Page 1

Espanha

O País Basco, da violência à reconciliação Findos o terror e a brutal repressão do governo, cabe aos políticos e à sociedade o dever de construir uma paz sem revanchismo. E sem impunidade por Ricardo Viel, de Salamanca

Quinta-feira, 20 de outubro de 2011, começo de noite em San Sebastián, litoral do País Basco, Espanha. Iñaki García Arrizabalaga, que participa de um congresso, termina sua palestra e a organização do evento abre uma rodada de perguntas. Uma pessoa do público recebe o microfone e com as mãos trêmulas e a voz embargada dá a notícia esperada por décadas pelos espanhóis. “Foi assim que eu e mais uma centena de pessoas ficamos sabendo que o ETA renunciava à violência. Foram minutos de aplausos”, recorda Arrizabalaga, que é professor de marketing na Universidade de Deusto. “Senti uma imensa alegria. Pensei nas pessoas, alguns amigos meus, inclusive, que não precisariam mais olhar embaixo de seus carros à procura de bombas, que não teriam mais guarda-costas, não viveriam mais com medo de andar nas ruas.” O abandono das armas por parte do ETA (Euskadi Ta Askatasuna, que em euskera, a língua basca, significa País Basco e Liberdade) era iminente. No começo de 2011 o grupo havia anunciado um cessar-fogo permanente e se comprometia a encontrar um caminho para o fim do “confronto armado”. No dia 15 de outubro – três dias antes do comunicado final – houve em San Sebastián uma conferência de paz com a presença de mediadores renomados, como Kofi Annan (ex-secretário-geral da ONU). Foi uma espécie de liturgia exigida pelo grupo, que se autodenomina marxista-leninista, para declarar a “cessação incondicional e definitiva da atividade armada”, como expressado na declaração publicada pelo di36

| retratodoBRASIL 54

ário basco Gara em sua página na internet. Três semanas depois, em entrevista ao mesmo jornal, dois membros da organização disseram que a entrega das armas faz parte de uma agenda, que deve ser acordada com o novo governo espanhol – o qual assumiu o poder no final de dezembro, chefiado pelo primeiro-ministro Mariano Rajoy –, e descartaram o caminho político. “Não sentaremos à mesa de negociação política”, diz seu comunicado. O ETA, como grupo, só não acabou porque vai tentar proteger seus militantes presos e foragidos. Não vai mais lutar institucionalmente pela independência porque a sua luta, como movimento, era apenas armada. A esquerda basca também quer a independência e saiu fortalecida nas últimas eleições. É nela que quem militou no ETA deposita suas esperanças agora. O grupo pede que seus presos (cerca de 700) possam cumprir pena no País Basco – hoje a grande maioria se encontra em prisões espalhadas pelo país, distantes de suas famílias –, pleiteia uma redução nas penas impostas aos condenados e sonha com uma pouco provável anistia dos crimes, o que resolveria também a situação dos foragidos. O ETA foi criado em 1959, em Bilbao, por estudantes dissidentes do Partido Nacionalista Basco (PNV), com a finalidade de lutar pela independência da região que engloba quatro territórios espanhóis (Navarra, Álava, Vizcaya e Guipúzcoa) e três franceses (Lapurdi, Baja Navarra e Zuberoa). A Espanha vivia sob a ditadura de Francisco Franco e a luta armada foi ado-

tada para combater a opressão e buscar a soberania basca. O primeiro atentado (fracassado) aconteceu em 1961, contra um trem que levava veteranos da Guerra Civil. Começavam também as perseguições, prisões e o exílio dos terroristas. A primeira morte assumida pelo ETA ocorreu em 1968 e a vítima foi um policial civil – em 1960 uma criança de dois anos morreu após a explosão de uma bomba supostamente colocada pelo grupo, que nunca reconheceu a autoria desse atentado. Ao longo de mais de cinco décadas o ETA cometeu 829 assassinatos, segundo as contas oficiais – o grupo contabiliza mais de cem “voluntários caídos”. Juan Manuel García Cordero, pai de Arrizabalaga, foi uma das vítimas dessa guerra. “Eu tinha 19 anos [hoje ele está com 50]. Meu pai era diretor da Telefónica e a empresa, por ordem judicial, havia grampeado dezenas de telefones, o que levou à prisão de vários terroristas. A vingança foi o sequestro e o assassínio do meu pai. Como nunca havia sido ameaçado, ele não levava escolta.” No mesmo dia 23 de outubro de 1980 outras duas pessoas foram mortas pelo ETA. Foi o ano mais sangrento da história do terrorismo basco. Em 1969 o governo espanhol condenou seis integrantes do ETA à morte em julgamentos sem garantias processuais, medida que causou protestos não apenas no País Basco, mas na Espanha e fora dela (o papa Paulo VI pediu a revisão da punição). Ao final, acuado, Franco comutou a pena para prisão perpétua. Quatro anos depois, em 1973, o ETA


Getty Images

San Sebastián, País Basco, outubro de 2011: autoridades regionais e o Partido Socialista Basco comemoram o cessar-fogo do ETA após 40 anos

cometeu seu atentado de maior impacto, o assassínio de Luis Carrero Blanco, presidente do Governo (o mesmo que primeiro-ministro), que ocupara o cargo como natural sucessor de Francisco Franco, já doente (Franco morreu em 1975). A “Operação Ogro” foi preparada durante seis meses. Os terroristas alugaram uma casa no centro de Madri e cavaram um túnel de sete metros até a rua Claudio Coello, por onde o almirante passava todos os dias depois de assistir à missa. Cem quilos de explosivos abriram uma cratera de sete metros de profundidade e dez de largura, fizeram o carro oficial voar a mais de 20 metros de altura e cair no terraço de um prédio. Os três ocupantes [Carrero Blanco e dois militares que fazia sua segurança] do veículo morreram no ato. Nessa época a causa basca era vista com certa simpatia, explica o historiador Miguel García Perfecto. “O ETA teve muitos simpatizantes durante a ditadura e não apenas no País Basco. Tinha simpatizantes em toda a Espanha e também fora. Não se aceitavam seus métodos, digamos, mas havia simpatia porque estava lutando contra um regime que era bastante duro.” O grupo passou a perder apoio com a redemocratização, em 1977, quando decidiu continuar a luta armada, por entender que o caminho político aberto

era insuficiente. “Foi quando as coisas começaram a mudar. Não tinha sentido reivindicar a independência de um território pela via dos assassínios, dos sequestros, da extorsão [o ETA cobrava um “imposto revolucionário” de empresários e comerciantes]”, analisa Perfecto, professor da Universidade de Salamanca. Havia no país uma grande expectativa

O maior atentado foi em 19 de junho de 1987, em Barcelona: 25 mortos e 45 feridos

de que o grupo basco entregasse as armas com a chegada da democracia. O novo governo anistiou todos os presos ligados ao ETA. Dentro da organização houve uma divisão entre os que queriam o fim da violência e os que defendiam a continuidade da luta armada. Ganharam estes últimos, e o conflito, longe de chegar ao fim, se tornou mais sangrento. Entre os anos da ditadura o grupo cometeu pouco mais de 15% de

seus assassinatos, sobretudo contra policiais e pessoas relacionadas ao governo militar. Com a democracia os ataques se intensificaram em número e em alvos: políticos, jornalistas, juízes, empresários e praticamente qualquer pessoa que apoiasse suas ideias. A esses se somam as vítimas que estavam na hora errada no lugar errado, chamadas de “danos colaterais” pelo ETA. O maior atentado (em número de mortos) foi em 19 de junho de 1987, em um centro comercial de Barcelona: 25 mortos e 45 feridos. Após o ataque os terroristas afirmaram que o massacre poderia ter sido evitado se a polícia tivesse desalojado o local quando houve o aviso de que uma bomba havia sido colocada. Mas a violência indiscriminada foi levando o ETA cada vez mais ao isolamento. “O ETA declarou o fim da luta armada não por pensar que foi inútil ou contraproducente, mas porque está em uma situação de extrema debilidade”, diz Perfecto. Segundo o historiador, a ação da Justiça e da polícia e a falta de apoio dentro e fora da Espanha explicam a agonia dos terroristas. Em 2006, durante um processo de diálogo aberto entre governo espanhol e representantes da esquerda basca, uma potente bomba destruiu parte do Terminal 4 do aeroporto de Barajas, em Madri. Duas pessoas morreram e o repúdio 54 retratodoBRASIL

|

37


ao atentado foi praticamente unânime, inclusive de partidos e personalidades ligados à causa basca. O número de presos dissidentes que pediam o fim da violência aumentava. O ETA estava só e debilitado, mas continuava com seus ataques – o último deles aconteceu em 2009 e matou dois guardas-civis. No final de 2010 o grupo anunciou que “mediadores internacionais” estavam dispostos a participar da verificação de seu anúncio de cessar-fogo. Era a chave para que o último grupo armado existente na Europa depusesse as armas. “Começamos a escrever as primeiras linhas de um futuro que ainda não sabemos muito bem como será”, reflete o ex-presidente do governo autônomo do País Basco (um governador eleito pelo Parlamento do território, com mandato de quatro anos), Juan José Ibarretxe, em um artigo publicado dias depois do comunicado do fim da violência. “Levamos tanto tempo esperando a chegada do futuro que

na verdade nos esquecemos de imaginar como seria a vida sem o ETA”, completa ele. O Conselho Basco de Vítimas do Terrorismo – associação que congrega grupos de afetados pelo terrorismo do ETA – aposta em uma reconciliação com “memória e sem impunidade”. Uma das críticas das organizações de vítimas é de que o ETA nunca pediu perdão, nunca falou abertamente de reconciliação, não assumiu seu erro. Na entrevista ao Gara, o grupo diz que é consciente do sofrimento causado, mas que o conflito gerou vítimas dos dois lados e a principal delas é o “povo basco”. Diz, também, que a luta não foi em vão e que foi graças a ela que se geraram as condições existentes atualmente para que se ponha fim ao conflito. Ibarretxe advoga por uma “reconciliação sem esquecimento” e diz ser imprescindível que o grupo reconheça o sofrimento causado. Pede, também, um mea-culpa do Estado espanhol pelas violações praticadas não só durante a ditadura,

mas também no período democrático – torturas, prisões arbitrárias e assassínios promovidos por grupos paramilitares com respaldo do governo. Arrizabalaga participa há 25 anos de uma das organizações de vítimas do terrorismo, a Gesto pela Paz. “Depois de uma longa reflexão eu decidi fazer parte dessa entidade. Tenho filhas, e essa preocupação que tenho de tentar livrar as futuras gerações de coisas como as que eu passei é o que me motiva.” O professor de marketing conta que não foi fácil trocar o ódio após o assassinato de seu pai pela busca de uma solução para o conflito. “Passei por uma evolução lógica, creio. De não aceitar o que havia acontecido a aceitar e querer rebelar-me. Vieram os sentimentos de ódio e vingança. Eu queria o confronto pessoal. Depois percebi que isso contaminava as minhas relações pessoais, profissionais, sociais. Além disso, odiar é algo que consome, que cansa, porque você tem de odiar 24 horas por

GettyImages

Madri, 20 de dezembro de 1973: o atentado a bomba contra o primeiro-ministro Luis Carrero Blanco foi o mais importante do ETA

38

| retratodoBRASIL 54


dia. Percebi que isso estava me destruindo. O terrorismo não só havia assassinado meu pai, como estava acabando com a minha vida.” Em maio de 2011, Arrizabalaga recebeu uma proposta de um instituto ligado à administração dos presídios espanhóis. Um grupo de dissidentes do ETA queria se encontrar com algumas vítimas, pedir perdão a elas pelo sofrimento causado – não receberia qualquer benefício carcerário pelo gesto. Ele aceitou fazer parte da iniciativa. Foi até o presídio e esteve cara a cara com um ex-terrorista. Após um aperto de mão, começaram uma conversa que durou mais de uma hora. “Por mais que tente, eu não consigo entender o que leva alguém a matar. Eu queria tentar entendê-lo e perguntei isso a ele [o preso havia cometido alguns assassinatos, mas não teve nenhuma implicação com a morte do familiar de Arrizabalaga]. Ele respondeu o que sempre é dito por eles. Nenhum dos presos assume que o ato é uma decisão pessoal. Refugiam-se no entorno, no grupo, no contexto. É uma espécie de obediência devida. ‘O entorno não me deixava ter liberdade’, dizem eles.” Para o professor, é um mecanismo de defesa. “Imagine alguém que matou várias pessoas e de repente se dá conta de que causou tanto sofrimento para nada. Isso deve ser muito duro, psicologicamente falando. Todo mundo, antes de dormir, reflete um pouco no travesseiro. Deve ser muito difícil conviver com isso”, completa. Tiveram tempo para contar suas vidas, refletir sobre o passado e pensar no futuro. Arrizabalaga avalia que o encontro foi benéfico para ambos. “Creio que ele se sentiu melhor depois de falar comigo e eu também me senti melhor. Acho que estamos transmitindo uma mensagem ao conjunto da sociedade de que a normalização é possível. Se queremos colher algo, temos de semear. E acho que esse tipo de iniciativa semeia.” Vítima e terrorista chegaram à mesma conclusão sobre como construir o futuro. “Ele concordou comigo que é preciso que se faça uma leitura comum do que aconteceu. Eles têm de reconhecer seus erros, fazer uma autocrítica. Não estou pedindo que renunciem a suas convicções, a suas ideias políticas, mas que reconheçam que utilizaram métodos equivocados. Acho que o que tem de se separar muito bem é a existência de um conflito político entre Euskadi e Espanha, e isso há, com a violência que eles praticaram.”

BAIA DE BUSCAIA

frança

ESPANHA

PAÍS BASCO

frança

ESPANHA ESPANHA

Uma frase dita e repetida no País Basco nos dias posteriores ao anúncio do fim da luta armada foi: que bom que as futuras gerações só vão conhecer o ETA pelos livros de história. Arrizabalaga coloca um ponto de interrogação nessa afirmação. “Está muito bem que seja assim, mas como vamos contar isso? O que aprenderão minhas filhas nos livros?

Pikabea, do ETA: “Algum dia meu filho vai me perguntar se eu matei e terei de dizer a verdade” Podemos fazer uma leitura conjunta ou temos de aguentar que os que assassinaram escrevam a história? O que está claro é que se fecharmos mal uma ferida ela voltará a abrir. Veja o que aconteceu aqui na Espanha na Guerra Civil. Volta e meia voltamos ao tema, há rancores, enfrentamentos, é uma ferida que se fechou mal. Isso me preocupa muito agora, porque é o que ficará para o futuro.” Ferida aberta é também a expressão que usa Kepa Pikabea, ex-integrante do ETA. “Algum dia meu filho, que agora

tem 11 anos, vai me perguntar se eu matei e terei de dizer a verdade. E vou tentar convencê-lo de que ele não pode fazer o que eu fiz, de que não se deve pegar em armas para se rebelar contra uma injustiça. Isso deixa feridas que nunca cicatrizam. Sei que levarei isso até o cemitério.” O depoimento aparece no documentário “Al final del túnel” (No final do túnel), de Elías Querejeta e Eterio Ortega, lançado no dia 25 de outubro no Festival de Cinema de San Sebastián. Kepa Pikabea tem 54 anos e passou os últimos 17 na cadeia. Sua pena é de 192 anos de prisão pela prática de duas dezenas de homicídios. É um homem de aparência frágil, fala mansa e vacilante, que transmite com suas palavras e seu olhar perdido o tamanho da cicatriz que o País Basco precisa curar. “Meses antes de eu ser preso, levei o cachorro da família para a montanha para sacrificá-lo. Estava velho e muito doente, mas quando apontei a arma não tive coragem de atirar. Quando fui preso, a polícia avisou meu pai, que disse que era impossível que eu estivesse envolvido no que me acusavam porque eu era incapaz de matar um cachorro.” Finda a violência, agora cabe aos políticos e à sociedade civil a difícil tarefa de gestar uma reconciliação sem revanchismo e sem impunidade. Nessa complexa equação está a chave para um futuro diferente. Um futuro em que os jovens não tenham coragem de atirar, nem contra cães nem contra seres humanos. 54 retratodoBRASIL

|

39

O País Basco, da violência à reconciliação  

Reportagem sobre o fim do grupo armado ETA, para a Retrato do Brasil, janeiro de 2012