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_>>> Jornal Valor Econômico - CAD D - EU - 30/10/2008 (21:1) - Página 10- Cor: BLACKCYANMAGENTAYELLOW Enxerto

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Valor

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Quinta-feira, 30 de outubro de 2008

EU&Livros AP

SUSTENTABILIDADE

Biblioteca

A insistente busca da humanidade perdida

“A Matemática Através dos Tempos” Wlliam P. Berlingoff e Fernando Q. Gouvêa. Blucher. 279 págs. R$ 59

Jeffrey Sachs retoma o espinhoso tema da arquitetura de um mundo menos irracional. Por Ricardo Abramovay , para o Valor “A Riqueza de Todos - A Construção de uma Economia Sustentável em um Planeta Superpovoado, Poluído e Pobre” Jeffrey Sachs. Nova Fronteira. Tem fundamento o declarado otimismo do último livro de Jeffrey Sachs? É possível, para usar sua expressão, “evitar o rochedo”? Afinal, ele mesmo reconhece a imensidão dos quatro desafios centrais de nossa época. O primeiro está nas “pressões humanas sobre os ecossistemas e o clima da Terra, que, a menos que substancialmente amenizadas, causarão mudanças climáticas perigosas, extinção em massa de espécies e a destruição de funções essenciais que sustentam a vida”. O segundo consiste em evitar que a previsão das Nações Unidas, de 9,2 bilhões de habitantes em 2050 (2,5 bilhões a mais que hoje) se realize. O terceiro refere-se à persistente miséria absoluta de mais de um bilhão de pessoas, apesar do extraordinário aumento de renda em países como China, Índia e Brasil, que compõem o que Sachs chama de “clube da convergência”. O quarto é o de superar uma espécie de paralisia da cooperação internacional, que hoje se encontra curvada sob “o peso do cinismo, do derrotismo e de instituições ultrapassadas”. As respostas a esses desafios articulam-se em torno de quatro pontos básicos: o primeiro é a pesquisa, o avanço da ciência e sua transformação em tecnologia. “A solução central para acabar com a miséria é equipar os pobres com uma tecnologia avançada, de tal modo que possam se tornar membros produtivos da economia mundial”. A segunda resposta é o plane-

jamento familiar. A realidade da transição demográfica não impede uma dinâmica perversa: quando a mortalidade infantil se reduz de forma significativa, a tendência é que decline também a taxa de fecundidade total. Só que, entre a diminuição da mortalidade infantil e a queda na fecundidade, decorre um tempo em que as famílias tendem a ser ainda muito grandes. Não se trata, para Sachs, de preconizar qualquer tipo de “controle da natalidade” e sim de estimular escolhas voluntárias por parte das famílias (e, sobretudo, das mulheres), a partir do amplo acesso às tecnologias disponíveis. O chocante é que o governo americano moveu, nos últimos anos, verdadeira guerra contra o planejamento familiar, por razões de fundamentalismo religioso. É importante perseguir o objetivo de estabilizar a população mundial em 8 bilhões de habitantes e não nos 9,2 bilhões previstos pela ONU. A construção de um sistema global de governança (e a radical revisão da política externa americana) é a terceira resposta aos desafios atuais. A quarta referese à miséria, para a qual existem meios técnicos disponíveis capazes de assegurar sua erradicação nos próximos 30 ou 40 anos. Quanto custa evitar a catástrofe? Segundo Sachs, com menos de 1% da renda mundial anual é possível eliminar a pobreza absoluta, investindo no combate às doenças endêmicas, em educação e no apoio ao crescimento econômico dos países mais pobres, para que se juntem ao “clube da convergência”. Quanto é preciso para uma verdadeira política internacional que amplie a capacidade de as famílias escolherem a quantidade

Sachs: A cooperação internacional está rendida ao “peso do cinismo, do derrotismo e de instituições ultrapassadas”

de filhos que desejam ter e que inclui parto seguro, cuidados obstetrícios de emergência, serviços de planejamento familiar e oferta de meios para a contracepção? A estimativa é de 25 bilhões de dólares anuais, ou seja, 0,06% da renda dos países doadores. Enfrentar a crise contemporânea no abastecimento de água, mitigar os efeitos do aquecimento global e reverter o declínio da biodiversidade, sobretudo nos sistemas mais frágeis, custaria, ao todo, pelos cálculos de Sachs, cerca de 1% do PIB mundial. Os investimentos nessa direção têm ficado muito aquém desses objetivos. Concorrem para isso a falta de liderança global, a ausência de coordenação para superar a pobreza e adotar tecnologias que permitam compatibilizar crescimento com preservação. A responsabilidade dos Estados Unidos aí é trágica: um dia de despesas do Pentágono corresponde a recursos suficientes para fornecer mosquiteiros contra a malária para toda a África durante cinco anos. Outra razão para o declínio da ajuda internacional é o predomínio, sobretudo nos Estados Unidos, da ideologia segundo a qual o mer-

cado seria capaz de dar conta dos problemas sociais e ambientais contemporâneos. Sachs mostra o papel indispensável do Estado, não só para os países pobres, mas também no mundo desenvolvido. Entre as nações ricas, os estados de bem-estar social (como os predominantes em vários países europeus, sobretudo os escandinavos) têm menos desemprego, menos desigualdade e menos pobreza que os Estados Unidos. Sachs tem a ambição de oferecer um modelo de mudança para o mundo contemporâneo. Seu segredo está na simplicidade: os custos são baixos, as soluções disponíveis e, sobretudo, não é necessária nenhuma transformação sensível nos modos de vida dos mais ricos para ampliar o leque dos que partilham a prosperidade. Seu modelo de mudança não envolve qualquer mudança de modelo. O crescimento econômico segue como objetivo universal indiscutível. É verdade que a construção do que ele chama de economia sustentável exige transformações decisivas nas técnicas produtivas. Mas Sachs não questiona os padrões de consumo do mundo desenvolvido, nem sob o ângulo da eqüidade

nem na perspectiva dos limites do mundo natural. Não por outra razão, o livro em nenhum momento discute o próprio conceito de riqueza que lhe dá o título. A riqueza, para ele, são os bens materiais e serviços que compõem o leque de consumo atual da espécie humana. Não pode haver objetivo mais nobre do que colocá-la ao alcance do maior número de pessoas sem comprometer sua expansão para os que dela já desfrutam. Um dos desafios cruciais de nossa época — que Sachs optou por não enfrentar — está exatamente em saber se os limites que a natureza impõe à economia podem ser sempre satisfatoriamente superados por meio da técnica. O livro de Sachs mostra bem a existência de condições objetivas para varrer a miséria da face do planeta. Ficam na sombra os parâmetros em torno dos quais o “clube da convergência” será, de fato, ampliado. Ricardo Abramovay é professor titular do Departamento de Economia da FEA/USP, coordenador de seu Núcleo de Economia Socioambiental (NESA) e pesquisador do CNPq (www.econ.fea.usp.br/abramovay)

INSTITUIÇÕES

Ascensão e tropeços do Goldman Sachs AP

“The Partinership - The Making of Goldman Sachs” Charles D. Ellis. Penguin Press. 729 págs. US$ 37,95 BusinessWeek

Ellis: a história do gigante ferido, mas ainda presença central em Wall Street

O tempo dirá se Henry Paulson, arquiteto do socorro a Wall Street, terá seu nome consolidado como salvador do sistema financeiro americano ou simplesmente o salvador de muitos (colegas) “tubarões”. Mas o secretário do Tesouro e ex-CEO do Goldman Sachs certamente sabe como exercer o poder. Um exemplo é seu papel na demissão de Jon Corzine, que compartilhou com Paulson o posto de CEO no Goldman, depois que a improvável parceria — o metódico Paulson e o impulsivo Corzine — se desmanchou num bate-boca de “adolescentes”, nas palavras de um colega. Parece que o obstinado Corzine, atual governador de Nova Jersey, estava agindo com excessiva independência, em 1998, para o gosto de Paulson, um membro da diretoria executiva da empresa então de capital fechado. Corzine vinculou um montante ex-

cessivo de capital a um negócio arriscado e, atuando individualmente, abordou bancos comerciais como o Chase Manhattan, propondo uma fusão. Assim, enquanto Corzine, sem um traço de desconfiança, descia as encostas nevadas de Telluride, Colorado, acompanhado pela família na folga natalina, Paulson e outros três armaram um esquema que tirou Corzine do banco poucos meses depois. Entre os supostos conspiradores estava John Thain, atual comandante do Merrill Lynch e ex-presidente da Bolsa de Valores de Nova York (NYSE), um homem tão próximo a Corzine que este o havia designado curador de seus filhos. Um sócio no Goldman relembra: “Foi como viver a história da Roma imperial.” Esse relato suculento é um de muitos em “The Partnership: The Making of Goldman Sachs”, essa ode de 729 páginas elaborada por Charles D. Ellis à famosa empresa financeira. Ellis traça a evolução do Goldman desde quando pertencia a um só dono, em 1869, até hoje, quando ensangüentado, mas ainda de pé, continua a ser uma presença central em Wall Street.

Ao longo do caminho, o autor pinta um notável quadro em mutação representando o crescimento de Wall Street. Viajamos desde dias cavalheirescos, quando “pilhar” o cliente de um rival era algo que bancos de investimentos simplesmente não faziam, até tempos mais recentes, quando operadores baseados em informações privilegiadas, duvidosos analistas de pesquisa e trapaceiros diversos (havia surpreendentemente poucos fraudadores no Goldman) tornaram-se alvo de espalhafatosas manchetes. Vemos empresas que começaram simplesmente oferecendo ações passando a jogar com derivativos sofisticados. E vemos como o Goldman, aos trancos e barrancos, tornou mundial suas operações, embora, incrivelmente, não de uma forma mais agressiva até meados da década de 1980. Recentemente, mais de metade de seus lucros, em alguns anos, começaram a vir de fora dos Estados Unidos, ao mesmo tempo que a instituição se tornava uma das maiores no clube dos “underwriters” globais, com negócios até na China.

O brasileiro Fernando Q. Gouvêa e o americano William P. Berlingoff, ambos doutores em matemática e professores no Colby College, em Waterville, nos Estados Unidos, são os autores deste “A Matemática através dos Tempos — Um Guia Fácil e Prático para Professores e Entusiastas”, que acaba de ter sua edição ampliada e de ganhar o Beckenbach Book Prize da Mathematical Association of America. Em 25 capítulos, o livro conta a história da matemática e de alguns conceitos básicos como forma de explicá-los com clareza não só a estudantes, mas aos interessados em geral em saber de onde veio essa ciência, quem pensou seus símbolos etc.

“Acontece nas Melhores Famílias” Marcelo Melo e Paulo Lucena de Menezes (organizadores.) Virgilia e Saraiva. R$ 64,90 “O Lago dos Cisnes”, conhecido balé dramático de Tchaikovsky, pode ajudar no sucesso de uma empresa familiar quando sensibiliza crianças. Pais empenhados em formar herdeiros, talvez futuros dirigentes de negócios familiares, desde cedo os levam ao teatro, procuram estimulá-los a ler, para que assim adquiram cultura, conhecimento. Esse é um dos capítulos deste livro que também fala de governança corporativa, abertura de capital, estratégias tributárias, entre outros temas de interesse para quem de alguma forma está envolvido ou pretende ser parte no mundo multifacetado das empresas familiares.

Mais vendidos* Livros de economia e negócios 1º “A Arte da Guerra” Sun Tzu, Jardim dos Livros, R$ 34,90 2º “Investimentos Inteligentes” Gustavo Cerbasi, Thomas Nelson Brasil, R$ 34,90 3º “Emprego de A a Z” Max Gehringer, Globo, R$ 29,90 4º “O Monge e o Executivo” James C. Hunter, GMT, R$ 19,90 5º “O Jeito de Warren Buffett de Investir”Robert G. Hagstrom/ Cristina Yamagami, Saraiva, R$ 39,90 6º “Casais Inteligentes Enriquecem Juntos” Gustavo Cerbasi, Gente, R$ 30,00 7º “Os Segredos da Mente Milionária” T. Harv Eker, GMT, R$ 19,90 8º “Os 7 Hábitos das Pessoas Altamente Eficazes” Stephen R. Covey, Best Seller, R$ 39,90 9º “Os Axiomas de Zurique” Max Gunther, Record, R$ 30,00 10º “A Estratégia do Oceano Azul” W. Chan Kim/Renee Mauborgne, Campus/Elsevier, R$ 59,90 Fonte: Livraria Cultura, Saraiva, Siciliano e Submarino. Elaboração: Valor Data * Entre 20/10/08 e 26/10/08 Obs: Preços sugeridos pelas editoras.


A insistente busca da humanidade perdida