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A Pretty Little Liars Collection

SARA SHEPARD


PRETTY LITTLE SECRETS (Pequenos Segredos)


SINOPSE: ‚Quatro pequenas mentirosas. Quatro histórias que elas não querem contar. ‘A’ vazará cada sujo e pequeno detalhe em Pretty Little Secrets.‛ Flocos de neve caem sobre gramados bem-cuidados, meias acolchoadas pairam sobre lareiras de mármore, e todos estão em paz, especialmente Hanna, Emily, Aria e Spencer. Agora que o assassino de Alison está na cadeia e A está morta, elas podem finalmente relaxar. Mal sabem elas que há uma nova A na cidade“ Regra número um de ser um perseguidor eficaz: conheça sua presa. Então eu observo essas mentirosas dia e noite, mantendo um olho nos problemas que elas arranjam, na bagunça que fazem, e nos segredos que guardam. Hanna está desesperada por uma sessão muito particular com seu professor de ginástica. Emily é a número um na lista de desobedientes do Papai Noel. Uma velha chama de Aria da Islândia está prestes a pousar em água quente. E Spencer está recorrendo a algumas táticas duvidosas para conseguir o que quer. O que acontece nas férias fica nas férias — certo? Mas adivinhe o quê. Eu vi. E agora eu estou contando.


Ele vê quando você está dormindo Ele sabe quando você está acordado Ele sabe se você foi bonzinho ou malvado Então seja bonzinho, pelo amor de Deus! — SANTA CLAUS IS COMING TO TOWN


PERSEGUIDOR NO NATAL Aqui está uma bonita cena de um globo de neve para você: É dezembro do penúltimo ano escolar de Hanna, Emily, Aria e Spencer. A neve está caindo, cobrindo gramados perfeitamente cuidados de Rosewood e polvilhando os topos de SUVs de luxo. Luzes de Natal iluminam todas as janelas, e crianças com bochechas de querubim estão ocupadas fazendo suas listas para o Papai Noel. Toda a cidade está em paz, especialmente as Pretty Little Liars. Agora que o assassino de Alison DiLaurentis está na cadeia e A está morta, elas podem finalmente relaxar. Mal sabem elas que eu vou continuar de onde A parou. Eu vou ser a nova A e eu fiz a minha própria lista. Adivinha quem está no topo da coluna perversa? É isso mesmo: Hanna, Emily, Aria e Spencer. E essas mentirosas têm sido tão más! Hanna foi pega furtando e bateu com o carro de seu ex-namorado. Emily desafiou seus pais tantas vezes que eles a enviaram para Iowa. As sessões de beijos de Aria depois da escola com seu professor de inglês o fez ser demitido. E Spencer pode ter sido a mais culpada de todas elas. Roubar o noivo de sua irmã não foi suficiente — Spencer também plagiou seu trabalho de economia e empurrou-a escada abaixo quando Melissa descobriu o que ela tinha feito. Tsk tsk. Essas mentirosas merecem que coloquem brasas em suas meias — ou pior. Felizmente eu estou aqui para garantir que elas recebam o que elas merecem. É apenas uma questão de tempo antes que as Pretty Little Liars sujem suas mãos de novo — especialmente agora que elas pensam que A se foi. Então, quais serão os próximos problemas em que elas se meterão? Bem, eu vou ter que ficar quieta... e assistir. Eu vou assistir e assistir e entender exatamente com que tipo de vadias eu estou lidando. Eu vou descobrir tudo. E uma vez que eu fizer isso, eu vou saber como derrubá-las. Vamos começar com... Hanna. Esta menina está passando por uma grande reviravolta. Sua mãe a abandonou e foi para Cingapura. Seu pai está indo morar com sua noiva robótica e sua filha perfeita, Kate. Pelo menos Hanna tem um namorado fiel, Lucas. Ou não tem? Deixe a perseguição começar!

—A

W


PEQUENOS SEGREDOS DE HANNA


1

EM CASA PARA OS FERIADOS Era uma ventosa quarta-feira no início de dezembro em Rosewood, na Pensilvânia, um subúrbio campestre a 30 quilômetros da Filadélfia. Enquanto muitos moradores estavam cortando pinheiros Frasier da fazenda local de árvores de Natal ou enfeitando as laterais de suas casas com coroas de pinha, uma van se moveu em direção à uma casa georgiana com a palavra MARIN escrita na caixa de correio. Três homens saíram, abriram a porta de trás e revelaram dezenas de caixas. Tom Marin, sua noiva, Isabel Randall, e a filha de Isabel, Kate, permaneceram no quintal enquanto os carregadores levavam seus pertences pela porta da frente. Hanna Marin, que vivia na casa desde que tinha cinco anos, observou de dentro do foyer enquanto mordia as unhas. — Tenha cuidado com isso — Isabel gritou para o cara musculoso que estava levantando uma caixa de tamanho médio. — Ela tem minha coleção de bonecas vintage. — E essa caixa é no andar de cima — Kate falou nervosamente para o outro carregador. — Aí estão todas as minhas bolsas. Hanna sorrateiramente deu uma espiada em sua recente-meia-irmã, Kate, que tinha um corpo esbelto, cabelos longos, castanhos e brilhantes, e grandes olhos azuis. Ela estava carregando uma bolsa Chloé que Hanna só tinha visto nas páginas da Vogue. Quando Hanna perguntou onde Kate tinha comprado, Kate respondeu que tinha sido um presente de Natal antecipado, disparando um sorriso agradecido ao pai de Hanna. Eca. — Hanna? — O Sr. Marin empurrou uma pequena caixa escrita com DELICATES para ela. — Você pode levar isso para o quarto da sua mãe, er, o nosso quarto? — Claro — resmungou Hanna, ansiosa para ficar longe de Isabel e Kate — uma delas estava usando um perfume que estava fazendo ela espirrar. Ela subiu as escadas, seu pequeno pinscher, Dot, atrás dos seus calcanhares. Apenas algumas semanas atrás, antes da Ação de Graças, a mãe de Hanna, Ashley, soltou a bomba de que ela ia aceitar um emprego em Singapura — e que Hanna não poderia ir. Hanna teria gostado de começar de novo em outro lugar. Ela havia tido um ano horrível. Ela tinha sido perseguida por uma malvada mandadora de mensagens chamada A. Sua antiga melhor amiga, Alison DiLaurentis, que tinha desaparecido há três anos, havia sido encontrada embaixo de uma laje de concreto por trás da antiga casa dela, em setembro. Descobriu-se que Ian Thomas, o namorado secreto de Ali — que Hanna e suas outras melhores amigas: Spencer Hastings, Aria Montgomery e Emily Fields todas tinham tido uma queda por ele quando ele estava no último ano e elas no sétimo — havia assassinado Ali na noite do celeiro. A polícia prendeu ele algumas semanas atrás. Tudo tinha sido um choque enorme. Porém, ela estava presa aqui, com seu pai se mudando com sua nova família — sua esposa substituta, Isabel, a ex-enfermeira de emergências, que não era tão bonita ou interessante quanto a mãe de Hanna, e sua enteada perfeita, Kate, que tinha tomado o lugar de Hanna no coração do pai dela e que odiava até as tripas de Hanna. Hanna entrou no quarto principal vazio. Cheirava um pouco a naftalina, e havia quatro recortes fundos no tapete onde a cama dinamarquesa moderna e elegante da mãe


dela costumava ficar. Quando Hanna deixou cair a caixa DELICATES no chão, uma das abas se abriu e uma pequena caixa azul com uma etiqueta de presente em branco apareceu. Olhando por cima do ombro para se certificar de que ninguém estava olhando, ela abriu a caixa. Dentro, havia um medalhão redondo de ouro branco coberto de vários diamantes no centro. Hanna arfou. Era o medalhão Cartier que pertenceu a avó dela, a quem todos, até mesmo os não-parentes, chamavam de Bubbe Marin. Bubbe o tinha usado religiosamente quando estava viva, vangloriando-se que nem mesmo o tirava na banheira. Ela morreu quando Hanna ia para a sétima série, logo depois que os pais de Hanna se divorciaram, e nessa época, Hanna mal falava com o pai dela. Ela não sabia o que tinha acontecido com o medalhão ou quem tinha ficado com ele. Mas agora ela sabia. Ela tocou a etiqueta em branco e sentiu uma pontada de irritação. O pai dela, provavelmente, iria dar a Isabel ou a Kate de Natal. — Hanna? — Uma voz flutuou, vindo do primeiro andar. Hanna empurrou a parte de trás da tampa da caixa e saiu para o corredor. Seu pai estava de pé na ponta das escadas. — Pizza! O aroma tentador de queijo mussarela flutuou até as narinas de Hanna. Só a metade de uma fatia, ela decidiu. Claro, seus jeans Citizens não abotoaram tão facilmente essa manhã, mas ela provavelmente os tinha deixado por muito tempo na secadora. Ela desceu as escadas no momento em que Isabel estava carregando uma caixa de pizza para a cozinha. Todos se sentaram na mesa — na mesa de Hanna — e o Sr. Marin passou os pratos e talheres. Era estranho que ele soubesse exatamente qual armário e qual gaveta abrir. Mas Isabel não deveria estar sentada na cadeira da mãe dela, usando os guardanapos de pano da Crate & Barrel da mãe dela. Kate não deveria estar bebendo na taça de estanho que a mãe dela tinha comprado para Hanna em uma viagem a Montreal. Hanna deixou escapar outro espirro, suas narinas coçavam com o perfume enjoativo de alguém. Nenhum deles disse saúde. — Então, quando são mesmo os seus testes de admissão para Rosewood Day, Kate? — o Sr. Marin disse enquanto pegava uma fatia de pizza da caixa aberta. Infelizmente, Kate iria frequentar a mesma escola que Hanna. Kate deu uma mordida delicada na massa. — Daqui a dois dias. Eu tenho estudado mais provas de geometria e palavras do vocabulário. Isabel balançou a mão em desdém. — Isso não é o SAT. Eu tenho certeza que você vai gabaritar os testes. — Eles vão ficar felizes por ter você. — O Sr. Marin olhou para Hanna. — Você sabia que Kate ganhou o prêmio Estudante Renascentista no ano passado? Ela se destacou do grupo dela em todos os assuntos. Você já me disse isso oito milhões de vezes, Hanna queria dizer. Ela deu uma mordida na pizza, para que não tivesse que falar. — E as notas dela foram excelentes na Escola Barnbury — Isabel continuou, falando da antiga escola de Kate em Annapolis. — Barnbury tem uma reputação melhor do que a de Rosewood Day. Pelo menos lá, crianças não perseguem outras crianças e atropelam umas as outras com seus carros. Ela lançou um olhar penetrante para Hanna. Hanna estendeu a mão inconscientemente para pegar uma segunda fatia de pizza e empurrou-a na boca. Que ótimo Isabel estar basicamente culpando ela pelas perseguições de A, a perseguidora que quase tinha arruinado a vida dela nesse outono, e por manchar a reputação excelente de Rosewood Day.


Kate se inclinou para frente e olhou para Hanna com os olhos arregalados. Hanna tinha a sensação de que ela sabia exatamente qual seria a próxima pergunta. — Você deve estar tão devastada por sua melhor amiga ter sido... você sabe — Kate disse em uma voz de falso interesse. — Como você está lidando com as coisas? — Um pequeno sorriso cruzou seus lábios, e era óbvio que sua verdadeira pergunta era: Como você está lidando com o fato de que a sua BFF quis te matar? Hanna olhou desesperadamente para seu pai, esperando que ele fosse colocar um fim nessa linha de questionamento, mas ele também estava olhando para ela, preocupado. — Eu estou lidando bem — ela murmurou rispidamente. Não que isso fosse verdade. Hanna estava tão confusa em relação a Mona Vanderwaal, sua melhor amiga desde a oitava série que na verdade era A, a pessoa que tinha atormentado ela com seus segredos, envergonhado ela publicamente mais vezes do que ela podia contar, e sim, tentado atropelar Hanna com o carro dela. Ainda havia dias em que Hanna acordava, pegava o celular e começava a digitar uma mensagem para Mona sobre qual sapato ela iria para a escola antes de recordar. No funeral de Mona, Hanna tinha realmente chorado, provocando expressões boquiabertas em suas amigas. Hanna sabia que deveria desprezar Mona com todo o coração e uma grande parte dela o fazia. Mas a outra parte não podia simplesmente esquecer todo o tempo que elas passaram juntas fofocando, planejando como se tornariam populares e dando festas fabulosas. Antes de tudo com A acontecer, Mona tinha sido uma amiga melhor para ela do que Ali nunca tinha sido — elas se tratavam como iguais. Mas agora Hanna sabia que era tudo mentira. Hanna olhou para o prato vazio. Só havia dois pequenos pedaços de massa de pizza, ela não se lembrava de ter comido o resto. Seu estômago soltou um barulho pouco atraente. O Sr. Marin limpou a boca. — Bem, nós temos um monte de bagagem para esvaziar. — Ele tocou o braço de Kate. — Vocês deveriam relaxar um pouco. Por que você e Hanna não vão ao shopping novo que abriu. Qual é o nome dele? — Devon Crest — Hanna falou rapidamente. — Ooh, eu ouvi falar que o lugar é muito bom — Isabel murmurou. — Eu já fui lá, na verdade — disse Kate. Isabel parecia surpresa. — Quando? — Uh, ontem. — Kate brincou com seu bracelete de prata Yurman David, que ela se gabava por ter sido um presente de Isabel por ganhar um concurso de redação no ano passado. — Vocês estavam ocupados. — Vocês duas podiam ir juntas, para se conhecerem um pouco melhor. — O Sr. Marin olhou de um lado a outro entre Hanna e Kate. — Ir às compras. Comprar algo legal para vocês. Deixem a desempacotação com a gente. O que vocês acham? Kate deu um longo gole em sua garrafa de água. — Obrigada, Tom. Parece ótimo. Hanna sorrateiramente deu uma olhada em Kate. Surpreendentemente, ela parecia sincera. Era possível que Kate tenha mudado desde que Hanna a tinha visto pela última vez em um jantar na Filadélfia, quando ela denunciou Hanna por roubar Percocet de um consultório? Hanna estava mantendo contato com suas antigas melhores amigas de novo, Emily, Aria e Spencer, mas nenhuma delas eram grandes seguidoras da moda, e ela estava doida para ter uma nova melhor amiga para substituir Mona. Especialmente desde que ela e suas antigas amigas haviam começado a frequentar o grupo de terapia de luto juntas. Ela precisava dar um tempo de toda essa coisa de Ali e A — imediatamente. — Eu acho que tenho algum tempo livre hoje — disse Hanna.


— Ótimo. Vão embora, então. — O Sr. Marin se levantou da mesa e limpou os pratos de todos. — Izz? Qual é o lugar que você quer ajeitar primeiro? — Uch, vamos começar pela cozinha. Eu não vou beber nisso nem por mais um segundo. — Ela franziu o nariz para uma das canecas favoritas de Hanna, uma caneca de faiança que seus pais tinham comprado numa viagem à Toscana. Os dois deixaram a cozinha, conversando sobre qual caixa suas taças de vinho poderiam estar. Hanna se levantou de seu assento. — Então, eu estou pronta para ir se você estiver — disse ela a Kate. — A Nordstrom de lá é boa? É verdade que tem uma Uniqlo? Nesse lugar tem suéteres de cashmere incríveis e bem baratos. Kate soltou um grunhido. — Deus, Hanna — ela disse, sua expressão de repente malvada. — Eu estava apenas dizendo que eu iria para o shopping para tirar seu pai e minha mãe do meu pé. Você realmente acha que eu iria a algum lugar com você? Ela caminhou para fora da cozinha, balançando seu rabo de cavalo castanho. A boca de Hanna formou um O. Kate tinha armado uma armadilha e ela era o animal idiota que tinha entrado direto nas mandíbulas de aço. Kate parou no corredor, pressionou algumas teclas em seu celular e depois segurou-o na orelha. — Oi — ela sussurrou para quem tinha atendido. — Sou eu. — Ela riu animadamente. Como previsto. Kate só tinha estado aqui por dois dias e já tinha um namorado. Hanna torceu o guardanapo com tanta força que ela ficou surpresa por não ter rasgado. Tanto faz — provavelmente seria horrível ela e Kate fazerem compras juntas de qualquer maneira. Em seguida, ela ouviu uma risada fraca vinda de algum lugar próximo. Por instinto, ela olhou pela janela, certa de que veria um flash loiro deslizar entre as árvores. O que seria louco, no entanto. A — Mona — estava morta.


2

PUKE-A-TAN Poucos dias depois, Hanna estava sentada no sofá confortável de microfibra da casa do seu namorado Lucas Beattie, em frente da luz suave da árvore de Natal exageradamente enfeitada da família. Na TV estava passando um infocomercial de uma nova máquina de exercícios — ‚Deixe o seu corpo sarado para o Ano Novo!‛ — O vendedor excessivamente alto não parava de gritar. No chão, bem na frente deles, havia uma lata de presentes cheia de pipoca de manteiga, queijo e caramelo. — A adoração a Kate foi ainda pior do que o habitual no jantar de ontem. — Hanna gemeu quando empurrou mais um punhado de pipoca de queijo na boca. — Tudo o que o meu pai e Isabel falaram foi do discurso absolutamente maravilhoso que Kate deu na décima série na cerimônia de diplomas do ano passado. E Kate ficou apenas sentada lá e rindo, toda, yeah, eu sei que eu sou demais. — Sinto muito, Han. — Lucas tomou um gole de sua lata de Mountain Dew. — Você realmente não acha que vocês poderiam se tornar amigas? — Absolutamente não. — Hanna decidiu não contar a Lucas que Kate não quis ir ao shopping com ela. Ela não podia acreditar que tinha sido tão ingênua a ponto de cair no truque puxa-saco de Kate. — Eu não quero nada com ela. E eu acho que sou alérgica ao perfume dela, eu espirrei umas 500 vezes desde que ela se mudou. Eu aposto que vou pegar urticária. Ela deitou drasticamente no sofá e olhou fixamente para o calendário da Disney com tema de natal no outro lado da sala. Hanna não tinha crescido com decorações nos feriados. Ela era judia, e depois que o pai dela a deixou, ela e a mãe dela quase não comemoravam o Hanukkah. Mas a mãe de Lucas estava obcecada com os calendários natalinos — eles tinham três diferentes presos no frigorífico, um calendário de pano com bichinhos de pelúcia em cada uma divisória do corrimão da escada e um pequeno e brilhante pendurado no banheiro. Lucas colocou seu braço ao redor dela e começou a acariciar seu cabelo. Hanna fechou os olhos e suspirou, sentindo um pouquinho melhor. Quando Hanna e Mona eram BFFs — e comandavam a escola juntas — Lucas não era exatamente o tipo de cara no topo da lista de Meninos Que Hanna Queria Namorar. Ele não andava com o grupo certo, não jogava um esporte maneiro como futebol ou lacrosse, e ele era mais afim de clubes pós-escola e Eagle Scouting do que festas selvagens. De fato, na sexta série, Ali começou um boato de que Lucas era hermafrodita, fazendo ele ser mandado para o grupo dos perdedores. E recentemente, Mona tinha rido da amizade de Hanna e Lucas, até mesmo disse que isso ia acabar com o coeficiente de popularidade delas. Mas Mona e Ali estavam mortas, e Lucas foi se tornando o melhor namorado do mundo. Quantos caras iriam ouvi-la choramingar por horas sobre como Mona a ferrou ou o quão horrível a nova situação familiar dela era? Quantos caras iriam abrir a porta essa noite, olhar para Hanna, que estava usando jeans folgados e moletom extragrande do Philadelphia Eagles, e dizer que ela parecia sexy?


— Posso me esconder em sua casa no futuro próximo? — Hanna implorou. — Eu não sei se posso suportar voltar para lá. — Isso seria incrível — disse Lucas. — Mas... — Seria incrível — Hanna o interrompeu, sentando-se. — Nós poderíamos fazer coisas depois da escola, ir para o Rive Gauche toda noite, se vestir com elegância e invadir a festa natalina do Country Club de Rosewood... Lucas mordeu o lábio. — Hanna, eu... — Talvez meu pai até mesmo deixe eu passar a noite aqui! — Hanna acrescentou, ficando mais e mais animada. — Eu poderia dizer que a minha alergia ao perfume de Kate é muito, muito séria. Você acha que seus pais deixariam? Eu poderia dormir no quarto de hóspedes... mas talvez você pudesse ir para lá no meio da noite. — Ela piscou. — Hanna. — O cabelo loiro de Lucas caiu em seu rosto quando ele se sentou. — Calma aí. Na verdade, eu vou embora. Amanhã. Hanna piscou. — Embora? — Meu pai acabou de nos contar. É um presente de Natal antecipado, ele vai nos levar em uma viagem de 14 dias para a península de Yucatán. Nós vamos com o melhor amigo do meu pai da faculdade e a família dele. O interior da boca de Hanna de repente tinha gosto de azedo. — Quatorze dias... tipo duas semanas? — Uh-huh. — Lucas deu-lhe um pequeno sorriso. — Eu estou muito empolgado. — Mas ainda estamos estudando — Hanna falou lentamente, pegando mais um punhado de pipoca. Ainda era 07 de dezembro, e Rosewood Day só iria entrar de férias para o Natal e Ano Novo somente no final do mês. — Por que o seu pai não espera até as férias de inverno? Lucas deu de ombros. — Eles fizeram uma negociação incrível com os voos e os quartos de hotel. E meu irmão que está na faculdade também vai. Meu pai já resolveu com a Rosewood Day. Eu vou fazer o conjunto de testes entre o Natal e o Ano Novo. E pelo menos eu estarei de volta para a maior parte das férias. — Lucas gentilmente pegou as mãos dela e apertou-as. — Então, você e eu poderemos passar todo minuto juntos. Hanna puxou as mãos para longe de Lucas, sentindo um nó enorme na garganta. — Mas eu preciso de você agora. Lucas ergueu os braços, impotente. — Sinto muito, mas há anos que eu quero ir à Yucatán. Tem caminhadas incríveis lá. Grandes praias. E meus pais não poderiam alterar as passagens agora. Antes que ela pudesse dizer qualquer coisa, a campainha tocou ao som de Jingle Bells. Lucas levantou-se e abriu as cortinas da frente. Um Mercedes SUV azul tinha estacionado na entrada da garagem. — São os Rumsons, a família que vai viajar com a gente. Eles vão nos levar para o itinerário. Você vai amá-los. E eu aposto que você tem muito em comum com a Brooke. — Brooke? — Hanna perguntou cautelosamente, permanecendo no sofá. O Sr. Beattie, veio da cozinha e abriu a porta, deixando entrar uma lufada de ar frio. — Wade! Patricia! Quanto tempo! A Sra. Beattie saiu do andar de cima, sorrindo para os convidados. — Estamos tão animados! — Ela gritou para o casal que tinha acabado de entrar no foyer. — E aqui está Lucas! — Ela empurrou Lucas em direção a eles. O marido, Wade, que usava uma jaqueta Burberry e tinha dentes deslumbrantemente brancos, sacudiu a mão de Lucas. A esposa, Patricia, cujos braços pareciam palitos de dente até mesmo sob sua jaqueta de caxemira ajustada, deu um beijo na bochecha de Lucas.


— Oh. Meu. Deus — disse uma voz da varanda. Os adultos se separaram, e uma adolescente excessivamente bronzeada, assustadoramente magra e mascando chiclete com um cabelo preto longo, um batom vermelho parecendo molhado e peitos grandes caminhou até Lucas e bateu suas mãos com unhas compridas nos ombros dele. — Lukey! — Ela gritou em uma voz anasalada. — Você está incrível! Lukey? — Whoa. Brooke. — Lucas deu um sorriso trêmulo. — Você está... diferente. Os Rumsons cutucaram os Beatties. — Vocês dois cresceram um pouco desde a última vez que se viram, não foi? — a Sra. Rumson disse. — Lembram dos problemas que eles costumavam se meter? — A mãe de Lucas disse. — Lembra de todos os clubes secretos que eles formavam? — Eles eram inseparáveis. Eu sempre dizia que os dois iriam se casar algum dia — a Sra. Rumson murmurou antes de todos os pais irem para a cozinha. Hanna levantou a cabeça rapidamente. Casar? Brooke cutucou o ombro de Lucas. — Quando você disse que eu parecia diferente, eu espero que você quisesse dizer linda! — Ela traçou o dedo sobre a camiseta de Lucas, em seguida, deixou cair a mão no cós da calça jeans. — Alguém andou malhando? E onde você arranjou essas roupas sensuais? — Aham. — Hanna levantou-se e caminhou até o foyer. Esse flerte tinha ido longe demais. Ela quem tinha incentivado Lucas a comprar o jeans True Religion e a polo Armani Exchange despojada que ele estava usando. — Oh. — Lucas olhou para Hanna. — Brooke, essa é a minha namorada, Hanna. — E aí? — Brooke olhou para o cabelo sujo de Hanna, o moletom sem graça do Eagles, e os jeans velhos Sevens caindo aos pedaços. Um olhar que dizia ela não é uma ameaça atravessou o seu rosto. Ela se aproximou de Lucas. — Você está animado para a viagem? Eu ouvi dizer que a praia de lá é incrível. E eu mal posso esperar para me bronzear mais. Hanna apertou os lábios para evitar soltar risinhos. Essa menina já estava tão laranja que parecia ter nascido em uma cabine de bronzeamento. — Vai ser maneiro — disse Lucas. — Eu estava dizendo a Hanna sobre isso. Tem caminhadas incríveis, passeios, comida... — ... e a praia de nudismo — Brooke acrescentou, lambendo os lábios. — Uh, o quê? — Hanna gritou. Brooke jogou o braço em torno do ombro de Lucas. — Você vai ter o maior prazer de sua vida, Lukey, todo mundo pegando sol nu. E você e eu vamos tomar drinks de gelatina todas as noites. A pipoca de queijo voltou à garganta de Hanna. Ela tinha que acabar com isso. — Hum, eu preciso falar com você. — Ela agarrou o braço de Lucas e puxou-o para a sala de estar, que estava cheia de boxes de vídeo games, revistas velhas e mais três calendários natalinos, um deles parecia ser totalmente feito de tinta. Havia um sorriso inocente no rosto de Lucas. — Está tudo bem? Se está tudo bem? Hanna deu algumas respirações para acalmar os nervos. — O que você acha, Lukey? Lucas passou a mão pelo cabelo. — Sim, Brooke costumava me chamar disso quando ela era pequena, ela não conseguia pronunciar Lucas. — É horrível. Parece pukey1. — E eles iriam, Hanna pensou, para a península Puke-atán2 com a princesa Puke-a-tan3 em pessoa. 1 2 3

Puke: Significa vômito. Puke-atán: Junção de Puke com Atán da península Yucatán. Puke-a-tan: Tan significa bronzeado. Obs.: Deixei em inglês mesmo porque não fazia sentido traduzir.


Lucas deu de ombros. — É apenas um apelido estúpido. Hanna fechou os olhos. — Você vai mesmo sair de férias com... ela? — Você está com ciúmes? De mim? — Lucas sorriu como se isso fosse a coisa mais divertida que ele já tinha ouvido. — Hanna, você não precisa se preocupar com nada. Brooke é como se fosse minha prima. Algumas pessoas ficam com os primos, especialmente quando os veem se bronzeando nus, Hanna pensou amargamente. Ela olhou para Brooke na outra sala. Ela estava se olhando no espelho redondo perto da porta, franzindo os lábios e passando uma quantidade generosa de brilho. Se Mona estivesse aqui, elas poderiam cutucar uma a outra e rir do desenho brega da unha de Brooke. Se Ali estivesse aqui, ela teria intimidado Brooke e feito ela se sentir a maior idiota do universo. Uma sensação azeda atravessou o estômago de Hanna. Namorar um menino popular vinha com suas armadilhas e inseguranças, mas ela achou que ela nunca, nunca teria que se preocupar com outras garotas com um nerd como Lucas. Por outro lado, só porque vadias regularmente não se lançavam em Lucas, tirava os tops e o tentava com drinks de gelatina, não queria dizer que ele era imune a esse tipo de coisa. Havia tantas pessoas que abandonaram a vida de Hanna nos últimos anos, o pai dela, o ex-namorado dela, Sean Ackard, Ali, Mona, a mãe dela. Tudo o que ela queria era alguém estável que ficasse por perto para sempre. Mas agora, até Lucas parecia tão instável... e não havia nada que ela pudesse fazer para impedi-lo de ir.


3

VELHOS HÁBITOS DIFICILMENTE MORREM Hanna passou por Brooke, atravessou a porta e ligou seu Prius tão rápido quanto pôde para sair da garagem dos Beatties. A última coisa que ela queria era ouvir mais uma palavra sobre o objetivo de bronzeamento de Brooke, os duplos sentidos mal disfarçados de como Brooke iria levar Lucas para a cama. Seu celular tocou no momento em que ela se virou no final da rua de Lucas. O nome de Lucas brilhou na tela. Hanna considerou não atender, então suspirou, atendeu e disse alô. — Você não tem que se preocupar com nada — Lucas falou abruptamente. — Eu prometo. Hanna não respondeu, em vez disso apertou o volante com tanta força que ela tinha certeza de que estava fazendo bolhas em suas palmas. — Meu pai disse que o hotel que vamos ficar tem Wi-Fi. Eu vou entrar no Skype todos os dias, enviar toneladas de fotos e dizer o quanto eu adoro você no Facebook a cada poucas horas. — Que tal de hora em hora? — Se Lucas estivesse constantemente em contato com ela, ele não poderia se meter em tanto problema, não era? — E prometa me dar um presente, algo bom. E não se atreva a olhar para qualquer peito na praia de nudismo. Quando ela desligou alguns minutos depois, ela se sentiu um pouco melhor. Hanna passou pelas ruas de Rosewood, o único som no carro era o barulho do aquecedor. Quando ela passou pela zona comercial movimentada, ela notou dois faróis atrás dela. Eles a seguiram enquanto ela passou pela escola, pelas janelas iluminadas do Otto, o restaurante chique italiano e o supermercado Fresh Fields. Em cada virada, o carro mantinha o ritmo. Ela olhou para a figura escura atrás do volante no espelho retrovisor, seu coração começou a bater mais rápido. Ela estava sendo seguida? E se fosse Ian — ele tinha saído da prisão? Ela parou em um cruzamento e esperou. O motorista passou por ela sem diminuir a velocidade, e Hanna exalou com alívio. Hanna olhou para a placa da rua e percebeu onde ela tinha parado. Essa era a antiga rua de Mona — e de Ali. Algumas das casas do quarteirão já estavam decoradas para as festividades. A propriedade dos Hastings tinha luzes cintilantes que traçava o perímetro do telhado. A casa de Jenna Cavanaugh tinha velas cerimoniosas nas janelas. A antiga casa de Ali, que vivia uma nova família agora, tinha uma coroa colorida na porta. O Santuário de Ali, que amigos e estranhos tinham montado logo após o corpo de Ali ser encontrado, brilhava no meio-fio. Era uma incógnita o que mantinha aquelas velas votivas acesas. A propriedade dos Vanderwaals estava escura. Hanna só conseguia ver a garagem longa e de cinco carros no canto do terreno, onde ela e Mona tinham subido e escrito no telhado HM + MV = BBBBBFF em grandes letras brancas. — Prometa que nós nunca vamos ser nada além de BFFs — Mona tinha dito depois que elas tinham terminado e estavam lavando a tinta branca das mãos com a mangueira do jardim. — Eu prometo — Hanna havia dito. E ela acreditou em Mona com todo o coração.


Agora Hanna queria tocar fogo na garagem. Ou subir lá e deixar um buquê de flores em memória de Mona. Suas emoções se desviavam tão selvagemente de segundo a segundo, era difícil saber o que ela sentia. E então, espontaneamente, a memória do carro que tinha atropelado Hanna no estacionamento há dois meses brilhou em sua mente. Hanna tentou correr, mas ele tinha vindo para cima dela rápido demais. Ela se lembrou do terror instantâneo e penetrante que ela sentiu quando soube que o carro ia atropelar ela — que Mona ia atropelar ela. — Não pense nisso — Hanna sussurrou para si mesma. Hanna dirigiu lentamente o resto do caminho para casa, dando respirações profundas e purificantes. Depois de estacionar o carro na garagem de sua família, ela quase bateu em uma fila de veículos que ela não reconhecia. Devia ter cerca de 15 sedãs, SUVs e crossovers estacionados na entrada circular. Então ela notou algo piscando na garagem. Luzes de Natal. E havia um Papai Noel que brilha no escuro e um boneco de gengibre inflável no jardim da frente? Ela deu passos hesitantes em direção à casa. Dot, usando uma espécie de capacete bizarro, latiu aos seus pés quando ela entrou. Espera. Aquilo eram chifres de rena? Hanna pegou-o nos braços e olhou para os dois chifres de pelúcia na cabeça dele. Havia um sino em cada um deles. — Quem fez isso com você? — Hanna sussurrou, tirando eles. Dot lambeu seu rosto. Ela olhou ao redor da sala e engasgou. Folhas de arbusto serpenteavam em torno do corrimão. Uma Mamãe Noel automática acenava de uma mesa console que antes ficava os vasos de cerâmica da mãe de Hanna. Uma árvore alta carregada de enfeites escandalosos estava no canto, e a lareira, que Hanna não conseguia se lembrar da família ter usado alguma vez, estava em chamas. Rudolph the Red-Nosed Reinder tocava no aparelho de som no volume máximo, e a casa toda cheirava a presunto vitrificado com mel. — Olá? — Hanna chamou. Risos flutuaram da cozinha, primeiro a gargalhada de galinha de Isabel, então a gargalhada alta do pai dela. Hanna virou no corredor. A cozinha estava cheia de pessoas segurando taças de champanhe e os pratos de aperitivo estavam cheios de mini quiches e fatias de Brie. Muitos deles usavam gorros de Papai Noel, incluindo o pai de Hanna. Isabel estava no canto, com um vestido vermelho de Mamãe Noel de veludo com pêlos brancos nos punhos e na barra, e Kate usava um vestido vermelho apertado e saltos Kate Spade preto e branco. Haviam folhas de visco penduradas no lustre, uma garrafa de cidra com especiarias estava no balcão, e pratos e mais pratos de biscoitos natalinos aparentemente deliciosos e aperitivos enchiam a ilha. Isabel viu Hanna e se levantou. — Hanna! Feliz Navidad! O Tannenbaum! Feliz Natal! Hanna bufou. — Hum, na verdade, eu sou judia. E o meu pai também. Isabel piscou estupidamente, como se não conseguisse compreender que alguém, ainda mais seu próprio noivo, pudesse comemorar outra coisa a não ser o Natal. O Sr. Marin apareceu ao lado de Isabel. — Ei, querida — ele disse, despenteando o cabelo de Hanna. Hanna olhou para ele, incrédula. — Desde quando você celebra o Natal? — Ela disse a palavra como se ela tivesse dito o aniversário de Satanás. O Sr. Marin cruzou os braços sobre o peito, defensivamente. — Eu tenho celebrado com Isabel e Kate nos últimos anos. Eu disse a Kate para lhe dizer. — Bem, ela não disse — Hanna disse categoricamente.


— Nós celebramos os Doze Dias de Natal a cada ano. Nós sempre comemoramos com uma festa. — Isabel tomou um gole de champanhe. — É uma tradição maravilhosa. Nós começamos cedo esse ano, essa noite é tipo um encontro de inauguração de casa de Natal. — E nós gostaríamos que você também participasse da tradição, é claro — o Sr. Marin acrescentou. Hanna olhou para toda a parafernália vermelha e verde. Sua família nunca tinha sido tão religiosa assim, mas eles acendiam velas menorá a cada noite de Hanukkah. No dia de Natal, eles pediam comida chinesa, assistiam maratonas de cinema e davam um longo passeio de bicicleta em família se o tempo estivesse bom. Ela gostava dessas tradições. A campainha tocou, e Isabel e o Sr. Marin moveram-se em direção à porta da frente. Hanna vagou em direção à mesa de bebidas, imaginando quantos problemas ela se meteria se servisse de um copo gigante de uísque. Em seguida, uma figura familiar coberta de vermelho apareceu. — Que roupa interessante para essa festa. — Kate olhou para o moletom Eagles extragrande que Hanna estava usando. — Essa festa é importante para Tom, sabe. Muitos dos novos colegas de trabalho dele estão aqui. Você poderia ter se vestido melhor. Hanna queria bater na cabeça de Kate com uma calabresa que estava na mesa de alimentos. — Eu não sabia que teria uma festa. — Você não sabia? — Kate levantou uma sobrancelha perfeitamente feita. — Eu sabia há uma semana. Eu acho que me esqueci de te dizer. Ela se virou e se afastou. Hanna pegou um biscoito e o enfiou na boca sem sentir o gosto, olhando para seu pai do outro lado da cozinha. Ele estava tagarelando com um homem de cabelos grisalhos em um terno preto e uma mulher magra usando brincos de diamantes enormes. Quando Kate se aproximou, o Sr. Marin colocou a mão em seu ombro e fez as apresentações, parecendo orgulhoso. Ele não se virou e acenou pra Hanna para que pudesse apresentá-la também, no entanto. Ela era apenas uma coisa indesejada usando um moletom do Eagles. Uma garota que não foi convidada para a festa da própria casa. Ela se sentiu como a Dama de A Dama e o Vagabundo, um dos filmes favoritos de Hanna quando era criança. Quando Jim Querido e Querida têm um novo bebê, eles deixam Dama de lado. Exceto que Hanna não tinha sequer um bad-boy imundo de rua que ela pudesse fugir e dividir espaguete porque seu namorado supostamente iria estar a centenas de quilômetros de distância aproveitando o sol em uma praia de nudismo com uma vadia. Ela se sentou em uma cadeira num canto ao lado de Edith, uma mulher idosa do final da rua, que usava óculos gigantes e continuamente parecia ter engolido a dentadura. — Quem é você? — Edith perguntou, inclinando sua orelha em direção a cadeira de Hanna. Ela cheirava levemente a violetas. — É Hanna Marin — Hanna disse a ela em voz alta. — Lembra de mim? — Oh, Hanna, sim, claro. — Edith tateou em busca da mão de Hanna e acaricioua. — É bom ver você, querida. — Ela empurrou um prato de plástico de cookies com gotas de chocolate no outro lado da mesa. — Pegue um cookie. Eu mesma assei eles. Eu tentei coloca-los na mesa com todas as outras comidas, mas essa nova mulher que vive aqui não parece querer que eles fiquem lá. — Ela franziu o nariz como se tivesse cheirado algo estragado. — Obrigada — murmurou Hanna, querendo beijar Edith por também não gostar de Isabel. Ela colocou um cookie na língua, extasiada com o sabor do açúcar, da manteiga e do chocolate. — São deliciosos.


— Fico feliz que você tenha gostado deles. — Edith empurrou outro cookie para ela. — Pegue outro. Você é muito magra. Edith dizia que ela era muito magra mesmo quando Hanna era gordinha, perdedora e feia, mas ainda era bom ouvir isso. O açúcar a tinha acalmado. Um terceiro cookie poderia até fazê-la se sentir eufórica. Você não deveria, disse uma voz dentro de sua cabeça. Você comeu muita pipoca na casa de Lucas. Você está usando seu jeans de gorda, e até mesmo ele parece apertado. Mas os cookies cheiravam tão bem. Hanna olhou para cima e viu Kate sorrindo para outro dos colegas de trabalho do seu pai, e algo dentro dela se partiu. Não, ela falou determinada, mas suas mãos pareciam se mover por vontade própria enquanto embrulhavam seis biscoitos em um guardanapo. Suas pernas tinham vontade própria também, levantando-a do assento e se movendo em torno dos festeiros. Hanna chegou na escada vazia antes de abrir o guardanapo e começar a empurrar os cookies na boca um por um. Ela os mastigou e os engoliu com desespero. Migalhas caiam em seu peito. Chocolate estava sobre seus dedos e sua boca. Era como se houvesse algo dentro dela que dizia que ela só poderia parar quando comesse todos — e só então ela estaria saciada. Isso era exatamente o que tinha acontecido na primeira vez que ela conheceu Kate e Isabel em Annapolis: Ela se sentia tão nervosa e estranha que a única coisa que a acalmou foi comer em grandes quantidades. Kate e Ali, que Hanna havia levado, haviam olhado para ela como se ela não fosse humana. E quando Hanna se dobrou com o estômago doendo, o Sr. Marin tinha brincado, Minha porquinha comeu demais? Tinha sido a primeira vez que Hanna induziu o vômito — e não foi a última. Ao longo dos anos ela se esforçou para parar, mas algumas vezes, velhos hábitos dificilmente morrem. Um riso estridente ressoou no hall, e Hanna se ergueu. Parecia o de Ali. Quando ela olhou pela janela da frente, ela jurou ter visto alguém se movendo nos arbustos. Hanna olhou fixamente para a escuridão. Então, ela sentiu olhos em suas costas e se virou. Seu pai e Kate estavam olhando para ela na cozinha. Seus olhos observando da boca de Hanna manchada de chocolate, as migalhas no peito dela, até os biscoitos em suas mãos. Kate sorriu. O Sr. Marin franziu a testa. Então, ele levantou a mão até seu rosto e fez um movimento de limpar os lábios. Hanna tirou um chocolate preso em sua bochecha. Kate se virou e cobriu a boca, reprimindo um riso. Os cookies restantes deslizaram de sua mão para o chão. Com o rosto em chamas, Hanna fugiu para cima e bateu a porta do quarto, dando o dedo do meio para as risadas barulhentas dos festeiros e para a música alta de natal de Bing Crosby tocando no aparelho de som. Ela tinha tido o suficiente de uma festa natalina pela vida inteira.


4

VOCÊ NUNCA VAI FAZER COMPRAS NESSE SHOPPING OUTRA VEZ Terça-feira depois da escola, Hanna atravessou as portas duplas que diziam BEMVINDOS A GRANDE ABERTURA DO SHOPPING DEVON CREST! no vidro. Ela entrou em um grande saguão e respirou fundo. O ar cheirava a uma mistura de pretzels da Auntie Anne, cafés da Starbucks e uma mistura de perfumes. Uma grande fonte borbulhava e meninas bem-vestidas carregando sacolas de compras da Tiffany & Co., Tory Burch e Cole Haan passaram com arrogância. Ele era semelhante ao Shopping King James, que Hanna regularmente frequentava, mas diferente o suficiente para que ela não se lembrasse de uma única memória de suas muitas idas às compras com Mona. Apenas estar rodeada de varejo fez Hanna se sentir melhor. Ela deveria ter visitado o shopping antes, mas ela não teve tempo. Ontem, como parte dos Doze Dias de Natal extravagantes, ela tinha ido com seu pai, Isabel e Kate para uma performance do Messias de Haendel em Villanova — roncando. O dia anterior, eles participaram de uma degustação de gemada no Williams-Sonoma, e para o desgosto de Hanna, ela e Kate só foram autorizadas a beber a gemada sem álcool, que parecia desnatado e estragado. Eles tinham planejado ir para uma loja de departamentos em Philly para ver algum tipo de exposição de luzes estúpida hoje, mas a loja de departamento estava fechada por infestação de percevejos. Que pena. Agora, Hanna passou por uma área de estar com um pequeno café que vendia 208 diferentes tipos de chá e uma padaria sem glúten. Ela pegou o celular para checar mais uma vez se Lucas tinha ligado ou mandado uma mensagem, mas não havia um único email, correio de voz, ou tweet. Fazia dois dias que ele tinha ido embora e ele já tinha se esquecido da promessa de manter contato diariamente. Tanto faz. Ela podia confiar em Lucas. Certo? Hanna empinou o queixo para o ar, tentando manter a calma e parou para olhar as direções do shopping center. Ele tinha uma Otter, sua boutique favorita. Ela iria afogar suas frustrações comprando a roupa mais incrível que tivesse. — Ei, menina bonita. Hanna virou a cabeça esperando ver um cara da faculdade que certamente teria feito o comentário, mas não havia ninguém lá. Em vez disso, ela viu a Santa Land repleta de doces infláveis em formato de bengalas, uma casa de gengibre e vários elfos aparentemente entediados de idade universitária com sapatos pontudos e chapéus. Papai Noel estava sentado em um trono dourado com seu chapéu torto. — Belo sorriso, linda — disse a voz novamente, e Hanna percebeu que era o Papai Noel. Ele acenou para ela com a luva branca. — Quer sentar no meu colo? — Eca! — Hanna sussurrou, se afastando. Ela pôde ouvir ele falando ho-ho-ho enquanto caminhava até a escada rolante. A Otter brilhava no final do corredor como um farol fashion reconfortante. Hanna caminhou para dentro, se balançando com uma música mixada. Ela ergueu um lenço de seda e apertou-o contra o rosto. Então, inalou o aroma caro das bolsas Kooba de couro,


e passou os dedos pelas jeggings jeans e vestido de chiffon Marc Jacobs de cintura amarrada. Sua frequência cardíaca diminuiu. Ela podia sentir seus níveis de estresse diminuírem. — Posso ajudar? — Falou uma voz fina. Uma vendedora pequena e loira usando uma saia justa de cintura alta e a mesma blusa de seda de bolinhas que Hanna estava olhando desejosamente na prateleira apareceu ao lado dela. — Você está procurando alguma coisa especial? — Eu definitivamente preciso de um jeans novo. — Hanna deu um tapinha em dois jeans skinny J Brands sobre a mesa. — E talvez esse vestido, e isso. — Ela apontou para um suéter de cashmere Alice + Olivia. — Oh, ele é lindo — a vendedora falou animada. — Você tem bom gosto. Você quer que eu escolha algumas coisas para você e separe um provador enquanto você olha por aí? — Claro — disse Hanna. — Ótimo. — A vendedora olhou Hanna de cima a baixo, em seguida, assentiu. — Pode deixar comigo. Eu sou Lauren, a propósito. — Hanna. — Ela sorriu. Esse parecia ser o início de uma bela amizade. Talvez Lauren fosse pegar as peças novas para ela provar antes que as outras garotas pudessem colocar suas mãos imundas nelas, assim como Sasha da Otter do King James sempre fazia. Ela deu uma volta na loja, escolhendo mais blusas e vestidos. Lauren escolheu outros itens que ela achou que Hanna iria gostar, incluindo uma pilha de jeans, e levouos para a parte traseira. Quando Hanna estava pronta para experimentar as coisas, ela notou que Lauren tinha escolhido o maior provador para ela. Três outros provadores estavam ocupados, mas eles eram muito menores, como se essas meninas não fossem tão importantes. Hanna fechou a cortina, alisou o cabelo e olhou para as roupas lindas balançando nos cabides. Era hora de fazer um dano ao cartão de crédito. Mas, de repente, seu olhar congelou em uma etiqueta em uma das calças leggings de brim que estava na cadeira estofada e estampada que Lauren tinha escolhido para ela. Tamanho 42. Ela franziu o cenho e checou o próximo jeans da pilha de Lauren. Era um 42 também. Ela olhou para as marcas dos vestidos que Lauren tinha escolhido. Também 42. Não havia nada de errado em ter tamanho 42 para a maioria das meninas, mas Hanna não usava 42 desde antes de sua transformação com Mona na oitava série. — Uh, Lauren? — Hanna colocou a cabeça para fora do vestiário. Lauren apareceu no final do corredor, e Hanna deu a ela um sorriso de desculpas. — Eu acho que houve um erro. Eu uso 38. Um olhar desconfortável passou no rosto de Lauren. — Eu realmente acho que você deveria experimentar o 42. Leggings J Brand são um pouco pequenas. Hanna se irritou. — Eu já tenho três leggings da J Brands. Eu sei exatamente que tamanho elas são. Lauren apertou os lábios. Um longo tempo se passou, e alguém em um dos outros provadores fungou. — Tudo bem — disse Lauren após um momento, encolhendo os ombros. — Vou ver se temos 38 e 40 em estoque. A cortina se fechou novamente. Quando Lauren atravessou o corredor, Hanna jurou ter ouvido uma risada suave. Lauren estava rindo dela? As outras meninas dos provadores adjacentes tinham ficado muito silenciosas, quase como se estivessem ouvindo — e criticando.


Lauren estava de volta em segundos com os jeans novos. Hanna os pegou das mãos dela e fechou a cortina novamente. Como essa vendedora idiota se atrevia a rir dela?! E como ela tinha olhado para Hanna de cima a baixo e apenas supôs que ela usava 42? As vendedoras não deveriam saber exatamente qual era o tamanho de uma cliente? Elas não faziam algum tipo de treinamento? Hanna nunca tinha sido tratada de modo tão desatento na outra Otter. Quando Hanna saísse daqui, ela iria ligar para a sede da Otter para reclamar. O jeans de brim de tamanho 38 eram macios em torno de seus tornozelos nus. Hanna o subiu sobre sua panturrilha, mas quando ela puxou-os até as coxas, não subiu. Hanna olhou-se no espelho. Esse jeans obviamente estava com defeito. Ela tirou o tamanho 38 e provou o próximo tamanho. Ela conseguiu cobrir seu bumbum com esse, mas ela não conseguiria de jeito algum fechar o botão. O que diabos estava acontecendo? Como último recurso, ela provou o tamanho 42 que Lauren tinha escolhido para ela. Ela prendeu o botão e olhou-se no espelho. Suas pernas pareciam inchadas. Havia um pouquinho de gordura sobre os cós. As costuras estavam esticadas como se estivessem prestes a estourar a qualquer segundo. O coração de Hanna começou a bater forte. Todos esses jeans estavam com defeito? Ou ela tinha ganhado peso? Hanna pensou nos biscoitos que tinha comido na festa de Natal. E nos lanches que sobraram da festa que ela se fartou na noite passada enquanto assistia TV em seu quarto, escondendo-se do pai dela, de Isabel e de Kate. E os bombons que ela pegou da caixa aberta da ilha da cozinha quando ela passou por lá. Sua pele começou a formigar. Ela se sentia a um passo da gordinha, perdedora, feia e idiota que ela era antes de Ali ser amiga dela na sexta série. Ela olhou para seu reflexo no espelho novamente e, por uma fração de segundo, ela viu uma menina com cabelos castanho-cocô, borracha cor de rosa nos aparelhos de dente e espinhas na testa. Era a antiga Hanna, a menina que ela jurou nunca, jamais ser novamente. — Não — Hanna sussurrou, cobrindo os olhos com as mãos e se sentando na cadeira. — Hanna? — Os saltos plataforma de Lauren apareceram sob a porta. — Está tudo bem? Hanna soltou um sim, mas tudo estava muito, muito longe de estar bem. De repente, parecia que tudo na vida dela estava fora de controle. E ela tinha que fazer algo em relação a isso — e rápido.


5

DESCIDO DO MONTE OLIMPO Na manhã seguinte, Hanna pedalou no aparelho elíptico da Body Tonic, a academia de luxo que ela frequentava desde o fim da oitava série. Cada máquina tinha uma TV embutida com zilhões de canais a cabo, um suco bar e um spa ao lado da recepção, e os vestiários ostentavam uma sauna de eucalipto, uma banheira de hidromassagem e produtos Kiehl em todos os chuveiros. À volta dela, homens, mulheres e estudantes ocasionais, muitos deles de escolas privadas de elite, corriam em esteiras, pedalavam em bicicletas penduradas ou faziam agachamentos um pouco vulgares sobre as bolas de exercício. Uma aula de yoga estava acontecendo na sala de exercícios na parte de trás, e naquele momento, a classe estava tentando fazer a posição meia-lua, seus corpos tentando formar um T, suas pernas balançando. Suor estava escorrendo nos olhos de Hanna, seus braços e pernas estavam em chamas, e ela tinha acabado de ver um noticiário perturbador na TV que mencionava que Ian Thomas estava declarando inocência atrás das grades. Mas ela não podia deixar de se exercitar agora. De jeito algum ela continuaria a usar um tamanho 42. Ela não deixaria uma vendedora rir dela outra vez. Seu celular tocou e ela pegou-o ansiosamente, checando-o mais uma vez para ver se Lucas tinha ligado, mandado uma mensagem, postado no Facebook, ou qualquer coisa, mas era só Aria, pedindo as anotações de Hanna de Inglês. O peito de Hanna se apertou. Isso a fez se sentir incrivelmente idiota, mas ela sentia falta de Lucas — e parecia que ele não sentia nenhuma falta dela. Ela jogou o celular de volta no copinho de plástico que estava no lugar destinado a garrafas de água, e aumentou mais alguns níveis da resistência. Isso não importava. Se ela perder dez quilos e parecer fabulosa novamente, ela vai atrair todo o amor de Lucas quando ele voltar. Mas por outro lado, ela pensou, e se Lucas não se importasse mais com ela quando voltasse para casa? E se ele decidisse largar ela pela Princesa Puke-a-tan? — Você está realmente pegando pesado, não é? Hanna deu um salto, olhou para baixo e viu um cara usando uma camiseta Body Tonic apertada, short de malha comprido e tênis New Balance cinza em pé ao lado da máquina dela. Ele tinha os olhos mais azuis que ela já tinha visto, cabelo escuro raspado, uma pele dourada linda e ele era musculoso sem parecer um fisiculturista. Hanna o reconheceu instantaneamente de quando ela e Mona costumavam vir para a Body Tonic juntas, elas apelidaram ele de Apolo, por razões óbvias. Ele vagueava pela sala de ginástica, sorrindo para as meninas, ocasionalmente levantando um peso ou fazendo alguns abdominais, e treinava toda a clientela feminina super-rica da Main Line. Mas o motivo final do apelido foi porque elas pegaram ele sentado em seu carro no estacionamento, ouvindo Stairway to Heaven, e fingindo que o volante era uma bateria. Apolo era um idiota reformado, assim como Hanna e Mona eram.


Hanna olhou para trás para ver se Apollo estava falando com outra pessoa, mas ela era a única pessoa nessa fila de máquinas elípticas. — Uh, o quê? — ela perguntou, tentando soar alegre. Ela desejava ter trazido uma toalha para enxugar o rosto. Apollo sorriu e apontou para o visor LCD na máquina de Hanna. — Você tem se exercitado por 80 minutos. Isso é intenso. — Ah. — Hanna continuava pedalando. — Estou tentando voltar a ficar em forma. Eu fui à festas demais nesse feriado. — Ela riu envergonhada, então se amaldiçoou por chamar a atenção para sua bundona de cookies de Natal. — Os feriados podem ser duros. — Apollo se inclinou na máquina ao lado dela. — Estou planejando um retiro de ginástica que começa hoje, designada especificamente para as pessoas superarem os feriados. Trata-se de exercício, nutrição e bem-estar mental. — Parece incrível — disse Hanna. Kirsten Cullen, uma menina que ela conhecia da Rosewood Day, tinha ido a um retiro de ginástica em St. Barts no verão entre o nono e o décimo ano e voltou cinco quilos mais leve e com a pele mais perfeita do que ela já tinha visto. — Um retiro para onde? — Oh, para lugar nenhum. — Apollo lançou-lhe um sorriso tímido. — Nós vamos fazer aqui na academia. Mas você vai se sentir transportada e incrível no momento em que tiver terminado. Você estaria interessada em se inscrever? Hanna olhou para seu reflexo suado no espelho em frente a ela. — Eu não sei. — Ela não estava muito afim de aulas em grupo. Apollo deu-lhe um sorriso deslumbrante. — Você tem certeza? Eu acho que você vai achar muito, muito incrível. Você é Hanna, certo? A mandíbula de Hanna caiu. — Como você sabe? — Eu vi você aqui antes. — Dessa vez, quando ele sorriu, apareceram duas covinhas adoráveis. — Eu adoraria ter você na classe. Seu interior vibrou. Ele estava flertando com ela? Por uma fração de segundo, ela mal podia esperar para descer da máquina, ligar para Mona e dizer a ela que Apollo da Body Tonic estava praticamente implorando para ela fazer parte do seu retiro de ginástica — até que ela se lembrou, mais uma vez. Toda vez que ela percebia que Mona tinha sido A, e que ela estava morta agora, era como se alguém tivesse atirado uma esfera de medicina em seu peito. — Os quilos vão evaporar de você — Apollo prometeu. — Você vai estar na forma mais incrível de sua vida. Por favor, diga que você vai participar. Colocando dessa maneira, como ela poderia dizer não? — Ok, você me convenceu — disse ela, parando a máquina. — Conte comigo. — Ótimo. — Apollo sorriu novamente. Só de estar ao lado dele fez ela se estremecer toda. E ele a tinha notado. Ele sabia o nome dela. Todos os pensamentos de Lucas e Brooke Puke-a-tan voaram para fora de sua cabeça. Se Lucas podia flertar, então ela também podia. — Meu nome é Vince — ele acrescentou. — A aula começa hoje às cinco, e teremos encontros de manhã e de noite até o final do ano. Estou tão feliz por você vir, Hanna. — Estou muito feliz, também — respondeu Hanna, olhando profundamente nos olhos de Apollo — Vince. E ela absolutamente e positivamente estava falando sério.


6

THE BIGGEST LOSERS Naquele dia, depois da escola, Hanna se sentou nos degraus da Body Tonic e colocou o celular entre o ombro e a orelha. — Desculpe, pai. Eu jurava que tinha te dito que eu tinha planos para essa noite. — Mas você vai perder o Santa’s Village no Longwood Gardens. — O Sr. Marin parecia muito decepcionado. — Vai ser espetacular. Hanna resistiu à vontade de vomitar. Na sétima série, ela, Ali e as outras meninas tinham ido para o Longwood Gardens, que era apenas isso: um jardim grande e chato. Estava quente, lotado e desprezível no interior, de modo que elas haviam passado a maior parte do tempo do lado de fora no estacionamento, fofocando sobre qual menino da Rosewood Day elas mais queriam beijar e que celebridades elas convidariam para suas festas de aniversário a fantasia. — Eu realmente sinto muito — Hanna repetiu. — Mas eu planejei isso antes de saber sobre essa sua coisa de Doze Dias do Natal. O Sr. Marin suspirou. — Isso não é porque você está desconfortável com Isabel e Kate, é? Kate disse que quer te conhecer, mas você se mantém à distância. Ela também mencionou que você desistiu de ir ao shopping com ela no dia que nos mudamos. Hanna abriu a boca, depois fechou-a novamente. Kate era muito cínica. — Isso não tem nada a ver com elas — ela mentiu. Quando desligou, ela colocou o celular no colo, desejando que ele tocasse mais uma vez e que ela ouvisse a voz de Lucas do outro lado da linha. Mas ele ficou silencioso. Ela olhou para os carros indo de um lado ao outro na estrada à distância. A neve caía levemente, fazendo com que o pavimento brilhasse. Hanna ouviu um barulho à sua esquerda e se endireitou. Parecia que alguém estava escondido atrás da esquina. Hanna deu de ombros — ninguém estava mais perseguindo ela — e se levantou. Ela se dirigiu para dentro do ginásio com uma agitação em seu estômago. Ela podia ter estado resistente à ideia do grupo de ginástica no começo, mas agora ela estava empolgada. As pessoas devem ser garotas bonitas e jovens da Main Line, talvez ela até fizesse uma ou duas amigas. E Vince tinha dito que a classe constituía de ginástica, nutrição e bem-estar, talvez isso significasse massagens regulares no final de cada sessão, feitas por Vince, é claro. Em uma base estritamente profissional, para Lucas não ficar muito ciumento. Uma placa impressa dizia RETIRO DE GINÁSTICA DE NATAL foi colada na porta de uma das salas regulares de exercícios. Hanna esperava que a aula fosse em uma sala secreta da Body Tonic — algo só para VIPs — mas tanto faz. Ela respirou fundo e empurrou a porta com um sorriso enorme no rosto, meio que esperando que todos os participantes bonitos se virassem e a recebessem de braços abertos, tipo uma sessão de terapia em grupo, exceto de um jeito mais glamoroso. Mas as luzes, que eram muito brilhantes, quase fluorescentes, revelaram um cenário completamente diferente. Dez pessoas estavam sentadas no chão com vários tapetes, bolas, faixas elásticas, aparelhos de equilíbrio e blocos de yoga na frente deles.


Todos eles, de fato, se viraram e olharam para ela, mas não ergueram os braços para recebê-la com um abraço de grupo. Não que ela quisesse tocá-los. Eles estavam tão longe de ginástica glamorosa quanto possível. Havia uma mulher com um triplo queixo. Um homem cujo intestino aparecia sobre sua cintura. Mães desmazeladas e suburbanas. Pais gordos e suburbanos. Garotas adolescentes do tipo que se juntavam ao clube de teatro, bandas ou passavam os períodos de almoço na sala de artes, não dando a mínima para como os seus corpos pareciam. Uma menina tinha os maiores seios que ela já tinha visto. Ela tinha a idade de Hanna e se movia sexualmente com os quadris largos e uma bunda larga, como uma garota pin-up4 dos anos cinquenta. Ela tinha um estilo punk — alta, cabelo preto brilhante, delineador abundante nos olhos amendoados, muito batom vermelho nos lábios num estilo gótico baby-doll e uma tatuagem em formato de adaga em seu ombro. Normalmente, Hanna não se agradaria desse estilo, mas ele meio que combinava com ela. Não que ela fosse admitir isso em voz alta. Isso não era um retiro de ginástica glamoroso. Era mais uma versão de baixa qualidade de The Biggest Loser 5. Hanna nunca tinha visto nenhum deles na Body Tonic — era como se a academia tivesse escondido essa gente para não assustar os frequentadores. E todos estavam usando uma enorme camiseta vermelha que dizia COLOQUE SEU TRASEIRO EM AÇÃO! em grandes letras brancas na frente e CAMPO DE TREINAMENTO DO RETIRO DE GINÁSTICA DE NATAL! na parte traseira. — Hanna! — Vince apareceu de trás de um conjunto de equipamentos de som no canto e sorriu amplamente. Ele também estava usando uma camiseta vermelha COLOQUE SEU TRASEIRO EM AÇÃO! embora uma muito mais apertada. — Ainda bem que você pôde vir! Aqui, pegue uma camiseta! Ele jogou uma para ela, mas Hanna não fez qualquer esforço para pegá-la, deixando-a bater no peito dela e cair molemente no chão. Atrás dela, ela ouviu uma risadinha fina e estridente, e congelou. Uma pessoa virou a esquina com seus longos cabelos loiros balançando. Alguém tinha visto ela? Alguém achava que ela fazia parte... disso? — Vamos começar nos apresentando e dizendo porque estamos aqui — Vince começou. Ele apontou para a garota pin-up. Ela sacudiu os peitos para ele e sussurrou: — Eu sou Dinah Morrissey. Eu não me importo em perder peso, mas eu quero me comprometer em ficar saudável. — Ela piscou seus cílios para Vince, que sorriu de volta para ela. — Prazer em conhecê-la, Dinah. Hanna, que tal você ser a próxima? — Vince perguntou. Hanna apertou a boca. Ela olhou novamente para as pessoas estranhas e gordas no chão, soltou um pequeno rangido e se virou. Ela correu o mais rápido que pôde em direção ao ginásio principal, de volta para onde todo mundo era bonito, esguio e normal. — Hanna — Vince chamou quando ela virou nas máquinas de musculação e esteiras. Ele acompanhou ela no corredor entre o estúdio de yoga e a lanchonete macrobiótica. — Qual é o problema? Hanna deu de ombros sem jeito, percebendo que Vince havia seguido ela segurando a camiseta vermelha COLOQUE SEU TRASEIRO EM AÇÃO! que Hanna havia rejeitado. — Eu acho que essa classe não é pra mim. — O retiro? Por quê? 4

Pin-up: é uma modelo com fotos sensuais, elas constituem-se num tipo leve de erotismo e geralmente são modelos e atrizes. 5 The Biggest Loser: Reality Show em que os concorrentes são obesos e tentam perder peso em busca do prêmio. Adaptado no Brasil como Quem Perde Ganha.


Ele estava drogado? Primeiro de tudo, era um campo de treinamento, não um retiro de ginástica. Segundo, como Vince poderia achar que Hanna pertencia a uma classe dessa? Ele tinha notado ela na máquina elíptica hoje e achado que ela era alguém fora de forma, alguém comum? Alguém de quem vendedoras riam, pais rejeitavam e melhores amigas desprezavam? — Porque é uma classe cheia de gente gorda! — Hanna finalmente desabafou. Vince deu alguns passos para trás, sua boca formando um pequeno O. — Você está brincando, certo? Uma versão tecno de uma música da Rihanna tocava no fundo. Quando Hanna não respondeu, Vince balançou a cabeça. — Os outros membros não são gordos. Ok, talvez alguns deles estejam um pouco acima do peso saudável, mas você não acha que é ótimo que eles queiram entrar em forma? Eu sinto como se eu pudesse realmente ajudá-los. Você é uma Madre Teresa musculosa, Hanna queria dizer. — Bem, eu acho que vou desistir. — Você vai desistir de uma aula de ginástica que vai ser ótima para você? Por quê? Porque não parece que todo mundo saiu da Vogue? Ele estava falando muito alto. Hanna olhou ao redor cautelosamente. A garota magra da mesa de recepção estava escaneando dois cartões de membros, a máquina fez dois pequenos sinais sonoros consecutivos. Um cara de idade universitária corria na esteira com seu suave cabelo loiro balançando. E se alguém estivesse ouvindo, alguém de Rosewood Day? Se alguém tiver ouvido isso, ela será a maior perdedora da escola — de diversas maneiras. Vince deu a Hanna um olhar compreensivo. — Eu acho que entendo o que está acontecendo. Você não aguenta. Não é chamado de campo de treinamento porque é fácil. Você não tem mente afiada para passar por um programa tão rigoroso. Hanna bufou indignada. — Isso não tem nada a ver com a minha mente. — Não, esqueça. — Vince agitou a mão. — Eu deveria ter visto os sinais. Nem todo mundo está preparado para essa aula — você tem que realmente querer o bem-estar físico e mental, realmente estar pronta para isso. Não se preocupe com isso, Hanna. Eu pensei que você fosse resistente o suficiente, mas está tudo bem. — Eu sou muito resistente — disse Hanna tão alto que uma menina de vinte e poucos anos perto das esteiras e usando um moletom da Hollis olhou alarmada. — Eu tenho certeza que sou mais resistente do que todas as outras... pessoas de lá de dentro. Vince ergueu seu maxilar. — Ok, então. Me prove. Me mostre que você está falando sério. Sua voz soava rouca e severa, mas seus olhos eram suaves, quase ansiosos. Mais uma vez, Hanna sentiu uma pequena suspeita de que ele poderia estar interessado nela. E apenas saber que alguém gostava dela, aliviou a solidão que ela sentia sempre que pensava em Lucas. Se ela saísse daqui, condenando o retiro de ginástica e os participantes com excesso de peso, Vince provavelmente nunca mais falaria com ela. E ela odiaria que ele achasse que ela era uma desistente. Era praticamente o sinônimo de perdedor e de jeito algum ela seria uma perdedora novamente. — Tudo bem — ela gemeu. — Eu acho que vou dar outra chance. Mas eu tenho uma condição. Eu não vou usar isso. — Ela apontou para a camiseta que Vince estava segurando. Vince deu de ombros e colocou a mão no braço de Hanna. — Combinado.


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Mazel Tov6! Duas horas mais tarde, Hanna desmoronou dentro do Prius, mal conseguindo se mover. Vince estava definitivamente certo sobre uma coisa: o acampamento não era nada como uma experiência em um spa relaxante. Ela nunca tinha se agachado, chutado, corrido, exercitado os bíceps ou suado tanto em sua vida. Vince lotou a sessão com tantas atividades que Hanna mal tinha notado as outras pessoas da classe, exceto quando um deles caiu de exaustão ou reclamou que eles não conseguiam mais pedalar na bicicleta. A única pessoa que se destacou foi Dinah. Ela continuou empurrando seus seios no rosto de Vince e perguntando se ela estava malhando corretamente. Uma hora ela até mesmo fez ele ficar atrás dela enquanto ela estava de cócoras, com a mão nas costas dela e perigosamente perto de sua bunda, só para ele ter certeza de que ela estava malhando os músculos certos. Seu jeito desavergonhado de flertar lembrou a Hanna de Brooke, o que a fez se sentir enojada de Lucas outra vez. Ela entrou na garagem de sua casa, querendo nada mais do que rastejar até a cama e passar horas e horas assistindo TV. Estranhamente, o carro do seu pai ainda estava na calçada — não no Longwood Gardens. E as decorações de Natal que haviam enfeitado a frente da propriedade não estavam mais lá. Quando ela abriu a porta da frente, já não cheirava a pinho fresco e paus de canela, mas como... panquecas de batata? — Hanna! — O Sr. Marin saiu da cozinha. — Aí está você! Entre, entre! Temos uma surpresa para você! Ele levou Hanna pela sala de estar, mas não antes que ela percebesse que a Mamãe Noel automática havia desparecido, a árvore de Natal estava apagada e as meias que estavam penduradas sobre a lareira — com as iniciais de Isabel, Kate e o pai de Hanna, e uma em branco, presumivelmente para Hanna — tinham sido retiradas. O candelabro velho de prata que Bubbe Marin tinha dado aos pais de Hanna estava sobre a lareira. Três velas ardiam. — O que está acontecendo? — Hanna perguntou, desconfiada. O Sr. Marin virou Hanna em direção à sala de jantar. Havia uma grande quantidade de comida sobre a mesa, e Kate e Isabel estavam sentadas em cadeiras de espaldar alto com sorrisos frios em seus rostos. — Surpresa! — O Sr. Marin falou animado. — Feliz Hanna-kah! Hanna piscou para os itens sobre a mesa. Havia todos os alimentos tradicionais do Hanukkah que sua avó costumava servir: panqueca de batata, geléia donuts chamados de sufganiyot, kugel, moedas de chocolate e carne de peito. Ao lado estavam os antigos dreidels que ela e seus primos giravam por horas, brincado de verdade ou desafio, se o dreidel caísse no lado gimel, Tamar, sua prima mais nova, tinha que roubar um dólar da carteira da mãe dela, e assim por diante. Um banner azul com a Estrela de David colada estava envolto nas janelas, e velas brilhavam ao redor da cozinha. Pequenos presentes embrulhados em papel prateado estavam sobre os pratos de todos. — Eu pensava que vocês iriam para a Santa’s Village — disse Hanna lentamente. 6

Mazel Tov: Boa sorte em hebraico.


— Oh, nós podemos fazer isso qualquer dia — o Sr. Marin disse. — Eu pensei que você pudesse estar um pouco chateada, já que estamos fazendo tantas atividades de Natal, então nós pensamos em celebrar nossa noite de feriado! Hanukkah ou Hannakah! — Ele gesticulou para a comida na mesa. — Kate e Isabel fizeram algumas comidas essa noite, embora a maioria disso veio de uma delicatessen judaica perto de Ferra’s Cheesesteaks. — Seu pai disse que você sabe todas as histórias do Hanukkah, Hanna — Isabel disse educadamente. — Eu adoraria ouvi-las. — Isso tudo é tão agradável. — O coração de Hanna amoleceu, assim como o do Grinch. Essa foi definitivamente a melhor coisa que seu pai tinha feito por ela em um longo, longo tempo. Seu pai passou ao redor dos pratos, e todo mundo começou a se servir de panqueca de batata e pedaços de peito banhado com molho. Hanna pegou uma quantidade moderada de comida, se sentindo bem por causa do campo de treinamento. Vinho foi servido — até mesmo Hanna e Kate beberam um pouco — e todos abriram seus presentes. Kate e Hanna ganharam cartões de presente para o Fermata Spa. Isabel ganhou um pequeno pingente em formato de árvore de Natal para adicionar à sua pulseira Pandora de prata. O Sr. Marin deu a si mesmo um canivete novo suíço. Ele imediatamente abriu a navalha e cortou a etiqueta da bugiganga de Isabel. Em seguida, o Sr. Marin contou histórias sobre Bubbe Marin, que costumava fazer as melhores panquecas de batata do mundo. — Nós costumávamos ir lá toda noite do Hanukkah — ele explicou. — Ela sempre dava grandes presentes para Hanna. — Que doce — Isabel falou animada, parecendo surpresa, como se ela nunca tivesse imaginado que alguém pudesse cobrir Hanna de presentes. — E tinha um papagaio cinza Africano, o Morty — o Sr. Marin continuou, espetando uma panqueca de batata. — Ele conhecia todos os palavrões do mundo. — Ele era louco! — Hanna riu. — Eu acho que aprendi uns palavrões novos com ele! — E ele gostava de ver aqueles programas de tabloides, como eles se chamam? — A cara do Sr. Marin estava vermelha. — E! News — Hanna falou. — Ele estava obcecado por Giuliana Rancic. Lembra? Ele dizia: ela é uma vadia bonita em uma voz louca de pássaro! — Quem é Giuliana Rancic? — Isabel perguntou, piscando rapidamente. O pai de Hanna estava muito ocupado tremendo com o riso para responder. Hanna também ria, não se preocupando também em introduzir Isabel. Era bom ter uma piada interna com seu pai de novo, algo de suas vidas antes de Isabel e Kate. Eles continuaram comendo, compartilhando histórias sobre as obsessões da avó de Hanna com vendas de garagem, figuras de animais e sua paixão por Bob Barker do programa The Price Is Right. Até o momento que a refeição acabou, Hanna e seu pai continuaram caindo na gargalhada, sem se preocupar em se explicar. Isabel levantou-se para limpar a mesa, mas o Sr. Marin acenou para ela se sentar. — Eu limpo — ele disse. — Eu limpo também — Kate ofereceu rapidamente. Hanna apertou a mandíbula. — Não, eu limpo com você, pai. — A última coisa que ela queria era que Kate usurpasse o amor do pai dela novamente. O Sr. Marin sorriu. — Ei, se vocês duas vão limpar, eu acho que vocês não precisam de mim! — Ele empilhou os pratos e entregou-os a Hanna. — Que tal você lavar e Kate secar? Hanna olhou para a panqueca de batata do prato, se perguntando se isso era um truque da parte dele para fazer ela e Kate se relacionarem.


Kate já estava enchendo a pia com sabão na hora que Hanna caminhava com todos os pratos. — Então, você gostou da sua pequena celebração? — ela disse em uma voz fria, entregando a Hanna um pano de prato. — Foi muito boa — respondeu Hanna tão fria quanto ela. — Minha mãe e eu cozinhamos por horas. — Kate limpou um suor imaginário do rosto. — Você poderia ter pelo menos ajudado. Então, onde você estava depois da escola, afinal? Hanna mergulhou as mãos na água quente. — Apenas por aí. Fazendo compras. Indo a academia. Eu não sabia que você ia fazer isso por mim. Kate levantou uma sobrancelha. — Durante quatro horas? Foi uma maratona de compras. Ou uma maratona de academia. Ela olhou para Hanna por um longo tempo. Hanna segurou o olhar de Kate, tentando ao máximo não demonstrar nada. De jeito algum ela diria a Kate sobre o campo de treinamento. Ela iria zombar disso continuamente e de forma irritante. Kate encostou-se no balcão e estreitou os olhos. — Eu acho que você está escondendo alguma coisa. — Não, eu não estou. — Hanna respondeu um pouco rápido demais. — Talvez você esteja escondendo alguma coisa. Kate congelou. — Eu... — Ela jogou o pano de prato na ilha. — Nem eu — ela disse firmemente, em seguida, se virou e caminhou em direção ao corredor. Hanna ouviu seus passos na escada, em seguida, a batida forte da porta do quarto de Kate. Okaaay. O desaparecimento brusco de Kate significava que ela teria que limpar tudo sozinha, mas tudo bem. Parecia que ela tinha acabado de ganhar uma discussão sem sequer se esforçar. E com Kate, isso era nada a não ser um milagre.


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UM ALONGAMENTO SEXY FAZ BEM AO CORPO Na manhã seguinte antes da escola, Hanna olhou-se no espelho de corpo inteiro da Body Tonic e ajustou as alças da sua regata preta Lululemon. Em seguida, se virou e checou sua bunda com o short curto preto e rosa, satisfeita de ver que suas pernas pareciam tonificadas e sexys. Ela passou de leve um hidratante colorido nas bochechas e no nariz, passou um tubo de gloss nos lábios, amarrou seu cabelo castanho brilhante em um rabo de cavalo e borrifou um pouco de Aveda Chakra 4 em seus pontos de pressão. Todo cara que ela conhecia ficava louco pelo cheiro. Lucas tinha amado ele, mas ele tinha ido para uma praia de nudismo com a Puke-a-tan e se esquecido dela. Ela ainda não tinha recebido uma única mensagem dele. Ela cobriu todas as fotos dele do quarto dela para que ela não tivesse que olhar para os olhos azuis dele e se perguntar se Brooke estava olhando para eles naquele momento. Hanna estava realmente animada para a aula começar. Pelo menos quando Vince estava dando ordens, ela estava distraída demais para se sentir triste por causa de Lucas. Quando ela abriu a porta da sala de ginástica, ela ouviu gemidos. — Isso é muito, muito bom — disse alguém. Hanna parou, se perguntando se um casal havia se escondido no quarto para uma seção de pegação da manhã — eca. Mas então, ela viu um flash de uma camiseta vermelha familiar. Uma das campistas estava deitada no chão, com as pernas para o ar. Vince estava em cima dela, puxando seu pé para alongar o tendão. — Isso está relaxando o músculo? — Vince murmurou, sorrindo para a garota. — Oh, sim — ela respondeu com um ar sonhador. — Isso é incrível. Os cabelos de trás do pescoço de Hanna se levantaram. Era Dinah Morrissey, a garota sinta-minha-bunda. — Quer que eu faça na outra perna? — Vince perguntou. — Claro — Dinah ronronou com uma voz rouca, levantando um tênis xadrez Vans slip-on. Dinah não podia sequer usar um tênis Nikes ou Reeboks como uma frequentadora de academia normal. Hanna cruzou a sala o mais rápido que suas pernas podiam levá-la. Talvez ela não pudesse competir com Brooke a mil quilômetros de distância, mas ela estava bem aqui na frente de Vince, e a escolha entre ela e Dinah era óbvia. — Hum, Vince? — Ela sorriu maliciosamente. — Eu ia te pedir para você me alongar também. O treino de ontem foi de matar. — Ela girou uma mecha de cabelo em torno do dedo. — Você se importaria? Eu estou com muita dor. Vince levantou-se e olhou de Dinah para Hanna. — Hum, com certeza, eu acho que posso — ele disse, soltando a perna de Dinah. — Nós temos alguns minutos antes de todo mundo chegar. Dinah sentou-se e cruzou os braços sobre o peito amplo. — E eu? — Eu alongo você depois da aula — Vince prometeu. Há, Hanna pensou triunfante. — Deite-se — Vince instruiu, e Hanna fez o que ele mandou. Ele disse a ela para levantar a perna esquerda, dobrar o joelho e cruzar a perna direita sobre ele. Ele se


inclinou sobre ela, suas mãos tocando suas pernas levemente e pressionando. — Como se sente? — Muito melhor — Hanna sussurrou, olhando nos olhos de Vince, que tinha um tom deslumbrante de turquesa. Uma vez, quando Hanna e Mona entraram na academia na oitava série, quando elas estavam apenas começando suas transformações de garotas populares e bonitas — Mona estava parada atrás de Vince no bar de sucos e deixou cair seu troco no chão para tentar chamar a atenção dele. Quando Vince virou os olhos azuis, ela se sentiu hipnotizada. — Eu não consegui dizer uma palavra — ela falou eufórica. — Ele era muito lindo. Hanna esperava que Mona estivesse observando ela de onde diabos ela estivesse e morrendo de inveja. — Você está realmente dolorida de ontem, hein? — Vince murmurou. — Mmm-hmm — Hanna murmurou. — Mas é um tipo bom de dor, sabe? — Eu estou dolorida também — Dinah interrompeu, sentada de pernas cruzadas ao lado deles. Ela tinha o tipo de decote que os caras poderiam colocar notas de dólares dentro. — E você estaria tão orgulhoso de mim, Vince. Eu comi frango grelhado e legumes na noite passada no jantar, como no seu plano de refeição. — Isso é ótimo. — Vince parecia encantado. Bajuladora, Hanna pensou. — Há quanto tempo você trabalha na academia? — Hanna perguntou em voz alta, desviando a atenção de volta para ela. Vince colocou as mãos em torno do joelho de Hanna. — Há algum tempo, eu acho. Tempo suficiente para observá-la. Eu via você correndo na esteira. Você tem um ótimo corpo. — Ele riu envergonhado. — Desculpe. Espero que não tenha soado estranho. — Claro que não — disse Hanna rapidamente. — Então, você sempre quis ser um treinador? — Bem, sim e não — disse Vince. — Eu realmente gostaria de abrir meu próprio spa. Teria treinamento particular, mas também uma série de serviços de corpo também. — Parece incrível — Hanna falou animada. — Eu amo spas. Dinah riu de uma forma bem-humorada que parecia amistosa, mas Hanna sabia que era sarcástica. — Todo mundo adora spas — ela disse. Hanna desejou que ela pudesse expulsar ela com um dos pesos de dez quilos apoiados no canto. Ela não sabia que era rude se meter na conversa dos outros? Vince estava prestes a dizer mais alguma coisa, mas, em seguida, a porta da sala de ginástica se abriu, e o resto da turma entrou, cada um deles usando novamente suas camisetas COLOQUE SEU TRAZEIRO EM AÇÃO!. Hanna esperava que eles tivessem lavado elas. — Ok — Vince disse, soltando a perna de Hanna e caminhando até a parte da frente da sala. Todos se reuniram em torno dele. Hanna olhou por cima do ombro, certificando-se de que ninguém estava à espreita no corredor. Ela pensou nas suspeitas de Kate de ontem após o jantar. Kate não tinha seguido ela até aqui, tinha? A última coisa que Hanna precisava era de fotos de si mesma suada e se agachando com um bando de perdedores vazando na internet. — Então, eu queria falar com vocês hoje sobre nutrição e bem-estar do corpo inteiro — Vince estava dizendo, ficando na posição de lótus no chão. — Estar em forma não se trata apenas de exercícios, também se trata de comer direito. Fazer escolhas saudáveis. Sentir-se bem em sua pele. E eu quero que todos prometam estar saudáveis e se sentirem bem em sua pele durante esse retiro. Ele passou folhas de papel que diziam PROMESSAS DO CAMPO DE TREINAMENTO no topo. Era uma longa lista, cada item começava com eu me comprometo. Eu me comprometo a comer apenas alimentos leves — sem açúcar


refinado, sem xarope de milho rico em frutose, sem aromatizantes artificiais. Eu me comprometo a não beber álcool ou fumar cigarros. No final havia um espaço para assinatura. — No momento em que essa classe acabar, o meu objetivo é que todos vocês se sintam bem na pele de vocês, não importa qual seja o corpo de vocês ou quantos quilos vocês perderam — disse Vince. — E uma coisa que pode ajudar vocês a se sentir bem é isso. Ele ergueu uma garrafa de água. Impresso no lado havia uma etiqueta que dizia em letras minúsculas AMINOSPA. — Essa é a água vitamínica mais incrível que eu já experimentei. Dá energia, ela libera toxinas, eu até acho que me ajuda a me concentrar melhor. Eu sou um vendedor licenciado, mas eu vou dar a vocês uma amostra grátis. Ele pegou mais garrafas de AMINOSPA de sua bolsa de ginástica e lançou uma para cada um. — Eu acho que vocês vão gostar — ele encorajou. — Se vocês quiserem mais, eu vendo várias por um ótimo preço. — Você disse que você mesmo vende também? — Dinah perguntou, inclinando a cabeça e franzindo os lábios carnudos. Vince concordou. — É um ótimo trabalho de tempo parcial, você pode vendê-las de casa. Se vocês estão interessados, eu posso dar o folheto de vendas. Esse tipo de negócio lembrou Hanna da nona série quando a mãe de Chassey Bledsoe tinha começado a vender imitações de faca Ginsu de porta em porta, se gabando que ela estava trabalhando em casa e ganhando muito dinheiro. Ela ainda tinha convencido Chassey a levar amostras com ela para Rosewood Day para tentar vender durante o almoço. Assim que a diretoria havia descoberto que Chassey tinha uma mala cheia de facas na propriedade da escola, eles impediram imediatamente. Mas Vince parecia tão sério sobre a água AminoSpa, como se ele realmente acreditasse que ela estava deixando todo mundo mais saudável e feliz. Hanna pegou a garrafa que ele tinha jogado para ela, abriu a tampa e tomou um longo gole. Ela lutou contra o impulso de cuspi-la. Tinha o gosto aguado de margarita. Vince bateu palmas. — Tudo bem. Vamos começar a transpirar, não é? As próximas semanas vão ser muito intensas, vocês vão ser forçados até seus limites. Muitos de nossos exercícios vão envolver lutas, competições e parcerias, por isso eu vou formar pares. A pessoa que eu emparelhar com vocês será o seu parceiro pelo resto da aula; vocês vão passar muito tempo juntos. Eles serão seu incentivo para os seus objetivos nutricionais e espero que um amigo pelo resto da vida. Com isso, Vince atirou a Hanna um olhar tímido e fugaz, e o estômago de Hanna se revirou. Era definitivamente um sinal: Ele iria emparelhá-la com ele. Ela já podia imaginar a cena: os dois lutando, Vince colado nela. Os dois correndo na pista Marwyn, os outros lentos à distância. Depois de cada sessão, eles beberiam café com leite — ou AminoSpas — juntos, e se divertiriam juntos. Então, quando Lucas voltasse, ela mostraria o quão bem ela ficou enquanto ele estava fora. — Tara, eu quero você com Josie. — Vince apontou para as duas mulheres de meia idade na parte de trás. Elas sorriram uma para a outra agradavelmente. — Ralph, você vai ser parceiro de Jerome. — Dois caras de barriga de barril e pernas separadas assentiram. Vince continuou ao redor da sala, combinando os membros de camisa vermelha um com o outro. Seu olhar continuava passando por Hanna, pulando ela. Porque ele estava deixando-a para ele mesmo, é claro. Finalmente, Vince apontou para Hanna e sorriu. — Hanna. Você vai ficar com... Hanna esperava que ele batesse no próprio peito e dissesse triunfantemente comigo, então quando ele apontou para alguém do outro lado da sala, ela não entendeu. Ela pensou que ela fosse a única pessoa que tinha sobrado, mas outro membro tinha


sobrado. As mรฃos da menina estavam sobre seus quadris cheios. Ela se moveu em seus Vans xadrez. Seus olhos fortemente delineados se estreitaram e seus lรกbios vermelhos estavam curvados em um sorriso de escรกrnio. Era Dinah.


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NAMORADOS DE MENTIRINHA SÃO MUITO MAIS DIVERTIDOS Na tarde de sábado, Hanna caminhou rapidamente para dentro do Momma’s Sweet Shoppe, uma nova-mas-feita-para-parecer-antiga sorveteria do shopping Devon Crest. O chão era xadrez preto e branco, havia bancos antiquados de cromo e couro no balcão, e um quadro-negro com tipos de sorvetes floats, malts e vários sabores do dia estava pendurado acima das máquinas de milk-shake. Os garçons usavam camisas brancas imaculadas, coletes com listras vermelhas e brancas e chapéus brancos de papel e uma música doo-wop soava no aparelho de som. O pai dela, Isabel e Kate a seguiram, fazendo brr por causa do vento forte e as temperaturas abaixo de zero que eles tiveram que suportar no estacionamento. — Me diga de novo, por que vamos tomar sorvete agora? — Hanna disse, seus dentes ainda se batendo. O Sr. Marin desenrolou o cachecol grosso e vermelho do seu pescoço. — Porque Kate e a mãe dela faziam isso depois de cada performance de Quebra-Nozes que Kate dançava. Certo, damas? — Certo — Isabel disse com orgulho, dando tapinhas no ombro de Kate. — Para a minha pequena Clara é sempre duas bolas de sorvete de hortelã. Hanna reprimiu um gemido. Era a mesma frase melosa que Isabel vinha dizendo durante o dia inteiro, na ida até Philly para ver uma matinê de O Quebra-Nozes na Academia de Música, na subida ao palco dos atores para receber os aplausos no final do balé, e na longa caminhada do local de estacionamento até o shopping. Kate era a pequena Clara dela, a criança principal de O Quebra-Nozes, o papel que Kate dançou por quatro anos com sua companhia de balé de Annapolis, e que tinha sido a peça de balé favorita de Kate desde então. Honestamente, Hanna não entendia o fascínio por esse balé — a casa de uma menina rica é infestada de ratos; bengalas doce, flocos de neve e estranhos homens russos que não deixavam ela dormir e, então, ela e um Rei Rato em um colete realmente feio desaparecendo dentro de uma colmeia gigante. Parecia uma viagem longa e estranha. — Eu aposto que você ainda é uma bailarina incrível. — Isabel empurrou uma mecha de cabelo dos olhos de Kate. — Você deveria ver ela dançando, Tom. Ela é tão graciosa. — Talvez você devesse assistir algumas aulas de novo — o Sr. Marin sugeriu. — Você poderia voltar a encenar. — Você é muito gentil. — Kate girou a pulseira David Yurman de prata em seu pulso. — Mas eu estou sem prática. Você só não quer porque você já não é mais a melhor da classe, Hanna pensou amargamente, lembrando-se da única experiência dela com balé. Ela e Ali tinham se inscrito numa classe na ACM, e quando todas elas fizeram grand jetés pela sala, Ali tinha caído em risos, dizendo que Hanna parecia com um hipopótamo usando um tutu.


Agora, Hanna suspirou. Depois de sua nova família ter feito uma comemoração do Hanukkah para Hanna algumas noites atrás, tudo tinha voltado ao normal logo em seguida. Os tolos Doze Dias do Natal haviam sido retomados, embora Hanna tenha sido capaz de escapar de um monte deles por causa do campo de treinamento. Ela tinha que continuar mentindo sobre para onde estava indo, mas até agora o pai dela não tinha lhe pressionado sobre isso — provavelmente porque ele realmente não queria ela lá. Ela tinha tentado contar uma piada para seu pai sobre Bubbe Marin e Morty, o indecente papagaio Africano cinza durante a refeição de hoje, mas Kate tinha interrompido ela, dizendo ao pai de Hanna sobre como Tchaikovsky tinha baseado o conto O QuebraNozes nos antigos contos infantis. Seu pai tinha acenado para Kate como se fosse a história mais interessante do mundo. Enquanto isso, apesar de Hanna ter checado obsessivamente a página do Facebook de Lucas, ele não havia dado sinal de vida. Ela estava meio tentada a ligar para o resort dele e xingá-lo por ignorá-la. Enquanto esperavam na fila do sorvete, Isabel contou outra memória de como Kate-era-uma-bela-bailarina. De repente, escutar a conversa de Quebra-Nozes foi demais para ela. — Eu tenho que ir ao banheiro — Hanna interrompeu, saindo da fila. — Só pegue para mim uma garrafa de água — disse ela, lembrando do comprometimento do campo de treinamento que ela tinha assinado. — Nós vamos caminhar pelo shopping com os nossos sorvetes. — O pai dela falou atrás dela. — Procure por nós na Brookstone, ok? — Uh-huh — Hanna respondeu distraidamente, serpenteando ao redor das mesas pequenas e sacos de compras enormes da Saks, Build-A-Bear, e da loja da Apple. Seu peito estava apertado, como se ela estivesse prestes a chorar. Seu pai havia prestado atenção nela há alguns dias, revivido os velhos tempos, rido e brincado com ela como se eles sempre fizessem isso. Mas agora isso parecia ter sido há muito tempo atrás. Ele não tinha percebido o quanto ela apreciava isso? — Hanna — uma voz chamou, e Hanna se virou. Sentado na pequena mesa no canto com uma pequena tigela de sorvete e uma garrafa de AminoSpa na frente dele, estava Vince da Body Tonic. Por um momento, Hanna não o reconheceu. Ele estava vestindo calça jeans, um suéter e botas marrons grossas. — Oi — disse Hanna, instintivamente passando a mão pelo rosto para se certificar de que não havia lágrimas escorrendo por suas bochechas. — O que você está fazendo aqui? — Compras. — Vince sorriu. — E tomando sorvete. — Hanna olhou para a taça quase vazia com uma sobrancelha levantada. Vince ergueu as mãos em sinal de rendição. — Você me pegou. Sorvete de pecan com manteiga é o meu ponto fraco. Esse lugar vai ser a minha morte. — Ele fez sinal para ela se sentar. — Eu nunca pensei que você tivesse uma fraqueza por alimentos — Hanna disse enquanto se sentava em uma cadeira de frente para ele. Ela apontou para o monte de sacolas de compras na cadeira ao lado dele. — Você conseguiu tudo da sua lista? Vince concordou. — Na sacola Toys ‘R’ Us tem um presente para uma criança carente. E o resto é para a minha família. Sua família está por aqui? — Ele apontou para Isabel, Kate e o pai de Hanna. Hanna fez uma careta. — Esses são meu pai, minha madrasta, e... Kate. — Ela preferia morrer do que se referir a Kate como sua família. Ela ficou olhando para a sacola Toys ‘R’ Us da cadeira. — É meigo você ter comprado um presente para alguém de um abrigo. É aquele em Yarmouth? — Ela


lembrou de Spencer sendo voluntária de lá na sétima série, porque isso seria bom para sua solicitação para a faculdade. Só Spencer pensaria em faculdades no primeiro grau. Vince bebeu um gole de sua garrafa de AminoSpa. — É algo que eu faço todos os anos. Um grupo da Body Tonic vai para lá na segunda-feira para entregar os presentes doados. É uma experiência muito gratificante. — Isso é tão meigo. — Vince era como o Brad Pitt com suas doações para as vítimas do furacão Katrina. O Sr. Marin terminou de pagar, e ele, Isabel e Kate caminharam para a saída. Só então um homem em uma roupa de Papai Noel passou perto deles. Ele olhou para a sorveteria e sorriu maliciosamente para Hanna. Hanna pegou a mão de Vince. — Rápido. Finja que você é meu namorado. — O quê? — Vince perguntou. — Só até o Papai Noel ir embora. — Ela acenou ligeiramente com a cabeça em direção à janela. Papai Noel ainda estava lá. Ela não tinha certeza de onde seus olhos estavam focando por causa dos óculos de sol, mas ela tinha um palpite muito bom. — Ele deu em cima de mim alguns dias atrás, me pedindo para sentar no colo dele. Eu não quero que ele pense que eu estou disponível. Vince riu e apertou a mão de Hanna. As palmas das mãos deles se encaixavam perfeitamente, e ela se sentiu subitamente calma e feliz. — Ok, finja que eu acabei de dizer algo realmente engraçado — Vince sugeriu. — Ha ha! — Hanna fingiu rir, jogando a cabeça para trás. — Você é muito lindo! — Ela estendeu a mão e tocou a ponta do nariz dele. — Não, você que é linda — Vince disse, tocando o nariz de Hanna também. Ela desejou que ele achasse isso e não que eles estivessem apenas fingindo. Eles fingiram rir por mais alguns segundos até Papai Noel encolher os ombros e ir embora. — Obrigada — Hanna suspirou. — Sem problema — Vince respondeu. — Sabe, uma amiga minha trabalha na Gap daqui, e ela também falou algo sobre o Papai Noel ser pervertido. Ele está dando um grande problema para o shopping. Eu não estou surpreso por ele ter dado em cima de você, no entanto. Calor se espalhou pelo rosto de Hanna. Ela mordeu o lábio inferior e baixou os olhos, fingindo estar fascinada pela forma mosaica da mesa. Isso significava que Vince achava ela bonita? A máquina de milk-shake zumbiu atrás do balcão. Uma menina bateu a colher contra seu prato vazio. Finalmente, Vince tossiu sem jeito. — Então, eu estou feliz por você ter decidido permanecer no campo de treinamento. Você está indo muito bem. Hanna sorriu. — Eu também estou feliz. Embora eu tenha ficado surpresa por você ter me emparelhado com Dinah. Vince franziu a testa. — Eu achei que vocês duas estariam perfeitas juntas. Hanna resistiu à vontade de bufar. Ontem de manhã, enquanto Dinah segurava as pernas de Hanna durante as abdominais, ela havia sussurrado: Só pra você saber, eu estou vendo sua calcinha. O que Hanna respondeu dizendo que o batom escuro de Dinah fazia ela parecer um cadáver. Então, durante o alongamento em dupla, Dinah tinha reclamado a Vince que Hanna estava alongando ela incorretamente, para que Vince alongasse ela ao invés. E durante a sessão da noite, Vince tinha proposto um agachamento para a classe, o vencedor ganharia um prêmio especial. Determinada a vencer, Hanna tinha se agachado e se agachado até seus músculos das pernas parecerem ter escorrido pelos joelhos. Um por um, os outros membros da classe caíram no chão, gemendo. A única pessoa que continuou, ao lado de Hanna, foi Dinah. Subindo e descendo elas continuaram.


Inspirando e expirando. — Maravilhoso, meninas! — Vince berrou. — Continuem assim! Mas então, a visão de Hanna tinha começado a embaçar. Ela caiu no chão, e Dinah soltou um grito. O prêmio de Dinah tinha sido uma garrafa de AminoSpa — há há. Mas ela olhou para Hanna, lambeu o dedo, pressionou-o contra a bunda e fez um barulho estranho. — Vocês duas são jovens e ávidas — Vince explicou agora. — Mas mais do que isso, eu acho que você é uma grande inspiração para Dinah. Eu não tenho certeza de que ela já levou a academia a sério antes, enquanto você parece que vem cuidando de si mesma há anos. Eu acho que você pode realmente ajudá-la a alcançar os objetivos dela. Hanna se animou. Isso fazia sentido. Ela nunca tinha pensado em si mesma como uma inspiração de academia, mas talvez ela fosse. Ela poderia ser como Jillian Michaels, ou o cara de cabelos compridos e de corpo bombado dos DVDs de yoga da mãe dela, sendo severa com Dinah ela dava muito incentivo. — Bem, eu estou feliz em poder ajudar — ela disse, cruzando os braços sobre a mesa. — Na verdade, se você quiser se encontrar comigo para falar sobre como eu poderia ser... mais inspiradora, eu ficaria feliz em ouvi-lo. Vince concordou contemplativamente. — Claro. Isso seria ótimo. — Eu também gostaria de ouvir mais sobre AminoSpa algum dia — Hanna acrescentou, apontando para a garrafa quase vazia. Isso fez com que os olhos de Vince se iluminassem. — Absolutamente. Eu posso te dar o resumo completo. Então Vince disse que era melhor ele ir. Os dois se levantaram e eles se despediram, e Hanna caminhou empinada para longe dele, esperando que ele estivesse dando uma boa olhada em sua bunda já mais firme. Seu coração estava disparado, seu rosto parecia corado, e ela se sentia bonita, radiante e desejada. Mas, quando saiu da loja, ela avistou algo fora da janela. EM BREVE, um cartaz grande dizia em uma loja do outro lado do corredor. RIVE GAUCHE. Ela sentiu uma pontada de culpa. Rive Gauche era o restaurante do Shopping King James que Mona e ela costumavam ir religiosamente — e era o lugar que Lucas trabalhava. Eles se conheceram lá, na verdade, Lucas tinha perseguido Hanna quando Mona tinha deixado a conta para ela, e eles desenvolveram uma amizade que levou ao namoro. Talvez fosse errado ficar fingindo estar com um cara quando Hanna tinha um namorado totalmente real de férias no outro lado do continente. Só porque Brooke era uma vadia anoréxica bronzeada não queria dizer que Lucas ia cair nas garras dela. Talvez até mesmo houvesse uma explicação para ele não ter mandado mensagem para ela ainda. Talvez a família Beattie tenha sido sequestrada por traficantes mexicanos e eles roubaram o iPhone dele. Ela tinha visto isso uma vez na série Locked Up Abroad. Ela pegou o celular para checar se havia notícias sobre Yucatán, mas antes mesmo da CNN carregar, um alerta apareceu em sua tela. Lucas Beattie foi marcado em uma nova foto, dizia. O coração de Hanna saltou. Então Lucas estava vivo! Ela clicou no link, o navegador abriu a página dela do Facebook. A foto de Lucas estava bem no topo do feed de notícias, Brooke tinha postado ela. Não havia nenhuma mensagem, apenas uma foto dele e de Brooke sentados em uma praia de areia branca, abraçados. Seus corpos pressionados juntos. Pele contra pele. O sorriso de Lucas ocupava praticamente a foto inteira. Hanna olhou para a foto pelo que pareceu horas. Isso parecia pior do que a pior dor de cabeça do mundo. Finalmente, ela saiu do Facebook e checou sua caixa de entrada para ver se tinha chegado quaisquer mensagem ou e-mail dele, mas não havia nenhum.


Ele nem tinha twittado ou — Deus me livre — ligado. A mensagem era em alto e bom som. Lucas tinha se esquecido dela, trocando Hanna pela Puke-a-tan. O que significava apenas uma coisa. Hanna também trocaria Lucas — por Vince.


10

ISSO É EMBRULHAR Na segunda-feira depois da escola, Hanna estacionou em um pequeno estacionamento na frente de um edifício em frente à estação SEPTA de Yarmouth. ABRIGO DE SEM-TETO DE YARMOUTH, dizia uma placa com letras azuis desbotadas sobre a porta. Uma patética coroa de natal de plástico estava pendurada em uma das janelas, e alguém tinha amarrado algumas luzes de Natal em torno dos arbustos do caminho da frente. — Tem certeza que esse é o lugar que você se voluntariou? — Hanna disse em seu celular. — Parece que vai cair a qualquer momento. — Tenho certeza — Spencer Hastings respondeu do outro lado da linha. — E, bom pra você, Han, por estar se voluntariando. — Sim, bem, talvez a situação difícil com A tenha me tornado uma pessoa melhor — Hanna murmurou antes de pressionar FINALIZAR. Mas, na verdade, não era isso que a tinha incentivado a vir para o abrigo hoje. Era porque ela sabia que um certo treinador lindo iria estar aqui. Ela estava inteiramente no modo Faça Vince Querer Hanna. Ela não tinha se deixado pensar em Lucas e em Puke-a-tan desde que viu a foto do Facebook no sábado. Ela também tinha evitado o Facebook desde então, não querendo ver mais posts de Lucas e Brooke se afagando na praia. Mas se ela tinha sido dispensada, ela iria para a escola depois das férias de inverno com um novo corpo sexy e um namorado mais velho. Erguendo os ombros, ela caminhou até a frente do lugar e virou a maçaneta da porta. O abrigo tinha cheiro de madeira velha e mofada, e de suor. Uma mesa desocupada foi a primeira coisa que ela viu, em seguida, uma mini árvore de Natal giratória no chão. Ao longe, ela ouviu sons de papéis se amassando, tesouras cortando e risadas. — Olá? — Hanna chamou. Uma mulher com cara de torta em um suéter com um desenho de rena surgiu de uma porta marcada com BANHEIRO e sorriu. — Olá! Você é...? — Hanna. — Ela fez um gesto em direção aos sons de papéis se amassando. — Eu vim para embalar. — Excelente. Você veio na hora certa, temos toneladas de presentes esse ano, por isso precisamos de toneladas de ajuda. Eu sou Bette. A mulher levou Hanna por um longo corredor que era iluminado por painéis fluorescentes feios até uma grande sala com um monte de mesas e uma cozinha na parte de trás. Presentes estavam empilhados no chão, e havia tubos de papel de presente, laços, fitas e etiquetas em todos os lugares. Rockin’ Around the Christmas Tree estava tocando em um rádio portátil, e um monte de pessoas estava embrulhando presentes e bebendo o que cheirava a chocolate quente de copos térmicos. — Apenas pegue um presente e embrulhe — disse Bette. Então ela rebolou de volta na direção da recepção.


Hanna olhou em volta para a multidão de pessoas. A maioria deles parecia estudantes da Hollis, vestindo jeans rasgados, Uggs e casacos Patagonia. Ela não via Vince em nenhum lugar. Esse era o lugar onde ele era voluntário, não era? Mas então, uma porta na esquerda se abriu, e ela viu seu cabelo escuro, ombros largos e sorriso brilhante. Yeah. Hanna levantou a mão para acenar, mas Vince parecia distraído, sorrindo para algo do outro lado da sala. Uma menina sentada em cima de uma das mesas, colocando um laço brilhante em cima de um presente embrulhado. Vince andou até ela, disse algumas palavras e os dois começaram a rir. Então, ele se afastou novamente, desaparecendo em um dos quartos dos fundos. O olhar de Hanna permaneceu na menina. Quando ela reconheceu os cabelos negros de colmeia da menina, ela exalou bruscamente. Era Dinah. Hanna caminhou até ela e bateu em seu ombro. — O que você está fazendo aqui? Dinah se virou, seu sorriso vacilou. Ela cruzou os braços sobre o peito. — Vince mencionou sobre embrulhar presentes para o abrigo de sem-teto há alguns dias. Eu achei uma ideia realmente legal, então eu me inscrevi também. Hanna estreitou os olhos. — Você realmente acha que ele vai se interessar por você? — Eu sei que ele vai. — Dinah bufou. Então ela olhou para Hanna de cima a baixo de tal forma que fez Hanna se sentir envergonhada. Ela tinha tirado seu uniforme da Rosewood Day e tinha vestido um jeans skinny da Madewell — um tamanho 38, graças a Deus — e combinado com um top de seda folgado que amarrava no pescoço e um par de botas de camurça macios. Dinah, por outro lado, estava usando um vestido caseiro de xadrez que alargava sua cintura e mostrava um pouco dos seios, e um par de Mary Janes preto. O único acessório salvando era sua pequena bolsa Chanel acolchoada, que estava na mesa ao lado dela. Parecia exatamente como uma das que as estrelas usavam na Us Weekly e InStyle. Certamente a de Dinah era falsa, certo? Vince voltou com um monte de presentes desembrulhados em suas mãos. Quando ele viu Hanna, seu queixo caiu. — Hey! — ele disse com um sorriso se espalhando em todo o seu rosto. — É tão bom ver você aqui! Há, Hanna pensou. Ele provavelmente não tinha dito isso a Dinah. — Só queria ajudar — ela disse, tentando parecer humilde. — Vocês são fantásticas. — Vince passou para Hanna um tubo de papel de embrulho e duas tesouras. — Estou tão feliz por você ter decidido vir. Fazer esse tipo de coisa é muito bom para a alma, sabe? — Absolutamente — Dinah falou animada, baixando seus longos cílios. — Eu sou totalmente a favor de se voluntariar. Minha escola incentiva isso. — Se voluntariar é obrigatório na minha escola — disse Hanna. — Que escola você estuda, Dinah? — Ela esperava que Dinah fosse dizer na Rosewood Pública, ou talvez em uma das escolas alternativas Quaker onde todos eram obrigados a trabalhar na fazenda do campus. — Larchmont Academy — Dinah respondeu rigidamente. — É em Haverford. — Eu sei onde é — Hanna falou, tentando esconder o choque. Antes dela se tornar amiga de Ali na sexta série, ela pediu a mãe dela para estudar na Larchmont Academy. Não só porque toda pessoa famosa que tinha crescido em Main Line se graduou lá, mas a escola oferecia aulas como História da Moda e deixavam os estudantes fazerem estágios em lugares tão longe quanto Nova York ou Washington, D.C., durante o último ano.


Se Dinah fosse qualquer outra pessoa, Hanna teria gostado de perguntar a ela sobre a Larchmont. Tinha sempre a opção de ir para lá no último ano se frequentar a mesma escola que Kate for demais. Mas ela não queria dar esse gostinho a Dinah. — Larchmont Academy nos patrocina para voluntariarmos nos lugares mais incríveis — Dinah disse a Vince, cortando uma comprida folha de papel de presente. — No ano passado, eu fui à uma viagem para a Somália para trabalhar em um hospital. Era basicamente uma tenda ao ar livre. Um ano antes, eu reconstruí casas que foram destruídas no terremoto do Haiti. — Que incrível — Vince falou enquanto rasgava um pedaço de durex do distribuidor. Hanna abriu a boca, querendo se gabar de algum trabalho voluntário superior que ela também tenha feito, mas ela não conseguiu pensar em um único. Ela olhou para Vince, que estava sorrindo para Dinah como se ela tivesse acabado de inventar a penicilina. Hanna se virou para os presentes dela, pegou um foguete de brinquedo e ajeitou o papel de presente nos lados, prometendo ser o presente melhor embrulhado. Os outros voluntários paravam perto deles algumas vezes para pegar um durex ou trazer um rolo de fitas coloridas, conversando brevemente com Vince. Hanna reconheceu duas meninas da Body Tonic — uma delas, Yolanda, que era a instrutora de Pilates, e a outra trabalhava como salva-vidas. Cerca de meia hora depois, Dinah saiu da mesa e pediu licença para usar o banheiro. Essa era a oportunidade de Hanna. — Então você teve que fazer um zilhão de supino para queimar o pecan com manteiga do outro dia? — Hanna brincou, deslizando para mais perto dele. Vince olhou para cima. — Shhhh. — Ele olhou secretamente para os treinadores da Body Tonic. — Se eles souberem que eu sou viciado em sorvete, todo mundo vai ficar sabendo. Hanna deu uma risadinha. — O que eu ganho se eu não contar? Vince levantou uma sobrancelha, flertando. — Hmmm. Bem, o que você quer? Ok, é assim que eu gosto. Hanna limpou a garganta e se inclinou sobre a mesa, pressionando sua coxa na cintura de Vince. — Vamos tomar um café um dia desses. Conversar... sabe. Sobre academia. Papais Noéis pervertidos. Vince riu. — Isso parece incrível. — Ótimo. Que tal quarta-feira? — Hanna perguntou. A luz se apagou dos olhos de Vince. — Uh, eu não posso quarta-feira — disse ele, evitando contato com os olhos dela. Antes que Hanna pudesse sugerir outro dia, Bette chamou Vince para ajudá-la com uma doação pesada. Quando Vince se afastou, a mente de Hanna lutou por respostas. Ela tinha feito algo errado? Dito algo errado? Ela ouviu uma pequena risada emergir das sombras. Ela se virou, claro que tinha que ser Dinah, mas Dinah estava longe da vista. — Aham. — Hanna olhou para cima e viu Yolanda, a instrutora de Pilates, olhando para ela da mesa ao lado. — Eu não queria escutar, mas eu ouvi vocês conversando — ela disse em voz baixa. — Não leve isso para o lado pessoal. Vince está sempre ocupado nas noites de quarta-feira. Hanna piscou para ela. — Para onde ele vai? — Opções desagradáveis veio à mente dela. Para os Viciados em Sexo Anônimos. Um encontro com um monte de caras para jogar EverQuest. Em um encontro com uma namorada da internet de cinquenta anos de idade e com peitos de silicone. Yolanda colocou no chão o presente que ela estava embrulhando e se aproximou. — Ele canta com a igreja dele toda quarta-feira. Eles vão de porta-em-porta em Hollis,


cantando canções religiosas e, como é coisa bíblica e tudo, não é realmente o tipo de coisa que ele gosta de falar para as meninas. — Oh — Hanna disse calmamente. Cantar com a igreja dele não parecia tão ruim. — Ele está em busca de uma boa menina católica para se comprometer. — Yolanda lançou um olhar maternal na direção de Vince. Ele estava conversando com Bette e apontando para a garrafa de AminoSpa. Hanna assentiu com a cabeça, se animando. Ela poderia ser a boa menina católica que Vince estava procurando — bem, a boa menina judia, mas qual a diferença? Era hora de aquecer a voz: Na quarta-feira, ela iria cantar. E pela primeira vez, Dinah não estaria lá para arruinar o clima.


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EU VI ALGUÉM BEIJANDO O PAPAI NOEL Na quarta-feira à tarde, depois da escola, Hanna atravessou as portas duplas do Devon Crest, passou pela Otter e a malvada Lauren, e caminhou para o segundo andar da Saks. Se cantar essa noite era a única chance de agora ou nunca com Vince, ela precisava encontrar a roupa perfeita para conquistá-lo. Algo comportado, mas bonito, como algum casaco de lã preso na cintura Diane von Furstenberg. Ou talvez uma daquelas jaquetas com pele no capuz e nos punhos. Algo que dissesse sagrado, não sacanagem. — A pequena cidade de Belém — Hanna cantava baixinho junto com a música de fundo nos alto-falantes. Ontem à noite, ela pegou os CDs mais religiosos de Isabel de Natal e aprendeu as letras, incluindo todos os versos de Joy to the World, a versão em latim de O Come, All Ye Faithful e O Christmas Tree — por que as músicas natalinas começavam com O? — em alemão. Ela também memorizou a Ave Maria e o ato de contrição das orações católicas para completar, mas tinha se parado antes de fazer o pedido de um rosário na Amazon. Em um momento da noite passada, Isabel parou na frente do quarto de Hanna, levantou as sobrancelhas para a música que emanava do som de Hanna. — Bem — ela tinha dito, apertando a mão no peito. — É tão bom que você esteja entrando no espírito, Hanna! Uma rajada fresca de Chanel No. 5 flutuou em suas narinas quando Hanna entrou na loja de departamentos. Uma vendedora num balcão MAC cumprimentou-a, e após dar a ela um pequeno aceno e, depois de olhar mais uma vez para os novos tons de sombra de olhos, Hanna desviou para o departamento de roupas. Manequins vestidas com saias lápis e blusas de cashmere feitas com o algodão mais suave imaginável estavam posicionadas ao lado de mesas dobráveis em formato de T. O ar cheirava a Gucci Envy, e quando Hanna olhou-se no espelho, ela não pôde deixar de notar que sua bunda parecia menor e seus braços estavam definitivamente menos inchados. As idas de manhã e de noite para o retiro da academia estavam fazendo mágica. Até Vince tinha comentado sobre o quão ótima ela parecia nessa manhã — mas por outro lado, ele também tinha dito isso a Inez, que tinha ombros de zagueiro, e Richard, cujo estômago se sacudia sobre o cós de sua bermuda. Seu olhar cravou em um vestido transpassado verde-esmeralda Elizabeth and James pendurado em um rack. Ela arfou, já se imaginando nele, seria a roupa de coral perfeita. O único que tinha sobrado na prateleira era um tamanho 40, mas ela tinha certeza de que ela caberia nele. Ela se moveu em direção a ele, mas uma pessoa entrou na frente dela, agarrando-o primeiro. — Hey! — Hanna gritou. — Eu ia levar isso! — Desculpe — disse uma voz familiar. Em seguida, a pessoa se virou. — Hanna? — Dinah — rosnou Hanna, reconhecendo a menina de cabelos escuros usando um casaco branco de lã feio estilo anos cinquenta, saia poodle e bolsa acolchoada Chanel. Era como se Dinah fosse a nova A dela. O olhar de Hanna caiu no vestido nas mãos de Dinah. — Esse não é o seu tamanho — disse ela, incapaz de esconder o desdém em sua voz. — Não é o seu estilo também.


Dinah agarrou o vestido contra o peito. — Como você sabe qual é o meu estilo? E eu sou mais magra do que pareço, Hanna. Nem todas nós não temos peitos e temos uma bunda reta. Nem todas nós temos uma cintura flácida, também, Hanna quis retrucar. Ela apontou para o vestido. — Onde você está planejando usá-lo? Um sorriso malicioso atravessou o rosto de Dinah. — Em algum lugar — ela disse enigmaticamente, e instantaneamente o coração de Hanna começou a bater forte. Ela tinha um encontro com Vince? Eles estavam fazendo outra atividade voluntária juntos? — De onde você conhece Elizabeth and James, afinal? — Hanna exigiu. Um bufo exasperado saiu das narinas de Dinah. — Minha tia trabalha na Bazaar, em Nova York. Eu fui para o desfile da Elizabeth and James do Fashion Week do ano passado. — Você foi? — Hanna falou antes que pudesse se conter. Ela morria de vontade de ir a um desfile da 7th on Sixth, até mesmo para um de designers menos conhecidos — inferno, até mesmo para um dos vencedores do reality show Project Runway. E deve ser incrível ter uma tia que trabalhava na Bazaar. Hanna vacilou, considerando deixar Dinah levar o vestido, mas depois ela lembrou Vince sorrindo para ela sobre a mesa da sorveteria. — Eu vi o vestido primeiro — ela insistiu. — Eu toquei nele primeiro. — Dinah pressionou o vestido no peito. — Vai ficar melhor em mim, afinal. — Ele absolutamente não vai ficar melhor em você. — Hanna estendeu as mãos. — Seus seios são muito grandes. — Sim, bem, seu corpo é muito reto de cima a baixo. — Dinah levantou o cabide sobre a cabeça de Hanna, para que ela não pudesse alcançá-lo. Hanna pulou para tentar pegar ele. — Você vai parecer patética nele. — Você vai enjoar dele em uma semana. — Dinah escondeu o vestido nas costas. — Eu tenho certeza que você é uma vadia inconstante. — Eu não sou inconstante! — Hanna gritou. — Você é lamentável! E sua tatuagem é horrível! Não vai combinar com ela! As meninas olharam uma para a outra. — Só dê ele para mim! — Hanna pulou nas costas de Dinah. — Não combina com você, ok? Dinah se afastou dela. Hanna deixou escapar um bufo de raiva e se inclinou para ela novamente, puxando o vestido das mãos dela. — Há! — Ela cantarolou, agitando-o sobre a cabeça como uma bandeira e correndo para os provadores. Um casal de compradores olhou com surpresa. Uma vendedora parou no balcão com a boca aberta. — Volte aqui! — Dinah gritou, logo atrás dos calcanhares de Hanna. Hanna se contorceu em torno das araras de roupas, a entrada dos provadores em plena vista. De repente, ela sentiu dois braços fortes envolverem sua cintura e puxá-la para baixo. Dinah caiu em cima dela e, por um momento, Hanna foi esmagada contra a tatuagem do braço dela. Ela sentiu o vestido sendo puxado para longe dos dedos dela. — Como você se atreve?! — ela murmurou. — Me larga! Para a surpresa de Hanna, Dinah saiu de cima dela, Hanna ainda estava agarrando o vestido firmemente. Dinah não estava nem olhando para ela, em vez disso, estava olhando para algo nos provadores. — Shh! — ela sussurrou. Hanna aguçou os ouvidos, com medo de que ela fosse ouvir a risada estridente e estranha que a tinha assombrado recentemente. Mas em vez disso, ela ouviu um som alto vindo de dentro de um dos provadores.


— O que é isso? — Hanna disse, se levantando lentamente. Ela se arrastou para mais perto dos provadores, que estavam vazios, exceto pelo barulhento. Dava para ver dois pares de sapatos por baixo da porta, dois deles botas pretas escuras, os outros, saltos impecáveis preto e branco que pareciam vagamente familiares. Hanna trocou um olhar com Dinah. Com um leve aceno de cabeça, Dinah a incentivou a se aproximar. Na ponta dos pés, Hanna deu mais alguns passos em direção ao provador. Os sapatos e botas sob o provador estavam misturados. Os sons aumentaram de intensidade. De repente, a porta se abriu, e duas pessoas saíram para o corredor. Hanna se pressionou contra a parede, puxando Dinah com ela. Lá, refletido no espelho de três vias, estava um cara de terno vermelho de Papai Noel, gorro de Papai Noel, barba de Papai Noel e botas pretas brilhantes. — Você é tão gostosa — Papai Noel disse em uma voz pervertida. Ele estava chupando o pescoço de uma garota magra, e a menina estava passando a mão pela barba dele. Hanna olhou para ela. O cabelo castanho da menina foi arrumado em um coque francês bagunçado, sua bunda era inexistente, e em seu pulso fino como o de bailarina havia uma pulseira prata David Yurman muito familiar. Era Kate. Hanna pegou seu celular, que estava convenientemente no bolso da frente de sua bolsa, e tirou uma foto. Então, ela e Dinah correram para fora do provador. Sem fôlego, ela desabou sobre uma mesa de jeans e elas olharam uma para a outra por um longo tempo. Na mesma hora, elas estouraram em gargalhadas.


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ALMAS GÊMEAS Algumas horas mais tarde, Hanna se sentou em uma banqueta rasgada do Snooker, um bar da faculdade de Hollis. Havia camisas esportivas em todas as paredes e feias lâmpadas bankers verdes por trás do balcão, e o ar cheirava a palitinhos de mussarela fritos e cerveja velha. Uma música antiga de Bruce Springsteen tocava na jukebox, e o lugar estava lotado de jovens universitários barulhentos. — Ok, quem você preferiria? — Hanna disse, examinando a multidão — o Sr. Estou Assumindo A Empresa Do Papai Daqui a Cinco Anos ou o Sr. A Única Coisa Interessante Em Mim É Que Eu Sou Irlandês? — Ela apontou para dois rapazes da faculdade de enfermagem tomando cervejas no canto. O primeiro cara usava uma camisa da moda e tinha um olhar presunçoso em seu rosto que só alguém com um fundo fiduciário poderia tirar. O segundo tinha características pastosas, cabelo vermelho, usava uma camiseta que tinha DUBLIN escrito e estava bebendo — é claro — a cerveja irlandesa Guinness. — Ugh, nenhum. — Dinah colocou a azeitona do seu martini na boca. — Olha para as meninas que estão com eles! Isso é uma bolsa Burberry que ela está carregando? Isso é tão 2001! — Olha quem está falando, a menina que usa saias poodle — Hanna brincou, cutucando Dinah no braço. Dinah fingiu estar ofendida. — Saias poodle são retrôs — disse ela arrogantemente. — Eu te perdoo — disse Hanna. — Afinal, você tem uma bolsa incrível. — Ela apontou para a bolsa acolchoada Chanel de Dinah que estava no banco. Ela tinha descoberto que ela não era falsa — a tia de Dinah que trabalhava na Bazaar tinha colocado Dinah no topo da lista de espera, então, ela conseguiu uma bolsa numa loja flagship de Nova York. O barman entregou outro martini para Dinah e outra vodka de amora para Hanna, e elas brindaram. Uma sensação morna de felicidade tomou conta de Hanna quando ela tomou o primeiro gole. Depois que ela e Dinah tinham corrido para longe de Kate e do Papai Noel no provador, elas deixaram o vestido Elizabeth and James em uma mesa qualquer, propuseram uma trégua e decidiram ir a algum bar universitário. Dinah havia deixado o carro dela no shopping e elas vieram no Prius de Hanna, elas conversaram sobre moda, produtos de beleza, celebridades e suas boutiques suburbanas favoritas, os quatro assuntos favoritos de Hanna. A conversa fluiu naturalmente, como se elas tivessem sido amigas durante anos. Mas, quando elas se aproximaram do Snooker, Hanna tinha ficado apreensiva. Ela não tinha uma identidade falsa, e depois de ser detida por causa de um furto no último outono, ela realmente não queria que a polícia fosse atrás dela de novo. Dinah tinha apertado a mão dela e dito: — Deixe comigo. — Ela caminhou até o segurança, que tinha cabelo curto e usava uma corrente de ouro grossa no pescoço, e disse: — Ei, Jake! Lembra de mim?


O segurança tinha sorrido para Dinah apreciativamente, mas depois tinha pedido para ver as identidades das meninas. Dinah tinha esticado o lábio em um beicinho. — Vamos lá, Jakie-poo. Não faça isso. — Ela traçou seus dedos de cima a baixo no braço dele. Finalmente, o segurança apenas deu de ombros e abriu a porta para elas. No interior, Hanna fez um gesto com o polegar para cima para Dinah. Isso foi algo que Ali também faria. Dinah pegou uma batata frita do prato que elas tinham pedido. — Nós estamos fazendo o oposto dos nossos compromissos do campo de treinamento. Aposto que Vince vai saber e vai nos fazer malhar por cinco horas na próxima sessão. — Sim, eu posso sentir gordura voltando para as minhas coxas — Hanna brincou. Dinah acenou com a mão. — Como se você já tivesse alguma vez gordura nas coxas! Por que você se juntou ao acampamento, afinal? Hanna revirou os olhos. — Uh, porque eu estou terrivelmente fora de forma e não consigo caber em nenhuma das minhas roupas? Dinah olhou para ela como se ela fosse louca. — Você é uma daquelas meninas que se olha no espelho e se vê como uma vaca? — Eu não sou assim — Hanna assegurou. Ou ela era? Toda vez que ela olhava seu reflexo, ela encontrava algo de errado. Seu cabelo estava oleoso. Seus braços estavam inchados. Seu rosto era muito redondo. Uma grande parte do tempo, ela mal percebia todo o trabalho duro que ela e Mona tinham tido na oitava série. Tudo o que ela via era a antiga Hanna, a perdedora que ela era voltando no ensino médio. Hanna jogou uma batata frita na boca. — Sabe, eu tive uma amiga bem bonita uma vez. Ela era popular, linda, o tipo de garota que todas queriam ser. Eu era do grupo dela, mas ela sempre deixava claro que eu estava lá por um fio. Ela fazia piada do jeito que eu comia, dos meus jeans que não cabiam, de tudo. Depois de tantos anos ouvindo isso, é difícil de apagar. Dinah apoiou os cotovelos no balcão. — Então, o que aconteceu com essa menina? Você abandonou ela, certo? Hanna manteve os olhos fixos nas garrafas de Absolut atrás do bar. — Na verdade... ela está morta. O nome dela era Alison DiLaurentis. Talvez você já tenha ouvido falar dela. — Talvez eu tenha ouvido falar dela? — Os olhos de Dinah se arregalaram. — Essa foi a notícia mais bombástica de Rosewood. Eles encontraram o corpo dela há pouco tempo, certo? Hanna assentiu com a cabeça. — Uau. — Dinah empurrou para trás o resto do seu martini. — Sabe, eu conhecia Alison. — Você conhecia? — Hanna ergueu a cabeça rapidamente. — Uh-huh. — Um olhar distante apareceu no rosto de Dinah. — Nós nos conhecemos em um campo de hóquei de campo que eu costumava jogar na escola primária antes de eu finalmente admitir aos meus pais o quanto eu odiava. Alison jogava no campo, também. Ela liderava um grupo de meninas de lá, obrigava elas a fazer tudo o que ela queria. E por um tempo, eu fui alvo dela. Elas me chamavam de Dinah Vagina. Eu nunca fiz nada com elas. — Isso é terrível — disse Hanna. — Ali costumava me chamar de Hanna MonTON-a. (Ton: Tonelada) E um monte de outros nomes que eu não quero nem lembrar. Parte de mim deseja que ela pudesse de alguma forma ver o quanto eu perdi peso, desde que eu me transformei. Então Hanna suspirou. — Na verdade, o que eu estou dizendo? Ali provavelmente ainda encontraria algo em mim para criticar se ela estivesse por perto agora.


— Só que agora você não seria amiga dela, certo? — Disse Dinah, enganchando o braço com o de Hanna. — Você é muito forte e independente para dar atenção a aquela vadia. — Totalmente — Hanna disse, trêmula, embora ela não tivesse certeza se isso era verdade. As palavras zombadoras de Ali ainda a assombravam, especialmente quando elas reencarnaram através de Mona como A. Mas ela sentia uma afinidade ainda mais forte com Dinah agora. Ali havia importunado ambas, para melhor ou para pior. Elas tinham sido as meninas que Ali tanto gostava de provocar. Um grito surgiu atrás delas, e Hanna se virou e viu o Sr. irlandês arrastando um monte de cervejas para uma mesa. — Sexy — ela murmurou, cutucando Dinah. — Eu iria para casa com ele essa noite. Dinah riu. — Eu pensei que você estivesse se poupando para Vince. — Eu pensei que você estivesse — respondeu Hanna. Um longo momento se passou, então, de repente, as meninas caíram na gargalhada. Dinah suspirou. — Eu não sei qual é a desse cara. Eu o vi do lado de fora do ginásio dois dias atrás, e ele falou sobre como ele estava feliz por você e eu estarmos emparelhadas, ele pensou que eu poderia realmente te ajudar e te ensinar alguma coisa. Hanna bateu no balcão com a palma da mão. — Eu não acredito nisso. Ele disse a mesma coisa para mim, sobre você! Uma das sobrancelhas de Dinah se ergueu. — Você acha que ele quer que a gente compita pela atenção dele? Esse provavelmente foi o grande plano dele o tempo todo. — Que idiota — Hanna falou irritada. — Ele age como um santo, mas ele está realmente tentando fazer nós nos jogarmos nele. — Ela odiava pensar em Vince desse jeito, mas talvez fosse verdade. — E aquela porcaria de água vitamínica que ele continua empurrando em nós? — Dinah revirou os olhos. — Toda vez que eu me viro ele bebe aquilo. — Eu aposto que não tem nenhuma vitamina nela — disse Hanna. — E tem provavelmente um zilhão de calorias. Fizeram uma lavagem cerebral nele. — Sabe de uma coisa? — Dinah tinha um olhar determinado no rosto. — Ele é um perdedor. Nós estamos melhor sem ele. — Concordo! — Hanna cantarolou bêbada, sentindo uma onda de confiança. — E ele realmente é um perdedor. Adivinha o que ele vai fazer hoje à noite? Ele vai cantar com um grupo de pessoas da igreja dele. Eles cantam canções super religiosas, e provavelmente vão encenar o presépio ou algo assim. É uma tradição de quarta-feira. — Sério? — Dinah fez uma careta. — Uh-huh. E eu ia me meter nisso. — Hanna fez uma pausa para beber o resto da vodka de amora. — Aparentemente, Vince está em busca de uma boa menina da igreja para se comprometer. Mas esqueça isso. Ele não vale a pena. — Bom plano. — Dinah assentiu com determinação. — Vamos jantar ao invés. Vince vai cantar e nós vamos estar nos divertindo. — Combinado — disse Hanna, dando um tapa na mão de Dinah. Em seguida, ela riu. — Sabe, Vince provavelmente vai beber AminoSpa entre todas as músicas. Dinah quase cuspiu a bebida de tanto rir. — Ele provavelmente escreveu uma música sobre AminoSpa! — Ele provavelmente vai tentar vender de porta em porta, enquanto eles cantam em alemão! — Hanna riu, imaginando. Elas se dobraram em histeria, provocando alguns olhares estranhos de todos ao redor delas. Mas Hanna não se importava. Ela também não se importava de ter acabado de abrir mão de Vince. Ela tinha feito uma nova amiga. Talvez isso fosse o que ela queria o tempo todo.


13

TE PEGUEI! — Hanna? Hanna? Hanna abriu um olho e viu seu pai em pé na porta. Ela se sentou. Havia um gosto de meia suja em sua boca, e sua cabeça parecia que pesava quinhentas mil toneladas. Ela também suspeitava de que ela cheirava a álcool, ela não conseguia se lembrar de ter tomado banho depois de ter voltado do Snooker na noite passada. — Seu alarme tocou por meia hora. — O Sr. Marin apontou para o celular de Hanna no criado-mudo, que estava piscando. — Alguns de nós estão tentando dormir mais um pouco. Hanna olhou grogue para seu celular, em seguida, apertou um botão para parar o barulho do alarme. — Desculpe — ela murmurou. Seu pai resmungou alguma coisa e fechou a porta. Ela olhou para o relógio. Era 05h30, hora de levantar para a sessão da manhã do campo de treinamento. Hanna gemeu e rolou para fora da cama, lamentando a dose de tequila que ela tinha tomado com Dinah na noite passada celebrando por Vince ser um perdedor. A dose tinha finalizado a noite — após tragar tudo, o rosto de Dinah tinha se tornado verde, e ela correu para o banheiro. Quando ela voltou, ela disse que deveria ir para casa. Depois disso, a única coisa que Hanna lembrava era de tirar dinheiro suficiente para pagar o medidor da Hollis para deixar o Prius estacionado durante a noite, de chamar um táxi e tropeçar cegamente dentro de casa. Felizmente, Isabel, seu pai e Kate estavam fora fazendo algum tipo de atividade dos Doze Dias do Natal, então ninguém tinha pego ela. Ela pegou os equipamentos de ginástica, deslizou os pés nos tênis, chamou um táxi para pegar o carro na Hollis, e dirigiu para a academia. Enquanto caminhava em direção à entrada da frente da Body Tonic, ela pegou o celular e escreveu uma mensagem para Dinah. Você está aqui hoje? Se sentindo uma merda como eu? Se eu tivesse uma AminoSpa — há, há. Ela clicou em ENVIAR, esperando que Dinah a respondesse imediatamente, mas ela não teve resposta. Talvez Dinah houvesse faltado o treinamento e ainda estivesse dormindo. O interior da Body Tonic cheirava a óleo de massagem e flores frescas, o que fez o estômago de Hanna revirar. A menina alegre na recepção deu-lhe um aceno, e Hanna caminhou para o vestiário sem dizer olá de volta. Ela olhou para o celular mais uma vez antes de jogá-lo no armário, mas Dinah ainda não tinha respondido. Encolhendo os ombros, ela se dirigiu para a sala onde o encontro de treinamento sempre acontecia. Quando ela empurrou as portas e viu Dinah de pé na frente do espelho, com a cabeça jogada para trás dando risada, Hanna parou. Dinah parecia fresca e saudável, como se ela não tivesse bebido uma gota de álcool na noite passada. Ela estava de pé ao lado de Vince, um frasco de AminoSpa na mão, sorrindo para ele como se ele fosse o Messias. Vince também estava sorrindo para ela.


— Sua interpretação de Away in a Manger foi incrível — Dinah falou com ternura. — Tão sincera. — Sim, bem, todo mundo gostou de você ter tido a ideia de improvisar um presépio no gramado do Sr. Larsen — Vince respondeu. — O que fez você pensar em algo assim? — Ah, eu não sei. — Dinah baixou os cílios. — Eu canto na igreja desde a minha primeira comunhão. Eu realmente sei fazer as pessoas entrarem no espírito. Ela pegou a mão de Vince. Vince envolveu seus dedos ao redor dos dedos dela e apertou. Eles olharam um para o outro nos olhos como se fossem almas gêmeas, e então se aproximaram e se beijaram. A boca de Hanna se escancarou. Ela queria correr da sala, mas as solas do tênis dela pareciam estar cimentadas no chão. Dinah tinha ido... ao coral? O coral que Hanna tinha dito a ela? A conversa da noite passada passou em sua mente. Quando Dinah disse que Vince era um perdedor. Quando Dinah disse que elas ficariam melhores sem ele. Quando ela fugiu logo depois de Hanna ter dito a ela sobre a missão dela de ir secretamente ao coral de Vince, alegando que a dose de tequila tinha deixado ela enjoada. Foi tudo uma falcatrua? Um grunhido atormentado saiu dos seus lábios, e Dinah e Vince se viraram. Assim que Dinah viu Hanna, os cantos dos seus lábios formaram um sorriso maligno. Vince deu a Hanna um aceno envergonhado. Hanna agarrou o braço de Dinah. — Nós precisamos conversar. Ela arrastou Dinah para o corredor, parando ao lado de uma grande pilha de círculos mágicos de pilates. — Que diabos foi isso? Dinah se balançava de um lado ao outro em seus calcanhares. — Que diabos o quê? — Sua voz soava totalmente diferente da voz da menina incrível, amigável e conspiratória que se sentou ao lado de Hanna na noite passada no Snooker. — Eu pensei que tínhamos feito uma trégua! Eu pensei que nós duas tivéssemos decido que ele era um perdedor! Dinah começou a rir. — Eu disse que ele iria me escolher. Tudo é justo no amor e na guerra. A cabeça de Hanna rodou, deixando-a sem equilíbrio. — Eu não consigo acreditar nisso — ela sussurrou, sentindo um nó na garganta e lágrimas correrem pelos olhos. Mais imagens da noite passada brilharam em sua mente. Quando Dinah disse, sem constrangimento, que ela adoraria que Hanna fosse para Larchmont Academy — ela iria amar alguém legal como Hanna lá. Quando Dinah prometeu apresentar sua tia editora da Bazaar a Hanna quando ela a visitasse no Natal. Quando Dinah tinha dado a Hanna um grande abraço quando elas saíram, dizendo que ela a veria no outro dia. — Eu pensei que nós fossemos amigas — Hanna grunhiu. — Oh, por favor. — Dinah revirou os olhos. — Você só está chateada porque eu te enganei. Como se você não fosse fazer a mesma coisa comigo? — Eu não iria. Eu não fiz — Hanna grunhiu, sua voz soando da forma mais patética e vulnerável do que ela gostaria. E então, antes que as lágrimas pudessem derramar pelo seu rosto, ela se virou e foi para o vestiário. Seus dedos tremiam enquanto ela colocava a combinação do armário. Ela pegou sua bolsa e saiu do ginásio sem sequer colocar o casaco. Assim que ela saiu para o ar frio, ela deixou escapar um soluço reprimido. As lágrimas escorriam quentes e rápidas por seu rosto. Ela cambaleou até o carro e se inclinou sobre o capô, sentindo-se como se um balão de água enorme dentro dela houvesse estourado. Ela chorou pela morte de Ali. Pelo horror de Mona. Pelo pesadelo


que era a sua nova família. Por ela não ter ouvido falar nada sobre Lucas. Por ela ter perseguido Vince, quando quem ela realmente queria era Lucas. Tudo parecia tão... errado. — Ah, alguém está arrasada? Hanna olhou para o estacionamento através das lágrimas. Uma figura estava do outro lado do carro dela com um pequeno sorriso no rosto. Por um momento, Hanna teve medo de que fosse Ali. Mas então sua visão clareou. Essa menina tinha cabelos castanhos, não loiros. Era Kate, contra a porta do seu Honda Civic, olhando para Hanna, num dos piores momentos da vida dela.


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DESTRUIÇÃO MÚTUA ASSEGURADA — O-o que você está fazendo aqui? — Hanna gaguejou, se endireitando. Kate riu. — O campo de treinamento foi demais para você hoje, Hanna? — Ela estendeu algo em suas mãos. Era uma camiseta vermelha extra-grande que dizia COLOQUE SEU TRAZEIRO EM AÇÃO! O estômago de Hanna caiu. — Eu-eu não sei do que você está falando. — O programa parece realmente incrível. — Kate esticou a camiseta de forma zombeteira debaixo do nariz de Hanna. — Eu tenho certeza que todos da Rosewood Day gostariam de saber o que você andou fazendo. Ela pegou o celular e mostrou a Hanna uma série de imagens. Hanna e os campistas de camisa vermelha correndo por um percurso com obstáculos de pneus por trás da Body Tonic, todos eles gordos, com o rosto vermelho e parecendo ridículos. Os campistas reunidos em um círculo em um dos rituais de tomar AminoSpa de Vince. E o golpe final: Dinah e Vince aos beijos, e Hanna quase agora de pé na entrada, parecendo devastada. Ela tinha visto tudo. — Me dê isso — Hanna disse, tentando pegar o celular de Kate. Kate o levantou sobre a cabeça de Hanna. — Não tão rápido! — Você esteve me seguindo? — Hanna gritou. — Você não tem nada melhor pra fazer? — O que eu posso fazer? Eu adoro um bom segredo. — Kate se balançou de um lado a outro em suas Uggs forradas de pele. — E alguém me deu uma dica incrível, então eu te segui até aqui. Um arrepio passou pela espinha de Hanna. Quem poderia ter feito isso? Imediatamente, A veio em sua mente... mas A tinha morrido. — Não tenha vergonha de participar de um campo de treinamento de gordo! — Kate continuou. — Pelo menos você está fazendo uma mudança positiva, sabe? — Ela digitou algo em seu celular. — Eu acho que isso daria um post encantador no seu mural do Facebook. E talvez as pessoas simpatizem com você por ter perdido um cara para outra menina! O coração de Hanna acelerou. — Eu não estou interessada em Vince! Kate deu a ela um olhar compreensivo. — Você pode continuar dizendo isso a si mesma, Hanna. Mas as fotos não mentem. Agora, qual legenda seria boa para o Facebook? O campo de treinamento é tão incrível, e olhem só os meus novos amigos incríveis? Ou que tal algo mais simples tipo: Colocando minha bunda enorme em ação? Hanna deixou escapar um gemido. Ela era ‚amiga‛ de todos os tipos de pessoas no Facebook. Inclusive Naomi Zeigler e Riley Wolfe, duas vadias populares que adorariam saber disso. Meninas veteranas que convidavam ela para festas incríveis. Mason Byers, James Freed, Noel Kahn, e o ex dela, Sean Ackard. Mona querendo matar Hanna era ruim o suficiente — um post sobre o campo de treinamento cimentaria o status dela como uma perdedora de uma vez por todas. Ela já se via sentada sozinha no refeitório


na hora do almoço. Passando todos os sábado à noite no quarto. Nunca sendo convidada para uma festa novamente. — Por favor, não poste isso — Hanna gemeu. — Eu estou te implorando. Eu faço qualquer coisa. Uma das sobrancelhas de Kate se levantou. — O que eu ganho com isso? Um vento forte soprou, adormecendo as orelhas e a ponta do nariz de Hanna. Ela olhou para a estrada vazia na frente da Body Tonic e vasculhou seu cérebro. O que ela tinha que Kate queria? Ela não tinha dado o suficiente? Desde que Kate tinha posto os pés na casa de Hanna, a vida de Hanna tinha ido de mal a pior. Kate já havia usurpado toda a atenção do pai de Hanna. Assim que ela chegasse em Rosewood Day, ela provavelmente se tornaria a garota mais popular de sua série, roubando o lugar de Hanna. O que mais ela poderia pegar? O que ela não daria para Mona estar aqui agora — a Mona que ela conhecia antes de todas as coisas com A começar. As duas poderiam rir na cara de Kate, dizer que ela não se atreveria a enfrentá-las e depois se virariam e dirigiriam para longe deixando uma nuvem de fumaça do cano de escape. Se Ali estivesse aqui seria ainda melhor: ela colocaria o braço em torno de Hanna, se inclinaria para perto e sussurraria: — Você tem uma coisa sobre ela também, Han. Essa é a coisa boa dos segredos, você pode usá-los contra ela. De repente, Hanna ergueu a cabeça rapidamente. Era como se Ali tivesse falado com ela além do túmulo. Ela tinha algo sobre Kate, algo que ela quase tinha se esquecido. Ela começou a rir. — O que foi? — As sobrancelhas de Kate se juntaram. As risadas continuaram vindo. Hanna remexeu na bolsa para pegar seu celular. — Você não vai postar nada no Facebook. Porque se você fizer isso, eu vou dizer a todos sobre o Papai Noel. Kate franziu o cenho. Por uma fração de segundo, um olhar de puro terror atravessou seu rosto. — Hein? — Você sabe do que eu estou falando — Hanna disse com zombaria, clicando na foto que ela estava procurando em seu celular e empurrando-a para Kate. Papai Noel acariciando o pescoço de Kate. Kate passando as mãos na barba de algodão do Papai Noel. — Uma legenda que encaixaria seria Alguém foi travessa esse ano. E você não ouviu falar que o cara é um pervertido total? — Hanna repreendeu. — Ele paquera meninas de 12 anos de idade! Kate se afastou de Hanna, sua boca se abrindo e se fechando como um peixe. — Por favor, não. — Foi tudo o que ela sussurrou. — Eu acho que nós temos um acordo, então. — Hanna apertou o botão de desbloqueio em seu chaveiro. — Se você postar as imagens do campo de treinamento na internet, eu posto isso. Okay? Kate não respondeu, mas Hanna sabia que ela tinha concordado. Com a cabeça erguida, ela se sentou no banco do motorista, virou a ignição, e tirou rapidamente e habilmente o carro do lugar. — Bye-bye! — Ela falou animada, acenando com os dedos para sua meia-irmã. Kate permaneceu onde estava, a camiseta vermelha pendurada ao seu lado. Hanna foi embora sem dar a sua meia-irmã uma segunda olhada. Quando ela saiu do estacionamento, uma frase que Ali disse muitas vezes e que Hanna tinha adotado veio à mente dela: Eu sou Ali, e eu sou fabulosa. Hanna também se sentia malditamente fabulosa agora.


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TELEFONISTAS ESTÃO A POSTOS! Quando ela voltou para casa, a cozinha estava silenciosa e desocupada. Água jorrava do chuveiro no andar de cima, e Hanna podia ouvir os sons suaves das notícias da manhã no quarto do seu pai. Fora da janela, os gêmeos de seis anos de idade, que moravam ao lado, saíram correndo frenéticos da garagem, usando chapéus de elfos do Papai Noel. Hanna engoliu dois Advils e começou a fazer o café. Por alguns minutos, o único som na cozinha era da água gotejando na cafeteira. Ela olhou fixamente para a página do jornal Philadelphia Sentinel, desejando que a dor de cabeça fosse embora. Ian Thomas Continua Alegando Inocência, dizia uma manchete. Ela virou o jornal para baixo. Essa era a última coisa que ela queria pensar agora. Ian tinha que ser culpado. Quem mais tinha um motivo para matar Ali? Hanna olhou para o papel novamente e se encolheu. No canto inferior esquerdo tinha um anúncio gigante da Body Tonic Academia e Spa. Lá, tinha o rosto sorridente de Vince em preto e branco, listando os exercícios disponíveis de agora até o Ano Novo, as taxas de iniciação eram apenas $50. Ela não conseguia acreditar no que Dinah fez — e que Vince tinha escolhido uma aberração como ela ao invés de Hanna. Se ela tivesse aparecido no coral em vez de Dinah, Vince teria escolhido ela ao invés? Por que ele tinha agido como se estivesse afim de Hanna pra começar? O que Dinah disse era verdade — ele estava apenas tentando fazer as duas competirem por ele? Depois de tudo o que ela tinha passado com A, ela deveria ter sabido que Dinah iria apunhalá-la pelas costas. Uma imagem passou em sua mente. Ela viu o carro de Mona vindo na direção dela em alta velocidade novamente. Ela sentiu o impacto, seu corpo voando no ar e o grito preso na garganta. Uma pessoa após a outra continuava traindo ela. Hanna esfregou as têmporas e tentou dar respirações lentas e uniformes. Ainda havia alguém que ela podia confiar? Ela olhou para o celular sobre a mesa, em seguida, rolou através da sua lista de contatos, se perguntando se deveria ligar para Spencer. Ou talvez Emily. Ou Aria. Ela se lembrou de uma troca de presentes que elas tinham feito na sétima série, logo antes das férias. Aria tinha tricotado sutiãs com pêlo de cabra para elas, e todas elas experimentaram eles por cima de suas roupas e dançaram em torno do quarto de Ali. Ali até mesmo estava de bom humor naquele dia, ela não tinha tirado sarro de Hanna por o sutiã ter se esticado sobre o seu peito. O irmão de Ali, Jason, entrou no quarto no meio da festa de dança delas. Ele olhou para elas com as vestimentas bizarras, e todos eles desmoronaram em risos. Hanna ouviu uma tosse no corredor, e olhou para cima assim que o seu pai entrou na cozinha usando roupão de banho e chinelos. — Hey — ele disse em uma voz cansada, bagunçando o cabelo. — Se importa se eu tomar um pouco desse café? — Fique à vontade — disse Hanna.


O Sr. Marin derramou parte da cafeteira na caneca Doberman que ele usava desde que Hanna era criança. Ele se sentou ao lado dela, soltou um suspiro longo e cansado, e esfregou os olhos. — Está tudo bem? — Hanna perguntou. Sua cabeça se balançou pra cima e pra baixo. — Eu estou apenas cansado. Essas atividades dos Doze Dias do Natal foram um pouco loucas esse ano. Isabel me arrastou para um monte de lugar. — Me desculpe por não ter participado de todas elas — disse Hanna, se sentindo um pouco culpada. O Sr. Marin acenou com a mão. — Talvez você tenha sido inteligente por perdêlas. — Ele deu-lhe um olhar conspirador. — Entre você e eu? Eu acho que eu gostava mais quando comemorávamos o Hanukkah. Pelo menos, ele só prolongava por oito dias. E era muito mais discreto. Hanna mordeu o lábio inferior. — Eu gostava mais quando comemorávamos ele, também. O Sr. Marin abriu a boca como se fosse dizer mais alguma coisa, mas depois pareceu mudar de ideia e só tomou outro gole de seu café. Um silêncio caiu entre eles. O relógio em formato de bengala doce que Isabel tinha pendurado no canto soou alto. Um motor grunhiu lá fora. Em seguida, o Sr. Marin deu um tapinha na coxa de Hanna. — Isso me lembrou de uma coisa. Eu tenho algo para você. — Ele se levantou, foi até sua pasta executiva ao lado da porta e tirou uma pequena caixa de veludo. Hanna olhou para ela, reconhecendo-a imediatamente. Ela levantou a tampa e encontrou o mesmo medalhão Cartier que ela encontrou no dia que o pai dela, Isabel e Kate se mudaram. Ela nunca pensou que ela iria segurá-lo novamente. — Isso é... pra mim? — É claro que é para você. Foi da sua avó. — Eu sei — Hanna murmurou, tirando o medalhão da caixa. Ele brilhou na luz do teto. — É lindo — ela sussurrou. — Eu sempre quis ele. — Eu sei — o Sr. Marin disse, escondendo um sorriso. — Sua avó iria querer que você ficasse com ele. Eu também quero que você fique. Hanna se levantou e deu ao seu pai um grande abraço. — Obrigada. — Ela queria acrescentar: por não dar a Kate ou a Isabel, mas ela estava com medo de que fosse estragar o momento. De repente, tudo parecia um pouco melhor novamente. Talvez seu pai não tivesse esquecido dela, afinal. Talvez ele ainda se lembrasse, de alguma forma, que ela estava aqui, que ela ainda importava. Ela virou-se para que o pai pudesse prendê-lo no pescoço dela. O medalhão se pendurou perfeitamente em sua garganta, e Hanna não conseguiu resistir a passar o dedo sobre a forma oval e lisa. O Sr. Marin terminou seu café, em seguida, tirou uma garrafa de água de sua pasta e tomou um longo gole. — Bem, eu tenho que ir. — Espere um segundo. — Hanna olhou para a garrafa em sua mão. A etiqueta dizia AMINOSPA. — Onde você conseguiu isso? O Sr. Marin fechou a tampa da garrafa. — Um cara estava vendendo no escritório. Ele disse que essas bebidas têm uma tonelada de vitaminas e que eu me sentiria melhor quando eu começasse a beber duas garrafas por dia. Mas eu não me sinto diferente, para ser honesto com você. E isso meio que tem gosto de suco de limão podre. Hanna sorriu tristemente. — Eu acho que essa coisa é uma fraude. — Provavelmente. — O Sr. Marin deu de ombros. — Eu acho que o motivo de vender isso é recrutar outras pessoas para vender, também. O cara veio com um longo papo sobre como eu poderia ser um associado AminoSpa de tempo parcial. Eu faria


toneladas de dinheiro e nunca teria que usar outra coisa a não ser pijama. — Ele riu bem-humorado. — As pessoas que aceitam vender essas coisas são como membros de culto, eles fazer uma lavagem cerebral total. E quando eles entram, não há mais jeito de sair. Ele colocou a garrafa AminoSpa no balcão e deu a Hanna um beijo no alto da cabeça. Seus chinelos davam tapas suaves no chão enquanto ele saia da cozinha. Hanna ficou imóvel por alguns momentos, olhando para a garrafa AminoSpa no balcão. Era uma loucura pensar que ela tinha tido uma paixonite por um cara que tinha ficado preso em um esquema de pirâmide. Dinah totalmente poderia ficar com ele. De repente, ela teve uma ideia. Ela se levantou, correu até a garrafa e olhou para as informações da empresa na parte de trás. Para se juntar a nossa equipe, ligue agora! dizia debaixo de um número 1-800 e um site. Com o coração disparado, Hanna tirou o telefone da casa do gancho e discou o número. — AminoSpa Indústrias! — Uma voz jovial atendeu quase que imediatamente. — Você está interessado em fazer parte da nossa equipe? — Uh, sim — Hanna disse em sua voz mais profissional. — Meu namorado vende AminoSpa, e eu adoraria fazer parte também. — Isso é maravilhoso! — O telefonista falou animado. — Qual é o seu nome? — Dinah Morrissey — Hanna disse, sorrindo para o seu reflexo na janela. Ela soletrou o nome, em seguida, deu o endereço de Dinah ao telefonista, que estava na lista de participantes do campo de treinamento que Vince tinha dado a eles no primeiro dia. — Por favor, me envie cem caixas. — Cem? — A voz do telefonista aumentou. — Oh, querida, isso é muito para alguém que está apenas começando. — Eu posso lidar com tudo isso — Hanna insistiu, passando os dedos no medalhão novo. — Você se deu conta de que não pode desistir, certo? Você é responsável por cada garrafa. E nós vamos cobrar por essas caixas, começando no próximo mês. — Eu entendo — disse Hanna. — Como eu disse, eu estou muito ansiosa para me juntar à equipe! Depois de dar ao telefonista mais alguns detalhes, Hanna desligou e sorriu. Em seguida, ela pegou a garrafa de AminoSpa meio bebida que seu pai havia deixado pra trás, fechou a tampa com força e jogou no lixo. Ela pegou o celular, escreveu uma mensagem nova para Dinah. Eu te perdoo! Eu tenho certeza que vocês serão muito felizes juntos com CADA empreendimento! Se Dinah queria Vince, ela podia ficar com ele, mas ela tinha que levar o esquema de pirâmide estúpido junto. Seu celular tocou em menos um minuto depois, e no início ela achou que era Dinah enviando uma resposta. Mas, para sua surpresa, o número de Lucas brilhou na tela. Cheguei em casa mais cedo. Você pode vir aqui antes da escola?


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BRONZEADO DE ÓCULOS DE SOL ESTÁ TÃO NA MODA Depois de vestir seu uniforme da Rosewood Day e pegar os seus livros para a escola, Hanna estacionou no meio-fio da casa de Lucas. O Ford Explorer da família dele estava de volta na entrada da garagem, as portas ainda estavam abertas. O Mercedes SUV que Hanna tinha visto na noite que os Rumsons estavam aqui estava estacionado — o que queria dizer que Brooke também estava aqui. Hanna se perguntou se Lucas apenas tinha convidado ela para terminar com ela pessoalmente. Não que ela fosse deixar ele sair por cima. Ela iria terminar com ele primeiro. Bem, vamos acabar logo com isso, ela pensou, grata por pelo menos estar linda depois do campo de treinamento. Suspirando tristemente, ela fechou a porta do Prius e começou a subir a calçada da frente. Quando ela estava prestes a tocar a campainha, ela avistou um lampejo fraco na fila de arbustos que rodeavam a propriedade Beattie. Quase parecia que alguém estava escondido lá, mas isso era loucura. Quem poderia estar se escondendo às oito horas de uma manhã com 15 graus? Quando Hanna iria parar de pensar que alguém a estava seguindo? Lucas abriu a porta quase imediatamente. Sua pele estava dourada, seu cabelo loiro estava quase branco e parecia que ele tinha perdido peso. — Hey — ele disse, puxandoa para dentro e dando a ela um grande abraço. — Eu senti tanto a sua falta. Hanna recuou. — Não parecia quando você estava longe. Eu acho que você estava se divertindo demais para me enviar uma mensagem, hein? Lucas fez uma careta. — Eu sinto muito. Eu pensei que nós teríamos Wi-Fi, mas o servidor caiu. Essa é uma das razões de nós termos voltado para casa mais cedo, na verdade. O Sr. Rumson estava pirando porque não podia checar o BlackBerry dele. Brooke ficou no Facebook por um momento, mas nenhum de nós conseguiu ficar online. — Sim, eu vi aquele post. — Hanna não foi capaz de esconder sua irritação. — Você e Brooke pareciam muito felizes juntos. Lucas analisou seu rosto. — Você não acha que nós estávamos... — Ele parou e apertou a pele entre os olhos. — Oh, Hanna, eu sinto muito. Não é o que parecia. — Uh-huh — disse Hanna sem entusiasmo. Ela tinha certeza de que ele estava apenas dando desculpas, agora que Brooke tinha que ir para casa. — Estou falando sério. — Lucas guiou Hanna até o sofá e eles sentaram. — Depois do primeiro dia, Brooke e eu mal nos vimos. Eu fui nas grandes caminhadas e numa viagem de caiaque incrível, mas tudo o que ela queria fazer era se bronzear. — Ele se aproximou, falando na orelha dela. — Ela passou uma enorme quantidade de óleo de bebê de manhã até de noite. Essa é outra razão por termos voltado para casa. Com isso, seu olhar virou para o corredor. Os pais Rumson saíram da cozinha, arrastando suas bolsas de viagem atrás deles. Brooke apareceu em seguida, vestindo um mini vestido ultra-curto mais adequado para climas quentes e sandálias de ráfia. Seu rosto estava descascando, ela tinha um enorme bronzeado de óculos de sol nos olhos, e


ela estava com uma enorme quantidade de algum tipo de pomada branca em ambos os braços. A pele debaixo da pomada parecia com os pedaços de carne enegrecidos que o pai de Hanna fazia sempre que ele tentava usar o grill. Hanna não sabia se ria ou cobria os olhos. — O que aconteceu com ela? — Ela sussurrou. — Ela teve queimaduras de terceiro grau do sol — Lucas respondeu em voz baixa. — Elas foram tão sérias que nós tivemos que levar ela ao hospital. Foi o lugar mais assustador que eu já estive, Hanna. Havia baratas na sala de espera, ninguém tinha uma cama adequada e eu juro que nenhum dos médicos tinha licenças médicas verdadeiras. O cara que atendeu Brooke disse a ela que se ela ficasse no sol por mais um minuto sequer, a pele dela iria cair, literalmente. A mãe dela a observava como um falcão depois disso. Brooke ficou deprimida pela casa de dia e de noite, lamentando-se por estar entediada. Eu queria matá-la no momento em que a viagem acabou. Eu acho que todo mundo queria, também. Hanna abraçou uma almofada contra o peito. — Então... vocês não tomaram banho de sol nus? Vocês não tomaram drinks de gelatina? Lucas olhou para ela como se ela fosse louca. — Você já tomou um drink de gelatina? Essas coisas são nojentas! De qualquer forma, nós não poderíamos tomar drinks nem se quiséssemos, a água em Yucatán era intragável. Só então, Brooke notou Lucas e Hanna sentados no sofá e sorriu fracamente. — Ei, Lukey — ela disse em uma voz anasalada, andando até ele com a postura rígida de alguém que estava muito, muito queimada. — Eu acho que nós já vamos agora. Mas foi incrível te ver. Temos que tirar férias juntos em breve de novo. Talvez nas férias de primavera? Brooke abriu os braços para dar um abraço em Lucas. Hanna se levantou do sofá e bloqueou o caminho. — Lukey diz adeus — disse ela bruscamente. — Boa sorte com suas queimaduras. Brooke olhou para Hanna como se nunca a tivesse visto antes. Hanna se manteve firme. De jeito nenhum ela iria deixar essa puta chegar perto de Lucas outra vez. Foi uma lição que ela aprendeu do pior jeito, com Vince: Se você queria um cara, você tinha que lutar muito por ele. Depois de um momento, Brooke se encolheu, murmurou um adeus e se esquivou de volta para os pais. Todos pareciam cansados quando caminharam um trás do outro e disseram que iriam se ver em breve. Quando os pais de Lucas fecharam a porta, o Sr. Beattie encostou-se no batente da porta e pressionou o rosto nas mãos. — Espero nunca mais ter que ver aquela menina de novo pelo resto da vida. Hanna não poderia concordar mais. O motor rugiu na garagem, e logo o SUV Mercedes dobrou na curva da saída do bairro. Lucas se aproximou de Hanna. — Eu sinto muito por não ter podido sequer falar uma vez com você enquanto eu estava fora. Eu pensei em você todos os dias, porém. E, ei, agora podemos sair durante as férias inteiras! O que você quiser fazer, eu faço, mesmo que seja ir para o novo shopping. — Eu vou cobrar — disse Hanna, perdoando-o um pouco. — Mas não temos que ir nesse shopping, ele é uma merda. Lucas começou a esfregar os ombros de Hanna. — Então, eu perdi alguma coisa enquanto eu estava fora? Hanna fingiu pegar um fiapo imaginário de sua saia xadrez da Rosewood Day, pensando no campo de treinamento, em Vince e em Dinah. Foi errado da parte dela ter flertado com Vince? Não era como se alguma coisa tivesse acontecido entre eles. E quase não fazia sentido dizer a Lucas sobre o campo de treinamento — ela não ia mais


mesmo. Antes de vir para cá, ela provou seus jeans skinny, e eles se encaixaram muito bem. Isso a fez se perguntar se ela realmente tinha ganhado muito peso, pra começar. — Ah, não mesmo — ela finalmente respondeu despreocupadamente. — Só que você não deve nunca, nunca me levar para ver O Quebra-Nozes, ainda está me dando pesadelos. Lucas riu. — Combinado. A Sra. Beattie enfiou a cabeça na sala e sorriu para Hanna. — Não temos nenhum cereal, por isso eu fiz torradas francesas. Vocês querem algumas? Tem o suficiente para todos nós. — Claro. — Lucas olhou para Hanna. — Quer ficar para o café da manhã? — Ah, obrigada. — Hanna sorriu educadamente para a mãe de Lucas. — Eu já tomei café. Eu já estou pronta. Lucas franziu a testa e olhou para Hanna de cima a baixo. — Você deveria comer algumas torradas francesas. Você está realmente... magra. Hanna colocou as mãos nos quadris. — Isso não é uma coisa boa? — Não exatamente. — Lucas circulou o polegar e o indicador em torno do pulso de Hanna. — Eu meio que gostava mais de você do jeito que você estava antes. Por favor, coma duas por mim? A promessa do campo de treinamento brilhou na mente de Hanna, juntamente com todos os sacrifícios que ela fez nas últimas semanas. Mas então ela pensou em uma pilha de pão francês escorrendo com manteiga e calda. Fazia tanto tempo desde que ela tinha realmente comido uma refeição de verdade. — Tudo bem — Hanna concordou, levantando-se e puxando Lucas. — Eu acho que posso comer uma ou duas. — Excelente — disse Lucas, levando-a para a cozinha. Hanna seguiu atrás dele, distraidamente tocando o medalhão Cartier em sua garganta. Um sentimento calmo de bem-estar caiu sobre ela como um cobertor quente. Tudo em sua vida parecia absolutamente certo de novo. E o melhor de tudo, as únicas pessoas que sabiam o segredo sobre o campo de treinamento era Dinah, Vince e Kate, e ela não se atreveria a dizer a uma alma.


UM INFELIZ HANNA-KAH Para uma menina que se diz popular, Hanna poderia usar algumas lições sobre como ser popular. As rachaduras em sua armadura de menina gostosa são mais evidentes do que o perfume de lilás de Kate. Ela está desesperada pela atenção do pai, insegura com sua vida amorosa e necessitando desesperadamente de uma nova melhor amiga. (Ahem, ela ainda tentou sair com Kate.) Mas o medo maior, pior e mais delicioso dela: de dar um passo em falso e se tornar a perdedora gordinha e feia que ela era no ensino médio. Talvez eu faça o pior pesadelo dela se tornar realidade. Kate pode ter uma razão para manter seus lábios beijadores de Papais Noéis fechados, mas eu não. E há tanta coisa que eu poderia deixar vazar: o flerte com Vince, perder para Dinah, o campo de gordos, o incidente do cookie. E isso é apenas a ponta do iceberg. Se eu revelar tudo — a bulimia nervosa, as mentiras, o delírio paranoico de que Mona ainda está lá fora, esperando para atropelá-la de novo — todos de Rosewood vão saber o quão louca é Hanna. E todos nós sabemos onde os loucos pertencem: na Reserva Addison-Stevens. Aproveite seu tamanho 38 das calças jeans, enquanto você ainda usa elas, Hannakins, porque uma camisa de força é tamanho único... Já foi uma, faltam três. Agora é a pequena senhorita Emily Fields, que está presa na Rosewood coberta de neve com sua família que ama o Natal. E enquanto Emily está enfeitando a casa e com bom ânimo, seu Natal está prestes a ficar bem menos alegre. Ho, ho, ho!

—A

Y


PEQUENOS SEGREDOS DE EMILY


1

TUDO O QUE EMILLY QUER DE NATAL Na tarde de sexta-feira, Emily Fields estava em sua sala de estar, puxando enfeites de Natal das caixas que sua mãe tinha trazido do porão. Carols cantarolava dos altofalantes do som, um fogo ardia na lareira e o cheiro de pinho do pinheiro Douglas, que eles tinham comprado na fazenda local de árvores de natal, enchia o ar. O irmão mais velho de Emily, Jake, e sua irmã Beth vieram para casa da faculdade e toda a família estava reunida na sala de estar para ajudar com as decorações. — Oh, Emily, não coloque o Snoopy aí. — A Sra. Fields correu para a árvore e pegou a bola com o Snoopy em relevo que Emily tinha colocado em um galho de baixo. — Ele precisa estar ao lado do Garfield, viu? — Ela apontou para um Garfield de cerâmica perto do topo. A irmã de Emily, Carolyn, riu, pegando um ornamento de papel coberto de glitter e rabiscos de lápis da caixa velha. — O que é isso? — Esse é o tambor que Jake fez na pré-escola! — A Sra. Fields acenou o ornamento no rosto de Jake. — Lembra disso, querido? Jake olhou fixamente para a Sra. Fields por debaixo de seu boné de beisebol da NATAÇÃO DO ARIZONA e puxou as pontas de seu cabelo vermelho e esbranquiçado de cloro. — Uh, não. Emily escondeu um sorriso. Sua mãe era uma Natalzilla, queria que tudo fosse tão perfeito como um cartão postal. Todo ano eles iam à missa da meia-noite e agitavam incensos para todos os lados. Eles sempre tiveram uma festa de Natal, que incluía um peru assado recheado, dois tipos de molho de amora, uma tigela feita recentemente com sabor de amora e laranja, bem como enlatados comprados no mercado — batata-doce, purê de batata e quatro tipos diferentes de tortas. Em seguida, eles se sentavam e assistiam cada especial de natal da TV, incluindo A Very Brady Christmas, To Grandmother’s House We Go com as gêmeas Olsen e um concerto do Justin Bieber em que ele cantou todas as músicas padrões do feriado. A Sra. Fields desabou no sofá e admirou a árvore. — Este vai ser o melhor Natal de todos! — Não vamos exagerar. — O Sr. Fields falou com as mãos sobre o estômago amplo. — Meu bônus foi um pouco menor do que o habitual este ano. Uma expressão tensa cobriu o rosto da Sra. Fields. — Nós vamos fazer isso dar certo. Precisamos de um feriado especial este ano. Todos nós passamos por muita coisa. Ela olhou para Emily, e Emily olhou para os gastos chinelos Ugg bege que ela tinha ganhado de sua melhor amiga Alison DiLaurentis no Natal antes de Ali desaparecer. Sua família tinha passado por muita coisa este ano, especialmente com ela. A primeira emergência da família foi quando Emily declarou que ia desistir da natação, o esporte em que todos os filhos Fields se destacavam. Enquanto brigavam por causa disso — que terminou com Emily não desistindo da natação no final das contas — os pais de Emily também descobriram que ela estava namorando Maya St. Germain, uma menina nova de Rosewood Day. O Sr. e a Sra. Fields eram do tipo de pessoas que


levantavam as sobrancelhas quando alguém da Igreja Metodista de Rosewood saía com alguém que frequentava a Abadia de Rosewood, não é preciso dizer que isso não tinha acabado bem. Depois de Emily ter resistido ao programa ex-gay, a uma estadia de purifique-seno-Cinturão-Bíblico com sua família em Iowa, e tinha feito uma viagem onde os pais de Emily acharam que ela tinha ido embora para sempre, eles finalmente aceitaram quem ela era. — Ei, Em, temos algo para você. — Beth sorriu tranquilizadoramente para Emily. Ela foi para a cozinha e voltou com um presente embrulhado. — Um presente de Natal antecipado. É meu, de Jake e de Carolyn. Emily deslizou seu polegar sob a fita e abriu o pacote. Dentro havia um box de DVD de The L Word. Havia duas mulheres se beijando na capa. Quando ela olhou para cima, todos estavam sorrindo para ela ansiosamente, até mesmo o seu irmão, que Emily tinha quase certeza de que ele nunca tinha falado propositalmente com ninguém gay em sua vida. Emily tinha a impressão de que a Sra. Fields tinha contado a todos os seus filhos para dizer que aceitou as escolhas de Emily. — Uma amiga minha da faculdade assiste a série. — Beth colocou um pedaço de cabelo loiro-avermelhado atrás da orelha. — Ela disse que é muito boa. Vamos assisti-la com você, se você quiser. — Tudo bem — disse Emily rapidamente, um rubor envergonhado subindo para suas bochechas. — Obrigada. — Falando nisso, há uma menina na igreja que você devia conhecer. — A Sra. Fields parou de desembaraçar dois ornamentos feitos de palitos de picolé. — Ela lidera um dos grupos de jovens. Eu contei a ela tudo sobre você. Ela tem o cabelo muito curto — acrescentou a Sra. Fields significativamente. Era divertido que, de acordo com a mãe de Emily, as meninas de cabelo curto deviam ser gay. — Ela parece ser legal — disse Emily, não querendo parecer ingrata. Mas, de repente, toda a atenção nós-te-aceitamos-do-jeito-que-você-é estava deixando-a claustrofóbica. — Hum, eu volto em um minuto — ela murmurou, saindo da sala. Ela tirou o casaco e saiu para a varanda. O sol estava em um ponto baixo no céu e emitiu raios direto nos olhos de Emily. Emily soltou um longo suspiro até que seus pulmões pareciam absolutamente drenados de ar. Ela sabia que deveria estar feliz agora. A, a malvada mandadora de mensagens que tinha exposto o relacionamento de Emily com Maya, tinha morrido. O assassino de Ali, Ian Thomas, estava atrás das grades. Ela estava saindo novamente com suas velhas amigas Spencer, Aria e Hanna — após a sua última sessão de terapia de grupo, todas elas tinham ido jogar boliche juntas. Não havia mais perigo em Rosewood, não havia mais preocupações à espreita em cada esquina e sua família estava deixando-a ser quem ela queria ser. Então, por que ela se sentia tão... vazia? Talvez fosse loucura, mas mesmo depois que o corpo de Ali foi encontrado no buraco de concreto atrás de sua antiga casa, Emily ainda tinha esperança de que sua amiga ainda estivesse lá fora, viva e à espera de que Emily a encontrasse. Ela tinha tantos sonhos com Ali, e ela até jurava que tinha visto Ali no dia do julgamento de Ian na parte de trás de um Lincoln Town Car. Mesmo agora, ela sentia como se houvesse uma presença escondida em algum lugar próximo, como um fantasma, como se alguém que ela sempre tivesse conhecido estivesse assistindo do milharal. Emily olhou pela janela da frente da casa. Sua família ainda estava decorando a árvore, parecendo com um quadro de Norman Rockwell. Era tão bom eles estarem dando suporte a ela sobre sua escolha de sexualidade, mas a última coisa que ela conseguia pensar agora era em um relacionamento.


Dando um último olhar para dentro da sua sala de estar, Emily pegou sua bicicleta da garagem e saiu pela rua. Quatro minutos e trinta e nove segundos depois — ela tinha cronometrado anos atrás — ela estava fazendo a volta na estrada onde Ali morava. A casa surgiu no final de uma rua sem saída, suas janelas estavam escuras. Velas acesas, fotos amassadas, animais de pelúcia esfarrapados, gorros de Papai Noel e pequenos presentes embrulhados estavam agrupados no meio-fio como oferendas para o Santuário de Ali. Na parte de trás da propriedade estava a laje de concreto, onde Ali tinha sido encontrada. A fita amarela da polícia estava pendurada frouxamente à volta do perímetro, e havia uma neblina assustadora e translúcida sobre a abertura no solo. Era arrepiante pensar que Ian, com quem Emily e as outras meninas tinham falado na noite do pijama do fim da sétima série, tinha jogado o corpo sem vida de Ali há apenas algumas horas mais tarde. Emily pedalou sua bicicleta até o gramado, parou em uma árvore gigante no quintal e olhou para os restos frágeis da velha casa da árvore em seus galhos altos. Foi ali onde há alguns anos atrás Ali tinha dito a Emily que ela tinha um namorado secreto. Antes que Ali pudesse revelar que era Ian, Emily inclinou-se e a beijou. Emily tocou a casca da árvore com os dedos, encontrou o local antigo onde ela tinha esculpido as iniciais dela e de Ali. Um desespero a inundou como uma chuva quente. Ela amava tanto Ali. Será que ela se sentiria assim de novo? Um galho se quebrou à esquerda, e ela congelou. Uma figura surgiu por entre as árvores. — Olá? — Emily disse com a voz trêmula, pensando em Ian. O pai dele tinha todos os tipos de conexões e tinha uma boa chance de ele sair em liberdade sob fiança — e Ian provavelmente iria querer punir as pessoas que informaram a polícia sobre o seu crime. E se ele estivesse aqui agora? — Emily? Aria Montgomery apareceu, parecendo tão surpresa de ver Emily quanto Emily por vê-la. Ela estava usando um grande casaco com um capuz peludo, jeans ajustados e botas forradas de pele marrom que parecia Snuffleupaguses 7 em seus pés. — Oi. — O coração de Emily começou a desacelerar. — O-o que você está fazendo aqui? Os olhos azuis de Aria estavam arregalados. — Eu venho aqui, às vezes. Mas eu estou com muito medo de voltar para lá. Ela apontou para o buraco cavado na laje de concreto. Emily assentiu, sabendo exatamente o que Aria quis dizer. Ela não tinha olhado para dentro do buraco, também. Elas ficaram em silêncio por algum tempo. O sol afundou para mais abaixo das árvores, transformando o céu em um roxo misterioso. Luzes de Natal em temporizadores automáticos acendiam-se nas janelas do outro lado da rua. Aria se arrastou ao longo de uma grande pedra no quintal de Ali e se sentou. — É estranho, sabe? Tudo ter... acabado. Eu sinto como se não tivesse. — Eu sei — Emily sussurrou. — Quer dizer, eu estou feliz que acabou — disse Aria rapidamente. — Mas isso não parece real. Você entende? Emily entendia. Ali tinha ido embora há anos sem respostas. E A — Mona Vanderwaal — havia personificado Ali tão habilmente que todas elas acharam que ela estava de volta até seu corpo ser encontrado. — É real, porém — Emily disse calmamente, deslocando os pés na grama fria e espinhosa. Ela sentiu vontade de chorar quando as palavras saíram de sua boca. Por 7

Snuffleupaguses: Espécie fictícia de mamíferos semelhantes a mamutes encontrados no programa de televisão infantil Vila Sésamo.


mais que ela quisesse Ali de volta, n茫o havia nada que ela pudesse fazer para mudar o passado. Ali se foi. Fim da hist贸ria.


2

LONGE, EM UMA MANJEDOURA... Quarenta e cinco minutos mais tarde, Emily guardou sua bicicleta na garagem e caminhou de volta para sua casa. O ensopado de carne que a Sra. Fields tinha feito para o jantar estava em cima do fogão, mas não havia ninguém na cozinha para comer. Emily encontrou sua mãe andando ao redor da sala, com seus cabelos na altura dos ombros soltos de seu rabo de cavalo e seus olhos verdes selvagens. O pai de Emily estava seguindo atrás dela, esfregando seus ombros e dizendo: — Está tudo bem. Acalme-se. Por favor. — O que está acontecendo? — Emily rangeu. A Sra. Fields parou no meio do tapete redondo trançado. — Algo terrível aconteceu. O coração de Emily começou a acelerar. Ian tinha saído da prisão depois de tudo? Outra pessoa foi morta? — Ah, não — ela sussurrou. A Sra. Fields desabou no sofá e colocou sua cabeça em suas mãos. — Meu menino Jesus foi roubado! Era uma preciosa antiguidade! Demorou alguns segundos para que as palavras fossem assimiladas. Emily se lembrou de sua mãe transportando um menino Jesus de cerâmica do sótão nos dias de Ação de Graças, aninhando-o no banco de trás do carro, e orgulhosamente apontando-o no presépio no gramado da igreja todos os domingos depois disso. — Estou tão chateada — a Sra. Fields continuou. — Foi uma herança de sua avó! O telefone tocou e a Sra. Fields lançou-se sobre ele. — Judith — disse ela para o receptor, saltando de pé e caminhando para outra sala. Emily e seu pai trocaram um olhar. — Era Judith Meriwether da igreja — a Sra. Fields disse quando ela voltou. — Ela e algumas outras pessoas da igreja têm um palpite sobre quem roubou o menino Jesus. Eles acham que foi um grupo de garotas da faculdade que vieram para casa nas férias de inverno. Elas vêm aterrorizando bairros, roubando decorações e bagunçando gramados. Aparentemente, elas se chamam de Elfos Felizes. Antes que ela pudesse parar a si mesma, Emily soltou um sorriso por causa do nome, e a Sra. Fields lançou-lhe um olhar. — Isso não é engraçado. Judith diz que elas chamam a si mesmas assim porque todas elas trabalham como elfos na Santa Land no Shopping Devon Crest em West Rosewood. Judith trabalha lá como gerente assistente, e ela as ouviu dizer algumas coisas que despertou o seu interesse. — A Sra. Fields franziu o rosto mais uma vez. — Eu não posso acreditar que elas levaram o menino Jesus. Elas provavelmente o quebraram em pedaços! — Calma, calma. — O Sr. Fields afagou as costas de sua esposa. — Eu realmente sinto muito, mamãe — disse Emily, sentando-se no braço do sofá. — Há algo que eu possa fazer? A Sra. Fields secou os olhos com o lenço bordado que ela sempre carregava. — Nós precisamos parar esta blasfêmia. Mas alguém vai ter que se infiltrar no grupo e pegar essas meninas no ato para obtermos a prova que precisamos. — Ela colocou a


mão no braço de Emily. — A Santa Land, no Shopping Devon Crest está à procura de um novo Papai Noel — o antigo foi demitido por dar em cima de garotas. — A Sra. Fields estremeceu ligeiramente. — De qualquer forma, eu disse a Judith que você poderia ser o novo Papai Noel. É um jeito perfeito de espionar as meninas. — Eu? Uma espiã? — Emily desabafou. De nenhuma maneira ela iria trabalhar como Papai Noel. Ela pensou em arranjar um emprego durante as férias, especialmente depois que seu pai tinha mencionado que seu bônus de Natal ia ser menor este ano, mas ela estava pensando em algo mais ao longo das linhas de embrulhadora de presentes na Macy ou de vendedora na FrogLand, a loja especializada em mergulho. Fingir ser o Papai Noel soava tão desafiador como Mickey Mouse na Disney World. Se você agisse errado, você arruinaria o ano inteiro de uma criança. Sem mencionar que ela não se enquadra muito bem no papel. — Por favor, querida? — O queixo da Sra. Fields tremeu. — Eu realmente preciso que você faça isso. — Mas eu não tenho nenhuma experiência com crianças — Emily protestou. — E eu não acho que eu seria uma boa espiã. As sobrancelhas da Sra. Fields fizeram um V. — Você tem muita experiência com crianças. Você trabalhou bastante de babá quando era mais jovem. E tem também quando você foi uma Guia de Floresta no Acampamento Rosewood Happyland. Como se isso realmente contasse. Emily e Ali haviam se inscrito para serem Guias de Floresta no verão entre a sexta e sétima séries, principalmente porque Ali tinha uma queda pelo instrutor de canoagem. No decorrer da primeira hora, uma menina pequena fez xixi no pé de Emily, um menino mordeu ela e um grupo de crianças empurrou-a em um monte de hera venenosa. Depois de tudo isso, Ali descobriu que o Garoto Canoa tinha uma namorada. Elas saíram depois do almoço e riram sobre isso durante todo o verão. Sempre que Emily ou Ali estavam de mau humor, elas diziam, Eu Estou Tendo Um Dia de Guia de Floresta. — E você daria uma espiã excelente — a Sra. Fields continuou. — As elfos são apenas alguns anos mais velhas do que você, e eu sei que você pode entrar em sua turma e desenterrar algumas boas informações sobre elas. — Por que Carolyn não pode fazer isso? As narinas da Sra. Fields chamejaram. — Porque Carolyn já tem um emprego durante as férias. Ela está trabalhando como garçonete na Applebee. Emily ficaria feliz em servir fajita frita e margaritas para os clientes bêbados ao invés. — Mas o Papai Noel é geralmente um cara. As crianças não vão ficar confusas quando ouvirem a minha voz? — perguntou ela como um último esforço. O pai de Emily, que se instalou no sofá, encolheu os ombros. — Basta fazer sua voz soar mais profunda. Isso realmente significa muito para a sua mãe, Em. Emily rangeu os dentes. Isso era tão clássico: A Sra. Fields estava sempre tomando decisões por Emily sem realmente perguntar a ela primeiro. Como quando ela simplesmente assumiu que ela estaria na equipe de natação ano após ano. Ou quando ela comprou uma calça jeans para Emily da Gap, embora jeans Gap não combinassem propriamente para a sua idade. Ou quando ela fez reservas em um restaurante com tema da Broadway para o aniversário de Emily embora ela não tivesse gostado do restaurante desde que ela tinha nove anos de idade. Às vezes, Emily pensava que sua mãe a preferia quando ela tinha nove anos — obediente, doce e sem vontade própria. Mas então o olhar de Emily caiu no box de DVD de The L Word em cima do aparelho de DVD. Abaixo estava Procurando Nemo, que a Sra. Fields tinha comprado para Emily quando ela retornou de Iowa, escolhendo-o especificamente porque Ellen DeGeneres era a voz de um dos peixes. Sua mãe finalmente tinha se recuperado de tudo.


E se ela recusasse e sua mãe voltasse a rejeitá-la? Emily não tinha certeza se podia lidar com isso. — Tudo bem — Emily cedeu. — Eu acho que eu posso pelo menos ir para uma entrevista. — Oh, não precisa. — A Sra. Fields acenou com a mão. — Você já tem o trabalho. Você está programada para amanhã. Sábado é um dos dias mais movimentados da Santa Land, assim você mergulhará logo de cabeça. — Ela se levantou e colocou os braços ao redor de Emily. — Muito obrigada, querida. Eu sabia que podia contar com você. Emily rigidamente a abraçou de volta, sua mente começando a se agitar. Era melhor ela começar a trabalhar em seus ho ho hos — parecia que ela ia ser o Papai Noel, pronta ou não.


3

É MELHOR VOCÊ TOMAR CUIDADO, É MELHOR NÃO CHORAR... No dia seguinte, Emily levou quase vinte minutos para encontrar uma vaga de estacionamento no novo Shopping Devon Crest, uma fênix de mármore, aço, elevadores e lojas de departamento de luxo que tinham ressuscitado das cinzas do mercado de segunda mão West Rosewood e dos bazares. Quando ela finalmente estacionou o grande Volvo wagon de sua mãe em um ponto bem no fundo do estacionamento, era quase meio-dia, a hora em que ela deveria se apresentar na sua função de Papai Noel. Ela correu para a porta dupla, manobrou em torno de um grupo de mulheres com carrinhos de bebê, quase colidiu com uma mulher dando amostras grátis de algum tipo de produto antirrugas de pele e, finalmente, viu a Santa Land no final do corredor, uma visão de gigantes bengalas doce, montes de neve falsos, uma casa de gengibre e um trono de ouro desocupado com um mural de Papai Noel, Mamãe Noel e suas oito pequenas renas acima dele. Já havia uma fila de crianças à espera em um tapete de bengalas doce listradas. A maioria deles estava chorando histericamente. Quando Emily tinha lido seu horóscopo no Philadelphia Sentinel esta manhã, ele havia dito: Esteja preparada para uma situação desconfortável hoje. Não brinca. Sobre a alta música de Natal, Emily ouviu uma risadinha baixa e provocativa. Ela fez uma pausa e girou a cabeça para a esquerda, observando os compradores que passavam. Havia alguém a observando? — Emily? — Uma mulher alta e grisalha em um vestido vermelho e um gorro de Papai Noel corria em sua direção. Mesmo vestida de Mamãe Noel, Emily reconheceu Judith Meriwether da igreja — ela estava sempre fazendo leituras ou anunciando uma distribuição de alimentos enlatados para pessoas carentes. — É você — a Sra. Meriwether arfou, pegando as mãos de Emily. Suas mãos estavam geladas. — Graças a Deus você está aqui. É tão bom você estar fazendo isso pela sua mãe. Por todos nós. Emily apertou os lábios para não dizer que ela não tinha realmente tido uma escolha. A Sra. Meriwether direcionou Emily para se sentar na casinha de gengibre e preencher alguns formulários de impostos. Quando Emily terminou de escrever o seu endereço, ela olhou para fora da janela em forma de diamante. Santa Land estava posicionada entre uma Aéropostale, uma BCBG e dois quiosques. Um vendia celulares brilhantes e cases de iPad, enquanto o outro vendia o que parecia ser algum tipo de água engarrafada. DESCUBRA O PODER INCRÍVEL DE AMINOSPA! dizia um banner estendido sobre a cabine. Um cara sarado e bem-definifo e uma garota punk com cabelo preto estava tentando fazer com que as pessoas que passavam pegassem amostras grátis. Os lábios vermelhos da menina estavam caídos em uma carranca desanimada, e ela estava praticamente parando qualquer um que passava. — Aqui estamos nós. — A Sra. Meriwether caminhou para a casa de gengibre com uma roupa de Papai Noel em seus braços. — Ela foi lavada recentemente numa


lavanderia a seco. Nosso Papai Noel anterior usava também, mas ele era muito maior do que você. Nós vamos ter que enchê-la com alguns travesseiros. — Ela levantou a barba branca encaracolada para o rosto de Emily. Parecia cabelo de boneca de seda contra sua pele. — Perfeito! Ninguém vai saber que você é uma garota! Emily vestiu a roupa de Papai Noel sobre suas roupas. Quando ela olhou-se no espelho pequeno na parte de trás da casa de gengibre, ela parecia, bem, como o Papai Noel. — Agora, deixe-me dizer a você as regras — a Sra. Meriwether disse depois de colocar um monte de travesseiros sob a jaqueta de Emily e em baixo das pernas da sua calça. — Tente trocar as crianças adiante tão rápido quanto você puder, mas sempre dê a eles alguns ho ho hos e deixe eles dizerem a você algumas coisas que eles gostariam de ganhar no Natal. Segure-os firmemente para a foto — um monte de crianças vão querer se contorcer para fora de seu colo — e se alguém fizer xixi em você, apenas ria dele. Nosso Papai Noel anterior ficava com raiva, o que irritava muitos pais. — Ela fez uma careta. — Nosso Papai Noel anterior também dava em cima de garotas de treze anos de idade. Pelo menos você não vai fazer nada disso. Emily andou com dificuldade em suas enormes botas preta em direção à porta de gengibre, que tinha uma maçaneta instável na forma de uma jujuba. — Então, onde estão essas elfos que eu deveria estar espionando? Os olhos da Sra. Meriwether dispararam para frente e para trás. — Elas não estão aqui ainda — ela sussurrou. — Por favor, mantenha a sua missão silenciosamente. O pai de Sophie é o gerente do shopping. Ele não pode descobrir o que estamos fazendo até termos uma prova — eu não posso me dar ao luxo de ser demitida. Mas essas meninas precisam ser pegas. A Sra. Ulster da igreja jura que elas pegaram o trenó do Papai Noel de seu quintal. E um dos meus vizinhos acordou algumas manhãs atrás e encontrou o seu boneco de neve inflável em uma posição muito... comprometedora com o Ho-HoHomer Simpson inflável. — Ela estremeceu. — Bem, eu vou fazer o meu melhor — Emily assegurou. O celular dela emitiu o som de um bipe. Ela tinha recebido uma mensagem de Spencer: Quer assistir o novo filme do Ryan Gosling? Eu gostaria, mas estou trabalhando, Emily escreveu de volta. Então ela abriu a porta de gengibre e caminhou para o lado de fora. Todas as cabeças das crianças giraram na direção dela. — É o Papai Noel! — uma delas gritou. — Papai Noel, Papai Noel! — o resto das crianças gritavam, pulando para cima e para baixo. A garota na frente da fila correu até Emily antes que ela pudesse se sentar, agarrando-se sobre a perna de Emily. — Oi, Papai Noel! — Ela gritou. — Eu sou Fiona! — Olá, Fiona — disse Emily, aprofundando sua voz. Ela se abaixou sobre o trono, e a menina subiu em seu colo. Ela tinha cerca de cinco anos de idade, tinha os cabelos em duas tranças loiras e cheirava ao cereal Lucky Charms. — O que você gostaria de ganhar no Natal? — Emily perguntou. — Uma boneca da Pequena Sereia — disse a garota prontamente. Emily não pôde deixar de sorrir. — A Pequena Sereia é um dos meus filmes favoritos, também. — Ela meio que tinha uma queda por Ariel. O rosto de Fiona se iluminou. — Verdade? — Era como se ela tivesse acabado de ganhar um Papai Noel exclusivo. — Isso mesmo — disse Emily. — Ho ho ho! A Sra. Meriwether tirou uma foto. Fiona deu-lhe um grande abraço, o que fez Emily se encher com uma sensação surpreendente de felicidade. Isso era muito fofo.


Após a menina sair de seu colo, Emily avaliou a fila novamente. Já se foi uma criança. Ainda faltava vir mais um zilhão. A próxima criança, um menino de cerca de sete anos, queria um lego do Star Wars. A menina depois dele não disse uma palavra, mas Emily a fez sorrir fingindo puxar um doce de hortelã para fora de sua orelha. Quinze ou mais crianças depois, um homem em um uniforme da polícia e um crachá que dizia O’NEAL jogou a filha no colo de Emily. A menina, cujo nome era Tina, recitou uma lista muito longa do que queria de Natal, desde diversas bonecas American Girl até um carro motorizado que Emily tinha visto que em um catálogo da loja de brinquedos FAO Schwarz custava $1.500. Seu pai assentiu depois de cada pedido, dizendo, — Papai Noel vai trazer isso para você, querida. E isso, e aquilo e aquilo. — Emily queria repreendê-lo. Com o salário de policial? Tina iria definitivamente se decepcionar na manhã de Natal. Havia algumas crianças que choravam, limpando seu catarro na manga de Emily. Havia um menino alguns anos mais jovem do que Emily que estava lá com seus irmãos pequenos, que queria se sentar no colo de Emily também, provavelmente percebendo que ela era uma menina. Inevitavelmente, uma menina fez xixi no colo de Emily de excitação. Sua mãe levou-a imediatamente, se desculpando profusamente. — Está tudo bem — Emily disse, recordando o conselho da Sra. Meriwether. Ela limpou o local quente e úmido sobre o joelho e tentou não vomitar. — Você foi muito mais legal do que foi no outro dia, Papai Noel — a menina que fez xixi disse, mostrando seu dente da frente faltando. — Você foi mau comigo. Você disse que eu era suja. — Oh, isso foi apenas uma brincadeira — Emily disse rapidamente. — Eu acho que você é incrível. Quando houve uma trégua na fila, a Sra. Meriwether saiu da casa de gengibre e caminhou até Emily. — Você está fazendo um ótimo trabalho — disse ela. — Certamente melhor do que o nosso antigo Papai Noel. — Tem sido divertido — Emily respondeu. E era verdade. O trabalho era um turbilhão de atividade, mas era divertido ouvir o que as crianças queriam de Natal. Era ainda melhor quando elas gritavam ou abraçavam, como se ela tivesse feito o seu dia. De repente, a senhora Meriwether engasgou com algo à distância. Emily se virou para ver as quatro meninas caminhando em direção a Santa Land. Elas estavam vestidas com chapéus pontudos, vestidos verdes, meias listradas e sapatos que se curvavam para cima nos dedos dos pés. Quando passaram pelo trono do Papai Noel, Emily sentiu o cheiro forte de cigarros e aguardente de hortelã. As elfos. Embora elas definitivamente não parecessem alegres. — Meninas — a Sra. Meriwether chamou, acenando. — Podem vir aqui um minuto? A elfo mais alta, que tinha um cabelo azul brilhante, usava um monte de maquiagem, e parecia vagamente familiar, revirou os olhos e voltou. As outras a seguiram. Uma tinha dreads nos cabelos e um piercing de argola no nariz, outra era uma menina asiática com tranças hippie e uma expressão dura, enquanto a última garota era pequena com os cabelos curtos e uma tatuagem de um palhaço sorridente no interior de seu pulso. Seus olhos piscaram cautelosamente sobre Emily como se elas não gostassem do que viam. — Meninas, este é o nosso novo Papai Noel. O nome dela é Emily Fields. — A Sra. Meriwether colocou a mão no braço de Emily. A menina de cabelo azul deu uma gargalhada. — Uma menina é o Papai Noel? — Ela está fazendo um trabalho muito bom, Cassie. — A voz da Sra. Meriwether subiu de tom. — Emily, esta é Cassie Buckley. E Lola Alvarez — que tinha Dreads —


Sophie Chen — Tranças Hippie — e Heather Murtaugh — Tatuagem de Palhaço. — Elas vão te ajudar com o que você precisar. As elfos riram e cutucaram umas as outras, como se dissessem sim, certo. O olhar de Emily voltou para Cassie, a menina de cabelo azul. De repente, ela percebeu por que ela parecia tão familiar: Cassie Buckley tinha estado no time de hóquei de campo juvenil de Rosewood Day com Ali. Mas o que aconteceu com ela? Ela costumava parecer como todas as outras meninas do hóquei de campo: cabelo longo, loiro, pele bronzeada e um guarda-roupa extenso da J. Crew. Agora, havia piercings através de seus lábios e sobrancelhas, e ela estava olhando para Emily com tanta animosidade que Emily imediatamente sentiu como se tivesse feito algo muito, muito errado. — O que você está olhando? — Cassie estalou, notando o olhar de Emily. Emily abaixou a cabeça. — Nada. — É melhor você estar olhando para o nada — Lola ameaçou. Emily olhou em volta procurando a Sra. Meriwether, mas ela tinha desaparecido. Ela poderia muito bem ter deixado Emily sozinha com quatro cães raivosos e soltos. — E é melhor não ficar no nosso caminho, Papai Noel — Sophie falou em uma baixa voz de fumante. — Sim, nós temos muitos benefícios aqui — Heather resmungou. — Então não estrague as coisas para nós. Entendeu? — Entendi — Emily sussurrou. As elfos riram ruidosamente, uniram os braços, e caminharam para longe em uma nuvem de cheiro de bebida. O coração de Emily afundou até as solas de suas botas pretas de Papai Noel. No quê ela tinha se metido? De nenhuma maneira ela ia conseguir se infiltrar nas elfos. Isso fazia com que entrar no grupo de Ali na sexta série parecesse fácil.


4

ELFOS TAMBÉM TÊM SENTIMENTOS No dia seguinte, Emily estava em sua cadeira do Papai Noel de novo, saudando as crianças com profundos ho ho hos. Cerca de meia hora depois, durante o seu turno, ela ouviu os sussurros. — Esse vai totalmente vomitar em cima dela. Ele comeu um saco inteiro de Chickfil-A enquanto esperava na fila. — Eu digo que aquela menina com a camiseta de Dora a Exploradora vai puxar a barba dela. — Eu deveria dizer que não existe essa coisa de Papai Noel. — Meninas? — a voz mansa da Sra. Meriwether soou atrás da câmera. — Alguém pode, por favor, ficar na registradora? As quatro elfos saíram de trás de uma estátua grande de um boneco de neve, empurrando uma mãe e dois filhos da fila sem se preocupar em dizer desculpa, e tomaram conta da registradora. Um homem e duas crianças que tinham acabado de visitar o Papai Noel Emily estavam esperando lá. O homem se encolheu um pouco quando viu as elfos, trazendo seus filhos mais para perto. — Isso vai dar $19,95 — Cassie disse em tom monótono, olhando para o homem comprando a foto. — Boas festas — Heather disse em uma voz sibilante que ela poderia ter usado para entregar uma mensagem de resgate. — Na verdade, eu posso colocar a foto deles naquele quadro? — O homem apontou para um quadro de prata pendurado na parede atrás do registro. Era um item de colecionador da Santa Land de edição limitada que custava $79,95. Quando a Sra. Meriwether trabalhava no caixa, ela estava sempre pressionando as pessoas para comprá-lo. Sophie olhou para o quadro e franziu o rosto. — Uch, isso significa que temos de encontrar uma caixa lá atrás. — É muito feio de perto — Cassie disse ao homem. — E não é de prata de verdade. Ele vai deixar seus dedos verdes assim que você tocar nele. — E provavelmente foi feito na China — Lola acrescentou virtuosamente. — Por uma garotinha em uma loja de condições precárias que paga um centavo por dia. — Papai? — O menor dos dois meninos olhou preocupado para ele, parecendo que estava prestes a chorar. O homem nervosamente puxou o colarinho. — Tudo bem. Apenas o quadro de fotos normal, eu acho. As elfos resmungaram como se até isso fosse muito esforço. Cassie passou o cartão de crédito dele, e o sino na ponta de seu chapéu tilintou. A Sra. Meriwether reprimiu um suspiro e correu em direção a Emily. — Teve alguma sorte? — ela sussurrou. Emily olhou para ela. Tinham se passado apenas 24 horas e as elfos mal tinham falado com ela. Tudo o que ela fazia parecia diverti-las — mas não no bom sentido. — Estou tentando — ela disse.


Após as elfos terminarem de atender o homem, praticamente empurrando o quadro para ele e enxotando-o embora, todas elas desabaram no sofá que tinha uma rena de veludo ao lado da casa de gengibre como se tivessem completado um turno de 24 horas numa sala de emergência. — Eu acho que é hora de ir à Starbucks — Cassie anunciou sem fôlego. — Eu não sei quanto a vocês, mas minha cabeça está prestes a explodir por toda essa música de Natal. — Concordo — Lola disse. As quatro meninas pegaram suas bolsas atrás de um pódio no formato de um homem das neves e saíram pela porta da cerca branca. — Pessoal, espera — Emily protestou, odiando o quão choramingona sua voz soou. — Temos mais clientes. — Ela apontou para a fila enorme de crianças esperando para falar com o Papai Noel. Lola olhou fixamente para os clientes, como se ela tivesse acabado de notá-los. Heather e Sophie continuaram andando. — Oh, tá bom — disse Cassie, unindo os cotovelos com o das outras meninas e puxando-as na direção da Starbucks. — Por que você não atende eles, Papai Noel? — Heather disse por cima do ombro. — A Sra. Meriwether vai te amar por isso. — Papai Noel e Mamãe Noel sentados em uma árvore! — Cassie vibrou. Elas estouraram em risos e caminharam para fora, tirando um momento para derrubar a gigante garrafa inflável da bebida vitamínica AminoSpa que ficava na frente do quiosque no meio da esplanada. Emily apertou seu punho no trono do Papai Noel, esperando que uma das estrelas de papel laminado gigantes que pendiam do teto do shopping caíssem sobre as cabeças das elfos. Como ela iria fazer amizade com essas meninas? O que Ali faria nesse tipo de situação? Jogar pelas regras delas? Se fazer de inestimável? Mas por outro lado, Ali nunca chegaria nesta situação. Suspirando profundamente, ela acenou para a fila de crianças avançar. Um menino e uma menina subiram no colo de Emily e olharam para ela com expressões de esperança. — E o que vocês gostariam de ganhar no Natal? — Emily perguntou, tentando soar alegre. — Eu quero ver o show das panteras prateadas em Atlantic City — o menino falou em voz alta. — Deve ser realmente, realmente impressionante. — E eu quero ir para Atlantic City para apostar — a menina acrescentou, pronunciando isso como uma única palavra, LantiCity. — Acho que você é um pouco jovem demais para apostar — Emily disse, olhando a mãe das crianças, que estava digitando distraidamente em seu iPhone. A boca da menina fez um U de cabeça para baixo. — Eu não sou muito jovem! Minha mãe disse que eu poderia jogar no caça-níquel! A fila diminuiu gradativamente e as elfos voltaram da Starbucks. Não que elas tenham feito alguma coisa. Heather deslizou um par de fones de ouvido Bose sobre suas orelhas e comeu duas bengalas doce do cesto de vime do caixa. Sophie ficou conversando com um dos trabalhadores da Aéropostale. Lola virou na esquina da casa de gengibre para dar um telefonema. — Então você vai ficar fora por quatro dias — disse ela com alguém na outra linha. — Não, mãe, tudo bem. Eu disse que tudo bem. É só que, tipo, eu acho que há algo de errado com o carro, e... — Ela deu uma pausa. — Não, eu entendo. Rocco precisa de você. Eu entendi. Ela golpeou o telefone para desligar, fazendo um pequeno choramingo. Quando ela se virou e viu Emily olhando, seus olhos se estreitaram. Emily decidiu que não era um bom momento para perguntar se Lola estava bem.


A única menina que não tinha retornado da Starbucks era Cassie. Emily tinha observado cuidadosamente a líder elfo, tentando descobrir como Cassie poderia ter passado de uma garota cheia de vigor e super-popular de Rosewood para alguém que parecia que tinha acabado de sair do reformatório. Pela primeira vez ela realmente desejava que Cassie reconhecesse Emily de suas fotos nos jornais após Ali ter desaparecido ou quando Ian havia sido preso. Se Cassie soubesse quem ela era, poderia preencher a lacuna entre elas. Como se estivesse ouvindo os pensamentos de Emily, a Sra. Meriwether emergiu de dentro da casa de gengibre e olhou em torno da Santa Land. — Onde está Cassie? Heather tirou um fone de ouvido. — No intervalo dela. A boca da Sra. Meriwether tornou-se uma linha pequena e apertada. — Ela saiu para o intervalo há uma hora atrás. — Não, lá está ela. — Emily apontou para o corredor. Cassie estava caminhando sem pressa de volta para a Santa Land com um copo da Starbucks na mão. A Sra. Meriwether correu até ela. — Uma hora de intervalo não é permitido. Um canto da boca de Cassie levantou-se em um sorriso. — Me desculpe. Eu estava ocupada. — Você estava ocupada? — A Sra. Meriwether colocou as mãos nos quadris, parecendo prestes a explodir. — Sim, ocupada. — Cassie ajeitou sua bolsa em seu ombro, olhando para a Sra. Meriwether. Elas pareciam prontas para um confronto de proporções épicas. — Espere um minuto. — Emily pulou do trono do Papai Noel e cambaleou até a Sra. Meriwether e Cassie, segurando o travesseiro em seu estômago para que ele não deslizasse entre suas pernas. — Uh, Sra. Meriwether, eu sou a razão pela qual Cassie deu um intervalo tão longo. Eu pedi a ela para ver se ela poderia encontrar para mim um gorro novo de Papai Noel. O meu está me dando muita, muita coçeira. Ela coçou seu couro cabeludo para causar efeito, não se atrevendo a encontrar o olhar de Cassie. Claro que era uma mentira, mas a Sra. Meriwether precisava manter seu emprego — e Emily precisava conseguir se enturmar com as elfos. A testa da Sra. Meriwether se franziu. — Isso é verdade, Cassie? — Uh, sim — Cassie admitiu. — Eu percorri o shopping, procurando. Mas desculpe, Papai Noel, eu não consegui encontrar nem um único gorro. — Está tudo bem — Emily disse rapidamente. — Eu vou sobreviver. Os olhos da Sra. Meriwether piscaram de Emily para Cassie, parecendo que ela não estava acreditando em nenhuma delas. — Apenas voltem ao trabalho — ela resmungou, virando-se de volta para a casa de gengibre. Cassie encarou Emily por baixo do nariz. — Obrigada, Papai Noel. — De nada — respondeu Emily. — Sabe... — Cassie passou a língua sobre os dentes. — Há uma festa na minha casa hoje à noite. Talvez você queira vir. Emily piscou com força. — Uh, com certeza. Isso seria ótimo. — O quê? — Heather tirou os fones dos ouvidos e cutucou Cassie com força. — Por que você está... — Cala a boca. — Cassie empurrou-a para trás, em seguida, virou-se para Emily novamente. — Eu moro na Estrada Emerson em Old Hollis. Você vai saber o lugar por causa de todos os carros. — Legal. — Emily tentou parecer indiferente. — Eu te vejo lá. Cassie partiu em direção à traseira da Santa Land. As outras elfos seguiram atrás dela, sussurrando. Emily retornou ao seu trono, sentindo-se tonta e atordoada, mas nervosa, também. Cassie estava sendo sincera? E se isso fosse algum tipo de


brincadeira? Ela olhou para a abundante multidão do shopping. Se alguém passar no minuto seguinte com uma sacola da loja Neiman Marcus, tudo vai acabar bem, ela apostou. Menos de cinco segundos depois, uma mulher passou com não apenas uma sacola da Neiman Marcus, mas três. Se isso não fosse um presságio positivo, Emily não sabia o que era.


5

TODO BOM ESPIÃO PRECISA DE UM PLANO Quando Emily chegou da Santa Land naquela noite, ela caiu no sofá da sala de estar com um velho diário encapado com tecido no colo. Ali costumava ter um diário, e como Emily gostava de fazer tudo igual a ela, ela começou um no ensino médio. Emily só descobriu recentemente que Mona Vanderwaal tinha pegado o diário antigo de Ali de uma pilha de lixo na calçada que a família de Maya tinha jogado fora do antigo quarto de Ali. Mona tinha usado as informações contidas no diário, incluindo os segredos mais obscuros de Emily e de suas velhas amigas — para se tornar A. À luz cintilante da árvore de Natal agora totalmente decorada, Emily folheou as velhas páginas finas de suas anotações. No início, seu diário continha em sua maioria coisas simples que ela e suas novas amigas tinham feito juntas: viagens à casa de férias da família de Ali em Poconos, manicures no Shopping King James, uma festa do pijama onde Ali desafiou Aria a mandar um trote para Noel Kahn, sua paixão. Quando Aria fez, Ali deixou escapar, — Ela ama você! — antes de Aria desligar. Em abril do mesmo ano, o tom das anotações começou a mudar. A Coisa de Jenna aconteceu, e todas elas ficaram tão assustadas e preocupadas. Emily não se referiu ao incidente diretamente nas páginas — ela estava preocupada que sua mãe pudesse lê-lo — mas ela tinha colocado um rosto triste ao lado do dia em que isso aconteceu. Muitas anotações depois eram desesperadas e frenéticas, também. No próximo ano letivo, as coisas começaram a piorar ainda mais. Ali conseguiu entrar na equipe de hóquei de campo juvenil, mesmo que ela estivesse apenas na sétima série, Emily tinha escrito num dia do final de agosto. Ela estava falando sobre a festa da equipe que ela foi hoje e dizendo o quão legal as meninas mais velhas eram. Ela não tinha desenhado um rosto triste, mas Emily se lembrava exatamente o que estava sentindo: Ali logo perceberia que ela não era mais legal e se afastaria dela. Seu tempo com Ali sempre parecia emprestado e precário, e no fundo de sua mente, ela estava sempre esperando que aquela vida de fantasia desabasse. Algumas anotações depois do diário ela mencionava que Ali e Emily tinham participado de uma festa de hóquei de campo, onde Emily tinha encontrado ninguém menos do que Cassie Buckley. Cassie se gabou do quão bom vodka e Red Bulls era, Emily tinha escrito. Quando eu perguntei se eu poderia provar um deles, Cassie me ignorou, e Ali falou — Não, Em, eu acho que vodka e Red Bulls são demais pra você. — Ela e Cassie riram como se fosse a coisa mais engraçada do mundo. Emily ainda se lembrava daquela festa como se fosse ontem. Cassie tinha aberto a porta com a frente do seu longo cabelo loiro dividida e trançada junta e presa na parte de trás com um grampo; apenas alguns dias depois, Ali apareceu na escola com o cabelo do mesmo jeito, e depois todas as outras meninas da sua série a copiaram. Quando entraram na casa, Cassie tinha feito misturas de bebidas facilmente, como se ela fosse uma adulta. Ela jogou o braço em torno do ombro de Ali e convidou-a para uma festa ‚secreta‛ no andar superior, deixando claro que Emily não podia ir. Emily tinha vagado


em torno da festa por mais um tempo, mas ninguém falou com ela. Ela saiu pela porta, e segurou suas lágrimas até que ela estava no meio da quadra. Ela fechou o diário, puxou seu laptop em seu colo e digitou o nome Cassie Buckley no Facebook. Um perfil de uma menina de cabelos coloridos e com piercings apareceu. Emily rolou através das fotos dela; Cassie não estava sorrindo em nenhuma. Nem tinha incluído todas as fotos de seus dias loiros do hóquei de campo. Por que ela tinha feito tal transformação dramática? Se Ali tivesse viva e mantivesse a amizade com Cassie, será que Ali mudaria, também? — Quem é essa? Emily pulou. Carolyn estava na porta com um cesto de roupa suja em seus braços. — Uh, ninguém — disse Emily. Carolyn largou o cesto de roupa no sofá e estudou a tela. — É uma nova garota que você está de olho? As palavras soaram forçadas saindo da boca de Carolyn. Emily se perguntou o que Carolyn realmente pensava sobre a sua sexualidade — ela não era exatamente do tipo que aceitava. — Será que Emily tem uma nova namorada? — Beth perguntou, caminhando para o quarto com uma tigela de pipoca de micro-ondas. — Talvez. — Carolyn dobrou uma camiseta de natação de Rosewood Day e colocou sobre a cadeira. — Mostra a ela, Em. — Deixa eu ver, deixa eu ver! — Beth se sentou ao lado de Emily e virou o laptop em sua direção. Quando ela viu a foto de Cassie, ela franziu a testa. — Whoa. Ela parece durona. — Ela é apenas uma garota que está trabalhando em Santa Land comigo — Emily protestou, imaginando o que sua mãe havia dito a seus irmãos sobre a missão de Emily. — Ela não é definitivamente uma namorada. — E que tal ela? Ela é bonita. — Beth clicou em outro perfil. A menina era pequena, de aparência jovem e tinha cabelo curto; era Heather, de Santa Land. Na seção de informações de Heather dizia que ela gostava da South Street Philadelphia, do autor Ken Kesey e dos autores do grupo Merry Pranksters, e O Livro de Receitas Anarquista. — O que vocês estão fazendo? — Jake pegou um punhado de pipoca da tigela quando ele entrou na sala. — Tentando encontrar uma nova namorada para Emily. — Beth clicou no perfil de uma garota chamada Polly que Emily não conhecia. — As meninas são gostosas? — Os olhos de Jake se iluminaram. — Eu vou ajudar. — Gente! — Emily pegou o laptop de Beth e fechou a tampa. De repente, ela se sentia como se seus irmãos estivessem transformando isso em um projeto como se ela fosse um animal de estimação. Ela se lembrou de quando era pequena e eles decidiram que ela era meio menina, meio gato porque ela era muito jovem, pequena e ágil. Felina, eles a chamaram, como se ela fosse uma mutante super-heroína. Eles desenvolveram sessões de treinamento para fazer Emily se parecer mais ainda com um gato, apertandoa sob cercas, enfiando-a dentro de armários e forçando-a a caminhar por uma trave de equilíbrio que montaram no pequeno lago da rua. Emily concordou com isso porque ela gostava da atenção — era difícil ser a mais nova e ficar de fora de tudo. Foi só quando eles começaram a falar sobre deixar Emily pular do telhado para ver se ela pousava em pé que a Sra. Fields ficou sabendo e colocou um fim nisso. — Eu não quero uma namorada — disse Emily agora. — Claro que você quer — Beth brincou.


Emily gemeu, levantou-se e saiu para a cozinha, onde sua mãe estava no fogão cuidando de uma panela de macarrão com uma luva de forno com estampa de galinha em uma mão. Quando ela viu Emily, ela deixou cair a colher na panela e correu para a mesa da cozinha. — Como é que foi hoje? — ela perguntou em um sussurro animado. — Hum, não muito ruim. — Emily passou a mão pelo cabelo. — Elas me convidaram para uma festa. A Sra. Fields gritou vertiginosamente como se Emily tivesse anunciado que tinha sido premiada com uma bolsa de estudos integral para Harvard. — Isso é maravilhoso. E você vai, certo? Isso era tão irônico. Normalmente, Emily tinha que implorar para sua mãe deixá-la ir à festas. — Você não se importa que seja num domingo à noite e que eu tenha escola amanhã? — ela perguntou. — Você pode ir para a escola mais tarde, se quiser — a Sra. Fields disse. Emily quase engoliu seu chiclete. Quem era esta mulher e o que ela tinha feito com a sua mãe super-rígida? A Sra. Fields começou listando pontos em seus dedos. — Agora, não se esqueça de me dizer tudo o que elas disserem, incluindo quaisquer brincadeiras que elas possam querer fazer. Na verdade, tente gravar as conversas em seu celular, se puder. Ou anotálas, para que você não se esqueça. E não beba. — Ela sacudiu o dedo para Emily. — Entendi — disse Emily. O timer da cozinha soou e a Sra. Fields se levantou novamente. — É melhor você ir lá para cima e escolher o que você vai usar. Eu vou pedir a Beth para arrumar a mesa em vez de você. Vá em frente. Ela cutucou-a para fora da cozinha. Emily subiu as escadas, entrou em seu quarto e abriu seu guarda-roupa. Havia camisetas quase idênticas da Old Navy de mangas compridas, jeans de lavagem média e suéteres de tricô da Banana Republic pendurados em um amontoado desorganizado. O que vestir para uma festa de uma elfo rebelde? Ela tirou um par de jeans preto apertado e uma blusa preta de ombro nu que ela tinha comprado em um impulso com Maya. Em seguida, um flash do lado de fora da janela chamou sua atenção. Ela correu para a janela e foi dar uma olhada atentamente. Algo estava se movendo através do milharal. Definitivamente era uma pessoa. E ela tinha visto um cabelo loiro? Emily apertou o nariz e a boca tão perto da janela que o vidro embaçou imediatamente. Mas pelo tempo que ela o limpou e olhou novamente, a figura havia desaparecido.


6

POBREZINHA, NÃO FOI CONVIDADA PARA DANÇAR Algumas horas mais tarde, Emily subiu os degraus da frente de uma enorme e branca casa vitoriana na Estrada Emerson em Old Hollis, o bairro da moda ao lado da Faculdade Hollis. Era a única casa no bloco com música alta e pulsante de sua estrutura, luzes em todas as janelas, e com carros estacionados na grama, então Emily achava que era a de Cassie. Dois adolescentes estavam bêbados e fazendo anjos de neve na camada de neve. Todos pareciam se conhecer e ela já se sentia deslocada. Ela tinha chamado Aria para vir com ela, mas Aria tinha que ajudar seu pai a colocar as guirlandas, as lenhas e mais algumas coisas a tempo para o Solstício de Inverno. A porta da frente estava fechada. Emily estava deliberando sobre o que fazer — bater? Apenas entrar? — quando a porta se abriu e uma menina com um vestido muito curto e botas de neve na altura da coxa e um cara de barba do Papai Noel e uma camiseta que tinha escrito NATAÇÃO DE CERVEJA DE HOLLIS saíram para a varanda, rindo. Eles mantiveram a porta aberta para Emily, e ela entrou. O cheiro de cerveja instantaneamente a agrediu. Havia pessoas amontoadas em todo lugar e falando alto. Uma pequena árvore de Natal decorada com luzes brancas girava lentamente sobre um pedestal de plástico. Um aparelho de som de alta tecnologia bombeava uma música, e uma televisão de tela plana estava no canal Comedy Central, não que alguém estivesse assistindo. Um gato cinzento estava empoleirado na escada lambendo suas patas. Quando uma menina desceu do segundo andar derramando seu copo de cerveja enquanto caminhava, o gato chiou e foi embora. Não havia ninguém na festa, nem mesmo remotamente, que Emily conhecia. Ela passou pela sala de estar para uma sala de jantar com uma antiga mesa imponente carregada de bebida, e então para a cozinha, que tinha uma geladeira de aço inoxidável e panelas e frigideiras de aparência cara penduradas em um suporte acima da ilha. Fixado no frigobar havia um post-it amarelo néon que dizia Cassie é uma vadia cruel! Havia bananas pretas em uma cesta pendurada sobre o forno, e um monte de pratos estava empilhado na pia. Emily se perguntou se Cassie estava segurando as pontas enquanto seus pais estavam fora de férias. Quando o seu olhar passou pela vista da torre Hollis pela janela de trás, uma lembrança conectou-se em seu cérebro. A festa do hóquei de campo que ela e Ali tinham ido todos aqueles anos atrás, foi nesta mesma casa. Ela tinha estado na sala de jantar detrás dela enquanto Cassie e Ali se ocupavam com vodka e Red Bulls e ignoravam Emily completamente. — Oops — disse uma voz atrás de Emily. Ela virou-se justo quando um cara corpulento, vestindo uma camiseta que tinha um desenho de um pênis nela, derramou metade de sua cerveja no braço dela. — Ei — Emily gritou, chamando-o de volta. Sua manga estava encharcada. — Desculpe — o cara meio falou, meio arrotou. Depois se afastou. A música hip-hop aumentou de volume, deixando Emily com dor de cabeça. Após enxugar sua manga com uma toalha, ela voltou para a sala de jantar, que estava um pouco menos movimentada. Um cara estava atrás da mesa derramando vodka em um


copo de plástico vermelho. Ele levantou os olhos para Emily. — O que você vai querer? Cassie está me fazendo ser barman para que ninguém emporcalhe as bebidas. — Ah, uh, eu vou querer um suco de laranja. — Emily apontou para a primeira bebida não alcoólica que viu, pensando no conselho de sua mãe de não beber. Um pequeno sorriso apareceu no rosto do cara. — Você sabe que eu não vou pedir para ver sua identidade. — É sério. O suco de laranja está bom — Emily insistiu, se sentindo como se fosse a garota mais recatada do universo. Ela pegou o copo vermelho do cara — pelo menos agora ela tinha algo para fazer com as mãos — e vagou por entre a multidão procurando Cassie e as outras elfos. As pessoas olhavam ela passar apaticamente como se ela não estivesse ali. Em seguida, a multidão se afastou, e ela avistou quatro figuras sentadas em cadeiras de plástico perto do resfriador da sala da frente. Lá estava Cassie, vestida com uma saia de couro e uma camiseta baby look tingida. Ela tinha clareado o cabelo azul para loiro claro, embora não fosse nada parecido com o cabelo loiro de seus dias de hóquei de campo. Heather, Sophie e Lola, que estavam cada uma em trajes reduzidos de forma semelhante, estavam sentadas ao lado dela sussurrando e parecendo presunçosas. Emily empurrou-se pela multidão na direção delas. Quando havia apenas poucas pessoas entre Emily e as elfos, um rapaz alto inclinou-se sobre Cassie sorrindo misteriosamente. — Eu ouvi dizer que vocês têm aprontado por toda a cidade. É verdade? Cassie deu um sorriso enigmático. — Isso é o que os elfos fazem, não é? — Isso só nós sabemos e você vai ficar se perguntando — Heather acrescentou. — Vocês são demais — o cara disse, batendo o punho com o de Lola. Então Cassie olhou para cima e olhou diretamente para Emily. Emily sentiu uma pancada em seu estômago e acenou, mas Cassie apenas olhou através dela. Lola olhou na direção de Emily também, mas ela deu a Emily a mesma expressão em branco e não bem-vinda. Emily se encolheu. Um riso estridente ecoou através do ar. Ela sabia que o riso era para ela. Ela bebeu o suco de laranja, fingindo que era uma bebida. Portanto, esta era apenas uma grande brincadeira. As elfos queriam deixar claro o quão grande perdedora ela era. Ela abaixou a cabeça e foi para o vazio corredor do banheiro, sentindo lágrimas correrem pelos seus olhos. Depois de se ocupar de verificar a maçaneta de cristal para ter certeza de que a porta realmente estava fechada, ela se sentou ao lado da banheira e colocou sua cabeça em suas mãos. Falando em deja-vu — ela tinha se trancado no banheiro naquela mesma festa da sétima série, logo após Ali ter ido lá para cima com Cassie. A dor que ela sentiu naquela época ainda era tão palpável. Parecia que Ali tinha rompido com ela — e, de certa forma, ela tinha. Emily levantou-se, foi até o espelho, e olhou fixamente para seu reflexo. — Supere isso — ela disse ao espelho. — Você não está mais na sétima série. Você é mais forte do que você costumava ser. Ela jogou água fria em seu rosto e foi para a sala da frente novamente. A multidão estava muito espessa, mas ela usou os cotovelos para manobrar entre os adolescentes até que ela estava cara-a-cara com as elfos. Emily bateu no ombro de Cassie. Cassie olhou para Emily com a boca apertada em um sorriso de escárnio. — Obrigada por me convidar — Emily disse sarcasticamente. — Eu me diverti bastante. Cassie olhou para ela sob suas franjas loiro-claro. — Quem diabos é você? Emily queria gritar. — Você sabe quem eu sou. Emily.


— Emily? — Cassie olhou para Heather, Sophie e Lola, que agora estavam olhando com curiosidade para ela, também. — Tocou algum sino, meninas? — Eu não convidei ninguém chamada Emily — disse Lola, ligeiramente gaguejando suas palavras. — Nem eu — Sophie e Heather falaram. Cassie revirou os olhos. — Será que meu irmão te convidou? Eu disse a ele que já tinha muita gente. — Você me convidou! — Emily exclamou. — Emily Fields! O Papai Noel! Era como se uma luz tivesse se acendido sobre a cabeça de Cassie. Ela sorriu. — Papai Noel? Eu não reconheci você sem sua barba! Gente, é o Papai Noel! — Papai Noel! — Heather gritou. — E aí, com vai? — Oi, Papai Noel — disse Sophie. — Você devia ter usado o seu gorro. — Lola parecia irritada. — Como iríamos saber que é você? — Espere um segundo. — Cassie subiu e desapareceu em uma sala dos fundos. Momentos depois, ela apareceu com outra cadeira e colocou ao lado dela. — Aqui está, Papai Noel. Senta com a gente. O que eu posso pegar pra você beber? Emily piscou para a cadeira vazia, em seguida, olhou para os dois centímetros de suco de laranja deixado em seu copo. — Hum, que tal vodka e Red Bull? — Excelente escolha. — Cassie acenou. — É a minha favorita. Eu sei, Emily queria dizer. Ela sentou-se na cadeira de jardim, de repente sentindose meio que incrível. Só assim a festa tinha começado a ficar muito, muito mais interessante.


7

A TURMA LEGAL — Alguém quer mais vodka? — Cassie levantou uma garrafa de Absolut no ar e sacudiu-a. Um pouco do líquido espirrou na parte inferior. — Eu, eu! — Lola levantou a mão. Assim como Heather e Sophie. Em vez de atendê-las primeiro, Cassie foi direto para Emily, colocando umas boas três doses em seu copo. — Eu mal vi você tomar um gole, Papai Noel! Era cerca de uma hora mais tarde, e embora a festa ainda estivesse agitada dentro da casa de Cassie, as elfos e Emily tinham formado uma pequena seção VIP no quintal de Cassie, que tinha um grande terraço e um par de lâmpadas de calor para afastar o frio. Estava tranquilo lá fora, porém, com as estrelas no céu escuro parecendo um lustre sobre suas cabeças e as lâmpadas de calor proporcionando um calor calmante sobre a pele. As elfos falaram sobre as mais agitadas faculdades para qual elas já foram, sobre o quão sem graça o Shopping Devon Crest era, e histórias sobre o Papai Noel anterior da Santa Land, cujo nome era Fletcher, e que aparentemente tinha tentado ter relações sexuais com todas as quatro elfos no mesmo dia. — Esse cara estava morrendo de vontade de fazer sexo — Cassie gemeu com a mão sobre os olhos. — Ele nem se importava com quem fosse. — Lembra daquela menina morena certinha que realmente se apaixonou por ele? — Lola riu. — Tenho certeza de que aqueles dois deram uma escapadinha em algum lugar. — Sim, claro. — Cassie fungou. — Ela não teria feito com ele. Até ela não era tão estúpida. — Asqueroso, hein, Papai Noel? — Lola riu, batendo em Emily com o pé. Emily assentiu. — Falando de caras brutos. — Cassie apoiou os pés na grade do terraço. — Eu não posso acreditar que o idiota do Colin veio esta noite. Ele não disse uma palavra para mim, nem mesmo obrigado por me convidar para sua festa. Você acha que eu deveria tentar falar com ele, ou eu deveria deixar pra lá? — Esquece ele. — Heather acenou com a mão como se estivesse enxotando-o para longe. — Estamos no mesmo barco. — Lola afundou em sua cadeira. — Eu vi Brian subir as escadas com Chelsea. Eu acho que era a sua maneira de me dizer que está tudo acabado entre nós. — Pelo menos ele não terminou com você em uma publicação no Facebook. — Sofia acendeu um cigarro. — Eu nunca vou perdoar James por fazer isso comigo. — O que é um menino de Yale para você. — Cassie estalou a língua. — E você nunca deve sair com alguém do seu dormitório. Emily olhou para Sophie. — Você vai para Yale? Sophie encolheu os ombros. — Sim, mas provavelmente não por muito tempo. Cassie riu. — Oh, por favor. Sophie era a oradora oficial de Prichard. Ela provavelmente ainda faz a lição de casa à noite que é atribuída. E o crédito extra.


— Nuh-uh. — As tranças de Sophie saltaram quando ela balançou a cabeça. — Eu totalmente me livrei dela. — Ok, papai faz sua lição de casa — Cassie corrigiu. — Você ainda vai ser uma médica, assim como o papai quer? — Heather brincou. Sophie soprou um anel de fumaça. — Minhas notas neste semestre diminuíram. Eu provavelmente não serei capaz de entrar no programa premed (curso preparatório de medicina) se eu continuar assim. Meus pais vão me matar quando descobrirem. — Ela disse isso severamente, mas quando ela virou a cabeça havia um olhar petrificado em seu rosto. Heather deve ter sentido o medo dela, porque ela riu e disse: — Pobre pequena Sophie, sob toda essa pressão. Você foi obrigada a quebrar em algum momento. Sophie virou de volta e deu um tapa no braço da cadeira. — Pelo menos meus pais percebem quando estou uma bagunça. Com quem é que o seu pai está gastando todo o seu tempo esses dias? Uma das Pussycat Dolls? Cassie soltou uma gargalhada. Heather passou os dedos pelo seu cabelo curto estilo fada com raiva. — Há, há — disse ela em voz baixa, de repente parecendo sóbria. — Seu pai conhece as Pussycat Dolls? — Emily perguntou, principalmente para reduzir a tensão. As elfos voltaram sua atenção para Emily, quase como se tivessem esquecido que ela estava lá. — Na verdade, não — Heather retrucou. — Mas ele é um produtor musical e conhece um monte de outros artistas. — Conhece intimamente — Lola disse significativamente. — Ele trouxe uma das vice-campeãs do American Idol para a festa de formatura de Heather e andava pra todo lugar com ela. Você devia ter visto a cara de Heather! Heather chutou a cadeira dela. — Por que você não conta ao mundo inteiro? Como sua vida é tão perfeita? Como está o seu irmão? Em que clínica de reabilitação ele está esses dias? O rosto de Lola empalideceu. Ela não entrou em detalhes, mas Emily se lembrou do nome Rocco na conversa de Lola em seu celular atrás da casa de gengibre hoje mais cedo. Um silêncio caiu sobre o grupo. Sophie aspirou seu Marlboro Light, olhando para longe. Heather bateu o pé contra a grade da varanda. Emily moveu seu bumbum na cadeira desconfortável, desejando que ela pudesse encontrar as palavras certas para dizer para fazer tudo melhorar. Isso fez ela se lembrar da dinâmica entre Ali, Emily e suas velhas amigas no final da sétima série, especialmente quando Ali insinuava um segredo que ela sabia sobre uma delas, mas as outras não. Talvez houvesse alguma animosidade profunda dentro deste grupo, também. Mas de uma forma estranha, ouvir os segredos das elfos era também meio que reconfortante. Como Emily, as meninas eram humanas. Falíveis. Vulneráveis. Elas tinham segredos que A poderia se apropriar, se A ainda estivesse ao redor. Isso a fez se sentir menos sozinha. Cassie se esticou em sua cadeira. — Então, o que você acha, Papai Noel? Todos os caras são idiotas? Emily colocou as mãos dentro de seu casaco. — Bastante. É por isso que eu gosto de meninas. Todas as quatro cabeças se levantaram. Havia uma longa ponta de cinzas no final do cigarro de Sophie, mas ela não as removeu. — Sim, certo — disse Cassie. — É verdade. — Emily tentou parecer indiferente. — Eu namorei uma garota chamada Maya no outono. — Parecia estranho dizer isso em voz alta — quase se gabar


sobre isso. Mas se havia um grupo para o qual ela poderia dizer isso sem julgamentos, era, provavelmente, o das elfos. Os olhos de Cassie estavam arregalados. — Você saiu do armário? — Pode-se dizer que sim. — Emily não se incomodou em acrescentar que A tinha feito ela se assumir contra sua vontade. — O que seus pais acham disso? — Sophie arfou. — Eles piraram — Emily admitiu. — Mas eles estão se recuperando, eu acho. — Whoa. — Heather cruzou os braços sobre o peito. — Talvez eu devesse tentar dizer isso aos meus pais. Isso, provavelmente, os manteria na mesma sala ao mesmo tempo. Cassie se inclinou para frente e piscou curiosamente para Emily. — O que você faria na minha situação com Colin? Se Colin fosse uma menina, e ela não estivesse falando com você e estivesse agindo estranho, você a confrontaria ou você simplesmente a dispensaria? Emily recostou-se espantada por Cassie estar pedindo a ela um conselho. — Eu conversaria com ele — ela decidiu. — Mas eu não seria muito pegajosa sobre isso. Aja como se você realmente não precisasse dele, como se ele precisasse de você. — Se ela tivesse feito isso com Ali quando ela teve a chance. Cassie assentiu pensativa. — Sim, isso é o que eu estava pensando, também. — Ela bateu com o punho no ombro de Emily. Um guincho alto de feedback de repente soou através de dois alto-falantes invisíveis na varanda de trás. Em seguida, uma música de Jay-Z retumbou, e Lola levantou-se e começou a mexer os quadris. — Oh meu Deus, eu quase esqueci — disse ela, fazendo uma pausa no meio de um giro. — Eu trouxe algo para nós. Ela desapareceu dentro da casa, retornando alguns segundos depois com um saco de papel que ela derrubou no chão. Fogos de artifício em forma de cone se derramaram. — Nós tínhamos estes sobrando do verão. Eu pensei que seria divertido usá-los esta noite. — Legal. — Cassie agarrou um em forma de foguete do saco sem hesitação, colocou-o sobre o concreto e acendeu o pavio. Faíscas voaram para fora do tubo longo listrado, e todo mundo deu um passo atrás. O coração de Emily bateu forte. Ela sempre associava fogos de artifício com A Coisa de Jenna. Um alto estrondo ecoou no ar, e o fogo de artifício disparou para o céu e explodiu sobre os telhados. — Yeah! — Lola e Heather gritaram, batendo uma na mão da outra. Emily olhou em volta, nervosamente. Será que elas não teriam problemas por isso? Não era algo com que as elfos estavam preocupadas, no entanto. Uma por uma, cada uma das meninas enviou um fogo de artifício chiando para o ar. As luzes lá de cima deslizaram sobre as casas vizinhas. Alguém gritou — Cala a boca! — de uma janela. Alguns festeiros saíram para ver o que estava causando tanta perturbação. Cassie passou um foguete e uma caixa de fósforos para Emily. — Sua vez, Papai Noel. Emily virou o fogo de artifício sobre suas mãos, imaginando como sua mãe iria lidar com a polícia ligando pra ela às duas horas da manhã dizendo que tinham levado Emily sob custódia. Mas ela tinha feito tantos progressos com as elfos. Ela não podia voltar atrás agora. E ela estaria mentindo se ela dissesse que não estava se divertindo. Ela colocou o fogo de artifício no chão e o acendeu com o fósforo. O pavio se acendeu imediatamente, queimando mais rápido do que ela esperava. Ela deu um passo para trás, assim que o foguete se lançou para o céu com um chiado agudo. Ele estalou no ar, enviando uma chuva de faíscas em direção ao chão.


As elfos gritaram e bateram as mãos. O coração de Emily batia forte com adrenalina. Era meio que incrível enviar uma faiscante e retumbante vareta de dinamite em direção ao céu. O que foi ainda melhor foram os olhares que as elfos estavam dando a ela, dando tapinhas em suas costas e um sorriso largo para ela. Era como se ela fizesse parte delas. A porta de trás se abriu mais uma vez, e um cara de cabelos crespos enfiou a cabeça para fora. — Seu vizinho está no telefone, Cassie. Ele parece chateado. — Merda. — Cassie olhou para as outras elfos. — É melhor irmos para dentro. Se for Long, ele já chamou a polícia. As elfos assentiram e se dirigiram para a casa. Todo mundo na festa estava bêbado cambaleando para a porta, as festividades estavam terminando. Cada balcão, mesa, e estante estava cheio de copos vermelhos e garrafas vazias, e a casa cheirava como o fundo de um barril mofado. Emily disse a Cassie que ela provavelmente deveria ir embora, e Cassie e as elfos a acompanharam até a sala da frente. — Obrigada por me convidar hoje à noite — disse Emily quando ela chegou na entrada. — Sem problema. — Cassie girou a maçaneta. — Foi muito divertido. — Talvez possamos fazer isso novamente em outra hora? — Emily perguntou ansiosamente. Ela aproveitou seu tempo no quintal. Fazia séculos que ela tinha conversado com um grupo de meninas assim. O rosto de Cassie nublou. Ela trocou um olhar ambíguo com as outras elfos. — Uh, nós veremos isso, Papai Noel.


8

MISSÃO IMPOSSÍVEL — Emily Fields? — crepitou uma voz do sistema de alto-falantes de Rosewood Day na tarde de segunda-feira. — Você pode vir ao escritório? Emily olhou para cima a partir do teste de Inglês sobre os temas de A Farewell to Arms. Dois adolescentes giraram e olharam para ela com curiosidade. — Você pode ir depois de terminar o seu teste — a Sra. Quentin, a professora de Inglês, disse. Ela estava sentada em sua mesa lendo uma cópia esfarrapada de To the Lighthouse, os óculos empoleirados na parte de baixo do seu nariz. — Na verdade, eu já terminei. — Emily levantou-se da mesa e deixou cair o teste na caixa de arame na frente da sala. Ela não tinha ideia de por que estava sendo chamada para o escritório, e um buraco nervoso formou-se em seu estômago. E se alguém tivesse descoberto que ela tinha soltado fogos de artifício na festa de ontem à noite? Ela poderia ter problemas na escola por causa disso? Cada passo no chão de mármore soou como uma bomba explodindo na cabeça de Emily. Sua visão estava um pouco embaçada, como muitas vezes ficava quando ela não tinha conseguido dormir o suficiente. Talvez fosse por causa de como ela tinha ficado rolando e virando até quase cinco horas da manhã, tentando entender por que Cassie e as elfos tinham sido tão receptivas em um momento e tão frias depois. Nós veremos isso? O que isso queria dizer? O corredor de Rosewood Day estava vazio de alunos. Um monte de cartazes do baile de férias de três semanas atrás ainda estava pendurado nas paredes, e um ornamento de vidro rachado estava ao seu lado próximo à porta do banheiro das meninas. Através dos vidros das portas das salas de aula, Emily podia ver professores parecendo irritados tentando manter seus alunos fazendo as tarefas. Havia um humor jovial, não-vamos-fazer-mais-nenhum-trabalho no ar — as duas semanas de férias estavam há apenas quatro dias de distância. Ela passou pelo saguão, onde um memorial à morte de Ali ainda estava pendurado perto do auditório. Era uma colagem enorme de fotografias, desenhos antigos, e memórias de alunos, as palavras VAMOS SENTIR SUA FALTA em letras prateadas em torno do perímetro. Emily estava em um bom número das fotos na colagem, seu cotovelo ligado com o de Ali, sua cabeça apoiada no ombro de Ali, as duas rindo alto no auditório. Ela tocou a vitrine com as pontas de seus dedos, seu próprio reflexo fantasmagórico piscando para ela. A foto de Ali da escola da quinta série estava no meio da montagem; por um momento, parecia que ela estava fazendo contato visual com Emily de dentro do vidro. De repente, um segundo reflexo por trás dela chamou sua atenção. Ela virou rápido, certa de que ela iria encontrar alguém em pé no saguão, observando-a, mas o saguão estava vazio. Embora a porta da frente tenha se fechado lentamente, como se alguém tivesse acabado de fugir. A sala do diretor era do outro lado do saguão. Emily deslizou para dentro e ficou em silêncio até que a Sra. Albert, a mulher da recepção, olhou para cima. — Oh, Emily.


— Ela mexeu em alguns papéis. — Sua mãe está lá dentro. — Ela apontou para um pequeno escritório que os orientadores normalmente utilizavam. O coração de Emily começou a martelar. Sua mãe estava aqui? Sua mente se espalhou em todos os tipos de direções assustadoras. Algo tinha acontecido com um de seus irmãos. O câncer de pele da avó dela tinha voltado. Ian estava em uma matança. Emily entrou na sala e encontrou a mãe dela sentada calmamente na mesa redonda, ordenando os cupons de desconto que ela sempre carregava em uma pequena bolsa de lona. — O que está acontecendo? A Sra. Fields deu um sorriso plácido. — Oi, querida. Eu queria saber se você queria pular o oitavo período e ir à manicure antes do seu turno na Santa Land hoje — eu recebi alguns cupons de desconto do comitê Welcome Wagon como um presente de Natal. Se você não tiver nada de muito importante no oitavo período, é claro. — Seu olhar deslocou-se para a recepção e ela sorriu maliciosamente. — Eu disse a Sra. Albert que tinha uma consulta médica — ela disse em um sussurro encenado. Emily ficou boquiaberta com ela. Sua mãe tirá-la da escola — algo que nunca aconteceu, nem mesmo no tempo em que Beth tinha sido enviada ao hospital por dupla pneumonia — era chocante o suficiente, mas um dia de spa feminino não era algo que elas já fizeram juntas. Emily sempre quis que a Sra. Fields fosse esse tipo de mãe, mas a Sra. Fields via os spas como indulgências frívolas. Ela até mesmo recusou que suas filhas fizessem seu cabelo profissionalmente nos bailes da escola, insistindo que elas poderiam fazer por si próprias com bastante grampos de cabelos, chapinha e spray de cabelo. — Isso seria bom — ela falou. — Eu tenho história no oitavo período, mas provavelmente vamos apenas assistir um filme. — Eles tinham estado assistindo filmes na semana passada enquanto a Sra. Weir, a professora, se sentava na parte de trás para fazer compras de natal em seu iPad. — Que bom. — A Sra. Fields levantou-se e colocou a bolsa de cupom de volta em sua bolsa acolchoada da Vera Bradley. — Vamos lá, então. Emily correu atrás de sua mãe através das portas duplas do saguão. Um vento forte soprou para cima fazendo os galhos das árvores se chocarem e arrastou uma embalagem prata de chiclete em frente ao estacionamento. Ela olhou ao redor, pensando na figura que ela tinha jurado que tinha visto atrás dela no saguão, mas o estacionamento estava vazio. Deve ter sido um truque da sua imaginação.

*** — O que é isso em seus braços? — A manicure do Fermata Spa agarrou os pulsos de Emily e virou seus antebraços para cima. Minúsculos pontos vermelhos manchavam sua pele. Emily olhou para eles alarmada. A Sra. Fields olhou e estalou a língua. — Oh querida. Eu lavei seus lençóis com o novo detergente ontem. Aposto que foi por causa dele. Emily gemeu. Sua mãe estava sempre comprando detergentes diferentes com base em tudo o que estivesse em promoção. Sua pele sensível não conseguia lidar com todas as mudanças. Parecia que ela tinha algum tipo de bactéria comedora de carne. Ela sentou-se na cadeira da manicure e tentou relaxar. As banheiras de imersão de pés borbulhavam pacificamente. O ar cheirava suave e fresco, como sândalo misturado com laranjas frescas. Esteticistas em jalecos pretos passavam por elas tranquilamente,


atirando a Emily e sua mãe sorrisos plácidos. A única coisa ruim era que ‚Blue Christmas‛ estava tocando no aparelho de som, provavelmente a canção de natal mais deprimente que já tinha sido escrita. A mãe de Emily estava sentada ao lado dela, hesitando quando a manicure tirou suas cutículas. Emily suspeitava que esta fosse a primeira manicure que ela já tinha feito — ela tinha ficado intrigada durante séculos pelos esmaltes Essie antes de finalmente escolher um rosa quase transparente. — Então — a Sra. Fields murmurou. — Me conte tudo sobre a festa de ontem à noite. Emily estava se perguntando quando sua mãe iria sondá-la para obter informações sobre as elfos. — Foi muito boa — ela respondeu, enquanto a manicure pintava suas unhas. — As elfos se abriram um pouco comigo. Uma das meninas, Sophie, foi rejeitada em Yale. Ela me lembra de Spencer — sob demasiada pressão. Heather parece estar tendo problemas familiares — eu acho que os pais dela não se dão bem. Lola está passando por algumas coisas também — eu acho que seu irmão está em reabilitação. Eu não sei muito sobre Cassie ainda, só que a festa foi na casa dela e que os pais dela definitivamente não estavam em casa. Parece que todas elas têm de cuidar de si mesmas. Talvez elas estejam fazendo essas brincadeiras para chamar a atenção. — Sim, mas o que foi que você descobriu sobre as brincadeiras mesmo? — a Sra. Fields perguntou. — Elas estão planejando algo grande para breve? Elas fizeram alguma referência ao menino Jesus? Emily mordeu o lábio inferior. — Elas não mencionaram quaisquer planos firmes — ela admitiu. — E, na verdade, quando eu as pressionei sobre sair de novo, elas reagiram de uma maneira estranha. Eu nem sequer cheguei a confirmar se realmente eram elas as brincalhonas. Nós nem sequer conversamos sobre isso. A Sra. Fields apertou os lábios até que a pele ao redor deles se enrugou. — Claro que elas são as brincalhonas — nós sabemos disso. Você tem que tentar mais. Isto é muito importante. — Eu sei que é importante — Emily disse com petulância. — Mas eu só posso ir tão rápido quanto eu posso. Eu não acho que elas confiam em mim ainda. — Bem, ganhe a confiança delas. — A Sra. Fields arrancou suas mãos para longe da manicure, vasculhou em sua bolsa e arremessou uma caixa pequena no colo de Emily. — Todos nós da igreja nos reunimos e conseguimos isso para que você possa pegá-las no ato. Emily pegou a caixa. Era um iPhone novo. — Ele tem a função de vídeo — a Sra. Fields explicou. — Você quer que eu filme elas? — Emily perguntou, atordoada. — Quanto mais você quer esperar para documentar o que estão fazendo para a polícia? — A Sra. Fields estendeu seus dedos novamente, e a manicure pintou-as com o esmalte. O cheiro químico encheu o ar. Sinos soaram quando um grupo de mulheres caminhou para o salão. Elvis continuou a cantar miseravelmente sobre como sua amada tinha deixado ele no Natal. Emily baixou os olhos para o colo. Ela pensou em como Cassie pegou uma cadeira de jardim para ela na festa. Como todas elas aplaudiram quando ela soltou o fogo de artifício. — Olha, eu sei que você não quer fazer isso — a Sra. Fields murmurou como se estivesse lendo a mente de Emily. — Mas eu vou falar a verdade para você. O menino Jesus que roubaram vale muito dinheiro. Eu estava pensando em vendê-lo e usá-lo para comprar os presentes de Natal já que o bônus do seu pai não era o que se esperava. — Ela fungou. — Eu só quero que o natal seja especial este ano.


— Eu entendo — Emily disse calmamente. — Mas e se eu não conseguir o menino Jesus de volta? — Você vai — a Sra. Fields insistiu. — Você tem que ganhar a confiança delas. Conquiste-as. Faça o que for preciso. Ela estendeu suas unhas finalizadas sobre a mesa. Emily moveu seus pés, uma dor desconfortável crescendo em seu estômago. Mas, como a boa menina que ela sempre foi, ela balançou a cabeça e disse que faria o que lhe foi dito. O problema era que Emily ainda não tinha ideia de como se infiltrar no grupo de Cassie. Se ela não aparecesse com algo rápido, porém, seria um Natal azul para todos.


9

FORMIGAS EM SUAS CALÇAS Uma hora depois, com as unhas recém-pintadas de um vermelho festivo, Emily correu para a Santa Land para começar seu turno, passando por uma enorme liquidação da loja Hermès, por uma multidão de pessoas no balcão de diamantes da Tiffany & Co., e pela performance de um mágico do lado de fora de um carro de brinquedo. Já havia uma longa fila de crianças à espera na passarela de bengalas doce listradas da Santa Land, e muitas delas pareciam cansadas e irritadiças. A Sra. Meriwether cumprimentoua na casa de gengibre. — Você viu as elfos? — perguntou ela, com a voz uma oitava acima do seu tom normal. — Uh, eu acabei de chegar aqui — Emily lembrou. — Elas desapareceram. — A Sra. Meriwether olhou ao redor freneticamente. — Elas deveriam vir em uma hora, e está um caos por aqui! Então ela foi embora, resmungando para si mesma. Emily vestiu sua roupa de Papai Noel, se perguntando se as elfos tinham fugido do trabalho por causa da festa de Cassie na noite passada. Em minutos, ela estava no trono do Papai Noel. Uma menina familiar com um rabo de cavalo castanho caminhou até ela primeiro e se estatelou no colo de Emily. Seu pai, um homem largo, com um corte de cabelo militar e vestindo um uniforme da polícia, apareceu ao lado dela. Emily olhou para o distintivo brilhante. O’NEAL. Esta era a menina que tinha pedido cada presente que tinha no mundo. — Tina gostou tanto de você que ela queria fazer uma outra visita, Papai Noel. — O oficial O’Neal deu uma piscadela para Emily. Seu crachá brilhava sob as luzes quentes da fotografia. — Eu queria colocar mais algumas coisas na minha lista — Tina se gabou. Ela começou a listar os itens em seus dedos. Seus pedidos novos incluía a Casa da Barbie, a Barbie Jato de Férias e a Barbie Princesa da Neve Edição Limitada. Emily não tinha certeza se uma menina da idade de Tina devia entender mesmo o termo Edição Limitada. — Você não acha que isso é o suficiente? — Emily disse depois que Tina tinha nomeado cerca de 20 itens. — Papai Noel tem que abrir espaço no seu saco de brinquedos para todo o resto do mundo, também. Tina esticou o lábio inferior. — Papai disse que Papai Noel me traria tudo. Emily lançou um olhar cuidadoso ao Oficial O’Neal, mas ele apenas deu de ombros timidamente. — Ela foi uma menina muito boa este ano. As crianças continuaram a percorrer a fila. Uma derramou um milk-shake de morango no colo de Emily e outra explodiu em lágrimas. Assim que uma menina entregou a Emily uma carta grossa em um envelope que dizia PARA PAPAI NOEL em uma letra trêmula na parte da frente, Emily finalmente avistou Cassie, Lola, Heather e Sophie caminhando pelo corredor. Seus chapéus de elfos estavam tortos. Suas roupas justas desalinhadas. Cassie e Sophie não se preocuparam nem em colocar seus sapatos pontudos, estavam usando tênis ao invés. Mesmo de longe, parecia que elas estavam


com uma ressaca enorme. Emily se perguntou o quão tarde elas tinham ficado na festa depois que ela foi excluída. O mágico que estava se apresentando entregou a Cassie uma flor de balão. — Vocês meninas parecem que precisam de um estimulante — ele disse para as elfos, empurrando um balão para cada uma delas. — Cai fora — Cassie disse impassível. Lola bateu no chapéu mágico de sua cabeça. Ele se esgueirou de volta para seu banco. A Sra. Meriwether correu para as elfos. — Onde vocês foram, meninas? — Seu rosto estava vermelho, e suas mãos estavam em punhos apertados. — Era para vocês estarem aqui há uma hora. As elfos apenas olharam para ela, aparentemente exaustas demais para replicar. A Sra. Meriwether levantou a mão. — Eu quero que vocês quatro limpem o interior da casa de gengibre. — Ela apontou em direção a ela. — Uma criança acabou de vomitar lá. E o vaso sanitário do banheiro está imundo. As elfos abriram a boca para protestar, mas a Sra. Meriwether bateu o pé. — Façam isso — disse ela através de seus dentes. Até mesmo Heather se encolheu. Resmungando, as elfos caminharam em direção à casa de gengibre. — O que eu não daria para não estar trabalhando hoje — Cassie resmungou baixinho. — Vamos esperar que um asteroide atinja o shopping — Lola concordou. — Ou, pelo menos, a Santa Land — Sophie disse. — Você pode trazer isso de Natal para nós, Papai Noel? — Heather olhou para Emily, notando ela pela primeira vez durante todo o dia. Emily coçou distraidamente as feridas vermelhas em seu braço, com a cabeça girando. Conquiste-as, ela ouviu a voz de sua mãe dizer. Faça o que for preciso. Ela olhou para a erupção em seu braço, um pensamento congelando em sua mente. Colocando a placa PAPAI NOEL FOI ALIMENTAR A RENA no trono, ela caminhou pelo tapete de bengalas doce e bateu no ombro da Sra. Meriwether, que estava estarrecida com os recibos da registradora. Ela virou e lançou um olhar fulminante para Emily. — Não me diga que você também vai me dar problemas agora. — Sem problemas aqui — disse Emily. — Mas eu apenas queria dizer que eu encontrei um besouro na minha barba. As sobrancelhas da Sra. Meriwether se franziram. — Vamos ver. Emily fingiu analisar através da sedosa barba em seu queixo. — Eu acho que ele rastejou para longe. — Como ele era? Emily fingiu pensar, em seguida, descreveu a criatura parecida com um carrapato sobre o qual ela tinha lido no jornal algumas semanas atrás. — Era meio marromavermelhado? Oval? Parecia um besouro, mas eu tenho certeza que não era. A cor desapareceu do rosto da Sra. Meriwether. — Deus. Isso soa como um percevejo. Bingo. Emily ficou feliz por ter chegado à descrição certa — uma loja de departamentos na Filadélfia teve que ser fumigada por causa das criaturas, e houve grandes reportagens sobre isso. Ela fingiu surpresa. — Você acha? Eles não são, assim, impossíveis de se livrar? — Você usou a roupa de Papai Noel fora do shopping? — A Sra. Meriwether parecia furiosa. — Você esteve em algum lugar onde possa haver percevejos? — Claro que não. — Emily cruzou os braços sobre o peito. — Eu deixo a roupa de Papai Noel aqui toda noite. Mas agora que você mencionou, eu notei isso.


Ela arregaçou as mangas para revelar as pequenas feridas vermelhas sobre o interior de seus braços. Elas pareciam exatamente com a mordida de percevejo que um trabalhador da loja de departamentos tinha mostrado a um repórter na TV. Um gorgolejo de repulsa surgiu da parte de trás da garganta da Sra. Meriwether. — Oh, céus. — Ela agarrou sua cabeça. — Há percevejos na Santa Land! Há percevejos no shopping! Cabeças se ergueram. Murmúrios se iniciaram. O boato se espalhou como fogo, e em poucos minutos, todas as famílias com crianças esperando para sentar-se no colo de Emily havia fugido da passarela de bengalas doce listradas. Vendedores e compradores saíram da Aéropostale e J. Crew e conversavam em grupos apertados. Todo mundo começou a coçar os braços, pescoço e couro cabeludo. Os pais olhavam atentamente para a pele de seus filhos. Um guarda da segurança puxou a Sra. Meriwether de lado e começou a conversar com ela. Logo depois, um grupo de homens em ternos de negócio surgiu de um corredor de trás e caminharam até a Santa Land. — Eu sou Jeffrey Allen, chefe de operações — disse um deles, esticando a mão para apertar a da Sra. Meriwether. — Você disse que encontrou um percevejo? — É isso mesmo. — A Sra. Meriwether apontou para as feridas no interior dos braços de Emily. O Sr. Allen inspecionou as feridas com cuidado, e depois conversou com alguns dos outros executivos. Emily ouviu as palavras fumigação maciça e perda de lucro enorme e talvez haja algum tipo de erro. — Percevejos! — Uma mãe passou gritando. Mais pais se reuniram em torno dos executivos, lamentando que eles fossem ter que queimar todas as suas roupas e que eles iriam processá-los se seus filhos tivessem picadas amanhã. — Acalmem-se, acalmem-se — o Sr. Allen disse, fazendo um movimento de tenham calma com as mãos. — Vou chamar a segurança agora. O shopping será fechado até amanhã para que possamos resolver o problema. Minutos depois, a música de Natal alegre cessou, e um anúncio soou pelo altofalante dizendo que era necessário que todos evacuassem o shopping imediatamente. Compradores se dirigiram correndo para a saída. Como se tivessem tido uma dica, as elfos surgiram da casa de gengibre. — Acabei de ouvir que o shopping estava fechando? — Cassie perguntou com os olhos turvos, olhando para as pessoas correndo em direção às portas duplas. — Isso mesmo — a Sra. Meriwether disse em uma voz superficial. — Pegue suas coisas. Há uma investigação de percevejo. Cassie colocou uma mecha de cabelo loiro claro atrás da orelha. — Mas nós ainda seremos pagas por hoje, certo? — Suponho que sim — disse a Sra. Meriwether a contragosto. — Mas deixem seus uniformes aqui — vamos ter que lavá-los especialmente esta noite. Emily encontrou um percevejo em sua barba de Papai Noel. Todos os quatro pares de olhos das elfos se viraram para Emily, e Emily piscou. A boca de Lola caiu aberta. Heather soltou um risinho incrédulo. Quando a Sra. Meriwether virou as costas, Cassie se aproximou mais. — Um percevejo em sua barba, hein? Emily olhou em volta com cautela. — Que azar, não é? — Puta merda — Cassie sussurrou, agarrando o braço de Emily e dando-lhe um abraço. — Você é incrível!


— Você acabou de salvar a nossa bunda, Papai Noel — Lola jorrou. — Eu acho que eu não conseguiria trabalhar hoje. Eu estou me sentindo morta. Emily tirou o gorro de Papai Noel. — Eu realmente não estou com disposição de trabalhar, também. — Devemos fazer algo para celebrar a nossa folga inesperada — disse Cassie, aparentemente restaurada. Ela deu às outras elfos um olhar secreto. Após uma série de gestos e acenos não ditos, ela virou-se para Emily. — E você vem com a gente, Papai Noel. — Sério? — Emily guinchou, esquecendo-se de bancar a indiferente. — Sério. — Cassie uniu o braço em volta do cotovelo de Emily. — Parece que você precisa de um pouco de diversão. Ela puxou Emily para a saída com os outros compradores se coçando em pânico. Algumas pessoas deram a Emily cautelosos olhares de soslaio, provavelmente se perguntando por que ela estava sorrindo tão amplamente diante de uma infestação de besouro. O que eles não sabiam não os feriria com uma picada.


10

TIRA TUDO, GAROTÃO — Pooh Gigante e Tigrão em um trenó à sua direita — Cassie gritou algumas horas mais tarde, projetando uma mão coberta com uma luva sem dedos para fora da janela do carro parcialmente aberta do lado do motorista. — E, Jesus, aquele é o Ió como uma rena? — Pobrezinho. — Sophie deu uma longa tragada em seu cigarro. Emily inclinouse para fora da janela para ver melhor. Realmente havia um burro azulado inflável puxando o urso e o tigre do desenho em um trenó do Papai Noel no quintal de alguém. Ió realmente parecia arrasado. Emily afundou de volta no banco de trás do carro de Cassie, onde estava sentada entre Lola e Heather. O interior cheirava a uma mistura de fumaça de cigarro, chiclete de canela, bengalas doces de menta que elas tinham arrancado do cesto de vime da Santa Land. Elas estavam dirigindo devagar em torno de um bairro em West Rosewood, cobiçando as decorações ostentosas, ouvindo música e passando ao redor uma garrafa de rum. Emily sentia um zumbido nervoso em seu peito, mas não era por causa do álcool, que ela tentou evitar tanto quanto possível. Era por causa do iPhone aninhado na palma da sua mão. Algo estava para acontecer hoje à noite, ela podia sentir isso. Antes de sair do spa, ela aprendeu sozinha a utilizar a função de câmera, aprendendo que botões apertar e como aumentar ou diminuir o zoom. Mas parte dela queria lançá-lo para fora da janela. Ou, pelo menos, colocá-lo de volta em sua bolsa. — Este é o lugar onde Colin mora. — Cassie direcionou para um meio-fio e parou, olhando para uma grande casa de estilo Colonial Holandês por trás das árvores. Luzes de Natal traçavam a linha do teto, e um grupo de renas desfilavam acima do longo caminho. As janelas estavam escuras, e parecia que não havia ninguém em casa. — Ele falou com você depois da festa? — Heather perguntou. — Não. — Cassie apertou sua mandíbula. Lola se inclinou para frente. — Você quer...? — Ela parou, olhando com cautela para Emily. Cassie esfregou o queixo, as luzes de Natal piscando brilhavam em seu rosto. — Não — ela decidiu. — Ele não vale a pena. — De repente, ela animou-se com alguma coisa na direção oposta. — Mas o que é isso? Todas as meninas seguiram seu olhar para uma casa do outro lado da rua. Cada janela brilhava. Uma tonelada de carros enchia a entrada de automóveis, e uma profunda e constante corda de um baixo vibrava de dentro das paredes. Silhuetas moviam-se em frente de uma larga janela arredondada, uma figura se destacando entre as outras. Alguém estava girando descontroladamente, balançando os quadris e a bunda em um estilo exibicionista. — Whoa. — Sophie mordeu o fim de uma de suas tranças. Cassie abriu a porta. — Isso nós temos que ver. Ela atravessou o jardim da frente. Lola, Sophie e Heather se mexeram para fora do carro, também. — Vamos, Papai Noel. — Heather olhou para Emily sobre o ombro. — Você não vai dar uma de covarde para nós, não é?


Emily não sabia mais o que fazer a não ser seguir as outras meninas até a frente do quintal levemente inclinado, com o iPhone na mão. Elas chegaram a um ponto atrás de um grande arbusto e espreitaram por entre os galhos. Uma luz estroboscópica pulsava contra a vidraça. Um grito agudo soou quando a pessoa girando tirou sua camisa e jogou-a no meio da multidão. Emily não conseguia distinguir muitos detalhes, apenas que a pessoa estava usando um gorro vermelho de Papai Noel em sua cabeça. — Você acha que é uma despedida de solteiro? — Sophie sussurrou. — Talvez seja apenas uma festa de Natal com strippers — Lola sugeriu. — Se Colin está lá, eu vou matá-lo — Cassie rosnou. Heather se agachou na neve. — Eu desafio você a tirar uma foto, Cass. Cassie levantou-se e tirou o celular de sua bolsa. — Isso nem mesmo é um desafio. — Ela caminhou em direção à janela com os ombros erguidos. Um galho estalou ruidosamente na floresta e ela congelou. — Isso foi uma de vocês? Todo mundo balançou a cabeça e olhou em volta. A calçada estava vazia. Não havia ninguém à espreita perto da fila de carros, também. Emily olhou para a casa ao lado, seu coração batendo forte. Ela jurou que tinha acabado de ver algo se mover na varanda. E se fosse a polícia? — Alguém está nos observando. — Cassie caminhou de volta para o grupo. Ela atirou em Emily um olhar afiado, como se fosse culpa de Emily. Heather bufou. — Não há ninguém lá. Você está com medo. — Tudo bem. Você faz isso — Cassie desafiou, entregando a Heather seu celular. Heather virou o celular para cima em suas mãos, então inclinou a cabeça como se estivesse ouvindo alguma coisa. Nenhum galho se quebrou, mas havia algo carregado e perigoso no ar. Sophie nivelou os olhos com os de Emily. — E se o Papai Noel fizer isso? O coração de Emily disparou. — Hum. Okay. As elfos se viraram e olharam para ela. — Muito bem, Papai Noel — Cassie disse rispidamente. — Vá em frente. O volume da música aumentou quando ela chegou mais perto da janela. Outro grito soou dentro da casa, seguido por alguém berrando — Tira tudo! Agora ela estava a poucos metros da janela. Ela se agachou. Os espinhos do arbusto roçaram sua pele. A neve molhada atravessou os joelhos de sua calça jeans. Quando ela olhou para trás, ela meio que esperava ver o carro de Cassie indo embora, as elfos rindo histericamente, mas elas ainda estavam curvadas perto dos arbustos, observando. Ela deslizou para o mato crescido logo abaixo da janela da varanda. Uma pessoa passou a poucos metros acima dela e ela congelou, prendendo a respiração. A música passou de uma rápida melodia techno para algo mais estridente com um monte de trombetas. Mais gritos soaram, e Emily avançou devagar o nariz para acima do tapume até que ela pudesse ver a sala. Uma tonelada de mulheres enchia um grande espaço cheio de sofás de estofado floral, lâmpadas de vidro chumbado estilo Tiffany e prateleiras carregadas de antiquadas bonecas em saias rendadas. Todo mundo estava segurando um coquetel rosa e olhando para a stripper, que tinha agora subido na lareira de tijolos e estava balançando a bunda. Mas por que um grupo de mulheres estava assistindo uma mulher stripper? Era improvável que houvesse tantas lésbicas em West Rosewood. O olhar de Emily voltou para a figura na lareira, e ela mordeu sua língua com força para não rir. Não era uma mulher stripper. Era um homem. Ele tinha tirado quase todas as suas roupas, e estava usando apenas o gorro vermelho de Papai Noel e uma tanga vermelha. Todas as mulheres, que pareciam donas


de casa, deliraram, e de vez em quando uma delas ia enfiar uma nota de dinheiro no cós da cueca dele. Com as mãos trêmulas, Emily levantou seu celular para a janela e apertou o botão para tirar algumas fotos. De repente, a porta da frente se abriu e a música espalhou-se para fora da casa. Uma mulher saiu para a varanda e olhou em volta. — Tem alguém aí? O coração de Emily saltou para sua garganta. Ela empurrou o celular de volta no bolso e caminhou para fora do quintal. — Ei! — gritou a mulher, mas Emily continuou andando. As elfos a seguiram, e todas elas se amontoaram no carro de Cassie, rindo histericamente. — Dirija! — Emily gritou, olhando para a mulher, que já estava no meio do caminho. Cassie dirigiu para fora do bairro. Somente quando elas estavam na Avenida Lancaster novamente que o coração de Emily começou a desacelerar. De uma forma estranha, isso tinha sido emocionante. Ela se sentia como uma criminosa. — Você tirou alguma foto, Papai Noel? — Heather perguntou. Lola bufou. — Aposto que ela não tirou. Emily passou o celular para Heather. As sobrancelhas de Heather levantaram quando ela passou através das imagens. — A stripper era um cara? Sophie pegou o celular. — Ah meu Deus, isso é a coisa mais idiota que eu já vi. — Alguém sabe quem ele é? — Lola olhou para as fotos, também. — Eu aposto que a esposa dele não sabe que ele está fazendo isso. Cassie parou para que ela pudesse dar uma olhada nas fotos, então se dobrou, rindo. — Você é demais, Papai Noel. Todo esse tempo nós pensamos que você fosse uma espiã. Eu acho que nós estávamos erradas. Sophie passou a língua sobre os dentes. — Talvez devêssemos mesmo deixá-la entrar... você sabe. — Eu acho que isso poderia ser arranjado. — Os olhos de Cassie percorreram o grupo. — Todas concordam? — Eu concordo. — Heather levantou a mão. — Eu também — disse Sophie. Lola encolheu os ombros e disse que ela supunha que ela também concordava. Cassie estendeu a mão para apertar a de Emily. — Parabéns, Papai Noel. Bemvinda. — Bem-vinda a quê, exatamente? — Emily perguntou, mesmo que ela estivesse com medo de saber exatamente o que as elfos significavam. — Você vai ver — Cassie brincou, dirigindo o carro de volta para o tráfego e fazendo uma curva acentuada à esquerda em um semáforo. As outras elfos sorriram para Emily como se ela tivesse acabado de ganhar uma bolada e, em alguns aspectos, ela tinha. Mas uma parte dela também se sentia mais repugnante do que o gorro de Papai Noel do stripper. Todo esse tempo nós pensamos que você fosse uma espiã. Ela estremeceu com o pensamento de Cassie e as outras descobrirem que estavam certas sobre ela. Talvez ela devesse falar a verdade a elas. Mas se ela fizesse isso, as elfos nunca falariam com ela novamente. E, de repente, algo ficou claro na mente de Emily: Ela queria que as elfos falassem com ela novamente. Ela queria ser amiga delas — de verdade. Por três longos anos, ela ansiou fazer parte de outro grupo de amigas em que ela pudesse confiar. Ela tinha suas velhas amigas, é verdade, mas ela nunca mais tinha se sentido do mesmo jeito que ela costumava se sentir antes. E talvez as elfos fossem rebeldes e um pouco loucas, mas elas eram divertidas e leais.


Emily deixou cair seu celular dentro de sua bolsa. Se esqueça de salvar o menino Jesus da sua mãe. Ela estava indo para o lado negro.


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O VERDADEIRO SIGNIFICADO DO NATAL — Ei, Papai Noel! — A voz de Cassie soou justo quando Emily estava tirando sua roupa de Papai Noel no dia seguinte. Ela enfiou a cabeça dentro da casa de gengibre. — Quer comer alguma coisa comigo? — Uh, claro — Emily respondeu, chutando as botas feias do Papai Noel para fora de seus pés. Elas estavam com um leve cheiro químico dos tratamentos anti-percevejo com o qual absolutamente tudo no shopping foi pulverizado. Havia todos os tipos de placas penduradas ao redor do shopping, dizendo coisas como LIVRE DE PERCEVEJOS! e TRATADA COM PRODUTOS QUÍMICOS QUE NÃO AGRIDEM O MEIO AMBIENTE! Ainda assim, mesmo que o shopping tivesse sido limpo de percevejos — não que tivesse havido algum para começar — as filas da Santa Land tinham estado pequenas hoje. Havia apenas um punhado de pessoas passeando, bem como algumas delas suspeitosamente coçavam suas cabeças e pescoços. Emily saiu da casa de gengibre assim que a Sra. Meriwether foi trancar o grande Boneco de Neve e as estátuas Rudolph para que ninguém os roubasse. Cassie estava esperando no portão; ela tinha se trocado para um par de jeans pretos, uma desbotada camiseta preta de AC/DC e um sapato vermelho de solado grosso John Fluevogs. Tudo fazia seu cabelo recém-loiro parecer ainda mais claro. — Onde estão as outras? — Emily perguntou, olhando ao redor. Cassie encolheu os ombros. — No Bellissima, ok? — Ok — Emily respondeu, sentindo-se agradavelmente surpresa que Cassie quisesse sair com ela sozinha. Quando Emily saiu pelo portão, ela olhou por cima do ombro. Felizmente a Sra. Meriwether ainda estava ocupada com Rudolph e não notou que Emily estava saindo com Cassie. Emily não podia dizer a ela e a sua mãe que ela estava desistindo da espionagem. Ela esperava que, em uma semana ou mais, ela tivesse apenas que dizer que ela não tinha sido convidada para nenhuma das brincadeiras delas. Iria parecer que ela tinha tentado e falhado em vez de deliberadamente desistido. Quanto ao menino Jesus ser usado para pagar os presentes de Natal, bem, Emily tinha algumas ideias sobre isso, também. Ela recebeu seu primeiro salário da Santa Land ontem e ficou surpresa ao ver que o Papai Noel ganhava 15 dólares por hora — era mais do que ela teria ganhado em qualquer outro emprego de férias. Se sua família estivesse realmente sofrendo por dinheiro este Natal, ela iria entregar seu salário para a mãe dela comprar os presentes. O Bellissima, um pequeno bistrô italiano, era no final do corredor. Estava tocando uma música romântica — uma mudança agradável das canções de Natal — saindo dos alto-falantes, e o interior do restaurante exibia vários ladrilhos de terracota praticamente colados, plantas goldenrod coloriam as paredes e mesinhas cobertas com toalhas preto e branco. Ao contrário do resto do shopping, o Bellissima estava cheio de clientes comendo ou no bar. Talvez as pessoas achassem que os percevejos não pudessem se infiltrar nos restaurantes.


Uma garçonete pequena com um rabo de cavalo alto levou as meninas para uma mesa no canto e serviu copos de água com gás. — Eu provavelmente só vou pedir uma salada — Cassie disse, abrindo o grande cardápio laminado. — Oh, eu também — disse Emily, embora ela não fosse do tipo de garota que pedisse saladas em restaurantes. Elas ficaram sentadas por um momento estudando o cardápio, e depois Cassie deu um tapinha no lábio. — Embora os cannolis também pareçam realmente bons. — Oh, vamos pedi-los em vez disso — Emily gritou. — Ufa. — Cassie apertou a mão em seu peito. — Eu estava com medo de que você fosse uma daquelas obsessivas por dietas. — Eu? — Emily conteve uma risada. — Hum, definitivamente não. As meninas fizeram seus pedidos e a garçonete caminhou para longe. Emily olhou ao redor do restaurante, reconhecendo algumas pessoas que ela conhecia da escola. Mason Byers e Lanie Iler estavam sentados em uma mesa do canto bebendo refrigerantes italianos. Kirsten Cullen e sua família estavam comendo tigelas de macarrão. — Então, você se divertiu na noite passada? — Cassie rodou o gelo ao redor do copo de água com seu canudo. — Definitivamente — Emily admitiu. — Aquelas fotos do Papai Noel Stripper são valiosas. — Totalmente. — Cassie sorriu. — Então, há quanto tempo você conhece as outras meninas? — Emily perguntou. — Vocês já são amigas há muito tempo? Cassie virou seus olhos para a direita, pensando. — Nós nos conhecemos no ano passado — nós éramos as elfos da Santa Land do Shopping White Birch, que o pai de Sophie gerenciava, e decidimos fazer novamente este ano. É uma espécie de grande brincadeira entre nós. Mas nós não frequentamos as mesmas escolas nem nada disso. Eu estudava em Rosewood Day. — Eu estudo lá, também — Emily desabafou. Um pequeno sorriso surgiu no rosto de Cassie. — Eu sei. Você era amiga de Alison DiLaurentis, não era? Emily apertou os lábios. Só de ouvir o nome de Ali fez seu coração bater mais rápido. — Eu fiz a conexão na minha festa — Cassie explicou. — Eu lembrei de você. Eu costumava jogar hóquei de campo com Ali na equipe júnior de Rosewood Day. Ela era muito boa. — Eu lembro de você, também. — Emily brincava com o guardanapo de pano no colo. — Ali achava você incrível. Ela costumava falar de você o tempo todo. Cassie pressionou a língua entre os dentes, parecendo um pouco envergonhada por isso. — Nós nos divertimos juntas. Ali era definitivamente madura para sua idade — todos nós dizíamos isso. Não conseguíamos acreditar que ela estava na sétima série. — Ela torceu uma pulseira grossa de couro em volta do seu pulso. — Eu não consegui acreditar quando eu descobri o que Ian havia feito com ela. Ele era de uma série na minha frente. Eu só o conhecia de vista, mas ele sempre me pareceu tão bom com todos. Não o tipo de cara que faria... você sabe. Mas que tipo de aberração namora uma aluna da sétima série sendo um sênior? Isso é... errado. — Eu sei. — Os olhos de Emily inadvertidamente encheram de lágrimas. Ela queria afirmar que era por causa do forte odor das especiarias italianas flutuando no ar fazendo cócegas em seu nariz, mas ela sabia que não era verdade. — Ela costumava falar de você, você sabe — disse Cassie.


Emily levantou a cabeça. — Sério? — Uh-huh. Ela disse que você era a favorita dela de todas as suas amigas. Vocês tinham uma ligação especial. — Nós tínhamos — Emily disse, suas bochechas se aquecendo. — Eu sinto tanta falta dela. — Eu também. — Cassie colocou a mão sobre a de Emily. — Eu mudei muito desde que Ali desapareceu. Um zumbido soou da cozinha. Um grupo de mulheres em uma mesa próxima deu uma gargalhada. Emily secou seus olhos com um guardanapo e olhou à espreita para o cabelo loiro de Cassie, os olhos fortemente alinhados e os vários piercings nas orelhas. Seria possível que o desaparecimento de Ali tivesse feito Cassie mudar a sua imagem de perfeita e na moda e se transformar em uma menina má? Ela certamente tinha feito Emily repensar um monte de coisas. — Eu nunca tive outra amiga como Ali — Emily admitiu. — Mesmo que ela fosse um pouco malvada, eu teria feito qualquer coisa por ela. A garçonete apareceu com dois cannolis, e Emily e Cassie mergulharam na mesma hora. Creme escorreu sobre o prato quando Emily cortou a massa com o garfo. — Isso é delicioso pra caramba — murmurou Cassie. — Muito melhor do que uma salada — disse Emily. Então Cassie abaixou seu garfo, inclinou-se sobre os cotovelos, e deu a Emily um olhar sério. — Então escute. Nós nos divertimos bastante com você, Papai Noel. No início não tínhamos certeza sobre você — foi tão estranho a senhora Meriwether trazer uma menina para ser o Papai Noel, e ela continuava a sussurrar ao seu redor, e nós tínhamos certeza de que havia algo estranho acontecendo. Mas você provou que estávamos erradas. Então, queremos convidá-la hoje à noite para ir a um lugar muito especial. Emily quase engasgou com um pedaço de cannoli. Seu coração começou a martelar. Uma pequena voz dentro dela implorou, Não deixe que isso seja uma brincadeira. Qualquer coisa menos isso. Cassie lambeu um pouco do creme de sua colher. — Você já ouviu as histórias sobre alguém em Rosewood que está bagunçando as decorações de Natal das pessoas? O coração de Emily afundou. — Eu acho que sim. — Bem, somos nós. — Cassie apertou o peito com orgulho. — Eu, Lola, Sophie e Heather. Nós nos chamamos de Elfos Felizes. E esta noite, vamos fazer a nossa maior brincadeira. — Ela se inclinou para frente em sua cadeira, sua voz caindo para um sussurro. — Vamos roubar todos os presentes de debaixo da grande árvore do Country Club de Rosewood. Todas as decorações, também. É o momento perfeito, porque amanhã é o brunch anual onde todos abrem os seus presentes. Vai ser igual a O Grinch! Vamos ver se as pessoas ricas e esnobes vão se reunirem em torno da árvore quando ela estiver nua. — Ela revirou os olhos. — De qualquer forma, eu gostaria que você ajudasse. Emily manteve seu olhar em seu cannoli meio comido. — Eu não sei como me sinto sobre roubar. — Oh, não estamos roubando as coisas. — Cassie acenou com o garfo no ar. — Estamos apenas movendo-as para as quadras de tênis. Eles podem pegá-las de volta no dia seguinte. É só para brincar com eles. Bagunçar com a perspectiva deles. É como há duas semanas atrás, nós roubamos um menino Jesus do presépio em frente a uma igreja. Queríamos que as pessoas vissem o berço vazio na manjedoura e realmente pensassem sobre as coisas — o que o natal significa, o que os símbolos significam. — Ela fez uma pausa. — Isso também foi realmente engraçado. Heather teve de ir no carro com o Jesus


no colo. Ela continuou gritando sobre como isso era karma ruim e que Deus ia castigála. Emily usou toda a sua força de vontade para não contar a Cassie que era do menino Jesus da sua mãe que ela estava falando. Pelo lado positivo, parecia que Cassie e as outras não tinham quebrado o menino Jesus em pedaços. — Então, as brincadeiras não são para arruinar o natal das pessoas? — ela perguntou timidamente. Cassie levou o último pedaço de cannoli para sua boca. — Não necessariamente. É mais para chamar a atenção para o mercantilismo dele. Todo bom brincalhão tem um propósito para suas ações. Quer dizer, nós não somos completas bandidas. — Ela tocou a mão de Emily. — Nós vamos nos divertir muito, eu prometo. Pense nisso como uma cruzada de Natal. Os pedaços de cannoli se agitaram no estômago de Emily, e ela olhou para a esplanada do shopping, com a sua enorme árvore de Natal e milhões de lojas. Talvez Cassie tivesse um ponto. Ela pensou na fila de crianças na Santa Land, todas elas pedindo tantas coisas, e seus pais acenando encorajadores. E havia todas aquelas histórias nos jornais de compradores que atacavam uns aos outros para conseguir o último brinquedo de lançamento na Target ou no Walmart. Todos aqueles comerciais que faziam você se sentir terrível se você não comprar o seu querido anel de diamante, ou um Lexus, ou aquela bolsa no Natal. Até mesmo o desespero da sua mãe para conseguir o menino Jesus de volta: Ela iria vendê-lo para comprar presentes de Natal para que ela possa transformar esse Natal, mais uma vez, no melhor Natal de todos. Será que isso realmente importava quando eles tinham a coisa mais importante: uma família saudável, feliz, que iria passar o natal junta? O garfo caiu em seu prato com um som estridente, alto e claro. — Ok — ela decidiu. — Eu estou dentro. Vamos fazer isso.


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TODOS OS WHOS DESANIMADOS EM WHOVILLE — Nós devíamos ter o nosso habitual peru no jantar de Natal ou algo diferente, como bife? — a Sra. Fields perguntou enquanto servia com uma colher quadrados de lasanha nos pratos de seus filhos naquela noite para o jantar. — Ou que tal se nós sairmos para jantar na véspera de Natal? Isso seria especial, não é? — Eu não tenho certeza se devíamos gastar dinheiro em restaurantes extravagantes — o Sr. Fields disse enquanto enchia os copos de água na geladeira. — É apenas uma vez por ano — a Sra. Fields interrompeu, levantando o queixo no ar. — E de qualquer maneira, eu acho que nós vamos encontrar uma maneira de pagar. Ela levantou as sobrancelhas para Emily, mas Emily manteve seu olhar fixo em seu prato vazio. Em uma hora, ela iria se juntar às elfos na brincadeira delas — mas não como uma espiã. A Sra. Fields começou a regular oração familiar, e todos começaram a comer. — Nós vamos ter que decidir sobre a ceia de Natal em breve — a Sra. Fields disse quando colocou alguns feijões verdes em seu prato, voltando ao tema novamente. — Todos os restaurantes provavelmente vão acabar as reservas rapidamente. — Eu voto pela Churrascaria Ruth Chris. — Jake cortou um pedaço da lasanha. — Uch, esse lugar é tão chato. — Beth mordeu um pedaço de um pãozinho. — Vamos para um lugar mais agradável. Como em algum lugar da cidade, talvez. — Eu estou bem com a Applebee — Carolyn disse humildemente, sempre a menina sensata. Eles discutiram sobre isso pelo resto do jantar. Emily não se atreveu a contribuir com uma palavra, sentindo-se como um vulcão reprimido pronto para explodir. Finalmente, temendo que ela fosse deixar escapar tudo se ela ficasse sentada à mesa por mais um minuto, ela se levantou de seu assento. — Uh, eu tenho que ir para a biblioteca. Eu tenho uma tonelada de dever de casa. — Em uma noite de terça-feira antes do feriado? — Beth parecia surpresa. — Rosewood Day está trabalhando duro com vocês. — Uh, é um teste de última hora — Emily se atrapalhou, levando seu prato para a pia. A Sra. Fields também se levantou e pegou o braço dela. — Você quase não comeu nada do seu jantar. — Seus olhos estavam arregalados e preocupados. — Está tudo bem? Emily manteve os olhos fixos no tripé com uma galinha impressa em pé ao lado do fogão. — Eu estou bem — ela murmurou, colocando o prato sobre o balcão. — Até mais tarde. Quando ela caminhou para a sala de estar, ela podia sentir o olhar de sua mãe em suas costas. Não se vire, ela silenciosamente determinou. Ela se obrigou a pensar nas letras de músicas de Natal em vez disso, mas a única que apareceu em sua mente foi ‚Você é Um Malvado, Sr. Grinch.‛ Só quando ela chegou às escadas que ela olhou por cima do ombro novamente. Quando ela o fez, sua mãe tinha se afastado, como se ela não suspeitasse de nada.


*** — Não nos conduza até uma vala! — Heather gritou enquanto Cassie dirigia seu carro para o lado de uma estrada escura e isolada paralela ao Country Club de Rosewood. O carro se inclinava para o lado, definitivamente fora de equilíbrio, e Emily, Sophie e Lola estavam na parte de trás espremidas juntas contra a porta. — Eu sei o que estou fazendo. — Cassie puxou o freio de mão e desligou o motor. Quando os faróis se desligaram, a escuridão cresceu ao seu redor. Uma luz fraca brilhava sobre as colinas do campo de golfe, mas por outro lado, Emily não podia ver um palmo à frente do seu rosto. Cassie remexeu no banco da frente, tirou uma lanterna, e ligou-a. Todo mundo olhou quando a luz dourada iluminou em seus olhos. — Ok, vadias. Estamos prontas? — Totalmente — Lola sussurrou, puxando um gorro de esqui preto sobre a cabeça. As outras meninas a seguiram, e Emily foi junto com elas. Em seguida, elas subiram o morro. Cada nervo do corpo de Emily parecia eletrificado. Havia um gosto amargo em sua boca, e seu estômago roncou pelas poucas mordidas de lasanha que ela tinha comido no jantar. Ela teve que esconder suas mãos sob seu traseiro todo o caminho para que as elfos não vissem o quanto ela estava tremendo. A luz da lanterna de Cassie parecia feita de ouro ao cruzar por todo o campo de golfe. As meninas se lançaram sobre o campo, circunavegando a lagoa gigante artificial e duas armadilhas de areia em forma de ameba. A cada poucos passos, Emily olhava para trás para ver se alguém estava seguindo-as. As colinas arredondadas apareceram à distância como silhuetas escuras contra o céu arroxeado. Ela não via uma alma. As luzes do clube brilhavam no horizonte. Um medo encheu Emily quando ela olhou para as janelas compridas e a fachada de pedra. Este tinha sido o lugar onde Mona Vanderwaal tinha organizado uma festa para Hanna após seu acidente de carro — o qual Mona tinha causado. E foi nesta mesma festa que Hanna percebeu que Mona era A — e que Mona queria matá-las. As meninas viraram em volta do country club até que encontraram uma entrada dos fundos para a cozinha. — Voilà — Lola sussurrou, puxando uma chave de um chaveiro do Philadelphia Eagles, que ela tinha pegado de uma amiga que trabalhava na cozinha naquele dia. A chave girou na fechadura, e a porta se abriu. Emily se preparou para os sons de alarmes, mas nenhum soou. Elas acenderam as luzes da cozinha, e Emily protegeu os olhos. As panelas estavam cuidadosamente guardadas, as bancadas de aço inoxidável brilhavam e um comprido bico de pulverização pendia inerte na pia. — Vamos — Cassie sibilou, e na ponta dos pés foi em direção a uma porta de vaivém à direita. Ela abriu-a com o ombro para revelar a sala de jantar que Emily tinha comido inúmeras vezes com as famílias de Ali e Spencer. Havia aproximadamente trinta mesas redondas com cadeiras de madeira pesada espalhadas pela sala. Tinha um tapete oriental esticado no chão, e um bar de carvalho se estendia por toda a parede de trás. Uma enorme árvore de Natal estava no canto, suas luzes ainda brilhando e toneladas de presentes embrulhados esperando embaixo. As elfos tinham que trabalhar rapidamente, arrancando as bolas de vidro e cordões de pipoca da árvore e colocando tudo em um monte de caixas de papelão que Cassie tinha arrastado da cozinha. Emily ajudou Lola a carregar os presentes para um carrinho de compras que a amiga de Lola que trabalhava na cozinha tinha colocado do lado de fora da porta para elas, de vez em quando examinando os rótulos que apareciam sob os


embrulhos. Ela encontrou uma caixa da família Hastings. Havia também dos Kahns e dos pais de James Freed. A quarta etiqueta chamou sua atenção, e ela quase engasgou. FAMÍLIA DILAURENTIS, a etiqueta dizia. Emily tinha ouvido rumores sobre que a família de Ali iria voltar para aqui; eles até tinham estado na audiência de acusação de Ian. Será que eles já tinham chegado? O mais rápido possível, Emily e Lola foram empurrando o carrinho carregado para as quadras de tênis acima da colina. — Não é incrível, Papai Noel? — Lola riu. — Definitivamente — disse Emily, mas parecia que uma bomba estava prestes a explodir em seu peito. A escuridão estava brincando com ela. Um arbusto pareceu se mover para a esquerda. O vento soou como uma risada estridente. Elas deixaram os presentes no chão ao lado da rede e desajeitadamente guiaram o carrinho de mão de volta ao clube. Emily trabalhou furiosamente com Cassie e Heather para puxar os enfeites da árvore de Natal. Elas arrancaram bolas vidro após bolas de vidro, junto com uma mistura de estrelas de prata e ouro. Emily tentou envolvê-las cuidadosamente em guardanapos, mas as outras meninas jogaram às pressas no carrinho. Em seguida, as meninas puxaram para baixo todas as coroas, guirlandas, cordões de visco de toda a sala, colocando-os no carrinho, também. Pouco antes de o último carregamento sair, Cassie direcionou as meninas para ficarem juntas na frente da árvore de Natal esvaziada para uma foto. — Diga Bah Trapaceira! — Cassie gritou, definindo o recurso de auto-timer em sua câmera digital e posou para a foto, também. Ela tirou fotos com todos os celulares das meninas, incluindo o de Emily. Em seguida, elas deram um passo para trás e olharam para sua obra. — Está incrível — Cassie arfou. Emily não tinha certeza se o efeito era incrível, mas foi definitivamente marcante. A árvore estava magra e sem adornos. Um monte de alfinetes estava espalhado por todo o chão, e havia manchas de pó de onde os presentes tinham sido tirados. Sem as coroas festivas, as velas, os enfeites e as guirlandas decorativas, a sala de jantar parecia um pouco pobre e triste, assim como as casas em Whoville pareceram após o Grinch roubar todas as suas decorações. O que os proprietários do Country Club vão fazer quando eles encontrarem o lugar assim amanhã de manhã no brunch? Cantar pacificamente ao redor da árvore como a família Who fez? Certo. Este era o Country Club de Rosewood. Elas abriram a porta mais uma vez e empurraram o carrinho de mão para o frio. O carrinho estava especialmente cheio desta vez, e precisou que todas as cinco empurrassem a coisa para cima do morro. Cada rangido das rodas, cada risada das elfos, fazia Emily ficar tensa. Elas estavam tão perto agora. Ela não queria que alguém as ouvisse. Elas caminharam até as quadras de tênis, jogaram o resto dos presentes, e abandonaram o carrinho sem incidentes. As elfos começaram a descer o campo de golfe montanhoso para o carro. E foi então que Emily se deu conta: Elas haviam feito isso. Elas estavam correndo para a liberdade. O coração de Emily se elevou quando ela correu atrás delas. Ela nunca tinha se sentido tão alegre em sua vida antes. Ela agarrou a mão de Cassie e soltou um grito animado, e Cassie gritou de volta. — Viva as Elfos Felizes! — Heather gritou. Quando os holofotes acenderam, Emily pensou que era apenas um temporizador automático e continuou correndo. Mas, então, um megafone soou através da noite fria de inverno. — Deitem no chão! Estamos vendo vocês, meninas! A polícia está aqui! Eles já cercaram seu carro! Não há para onde ir! Emily congelou. De repente, as luzes azuis e vermelhas brilharam sobre a escarpa. Seu coração caiu a seus pés. — Não — ela sussurrou.


— Eu disse, no chão! — Uma segunda voz disse. Ambas as vozes eram familiares. Emily virou-se para elas. Duas figuras em casacos de inverno pesados estavam de pé nos campos de tênis, olhando diretamente para Emily, Cassie e as outras. Uma das figuras era alta, com cabelos grisalhos. A outra usava uma jaqueta de feltro com uma letra R do time da escola na frente. Mesmo que Emily não tivesse visto a parte de trás, ela sabia intuitivamente que dizia NATAÇÃO DE ROSEWOOD em grandes letras azuis. Tinha sido o velho casaco de Jake quando ele nadava na escola para Rosewood; agora ele servia como o casaco para todos os fins para alguém da família Fields quando eles estavam fazendo um trabalho sujo do lado de fora — removendo a neve, cavando na lama, ou subindo e descendo as colinas de um campo de golfe, rastreando vândalos. A boca de Emily se abriu. A primeira figura era a Sra. Meriwether. A segunda figura era a sua mãe.


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UMA ESPIÃ ENTRE NÓS — No chão! — a Sra. Fields gritou novamente através do megafone. Lentamente, as elfos caíram de joelhos e colocaram as mãos para cima. Emily fez o mesmo. A Sra. Meriwether e a mãe de Emily caminharam até a borda como agentes do FBI em uma apreensão de drogas e as rodeou. A Sra. Fields agarrou o braço de Cassie e puxou-a para seus pés novamente. — Você acha que você é tão inteligente — ela sussurrou com uma voz rouca que Emily nunca tinha ouvido ela falar antes. — Seus dias de brincalhona acabaram. — Temos a coisa toda gravada. — A Sra. Meriwether levantou uma câmera digital. — Meia hora de filmagens de vocês destruindo aquela árvore de Natal e tirando todos os presentes. Vocês não sabem que alguns daqueles presentes são para crianças? Você deveriam ter vergonha de si mesmas! — Nós não nos livramos dos presentes — Cassie expeliu, se contorcendo. — Eles estão nas quadras de tênis! Você não vê? Os proprietários do country club podem simplesmente colocar tudo de volta amanhã! — É vandalismo de propriedade privada. — A Sra. Fields segurou firme o braço de Cassie. — É uma coisa muito triste vocês não entenderem o quão errado isso é. Um oficial com o uniforme do departamento de polícia de West Rosewood caminhava sobre a colina da direção oposta, sua lanterna brilhando e o walkie-talkie chiando. Emily olhou para ele. Era o oficial O’Neal, o mesmo cara que tinha levado sua filha à Santa Landa duas vezes, prometendo a ela todos os presentes que se possa imaginar. — Estas são as meninas que estiveram causando tantos problemas? — O’Neal andou até a Sra. Fields, pegou Cassie dela e prendeu os braços de Cassie atrás das costas. Cassie soltou um gemido e ficou imóvel. — Isso mesmo — a Sra. Meriwether falou alto. — Elas invadiram o country club. Estas são também as meninas que vandalizaram todas as outras propriedades. A placa da Igreja Dove. Todos os gramados da frente. Elas estão causando caos durante semanas. O policial olhou as elfos de cima a baixo e balançou a cabeça. — Vamos, senhoritas — disse O’Neal, encurralando as meninas para os SUVs. As elfos caminharam com a cabeça baixa, sem dizer uma palavra. Emily começou a segui-las, sem se atrever a olhar para a mãe dela. A Sra. Fields agarrou sua manga. — O que você está fazendo, Emily? Você pode voltar para casa com a gente. Emily estremeceu. As elfos viraram e olharam para Emily e sua mãe. — Espere. Como você sabe o nome dela? — Heather perguntou. — Por que ela vai para casa? — Sophie perguntou. — Ela roubou as coisas junto com a gente — Lola falou. A Sra. Meriwether mudou seu peso. A mãe de Emily sorriu presunçosamente. Emily viu o entendimento lentamente golpear cada menina. — Puta merda — Sophie sussurrou.


— Eu disse a vocês! — gritou Lola. Ela enfiou um dedo em Emily. — Eu disse a vocês que ela era uma espiã! Eu pude simplesmente dizer no dia em que ela apareceu como Papai Noel! Mas vocês não me ouviram! Heather cuspiu na direção de Emily, e um dos policiais puxou seu braço. Cassie olhou para Emily com os olhos brilhando. — Isso é verdade? — disse ela em voz baixa, decepcionada. — Você armou para nós? Emily balançou a cabeça desesperadamente. — Eu não disse uma palavra sobre esta brincadeira para ninguém. De verdade. — Ela virou-se para sua mãe, que já estava encostada contra o Volvo wagon com os braços cruzados. — Como você sabia que íamos estar aqui? — Rastreamos o seu iPhone. — A Sra. Fields parecia orgulhosa de si mesma. — O Oficial O’Neal sugeriu. Eu suspeitei que algo iria acontecer esta noite, então eu chamei Judith e o Oficial O’Neal e nós seguimos você. Emily pensou no iPhone ainda aninhado em sua bolsa. — Você estava me espionando... nos espionando? — ela perguntou lentamente. — Você estava carregando isso por aí para nos espionar? — Cassie gritou. — Não foi assim! — Emily implorou. — Quero dizer, sim, eles me deram um iPhone, mas eu nunca usei isso em vocês! Eu juro! Você me conhece, Cassie! Por que eu faria uma coisa dessas? Cassie fez uma cara incrédula. — Na verdade, Papai Noel, eu não tenho certeza se eu conheço você mesmo. — Cassie... — As lágrimas rolaram pelo rosto de Emily. — Eu sinto muito. — Oh, Emily, o que te importa o que essas molecas pensam de você? — A Sra. Fields abriu a porta do carro. — Elas merecem uma punição rigorosa, e você nos ajudou a pegá-las no ato. Talvez até nós consigamos de volta o meu menino Jesus. De repente, Emily pensou que poderia explodir. — Você ainda se preocupa com o seu menino Jesus? — Ela gritou para a mãe dela. — Você só vai vender para comprar estúpidos presentes de Natal para todo mundo, presentes que provavelmente nós não vamos nem lembrar no próximo ano! Por que você se importa tanto em fazer com que o natal seja um quadro perfeito? Por que o que temos agora não é o suficiente? As palavras tinham fluído para fora da boca dela antes que ela tivesse tido tempo de pensá-las. A Sra. Fields endureceu e um olhar magoado atravessou seu rosto. Sem dizer uma palavra, ela caminhou ao redor do carro para o lado do motorista, entrou, e fechou a porta. O policial empurrou as elfos para dentro de sua viatura de uma por uma. Pouco antes de O’Neal guiar Cassie para dentro do veículo, Cassie girou mais uma vez e deu a Emily um olhar fervendo. — Ali iria odiá-la por isso, você sabe. Um pequeno gemido escapou da boca de Emily. O’Neal fechou a porta da viatura. O motor rosnou, e o carro se afastou com as sirenes ligadas. Emily não se moveu de seu lugar no campo de golfe, até que ela já não podia ver as luzes e ouvir as sirenes. Foi só então que a verdade a atingiu: Ela estava sozinha novamente. Ela não tinha ninguém.


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PAPAI NOEL AO RESGATE Mais tarde naquela noite, Emily saiu pela porta da frente, trancou-a, e empurrou o Volvo para baixo da garagem para que seus pais não pudessem ouvir a partida do motor. Ela não deveria estar saindo tão tarde, mas ela não conseguia ficar deitada em sua cama por mais nenhum segundo, ouvindo Carolyn roncar e vendo o rosto ferido de Cassie em sua mente repetidamente. A neve começou a cair, cobrindo as ruas, os telhados e os galhos das árvores. Ela passou por Rosewood Day, que estava toda iluminada com luzes ao redor de seu perímetro de pedra, e então desviou para a rua de Ali. Mas ela não tinha vontade de parar esta noite na casa de Ali. Ela se sentia muito envergonhada com o que ela tinha feito. Era quase como se ela precisasse se explicar a Ali, como se Ali estivesse olhando para ela além do túmulo. Emily não conseguia tirar as palavras de Cassie da sua mente. Ali iria odiá-la por isso. Era absolutamente verdade: Ali poderia ter provocado elas quatro, ela poderia ter deixado elas de lado no final da sétima série, mas ela nunca deliberadamente as trairia. As cinco sempre tiveram um pacto, cobrir uma a outra quando elas ficarem em apuros. Foi por isso que Emily, Aria, Spencer e Hanna tinham contado aos pais de Ali todos os tipos de histórias sobre onde Ali poderia ter ido na manhã depois que ela desapareceu. Elas imaginaram que Ali queria que elas fizessem isso. Nunca em seus sonhos mais loucos elas tinham achado que ela estava morta. Emily virou em um desvio e seguiu na direção indicada pelas placas para West Rosewood. Então, que tipo de pessoa ela se tornou agora? Ela sabia, no fundo, que a mãe dela e a Sra. Meriwether estavam seguindo-a? Ela tinha de bom grado levado elas direto para as meninas? Ela deveria ter dito a Cassie e as outras exatamente o que a mãe dela estava fazendo ela fazer. Mesmo que isso significasse que ela não teria vindo junto na brincadeira, mesmo que isso significasse que elas não teriam acolhido ela em seu grupo, ela teria se livrado da situação. Mas do jeito que aconteceu, ela apenas pareceu uma conspiradora. Uma traidora. Uma espiã. A placa verde para a saída de West Rosewood brilhava à distância. Emily ligou a seta e virou na saída. Em pouco tempo, ela estava chegando na delegacia de West Rosewood, que ela tinha visto no mapa do Google antes de sair de casa. Era em uma antiga fazenda. Um monte de carros-patrulha estava no estacionamento, e uma única luz brilhava em uma das janelas do térreo. As elfos estavam sendo mantidas dentro da prisão. Se houvesse algo que Emily pudesse fazer, se de algum modo ela pudesse tirá-las de lá. Mas como? Dizer que ela era o cérebro da operação? Dizer que ela tinha invadido o country club e roubado todos as coisas ela mesma? Sua mãe e a Sra. Meriwether tinham gravado tudo isso na câmera. As elfos definitivamente pareciam culpadas. Ela pegou o celular e olhou para a foto de si mesma e as elfos se reunindo em torno da árvore de Natal esvaziada dentro do country club. Cassie estava com seu braço ao redor de Emily como se elas fossem melhores amigas. Ela clicou através das outras fotos que ela tinha tirado das elfos naquela


semana. Lola e Emily encenando uma luta de espadas com duas longas bengalas doces da Santa Land naquela tarde. Cassie e Emily descansando na casa de gengibre num intervalo. Havia uma foto das meninas no carro depois de terem espionado o Papai Noel Stripper. E então as fotos do Papai Noel Stripper, balançando uma camiseta no ar, as donas de casa recheando de dinheiro a tanga dele. Todo esse tempo nós pensamos que você fosse uma espiã, Cassie havia dito naquela noite. Eu acho que nós estávamos erradas. A porta da delegacia se abriu, e Emily se abaixou no assento do motorista. Um policial uniformizado saiu da delegacia, acendeu um cigarro, e se encostou na parede de tijolos. Quando ele se moveu de perfil, Emily percebeu que era o Oficial O’Neal. Ele fechou os olhos enquanto dava longas após longas tragadas, parecendo completamente satisfeito, talvez até orgulhoso. Provavelmente foi uma grande vitória capturar as Elfos Felizes. Talvez ele até ganhasse um bônus por isso — talvez fosse com ele que ele iria pagar os presentes de Natal da lista sempre crescente da sua filha. De que outra maneira ele iria comprar todos os brinquedos com o salário de um policial? Uma luz brilhou em sua cabeça. Ela estudou a figura fumando por mais um minuto. Havia algo familiar nele, o formato de seus ombros largos, os contornos salientes do seu queixo. Debaixo de seu uniforme, Emily estava quase certa de que ele tinha um abdome de tanquinho e um largo peito bem definido. Ela se atrapalhou para pegar seu celular de novo e clicou nas fotos do Papai Noel Stripper. Ela olhou para O’Neal mais uma vez, dando uma olhada melhor. Ela olhou da foto para o policial até que ela teve certeza absoluta. — Oh meu Deus — ela sussurrou, baixando o celular para seu colo e começando a rir. O Papai Noel Stripper era o... Oficial O’Neal.


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UM MILAGRE DE NATAL Emily pulou para fora do carro e andou em direção ao Oficial O’Neal. — Eu preciso falar com você! O’Neal olhou para ela. — Quem é você? Emily parou próxima a ele no caminho de ardósia. Neve caía em espiral em torno deles. Um cinzeiro cheio de bitucas de cigarro estava à sua esquerda, a brasa do cigarro de O’Neal queimando em cima. — Eu sou Emily Fields — ela respondeu. — Eu estava no country club. — Ah, certo! — O’Neal sorriu. — Você é a menina que nos levou até elas. Bom trabalho, elas foram pegas de surpresa. — Na verdade, eu não ajudei a prendê-las. Na verdade, eu acho que você deveria deixar as elfos saírem. O’Neal olhou para ela sem entender. — O quê? — Você me ouviu. Solte elas. Elas aprenderam a lição. Ele levantou até a sua altura total e soltou uma risada. — Essa é boa, senhorita Fields. Mas já comecei a papelada. Elas são maiores de idade, você sabe. Elas podem enfrentar uma pena de prisão. Ou pelo menos algum serviço comunitário muito rigoroso. — Elas não estavam fazendo nada de errado — disse Emily. — Bem, ok. Elas não deveriam ter invadido o country club e mexer numa propriedade privada. Mas elas estavam apenas tentando enviar uma mensagem. Elas não tinha intenção de machucar ninguém. O’Neal cruzou os braços sobre o peito e a estudou. Alguns flocos de neve caíram sobre a ponta de seu nariz, mas ele não as tirou. — Eu não sei por que você se importa. Elas roubaram a propriedade da sua família, também. Elas confessaram tudo. Então ele se virou e se direcionou de volta para a delegacia. — Espera! — Emily gritou, tirando o celular dela. — Há algo que você precisa ver. Ela apertou o celular nas mãos dele. Quando ele olhou para a foto, a cor desapareceu de seu rosto. — Onde diabos você conseguiu isso? — Será que isso importa? — Emily puxou o celular para longe dele antes que ele pudesse apagar a foto. — Mas eu não acho que você quer que ela se espalhe. Os olhos de O’Neal se ampliaram. Ele pareceu se encolher um pouco. — Você não faria isso. — Acredite em mim, eu não quero. — Emily deu um passo para mais perto. Pelo olhar assustado nos olhos de O’Neal, ela sabia que o tinha. — O que você quer que eu faça? — O’Neal perguntou em uma voz derrotada. — Apague a confissão das elfos do registro — Emily disse, pensando rapidamente. — Dê a elas uma punição leve por invadir o clube, faça elas voltarem lá e devolver tudo para aonde pertence, mas diga que você não tem provas sobre as outras brincadeiras e não pode acusá-las. E solte elas. As narinas de O’Neal estavam queimando. — Então você quer que eu minta?


— Não... apenas esqueça seletivamente. Faça as elfos devolverem tudo o que roubaram, isso deve aplacar as vítimas, certo? Apenas deixe isso pra lá. Ah, e você não precisa dizer a minha mãe sobre a minha vinda aqui, também. Se não... — Ela balançou o celular para trás e para frente no ar, a foto de O’Neal com a roupa de Papai Noel Stripper ainda na tela. O’Neal olhou para o estacionamento, mordendo o interior de sua bochecha. O coração de Emily bateu contra suas costelas, e ela se perguntou no que ela tinha se metido — ela estava basicamente chantageando um policial. Ela olhou ao redor do estacionamento, de repente certa de que alguém estava assistindo. Uma sombra flutuou atrás de uma das viaturas estacionadas. Um baixo suspiro soou do lado de uma fileira de lixeiras. — Tudo bem. — O’Neal ergueu as mãos. — Acho que posso fazer isso. — Ele balançou um dedo no rosto de Emily. — Mas se mais alguma coisa sumir em Rosewood — até mesmo algo tão pequeno como uma lâmpada da iluminação de um outdoor — eu vou procurar você para ter respostas, entendeu? E eu vou dizer tudo a sua mãe. — Entendi — disse Emily. Ela estendeu a mão, e O’Neal sacudiu. Pouco antes de ele voltar para dentro, ela gritou — Só mais uma coisa. Não conte as elfos que eu negociei a libertação delas. O’Neal levantou uma sobrancelha. — Você não quer que elas te agradeçam? Elas são meninas ricas. Elas provavelmente poderiam comprar pra você um presente incrível. Emily olhou para a camada de neve que agora cobria o estacionamento. Um presente surpreendente não era a mesma coisa que ser parte do grupo das elfos... e ela nunca seria bem-vinda em seu grupo novamente. Aos olhos delas, ela seria sempre uma traidora, uma menina que elas não queriam saber. Este poderia ser apenas o seu presente de Natal anônimo para elas — um meio de consertar o que ela fez. Ela balançou a cabeça. O’Neal caminhou para dentro. Emily estava perto da janela e o observou atravessar o lobby, puxar alguns papéis de sua mesa, rasgá-los e lançá-los no picador de papéis no canto da sala. Depois que ele terminou, ele caminhou até uma cela e bateu nas barras. Quatro figuras apareceram. Cassie, Lola, Heather e Sophie ainda usavam os casacos grossos que elas estavam no country club. Seus cabelos estavam emaranhados, e seus olhos e narizes estavam vermelhos como se tivessem chorado. A neve estava fazendo uma fina camada nos cílios de Emily, mas ela não piscou, não querendo perder um momento. O’Neal disse algumas palavras para as meninas, em seguida, pegou no bolso um conjunto de chaves. Ele abriu a cela e ficou de lado para que as meninas pudessem sair. Elas olharam para ele com ceticismo, e depois sorrisos floresceram em seus rostos. Mas pela primeira vez, os sorrisos não eram irônicos, autoconfiantes nem travessos. Eram sorrisos de gratidão. De alívio. Emily afastou-se da janela, sentindo como se tudo estivesse certo no mundo novamente. Ela deslizou silenciosamente para seu carro, ligou o motor, e deu ré para fora da vaga do estacionamento. No momento em que O’Neal escoltou as elfos até uma viatura no estacionamento, Emily estava muito longe — elas nunca saberiam que foi ela que as libertou. Mas seus sorrisos agradecidos era uma recompensa suficiente.


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O MUNDO TODO ESTAVA EM PAZ Na tarde seguinte, Emily estava na cozinha pegando um saco de farinha para fazer biscoitos de açúcar de Natal. Era a sua tradição de Natal favorita, principalmente porque ela amava lamber o glacê açucarado da batedeira. Esta foi a primeira vez que ela tinha ficado disponível para fazer isso — representar o Papai Noel tinha tomado um monte de seu tempo. A Sra. Meriwether tinha ligado esta manhã e disse que Emily já não tinha que voltar à Santa Land por obrigação — ela tinha encontrado um substituto para ser um Papai Noel adequado e estava deixando Emily livre como um agradecimento. Emily ficou surpresa ao perceber que ela estava desapontada por não ter que voltar. Ela acabou gostando muito de ser o Papai Noel. Alguém tossiu atrás dela. A mãe de Emily apareceu na porta, com as mãos unidas em sua cintura. Ela olhou para as bandejas vazias dos biscoitos embrulhados que Emily tinha deixado prontos ao lado do forno. — Quer ajudar? — Emily perguntou, evitando o contato visual. Ela e sua mãe não tinham realmente se falado desde que Emily a atacou verbalmente na frente de todo mundo ontem à noite. Emily sabia que ela deveria pedir desculpas, mas ela realmente não sabia o que dizer. Ela quis dizer cada palavra. Por que ela deveria se arrepender? A Sra. Fields não respondeu, sentando-se rigidamente em uma cadeira da cozinha e examinando fixamente um fio solto de um dos jogos americanos que tinha impresso uma galinha usando uma coroa de azevinho em sua cabeça. Emily rolou a massa, sentindo-se mais e mais desconfortável. Finalmente, sua mãe deixou escapar um suspiro. — Você estava certa, você sabe. A cabeça de Emily se levantou. — Como é? — O que você disse ontem à noite sobre o menino Jesus. — Sua mãe mordeu a unha do polegar. — Talvez eu tenha perdido de vista as coisas. Talvez fosse loucura querer o menino Jesus de volta apenas para que eu pudesse vendê-lo para comprar presentes. É só que... eu queria que o Natal fosse extra-especial este ano. Por causa de tudo o que todos nós já passamos. Por causa de você e aquela menina A. Por causa de Alison. Quando ela olhou para cima, seus olhos estavam úmidos, o que fez Emily cair em lágrimas também. — Eu sei o quanto ela significava para você — a Sra. Fields disse com a voz embargada. — Eu sei o quão difícil tem sido aceitar que ela foi... — Ela parou, sem coragem de dizer a palavra assassinada. — E o pensamento de que era alguém que nós conhecíamos, alguém tão próxima de você e suas amigas... Eu não podia suportar a ideia de que poderia ter sido você, ao invés. Seu pai e eu somos tão gratos por você está aqui. Eu só queria ter certeza de que você soubesse disso. Emily se moveu do balcão para o assento ao lado de sua mãe e colocou a mão de leve em seu pulso. — Eu não preciso de uma tonelada de presentes para entender isso — disse ela suavemente. — Tudo o que você tem que fazer é dizer isso. — Eu sei. — A Sra. Fields descansou a cabeça no ombro de Emily. Emily fechou os olhos e pensou em como o assassinato de Ali deve ter afetado todos os pais de Rosewood. Isso provavelmente tinha sido aterrorizante para eles. Mas em outros


aspectos, talvez a morte de Ali pudesse fazer pais e filhos ficarem mais próximos. Talvez possa ajudar aqueles que ainda estavam vivos. — Me desculpa por eu ter envolvido você nessa coisa do Papai Noel — a Sra. Fields murmurou. — Eu não deveria ter colocado você nessa posição. — Na verdade, eu estou feliz por você ter feito isso — Emily murmurou, de repente, sentindo-se drenada. — Foi divertido. E mesmo que você não acredite, elas eram meninas legais. Ela se perguntou o que as elfos estavam fazendo agora — a Sra. Meriwether tinha mencionado que ela também tinha encontrado novos elfos para a Santa Land, também. Elas estavam descansando em casa agora? Tentando se conectar com suas famílias distantes e desarticuladas? De repente, Emily sentiu um pouco de pena delas. Seus problemas eram maiores do que os dela. Sophie foi rejeitada em Yale. O irmão de Lola é um viciado. Elas ainda tinham que encontrar uma maneira de lidar com todas essas coisas. Sua mãe enxugou as lágrimas com um guardanapo, levantou-se e caminhou para fora da cozinha com a cabeça baixa, assim como ela sempre fazia quando tinha mostrado emoção demais. Emily retornou aos biscoitos de Natal, sentindo-se muito melhor. Quando a campainha tocou alguns minutos depois, ela limpou as mãos em um pano de prato e caminhou pela sala para atender. Quatro cabeças sombrias imprecisas se deslocavam para trás e para frente através dos vidros laterais da porta. Emily prendeu a respiração — as elfos. Engolindo em seco, ela abriu a porta, fazendo com que os sinos na maçaneta chacoalhassem. As quatro meninas na varanda olharam para ela. Nenhuma delas estava sorrindo. O coração de Emily começou a bater forte em seu peito. — Nós sabemos o que você fez — Cassie disse em uma voz rígida. A garganta de Emily estava seca. — Eu sei que você sabe — ela disse. — Mas não foi desse jeito. Eu realmente não fazia parte da operação policial. Eu juro. As quatro meninas continuaram a olhar. Emily tinha certeza de que podia ouvir seu coração galopando. Ela estava prestes a pedir desculpas de novo, mas depois Cassie começou a rir, pulou para frente, e envolveu Emily em um grande abraço. Heather rodeou seus braços ao redor de Emily, e depois Lola e Sophie se juntaram, também. Emily permaneceu parada por alguns momentos, e então provisoriamente abraçou-as de volta. — Nós sabemos que foi você que fez eles nos soltarem — disse Cassie. — Nós a vimos pela janela conversando com O’Neal. Mas como é que você fez isso? Emily afastou-se e piscou com força. Tanto trabalho para permanecer anônima. — Ele era o stripper que vimos na janela naquela noite — disse ela com a voz trêmula. — Eu tinha as fotos. As elfos trocaram um olhar e, em seguida, todas elas bateram em sua mão. — Você é demais, Papai Noel — Heather disse. — O’Neal nos deixou sair sem sequer uma punição. A única coisa que tivemos que fazer foi arrumar o country club esta manhã e colocar os presentes sob a árvore de volta. — Eu realmente sinto muito sobre o que aconteceu. — Emily encostou-se no tapume de sua casa. — Eu juro que eu não sabia que minha mãe estava nos seguindo. Eu não tinha ideia de que ela tinha nos seguido através do meu celular. Eu tinha inicialmente começado a trabalhar de Papai Noel para espionar vocês — vocês estavam certas. Mas eu desisti logo depois que conheci vocês. Eu não sirvo para ser uma espiã. — Nós sabemos, Papai Noel. — Cassie tocou Emily levemente no pulso. — Você é legal.


— E, na verdade, nós temos algo para você. — Lola desapareceu nos arbustos e revelou algo embrulhado em uma colcha azul grande. Ela o colocou na varanda e puxou o cobertor para longe; aninhado dentro estava o menino Jesus da sua mãe. Ele não tinha um arranhão. O menino de cerâmica estava dormindo pacificamente, como sempre. — Achamos que a sua mãe poderia querer isso de volta — Cassie disse com uma piscadela. — Ela estava muito preocupada com isso na noite passada. Emily tocou a cabeça do menino Jesus com a ponta do seu dedo. — Obrigada, gente. Isso vai significar muito para ela. — Não se preocupe. — Sophie olhou para o relógio. — É melhor irmos, pessoal. Nós temos aquela... coisa. As elfos assentiram misteriosamente. Emily sentiu uma pontada de mágoa, desejando que elas dissessem a ela para onde estavam indo, mas talvez isso fosse pedir demais. Cassie saiu da varanda e balançou o dedo. — Não diga a ninguém sobre isso, ok, Papai Noel? — Claro que não — disse Emily. — Não diga a minha mãe sobre mim, também. — Nós prometemos. — Talvez a gente se encontre no próximo ano em Santa Land. — Lola reprimiu uma risadinha. — Eu meio que gosto de ser uma elfo, para dizer a verdade. — De acordo — disse Emily. As elfos caminharam de volta para o carro de Cassie. Emily abraçou os braços contra o peito para se aquecer, observando elas irem embora. Um galho se quebrou à distância, e ela olhou para os campos de milho, sentindo uma velha e familiar inquietação. Isso era uma grande coincidência: Alguém estava lá novamente. Alguém estava olhando para ela. — Olá? — Ela chamou, pisando na varanda. Mas ninguém respondeu. O que quer que seja — ou quem quer que seja — tinha desaparecido.


PAPAI NOEL MALVADO Eu posso ter desaparecido no milharal, Em, mas eu não vou a lugar nenhum. Eu tenho que admitir — eu estou meio impressionada com o quão a nossa pequena Emily tem crescido. Subornar um oficial do judiciário? Quem sabia que ela tinha isso nela? Mas por outro lado, suas amigas sempre foram seu ponto fraco. Se eu aprendi uma coisa, é que a chave para o coração de Emily é a melhor amiga que ela amou e perdeu. Se Emily achasse que havia alguma chance de a sua querida Ali voltar, ela iria até o fim do mundo para encontrá-la. É uma fraqueza cheia de possibilidades. Eu poderia fazer Emily violar leis para mim. Eu poderia fazê-la acusar as pessoas de todos os tipos de coisas, tudo em nome de Alison. E quando eu começar a agir, vai ser tão fácil atrair Emily na minha armadilha. Tudo o que vou precisar é de algumas palavras simples... e um beijo simples. Eu só posso esperar que as outras sejam tão fáceis de manipular... Em seguida: Aria. Ela, Byron, e Mike estão esperando algum divertimento excêntrico nessa época natalina, mas eu suspeito que a surpresa esperada por eles na Pousada Bear Claw não é o novo novelo de lã que Aria queria de Natal. E isso não é tudo que vai ser desvendado na vida de Aria nesta temporada de férias. Mwah!

—A

Q


PEQUENOS SEGREDOS DE ARIA


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QUANTO MAIS, MELHOR, NA ÉPOCA DO SOLSTÍCIO — Vocês não gostam de música didgeridoo8? — Byron Montgomery dirigiu com os joelhos enquanto ele empurrava um CD na ranhura do som do Subaru. Uma música de um sopro australiano começou a tocar, e ele balançou a cabeça para trás e para frente. — É tão... espiritual. A trilha sonora perfeita para o Solstício de Inverno. — Uh-huh — Aria Montgomery disse distraidamente, examinando o cachecol de lã cinza que ela estava tricotando. O carro deu um solavanco e ela quase se furou com uma agulha de tricô de madeira. — Eu acho que didgeridoos são chatos. — O irmão de Aria, Mike, chutou a parte de trás do seu assento. — Eles soam como uma combinação de uma colmeia de vespas zunindo e um velho peidando. Byron franziu a testa e passou a mão pelo cabelo desordenado. — Vocês, crianças, precisam entrar no espírito. É melhor eu não ser o único cantando durante a celebração do Solstício. Aria resistiu ao impulso de revirar os olhos. Era 24 de dezembro, e a família estava a caminho da Pousada Bear Claw nas Montanhas Pocono, onde Byron ia esquiar, Mike faria snowboard, e Aria iria tricotar e escrever no diário. Todos os outros carros sobre a Northeast Extension estavam repletos de presentes lindamente embrulhados, caixas de vinho, e talvez um presunto congelado ou uma torta de frutas. O veículo Montgomery, por outro lado, continha três tapetes de yoga, incensos, uma jarra de hidromel caseiro que Byron tinha fabricado no porão e uma grande lenha esmigalhada. A família de Aria comemorava o Solstício de Inverno, em vez do Natal, do Hanukkah ou do Kwanzaa. Apesar de ambos os seus pais terem sido educados na Episcopal, eles nunca se fantasiavam de Papai Noel, nem iam à igreja, nem cantavam músicas natalinas. Enquanto todos os outros recebiam presentes em algum dia de dezembro, tudo o que Aria ganhava, ano após ano, era uma coroa de cabeça feita de hera. Aria nunca tinha realmente pensado nas celebrações do Solstício antes — ela tinha aceitado há muito tempo que sua família era meio... diferente, mas este ano, após a morte da sua velha amiga Ali e da mandadora de mensagens, A, e descobrir que o assassino de Ali era o menino de ouro de Rosewood, Ian Thomas, ela ansiava pelas tradições reconfortantes do Natal que sua família tinha evitado. Reunir-se em torno de uma árvore decorada. Trocar presentes. Ficar dentro de casa e assistir filmes ruins de natal em vez de se arrastar através do deserto, batendo no peito como macacos e se conectando com a natureza. Quando ela olhou para fora da janela para os carros que passavam, ela sentiu inveja dos rostos das crianças entusiasmadas olhando tudo dos bancos traseiros. Quando eles passaram por uma placa de uma fazenda de árvores de Natal, ela considerou pedir a Byron para cortar uma. Ela sabia exatamente o que ele diria, porém: Essa árvore tem uma alma! Ela nos odiaria por nós a profanarmos de tal forma grosseira! 8

Didgeridoo: Instrumento musical de sopro proveniente dos aborígenes australianos (feito de bambú ou outro tipo de madeira).


— Eu me pergunto o que Ella está fazendo agora — disse Aria quando o Subaru passou em alta velocidade por um VW Jetta com vidros escuros. Byron enfiou o dedo através de um buraco perto do punho do seu suéter com uma expressão estranha rolando pelo seu rosto. — Tenho certeza que sua mãe está em algum lugar do Oceano Atlântico enquanto falamos. Aria se virou e olhou para fora da janela para um outdoor do Shopping Devon Crest recém-inaugurado. TEMOS A MAIOR SANTA LAND EM TRÊS ESTADOS! dizia na parte inferior. Ella estava a caminho da Suécia agora para comer almôndegas suecas, cobiçar os Volvos e fazer excursões. Aria esperava que Ella fosse levá-la com ela — os Montgomerys tinham vivido em Reykjavík, Islândia, por três anos, e Aria tinha chorado toda a viagem de avião de volta para Rosewood neste outono. Ir para a Europa teria sido a maneira perfeita para descomprimir depois de todo o drama do primeiro semestre, mas Ella tinha dito a ela que ela precisava fazer essa viagem sozinha. Aria entendia a necessidade dela de fugir. Seu casamento com Byron desmoronou este ano, quando ela descobriu que ele estava tendo um caso com Meredith Stevens, sua antiga aluna. A — também conhecida como Mona Vanderwaal — foi quem tinha revelado o caso, também acrescentando que Aria já sabia o segredo de Byron. Ella tinha ficado tão irritada com Aria que ela a baniu de casa, mas elas já tinham feito as pazes. Byron ainda morava com Meredith em um pequeno apartamento em Old Hollis, mas felizmente ela foi passar as férias com os pais em Connecticut. Não há muito tempo, Meredith tinha soltado a bomba de todas as bombas: Ela estava com dez semanas de gravidez... e planejava manter o bebê. Ela também anunciou que ela e Byron iam se casar assim que o divórcio saísse. Byron chegou mais perto do divisor do assento e colocou a mão sobre o joelho de Aria. — Eu sei que é triste que sua mãe não esteja aqui. Mas esta é a nossa chance de sair juntos. Eu prometo que vamos nos divertir. — Eu sei — Aria disse baixinho, acariciando a mão de seu pai. Por mais que ela quisesse desprezar Byron pela fragmentação da família, ela não conseguia — ele ainda era o pai distraído, atencioso e pateta que ela amava. Seria bom passar algum tempo juntos, especialmente já que Meredith não estaria lá. Enquanto Aria teve que ficar com Byron e Meredith quando ela e Ella não estavam se falando, ela não tinha aceitado Meredith completamente. Uma canção didgeridoo terminou, e a segunda — que soava exatamente como a primeira — começou. Aria pegou suas agulhas de tricô e olhou para o cachecol. Tinha quase dois metros de comprimento. Ela tinha a intenção de dar a Ezra Fitz, o cara que ela conheceu em um bar da faculdade no dia em que ela voltou para casa da Islândia e — conforme ela só descobriu depois que eles se beijaram — que era seu professor de Inglês de Rosewood Day. Só depois que eles professaram sua afeição um pelo outro, A expôs sua relação. Ezra tinha se demitido do seu cargo de professor imediatamente e partido para Rhode Island. Desde que ele foi embora, Aria sentia como se tivesse DPTE — Desordem PósTraumática de Ezra. Ela não conseguia parar de pensar nele. Ela tinha lhe escrito toneladas de e-mails, mas Ezra não tinha respondido. Será que ele tinha seguido em frente com outra pessoa? E todas aquelas coisas que ele disse sobre o quão incrível ela era e como ele nunca havia conhecido alguém como ela? E se ela nunca o superasse? E se ela nunca beijasse outro cara novamente? Ela teve outros namorados antes — seu primeiro foi um cara chamado Hallbjorn Gunterson na Islândia e ela ainda namorou Sean Ackard, um Típico Garoto de Rosewood, no último semestre. Mas ela nunca se sentiu com ninguém do jeito que ela se sentia com Ezra.


Depois de uma rápida parada para abastecer o carro onde Byron pegou alguns lanches e fez uma ligação no telefone, eles entraram em um desvio com uma grande placa que dizia BEAR CLAW. Byron acelerou o motor até a via longa e a pousada apareceu à vista. Não era uma pousada em tudo, mas uma mansão de pedra gigante. O chão estava coberto de neve brilhante e intocada. Uma gôndola carregava esquiadores ao topo da montanha. Havia mais placas de madeira que apontavam para um spa, quadras de tênis cobertas, um ginásio, uma loja de aluguel de esqui, uma pista de patinação no gelo e tours com trenós puxados por cães. A boca de Aria caiu aberta. A de Mike também. — Eu vou fazer snowboard esta tarde — disse ele. — Por que você não nos disse o quão bom este lugar era? — Aria perguntou. Ela estava certa de que a Pousada Bear Claw ia ter encanamento exterior, guaxinins que viviam nas vigas e um assustador zelador como no filme The Shining. — Eu pensei que deveríamos ir para algum lugar especial no Solstício deste ano. Vocês merecem. — Byron dirigiu o carro até a entrada ao redor da garagem. Vários manobristas se aproximaram, fingindo não notar a luz traseira rachada do Subaru, a fita adesiva que prendia o espelho do lado do passageiro no lugar, ou os vários adesivos que Aria e Mike tinham colado no para-choque traseiro. Eles não disseram nada sobre a lenha, também, e alegremente a carregaram para o carrinho de bagagem com o resto das malas da família. Aria saiu do carro e esticou os ombros, de repente cheia de otimismo. O ar cheirava tão fresco, e todos os visitantes estavam com as bochechas coradas e sorrindo. Uma grande e bela árvore de Natal estava na janela da frente. Ela poderia fingir que era tudo dela. Talvez ela até aprendesse a esquiar. Um passo soou atrás dela, e ela se virou. Uma figura deslizou para trás do prédio, como se quem quer que fosse não quisesse ser visto. Os pensamentos de Aria imediatamente dispararam para A, que a tinha perseguido durante meses. Mas ela estava apenas sendo paranoica. A — Mona — tinha morrido. — Eu tenho uma surpresa para vocês. — Byron apontou para a entrada da pousada. — Querem ver o que é? Aria e Mike o seguiram através das portas duplas em um aconchegante lobby com painéis de madeira. Pessoas vestindo suéteres Fair Isle descansavam perto do fogo. Uma agradável avó acenou para Aria de trás da recepção. — Talvez a surpresa seja algo impressionante como um tobogã — Aria sussurrou para seu irmão. — Ou um passeio de helicóptero sobre as montanhas. — Ou talvez sejam presentes de verdade este ano — disse Mike de volta, seus olhos brilhando. — Eu estou morrendo de vontade de ter um iPad. Ou um desses maneiros com o aplicativo da revista Four Wheelers que Noel Kahn tem. Byron parou a meio caminho do saguão e apontou. — Olhem! Aria seguiu seu olhar para o bar. Um homem e uma mulher estavam sentados de costas para eles, bebendo Bloody Marys. Dois meninos de idade universitária usando óculos de esqui como faixas na cabeça acabaram suas cervejas holandesas Heinekens. Uma menina magra de idade universitária em jeans apertados e um enorme suéter preto caiu em um banquinho no canto, bebendo um ginger ale. Quando ela se virou e revelou sua barriga um pouco inchada, o coração de Aria caiu a seus pés. Não. Isso não podia estar acontecendo. — Oi! — Os olhos de Meredith se iluminaram, e ela deslizou para fora do banco. — Estou tão feliz de ver você! — Ela correu para a família, ignorou Aria e Mike completamente, e deu um longo beijo em Byron.


Um caroรงo do tamanho da lenha se formou na garganta de Aria. Tanto por um tempo de qualidade apenas com o pai dela e Mike.


2

BASTANTE CONFORTÁVEL Quando o sol se afundou no céu e uma névoa violeta etérea se reuniu sobre as montanhas, Aria, Mike, Byron e Meredith estavam sentados ao redor de uma grande mesa quadrada na sala de jantar da pousada. Uma harpista em um vestido de baile tocava canções suaves de Natal. Famílias à sua esquerda e direita tomavam vinho tinto e gemada, trocavam presentes e brincavam sobre as memórias do Natal passado. E sobre o quê os Montgomerys estavam falando? Vômito. — Eu não posso acreditar no quão rápido a vontade de vomitar vem — Meredith estava dizendo, tomando um pequeno gole de ginger ale. Havia um belo prato principal vegetariano de berinjela, cogumelos, brócolis e quinoa na frente dela, mas ela não ousou dar uma única mordida. — É como se, num segundo, eu estou totalmente bem, e no outro — bam! Estou abraçando o vaso sanitário ou parando o carro na beira da estrada para vomitar. Até mesmo vomitei em um copo de papel no shopping. — Legal. — Mike inclinou-se sobre os cotovelos. — É, tipo, um projétil? — Às vezes — disse Meredith segurando a cabeça, parecendo cansada. Hum, estamos comendo? Aria queria dizer, olhando para o ravióli que o garçom lhe tinha servido. Agora também parecia uma espécie de vômito. — Coitadinha. — Byron empurrou uma mecha de cabelo da testa de Meredith. — Há alguns rituais de cura surpreendentes do solstício que podem ajudar, no entanto. Eu também trouxe um monte de ervas calmantes comigo. Meredith segurou as mãos em torno da sua taça. — Eu mal posso esperar para celebrar o Solstício. Soa tão mágico e espiritual. — Estamos muito entusiasmados por tê-la aqui também. Não estamos, Aria? — Byron olhou incisivamente para ela. Aria puxou um fio imaginário em sua saia. Era óbvio que Byron queria que ela recebesse Meredith de braços abertos — mesmo que Mike estivesse lidando bem com isso, provavelmente porque Byron tinha prometido a ele um passe ilimitado de snowboard. Mas Aria se sentia muito ferida. Depois de Meredith ter aparecido, Byron tinha explicado que os planos dela em Connecticut tinham sido cancelados no último minuto — seus pais decidiram visitar o irmão dela no Maine, ao invés. Então, ele tinha ido em frente e convidou Meredith para a pousada em vez de deixar Aria e Mike fazerem parte da decisão. — Eu sei que tinha planejado que fôssemos só nós três, mas eu odiava a ideia de ela estar sozinha em casa — disse Byron em uma voz tão cuidadosa e preocupada que Aria quase simpatizou com Meredith, também. Mas então ela olhou para Meredith novamente. Havia um sorriso astuto em seu rosto, como se ela tivesse de alguma forma orquestrado este esquema todo só para deixar Aria miserável. O porteiro tinha profusamente se desculpado porque seus quartos só ficariam prontos depois do jantar, e assim os quatro tinham percorrido o local por algumas horas, olhando a trilha dos trenós puxados por cães, as pistas de tobogã e os campos de tiro ao alvo. Meredith tinha se comportado como uma velha nas passarelas ao redor do resort,


com medo de que ela deslizasse sobre um inexistente bloco de gelo. Ela fez Byron passar 45 minutos na loja de presentes, escolhendo um macacão personalizado perfeito para o bebê de gênero neutro. E ela pediu a ele para levá-la ao banheiro feminino 11 vezes porque ela tinha que fazer xixi. Enquanto eles esperavam no corredor durante o 4º Intervalo do Xixi, Byron deu um aperto rápido no ombro de Aria. — Você está bem? — Nunca estive melhor — Aria respondeu com a voz gelada, resistindo à vontade de puxar o próprio cabelo. Agora, Byron pegou a taça de vinho e segurou-a no ar. — Ao Solstício. — Meredith tocou sua taça com a dele, e Aria e Mike relutantemente seguiram com seus copos de Sprite. — Vamos repassar o calendário de eventos para os próximos dias — Byron falou depois de tomar um gole generoso. — Amanhã eu pensei que podíamos fazer uma caminhada pela natureza e fazer o Círculo de Confiança. — Ele virou-se para Meredith. — É onde nós andamos de mãos dadas no bosque e respiramos juntos como um só, acolhendo as mudanças das estações. — É claro — disse Meredith, como se tivesse comemorado o Solstício por anos. — Nós definitivamente vamos queimar a lenha nessa noite. — Byron cortou um pedaço da lasanha de tofu e colocou-o na boca. Ele não era vegetariano, exceto durante a época do Solstício. — Segundo a lenda escandinava, queimá-la faz o sol brilhar mais forte. E depois, na manhã seguinte, vamos fazer a corrida nua. — Corrida nua? — A testa de Meredith se franziu. — Você quer dizer ao ar livre? Mike riu lascivamente, em seguida, olhou ao redor da sala de jantar. — Eu deveria recrutar ela para isso. — Ele apontou para uma loira bonita jantando com seus pais. Byron limpou a boca com o guardanapo. — A corrida nua é muito revigorante. Costumamos fazer isso bem no início da manhã para que ninguém nos perturbe. E nós geralmente mantemos nossa roupa interior — ele disse com um sorriso. — Os americanos não são tão mente aberta sobre esses rituais. — Eu não tenho certeza de que seja uma boa ideia eu correr. — Meredith deu um tapinha no seu estômago. — O frio pode prejudicar o bebê. Ou, e se eu tropeçar e cair na minha barriga? Aria se inclinou para frente. — Ella sempre amava correr nua. Ela me disse uma vez que ela fez isso até mesmo quando estava grávida de seis meses de Mike. — Ela olhou para o rosto de Meredith. Ela parecia desanimada. Ótimo. A boca de Byron se contraiu. — Bem, isso é verdade, mas talvez Meredith esteja certa. Meredith baixou a taça em um tom desafiador. — Não importa. Estou dentro. — Ela atirou a Aria um olhar breve e afiado que parecia dizer: Você não vai se livrar de mim tão facilmente. Aria se virou, seu olhar pousando na árvore de Natal no canto da sala. Ela foi decorada com pássaros minúsculos de vidro, cordões de pipoca e arcos brancos de gorgorão. Presentes estavam empilhados debaixo dela, e uma maquete de trem circulava no perímetro. Um jovem casal e seus dois filhos, um menino e uma menina de cerca de quatro a seis anos, ficou na frente da árvore de mãos dadas. O pai levantou o menino para que ele pudesse dar uma olhada melhor em um dos enfeites de pássaros. Aria não podia ouvir a conversa, mas ela definitivamente ouviu a mãe dizer a palavra Papai Noel. Lágrimas encheram seus olhos. Essa família estava criando memórias incríveis. Não muito tempo atrás, a família dela tinha criado semelhantes memórias — ok, memórias do Solstício, que eram meio excêntricas, mas pelo menos eles estavam todos juntos. Eles tinham sido tão felizes na Islândia. Parecia que seus pais tinham se


apaixonado novamente enquanto eles estavam lá, mas tudo desmoronou quando eles voltaram para Rosewood. Eles terminaram suas entradas e pediram um monte de sobremesas para dividir, incluindo pudim de tapioca e crème brûlée, ambos que Aria odiava. Quando elas chegaram, Meredith arfou, ficou verde e empurrou a cadeira para trás. — Eu só tenho que... — Ela falou com as bochechas salientes. Ela correu para o banheiro e passou pela porta. Os ruídos dela forçando o vômito podiam ser ouvidos por toda a sala de jantar. As pessoas que estavam jantando olharam na direção do banheiro alarmados. — Asqueroso — disse Mike. Um porteiro em um terno vermelho apareceu ao lado de Byron. — Senhor, seu quarto de hóspede está pronto. Nós já deixamos sua bagagem lá. — Excelente. — Byron apertou a mão em sua testa, de repente parecendo exausto. — Eu acho que todos nós poderíamos ter agora algum tempo de inatividade. O porteiro entregou-lhe uma chave e lhe disse para ir para o quarto andar. Após Byron pagar a conta, eles pegaram Meredith do banheiro. Ela se inclinou sobre o braço de Byron na caminhada para o elevador e fez ruídos de bufos e sopros como se ela já estivesse em trabalho de parto. — Eu fico com o controle remoto da TV — disse Mike para Aria no elevador. — Há uma final de um jogo de luta legal hoje à noite. — Tanto faz — Aria disse cansada. Neste ponto, ela assistiria qualquer um dos estúpidos programas de Mike — ficar longe de Byron e Meredith em seu próprio quarto era recompensa suficiente. — Eu vou escolher primeiro algo do mini-bar. — Byron, depressa! — Meredith pediu do lado mais distante do corredor enquanto Byron se atrapalhava em seus bolsos. Ela virou-se e agarrou sua barriga, seu rosto completamente branco. — Eu acho que vou vomitar de novo. — Ok, ok. — Byron empurrou uma chave em um quarto e abriu a porta. Meredith correu para dentro, abriu a porta do banheiro, e mais barulhos repugnantes começaram. Byron entrou no pequeno corredor para o quarto e colocou as mãos em seus quadris. — Bem, isso parece adorável. — E o nosso quarto? — Aria perguntou. Byron inclinou a cabeça. — Este é o seu quarto. Aria olhou para ele. Lentamente, a realidade a invadiu. — Vamos todos ficar em um quarto juntos? — Ela tinha assumido que já que Meredith estava junto, Byron teria mudado a reserva. Byron piscou. — Querida, este lugar é realmente caro. E de qualquer maneira, o resort está totalmente reservado. — Ele acendeu as luzes, revelando dois grandes quartos, uma cozinha, e a porta fechada do banheiro. Meredith soltou uma tosse fraca do interior. — Esta é uma suíte — vocês podem ter seu próprio espaço se você dormir no sofá-cama da sala de estar. Um espasmo comprimiu o estômago de Aria. Um sofá-cama não era bom o suficiente. Ela ainda seria capaz de ouvir Byron e a grávida Meredith pela porta. Ela se sentiu como um gêiser prestes a explodir. Este era o tempo dela com seu pai. Seu tempo de se unir. Byron não entende isso? Será que ele não sabe o quão difícil os últimos meses tinham sido? Ele poderia ter dito a Meredith para não vir. Ele poderia ter decidido, só desta vez, que Aria e Mike vinham primeiro. — Eu tenho que ir — desabafou. Ela agarrou sua bolsa de lona do carrinho de bagagem e saiu pela porta. — Ir para onde? — Byron perguntou atrás dela. Mas Aria não virou as costas. Ela saiu irritada para o corredor, desceu pelas escadas, e caminhou até o lobby com painéis


de carvalho. Uma mulher estava cantando ‚Jingle Bells‛ no piano de cauda no canto. As pessoas estavam bebendo cidra grátis de uma garrafa da recepção. As crianças estavam fazendo anjos na neve recém caída. Era um lugar bonito, e Aria não queria nada mais do que ficar, mas ela sabia que ela absolutamente e positivamente não podia. Ela ia dar o fora dali.


3

MAIS UMA SURPRESA O celular de Aria mostrava 21:57 quando o ônibus parou na estação Rosewood Greyhound. Sentindo-se tonta e suja, ela cambaleou pelas escadas, agarrou sua mala do compartimento de bagagem, e correu em torno dos montes de neve em direção à sua velha amiga, Emily Fields, a quem ela ligou e pediu para buscá-la. Ela pegou o celular novamente. Voltei a Rosewood, sã e salva, ela escreveu para Byron. Se divirta amanhã. Após Aria ter saído do quarto compartilhado da pousada, Byron a tinha seguido para o lobby e tentou convencê-la a ficar. Mas Aria manteve sua posição. Com o coração pesado, Byron a levou para pegar o próximo ônibus para Rosewood. Antes que ela embarcasse, ele colocou a mão em seu ombro e lhe deu um olhar significativo. Aria tinha pensado que ele ia lhe dizer alguma coisa profunda. Ou pedir desculpas. — Não se esqueça de passar manteiga na porta da frente da casa da sua mãe — ele disse ao invés. — Caso contrário, você não estará protegida contra espíritos pelo resto do ano. A neve começou a cair quando Aria entrou no carro em que Emily estava esperando. — Obrigada por ter vindo me buscar — disse Aria. — De nada. — Emily removeu seu carro da estação e começou a descer a Avenida Lancaster. — Mas você tem certeza de que não quer ficar na minha casa? Você não vai se sentir solitária passando o feriado sozinha? — Eu não quero me intrometer — Aria respondeu. Emily estava levando ela para a casa de Ella — de nenhuma maneira ela ia ficar no apartamento rangente de seu pai e Meredith em Old Hollis. — E, honestamente, depois de tudo o que aconteceu, talvez eu só precise de um pouco de tempo para mim mesma. Não havia quase nenhum tráfego, e cada sinal de trânsito em Rosewood estava verde. Emily acelerou passando pela rua principal de Rosewood, pelo campus Hollis, e o desvio para a antiga rua de Alison DiLaurentis, chegando na casa da mãe de Aria em tempo recorde. A dela era a única propriedade sobre o bloco que não estava iluminada com as decorações de Natal. Parecia um dente faltando em uma boca de dentes brancos. Depois de dizer adeus a Emily, Aria abriu a porta da frente e deixou cair as malas no hall de entrada. Os únicos ruídos na casa eram o leve zumbido do frigorífico e o silvo de ar através dos tubos do radiador. Quando ela olhou para fora da janela, a neve já havia deixado uma camada no gramado da frente. De acordo com a previsão do tempo, ela deveria ter trinta centímetros amanhã de manhã. — Eu estou sonhando com um Natal branco — Aria cantou baixinho. Sua voz ecoou na sala vazia, enchendo-a com pesar. O que ela ia fazer nos próximos dias sozinha em torno desta casa grande? O que ela ia fazer para o jantar de Natal — macarrão orgânico congelado e queijo? Talvez ela devesse ter trazido Mike com ela, mas ele não parecia chateado por estar com Byron e Meredith. Ele provavelmente ia passar os próximos dias esquiando, fazendo snowboard, pescando no gelo e praticando tiro ao alvo.


Ela se arrastou para cima e deixou-se cair na cama, fazendo um livro cair no chão. Era seu amado diário de rascunhos. Ela o agarrou, sentindo uma pontada desconcertada. Ela estava quase certa de que ela tinha deixado o caderno de rascunhos sobre a mesa, não na cama. Ella o tinha movido antes de ir para a Suécia? Alguém tinha estado aqui? A lombada rangeu quando Aria abriu a primeira página. Ela tinha este diário desde o início do sexto ano, um dos primeiros rascunhos que ela tinha feito era um desenho de Ali no dia em que ela caminhou por Rosewood Day e anunciou que seu irmão havia lhe dito onde um pedaço da bandeira da Cápsula do Tempo tinha sido escondido. Era estranha a precisão com que a Aria mais jovem tinha capturado as curvas do rosto em formato de coração de Ali, o retorcido irônico do seu sorriso e o brilho em seus olhos. Era como se Ali estivesse olhando para ela do papel. Ela virou para os esboços antigos de Ali, Spencer, Emily e Hanna — ela tinha desenhado centenas de vezes depois que elas se tornaram amigas. Depois vieram imagens da Islândia — as belas casas alinhadas, um velho dormindo em um café, um rápido esboço dos pais de Aria sentados no muro de pedra do lado de fora de sua casa, parecendo totalmente apaixonados, e um desenho de Hallbjorn, o primeiro namorado de Aria na Islândia. Aria virou à frente, e o diário abriu naturalmente em uma página particular. Ela deu uma arfada afiada. Era um perfil lateral de Ezra Fitz de pé no quadro na aula de Inglês. Aria olhou com saudades para suas pequenas orelhas de abano. E aquele incrível peito largo no qual ela adorava percorrer os dedos. Aqueles lábios cheios que ela beijou inúmeras vezes. Ela caiu para trás sobre o travesseiro. Onde estava Ezra agora? Celebrando as férias com a sua família? Dando um passeio ao luar na véspera de Natal com uma nova namorada? Lágrimas encheram os olhos de Aria. Parte dela queria checar seu e-mail novamente para ver se Ezra tinha escrito uma nota de Feliz Natal, mas por que se preocupar? Não haveria uma. Aria não importava mais para ele. A casa soltou um rangido, seguido de um baque forte. Aria endireitou-se e olhou em volta. Isso não soava como o vento. Outro baque veio, e ela levantou-se. Ela deslizou para o corredor e olhou para fora da janela grande com vista para o jardim da frente. Não havia carros estacionados no meio-fio, nem pessoas paradas na rua. Então algo começou a sacudir. Aria se inclinou sobre as escadas e engasgou. A maçaneta da porta da frente estava balançando para frente e para trás, como se alguém estivesse tentando forçar a entrada. — Olá? — ela chamou em uma voz fina, pegando um bastão de lacrosse do quarto de Mike. Ela deveria chamar a polícia? E se Ian tivesse saído da cadeia? No julgamento dele, ele se virou e olhou para Aria e suas velhas amigas com um olhar de puro ódio em seus olhos. — Olá? — Aria gritou novamente, empunhando o bastão de lacrosse na frente dela como uma espada enquanto descia as escadas na ponta dos pés. — Quem está aí? Do hall de entrada, ela olhou para o painel lateral à esquerda da porta da frente, com o coração na garganta. Uma sombra passou na varanda. Definitivamente era uma pessoa. Toc Toc Toc. Aria pegou o telefone sem fio no corredor. — Eu vou chamar a polícia! É melhor você dar o fora daqui! A pessoa não se mexeu. Aria apertou o botão de CHAMAR do telefone. — Estou discando! — Ela pressionou tremulamente os dígitos 911. Os toques baliram em seu ouvido.


— Aria? — uma voz abafada chamou da varanda. Aria abaixou o bastão de lacrosse cinco centímetros. A forma se moveu na janela. — Nove-um-um, qual é a sua emergência? — uma voz despachante perguntou do outro lado da linha telefônica. — Aria? — quem estava lá fora chamou novamente. Aria franziu a testa. Era a voz de um cara familiar. E isso era um sotaque islandês? — Alô? — o atendente do 911 disse um pouco mais impaciente agora. — Tem alguém aí? Aria caminhou em direção à janela. De pé na varanda estava um cara alto e loiro, com ombros largos e uma mandíbula quadrada, vestindo um anoraque azul-marinho que dizia EQUIPE DE ESQUI ISLANDESA em um remendo no peito. Ela soltou uma risada incrédula. — ...Hallbjorn? — Sim! — a voz disse. — Você pode me deixar entrar? Está congelando aqui fora! Aria abriu a porta. Uma figura alta estava em pé na varanda com neve sobre a sua cabeça, ombros e rosto. Ela apertou o botão vermelho de DESLIGAR no telefone. — Hallbjorn — ela sussurrou de novo. Ele estava aqui... em Rosewood. Em sua casa. Aria não teria ficado mais surpresa se fosse o Papai Noel.


4

GAROTOS ISLANDESES SÃO GOSTOSOS Hallbjorn pisou no foyer dos Montgomerys e tirou suas botas de neve. — Eu não sabia que fazia esse frio na Pensilvânia — disse ele em um claro sotaque vigoroso que Aria tinha sentido falta desde que ela tinha deixado a Islândia. — Parece exatamente como em casa! — O-o que você está fazendo aqui? — Aria gaguejou, sem ter deixado ainda seu posto ao lado da porta. Hallbjorn puxou seu lábio inferior em sua boca, brincando. — Eu senti sua falta. Eu queria ver como você estava. — Às dez horas da noite da véspera de Natal? — Meu avião foi desviado para aqui por causa do tempo — estou tentando chegar a Nova York, mas havia uma tempestade. Os voos já foram cancelados para amanhã, também. Eu tentei ligar para a sua casa do aeroporto, mas você não atendeu, e eu não sabia o número do seu celular. Eu assumi o risco e só vim. — Ele olhou em volta. — Eu não estou interrompendo nada, não é? Eu acordei sua família? Aria encostou-se na parede sentindo tonturas. — Eles estão todos fora da cidade. Estou sozinha. Havia um milhão de perguntas que ela queria perguntar a ele, mas sua boca não conseguia formar as palavras. Ela não tinha visto Hallbjorn há dois anos, mas ele parecia ainda melhor do que ela se lembrava: seu corpo alto e magro agora tinha um pouco mais de músculos. Seu cabelo loiro claro tinha crescido até seu queixo. Ele ainda tinha o mesmo rosto bonito e angular, mas seus olhos pareciam ainda mais penetrantemente azuis do que nunca. E quando ele sorriu, ele tinha dentes perfeitamente retos e brancos, do tipo que merecia estar no comercial do creme dental Aquafresh. Só de olhar para ele fez seu coração vibrar. Ele tinha aparelho nos dentes quando ele e Aria se conheceram. Uma semana depois que a família dela mudou-se para Reykjavík, Aria tinha dado um passeio de bicicleta ao redor da cidade, sentindo-se solitária, deslocada e confusa. Era apenas alguns meses depois de Ali ter desaparecido, e isso ainda pesava em sua mente. Ela esperava que ficar longe de Rosewood a ajudasse a se recuperar de tudo o que tinha acontecido, mas tudo isso ainda parecia tão recente e doloroso. Ela tinha ouvido música tocando em um café local e tinha entrado lá. Uma banda estava tocando em um pequeno palco na parte de trás, e várias pessoas estavam reunidas ao redor. Durante uma pausa nas canções, um cara loiro se virou para Aria e lhe perguntou algo em islandês. Aria tinha corado e dito apenas duas palavras islandesas que ela tinha aprendido até então: Inglês, por favor. O menino sorriu. — Você é americana? — ele perguntou em um Inglês perfeito. Quando Aria disse que sim, ele deu as boas-vindas à Islândia e disse que seu nome era Hallbjorn. Depois de alguns minutos de troca de gostos musicais e de Aria obter as impressões gerais de Reykjavík, Hallbjorn insistiu em mostrar a ela todo o país. No dia seguinte, ele chegou à calçada de Aria no maior SUV que Aria já tinha visto — todos na


Islândia dirigiam veículos maciços que poderiam impulsioná-los sobre campos de lava, geleiras e neve. Ele tinha levado ela para ver importantes marcos islandeses — belas e limpas cachoeiras que pareciam algo saído dos filmes O Senhor dos Anéis, crateras gigantescas, vulcões borbulhantes, e a Ilha Akureyri Puffin, onde colônias de pinguins passaram parte do ano antes de migrarem para a Grécia. Eles conversaram durante toda a excursão, nunca ficando sem coisas para dizer. Aria havia descoberto que Hallbjorn era dois anos mais velho que ela e queria estudar arquitetura, que ele aprendeu a dirigir um snowmobile há cinco anos atrás, que ele era um DJ nas horas vagas, e que ele era viciado em reality shows americanos como o Big Brother. Por sua vez, Aria havia lhe contado sobre o pequeno subúrbio chato que ela tinha vindo, que seu pai estava fazendo uma pesquisa aqui sobre as crenças islandeses sobre os huldufólk — elfos — e que, no verão passado, sua melhor amiga havia desaparecido misteriosamente. No final do dia, Aria tinha sugerido ir ao Blue Lagoon, a fonte quente de sal natural das revistas de viagem sobre a qual ela não conseguiu parar de delirar, mas Hallbjorn tinha zombado e dito que isso era para turistas. Ele a levou para uma fonte quente secreta ao invés. Quando eles haviam entrado na água quente com cheiro sulfúrico — Hallbjorn lhe disse que ela ia se acostumar com o cheiro — ele se aproximou, pegou sua mão e a beijou. Tinha sido o primeiro beijo de Aria. Eles tinham namorado por quatro meses, foram a concertos, exposições de arte e apresentações de pôneis islandeses. Hallbjorn ensinou Aria a dirigir um snowmobile, e ela lhe ensinou a tricotar e usar sua caríssima câmera de vídeo. A coisa toda parecia um sonho. Aria tinha pertencido ao grupo legal de Ali em Rosewood, mas os meninos ainda não davam atenção para ela — eles só queriam Ali. Em Reykjavík, no entanto, não havia Ali para fazê-la se sentir como a segunda melhor. Mais do que isso, não havia Ali dizendo que ela estava sendo muito excêntrica, muito inacessível, e muito... Aria. Aria não tinha mudado nada em si mesma na Islândia, até mesmo deixou as mechas cor de rosa em seu cabelo e o falso piercing em seu nariz, e Hallbjorn tinha gostado dela de qualquer maneira. Na verdade, ele parecia gostar mais dela por sua singularidade. Em fevereiro daquele ano, algo horrível aconteceu: Hallbjorn conseguiu uma bolsa para um colégio interno particular na Noruega para jovens que queriam estudar arquitetura. Ele tinha ido no Dia dos Namorados, e Aria tinha chorado até dormir durante meses. Eles tinham escrito um ao outro no início, mas depois de um tempo, as cartas de Hallbjorn tinham parado de vir. Aria tinha namorado outros garotos islandeses depois dele, mas nenhum desses relacionamentos tinha sido tão especial. — Como você sabe o meu endereço? — Aria perguntou agora. Quando sua família havia deixado a Islândia, Hallbjorn ainda estava na Noruega. Hallbjorn tirou as luvas. — Quando voltei do colégio neste outono, parei para ver você, mas as novas pessoas que viviam na sua casa disseram que você voltou para os Estados Unidos. Eles me deram o seu endereço. — Quem você está visitando em Nova York? Hallbjorn deu a Aria um olhar vazio, quase como se ele não esperasse por essa pergunta. — Uh, alguns parentes — disse ele distraidamente, vigorosamente esfregando o nariz avermelhado. — Mas como eu disse, o avião foi desviado por causa do tempo. — Ele sorriu timidamente. — Você se importa se eu ficar aqui por duas noites? O próximo avião para Nova York não vai sair até o dia vinte seis. Eu posso pagar. — Você não precisa me pagar — Aria zombou. — Estou feliz por ter companhia. Ela o levou para o corredor e lhe disse para se sentar no sofá da sala da família enquanto ela fazia chá para os dois. Enquanto esperava a água ferver, ela gritou: — Então, como está a Islândia nos dias de hoje? Eu sinto muita falta de lá. — Está tudo bem. — Hallbjorn soava desdenhoso. — Não muito emocionante.


Aria pegou duas canecas de uma prateleira alta. — Seus pais sabem que você está longe no dia de Natal? — Uh, eu não tenho certeza. — Está tudo bem com eles? — Os pais de Hallbjorn eram dois resistentes e atléticos islandeses que se vestiam da mesma forma e corriam ultramaratonas juntos. Aria brevemente se entreteu com a noção de que os pais de Hallbjorn pudessem estar passando a mesma coisa que Ella e Byron estavam, mas ela simplesmente não podia imaginar. — Não, não, está tudo bem. Eu só planejei esta viagem de última hora. — Um sino tilintou da outra sala. — Hey! — Hallbjorn exclamou. — Você ainda tem os sinos de vento daquela loja em Laugavegur! Aria carregou as canecas de chá fumegante para a sala da família. Hallbjorn agora estava estirado no sofá, as pernas compridas apoiadas sobre a poltrona. Um formigamento passou através dela quando ela sentou ao lado dele no sofá. — Então, como está a sua família? — Hallbjorn perguntou. — Um pouco confusa agora — Aria admitiu. Ela explicou que seus pais não estavam mais juntos. — Meu pai e meu irmão estão comemorando o Solstício de Inverno no norte do estado. Se lembra de como costumávamos fazer isso? Os olhos de Hallbjorn se iluminaram. — Você abraçou todas as árvores no Hallormsstadarskogur! E vocês nadaram nus na lagoa do Sr. Stefansson! Aria gemeu — ela tinha bloqueado esse incidente infeliz. — Sim, e meu pai não pediu ao Sr. Stefansson de antemão. Graças a Deus que você apareceu e explicou tudo para ele. — A família de Hallbjorn vivia há apenas uma milha de distância, e quando o Sr. Stefansson tinha aparecido com um rifle ameaçando atirar nos Montgomerys quando eles pulassem na lagoa, no estilo do Solstício, Aria tinha rapidamente chamado Hallbjorn para ajudar. Hallbjorn retirou o saquinho de chá de sua caneca. — Se lembra de como seu pai tentou fazer com que o Sr. Stefansson participasse do ritual do Solstício com ele? — Oh Deus, sim. — Aria bateu na testa. — O Sr. Stefansson olhou para ele como se ele fosse louco. Meu pai disse: ‘mas Sr. Stefansson, você acredita em huldufólk! Porque você não pode acreditar no Solstício, também?’‛ — Ele é muito sério sobre suas crenças huldufólk — Hallbjorn disse. — Lembra que ele construiu um santuário para eles nas pedras? Aria deu uma risadinha. O Sr. Stefansson estava convencido de que os elfos islandeses viviam na parte de trás de sua propriedade. — Ele costumava gritar conosco se ficássemos muito próximo deles. — Ela sorriu para Hallbjorn. Seus olhos se encontraram por um longo momento, o vapor de suas canecas de chá intocadas pululando em torno de seus rostos. Então Aria olhou para seu colo. — Eu chorei muito quando você foi para a Noruega. — Você poderia ter me visitado na escola. — Hallbjorn tocou a mão de Aria. — Eu não sabia se você queria que eu fizesse isso. — Na verdade, ela visitou a Noruega com Ella poucos meses depois que Hallbjorn tinha ido para o colégio interno, até mesmo passou pelo pequeno vilarejo onde a escola era. Ella tinha incitado Aria para perguntar sobre Hallbjorn na recepção da escola, mas Aria tinha estado muito tímida e assustada. E se Hallbjorn aparecesse ao seu encontro com uma namorada a tiracolo? E se ele risse na cara dela? — Claro que eu gostaria que você fosse. — Hallbjorn deslizou um pouco para mais perto dela. — Eu pensei muito em você quando eu estava longe. Quando ela olhou para cima novamente, Hallbjorn estava olhando para ela atentamente. Parecia tão natural para eles retomar de onde tinham parado.


Aria sorriu para si mesma. Ela pensou que o que ela precisava era de um intervalo tranquilo para superar Ezra e todo o drama de A, mas talvez o que ela realmente precisasse era de um novo romance.


5

ALONGAMENTO SEXY Na manhã de Natal, enquanto todo mundo estava abrindo presentes — ou, no caso de Byron, Meredith e Mike, brincando com os cervos — Hallbjorn cozinhava para Aria panquecas orgânicas e salsicha de tofu para um café da manhã de Natal. Em seguida, ele decorou o cacto da sala da família com vários itens vermelhos da casa — uma luva, uma colher de plástico e uma longa fita que tinha encontrado em uma gaveta. — Como você sabia que eu queria uma árvore de Natal? — Aria arfou. Hallbjorn apenas sorriu. — Eu só tinha um palpite. Depois que Aria mandou uma mensagem de Feliz Natal para Emily e Spencer — Hanna era judia — ela e Hallbjorn foram à South Street, na Filadélfia. Uma vez lá, contornaram um gigante monte de neve que já estava amarelo de xixi de cachorro. O ar estava cortante e rigoroso, e não havia quase ninguém, exceto por alguns corredores empenhados e um grupo de turistas com câmeras caras em torno de seus pescoços. Os estabelecimentos que estavam abertos apenas eram algumas sex shops e uma farmácia Walgreens, que já estava anunciando 50 por cento de desconto na rena Rudolph e nas decorações de natal. — Olha, esse lugar vende jaquetas de maconha! — Aria apontou para uma boutique fechada com um decalque gigante da maconha na janela. — Isso é eco, certo? — Enquanto isso não for feito em uma fábrica exploradora. — Hallbjorn torceu sua boca. — Você tem que ter muito cuidado com tecidos orgânicos e de maconha. Aria assentiu sabiamente, como se ela soubesse de tudo isso desde o começo. Eles passaram a manhã inteira jogando a versão ecológica do jogo ‚I Spy‛, apontando para os restaurantes vegetarianos na South Street, as várias latas de reciclagem de lixo da cidade, e o fato de que alguns dos ônibus funcionavam a gás natural. Hallbjorn tinha dito a ela que tinha recentemente se dedicado a salvar o meio ambiente. Ele parecia tão sexy e sincero ao falar sobre as emissões de carbono, e Aria se viu querendo provar o quão ecológica ela era também. — Então, o que o fez se tornar tão ambientalmente consciente, afinal? — Aria perguntou quando eles passaram por uma loja vintage que ela amava. — Eu não me lembro de você ser tão comprometido quando eu estava na Islândia. — Eu comecei a tomar consciência enquanto eu estava na Noruega, mas eu realmente entrei nisso quando comecei a faculdade este ano — Hallbjorn admitiu. — Eu entrei para um grupo ativista que estava tentando parar uma grande corporação pelo despejo dos resíduos no rio perto da escola. Uma garota chamada Anja o executou. Ela criou alguns protestos surpreendentes. Havia um olhar melancólico em seu rosto. — Anja era... uma namorada? — Aria perguntou, tentando não parecer ciumenta ou curiosa. Hallbjorn andou em torno de um parquímetro azul grande que tinha uma guirlanda de Natal de plástico pendurado nele. — Sim. Mas um mês atrás, ela se juntou a um barco do Greenpeace que ataca caçadores de baleias na costa do Japão. Eu queria ir também, mas ela me disse que precisava ficar sozinha.


— Eu sinto muito por Anja — disse Aria quando um carro de passagem buzinou com a música ‚Santa Claus Is Coming to Town‛. — Recentemente, tive meu coração partido, também. — Sério? — Hallbjorn levantou uma sobrancelha. — O que aconteceu? Aria disse a ele alguns detalhes sobre Ezra, omitindo que ele tinha sido seu professor. — Realmente doeu quando ele foi embora. Eu pensei que nunca ia superá-lo. Mas ele está, provavelmente, com uma nova garota agora. — Sim, é assim que eu me sinto sobre Anja — Hallbjorn disse miseravelmente. — Ela mudou a minha vida. Me empurrou para fazer coisas que eu não teria sonhado. E agora... poof. — Ele segurou a mão sob o queixo e soprou, imitando uma dispersão de sementes ao vento. — Agora ela está com um cara que, quando não está salvando as baleias, está se acorrentando em árvores de uma floresta que estão prestes a ser derrubadas. Aria riu. — Ele provavelmente não é tão incrível. Aposto que ele molha seu saco de dormir todas as noites. — Ou talvez ele secretamente coma macacos da floresta tropical com risco de extinção — disse Hallbjorn, jogando junto. — Ou ele não recicle! — Quais falhas a nova namorada do seu ex-namorado deve ter? — Hallbjorn bateu no queixo. — Que ela é realmente um homem? Aria começou a rir. — Talvez ela não saiba ler. Ou talvez ela seja incrivelmente peluda, até mesmo a bunda dela! — Sério — Hallbjorn disse, olhando profundamente em seus olhos. — Nós nunca tivemos nenhum desses problemas. Tudo com a gente era tão... fácil. — Eu sei — disse Aria, sentindo-se tímida. — Nós éramos tão compatíveis. De repente Hallbjorn congelou na calçada. Sua pele já pálida ficou ainda mais branca, e ele correu em torno de um canto e mergulhou em um pequeno beco. — Hallbjorn? — Aria seguiu até o beco. Ele cheirava a lixo podre e cigarro. Um monte de pneus de bicicleta estavam encostados no edifício. — Qual é o problema? — Shh. — Hallbjorn pressionou uma mão sobre a boca de Aria. Seus olhos se moveram para trás e para frente da esquina da rua para os semáforos. Um carro de polícia lentamente rolou pelo cruzamento. Uma mulher caminhando com um cão da raça Great Dane passou do outro lado da rua. Por fim, Hallbjorn saiu na ponta dos pés para fora do beco e olhou em volta. A cor voltou ao seu rosto, e ele estava respirando mais tranquilamente agora. — O que foi tudo isso? — Aria perguntou quando ela o seguiu. — Eu pensei que eu tinha visto alguém que eu conhecia. — Alguém... islandês? Ou um dos membros da sua família de Nova York? — Não importa. — Hallbjorn deu mais alguns passos na South Street, mas depois congelou novamente. Aria olhou ao redor para encontrar o que poderia estar assustando ele. Os dois velhos dando um passeio? O esquilo escondido na pequena árvore patética da calçada? Ele entrou em uma porta aberta. Aria o seguiu. Estava escuro e frio no interior do edifício, e o cheiro de óleos essenciais deixou Aria tonta. Uma cachoeira borbulhava, e sinos de vento retiniam juntos na janela. ESTÚDIO DE YOGA DOUBLE MOON, dizia uma placa na parede. Havia cartazes de pessoas ágeis em várias poses em todas as paredes. Havia vários pares de sapatos em cubículos quadrados à esquerda, e algumas pessoas aguardavam calmamente sua aula começar em uma sala ampla e arejada à direita.


Uma menina que vestia um gorro de Papai Noel sorriu para eles de trás da recepção. — Namaste — ela disse em uma voz zen. — Feliz Natal. Vocês estão aqui para uma aula de casais? — Uh, sim — disse Hallbjorn. Ele olhou para Aria. — Tudo bem? Aria olhou para ele loucamente. Eles não tinham discutido sobre fazer yoga. Ela girou e olhou para fora da janela novamente. O que ele achava que viu lá fora? Então ela se deu conta de que a Gorro do Papai Noel havia dito aula de casais. Significava alongamento sexy... com Hallbjorn. — Está tudo bem — respondeu ela, mergulhando a mão na sua carteira e colocando uma nota de 20 dólares no balcão. Depois de se trocar para uma roupa de yoga limpa do provador do estúdio, Aria e Hallbjorn emergiram de seus respectivos vestiários. Hallbjorn parecia muito mais calmo, mas Aria tocou o braço dele de qualquer maneira. — Você está bem? Você estava agindo estranho lá. — Eu estou bem — respondeu Hallbjorn. — Eu estava um pouco estressado. Yoga sempre faz eu me sentir melhor. Eles pegaram esteiras e entraram na sala de prática. A garota usando o gorro de Papai Noel que estava na recepção estava de pé contra o espelho da frente. Um cara alto, com uma barba de Jesus, olhos caídos, e vestindo leggings de lycra sem camisa se juntou a ela e se virou para Aria, Hallbjorn, e os dois outros casais na sala. — Estou feliz que todos vocês puderam estar conosco hoje. Esta é uma aula muito especial de casais, sendo que é no dia de Natal — disse ele. — Deitem-se no chão. Inspirem e expirem no mesmo ritmo. Sintam-se como um só. Hallbjorn deitou em seu tapete. Aria estava na postura de cadáver, também, tentando ignorar o fato de que esse tipo de esteira cheirava a pé. Ela espiou Hallbjorn ao lado dela. Seu peito subia e descia em uma mesma cadência. — Esta prática é sobre estarem unidos em aceitação, unidade e amor — Gorro de Papai Noel explicou depois que eles respiraram por mais alguns minutos. — Isso os levará a serem mais abertos e produtivos como um casal. Primeiro, vamos fazer algo chamado de árvore de casal. Ela disse aos três casais na sala para ficarem quadril-com-quadril e envolver seus braços em volta um do outro na cintura. Aria o fez, dando a Hallbjorn um sorriso nervoso. Seu braço parecia forte e seguro em torno de suas costas. — Agora levante as pernas opostas numa pose de árvore — Barba de Jesus disse, demonstrando com Gorro de Papai Noel. — Toque a palma da sua mão livre em seu parceiro. Estão vendo? Isso os une. Aria sentiu a mudança de equilíbrio de Hallbjorn quando ele dobrou o joelho e colocou o pé no interior de sua coxa. Ela fez o mesmo, pressionando sua mão na de Hallbjorn. Em vez de deixar a mão mole contra a palma da mão como os instrutores e os outros casais na sala estavam fazendo, ele entrelaçou os dedos com os dela e apertou. — Issssso mesmo. — Os olhos de Barba de Jesus estavam fechados. — Sinta a energia. Sinta a sua igualdade. Você são duas árvores na natureza, segurando um no outro. — Isso é muito parecido com seus rituais do solstício, não é? — Hallbjorn perguntou. Aria deu uma risadinha. — Em seguida, eles vão nos pedir para correr nus até a South Street. Hallbjorn levantou as sobrancelhas. — Eu faria isso se você fizesse. Aria usou todo seu esforço para não corar. — Agora vamos passar para o straddle de casal. — Gorro de Papai Noel baixou o joelho dobrado para o chão. — Isso realmente ajuda você e seu parceiro a superar todas


as sensibilidades e inseguranças com o outro. Sente-se em suas esteiras. Abra suas pernas em um V, e se enfrentem de mãos dadas. Desse jeito. Os instrutores se moveram para fazer a pose. Ambos eram extremamente ágeis; suas pernas se colidiram quase abrindo completamente as pernas. Eles avançaram em direção um ao outro até que suas virilhas estavam praticamente se tocando. Aria riu nervosamente. Hallbjorn já estava esticando as pernas em um straddle. Aria fez o mesmo, em seguida, agarrou as mãos de Hallbjorn. Lentamente, eles puxaram um ao outro para mais perto, inclinando-se para que seus rostos quase se tocassem. Aria capturou o olhar de Hallbjorn e não desviou. Hallbjorn também não. Ela aplanou sua coluna, avançou para frente, e tocou seus lábios nos dele. Sua boca era quente e firme e tinha gosto de mel. E pela primeira vez em meses, ela não pensou em Ezra, Ali, nem em A.


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SOEM OS ALARMES — Se lembra desta foto? — Aria levantou seu laptop e apontou para uma foto que ela tinha feito upload dela e de Hallbjorn de pé na beira do Laugardal, uma das maiores piscinas públicas de Reykjavik. Neve estava cobrindo tudo ao seu redor e aderindo à sua pele nua. Na Islândia, piscinas públicas permaneciam abertas durante todo o ano, porque elas eram geotermicamente aquecidas. — Esse lugar tinha o mais assustador tobogã de todos! — Você foi uma covarde. — Hallbjorn a cutucou. — Todas as crianças estavam esperando atrás de você congelando de frio, implorando para ser sua vez. — Eu sei, eu sei. — Aria estremeceu com a lembrança. Ela tinha tido muito medo de deslizar para baixo do tobogã enorme, então se virou e desceu a escada de madeira ao invés. Era noite de Natal, e eles estavam aconchegados sob as cobertas da cama de Aria. Este tinha definitivamente se transformado no melhor Natal de todos de Aria. Hallbjorn era um beijador ainda melhor do que ela se lembrava, e nos últimos 20 minutos, ele tinha estado acariciando as curvas do seu pescoço, o que a fez estremecer de alegria e nunca mais querer sair deste quarto pelo resto de sua vida. Aria passou para a foto seguinte e começou a rir. — Os pôneis! — Era uma foto dos cavalos islandeses de Hallbjorn, Fylkir e Fyra. Aria estava em Fylkir, o menor, mais gordo, e mais dócil dos dois, mas ainda havia um olhar aterrorizado no rosto dela. Hallbjorn estava ao lado dela no Fyra, que era da cor de canela e tinha narinas gigantes. — Você me fez ir junto naquele penhasco íngreme em nosso primeiro passeio — Aria repreendeu Hallbjorn. — Eu poderia ter matado você. Eu tinha tanta certeza que iríamos cair sobre a borda. — Pôneis islandeses ficam de pé firmemente — Hallbjorn protestou. — Bem, eu não acreditei em você na época. — Aria olhou para ela mais jovem na foto. — Não é de admirar que o meu irmão tivesse medo deles. Eles parecem tão pequenos e indignos de confiança. Hallbjorn deu uma risada. — Mike tinha medo dos cavalos islandeses? Aria deslizou mais para baixo sob as cobertas. Oops. Esse era um dos maiores segredos de Mike. — Uh, esquece que eu disse isso. — Quem é esse cara? — Hallbjorn rolou para outra foto no laptop. As fotos de Aria não estavam em nenhuma ordem particular, e a foto seguinte era de Noel Kahn em uma das festas da sétima série em que ela foi com Ali. Aria tinha secretamente tirado a foto, olhando ao redor e pressionando o obturador quando ela sabia que Noel não estava olhando. Ali tinha importunado ela sem piedade quando ela descobriu que Aria tinha estado perseguindo ele com uma câmera. — Ah, esse é alguém que eu gostava antes de me mudar para a Islândia — Aria disse despreocupadamente. — Eu acho que você me contou sobre ele. — Hallbjorn olhou fixamente para a foto de Noel. — Alison o roubou de você, certo?


— Ele nunca foi meu para ser roubado de mim. — Aria olhou para a foto de Noel. Ele estava vestindo sua camiseta da sorte do lacrosse da Universidade da Pensilvânia da Nike — típico. — Além disso, todos os garotos estavam afim de Alison. Eu achava que era maldade ela sair com ele, no entanto. Ela sabia que eu gostava dele. — Pior, Ali tinha saído com Noel em apenas um encontro antes de dispensá-lo. Isso fez Aria se sentir como se ela tivesse feito isso apenas para provar que ela poderia ficar com qualquer cara que ela quisesse — ou com qualquer cara que Aria quisesse. Ele se apoiou em um cotovelo. — Ele era um idiota por deixar passar a chance de namorar você. Você é tão incrível. Eu me importava muito com Anja, mas nunca me esqueci de você. Você foi meu primeiro amor. — Amor? — Aria guinchou, a palavra quase palpável no ar em torno deles. Duas manchas rosadas apareceram nas bochechas de Hallbjorn. — Sim, amor. De repente, um galho estalou fora da janela, seguido de uma gargalhada. Aria deslizou para fora da cama e abriu as cortinas. O céu noturno estava nebuloso. Havia uma camada fina de gelo brilhante sobre a neve. Em torno do perímetro da propriedade tinha um conjunto de pegadas de bota recentes que se dirigiam diretamente para a porta de trás. — Oh meu Deus. — Aria afastou-se da janela. — Eu acho que há alguém lá fora! Ela desceu as escadas correndo com Hallbjorn bem atrás dela. Quando chegaram ao hall de entrada, houve um estrondo lá atrás, como se alguém tivesse derrubado uma das latas de lixo de metal. Aria agarrou o braço de Hallbjorn e apertou. — Está tudo bem. — Hallbjorn puxou-a para perto. — Provavelmente é um animal. — Não é um animal. — O coração de Aria estava batendo tão rápido que ela se sentiu tonta. — Alguém está me seguindo. Tentando entrar. — Por que você diz isso? — Eu tive uma perseguidora por meses, lembra? — Ela tinha contado a ele sobre o drama de A naquela tarde. — Sim, mas você não disse que a sua perseguidora estava morta? — Hallbjorn foi na ponta dos pés em direção ao pátio. — É um animal. Eu vou espantá-lo para ele ir embora. — Não vá lá! Vou chamar a polícia — disse Aria, pegando o telefone do corredor. Todo o sangue se drenou do rosto de Hallbjorn e ele se lançou para o telefone, batendo-o de volta no receptor. — Não! Não chame a polícia! Aria recuou em choque. — Whoa. O que está acontecendo com você? Por um segundo, Hallbjorn parecia que ia protestar dizendo que nada estava errado, mas então seus ombros cederam, e ele se encolheu. — Eu sinto muito. Eu não queria dizer a você... estou sendo procurado pela polícia na Islândia. Eu tenho medo da polícia daqui poder saber, também. É por isso que eu tenho estado me escondendo e evitando carros de polícia. Eles poderiam estar atrás de mim. Por favor, não ligue para eles. Vou verificar o barulho e então eu vou explicar tudo. — Hallbjorn caminhou para a porta dos fundos. Uma má sensação se espalhou através do estômago de Aria e ela recuou para a sala, onde se sentou no sofá. Ela se perguntou se deveria chamar a polícia de qualquer maneira. Mas este era Hallbjorn. Tinha que haver uma boa razão para ele estar sendo procurado. — Era apenas um guaxinim — Hallbjorn anunciou quando voltou para o corredor da frente. — Eu vi ele fugindo. Aria olhou para ele. — Por que a polícia está procurando por você?


— Eu liderei um protesto contra a destruição de uma reserva ecológica local de aves marítimas fora de Reykjavík. Eu te levei lá uma vez. — Eu me lembro — disse Aria lentamente. — Foi o lugar onde os papagaios bebê chocaram. — Ela tinha se apaixonado pelos papagaios bebê logo que ela os tinha visto, desesperada para pegar um e levar para casa como seu animal de estimação. Hallbjorn levantou a cabeça e deu-lhe um olhar melancólico. — Eles iriam derrubá-la e construir um shopping. Deslocar todos aqueles papagaios. Destruir seus habitats. Eu não podia deixar isso acontecer. Então, eu protestei, e eu fui preso. Mas eu fiz confusão, e então eu escapei sob custódia. A polícia estava atrás de mim por dias. Eu me escondi na casa de um amigo, mas depois eu percebi que tinha que sair do país. Eu peguei um barco para a Noruega e peguei um avião de lá. Meu passaporte não foi marcado na Noruega já que ninguém estava procurando por mim no âmbito internacional. Aria piscou para ele, tentando assimilar tudo. — Então... você não estava vindo para os Estados Unidos para ver sua família, afinal? Hallbjorn balançou a cabeça loira. — Eu tenho alguns amigos em Nova York que disseram que eu poderia ficar com eles. Mas quando eles nos desviaram para a Filadélfia, eu pensei em você. — Ele pegou as mãos dela. — Me desculpe eu não ter dito logo a você — eu tinha medo do que você poderia pensar de mim. Eu estava desesperado. Eu não podia me virar e voltar para a Islândia. Eles me jogariam na cadeia. Você pode me perdoar? Aria puxou as mãos dela e enrolou-as no colo. Ela não gostava que Hallbjorn houvesse mentido para ela — tantas pessoas tinham enganado ela nos últimos meses. Mas, então, ela o teria deixado entrar se ela soubesse que ele estava sendo procurado pela polícia? Ela teve suficiente interação com a polícia recentemente para toda a vida. Ela olhou para cima. — Você foi jogado na cadeia só porque você protegeu alguns papagaios? — Neste país, ele provavelmente receberia uma punição leve e liberdade condicional. Os grupos Eco como o PETA e o Greenpeace fariam dele seu garotopropaganda. — A Islândia é muito rigorosa — Hallbjorn insistiu. — Protestar e fugir da polícia são praticamente tão ruins como cometer um assassinato. — Um olhar contrito preencheu seu rosto, e ele colocou o rosto nas mãos. — Eu não sei o que eu vou fazer. Aria se aproximou e colocou os braços ao redor de seus ombros. — Você só estava tentando salvar os papagaios — eu teria protestado contra eles derrubarem a reserva, também. Talvez você possa ficar nos Estados Unidos por um tempo. Obter um visto de estudante e ir para uma universidade daqui. Assim que as palavras se derramaram de sua boca, ela começou a planejar tudo em sua cabeça. Talvez Hallbjorn pudesse ir para Hollis ou a Faculdade Moore de Arte da Filadélfia; Aria podia visitá-lo a cada fim de semana. Os dois poderiam dirigir até Nova York para que ela pudesse mostrar a ele os pontos turísticos, assim como ele tinha mostrado a ela em torno de Reykjavík. Seria maravilhoso ter alguém para conversar, um encontro nos fins de semana, uma conexão com a Islândia novamente. Mas Hallbjorn balançou a cabeça. — Eu não posso ficar aqui. Meu visto de viagem dura apenas uma semana. A única maneira de eu ficar aqui é se eu me esconder, e eu não tenho certeza se quero fazer isso também. — Tem que haver outra maneira. — Aria se encostou no sofá e pensou por um momento. Seu olhar girou ao redor da sala, observando a pilha de roupa suja no chão, os olhos de Deus em forma de diamante pendurado do espelho, e a moldura vazia sobre a mesa lateral. Não muito tempo atrás, o quadro tinha uma foto de Byron e Ella no dia do seu casamento, abraçando-se com amor sob um dossel de árvores. Quando Aria era


pequena, ela costumava olhar para a foto por horas, pensando que seus pais eram as pessoas mais românticas do planeta. Foi como se um raio de repente tivesse atingido seu cérebro. Ela sentou-se ereta. — Hallbjorn, e se nós nos casássemos? Hallbjorn soltou uma risada. — Como é? — Estou falando sério. Se nós nos casássemos, o seu visto de entrada seria estendido indefinidamente. Você poderia ir para uma faculdade daqui. Conseguir um emprego. E, eventualmente, quando passasse tempo suficiente e nós contratássemos um bom advogado para você, talvez possamos resolver isso com a polícia islandesa, e você poderia ir lá e visitar sua família. Hallbjorn passou a língua sobre os dentes. — Será que é mesmo legal nos casarmos aqui? — Eu acho que a idade legal é dezesseis? Dezessete anos? — Aria encolheu os ombros. — Mesmo que nós tivermos que obter o consentimento de um dos pais, eu poderia forjar a assinatura da minha mãe. Tenho certeza de que ninguém realmente verifica desde que pague as taxas. — Ela agarrou as mãos de Hallbjorn, seu coração de repente bombeando com força. — É a melhor idéia. Isso resolve todos os seus problemas. E não seria divertido ser marido e mulher? Nós poderíamos ir à Atlantic City! Passar um fim de semana lá e se casar em uma dessas pequenas capelas nos cassinos! Tenho algum dinheiro guardado, poderíamos ficar em um hotel incrível. Com serviço de quarto. Beber champanhe. Jogar blackjack. Aproveitar a vida. Hallbjorn não pareceu convencido. — Nós estamos falando sobre o casamento. É um compromisso sério. Você tem certeza que é algo que você quer fazer? Aria colocou seus pés abaixo de sua bunda. Era verdade que às vezes ela se jogou de cabeça em situações sem pensar sobre elas — seu romance com Ezra foi um exemplo. Mas isso era diferente. Hallbjorn era praticamente da sua idade. Eles se divertiram muito juntos, tinham muito em comum e poderiam conversar por horas. O que mais era necessário em um casamento, além disso? Olhe para Byron e Meredith: Sobre o quê eles tinham para conversa? O casamento de Aria com Hallbjorn provavelmente duraria mais do que o deles. E não era apenas Hallbjorn que se beneficiaria com o casamento: Aria tinha a sensação de que iria trazer maravilhas para a sua vida, também. Casar com Hallbjorn significaria que ele nunca iria deixar ela, como tantas outras pessoas fizeram. Ele seria a boia salva-vidas dela em um mar rochoso. Ela poderia fazer seu casamento funcionar, fazendo o oposto de tudo o que seus pais haviam feito. — É definitivamente algo que eu gostaria de fazer — ela decidiu. — Mas e quanto a você? Você está dizendo que não quer se casar comigo? O rosto de Hallbjorn se suavizou. Ele se inclinou para frente e empurrou o cabelo de Aria para fora do rosto. — Eu te amo. Mas este é um enorme sacrifício que você está fazendo, tudo para que eu não tenha que voltar para a Islândia. — Não é um sacrifício. — Com cada palavra, a convicção de Aria parecia mais e mais forte. — Isso é algo que eu acredito com todo meu coração. Eu prometo. Ela olhou nos olhos de Hallbjorn, tentando transmitir tudo o que sentia e queria. Hallbjorn olhou para trás, seus olhos azul-gelo se aumentando. Finalmente, um sorriso terno se espalhou pelo seu rosto. — Vamos fazer isso. — Ele se ajoelhou. — Aria Montgomery, você quer se casar comigo? — Sim! — Aria exclamou, caindo nos braços de Hallbjorn. — Atlantic City, aqui vamos nós!


7

FESTEJE COMO UMA ESTRELA DO ROCK — Bem-vindos — disse um porteiro a Aria e Hallbjorn na tarde seguinte, enquanto caminhavam pelas portas giratórias do Hotel Borgata Cassino & Spa em Atlantic City. — Aproveite a sua estadia! — Obrigada — Aria falou, puxando sua mala de rodinhas atrás dela. Ela e Hallbjorn tinham feito uma longa jornada para chegar a Atlantic City — ele insistiu que eles esperassem seis horas na fria estação de ônibus pelo único ônibus Greyhound que funcionava a gás natural. Mas nada disso importava agora. Aria olhou em volta do lobby, seu coração pulou uma batida. Era um espaço amplo de mármore e vidro que cheirava a uma mistura de perfume caro e bife grelhado de um restaurante no final do hall de entrada. Através de um arco, caça-níqueis se estendiam até onde os olhos podiam ver. Todos eles cantarolavam, soando como um enorme enxame de abelhas. Algumas velhas senhoras estavam sentadas nas máquinas, roboticamente puxando as alavancas. Um grito soou de uma mesa de blackjack, e um croupier9 deu uma rodada em uma roleta. Tudo parecia muito glamoroso, e de repente o que eles estavam prestes a fazer a atingiu novamente. Eles iriam se casar! — Reserva para Montgomery — Aria disse a uma mulher na recepção do hotel, que usava os cabelos escuros em um toque francês e tinha uma plaquinha em sua jaqueta que dizia MAUREEN, ASSOCIADA À RESERVAÇÃO. — É claro. — Maureen estalou as unhas longas através do teclado. — Aha. Aqui está, quarto 908. A suíte tem vista para o oceano. Também estão incluídos na sua estadia um jantar de cortesia no restaurante Wolfgang Puck e dois ingressos para o show de entretenimento de hoje à noite. Aria pagou pelo quarto em dinheiro, usando o dinheiro da pequena economia que ela tinha acumulado de um par de artigos pagos que ela havia escrito recentemente sobre sua experiência com Mona-como-A. Ela se sentiu um pouco enjoada explorando a situação, mas ela estava feliz que ela tivesse o dinheiro agora, especialmente porque a maioria dele seria necessário para a licença de casamento e as taxas de inscrição para o visto permanente de Hallbjorn. Outro porteiro que parecia o equivalente humano de Humpty Dumpty 10 carregou sua bagagem em um carrinho e fez um gesto para que o seguissem para os elevadores. Quando as portas se fecharam atrás deles, Aria deu a Humpty um sorriso. — Com licença, você sabe de alguma capela de casamento na área? Humpty levantou as sobrancelhas. — Sei. Se você quiser, eu posso pedir ao nosso porteiro para fazer todos os arranjos. Aria e Hallbjorn trocaram sorrisos. — Isso seria ótimo — disse Hallbjorn. — Talvez para amanhã à noite? — Certamente. — Humpty sorriu e puxou o colarinho, que parecia estar abotoado com muita força. — Podemos até conseguir uma limusine para buscá-los e levá-los lá. 9 10

Croupier: Aquele que registra vendas e recebe pagamentos em um cassino. Humpty Dumpty: É um personagem do filme ‚O Gato de Botas‛ que é um ovo com rosto, braços e pernas.


— Não uma limusine — Hallbjorn disse rapidamente. — Uma bicicleta construída para dois. Aria hesitou — bicicleta na neve? Mas Humpty não piscou um olho. — Sem problema. Eu posso dizer que só de olhar para vocês dois pombinhos que vocês vão ser muito, muito felizes juntos. Aria pegou a mão de Hallbjorn e apertou-a levemente. As portas do elevador se abriram com um ding. Humpty carregou a sua bagagem no corredor e abriu a porta do quarto 908, que estava escondida em um canto. Dentro havia um quarto enorme, com amplas janelas do chão ao teto que ofereciam uma visão ininterrupta do Oceano Atlântico. Uma garrafa de champanhe estava em cima da mesa de vidro no canto, bem como uma cesta de pequenos sacos de batatas fritas e doces. Havia uma televisão de tela gigante montada na parede. A cama king-size era enorme e tinha cerca de um zilhão de travesseiros, e a banheira com pés no banheiro era maior do que a banheira de hidromassagem da casa de Spencer. — Isso é incrível — Aria arfou. — Estou feliz que você esteja satisfeita. Apenas nos diga se você quiser qualquer outra coisa. — Humpty colocou sua bagagem numa pequena bancada que ficava ao pé da cama. Aria entregou-lhe uma nota de dez dólares, e ele saudou e saiu do quarto. Em seguida, ela enfrentou Hallbjorn e saltou animadamente na ponta dos pés. — Vamos nos casar amanhã — ela gritou. — Sim, nós vamos. — Hallbjorn caminhou em sua direção e tomou-lhe as mãos. — Você vai ser a Sra. Gunterson. — Sra. Montgomery-Gunterson — Aria corrigiu. Então, ela arregalou os olhos. — Eu tenho que encontrar um vestido! — Em sua arrumação de mala apressada, ela não tinha trazido um. — E flores! E o que devemos fazer em relação ao bolo de casamento? — Nós poderíamos encomendar um bolo inteiro de um dos restaurantes — Hallbjorn sugeriu. — Para ser entregue aqui pelo serviço de quarto. — Eu aposto que o serviço de quarto é meio caro. — Aria olhou para fora da janela. — Eu acho que eu vi uma Wawa11 no caminho. Eles provavelmente têm Tastykakes12. — Eu sempre compro biscoitos orgânicos sem glúten, se pudéssemos encontrar algum desses — disse Hallbjorn. Aria apertou os lábios. Biscoitos orgânicos sem glúten como um substituto de um bolo de casamento cheio de gordura e cheio de glúten a deixou meio triste. Não que ela tivesse imaginado seu casamento muitas vezes, mas ela sempre pensou que ela teria um bolo de três camadas com duas estatuetas no topo. Exceto que em vez de uma noiva e um noivo, seriam um cavalo e um porco. Ou dois bonecos do jogo Lego space. Ou uma faca e um garfo. Ela sentou-se na beira da cama e folheou a pasta que tinha vindo com o quarto, procurando para ver se este lugar tinha um spa. Seria bom fazer seu cabelo para o casamento, não que ela tivesse dinheiro para isso, também. Hallbjorn puxou-a para trás em cima da cama, que era tão luxuosa e confortável como Aria tinha imaginado. Eles se beijaram por algum tempo, os sons das ondas batendo no fundo. — Eu vou tirar um monte de fotos — Aria murmurou enquanto Hallbjorn moveu-a para ficar de costas. — Eu vou pendurá-las por todo o meu quarto, então eu vou me lembrar deste fim de semana pelo resto da minha vida. 11 12

Wawa: Loja de Conveniência. Tastykake: É a marca registrada de uma linha de lanches fabricados pela Companhia Tasty Baking.


Hallbjorn soltou uma risada. — Seu quarto? Não será nosso, assim que nos casarmos? Ou você espera que eu viva em outro lugar? Aria franziu a testa. Ela realmente não tinha pensado sobre a logística do que iria acontecer depois que eles se casassem. Será que ela teria que dizer a seus pais? Será que ela ia ficar em apuros? Mas também, o que será que eles poderiam dizer? Byron e Ella tinham fugido no seu último ano de faculdade; seus pais iam entender eventualmente. Mas o que Mike acharia? E se as pessoas da escola descobrissem? Eles nunca iriam entender. Não que Aria se importasse com o que as pessoas pensavam sobre ela, é claro, mas sussurrar fofocas por trás das suas costas estava ficando meio velho. — Vamos nos preocupar com onde nós vamos viver depois — disse Aria, trêmula. — Nós vamos ter muito tempo para descobrir isso. — Será tudo do jeito que você disser. — Hallbjorn se inclinou e beijou sua testa. Aria inclinou o queixo para que seus lábios se encontrassem. Eles se beijaram por um longo tempo, desaparecendo entre o monte de almofadas, e só assim, todas as suas preocupações se dissiparam. Isso era sobre eles, e não sobre as suas famílias ou as pessoas de Rosewood Day. Hallbjorn deslizou a camiseta de Aria sobre a cabeça dela, e ela fez o mesmo com a dele, deixando escapar um gemido satisfeito quando suas peles nuas se tocaram. Ela se virou, acidentalmente esmagando o controle remoto. A TV se ligou no volume máximo. Aria olhou para cima. O canal interno do hotel, que anunciava vários restaurantes do resort, cassinos e opções de pay-per-view, estava na tela. Em seguida, duas panteras prateadas apareceram. — Agora, no Borgata, Biedermeister e Bitschi vai explodir sua mente — disse uma voz superentusiástica. Então veio um rosnado de uma guitarra dos anos oitenta, e dois mágicos caminharam para um palco. Eles movimentaram suas capas como toureiros. As panteras rugiram, e a multidão parecia deslumbrada. Aria riu. — Você acha que os nossos ingressos do show são para isso? — Espero que não — disse Hallbjorn, parando de beijá-la para olhar para a tela. De repente, um risinho fraco soou do lado de fora. Aria apertou MUTE na TV. — Você ouviu isso? — O quê? — Hallbjorn levantou a cabeça. Outra risada flutuou pela entrada. — Isso. — O cabelo na parte de trás do pescoço dela levantou-se. — É só a risada de alguém. — Hallbjorn massageou os ombros de Aria. — Você está sendo paranoica. — Não é apenas a risada de alguém. — Aria se levantou e se arrastou passando pelo banheiro quando o riso se intensificou. Parecia que a pessoa estava de pé na porta, querendo entrar. Ela vestiu um robe, tomou uma respiração profunda, e abriu a porta. O corredor estava vazio. Todas as portas estavam fechadas; havia uma bandeja vazia do serviço de quarto com duas taças de vinho tinto esvaziadas no tapete fora do quarto 910. Aria caiu contra o batente e esfregou as têmporas, se perguntando se Hallbjorn estava certo. Talvez ela só estivesse sendo paranoica. Talvez ela estivesse ouvindo coisas que realmente não existiam.


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PANTERAS MALTRATADAS — Outra taça de champanhe? — Uma garçonete em um vestido colante frisado e um chapéu de penas perguntou a Aria quando ela e Hallbjorn se sentaram na sala de estar mais tarde naquela noite. — Não me importaria de querer. — Aria estendeu sua taça. A garçonete soltou alguns morangos dentro do líquido, e borbulhou dramaticamente. Aria tomou um gole e fechou os olhos, sentindo-se profundamente relaxada. O dia tinha sido absolutamente agradável. Eles descansaram na cama durante horas, depois tiveram um jantar delicioso, romântico e grátis no restaurante Wolfgang Puck. Quando eles terminaram, Aria tinha entrado em uma pequena loja vintage no bloco de baixo que ainda estava aberta. Ela encontrou um adorável vestido de bolinhas vermelho, que ela estava usando esta noite, e um lindo vestido de comprimento abaixo do joelho branco com detalhes rendados no pescoço e pequenos botões em forma de pérolas de cima a baixo nas costas para o casamento de amanhã. Ele tinha um rasgo minúsculo no decote, mas nada que uma agulha e linha não possam consertar. Com alguma sorte, ela também poderia tingi-lo de verde-limão e usá-lo no baile. E agora, ela e Hallbjorn estavam esperando na frente do teatro para ver o show das panteras prateadas e Biedermeister e Bitschi — que era, de fato, de graça como cortesia pela sua estadia. Um monte de outros convidados, muitos deles idosos, esperava em frente ao teatro. De repente, as portas do teatro se abriram, e os portadores de ingressos correram para dentro. Aria ficou de pé com cuidado para não derramar o champanhe. — Vamos? Hallbjorn olhou para o cartaz do show, que estava em um cavalete do lado de fora das portas duplas. Os mágicos, cujos rostos esticados e felinos pareciam ter sofrido toneladas de cirurgias plásticas, tinham penteados tainha iguais e olhavam intensamente para a lente da câmera. As panteras prateadas estavam sentadas ao lado deles como cães obedientes — exceto que eles estavam expondo seus enormes dentes pontudos. — Este não parece ser o meu tipo de coisa — murmurou Hallbjorn inquieto. — Esses caras parecem idiotas. E eu já lhe contei que eu fiquei traumatizado por causa de um mágico quando eu era mais jovem? Era um palhaço que tinha vindo para a festa de aniversário de oito anos do meu amigo Krisjan. Ele tinha uma risada bastante aterrorizante. — É claro que você estava com medo dele — ele era um palhaço. — Aria bateu nele de brincadeira. — Shows de mágica não é a minha coisa, tampouco, mas hey — é de graça. Devemos tirar proveito de todas as vantagens, você não acha? — Ela agarrou sua mão. — Além disso, nós vamos ter uma história engraçada sobre o que fizemos no dia anterior ao nosso casamento para contar às pessoas daqui a dez anos. Hallbjorn encolheu os ombros e bebeu o resto de seu champanhe. Juntos, eles entraram no teatro, que tinha um carpete de estampa psicodélica, bancos de veludo que estavam quase lotados, e retratos de outras estrelas que tinham visitado — um monte de nomes da música country que Aria apenas conhecia vagamente, comediantes como


Jerry Seinfeld, e cerca de doze diferentes Cirque du-Soleils — sobre o palco. As luzes diminuíram assim que eles se sentaram em dois lugares ao lado do corredor. — Aquele Sven Biedermeister é tão bonito! — Uma mulher loira e rechonchuda que se parecia muito com a bibliotecária da escola Rosewood Day falou da fila na frente deles. — Eu sou mais o Josef Bitschi — sua companheira, uma mulher de cabelos grisalhos com batom nos dentes, falou. — Eu só queria ficar de cara com ele e sufocá-lo com beijos! Aria e Hallbjorn cutucaram um ao outro e tentaram não rir. Uns momentos mais tarde, a cortina prateada se separou. Uma fila de dançarinas em cocares de penas, pequenas camisetas e saltos altos e brilhantes marcharam pelo palco com sorrisos enormes no rosto. Elas fizeram uma dança kicky13 do mesmo tipo de música dos anos oitenta que eles tinham visto naquela tarde no comercial, e todos aplaudiram. Aria olhou para Hallbjorn, deu de ombros e começou a bater palmas, também. Névoa começou a girar. Um tambor retumbou. Em seguida, duas panteras prateadas desfilaram no palco. Biedermeister e Bitschi sentaram-se sobre elas, agitando os braços como cowboys. Eles até mesmo colocaram pequenas selas sobre as panteras, como se fossem cavalos. O público foi à loucura. As senhoras na frente de Aria e Hallbjorn pareciam que estavam prestes a desmaiar. Os mágicos desmontaram de suas panteras e fizeram uma reverência. — Olá! — O mágico de cabelos escuros falou em um sotaque Arnold Schwarzenegger. — Vocês estão prontos para se impressionarem? — Sim — respondeu o público. Aria tentou trocar olhares com Hallbjorn, mas seus olhos estavam fixos nos mágicos. As dançarinas começaram a chutar novamente, e então o show começou. Biedermeister e Bitschi rodaram suas capas e fizeram as panteras desaparecerem. Com um aceno de suas mãos, uma das dançarinas começou a levitar. Eles colocaram suas cabeças na boca das panteras e persuadiram as panteras para deixar sair profundos rugidos algumas vezes. Depois disso, as luzes se acenderam e os mágicos se sentaram em bancos e assobiaram para os felinos. Dois domadores andaram até eles com coleiras de metal. Os felinos obedientemente se sentaram ao lado dos mágicos como se fossem doces gatinhos da ASPCA14. — Resgatamos Arabelle e Thor de caçadores na África — Biedermeister — ou era Bitschi? Aria não conseguia distingui-los — disse com uma voz agora-é-hora-dahistória. — Era uma missão dramática, mas nós sabíamos que era certo salvá-los do seu destino brutal. Uma tela abaixou atrás dos mágicos e mostrou uma foto de um heliporto no Serengeti. A próxima foto na apresentação mostrava um monte de gente correndo no estilo soldado através da selva, provavelmente para capturar os felinos. Havia mais fotos das panteras prateadas em estado selvagem, nas cavernas onde viviam, e uma pele prata de pantera pendurada em um mercado Africano. A multidão vaiou. — Eles eram apenas bebês quando os resgatamos — o outro mágico disse, dando um tapinha no focinho de alabastro de uma das panteras. — Nós cuidamos da saúde deles. Os treinamos como se fossem nossos. — Mais fotos mostravam as panteras pequenas nos braços de Biedermeister e de Bitschi, brincando em um quintal, se reunindo a um golden retriever e brincando com uma criança de aparência distraída. 13

Kicky: Dança em que se movem as pernas como se estivesse dando chutes. ASPCA (American Society for Prevention of Cruelty to Animals): Abreviação da Sociedade Protetora dos Animais nos EUA. 14


— Awww — o público gritou. As mulheres na frente de Aria enxugaram os olhos. Os mágicos continuaram falando sobre o quanto eles amavam as panteras por um pouco mais de tempo, e depois eles voltaram ao show. Eles prenderam uma dançarina em uma caixa, cravaram facas falsas através de um participante do público, e incentivaram uma das panteras prateadas a desaparecer através de um aro em chamas. Ela reapareceu em uma gaiola de vidro na pista que se estendeu para a plateia. Uma jovem estendeu os braços para dar à criatura um abraço, mas um dos tratadores de animais saltou para frente e interveio. Quando um dos mágicos persuadiu uma pantera para equilibrar-se sobre as patas traseiras e dançar com ele, Aria começou a aplaudir — era bonitinho. Hallbjorn a chutou. Quando ela olhou, ele estava olhando para ela com horror. — O que foi? — Ela sussurrou. Hallbjorn apenas encarou. Aria afundou em sua cadeira. Por que ele estava tão mal-humorado? Depois de mais meia hora de refrãos de guitarra dos anos oitenta e mais entusiasmos da multidão, Biedermeister e Bitschi desapareceram em uma nuvem de fumaça. Todo mundo foi à loucura. Hallbjorn agarrou a mão de Aria e puxou-a antes mesmo de os mágicos poderem retornar ao palco para receber os aplausos. Ele andou tão rapidamente para fora do teatro que ela mal conseguia manter-se em pé. No lobby, Hallbjorn olhou para o cartaz dos mágicos, em seguida, chutou-o para fora de seu cavalete. — O que foi isso? — Aria gritou. — Como você pode até mesmo perguntar isso? — Os olhos de Hallbjorn estavam selvagens. — Não foi a coisa mais nojenta que você já viu? Esses caras precisam ser presos por crueldade contra os animais! Aria olhou para a porta do teatro fechada. A multidão ainda estava aplaudindo. — Você pensou que eles tratavam as panteras mal — disse ela lentamente. — Mas e aquela história que eles contaram sobre resgatá-los da África? Caçadores iam transformá-las em tapetes! Biedermeister e Bitschi as alimentaram com garrafas e as deixaram dormir em suas camas! Hallbjorn bufou. — Eles não resgataram as panteras — eles as roubaram de seu habitat natural. E para quê? Para ficarem acorrentadas 22 horas do dia? Para serem obrigadas a andar sobre as patas traseiras? Eles montaram nelas no palco como cavalos! Onde está a dignidade? — Como você tem tanta certeza de que as panteras estão acorrentadas 22 horas por dia? — Eu só tenho um palpite — Hallbjorn cuspiu. — Eu dei uma chance a esse show, eu pensei que eles iriam ser gentis e compassivos com os animais. Mas foi nojento. Aposto qualquer montante de dinheiro que essas panteras vivem em gaiolas minúsculas, dormem em suas próprias fezes, e não têm chance de andar livremente. As pessoas não deviam estar batendo palmas para os mágicos. Eles deviam estar atirando neles. Aria recuou. Mas antes que ela pudesse protestar, as portas do teatro se abriram, e a multidão começou a sair. Aria dirigiu Hallbjorn para longe do fluxo de pessoas, com medo de que ele fosse dizer a alguém que tivesse se divertido bastante que os mágicos não eram melhores do que Michael Vick. — Eu não sabia que elas estavam sendo tratadas tão mal — disse ela calmamente. — Se é verdade, eu sinto muito por eu ter te arrastado para isso. Isso realmente é uma merda. — Isso é realmente uma merda. — Hallbjorn colocou um punho enrolado na palma da mão. — Deve haver algo que possamos fazer. Eu não posso ficar parado e deixar isto acontecer.


Aria deu-lhe um olhar desconfiado. — Eu não posso ficar parada tampouco, mas vamos relaxar hoje à noite, ok? Se divertir. — Ela se inclinou e apertou seus lábios contra os dele. Ela sentiu ele abrandando. — Não me diga que você é um mestre na roleta? Eu aposto que posso ganhar mais dinheiro do que você. Hallbjorn pausou. Ele olhou para as pessoas que saiam do teatro, depois para o cartaz de Biedermeister e Bitschi, mas então ele respirou fundo, agarrou a mão de Aria, e sorriu. — Você está certa — disse ele, e levou-os para o cassino.


9

O GRANDE VENCEDOR! Poucas horas depois, Aria e Hallbjorn estavam de pé sobre a roleta, observando enquanto ela girava ao redor. O ar estava cheio de fumaça de cigarro, e o cérebro de Aria estava começando a se transformar em mingau com os sons enlouquecedores de um zilhão de máquinas caça-níqueis, todas chilreando de uma só vez. — Eu estou dizendo a você, acho que o número 17 é amaldiçoado — ela sussurrou quando a bolinha caiu na posição duplo zero e o croupier arrecadou as fichas de todos de fora. — Nós ainda não ganhamos nenhuma vez. Talvez devêssemos apostar em outro número. — Mas 17 é da sorte — Hallbjorn argumentou. — Meu aniversário é dia 17 de agosto. Minha família vive em Dezessete Bergstadastraeti. E o café onde eu e você nos conhecemos? Foi no Duzentos e Dezessete Laugavegur. Eu acho que é um sinal. — Ele arrastou as fichas restantes em sua pilha. — Só mais uma aposta no 17? Por favor? Aria apertou os lábios, olhando para o confuso feltro verde na mesa. Como não havia janelas neste lugar, ela não tinha noção de que hora era, mas ela e Hallbjorn tinham feito rodadas de blackjack, poker, e mesas de dados, às vezes, ganhando um pouco, mas principalmente perdendo. Tinha sido muito divertido — Aria tinha se preocupado com Hallbjorn se opor ao jogo, dizendo que era um desperdício ou que os chips eram feitos de materiais não biodegradáveis, mas ele parecia tão interagido como ela, usando suas próprias economias para jogar nas mesas. Mas eles perderam uma centena de dólares de dinheiro que não podiam se dar ao luxo de perder. — Nós realmente devemos parar. Precisamos de dinheiro para a nossa licença de casamento e seu visto. — Aria olhou de novo para um relógio na parede antes de se lembrar de que não havia um. — Além disso, eu aposto que está ficando tarde. — Mas eu tenho um pressentimento muito bom sobre isso. — Hallbjorn reuniu as últimas fichas em suas palmas. — Só mais uma no número 17. E se eu não ganhar, eu vou descobrir como conseguir o dinheiro de volta. Vou trabalhar lavando pratos. Ele colocou todas as fichas que tinham restado — no valor de 200 dólares — no número 17, mais uma vez. Aria fechou os olhos, não podendo assistir a roleta girar. — Todas as apostas, todas as apostas — o croupier chamou. De repente, a pele de Aria começou a formigar. Ela olhou por cima do ombro, sentindo os olhos de alguém em suas costas. Mas todo mundo estava encantado com seus próprios jogos. Até as garçonetes obsequiosas estavam preocupadas. A roleta fez sons de clack enquanto ela girava. Ela começou a diminuir, e Aria ouviu a bola cair em um número. Hallbjorn agarrou a mão dela. — Tá vendo! Eu te disse! Aria olhou para baixo e suspirou. A pequena bola tinha aterrado no 17. Todos na mesa começaram a aplaudir. — O grande vencedor! — O croupier disse. Uma senhora de idade em uma echarpe de pele de marta piscou para Hallbjorn do outro lado da mesa de roleta.


O croupier empurrou uma pilha de fichas em direção à Hallbjorn, e depois outra. Algumas das fichas eram pretas, que denominavam 100 dólares, mas nove eram azuis, do tipo que Aria não tinha visto antes. Ela virou uma delas e engasgou. Mil dólares, dizia na borda. Hallbjorn ganhou 9.800 dólares em apenas uma rodada. Ela pegou os ganhos de Hallbjorn e colocou-os no pequeno balde de plástico que tinha BORGATA estampado ao lado. — Nós já fizemos as apostas de hoje à noite — ela murmurou para Hallbjorn. — De nenhuma maneira nós vamos perder essa quantidade de dinheiro. — Como é que você vai gastá-lo, querido? — A velha senhora da echarpe arrulhou. — Umas férias ostentosas com sua garota? Uma moto nova? Aria se perguntou o que faria com o dinheiro, também — já que eles iam se casar, tecnicamente seria deles. Certamente pagaria o aluguel de alguns meses de um apartamento. Talvez até resolvesse seus problemas legais na Islândia. Hallbjorn sorriu para a velha senhora. — Eu sei exatamente em quê eu vou gastar. Ele vai para uma boa causa. Ele pegou o balde de Aria e caminhou em direção à cabine do caixa com um luminoso de néon no canto. Aria caminhou para trás, toda a sua emoção de repente drenada. Ele iria dar para uma boa causa? Ela alcançou ele justo quando Hallbjorn estava passando o balde para uma atendende do caixa loira-água-de-lavagem-de-roupa. — Então, hum, você vai doar o dinheiro para o Salve as baleias ou para o Fundo Mundial para a Natureza, hein? — Ela perguntou, tentando manter seu tom de voz uniforme. Hallbjorn encostou-se no balcão quando a caixa registrou as fichas. — Não esse tipo de boa causa. Vou comprar pra você um anel de noivado. — O quê? — Aria recuou. Parecia que ela tinha acabado de receber um choque elétrico. — Por que você faria isso? Ele sorriu. — Porque você merece. E eu não vou aceitar um não como resposta. Hallbjorn assinou a papelada no estande do caixa, embolsou o dinheiro, e arrastou Aria pelo cassino, ziguezagueando em torno de um par de dançarinas, turistas troncudos com pochetes, e um grupo de garotas com aparência de vadias no bar até que chegaram a um arco que dizia LOJAS em letras de ouro reluzente. As luzes em todas as lojas brilhavam intensamente, e as portas da loja estavam abertas. Depois de passar por uma Godiva chocolatier, por um lugar que vendia smokings e vestidos de luxo, e uma vintage boutique de vinhos que estava organizando uma degustação por uma lista, Hallbjorn entrou em uma loja de joias chamada Hawthorne & Sons que tinha um diamante do tamanho de um comprimido na janela. — Você não tem que me dar um anel — Aria insistiu. — Claro que tenho — Hallbjorn disse por cima do ombro. — Nós vamos nos casar. O homem tem que comprar um anel para a mulher. — Eu não sou tão tradicional — Aria disse, mas, de repente, um pouco de emoção a atravessou. Seria bom ter um anel de noivado, algo para girar em torno de seu dedo na sala de aula. Faria o casamento parecer muito mais oficial. A vendedora, que mal aparentava ser mais velha do que Aria, deslizou até eles. — À procura de algo especial? — Precisamos de um anel de noivado. — Hallbjorn gesticulou para Aria. — Certamente — disse a vendedora brilhantemente, e trouxe uma bandeja de diamantes solitários. Cada um mais brilhante que o outro. Aria ficou meio com medo de tocá-los. — Este é um bom valor. — A vendedora apontou para um enorme diamante redondo sobre uma grossa faixa de ouro branco. — Você obtém uma grande joia de


ouro por um preço mínimo. Todas as meninas gostam de joias de ouro — acrescentou a Hallbjorn com um sorriso apertado. Aria estendeu o dedo, e a menina deslizou o anel nele. Tinha algum peso. Ela espalhou os dedos e virou a mão de um lado para o outro, vendo como o diamante jogava prismas por todo o lugar. O anel não era muito diferente do que o diamante que Jessica DiLaurentis usava. A mãe de Spencer tinha um anel que parecia com esse, também. Mas será que ela realmente queria se parecer com a mãe de alguém? Hallbjorn limpou a garganta desconfortavelmente e fez uma careta, como se sentisse o cheiro de algo ruim. — Aria, eu não acho que devemos apoiar o comércio de diamantes. — Concordo. — Ela puxou o anel pela articulação do seu dedo e entregou-o de volta para a vendedora. Então ela deslizou para fora do banco e olhou ao redor da loja, seus olhos varreram as pérolas elaboradas, pingentes de safira, e pulseiras de tênis de diamante rosa. Tinha que ter algo nesse lugar que não gritasse Eu Sou rica, Eu Sou Suburbana, e Eu Sou Totalmente Chata. E então ela o viu. Em uma vitrine no canto havia um anel grosso de ouro branco esculpido para parecer com uma serpente enrolada comendo a própria cauda. Safiras formavam seus dois olhos redondos, e faixas de ônix compunham suas escamas listradas. Aria correu através da loja e encostou o rosto no vidro. — Posso ver esse? — ela perguntou, apontando. A vendedora franziu o rosto. — Isso não é um anel de noivado. — Quem se importa? — Hallbjorn caminhou até Aria e olhou para ele, também. — Essa coisa é impressionante. E olha! As gemas foram exploradas de acordo com as leis de comércio justo! Parecia o destino. O anel deslizou no dedo de Aria tão facilmente como o sapatinho de cristal coube no pé da Cinderela. A cabeça de cobra olhou para ela, seus olhos de safira brilhantes tanto ameaçadores como protetores. Parecia como um talismã, um amuleto de boa sorte. Enquanto Aria usasse esse anel, nada de mal lhe aconteceria. Esta cobra certamente faria com que seu casamento com Hallbjorn fosse feliz. Iria afastar a má sorte e os maus espíritos. Ela garantiria que A nunca, jamais voltasse.


10 ACEITO

— Você tem uma pele incrível — uma maquiadora chamada Patricia, que tinha um monte de tatuagens e cheirava esmagadoramente ao shampoo Head & Shoulders, disse a Aria quando ela colocou um pouco de pó em suas bochechas. — Eu quase não tenho que usar nada em você. — Não deixe de fazer os meus olhos esfumaçados e dramáticos, entretanto — Aria lembrou. — Eu quero parecer impressionante nas fotos. — É isso aí. — Patricia remexeu em sua bolsa. — Então você vai se casar, né? — Isso mesmo — respondeu Aria, franzindo os lábios para um gloss. — Você está animada? — Definitivamente. — Ela balançou os ombros, sentindo um arrepio. Era a tarde do dia seguinte, e Hallbjorn surpreendeu Aria mais uma vez ao reservar para ela uma massagem no quarto — com óleos ecológicos, é claro — uma visita da maquiadora Patricia, e do cabeleireiro profissional Lars, que usava as calças mais apertadas que Aria já tinha visto. O quarto de hotel foi transformado em um salão de beleza, com Adele tocando no fundo, sanduíches de pepino e um jarro de mimosas na bandeja no canto, toneladas de revistas de fofocas empilhadas na cama, e o cheiro de óleos de massagem persistente no ar. Hallbjorn havia desaparecido assim que Patricia e Lars vieram através da porta, dizendo que ele ia esperar para ver a transformação de Aria quando fosse concluída. Aria tinha tirado uma foto dele com sua câmera digital exatamente quando ele saiu do quarto. Ela estava tentando documentar tudo hoje, desde a bolsa de maquiagem bagunçada de Patricia até os sete brincos serpenteando as orelhas de Lars, não querendo esquecer um só detalhe. — Você vai ser uma linda noiva — Patricia murmurou agora. — Você tem o quê, vinte e um? Vinte e dois? Aria concordou evasivamente, não querendo dizer que ela tinha apenas 17. Sua idade foi meio que um problema — quando o porteiro tinha entregado a papelada da licença de casamento esta manhã, Aria viu que realmente necessitava a assinatura de um pai para permitir que o estado de Nova Jersey os casasse. Ela falsificou o nome de Ella e incluiu seu próprio número de celular, imaginando que ela fingiria que era Ella se alguém do tribunal ligasse para verificar. Ela olhou para o celular sobre a mesa, sentindo uma pontada de culpa. Ela deveria ligar para Ella e dizer a ela o que ela estava prestes a fazer? Ou talvez ela devesse ligar para uma das suas velhas amigas. Parecia estranho passar por essa experiência sem ninguém saber. Mas isso era entre ela e Hallbjorn, e a última coisa que ela precisava era de alguém tentando convencê-la a desistir. Pouco tempo depois, Patricia tinha completado a maquiagem de Aria e Lars tinha acabado de fazer o cabelo de Aria à perfeição. Ela se trancou no banheiro, colocou o vestido que ela tinha encontrado ontem sobre sua cabeça, e olhou os resultados no espelho. Ela consertou o rasgo no decote, o vestido se encaixava perfeitamente em sua cintura e quadris. Com seus cabelos lisos e olhos esfumaçados, ela parecia uma versão de estrela de cinema de si mesma.


Quando ela saiu do banheiro e abriu seus braços em uma pose de Tâ-dâ!, Patricia gritou. — Você está maravilhosa. — Deslumbrante — Lars destacou, inclinando-se coquetemente contra a cômoda. — Você tem algo velho, novo, emprestado e azul, certo? Aria olhou para eles fixamente. Tando Patricia quanto Lars colocaram as mãos na boca. — Algo velho, algo novo, algo emprestado, algo azul? — Lars repetiu. — Você nunca ouviu isso? A noiva usa cada um no dia do seu casamento! Para dar boa sorte! Aria tinha ouvido falar disso, mas ela simplesmente tinha esquecido. Ela olhou para baixo em seu vestido. — Bem, isso é velho — ela ofereceu. — Mas também é novo... para mim. — Aqui está algo emprestado. — Lars deslizou uma pulseira de couro para fora de seu pulso. Tinha picos sobre ela e dizia FODÃO, mas era apenas um certo toque de estrela-do-rock. — E espere um minuto... — Patricia correu para a sala e voltou com um ramo de violetas. — Onde você conseguiu isso? — Lars colocou a mão atrevidamente em um quadril. — No vaso do elevador. — Patricia colocou o dedo sobre os lábios. Em seguida, ela colocou um raminho atrás da orelha de Aria. — Perfeito. Era hora de ir, e eles correram para o lobby. Alguém em um smoking esperava perto das portas giratórias, de costas para eles. Aria não sabia que era Hallbjorn até que ele se virou e sorriu para ela. — Uau — ela suspirou. — Eu estava prestes a dizer o mesmo sobre você — respondeu Hallbjorn, pegando sua mão. Eles ficaram em silêncio por um momento, e então explodiram em risos. Isso está realmente acontecendo, Aria pensou. Vou realmente me casar. Aria vestiu seu casaco, e Humpty, o porteiro do dia anterior, conduziu-os para fora e mostrou-lhes a bicicleta construída para dois que ele tinha alugado. Ela tinha assentos de banana, fitas penduradas no guidão, e nenhum câmbio de velocidade à vista. — Eu só consegui encontrar um cruzador de praia — disse ele timidamente. — Espero que tudo bem. — Está ótimo. — O banco estava coberto de areia e as marchas estavam um pouco enferrujadas, mas ela não poderia imaginar um melhor transporte para o casamento. A temperatura estava muito mais quente do que no dia anterior, e toda a neve tinha sido tirada das ruas. Hallbjorn subiu na parte da frente da bicicleta de dois assentos e eles saíram a caminho, dando ao sino um pequeno toque. Não foi fácil para Aria pedalar de salto, então ela deixou seus pés pendurados muitas vezes durante o passeio. Algumas pessoas acenaram quando eles passaram, e alguns carros buzinaram. Aria pensou que ela tinha visto alguém à espreita atrás deles, mas quando ela olhou por cima do ombro, quem quer que fosse se escondeu em uma esquina... ou talvez não estivesse lá de jeito nenhum. Ela se livrou de suas preocupações. Nada iria estragar o dia do seu casamento. Eles chegaram à capela, um pequeno edifício branco situado entre uma casa de penhores e um estúdio de tatuagem. Ela dizia CAPELA DO LUV em letras vermelhas sobre a porta, e havia corações impressos nas cortinas das janelas. Hallbjorn ajudou Aria a sair da bicicleta, em seguida, deu-lhe um olhar muito significativo. — Você é tão linda, Aria Montgomery — disse ele. — Assim como você, Hallbjorn Gunterson — Aria disse, sua voz tremendo um pouco. Ele se inclinou e a beijou.


Subiram as escadas juntos. O interior da capela estava envolto em panos vermelhos, altas colunas brancas, e vasos transbordantes de rosas vermelhas e brancas. Um lustre reluzente pendia do teto, e algumas filas de assentos foram posicionadas em ambos os lados de um corredor de tapete vermelho. O salão cheirava a uma mistura de perfume e flores, e uma música suave tocava pelos alto-falantes. Uma porta se abriu no final da capela, e alguém em um traje de Elvis, com a jaqueta de lantejoulas e calça boca de sino, o cabelo bufante e os óculos de aviador, desfilou para fora e sorriu para eles. — Olá para vocês aí, pombinhos — ele sussurrou com uma voz perfeita de Elvis. — Eu vou casar vocês hoje. Aria riu. Era muito perfeito. Elvis pediu a papelada de licença e Aria a entregou. Ele a enfiou no bolso, sem sequer olhar para ela. — Agora, vocês têm testemunhas? Aria olhou para Hallbjorn. — Uh, não... — Nós vamos ser suas testemunhas — uma voz veio da esquerda. Uma vedete alta e magra vestindo uma pluma no alto da cabeça estava sentada ao lado da imitadora de Cher. Elvis voltou para frente da capela e instruiu que Hallbjorn se juntasse a ele. Cher saltou de sua cadeira e conduziu Aria até uma antessala pequena bem ao largo do corredor, que continha um par de cadeiras e um espelho de corpo inteiro. Aria se olhou, analisando seu vestido vintage e as flores enfiadas em seu cabelo. Cher estava atrás dela, ajeitando o cabelo da parte de trás. — Obrigada por serem nossas testemunhas — sussurrou Aria. — Ah, eu adoro casamentos, querida — Cher respondeu com uma voz profunda. Aria viu suas mãos enormes no espelho e sorriu ironicamente. É claro que Cher era um cara vestido de drag queen. A música Canon in D reproduziu através dos alto-falantes. Depois de algumas batidas, Cher ofereceu a Aria o seu braço. Aria o tomou como se fosse perfeitamente normal uma drag queen estar levando-a até o altar em vez de Byron, seu olhar ancorado em Hallbjorn na frente da capela o tempo todo. Havia um sorriso tonto no rosto dele. Suas mãos estavam agarrando a sua cintura e um de seus pés batia no chão. Ela parou ao lado de Hallbjorn assim que a música terminou. Cher beijou-a na bochecha, sussurrou — Boa sorte — e depois se sentou ao lado da vedete. Elvis ficou de frente para eles dois, abriu um grande livro de couro com as bordas das páginas douradas, e limpou a garganta. — Estamos reunidos aqui hoje para unir Aria Marie Montgomery e Hallbjorn Fyodor Gunterson. — Ele tropeçou um pouco no nome de Hallbjorn, e Aria riu nervosamente. Elvis continuou com todas as típicas falas de um casamento que Aria já tinha ouvido serem faladas em inúmeros filmes e lido em centenas de livros. Ele os fez repetir que eles iriam continuar unidos na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza, enquanto os dois viverem. As mãos de Aria tremiam quando Hallbjorn deslizou o anel de cobra em seu dedo. Ela pegou o anel de ouro puro que eles tinham comprado para Hallbjorn na mesma loja de joias e colocou no dedo dele. — Eu vos declaro marido e mulher — ela ouviu Elvis dizer, e então de repente Hallbjorn estava beijando-a, e Cher e a vedete estavam aplaudindo. O coração de Aria batia rápido, tudo isso parecendo como um sonho. Quando ela abriu os olhos, confetes caíam do teto. A banda surgiu da parte de trás, rapidamente conectando seus instrumentos em amplificadores, e Elvis pegou o microfone que ele tinha estado falando ao casar eles e começou a cantar ‚All Shook Up‛.


A capela se transformou em uma festa de dança. Hallbjorn balançou as mãos de Aria para lá e para cá. Cher pegou Aria e lhe deu um pequeno giro. A vedete balançou seus peitos e deu alguns chutes altos. Uns poucos turistas idosos em casacos de lã pesados vagavam por lá, e Elvis convidou-os para se juntarem à festa também. Aria parou por um momento, assimilando toda a coisa. Era tudo tão... ela, até as flores roubadas por trás da sua orelha e o fato de que Hallbjorn tinha esquecido de alugar sapatos com seu smoking e ainda estava usando suas botas de escalada islandesas. Uma onda de felicidade tomou conta dela, e ela abriu um sorriso largo e eufórico. Ela não poderia imaginar um casamento mais perfeito.


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O CASAL QUE VIOLOU LEIS JUNTO... Quando Aria e Hallbjorn saíram da Capela do Luv uma hora e meia depois, suas vozes estavam roucas de cantar as músicas de Elvis e seus pés doloridos de dançar com Cher, sua bicicleta de dois assentos agora tinha uma placa fixada na parte de atrás que dizia RECÉM-CASADOS em letras cor de rosa. Um monte de latas vazias tinha sido amarradas atrás, também. — Esse foi o melhor casamento de todos — disse Aria, subindo a bordo da bicicleta. — Agora eu mal posso esperar para ter você de volta ao nosso quarto de hotel, marido. — Eu concordo, esposa. — Hallbjorn virou o novo anel de casamento em torno de seu dedo. — Mas eu quero lhe mostrar uma coisa. — É outra surpresa? — Aria perguntou, sua mente girando. Talvez Hallbjorn tivesse arranjado uma espécie de jantar incrível. Ou reservado um lugar para uma mini lua de mel. — Você vai ver quando chegarmos lá. — Hallbjorn jogou a perna por cima da cadeira e começou a pedalar. Eles começaram a descer a rua com as latas fazendo barulho. Em vez de virar na entrada principal do Borgata, Hallbjorn a ignorou e virou à esquerda para um caminho contrário. Eles serpentearam através de um monte de estacionamentos e zonas de carga, até que pararam em uma grande porta de metal de uma garagem. Hallbjorn desmontou da bicicleta e tirou a poeira de seu smoking, que tinha ficado borrifado de um pouco de sal da estrada. Aria olhou em volta. Não havia uma alma à vista, e eles estavam cercados por enormes montes de neve suja. Havia um grupo de minicaminhões esperando, suas cabines desocupadas. Ela pensou ter ouvido uma tosse e congelou, mas quando ela esperou, não houve mais sons. — Por que estamos aqui? — Ela perguntou com a voz trêmula. — Eu vou te mostrar. — Hallbjorn caminhou até a porta da garagem e começou a puxar a pequena alça na parte inferior. Antes que Aria pudesse detê-lo, ele levantou a porta para revelar uma sala pequena e escura. O cheiro de xixi de gato atingiu as narinas de Aria imediatamente, e ela suprimiu uma vontade de vomitar. Quando a visão de Aria se ajustou, ela viu duas gaiolas pretas em lados opostos do lugar. Formas grandes estavam encolhidas atrás das grades. Então ela ouviu um barulho alto e ameaçador. Ela se virou para Hallbjorn, momentaneamente muda. — Essas são as panteras do show? — Sim. — Hallbjorn acendeu uma luz, que só fez os animais rosnarem mais alto. Eles pareciam ainda maiores de perto, com seus corpos de músculos sólidos, com seus olhos amarelos brilhando. Eles estavam trancados em duas gaiolas minúsculas apenas grande o suficiente para que oportunamente se virassem ou deitassem. Suas tigelas de comida e água estavam vazias. Havia cocô por todo o chão, e o lugar parecia frio demais para um animal ficar confortável. — Como você os encontrou? — Aria engasgou.


— Eu dei algumas olhadas ao redor enquanto você estava fazendo sua maquiagem — Hallbjorn explicou. — Foi mais fácil encontrá-los do que eu pensava. Ninguém cuida deles na maior parte do dia. Elas são importantes apenas quando têm de se apresentar. — Ele apontou para uma das panteras. Ela agora estava encolhida em uma bola, tremendo. Lágrimas vieram aos olhos de Aria. — Pobrezinhas. Hallbjorn se virou para ela, seu rosto repentinamente cheio de emoção. — Mas nós podemos ajudá-las. Eu quero que nós as libertemos. Dar a elas a vida que elas merecem. Aria olhou para as gaiolas das panteras. Havia várias fechaduras enormes nas portas. — Como vamos fazer isso? — Eu já planejei isso. Entre sete e oito horas da manhã, o seu domador destranca as gaiolas para que elas possam fazer algum exercício — que é apenas para elas girarem ao redor em coleiras curtas. Amanhã de manhã, eu poderia distrair o domador e você poderia esgueirar-se até lá, abrir as portas e soltar as panteras. — Eu tenho que libertá-las? — Um dos felinos bocejou, e Aria apontou para seus enormes dentes caninos. — E arriscar ser rasgada membro a membro? — Então eu vou destrancar as gaiolas. Você distrai o domador. — Hallbjorn parecia exasperado. — O ponto é que nós vamos deixá-las sair. Libertá-las de seus opressores. — Então elas podem passear em Atlantic City? — Aria deu um pequeno passo para longe dele. — Hallbjorn, este não é exatamente o seu habitat natural. Onde é que elas vão viver? Sob o calçadão? O que elas vão fazer se nevar? Como elas vão fazer para comer? — É melhor do que a situação que temos aqui. — Hallbjorn estendeu o braço para as gaiolas. Ambas as panteras soltaram rugidos poderosos como se fosse uma resposta. — Mas uma pantera solta pode machucar alguém! — Aria gritou. — Pense nas pessoas de idade na capela ainda agora. Você acha seriamente que poderiam correr mais que uma pantera? Hallbjorn colocou as mãos em seus quadris. — Tenho certeza de que elas são muito gentis. E elas não vão tentar ferir ninguém, elas só querem ser livres. Elas provavelmente vão seguir direto para o pântano fora da cidade. Aria olhou para ele, esperando o momento em que Hallbjorn iria começar a rir e dizer que ele estava brincando — ele só iria chamar a ASPCA e deixá-los cuidar da situação. Mas o riso não veio. Ele a olhou fixamente, com o rosto completamente sério. — Eu quero compartilhar tudo com você, agora que nós somos casados — Hallbjorn disse. — E eu também quero que o nosso casamento seja algo maior do que apenas nós. Devemos conquistar o mundo juntos. Aria deu mais um passo para fora da garagem, o seu calcanhar pousando em um monte de lama. — Mas não desse jeito. Nós realmente poderíamos ter problemas. Eu pensei que você tivesse vindo aqui para escapar de problemas. O rosto de Hallbjorn desanimou. — Bem, eu pensei que você concordaria com essa ideia. Eu pensei que você se importasse. — Eu me importo. Eu adoro a forma como você se compromete com causas como esta, e eu quero compartilhar a sua paixão. Mas não violando a lei. Aria olhou por cima do ombro. Eles poderiam ter problemas apenas por estarem aqui. Biedermeister e Bitschi poderiam processá-los por invasão. E esse lugar era tão sombrio. Todos os montes de neve tinham ficado pretos do escapamento de caminhão. O cheiro de cocô de gato estava fazendo seus olhos lacrimejarem. Ela olhou para o anel de cobra em seu dedo. De repente, a alegria da sua cerimônia de casamento parecia há muito tempo e muito longe.


— Talvez devêssemos pensar sobre isso um pouco mais — disse Aria, enlaçando o braço em volta da cintura de Hallbjorn. — Se você realmente quer ajudar as panteras, devemos chamar algum tipo de autoridade — alguém que pode levá-las a um lugar seguro. Além disso, esta é a nossa noite de núpcias. Você não gostaria de estar fazendo outras coisas na nossa noite de casados em vez de planejar como soltar as panteras? A boca de Hallbjorn torceu. Aria poderia dizer que ele estava se rachando. Ela traçou os dedos pelas suas costas. — Basta pensar. Amanhã de manhã poderíamos acordar juntos como marido e mulher, ver o sol nascer, tomar o café da manhã na cama... Ela caminhou seus dedos por suas costas e empurrou uma mecha de cabelo de seus olhos. Hallbjorn olhou de novo para as panteras em suas gaiolas. Aria inclinou seu olhar e levemente beijou seu pescoço. — Por favor? Finalmente, Hallbjorn suspirou. — Como eu posso dizer não para você? — Você não pode. Eu sou sua mulher. Você tem que fazer tudo o que eu digo. Rindo, Hallbjorn fechou a porta da garagem e montou na bicicleta mais uma vez. Aria montou atrás, e subiram pela entrada principal do hotel. Quando eles dobraram a esquina, Aria ouviu outro rugido atormentado. Os músculos das costas de Hallbjorn ficaram tensos. Mas ele continuou a pedalar e, eventualmente, o grunhido triste e solitário foi desaparecendo.


12

PÂNICO EM MASSA Aria abriu os olhos. Ela estava de pé em um gramado do lado de fora de um tribunal. A cidade inteira se estendia diante dela ao longo da encosta. Era Rosewood. Do seu ponto de vista, ela podia ver Rosewood Day e a Torre Hollis. Ela podia até ver o topo da casa Hastings com seu cata-vento de galo. Mas como ela chegou aqui? Será que isso tinha alguma coisa a ver com seu casamento com Hallbjorn? Ela estava em apuros por forjar a assinatura de Ella? Ela olhou novamente para o chão e torceu o nariz. A neve foi embora. Na verdade, a grama parecia meio... verde. Como poderia quarenta e cinco centímetros de neve ter derretido tão rapidamente? As portas do tribunal se abriram, e uma enxurrada de pessoas e repórteres com câmeras e microfones correu até os degraus. — Sr. Thomas, Sr. Thomas! — Ian Thomas desceu correndo as escadas com o seu advogado e se abaixou em um carro que o esperava na calçada. A cabeça de Aria começou a funcionar. Ela presenciou esta cena antes. Este era o julgamento de Ian. No mês passado. — Hey. Aria girou ao redor. Quando ela viu a figura loira com o rosto em forma de coração diante dela, um grito congelou em sua garganta. — Ali — ela sussurrou. — Em carne — disse a menina, fazendo uma reverência. — Você sentiu minha falta? Aria olhou para ela. Era Ali... mas não era. Ela era mais alta agora. Mais velha. Seus peitos eram maiores e o rosto mais fino, mas sua voz era estranhamente a mesma. Assim como aqueles provocantes olhos azuis, os quais sempre brilhavam com malícia quando ela propunha um desafio novo, os quais sempre se apertavam quando Aria ou as outras diziam algo que ela considerava não-legal. Aria segurou o lado de sua cabeça como que para impedir que seu cérebro explodisse para fora de seu crânio. Ela olhou para a multidão em frente ao tribunal. Os repórteres estavam ao redor do carro de Ian, batendo nas janelas. Mas eles deviam estar falando com Ali, não com Ian. Por que eles não a viam? — Não se preocupe em conseguir a atenção deles. — Ali friamente enfiou a mão no bolso do casaco e tirou um cigarro. — Só você pode me ver. Aria arregalou os olhos. — O que você quer dizer? — Estou aqui apenas para você. — Essas palavras em si poderiam ter sido um elogio, mas o tom de Ali as distorceram para fazê-las parecerem ameaçadoras e assustadoras. — Eu estou mantendo o controle sobre você, Aria. Eu estou observando cada movimento seu. — Por quê? — Aria piscou com força. Ali acendeu o cigarro e soprou um anel de fumaça. — Você sabe por quê. — Ela ofereceu a Aria uma tragada no cigarro, mas Aria balançou a cabeça. — Ele realmente não te ama, você sabe.


Parecia que Ali tinha despejado um balde de água fria sobre a cabeça de Aria. — O quê? — ela gaguejou. Ali apagou o cigarro com sua bota de salto alto. — Ninguém jamais poderia amar uma maluca como você. Noel não quer você. Ezra não via a hora de ficar longe de você o mais rápido possível. Hallbjorn está apenas usando você. — Ela caminhou em direção a um Town Car que estava esperando e que tinha aparecido do nada e deslizou para o banco traseiro. — Eu era a sua única amiga de verdade, e você me deixou morrer. Você não merece ser amada. — Ali? — Aria gritou, dando alguns passos na direção do carro. — Espera! Onde você vai? Ali não respondeu. O Town Car se afastou do meio-fio com um crepitar de um nocivo escapamento. Aria aspirou um bocado e cambaleou para trás. Parecia que havia cacos de vidro em seus pulmões. Um riso estridente espiralou sobre as árvores. Aria levantou-se na cama, respirando com dificuldade. Seu coração batia em seus ouvidos. Seus pés chutaram debaixo das cobertas suadas. Ela olhou em volta. Ela estava no quarto do Borgata. Sol entrava pelas janelas. O relógio na mesa ao lado, dizia 09:03. Ela esfregou os olhos por um longo tempo. As imagens eram tão vívidas. A risada reveladora de Ali. Os provocantes olhos azuis de Ali. Mas era tudo uma invenção da psique de Aria, certo? Os detalhes da noite anterior voltaram lentamente para ela, graças a algumas pistas ao redor da sala. Os restos do jantar do serviço de quarto que ela e Hallbjorn tinham comido ainda estavam em uma bandeja ao lado da janela. Uma garrafa de champanhe vazia derrubada no chão. O smoking de Hallbjorn jazia em uma pilha amassada na cadeira junto com o vestido vintage de Aria. A placa de RECÉM-CASADOS, que eles tinham encostado no espelho, tinha caído. Depois de terem comido, eles desabaram na cama e beberam taças de champanhe. O álcool havia os atingido de forma rápida, e eles desmaiaram antes que eles pudessem tornar o casamento, er, oficial. A TV piscou, mais uma vez sintonizado no canal interno do resort. O comercial para o show das panteras prateadas apareceu, os mágicos desfilando pelo palco em suas ridículas fantasias de ombro acolchoado. Aria apertou no MUTE, não querendo que Hallbjorn se lembrasse dessas pobres panteras novamente. Mas, onde estava Hallbjorn? Seu lado da cama estava vazio. Ele não estava na pequena mesa de jantar. Não havia ruídos vindos do banheiro, também, e suas botas de caminhada, que ele tinha tirado perto do frigorífico mini-bar, não estavam lá. Aria pegou seu iPhone antes de se lembrar — não havia maneira de contatar Hallbjorn, já que ele tinha abandonado seu celular antes de sair da Islândia, preocupado que a polícia pudesse ser capaz de segui-lo. Ela ligou para a portaria ao invés, perguntando se eles tinham visto um menino muito loiro vagando pelo saguão. Talvez ele tivesse acordado cedo e ido tomar o café da manhã. — Eu não vi ninguém com essa descrição — disse a mulher alegre que atendeu na recepção. — Mas eu poderia procurar ele para você. Qual é o sobrenome dele? — Gunterson. — Aria soletrou. — Sim, procure ele, por favor. Diga a ele que sua esposa está procurando por ele. — Parecia estranho dizer esposa. — Eu vou chamar ele para você se ele aparecer aqui — disse a mulher da recepção, depois desligou com um clique. Aria andava ao redor do quarto do hotel, às vezes puxando para trás as cortinas e olhando para a praia vazia do lado de fora da janela. Depois de alguns minutos, ela não conseguia mais ficar na sala por mais um segundo e pegou suas chaves. O corredor estava estranhamente vazio. Uma porta se fechou rapidamente, como se alguém não


quisesse ser visto. Os cabos do elevador rangeram e gemeram, soando como gritos. O sonho pulsava na mente de Aria. Ele está apenas usando você, Ali tinha dito. Ela desceu no elevador até o térreo e verificou a sala de academia, mas apenas um par de mulheres gordinhas estavam andando sobre as esteiras, bebendo algo chamado AminoSpa. Ela enfiou a cabeça no pequeno restaurante que servia o bufê do café da manhã, mas Hallbjorn não estava lá, também. Ela empurrou as portas giratórias que levavam para a área de estacionamento com manobrista. E se a polícia islandesa tivesse seguido Hallbjorn até aqui e o levou embora enquanto Aria estava dormindo? De repente, Aria não queria nada mais do que ver a cabeça loira de Hallbjorn aparecendo sobre as dunas. Ela esticou o pescoço, esperando. Quando alguém apareceu, seu coração acelerou, mas era uma mulher de meia-idade com um casaco acolchoado ao invés. Ela estava correndo em velocidade máxima. — Protejam-se! — A mulher gritou, correndo em disparada por Aria e através da porta giratória para dentro do hotel. Um homem corria acima das dunas próximas, olhando nervosamente sobre o ombro. Mais pessoas seguiram com olhares aterrorizados em seus rostos. Todos eles se mantinham verificando atrás deles, como se estivessem tentando correr mais rápido que um tsunami. Um cara da idade de Mike agarrou o braço de Aria. — Volte para dentro! — Ele gritou. — É perigoso aqui fora! — Por quê? — Aria olhou para ele. — Você não ouviu? — O cara olhou para Aria como se um galho de árvore tivesse brotado de sua cabeça. Ele puxou Aria para dentro e apontou para uma tela de TV sintonizada no canal CNN no canto do lobby. O horizonte de Atlantic City estava na tela. Um âncora olhava animadamente para a câmera. — Aparentemente, o incidente aconteceu apenas alguns minutos atrás, e nós estamos filmando o começo do tumulto em Atlantic City — disse o repórter. Tumulto? Atlantic City? Aria se aproximou da TV. Era um assassino em série visando a cidade? Ela olhou pela janela novamente, temendo pela vida de Hallbjorn. O que diabos ela tinha feito, arrastando-o até aqui? E se ele tivesse se machucado? Então, ela voltou para a tela da TV. Um banner tinha aparecido na parte inferior. Felinos Mortais Soltos em Atlantic City, NJ. Aria abriu a boca para gritar, mas nenhum som saiu. Um retrato das duas panteras prateadas apareceu, junto com uma foto de Biedermeister e Bitschi em suas capas de mágico. — Panteras são muito perigosas — disse o correspondente da CNN disse. — Elas são conhecidas por mutilar os seres humanos, então, por favor, todos em Atlantic City, fiquem dentro de casa. Aria afundou em uma cadeira, sentindo-se tonta. A próxima cena na tela era das gaiolas minúsculas onde as panteras estavam trancadas que Aria tinha visto na noite anterior. Ambas as portas estavam abertas com as trancas quebradas. Palavras tinham sido pintadas com spray no chão de cimento na frente das gaiolas. Panteras também têm direitos. A crueldade com animais é errado. — Eu não posso acreditar que alguém pôde fazer uma coisa dessas — uma mulher que tinha chegado e parado ao lado de Aria murmurou. — Você acha que é a al-Qaeda? Bile subiu na garganta de Aria. Ela avançou para longe da mulher como se ela fosse culpada, também. Ela sabia exatamente quem tinha feito isso. Sem sombra de dúvida. Hallbjorn.


13

ERROS COMETIDOS Em questão de minutos, todos os hóspedes do Borgata estavam encolhidos no lobby, com muito medo de sair do hotel e enfrentar as panteras soltas. Rumores de que as panteras foram avistadas serpeavam. As pessoas os tinham visto na praia, perto do restaurante local que era famoso por suas panquecas de mirtilo, e rugindo fora do Trump Taj Mahal. Aparentemente, uma das panteras tinha prendido uma criança sob o calçadão; um casal de pessoas tinha jogado carne de hambúrguer na areia, distraindo o felino e permitindo que o garoto escapasse. A outra pantera tinha encontrado o seu caminho em um clube de strip. Cada stripper e cliente foram forçados a evacuar, as garotas ficaram de pé no estacionamento vestindo quase nada. Transmissões de tumultos por causa das Panteras apareciam em todas as telas de televisão no átrio do Borgata, em bares e restaurantes. Vans de notícias de todo lugar de três estados gritavam no estacionamento Borgata, e o lobby rapidamente se transformou em um estúdio improvisado. Biedermeister e Bitschi estavam sendo entrevistados perto do quiosque Starbucks, parecendo abatidos e perturbados. — Eu não sei quem faria isso conosco — disse Biedermeister, balançando a cabeça. — Nós não temos inimigos. Aria voltou para o quarto e deixou-se cair na cama, ainda não acreditando que isso estava acontecendo. Ela não podia acreditar que Hallbjorn tinha ido até o fim. Ele estava pensando em voltar para Aria e dizer a ela o que ele tinha feito? Será que ele esperava que ela se orgulhasse dele? Ela olhou novamente para seu smoking amarrotado no chão e sentiu uma pontada inesperada de saudade. Sua cerimônia de casamento foi tão perfeita, uma memória que ela pensou que ela iria guardar para sempre. Agora, parecia corrupta e suja. Ela pegou o smoking do chão e o pendurou perfeitamente em um cabide. O ramo da rosa que a vedete tinha colocado na lapela de Hallbjorn ainda estava lá. Quando Aria pressionou o casaco em seu nariz, cheirava a Hallbjorn, uma mistura de chocolate e menta e o refrescante ar de inverno. Debaixo do casaco estava a camisa, o cinto, e as meias, mas a calça do smoking, que tinha uma faixa de cetim correndo ao lado, estava longe de ser vista. Aria olhou em torno do quarto procurando a mala de Hallbjorn, pensando que ele tinha colocado as calças lá. Ela poderia ter jurado que ele tinha deixado sua bolsa no guarda-roupa, mas também estava longe de ser vista. Nem no banheiro, nem na poltrona perto da janela, nem em uma das gavetas da cômoda. Ela congelou no meio do quarto, de repente se dando conta. Hallbjorn tinha levado sua bolsa com ele. Ele nunca tinha planejado voltar aqui. Aparentemente, a recusa de Aria para ajudar a libertar as panteras era o motivo para o abandono. Então era isso? Ele tinha de verdade abandonado ela por umas panteras? Ela pensou em como ele havia dito que a amava. Como ele tinha estado animado para se casar ontem. Era tudo uma farsa?


Lágrimas escorriam pelo seu rosto. Ela arrancou o anel de serpente para fora de seu dedo e o colocou sobre a mesa, em seguida, mudou de ideia e o jogou através do quarto. O anel ressoou contra o aquecedor e caiu no chão em cima de algumas folhas de papel. Era a sua licença de casamento. Aria se abaixou e olhou para o selo vermelho do estado de Nova Jersey. Parecia tão oficial. Vinculativo. Mas então ela olhou para a assinatura de Ella, para todas as curvas, nada parecida com a verdadeira assinatura de Ella. Aria tinha assinado com uma caneta roxa brilhante. A licença fez um som de amassado quando ela enfiou-a em sua bolsa. Ela enfiou os pés em seus sapatos, pegou a chave do quarto e o anel, e correu porta afora, de repente alimentada com uma finalidade. Havia algo que ela precisava fazer.

*** Não havia uma única alma nas ruas, e quando Aria subiu os degraus do tribunal de Atlantic City, os guardas esperando nos detectores de metal deram a ela olhares assustados. — Você saiu com as panteras à solta? — Um deles deixou escapar. Aria colocou sua bolsa na esteira sem responder. Uma mulher no balcão de informações a dirigiu a um pequeno escritório no segundo andar que estava cheio de papéis e cheirava a cigarro velho. Aria se aproximou de uma funcionária atrás de uma janela de vidro à prova de balas que estava fixada em um relatório sobre as panteras prateadas em uma mini TV. — A última aparição das panteras foi em um beco atrás do Caesars — a voz de um repórter disse. Um bando de caras em macacões que dizia CONTROLE ANIMAL estava na tela. Eles apontavam armas enormes com dardos paralisantes para uma lata de lixo verde. — Com licença. — Aria passou os documentos do casamento através da pequena fenda na janela. — Eu preciso esclarecer algo. Estes documentos não são válidos. A mulher desviou o olhar da TV e olhou para os papéis. — Por quê? — Eu tenho 17. — Aria levantou sua carteira de motorista. — E eu forjei a assinatura da minha mãe. Ela não tem ideia de que eu me casei. E duvido que ela permita. A mulher empurrou os óculos mais abaixo em seu nariz e deu a Aria um longo olhar descontente. — Você sabe que é ilegal forjar o nome de alguém, certo? — Eu sei. — Aria abaixou a cabeça. — Eu não estava pensando. — Ela se perguntou, de repente, se ela iria ficar em apuros. Qual era a pena por falsificação? Uma multa? Cadeia? A mulher simplesmente deu de ombros e levantou um carimbo sobre a licença. — Eu vou ter que anulá-la. — Então, ela estalou a língua. — Quem quer se casar com 17 anos de idade, de qualquer maneira? Por que ser sobrecarregada por um marido? Eles não são nada além de problemas. A mulher moderna deve ser livre e desimpedida. Aria quase riu. Isso soou como o argumento de Hallbjorn para libertar as panteras. A funcionária negou com a cabeça. — O cara que você se casou sabe que você forjou a assinatura da sua mãe? A tela da TV atrás da funcionária chamou a atenção de Aria. Os caras do controle de animais ainda estavam perseguindo o lixo. De repente, uma das panteras prateada apareceu. Eles tentaram atirar nela com um calmante, mas ela se lançou em direção a eles e todos se espalharam. O cinegrafista começou a correr também. Ele continuou filmando a pantera enquanto fugia. Ela parecia ansiosa e com medo. Não feliz, como Hallbjorn havia previsto. Nem livre.


Por uma fração de segundo, ela considerou dizer a atendente que Hallbjorn tinha soltado as panteras. Todos em Atlantic City estavam procurando por ele, afinal de contas. Eles precisavam levá-lo à justiça pelo que ele fez. Mas ela não conseguiu formar as palavras. Hallbjorn poderia ter sido um lunático, mas ele ainda era seu marido, pelo menos por mais alguns segundos, de qualquer maneira. E no fundo, ela sabia que seu coração estava no lugar certo. — Eu não acho que o nosso casamento está na frente de sua mente agora — Aria respondeu melancolicamente. O barulho do carimbo de ANULADO batendo no papel era ensurdecedor. A mulher perguntou a Aria se ela gostaria de manter a licença como uma lembrança, e Aria relutantemente pegou o papel pela abertura e se voltou para a porta. — Hey — ela chamou, e Aria olhou por cima do ombro. A expressão mal-humorada da funcionária tinha sido suspendida e suavizada. — Você vai se casar quando for a hora certa — disse ela. — Eu trabalho como vidente em tempo parcial. Eu sei dessas coisas. — Obrigada — disse Aria. E por alguma razão maluca, isso a fez se sentir melhor. Ela puxou seu casaco para mais perto ao redor dela enquanto ela saia do tribunal. O ar estava se tornando gélido, e as nuvens estavam rolando. Provavelmente, seria melhor se ela saísse de Atlantic City antes de começar a nevar novamente. Ela olhou de um lado pra o outro da avenida. Os cassinos brilhavam na distância. O oceano rugia além, enchendo o ar com um cheiro salgado. Há algumas ruas de distância, sirenes soavam. Aria enfiou a mão na bolsa e retirou a licença de casamento anulada. Aria Marie Montgomery é casada com Hallbjorn Fyodor Gunterson. Lentamente, metodicamente, ela rasgou em pedaços longitudinalmente até que ela estava em pequenos pedaços de confetes, não muito diferente dos confetes que choveram acima das cabeças dela e de Hallbjorn na Capela do Luv. Ela abriu as mãos e deixou a brisa pegar os pedaços e leválos para longe. Os pedaços foram levados sobre os carros, rodaram nas copas das árvores, e moveram-se em torno das esquinas, para nunca mais serem vistos novamente. — Adeus, Hallbjorn — Aria murmurou, sabendo que nunca iria vê-lo novamente.


14

SOPRANDO AO VENTO Aria tinha acabado de pagar o taxista e entrar na garagem da casa de Ella quando ouviu um som de chocalho atrás dela. O Subaru estava subindo na garagem com Byron ao volante. Meredith estava sentada no banco do passageiro da frente e Mike na parte de trás. Quando ele viu Aria, ele acenou. Demorou um momento para Aria acenar de volta. Os dias haviam escapado dela. Ela tinha esquecido que Byron e Mike estavam retornando da viagem do Solstício esta tarde. Byron notou Aria na garagem, desligou o carro e saiu. — Onde você estava? Estou tentando ligar para você por horas. — Uh, eu estava dando um passeio de bicicleta — Aria respondeu, dizendo a primeira coisa que lhe veio à mente. Byron olhou para a bicicleta de Aria, que estava escondida atrás de alguns pneus velhos e sacos plásticos pretos cheios de roupas significativas da Goodwill. Era uma mentira óbvia, mas Aria estava cansada demais para se explicar. — Byron? — Meredith abriu a porta do carro. — Seria estranho se eu usasse o banheiro daqui? Se eu não fizer xixi eu vou explodir. Byron olhou para Aria pedindo permissão, e ela encolheu os ombros e fez um gesto em direção à porta que dava para a casa — a última coisa que ela queria ver era Meredith explodindo. Meredith passou acotovelando dando passos estreitos e atrapalhados e praticamente mergulhou de cabeça no banheiro. O resto deles conduziu para dentro, também. Byron ficou na lavanderia, parecendo um pouco hesitante por entrar em sua antiga casa. Mike, por outro lado, movimentou-se para a cozinha e abriu o refrigerador. — Não tem comida — lamentou. — O que você comeu toda a semana, Aria? E por que está tão frio aqui? — Está frio aqui. — Byron atravessou a cozinha e olhou para o termostato. — Faltou energia? Aria pendurou o casaco em um gancho perto da máquina de lavar para que ela não tivesse que olhar para o pai dela nos olhos. — Eu só reduzi o aquecimento por alguns dias. Eu estava tentando economizar eletricidade. — Essa é uma causa muito nobre, especialmente durante o tempo do Solstício. — Um olhar arrependido caiu sobre as feições de Byron. — Foi realmente muito ruim você ter perdido a nossa celebração, Aria. Fizemos os passeios de natureza mais surpreendentes. E queimar a lenha foi realmente mágico. Um monte de outros convidados participaram das festividades, e todos nós realmente nos unimos. Mike, que estava bebendo suco de laranja da caixa, soltou um cruzamento entre um estrangulamento e uma tosse. Aria chamou sua atenção, e ele fez uma cara de dor. — É claro que eu queria que Mike tivesse passado mais tempo ao ar livre com a gente, em vez de ver televisão. — Byron olhou para seu filho e balançou a cabeça. — Mas então eu teria perdido a maior história de todas! — Mike colocou a embalagem do suco na ilha, ligou a pequena TV no canto, e mudou para o canal CNN. — Você ouviu sobre isso, Aria? As panteras?


Aria passou a língua sobre os dentes. — Uh, não — esperando que ela soasse convincente. — Olha só. — Mike apontou para a tela. Havia uma foto do lobby do Borgata. Carros da polícia estavam estacionados sob a garagem coberta. Biedermeister e Bitschi pairavam nervosamente perto do bar, conversando em seus celulares. As panteras ainda estão à solta, um banner dizia na parte inferior. — Umas panteras se soltaram em Atlantic City — explicou Mike. — Está causando este pânico em massa. — Oh, que loucura — Aria disse uniformemente, como se esta fosse a primeira vez que ela estivesse ouvindo isso. Meredith apareceu na porta da cozinha e olhou para a tela. — Uch, Mike, desliga isso. É terrível. — Você está brincando? — Mike se moveu ainda mais para perto da TV. — Esta é a coisa mais louca que já vi em um longo tempo! Aparentemente uma apareceu em um clube de strip. — Ele sorriu vigorosamente. — Eu poderia ter salvado as strippers. Uma som de notícias de última hora apareceu na tela. A câmera virou para longe da repórter e focou em um cara loiro algemado. Quando o cinegrafista deu zoom em seu rosto, Aria quase gritou. Era Hallbjorn. Seus olhos estavam selvagens, ele estava se debatendo para trás e para frente, e ele estava gritando algo sobre os sons das sirenes da polícia e dos repórteres. — Essas panteras merecem ser livres! Elas estavam sendo atormentadas nestas gaiolas! Apoiem os direitos das panteras! Meredith arrastou-se mais para perto do televisor. — É esse o cara que fez isso? — Ele parece um psicopata — disse Mike. Byron olhou para a tela. — Sou eu, ou ele parece familiar? Aria apertou os lábios, com medo de que ela fosse vomitar. Os policiais empurraram Hallbjorn para dentro de um carro da polícia. A voz da repórter soou. — A polícia apreendeu o autoproclamado eco-terrorista hoje, depois que ele tentou fugir em uma bicicleta — explicou ela. — Segundo palavras dele, ele pensou que as panteras estavam ‚oprimidas‛ e ‚não podiam viver fora de uma existência natural de uma pantera‛. — Existência natural de uma pantera. — Mike riu. — Eu juro que eu o vi em algum lugar. — Byron olhou para a tela. A cabeça de Hallbjorn estava para fora da janela do carro. — Panteras têm alma, também! — Ele gritou, agitando os braços ao redor. Seu nome apareceu na parte inferior da imagem. Hallbjorn Gunterson, eco-terrorista, dizia em grandes letras amarelas. Byron coçou o queixo. — É um nome islandês. O repórter apareceu na câmera. — Nós estamos apenas começando a obter detalhes sobre o Sr. Gunterson. Ele só chegou no país há poucos dias, fugindo da custódia da polícia, na Islândia. Ele é procurado lá porque ele tentou explodir um escritório de uma empresa de demolição que foi contratada para derrubar uma reserva de aves marítimas na Islândia. — O quê? — Aria exclamou em voz alta. Todos se viraram para olhar para ela, e ela deu de ombros timidamente para encobrir a reação dela. Hallbjorn certamente tinha omitido esses detalhes. De repente, toda a sua tristeza e nostalgia desapareceu. Hallbjorn realmente era um lunático. Mike colocou a mão em seu queixo. — Na verdade, você não namorou com alguém na Islândia chamado Hallbjorn, Aria? — Uh, sim. — Aria enrolou uma mecha do seu cabelo em torno de seu dedo. — Mas é um nome muito comum. — É mesmo? — Mike parecia cético.


— É claro que é. — Aria jogou o cabelo sobre o ombro e caminhou para fora da cozinha. De nenhuma maneira ela ia assistir mais um minuto do noticiário sem acabar revelando seu segredo. E isso, ela decidiu, estava absolutamente fora de questão. Era como aquela questão da árvore que cai na floresta: Se ninguém sabia que Aria se casou, se ninguém viu, então, nunca tinha acontecido. Ela conseguiu anular o casamento antes de ser registrado por todos os registros permanentes. Ninguém seria capaz de rastrear Hallbjorn até ela. A única prova real que Aria tinha deixado de que o casamento tinha ocorrido era o anel de cobra. Ela o sentiu em seu bolso enquanto subia as escadas. Alguma casa de penhores iria comprá-lo. Ela iria a próxima semana à Filadélfia, iria a um bairro onde ela definitivamente não seria reconhecida, e se livraria dele de uma vez por todas. E quanto ao dinheiro que ela ia ganhar, talvez ela desse para o pobre garoto que tinha ficado preso por uma das panteras sob o calçadão. Ou para as strippers que haviam corrido para fora do clube seminuas porque uma pantera tinha ficado à solta lá dentro. Ou talvez ela usasse para tirar férias de verdade durante as férias de primavera. Mas não importa o quê, isso era algo que ela nunca teria que pensar novamente. Ninguém sabia, afinal de contas, e ela estava planejando manter isso assim para sempre.


UM NATAL MUITO CASADO Leões, tigres e panteras prateadas, ai! Os felinos de estimação de Biedermeister e Bitschi não eram as únicas coisas perigosas correndo por Atlantic City. Aria acha que as únicas testemunhas do seu casamento e da anulação foram algumas pessoas de aparência similares a celebridades e uma oficial da corte judicial mal-humorada, mas eu estive na primeira fila durante todo o caso. E, ao contrário do estado de Nova Jersey, eu não vou fingir que isso nunca aconteceu — especialmente quando eu descobri taaaaanto sobre o casal infeliz. Como... enquanto Hallbjorn pode saber como detonar um explosivo, Aria foi a única que estava com o botão de autodestruição. Ela destrói tudo o que toca: a carreira de Ezra. O casamento de seus pais. Seus próprios relacionamentos. No entanto, para alguém tão facilmente queimada, Aria continua brincando com fogo — ela entra e sai de um romance mais rápido do que você pode dizer ‚aceito‛. — Eu só posso imaginar que a sua próxima relação será com — outro artista, outro menino típico de Rosewood? — e como ela vai acabar. A menos, é claro, que eu acabe por ela. Este é o problema com essas meninas artísticas. Elas tratam a vida como uma tela em branco, pintando sobre seus erros e nunca aprendendo com eles. Cada cara novo, cada nova cidade é simplesmente uma oportunidade para experimentar uma nova personalidade. Mas se mudar para a Islândia não juntou uma família separada, o tingimento de um vestido de casamento vintage de verde-limão não significa que ele seja um novo e fabuloso vestido de baile, e nada, absolutamente nada, livra Aria e suas amigas das enrascadas em que elas se meteram. A lua de mel acabou, Aria. E a realidade é uma droga. Isso é algo que Spencer tem de descobrir, também. Ela ainda espera que ela possa começar de novo com sua família danificada. Mas não se preocupem, meus lindos. Spencer está prestes a aprender que nem todos merecem — ou tem — um feliz Ano Novo...

—A

K


PEQUENOS SEGREDOS DE SPENCER


1

FRIEZA PROFUNDA NO SOL QUENTE DA FLÓRIDA No dia depois do Natal, Spencer Hastings estava sentada espremida em um assento de couro estreito de um avião particular, enquanto ele aterrissava no aeroporto de Longboat Key, na Flórida. Pela janela, ela observava o calor se elevar do asfalto, fazendo as palmeiras parecerem que estavam balançando e brilhando. O sol batia impiedosamente sobre os controladores de tráfego, que usavam camisetas, shorts e óculos escuros. Era uma grande mudança do clima -8 graus e dois metros de neve em Rosewood. Spencer não conseguia pensar em uma ocasião melhor para tirar férias na casa de praia da Nana Hastings na Flórida — embora, como sua família estava, como de costume, mal falando com ela, ela poderia pensar em outros grupos bem melhores para viajar. A mãe de Spencer, que estava sentada mais acima do corredor e estava usando o seu uniforme de voo necessário, um casaco moletom com capuz de caxemira e calças de yoga, levantou a máscara de dormir de cetim dos seus olhos. — Peter, você se lembrou de alugar um carro? O pai de Spencer parou de digitar em seu celular Android e soltou uma baforada exasperada de ar. — É claro que sim. Eu aluguei um SUV Mercedes. — Um G-classe? — Não. — Ele se levantou e tirou a bolsa de todo mundo do compartimento de bagagem. — O ML350. A mãe de Spencer fez uma careta. — Mas o G550 tem mais espaço para as pernas. — Veronica, tudo na Longboat Key é perto, nem sequer precisa de um carro. — Ele deixou cair a bolsa da mãe de Spencer tamanho viagem Louis Vuitton na cadeira vazia ao seu lado. O piloto interrompeu, dizendo à família que eles tinham aterrissado — dã — e que Gina, a comissária de bordo, iria abrir a porta para que eles pudessem desembarcar. Spencer saiu aliviada do corredor atrás dos seus pais. Sua irmã, Melissa, entrou na fila atrás dela, mantendo a cabeça baixa e seu fone de ouvido do iPod em cada orelha. Ela não tinha dito uma palavra durante todo o voo, o que era estranho, normalmente, ela não calava a boca sobre a casa da cidade que ela estava reformando, como ela estava indo na Faculdade de Administração de Negócios da Universidade da Pensilvânia, ou o quão geralmente fabulosa ela era. Spencer sabia a razão do silêncio de Melissa. Um mês e meio atrás, o namorado de Melissa, Ian Thomas, havia sido preso por assassinar a antiga melhor amiga de Spencer, Alison DiLaurentis. Aparentemente, Ian e Ali tinham sido amantes secretos; Ali tinha chantageado Ian dizendo que ia expor o relacionamento deles, e Ian a tinha matado por raiva. Como os namorados de Melissa geralmente eram sangues azuis preparados para serem sócios do escritório de advocacia do pai dela ou se tornar o próximo senador do estado, as circunstâncias de Ian representavam um pouco de humilhação. Melissa não acreditava que Ian realmente tinha feito isso, mas não importava. O resto de Rosewood tinha certeza.


A situação tornou-se ainda mais complicada pelo fato de Spencer ter entregado Ian para a polícia — ela tinha lembrado de ter visto ele na noite que Ali desapareceu. Desde o mês que Ian tinha sido preso, Melissa tinha sido ultra fria com Spencer — uma façanha impressionante, considerando que as irmãs nunca tiveram um bom relacionamento antes disso. Ao longo dos últimos meses, as coisas tinham ido de mal a pior: Elas brigaram ferozmente por um garoto, elas lavaram a roupa suja fraterna na frente de uma terapeuta, e tinham chegado a uma discursão espantosa que terminou com Spencer acidentalmente empurrando Melissa das escadas. Sem mencionar que Spencer tinha roubado o trabalho de economia de Melissa e alegado como dela, ganhando um concurso de redação prestigiado, o Orquídea Dourada, como resultado. Gina abriu a porta, e a família desceu a escada pouco segura para a pista de decolagem. O calor e a umidade da Flórida envolveram Spencer imediatamente, e ela tirou sua jaqueta North Face. A família Hastings caminhava rigidamente e silenciosamente para o terminal, seus passos sincronizados era a única indicação de que eles conheciam uns aos outros. Lá dentro, um homem uniformizado ergueu uma pequena placa que dizia HASTINGS. Ele os levou para o SUV deles, emprestado de um local de alugar automóveis. O pai de Spencer assinou alguns papéis, carregou a bagagem deles nas costas, e todo mundo entrou e fechou as portas com força. O pai de Spencer pisou no acelerador, forte o suficiente para que o corpo de Spencer fosse lançado para trás contra os bancos de couro macios. — Ugh, aqui fede a cigarro. — A mãe dela começou a abanar o ar na frente do rosto, interrompendo o silêncio. — Você não poderia ter limpado ele, Peter? O pai dela suspirou audivelmente. — Eu não sinto cheiro de nada. — Eu também não sinto cheiro de nada — Spencer se intrometeu, querendo defender o pai dela. A mãe dela vinha perturbando ele há dias. Mas ela só ganhou um olhar frio dos dois. Spencer sabia o porquê. Contra a vontade deles, ela recusou o prêmio Orquídea Dourada no mês passado, admitindo a comissão julgadora que ela tinha plagiado o trabalho da irmã. Seus pais queriam que ela ficasse quieta e simplesmente aceitasse o prêmio, mas lidar com a morte de Ali, descobrir a identidade do assassino dela, ser perseguida por Mona Vanderwaal-como-A, e quase ser empurrada de um penhasco por Mona, tinham colocado tudo em perspectiva. Spencer se encolheu no banco de trás e olhou para fora da janela quando seu pai entrou na avenida principal. Ela tinha ido à casa de Nana tantas vezes que ela podia andar por essa rua com os olhos vendados — primeiro vinha a marina, com seus enormes iates privados, então o clube de iates, que tinha uma placa elegante na frente que dizia LUAU, 28 DE DEZEMBRO ÀS 21:00, em seguida, uma ponte que levantava sempre que um barco particularmente alto passava, seguida por muitas lojas caras e restaurantes de luxo. E em todos os lugares, as mulheres exibiam chapéus de verão e óculos de sol enormes enquanto cobriam as calçadas e os pátios ao ar livre, enquanto os homens pareciam ótimos com suas roupas de golfe, seus conversíveis estacionados e seus dentes clareados. O Sr. Hastings parou em um condomínio fechado onde Nana Hastings vivia. Um guarda com a pele bronzeada e seca usando um uniforme de poliéster checou o nome deles em uma prancheta e acenou para eles passarem. Depois de passar um campo de golfe verde e brilhante, múltiplas piscinas em que Spencer tinha passado muitas horas nadando, uma área comercial privada e um spa de classe mundial, eles viraram na Sand Dune Drive e se aproximaram do complexo branco e enorme que parecia uma mistura entre a Casa Branca e o castelo da Cinderela da Disney World. Colunas dóricas


ladeavam a fachada frontal. Havia terraços alinhados nas laterais e na parte traseira. Uma torre alta que se projetava para o céu. O quintal era elegantemente paisagístico, nenhuma única flor estava nada menos do que ajeitada perfeitamente. Quando o pai de Spencer abriu a porta do carro, ela pôde ouvir o rugido do oceano. Ele caminhou até a parte de trás da casa; um terraço privado, e olhou para a praia. — Agora, é disso que eu gosto. — O Sr. Hastings pôs as mãos nos quadris, arqueou as costas um pouco e olhou para o céu azul brilhante. Eles destrancaram a porta da frente e deixaram suas malas no hall de entrada, criando uma fortaleza de bagagem. A casa cheirava a cera de piso cara, um pouco a praia e amaciante de roupa de lavanda. Ela era absolutamente silenciosa dentro, e Spencer estava prestes a perguntar onde Nana estava antes de se lembrar que ela tinha ido para Gstaad, na Suíça, com seu namorado novo, Lawrence, ontem de manhã. Nana Hastings não estava realmente interagindo com a família dela — ela raramente estava por perto quando eles a visitavam. Ela, em particular, nunca tinha ligado para Spencer. Deve ser genético. Spencer carregou as malas pela limpa escada estilo espiral para o quarto que ela sempre se hospedava, que era inundado pela luz solar, tinha um alegre papel de parede listrado amarelo e branco, um tapete branco macio e uma cama de ferro antiga. O quarto tinha um cheiro de trancado, como se ninguém tivesse estado aqui por um longo tempo. Ela ergueu a bolsa, abriu o zíper e começou a tirar ordenadamente seu guardaroupa de verão — vestidos brilhantes, calças de cintura alta azul marinho e camisetas pólo apertadas, e os redobrou e os colocou em gavetas vazias. Ela pegou sua caixa de joias de viagem, e então ficou na frente da cômoda branca e brilhante, pronta para alinhar seus colares e anéis na caixa de joias antiga de madeira da sua avó que há muito tempo não usava. Ela abriu, notando um par esplêndido de brincos com o formato de candelabro na prateleira de cima. Ela engasgou quando os levantou, os reconhecendo instantaneamente. Ela tinha deixado aqui na última vez que ela veio, que tinha sido no fim de semana do Memorial Day na sétima série. Mas os brincos não eram dela — eles eram de Ali. A família de Ali também tinha uma casa aqui, do outro lado do lago artificial, e ela e Spencer tinham dividido o tempo entre as duas casas, deitado na areia, compartilhado roupas, bebido da garrafa de Dewar dos pais de Spencer e flertado com os meninos da cidade. Ali havia emprestado a Spencer esses brincos na noite em que ela tinha sido convidada para uma festa em uma casa a algumas ruas da casa de Nana Hastings. Spencer começou uma conversa com um cara chamado Chad que tinha saído com Melissa num feriado, depois de um tempo, ela sentiu os olhos de Ali sobre ela. — Você está realmente agindo como uma vadia — Ali tinha sussurrado maldosamente quando Chad se virou. — Não foi suficiente você já ter ficado com um dos namorados da sua irmã? Ali estava se referindo a Spencer ter beijado Ian Thomas pelas costas de Melissa algumas semanas antes. Mas Spencer não queria ficar com Chad — ela estava apenas conversando com ele. Ela e Ali tiveram uma briga séria e elas não se falaram pelo resto das férias. Ali começou a sair com algumas garotas mais velhas da cidade e sempre ria exageradamente quando Spencer passava. E Spencer vagava sozinha, orgulhosa demais para pedir desculpas. Agora, ela se sentou na cama e embalou os brincos nas mãos. Ela deveria ter se desculpado. Se ela soubesse que Ali estava ficando com Ian — que foi por isso que ela estava tão estranha por Spencer ter beijado ele. Talvez ela pudesse, de alguma forma, manter Ali longe de Ian. Talvez ela pudesse ter evitado o assassinato de Ali.


Colocando os brincos no criado-mudo, Spencer se levantou, vestiu um short, um top macio American Apparel e sandálias Havaianas, e desceu as escadas. Um cheiro adocicado flutuava da cozinha de azulejos brancos. — Olá? — Spencer gritou, olhando ao redor. Sua voz ecoou por todo o primeiro andar vazio. Ela ouviu vozes no pátio e olhou pela porta de vidro corrediça. Sua família estava sentada na mesa de teca com vista para a piscina e para o mar, havia tigelas de batatas fritas e nozes, uma prateleira de mármore contendo vários queijos e uma garrafa de vinho branco sobre a mesa. Spencer sentiu água na boca. O oceano rugiu alto quando ela abriu a porta do pátio bem no meio de um gesto irritado da mãe dela. Melissa parecia ter comido uma ameixa azeda, mas Melissa sempre parecia ter comido uma ameixa azeda. Spencer olhou para o pai, que estava mexendo no iPad que elas tinham dado a ele no Natal, provavelmente jogando Angry Birds. Só fazia um dia que ele tinha ganhado e já estava viciado. Ela arrastou outra cadeira da mesa, assim que Melissa colocou uma fatia de queijo cheddar envelhecido em sua boca. — Mãe, você quer um pouco de queijo? Está muito bom — Melissa perguntou. — O que eu quero, Melissa, é que o seu pai guarde o brinquedinho dele e converse com a gente ao menos uma vez — a mãe dela falou irritada. Spencer congelou. Melissa parecia ter levado um tapa. A mãe delas geralmente reservava esse tom para Spencer. O pai dela só suspirou e continuou tocando na tela. — Ei, que tal alugar um filme essa noite? — Spencer sugeriu, tentando aliviar a tensão. — Um filme seria bom — Melissa concordou. — Boa ideia, Spencer. Spencer olhou para Melissa com os olhos arregalados, sem saber como responder. Melissa já tinha usado a palavra boa em qualquer tipo de coisa relacionada a Spencer? Mas então a mãe dela bufou, como se pensar em uma noite de cinema em família fosse estranho, e que Spencer fosse idiota por ter sugerido isso. A família voltou ao silêncio, e os pais dela, armados atrás de suas fortalezas invisíveis, se envolveram na própria raiva privada deles. Spencer abafou um suspiro. Depois de tudo o que tinha acontecido nesse outono — Ali, Ian, até mesmo A — Spencer esperava passar os próximos dias tomando sol, fazendo tratamentos no spa e conquistando sua família. E então, quando ela voltasse para Rosewood no segundo semestre, ela se sentiria restaurada e rejuvenescida. Mas, com a III Guerra Mundial acontecendo na casa de praia da Nana Hastings, ela teria sorte se tivesse alguma paz.


2

GAROTOS BONITOS FAZEM TUDO FICAR MELHOR Na manhã seguinte, Spencer emergiu do mar, cambaleou até a toalha e espremeu o cabelo molhado. Ela deitou-se e fechou os olhos, deixando o sol aquecer seus ombros, se perguntando o que ela deveria fazer depois. Ela supôs que poderia começar a ler The Sun Also Rises, ela tinha que escrever um artigo para Inglês sobre ele. Ou ela poderia correr — correr na praia sempre lhe deixava com a panturrilha definida. Uma sombra passou por cima dela, e ela abriu os olhos. — Oi. — Melissa estava ao lado de Spencer, sua mão sombreando os olhos por causa do sol. — Oi — Spencer disse cautelosamente. Claro que elas tinham compartilhado um olhar na mesa na noite passada, mas Spencer não conseguia se lembrar da última vez que Melissa tinha voluntariamente falado com ela. — Então, a mamãe e o papai estão, tipo, fora de controle, não é? — Melissa disse, sentando ao lado de Spencer. Ela pegou um punhado de areia e despejou-o sobre os dedos dos pés. — Eles não estão sempre? — Spencer perguntou, tomando um gole de água da garrafa Nalgene. Eram apenas dez horas, e já estava com 26 graus e a umidade de ar era de 26%. — Bem, eles não costumavam descontar em mim — Melissa apontou. Spencer revirou os olhos, mas ela tinha que admitir que era verdade. Seus pais pensavam que Melissa era perfeita em todos os sentidos. — Eu estava pensando — disse Melissa, brincando com uma concha rosa de pérola — que, se vamos ter alguma diversão nessas férias, vai ter que ser uma com a outra. Spencer sentou-se ereta, atordoada. — Você quer sair? — ela perguntou cética. — Comigo? — Não fique tão chocada. Com quem mais eu iria sair por aqui? — Melissa perguntou. Uma onda passou tão longe da margem da praia que a água bateu na borda da toalha de Spencer. Ela empurrou os óculos para cima na testa e analisou sua irmã. — Eu pensei que você me odiasse por entregar Ian para a polícia. — Olha, eu não acho que você esteja certa... — Ela abriu a boca como se estivesse prestes a dizer mais alguma coisa, mas mudou de ideia. — Tanto faz. O principal é, eu preciso de uma distração para não pensar nisso, e você é tudo o que eu tenho. — Nossa, obrigada — disse Spencer ironicamente. Melissa deu uma cotovelada nela. — Não seja tão sensível. Você sabe que também está entediada — disse ela, ficando de pé e tirando a areia de suas pernas. — Quer ir para o clube comigo? Nós poderíamos ter um dia de spa. Spencer hesitou. Um homem com um cachorro labrador passou correndo, e mais embaixo na costa, duas garotas do ensino fundamental estavam tendo dificuldade em construir um castelo de areia. Melissa estava certa. Spencer estava sozinha. E se Melissa


estava pronta para fazer as pazes — por algumas horas pelo menos — talvez Spencer devesse dar a ela uma chance. — Hum, ok. — Spencer se vestiu apressadamente e enfiou a toalha em sua bolsa. Juntas, elas começaram a caminhar pela areia, decidindo caminhar pela avenida para o clube. Havia um monte de gente ali, e todas as portas das lojas estavam escancaradas, o ar condicionado a todo vapor. Toda loja era uma viagem pela estrada da memória: Samantha, a boutique onde Spencer tinha comprado um vestido para a festa de aniversário dela na quinta série. Melissa apontou a loja de doces onde as irmãs participaram de uma competição de comer quando Spencer tinha oito anos — Melissa tinha vencido, é claro. Ali estava a loja em que o pai de Spencer tinha comprado uma prancha enorme e tinha tentado aprender a surfar sozinho. Ele passou a semana remando sem sucesso nas ondas, com muito medo de pegar alguma. Ela estava olhando para as camisas Quiksilver e chapéus Billabong pela janela de uma loja de surf, quando de repente uma pessoa passou por trás dela. Quando ela se virou, alguém se escondeu em uma esquina. Seu estômago revirou. — Você está bem? — Melissa perguntou com um olhar preocupado no rosto. — Sim — disse Spencer, forçando sua voz para permanecer estável. Era difícil afastar a sensação de que alguém a estava seguindo. Dando algumas respirações quentes profundas, ela se lembrou de que Mona estava morta. A estava morta. Depois de aceitar uma amostra de doce da Ye Olde Saltwater Taffy Emporium e comprar café com leite gelado na Blue Dog Pancake House, Spencer e Melissa caminharam até o clube Longboat Key, um belíssimo prédio branco à beira da baía. Vinte carros de golfe estavam estacionados nas áreas da frente. Os caras usavam camisas pólo e shorts cáqui com mochilas de golfe nos ombros e mulheres usavam viseiras e fofocavam em grupo. As irmãs seguiram os thwocks altos das bolas que batiam nas raquetes nas quadras de tênis. Cartazes anunciando um próximo torneio no dia do Ano Novo estavam pregados nas cercas, e dois rapazes estavam envolvidos em um jogo acirrado. Ambos estavam vestidos com camisas brancas e shorts — o clube era tão rigoroso como Wimbledon, evitando equipamentos de tênis coloridos — e pareciam estar em seus vinte e poucos anos. Um cara de cabelos escuros e rosto anguloso, membros definidos e uma bunda firme, era claramente o mais talentoso dos dois, fazendo pegadas impressionantes e tacadas nas transversais da quadra. Uma multidão de meninas se reunira na quadra, suas cabeças indo de um lado para o outro com a bola amarela fluorescente. — Você sabia que Colin é o nonagésimo segundo melhor do mundo? — Uma menina que usava um vestido de algodão Lacoste e sandálias de fita de gorgorão sussurrou para a amiga, que usava um vestido igualmente curto e altíssimos saltos plataforma. — Ele me disse. — Ele me disse que vai jogar no torneio de Ano Novo — Salto Plataforma respondeu. Vestido Lacoste revirou os olhos. — É claro que ele vai jogar no torneio! Ele vai arrebentar! Spencer se encostou contra a cerca de arame ao lado de Melissa, resistindo à vontade de revirar os olhos. Fanáticas são tão idiotas. Mas Colin, o cara com a bunda bonita, era divertido de assistir, especialmente porque ele destruía seu adversário. Seu saque era extremamente rápido, a bola passava no rosto do outro jogador antes mesmo que ele tivesse a chance de reagir. Toda vez que


ele marcava um ponto, ele girava sua raquete de tênis e fingia não estar satisfeito consigo mesmo, mas Spencer percebia que ele estava rindo por dentro. — Eu vou entrar e conferir as opções do spa — disse Melissa, se abanando. — Está afim de uma manicure e pedicure? — Claro — disse Spencer distraidamente, mantendo os olhos na partida. — Eu te encontro no spa daqui a pouco. Quando o jogo terminou — um completo massacre — Colin e seu amigo apertaram as mãos, caminharam até a linha secundária, engoliram duas garrafas de algo chamado AminoSpa água vitamínica, e tiraram a camisa. Spencer friamente olhou suas cutículas, não querendo olhar muito explicitamente para o abdome absolutamente perfeito de Colin. Definitivamente ele era gostoso, talvez até mais gostoso do que Wren, o garoto que Spencer havia roubado de Melissa no segundo semestre desse ano. Se ele não fosse tão assediado pelas fãs, ele poderia ser a aventura de férias de inverno perfeita. Fazia séculos que Spencer tinha ficado entusiasmada por um cara. — Ei, Colin — Vestido Lacoste falou com ternura, enrolando uma mecha de cabelo loiro em torno do dedo. — Foi uma partida de tênis incrível. — Você é muuuito bom — outra menina falou lentamente. — Você pratica a cada minuto do dia? — Quase. — Colin limpou o suor do rosto e abriu outra garrafa de AminoSpa. — Meu treinador está aqui por causa do inverno, às vezes nós jogamos com os profissionais. Outro dia eu vi Andy Roddick nas quadras. As meninas cutucaram umas as outras. — Que incrível — disse uma delas. — A Nike deveria patrocinar você. Colin apenas sorriu. Ele terminou de colocar seus equipamentos de tênis em uma grande mochila da Adidas verde-limão e caminhou na direção do clube. De repente, ele parou e olhou diretamente para Spencer. Ela podia sentir seus olhos perfurarem o topo de sua cabeça, enquanto ela fingia esticar um amassado de sua saída de banho. — Olá. Todas as cabeças das meninas também se viraram para Spencer. — Oi — ela respondeu, olhando para cima e tentando permanecer equilibrada e confiante. Colin deu alguns passos em direção a ela. — Você é um novo membro da minha torcida? Spencer inclinou a cabeça. — Eu realmente não faço seções de torcida, a menos que eu seja a atleta que está sendo aplaudida. Mas talvez eu pudesse fazer uma exceção. As fanáticas começaram a empurrar umas as outras. — Quem é essa? — Uma delas sussurrou. — Eu aposto que ela não é um membro do clube. — Saltos Plataforma não se preocupou em baixar a voz. Spencer olhou para elas, e todas as fanáticas desviaram os olhos. De repente, ela lembrou dos seus pais. Excluindo ela. Agindo como se ela não fosse bem-vinda. Agindo como se ela não fosse boa o suficiente para estar aqui. Ela se virou para Colin novamente. — Como eu disse, eu prefiro jogar do que torcer. O que eu preferiria fazer era jogar uma partida com você algum dia. Se você precisar de uma parceira. Colin levantou uma sobrancelha. — Você joga? Spencer jogou o cabelo sobre o ombro. — É claro que eu jogo. — Os pais dela fizeram ela ter aulas desde que ela tinha quatro anos. Colin inclinou-se para trás e olhou-a atenciosamente. Depois de cinco longos segundos, ele olhou para baixo e tirou um BlackBerry da bolsa. — Então ok. Qual é o seu nome?


Spencer disse a ele, e as meninas começaram a sussurrar novamente. — Vamos jogar essa noite — Colin decidiu, clicando em algo em seu celular. Ele não se preocupou em dar a Spencer seu nome. Ele provavelmente supôs que ela já sabia. Ele estava certo, e ela gostava da confiança dele. Spencer fingiu verificar sua agenda mentalmente. — Eu acho que eu poderia arranjar isso. — Bom. — Colin jogou a garrafa vazia de AminoSpa direto na lata de lixo. — Vejo você essa noite às cinco e meia. Mesma quadra. O vencedor paga as bebidas. Spencer reprimiu um sorriso e colocou os óculos escuros de volta nos olhos. Eles tinham acabado de marcar um encontro? E ele supôs que ela tinha idade suficiente para beber. Bingo. Colin atirou uma piscadela e se afastou. Spencer estava morrendo de vontade de vê-lo subir as escadas e ir em direção ao vestiário, mas ela se conteve, não querendo parecer ansiosa demais. Quando ela se virou para a porta, ela ficou cara-a-cara com as fanáticas de Colin, que ainda estavam olhando para ela. Ela olhou-as nos olhos. — Algum problema? As meninas se encolheram. Suas bocas se abriram formando Os. — Eu acho que não — disse Spencer despreocupadamente. Ela levantou mais a bolsa em seu ombro e saiu da quadra para encontrar com Melissa no spa. Ela podia sentir os olhares delas em suas costas enquanto ela caminhava pela calçada. O sol parecia mais brilhante, o ar mais perfumado, e quando ela olhou para o céu azul, ela viu uma nuvem flutuando que formava um coração quase perfeito. Ela tinha um encontro de tênis com um cara gostoso, e ela já sabia qual seria a pontuação: amor — amor.


3

ALGUMAS GAROTAS TÊM TANTA SORTE Smack. Spencer não podia deixar de observar com admiração como seu saque arqueava pelo ar frio da noite, formando um caminho perfeito sobre a rede como uma estrela cadente. Quando Colin levantou sua raquete preparada para se encontrar com a bola, porém, ela voltou sua atenção para coisas mais importantes — ou seja, a forma que um pedaço de pele bronzeada e firme saía pelo cós da cueca quando ele se virava para fazer seu saque. Ela soltou um suspirou profundo quando o golpe dele, que parecia tão poderoso e direcionado no lado da quadra dela, encontrou a bola em um ângulo errado e fraco, fazendo seu saque cair fora dos limites. Ela escondeu um sorriso. Colin estava claramente deixando ela ganhar. — Bom trabalho, Spencer — Colin bufou, colocando sua raquete na case e dandolhe um sorriso. Ela podia sentir ele olhando-a de cima a baixo quando ela se aproximou da rede, pronta para apertar a mão dele, e ficou feliz por ter vestido sua saia mais curta de tênis e regata mais apertada. — Você também — ela murmurou, estendendo a mão para ele. As palmas das mãos deles se encontraram, e Colin agarrou a mão dela em um aperto muito longo. Tinha que ser intencional. — Você não estava brincando, você é boa — ele acrescentou, ainda respirando ofegante. Ela abaixou a cabeça e sorriu. — Meus pais insistiam para eu ter aulas desde quando eu era criança. Minha irmã e eu começamos a jogar em torneios quando ainda estávamos no ensino médio! — Ela puxou o elástico do cabelo e esperava que a luz capturasse o brilho dele quando ela o deixou cair sobre os ombros. — E você? Como se meteu nisso? — Whoa — ele riu. De perto, ela percebeu o quão esculpidas suas maçãs do rosto eram, e ele tinha uma covinha minúscula em sua bochecha esquerda quando sorria. — Essa é uma conversa muito complicada para termos em um campo de tênis. Você está com fome? — Morrendo de fome — ela admitiu. — Bem, então, é uma sorte que eu trouxe um pequeno piquenique para nós. — Seus olhos brilharam quando ele a levou para um montinho de grama no lado sul das quadras e estirou uma toalha. Spencer respirou profundamente, inspirando um pequeno traço de perfume cheiroso de Colin. Misturado com o ar salgado e o cheiro de peixe grelhado e bife que vinha do restaurante do outro lado do pátio. Colin enfiou a mão na bolsa e tirou duas saladas de frutas prontas, um prato de queijo plastificado e duas garrafas de AminoSpa. Ele colocou um palito exatamente no centro de cada queijo quadrado, em seguida, ajeitou as AminoSpas lado a lado, as etiquetas na mesma posição.


Spencer riu. — Você tem TOC tanto quanto eu — disse ela, apontando para o prato meticuloso. — Culpado. Eu organizo minhas camisas pólo de tênis por cor — Colin disse com um sorriso tímido. — Acho que é uma coisa de atleta. Gosto das manias de Nadal antes de jogar ou de Sharapova não poder pisar nas linhas da quadra quando a bola não está em jogo. — Um pequeno jeito de manter controle em uma situação tensa, eu acho — disse Spencer, pensando em como organização sempre fazia ela se sentir calma em momentos de estresse. Ela tirou a tampa da bebida AminoSpa, tomou um longo gole e sentiu vontade de vomitar. — Que coisa é essa? — O gosto era de toranja em decomposição. — É cheia de vitaminas. — Colin apontou para a informação nutricional na parte de trás. — Eu juro que me torna um jogador mais forte. Um cara estava tentando me convencer a vender essa coisa aí eu mesmo, ele disse que eu poderia facilmente vender aos meus companheiros de tênis e treinador, mas eu disse a ele que estou ocupado demais para assumir quaisquer responsabilidades. — Então é verdade o que as suas fanáticas disseram? Você está realmente treinando para ser profissional? Colin assentiu modestamente. — Bem, meu treinador acha que eu tenho uma boa chance de conseguir uma vaga no US Open desse ano. Eu tenho um torneio chegando no final dessa semana, e eu já me matriculei em muito mais, também. Eu tenho que subir minha classificação. Eu quero entrar no top 50. Spencer ficou impressionada. — Então você mora aqui em Longboat Key? Ou você está aqui apenas para treinar? Colin colocou uma uva na boca e sorriu maliciosamente. — Se continuarmos a falar de mim, como eu vou saber mais sobre você? De onde é que a menina misteriosa com ótimas habilidades de tênis vem? Spencer empurrou uma mecha de cabelo atrás da orelha com suas unhas recémfeitas — ela e Melissa passaram uma tarde divertida, porém um pouco estranha no spa — excitada que ele estivesse tão curioso sobre ela como ela estava com ele. — Bem, eu certamente não sou uma jogadora de tênis profissional ou qualquer coisa tão excitante quanto isso. Eu moro perto da Filadélfia. Eu estou ficando na grande casa branca no final da Sand Dune Drive. Os olhos de Colin se arregalaram. — Você está na casa de Edith Hastings? — É. Ela é minha avó. Ele riu. — Eu ouvi dizer que ela é mal-humorada! Spencer fez uma careta. — Nana? Mal-humorada? — Sempre que ela pensava em sua avó, tudo o que ela imaginava era uma mulher carrancuda que gritava com ela por ter deixado o chão molhado quando ela saía da piscina. Colin encolheu os ombros. — Eu fui para o clube de campo uma ou duas vezes desde que cheguei aqui, e ela é uma grande frequentadora das aulas de dança de salão que eles fazem toda semana. Ela também sempre vai com um novo namorado. Os caras não se cansam dela. Eles não se cansam do dinheiro dela, Spencer pensou ironicamente. — Então, Nana é uma dançarina, hein? Eu acho que ela é muito boa para a idade dela. — Ela é incrível. — Colin piscou. — Não é de se admirar que a neta dela é deslumbrante. Spencer reprimiu um sorriso, esperando que ele não tivesse notado o rubor quente que suas palavras provocaram no corpo dela. — Então, muitos meninos te convidaram para o luau? — Colin perguntou.


O clube de iates realizava uma anual festa de véspera de Ano Novo — esse ano era um luau havaiano. Quando elas eram mais novas, Spencer e Melissa costumavam se esconder debaixo das mesas elegantemente decoradas e se maravilhar com as esculturas de gelo artisticamente esculpidas e as exibições de fogos de artifício. — Uh, ninguém — Spencer admitiu, olhando para baixo. Colin inclinou a cabeça, analisando-a por um momento. — Eu acho difícil de acreditar. Spencer não pôde deixar de corar. — Por quê? — Porque você com certeza é algo mais, Spencer Hastings. — Ele deu um tapa de brincadeira no braço dela. — E eu não estou falando apenas do seu jeito de jogar tênis! — Algo mais é uma coisa boa? — Spencer perguntou animadamente, seu cotovelo formigando onde ele tocou. — Eu diria que sim. — Então, sua expressão se tornou séria. — Com exceção da minha família, é claro. — O que você quer dizer? — perguntou Spencer. Uma coruja piou em uma árvore próxima, e o som fraco de risos flutuou vindo do restaurante do clube. — Bem, eu sou uma espécie de ovelha negra na minha família — Colin admitiu. — Eu também — Spencer confessou, abrindo seu coração para ele. — Eu sinto que estou vivendo em um episódio de Vila Sésamo ‚Uma dessas coisas não é como as outras‛. Não importa o que eu faça, eu nunca vou ser boa o suficiente para os meus pais. Colin estendeu a mão e apertou a mão dela. — Eu também não. Meu pai é tão duro comigo, especialmente quando se trata de tênis. Eu acho que é por isso que eu pratico muito. — Mas você é um jogador incrível — protestou Spencer. — O que mais ele pode querer? Colin balançou a cabeça. — Quando eu era jovem, meu pai me fazia ficar nas quadras toda vez que eu perdia uma partida. Eu tinha que fazer uma centena de jogadas antes de ir para casa jantar. — Isso é horrível! — Spencer gemeu. De repente, Colin parecia envergonhado. — Eu sinto muito. Eu não consigo acreditar que eu disse isso. Na verdade, eu nunca disse isso a ninguém, é só que... — Ele hesitou por um momento. — Eu me sinto tão confortável com você. Spencer sorriu. — Eu também me sinto muito confortável com você. Na verdade, Colin foi o primeiro cara que ela tinha se importado há muito tempo. Talvez pudesse até se transformar em algo sério. Ela se imaginou embarcando em um jato todas as tardes de sexta-feira para visitar Colin por um longo fim de semana. E talvez Colin conseguisse uma vaga no US Open ou em outro torneio de tênis importante. Ela se imaginou sentada na arquibancada com óculos grandes no rosto, um chapéu elegante de abas largas em sua cabeça. Quando as câmeras capturassem ela, os comentaristas cochichariam sobre quanta classe ela tinha e o quanto ela era bonita. Ela parece tão inteligente, também, eles acrescentariam. Tão madura. Como uma garota que realmente tem um objetivo. Eles parecem ser o casal perfeito. Dois faróis de uma Vespa piscaram do outro lado da colina — capturando o rosto de Colin em um foco de luz por um segundo — tempo suficiente para Spencer ver o quão deslumbrante eram os olhos azuis dele. De repente, o olhar de Colin deslocou para a esquerda, como se estivesse olhando através de Spencer para as quadras de tênis. Ele ficou de pé, quase derrubando o resto da água AminoSpa dela. Ela grunhiu e seguiu o olhar dele. As luzes sobre as quadras ainda estavam acesas, e uma menina de cabelos negros apareceu, usando um pequeno


vestido preto que abraçava cada curva, protegendo os olhos. — Ei, Colin! — disse ela, vindo em direção a eles. Spencer rangeu os dentes, outra fanática? Essa menina tinha olhos astutos como os de uma gata, e o corpo mais curvilíneo e magro como o de uma modelo que Spencer já tinha visto. Colin começou a ir em direção a menina. Spencer supôs que ele iria mandá-la embora, mas quando ele chegou nela, ele a recebeu com um longo beijo nos lábios. Spencer piscou com força, seu estômago se revirou. Que diab... A menina se afastou dele. — Eu vim para te dizer que eu consegui reservas essa noite na Culpeper. Eu soube que o chef é de Nova York, e ele reservou para nós a melhor mesa do lugar. Você precisa ir se limpar! Spencer se levantou e colocou a bolsa de tênis por cima do ombro, tentando manter a dignidade tanto quanto possível. — Hum, Colin? Colin olhou por cima do ombro, como se tivesse lembrado agora que Spencer estava ali. — Spencer, essa é Ramona. Minha namorada.


4

CHEIRA A ESPÍRITO DE EQUIPE Uma hora mais tarde, Spencer sentou-se na cozinha, piscando para conter as lágrimas, vergonha e humilhação da sua noite invadindo-a mais uma vez. Depois de Colin ter apresentado Spencer à namorada dele — namorada dele! — Ramona tinha cumprimentado Spencer e dito: — Colin disse que você desafiou ele para uma partida. Isso é tão fofo! Spencer tinha olhado para seu tênis deselegante e saia de tênis com aparência infantil, de repente se sentindo suada, jovem e completamente errada. — Isso mesmo — disse Colin com um sorriso tranquilo. — Spencer é uma grande jogadora. Acabamos sentados aqui conversando e se refrescando. — Ele tinha falado no mesmo tom otimista e condescendente que o pai de Spencer costumava falar com os gêmeos de cinco anos de idade que moravam na mesma rua deles, como se Spencer não tivesse sido nada além de uma criança chata implorando a ele por dicas de tênis. Ela baixou a cabeça em suas mãos. Ela tinha tido tanta certeza de que ele estava flertando com ela, certeza de que eles tinham uma conexão verdadeira. Como é que ela tinha interpretado tão mal o comportamento de Colin? A mãe de Spencer apareceu e sentou-se no assento ao lado de Spencer. Ela checou o relógio Cartier em seu pulso e soltou um suspiro de frustração. — Que horas são as nossas reservas mesmo? — perguntou Spencer. A família tinha feito arranjos para ir para a Culpeper, a mesma churrascaria que Colin e Ramona iriam essa noite. Spencer só podia torcer para que ela ficasse sentada bem longe deles. — Oito e meia — disse a mãe dela, irritada. — Nós realmente deveríamos começar a nos mexer se não quisermos perder a reserva. Eu vou matar o seu pai. — Ela digitou o número dele em seu celular novamente, mas como ela desligou alguns segundos depois, Spencer sabia que a chamada tinha ido para a caixa postal. — Ele não atendeu o dia inteiro. — Talvez ele esteja no campo de golfe. — Ele não jogou hoje. Eu liguei para o clube. — Ela pegou uma taça de vinho do armário e serviu-se de um pinot grigio. Ela tinha um olhar em seu rosto que dizia que ela estava com mau humor e deveria ser deixada em paz. Spencer saiu apressada para deixar sua mãe mau humorada em paz. Ela subiu as escadas para o segundo andar e notou que a porta de Nana, no final do corredor, estava entreaberta. Quando Spencer era pequena, ela adorava bisbilhotar no quarto de Nana, ela mantinha a incrível coleção de joias dela em uma caixa revestida de cristal na escrivaninha. E o vestido slip que Spencer estava usando precisava de algo extra. Ela entrou no quarto. A enorme cama com dossel king-size tinha toneladas de travesseiros espalhafatosos de seda empilhados. Havia uma cadeira estofada em seda no canto, e os produtos de beleza de Nana, que continham mais cremes, loções, pós, sombras e batons do que uma loja Sephora, estavam arrumados perto das janelas drapeadas. Para a decepção de Spencer, a caixa de joias, que ficava geralmente


posicionada no centro da escrivaninha, não estava lá. Ela foi até o banheiro para ver se Nana tinha colocado lá. O banheiro de Nana rivalizava com um spa. Os balcões do banheiro estavam cobertos de placas longas de mármore, uma sauna embutida estava escondida em um canto e todo o piso estava aquecido. A banheira era profunda, oval, e não tinha gancho, assento plástico ou qualquer outro apetrecho para evitar deslizamentos ou quedas — Nana era muito orgulhosa e vaidosa para esse tipo de coisa. Nana havia pendurado toalhas de veludo mais macias que o dinheiro poderia comprar, e ela ainda tinha sua própria mesa de massagem — ela recebia massagem a cada duas semanas. Spencer inspecionou sua aparência no enorme espelho dourado. Seus olhos azuis estavam arregalados. Sua pele estava clara. Seu cabelo loiro, que ela tinha lavado durante o banho de espuma pós-jogo, brilhava, e ela parecia sofisticada com o vestido elegante Tibi que ela estava usando para o jantar. Mas ela não parecia tão glamorosa quanto Ramona. Lágrimas derramaram nos olhos de Spencer. A porta do quarto rangeu, e Spencer se virou. Melissa olhou para o banheiro. — O que você está fazendo aqui? — Nada — disse Spencer rapidamente, enxugando os olhos. — Apenas olhando por aqui. Melissa se inclinou sobre o balcão, observando as bochechas e o nariz vermelhos de Spencer. — Você está bem? — Uh-huh. — Spencer fingiu estar fascinada pelos perfumes de Nana. Eles eram em sua maioria os clássicos que as senhoras da sociedade usavam: Joy, Fracas, Chanel No. 19, e uma combinação feita à mão de uma perfumaria em Paris. Mas então ela percebeu um Fantasy da Britney Spears no final da fila. Ela não conseguia imaginar Nana indo a uma farmácia e comprando ele. — Pra quê tantas escovas de dentes? — Melissa perguntou atrás dela, apontando para uma gaveta aberta. Havia mais ou menos 15 escovas de dentes dentro, cada uma delas claramente usadas. Iniciais foram escritas de preto no cabo — JL, AW, PO, e assim por diante. Spencer não viu as mesmas iniciais duas vezes. — Oh meu Deus — falou abruptamente Melissa, pegando alguma coisa. Era um pequeno frasco cheio de comprimidos azuis. A receita era de Edith Hastings, e o rótulo dizia VIAGRA. — Coloque isso de volta! — Spencer sussurrou, agarrando o frasco e jogando-o de volta à gaveta, como se Nana pudesse chegar a qualquer segundo e pegá-las no flagra. Ela fechou a gaveta rapidamente e estremeceu. — Você acha que Nana toma isso, ou você acha que é para Lawrence? — Quem sabe? — Um canto da boca de Melissa levantou. — Eu acho que Nana é mais selvagem do que pensávamos. Essa certamente condizia com a Nana Hastings namoradeira que Colin tinha descrito mais cedo. Spencer pensou nas escovas de dentes de novo. Seria possível que pertencessem aos caras diferentes que ela tinha dormido? Eca. Melissa se apoiou no balcão. — Então, o seu mau humor tem algo a ver com o cara que eu vi com você hoje mais cedo? A cabeça de Spencer se levantou rapidamente. — Como você sabe sobre isso? — Ela não tinha dito a Melissa sobre Colin durante o dia de spa delas. Elas realmente pareciam estar se dando bem, mas Spencer tinha roubado Wren, garotos era um assunto delicado para as irmãs. — Eu deixei o meu suéter no clube. Quando eu voltei para buscar ele, eu vi você jogando com o cara de tênis que vimos antes — disse Melissa. — Ouvi dizer que ele é


profissional. — Ela pegou uma escova de cabelo com cabo de prata e passou os dedos sobre as cerdas. Spencer abaixou a cabeça, envergonhada. — Não é grande coisa. Eu nem conheço ele. E ele tem namorada. — Namorada? — Melissa ecoou, cética. — Bem, não deve ser verdade se ele te convidou para um encontro — ela argumentou. — Não foi um encontro. — Ah, é? — Melissa deu a Spencer um pequeno empurrão no ombro. — Pelo que eu vi, era óbvio que ele estava flertando com você, Spence. Por que um cara iria fazer isso se ele estivesse totalmente comprometido com a namorada? Porque ele era um cafajeste? Spencer queria dizer. Mas, apesar dos seus protestos, Melissa tinha plantado uma semente de esperança em sua mente. Ela pensou de novo nos acontecimentos do dia. — Foi meio estranho ele não ter me contado sobre ela até ela aparecer. — Exatamente. Ele quer você. — Melissa limpou a garganta. — Na verdade, ele e a namorada vão à Culpeper hoje à noite — disse Spencer. Os olhos de Melissa se iluminaram. — Perfeito. Vamos ver como eles são em ação. Sinos de alerta dispararam na cabeça de Spencer. — Melissa, por que você está sendo tão boa comigo? Melissa levantou uma sobrancelha. — Eu não estou. Estou apenas apontando um fato. Ele gosta de você. Você gosta dele. A vida é curta. Você tem que pegar o que puder enquanto puder. Nunca se sabe quando o amor da sua vida, por exemplo, é levado para a cadeia. Spencer abriu a boca para se desculpar mais uma vez por mandar Ian para a cadeia. Ela não tinha feito isso para machucar a irmã dela — ela tinha feito para conseguir justiça para a amiga dela. — Mas... — ela começou. Melissa acenou com a mão. — Nada de mas. Apenas concorde comigo. Spencer olhou para a irmã em descrença, esperando ela rir e dizer a Spencer sordidamente que era tudo uma grande brincadeira — que Spencer nunca poderia ter um cara como Colin, e que Melissa ainda odiava ela, como de costume. Mas Melissa apenas continuou a olhá-la excitada. Ela empurrou o cabelo de Spencer atrás das orelhas, passou os dedos sobre cada sobrancelha e depois borrifou um jato de perfume Joy nela. — Melhor — ela julgou. — Agora vamos. Temos um casal para separar.


5

SE A COSMO DIZ, ENTÃO DEVE SER VERDADE A churrascaria Culpeper cheirava predominantemente a carne, a tigelas de ponche à disposição e a vinho tinto, em todas as paredes tinha caricaturas de celebridades que tinham visitado. A maioria delas eram jogadores famosos, cantores como Jennifer Lopez e Marc Anthony, e magnatas de negócios fumando charutos. O pai de Spencer finalmente voltou de sua excursão que durou o dia inteiro, e a família conseguiu com dificuldade banquetas. Os pais dela tiveram uma briga no estacionamento sobre onde ele tinha estado o dia inteiro, e agora eles não estavam se falando a não ser quando foram combinar o vinho. Spencer e Melissa estavam tentando ao máximo ignorar eles, procurado por Colin e Ramona. De repente, Spencer agarrou o braço de Melissa. — Lá estão eles! Melissa se virou e viu o corpo alto e musculoso de Colin passando pela porta da frente. Ele estava usando uma camisa de botão preta, calças pretas listradas e mocassins que Spencer tinha certeza que eram Prada. Ramona estava com ele, ainda usando o vestido justo preto e sexy de mais cedo. Colin disse algumas palavras para o garçom chefe, mas depois Ramona interrompeu e falou por ele. Colin franziu a testa, parecendo irritado, e Ramona revirou os olhos para ele. — Hmmm — Melissa murmurou. — Parece que tem problemas no paraíso! — Talvez — sussurrou Spencer não convencida enquanto o garçom chefe levava o casal pela sala de jantar até uma mesa perto da janela, que felizmente não era nem um pouco perto da mesa da família de Spencer. Melissa tomou um gole da taça de vinho tinto que o garçom tinha acabado de servir. — Se levanta e anda perto dele agora. Você está super sexy. — Agora? — Spencer sentiu pânico. Era um lugar tão público aqui. Os pais dela, que estavam intencionalmente olhando em duas direções diferentes, assim não teriam que falar um com o outro, poderiam ver. — Mantenha sua cabeça erguida. Diga olá para Colin, mostre seus peitos, mas continue caminhando. Não pare para conversar. Deixe ele querendo mais — Melissa instruiu. Mostre seus peitos? Melissa era a rainha das puritanas. Quando um menino havia tocado a bunda dela durante uma dança lenta na nona série, correu rumores de que ela tinha dado um tapa nele e dito ao diretor. — De onde você tirou essas coisas? — Spencer perguntou. — Da Cosmo — Melissa respondeu. — Sério? Eu pensei que você só lia a Vogue e a W. Melissa encolheu os ombros. — Ela é realmente muito útil quando se trata de coisas de homens. — Ela cutucou a coxa de Spencer. — Agora vai! Okaaay. Spencer saiu da banqueta. Ela podia sentir os olhos de Melissa em suas costas, incentivando-a a ir adiante. Na verdade, parecia meio familiar o modo que Melissa a estava ajudando. Se não fosse pelo fato de que elas estavam planejando separar um casal ao invés de planejar elaboradas festas de chá e inventar maneiras de


convencer os pais delas a deixá-las ir com suas coroas de princesas para a escola, Spencer percebeu que quase parecia como nos velhos tempos. Quando elas tinham sido irmãs de verdade. Spencer avançou até Colin e Ramona, ajeitando os sapatos. — Eu acho que nós deveríamos ter uma aula de velejar amanhã — Colin estava insistindo. Ramona fez beicinho, os lábios brilhantes franzindo em uma careta. — Eu só quero curtir e relaxar. — Você sempre quer se bronzear e relaxar. Se você não for, eu vou sem você. — Eu vou sem você — Ramona imitou, torcendo a boca de forma não atraente. Spencer respirou fundo e começou a andar um pouco mais rápido. Quando ela estava a poucos metros da mesa de Colin, ele olhou para cima e a notou. Ela fingiu não ver, balançando os quadris, a bunda, e empurrando os peitos para fora tanto quanto eles iriam. Ela podia sentir seu cabelo levantar do seu pescoço e flutuar atrás dela. Ela se sentia fantástica. — Ei, Spencer — Colin chamou. Ela diminuiu a velocidade e fingiu surpresa. — Oh, ei! Que bom ver você! Ele respirou como se quisesse dizer outra coisa, provavelmente esperando que Spencer parasse para conversar. Mas ela não o fez. Ela continuou andando, mantendo a cabeça erguida. Depois que ela passou, ela não pôde deixar de olhar por cima do ombro. Ele ainda estava olhando para ela. E então, sua perna bateu em algo duro, e ela ouviu um oof alto. Ela se virou a tempo de ver uma garçonete vociferando e tentando resgatar uma bandeja cheia de pratos fumegantes de cair no chão. Mas era muito tarde — os pratos deslizaram da bandeja, um a um, bateram no chão. Na mesma hora, os saltos altos de Spencer se viraram, e ela sentiu suas pernas entortarem embaixo dela. Antes que ela pudesse se equilibrar, ela estava no chão, com as pernas cruzadas sob ela, o vestido levantando da sua bunda, e seu cotovelo deslizando em algo que tinha acabado de ser derramado. Pelo cheiro, era creme de espinafre. Um silêncio tomou conta da multidão. Todos se viraram para olhar. A garçonete ao lado dela no chão pegou rapidamente um monte de pratos de bife que tinha caído da bandeja. — Ótimo. Você provavelmente vai me fazer ser demitida! — Ela falou irritada. Spencer ficou de pé rapidamente e correu para o banheiro. Mas quando ela abriu a porta do banheiro feminino, ouviu risadas fracas e espiou a sala de jantar. Colin e Ramona estavam olhando para ela com diversão, com as mãos entrelaçadas em cima da mesa agora. Perfeito. A queda de Spencer provavelmente tinha quebrado a frieza deles. O esquema da Cosmo foi: definitivamente um fracasso.


6

VELEJE PARA LONGE COMIGO Na manhã seguinte, depois de pesadelos de multidões rindo e sandálias Manolos gigantes atacando o corpo dela, Spencer pediu um expresso duplo para viagem e se encontrou com Melissa no cais da Longboat Key abaixo de um teto que dizia AULAS DE VELEJAR. Spencer queria permanecer na cama nessa manhã — e ficar lá pelo resto de suas férias — mas Melissa tinha sido insistente. Vários barcos pequenos Hobie Cat com arco-íris desenhados nas velas atravessavam a água. Gaivotas voando e gritando ruidosamente, e um monte de caras de cabelos compridos com vinte e poucos anos usando camisetas da Harvard passou em um iate Beneteau elegante e lindo. Ela não tinha certeza, mas ela pensou ter visto um dos caras apontando para ela, fazendo com que todo o iate caísse na gargalhada. Ela fez uma careta e bebeu o café. Já era ruim o suficiente ela ter descoberto um hematoma enorme e roxo em sua coxa, onde ela tinha batido na bandeja de comida. Agora, ela tinha que lidar com todo mundo de Longboat Key rindo dela. — Daqui a pouco Colin chega — disse Melissa, passando protetor solar em seus braços. — Duas outras pessoas vão ter aulas com a gente hoje, ambos rapazes. Colin DeSoto e Merv alguma coisa. Ramona não está na lista. Spencer mordeu o polegar, sentindo-se nervosa. Não com a aula de velejar — ela tinha aprendido a velejar quando tinha oito anos e ainda tinha uma licença júnior — mas ela nunca tinha dado em cima de um cara tão descaradamente antes. Além disso, e se Colin olhasse para ela quando chegasse e fosse embora correndo? Ele agora provavelmente lembrava dela como a garota que tinha derrubado sozinha cinco pratos grandes de carnes fumegantes ao invés da menina que poderia derrotar ele na quadra. Melissa despejou outro pingo de protetor solar em sua palma. — Quer que eu passe nas suas costas? Spencer se virou, sentindo surpreendentemente emocionada. Melissa não tinha se oferecido para passar protetor solar nas costas dela há anos. Então Melissa respirou e apontou com o queixo em direção à uma figura caminhando no final do cais. Era Colin. Ele estava usando uma camiseta branca apertada que mostrava todos os seus músculos abdominais e shorts de banho estampados. Até os dedos dele, que apareciam de um par de chinelos pretos, eram bonitos. Colin reconheceu Spencer e parou. — Spencer? — Ele sorriu, incrédulo. — Você está aqui para a aula? — Sim! Ah, essa é a minha irmã, Melissa. — Ela tocou o braço de Melissa. — Prazer em conhecê-lo. — Melissa estendeu a mão, e Colin a apertou. Ele sorriu para Melissa e depois para Spencer. O coração de Spencer acelerou. Se Colin ia fingir que a noite passada nunca tinha acontecido, estava tudo bem para ela. O segundo aluno, um cara gordo e careca chamado Merv, caminhou até o cais e, em seguida, o instrutor, Richard, apareceu. — Bem-vindos à vela 101 — Richard disse


em um sotaque australiano adorável. Spencer notou Melissa analisando ele e sorriu. Talvez ela também pudesse ter uma aventura de férias. Richard se virou para todos eles e perguntou seus nomes e de onde todos eles vinham — Spencer arfou de surpresa quando Colin respondeu: Connecticut, que ficava bem perto de Rosewood! — em seguida, repassou uma lista de regras de segurança para o passeio de barco. Ele explicou como um barco Hobie Cat funcionava e que eles iam levar os barcos em duplas hoje. — Todo mundo, encontre um parceiro — ele disse. Spencer se virou para Melissa, mas a irmã dela atirou-lhe um olhar e depois tocou o braço de Merv. — Quer navegar comigo? Os lábios carnudos de Merv se separaram, analisando o corpo de Melissa, o rosto bonito e o biquíni de algodão e de listras. — Claro. Foi o sacrifício mais nobre que Melissa já tinha feito por Spencer. Spencer virou-se para Colin. — Eu acho que sobramos. Você se importa de fazer dupla comigo? — Você está brincando? — Colin sorriu. — Algo me diz que você já velejou antes. O clube de iate parece combinar com você. — Eu sou tão óbvia assim? — ela disse suavemente. — E enquanto a você? Colin balançou a cabeça. — Eu nunca velejei, o que é muito idiota considerando quanto tempo eu passo aqui. — Ele enganchou um colete salva-vidas ao redor do pescoço de Spencer e colocou o dele debaixo do braço. — Segurança em primeiro lugar. — Ele sorriu. Spencer e Colin subiram em um barco e desfizeram a corda que prendia o barco ao cais. Spencer moveu o leme de modo que o barco ficou direcionado para o centro da baía, como Richard havia instruído, e Colin levantou a vela. Após cerca de 20 minutos para descobrirem como se mover contra o vento, eles começaram a se balançar pacificamente na água. Spencer se recostou e inclinou a cabeça para o sol, amaldiçoando as sardas que ela sabia que iriam aparecer no final do dia. — Eu poderia me acostumar com isso. — Colin recostou-se no casco e entrelaçou as mãos atrás da cabeça. Spencer abriu os olhos, protegendo-os contra o sol. — Eu tentei convencer Ramona a vir para umas aulas, mas ela não quis. Ela não sabe o que está perdendo. — Ela não é do tipo ativa, hein? — Spencer perguntou despreocupadamente. — Não exatamente — disse Colin com um encolher de ombros. Spencer queria pressionar Colin para conseguir mais informações, mas algo lhe disse para sentar e esperar Colin falar por conta própria. Colin destampou uma garrafa de AminoSpa e tomou um gole. Spencer olhou para a baía. Melissa estava do outro lado da água com Merv, conversando profundamente. Em seguida, ela ouviu uma risada vinda da praia. Ela se virou e olhou para o cais, ela tinha certeza de que tinha acabado de ver alguém se escondendo rapidamente atrás de um barco. Ou era imaginação dela? Finalmente, Colin suspirou e interrompeu o silêncio. — Para ser honesto, Ramona não está no clima para nada ultimamente. Eu não sei qual é a dela. Bingo. Spencer deu-lhe um falso olhar de simpatia. — Vocês já estão juntos há muito tempo? Ele balançou a cabeça. — Ramona e eu estamos... é complicado. Spencer assentiu solenemente. — Eu entendo, complicado — ela disse, pensando nela e em Wren. Spencer virou o leme para que ele não colidisse com um Jet Ski que se aproximava. O barulho veio em direção a eles, e ela inclinou a cabeça para perto dele. — Meu último namorado e eu brigávamos o tempo todo.


Colin inclinou-se para baixo e olhou a água, em silêncio. Spencer não pôde deixar de notar o quanto a água combinava com seus olhos. Ele parecia tão triste e magoado. Spencer podia praticamente sentir ele querendo terminar com Ramona por ela. — Eu não consigo imaginar alguém querendo brigar com você, Spencer — disse ele. — Você parece tão fácil de se conviver e tão cheia de vida. Eu queria que Ramona tivesse o seu espírito de aventura. O sol de repente pareceu muito quente na parte superior da cabeça de Spencer. Colin se ajeitou em seu assento casualmente se aproximando dela. Havia um pouco de areia presa na bochecha dele; Spencer estendeu a mão e limpou-a. Ao mesmo tempo, ele se inclinou para frente, talvez a ponto de beijá-la. Spencer fechou os olhos e esperou. De repente, um apito veio do cais. — Tragam os barcos de volta! — Richard gritou. — Está ventando muito! O clima romântico imediatamente foi interrompido. Colin ficou de cócoras. Spencer virou o leme, prendendo um gemido. Eles ajustaram o barco para que ele deslizasse em segurança e subiram em direção ao cais. Melissa e Merv tinham parado o barco, e Richard estava ocupado ajudando-os a sair da água. Spencer se virou de frente para Colin, querendo continuar de onde eles tinham parado. — Então — ele começou. — Então. — Ela mordeu o lábio inferior. Um conversível Mercedes entrou no estacionamento e buzinou. Ramona estava no volante. Colin deu um rápido olhar para Spencer, então suspirou. — Eu deveria ir — ele disse, relutantemente. — Eu a verei mais tarde, no luau? Spencer forçou um sorriso em seu rosto. — Sim. Te vejo lá! Ela o viu descer do cais e subir no carro. Spencer poderia ter imaginado, mas ela tinha certeza de que ele olhou para ela ansiosamente. E como Melissa estava mostrando para ela os polegares para cima, parecia que sua irmã tinha notado isso também.


7

COMPRAS COM UM POUCO DE ESTRANHEZA A casa de Nana estava agradável e cheirava a laranjas frescas quando Spencer entrou pela porta lateral, mais tarde naquela manhã. — Oh — ela disse, parando abruptamente na porta. Sua mãe estava sentada em um banco da ilha, olhando para algo na TV. Spencer estava prestes a correr para o quarto quando um título na tela chamou sua atenção. Panteras Prateadas Aterrorizam Atlantic City. Tinha uma foto de dois grandes felinos selvagens rondando vários cassinos deslumbrantes. — Isso foi uma brincadeira? — Spencer deixou escapar. Sua mãe balançou a cabeça. — Alguém soltou essas panteras das gaiolas em Atlantic City. Aparentemente, uma delas quase arrancou o braço de uma mulher. Ela tinha acabado de dizer mais palavras a Spencer do que falou o dia inteiro, então Spencer se atreveu a se sentar no banco ao lado dela e ver o restante do noticiário. Equipes de controle de animais estavam trabalhando muito para reunir as panteras, mas as criaturas eram extremamente furtivas. Quando o jornal foi para os comerciais, Spencer sentiu os olhos de sua mãe sobre ela. Ela saiu do banco, preparada para sair correndo para o seu quarto para que sua mãe não tivesse que suportar a presença dela. Em seguida, sua mãe deixou escapar um suspiro arrependido. — Sinto muito por ter me comportado tão rude com vocês nesses últimos dias, Spencer. Spencer parou no meio do caminho. — Está tudo bem — disse ela rapidamente. — As coisas têm sido... tensas. — Ela tocou a testa. — Seu pai e eu tivemos uma grande discussão que não ficou completamente resolvida. Mas eu não deveria ter descontado em vocês. — Sério, está tudo bem. — Spencer se ocupou com uma cópia do jornal Miami Herald na ilha, muito perturbada com essa súbita mudança de humor para olhar sua mãe nos olhos. Sua mãe saiu do banco e desligou a televisão. — Eu gostaria de compensar isso. Tem uma boutique nova chamada Astrid que acabou de abrir na cidade. Quer ir? — Eu adoraria ir com você. — O coração de Spencer começou a flutuar. Elas não tinham feito compras juntas há muito tempo. Elas não tinham feito nada juntas há muito tempo. — Ótimo. Esteja pronta em 10 minutos. — Sua mãe colocou a bolsa por cima do ombro e atirou um sorriso para Spencer. Pode ter sido forçado e tenso e ainda um pouco frio, mas pelo menos não era uma careta.

*** A boutique Astrid era uma mistura de Miami chique e praia casual e moderna, com um monte de túnicas, vestidos soltos, jeans de brim brancos e chinelos de borracha que


custavam mais de $100. Uma música dos Rolling Stones tocava no estéreo, e as vendedoras estavam ocupadas dobrando a mercadoria enquanto Spencer e sua mãe atravessavam a porta da frente. Spencer foi direto para a mesa dos brins, e sua mãe a seguiu. Depois de olhar as pilhas de jeans, a mãe dela limpou a garganta. — Então, você e Melissa parecem estar se dando bem. — Acho que sim — disse Spencer, surpresa que sua mãe tenha notado. — Ela está bem em relação às coisas que aconteceram com Ian? Spencer se encolheu. — Honestamente, eu não sei. Nós realmente não conversamos sobre isso. — Ela e Melissa continuaram a manter as conversas leves, na maioria das vezes elas falavam sobre Colin ou zombavam das roupas que as fanáticas por ele usavam. — Você fez a coisa certa entregando Ian para a polícia — ela disse. — Nós não fazemos ideia do que esse rapaz é capaz. E pensar que nós tínhamos convidado ele para a nossa casa com os braços abertos. — Ela balançou a cabeça. — Eu estou pensando em prestar queixa contra ele por danos psicológicos. Seu pai acha que eu sou louca. — É por isso que vocês estão brigando? — Spencer perguntou. Um olhar assustado surgiu no rosto de sua mãe. Ela traçou a costura do bolso de trás de uma jeggings azul desbotada. — Não — ela disse calmamente. — Foi por causa de outra coisa. Erguendo os ombros, ela tirou um macacão de um rack próximo e ergueu-o na frente de Spencer. — Isso ficaria bonito em você. Spencer olhou para ele com desconfiança. — Não vai me fazer parecer muito nova? — Não há nada de errado em parecer nova. — Ela dobrou a roupa no braço. — Eu acho que você deveria experimentar. Ele é adorável. — Bem, então, você tem que experimentar alguma coisa, também. — Spencer pegou um vestido azul e branco comprido e estampado de um cabide. — Papai vai amar você vestida com isso. Sua mãe franziu os lábios. — Eu não tenho certeza se eu tenho o corpo certo para isso. Spencer balançou o dedo no rosto dela. — Negatividade não! Apenas experimente. Ambas encontraram provadores abertos. Spencer tirou os shorts e os sapatos, olhando para suas pernas nuas no espelho. Ela vestiu o macacão. Surpreendentemente, não a fez parecer tão nova quanto ela tinha imaginado. O corte alto fez suas pernas parecerem longas e bronzeadas, e nitidamente tinha afinado sua cintura. Na frente da loja, os sinos da maçaneta da porta tilintaram. As vendedoras murmuraram, e passos soaram em um corredor perto dos provadores. Spencer olhou sob a cortina e viu duas panturrilhas magras que terminavam em tornozelos finos e sandálias gladiador prata. Quem quer que fosse apenas ficou parada lá, sem se mover. Um formigamento passou pela espinha de Spencer. Ela se sentia como se quem quer que fosse pudesse vê-la através da cortina. Ela estava prestes a gritar, mas, em seguida, os pés calçados com as sandálias gladiador giraram e se afastaram. — Spence? — Sua mãe chamou do provador ao lado. — Eu acho que você estava certa sobre esse vestido. — Deixa eu ver, deixa eu ver! — Spencer gritou. Ela abriu a cortina e encontrou sua mãe em pé no corredor. O vestido estampado afinou seus quadris e iluminou sua pele. — Que lindo — Spencer arfou. — Você tem que comprar ele.


Sua mãe caminhou descalça até o espelho de três vias na sala de exposição principal. Ela inclinou seus quadris de um lado para o outro e, em seguida, analisou sua bunda. — Acho que está bom. — Ela encontrou os olhos de Spencer e sorriu. — Boa escolha. O coração de Spencer se aqueceu. Quando tempo tinha se passado desde que a mãe dela tinha elogiado ela? Então, o olhar da mãe de Spencer foi deslocado para algo no espelho. Uma mulher loira alta, magra e elegante estava olhando as prateleiras detrás delas. Uma bolsa Chanel cor caqui acolchoada estava pendurada em seu ombro, sua pele era perfeitamente bronzeada, não havia uma grama de gordura em seu corpo e ela tinha um rosto muito familiar em formato de coração. Essa era...? Não podia ser. A mulher olhou para cima e as viu. Suas feições adotaram uma nota de surpresa, e ela olhou por cima do ombro em direção à calçada por um milésimo de segundo antes de se virar de volta para elas. — Veronica? — ela perguntou em uma voz muito familiar. — Jessica — a mãe de Spencer resmungou. Spencer resistiu ao impulso de ofegar. Era Jessica DiLaurentis. A mãe de Ali. — Meu Deus, que surpresa agradável! — Jessica DiLaurentis se inclinou e deu a Spencer e a mãe de Spencer beijos no ar. — Que adorável ver vocês! A mãe de Spencer voltou ao seu modo de anfitriã perfeita da Main Line, todos os vestígios de desconforto tinham desaparecido. — É tão bom ver você — ela falou em uma voz arrogante que ela reservava para os vizinhos, membros de diretoria de caridade e os pais novos de Rosewood Day que ela achava que não eram dignos o suficiente para estarem em comissões escolares. — O que você está fazendo aqui? — Nós temos uma casa aqui, lembra? — Quando a Sra. DiLaurentis deu um meio sorriso frio, foi como ver o fantasma de Ali. — Decidimos vir aqui para o Ano Novo. Relaxar antes do julgamento de Ian. — Ela tocou os óculos de sol Gucci gigantes em cima de sua cabeça. — É claro — disse a mãe de Spencer. Sua voz não demonstrava nada, mas quando Spencer olhou para baixo, ela percebeu que sua mãe estava com uma mão escondida atrás das costas. Ela estava furiosamente coçando a pele ao redor de sua unha. — Eu sinto muito por não termos conseguido conversar mais sobre a acusação. Tudo foi como um vendaval. A Sra. DiLaurentis acenou com a mão. — Nós vamos ter muito tempo para compensar. Nós compramos uma casa perto de Rosewood, em Yarmouth. Nós queríamos estar por perto para o julgamento. — O celular dela soltou um ping, e ela espiou dentro da bolsa Chanel. — Oh, é melhor eu correr — disse ela. — Foi adorável ver vocês duas. Tudo de bom para Peter e Melissa! — Sim, tudo de bom para a sua família, também! — A mãe de Spencer sorriu. A mãe de Ali saiu da boutique, ainda olhando para a tela do celular. Quando Spencer virou-se de frente para sua própria mãe, a expressão composta dela havia desaparecido de seu rosto mais uma vez. Ela passou as mãos para cima e para baixo dos quadris. A pele do seu polegar estava ferida. — Mãe? — Spencer tocou no braço de sua mãe. — Você está bem? Ela piscou com força. — É claro. Deveríamos ir, no entanto. Eu acho que o calor está tomando conta de mim. Ela estava prestes a ir em direção à porta quando Spencer pegou o braço dela. — Mãe. Você ainda está... — Ela parou, apontando para o vestido estampado que sua mãe ainda estava usando. As etiquetas pendiam debaixo do braço dela. Sua mãe olhou para baixo e riu de forma instável. — Deus. É mesmo.


Ela caminhou de volta para o provador como se nada tivesse errado. Spencer ficou presa no mesmo lugar por um momento com um espasmo desconfortável em seu estômago. Era natural que Spencer se sentisse desconfortável na presença da Sra. DiLaurentis — ela era uma das últimas pessoas que viu Ali viva. Mas por que a mãe dela tinha desmoronado na frente da ex-vizinha delas?


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COMO CONSEGUIR UM COLAR DE FLORES Quando Spencer entrou no estacionamento do clube de iates naquela noite para a festa da véspera de Ano Novo, ela podia sentir o cheiro dos aromas inebriantes de abacaxi grelhado e poi, fumaça de tocha Tiki e coco. Como todos os convidados tinham que estar vestidos com o tema de luau, Spencer usava um vestido florido curto e uma flor orquídea atrás da orelha, que enviava sopros românticos de perfume com cada movimento do cabelo dela. Melissa estava com um vestido longo estampado e colar de flores ao redor do pescoço. A mãe de Spencer tinha teimosamente se recusado a usar qualquer coisa além de um vestido branco Calvin Klein, embora ela relutantemente tenha colocado um par de salto alto brilhantes com tiras de couro e um enorme colar floral. O pai dela usava uma camisa havaiana laranja e rosa horrível sob sua jaqueta esporte Armani, assim como todos os outros homens do lugar com mais ou menos 40 anos. A família caminhou em direção à entrada, ocasionalmente dizendo olá para outros membros do clube de iate que eles conheciam há anos, os dedos do pai de Spencer voavam em seu pequeno teclado do celular. A mãe dela deu uma cotovelada nele. — Você não ia deixar isso no carro? — Eu estou enviando uma mensagem — disse ele distraidamente. — Para quem? E desde quando você sabe enviar mensagem? — Eu sempre soube enviar mensagem. — Seu celular tocou. Ele atendeu com um grunhido, em seguida, sussurrou algo que parecia com ela está? e depois, ok, que bom. Quando desligou, a mãe de Spencer estava olhando para ele. — Quem era? — Só uma coisa do trabalho — seu pai murmurou apressadamente. A mãe de Spencer franziu os lábios e tocou seu colar. Melissa se inclinou para Spencer. — Por que será que o papai está com esse repentino ar de mistério? — ela sussurrou. Spencer deu de ombros. Ela não fazia ideia, mas ela não gostava disso. Os Hastingses atravessaram a porta e entraram no luau. Diversas flores coloridas e palmeiras cobertas de luzes cintilantes transformaram o restaurante normalmente tedioso em uma festa havaiana de alta classe. Uma menina de cabelos compridos com um coco como a parte superior do biquíni e uma saia de capim entregou a todo mundo, incluindo Spencer, uma piña colada. — Aloha! — Ela cantarolou feliz, sem perceber que os pais de Spencer pareciam estar prontos para jogar um ao outro na brasa. — Peguem seus marcadores de mesa e encontrem seus assentos! E se divirtam! A mãe de Spencer pegou seu marcador de mesa da longa mesa do lobby. — Vamos ficar com a mesa três — ela disse em uma voz magoada, e começou a atravessar a sala de jantar, os outros nos calcanhares dela. No meio do caminho, ela parou abruptamente. A Sra. DiLaurentis e seu marido estavam sentados na mesa seis, usando colares de concha combinados. A mãe de Ali olhou para cima e notou os Hastingses, mas em vez de acenar, ela franziu a testa e olhou para longe. No momento em que se sentou na mesa marcada, a mãe de Spencer já tinha terminado sua piña colada e havia pedido outra para um garçom. O pai dela ainda estava


mexendo no celular com uma expressão estranha no rosto. Spencer olhou em torno do salão, tentando achar Colin. Uma árvore de Natal de três metros, decorada com abacaxi e flores frescas, estava no canto. A banda, vestida com roupa havaiana, cantava no palco. Garçons circulavam com aperitivos e saladas, e um monte de pessoas estava dançando na pista de dança e se reencontrando. Mas ela não via ele e Ramona em nenhum lugar. Estar nesse lugar novamente lembrou Spencer do dia em que ela participou dessa festa na quinta série. Os DiLaurentis tinham estado aqui também, e Ali tinha usado um vestido de cintura solta com babados na bainha — o tema tinha sido anos vinte. Ali estava com um grupo de estudantes mais velhas de Nova York; cinco delas tinham dançado freneticamente a cada música agitada que a banda tocava. Spencer tinha dançado perto do grupo, pensando que Ali iria convidá-la para participar do círculo, mas é claro que ela não a tinha convidado. Quando Spencer tinha deixado a pista de dança, se sentindo um fracasso, ela encontrou o pai dela e a mãe de Ali conversando calorosamente no corredor. Ela não tinha certeza de já ter visto eles interagindo antes. Ela tinha sentido uma pontada desconfortável em seu estômago, mas tinha cautelosamente recuado, empurrando isso para fora de sua mente. Alguém limpou a garganta acima de Spencer, trazendo-a de volta para o presente, e ela olhou para cima. — Oi. — Os olhos de Colin flutuaram entre Spencer e Melissa. Ele estava usando uma camisa havaiana, jeans apertados e sapatos wingtips pretos. — Então, vocês vieram! — É claro que nós viemos — disse Spencer, seu coração começando a galopar. Ela sentou-se um pouco mais ereta e ajustou sua flor. Melissa lançou-lhe um sorriso e tomou um gole de sua bebida, voltando a atenção para o palco e lentamente passando os dedos pelos cabelos. — Colin, vamos. — Ramona, que estava usando um minivestido prata elegante e saltos de tiras dourados — sem roupa de luau para ela — puxou o braço de Colin. — Precisamos encontrar nossos lugares. Colin deu a Spencer um sorriso de desculpas quando Ramona o arrastou para uma das mesas. Desanimada, Spencer encolheu os ombros, enviando um pedido de desculpas mental para seu instrutor de yoga pela má postura dela. O que quer que Colin tivesse sentido no veleiro, claramente tinha se dissipado. Melissa tocou seu braço. — Vá chamar ele para dançar. — Pra quê? — Spencer disse tristemente, jogando as mãos para cima. — Ele ainda está com ela. Eu não tenho chance. Melissa mordeu um tomate-cereja de uma das saladas que tinham acabado de ser depositadas sobre a mesa. — Eu pensei que você fosse mais determinada do que isso, Spence. Se você quer ele, você tem que ir atrás dele. A Cosmo diz que os caras adoram meninas de atitude. Spencer grunhiu em resposta. Durante a meia hora seguinte, ela beliscou melancolicamente a refeição, comendo quase nada. No momento em que os garçons levaram seus pratos e todos se levantaram para dançar, os pais de Spencer tinham mudado de assento e estavam sentados em lados opostos da mesa, conversando com todos, exceto um com o outro, Melissa tinha saído para se reencontrar com um amigo que ela conhecia da Penn, e Colin e Ramona estavam dançando colados uma música lenta. Spencer analisou-os cuidadosamente. Eles pareceram bastante felizes por metade de uma música, mas de repente, Ramona se desenlaçou de Colin, deixou cair os braços ao redor da cintura dele e se afastou.


— Eu não entendo — ela disse gaguejando. — Por que você nunca me convidou para Connecticut? Spencer saiu do seu assento e fingiu analisar a mesa de queijos, que estava convenientemente posicionada ao lado da pista de dança e ao alcance da voz de Colin e Ramona. O queijo manchego parecia tentador, mas a briga que estava começando também. — Nós temos que discutir isso aqui? — Colin sibilou, olhando desconfortavelmente ao redor do lugar. Spencer rapidamente abaixou a cabeça. Mesmo sob a luz suave da festa, ela podia ver a testa franzida de Ramona. — Estamos namorando há mais de um ano, e eu não vi uma única vez o seu apartamento em Darien. — Ramona bateu o pé com seu sapato dourado de tiras. — E agora você está cancelando a próxima vez que você iria me visitar em Nova York. O que eu deveria achar? Você está interessado em alguém? — Jesus, Ramona. — Colin ergueu as mãos em derrota. — Eu pensei que íamos ter uma noite agradável juntos. Ele se afastou de Ramona e saiu do clube, empurrando as portas da frente de forma tão violenta que elas bateram ruidosamente contra as paredes. Ramona permaneceu na pista de dança com sua boca aberta, depois encolheu os ombros e andou em direção ao bar. Spencer procurou por Melissa, mas ela estava sumida. Ainda assim, ela reconhecia uma oportunidade quando via uma. Melissa lhe dissera para ir atrás do que ela queria, e ela queria Colin. Engolindo o resto da taça de vinho que o pai dela tinha abandonado na mesa de jantar agora vazia, Spencer se contorceu em torno de um grupo de mulheres de meia idade usando saias hula e rapazes bronzeados bebendo coquetéis com guarda-chuvas, empurrou as portas duplas e saiu para o ar fresco da noite. Cigarras cantavam nas árvores. Carros buzinavam nas ruas. Spencer ouviu um passo atrás dela, em seguida, uma risadinha suave e sussurrante. Ela se virou, mas não havia ninguém lá. Ela continuou vagando pelo clube de iate até que encontrou Colin de pé no parapeito do cais, olhando contemplativamente para a água. Endireitando os ombros, Spencer se aproximou um pouco mais e soltou uma tosse fraca. Colin se virou. — Ah. Oi. — Oi, Colin — ela disse animadamente. — Tomando um pouco de ar? Ele levantou um ombro. — Eu acho que sim. E você? — Sim. — Spencer caminhou até ele. Eles não disseram nada por alguns momentos. Luzes coloriam agradavelmente a superfície da água. Os barcos se sacudiam de leve majestosamente. Então Colin soltou um longo suspiro. — Você está bem? — Spencer perguntou inocentemente. Colin chutou a grade. — Eu acho que tenho algumas grandes decisões para tomar essa noite. Tipo... resoluções. — Bem, essa é a época do ano para isso. — Sim. — Colin assentiu com tristeza. Spencer cutucou seu lado. — Anime-se. É quase Ano Novo. É incrível. E nós estamos em um luau falso. Você tem que ser feliz durante a temporada de férias! Um canto da boca de Colin subiu. — Isso é uma regra ou algo assim? — É. Uma regra que eu acabei de inventar. — Spencer assistiu um barco de festa desviar no porto. — E eu estou pensando em tomar algumas decisões de ano novo, também.


— Spencer estabelecendo metas para si mesma? Isso não me surpreende nem um pouco. — Ele sorriu conspirativamente, e Spencer sentiu seus ombros começarem a cair enquanto ela relaxava. — Se importa de compartilhar quais são elas? — De jeito nenhum — ela disse sinceramente. — Assim elas não se tornariam realidade. Colin fez uma pausa, abrindo a boca como se quisesse dizer alguma coisa. A baía se agitava contra o cais e o ar cheirava a sal e orquídeas. Uma rajada de vento soprou sobre a água. Por um momento, eles apenas olharam um para o outro. Então ele estendeu a mão e tirou uma mecha de cabelo do rosto dela e colocou-a suavemente atrás da orelha sem brincos dela. Faça isso, Spencer pensava. Me beije. Por favor. De repente, Colin puxou a mão e começou a andar em direção ao clube de iates novamente. — Onde você vai? — Spencer grunhiu. Ele parou sob uma lâmpada, a luz dourada fazendo uma auréola sobre sua cabeça. — Tem uma coisa que eu preciso fazer, Spencer — ele disse calmamente. — Algo que eu acabei de descobrir. E, assim, ele se virou e caminhou de volta para o clube — sem dúvida alguma, Spencer pensou excitada, ele iria terminar com Ramona. Ela passou as mãos pelo rosto, tentando fazer seu coração se acalmar. Naquele exato momento, fogos de artifício explodiram no céu sobre a água. Eles brilharam contra seu rosto, uma performance apenas para ela. Ela estava grata pelo barulho. Somente algo tão alto poderia abafar o bater do seu coração.


9

ELA NÃO ESPERAVA POR ISSO Uma hora depois que ele saiu, Spencer percebeu que Colin não iria voltar ao cais. Ele provavelmente estava consolando Ramona, ele era o tipo de cara que fazia isso. Melissa estava sumida, então Spencer caminhou de volta para a casa de Nana, um sorriso secreto aparecendo em seus lábios. Ela mal podia esperar para amanhã, para ver como seu novo relacionamento iria se desdobrar. As janelas da casa de Nana estavam escuras, e o Mercedes alugado estava na garagem. Spencer girou a maçaneta e saltou quando Melissa veio correndo da sala de estar escura e ligou o lustre da entrada, lançando lampejos de luz em torno do piso de mármore. — Oi — disse Spencer. Ela colocou sua bolsa no degrau inferior e tirou os sapatos, massageando seus calcanhares. Melissa deu um sorriso brilhante. — Ei! Então... como foi? — Ótimo! — Spencer deixou escapar, sentando-se em um assento antigo enfeitado. Melissa sentou ao seu lado. — Obrigada por ter me incentivado a ir falar com ele! Melissa arregalou os olhos. — Vocês ficaram? Spencer balançou a cabeça. — Mas em breve. Ele me disse que iria resolver algo. Ele está terminando com ela, Melissa, eu sei disso. Ela colocou os braços firmemente em torno de sua irmã, inesperadamente, lágrimas encheram seus olhos. Ela apertou as mãos da irmã. — Me prometa que as coisas vão continuar assim. — Continuar de que jeito? — Melissa perguntou. — Entre nós. Me prometa que nós... — Spencer parou para escolher suas próximas palavras com cuidado. — Nós não vamos brigar mais. Que nós vamos ajudar uma a outra. Eu realmente sinto sua falta. De repente, a campainha tocou. Spencer sentiu um arrepio de antecipação. Seria...? Ela pulou, lambendo os lábios e alisando o cabelo quando correu para a porta. — Se faça de difícil — Melissa lembrou. Ela abriu a porta e deu um sorriso. Era Colin, seu queixo esculpido e seu nariz reto e vigoroso fazia sombra em seu pescoço por causa da luz da varanda. — Oi. — Sua boca se abriu em um sorriso lento e suave. Deslumbrada, Spencer trouxe-o para dentro. — Ramona e eu terminamos. Essas palavras deveriam ter feito Spencer desmaiar de alegria. Só que Colin tinha se afastado rapidamente de Spencer e agora estava parado perto de Melissa com um olhar de êxtase em seu rosto. Spencer ficou congelada no lugar. Por que ele estava dizendo isso a Melissa? Ela não se importava. Spencer se importava. — Sério? — Melissa sussurrou. — Eu não conseguia parar de pensar em você — disse Colin com uma voz rouca, pegando a mão de Melissa.


Spencer recuou como se tivesse levado um soco. O relógio antigo sobre a lareira na sala de estar soou duas vezes. O que estava acontecendo? Era uma brincadeira? — Podemos dar um passeio? Está uma noite linda — Colin sugeriu. — Deixe-me pegar minha bolsa. Espere aqui — Melissa suspirou. Ela se virou e correu até as escadas. Spencer olhou para Colin, que estava olhando com ar sonhador para as costas dela. Ela soltou um pequeno grito e, em seguida, correu atrás de sua irmã, dois passos de cada vez, grata por todas as voltas que seus treinadores fizeram ela correr. Ela invadiu o quarto de Melissa, que estava friamente aplicando gloss, sua bolsa pendurada sobre o ombro. — O que você está fazendo? — Spencer gritou. Ela não se incomodou em manter sua voz baixa. Spencer viu um sorriso desagradável se espalhar pelo rosto de Melissa no espelho. — O que você acha, Spence? — Mas... — Spencer tentou falar, mas nenhum som saiu. — Mas você me deu conselhos para conseguir ele. Melissa encolheu os ombros. — Todo mundo sabe que se você realmente quer que um cara note você, você tem que fingir que ele não existe. O estômago de Spencer se agitou tão violentamente que ela ficou com medo de que ela pudesse vomitar. — Mas eu pensei que você e eu fossemos amigas! — Spencer choramingou, lágrimas correndo de seus olhos. — Nós nunca fomos amigas — Melissa falou com raiva, largando seu gloss em sua cômoda, onde ele deslizou e então caiu no tapete caro. Ela olhou para Spencer. — Eu nunca te perdoei por tudo o que você fez comigo. E eu nunca vou. Ela atirou um sorriso cruel para Spencer, em seguida, saiu do quarto, desceu as escadas, e saiu para a noite, com Colin, deixando Spencer para trás.


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ANO NOVO, GAROTA NOVA Na manhã seguinte, Spencer abriu os olhos para a luz adorável do sol dourado que entrava pela janela. Pássaros cantavam nas árvores. Um sino de bicicleta tilintava na rua. As ondas se chocavam audivelmente, e havia um cheiro suave de café fresco e torradas no ar. Era outra manhã gloriosa em Longboat Key. E então ela se lembrou. Melissa. Ela se sentou na cama, os detalhes da noite voltando para ela como lama preta saindo de uma torneira. Colin chegando, animado e lindo, para declarar seu amor por Melissa. O franzir dos lábios de sua irmã quando ela disse a Spencer que ela nunca a tinha perdoado. Spencer tinha ouvido eles conversarem no quintal traseiro durante a noite inteira, finalmente aumentando o som até o volume dez para abafar os risos. Isso parecia um soco no peito. Melissa nunca quis ser amiga dela. Ela odiava Spencer, como sempre. O pior de tudo era que Spencer tinha começado a ter esperança de que as coisas realmente pudessem mudar entre elas — não, que elas tinham mudado. Ela empurrou os pés em seus chinelos e desceu as escadas, rezando para que Melissa não estivesse na cozinha. Felizmente, apenas sua mãe estava sentada na mesa, folheando o jornal. — Bom dia, querida. — A mãe de Spencer quebrou o silêncio. — Você se divertiu na noite passada? Spencer olhou para ela. Ela ainda vestia seu roupão e pijama. Havia algo tão vulnerável em ver ela sem maquiagem. Ela sentiu seu queixo tremer. — Na verdade, não — ela deixou escapar antes que pudesse se conter. — O que aconteceu? Spencer tentou manter os lábios fechados, mas a necessidade de desabafar era muito grande. Ela contou toda a história sobre Colin, explicando que ela conheceu um cara incrível nas férias, e parecia que ele realmente gostava dela, mas então alguém o tinha roubado no último minuto. O único detalhe que ela deixou de fora foi que esse alguém era Melissa. Quando ela chegou ao fim da história, contando que ela tinha visto Colin sair com a outra menina, sua mãe cruzou as mãos em cima da mesa. — Então o que você vai fazer em relação a isso? Spencer piscou. — O que eu poderia fazer? — A decisão tinha sido tomada: Melissa ganhou, mais uma vez. — Eu perdi — ela continuou. — Eu deveria me conformar e seguir em frente. As sobrancelhas de sua mãe se juntaram. — Desde quando você olha para o mundo dessa forma? Onde está a menina que faz tudo para ganhar? Spencer deu de ombros. — Isso me fez ir longe demais no passado. Sua mãe estalou a língua. — Se você acha que esse garoto é bom para você, você tem que lutar por ele. Havia um olhar desafiante e severo no rosto de sua mãe, e sua mão esquerda estava enrolada em um punho apertado como se ela estivesse se preparando para socar alguém.


— Você acha? — Spencer perguntou com a voz baixa. — Absolutamente. — O cabelo loiro de sua mãe, cortado na altura do queixo, balançou quando ela assentiu. — Você tem que fazer tudo que estiver ao seu alcance para tirar essa garota da jogada. Você tem que lutar por aquilo que você quer. Algo no tom da voz dela fez Spencer se perguntar se ela estava falando por experiência própria. — Isso tem alguma coisa a ver com você e o papai? — ela perguntou baixinho. A mãe de Spencer se virou, ficando de frente para o alimentador de pássaros do quintal. Depois de um momento, ela respirou, parecendo que ia dizer alguma coisa, mas depois pareceu mudar de ideia e fechou a boca. — Vocês estão tendo... problemas? — Spencer tentou novamente. — Não é nada que você tenha que se preocupar, querida. — Sua mãe ergueu os ombros e deu um sorriso forçado para Spencer. — Então, você quer um croissant? Talvez eu possa fazer torrada com pão francês? Seu pai comprou um pão challah delicioso em Tommy... Spencer murmurou que não estava com fome, então observou quando sua mãe saiu distraidamente da cozinha. Era difícil saber se os seus pais estavam realmente brigados ou se isso era apenas um retrocesso de tudo o que aconteceu nesse ano. Ela olhou fixamente para a xícara de café da mãe dela, que ela havia deixado sobre a mesa, e então para um suéter enrolado nas costas de uma das cadeiras. Era de Melissa, ela tinha usado na churrascaria Culpeper na outra noite. Ela apertou-o em suas mãos, amassando a caxemira macia. As palavras da sua mãe giravam em sua mente. Você tem que lutar pelo que você quer. Talvez houvesse alguma verdade nisso. Antes de Melissa aparecer em cena, Colin estava afim de Spencer — ela tinha certeza disso. Ela levantou os ombros, sentindo os efeitos da conversa com sua mãe estimulando suas veias. Esqueça o conselho estúpido de Melissa — Spencer iria conseguir Colin de volta do jeito dela. Jogando sujo. Impiedosamente. De qualquer jeito. Ela saiu da cozinha e subiu as escadas para o quarto dela, de repente, rejuvenescida. Mal sabia Melissa, mas o ano novo iria trazer uma nova Spencer. E ela iria jogar para ganhar.


11

BATALHA NA PRAIA No momento em que Spencer chegou à praia mais tarde nessa manhã, a temperatura subiu cerca de 32 graus. Embora a casa de Nana fosse à direita do mar, não era o melhor lugar para tomar banho de sol ou nadar — isso porque a praia pública ficava a cerca de meio quilômetro da costa. Se Colin e Melissa foram à praia hoje, eles estariam lá. Quando Spencer desceu os degraus de madeira, examinou a areia e viu os dois à esquerda do posto de observação de salva-vidas, aconchegados juntos em uma manta listrada. Bingo. Ela se escondeu atrás do posto de salva-vidas para que eles não a vissem. Melissa estava usando um biquíni de bolinhas e estava passando protetor solar nas costas de Colin. Ela disse algo no ouvido dele, e os dois riram. Spencer se perguntou se eles estavam falando dela. Talvez Melissa estivesse dizendo a ele que ela tinha aconselhado Spencer a seguir várias regras estúpidas da Cosmo para conquistar Colin. Ou talvez Melissa estivesse rindo sobre ela ter roubado Wren de volta de Spencer, ou que sua irmã mais nova era muito estúpida para escrever suas próprias redações de economia. Bem, elas duas poderiam jogar esse jogo. Ela estirou a toalha na areia quente. A praia estava lotada, com uma tonelada de pessoas na água, soltando pipas e jogando vôlei de praia em uma rede improvisada perto das dunas. Uma grande onda desabou, e de repente Spencer ouviu uma risadinha melodiosa atrás dela. Ela olhou por cima do ombro, sentindo uma pontada de preocupação. Essa risada parecia tão familiar, como um sonho assustador. Mas não poderia ser A. Spencer pegou o celular da bolsa. Ela conhecia a pessoa exata para lembrá-la de que valia tudo no amor e na guerra. Ela mandou uma mensagem rápida para Hanna, pedindo inspiração. Mas, mesmo depois de alguns minutos, Hanna não respondeu. Spencer ia ter que fazer isso por conta própria. Como tudo, ela pensou amargamente. Ela se levantou e caminhou até a toalha de Melissa. Ela lançou uma longa sombra sobre sua irmã, mas Melissa não tirou os olhos de sua edição da Vanity Fair, nem mesmo quando Spencer limpou a garganta. Finalmente, Colin sombreou a testa e a notou. — Ah. Oi, Spencer. — Ele desajeitadamente esfregou o topo de sua cabeça com um olhar tímido no rosto. — Oi — Spencer disse simplesmente. Ela colocou o celular na frente de Melissa. — Saiu outro artigo sobre Ian. Seu namorado. Melissa virou uma página e empurrou seus óculos no nariz, nem mesmo pestanejando. — O criminoso que está na cadeia — Spencer acrescentou, balançando o celular debaixo do nariz de Melissa. Ela leu um pedaço do que falaram sobre ele no Philadelphia Inquirer. — Os advogados dele acabaram de fazer uma declaração para a imprensa.


Colin olhou para o celular, então olhou para Melissa interrogativamente. Melissa friamente se virou e tomou um gole de uma lata de Coca Diet. Depois de um momento, Colin encolheu os ombros e se deitou ao lado dela, também ignorando Spencer. Spencer permaneceu sobre eles por mais alguns segundos com o celular estendido, mas depois começou a se sentir estranha. Melissa provavelmente havia dito a Colin que Spencer estaria ciumenta e em busca de vingança. Não acredite em uma palavra do que ela diz, ela provavelmente tinha dito a ele. Spencer deixou cair o celular de volta em sua bolsa, guardou os óculos escuros e caminhou até o oceano para se refrescar. Depois de se contorcer em torno de um monte de criancinhas brincando nas ondas e um grupo de rapazes que estava jogando com uma bola Nerf encharcada, ela mergulhou de cabeça em uma onda. A água estava fria, refrescante e salgada, ela emergiu e olhou para a praia. Melissa e Colin estavam agora de pé na água rasa, molhando os pés. Melissa olhou para Spencer nas ondas grandes, mas quando percebeu que Spencer estava olhando, ela rapidamente virou a cabeça. — Oi. — Um menino gordinho que parecia ter cerca de 13 anos de idade e que estava usando uma camiseta encharcada e uma máscara de mergulho grande encarou Spencer de alguns metros de distância. — Você é bonita. — Obrigada. — Spencer boiou sobre uma onda. Naturalmente, o único garoto que prestaria atenção nela seria um idiota pré-adolescente. Ela podia imaginar as gargalhadas que ela provocaria em Aria, Emily e Hanna quando ela contasse a elas. O menino tirou algo translúcido e gelatinoso da água. — Quer minha água-viva de estimação? Spencer gritou e deu algumas braçadas para longe. O menino riu. — É falsa! Vê? — Ele se aproximou, e antes que Spencer pudesse impedi-lo, ele estava empurrando a coisa de borracha debaixo do nariz dela. Anos atrás, uma água-viva que parecia exatamente como essa tinha queimado Melissa na perna. Ela gritou continuamente, e o pai dela disse a ela que o melhor remédio era fazer xixi na ferida. Isso só fez Melissa gritar mais alto. Ela chorou no sofá pelo resto do dia. Spencer tinha feito companhia a ela e feito cartazes de PROCURADA para a água-viva malvada e colado todos eles na frente da casa de Nana. — Uh, você se importa se eu pegar isso emprestado por um segundo? — ela pediu ao Garoto Máscara de Mergulho, que ainda estava agitando a água ao lado dela. O rosto dele se iluminou. — Só se você me der um beijo. Spencer gemeu. Mas tempos desesperados requerem medidas desesperadas. — Ok — ela disse, pressionando os lábios na bochecha dele. No último minuto, o garoto virou a cabeça e tocou seus lábios nos dela. Spencer se afastou e limpou a boca, lutando contra a vontade de vomitar. — Eu já volto — resmungou Spencer, pegando a água-viva falsa e boiando em uma onda em direção à margem. Melissa e Colin ainda estavam de pé na água rasa, olhando uma pequena poça de maré. Havia uma multidão tão grande na água que a irmã dela não notou Spencer. Lentamente e furtivamente, ela deixou a água-viva flutuar em direção à Melissa e depois mergulhou em uma onda que se aproximava. No momento em que ela emergiu, Melissa estava olhando para a panturrilha dela, onde a criatura falsa tinha grudado. Então ela começou a sacudir a perna vigorosamente, gritando. — Tira isso daqui, tira isso daqui! — Melissa choramingava. A água-viva ficou presa na pele, e ela gritou mais alto. Colin franziu a testa, e por uma fração de segundo, ele parecia irritado. Spencer nadou em direção a eles, pronta para arrancar a água-viva da perna de Melissa e dizer a ela que era apenas um brinquedo, quando Colin se ajoelhou, tirou a coisa e a atirou nas ondas. Ele levantou Melissa, que agora estava chorando


descontrolavelmente, e levou-a para fora da água e até a areia. — Está tudo bem — ele disse. — Eu vou cuidar de você. Não se preocupe. — Melissa colocou a cabeça no ombro de Colin. Algo bateu nos pés de Spencer, ela olhou para baixo e viu que a água-viva falsa tinha encontrado o caminho de volta para ela. Ela a pegou pelo tentáculo e devolveu para o Garoto Máscara de Mergulho, que estava observando-a a alguns metros de distância. — Eu faço brincadeiras com a minha irmã, também — ele disse alegremente. Que ótimo, Spencer pensou enquanto se arrastava para fora da água e pisava em sua toalha. As estratégias de conseguir-ele-de-volta eram parecidas com a de um garoto de ensino fundamental.


12

ALGO AZUL... Estava chuviscando na manhã seguinte quando Spencer caminhou para o quintal com uma xícara de café, uma tigela de Kashi GoLean e uma toranja fresca da Flórida. A mãe dela estava sentada na mesa, cercada por tintas e pincéis, um copo de água turva e uma caneca de cerâmica de terracota que Spencer sabia que ela tinha comprado na loja de cerâmica da cidade. Ela tinha uma tradição de pintar uma peça de cerâmica toda vez que visitava Longboat Key. Ela sempre deixava a obra concluída no gabinete de Nana, mas Spencer duvidava que Nana as utilizasse. — Oi, Spence. — A Sra. Hastings pintou uma faixa azul ao redor da borda da tigela. — Quer pintar uma dessas? Eu comprei algumas tigelas a mais. — Uh, com certeza. Só um segundo. — Os ouvidos de Spencer de repente capturaram sua irmã se movimentando no andar de cima. Melissa tinha uma rotina muito irritante de manhã: Quando ela estava pronta para tomar banho, ela carregava uma cesta cheia de produtos de rostos e cabelos do seu quarto, ela provavelmente pensava que Spencer poderia roubar um pouco de cada um se ela deixasse os produtos sozinhos. Spencer tinha pensado em um plano de sabotagem novo, e ela precisava conseguir colocar as mãos na cesta de Melissa em um curto espaço de tempo. Ela pousou o café e cereais e se arrastou de volta para as escadas. O chuveiro estava ligado no banheiro, mas Melissa tinha voltado para o quarto dela para pegar suas roupas como fazia todas as manhãs. Spencer entrou no banheiro, viu a cesta de Melissa, e pegou o frasco de shampoo Pureology. Tirou a tampa e derramou várias gotas de tintura azul de cabelo que ela tinha encontrado no armário de Nana. Não era um azul de idosa, porém, mas um azul profundo, a tintura Manic Panic da Katy Perry, o tipo que Aria já tinha usado para colorir uma mecha grossa do cabelo dela como um protesto na sétima série. Quem sabia por que Nana tinha uma cor tão berrante. Spencer provavelmente não queria saber. Ela tinha acabado de fechar novamente a tampa do frasco de shampoo e saído do banheiro quando a porta do quarto de Melissa se abriu e Melissa apareceu no corredor. Ela olhou para Spencer com suspeita. — O que você está fazendo aqui? Spencer bufou. — Meu banheiro é aqui em cima também. Ela estava prestes a se virar quando Melissa deu um sorriso meloso a Spencer. — Olha, Spence, eu sei que você está irritada por causa de Colin. Mas ele e eu combinamos muito mais um com o outro. Estamos no mesmo lugar na vida. Não tem nenhum motivo para você ser desagradável. O pequeno truque envolvendo Ian de ontem? Não foi nem um pouco legal. Levou toda a força de Spencer para não sufocar ela com um dos travesseiros com monogramas da cama de Nana. Nem um pouco legal? Melissa entendia que não era nem um pouco legal roubar o cara de Spencer também? E ela não sabia que não era nem um pouco legal fingir estar do lado de Spencer e depois apunhalá-la pelas costas? Antes que Spencer pudesse dizer outra palavra, Melissa entrou no banheiro cheio de vapor e bateu a porta. Segundos depois, a cortina do chuveiro se fechou. Se virando, Spencer desceu as escadas de volta para o quintal. A mãe dela tinha interrompido a


decoração de tigelas e estava olhando para uma foto em seu iPad. Era uma foto da Sra. DiLaurentis e de Ali. Elas estavam no quintal dos Hastingses, em um churrasco de família. O pai de Spencer estava no canto da foto, entregando a mãe de Ali um hambúrguer grelhado. — Por que você está olhando isso? — perguntou Spencer. Sua mãe pulou e minimizou a tela. — Eu, uh, estava apenas olhando fotos antigas da nossa câmera Kodak. Precisamos deletar tantas. — Mãe... — Spencer brincava com um pincel de contornar reserva sobre a mesa. — Algo a ver com os DiLaurentis te incomoda? A boca da mãe dela se abriu e fechou no momento em que um grito atravessou o ar. Um momento depois, Melissa apareceu no quintal com um roupão que dizia WALDORF-ASTORIA, CIDADE DE NOVA YORK sobre o peito. Seus olhos estavam selvagens, sua pele ainda estava molhada e seu cabelo molhado tinha uma mecha azul brilhante. A tinta era ainda mais vibrante e radical do que Spencer poderia imaginar. — Melissa! — A mãe de Spencer se virou rapidamente em surpresa. — O que diabos...? Melissa apontou para Spencer. — Você fez isso. Você colocou alguma coisa no meu shampoo. Spencer balançou a cabeça inocentemente. — Eu não sei do que você está falando. Você provavelmente pegou um dos shampoos de Nana por engano. — Você é uma mentirosa. — Melissa balançou a cabeça azul, com as mãos tremendo de raiva. — Uma mentirosa patética e invejosa. — Isso combinou com você — Spencer deu um sorriso falso, brincando com o pincel. — E nunca se sabe, talvez Colin goste dos Smurfs. Melissa deixou escapar um gemido agudo. Virando-se para a direita, ela pegou uma tigela sem pintar da mesa e atirou-a em Spencer. Spencer se abaixou a tempo, a cerâmica bateu contra a parede de tijolo. — Sua vadia! — Spencer gritou. Ela pegou o copo cheio de água que a mãe dela estava usando para lavar os pincéis e despejou na cara de Melissa. O líquido verde escorreu pelas bochechas dela. Melissa enxugou os olhos e rangeu os dentes. Ela se lançou para Spencer com os braços estendidos. — Eu vou matar você — ela resmungou. — Meninas! — O Sr. Hastings apareceu do nada, vestindo uma camisa de golfe e shorts xadrez. — O que está acontecendo com vocês duas? — Ela colocou tintura de cabelo azul no meu shampoo! — Melissa gemeu. — Ela roubou o cara que eu estava interessada — Spencer rebateu. Um olhar de entendimento atravessou o rosto da mãe de Spencer. — Espere. Melissa roubou o cara que você estava gostando? Melissa zombou. — Eu não roubei ele. Ele me escolheu. — É mentira! — Spencer gritou e bateu o pé. Suas Havaianas fizeram um som agudo contra o chão. — Vocês duas estão agindo de forma ridícula — o pai delas falou alto. — Vocês são velhas demais para brigarem desse jeito. — O pai de vocês está certo — a mãe delas disse, colocando as mãos nos quadris. Ela caminhou para a frente e se posicionou ao lado do marido. — Melissa, você tem vinte e dois anos. Você deveria se envergonhar. Spencer lançou um olhar satisfeito para a irmã. Fazia anos desde que Melissa tinha sido repreendida.


— Não que você seja melhor. — O pai de Spencer se virou para ela, como se estivesse lendo a mente dela. — Vocês deveriam ter aprendido a lição sobre estarem interessadas no mesmo garoto. Não tem desculpa colocar tintura no shampoo de cabelo da sua irmã. — Os pais de Spencer trocaram olhares cansados, deixando escapar suspiros combinados. Melissa deu um nó no seu roupão e abriu a porta do quintal. — Eu tenho que ligar para o salão agora e ver se eu consigo corrigir esse desastre — ela disse, em seguida, se afastou bruscamente. Seus passos podiam ser ouvidos por todo o caminho até as escadas. O pai de Spencer começou a varrer os cacos de cerâmica quebrados com uma pá de lixo. Sua mãe se virou para ela e balançou a cabeça. — Quando eu te disse para fazer o que fosse preciso para conseguir esse menino, eu não quis dizer que você estragasse o cabelo da sua irmã. — Mãe, eu... Mas sua mãe a interrompeu com um aceno de mão. — Me poupe. Então, ela e o Sr. Hastings vagaram em direção à piscina, resmungando baixinho um com o outro. Spencer observou quando a mãe dela se inclinou para o pai dela, e ele colocou um braço em torno do ombro da Sra. Hastings. Spencer não pôde deixar de sorrir. Foi o mais próximo de um abraço entre eles do que ela viu em dias. Nada como duas crianças em conflito para aproximar um casal.


13

UM PULO NO DESCONHECIDO Algumas horas mais tarde, Spencer estava no cais ao lado da sorveteria Finger Lickin e da joalheria cuja vitrine da frente era cheia de Rolexes brilhantes e pulseiras Cartier elegantes. Um enorme guindaste foi estendido sobre a baía, e uma grande faixa que dizia BUNGEE JUMP DE LONGBOAT KEY havia sido esticada entre os postes de iluminação, cercados por bandeiras vermelhas, brancas e azuis. Assim como a festa de véspera de Ano Novo, bungee jump era uma tradição anual — a família dela sempre vinha aqui e balançava a cabeça para os loucos o suficiente para se jogar na baía com apenas um pedaço de corda para salvá-los da morte instantânea. Esse ano, Spencer tinha idade suficiente para saltar sem ter que pedir permissão dos pais e isso era exatamente o que ela pretendia fazer. Parecia o tipo de coisa que Colin faria, e como Melissa iria passar o dia inteiro no salão de beleza para se livrar da cor azul, isso significava que Spencer poderia finalmente conseguir algum tempo a sós com ele. Ela esperava. Ela olhou para as multidões de jovens universitários, os viciados em adrenalina com vinte e poucos anos e os homens sofrendo de crises de meia idade fazendo fila para pular. Na quinta série, a última vez que a família dela e Ali tinham visitado Longboat Key durante as férias de inverno, o irmão de Ali, Jason, tinha esperado ansiosamente na fila, segurando a permissão que os pais dele haviam assinado. Ali e seu grupo de amigas tinham estado perto dele, o provocando enquanto perguntavam se ele estava nervoso, se ele estava preocupado com o salto ou se ele já tinha ouvido o rumor de que bungee jumping às vezes faziam os testículos dos caras explodirem. Spencer tinha rido de todas as zombarias, e Ali tinha se virado e dado a ela um olhar desagradável. Spencer continuou a examinar a fila. De fato, Colin estava esperando na frente. Ela sentiu uma vibração pequena dentro do estômago com a visão dele. Ele estava teclando em seu celular com o cenho franzido. Spencer respirou fundo e andou até ele. — Tudo bem? Colin olhou para cima. — Oh, oi. Sim, eu estava apenas mandando mensagens para Melissa. Ela me disse que iria me encontrar aqui, mas eu não tenho notícias dela. Você sabe onde ela está? — Ela disse que vinha se encontrar com você aqui? — Spencer fez uma careta. — Ela não gosta dessas coisas. Ela está no salão, ajeitando o cabelo. Ela provavelmente vai ao salão todos os dias. Colin deslizou o celular de volta no bolso, um olhar estranho cruzou seu rosto. — Salão de beleza? Sério? Ela não me parece esse tipo de garota. — Não? — Spencer se inclinou contra um dos postes de madeira e observou quando uma pessoa pulou do guindaste de bungee jump. A multidão aplaudiu. — Ela é viciada em salão de beleza. Ela depila os braços com cera, faz luzes nos cabelos, tratamento facial mensal e depois as unhas, tratamentos de Reiki, cabine de bronzeamento... ela é super alta manutenção. — Huh. — Colin passou a mão pelo queixo e olhou para Spencer.


Segundos se passaram. Colin não desviou o olhar até que o guindaste começou a ranger e o guincho da torre lentamente trouxe o saltador para cima. Colin olhou para o celular de novo. — Então, é verdade o que você disse na praia ontem? Melissa realmente namorou um criminoso? Spencer abriu a boca, pronta para contar a história toda sobre Ian, mas de repente algo a fez mudar de ideia. Falar de Ian sem Melissa aqui para se defender parecia um pouco cruel, até mesmo para ela. Não tinha como Melissa saber que ele tinha matado Ali, afinal. Ela nem sabia que eles tinham estado juntos. — Colin? Melissa caminhava até o cais, seu cabelo agora com mechas brilhantes de loiro mel. Quando ela viu Spencer, seus olhos brilharam, mas ela passou por ela pela direita, abraçou Colin e deu um grande beijo nele. — Desculpe o atraso. Colin segurou uma mecha de cabelo de Melissa e a deixou cair. — Spencer disse que você estava no salão. — Ah, só para um pouco de retoque — Melissa falou animada. Ela apertou a mão de Colin. — Eu não iria perder o seu grande salto! — Meu grande salto? — O sorriso de Colin era um ponto de interrogação. — Você não vai saltar também? Melissa piscou com força. Seu olhar foi desviado do guindaste até o saltador pendurado sobre a baía. — Hum... — Vamos lá, você chegou na hora certa. — Colin gesticulou ao redor, o que indicava que eles eram os próximos da fila. — Você pode saltar antes de mim. Você vai adorar, eu prometo. Um dos trabalhadores do bungee, um cara magro com cabelos trançados, olhou para as pessoas na fila. — Ok, pessoal. Quem é o próximo? O rosto de Melissa ficou pálido. — Colin, eu acho que eu não consigo fazer isso — disse ela com uma voz de donzela em perigo, a mesma que tinha usado durante o grande salvamento da água-viva ontem. Colin zombou. — Você está sendo boba. É muito divertido e totalmente seguro. Você tem que viver um pouco. — Uh, quem vai? — Tranças perguntou impaciente, sacudindo a corrente de sua carteira. Os joelhos de Melissa estavam colados, e ela apertava seus lábios com tanta força que eles estavam brancos. — Sério, Colin — ela disse com uma voz trêmula. — Eu odeio altura. Colin passou a língua sobre os dentes. Ele olhou para Melissa por quase um refrão inteiro da música heavy metal que estava tocando nos alto-falantes. Spencer prendeu a respiração, observando a mudança das feições de Colin enquanto a imagem que Melissa tinha pintado de si mesma tinha se transformado em algo bem menos interessante. Isso a lembrou de uma vez quando o pai de Spencer tinha aprontado tudo para comprar uma Ferrari vintage de um cara a duas cidades de distância, mas ele tinha descoberto que o transporte estava cheio de ferrugem e o carro não tinha sido mandado. Ela se empurrou entre ambos. — Eu vou pular. — Você? — Melissa parecia chocada. — Ótimo. — Tranças se afastou para que Spencer pudesse subir no pequeno elevador que iria levá-la para o topo da torre. Ela fez de tudo para permanecer relaxada quando ele trancou-a no compartimento e o elevador começou a se mover. Melissa olhava furiosa para ela. Colin, por outro lado, parecia impressionado. Boa sorte, ele gesticulou com a boca.


A subida demorou cerca de um minuto. Spencer observou as pessoas do cais ficarem menores e menores e sua visão da baía se expandir. Quando ela chegou ao topo, um instrutor amarrou-a e disse a ela o básico de como saltar — tentar permanecer relaxada, esticar os braços e saltar para um mergulho de cisne para não machucar as costas. E então, essa era a hora de ir. Spencer se arrastou em direção à borda da torre, seu pulso acelerado. As ondas se chocavam tranquilamente a um zilhão de metros abaixo. A água parecia tão escura e sem fim daqui de cima. De repente, ela se lembrou de quando ela estava pendurada sobre a borda da Pedreira Homem Flutuante com Mona Vanderwaal. Como o abismo negro tinha sido. O quão certa ela estava de que ia despencar e morrer. Os gritos estridentes e desesperados de Mona quando ela tinha caído, a contagem de quatro Mississippis até ela atingir o fundo. Um riso leve perfurou o silêncio, e Spencer virou rapidamente a cabeça para a direita. As pessoas do cais esticavam-se para vê-la. Uma gaivota pousou em uma boia branca e vermelha. Spencer balançou a cabeça. De jeito algum alguém poderia estar rindo dela, nessa altura. — Você está pronta? — O instrutor perguntou, dando outro puxão na corda elástica para se certificar de que estava segura. A boca de Spencer parecia coberta de lã. Suas mãos pareciam lisas e ela começou a suar debaixo dos braços. Mas ela não podia se acovardar agora. — Pronta — ela respondeu com a voz trêmula. Os instrutores contaram a partir de três. Spencer engoliu em seco, empurrou o queixo para cima e deu um passo para fora da borda. No início, ela se sentiu leve, e depois seu estômago mergulhou em sua garganta. Ela ouviu gritos ao seu redor, percebendo a apenas alguns milésimos de segundo mais tarde que eram dela. A água abaixo dela se aproximou mais e mais rápido, seu corpo estava mais pesado, até ouvir um thwock — a corda tinha sido esticada e a puxou com força para cima. Logo veio uma parada, e ela ficou pendurada sobre a água. Ela tinha conseguido. Ela estava viva. Ela suspirou, ouvindo o som das batidas do seu coração disparando em seus ouvidos. Um grito veio do cais. — Yeah! — Spencer estendeu os braços. Ela se sentia alegre e livre, como se ela tivesse acabado de deixar todos os problemas dela, no topo do guindaste. Ela se virou em direção ao cais, procurando Colin e Melissa, mas ela não os viu em nenhum lugar. De repente, isso realmente não importava. O guindaste lentamente a puxou de volta para o topo. O instrutor pairava sobre a borda e soltou o cinto de segurança dela. — Isso foi incrível — Spencer arfou. — Eu disse que era incrível! — disse uma voz atrás dela. Spencer olhou por cima do instrutor. Colin estava de pé sobre a plataforma com o equipamento de segurança. Eles eram os únicos saltadores no cais. — Então eu acho que Melissa não quer ir, não é? — ela perguntou. Colin torceu as mãos na cintura. — Na verdade, ela foi embora. — Ele soltou uma risada desconfortável. — Ela não quis ficar por aqui depois do que eu disse a ela. O coração de Spencer parou. — O que você disse? Os olhos azuis de Colin capturaram os dela. — Que os meus sentimentos mudaram. Que eu escolhi a irmã errada. A mesma adrenalina que Spencer tinha acabado de sentir no bungee jump passou por ela mais uma vez. Ela tentou manter uma expressão neutra no rosto, mas ela podia sentir seus lábios se elevando em um sorriso. Colin se aproximou e pegou a mão dela. Spencer podia sentir o cheiro dele de areia e protetor solar e tentou não desmaiar. E foi assim, na frente dos instrutores e a centenas de metros de altura, que ele se inclinou para frente e pressionou seus lábios nos dela. Os


olhos de Spencer se fecharam. Seu coração batia forte no peito. Ela podia sentir os instrutores se moverem com impaciência atrás deles, mas ela não se importava. O beijo foi rápido demais, e Colin se afastou. — Quer saltar junto comigo? — E pode? — Spencer olhou para o instrutor, e ele assentiu, entediado. Ela passou os dedos sobre seu equipamento de segurança e encolheu os ombros. — Claro. Por que não? O instrutor terminou de prender Colin, amarrou Spencer com a mesma corda, e os dois caminharam juntos até a borda. Enquanto eles contavam, Colin se virou para Spencer e tocou o rosto dela. — Eu não sei por que demorei tanto tempo para perceber, Spencer. Você pode me perdoar? Spencer tremeu por dentro. Em vez de dizer qualquer coisa, ela agarrou a mão de Colin e apertou com força. E então, juntos, eles pularam para o abismo.


14

MESA PARA DOIS — Por aqui. — Uma garçonete latina que não deveria ter mais de um metro e cinquenta de altura levou Spencer e Colin em torno de um bosque de palmeiras em um jardim mediterrânico privado na parte de trás do Mia Vista, um dos restaurantes mais procurados de Longboat Key. Belíssimas flores roxas, azuis e amarelas se enrolavam em torno de grades brancas e uma pérgola de madeira. Uma lareira em forma de colmeia chamejava no canto, mandando uma quantidade certa de calor para reduzir o frio leve do ar e uma banda de jazz tocava suavemente no canto. Eles pararam em frente a uma mesa de canto com uma toalha branca, uma vela acesa branca e uma taça de champanhe em cada um dos assentos e, claro, uma AminoSpa gelada para Colin. Em todas as fantasias de Spencer, ela nunca teria pensado num lugar melhor do que esse para o primeiro encontro. Ela se acomodou em sua cadeira, alisando a saia do vestido novo que ela tinha comprado naquela tarde. Colin sentou-se de frente para ela, parecendo super bronzeado em sua camisa pólo Lacoste branca. — Isso é tão perfeito — disse Spencer. — Nós não poderíamos ter escolhido um lugar melhor — disse Colin, na mesma hora. Os dois pararam e riram. A garçonete voltou com as bebidas e alguns cardápios. Colin bebeu um gole de AminoSpa gelada, e depois caiu na gargalhada. — Lembra do quanto você odiou isso no nosso primeiro encontro? — Ele se inclinou na mesa e pegou a mão de Spencer. Ela se sentiu corar. Então ele considerava o jogo de tênis como um encontro! Essa situação toda era tão surreal. Pela primeira vez, pelo que parecia, ela realmente tinha ganhado. Melissa não estava em casa quando Spencer tinha voltado para casa depois do bungee jumping, Spencer também não tinha visto ela na cidade. Spencer não tinha certeza do que ela teria feito se tivesse cruzado com ela. Ela sabia que deveria se sentir triunfante por roubar Colin, mas parte dela se sentia... péssima. Isso era muito parecido com o que ela sentiu quando beijou Ian na garagem dela — mesmo que tivesse sido empolgante ficar com o garoto sênior mais gostoso da Rosewood Day, ela não pôde evitar se sentir culpada, mesmo que Melissa sempre fosse uma verdadeira vadia com ela. Mas isso não mudava o que ela sentia por Colin, que estava olhando para ela com desejo com seus olhos suaves e um pequeno indício de um sorriso no rosto. — O que você está pensando? — ela perguntou. Ele meio que deu de ombros, acariciando a palma dela. — Só o quanto você é linda. Ela sentiu um arrepio percorrer toda a extensão de sua coluna. — Você não é tão ruim também — disse Spencer, baixando os cílios. A garçonete reapareceu e anotou os pedidos deles. Quando ela foi embora, Colin suspirou. — É uma droga você ter que ir para casa em breve. — Eu sei. — Spencer fez beicinho. — Mas talvez eu possa voltar e te visitar. Quanto tempo você vai permanecer aqui? — Sua mente se agitava, evocando imagens deles mergulhando, velejando e tomando limonadas na praia após uma prática de tênis.


— Eu vou ficar aqui até fevereiro. Mas o problema é que eu vou estar treinando muito — disse Colin, se movendo em seu assento. — Eu quero entrar em alguma disputa esse ano, lembra? — Ah, é claro. — Spencer se endireitou. — Eu nunca iria te manter longe do seu treinamento. Eu treino com você se você quiser, embora você provavelmente queira um parceiro melhor. — Não, isso seria realmente incrível. — Colin usou seu canudo para mexer um pedaço de gelo no fundo do seu copo. — Quem sabe? Se as coisas correrem bem, talvez você possa vir comigo para algumas das minhas competições. — Ele se recostou na cadeira e cruzou os braços sobre o peito. — Nós poderíamos ir para a Austrália juntos. Roland Garros, na França. Nós poderíamos nos encontrar em Nova York, para o US Open. — Eu poderia sentar na área dos visitantes especiais e acenar para as câmeras da ESPN — Spencer disse entusiasmada. — Você vai parecer incrível nas arquibancadas — Colin sussurrou. — Você vai parecer incrível na quadra — disse Spencer. Eles se inclinaram e se beijaram levemente. Uma carga elétrica passou através do corpo de Spencer. Ela se recostou. — E se, Deus me livre, você não conseguir se classificar esse ano, você vai voltar para Connecticut, certo? Eu poderia dirigir até lá e visitar você. Rosewood não é tão longe. Um músculo na mandíbula de Colin se contraiu. — É, eu acho que não. — Por quê? Ele levantou um ombro. — Meu apartamento meio que... — ele parou. — Meio que o quê? — É embaraçoso? Pobre? Ou talvez ele morasse com um tio assustador ou tenha muitos gatos. — Não importa. Não vamos nos preocupar com isso agora. — Colin segurou o queixo dela nas mãos. — Vamos falar sobre você, ao invés. Quando você começou a perceber que tinha uma queda por mim? — Provavelmente quando eu descobri que nós dois somos viciados em organização — Spencer brincou. Colin balançou o dedo para ela. — É melhor você ficar longe do meu guardaroupa. Eu tenho que ajeitar do jeito que eu quero. Spencer fingiu fazer beicinho. — Mas os guarda-roupas são os que eu mais gosto de organizar! Quando as entradas chegaram, Colin começou a contar uma história sobre um jogo de tênis que tinha terminado em sete break points que durou até Spencer espetar com o garfo o último pedaço de caranguejo. Ela riu e gemeu nas falas certas, em seguida, tentou contar uma história sobre quando um jogo de hóquei de campo tinha ido para a prorrogação, mas Colin estava tão entusiasmado que ele continuou falando e interrompendo ela. Ele deve estar nervoso, ela pensou, sorrindo para ele. Que fofo. A garçonete apareceu. — Alguma sobremesa para os pombinhos? Spencer abriu a boca para pedir um café e um cardápio, mas Colin interrompeu. — Eu acho que não — ele disse rapidamente, checando seu celular. Ele deu de ombros para Spencer. — Você conhece minha rotina. Eu tenho que ter uma boa noite de sono. Spencer se esforçou para sorrir. — É claro. Mas talvez apenas um rápido... — Vamos querer a conta — Colin interrompeu. A garçonete olhou para Spencer, gesticulou sinto muito com a boca, e saiu, levando os cardápios de sobremesa com ela. Colin amassou o guardanapo, jogou-o


sobre a mesa e disparou um sorriso triunfante para Spencer. — Eu vou correndo no banheiro. — Tudo bem — respondeu Spencer, tentando esconder seu desapontamento. Ela checou seu celular, tinha uma mensagem de Emily perguntando quando ela voltaria para Rosewood, e então analisou sua manicure, que ainda estava impecável. Ela cruzou e descruzou suas pernas e, em seguida, tamborilou os dedos contra a toalha. A garçonete trouxe a conta deles, e Spencer deixou onde estava, no centro da mesa, um pouco torta em direção à cadeira ainda vazia de Colin. Colin estava demorando demais. Deve ter havido algum problema, Spencer decidiu. Ela olhou para o celular de novo, e leu vários posts do blog Go Fug Yourself. Ela retocou o seu brilho labial. A garçonete voltou para pegar a conta. Spencer colocou a mão sobre o envelope de couro. — Uh, não pagamos ainda — ela disse com o rosto em chamas. Quinze minutos se passaram. O casal que estava sentado ao lado deles foi embora de mãos dadas, e um novo casal se sentou. Não havia nenhum sinal de Colin. Spencer se perguntou se ela tinha entendido mal. Colin tinha pensado que eles deveriam se encontrar lá fora na frente, perto do banheiro? Pensando que deveria ser isso, ela gesticulou para a garçonete e deslizou o cartão de crédito dela com tanta confiança quanto ela pôde reunir. A garçonete olhou para ela com simpatia, mas Spencer fingiu que estava tudo bem. O hall de entrada estava vazio. Spencer hesitou perto da porta do banheiro masculino, ela sentia um nó no estômago. Quando um homem mais velho com cabelos brancos saiu de trás da porta, Spencer perguntou se havia mais alguém lá dentro. — É meio urgente — explicou ela com a voz alta e dura. O homem deu a ela um olhar estranho. — Eu não vi ninguém lá dentro — ele disse finalmente. Spencer correu para a porta da frente, a sensação desconfortável ficou mais forte num piscar de olhos. Lá fora, ela deu uma volta rápida em todo o perímetro do edifício. Quando ela chegou no estacionamento, ela parou. Um homem com os mesmos ombros largos de Colin, cabelos escuros e bunda firme estava abraçado com uma mulher de trinta anos usando um vestido apertado. O cabelo liso e loiro dela estava preso em um rabo de cavalo e sua mão estava segurando um grande carrinho de criança. — Diga oi para o papai, Brady! — A mulher exclamou, sua voz soando por todo o estacionamento. Spencer arfou audivelmente. Papai? O casal virou-se para encará-la. O rosto de Colin adotou uma nota de surpresa e choque, mas ele se recuperou rapidamente, novamente dando aquele sorriso ultrabranco. — Spencer! — Ele acenou. — Venha aqui por um segundo! De alguma forma, Spencer conseguiu mover os pés, um depois do outro, em direção a Colin. Ela olhou para ele, em seguida, para a loira, e então para a criança no carrinho. Ela tinha ouvido direito? Ele era mesmo... pai? Quando Spencer estava a apenas alguns passos de distância, Colin sorriu, seus olhos ainda se movendo nervosamente. — Yvette, essa é Spencer. Ela é a garota que eu te falei, que eu estou dando aulas de tênis. — Eu sou Yvette DeSoto — a loira disse, sua voz doce como o mel. Ela estendeu a mão esquerda. Ela estava sobrecarregada com um enorme diamante e uma aliança de casamento cravejada de safira. — Espero que o meu marido não tenha sido muito severo.


As palavras soaram na cabeça de Spencer. Ela apertou a mão de Yvette rapidamente, o champanhe em seu estômago querendo subir de volta até a sua garganta. Meu marido. Colin tinha uma esposa. Mas se Yvette era a esposa dele, o que Ramona era dele? Ou Melissa? Ou ela? Spencer olhou para o bebê, que estava chutando suas perninhas e golfando. E Colin não tinha só uma esposa. Ele tinha um filho. Por uma fração de segundo, seu olhar retornou ao rosto de Colin. Ela tinha assumido que ele tinha acabado de terminar a faculdade, mas no brilho da lâmpada forte do estacionamento, Colin parecia diferente de alguma forma. Mais velho. As linhas ao redor dos olhos dele eram mais profundas, e uns cabelos brancos minúsculos apareciam na barba rala do seu queixo. Era como se ele de repente fosse uma pessoa completamente diferente. Depois de um longo momento, Spencer encontrou sua voz. — Uh, bem, foi muito bom te conhecer, mas eu tenho que... — Sua voz falhou, e ela se virou e fugiu, passando correndo por Range Rovers e BMWs. Quando ela finalmente chegou na calçada vazia detrás do clube, sem fôlego e estupefata, uma risadinha ecoou pelas árvores. Ela estava muito cansada para sequer olhar ao redor para ver quem era. Ela merecia ser ridicularizada por isso. Ela não tinha conseguido Colin, afinal. Ela não ganhou nada. Como de costume, Spencer Hastings tinha terminado com nada.


15

PARE DE CHORAR Na manhã de Ano Novo, Spencer estava na rede do quintal traseiro, virando as páginas do livro Moby-Dick, sem realmente compreender as sentenças. Quando ela chegou na palavra desprezível, ela destampou uma caneta Bic azul e a circulou. Em seguida, circulou as palavras desagradável, duas caras e enganador. Ela tinha feito isso nas últimas 20 páginas, circulando todas as palavras que a faziam lembrar de Colin. Isso a fez se sentir um pouquinho melhor. Spencer estava com ressaca de coração partido. Sua cabeça latejava e os olhos estavam tão vermelhos que ela tinha usado óculos escuros na cozinha, ignorando os olhares estranhos do pai dela. Ela chorou até dormir noite passada — e, em seguida, no chuveiro nessa manhã e novamente no café da manhã quando ela queimou o pão de trigo na torradeira. Ela dobrou o livro sobre o peito e olhou para o celular, que ela tinha colocado na mesa lateral ao lado da rede. Não há novas mensagens. É claro que não havia. É claro que Colin não tinha enviado uma mensagem para ela. Colin era um mulherengo, puro e simples. E ele era um trapaceiro. Ele não se importava com Spencer, ele nunca se importou. Ainda assim, as mentiras dele doíam. Alguma pessoa falava a verdade? Ali havia mentido para ela, convenientemente omitindo que ela estava secretamente saindo com Ian quando ela repreendeu Spencer por não dizer a Melissa sobre o beijo de Ian e Spencer. Até mesmo as antigas amigas de Spencer tinham mentido para ela — e ela havia mentido para elas — mantendo grandes segredos durante a amizade delas que só Ali sabia. E depois, claro, havia Melissa. — Ahem. Spencer olhou para cima. Melissa estava ali com uma xícara de café em uma mão e o jornal debaixo do outro braço. Spencer se encolheu, pronta para mais uma briga, mas a expressão da irmã dela estava surpreendentemente neutra. — Oi — Melissa disse em uma voz cansada. — Oi — disse Spencer timidamente. Melissa sentou-se na espreguiçadeira de teca ao lado da rede e colocou o café na mesa lateral ao lado do celular de Spencer. Ela analisou o rosto de Spencer. — Você descobriu que Colin tem uma esposa, não foi? Spencer fez uma careta. — Você sabia? Melissa balançou a cabeça loira. — Eu fui à quadra de tênis essa manhã e ela estava de pé nas arquibancadas, contando a todas as fanáticas dele quem ela era. E em todos os intervalos que ele tinha, ela fez ele ir até ela para que ela pudesse endireitar a camisa dele e massagear os músculos do pescoço. — Eu descobri noite passada depois que ele me abandonou no jantar — Spencer admitiu. — Ele é um mentiroso. — Melissa se inclinou para frente. — Você sabe o que mais eu descobri? Ele não é o colocado nonagésimo segundo no mundo do tênis, ele é o oitocentos alguma coisa. Com certeza não é bom o suficiente para ir a um torneio do


Grand Slam. — Ela pegou o café, tomou um gole e balançou a cabeça com desgosto. — Ele me disse: Eu vou te levar para a Austrália e França comigo. Você vai ser a garota mais bonita do US Open. E eu me apaixonei por ele. — Ele disse isso pra mim também! — Spencer exclamou. Melissa estalou a língua. — Ele deve ter dito isso a um milhão de meninas. Ele tem tudo armado, uma esposa rica em Connecticut e as garotas que ele quiser em Longboat Key. É nojento. Mas tem algo ainda pior. — Melissa cobriu a boca com a mão, parecendo um pouco verde. — Ele está registrado na categoria mestrado no torneio. Spencer estreitou os olhos. — O que isso significa? — Mestrado são para os jogadores de uma certa idade. Spencer, ele tem 33. — O quê? — Spencer pulou da rede, derrubando Moby-Dick no chão. Ela se sacudiu violentamente. — Você tem certeza? — Certeza absoluta. — Melissa balançou a cabeça tristemente. Spencer passou as mãos pelo rosto. — Eu não acredito que eu beijei ele! Ele é tão velho! Melissa bateu o punho no braço da cadeira. — Ele nos enganou completamente. E agora nós temos que fazer ele pagar. Nós? Spencer olhou para a irmã dela, a ponto de protestar que ela nunca mais iria acreditar na atuação de Melissa outra vez. — Espere aí. — Melissa a interrompeu antes que ela pudesse dizer qualquer coisa. — O que aconteceu entre nós são águas passadas, ok? Agora, tem duas coisas que precisamos fazer. A primeira: Não dizer a ninguém que isso aconteceu. Que eu saiba, você nunca namorou um cara de 33 anos de idade com uma esposa e filho. E nem eu. — Concordo. — Spencer assentiu. Graças a Deus ninguém de Rosewood sabia o que aconteceu. — E segundo. — Melissa levantou um dedo. — Antes de nós irmos embora amanhã à noite, precisamos nos vingar. Spencer se apoiou contra a grade da varanda. — Como? — Tem que ser algo bom. — Melissa lançou a cabeça para cima. — Talvez algo que pudesse arruinar as chances dele de ganhar o torneio de tênis de amanhã. Uma vingança perfeita por todas as garotas que ele enganou em Longboat Key. Spencer arrancou um pedaço de madeira lascada do corrimão, pensando em todas as fanáticas que se reuniam na ponta das quadras de tênis para assistir Colin jogando. Muitas delas haviam saído com ele? Quantas mais ele iria enganar quando Yvette fosse para casa? Ela se perguntou como ele mantinha todas as namoradas dele, ela imaginou o banheiro dele repleto de diferentes escovas de dentes usadas, uma para cada amante, assim como Nana. Colin provavelmente tinha estado tão impressionado com Nana e as trocas de homens dela, porque ele também era um galinha. Ela se perguntou se ele tinha um Viagra escondido também. De repente, ela levantou a cabeça rapidamente. — Oh meu Deus, Melissa. Eu sei o que podemos fazer. Um sorriso animado se espalhou pelo rosto de Melissa. — O quê? Spencer estendeu o braço para levantar a irmã. — Vamos lá. Eu vou te mostrar.


16

A MELHOR VINGANÇA O dia de Ano Novo amanheceu claro e fresco. Era o clima perfeito para um torneio de tênis e, a julgar pelo tamanho e pela roupa da multidão no Clube de Tênis de Longboat Key, todo mundo pensava assim também. Spencer ainda estava usando os óculos escuros, bebia um refrigerante diet e fingia observar os jogadores da divisão júnior, enquanto esperava o sinal de Melissa. Ela estava vasculhando as quadras, se certificando de que Colin, o treinador dele, Yvette, e até mesmo o bebê Brady estavam todos presentes. — Pronto — Melissa murmurou no ouvido de Spencer quando caminhou rapidamente até ela. Spencer se ergueu sobre suas sapatilhas Toms de pano e seguiu-a, abaixando a cabeça e se sentindo grata que o chapéu de palha que ela tinha pego do closet de Nana escondesse a identidade dela da dúzia de fanáticas de Colin, que haviam se posicionado bem perto da lanchonete. A caminhada até os vestiários foi rápida e tranquila, a não ser pelo ocasional barulho da multidão à distância, sempre que alguém marcava um ponto. De repente, um grupo de meninas usando tênis brancos passou pelo corredor. Melissa começou a rir. — Shhh. — Spencer deu um tapinha no braço de Melissa. — Você quer que a gente seja pega? — Vai ser muito engraçado — Melissa murmurou, enxugando os olhos. A porta do vestiário se abriu, e um cara alto, que não poderia ser muito mais velho do que dezoito anos, entrou no corredor. Melissa olhou pela porta. — Então, você tem certeza de que as coisas de Colin estão aqui? Spencer assentiu. Quando elas chegaram essa manhã, elas checaram todas as quadras que iam ser utilizadas para os torneios. Uma partida feminina estava ocupando a quadra principal agora, mas Colin estava praticando em uma quadra ao lado. — A mochila dele não está com ele. Não está com Yvette também. Eu não sei onde mais poderia estar. — Ok, então. — Melissa empurrou Spencer em direção à porta. — É agora ou nunca. Respirando fundo, as meninas abriram a porta do vestiário masculino e entraram correndo. O vestiário estava abençoadamente vazio. Spencer examinou os corredores, procurando freneticamente pela mochila Adidas verde-limão de Colin. Ela pensou ter achado a bolsa e se abaixou, pronta para pegar, quando um rangido alto veio dos armários de metal. Ela congelou. Dois passos soaram à distância, seguidos pelo som de portas se abrindo e se fechando. Ela soltou um suspiro, esperou mais alguns segundos, e depois pegou a mochila, que realmente era bordada com as iniciais dele. Suas mãos tremiam quando ela abriu o zíper e fuçou pelas camisetas, meias, raquetes extras, tubo de bolas e um pote de creme muscular. Finalmente, ela encontrou lá embaixo o que estava procurando: uma garrafa de AminoSpa lima-limão. Yeah. — Achei — ela disse a Melissa. Melissa tirou o frasco de Viagra que tinha roubado da gaveta de Nana e deslizou um comprimido em sua palma. — Nós deveríamos usar mais de um — Spencer sussurrou. — Talvez dois. Ou três.


Melissa balançou a cabeça e tirou mais dois comprimidos. Elas usaram a parte de baixo da garrafa AminoSpa para esmagar os comprimidos até se tornarem um pó fino, em seguida, despejaram dentro do líquido de limão. — Quando Colin vai jogar de novo? — Melissa murmurou. — Daqui a uma hora, eu acho — Spencer sussurrou. — Perfeito. Após a missão ter sido completada, elas se sentaram na quadra que Colin estaria jogando para esperar o show começar. O jogo das mulheres terminou rapidamente. Várias fãs saíram das arquibancadas e uma nova torcida sentou. As fanáticas de Colin estavam juntas na primeira fila da arquibancada. Yvette estava lá também, segurando o bebê e parecendo totalmente irritada. Os treinadores e os juízes de linha tomaram seus lugares e, finalmente, as portas do vestiário masculino se abriram e dois rapazes entraram na quadra. Melissa agarrou a mão de Spencer quando Colin orgulhosamente caminhou em direção ao treinador dele com a mochila verde pendurada sobre um braço e uma garrafa de AminoSpa na outra mão. A AminoSpa de lima-limão, para ser exata. Spencer teve que colocar a mão sobre a boca para não rir. Colin deixou cair a mochila na quadra e olhou para as arquibancadas, acenando obedientemente para sua esposa e atirando para as fanáticas dele um sorriso de um zilhão de watts. Então ele se virou e tomou um longo gole de AminoSpa, inclinando a cabeça para trás e deixando o líquido descer em sua garganta. Spencer cravou as unhas na palma da mão de Melissa. Colin e seu adversário rebateram a bola de um lado para o outro por um tempo até que eles ficaram prontos para jogar. Ele marcou os primeiros pontos sem esforço, seu saque preciso, seus backhands impossíveis de serem rebatidos, seus movimentos pela quadra hábeis e brilhantes. As fanáticas foram à loucura. Spencer se perguntou se Yvette sabia que o marido era um galinha, mas se sabia, Yvette simplesmente levantou os braços de Brady e os dois aplaudiram juntos, sorrindo com orgulho para o marido. Spencer olhou para Melissa, preocupada. — Por que não está acontecendo nada? — Espere mais um pouquinho — Melissa murmurou. Mais quatro pontos passaram e estava do mesmo jeito. Colin venceu o primeiro set com facilidade e seus torcedores aplaudiram. As esperanças de Spencer começaram a ir embora. Talvez o Viagra não funcionasse quando estivesse dissolvido. Ou talvez Colin tenha bebido uma garrafa diferente de AminoSpa. Mas, de repente, na primeira jogada do segundo set, algo começou a acontecer. Colin olhava para sua virilha com um olhar preocupado no rosto. Seus movimentos tornaram-se mais rígidos, desconfortáveis. Ele perdeu alguns rebates fáceis, se virando de modo que suas costas ficassem de frente para a multidão. Quando chegou sua vez de sacar e jogar a bola no ar, o calção se esticou de tal forma que ficou óbvio que o Viagra dissolvido tinha, bem, funcionado. Melissa deu uma cotovelada em Spencer. Um murmúrio percorreu as arquibancadas. Algumas garotas trocaram sorrisos incrédulos. Colin tentou dar outro saque, e dessa vez o calção não escondeu nada. Duas pessoas começaram a rir. As mandíbulas dos juízes de linha caíram. O juiz principal se mexeu desconfortavelmente. Colin errou o saque duas vezes e cobriu a virilha com uma toalha, o juiz o chamou pelo megafone: — Você precisa de um minuto, Sr. DeSoto? — Uh-huh — Colin gemeu, andando com as pernas abertas de volta para o seu assento. As risadas se intensificaram. Yvette cobriu os olhos. Colin olhou para sua virilha com horror, seu rosto vermelho brilhante.


— Vamos. — Melissa colocou sua bolsa em torno de seu ombro e se levantou. — Nós não precisamos ver o resto disso, não é? — Eu acho que não — Spencer concordou. Elas se levantaram das arquibancadas, serpenteando ao redor das meninas rindo e dos fãs horrorizados. Naquele exato momento, Colin ergueu os olhos e olhou para as duas. As irmãs caíram na gargalhada. Spencer deu a ele um aceno de três dedos. Melissa acenou também. Talvez Colin nunca soubesse que elas tinham adulterado a bebida dele, mas elas sabiam — e isso era tudo o que importava.


17

FIQUE COMIGO, MANA Spencer e Melissa riram histericamente por todas as quatro quadras que elas caminharam de volta para a casa de Nana. Melissa imitou o andar de pato de Colin. Spencer olhou para sua virilha, fingindo estar horrorizada. — Essa foi a melhor vingança do mundo. — Melissa deu uma cutucada em Spencer. — Eu deveria ter sabido que você pensaria em algo tão malvado assim. Spencer se encolheu. — Não foi tão malvado assim. — Eu não quis dizer isso — disse Melissa. Em seguida, ela franziu a boca. — Tudo bem. Talvez eu quisesse. Eu não sei. Elas ficaram em silêncio. Um cheiro forte de flores flutuou no nariz de Spencer, deixando-a enjoada. — Eu realmente sinto muito por tudo — disse ela calmamente quando elas entraram pela garagem. — Eu sei. Eu também sinto muito. Spencer parou ao lado de uma hortênsia florida. — Nós sempre... fazemos isso. Competimos como loucas. Tentamos superar uma a outra. Isso não é certo. Melissa encolheu os ombros. — Não fui eu que comecei. Spencer olhou para ela. — Foi você quem começou sim. Fui eu que comecei a gostar de Colin primeiro. Você quis me ajudar, e então... — Você entregou Ian para a polícia — Melissa a lembrou. Spencer levantou as mãos. — Não foi para te magoar! Eu juro! — Bem, me magoou. — Melissa apertou a boca. Ela olhou na direção da casa de Nana. — E eu sinto muito, Spence, mas você me magoou muito esse ano. Você me empurrou das malditas escadas, lembra? — Quantas vezes eu já disse que sinto muito por isso? Melissa suspirou e enfiou as mãos nos bolsos. Uma brisa fresca levantou a camiseta de Spencer, secando o suor da parte de trás do seu pescoço. Ela pressionou os dedos em suas pálpebras e suspirou. Há poucos minutos, elas estavam rindo e brincando. Tudo estava perfeito. Agora parecia que elas tinham arruinado tudo novamente. — Eu só queria poder usar uma varinha mágica e fazer tudo voltar a ser como era antes — Spencer gemeu. Melissa olhou para ela. — Como era antes quando? — Quando éramos pequenas. Quando éramos amigas. Quando costumávamos fazer castelos e espionar a mamãe e o papai. Melissa fez uma careta. — Spence, você tinha, quantos mesmo? Cinco anos de idade? Seis? A vida é um pouco mais complicada agora. As coisas mudaram. Lágrimas encheram os olhos de Spencer. Tudo o que Melissa estava dizendo era completamente verdade. Não tinha como voltar atrás. Muita coisa tinha acontecido. Mas isso significava que elas tinham que sabotar uma a outra toda hora? Melissa estava querendo dizer que a brincadeira delas com Colin tinha sido uma coisa ocasional e não uma indicação de que elas poderiam formar uma ligação mais forte?


O rosto de Melissa suavizou, como se ela pudesse ler todos os pensamentos de Spencer. — Olha, Spence. Eu também não quero brigar com você. E talvez, algum dia, possamos descobrir como fazer as coisas funcionarem entre nós. Mas eu não acho que tenha uma solução fácil, e eu não acho que isso possa acontecer de um dia para a noite. Sinto muito. Ela deu a Spencer um tapinha no ombro, em seguida, deu de ombros e voltou para a casa. Todos os tipos de sentimentos invadiram Spencer de uma vez só. Arrependimento. Tristeza. Decepção. Mas esperança também. Talvez, com o tempo, as coisas fossem melhorar entre ela e Melissa. Elas só tinham que aprender a conviver juntas. Quando elas conseguissem, elas formariam um time extraordinário. Afinal, elas poderiam fazer tenistas ficarem de joelhos — literalmente. Um riso fraco soou, e Spencer olhou para os arbustos. Ela tinha ouvido aquele riso tantas vezes, agora ela já estava quase acostumada. Sua pele se arrepiou na mesma hora que ela sentiu um pressentimento estranho quando seu estômago se apertou. E se alguém estivesse observando ela? E se esse pesadelo não tivesse acabado? Mas era impossível. Jogando o cabelo sobre o ombro, ela virou e se dirigiu para a casa, também, colocando A e o horror do último semestre pra trás de uma vez por todas.


FELIZ ANO NOVO PARA MIM Agora que todas as minhas excursões estão completas, meu glorioso feriado terminou. E, ai, ai, ai! Nossas Pretty Little Liars estiveram tão ocupadas! Hanna desistiu do campo de treinamento. Emily subornou um policial. Aria se casou, com um ecoterrorista, nada menos. E Spencer — bem, vamos apenas dizer que ela realmente sabe, er, bombear o sangue de um cara. Pobre Spence. O que ela mais quer no mundo é uma família que não a odeie. Uma irmã que ajude ela a conseguir um cara sem apunhalá-la pelas costas. Pais que ouçam os problemas dela e sempre estejam ao seu lado. Ela mal sabe que tem uma razão para eles tratarem ela como uma intrusa. A família perfeita dela não é tão perfeita como parece. Os Hastingses têm alguns segredos gigantes. E quem melhor para contá-los a Spencer do que moi? Mas, por mais emocionante que esses passeios de férias tenham sido, a minha diversão está apenas começando. Meus planos grandiosos farão a espionagem de Mona parecer mais amadora do que os sutiãs de malha faça-você-mesmo de Aria. Graças a mim, Hanna está prestes a cair tanto na cadeia alimentar que ela nunca vai ser capaz de voltar para cima novamente. A vida amorosa de Aria irá ficar ainda mais confusa. Emily irá quebrar o coração de sua mãe em um milhão de pedaços. Spencer vai destruir sua família, de uma vez por todas. E em breve, Ali não será a única em Rosewood que irá morrer jovem e de forma trágica. Isso soa cruel? Bem, o que eu posso dizer? Essas vadias arruinaram a minha vida. E eu acredito em olho por olho. Ou no meu caso, as vidas delas pela minha. Então, quem eu sou? Você vai saber em breve. Mas, até então, eu sou a sombra na janela, o sussurro do vento, a sensação incômoda de que alguém está observando e esperando. Spencer e suas amigas podem decidir serem boas nesse ano novo, mas eu vou estar lá para ajudá-las a permanecerem pecadoras. Apertem os cintos, senhoritas. Se eu tivesse que dizer alguma coisa sobre isso, eu diria: esse Ano Novo será o último de vocês.

—A

P


A Pretty Little Liars Novel

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