Page 1


Texto: Tiago Veiga

Ilustrações: Anita Tirone


Constava do Grande Livro, guardado na Catedral de Gondelim, que um guerreiro louro, descido do Norte, matara o urso que rondava aquele alto de pedregulhos, proclamando-se soberano das terras a perder de vista. Mas, a partir daí, só fêmeas se sentariam no trono, cabendo a precedência à que fosse de mais espessa barba, dentre as filhas da monarca reinante. As crias passavam o tempo, por isso, a besuntar as faces com caca de galinha, e arranjavam em trança as pêras e os bigodes, competindo entre si na espessura dos pêlos de que se achavam providas.

3


O reino de Gondelim era povoado por gentes que trabalhavam de sol a sol, sachando os campos produtores de trigo e cevada, artigos com que se atulhavam os celeiros reais. As rainhas governavam os seu súbditos, com grande tirania, cobrando impostos pesadíssimos, por cada alqueire de cereal que tirassem para seu próprio sustento, e obrigando-os a contribuir, com porcos da sua criação, para o apetite imenso de que padeciam.

5


De cinco em cinco anos, pela Primavera, a que reinava punha doze ovos, na praça maior de Gondelim, entre estandartes desfraldados e toques de trombeta. Eram ovos enormes, com pintas vermelhas, que ali ficavam, à solheira e ao frio. Vinha um imenso pássaro negro, então, voando a rasar, de asas estendidas, os doze ovos da postura. Chamava-se Vuldemar, e morava nos rochedos altíssimos, que rodeiam os mares e os oceanos do mundo. A sombra que projectava fazia com que, em cada ovo, se gerasse numa criatura, que rapidamente crescia, ao longo dos treze meses seguintes.

7


A toda a hora, diurna e nocturna, os soldados vigiavam aquela dúzia de ovos, impedindo que o povo se aproximasse dela. Os homens e as mulheres do reino recolhiamse, entretanto, ao fundo dos seus casebres, lamentandose da dureza da existência. E, concluídos os treze meses, a rainha ingressava na praça maior, seguida pelo cortejo das suas quarenta aias, todas elas barbudas, todas elas saídas dos ovos das ocasiões anteriores. Os novos seres furavam a casca, a enérgicas bicadas, mas logo a soberana, munida de um bastão dourado, e as suas acompanhantes, armadas de paus, desatavam a matar, à bastonada e à paulada, qualquer recém-nascido macho.

9


Durou isto várias décadas, até que, no reinado de Tructesinda II, a velha bruxa Lutgarda, que contava mais de cento e vinte e quatro anos, e que partilhava uma choupana com os seus oitenta e nove gatos, teve uma ideia brilhante. Numa noite de Janeiro, preparou umas boas sopas de vinho quente com canela, e serviu-as aos soldados que tiritavam, nos seus postos. Os soldados beberam como odres, e quando a bruxa os viu tombados, achegouse aos ovos que estavam a cinco meses de estalar. Colou o ouvido a cada um deles, escolheu um, e levou-o para casa, debaixo do xaile. Meteu o ovo no forno do pão, cuidando de manter sempre aceso um borralhinho, para que a criança que estava lá dentro não gelasse. E, quando ela deu sinais de despertar, uma madrugada de Junho, Lutgarda retirou o ovo do forno, verificou que dele soltava um catraio de pele muito lisa e cabelos muito loiros, e envolveu-o numa baeta de finíssimo linho. Botou-lhe o nome de Olderico, que era o de um rapaz escudeiro que ela amara de paixão na sua tão distante juventude. 11


Tructesinda II ordeou que procurassem o ovo roubado, mas nao houve maneira de dar com ele. E, até a idade da razão, a bruxa foi criando o seu protegido, à base de muita castanha e muita papa de sarrabulho. Depois disso, ensinou-lhe quanta feitiçaria era do seu conhecimento, do poder por cima das bouças, a cavalo numa palheirinha, ao dom de transformar o mijo das vacas em vinho doce, rezando o responso dos colchões de Belzebu. Ao chegar a mancebo, estava Olderico capaz de abater um javali, com um murro na cabeça, e de adivinhar o que tinha na mente, a todo e qualquer instante, o Santo Padre de Roma.

13


Quando o nosso moço andava pela sua décima-nona primavera, abriu-se a época de uma nova postura. Soaram as trombetas, agitaram-se os estandartes, e a rainha, mais pesadona do que nunca da sua carga de ovos, desceu à praça maior, apajada pela procissão das aias barbudas. O povo mantinha-se abrigado, nos seus casebres, e não se ouvia latido de cão, nem voo de mosca, nem relincho de garrano que marcasse o festejo. Tructesinda II arregaçou as suas muitas saias, acocorou-se pensativamente, e soltou, entre medonhos estouros, a dúzia de ovos que trazia dentro de si.

15


Neste momento, rompeu Olderico por ali adentro, brandindo a pá do forno que lhe servira de refúgio, antes de nascer. O povo corria, atrás dele, armado de seus bordões, formando uma turbamulta aos berros. E tal foi a pazada que o rapaz aplicou na cabeçona de Tructesinda II, acocorada na postura, que a rainha, logo aí, ficou defunta, entre o griteiro de suas aias. Mas o populacho botou-se, de imediato, a desancar estas, com tamanhas bordoadas que não tardaram as infelizes a cumprir destino igual ao da sua ama.

17


Sem perda de tempo, os sĂşbditos revoltados apoderaramse dos voos, levaram-nos para os campos que rodeavam o casario, mexeram-nos com muita cebola, numa frigideira gigantesca, e produziram um saboroso pastelĂŁo, com que tiraram a barriga de misĂŠrias. A seguir, copiando o exemplo de Olderico, deitaram-se a dormir a melhor sesta das suas vidas.

19


Olderico subiu ao trono de Gondelim, cingindo a coroa que, ao longo das eras infinitas, apertara a cachola das rainhas barbudas. Pouco depois, casou com a princesa de Gondar, menina de pele t達o rosada e mimosa como a de seu real esposo, e como ele lourinha. Quanto a Lutgarda, nomeada maga-mor do reino, sobreviveu-o bastante, ainda, para conhecer os netos e bisnetos dos seus soberanos.

21


De cinco em cinco anos, as gentes felizes de Gondelim descortinavam, voando tristemente, aquele monstruoso Vuldemar, sempre mais magro, sempre mais desesperançado. Mas, da última vez em que apareceu, quase pele e osso, pairando muito baixo, desfizeram-se-lhe as escassas penas numa chuva de cinza.

23


2011/2012 Curso Ilustração/Bd do Ar.co Ilustrações: anita tirone Texto: “Gondelim” de tiago veiga


Gondelim  

Ilustrações

Advertisement
Read more
Read more
Similar to
Popular now
Just for you