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16 feito um personagem do Tarkovsky o homem juntando reciclĂĄvel carrega consigo entre cada gesto expressĂŁo e palavra

[dita a si mesmo]

uma garoa de abismos gordas gotas de silĂŞncio

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17 I: operação de rotina vinte metros de casa a barreira cada vez mais perto daqui a pouco eles vão tá aqui dentro pensa... abre o sorriso abre a mochila abre a sacola abre a marmita revira o arroz o feijão e a bisteca frita no outro compartimento a carteira de cigarro um isqueiro e a

ONDE OS PÁSSAROS CANTAM DOENTES • Felipe Teodoro


escova de dentes o militar joga a mochila no chão e ordena: — Teu nome? joão. joão da silva. — Documento? esqueci na obra, senhor. e a criatura de farda ri e diz — Conta outra, neguinho desse jeito você não vai passar. joão olha no relógio o coração acelerado suor frio escorrendo no rosto cansado mais alguns minutos e ele chega atrasado não tem como voltar o patrão não vai perdoar atrasar não de novo eu sou trabalhador, senhor. ontem mesmo passei aqui com o senhor mesmo senhor. 71


e a coisa diz: — Eu não te conheço. e as armas gritam: — Sem documento ninguém vai passar mas se quiser você pode tentar... II: ordens da casa não são crianças saindo da escola são bandidos e projetos de bandidos revistem suas mochilas vocês vão encontrar drogas ou armas vocês vão encontrar entre os livros e cadernos entre os lápis e canetas alguma coisa de bandido algum rastro de culpa alguma coisa errada tem que ter sempre tem bandido é bandido não são trabalhadores descendo o morro ONDE OS PÁSSAROS CANTAM DOENTES • Felipe Teodoro


são bandidos projetos de bandidos e ex-bandidos por isso peçam os documentos tirem fotos dos seus rostos tirem fotos dos seus documentos tirem mais fotos dos seus rostos e tirem mais fotos dos seus documentos procurem por tatuagens suspeitas intimidem e ameacem revistem as bolsas as bocas os bolsos as sacolas os sapatos revistem tudo pois são bandidos e eles sabem esconder bem disfarçar muito bem sabem até chorar quando é preciso não acreditem em suas histórias em suas lágrimas de crocodilo bandido nem é gente e aqui só tem isso: bandido. entenderam? 73


III: todo mundo quieto enxurrada de balas passando caçando blindado comendo pedra barro lixo alimentando medo no céu cinza paira o pássaro de ferro com seus olhos de fogo prestes a arrancar todas as telhas pronto pra arrancar o que for preciso no colégio o professor sussurra: tudo mundo quieto qualquer movimento pode ser fa...

ONDE OS PÁSSAROS CANTAM DOENTES • Felipe Teodoro


[...] uma garoa de abismo gordas gotas de silĂŞnc


[...]

meu corpo

vivo como

uma enorme ferida

pulsando

olho de peixe

pus

buraco podre

pulsando

cheio de pus

meu corpo

sangrando

e a minha

alma escorrendo lentamente

pelos meus olhos

pus-lรกgrimas

pulsando


18 a sacola plástica fedendo é apenas mais um prenúncio: os próximos dias

serão

ainda mais frios & escuros passantes passam desviando o passo desviando o olhar trancando a respiração trancando os olhos e a pergunta pichada no concreto lateja: q c vai fazer quando as luzes apagarem? na minha rua os vizinhos são fantasmas distantes

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mesmo com o número de fotos subindo em nossas redes sociais estamos esquecendo os rostos alheios eu não reconheceria meu vizinho abatido no chão nem se eu chegasse pertinho e encarasse a morte em seus olhos estáticos as janelas revelam apenas espectros o olho pronto pra photoshop em carne viva a coisa que jogaram no lixo um feto? um bicho? quem é que foi que disse que era um feto? que era bicho? pouco importa o que era foi morto vocês mataram ele vocês mataram ela vocês mataram a gente nossa esperança jogada fora no lixo o messias dentro do lixo a justiça dentro do lixo ONDE OS PÁSSAROS CANTAM DOENTES • Felipe Teodoro


eu havia avisado eu fui lá e escrevi nas paredes dos supermercados e dos shoppings nos pontos de ônibus nos banheiros públicos nos muros das universidades igrejas e bordeis fui lá e pichei mesmo: q c vai fazer quando as luzes apagarem? só que ninguém percebe os sinais ninguém dá a mínima pra isso que chamamos de vida e o apocalipse não chega por acaso então durmam podem dormir e aproveitem pra sonhar seus sonhos preto & branco só não esqueçam que é tarde demais e que falta muito pouco 85


quase nada pra gente acordar e perceber que todas as lâmpadas queimaram que o Sol não nasceu e que até nossos espelhos tornaram-se escuros abismos

ONDE OS PÁSSAROS CANTAM DOENTES • Felipe Teodoro

amostra: "Onde os pássaros cantam doentes" (Fractal, 2018), poemas de Felipe Teodoro  

editado pela linha "experimental" da Editora Fractal

amostra: "Onde os pássaros cantam doentes" (Fractal, 2018), poemas de Felipe Teodoro  

editado pela linha "experimental" da Editora Fractal

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