugeriu que fôssemos dar uma volta. Não tinha cabimento as visitas ficarem trabalhando. Deixa, menino, eu lavo a louça. A cachoeira agora deve estar bem bonita. Na trilha, as folhas secas rangiam, as aves pipilavam, a brisa gemia entre as árvores um lamento longínquo. Sentamos na pedra. As águas caindo murmuram uma canção de paz no hiato as águas, um pequenino lago antes de despencarem no bosque lá embaixo e seguirem seu sinuoso e decidido caminho que mais cedo ou mais tarde desembocaria no mar distante. Nosso recanto de amor, naquela tarde e nas demais. Na verdade não me lembro de em minha vida inteira ter ficado tão continuamente excitado. Tardes. Não existem palavras. Jamais será aplacada a paixão? Os anões do jardim observam-nos entrar. Dona Letícia preparou o quarto. O único além do dela na habitação. Duas camas, uma de casal, mas ela arrumou a de solteiro para Esperança, por recato ou gozação. Tudo bem. Deitávamos separados, a porta aberta e, quando acordávamos juntos, ela nunca estava perto para ver.


Quando chegava para almoço, estávamos na varanda, descascando legumes ou escolhendo verduras da horta. À mesa havia quatro cadeiras. Dona Letícia acha graça até de sua mãe, entre a catatonia e o delírio. A princípio eu me choco mas ora, a idosa não parece sofrer e a vida segue. Assim por muitos dias, deixe-me ver, umas duas semanas. Um pouco mais à tarde íamos à cascata. À noite, protegidos com mantas de nossas ardências na friagem, ouvíamos música. Esperança me mostrou sua coleção de óperas e o fascínio sobre mim foi instantâneo. Mas prefiro, disse um dia, que você cante suas próprias canções, agora blues de rio e baladas de lago. Além das galinhas, dos patos e do feroz Papa, filho do velho pastor da adolescência de Esperança, havia na casa a gata Mitsy, que Dona Letícia encontrara abandonada havia um ano. Nas refeições, sentada ao pé da mesa, Mitsy lançava um olhar fixo de súplica. Vem, Mitsy, vem cá. Ela brunnnn pula e ronrona. Quando eu dava sua comida, iaunnnnnn, ela agradecia antes de comer. Na surdina aplicada à noite pelo sono geral, o motorzinho pede para entrar dentro dos cobertores. Ali permanecia conosco até de manhã.

Batem à porta. Magda agitada abraça Esperança e derrama-se em prantos. Bateram à porta. Magda, ao ouvir a pessoa dizer quem era, abriu sem maiores cuidados. Finalmente entendeu o que estava acontecendo,


paralisada. O grito morreu na garganta, a grande mão sobre os seus lábios, a voz de ameaças. É um homem pequeno de pequenas ambições. Ela tentou fugir mas não havia possibilidade e agora a voz, as mãos, os sons do prédio e da noite, tudo a amaldiçoa. Um animal devora sua caça. Indo e vindo as palavras, entendi. O agressor de Magda havia sido Luciano. Quem era Luciano? Procurava Esperança, eram amigos de infância e a aparição de Magda vestida de branco provocou recaídas. Entre, Luciano, tudo bem? Luciano, companheiro de Esperança nos piques e brincadeiras de médico. Uma tarde de sol, o sino ao longe. A multidão na Central do Brasil. O súbito gesto. O que é isso? Vizinhos, vozes, ninguém escuta? O que Magda ainda não tinha contado: Luciano está morto. David o matou. Tinham aceito que mantivessem ambos namoradas, mas não suportou o estupro. Não entendeu. Uma jovem dança na minha frente na festa, loura, de blusa escura. Está inconsolável, quem não ficaria? Namorava Luciano para se manter próxima de David. Quando chegaram as noticias de homossexualismo, estupro e assassinato, Vanessa jurou que nunca mais assumiria um compromisso afetivo em sua vida. Setembro costuma mesmo ser um mês de decisões em sua vida. Não é mulher que se deixe abater ou ficar paralisada. No dia seguinte apronta as malas e vai para Paris.


Dois dias depois Magda voltou para o Rio. Um homem entroncado, de seus cinqüenta anos, com acentuado sotaque nordestino, veio buscá-la. Não perguntei a Esperança quem era ele nem ela me disse. No domingo de Páscoa, caminhando pelas trilhas da serra, ali sua suave forma avermelhada, aqui um chão donde brotam perspectivas, desenham-se as dores e consolos do Horto. Segunda-feira após o domingo de Páscoa, às 17h30, no trânsito congestionado do fim de feriados, eu e Esperança voltamos ao Rio. No ônibus, em meio a meu desejo de só falarmos sobre futuro após o regresso, na certeza de que seria isso falar sobre nossa vida em comum, aquele que eu era não encontra aquele que deveria ser, claro, mas tudo bem, é só uma questão de horas, e um otimismo nada comum vem em meu socorro. Ao chegar no belo anoitecer à janela, estou pensando. É lindo, e linda essa a meu lado, recortada no apaixonado céu. Amanhã, já estabelecido na casa de Sérgio, buscarei com Magda o atestado, que insistiu, embora eu não a quisesse aborrecer depois de tudo por que passou. Nada, meu amigo, não é incômodo, a vida precisa continuar. Precisa. E eis o tempo exato para mim. Irei encontrar Esperança. Dará tudo certo.

P4B; C3BR; P4BD; P3R. Sérgio espera bastante por minha jogada seguinte que é mesmo a óbvia saída de


bispo. A contemplação absorta da estética do tabuleiro não é o meio mais eficaz de controlar o meio e ganhar o jogo, mas eu perdera o poder de concentração, vital para a realização do melhor movimento. B2C também para as brancas. A Tijuca é um bairro alegre, escuta-se sons de alegria vindos do Borel. A janela dá para lá. Demorei a perceber a jogada e a responder ainda mais. Sérgio acende um cigarro, liga baixinho a Tv. Roco e retorno ao amanhã. Eu estava pensando em vida em comum, eu estava pensando em Esperança, na dificuldade de encontrar um bom apartamento barato para alugar no Rio de Janeiro. Não parei de pensar nisso desde a chegada de Friburgo. Pensara em confidenciar alguma coisa a Sérgio, tão amigo tinha ele se mostrado. Mas sua mulher me olha com um quê de reprovação, não me sinto à vontade, não com ela por perto. Agora vai dormir, mas ainda assim reprimo esse desejo vago de confidência. Meu parceiro, mesmo um minuto antes distraído pelo noticiário, C3BD, retruca rápido. Incomoda-me também que pensem que eu seja bissexual e viciado em drogas injetáveis, segundo a confissão que eu não fizera a Sara. P3D. Uma chuva a tamborilar. Não creio que Sérgio pudesse compreender toda a história. Acho que nem eu. Aids! Sarah fora realmente longe demais. Tirarei satisfações? P5D. Quietude súbita. Pensando bem... A demissão de Esperança provocara nossa viagem. Mentindo para minha mãe, Sara precipitou o que eu já deveria ter feito há muito tempo, sair da casa de minha mãe. P4R. Viver minha própria vida.


Conheci Sérgio na praia, na quarta-feira antes de Esperança. Aproximei-me por causa do pequeno tabuleiro em que estudava de partidas do recente campeonato mundial. Olhar fixo, absorto. Deus dos movimentos reluzindo ao sol. Lá longe um cruzeiro num navio. Sentei e perguntei se estava a fim de uma partida. Assim, quando o sol se punha e ele entrava no carro e os matizes do Leme ao Posto 6 prenunciavam o crepúsculo, a necessidade mútua de desabafo (eu minha solidão e ele a crise no casamento) dá-nos camaradagem suficiente para que me convide para passar um fim de semana com ele e a esposa Cristina. Temos, disse-me, uma amiga com quem penso que você se dará bem. Caso fosse preciso, quem sabe eu até pudesse passar uns dias na casa dele, pois tinham um quarto nos fundos.

Minha jogada. C(5C)4R. Levanto para esticar as pernas. Dedos entre os discos na estante. A dedicatória de Cristina, pelo último aniversário do marido. Olhos de novo para Sérgio. Está de olhos fechados. Agora, o casal mal se fala. Ela está sozinha com o bebê no quarto. Choro de criança. Vizinhos. Um prédio a cujos barulhos estou desacostumado. Estará ele chorando? Um jornal na estante. – Xeque – declarou na minha distração.


Ah, Esperança... Seus lábios são quentes, seus braços aconchegantes, de fazer estremecer, de causar dor. Oh meu Deus. A torre branca maquinalmente se interpõe entre a dama e meu rei. Em negrito, o anúncio, no pé da página, um anúncio pessoal. Um nome, o nome dela, o verdadeiro nome dela. Tantas ilusões, tantas expectativas... E essa súbita falta de ar, e essa raiva – ou será tristeza? A desamparada mão se move pelo tabuleiro. D8T+; R3C; D8R; R3T. Antes que Sérgio dê o novo cheque, abandono a partida, com a mão estendida de perdedor.

Um momento por que não esperava passar. Sete horas no relógio da Central. A casa que já não será o cenário que desejei. O percurso da casa de Sérgio à de Magda se nutre dum misto de amor e ódio, ou apenas auto-estima ferida. Aqui estarei com Esperança. O mesmo corredor do primeiro dia, que precedeu nosso banho e o amor; mas não parece o mesmo lugar. É o ciúme que insiste comigo para que visualize essas cenas? A mesma sala do primeiro dia – a mesma Esperança? Pergunto. Por que você não me disse? Uma lágrima. Chegou a correr? Esperança tem esse jeito de falar olhando nos olhos. Por que não disse? Conversaríamos hoje, lembra? Sim, a Virgem. Morena. 1m78. Sexy. Discreta. Apenas senhores educados. Era a mágoa contra o pai, o rancor contra os homens? Não. Apenas o dinheiro. A independência. Casa, viagens, segurança financeira. Não sei se entendo o porquê de tanta franqueza.


Quando nos encontramos, ela já havia decidido sua vida. Quando decidiu, não se julgava capaz de amar. Ela tem um passado, e bem recente. Será que vou sobreviver? Quero ainda glorificar o dia de hoje. A noite é linda, calma. Preciso. Eu a conheci como enfermeira, não por um anúncio. Esperança sustenta um olhar terno. Se não é de amor,o amor não existe. Eis a origens de todos aqueles telefonemas... Ela está respondendo que não dava o número de Magda, usava uma caixa postal de voz, preferia assim, o incidente com Luciano provara que ninguém estava acima de suspeitas e então perdi contato com sua voz ao levar em conta que ela tampouco havia atendido as ligações, orgulhoso, subentendendo da reação de Magda à minha aparição que eu apenas tivera o privilégio de seu endereço. Eu havia sido o único. Mas e essa dor? Lágrimas umedecem suas palavras. Sempre me lembrarei de você. Estou chocado pela crueza da determinação dela. Em meus braços. Eu amo você, de verdade, mas... Calar seus lábios em meu peito. Esperança não podia entrar assim em minha vida, vira-la do avesso, e depois partir. Não posso voltar às minhas trevas. Eu a impediria. E a ensinaria a realmente me amar. Não fale mais por favor, se realmente me ama. Na sala dos luminosos matizes há o conforto da lenta janela... cansaço, futuro, solidão. Súbito a rua e a noite.


Sombras. As fachadas dos prédios em frente decrépitas, fantasmas. Esperança não é uma mulher comum; talvez eu não seja um homem comum. Em relação à felicidade, é naturalmente um impasse. Olha-me contra a luz. Luz em seus olhos.

Em uma cidade do Nordeste, uma mulher encontrou um garoto na rua, na miséria. Levou-o para casa e se afeiçoou dele, acabou cuidando dele como se fosse fruto de seu ventre. Adotou-o. O marido resmungava: Num lugar como aqui, já pensou se você for trazer para casa todo menino-de-rua que achar por aí? A mulher respondeu. E se a gente, em vez de trazer para cá, construísse uma casa para eles? O marido disse Você está louca! e no dia seguinte tomou as providências. Começou assim. Hoje a casa não é tão pequena. Tem ala de meninas. Professoras, médicas, todo tipo de serviço voluntário. É albergue, creche, escola, posto de saúde. Tudo mantido por aquele marido, tio de Magda. Estão precisando de uma enfermeira. Magda não quer ir. Diz que não tem vocação. Está querendo casar. E quanto a Esperança? Tinha vocação? Não sabe. Está subitamente triste e eu não queria que ela hesitasse. Olha sem ver as paredes. A noite é suave, imponente, e o perfume da noite tem um peso em minha alma, assim, olhando os olhos de Esperança e ouvindo canções de infância. O que posso lhe dizer? O que ela


acaba de falar não faz sentido, mas nada faz sentido nesta vida. Talvez um dia nos encontrássemos e ficássemos juntos, mas essa perspectiva nada significa diante do demorado abraço na rodoviária. No ponto de táxi, Magda disse que já estava se esquecendo e me deu o atestado. Meneei a cabeça sorrindo, peguei o papel, junto veio uma foto, que ironia. Rasguei um e outra, cuidadosamente ocultando Sarah de Magda. Desculpe o incômodo, eu disse. Já não era preciso. Não vou mais pegar esse emprego. – Não? E o que vai fazer? – Vou trabalhar. Seguir a minha vocação.

Agradeço a garoa de aplausos e deixo o palco. Guardo o violão. Saio do clube e entro em Paris. Faubourg SaintDenis. Acompanho a multidão sob os toldos. Essa jovem indo para seu lugar com muito porte, assim reta e orgulhosa; esse silêncio é o silêncio que precede o sino, todas as coisas em suspenso. Rostos sem nome, o arco, os pequenos prédios, a cidade caminha comigo. Dormi, acordei e continuo sonhando. A passagem do metrô. Meu rosto no vidro do trem. Eu existo: minha existência é necessária. Minha estação. Agora. Não sei se minha mãe ainda pensa em mim com Aids e bissexual, que importa? Aliás essas frescas francesas e as turistas aqui na Place de Vosges talvez imaginem mesmo


homossexualismo. Desculpem meninas, mas não posso mais imaginar sexo sem Esperança. Há eunucos que assim nasceram e há eunucos que se fizeram assim por Deus, e outros a quem os homem fizeram, e há eu sem Esperança. Sim, doce querida amiga, eu me lembrarei sempre de você. Ontem na carta disse a ela do meu contrato e das apresentações nesses lugarzinhos. Acredito ter sido a melhor opção. Dá pra viver razoavelmente bem. Falei de Julia Vorontsova, que tem sido de grande dedicação. Também mencionei Andréa Sanches, que encontrei aqui e é quase minha vizinha. Ela se casou com um espanhol, gente muito boa. Quanto a Vanessa, bem, não lamenta que David não tenha vindo, talvez tenham acabado antes. Estuda em Saint-Denis. Estarei tentando fazer ciúmes? Quanto à ópera, está bem avançada, amiga. O marido de Andréa tem a minha idade, é musico também; tem me colocado em contato com esse nosso jovem mundo anacrônico – não há nada errado conosco. Ah, gosto de Marais, das pessoas misturadas sobre a grama, mas o que realmente adoro é tomar um café e voltar para casa, deixando lá fora os passos da marcha e meu destino circunstancial. É quando dedilho meu poema de posteridade e encho páginas com um cântico imortal. Não via a hora de acabar o show para abrir a carta de Esperança. Nossa, ela é mesmo minha amiga... Também se sente bem, realizada. Acredito que a distância seja o lugar


onde está mais perto de mim. Nas sua ausência talvez sua presença seja mais completa. Não há sentimento de posse ou a inquietação de um desejo constante. É verdade que uma voz interior me desmente, diz que estou totalmente errado, louco e me enganando. Que nosso relacionamento era perfeito e poderia continuar a ser. Enfim. Mas não somos pessoas comuns, como as invejo! A elas é dado mar e deixar de amar, juntarem-se e separarem-se. A nós restou amar e nos separar e amarmonos ainda mais. O desenvolvimento natural das coisas substituído por um equivalente transcendental. De resto, ao lado de Esperança talvez eu não tivesse condições de criar minha obra como tenho feito. Porque o gozo é efêmero e a alegria alienada. Ao lado de Esperança, eu criança, não poderia fugir da felicidade. E como se pode ser plenamente realizado e feliz quando apenas isso se busca ser? Como se pode buscar a felicidade pessoal num mundo de tanto sofrimento? Num mundo que é meio e não fim, exista ou não um outro além. Felicidade: as pessoas comuns não crescem – não, não as invejo. Em meu quarto, olho a janela. Lá fora uma estrela. O vento sopra, passam as nuvens. Eu não voltarei mais mas estou aqui agora. Luz. Além, muito além dos sons de meu violão, que como uma oração o gravador repete. Além do libreto em minha mesa, dos poemas, além de minha história. A vida apenas vivida passa; os sentimentos registrados permanecem.


Lá fora uma estrela, Esperança. Seu destino a levou para, ao cuidar das mazelas de crianças pobres, curar as suas e refazer a infância e adolescência, e crescer, crescer, Esperança plena, inatingível como a estrela, mesmo para os anos-luz do melhor de mim – ou quem sabe um dia. O amanhã, só ele próprio se conhece. De qualquer modo, nosso primeiro beijo na praia foi mesmo um marco de eterno amor. É noite, agora também no Brasil, e posso vê-la, Esperança, em algum lugar desse pequeno mundo errante na vastidão infinita, ouvindo um blues apaziguador baixinho sob seu travesseiro, o brilho de seus olhos aceso na noite por uma saudade serena. Insone a luz do abajur de meu quarto, não choro nem me sinto miserável.

FIM


Esperança