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S U P M A C

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Foto: Roberta Pinheiro

SAÚDE

ZONA RURAL DO DF SEM MÉDICOS Atendimento mais próximo fica a 70 km

Foto: Victor Pennington

Foto: Bárbara Cabral

MÚSICA

METAL: NOS SUBSOLOS DE BRASÍLIA

Força de vontade move som independente

DROGAS

ELES QUEREM MUDAR DE VIDA Quatro histórias de jovens que tentam deixar o vício em centro de reabilitação


OPINIÃO O PREÇO DA ESPETACULARIZAÇÃO Emerson Fraga, editor-chefe

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penúltima edição do Campus deste ano tem a obrigação de discutir um fato triste: no dia 06 de novembro, o cinegrafista Gelson Domingos, da TV Bandeirantes, foi assassinado na favela de Antares, no Rio de Janeiro. Ele tinha 46 anos de idade e 20 de jornalismo, ofício cada vez mais entregue à espetacularização a todo custo. O acontecimento instiga a reflexão sobre os limites profissionais da produção da notícia. A sede pelas primeiras imagens – e não pela notícia em si - levou repórter e cinegrafista com coletes à prova de balas pouco resistentes a um campo de batalha que mata mais do que o conflito armado no Afeganistão. Nada justifica tamanho pragmatismo ao tratar a vida e a segurança desses profissionais. Se a função social do jornalismo é desvendar vários aspectos de um mesmo fato, a essência da profissão está se perdendo para o circo da notícia. A denúncia a qualquer preço, a primeira imagem, a entrevista exclusiva e o furo de reportagem transformam o jornalismo bem feito em ejaculação precoce. E não falo

aqui das expedições a endereços perigosos para a produção de reportagens de importância social, mas das incursões puramente espetaculosas. E o problema não é só o conceito de jornalismo, mas as condições em que trabalham seus profissionais. O cinegrafista, que ganhou no ano passado o prêmio Vladmir Herzog de Anistia e Direitos Humanos revelou que seus próprios direitos não eram respeitados pela empresa onde trabalhava. Segundo a Federação Nacional dos Jornalistas, ele era contratado como operador de câmera, com salário mais baixo, mas exercia funções de repórter cinematográfico. O ex-diretor da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos, Daniel Boorstin, no livro A Imagem, faz boa crítica a imprensa que menos se preocupa em reportar a realidade do que em alimentar as expectativas de seus leitores. No jornalismo, cada vez mais, sai de foco a notícia bem apurada e o espetáculo ganha o primeiro plano. E a morte de Gelson Domingos é só a ponta dessa história toda.

OMBUDSKIVINNA FEIJÃO COM ARROZ NÃO BASTA

NA do teatro FILA Mateus Lara Apresentado em setembro deste ano, o texto da Lei Geral da Copa revelou uma série de divergências entre os desejos da Fifa e a legislação brasileira. Uma das principais se refere à meia-entrada para estudantes nos jogos do torneio, o que reacendeu as discussões em torno do benefício. Criada para ampliar o acesso dos jovens à cultura no Distrito Federal, a meia-entrada para estudantes em eventos culturais é assegurada pela Lei 2.768/01. O Campus foi à fila do Teatro Nacional para saber o que os brasilienses pensam sobre a meia-entrada em espetáculos de cultura.

A ideia é boa, mas tem que igualar os valores aos preços de SP e RJ. Um show de 50 reais nesses estados chega aqui por 200. Acaba que a meia-entrada vira inteira. Solom Junior, advogado

Raquel Castelo

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esforço em trazer novos elementos para a diagramação talvez seja o maior destaque da edição 373 do Campus. Além de chamadas pouco criativas, os textos estão insossos, incluindo o da coluna Na Fila. A exceção cabe apenas a Futebol da capital vai mal das pernas e ao perfil, o melhor e mais interessante deste semestre. Apesar de bem feita, Construção verde é aposta de longo prazo tem narrativa pouco atrativa e traz um Por Trás da Reportagem chato. E faz falta saber quem são os futuros moradores e a variação do preço do apartamento em relação a um imóvel comum. Ah, é estranho que a existência de um projeto que prevê construção ecológica inferior a 10% do valor mínimo das obras do Minha Casa Minha Vida não seja destacada. Música fora de ritmo nas escolas também deixa a desejar. O texto tem várias repetições e torna a leitura cansativa. Diante da recente polêmica em torno da

contratação de docentes pelo GDF, fica a dúvida se professores de música estariam entre os que aguardam vaga. A melhor parte é em Infância cheia de sons, que traz as informações que mostram a validade do projeto e tem uma escrita mais cativante. Em Por dentro da profissão: divas da noite, uma contradição: o sutiã afirma que as drag queens agora são gerenciadas por empresas e não precisam mais trabalhar por contra própria. Entre os personagens, Alice Bombom é autônoma e consegue contratos sem intermédios de produtoras. Há ainda afirmações pouco embasadas, mas o tema é bom e o box que o acompanha é excelente. Por fim, o Q? Curiosidades não é nada explicativo.

Feminino de ombudsman, termo sueco que significa “provedor de justiça”, a ombudskivinna discute a produção dos jornalistas a partir da perspectiva do leitor.

O brasileiro sempre leva as coisas para o lado errado. Você vê gente com 50 anos mostrando carteira de estudante e pagando meia. Elmano Duarte, analista de sistemas

É um incentivo que garante mais acesso. Os estudantes não têm dinheiro para pagar os preços das entradas inteiras. Benevaldo Machado, vigilante

EXPEDIENTE CAMPUS Jornal-laboratório da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília Editor-chefe Emerson Fraga Secretária de Redação Amanda Maia Diretor de Arte Ricardo Viula Editores Amanda Maia (p. 8), Emerson Fraga (p. 1 e 2), Livea Chefer (p. 3 e 7) e Paulo Victor Chagas (p. 4, 5 e 6) Diagramadoras Ana Júlia Melo e Brenda Monteiro Fotógrafos Bárbara Cabral e Mateus Lara Repórteres Amanda Martimon, Guilherme Alves, Marcella Fernandes, Roberta Pinheiro e Victor Pennington

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Monitores Alexandre Bastos e Júlia Libório Jornalista José Luiz Silva Professores Sérgio de Sá e Solano Nascimento ISSN 2237-1850 Brasília/DF - Campus Darcy Ribeiro Faculdade de Comunicação - ICC Ala Norte CEP 70.910-900 Telefones 61 3107.6498/6501 E-mail campus@unb.br Gráfica Palavra Comunicação

Aqui em Brasília se aproveitam da meia-entrada. Eles dobram o valor e dão meia para todo mundo em troca de doações de alimentos. Luciana França, servidora pública

ACESSE O CAMPUS ONLINE WWW.FAC.UNB.BR/CAMPUSONLINE

CAMPUS Jornal-laboratório da Faculdade de Comunicação da UnB

Brasília, de 15 a 21 de novembro de 2011


SAÚDE

Os brasilienses mais distantes dos médicos No Jardim, a maior área rural do Distrito Federal, quase duas mil pessoas estão sem assistência médica há seis meses. Moradores precisam se deslocar 71 km para conseguir atendimento no hospital mais próximo, no Paranoá Roberta Pinheiro

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o caminho para Unaí (MG), na DF-285, está localizado o Núcleo Rural Jardim. Construções modestas abrigam uma escola, mercearias, uma igreja, um centro comunitário e o posto da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater). As ruas são de terra batida. As pessoas, de fala simples, estão acostumadas com o sol forte e o trabalho braçal nas plantações que circundam a área. Uma visão diferente da massa de concreto dos grandes centros urbanos. Famílias estão separadas por mais de 10 km, e as casas de tijolo aparente acolhem histórias de angústia. É lá que vivem os brasilienses mais distantes de um médico, que para chegar ao hospital mais próximo precisam percorrer 71 km, parte deles em estradas de terra vermelha pelas quais o transporte público não passa. A área rural Jardim, a maior do DF, é formada pelas comunidades Jardim II, Buriti Vermelho, Sussuarana, Itapeti, Granja Progresso, São Bernardo e Cabicerinha. Lá vivem quase duas mil pessoas que estão há seis meses sem médico. Em outras ocasiões, chegaram a ficar até três anos sem assistência médica.

ISOLADOS

Foto: Mateus Lara

“Aqui é ruim, porque falta médico, né? Às vezes vem um, a gente começa

a gostar dele, aí ele vai embora e a gente fica sem nada”, conta Júlia Martins, 49. Nascida e criada em comunidade rural, ela saiu de Formosa (GO) e mora há oito anos em Sussuarana. Por causa do trabalho braçal da roça, Júlia sofre com problemas na coluna. A agricultora conta que “outro dia mesmo” ficou de cama sem andar e não pôde ir ao médico, já que não tinha condições de se deslocar de ônibus nem de carro. A filha saiu do Recanto das Emas para levá-la ao hospital de Planaltina, um dos mais próximos. Os hospitais de referência da região são os regionais do Paranoá e de Planaltina. De ônibus, o trajeto demora em média duas horas. Para os brasilienses mais distantes do serviço médico básico, viajar virou rotina. A comunidade rural está habituada a acordar com o sol nascendo. Entretanto, há algum tempo, o amanhecer começa no ponto de ônibus. A única linha que sai da região para o Paranoá ou Planaltina passa às 6h da manhã e só volta às 4h da tarde. “Lá no Paranoá, a gente vai para resolver uma coisa e fica o dia todinho”, conta Conceição Martins de Araújo, de 49 anos. Ela estava com dor de ouvido, já não escutava mais e foi até o pronto-socorro. “Eles não olharam para mim, disseram que tinha gente pior que eu”, relata. “Eu só não estava escutando.” Como só chegam ao hospital entre 8h30 e 9h da manhã, os moradores do Jardim não conseguem marcar as consultas, já que a fila é grande. O serviço na emergência demora e, quando eles estão prestes a serem atendidos, precisam pegar o caminho de volta. O carro é a última opção. Cleonei Pereira, 31, mãe de seis filhos e moradora de Sussuarana, diz que “quando é coisa grave”, os moradores precisam arrumar carro para levá-los ao hospital. “Semana passada mesmo eu paguei R$ 50 para levar a minha filha, porque ela estava reclamando de dor nos rins.” O gasto não é só com transporte. Cleonei vai recorrer ao serviço particular para cuidar do filho que está com o rosto deformado. A mãe conta que levou a criança três vezes ao Paranoá e não conseguiu atendimento.

Para a família de Marcelo, marido de Felipa, falta esperança. O trabalhador conta que conversou com um médico uma vez e este reclamou que eram muitas comunidades para um só profissional atender

Foto: Mateus Lara

Os riscos na zona rural são aparentes: casas sem filtro e crianças correndo descalças na terra Depois das tentativas fracassadas, os médicos atenderam a criança, mas, sem exame, disseram que ela estava com infecção e que só fisioterapia resolveria. “Marquei a fisioterapia para ele, mas nunca chamaram. Agora eu vou ver se consigo fazer particular”, explica. “Eu tenho problema de coração. Me mandaram para o Paranoá e lá eu não consigo tratamento. Não sou atendida há nove meses”, reclama Felipa Xavier, 46. Ela sofre de mal de Chagas e hipertensão. O médico disse que o acompanhamento era fundamental. “Mas como você vai ter acompanhamento se não consegue?”, questiona Felipa.

foi indicado para substituí-lo. Para os moradores que sofrem com diabetes, hipertensão, problemas de coluna e outras doenças, fica difícil dar continuidade a tratamentos e conseguir remédios. Não é só médico que falta. “Este mês não veio medicamento”, conta Maria Lenice Natividade. Hipertensos e diabéticos estão sem remédios. “E geralmente quando vêm, vêm em quantidade insuficiente”, complementa a agente comunitária. Como o posto está em reforma, o auxiliar de enfermagem e o enfermeiro atendem num prédio improvisado. Em outras comunidades próximas, as consultas acontecem em escolas e igrejas. Na região onde o PSF não funciona adequadamente por falta de profissionais e infraestrutura, o que diminui os problemas é o trabalho dos agentes de saúde. Líderes que levam em cada visita a esperança que falta na comunidade. “Eu não acredito mais na vinda dos médicos. Há dez anos moro aqui e a vida é esta”, conta Felipa Xavier. Os agentes não possuem formação médica, mas hoje são tudo o que os brasilienses mais isolados têm. A solução não tem data para chegar. “Quando a gente pensa na expansão do Saúde da Família, as unidades rurais têm que ser priorizadas”, afirma Sérgio Eduardo, coordenador de Saúde Rural do DF. “Se isto vai acontecer amanhã ou no começo do ano que vem, não tem como saber.” Neste ano, nenhuma equipe do PSF foi criada no Distrito Federal.

MEMÓRIA

ANJOS DA GUARDA

O posto de saúde do Núcleo Rural Jardim faz parte do Programa Saúde da Família (PSF) e segue a metodologia de atenção primária, com foco na prevenção. Nesse modelo, uma equipe composta por um médico, um enfermeiro, dois auxiliares de enfermagem e agentes comunitários atende as famílias tanto na unidade de saúde quanto em casa. Entretanto, no Jardim a situação difere. A unidade funciona em local improvisado e sua equipe só tem um enfermeiro, um auxiliar técnico e seis agentes comunitários. O último médico foi transferido para ocupar um cargo no Ministério da Saúde, e ninguém

CAMPUS Jornal-laboratório da Faculdade de Comunicação da UnB

Na edição número 332 do Campus, os repórteres Felipe Néri e Gisele Novais se aventuraram pela DF-205, que corta a área norte da zona rural de Brasília, para conhecer as histórias de uma região tão próxima e tão distante do ritmo metropolitano na reportagem Outras terras, outros sonhos.

Brasília, de 15 a 21 de novembro de 2011

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Mesmo que esteja tudo no meio do caos. Todo mundo gritando, brigas, confusões: o maior escarcéu. Em algum lugar da casa, Líber* está quietinho e na dele. Rapaz alto e sorridente, sempre tranquilo, tem 17 anos e acha engraçados os eventos que tiram sossego dos monitores. Está interno há seis dias e é quem mais tem estudo dentro da casa. Completou até o primeiro ano do ensino médio e possui uma lista de certificados de cursos profissionalizantes. Entrou na droga como a maioria dos garotos: amizades e festas. Usava pedra, pó, meta-anfetamina, LSD e o que aparecesse. Um dia, pediu à mãe para ser internado e eles encontraram o espaço Transforme. Líber gostaria que a casa possuísse mais atividades. Enquanto isso não acontece, passa o tempo em leituras e no que tiver de novidade. Seja um cubo mágico que apareça, um jogo de cartas ou dominó. Nos livros, já explorou a literatura nacional, mas agora está nos best-sellers de Stephen King. Aprecia bastante José Lins do Rego e histórias sobre o cangaço.

O LEITOR

Espaço Transforme é uma casa de reabilitação para menores ex-usuários de drogas, organizada pela ONG Transforme. É o único centro terapêutico totalmente gratuito para adolescentes dependentes no DF. É um lugar vivo. Respira, chora, sofre, ri. Contempla histórias dos hóspedes que o mantêm em atividade. Confortável, interna até 35 jovens ao mesmo tempo. Nos dias de semana, todos acordam relutantes às 7h30, arrumam as camas e, após o banho, seguem para o café da manhã. Depois do desjejum vem a laborterapia. Trabalhos domésticos são divididos durante a semana entre os meninos e meninas da casa.

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Victor Pennington

Na casa, para o rapaz, o maior desafio é a laborterapia. Veja bem, que martírio! São as atividades diárias de limpeza de banheiros, pias, louças, varandas, mesas e do quintal, e os ofícios de varrer, lavar, limpar, organizar a fila e cronometrar o tempo para o banho dos colegas (se ultrapassar os cinco minutos mais a tolerância, desliga-se a chave geral e o rapaz tem que terminar o banho com água gelada) que deixam Líber desconfortável só de pensar. Quando fala deles, chega a se esticar para tentar jogar fora a preguiça do corpo. A laborterapia serve justamente para isso. Como são muitos internos para as atividades citadas, completa-se tudo em cerca de meia hora e o trabalho valoriza o ambiente. Ai de quem começar a sujar a mesa que o outro limpou. Para os próximos anos longe das drogas, Líber quer a conclusão do ensino médio e aguarda uma chance de ingressar na aeronáutica. Depois pensa em fazer um concurso público, como o irmão, com o qual espera ter um futuro tranquilo e estável.

É uma maneira de aprender a realizar tarefas básicas e valorizar o espaço coletivo pelo esmero. Quem bota ordem na casa são os dois monitores que encaminham os malcomportados para a coordenação. Geralmente quem quebra as regras é desligado do projeto e para de morar no centro terapêutico. O adolescente tem que esperar quatro meses, período de uma internação completa, para poder se candidatar a uma vaga na casa novamente. O objetivo do projeto é muito claro: o tratamento contra as drogas. Mas o que os garotos aprendem é, na verdade, a lidar com um novo mundo de convivência, acordos e paciência.

“Mano, nos primeiros dias eu sonhava com a pedra, toda noite”, diz Opus

crack é bem parecido quando se trata de crimes cometidos. Opus foi encontrado próximo ao Conic, mas poderia ter sido em qualquer outra boca do DF. Uma assistente social que caminhava na rua ofereceu-lhe espaço em um abrigo do governo. Ele aceitou e assim sua vida começou a mudar. No tempo que passou no abrigo, observou outros internos indo para a casa de reabilitação do espaço Transforme. Conversou com a diretora do abrigo, que conseguiu uma vaga.

Como é o cotidiano no centro terapêutico Transforme, espaço de reabilitação para menores ex-dependentes de narcóticos. Uma casa que há uma década abriga 35 adolescentes em busca de apoio e um recomeço. O desafio para os internos, além de superar o vício, é aprender a conviver

Dentro das vidas que passam pelo vício

DROGAS


De repente, em uma brincadeira da sexta à noite sobre partir, alguns internos concluíram que o êxodo era uma boa ideia. São garotos cujas paixões e decisões são do aqui e agora. De hormônios, abstinência e medo. Ludus* falava alto na sexta. “Se eu quiser

OS DESISTENTES

Os monitores, chacais das vidas amorosas, nunca estão distraídos. Vistoriam com olhares desconfiados e conselhos sobre paciência. Que fique claro aos jovens apaixonados: a casa é apenas para o tratamento do vício, não para o amor. Eles não são os únicos à procura da alcova. Na segunda semana em que estava na casa, outro casal se escondeu para namorar e foi flagrado em pleno ato. Sofreu desligamento imediato: “Moço, estava gostoso demais”, frase que disse o rapaz do flagrante aos outros que contam, em meio às gargalhadas, a história. Os monitores são justos, só punem se virem com os próprios olhos. As denúncias são averiguadas com investigação (geralmente quem comete uma infração a repete). É por isso que o triângulo Passio, Glória e Astrum vem sendo monitorado nas últimas três semanas. É um espia-espia na casa, uma rede de fofocas, intrigas e já nem se sabe mais o que é verdade e o que é ficção. Glória, bem esperta, sugere um motivo para a regra dos relacionamentos. “Fica complicado, afeta a convivência na casa. Vai que eu namoro alguém e ele começa a sentir ciúmes de todo mundo. Vai dar brigas.” Está certa, Glória, na situação delicada do tratamento, as emoções podem trazer maiores problemas. Mas vontade para fazer o que é proibido os internos têm. É quase inocência pedir aos Romeus e Julietas das ruas que esperem quatro meses do tratamento para só então consumarem o sacro amor. sair, eu saio agora, tá bom?”, dizia ao amigo Iugum*, que assistia a um filme. Ambos são ex-usuários de crack. Ludus pode até sair do espaço Transforme, mas afirma com certeza que nunca voltará para onde cresceu. A própria mãe é viciada na pedra e o garoto de 17 anos já decidiu que não voltará às drogas. Rapaz magrelo de cabelos claros, já viu o que muitos homens de mais idade não presenciaram. Foi abusado sexualmente por um tio dentro de casa quando criança, e nem sabe ao certo quando começou com os narcóticos. Conta a sua vida de agonias e dúvidas. A adaptação na casa parece ser a parte mais difícil para ele. Já não é a abstinência. É o novo mundo que surge diante de sua vida que o assusta. Ao chegar, possuía um pavio extremamente curto e se envolveu em duas brigas. Quase foi desligado, mas a diretora da casa interveio e Ludus foi um dos poucos que obteve uma segunda chance diante da agressão física. Por isso sua situação na casa ficou crítica. “A psicóloga disse que estou aqui até segunda ordem, só que eu não entendi”, disse Ludus à terapeuta ocupacional Juliana Massariolli. “Isso significa que se você se meter em qualquer besteirinha de novo você será desligado”, respondeu Juliana. A vida na rua é sem tolerância. Qualquer ofensa ou sinal é o suficien-

CAMPUS Jornal-laboratório da Faculdade de Comunicação da UnB

Dos três princípios da casa – sem brigas, sem drogas e sem relacionamentos –, o último é o que mais faz sofrer o jovem ex-usuário de crack de ombros largos e conversa simpática. Passio*, 16 anos, há três semanas na casa, vive situação shakespeariana. É apaixonado por Glória*, mas seu amor é proibido. Ambos deixaram namorado e namorada do lado de fora da casa. Com o passar das semanas, atividades – refeições, jogos, músicas, filmes, laborterapias, conversas de grupo e pulos na piscina – foram se tornando tediosas e enfadonhas para os dois jovens de corações prostrados. Desse jeito veio a aproximação. Glória, 14 anos, magra, bonita, de cabelos bem escuros, natureza agitada e curiosa, possui a mesma simpatia que o segundo amante. Para os desavisados, Passio não é o primeiro encanto da garota, que já deu trela para o menino Astrum*, que também vive dentro da casa. A questão é: houve mais do que paquera? Pois qualquer ato que ultrapasse um abraço amigável significa, para os amantes, o desligamento da casa. Eles não falam. De formas escusas e secretas, atitudes ilícitas estão sob os sorrisos.

O APAIXONADO

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O contato com a ONG Transforme foi feito por meio do grupo de pesquisa Violes, coordenado pela professora do curso de Serviço Social da UnB Maria Lúcia Leal. Depois de entrevista no espaço de atendimento ao público, houve visitação à casa cujo endereço não é divulgado, para segurança dos internos. A apuração na casa durou quatro dias. Primeiro uma sexta-feira, durante três horas, para apresentação aos internos. Depois, três dias inteiros, das 7h às 22h, para uma convivência mais aprofundada. A ONG aceita doações de alimentos, roupas, livros e, por meio de conta bancária, depósitos em dinheiro. Telefone: (61) 34682696 E-mail: transformeong@ig.com.br Site: www.transforme.org.br Conta Bancária: CEF / CC:40203-6 AG: 1039 Operação: 003

POR TRÁS DA REPORTAGEM

Fotos por Victor Pennington

* Nomes fictícios

Brasília, de 15 a 21 de novembro de 2011

“Mano, nos primeiros dias eu sonhava com a pedra, toda noite.” Opus* acordava suado, ofegante pela falta do crack. Como desejava sair daquela casa e usar a droga novamente. Nas ruas, viu três amigos morrerem por causa do tráfico. Previu o próprio destino no saco do IML. Fez besteiras que prefere não contar. O passado de menores ex-viciados em

O TRABALHADOR

te para matar. Dentro da casa, os meninos e meninas têm que aprender que o mundo não é assim. O espaço Transforme é para mostrar uma nova vida, completa, mas como falar que é possível uma realidade diferente a quem só viu violência e dor? Na manhã de sábado, sem motivo aparente, Ludus e Iugum estavam de banho tomado e malas prontas. Iugum mais parecia seguir o amigo para não ficar sozinho na casa. Os monitores fizeram o que podiam. Aconselharam, dialogaram, ligaram para os psicólogos, que conversaram com os garotos. Até a cozinheira gastou seus trinta minutos com os dois adolescentes em vão. Ainda havia rastro de dúvida nos desistentes, mas a decisão era final. “Será que eu estou fazendo a coisa certa?” disse Ludus com um leve sorriso. Ele não queria esperar que alguma coisa acontecesse para ser desligado da casa, o que, na cabeça do adolescente, não poderia evitar. Melhor sair pela própria honra e vontade. Desde criança sempre foi responsável pelo próprio destino. E assim, dono de si mesmo, de forma brusca e sem aviso, depois dos dois meses e 12 dias que passou na casa, partiu sem completar o tratamento.

Nos primeiros dias de sofrimento, a ausência do narcótico era forte. Opus era mais. Venceu a abstinência, permaneceu. Ele é um vencedor dentro da casa. Um exemplo. Homem negro de 18 anos, muito brincalhão e divertido. Chegou à maioridade dentro do centro terapêutico e vive lá há nove meses. Uma gestação. O tempo estendido é um favor para o garoto que aguardará na ONG até a data de se apresentar ao exército. Os outros internos foram quem deram o apelido ao jovem. Quando ele chega, à noite, dizem: “Lá vem o Opus, o trabalhador”. Um dos monitores é caseiro em um lugar próximo ao centro. Precisava de um ajudante e convidou Opus. Agora o interno acorda bem cedo e parte de bicicleta para retornar quase à noite. Adquirindo calos, dinheiro, orgulho. Ele chega um pouco depois do jantar. Seu prato com muita comida é guardado à sua espera. Já abandonou a magreza doentia. Começa aos poucos a ficar corpulento graças aos dias de labuta e à boa alimentação. “E agora?” pergunta o repórter. “Agora, é colocar a cabeça no lugar e seguir a vida.” Antes de dormir ele assiste aos filmes na sala de televisão com os outros internos. Aguardando pacientemente chegar a data para partir vitorioso da casa.


MÚSICA

O som tocado e mantido por poucos Após 30 anos no cenário musical brasiliense, o metal continua underground por escolha própria. Poucas bandas chegam a fazer sucesso, e produtores afirmam que a preocupação com o dinheiro fica em segundo plano Guilherme Alves tos, como o Metal 0800, organizado em frente à oficina mecânica do metaleiro Vagner Lima, o Preto. Para ele, a essência do underground é se opor ao padrão comercial, o “mainstream”. “São dois mundos diferentes, a mídia não tem por que divulgar uma música de metal, isso não vende como ela quer e não é muito palatável”, explica Lourenço Sant’Anna. Os produtores independentes não se importam tanto com o retorno. “A primeira coisa pra mim é divulgar as

Ilustração: Washington Rayk/Colaboração

Segundo aficionados, o underground é uma cultura que se sustenta sozinho. Tem meios de comunicação, shows, modo de vestir e de pensar. Sustenta-se com o trabalho de organizadores, músicos e frequentadores dos shows, já que o metal brasiliense não tem apoio de grandes gravadoras, produtoras ou revistas comerciais de música. A divulgação dos shows e músicas é feita pela internet e por revistas independentes. Muitos desses shows são gratui-

Tomar sorvete rápido demais congela cérebro Cefaleia de alimentos gelados dura meio minuto e atinge um terço da população Bárbara Cabral

? CURIOSIDADES 6

Todo verão é a mesma coisa: praia, sol e muito picolé. De repente, uma tremenda dor de cabeça, que logo passa. A cefaleia de sorvete, conhecida popularmente como “congelamento do cérebro”, é uma dor de cabeça instantânea causada por alimentos gelados, que pode ser explicada cientificamente. De acordo com estudo publicado na revista britânica British Medical Journal, 30% da população sente dores de cabeça ao comer alimentos gelados rápido demais. A explicação está relacionada à sensibilidade do nervo craniano trigêmeo. Segundo Joaquim

Pereira, neurologista do Departamento de Ciências Fisiológicas da UnB, o fenômeno acontece porque o trigêmeo é um nervo hipersensível que faz a ligação entre as regiões da testa (região oftalmológica), maxilar e mandíbula. “Ao comermos algo muito gelado, estimulamos excessivamente esse nervo, e a sensação se reflete em dor de cabeça.” No entanto, não há com o que se preocupar. A cefaleia de sorvete dura no máximo 30 segundos e não causa efeito posterior. Para fugir da dorzinha incômoda nos dias de calor, basta tomar o milk shake com mais calma.

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bandas”, afirma Rolldão. Ele já lançou várias bandas com o selo Kill Again, criado e mantido por muito tempo com dinheiro de outros trabalhos. Só agora o selo é sustentado pela própria música. Poucas das bandas deram lucro, e uma delas é o Violator, que lançou dois álbuns pelo selo e já tocou na Europa e no Japão. Mas Rolldão não se importa que nem toda banda seja assim. “O problema da maioria dos selos é que os caras são empresários, querem dinheiro, a banda tem que dar retorno”, critica ele. “Grana para mim é segundo plano.’’ Na organização dos shows, muitas vezes, por falta de dinheiro, os organizadores hospedam os grupos na própria casa. Mesmo quando há recurso para hotel, eles preferem estar próximos das bandas. “Só deixo os caras em hotel quando não tem espaço em casa”, conta Rolldão. “Se eu pudesse, deixava eles o dia inteiro tomando cerveja, comendo churrasco, ouvindo um som.” Depois, “termina o show e a gente se torna amigo”, completa. Para Sant’Anna, “o underground é uma rede de amizades’’. Rolldão escuta e distribui material de várias bandas de Brasília, inclusive de algumas lançadas independentemente por colegas.“Tem amigos meus que lançam bandas horrorosas e, mesmo assim, eu pego pra não perder o amigo’’, conta o agitador cultural.

Foto: Bárbara Cabral

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inco bandas, CDs e DVDs de brinde e ingressos a R$ 5. O festival Kill Again Metal Fest celebrou em outubro os dez anos do selo que lança grupos de metal underground de Brasília, de outras partes do país e até de fora. E não deu lucro: “Fiz um evento só pra incentivar a cena, um cara que pensasse em dinheiro tinha colocado o ingresso a R$ 25”, conta Antônio Moreira, o Rolldão, dono do selo Kill Again e vigia noturno em uma escola no setor P Sul da Ceilândia. O metal brasiliense começou nos anos 1980 seguindo tendência dos gêneros mais extremos de metal – pouco comerciais, rápidos, pesados, com letras violentas e performance agressiva – sempre independente. “Não precisa ser gênio pra saber que ingressos a R$ 5 não vão bancar tudo isso, mas o underground não vive pelo dinheiro, e sim pelo prazer”, explica Lourenço Sant’Anna, estudante e baterista da banda Blackskull. E o prazer é conquistado sentindo a música. “A gente fez um show pra umas oito pessoas, e foi um dos melhores”, conta Sant’Anna. “Às vezes tocar pra mil pessoas não dá a mesma energia e fervor de tocar pra oito”, afirma. E acrescenta: “O metal é um estilo de vida, você tem que abdicar de muitas coisas sem ter muitos frutos, mas isso não é um problema.”

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CÂNCER

Os perigos da luz do Planalto Central O DF é a unidade da federação não banhada pelo mar com mais casos de melanoma em homens. A alta incidência de radiação solar e as características de miscigenação da população são os fatores responsáveis pelo número Marcella Fernandes

D

as unidades federativas não litorâneas, o Distrito Federal é a que tem o maior índice de homens com melanoma, tipo mais agressivo de câncer de pele. O dado é do Instituto Nacional de Câncer (Inca). O DF é a sexta unidade com maior propensão à doença, atrás apenas dos estados do Sul e das unidades litorâneas do Sudeste. Segundo estimativa elaborada para 2011, surgirão 60 novos casos de melanoma em homens no Planalto Central. São 2,67 ocorrências de melanoma a cada cem mil homens. O número não é alto se comparado à estimativa de outros cânceres de pele: 35,62 para homens e 41,38 para mulheres. No entanto, o melanoma é o tipo mais agressivo, sendo responsável por 75% dos óbitos. De acordo com a dermatologista e coordenadora de um grupo de pesquisa independente sobre melanoma, Flávia Vieira Brandão, a alta insolação é um dos fatores responsáveis pelo grande número de tumores: “Aqui há exposição solar intensa e o índice de radiação ultravioleta é alto, maior que o de Fortaleza”. Segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), os meses de julho e agosto são os que registram maior insolação no DF, chegando a mais de 8h por dia de radiação solar direta. Entre os fatores causadores da doença, o principal é a radiação ultravioleta (UV), que provoca dano direto no DNA e ocasiona a formação de células cancerígenas. A altitude do DF - 1.170m acima do nível do mar - potencializa o efeito da radiação. De acordo com o Inca, a cada 300m a inten-

Melanoma em homens Estimativa 2011 UF Distrito Federal Roraima Minas Gerais Mato Grosso do Sul Goiás Mato Grosso Rondônia Acre Amazonas Pará Tocantins

Incidência* 2,67 2,21 2,15 1,98 1,85 1,36 1,00 0,99 0,95 0,79 0,48

Região Centro-Oeste Norte Sudeste Centro-Oeste Centro-Oeste Centro-Oeste Norte Nordeste Norte Norte Norte

*Ocorrências a cada cem mil habitantes Fonte: Inca

sidade da vermelhidão de queimaduras solares aumenta em 4%. Aliada à ação dos raios UV está a grande miscigenação, que inclui indivíduos caucasianos vindos do Sul e de outros países. “Brasília recebe gente de várias partes do país. O padrão de imigração é outro, diferente do restante das unidades da federação”, afirma Flávia. Pessoas de pele branca têm dez vezes mais chance de desenvolver melanoma. Em estudo realizado pelo Hospital Universitário de Brasília (HUB), de 32 pacientes com câncer de pele, 87,5% eram caucasianos.

Ilustração: Ana Cecília Schettino/Colaboração

Danos da radiação solar Altitude elevada do Planalto Central pode explicar grande número de casos de melanoma em homens no DF

MENOS FREQUENTE, MAIS LETAL

O melanoma representa apenas de 3 a 5% dos casos de câncer de pele. Apesar de menos comum, é o responsável pelo maior número de mortes devido à alta capacidade de metastizar (quando o câncer se espalha pelo corpo através da corrente sanguínea). “Ele atinge os vasos linfáticos ou sanguíneos e afeta diversos órgãos, gerando transtornos que levam o paciente ao óbito”, explica Flávia, que é médica do HUB. Quando ocorre a metástase, 60% a 80% dos pacientes morrem depois de cinco anos. A médica afirma que “a chance de cura do melanoma é o diagnóstico precoce”, quando o tumor está apenas na epiderme, camada mais superficial da pele. Quando atinge a derme, há risco de metástase. Os tumores mais espessos e, portanto, de difícil cura, são mais comuns em homens e em idosos, devido ao diagnóstico tardio nesses grupos. Segundo o estudo realizado pelo HUB, o melanoma nodular é o mais comum em Brasília e corresponde a 45% dos casos. Esse é o tipo mais agressivo por atingir a camada mais profunda da pele. Ocorre principalmente em indivíduos de 40 a 50 anos. O segundo mais frequente, comum na faixa de 50 a 70 anos, é o melanoma lentigo maligno (35% dos casos) e está di-

retamente relacionado à exposição solar. Flávia afirma que é difícil fazer uma estimativa real das ocorrências de melanoma. O maior problema está na coleta de dados sobre o câncer de pele. Não é obrigatório o registro médico de casos atendidos nem a realização de exames patológicos. Por esse motivo, a maioria dos estudos realizados é pontual, o que dificulta o mapeamento da doença.

O ROSTO DA ESTATÍSTICA

No caso das mulheres, o Distrito Federal cai de primeira para terceira unidade não banhada pelo mar com a maior incidência de melanoma. São 1,93 casos para cada cem mil habitantes. A lavadeira Maria Pereira, de 66 anos, foi diagnosticada em agosto de 2010 e teve o tumor retirado por meio de cirurgia no Hospital Regional da Asa Norte (HRAN). Maria conta que surgiu uma mancha preta em seu pé que, depois de alguns meses, começou a apresentar bordas irregulares. Foi quando ela procurou tratamento. A médica do Hospital Regional de Luziânia, cidade onde mora, a encaminhou para o HRAN. Após a cirurgia, a paciente deveria ter tido acompanhamen-

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to, mas isso não aconteceu. “Perguntei se estava tudo bem dois meses depois e nunca mais consegui falar com os médicos. Sempre me barravam. Diziam que a médica daqui [Luziânia] precisava me encaminhar e ela é difícil de encontrar”, revela. Sem o acompanhamento, o tumor de Maria voltou. Em março deste ano, fez nova cirurgia no HUB e agora realiza exames e vai a consultas regularmente. Os chamados tumores múltiplos são comuns. “Cerca de 10% dos pacientes apresentam novos tumores. Isso ocorre geralmente dois anos após a detecção do primeiro”, explica a dermatologista Flávia.

CUIDADOS

Para se prevenir, é preciso evitar expor-se ao sol entre 10h e 16h e usar chapéus, óculos escuros e filtro solar. É importante ficar atento a pintas que crescem, de múltiplas cores, bordas irregulares ou que doem ou coçam. Consultas anuais ao dermatologista também fazem parte da prevenção, já que o melanoma pode não apresentar sintomas. Além disso, quando há um caso de melanoma na família, aumenta em duas vezes a chance de desenvolver a doença.

Brasília, de 15 a 21 de novembro de 2011

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Sozinho por opção Perfil: Paraná Amanda Martimon

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entado em uma velha cadeira tendo a luz do poste de iluminação pública como sua luminária pessoal, Paraná atrai os olhares dos que passam pela parada de ônibus da 303 Norte. Os mais curiosos reduzem a velocidade, diminuem os passos, quase param para observar. Os mais atrevidos abaixam os vidros, dão meia volta e tiram fotos. Ler não é coisa para morador de rua, parecem pensar os que assistem à cena como uma atração peculiar. “Os livros são meu único vício”, Paraná declara, orgulhoso de si. Não fosse esse detalhe, o homem de pele morena e olhos atentos passaria despercebido. Os frentistas do posto de gasolina ao lado de sua ‘casa’ são testemunhas e categóricos na opinião a respeito do vizinho: não faz mal a ninguém e é um cara muito inteligente. A paixão pela leitura sempre foi uma fuga. Surgiu quando era criança, daquelas levadas, que brigam todo dia no recreio. Para evitar as confusões e as broncas, se refugiava na biblioteca da escola. De lá para cá, perdeu as contas de quantos livros leu. Lamenta por não ter onde guardá-los, mas aproveita para trocá-los em sebos. “Já li muito Jorge Amado, mas minha preferência é [literatura] estrangeira”, afirma Paraná, que adora livros antigos e de ficção científica. O Parque dos Dinossauros, de Michael Crichton, é o número um da sua lista de favoritos, que inclui os dois volumes de Shogun, ficção histórica de James Clavell, e o livro de aventuras sobrea a 2 Guerra Mundial Os Canhões de Navarone, de Alistair MacLean. ANDARILHO “Minha cabeça não para, ou eu coloco alguma coisa dentro dela ou enlouqueço.” Paraná lê para fugir da loucura e do mundo. “Viajo sem sair daqui”, gaba-se o paranaense que cruzou o país. Há 20 anos, saiu de casa quando a mãe morreu. Acreditava que nada mais o prendia à terra natal, havia perdido o pai e não se dava bem com os irmãos. Com sua segunda paixão, saiu pelas estradas sem rumo.

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A bicicleta é a companheira inseparável. Ainda moleque, pedalava 150 km de Cascavel até Foz do Iguaçu para ganhar um trocado ajudando sacoleiros na divisa com o Paraguai. Aos 18 anos, saiu do estado que lhe serve de apelido em direção ao sul e cruzou a fronteira com o Uruguai. A vontade de conhecer Buenos Aires ficou nos planos para o futuro. “Na época, a Argentina era mais rica e em país estrangeiro é melhor não abusar”, diz.

“Sou um dos mais conhecidos dos desconhecidos. Todo mundo conhece, mas ninguém sabe quem é” Paraná está há nove anos na capital federal, e a rota que o trouxe deu muitas voltas. Passou pelo Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Rondônia e se aventurou em pedaladas na rodovia Transamazônica, seguindo para Amazonas, Pará, Tocantins, Maranhão, Piauí, Ceará e Paraíba. Desceu o litoral nordestino até a Bahia e quando chegou a terras mineiras foi convidado para conhecer Brasília. Veio e ficou. Das viagens trouxe histórias que se confundem com as dos livros de ficção. Na Amazônia, conheceu uma onça tão mansa que até posou para foto. Viu por três vezes naves espaciais, não discos voadores, faz questão de esclarecer. Para ele, o que presenciou na Chapada dos Guimarães não deixa dúvidas, existe vida extraterrestre, mas Paraná tranquiliza os amedrontados. “Não precisa ter medo. Eles não vão fazer mal pra gente, são mais evoluídos.” Em Cuiabá, criou raízes e é para onde retorna todo ano. Lá tem um filho, de 12 anos, que visita sempre no Natal. Em Brasília, garante seu sustento com a bi-

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cicleta. Perambula pelas ruas e percorre cerca de 60 km por dia, catando latinhas e outros objetos recicláveis vendidos por R$ 2 o quilo em um ferro velho da 713 Norte. Colorida, com rádio, farol e retrovisores, a bicicleta chama atenção e deixa o dono popular: “Sou um dos mais conhecidos dos desconhecidos. Todo mundo conhece, mas ninguém sabe quem é”. IDENTIDADE Ouvinte fiel das rádios CBN, BandNews e Nova Brasil, Paraná se mantém bem informado. Soube da doença do ex-presidente Lula e não se sensibilizou. “Ele é falso.” Apesar de não gostar de política, diz que é necessário saber o que acontece para não ser um alienado. E se indigna com as recentes suspeitas de corrupção no Ministério dos Esportes. A aliança na mão esquerda é disfarce para espantar quem se engrace com ele na rua, principalmente os homossexuais. Paraná não tem companheira nem amigos. “Eu escolhi viver sozinho”, esclarece o homem que não acredita em religião, só em Deus, e é fascinado por animais. “Tenho até o mesmo nome do santo dos animais.” Só assim revela seu nome, Francisco Kaefer. Todos são anônimos na vida de Francisco. São as duas senhoras que conversam com ele enquanto passeiam com os cachorros, o coronel implicante que insiste em perguntar quando ele vai embora, os frentistas, o dono do ferro velho e os conhecidos de pedaladas pelo Brasil que se identificam como ele. Tem o Cearazinho, o Paraíba, o Mineirinho e o Paulista, amigos durante a viagem, depois cada um segue o seu caminho. Entre gargalhadas e pesar, Paraná fala das pessoas que atravessam a rua para não passar por ele. Um dia estava capinando o gramado, e da janela um morador do prédio à frente gritou: “Olha aí, o sem terra já quer invadir”. Ele ri, diz que não se importa, gosta de ficar sozinho, mas deixa escapar: “Eu sou um solitário, mas não quero ficar na solidão”.

Fotos: Bárbara Cabral Da esquerda para a direita: 1- Paraná lê gibis, revistas e livros; 2- Sua bicicleta é conhecida nas ruas; 3- “Desde que me lembro, gosto de ficar sozinho”; 4- Aos sábados escuta samba e MPB; 5- Aeroporto 1977 é a próxima leitura; 6- Há três anos mora na 303 norte.

Brasília, de 15 a 21 de novembro de 2011


Campus - edição nº374