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Cortina de Palha

Comunicação e Gêneros Literários

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Cortina de Palha Texto e fotos por Rhauan Macedo

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oda criança tem uma visão de mundo própria, criando a sua versão lúdica do que está a sua volta, comigo não foi diferente, a minha cidade, por exemplo, sempre a imaginei como um lugar isolado dos outros, pois a sentia de uma maneira estranha, aos meus olhos a via como uma pintura com cores sempre vivas, silenciosa e majestosa. Nessa minha obra prima, uma figura se destacava , era uma árvore, a Carnaúba. Ela sempre me remetia a uma imagem de realeza, não sei ao certo o motivo, talvez porque as folhas me fizessem alusão a uma coroa, não pela cor, mas por ter as extremidades salientes e ficar no topo dando um ar de sobe-

rania, o seu tronco coberto por estruturas pontiagudas tão impenetráveis e resistentes quanto uma armadura de um lorde, seus galhos longos e pontudos pareciam uma espada, pronta para atacar a quem ousasse mexer com a sua honra. Quando venta, percebo que a brisa soprada pelo horizonte faz com que eu a imaginasse dançando, por serem várias uma ao lado da outra, espalhadas por um imenso campo, a dança transforma-se em um ballet sincronizado, olhando do alto o movimento assemelha-se ao mar com ondas, um mar verde que com ajuda da luz do sol a deixa quase que um verde cintilante de tão brilhoso, o som produzido por suas folhas batendo uma na outra tem uma sonoridade musical tranquilizante única, de tão relaxante assemelha-se a uma chuva de final de tarde suave e macia. Essa minha re-

portagem não se trata de um conto de fadas, muito menos de uma historia da carochinha, toda essa analogia feita entre a carnaúba e a figura de um rei não é mera coincidência. O rei é sinônimo de riqueza e nobreza, a carnaúba também. Esse tipo de palmeira é encontrada apenas na região nordeste do Brasil, com maior ocorrência nos estados do Ceará, Piauí e Rio Grande do Norte. Chamada de “árvore da vida” por ser inteiramente aproveitável: a raiz no uso medicinal, o tronco utilizado nas construções por ser uma madeira de qualidade, os frutos na fabricação de ração animal e as folhas na confecção de artesanato e cera. A cera produzida do pó extraído da palha da carnaúba é um produto bastante cobiçado por estar na composição de vários materiais como cosméticos, componentes eletrônicos, ceras polidoras dentre outros. Atualmente, as empresas que refinam a cera arrecadam milhões de reais todo ano exportando principalmente para os Estados Unidos, Europa e China.


Cortina de Palha Mas quem são as pessoas que fazem todo o serviço de extração desse pó? Quem são os verdadeiros responsáveis pelo império da cera de carnaúba? Será se essas pessoas tem noção do valor do material extraído por eles? Será que se sentem compensados com o dinheiro que ganham para fazer esse trabalho que não deve ser nada fácil? O objetivo dessa reportagem é dar visibilidade a esses trabalhadores, conhecer mais sobre as suas vidas, família e suas historias.

Terra dos verdes carnaubais

Comunicação e Gêneros Literários ga a ser rápida menos de uma hora e meia. Os campos concentrados da palmeira nordestina anunciam a aproximação com a cidade, meus olhos brilham ao ver o cintilante verde das folhas que formam um contraste com o grandioso céu azul quase sem nuvens, no fundo da paisagem uma elevação montanhosa não tão alta chama atenção, pois é o plano de fundo da pintura a qual os meus olhos compõem, a Serra de Santo Antônio como é popularmente chamada leva o nome do padroeiro da cidade. A imagem da serra de tão imponente

2 mas de cidade grande, a poluição do sua lagoa, por exemplo, é um deles. A lagoa que fica no centro do município é um convite para apreciar um belíssimo pôr do sol em suas margens no final da tarde. Sua água, assim como um espelho reflete o céu, agora com as nuvens em tons acinzentados e a serra de Santo Antônio com a silhueta de cor anil, ocasionada pela distância que se encontra de onde estou. Garças sobrevoam o lugar, visão esta que me tranquilizou, pois estava um pouco nervoso para o encontro com o primeiro trabalhador. Sobrevivendo da palha

Para conhecer os trabalhadores da carnaúba volto a minha cidade Campo Maior localizada a 80 km da capital. O pequeno município de pouco mais de 45 mil habitantes destaca-se na produção de cera de carnaúba, pois possui uma das maiores áreas com carnaúba no mundo. A viagem ocorre tranquila, che-

dá a impressão de que se trata de uma miragem, não sei ao certo se está ali ou não, talvez as sombras provocadas pela luz do sol me passem essa impressão. Típico de cidade de interior, Campo Maior tem um ar provinciano e aparentemente pacata, mas já são notáveis os proble-

Contornado a lagoa, afastando-me do centro da cidade, vou para um bairro vizinho chamado Cidade Nova a procura do senhor Antonio Pires. No caminho, percebo que as ruas de paralelepípedo dão lugar a uma piçarra avermelhada e casas humildes. As pedrinhas do terreno irregular se chocam com o escapamento da motocicleta fazendo um barulho desagradável. Depois de pouco tempo avisto um terreno grande com uma construção incomum no centro, ao que tudo indica parece ser uma igreja, só tenho certeza porque existe uma cruz no topo do edifício. Perto da igreja em formato triangular procuro pela rua de nome quinze, logo localizo a casa de número dezesseis.


Cortina de Palha A casa aparentemente simples possui um portão gradeado, em suas pontas duas árvores grandes com um burro amarrado no tronco da árvore esquerda, bato palmas esperando alguém vir atender, bato uma, duas três e nada, começo a chamar o senhor Antônio, mas as tentativas foram em vão, aparentemente não havia ninguém em casa. Espero poucos minutos sentado na calçada da casa, quando avisto duas pessoas vindo em uma motocicleta em minha direção, por causa da luz do sol intensa sobre os meus olhos não consigo identificar de quem se trata. A motocicleta freia e para ao meu lado, a que tudo indica parece ser o senhor Antônio. O cortador de palha de carnaúba convida-me para entrar. A modesta casa estava toda arrumada ao que parecia apenas duas pessoas moravam ali. Seu Antônio senta em uma rede armada em uma área antes da entrada da sala de estar, oferece-me uma cadeira e começamos a conversar. O senhor de 64 anos conta que começou a trabalhar cedo. “Desde que eu nasci no mundo eu luto com gado fazendo roça e tiro paia de carnaúba somente, num tem oto meí de vida”. O ruído constante que a rede do senhor fazia ao movimenta-la agora embalava a nossa conversa e completa “Apredí o serviço

Comunicação e Gêneros Literários sozinho vendo os otos trabaiar, com o tempo a gente aprendi”. O seu olhar muda ao lembrar-se do pai que nunca pegou em uma foice para retirar a palha, já que ganhava a vida como “machante”, cortando carne no mercado.

3 Antônio, o valor recebido pelo pó depende da cotação (demanda) do dia, a quantidade extraída e a qualidade do produto. “Se o carnaubal for bom dá oito, nove quilo, já cheguei a tirar doze”.

A retirada da palha de carnaúba ocorre nos meses de julho a dezembro. O cortador relata a rotina nos períodos de extração: levanta muito cedo às 4h da manhã vai à roça pegar o leite e traz para a mulher, toma seu café e vai em sua motocicleta aos carnaubais. Com uma equipe de mais de cinco pessoas a retirada começa, usando uma foice duas pessoas se encarregam de cortar a palha, outras duas são os apanhadores, e ao restante cabe à função de estender a palha para que seque, depois de dez a vinte dias a palha está pronta para a extração do pó.

Simpatia, humildade e bom humor são características marcantes do senhor Agostinho Belo que aos 75 anos de vivencia, trás consigo a “herança” da palha deixada por seu pai.

“O Doutor da Palha”

O sol dava sinais do fim da tarde, o céu estava meio alaranjado e as garças começavam a se reunir para voltar ao seu viveiro quando fui ao encontro com o experiente cortador. Indo à periferia da cidade, surpreendi-me com o que via pelo caminho. O asfalto da avenida principal estava ruído, com buracos, de tão estreita que era tomava cuidado redobrado com os veículos que vinham na direção oposta. A rua era de terra batida, cheguei a ficar confuso se ainda estava na mesma cidade, pois cruzei com uma pequena roça, com vacas em um curral, o cheiro de pasto misturado ao esterco dos ruminantes resgatavam da minha memoria lembranças remotas da minha infância.

A retirada da palha exige muita atenção e habilidade, pois com ajuda do vento e a posição que é retirada, os galhos com estruturas tão pontiagudas quanto a de uma serra podem machucar seriamente. Percebo que o senhor Antônio possui uma cicatriz acima da testa do lado esquerdo da cabeça. “Tava tirando à paia quando um gaio passou bem na Depois de parar várias vezes minha cabeça, raspando depois para pedir informação, finalo sangue começou a descer”. mente encontro a residência do O pó extraído é levado para a então trabalhador. Sentado em fábrica de cera localizada no fi- uma cadeira na companhia da nal da cidade, segundo o senhor sua esposa, recebeu-me com um


Cortina de Palha

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Você vai se formar é ‘dotor, mais ieu so dotor’ sobre palha que eu conheço, você não conhece

O senhor Agostinho começou a trabalhar cedo com o pai. ”Nasci e me criei mexendo com palha, aprendi com meu pai e meu pai com o pai dele”. Inicialmente a sua função era apenas carregar a palha com auxilio de um burro, mais tarde aos 14 anos começou a retirar as folhas da carnaúba. Hoje o antigo carregador tornou-se rendeiro, ou seja, desfruta de uma propriedade com carnaúbas pagando o preço do arrendamento, que é uma espécie de aluguel. A todo o momento o senhor Belo explica com detalhes de como é feito o arrendamento, usando até da matemática para mostrar como ganha a vida, em

“Sem Valor”

Apesar de todas as dificuldades enfrentadas em nenhum momento das entrevistas os dois cortadores de palha de carnaúba reclamaram de algo, nem disseram insatisfeitos com a profissão a qual exercem. A todo o momento o senhor Agostinho alegrava o ambiente com a sua gargalhada contagiante. Esses um momento chegou a pegar homens são o exemplo de que das minhas mãos a caneta para tudo na vida deve ser enfrentapoder exemplificar. Apesar do da com dedicação, perseverança pouquíssimo grau de escolari- e com um sorriso estampado no dade e a idade avançada me im- rosto. pressiono com a facilidade com Durante a Segunda Guerra que faz cálculos aritméticos, Mundial a cera de carnaúba foi contabilidade e noções de admiconsiderada um material altanistração. Diz que para trabalhar mente estratégico, a carnaúba nesse ramo a pessoa deve ter exajudou os aliados a derrotar os periência e cai na risada comalemães servindo para imperpletando. “Você vai se formar é meabilizar os projeteis de arti‘dotor, mais ieu so dotor’ sobre lharia nas sangrentas batalhas da palha que eu conheço, você não Europa, apesar de a cera ter sido conhece”. e ainda ser de vital importância As dificuldades enfrentadas na vida das pessoas, os extratodurante a vida são lembradas ao res desse produto seguem invibarulho dos latidos dos cães da síveis aos olhos da população e vizinhança ao fundo. Para o ido- dos gestores públicos. Quantos so a maior dificuldade enfren- Antônios e Agostinhos ainda tada foi o casamento que gerou irão enriquecer as empresas mitreze filhos aos 22 anos de ida- lionárias de cera de carnaúba de. Hoje se orgulha da criação enfrentando a falta de segurança dada aos filhos que estão com sob a exposição do intenso e esas suas próprias vidas graças ao caldante sol do nordeste? seu trabalho árduo. Percebo em seu olhar o amor que ainda sente por sua esposa ao falar que os

sorriso largo no rosto. Aparentando mais que a idade que possui, não pude deixar de reparar na pele do palheiro, estava fina e cheia de manchas, resultado de anos de exposição ao sol no trabalho árduo.

4 dois começaram juntos, enfrentaram os problemas e apesar de tudo estão unidos.

Cortina de Palha  

Campo Maior localiza-se a cerca de 80 km da capital Teresina, conhecida como a cidade dos verdes carnaubais, devido a grande quantidade de c...

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