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A UNIVERSIDADE E A FORMAÇÃO DO INTELECTUAL Pedro Elói Rech1

Universidade Positivo

Resumo A partir das frases em epígrafe procuramos fazer um estudo sobre os intelectuais: quem são; como se formam; qual é a sua origem histórica; do que se ocupam e quais são os seus dilemas. O nosso objetivo foi o de refletir sobre a sua função e as suas responsabilidades, especialmente num mundo em que cada vez mais perdem importância para os especialistas, acompanhando o presente momento histórico em que os interesses coletivos e universais são preteridos em nome dos interesses particulares e privados.

1 Mestre em História e Filosofia da Educação (PUCSP). Professor de Teoria Política e Filosofia na Universidade Positivo


A UNIVERSIDADE E A FORMAÇÃO DO INTELECTUAL

“Os jornalistas são trabalhadores intelectuais.” Eugênio Bucci “Os intelectuais têm a responsabilidade de dizer a verdade e denunciar mentiras.” Noam Chomsky

Uma proposta de trabalho Este texto tem como finalidade relatar experiências de sala de aula e imbuí-las com a luz da reflexão. Tivemos uma experiência muito significativa quando trabalhamos, dentro da disciplina de Filosofia, no curso de Jornalismo, o livro de Eugênio Bucci Sobre Ética e Imprensa. Deste livro pinçamos uma frase, já assinalada na epígrafe, para uma reflexão maior. “Os jornalistas são trabalhadores intelectuais” (BUCCI, 2000, p. 75). Posteriormente, na disciplina de Teoria Política, trabalhamos partes do livro de Noam Chomsky, O poder americano e os novos mandarins. Deste livro mereceu especial destaque o capítulo A responsabilidade dos intelectuais, onde encontramos a outra frase, também assinalada em epígrafe. “Os intelectuais têm a responsabilidade de dizer a verdade e denunciar mentiras” (CHOMSKY, 2006, p. 373). A partir dessas frases ou desses conceitos partimos, para o revestimento da ação docente, com algumas reflexões mais aprofundadas sobre o significado da palavra intelectual, de sua formação de suas funções e posturas, os temas com os quais se envolve e a relevância que ele adquire nos tempos presentes. Para tanto, ocupamonos com a releitura dos livros já nominados, e buscamos o aprofundamento no livro organizado por Eduardo Novaes O Silêncio dos Intelectuais (NOVAES, 2006), especialmente em um de seus ensaios, o de Fausto Wolff, Dilemas dos Intelectuais, entremeado também de outras reflexões contidas neste livro, além de algumas evocações de leituras anteriores sobre o tema. A tarefa foi muito mais difícil do que prevíamos no início, em função da densidade intelectual dos ensaios contidos no livro de Chomsky e, especialmente, nos daqueles que compõem o livro organizado por Novaes. As dificuldades maiores foram no sentido de dar um ordenamento ao texto, em vista da profundidade e amplitude do tema e com as delimitações necessárias, próprias a um texto desta natureza. O objetivo deste trabalho é o de embeber as atividades do cotidiano com a reflexão teórica, concretizando o nosso trabalho como práxis, característica fundamental do trabalho humano, e possibilitar a tomada de atitudes profundamente comprometidas com os valores efetivamente humanos e que permitam, a nós e aos alunos, vislumbrar o futuro, como uma utopia a ser construída e para que não nos aprisionemos no tempo, eternizado na imobilidade do presente, como muitos pretendem.

O TRABALHO E A RESPONSABILIDADE DOS INTELECTUAIS Este texto não tem a pretensão de fazer uma análise do livro de Bucci. Nele buscamos apenas o mote para esta reflexão, de que o jornalista exerce o trabalho de um intelectual. Buscamos apenas o entorno em que o autor faz esta afirmação. À característica do trabalho intelectual, o autor acrescenta ainda outra, assalariado. O próprio Bucci sintetiza assim este seu pensamento: “Repetindo: o jornalista vive de

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vender seu trabalho intelectual e seu talento no mercado. A sua ética tem muito a ver com esta condição” (BUCCI, 2000, p. 76). Competência e valores éticos seriam as duas grandes questões deste trabalhador intelectual, em que a sua integridade pessoal é, simultaneamente, o começo e o fim dos valores que o acompanham.Estes temas são trabalhados nos diferentes capítulos do livro, leitura obrigatória para estudantes de jornalismo. Uma importante observação se faz necessária para chamar a atenção, em torno da estruturação dos chamados eixos pedagógicos dos cursos de Comunicação da Universidade Positivo. Eles estão fundamentados na práxis e visam à formação integral de seus futuros profissionais, cuidando simultaneamente de sua formação técnica, teórica e ética, sintetizada em seus eixos pela distribuição das disciplinas nos campos do saber fazer, do saber pensar e do saber agir ético. O texto referência de Chomsky é mais provocativo e polêmico. É centrado nas funções e compromissos que necessariamente o intelectual deve assumir para com os destinos da humanidade. O palco que serve de cenário para as suas reflexões é o da guerra do Vietnã (1965 – envio de tropas – 1973 – retirada e 1975 – reunificação do Vietnã). Chomsky participou ativamente dos movimentos de resistência a esta guerra por meio de palestras e algumas delas foram reunidas em livro, publicado em 1969. Este livro chegou ao Brasil apenas em 2006. O principal motivo de sua publicação apenas agora é o da nova guerra em que os americanos estão envolvidos, a guerra do Iraque. O livro é dedicado “aos bravos jovens que se recusam a prestar serviço numa guerra criminosa” e é prefaciado por outro intelectual e companheiro de lutas, Howard Zinn. Zinn nos apresenta o autor e o editor do livro, André Schiffrin, dizendo que ambos tinham em comum o apego aos princípios igualitários, a vontade de denunciar ao mundo a crueldade imperial americana e fazer a crítica aos intelectuais americanos, apresentados como os “novos mandarins”2 e a sua subserviência, aberta ou sutil, aos governantes. Chomsky é apresentado como filósofo da linguagem, comparável em seu campo à grandeza de intelectuais, como Einstein na Física e Freud na Psicologia, mas que transcende ao seu campo específico, ao assumir a posição de que os intelectuais têm a responsabilidade de dizer a verdade e denunciar mentiras. O intelectual deve representar um forte chamamento à consciência e ao sentido de responsabilidade, nos afirma Zinn, para depois mostrar as origens da formação deste intelectual. Aos 10 anos já acompanhou a Guerra Civil espanhola, escrevendo sobre a mesma, no jornal da sua escola, e aos 13, já vasculhava as livrarias em busca da compreensão dos pensadores anarquistas, com os quais se identifica até hoje. Aos 29 anos escreve a obra que o consagra em seu campo – As estruturas sintáticas. Zinn atribui ainda que a ligação entre a lingüística e as convicções políticas se deve a sua crença de que existe uma “natureza humana fundamental baseada num 2 Mandarim – termo derivado de mandar. No dicionário Aurélio tem os seguintes significados: 1. alto funcionário público, na antiga China e 2. manda-chuva – os mandarins da política. (FERREIRA, 2004,p. 1262).

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instinto de liberdade” (apud ZINN, p. 13). Apresenta ainda os principais envolvimentos políticos de Chomsky para concluir: “é esta a responsabilidade dos intelectuais, valerse dos talentos que acaso tenhamos – para expor as mentiras e dizer a verdade – com o objetivo de criar um mundo melhor” (ZINN, 2006, p. 16). Chomsky já na introdução do livro começa a falar da guerra do Vietnã, apresentando-a como uma guerra colonial clássica, decidida por um governo liberal, para impor a vontade americana ao país, e que recebeu o apoio de muitos políticos, intelectuais e especialistas acadêmicos. Ao buscar as causas destes apoios mostra o envolvimento destes intelectuais no domínio de uma tecnocracia liberal a serviço da ordem vigente e ciosos de representar os interesses da justiça e humanidade. Busca explicações para estes comportamentos adesistas em Randolph Bourne, que em ensaio de 1917 aponta a adesão intelectual e o entusiasmo de jovens com a guerra, devido à mudança nas faculdades, que passam “de uma formação que dava ênfase aos estudos clássicos para outra que privilegia os valores políticos e econômicos” e que promovem uma “identificação entre a guerra e esses homens” e que movidos pelo pragmatismo “imbuíram-se literalmente de uma atitude instrumental diante da vida” e que pela inteligência “vêm-se transformando em eficientes instrumentos da técnica da guerra, acatando sem muito questionamento as metas propostas pelo alto escalão (Apud CHOMSKY, 2006, p. 20-1). Busca também em Bourne a esperança da alteração deste quadro, apontando que um clima mais cético, malicioso, desesperançado e irônico poderá proporcionar a fermentação do novo, em que a insatisfação se poderá transformar em promessa. Isso ocorrerá quando houver a substituição do fascínio técnico pelo “fascínio das idéias novas e verdadeiras, da livre especulação, do vigor artístico, dos estilos culturais, da inteligência permeada de sentimento e do sentimento dotado de contornos e fibra pela inteligência” (Ibidem, p. 22). Esse desafio foi atual quando escrito por Bourne e lembrado por Chomsky e, acima de tudo ainda está presente nos dias de hoje, dias de domínio da incredulidade. Ao apresentar os temas dos diferentes ensaios, critica a postura dos liberais americanos, sua objetividade ou neutralidade afirmando que ao aceitar a presunção da legitimidade do debate sobre determinadas questões “já perdemos a nossa humanidade”(24). São questões sobre as quais não podem pairar dúvidas e que se estas existirem já “estaremos nos degradando e insultando além da medida as vítimas de nossa violência e de nossa cegueira moral”. Depois faz a afirmação categórica de que “a guerra é simplesmente uma vergonha, um ato depravado de homens fracos e depravados”(24). Interroga também se os crimes de guerra mostram efetivamente ao mundo o funcionamento das instituições livres do país e a imunidade diante do sofrimento e, verdadeiramente, se desespera quando constata que entre os argumentos contrários à guerra, o de maior aceitação junto ao povo, é o dos altos custos que essas guerras envolvem e não as considerações de ordem moral. Uma forte incursão contra os intelectuais e seus argumentos é apontado por observações que faz de Joseph Harsch sobre as frustrações causadas por bombardeios 170 | COMUNICAÇÃO - REFLEXÕES, EXPERIÊNCIAS, ENSINO


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limitados. Harsch afirma que os bombardeios devem ser sempre suficientemente fortes e provocar estragos suficientes para chamar os adversários para a negociação e que isso deve ser levado em conta, na escolha dos alvos. Outra cena ele toma do New York Times que apresenta uma matéria sobre uma exposição no Museu da Ciência e Indústria de Chicago, que comunicava não ser mais possível ver na referida exposição crianças atirando em alvos vietnamitas, que, uma vez atingidos, sinalizavam aos atiradores com uma luz que se acendia. A brincadeira havia sido proibida. Chomsky diante deste quadro de degradação moral conclui que apenas resta chorar por um país assim, apresentando ainda a raiva, a indignação e a confissão de terríveis culpas como boas terapias. Dirige também suas críticas àqueles que conclamam à revolução em um momento em que não existem os germes das novas instituições e uma consciência moral e política necessária para as novas instituições alternativas. Categoricamente afirma: “Se uma revolução vier a ocorrer na América de hoje, será sem dúvida um movimento em direção a algum tipo de fascismo” (Ibidem, p. 33). Lembramos que Chomsky é filiado politicamente ao anarquismo, ou ao socialismo libertário. Nunca foi defensor do socialismo real soviético3. Termina a introdução apresentando as dificuldades, alegando que mais do que opções deliberadas, de escolhas livres, são os hábitos inconscientemente adquiridos que impedem as mudanças. Este fenômeno ocorre tanto “numa sociedade fragmentada e competitiva (quando) os indivíduos não são capazes de descobrir seus interesses nem agir em sua defesa, como não são capazes de fazê-lo quando impedidos de se associar livremente por controles totalitários” (Ibidem: 34). Considera, ainda, que o renascer do pensamento anarquista se constitui num dos fatos mais promissores dos últimos anos e cita uma descrição que Einstein faz para a Liga de Resistência à Guerra, em que afirma que é através da união que os indivíduos saem da solidão e do isolamento e assumem com coragem o cumprimento do que consideram seu dever. Assevera que “a existência de uma elite moral dessa natureza é indispensável para a preparação de uma mudança fundamental na opinião pública, mudança que, nas atuais circunstâncias, é absolutamente necessária para que a humanidade possa sobreviver” (apud CHOMSKY, p. 36). Cita ainda o famoso episódio em que Einstein revela que não saberia responder sobre que armas seriam usadas numa Terceira Guerra Mundial, mas que com certeza, numa quarta, seriam empregados porretes e pedras. O mais famoso ensaio do livro – A Responsabilidade dos Intelectuais – inicia com uma referência a um livro do pós-guerra de autoria de Dwight Macdonald em que aparece esta questão. Afirma ser a responsabilidade dos intelectuais, ainda maior que a dos povos, uma vez que estes estão em melhores condições de “denunciar mentiras dos governos, de analisar os atos de acordo com suas causas, seus motivos e não raro suas intenções ocultas. Pelo menos no mundo ocidental, detêm um poder decorrente da liberdade política e da liberdade de expressão” (apud CHOMSKY, p. 372). Do pós-guerra Chomsky passa para a responsabilidade dos intelectuais na década de 3 A respeito deste socialismo real parece que Rosa de Luxenburgo teve uma premonição, quando advertiu Lênin, em 1918, de que “os métodos bolcheviques levariam primeiro à ditadura de um partido, depois a uma ditadura do Comitê Central do partido, e finalmente ao regime absoluto de um membro do Comitê Central (HITCHENS, 2007, p. 88-9).

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60, quando enuncia o famoso conceito citado na epígrafe: “Os intelectuais têm a responsabilidade de dizer a verdade e denunciar mentiras” (CHOMSKY, p. 573). O autor mostra a seguir que os mandarins inúmeras vezes recorrem a mentiras em nome do chamado “interesse nacional” e ainda estranha a pouca reação que estas mentiras provocam. Denuncia o seu caráter ideológico com o uso de argumentos de que as ações de invasão são para a ajuda dos povos e que os bombardeios muitas vezes são feitos apenas para chamar para a mesa de negociações, em nome de um mundo livre. Em nome desta ideologia faz a análise de várias intervenções e cita novos argumentos de governantes e de porta-vozes. Sempre é ressaltada a necessidade da defesa e propagação da doutrina que afirma a dignidade do indivíduo frente ao Estado e que impõe medo ao povo, com a falta de escrúpulos dos adversários, quanto aos métodos usados para alcançarem seus objetivos. As análises de ações impregnadas de idealismo, de valores religiosos e éticos superiores prosseguem nas análises do autor. Denuncia ainda as certezas das quais estão imbuídos os intelectuais da oficialidade, que se consideram responsáveis e que apontam para qualquer crítica fora da realpolitik como destituídas de bom senso, sentimentais, emocionais e até histéricas, nocivas e perniciosas aos interesses nacionais. A esta altura do ensaio aparece a designação que confere a estes intelectuais, qualificando-os de especialistas. Contra eles traz o argumento de que nenhuma política de Estado pode estar imune a críticas e que a atual agressividade americana é uma força dominante nas relações internacionais, que precisa ser analisada do ponto de vista de suas causas e motivações, não podendo ser absolvida a priori, por razões de Estado. Segue mostrando os argumentos dos especialistas, em nome da realpolitik. Estes se constituem de professores, pastores e homens de Estado e destaca que muitos de seus argumentos só encontram paralelo nas mais absurdas políticas totalitárias do regime nazista. Após várias investidas faz a denúncia de que o culto ao especialista é simultaneamente de interesse próprio, para os que o preconizam como também fraudulento. Voltando ao tema da responsabilidade do intelectual entra no cerne da questão, afirmando que a principal preocupação deve ser o seu papel na criação e na análise da ideologia. Traz ao cenário o famoso ensaio de Daniel Bell sobre o fim das ideologias, em que sustenta a idéia de que as ideologias acabaram, pelo menos no que se refere ao conceito marxista de classes e que agora tudo deve ser resolvido no contexto de um estado de bem-estar social. Chomsky faz a síntese dos pontos essenciais do texto de Bell: elas se exauriram, ao menos enquanto alavancas sociais e que, como conjunto de crenças impregnadas de paixão, se julgavam com o poder de transformar um modo de vida como um todo. Na síntese que faz de Bell continua mostrando que estes intelectuais não mais vêem a necessidade da transformação radical da sociedade, uma vez que foi alcançada uma sociedade pluralista de bem-estar social e que estes chegaram a um consenso, responsável pelo fim das ideologias. Bell encontra, inclusive, para estes radicais de outrora, importantes funções – de elevado prestígio-na gestão deste Estado. E ironicamente conclui: “Bell parece alimentar a fé utópica de que os especialistas técnicos serão capazes de resolver os poucos problemas que ainda restam; por exemplo, o fato de que o trabalho seja tratado como mercadoria e os problemas da ‘alienação’ (Ibidem, p. 394-5). Afirma ainda que o consenso por 172 | COMUNICAÇÃO - REFLEXÕES, EXPERIÊNCIAS, ENSINO


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eles construído, fundado numa tecnocracia isenta de valores e utilizado para justificar a aplicação do poderio imperialista americano. Chomsky inicia as conclusões do seu ensaio voltando para a questão da responsabilidade dos intelectuais que têm por dever enxergar os acontecimentos em sua perspectiva histórica. Afirma que não adianta fazer guerras para que países continuem sendo sociedades abertas, se por sociedades abertas entendemos apenas estarem abertas à penetração econômica ou ao controle político dos Estados Unidos e que não podemos praticar genocídios em nome da defesa da liberdade e dos direitos humanos. Afirma ainda que a nova forma de imperialismo não consiste em anexar territórios mas, sim, em forçar para que as sociedades se abram aos interesses do imperialismo do livre mercado. No encerramento do ensaio ocorre um retorno a Macdonald com a pergunta: “Que foi que eu fiz?” Afirma que este é o tipo de pergunta que o americano deve se fazer diariamente diante do anúncio de novas atrocidades no Vietnã – “à medida que vamos criando, vociferando ou tolerando as imposturas que serão usadas para justificar o próximo ato de defesa da liberdade”(411).

A QUESTÃO DOS INTELECTUAIS: SITUANDO HISTORICAMENTE Por uma série de razões, especialmente em virtude das delimitações que um texto exige, optamos por situar a questão dos intelectuais em seu contexto histórico no ensaio de Francis Wolff – Dilemas dos Intelectuais, do livro organizado por Novaes – O Silêncio dos Intelectuais. Wolff inicia o seu ensaio, comparando a França de 1983, no pós-eleição de Mitterrand, com o Brasil de 2005, o pós-eleição de Lula. Nos dois momentos houve grandes alianças de intelectuais com as classes populares e, em ambos, grandes frustrações que se seguiram. Na França o projeto de transformação radical da sociedade – socialmente audacioso e economicamente antiliberal – é abandonado pela esquerda por uma política de gestão no plano econômico e realista do ponto de vista social. O mesmo ocorre no Brasil, quando anos de discursos de esquerda foram substituídos pela fidelidade às organizações financeiras internacionais, pelo realismo econômico e pelo rigor orçamentário. Em suma, tanto na França, quanto no Brasil, com as esquerdas no poder, optou-se pela mesma política com a qual prometiam romper. O que aconteceu em conseqüência? Alguns ruidosamente romperam com o partido e outros se refugiaram no silêncio. Poderíamos acrescentar que inúmeros, talvez até a maioria, se acomodaram diante da situação, curvando-se diante da realpolitik. Destas situações resultaram os seminários que debateram sobre o silêncio dos intelectuais.

QUEM É O INTELECTUAL – O SEU SURGIMENTO Já na apresentação do livro, Adauto Novaes, ao lançar o tema, fala da anemia criadora como característica dos nossos tempos, atingindo especialmente os campos da política e do pensamento. Como justificativa apresenta a perda de legitimidade e valor das categorias universais da liberdade, da justiça, razão e verdade, matérias do

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intelectual. Cremos que a visão de Novaes seja uma bela apresentação para o tema. Wolff nos fala que a palavra intelectual surge com o caso Dreyfus, quando Émile Zola assina em L’Aurore, o J’accuse, o artigo em que exige a revisão do processo de Dreyfus, condenado injustamente por traição4. Esta atitude de Zola recebe listas de apoios, iniciando-se uma tradição de interferência dos intelectuais na discussão de temas mais amplos pertinentes à toda sociedade. Esta iniciativa foi classificada por Maurice Barre, um antidreyfusista, como o “protesto dos intelectuais”, tendo, então, a palavra recebido uma conotação pejorativa. Dessa colocação histórica, Wolff parte para a conceituação e a caracterização do intelectual. Desde o aparecimento do J’accuse (janeiro de 1898) e ao largo de todo o século XX, a palavra intelectual sempre estará associada ao exercício de uma atividade intelectual, revestida de prestígio social, que lhes conferia a condição de intervir em debates públicos e defender valores universais como a justiça e a verdade ou como nos diz o próprio Wolff: “o intelectual é aquele que transforma uma autoridade intelectual em autoridade política em nome de uma autoridade moral” (WOLFF, 2006, p. 47). Complementa ainda que, para que haja o intelectual, são necessárias três características: a existência de um sujeito social, um certo tipo de objeto (o universal) e um certo espaço onde ele possa se expressar.5 Ao comentar as características, Wolff apresenta o sujeito social como um trabalhador intelectual, não manual portanto, ligado à produção ou circulação – distanciado do processo utilitário, donde lhe vem o prestígio. Eles se ocupam com as atividades de criação (artes, letras, ciências) e secundariamente com tarefas de mediação (informação e educação). A segunda condição do intelectual é a de que este sujeito esteja imbuído de uma consciência de valores morais universais, de concepções de sociedade e visões de mundo, de idéias válidas sempre, e em toda parte, para todo homem e toda sociedade, independente de qualquer interesse particular. É este comprometimento e distanciamento que lhe confere a condição de intervenção. Quanto à terceira condição, a da existência de espaços públicos, onde possa se manifestar, é uma decorrência da liberdade de expressão. Para constatar esta terceira característica basta ver como os intelectuais são tratados nas ditaduras ou nos totalitarismos. Wolff se reporta então à Grécia, ao século V a. C., quando pela primeira vez na história se somaram estas três condições: homens com tempo livre (ócio) para as idéias – que perceberam a formação de valores universais com o nascimento da razão e que se reuniam na praça para a sua discussão, condições que deram aos gregos o nascimento histórico dos intelectuais. Apresenta em seguida Sócrates como o primeiro intelectual, por ter sido um pensador perseguido, em função dos valores que defendia, intransigente em seus 4 Um completo relato do caso Dreyfus pode ser encontrado no livro de Hannah Arendt, Origens do totalitarismo. Antisemitismo – imperialismo – totalitarismo, nas páginas 111 a 143 (ARENDT, 2006). 5 Em outro ensaio do livro – Intelectual engajado: uma figura em extinção -, de Marilena Chauí, o mesmo tema é discutido e o J’accuse é tomado como notório exemplo de atuação do intelectual e este é assim definido: (...) A figura moderna do pensador e do artista não submetidos à instituição eclesiástica, estatal e acadêmico-universitária. A autonomia racional moderna das ações (artes, ética, direito, técnica) e do pensamento (ciência e filosofia) conferiu a estes sujeitos algo mais do que a independência: conferiu-lhes autoridade teórica e prática para criticar as instituições religiosas, políticas e acadêmicas, como fizeram os philosophes da Ilustração Francesa, e, no século XIX, para criticar a economia, as relações sociais e os valores, como fizeram os socialistas utópicos, anarquistas e marxistas” (CHAUÍ, 2006, p. 20).

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princípios até o final e contra todos os poderes de seu tempo. A sua acusação foi uma compilação de argumentos infundados por seus adversários para se livrarem de um intelectual incômodo. O clima que antecedeu o seu julgamento foi próprio de um clima de caça às bruxas, antiintelectual, que se repetirá ao longo da história, cada vez que os intelectuais produzirem incômodos, como nas questões Dreyfus e no macarthismo americano. Este intelectual, definido pelos antiintelctuais, obedece a três traços fundamentais: a) A tagarelice. Ele fala em vez de agir e trabalhar. É inconcebível ao antiintelctual que alguém possa se ocupar com o pensamento e a fala, com coisas inúteis e estéreis. b) A derrubada de valores. Refere-se àqueles valores sobre os quais a sociedade se organiza e se sedimenta, como os deuses, a família e as hierarquias e, no caso de Sócrates, as acusações de impiedade. c) Aquele que se mete naquilo que não lhe diz respeito. Explicitando esta característica nos afirma que existem duas maneiras de se meter onde não é devido: a primeira consiste em falar em nome de universais, contrariando interesses individuais, mostrando desapego, e a segunda que consiste em saber além do permitido, motivado pela curiosidade intelectual. Aponta ainda que estas duas características também são as funções da razão, quais sejam: de um lado pensar em nome do universal, independentemente do particular e de outro, retomar o sapere aude, o ousar pensar, sem limites do auge da era das Luzes. Para os contemporâneos de Sócrates, pensar além dos limites do conveniente para a cidade, equivaleria a saber tudo e assim se igualar aos deuses, o que não lhes era permitido. Wolff conclui esta reflexão afirmando que o intelectual é acima de tudo uma invenção dos antiintelectuais. Na seqüência do texto, traça uma diferença entre os intelectuais e os cientistas políticos. Estes são apresentados como cientistas, letrados, doutos ou, simplesmente, experts. Limitam a seus campos de competência, enquanto o intelectual intervém no espaço público e no domínio amplo dos temas sociais e políticos. “É um passador entre o mundo das idéias e o mundo da cidade”, afirma Wolff (51). Observamos que esta diferenciação entre o intelectual e o especialista aparece no ensaio de Chomsky e aparece também em outros ensaios de O Silêncio dos Intelectuais, como no já mencionado de Chauí. A autora situa esta diferenciação, já no contexto atual da pregação ideológica do fim da história, do fim das utopias revolucionárias, um tempo em que desaparece do horizonte histórico o futuro, e em que o presente, desprovido de força negativa, se fecha sobre si mesmo e em que a ordem vigente é legitimada e justificada pelo capitalismo, apresentado como destino final da humanidade. (CHAUÍ, 2006, p.30). Dentro desse contexto, continua Chauí, o intelectual é substituído pelo especialista competente e a crítica passa a ser silenciada com a proliferação ideológica de receitas para viver bem. É fácil estabelecer uma relação entre o enunciado por Chauí com a análise de Chomsky, sobre o pensamento de Daniel Bell. Voltando a Wolff, ele vê em Sócrates o primeiro intelectual, um vez que ele procura retirar poder dos sofistas atenienses, desalojando-os de sua competência, para se voltar aos interesses e assuntos comuns a toda cidade, com a introdução do Universal, na contradição com os interesses específicos do particular. Cita Cícero para demonstrar este fato: “a filosofia desceu do céu para a terra, introduziu-se nas casas COMUNICAÇÃO - REFLEXÕES, EXPERIÊNCIAS, ENSINO | 175


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e na praça do mercado” (Apud Wolff, p. 51), mostrando assim que idéias universais, lançadas em espaços públicos, podem provocar rupturas nas regras e costumes ancestrais da tradição. No paradoxo dos debates gregos entre os sofistas e Sócrates, Wolff mostra que Sócrates irá dar à razão, não uma função instrumental, mas, sim, a sua função crítica e moral. O texto continua mostrando o intelectual Sócrates em seus diálogos com a Cidade, para a seguir lançar outro interessante questionamento. Foi Sócrates ou foram os sofistas os verdadeiros intelectuais na antiga Grécia? O autor separa os sofistas históricos, como Protágoras e Górgias, daqueles que nos chegaram através dos diálogos de Platão, como argumentadores de má fé. Enquanto Sócrates é mostrado como um indivíduo isolado, os sofistas são apresentados como uma escola de pensamento, e como os primeiros profissionais da educação, da educação para a democracia e das influências da oratória sobre ela. Wolff retira a seguir de um diálogo platônico – Protágoras – um dos mais belos argumentos em favor da democracia, em função da condição humana, devido a sua criação. Ela é explicada através do mito. Quando os deuses resolveram criar os mortais, queriam também dotá-los das condições de existência e encarregaram Epimeteu de distribuí-las entre eles. Dá-lhes o necessário para, de um lado, se alimentarem e resistirem às intempéries e, de outro, de se defender uns contra os outros. Este se esqueceu, no entanto, do homem, deixando-o nu e desarmado e condenado à rápida extinção. O irmão Prometeu intervém, roubando o fogo de Zeus para dá-lo aos homens. Com isso dá-lhes diferentes talentos, artes e ofícios, podendo assim intercambiar diferentes bens e cooperarem entre si. Não lhes foi dada, porém, a capacidade de se defenderem contra animais de outras espécies, obrigando-os assim a organizar a sua vida em cidades. No entanto, não conseguem sobreviver em virtude das lutas que travam entre si, estando novamente ameaçados de extinção. Aí o próprio Zeus intervém, brindando os homens com as qualidades morais que permitiriam a necessária convivência. Estas qualidades seriam as da justiça e do respeito a si. Uma bela história. Mas quais seriam as suas conseqüências? Ainda segundo Protágoras, a democracia repousa sobre duas divisões sucessivas, a saber: o espaço privado e o espaço público. Explicando, considera que o espaço humano não é monolítico e que o espaço público e o privado devem sempre sobreviver mesmo em qualquer circunstância histórica. E é esta a demarcação precisa entre a democracia, como sociedade aberta, e a sociedade fechada, desde as sociedades primitivas, até os totalitarismos modernos. A marca das sociedades fechadas é a não-distinção entre estes espaços e em que nada do que é individual, particular, escapa ao domínio do coletivo. Protágoras mostra pelo seu mito que os homens são espontaneamente avessos à vida política, entrando nela apenas pela necessidade de sobrevivência. No começo estão isolados (vida privada) mas as suas fragilidades os obrigam a conviver para estabelecer as trocas ou coletivamente se defenderem (espaços públicos). Mas estes espaços não podem anular os espaços privados. Protágoras alega que isto bastaria para formar uma sociedade aberta, mas não ainda democrática. Esta advirá como conseqüência do esquecimento de Epimeteu, ou da natureza, em não dotar os homens em todas as suas necessidades, mas das intervenções de Prometeu (que lhes legou as qualidades ligadas ao fogo e a técnica) 176 | COMUNICAÇÃO - REFLEXÕES, EXPERIÊNCIAS, ENSINO


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e de Zeus (as qualidades morais). As qualidades dadas por Prometeu estão na origem da divisão do trabalho e possibilitam a cooperação socioeconômica, mas estão desigualmente repartidas, o que provocará a troca de bens e serviços, enquanto que as qualidades morais, dadas por Zeus, foram distribuídas por igual, possibilitando, portanto, a democracia. Supondo, porém, que Zeus tivesse distribuído as qualidades morais, também de forma diferenciada, estariam assim fundamentados os princípios da aristocracia. Supondo, ainda, que as qualidades éticas e políticas tivessem sido dadas apenas para alguns e que não tivesse havido a divisão entre as qualidades dadas por Prometeu e as dadas por Zeus, teríamos então os homens com as mesmas qualidades, tanto para promoverem o entendimento econômico, quanto o político e assim não se estaria mais justificando a democracia, nem a aristocracia, mas sim, a tecnocracia, e esta era a tese sustentada por Sócrates. Para ele uma decisão racional é sempre universal e a razão é sempre a mesma em todos os homens. Não existe diferença entre a razão instrumental e a razão ética. Mas voltando à questão dos intelectuais, quem foi efetivamente o primeiro intelectual? Foi Sócrates o herói solitário, ou foram os sofistas que constituíram o maior movimento intelectual dos tempos antigos. Wolff nos responde com a dupla possibilidade. Enquanto Sócrates interfere do exterior sem participação direta, os sofistas participam diretamente mas ambos assumem posturas críticas diante dos fatos. Como decorrência, na escolha do modelo de intelectual, Wolff situa os três dilemas do intelectual nos tempos de hoje.

OS DILEMAS DO INTELECTUAL PRIMEIRO DILEMA: INTELECTUAL ESPECÍCO OU INTELECTUAL TOTAL Este primeiro dilema é apresentado por Wolff por duas figuras históricas dos nossos tempos: Sartre como o intelectual total e Foucault como o específico. Lembra que os sofistas não eram experts, mas que na qualidade de bons mestres da palavra se julgavam no direito de opinar e interferir em tudo, sobre finanças, urbanismo, estratégia militar..., ao contrário de Sócrates. O perigo é se tornar voz surda. O intelectual total é mostrado na figura de Sartre como escritor, filósofo, crítico, romancista, homem do teatro, político engajado, que usa a grande imprensa para se manifestar. Para Sartre, em função de suas influências marxistas, a política é uma questão de Estado, que concentra em si todo o poder. Para Foucault o intelectual não se engaja em todas as direções, mas se restringe ao domínio do que é seu. Não intervém sobre a totalidade, mas na especificidade do hospital, universidade, relações familiares, das áreas de sua competência. O poder está difuso e apenas secundariamente centrado no Estado. O poder é uma soma de micro-poderes.

SEGUNDO DILEMA: TER O SABER DO PODER OU DENUNCIAR O PODER DO SABER Para os sofistas o saber é poder e está ligado à retórica, à sedução e ao convencimento, através das palavras. Mas isso não será subjugar o povo a um novo poder, ao poder da palavra dos intelectuais? Ora é exatamente esta a crítica que COMUNICAÇÃO - REFLEXÕES, EXPERIÊNCIAS, ENSINO | 177


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Sócrates faz aos sofistas. Para ele o verdadeiro saber sempre será crítico. Eis o dilema. O que fazer do próprio saber? O poder das idéias e das palavras deve ser usado a favor ou contra o poder, – usando o prestígio das simbolizações e a autoridade da razão. Como exemplo desta situação é tomado Bourdieu no papel de Sócrates.Segundo Bourdieu os intelectuais têm por função uma postura de dominação simbólica, dispõem de uma capacidade de impor normas de julgamento e há neles uma duplicidade ante o poder que criticam, porque são fascinados por ele quando o exercem ou quando se revestem do poder da crítica absoluta. Wolff mostra em Bourdieu o intelectual socrático, quando ele é apresentado no papel do conhece-te a ti mesmo, ou seja na função de analisar e criticar o poder dos intelectuais “ou explicar a razão do engendramento do campo intelectual, de sua reprodução e das microestruturas características de sua organização” (64). Está enunciado o dilema, tanto quanto à finalidade, quanto às formas de sua ação.

TERCEIRO DILEMA: ÉTICA DA CONVICÇÃO OU ÉTICA DA RESPONSABILIDADE Wolff volta mais uma vez ao debate entre os sofistas e Sócrates, situando este no campo da ética da convicção e aqueles, na ética da responsabilidade. Mas como fica esta situação quando a questão posta é a democracia? Não seria uma traição dos intelectuais manterem sempre uma postura apenas crítica? Não poderiam cooperar – com a força de suas críticas – no aperfeiçoamento desta democracia? Por acaso não consideramos hoje a democracia grega como uma das maiores invenções de todos os tempos e não foram os sofistas os seus melhores defensores? Do ponto de vista político os sofistas foram os vencedores, mas intelectualmente perderam. Poucos atacam hoje o pensamento de Sócrates e Platão. Wolff ilustra esta questão como sendo o debate travado entre Sartre e Aron, de fundo weberiano, qual seja, a eterna pureza de convicções, sem jamais transigir, sendo os guardiães das idéias, a exemplo de Sócrates. Colocados desta forma, Sartre, Foucault e Bourdieu estariam todos do mesmo lado. Por outro lado, não seria melhor tender para a realização do possível, abrindo mão de certos princípios? Qual seria o risco ao assumir essa posição? Seria a traição? O próprio Wolff considera que “dos pequenos arranjos com o real às pequenas transigências com os homens, é grande o risco de se acabar traindo completamente os ideais (de justiça e de verdade) e de se converter ao realismo mais cético” (66). Wolff conclui que, diante destas três escolhas impossíveis, eles preferem se manter silenciosos. Mas o seu silêncio se constitui apenas num tempo de respirar e de refletir. Voltando ao ensaio de Novaes, este se apresenta num tom bem mais pessimista a respeito da atuação dos intelectuais. Dele tomamos duas referências: na primeira ele recorre a Paul Valéry que afirma que a sociedade está prestes a se destruir em função daquilo que ela própria criou; a tecnociência, passagem da ciência-saber à ciência-poder. Nesta sociedade a previsão do futuro, que sempre foi uma das bases da civilização, passa a ser algo incerto e impossível de ser imaginado e Valéry nos apresenta a sua enigmática frase “entramos no futuro de costas” (apud Novaes, p. 9), permanecendo sempre num presente eterno e fugaz. Na segunda se vale de Benjamin:

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“o intelectual tem ‘preguiça no coração’, tristeza, a ‘acedia’ que o torna mudo porque sabe com quem, necessariamente, entra em relação: o vencedor e o seu espólio, que ele define como bens culturais” (apud Novaes, p. 18) e conclui, ainda com Benjamin: “Não existe documento de cultura que não seja documento de barbárie” (Ibidem, p. 18). Queremos ainda trazer, e também para encerrar, uma reflexão de Boaventura Santos, comentada por Chauí, sobre os dois pilares básicos, sobre os quais se assentou a modernidade: os pilares da regulação e da emancipação. Vale a pena seguir a análise de Chauí, na constatação da vitória da regulação sobre a emancipação: O pilar da regulação, por sua vez, apoiou-se sobre três princípios: o Estado (ou a soberania indivisa, que impõe a obrigação política vertical entre os cidadãos), o mercado (que impõe a obrigação política horizontal individualista e antagônica) e a comunidade (ou a obrigação política horizontal solidária entre seus membros). O pilar da emancipação, por seu turno, foi constituído por três lógicas de autonomia raciona: a racionalidade expressiva das artes, a racionalidade cognitiva e instrumental da ciência e da técnica, e a racionalidade da ética e do direito. O projeto da modernidade julgava possível o desenvolvimento harmonioso da regulação e da emancipação e a racionalização completa da vida individual e coletiva. Todavia, o caráter abstrato dos princípios dos pilares levou cada um deles à tendência a maximizar-se com a exclusão do outro; além disso, a articulação entre o projeto moderno e o surgimento do capitalismo assegurou a vitória do pilar da regulação contra o da emancipação (CHAUÍ, 2006, p. 19).

Retornando a busca da interpretação da sociedade em Protágoras, no mito de Epimeteu e Prometeu e da intervenção direta de Zeus, perguntamos: que novas intervenções superiores e sobrenaturais seriam necessárias para que a humanidade sobreviva e para que não se concretize a profecia de Einstein, de que as armas utilizadas numa quarta guerra mundial seriam pedras e porretes.

CONSIDERAÇÕES FINAIS Diante do exposto resta fazer algumas considerações, que antes de serem finais pretendem ser abertura para novas possibilidades. Citamos os eixos pedagógicos dos cursos de Comunicação e a sua estruturação para a formação integral do ser humano, unindo a formação filosófica e humanística com a formação técnica e profissional. Não há na estruturação destes cursos a dicotomia, tão característica nos tempos atuais, em que reducionismos na formação são promovidos, em nome de mercados cada vez mais afunilados e competitivos. Se o curso permite a formação humana integral, resta, no entanto, outro questionamento. Ele realmente dá conta de oferecer esta formação? Será que a realidade universitária brasileira hoje permite uma formação que possibilita a apropriação de categorias universais e abstratas para a análise da realidade e que torne realmente válida a qualificação do seu trabalho como sendo um trabalho intelectual? Se a resposta for sim, então a real condição de trabalho e de trabalho assalariado, COMUNICAÇÃO - REFLEXÕES, EXPERIÊNCIAS, ENSINO | 179


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como lembra Bucci, permite efetivamente um trabalho no campo dos universais, desvinculado ou suficientemente independente do interesse particular? Evocamos a título de ilustração o filme O Informante, em que Al Pacino, na qualidade de jornalista investigativo, afirma categoricamente que no mundo das megacorporações ninguém é livre, nem mesmo os donos dos meios de comunicações, uma vez que são subordinados financeiramente a estas corporações. Será que não falta nos tempos atuais uma das condições para a existência dos intelectuais que é o campo da liberdade de expressão? Se esta condição não é dada, sobrará espaço apenas para os especialistas acríticos e “divertidores” do público com o entretenimento da indústria cultural. A respeito encontramos um indignado Rouanet, também no livro organizado por Novaes (2006, p. 77), que, com base em Adorno, denuncia a substituição do antigo intelectual do campo dos universais, pelo especialista, que tem como objetivo de seu trabalho a uniformização das consciências e produzir os homens-massa, num conformismo total com o sistema. Quais as conseqüências? Adorno nos adverte em Educação e Emancipação, em um ensaio – Educação após Auschwitz – sobre o perigo das pré-adesões, incondicionais e acríticas, produzirem males como os campos de concentração e o que neles aconteceu. Males ainda presentes na sociedade, e cujos horrores não foram suficientes para que fossem extirpados, unicamente em função dos interesses particulares dominantes. Primo Levi, ao descrever os “funcionários” que deram forma ao regime nazista, os descreve não como indivíduos degenerados, mal nascidos, sádicos ou afetados por algum vício de origem. Ao contrário, eram feitos de nossa mesma matéria, eram seres humanos médios, medianamente inteligentes, medianamente maus: salvo exceções, não eram monstros, tinham nossa face, mas foram mal educados. Tratava-se, em sua maioria de sequazes funcionários grosseiros e diligentes: alguns fanaticamente convencidos do verbo nazista, muitos indiferentes, ou temerosos de punições, ou desejosos de fazer carreira, ou demasiado obedientes. Todos tinham sofrido a aterradora deseducação fornecida e imposta pela escola... (LEVI, 2004, p. 175)

Ah! A educação.... Voltando ao mito para a justificação da democracia, consideramos efetivamente imprescindíveis a manutenção tanto dos espaços privados, quanto dos públicos para o bom funcionamento das instituições. Queremos ainda lembrar a histórica dificuldade da convivência entre a liberdade e a igualdade. Quando um sistema privilegia a liberdade, a igualdade fica sacrificada e o inverso acontece quando os sistemas privilegiam a igualdade. E voltando a Protágoras, lembramos que deste mito de Prometeu e Epimeteu faz parte também Pandora, e sua caixa ou ânfora. Epimeteu não ouve os conselhos do irmão e abre a caixa, e em ato contínuo, os males se espalharam pelo mundo, mas não sem tempo de, ainda dentro dela, reter a esperança. Coisas da condição humana. Conviver com os males e também com a utopia. Outra fabulosa lembrança da condição humana nos é dada por Homero, na Ilíada. Após a impressionante passagem em que Príamo vai resgatar junto a Aquiles o cadáver de Heitor, para lhe dar as honras do funeral, Aquiles apresenta a imagem dos dois tonéis que existem no Olimpo, um de males e outro de bens, como dádivas de Zeus. Carlos Alberto Nunes, numa apresentação da Ilíada, assim nos narra este 180 | COMUNICAÇÃO - REFLEXÕES, EXPERIÊNCIAS, ENSINO


Pedro Elói Rech

emblemático mito da condição humana. Se, ao nascimento, alguém recebe uma mistura desses dons, atravessa, de acordo, a existência ora a sofrer, ora com fases de relativa felicidade. Mas se recebe apenas males, torna-se desprezado por todos e ludíbrio permanente dos homens e dos deuses. É de notar que Aquiles não menciona a terceira possibilidade: de receber algum mortal, ao nascimento, apenas dádivas do tonel de bens, que a condição humana é incompatível com essa disposição (NUNES, 1962, p. 37).

Coisas da condição humana. Se os intelectuais se refugiaram no silêncio, ou em outros termos, para a respiração e reflexão, é para dar continuidade de vislumbrar no horizonte um futuro a ser construído, não permitindo a imobilidade da eternização do presente. Também coisas da condição humana.

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A UNIVERSIDADE E A FORMAÇÃO DO INTELECTUAL

REFERÊNCIAS ARENDT, Hannah. Origens do totalitarismo – anti-semitismo – imperialismo – totalitarismo. São Paulo: Companhia das Letras. 2006. BUCCI, Eugênio. Sobre Ética e Imprensa. São Paulo: Companhia das Letras. 2000. CHAUÍ, Marilena. Intelectual engajado: uma figura em extinção? In. NOVAES, Adauto. (org.) O Silêncio dos Intelectuais. São Paulo: Companhia das Letras. 2006. (p. 19 a 43). CHOMSKY, Noam. O Poder Americano e os novos mandarins. Rio de Janeiro e São Paulo: Record. 2006. FERREIRA, Aurélio B. de Holanda. Novo Dicionário Aurélio da Língua portuguesa. Curitiba: Positivo. 2004. HITCHENS, Christopher. Os Direitos do Homem de Thomas Paine. Rio de Janeiro: Zahar. 2007. LEVI, Primo. Os afogados e os sobreviventes. São Paulo: Paz e Terra. 2004. NOVAES, Adauto. Intelectuais em tempos de incerteza. In: NOVAES, Adauto. O Silêncio dos Intelectuais. São Paulo: Companhia das Letras. 2006. (p. 7 a 18). NUNES, Carlos Alberto. A Questão Homérica. In: HOMERO. Ilíada. São Paulo: Edições Melhoramentos. 1962 (p. 5 a 39). ROUANET, Sérgio Paulo. A Crise dos Universais. In: NOVAES, Adauto. O Silêncio dos Intelectuais. São Paulo: Companhia das Letras. 2006. (p. 69 a 83). WOLFF, Fausto. Dilemas dos Intelectuais. In: NOVAES, Adauto. (org.) O Silêncio dos Intelectuais. São Paulo: Companhia das Letras. 2006. (p. 45 a 68). ZINN, Howard. Prefácio. In: CHOMSKY, Noam. O poder americano e os novos mandarins. Rio de Janeiro e São Paulo: Record. 2006. (p. 9 a 16).

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ARTIGO PEDRO ELOI REVISADO  

Pedro Elói Rech 1 Universidade Positivo 1 Mestre em História e Filosofia da Educação (PUCSP). Professor de Teoria Política e Filosofia na Un...

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