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uando a vida perde o sentido, perde-se também o interesse em viver e manter-se motivado. Cada acordar é um fardo. O

sol já não tem o mesmo brilho, as flores perdem o perfume e a vida parece descolorir. Para que, então, levantar da cama? Para que trabalhar, comer, existir? O desânimo e o cansaço invadem o corpo. A alma dói. É difícil controlar os pensamentos aflitos e angustiantes. E a mente, em sofrimento, debilita o corpo, prejudica a saúde.

É preciso manter o equilíbrio, porém, a

mente está cheia. O coração está vazio. O humor oscila entre altos e baixos. Falta vontade. Falta alegria. Falta fome. Falta sono ou, às vezes, tem-se em excesso. E sobra dor; ela permanece, é constante. Como não desequilibrar? Como não desistir dos sonhos e da vida?

Sentir-se assim é cada vez mais corriqueiro.

Muitas pessoas em todo o mundo estiveram, em algum momento, ou estão deprimidas. E a depressão já ganha dimensões de epidemia. "O que há de errado comigo?", muitos deprimidos se perguntam. Mas é o momento de nos perguntarmos: O que há de errado com o mundo? Quem sabe esse não é um dos passos iniciais para desacelerar o crescimento dos transtornos mentais na população mundial?

Das pressões do existir um mundo cada vez mais deprimido Rhamayana Barreto


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le está inquieto, angustiado, sozinho em seu apartamento, em meio a caixas de remédios espalhadas por todos os lados. Seus movimentos são repetitivos, contínuos, compulsivos. Em sua mente, pairam dúvidas, lembranças da infância e de momentos marcantes com seus pais, traumas, pensamentos de morte, sangue, ratos... Ele é um rapaz do interior que foi morar na capital, longe da família e sozinho. Só, e com suas angústias, o rapaz,

que sofre de depressão e de Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC), acaba por se suicidar. O jovem rapaz é personagem do espetáculo Mal da companhia de teatro alagoana composta por 13 integrantes e com 11 anos de existência, a Cia do Chapéu. Mal é um monólogo que retrata a vida de um jovem depressivo. O diretor do espetáculo, Thiago Sampaio, conta que a ideia do monólogo era falar sobre um

mal-estar, o mal da alma e, para demarcar melhor esse “mal", é que chegaram à ideia da depressão. Thiago explica que a morte do jovem personagem depressivo tem a ver com sua incapacidade de lidar com o corpo doente e questiona: “Quem de nós está realmente preparado para lidar com os próprios medos, inseguranças e limitações? O personagem, infelizmente, encontra, no suicídio, a forma de resolver suas questões”.

Encenada em 2013, a peça Mal traz, em sua trama, elementos da depressão, do Transtorno Obsessivo Compulsivo e do suícidio.

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arte moderna e contemporânea tem expressado muito a depressão e a linha tênue, quase invisível, que separa o equilíbrio do desequilíbrio, em músicas, pinturas, filmes e espetáculos como o da Cia do Chapéu. Thiago, ao falar sobre o mal-estar e sobre nossa difícil tentativa de mantermo-nos equilibrados, afirma: “Viver não é fácil, lutamos diariamente para conseguir emprego, para nos manter empregados, para lidar com o vizinho, com os parentes, com os desconhecidos, com a expectativa do outro em relação a nós mesmos e assim por diante; cada um sabe a dor e a alegria de ser quem é. Vivemos momentos de estabilidade, que estão constantemente

ameaçados por nossas decisões diárias e pelas interferências externas”. Esse mal-estar tem tirado a paz e assombrado a felicidade de muitas pessoas, no entanto, no mundo mágico das redes sociais, todos são tão felizes. Ao menos, é isso que as postagens sustentam: sorrisos, viagens, realizações, a família unida, o relacionamento ideal, a vida perfeita. Adoramos ostentar a felicidade; isso mostra que não somos fracassados, que estamos na competição. Porém, a vida não é tão bela como desejamos que fosse, nem como mostram as fotografias no Instagram. Há um verso de Renato Russo que diz: “A felicidade é uma mentira e a mentira é salvação”. Talvez tanta felicidade

em exibição seja encenada; como disse o cantor: uma mentira. E tentemos nos enganar que somos felizes e plenos para tornar a vida mais leve, mais suportável. Encenada ou não, a felicidade é, no mínimo, contraditória, pois embora ela, hoje, seja um imperativo, anunciado nas revistas, nos outdoors e na tevê como um bem adquirível e seja tão ostentado nas redes sociais, a tristeza e a depressão são mais frequentes e avassaladoras do que parecem. Atualmente, mais de 300 milhões de pessoas sofrem de depressão em todo mundo; ela que será, até 2020, a principal causa de incapacidade no trabalho, segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde). Eduardo Leite

Felipe Lôbo

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A mesma pessoa que se mostra feliz nas redes sociais pode ser totalmente diferente na vida íntima.


Frágil condição psíquica do ser humano Felipe Lôbo

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fato que ser feliz não é simples, pois viver implica ter que lidar, em algum momento, com a dor, a angústia, medos, perdas, frustrações, solidão, rupturas, incompletude e incertezas. E resistir a tudo isso e a outros tantos problemas é como equilibrar-se numa instável ponte de emoções que liga um ciclo a outro, uma fase à outra da vida. Manter-se firme nessa travessia não é tarefa fácil, qualquer daqueles sentimentos faz perder o prumo, gera um passo em falso, estremece a ponte e coloca o indivíduo numa frágil condição psíquica e emocional. A fragilidade psíquica do ser humano é mesmo como uma estreita e velha ponte de cordas roídas e madeira estragada que pode romper-se a qualquer momento. Talvez a forma de suportar a dor e manter o equilíbrio seja encontrar

Na depressão, o equilíbrio é um desafio.

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um sentido para vida que proporcione ao indivíduo motivação, vontade, esperança e ânimo. Um sentido para viver pode ser qualquer fator de cunho natural ou sobrenatural, material ou imaterial, mas que não é como uma fórmula, não está à venda e nem é, simplesmente, encontrado nos livros de autoajuda. No entanto, ainda que a vida tenha um sentido para determinada pessoa e que ela possa listar várias razões para ser feliz, nos momentos em que a dor de viver torna-se insuportável, esse sentido pode lhe escapar, fluido entre os dedos; pode fazer, de uma hora para a outra, a vida perder a graça, o rumo, a cor e a razão de ser. Isso tem acontecido com inúmeras pessoas em todo o mundo, seja de forma passageira, ou por tempo indeterminado, caracterizando quadros de depressão.

Mudanças na forma de lidar com a dor

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o sofrimento, que nos são elementos estranhos. “Se a gente imaginar; 300 anos atrás, as pessoas tinham dor o dia inteiro, não havia analgésico, nem antibiótico; as pessoas sentiam dor de dente, artrose, artrite, todo tipo de dor, mas, do ponto de vista social, existia uma moral de que se a pessoa suportasse a dor, ela era considerada forte”, diz. Na cultura contemporânea, segundo

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Hoje, o homem não é ensinado a suportar a dor e a angústia, mas sim, a evitá-las

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Charles Lang

Lang, é totalmente diferente, pois os indivíduos não são ensinados a suportar a dor e a angústia, mas sim, a evitá-las, buscando se esquivar delas e deixando de viver coisas que são importantes para a vida, como o próprio sofrimento a ser encarado e não simplesmente ignorado.

Eduardo Leite

ida como o mal do século 21, a depressão ganha proporções de epidemia. E, embora, atualmente, tenha essa dimensão tão impactante, o sofrimento é algo que sempre existiu, pois é inerente ao homem. O que muda de uma época para a outra não é a maior ou menor presença de sofrimento e, sim, os elementos constitutivos e causadores da dor emocional, bem como a forma de senti-la, encará-la e percebê-la. O psicanalista e coordenador da, gratuita e aberta à população, Clínica de Psicologia da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), Charles Lang, explica que o ser humano é um ser histórico: ele é o que é, por ter nascido em determinada época e contexto e age de acordo com as referências de sua cultura. Na Idade Média, por exemplo, o sofrimento era encarado como uma forma de punição e de redenção, como um fardo a ser carregado pela “vontade de Deus”. O indivíduo sofria por sentirse culpado pelos seus pecados e desejos; o sofrimento era como um castigo, era necessário e, portanto, não evitado. Hoje, em contrapartida, por uma questão cultural e pelo avanço da medicina, que nos permitiu ter uma gama de remédios, o homem evita e remedia a dor, seja ela física ou emocional. Lang afirma que vivemos em uma cultura, na qual não nos relacionamos mais com a dor e com


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O individualismo contemporâneo

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Eduardo Leite

mundo contemporâneo é centrado na cultura do indivíduo, do ser individual, responsável por seus atos, suas conquistas, seus fracassos. Então, se o indivíduo obtiver sucesso, o mérito é seu; e se ele fracassar, a culpa também é sua, não do destino, nem porque assim quis uma divindade. Embora vivenciemos um momento de muita exposição, quando informações pessoais de qualquer indivíduo são obtidas facilmente, pois fotos, dados e status são compartilhados diariamente pelas pessoas na internet, o homem contemporâneo é um ser de natureza individualista e suas relações sociais são cada vez mais descartáveis. Quantas pessoas conhecemos e convivemos durante anos sem saber quem são, como estão e o que têm passado de forma mais íntima? Conhecer o outro superficialmente parece algo natural, hoje, pois, muitas vezes, não estamos interessados em saber mais sobre o próximo, nem ele, em nos contar. Costumamos esconder do outro nossos problemas, o que nos angustia e, ao sair de casa, expomos a melhor aparência e expressão facial possíveis. Tal aparência deve transmitir ânimo, disposição, saúde e alegria para que o mecânico “Tudo bem!”, ao cruzar com o vizinho, as pessoas no elevador, o chefe e os amigos, pareça convincente. Já experimentou dizer não ao “Tudo bem?”? “Não! Não está tudo bem!”. Se assim respondêssemos e listássemos uma série de problemas (como o fim de um casamento, dívidas, problemas de saúde), muitas pessoas julgariam a atitude inconveniente, pessimista, negativa ou até descortês. Pelo mecanicismo com que é feita, tal pergunta é quase sempre uma convenção, um rito de cumprimento e não propriamente o interesse de quem questiona pela vida e o estado do questionado. É esse tipo de coisa que nos faz sentir, mesmo diante de uma turma cheia de colegas, um prédio cheio de vizinhos, uma rede social com 1000 amigos, que estamos sozinhos e desamparados. Renato Russo, que era introspectivo e chegou a ter depressão, já dizia, há algumas poucas décadas: “O mal do século é a solidão, cada um de nós imerso em sua própria arrogância, esperando por um pouco de afeição”. O desamparo é uma característica muito presente na cultura contemporânea. O ser humano pode se sentir desamparado pelo próximo que está muito ocupado, cuidando de si; pelo Estado que, às vezes, não garante nem serviços públicos dignos, muito menos seu emprego, sua moradia, seu alimento; pela falta de Deus, já que a racionalidade científica o nega; pela ciência, que responde tantas questões, menos a do sentido da vida, do porquê de acordar todo dia e lutar para permanecer vivo; e pela própria vida, que o faz existir sem sua permissão ou, por vezes, contra sua vontade.


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Depressão como sintoma social

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indivíduo contemporâneo não raro está insatisfeito e angustiado com a forma de viver deste mundo que o pressiona por todos os lados. Ele é pressionado, entre outras coisas, a trabalhar, produzir, a ser competitivo, ser bem sucedido, consumir, ser feliz, ser proativo e a manter-se no ritmo. “Tem que correr, correr, tem que se adaptar, tem tanta conta e não tem grana pra pagar, tem tanta gente sem saber como é que vai priorizar, se comportar, ter que manter a vida mesmo sem ter um lugar”, este é um trecho da música “Dois cafés” da cantora Tulipa Ruiz que demonstra um pouco do ritmo de vida atual. Vivemos sob o domínio de diversos imperativos e a felicidade é um deles, porém, a resposta social à intransigente exigência de ser feliz tem sido, contraditoriamente, a tristeza e a depressão.

Tem que correr, correr, tem que se adaptar, tem tanta conta e não tem grana pra pagar, tem tanta gente sem saber como é que vai priorizar, se comportar, ter que manter a vida mesmo sem ter um lugar

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Todo o contexto social, cultural e econômico, que envolve o indivíduo, influencia a construção de sua subjetividade. E o contexto do atual modo de vida ocidental é sustentado pelo individualismo, pela fragilidade das relações interpessoais, pelo consumismo, pelo raso processamento da dor e do conflito. Esse modo de vida tem gerado um grande empobrecimento subjetivo e está diretamente relacionado à dimensão que a depressão alcança, hoje, em todo mundo. Por isso, embora a depressão seja muito pessoal, ela não é uma patologia individual, e sim, como afirma o professor Charles Lang, um sintoma social. Os tantos males e doenças da alma que atingem cada vez mais pessoas revelam algo de errado sobre as condições de vida deste mundo. Algo que para o ser humano é incômodo, indigno e, por vezes, insuportável.

Tulipa Ruiz

Indicadores sociais e saúde mental

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estado de Alagoas está inserido na cultura ocidental e na realidade socioeconômica do Brasil e, portanto, nas condições das quais a depressão é sintoma; porém, o estado apresenta suas particularidades, que são agravantes dessas condições, no que diz respeito à qualidade de vida, desenvolvimento, distribuição de

renda e acesso a bens e serviços. Alagoas apresenta um dos piores indicadores sociais do País, é o estado brasileiro mais violento, com maior índice de mortalidade infantil, com a pior taxa de analfabetismo. E, segundo o Atlas do Desenvolvimento Humano no Brasil (2013), catalogado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento Rhamayana Barreto

“Vulnerabilidade social desfavorece a saúde psíquica”, afirma pesquisadora Maria Cícera

(Pnud), é o estado brasileiro com o maior números de pobres: 34,29% da população vive em condições de pobreza e 16,66% em condições de extrema pobreza. Tudo isso pode afetar a autoestima, a motivação, a expectativa de ascensão social e crescimento profissional e econômico da população, refletindo-se, por consequência, na sua saúde mental. A psicóloga, professora da Ufal e pesquisadora do Núcleo de Estudos Avançados e Pesquisa em Saúde Mental Austregésilo Carrano Bueno, Maria Cícera de Albuquerque, afirma que condições de vulnerabilidade e desfavoráveis às perspectivas de futuro das pessoas (como a pobreza extrema, a falta de saneamento e atendimento à saúde, desemprego etc.) podem trazer prejuízos tremendos a saúde física, mental, afetiva e relacional. “Quando a gente não tem uma sociedade que inclui, ela exclui e toda exclusão pode levar ao adoecimento”, afirma a pesquisadora. Ela ressalta, contudo, que embora enfrente situações adversas, o alagoano tem uma característica muito boa para a saúde mental que é sua intensa afetividade e seus fortes vínculos familiares e isso pode ajudá-lo a não adoecer.


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Embora sintoma do modo de vida contemporâneo, a depressão se manifesta contra a dinâmica do mundo, como se o depressivo nadasse contra a corrente. Enquanto a dinâmica pede velocidade, a depressão desacelera as pessoas; se pede euforia, a resposta é o recolhimento; se pede produção, o deprimido trava; se pede felicidade constante, a dor é que tem constância. E a depressão é justamente essa constância de sentimentos que, quando passageiros, são normais e corriqueiros, mas que, se permanentes, comprometem a rotina, as relações afetivas e as atividades mais básicas da vida de uma pessoa. O psiquiatra e ex-presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria e também da Associação Alagoana, Josimar Mata França, in memoriam, disse que a depressão é classificada como transtorno de humor e que existem várias formas de depressão, sendo as principais a depressão melancólica (aquela em que a pessoa fica apática, não come, não dorme, não toma banho, não tem disposição para nada) e a depressão ansiosa que é aquela em a pessoa fica inquieta, ansiosa, angustiada. Segundo o doutor Josimar, a depressão é uma doença crônica que gera uma série de sintomas físicos, causados pela influência que o sistema nervoso central tem sobre outros sistemas como o imunológico e o endocrinológico. Por isso, muitos depressivos têm suas defesas orgânicas diminuídas, nas fases de crise, e sofrem dificuldade de se recuperar de enfermidades mesmo leves como um resfriado. Dentre os muitos problemas de saúde que a depressão pode causar, a taquicardia é um sintoma físico muito comum causado pelas crises de ansiedade. Sua frequência é tão grande que a cardiologia já reconhece a depressão como um fator de risco para o desenvolvimento de doenças cardiovasculares, afirma o psiquiatra.


Do trauma da perda à ferida da alma

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Rhamayana Barreto

P

ara Edja Mendes, 24, não foi fácil perceber e reconhecer que estava com depressão de imediato. Ela sabia que não estava bem, sentia que estava doente por causa de alguns sintomas físicos que vinha apresentando e procurou até ajuda médica (geral, não psiquiátrica) para tentar diagnosticar seu problema.


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egundo o psiquiatra Josimar França, é muito comum que os pacientes deprimidos percebam com mais facilidade os sintomas do corpo e não os da alma. Muitas pessoas, ao perceberem alterações em seu organismo, procuram um médico de atendimento geral e descrevem problemas orgânicos como dores e cansaço, de forma que o médico, muitas vezes, não identifica a depressão e trata os sintomas como um problema clínico. O doutor Josimar França disse que os médicos clínicos chegam a errar o diagnóstico da depressão em 30 a 50% dos casos e não encaminham o paciente para o especialista de imediato.

Edja é uma moça que tinha o sonho de ser jornalista e, por esse sonho, deixou a pequena cidade de Colônia Leopoldina, no interior de Alagoas, com sua mãe, seu pai e três irmãos e veio para Maceió, no ano de 2005. Assim que chegou à capital, um momento de intensas mudanças, seu pai, com quem tinha muita afinidade, sofreu um Acidente Vascular Cerebral (AVC) e ficou muito debilitado. O ativo trabalhador de 49 anos teve sua rotina e de sua família completamente alterada por esse problema de saúde, ficou acamado por três meses e só depois de um ano voltou a andar com dificuldade. Seu pai era sua referência, seu herói.

Edja conta que passava noites acordada observando-o trabalhar em consertos eletrônicos, que conversava muito com ele e que o acompanhava em suas atividades de militância, ele era militante do Partido dos Trabalhadores e chegou a se candidatar vereador em Colônia Leopoldina. Do engajamento político do pai, veio o forte engajamento da filha, embora viessem a discordar politicamente com o passar do tempo, à medida que Edja trilhava seu próprio caminho. Com o problema de saúde do pai de Edja, a família começou a enfrentar dificuldades financeiras, já que ele ficou impossibilitado de trabalhar, recebendo Rhamayana Barreto

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Doutor Josimar França distingue, pelo menos, dois tipos de depressão: a melancólica e a ansiosa.

apenas o benefício de um salário mínimo do INSS e a mãe, para cuidar dele, que estava totalmente dependente, também teve que deixar de trabalhar. Foi num contexto de sérios problemas financeiros e familiares que Edja ingressou, em 2006, aos 17 anos, no curso de Jornalismo da Universidade Federal de Alagoas. Era a realização de um sonho e o começo de uma etapa de muitas responsabilidades, pois a franzina e batalhadora garota, trabalhava durante o dia para ajudar nas contas de casa e estudava no turno da noite. Em casa, os problemas eram muitos, além da doença do pai e da situação econômica da família, seus pais brigavam constantemente e ela ficava no meio das brigas: pai e mãe esperando que a filha tomasse um partido. Edja se sentia angustiada com as brigas e com a cobrança para que ela se

Os médicos clínicos chegam a errar o diagnóstico da depressão em 30 a 50% dos casos e não encaminham o paciente para o especialista Josimar França

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posicionasse, o clima em casa não ia nada bem e o Jornalismo era um refúgio, já que, com dois trabalhos e a faculdade, ela mal tinha tempo para dormir e para pensar nos problemas. Mesmo se refugiando e ocupando todo seu tempo, Edja conta que quando seu pai adoeceu, ela começou a adoecer também aos poucos, sem perceber. Um dos primeiros sintomas que surgiram durante a faculdade, em 2007, foi a tricotilomania, ou mania de puxar os cabelos. As pessoas que sofrem desse distúrbio arrancam fios de cabelo para controlar a ansiedade e o nervosismo. No começo, a tricotilomania não era tão intensa, mas, com o tempo e a cada difícil acontecimento, esse e outros sintomas foram evoluindo. Seu pai estava sofrendo muito, pois, para um homem de 49 anos, que trabalhava, militava e era um dos pilares da família,


Rhamayana Barreto

Eduardo Leite

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Edja alterna estados de melancolia e de ansiedade há pelos menos 5 anos

perder a plenitude de suas capacidades físicas era algo desestruturante e abalou completamente sua autoestima. Insatisfeito com sua condição, infeliz vivendo em Maceió, o pai de Edja propôs a família que voltassem para o interior, mas, como a família já estava estabelecida na cidade e Edja estudando na Ufal, trabalhando e conquistando seu sonho, era inviável voltar. Ele, então, um pouco mais independente, andando com o apoio de muletas, voltou

sozinho para Colônia Leopoldina, vivendo em condições precárias. Essa ruptura só aumentou o sofrimento da família e principalmente o dele que, não suportando mais a dor e a infelicidade, cometeu suicídio no ano de 2009. Com a morte do pai, Edja voltou todas as forças que tinha para os estudos. Ela estudava em excesso, trabalhava em excesso e dormia muito pouco, o que fez com que ela não processasse essa perda

imediatamente. Seu pai faleceu em abril, mas Edja conta que só em novembro percebeu que a falta do pai era algo definitivo, que ele não estava mais no interior, onde poderia visitá-lo quando sentisse saudades. Encarar a morte do pai foi algo muito traumático para Edja, pois ela sentia que poderia ter feito algo para evitar essa tragédia, achava que tinha se omitido e se afastado dele, sentia culpa e um remorso enorme.

Depressão e os sintomas físicos

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la passou a sentir um sofrimento terrível e angustiante e seu abalo emocional começou a interferir ainda mais na sua saúde física. Edja desenvolveu gastrite e esofagite graves, começou a sentir fortes dores no corpo, emagreceu bastante, perdendo o vigor físico que precisava para dar conta da responsabilidade de ajudar sua família desestabilizada. Ela conta: “Depois da morte do meu pai, com todos os problemas financeiros e emocionais que minha família passou e com toda fragilidade emocional da minha família, eu me sentia na obrigação de cuidar da minha mãe e dos meus dois irmãos mais novos. Eu passei a imaginar que eu tinha a obrigação de preencher a lacuna que meu pai deixou, de ser chefe da família, de orientar meus irmãos e de cuidar da minha mãe que estava sofrendo ainda mais com minha doença e essa sobrecarga de ter que trabalhar, de ter que cuidar

deles só me deixava mais doente”. Edja se cobrava muito, queria fazer mais por sua família, queria ser um suporte para eles, mas, ao mesmo tempo, via sua saúde cada vez mais agravada e a sensação de impotência só abalava mais seu emocional. Depois de já ter sua rotina alterada pela depressão, sentindo muita fraqueza e cansaço, tendo crises de ansiedade que faziam com que ela se coçasse até machucar e arrancasse muitos fios de cabelo, Edja procurou ajuda de psicólogos na Clínica de Psicologia da Ufal. Ela, no entanto, não sabia como funcionava uma sessão de terapia e, na primeira sessão, depois de contar sua história e chorar exageradamente, esperou ouvir algo que diminuísse a sua dor, porém não ouviu e aquele silêncio a incomodou muito. Ela não voltou mais, não apenas pelo silêncio, mas porque não queria relembrar os momentos que passou e reviver toda a dor.


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Até então, Edja não sabia que tinha depressão, sabia que tinha um problema, que estava doente, mas não sabia que era um quadro de depressão. Só em 2011 ela iria buscar ajuda novamente, marcando, desta vez, consulta com um psiquiatra. Mesmo estando disposta a ir ao médico, consultar-se com o psiquiatra não foi fácil. Na primeira tentativa, Edja voltou para casa antes mesmo de ser chamada; na segunda vez, ela foi embora quando viu o médico; na terceira, entrou muito nervosa, começou a chorar desesperadamente e preferiu ir embora mais uma vez. Quando se sentiu preparada e conseguiu ser atendida pelo psiquiatra, Edja recebeu o diagnóstico de depressão grave

e transtorno de ansiedade generalizada. Com a evolução da depressão, ela começou a sentir muitas dificuldades em fazer as atividades que realizava diariamente. Não tinha mais a mesma capacidade de concentração, não conseguia mais estudar e para escrever uma matéria que fazia em 40 minutos, passou a demorar um dia inteiro, dois dias, até uma semana. A partir do tratamento com o psiquiatra, Edja passou a tomar medicamentos para regular o sono, e antidepressivos. Os efeitos imediatos dos remédios também acabaram por prejudicar sua rotina, pois ela passou a dormir muito e, no primeiro mês, chegava a acordar apenas uma ou duas vezes no dia para fazer uma refeição.

Depressão e incapacidade no trabalho

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om muita dificuldade, aos "trancos e barrancos", como ela mesma disse, Edja conseguiu terminar o Trabalho de Conclusão de Curso (TCC). Porém ela, que sempre gostou de apresentar trabalhos, enfrentou uma barreira enorme de ansiedade para apresentar o TCC. Depois de colar grau, Edja conseguiu um emprego, mas não teve condições de permanecer no trabalho por muito tempo, pois estava cada vez mais debilitada, sem conseguir trabalhar com concentração e rapidez, além de desenvolver fobia de redes sociais, quando o trabalho exigia o uso delas. Edja nunca gostou de redes sociais, mas também não sabia que tinha medo de usá-las. Acontece que, em alguns momentos, ela já sentiu medo de estar sendo vigiada e as redes sociais potencializam a exposição, por isso, ela desenvolveu essa fobia. “Eu tremia, chorava e tinha taquicardia na frente de Facebook aberto”, conta. Edja acabou perdendo o emprego que era tão importante para a pequena renda da família. Como ela, muitos brasileiros precisam se afastar

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do trabalho por causa da depressão. Transtornos mentais já são a terceira maior causa de afastamento do trabalho no Brasil. Só em 2011, segundo o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), mais de 211 mil pessoas foram afastadas devido ao adoecimento mental por prazo superior a 15 dias e passaram a receber benefício auxílio-doença. O desembargador da Justiça do Trabalho, João Leite de Arruda Alencar, explica que a depressão, interferindo nas questões profissionais, tanto pode ser causada por motivos externos ao trabalho como questões pessoais e familiares, quanto por assédio moral sofrido no próprio emprego e por condições ruins de trabalho. Depressão por assédio moral no ambiente profissional é algo comum e a Justiça do Trabalho tem registrado muitas ações de assédios sofridos pelo trabalhador, afirma o desembargador. Ele explica que a demissão por motivo de doença é vedada por lei e que, como a depressão é uma doença, se comprovada, o trabalhador não pode ser demitido e tem o direito de tirar licença pelo INSS, ficando afastado para se tratar.

Em 2011, mais de 211 mil pessoas foram afastadas devido ao adoecimento mental por prazo superior a 15 dias.

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INSS


Eduardo Leite

Mal-estar no trabalho Balanço dos benefícios previdenciários e acidentais no Brasil

afastamentos de janeiro a outubro de 2012

69 mil

afastamentos de janeiro a outubro de 2012

Fonte: Anuário Estatístico Previdência Social - Ministério da Previdência Social

182,1 mil

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Transtornos mentais são terceira causa de afastamento do trabalho no Brasil.

Edja segue desempregada, com dificuldades financeiras e com o agravante de ter que custear os remédios que melhor fizeram efeito em seu tratamento, gastando com isso mais de trezentos reais por mês, porque, embora já tenha entrado com uma ação na justiça, ainda não conseguiu o acesso gratuito aos remédios pelo Poder Público. Depois de já ter chegado a uma fase muito crítica da doença (com a intensificação da tricotilomania e da dermatilomania, chagando a ficar careca e muito ferida, com dificuldades para se alimentar, emagrecendo muito e caracterizando um quadro de anorexia, além de ter desenvolvido problemas graves no estômago), na data da entrevista, Edja estava com a saúde melhor, com mais peso, com os cabelos cheios e crescendo e mais disposta, temendo, porém, que fosse apenas uma fase passageira. Edja, enquanto jornalista e militante que tem uma visão crítica da realidade e clareza de suas próprias convicções, achava ter mais controle sobre os próprios pensamentos, mais consciência do que se passava com sua mente, com sua personalidade, com seu corpo, achava que poderia ter um domínio maior sobre tudo isso. Ela, porém, descobriu que as coisas da mente e do ser são mais

complexas, mais frágeis e incontroláveis do que podia imaginar. Ao mesmo tempo, ela faz uma leitura de que essas fragilidades internas do homem estão muito conectadas a fatores externos a ele, externos a sua vontade e ao seu domínio, fatores, portanto, sociais e não individuais. Na sua própria história de vida, Edja percebe como as contradições sociais foram determinantes. As dificuldades financeiras, a exploração no trabalho e a falta de um atendimento de saúde de qualidade foram determinantes para o AVC e para o suicídio de seu pai e, por consequência, determinantes para o seu próprio adoecimento. A jornalista conclui: “Eu não tenho dúvida de que a forma como a sociedade se relaciona e o seu sistema econômico influenciam diretamente no modo de vida das pessoas e que transformaram a depressão na doença do século 21, as pessoas estão adoecendo mentalmente porque as pressões sociais que elas enfrentam estão em um nível muito maior do que o ser humano consegue suportar. Então, embora as pessoas sofram individualmente e tenham suas particularidades, a depressão é um problema social”.


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Isolado numa bolha Rhamayana Barreto

A

adolescência é uma fase de muitas descobertas, de muitos conflitos, de autoconhecimento e é quando percebemos o mundo ao nosso redor de forma mais crítica. Para muitos, é na adolescência que se enfrenta a primeira crise existencial e os primeiros choques de realidade. O engenheiro de software de 28 anos, o qual chamaremos pelo pseudônimo de Ricardo, pois preferiu não se identificar, era um adolescente feio e esquisito, sofria bullying na escola por ser estranho, relacionava-se pouco e vivia isolado.


A

adolescência de Ricardo foi marcada pela observação crítica das pessoas que o cercavam. Foi um momento de percepção das tantas contradições existentes na vida em sociedade, um momento no qual Ricardo se deparou com o egoísmo e com a hipocrisia das pessoas e perdeu muito de sua fé no homem. Ele se tornou um jovem revoltado e ainda mais introspectivo do que já era. Por força de sua indignação, Ricardo parou simplesmente de conversar com as pessoas que o cercavam e passou um bom tempo fechado em seu mundo. Ele morava com a mãe e com a irmã, na época, e até com elas o diálogo era curto; falava o mínimo necessário, respondendo quando perguntado e cumprimentandoas de forma fria e distante. “Eu comecei a ficar cético, não olhava mais no rosto de ninguém, não aguentava ouvir as pessoas falarem, eu tinha raiva das pessoas, tinha raiva de tanta hipocrisia”, conta ele. Por sua falta de sociabilidade e por sua rebeldia, Ricardo não permanecia mais que um ano nos colégios; ou era expulso ou pedia para sair. O adolescente revoltado era também muito sensível, acreditava que as pessoas tinham que se doar ao próximo, se dedicar aos que amavam, serem menos egoístas e mais altruístas. Ele teve uma relação ruim com o pai, um ex-jogador de futebol que foi do ápice da carreira à decadência, que viveu a superação de uma infância pobre, sem estudo e sem perspectivas para o sucesso como jogador profissional em grandes clubes do nordeste como o Sport de Pernambuco. O pai de Ricardo cresceu financeiramente, conquistou muitos bens no auge de sua carreira, mas perdeu tudo quando saiu

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A crise é como uma bolha em que a pessoa está dentro. E é quente e desconfortável, mas é o único lugar em que ela se encaixa

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"Ricardo"

do futebol e se destruiu no alcoolismo. Seus pais se separaram, quando ele ainda era bebê. E as lembranças que ele guarda dos momentos com o pai são, em maioria, traumáticas: de passar o dia inteiro no bar, enquanto o pai bebia com os amigos, de vê-lo bêbado sempre e, às vezes, até agressivo. Dessa relação, ele tirou o desejo de constituir família e de ser um pai totalmente diferente do seu, de ser um pai presente, dedicado, companheiro e que impulsiona os filhos e a esposa. Foi ainda na adolescência que Ricardo teve suas primeiras crises depressivas e que iniciou seu contato com o cigarro, o álcool e outras drogas. Ele não lembra exatamente como e por que aconteceu o primeiro episódio da depressão, mas conta que sempre foi uma pessoa melancólica: “Eu sempre fui um cara triste, em essência triste, em essência depressivo, aquele tipo de cara que não ri da piada besta que contam, que não vê

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"Ricardo"

Eduardo Leite

A pessoa prefere sofrer porque acha que isso faz mais sentido. Eu escolhi sofrer. Não sabia como sair daquela situação e optei por sofrer até as últimas consequências

13 graça nas coisas”. A depressão faz com que essa tristeza se intensifique nos momentos de crise, tornando a vida do depressivo uma constante de altos e baixos. Entre os motivos e situações que o deixaram deprimido e desencadearam crises, ele destaca os términos de relacionamento que sempre foram difíceis para ele. Ricardo é um homem sentimental, sempre entrou nos relacionamentos amorosos pretendendo casar e ter uma união duradoura. Romântico, dedicado e carente, cada rompimento para ele era muito sofrido, muito pesado e acabava fazendo-o entrar em sérias crises. “Na crise, não existe nada, não existe mãe, não existe pai, irmão, nem uma pessoa amiga. É como se fosse uma bolha. A pessoa está dentro de uma bolha, onde é quente, é desconfortável, mas, ao mesmo tempo, é confortável pelo fato de ela não estar se encaixando fora dessa bolha. O depressivo foge, porque não consegue mais viver na sociedade e se refugia na sua bolha”, assim Ricardo define uma crise depressiva. Nesses momentos, a vida fica em total descompasso. Ele conta que sente muito cansaço, o corpo fica mole, perde a agilidade, tem insônia. Ricardo chegou a passar um mês sem sair de casa e sem ver a luz do sol, pois ia dormir quando o dia começava a amanhecer e só acordava de noite, lá para as 18h ou 19h. Dentro dessa “bolha”, a pessoa mergulha na profundidade de sua dor até chegar ao lugar mais fundo: “Chega a um ponto em que a pessoa prefere sofrer, ela gosta de sofrer, porque acha que isso faz mais sentido, dá mais força pra ela; na época, eu escolhi sofrer, eu não sabia como sair daquela situação e eu optei por sofrer até as últimas consequências”, conta.


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Ricardo tem os braços marcados por cortes de várias tentativas de suicídio. Ele conta que descobriu recentemente que as pessoas que tem compulsão por se cortar são chamadas de cutters e que, na filosofia dos cutters, o ato de cortar-se alivia a dor: “Eu vi que era realmente isso que acontecia comigo, eu usava isso para aliviar a dor que eu estava sentindo que na época era muita e transpassava do mental para o físico”, explica ele. Ricardo não contava para ninguém o que acontecia com ele e demorou a assumir que tinha depressão.

Sua mãe foi quem teve a iniciativa de buscar ajuda, levando-o, ainda muito jovem, a psicólogos e psiquiatras. Ele fez tratamento com o psicanalista por dois anos e com o psiquiatra por cinco anos, mas abandonou os dois, manteve apenas o uso de remédios que começou a tomar aos 16 anos. Ao mesmo tempo em que acredita que os remédios “fodem com a pessoa” e que não são eles que tiram alguém da depressão, ele diz que os remédios te ajudam a enxergar que você pode ter uma vida boa, porque ele ajuda

a organizar o sono e a controlar uma crise de pânico, por exemplo. Ele chegou a ter vários ataques de pânico, que no começo estavam ligados à crise depressiva, mas que depois começaram a aparecer de forma independente. “Eu estava bem, do nada ficava mal, chorando, querendo correr de algum lugar e 10 minutos depois estava de boa”, descreve Ricardo. Quando perguntado sobre a natureza do pânico, ele respondeu: “eu tinha pânico de tudo, medo de tudo, da própria existência até, medo de morrer e a impressão de que alguma coisa ruim iria acontecer comigo”.

Medos, fobias e síndrome do pânico

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xistem muitos distúrbios que podem acompanhar a depressão e a síndrome do pânico é um deles, muito comum hoje em dia, especialmente com a grande insegurança gerada pelos baixos indicadores sociais e alto índice de violência do País. A síndrome do pânico é um transtorno que decorre do medo e da ansiedade irracionais e incontroláveis diante de alguma coisa situação. Esse medo faz com que o indivíduo desenvolva fobias e enfrente ataques de pânicos esporádicos, intensos e muito recorrentes. Nas crises de ansiedade extrema, o indivíduo se sente muito ameaçado, inseguro e com um profundo medo daquilo que lhe representa intenso perigo. Elas são súbitas e fazem o corpo acionar

mecanismos de fuga e proteção, os quais ocasionam uma série de sintomas físicos. Estes são desencadeados a partir da liberação de adrenalina frente a um estímulo considerado como potencialmente perigoso. A adrenalina provoca alterações fisiológicas que preparam o indivíduo para o enfrentamento desse perigo: aumento da frequência cardíaca e respiratória, a fim de melhorar a oxigenação muscular, aumento da frequência respiratória, hipocalcemia que ocasiona vertigem, escurecimento da visão, sensação de desmaio, formigamentos, aumento da excitabilidade muscular que se traduz, inicialmente, por tremores de extremidades, seguido de espasmos musculares e chegando até a tetania

(contração muscular persistente). Os ataques de pânico podem durar de minutos a horas e podem ocorrer até pelo medo da hipótese de um novo episódio. As crises intensificam vários tipos de fobias como a agorafobia (medo de estar em lugares públicos concorridos, onde o indivíduo não possa retirar-se de uma forma fácil ou despercebida); fobia social (medo perante situações em que a pessoa possa estar exposta a observação dos outros, ser vítima de comentários ou passar perante uma situação de humilhação em público); fobia simples (medo circunscrito diante objetos ou situações concretas, por exemplo, medo de animais, de injeção, de sangue, de situações como altura, andar de avião e elevador, medo de vomitar, de adoecer, etc.

A arte tem descrito o medo e o desespero em muitas obras como esta imagem que faz parte do ensaio do fotógrafo Christian Hopkins sobre depressão e como o seguinte trecho da música “Miedo” do compositor brasileiro Lenine: Christian Hopkins

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O medo é uma linha que separa o mundo O medo é uma casa aonde ninguém vai O medo é como um laço que se aperta em nós O medo é uma força que não me deixa andar Tenho medo de parar e medo de avançar Tenho medo de amarrar e medo de quebrar Tenho medo de exigir e medo de deixar Medo que dá medo do medo que dá O medo é uma sombra que o temor não desvia O medo é uma armadilha que pegou o amor O medo é uma chave, que apagou a vida O medo é uma brecha que fez crescer a dor

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Lenine

Christian Hopkins usa a fotografia para enfrentar e expressar sua depressão.


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Depressão e adicção

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e, nos momentos de crise, Ricardo buscava fugir do mundo e isolarse, as drogas abriam e facilitavam o caminho para fuga da realidade e de si mesmo. Ele chegou a misturar os remédios para a depressão com outros remédios como Benflogin, um anti-inflamatório que se tomado em doses altas, pode levar a alucinações que são intensificadas com a ingestão de álcool e outras drogas. Ricardo já fez uso também de cola de sapateiro, cola de cano, loló, maconha, cocaína e até quetamina, um anestésico de ação rápida para animais. “Se eu estava mal, usava a droga, porque estava mal; se eu estava bem, usava a droga para ficar melhor”, conta. A pesquisadora Maria Cícera Albuquerque explica que a relação entre depressão e drogas é uma relação de duas vias: tanto a depressão pode levar ao uso das drogas, quanto à adicção pode levar à depressão. Ela conta que, no momento em que a pessoa usa um entorpecente, ela tem um estado de euforia, mas depois, quando o efeito da substância passa, como uma consequência natural da substância, o humor da pessoa é deprimido. E essa oscilação entre euforia e depressão faz o indivíduo buscar mais a droga para permanecer em euforia, o que o leva à dependência. Quando o indivíduo é, então, dependente e tem sua vida comprometida pelo vício (perdendo seus bens e emprego, afastando-se da família e marginalizando-se, por exemplo), os malefícios da dependência podem o fazer

mergulhar numa profunda depressão. É comum também que pessoas que nunca fizeram uso de drogas, busquem substâncias entorpecentes por causa da depressão, como uma forma de fuga da realidade e também pela busca de uma euforia perdida pela doença. O último e grave episódio de depressão sofrido por Ricardo foi após o rompimento de uma relação intensa

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Se eu estava mal, usava drogas para ficar bem. Se eu estava bem, usava drogas para ficar melhor

se das pessoas, comprometeu sua rotina de trabalho e de vida por causa da dor e intensificou o uso da maconha. Ricardo chegou a um estado tão preocupante da depressão aliada ao uso de drogas que sua mãe (única pessoa que mora com ele atualmente), numa atitude desesperada, internou-o numa clínica de recuperação para dependentes químicos. Ele passou seis meses internado e, apesar de traumática a experiência, ele reconhece que a mãe precisava fazer alguma coisa. “Fiquei com raiva da minha mãe na época, porque não entendia, mas foi a melhor opção que ela teve, foi o melhor que ela fez por mim”, reconhece. Ele conta que era tratado como dependente químico e não como depressivo e isso era uma dificuldade. No começo, os remédios para a depressão não chegavam até ele, a clínica impediu o acesso, mas depois de alguns meses ele conseguiu a liberação. Lá ele teve contato com histórias de vida muito difíceis, de pessoas que perderam tudo para as drogas e de pessoas que se envolveram com o crime. O tempo na clínica o fez acordar novamente para a vida e sair da “bolha” que o envolvia naquele momento. Ele diz que o que o tirou de lá foi a determinação e afirma ainda que se perder o controle novamente, ele mesmo se internará, pois não quer perder o controle de novo e não tem estrutura para isso. Hoje, Ricardo está morando em casa com a mãe, desenvolvendo seus softwares, saindo, se relacionando com as pessoas e tentando manter a vida sob controle.

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"Ricardo"

de quatro anos, na qual ele chegou a residir com a namorada. Não foi fácil para ele perder alguém que tanto amava e que fazia parte de sua rotina. Numa relação amorosa, muitas vezes, as partes se misturam demais, criam um vínculo de dependência e nesses casos o rompimento é algo muito doloroso. Foi o que aconteceu com Ricardo: ele não soube lidar com a perda. Chorou muito, afastou-

Eduardo Leite


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A dor de uma tragédia e da solidão Rhamayana Barreto

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arluza Benevides é uma senhora de 72 anos, aposentada como arquivista da Universidade Federal de Alagoas, tão animada e alto astral que, apenas à primeira vista, não parece carregar as dores de suas tragédias. Filha de pai alcoólatra e muito traumatizada com isso, a vida, por ironia, deu-lhe a mesma sina da mãe. Marluza casou-se muito apaixonada, mas sofreu com o alcoolismo e os maus-tratos do marido, além de uma perda irreparável.


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atalhadora, Marluza foi à luta, conseguiu um bom emprego, tornou-se uma mulher independente financeiramente do marido e foi a mantenedora lar, conquistando sozinha com seu próprio trabalho os bens da família. Embora seu casamento não fosse o mais feliz, ele trouxe o que de mais precioso a vida lhe deu: seu único filho. Um filho que foi muito esperado e que trouxe muita alegria para a família e para a vida de Marluza. Ao longo da vida, ela teve muitas perdas: perdeu o pai, a mãe, o marido e irmãos, mas nunca passou pela sua cabeça a hipótese de perder seu filho.

No entanto, uma tragédia contrariou o processo natural, no qual os pais morrem antes dos filhos e levou precocemente o policial Aldeyrton Júnior, filho de Marluza, à morte. Ela estava no Rio de Janeiro a passeio, divertindo-se com suas amigas, quando, no dia 12 de dezembro de 2007, recebeu a notícia da morte do filho. Era um dia chuvoso, o policial de 28 anos estava no carro com sua esposa, na AL-101 Sul, quando, numa ultrapassagem, bateu o veículo que ficou completamente destruído. Morreram os dois, deixando um filho de quatro anos.

17 Marluza veio para Maceió o mais rápido possível, aos prantos, em estado de choque. Seu filho era tudo que ela tinha. Quando Júnior casou, ela dividiu sua casa em duas e construiu a dele. Na época do acidente, eles moravam juntos (Marluza, o filho, a nora e o neto) já há alguns anos. Ela já tinha perdido o marido não havia muitos anos e a perda do filho deixou um vazio muito grande em sua vida. “A dor de perder um filho é a maior dor que pode existir, dói muito mais que perder o pai, a mãe e o marido. Quando meu filho morreu, morreu também metade de mim”, desabafa. Sionelly Leite/Alagoas24horas

Tratamento e O carro destruído é a imagem da tragédia que retorceu também a alma de Marluza.

Do dia para a noite, Marluza viu-se sozinha. A avó materna ficou com a guarda do neto, órfão de pai e de mãe. E a casa de Marluza que era movimentada pela alegria do filho e pela agitação do neto, ficou em silêncio. Ela não tinha forças para levantar da cama, perdeu completamente a estrutura e só começou a melhorar meses depois com o acompanhamento psiquiátrico e com o uso de remédios. Ainda hoje dói, as datas de aniversário e de morte nunca são esquecidas e nunca passam em branco. Ela sempre vai ao cemitério e leva flores para o filho. Mas a vida teve que seguir e Marluza precisou erguer a cabeça. Ela conta que se não fosse a fé em Deus, não teria conseguido: “Ele é a única pessoa que eu tenho hoje, é ele que me faz levantar da cama todos os dias e viver e eu nunca me revoltei contra ele, pois Deus sabe o que faz”. Para Marluza, a solidão é muito difícil, é difícil ver quem

se ama partir e quanto mais se vive, mais isso acontece. A arquivista aposentada desenvolveu o hábito de mascar chicletes por causa da solidão, por não ter com quem conversar. Então, os chicletes são uma distração, mantém sua boca em movimento. A televisão é sua distração e fica ligada até enquanto dorme.

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A dor de perder um filho é a maior dor que pode existir

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Marluza Benevides

Quando o estado de choque começou a passar, Marluza resolveu comprar um carro e contratar um motorista para sair mais da solidão de sua casa e ser mais ativa. Realmente, a ideia deu certo e ela, aos 72 anos, leva uma vida bastante ativa, viaja, resolve suas coisas, vai à igreja, leva o neto para passear. Encontrou no motorista uma companhia, um amigo que é muito cuidadoso e que ela considera como um filho. Marluza não gosta de se lamentar da vida e demonstra muita alegria e euforia para as pessoas. Aonde chega, faz o clima virar festa. Porém, no seu íntimo sente a dor da falta e da solidão e, de tempo em tempo, deprime-se e recolhe-se, passa alguns dias desanimada, dormindo muito e até chorando. Logo depois, retoma o ânimo e volta ao estado de euforia. Sua vida oscila entre dias bons e dias ruins (deprimidos) como a maioria das pessoas que sofrem de depressão.


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O idoso e a depressão

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arluza já passa dos 70 anos e seu quadro é comum. A professora Maria Cícera explica que, embora a depressão atinja pessoas das mais variadas faixas etárias, a situação da terceira idade é mais delicada, pois a mesma é uma faixa de risco e vulnerabilidade para a doença. Isso se deve ao fato de o idoso enfrentar várias

mudanças em sua vida, um exemplo é a aposentadoria que, se não for planejada e bem processada pelo idoso, pode levá-lo a uma sensação de inutilidade, o que pode deprimir. Outra questão que ele enfrenta é a diminuição da capacidade de produção que é algo muito cobrado pela sociedade. “O mundo é competitivo na energia jovem e não considera o ritmo do idoso, então,

ele se vê, muitas vezes, incapaz, o que o leva a deprimir”, afirma. O idoso também, se não tiver família, vai ter que lidar com a solidão e, muitas vezes, precisa até residir em asilos. Tudo isso pode levá-lo a deprimir-se, segundo a professora Maria Cícera, e, por ter uma saúde mais frágil, a doença pode até levá-lo a morte, pois depressão também mata, afirma. Rhamayana Barreto

A solidão e a incapacidade são fantasmas que rondam a última fase da vida.

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O mundo é competitivo na energia jovem e não considera o ritmo do idoso, então, ele se vê, muitas vezes, incapaz, o que o leva a deprimir

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Profª Maria Cícera


Tratamento e políticas públicas

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dja, Ricardo e Marluza disseram já ter contado, em algum momento, com o acompanhamento de psicólogos e psiquiatras e todos fazem uso de remédios para tratar a depressão. Apenas os psiquiatras tem o poder de receitar medicamentos e eles trabalham tanto através da conversa, quanto monitorando o uso dos psicofármacos e seus efeitos sobre os sintomas. Já os psicólogos não podem receitar remédios e tratam o problema do indivíduo depressivo através da fala, buscando soluções pela palavra, no uso de várias técnicas psicoterapêuticas. A necessidade da manipulação ou não de remédios vai depender de cada caso. O professor e psicanalista Charles Lang afirma que, muitas vezes, o tratamento pela palavra já é suficiente, outras vezes não. Isso vai depender do diagnóstico e para se chegar a ele é preciso entender qual é a vivência da pessoa com depressão, qual é a psicodinâmica e qual é o conflito, conta Lang.


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dja vê algumas diferenças entre as abordagens do psicólogo e do psiquiatra: “Eu não sentia que os psiquiatras achavam necessário que eu fizesse terapia, eles diziam 'é bom que você faça', mas não viam como uma necessidade essencial ao meu tratamento, enquanto que a terapeuta achava os dois tratamentos essenciais, achava que nem só com o medicamento eu ia ficar boa, nem só com a psicoterapia. Eu sinto que a preocupação do psiquiatra é mais com o sintoma mesmo, com minimizar os sintomas da doença através da medicação”. Edja percebeu uma forte preocupação dos

psiquiatras em tratar o que ela sentia, em tratar seus sintomas, buscando seu bem-estar. Já dos psicólogos, ela percebe uma atenção maior à raiz do problema e o interesse por seus conflitos internos. Ultimamente, ela tem sido acompanhada apenas pelos médicos psiquiatras, mas pensa em voltar ao psicólogo. Sobre os remédios, ela conta que já teve uma resistência por causa dos fortes efeitos colaterais e da dependência que causa, mas mudou várias vezes de medicação até encontrar o que mais se adequasse e, hoje, teme deixá-los: “Já pensei em deixar de tomar os remédios por achar

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que estava tomando remédios demais e vendo pouco resultado, mas hoje eu sinto medo de largar, porque eu percebi que eu tive uma melhora, ainda que pequena, na tricotilomania e na dermatilomania. daí tenho medo de largar o tratamento e regredir na minha doença”, conta. Os remédios podem ajudar muito no controle de certos sintomas e compulsões, mas não podem ser encarados como único meio de tratar a depressão. Afinal, o uso exclusivo de remédios como tratamento não é capaz de resolver os conflitos internos do indivíduo, fechar suas feridas e fazê-lo reencontrar o sentido para existir.

Já pensei em deixar de tomar os remédios por achar que estava tomando remédio demais e vendo pouco resultado, mas hoje eu sinto medo de largar, porque eu percebi que tive uma melhora, ainda que pequena, na tricotilomania e na dermatillomania, daí tenho medo de largar o tratamento e regredir na minha doença

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Edja Jordan

Terapia Cognitivo-comportamental

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tualmente, tem se falado muito em um tipo de terapia chamada de Terapia Cognitivocomportamental (TCC). Ela tem se destacado por ser a mais moderna e por apresentar resultados eficazes no tratamento de vários transtornos psicológicos. A psicoterapia cognitivocomportamental é uma forma de terapia objetiva, calcada em pesquisas científicas, que procura tratar os sintomas de maneira direta e eficaz, com ênfase no presente. Isto não quer dizer que não sejam tratados aspectos emocionais passados, mas sim

que, inicialmente, o foco da terapia é o que mais aflige o paciente, e em grande parte esses problemas são pensamentos, sentimentos e comportamentos que estejam ocorrendo no dia a dia da pessoa. Em muitos casos (como depressão, transtorno do pânico, transtorno obsessivo-compulsivo, entre outros) a pessoa está tão tomada pelo problema que sofre várias alterações no seu diaa-dia, necessitando uma intervenção mais rápida e ativa para retornar ao seu equilíbrio anterior. Inúmeras pesquisas vêm comprovando a eficácia da TCC no

tratamento da Depressão. Seu principal objetivo é conscientizar o paciente sobre a necessidade de reestruturar sua maneira de vivenciar os fatos à sua volta, e principalmente de saber lidar melhor com os problemas. Isso ocorre através da identificação e do questionamento de certos pensamentos distorcidos e crenças irracionais que determinam o sentimento e o comportamento depressivo. Terapeuta e cliente assumem, conjuntamente, a tarefa de realizar um teste de realidade, ou seja, analisar os fatos que ocorrem na vida de forma mais acurada, corrigindo os possíveis pensamentos distorcidos. Fonte: www.psicoclinicacognitiva.com.br


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Políticas públicas de saúde mental

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ão são apenas as políticas públicas em saúde que interferem na saúde mental da população, a maioria das políticas produz efeito sobre o campo da saúde mental, como as políticas de segurança, de cultura, de educação, de esporte e lazer. A aplicação de boas políticas públicas nessas áreas citadas, melhoram a qualidade de vida e o bem-estar das pessoas, fazendo bem à saúde psíquica e emocional da população. A professora Maria Cícera conta que estudos revelam que o envolvimento com e o acesso à arte e cultura (poder, por exemplo, ir

com frequência ao cinema, ao teatro, a exposições de arte, a orquestras etc.) ajuda muito o bem-estar interno, enquanto que a falta de lazer, de segurança e de atividade física, por exemplo, prejudicam esse bem-estar. Berto Gonçalo, gerente de Saúde Mental da Sesau (Secretaria de Saúde do Estado de Alagoas), ressalta que a rede de atenção psicossocial em Alagoas tem crescido. Tal rede é embasada na Reforma Psiquiátrica e visa substituir os antigos hospitais psiquiátricos de internamento pelos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) que são centros

abertos e comunitários. Os CAPS oferecem atendimento à população, realizam o acompanhamento clínico e a reinserção social dos usuários pelo acesso ao trabalho, lazer, exercício dos direitos civis e fortalecimento dos laços familiares e comunitários. O número de Centros de Antenção Psicossocial, em Alagoas, chegou a 55 com a inauguração, este ano, do primeiro CAPS ad III 24 horas para prestar atendimento noturno aos usuários de drogas. A professora e pesquisadora da Ufal, Maria Cícera, avalia que, embora a rede precise crescer e se Rhamayana Barreto

Alagoas entrou na Reforma Psiquiátrica, mas a cobertura dos Centros de Atenção Psicossocial ainda precisa crescer.

qualificar ainda mais, temos uma boa cobertura de atenção psicossocial por 100 mil habitantes no estado e que a saúde mental nos últimos anos tem recebido mais atenção das esferas de poder, principalmente do governo federal. Ela afirma que essa área da saúde já foi muito relegada, mas como a Organização Mundial da Saúde (OMS) “gritou” ao mundo a preocupação de que a doença mental irá afetar as populações de forma intensa e ampla até 2020, os países ligados à OMS voltaram, então, sua atenção para a saúde mental e começaram a tomar medidas de prevenção e enfrentamento

às questões relacionadas à saúde da mente. No Brasil, a atenção à saúde psicossocial se intensificou há mais ou menos cinco anos, por causa da grande dimensão que o problema social e de saúde pública do crack e outras drogas vinha tomando, conta a professora. O maior investimento em saúde mental, portanto, não tinha como foco o tratamento dos transtornos mentais e sim uma questão mais incômoda para o poder público: as drogas. Mesmo assim, os serviços e tratamentos públicos às doenças da mente têm recebido mais cuidados e vem se consolidando e ganhando força. Maria Cícera diz o

que é necessário ainda: “Precisamos qualificar ainda mais o profissional da área psicossocial para que ele seja cada vez mais competente para lidar com as questões do sofrimento humano e do conflito; precisamos ampliar os abrigos, as chamadas unidades de acolhimento, para receber as pessoas que estão numa situação de transitoriedade; precisamos ampliar o programa “De Volta para Casa” que visa tirar pessoas dos hospitais psiquiátricos e reinseri-las no convívio social; ampliar os próprios CAPS; os centros de convivência e outros serviços que possam ajudar o ser humano em sofrimento a se estruturar”.


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Incompletude do ser Christian Hopkins

A falta angustia o ser humano, que busca a completude e a plenitude incessantemente.

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inguém está livre de ser acometido por transtornos e distúrbios mentais. Qualquer abalo emocional pode ser desestruturante. A mente não é terreno seguro, muitas coisas a perturbam ao longo da vida: o crescer, o entender-se e encontrar-se no mundo, a constituição da personalidade, o envelhecer, a saudade, a solidão, a morte, o medo, a falta, as dúvidas, as certezas...


E

nquanto atravessamos aquela ponte velha e estreita, nossas fragilidades internas rompem uma corda, as pressões externas rompem outra, as contradições sociais rompem mais uma, até que chegamos ao limite de andar na corda bamba e, nesse momento, até um sopro pode nos fazer cair. É difícil não perder o equilíbrio, no mundo contemporâneo, é difícil não adoecer. O ritmo que nos é

imposto leva-nos a correr em direção a um ponto que parece nunca chegar, como um hamster, correndo em um globo de exercício. Corremos, buscamos, mas, às vezes, a paz, o dinheiro, a segurança e a felicidade não chegam nunca. Exaurimo-nos. Paramos. Desistimos. Desestruturamos. No entanto, trabalhar a subjetividade, através do lidar consigo mesmo, com seus conflitos internos,

23 suas complexidades, através também do fortalecimento das relações de alteridade e através de tantas outras formas, pode ajudar o indivíduo a manter seu equilíbrio em situações-limite. Para encerrar esta matéria, trago uma questão muito interessante sobre a subjetividade do ser humano e o lidar com sua incompletude discutida pelo psicanalista Charles Lang: “O ser humano não é um ser completo que perdeu alguma coisa, essa Rhamayana Barreto

Charles Lang condivide com sua equipe a visão do ser humano incompleto. Uma concepção que resulta positiva.

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Achamos que temos todas as potencialidades para sermos completos e plenos, mas que algo nos falta para alcançar a plenitude. Porém, o ser humano não é completo. A falta faz parte da essência do homem, a falta é constitutiva do ser

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Charles Lang é a fantasia que a gente tem, achamos que temos todas as potencialidades para sermos completos e plenos, mas que algo nos falta para alcançar essa plenitude. No entanto, o ser humano não é completo. A falta faz parte de sua essência, a falta é constitutiva do ser”, afirma. Ele diz que, por mais que busquemos o que nos falta, esse vazio jamais será preenchido, sempre viveremos com a

sensação de incompletude. A publicidade se aproveita desse vazio para instaurar em nós necessidades e nos fazer satisfazê-la, porém as necessidades não findam e entramos no ciclo do consumo incessante. A característica da incompletude humana, que é manipulada pela publicidade como se fosse um traço de vulnerabilidade, se trabalhada por nosso campo subjetivo pode torna-se nossa força motora, pois é falta que nos move, que nos faz

ir em busca de objetivos. Por mais angustiante que seja lidar com a incompletude é ela que nos faz buscar, incessantemente, por um sentido que nos faça plenos e isso é positivo. Da mesma forma que a incompletude que nos angustia tem seu lado bom e deve ser trabalhada por nosso campo subjetivo, podemos também processar outras situações e questões angustiantes, de forma a superálas ou conviver bem com elas.


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Das pressões do existir: um mundo cada vez mais deprimido