Page 1

Campus BRASÍLIA, 9 de novembro a 22 de novembro de 2009

|

Jornal Laboratório da Faculdade de Comunicação da UnB

|

WWW.FAC.UNB.BR

|

ANO 39, EDIÇÃO 342

Rafaela Felicciano

Reitor cumpre 2 de 15 metas Ao final do primeiro dos quatro anos de mandato de José Geraldo, o Campus faz um balanço das promessas aos estudantes. “Não prometi nada para um ano”, afirma ele

p. 4 e 5

3 3 Problemas na Colina

Por decisão da reitoria, estudantes de intercâmbio estão morando em apartamentos destinados a professores e colaboradores da Universidade

Desperdício no RU

Meia tonelada de comida deixada nos pratos vai para o lixo do Restaurante Universitário todos os dias

Ceilândia faz cinema

7

Produtora sediada na satélite leva realização local ao Festival de Brasília

Orçamento desigual Planejamento para 2010 tentará amenizar diferenças na distribuição de verbas entre unidades da UnB

5


Perspectiva Expediente

Opinião

Campus Darcy Ribeiro, Faculdade de Comunicação, ICC Ala Norte. Contato: (61) 3307-2519 Ramal 207/241 – Caixa Postal 01660 CEP: 70910-900 - campus@unb.br Editora-chefe: Alessandra Watanabe Secretária de Redação: Vanessa Vieira Diretora de Arte: Laís Miranda Diagramação: Fabiana Closs, Gabriel de Sá, Mel Bleil Gallo, Lucas Leon, Tiago Padilha Fotografia: Camila Santos (editora), Ludmilla Alves, Mariana Tokarnia, Priscila Crispi, Verônica Honório Perspectiva: Cláudio Vicente (editor) Cotidiano: Luana Richter (editora), Heitor Albernaz, Maíra Morais, Manuela Marla, Marina Marquez Contexto: Juliana Reis (editora), Marcela Ulhoa, Rafaela Felicciano, Rafaella Vianna, Renata Zago Laboratório: Ana Clara Martins (editora), Marcella Cunha, Luana Richter Bloco C: João Paulo Vicente (editor), Igor Miguel Pereira, Isabela Horta, Marina Rocha ContraCapa: Mariana Niederauer (editora), Mariana de Paula Projeto Gráfico: Ana Clara Martins, Heitor Albernaz, Juliana Reis, Laís Miranda, Marcella Cunha, Marcela Ulhoa, Marina Rocha Revisão: Ana Carolina Seiça, Bárbara Lopes. Guilherme Oliveira, Mariana Haubert, Plácida Lopes Professor responsável: Solano Nascimento Jornalista: José Luiz Silva Monitor: Leonardo Muniz Suporte Técnico e assistência em Fotografia: Pedro França Ilustrações: Luísa Malheiros Gráfica Guiapack - 4000 exemplares

A UnB acende as luzes

Acesse o fac.unb.br/campusonline Carta do editor-chefe

Jean-Baptiste Debret, 1834.

CLÁUDIO VICENTE

D

uzentos anos depois de a família real chegar ao Brasil trazendo a iluminação pública, chegou à UnB o Reuni, programa de Reestruturação e Expansão das Universidades

Federais. As ruas, à época, foram iluminadas com azeite de peixe, luz fraca e mal cheirosa. Os nobres trouxeram algum dinheiro, um punhado de boas intenções e muitas expectativas de ganho fácil. O Reuni também veio com seu azeite de peixe e aumentou o número de

Correção

Carta do leitor

S

ó entra o que tem que estar no jornal. Nosso foco é a UnB, mas com abertura para o externo que valha a pena ser publicado. Esses foram dois grandes objetivos dentre os vários que nos propomos a alcançar quando concebemos o Campus deste semestre. Nesta edição, acredito que os atingimos. Isso me pareceu claro já no momento em que tivemos dificuldade para escolher o que entraria. Eram muitas opções. E o melhor, boas opções. Se antes sofríamos com a falta de relevância de alguns assuntos, desta vez pudemos escolher. Um balanço do primeiro ano do reitor José Geraldo traz um acompanhamento das propostas de campanha. Uma rotina de desperdício do Restaurante Universitário e a presença de moradores inesperados na Colina mostram nossa busca pelo que está tão perto e que é de fato relevante. Ao mesmo tempo, não nos restringimos à UnB. Reportagens como a produção de filmes em Ceilândia e uma escola de samba no Varjão trouxeram o inesperado e o curioso. Você também encontrará uma pesquisa comportamental que afeta todos nós. Tentamos colocar aquilo que você não pode deixar de saber.

ANDRÉA MOURA BATISTA

O artigo Aventura dos CA´s (número 340) mostrou de maneira cômica e divertida uma discussão que está presente no nosso cotidiano: a constante luta pelos CA’s, um espaço legítimo onde possam ser desenvolvidas atividades culturais e acadêmicas. A ocupação tem sido um instrumento dos alunos para a resolução de questões em pauta pelas lutas Mande sua opinião para o Campus: campus@unb.br

estudantis. No entanto, quando feita de maneira desordenada, sem uma discussão prévia da temática, torna-se esvaziada. Podemos notar essa contradição na fala de muitos alunos que demonstram estar revoltados com as ocupações. Consideram uma luta que deveria ser enriquecedora para o desenvolvimento do curso como uma “baderna”, sem entender a lógica que existe por trás de uma ocupação legítima.

CAMILA GUEDES

A

dúvida que não quer calar: por que a matéria sobre as prostitutas não foi a manchete da última edição? Ela de longe é a que chama mais atenção do leitor. Afinal, a reportagem Minoria da UnB vem de escolas públicas, apesar de ter dados inéditos, já não é novidade para ninguém. Além disso, os números 64% e 31% estampados na capa do jornal, mesmo sendo explicados depois,

2

Campus 40 anos

Social da UnB

O

Escolhas certas e erradas luxo é um assunto “um pouco distante” da UnB, como afirma a carta do editor-chefe? A reportagem vai muito além de um babado fortíssimo, é de extrema relevância, sim. Outro problema da matéria principal foi o fato de ela e da reportagem Planaltina, a exceção tratarem do mesmo assunto. Ficou parecendo que vocês precisaram tapar um buraco e decidiram cortar a matéria em duas. Quanto à editoria ContraCapa, erramos a mão novamente. Possuir

Na reportagem Planaltina, a exceção (edição 341, de 27/10/2009), as lengendas do gráfico foram publicadas com as cores invertidas. A cor identificada como “egressos de escola pública” se referia, na verdade, aos de escola privada, e vice-versa.

Estudante do 6º semestre de Serviço

Ombudskvinna*

dão a impressão de que ninguém no Campus sabe somar. Nem adianta dizer que a escolha foi baseada na proposta do jornal. Por favor, gente, liberte-se! É claro que quando se está preso a matérias “mais ou menos”, o que acaba definindo o que ficará em evidência é o direcionamento do jornal, mas se você está com uma bomba na mão, o melhor é colocála para explodir na cara do leitor. Além disso, de onde vocês tiraram que o fato de alunas estarem se tornando prostitutas de

cursos noturnos na UnB. Fundou a imprensa régia entre nós, plebeus (Comunicação Organizacional é um dos cursos noturnos abertos), deu uma lamparina para os construtores de chafarizes (Arquitetura e Urbanismo é outro) e alardeou as boas novas: estamos investindo

na Universidade. Porém, comparando os preços, ampliar as vagas só acendendo as luzes é bem baratinho. A UnB passou mais de uma década sem abrir novos cursos noturnos e isso precisava ser feito. Tínhamos 15 no semestre passado e teremos 26 no próximo. São cursos como Engenharia de Produção, Música, Ciências Farmacêuticas e Serviço Social. É pouco, no entanto. O Reuni trouxe expectativas de maiores investimentos na universidade. É importante que a sociedade participe das decisões. Lá no império, um emissário do rei escrevia PR (Príncipe Regente) nos prédios a serem confiscados à nobreza que estava para chegar. O PR de hoje (programa Reuni) tem que estar ligado a necessidades sociais. Por enquanto, “nunca antes na história deste país” se fez o tão pouco parecer tanto.

personagens interessantes não faz de um texto uma reportagem e muito menos de um episódio algo relevante para o público. Quem pararia para ler uma matéria dessas? A verdade é que o leitor ficou perdido mais uma vez e quase ninguém chegou ao ponto final.

*Ombudskivinna, feminino de ombudsman. Na imprensa, pessoa que analisa o jornal do ponto de vista do leitor

Campus já entrevistou vários reitores. Uma das entrevistas mais célebres foi a com o reitor da ditadura, o Capitão de Mar e Guerra José Carlos Azevedo, no número 65, de setembro de 1984. No final dos seus 16 anos de mandato, ele tratou até de política, coisa da qual não gostava de falar. “Eu nunca respondo a perguntas políticas e só faço, em parte, pela insistência”, disse, antipático, mas interessado em afirmar sua preferência por Paulo Maluf nas eleições presidenciais indiretas de 1985, que se aproximavam. Na entrevista, os então repórteres Carlos Penna e Lavina Ribeiro passaram algumas horas ouvindo o capitão reitor, o homem escolhido pela ditadura para “pacificar” a Universidade. Apesar de dizer que diálogo era coisa de demagogo, desafiou quem o tenha visto correndo atrás de aluno ou professor “para dar uma monumental surra”. “Se eu passar o dia inteiro perambulando pelo campus dialogando, vai dar um angu do tamanho do mundo”, reclamou.


Cotidiano

Prato cheio. De sobras

Mariana Tokarnia

Meia tonelada de alimentos é desperdiçada todos os dias no RU. O suficiente para alimentar 625 pessoas HEITOR ALBERNAZ MANUELA MARLA

N

o balcão, comida à vontade. Nas mesas, pratos cheios de sobras. Essa é a realidade do Restaurante Universitário (RU) da UnB, onde são desperdiçados, em média, 12% dos alimentos servidos, o que equivale a cerca de 500 quilos por dia. O preço barato, de R$ 0,50 a R$ 5,00 , que atrai quem não pretende gastar muito, pode ser um estímulo ao exagero. “No RU, (o sistema) é por pessoa e dá a sensação de que a gente tem que aproveitar”, confessa o estudante de Computação Flávio Gomes. O auxiliar de cozinha Edílson Vital trabalha recebendo os pratos com os restos. Ele conta que o desperdício é algo constante, apesar de as pessoas se envergonharem disso. “Tem gente que chega constrangida e se justifica falando até que não comeu porque a comida estava muito quente.” As explicações não param por aí. Para o estudante de Biblioteconomia Jamerson Pires, o problema está na qualidade da comida. “O frango, por exemplo, tem um aspecto ruim, é mal feito. E, mesmo com fome, perco a vontade de comer.” Apesar disso, no dia em que foi entrevistado, seu prato estava vazio. “Hoje foi uma exceção, pois estava muito bom”, justifica. A estudante de Ciência Política Mayara Bandeira diz que, com frequência, coloca mais do que consegue comer. “Sempre deixo um pouquinho no prato, mas bem mais no RU do que em casa. A comida daqui é pesada e me satisfaço mais rápido do que imagino.” A nutricionista-chefe do restaurante, Jamilie Mora-

Resto Zero

O que é deixado nas mesas é transformado em adubo na FAL

es, acredita que a falta de conscientização é o maior problema. “As pessoas não percebem que aquele pouco que elas deixam no prato tem um impacto grande no final.” Pelo RU, passam em média quatro mil pessoas por dia. “Dá para imaginar o que aconteceria se todo mundo deixasse um pouquinho”, afirma Jamilie. Os nutricionistas do RU estimam que cada pessoa consome aproximadamente 800 gramas por refeição. Levando-se em conta esse número, a média das sobras (500 quilos diários) poderia servir mais 625 indivíduos. O destino do que fica nos pratos, porém, é outro. Por muitos anos, a solução encontrada para os resí-

A invasão da Colina MARINA MARQUEZ

H

á cerca de três meses, estudantes de intercâmbio, vindos de universidades estrangeiras, moram na Colina, destinada à moradia de professores e funcionários da UnB e disputada atualmente por mais de 500 servidores na lista de espera. São 19 alunos espalhados por cinco apartamentos, nos blocos C, E, G e I. A UnB dispõe de quase 700 imóveis funcionais. A Resolução 30/2004, do Conselho Diretor da Fundação Universidade de Brasília (FUB), afirma que esses apartamentos “servem à finalidade de atração e fixação de quadros diferenciados de servidores docente e técnicoadministrativo.” A proximidade dos prédios e o campus Darcy Ribeiro facilita a rotina dos jovens que desconhecem a língua e a região. “Às vezes temos aulas até às 21h e, se não morásse-

mos perto, seria bem mais complicado”, diz a portuguesa Yana Papyan, de 21 anos, de Relações Internacionais. Cada estudante paga R$ 600 mensais.

jeito que as coisas estão, não tenho mais esperanças de conseguir a vaga”, lamenta. Miguel Ângelo Montagner, professor da Faculdade de Saúde, con-

Não seria melhor construir um espaço específico para eles? “Estranhamos, mas nos disseram que em Brasília era muito caro mesmo”, conta Antônio Valdés, de 21 anos, chileno e estudante de Administração. Como alguns apartamentos têm até cinco moradores, a FUB chega a receber até R$ 3 mil mensais por apartamento ocupado pelos alunos. Se um professor ou servidor estivesse morando ali, o valor máximo pago seria de R$ 526 por mês. Domingas Carneiro, servidora no Departamento de Serviço Social, espera há 18 anos por um imóvel da UnB. Por enquanto, vive em um apartamento pequeno, com o aluguel bem superior ao de um funcional. “Do

MAÍRA MORAIS

duos foi destiná-los a uma criação de porcos particular na cidade de Sobradinho. O responsável pelo recolhimento das sobras precisou parar com a atividade há cerca de três meses. A alternativa foi um acordo com a Fazenda Água Limpa (FAL), da própria UnB - localizada no Núcleo Rural Vargem Bonita, no Park Way -, onde os restos são transformados em adubo por um processo de compostagem. O criador do plano de manejo e ex-estagiário técnico da FAL, Juan Sugasti, conta que já produzia adubo a partir das sobras do restaurante da fazenda. “Era diferente, pois o resíduo vinha da produção, como cascas de batatas. No RU, o alimento já foi preparado e, por isso, tem muito óleo, o que dificulta a decomposição.” O diretor da FAL, José Mauro Diogo, ressalta outro problema. “Nós estávamos acostumados a lidar com uma quantidade menor e não temos muitas condições para realizar o processo.” Segundo Diogo, os restos não são apropriados para a alimentação dos bovinos e ovinos da fazenda, por isso tudo é destinado à produção de adubo.

corda. “Os estudantes deveriam entrar em uma lista também ou morar em um alojamento.” Alguns chegam a brincar com a longa espera. “Vou vencêlos pelo cansaço. Não saio de teimosa!”, garante Gisele Maria Passos, secretária no Instituto de Letras, na lista desde 1993.

A Universidade de Santa Maria, no Rio Grande do Sul, implantou em 1999 o projeto Resto Zero. Naquele ano, o índice de desperdício no RU baixou de 12% para 5% após a campanha de conscientização. Em 2009, as sobras representam 4,5% da quantidade servida. A diretora do RU da UnB, Cristiane Costa, conta que o restaurante possui planos para diminuir o desperdício. O projeto, também denominado Resto Zero, será implementado em 2010, quando a reforma do local estiver pronta. Seu principal foco será alertar os frequentadores sobre o grande prejuízo que o desperdício causa, além de procurar diminuir as perdas dentro da própria cozinha, aprimorando o preparo dos alimentos com máquinas melhores. A nutricionista Jamilie Moraes afirma que é preciso ter autoconhecimento com relação à alimentação. “As pessoas têm que fazer uma observação diária do quanto conseguem comer e do quanto desperdiçam. Só assim elas aprenderão a colocar só o necessário no prato”, afirma a nutricionisa do RU. •

UnB descumpre normas alugando para estudantes imóveis destinados a servidores e colaboradores

trangeiro conseguir alugar um imóvel. Responsável pelos estudantes, a Assessoria de Assuntos Internacionais (INT) encaminhou um pedido à Secretaria de Gestão Patrimonial (SGP) para que apartamentos fossem disponibilizados. A decisão tomada pela reitoria, sem consultar os conselhos representantes dos servidores, não agradou. A Associação dos Docentes da Universidade de Brasília (ADUnB) chegou a enviar uma carta pedindo esclarecimentos.

“Não somos contra dar moradia aos estudantes, mas faltou transparência no processo”, argumenta o presidente da ADUnB, Flávio Botelho. O coordenador-geral do Sindicato dos trabalhadores da Fundação Universidade de Brasília (Sintifub), Cosmo Balbino, sugere outra alternativa: “Não seria melhor construir um espaço específico para eles?” De acordo com Paulo César Marques, assessor de Comunicação da reitoria, os apartamentos

ocupados não são imóveis funcionais e fazem parte de uma reserva técnica do reitor. “Dos nossos 25 apartamentos, somente 16 estavam ocupados. É uma decisão provisória do reitor”, garante Marques. A Resolução 30/2004, que trata da moradia comunitária, diz que os apartamentos da reserva técnica do reitor são destinados ao uso provisório de professores visitantes e colaboradores da Administração Superior. Não cita estudantes. • Verõnica Honório

À espera A autorização para que os intercambistas morassem na Colina foi dada pela reitoria, em agosto deste ano. Ajudar os estudantes a encontrar moradia provisória é uma das responsabilidades do convênio de intercâmbio da Universidade, pois é mais complicado para um es-

Yana Papyan, estudante de intercâmbio, ocupa um dos apartamentos de reserva técnica do reitor

3


Contexto

O primeiro ano O

reitor José Geraldo de Souza, eleito graças ao peso dos votos dos estudantes, completa no dia 18 de novembro o primeiro dos quatro anos de mandato. Com base em um panfleto distribuído durante a campanha, o Campus analisa como está o cumprimento das promessas feitas aos alunos. De um total de 15 metas, duas foram totalmente cumpridas e duas foram parcialmente realizadas. Das demais, uma é, inclusive, ilegal. Rafaela Felicciano Rafaella Vianna Renata Zago

Aumentar os recursos para o Programa Institucional de Bolsas de Extensão (Pibex) Com os recursos do Reuni, o número de bolsas do Pibex passou de 169 para 291. O total de projetos subiu de 150, em 2008, para 200 este ano. O valor da bolsa continua R$ 300. Garantir a manutenção do preço do Restaurante Universitário (RU), visando a redução dos custos O valor da refeição no RU permanece o mesmo. Estudantes, funcionários, professores e visitantes pagam entre R$ 0,50 e R$ 5, conforme o grupo a que pertençam. Viabilizar o funcionamento do RU durante os fins de semana e as férias, bem como a expansão do horário de atendimento O horário e os dias de atendimento continuam os mesmos: somente de segunda a sextafeira, das 11h às14h e das 17h às 19h. Não existe nem previsão de ampliação desse período. “Com os 180 servidores que tenho, não dou conta de abrir nos finais de semana”, afirma a diretora do RU, Cristiane Moreira. Viabilizar a criação de linhas gratuitas de transporte coletivo intercampi, que atendam às necessidades da comunidade universitária Não houve licitação para compra de ônibus, mas já foram definidos o percurso, os horários e os locais das paradas. O reitor disse ao Campus que os ônibus deveriam começar a circular no começo do próximo semestre. Dois dias depois da entrevista, a Secretaria de Comunicação (Secom) anunciou que a circulação começaria na primeira semana de novembro.

Trabalhar em conjunto com o GDF para ampliar o número de linhas e paradas de ônibus na/para a UnB Não mudou o número de linhas (30) nem o de paradas. Segundo a Secretaria de Transportes, não há acordos ou convênios com a UnB. A única mudança no último ano foi a ligação rodoviária-UnB. Segundo Paulo César Silva, assessor da reitoria, o itinerário ficou mais curto. Implantar a rede cicloviária no campus Darcy Ribeiro, integrada à rede do Plano Piloto, e incorporar os demais campi às redes cicloviárias das respectivas cidades Não há ciclovias em nenhum dos campi da UnB. Em uma conversa, o reitor e o governador José Roberto Arruda discutiram a construção de uma a ciclovia ligando a via L2 à L4. A Secretaria de Obras do DF e o Departamento de Estradas e Rodagem (DER) afirmam não haver ainda nenhum projeto sobre isso. Criar linhas circulares internas e racionalizar os horários e itinerários das demais linhas de ônibus no interior do campus Darcy Ribeiro Não foram criadas novas linhas. Os horários da linha gratuita já existiam e o número de viagens passou de dois para oito por dia. Projeto Renovação BCE: ampliar a compra de livros e periódicos, de modo a garantir progressiva atualização do acervo O número de livros comprados aumentou de 8.542, em 2008, para 10.948 este ano. Já a compra de periódicos caiu pela metade. No ano passado, foram 76, mas neste ano, apenas 38 entraram no acervo até outubro. A chefe do setor de Seleção da biblioteca, Néria Lourenço, explica que o processo de compra é lento e os exemplares demoram de três a seis meses para chegar às mãos do usuário. Reformar a CEU, de modo a garantir condições de dignidade de vida e de sociabilidade juvenil A reforma não foi feita. A previsão é gastar R$ 2,2 milhões com a obra nos dois blocos, mas a remoção dos estudantes pode dobrar esse valor. A negociação está truncada. Moradores não aceitam ficar todos juntos em um dos blocos enquanto o outro é reformado, nem ir para um albergue, mesmo com transporte pago. Querem que a UnB alugue apartamentos no Plano Piloto, o que, para a decana de Assuntos Comunitários, Rachel Nunes, “é inviável”. Além de ser muito caro, as imobiliárias relutam em alugar apartamentos para grupos de estudantes. A solução deve ficar para a mesa de negociação, que ainda não foi instalada por falta de indicação de representantes dos próprios estudantes e da administração. Reformular a bolsa-permanência de modo a vinculá-la às atividades de pesquisa, extensão ou estágio na área de conhecimento/fomação do estudante, com duração de, no máximo, 20 horas semanais Não houve reformulação para redirecionamento da bolsa, e o benefício continua abrangendo as mesmas atividades de antes. O valor foi de R$ 300 para R$ 350 mensais, e há planos de novo reajuste.

4

Renovar os computadores do Projeto Quiosque e criar centros de informática com acesso à internet Houve a renovação dos computadores, mas os centros não foram criados. Os computadores estão disponíveis para uso desde o primeiro semestre deste ano. Um projeto para instalação de centros de informática com pontos de energia e acesso à internet no Ceubinho e Udefinho está sendo estudado. Segundo o diretor do Centro de Informática (ex-CPD), Marcelo Ladeira, a previsão é que os centros fiquem prontos no segundo semestre de 2010. Construir creche gratuita para filhos de professores, estudantes e técnico-administrativos A creche não foi construída. Nem poderia. O decreto n° 977/93, da Presidência da República, proíbe a criação de novas creches dentro de órgãos públicos. O que existe é o Programa Infanto-Juvenil (PIJ), criado por professores da UnB e mantido com ajuda da Associação dos Servidores da Fundação Universidade de Brasília (Asfub) há 25 anos. O programa recebe crianças com idades entre dois a dez anos e funciona como uma espécie de complemento ao ensino formal, com mensalidade de R$ 150 para associados da Asfub e R$ 280 para nãoassociados. A sede própria do PIJ ficou pronta em dezembro do ano passado, mas o programa só se instalou seis meses depois. Questionado pelo Campus, o reitor admitiu ter conhecimento do decreto. Diante da insistência sobre a inclusão de algo ilegal na lista de promessas feitas durante a campanha eleitoral, o reitor afirmou que “creche” é uma expressão “simbólica”. Criar um Centro Cultural e de Vivência na UnB Não foi criado. “A ideia é criar vários centros de cultura e vivência, pelo implemento de uma política de cultura e de vivência social”, esclarece o reitor. Existe um projeto que prevê a revitalização de algumas áreas de vivência já existentes na Universidade, como o Teatro de Arena e a Praça Maior. Liberar a promoção de festas nos campi As festas que estavam vetadas antes da eleição do novo reitor continuam vetadas. Desde uma resolução de 2003, as dependências acadêmicas só podem ser utilizadas para confraternizações que proporcionem a integração entre os segmentos da Universidade, como a abertura da semana de calouros. Uma nova proposta, que trata também dos outros campi da UnB, está em discussão na Câmara de Assuntos Comunitários, mas a comissão que abordará o tema ainda não foi formada. Churrascos e festas de CAs continuam sendo feitos fora dos campi. Reformar a parte externa do CO para permitir o uso da área por toda a comunidade Não houve reforma no Centro Olímpico, apenas pequenos reparos para manutenção da área. As piscinas estão fechadas desde 2007, e as obras de recuperação ainda não começaram. O reitor está instalando uma comissão para preparar uma reforma geral do Centro Olímpico. Ele quer estimular a participação da Universidade na preparação de grandes eventos. A ideia é que o espaço seja “inserido como um campo potencial para atuar na Copa de 2014 e nas Olimpíadas de 2016”, afirma José Geraldo. •


Contexto

“Temos que caminhar com os que andam mais devagar”

T

Rafaela Felicciano

omando chá de hortelã à frente de uma imagem budista e outra católica, José Geraldo recebeu o Campus na manhã do dia 28 de outubro, em seu gabinete. Na quase uma hora e meia de conversa, entre risadas, queixou-se do tratamento que recebeu do jornal logo após sua eleição e especulou qual seria a manchete caso houvesse um atropelamento. “O Campus publicaria: ‘Reitor não deu assistência ao homem morto’”. A seguir, os principais trechos da entrevista. JuliaNA rEIS Rafaela Felicciano Rafaella Vianna Renata Zago

Campus: Como o senhor avalia este primeiro ano de mandato? José Geraldo: De forma muito positiva. Neste primeiro ano, o ponto político definido pela gestão, que é o compartilhamento, permitiu que se resgatasse o espaço deliberativo nos principais colegiados da Universidade. Dentro desta ideia de gestão compartilhada, eu me incumbi da função de estabelecer canais eficientes e permanentes de interlocução com a comunidade. Campus: Como é administrar a UnB? JG: Eu não quero ser arrogante. Administrar uma universidade não é fácil, mas não foi tão difícil quanto se poderia esperar. A UnB é uma estrutura complexa que emergia de uma crise que dividiu a comunidade. Havia uma disposição de convergência em torno do resgate da instituição para seu destino, seu futuro. Eu não sou um aventureiro, não cheguei aqui agora, eu já tenho um diálogo antigo com a Universidade. Campus: E a reforma da CEU, sai? JG: Sai, ela é parte do programa e, se dependesse de mim, já teria sido feita (a reforma depende da negociação com os estudantes, que ainda não chegaram a um acordo quanto à moradia durante as obras). É como a gente faz quando reforma a própria casa, passa um pouco de desconforto, mas define uma atuação nos cômodos da casa com a gente dentro. Então, por que não modificar um prédio, depois modificar o outro? Parece razoável, não é assim que nós faríamos em casa? Ou isso, ou algo que tenha esse grau de razoabilidade, considerando os custos que outras alternativas têm. Não vejo por que não se chega a uma solução.

José Geraldo garante que até 2012, no final de seu mandato, cumprirá todas as metas. Mesmo assim, diz que não pensa em reeleição

Campus: O senhor também prometeu liberar as festas nos campi... JG: Sim, mas não é liberação sem ordenação. Não é possível uma comunidade em que se preveja uma vivência que não passe por festas. Precisa ter festa. Acho que aqui as pessoas são muito sisudas. Se tivessem mais festas, além de serem mais felizes, produziriam melhor e interpretariam melhor o mundo. Mas não pode haver desvios de objetivo. A celebração não pode se transformar em uma atividade belicosa. Você vai ali para a alegria e para a afetividade e não para a hostilidade e para a raiva. Campus: As comissões para decidir sobre essas festas e outros temas ainda não foram formadas. Como o senhor explica essa demora? JG: Tem um ritmo aqui. Meu ritmo é até forte. Como diz Boaventura de Sousa Santos, a gente tem que caminhar junto com os que andam mais devagar. Há uma parte da Universidade que caminha até mais depressa. Mas para que toda a UnB caminhe numa única direção é preciso andar no ritmo dela. Em algumas coisas eu caminho mais depressa, em outras, mais devagar. Em algumas eu sou ousado, em outras, sou prudente. Campus: O senhor se reuniu com o governador do Distrito Federal no início do ano. O que ficou decidido sobre o transporte para a UnB?

JG: Não houve acordo formal. Eu pedi que se colocasse no planejamento do VLT (Veículo Leve sobre Trilhos) uma linha para a UnB e pedi também uma melhor planificação do transporte rodoviário. Ele concordou. Quanto ao metrô, não é para se concretizar no meu mandato, mas eu preciso lançar essa questão para o GDF. Campus: E as ciclovias? O GDF construiria as pistas, e a UnB, os banheiros e vestiários, mas até agora eles não existem... JG: Nem a ciclovia. O acordo já existe, o percurso na UnB faz parte do projeto de implantação de ciclovia. Nós pedimos prioridade, mas (autoridades do GDF) não deram prazos. Campus: De suas 15 propostas, duas foram totalmente cumpridas até agora. Ao final de 2012, teremos todas as metas prontas? JG: 100%, ainda que eventualmente eu não inaugure algumas delas. Eu não prometi nada para um ano. Entre as atividades que eu já realizei neste primeiro semestre está, por exemplo, inaugurar algumas obras. Fui eu que realizei essas obras? Não, é continuidade institucional. Campus: O senhor pensa em reeleição? JG: Não. O meu objetivo é cumprir o meu mandato. Penso no compromisso que assumi com o programa (de metas) e nele não está escrito reeleição. •

Redistribuição de verbas

Orçamento da UnB para 2010, de quase R$ 1 bilhão, tenta diminuir a desigualdade no repasse de recursos a faculdades e institutos

Marcela Ulhoa

O

projeto de lei orçamentária, em fase de apreciação no Congresso, prevê recursos de quase R$ 1 bilhão para a Universidade de Brasília. Valor cerca de 20% maior do que o aprovado para 2009. Na proposta, o orçamento para as atividades acadêmicas ganha um importante reforço: aumentará de R$ 6,7 milhões para R$ 7,5 milhões. Nos institutos e faculdades, serão investidos 38% desse valor. O restante será distribuído entre unidades administrativas, centros, decanatos, assessorias e órgãos complementares. É justamente quanto ao repasse dessas verbas para as unidades acadêmicas que existe uma complicada discussão. Pelo quarto ano consecutivo, a faculdade que mais receberá recursos de custeio é a de Comunicação (FAC), com verba estimada em quase R$ 200 mil. Em

seguida, estão o Instituto de Exatas (IE), R$ 188 mil, e a Faculdade de Saúde (FS), com R$ 183 mil. No extremo oposto, a Faculdade de Educação (FE) ficará com pouco mais de R$ 50 mil, e a de Direito receberá R$ 79 mil. Segundo Hélio Neiva, secretário de Planejamento da UnB, o principal peso para distribuição dos recursos tem sido o desempenho de cada unidade, o que abrange a existência de laboratórios, a relação entre o número de alunos e o de professores, a titulação dos docentes e o conceito de programas de pós-graduação junto à Capes. “A tendência é que os institutos e faculdades com um porte maior sempre cresçam. Já aquelas que são menores permanecem sempre menores”, diz Neiva. Na tentativa de amenizar as diferenças no repasse de verbas, a novidade no orçamento de 2010 é que será dado mais peso ao chamado Plano de Desenvolvimento Institucional (PDI), no qual as unidades acadêmicas e administrativas incluem no planejamento todos os an-

seios de investimento, como mais professores, melhores instalações e maior incentivo à pesquisa. O secretário de Planejamento afirma que, com o PDI, as unidades atualmente menos favorecidas podem crescer também, pois o modelo permite que novas demandas sejam atendidas. Para o próximo ano, serão ainda propostas mudanças na avaliação do desempenho. Uma comissão foi nomeada pelo Conselho de Administração (CAD) para rever esse modelo, que já tem 10 anos desde sua última atualização. “O perfil da Universidade hoje é bem diferente e necessita de novas perspectivas para mensurar suas atividades”, afirma Maria Ângela Feitosa, diretora do Instituto de Psicologia e membro da comissão. Todas as propostas apresentadas para 2010 têm de ser aprovadas ainda pelo CAD e pelo Conselho Superior Universitário (Consuni).Enquanto não passar por todas as instâncias de aprovação, o projeto orçamentário ainda poderá sofrer alterações. •

5


Laboratório

Fora da lixeira

Ludmila Alves

Pesquisa revela que quase um terço dos brasilienses descarta lixo na rua. O desconhecimento da lei pode explicar o hábito, também frequente no trânsito

MARCELLA CUNHA LUANA RICHTER

D

ados coletados no centro de Brasília apontam que 31,1% das pessoas jogam lixo no chão. A sujeira da cidade, o baixo número de lixeiras e a garantia do serviço de limpeza urbana são formas de justificar a atitude e transferir a responsabilidade para o Estado. Essa é a conclusão da pesquisadora do Laboratório de Psicologia Ambiental da UnB Cleide Sousa, que conversou com 148 pessoas. “É um deslocamento da culpa. O indivíduo atribui seu comportamento a razões externas”, explica. Já aqueles que afirmaram colocar o lixo somente em local apropriado acreditam que é uma questão de educação, consciência e conexão

com o meio ambiente, ou seja, consideram o indivíduo responsável pelo que produz. Além disso, quem vê a cidade limpa tende a mantê-la assim e vice-versa. “Quando o ambiente está sujo, há maior probabilidade de jogarem lixo no chão porque, inconscientemente, você entende que uma regra foi violada e que nada aconteceu com o infrator”, argumenta Cleide. No trânsito, a porcentagem dos que não utilizam a lata de lixo dobra. Dentre os 52 motoristas que participaram de outro estudo também realizado por Cleide, 60,4% admitem já terem atirado resíduos pela janela do carro. A professora de inglês Marcela Amaral foi vítima de um objeto inusitado. “Uma fralda, cheia de cocô mole de nenê, acertou em cheio o meu pára-brisa, e eu estava sem

água para limpá-lo. Fui até um posto com o carro fedendo a azedo, com muita dificuldade para dirigir porque eu tinha que colocar a cabeça pra fora para conseguir enxergar”, conta, rindo, a motorista. De acordo com a assistente de Comunicação Social do Detran-DF, Socorro Ramalho, esse tipo de infração pode levar outro condutor a perder o controle do veículo e gerar graves danos. “Os objetos mais comuns lançados pela janela, segundo nossa fiscalização, são pontas de cigarro e latas de cerveja ou refrigerantes que, dependendo da velocidade, podem até quebrar o pára-brisa de outro veículo”, relata Socorro. Quase um terço dos que admitem o descarte inadequado ainda assumem que o praticam com frequência. Esse hábito sai caro para os cofres públi-

cos. O lixo que é jogado no chão é o mais oneroso para ser tratado, segundo a pesquisadora Cleide de Sousa. “Ele só pode ser capturado pela varrição. Custa caro disponibilizar mão-de-obra para varrer o dia todo.”

Lei desconhecida O estudo também indica que 38% dos motoristas já viram lixo ser descartado de automóveis. A prática é uma infração prevista no artigo 172 do Código Brasileiro de Trânsito (CBT) e tem como penalidade multa de R$ 85,13 e quatro pontos na carteira. Para a psicóloga, o desconhecimento do CBT é uma das causas do alto número de violações. O estudo comprovou que, de fato, 35% dos brasilienses entrevistados não sabem da lei. Segundo o Detran, é

Contar com serviço de garis é justificativa para jogar lixo no chão

difícil detectar esse tipo de infração, pois é necessário o flagrante. Por essa razão, desde janeiro deste ano apenas 108 multas foram aplicadas a esses condutores. Para a pesquisadora Cleide, mais difícil

do que penalizar os infratores é educá-los, e esse encargo é do governo. “O lixo tem dono. Ele é dos municípios. Como consequência disso, é responsabilidade do Estado conscientizar a população.” •

to da incubadora junto à comunidade universitária e a conclusão das negociações de verba”. Até agora, nenhum aporte financeiro foi aplicado, mas os organizadores trabalham com diálogos junto ao MinC e à Secretaria de Cultura do DF. O CDT entraria com a infraestrutura. Com o apoio econômico desses organismos, a incubadora poderá prestar assistência sem cobrar pelos serviços. “A ideia inicial é não precisar de dinheiro dos empreendimentos, já que somos uma empresa sem fins lucrativos”, explica Vidigal. A incubadora conta também com a aprovação do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae). Gilberto Amorim, presidente do Instituto Batucar, foi atrás da incubadora por um único motivo: organizar a OSCIP. “A gente não sabia como administrar a situação”. Desde o final de julho deste ano, a incubadora trabalha com o Batucar na revisão de todos os contratos, organização da comunicação interna e externa, reformulação do cadastro dos alunos, repaginação do site e desenvolvimento de estudos de marca, além

da verificação de projetos.

Bloco C

Cultura incubada

Priscila Crispi

Iniciativa pioneira do CDT vai apoiar projetos artísticos e culturais no DF

Marina rocha

O

s setores de arte e cultura do DF contarão com uma iniciativa pioneira do Centro de Desenvolvimento Tecnológico (CDT) da UnB. A Incubadora de Arte e Cultura do Distrito Federal e Entorno, que tem implantação prevista para dia 15 deste mês, apresentou seu projeto-piloto durante a IX Semana de Extensão da UnB. Na ocasião, houve exibição do Batucadeiros - projeto que trabalha percussão corporal com crianças e jovens de 5 a 21 anos. O Batucadeiros foi desenvolvido pelo Instituto Batucar, uma Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIP), e é a única entidade já em trabalho direto com a incubadora. Conhecidas por hos-

6

pedar empresas e projetos com potencial de desenvolvimento, as incubadoras dão assessoramento e consultoria, além de cursos, workshops e palestras. Tudo para que o projeto ou empresa não venha a falir no início das atividades e possa entrar no mercado de forma sólida. Dados de 2006 da Associação Nacional de Entidades Promotoras de Empreendimentos Inovadores (Anprotec) apontam que no Centro-Oeste existem 28 incubadoras em operação. O número só não é menor que o da Região Norte, onde existem 14. A partir do lançamento da incubadora, a iniciativa será a única direcionada especificamente para arte e cultura no DF, já que as outras entidades sócias da Anprotec concentram suas atividades em tecnologia, ciência, educação e

Jovens do Batucadeiros: trabalho em parceria com a incubadora

genética. A Secretaria de Cultura do DF e o Ministério da Cultura (MinC) não têm conhecimento da existência de mais incubadoras culturais na região. As articulações para montar a iniciativa começaram há oito anos. Gustavo Pereira Vidigal, aluno de Relações Internacionais da UnB e coor-

denador da incubadora, explica que 19 entidades já demostraram interesse em ser incubadas e que o processo de seleção de novos projetos será em janeiro de 2010. A meta é abrir um edital para iniciar o trabalho com oito empreendimentos. Vidigal conta que, para o lançamento, “só falta um fortalecimen-

Contribuição Magno Assis, chefe do Serviço Artístico e Cultural da Diretoria de Esporte, Arte e Cultura (DEA) da UnB, vê vantagens na iniciativa. “A incubadora pode ser útil para implementar novas ações de ponta”. Para Assis, o principal é que o projeto seja compartilhado com a Universidade. “A incubadora não deve se tornar mais uma linha de ação sozinha. Ela tem que caminhar com propostas junto à comunidade”. É o que Gustavo Vidigal deseja. “Esperamos também nos tornar um projeto de ação contínua, junto ao DEX (Decanato de Extensão)”. O chefe da DEA acredita que a incubadora, da forma em que foi planejada, poderá trazer uma colaboração para o setor, com o desenvolvimento de um censo, por exemplo, para mapear o que é produzido em arte e cultura na Universidade de Brasília e identificar o que pode ser feito em relação à área. “Assim, vamos mobilizar a comunidade acadêmica e trazê-la à sociedade”, diz Magno Assis. •


Bloco C

Direto de Ceilanwood ISABELA HORTA

M

esmo sem uma sala de cinema, Ceilândia já pode se orgulhar de seus cineastas. O novo filme da produtora local Ceicine, Dias de greve, concorrerá ao Prêmio de Melhor Curta-metragem em 35 mm no 42º Festival de Cinema de Brasília, que será realizado no final deste mês. Adaptação do livro Os mudos, de Albert Camus, o filme ceilandense retrata a história de uma greve de serralheiros da cidade. Essa é a terceira produção da Ceicine, que desde 2006 faz videoclipes de artistas da cidade e, recentemente, ganhou um edital da TV Brasil para filmar o documentário Fora de Campo, sobre o futebol brasiliense. Tudo é feito na Ceilândia por artistas e produtores locais. “Não somos ONG. Somos um grupo de onze pessoas se articulando para fazer cinema na periferia”, define o diretor Adirley Queirós. Todos os atores de Dias de Greve são estreantes no cinema. Ao pre-

pará-los para encenar, o diretor de atores Wellington Abreu ministrou oficinas de interpretação. Ele queria que cada um buscasse suas próprias ideias para o personagem. Elias Rodrigues, funcionário da Embrapa, soube do curso por meio de uma notícia de rádio e resolveu ir a uma aula. “Desde o início, eu percebi que não seria só um filme. Vou continuar atuando, já estou até lendo outros roteiros”, conta Rodrigues, que interpreta o personagem Vetonho no filme. Durante as aulas, Queirós discutia os scripts e levava câmeras e outros equipamentos para que, aos poucos, as pessoas pudessem se familiarizar com o cinema. “Isso ajudou a dar mais naturalidade para a encenação”, explica Abreu. A curiosidade levava moradores a aglomerarem-se nas ruas para ver as filmagens, e a orientação do diretor para o cinegrafista foi de que continuasse gravando mesmo se as pessoas olhassem para a câmera. “Isso pode parecer amador, mas não nos preocu-

Dicas JOÃO PAULO VICENTE

Filme Dias de greve divulga trabalho de produtora da Ceilândia no Festival de Cinema de Brasília

pamos.” A recomendação está ligada à estética do filme “Quase tudo é improvisado. Buscamos isso como linguagem”, afirma Queirós. Ele diz não gostar de filmes como Cidade de

Deus, que, em sua avaliação, se distanciam da realidade da periferia. “É filme pra gringo ver. Não acrescenta nada para a comunidade”, pondera o diretor. Em Dias de greve, o meio não é só cenário. Pa-

Nenhum dos atores ganhou nada: eles vieram, ralaram e gastaram do próprio bolso

Mariana Tokarnia

Rodrigues (E), Abreu e o diretor Queirós (D): cinema na Ceilândia

ralelamente ao enredo dos grevistas, está a cidade dividida pelo metrô. “Queremos retratar também essa nova visão da cidade que é estranguladora.” As gravações de Dias de greve foram financiadas com recursos do Fundo de Apoio à Cultura e do Fundo Nacional da Cultura. O orçamento total de R$ 130 mil será usado somente para pagar os equipamentos alugados e a equipe da produção da Ceicine. “Nenhum dos atores ganhou nada: eles vieram, ralaram e gastaram do próprio bolso. Mas vão sair com uma experiência de cinema para o currículo”, assegura Abreu. Para Adirley Queirós, “o cinema brasileiro é pobre, não só o da Ceilândia”. Ele quer traduzir os filmes da produtora para inglês, espanhol e francês, para que possam ser distribuídos em festivais internacionais. Enquanto isso, na cidade onde cresceu e que nunca teve um cinema, seu filme será exibido no dia 21 de novembro, na estação Ceilândia Norte, do metrô. •

Livro

A Voz do Fogo (1996) Conhecido por suas HQ’s, aqui Alan Moore usa da literatura para contar 6 mil anos de história da sua cidade natal, Northampton, Inglaterra. Cada capítulo é um fragmento escrito em estilo que remete à época retratada.

Site

VBS.tv A TV online é uma iniciativa conjunta da MTV com a revista Vice. Os temas abordados vão desde o sexo até a poluição mundial, tudo com um formato que fica no meio termo entre o documentário e um jornalismo informal.

Álbum

Sushi e tamborins

Professor com formação em música erudita mistura batucada com aulas de japonês e cria no Varjão a escola de samba Gigante da Colina, que se prepara para estrear no Ceilambódromo em 2010

IGOR MIGUEL PEREIRA

Alguém sabe o que é zen zen tigau? Era a expressão que minha sogra mais usava: ‘de jeito nenhum’.” Alguns risos percorrem a pequena sala no Centro Cultural do Varjão. Logo silenciam, dão lugar às expressões compenetradas que assistem a um cumprimento

sem toques, com palavras ainda não conhecidas. Para conseguir a pronúncia exata, o professor Fabiano Duarte luta contra a rouquidão, efeito de um samba-enredo repetido à exaustão. É a aula de japonês das noites de domingo, que ocorre sempre após os ensaios da bateria do G.R.E.S Gigante da Colina. A ideia de fundar uma

escola de samba ocorreu a Duarte assim que ele voltou do Japão, país onde passou três anos trabalhando como operário. Além de um bom pé-demeia, trouxe o encantamento com a disciplina, o perfeccionismo e a cortesia característicos daquele país. “Queria montar um projeto social que difundisse esses valores, mas precisava de algo que atraLudmila Alves

Com caixa, surdo e tamborim, a bateria da Gigante da Colina ensaia no Centro Cultural do Varjão

ísse a população”, conta. Optou pelo samba.

Vascaínos Até então, pouco sabia do assunto. Músico erudito, fã de Tchaikovsky, seu conhecimento de batuques limitava-se à mambembe bateria que animava os jogos do Vasco no DF. Foi buscar apoio entre os companheiros daquela torcida. Logo aprendeu que para fazer uma escola de samba com beleza é preciso um pouco de tristeza. A ideia só ganhou força após a queda do time para segunda divisão do Campeonato Brasileiro. A ata de fundação e o estatuto da nova escola foram assinados no dia 11 de abril de 2009 por 11 torcedores do Vasco da Gama. Conseguiram o espaço para os ensaios no Centro Cultural do Varjão, usado

também para as oficinas de teoria musical e aula de japonês. Interrompendo um outro ensaio, o da banda de metais Tocando Sonhos, encontraram os primeiros alunos da comunidade. “Gosto de samba, mas não tocava nada de percussão”, conta Liliane Santos, destaque no trombone e no surdo. Atraídos pela batucada e pela possibilidade de conhecer idioma e cultura diferentes, os novos integrantes ignoraram as rivalidades com o clube dos fundadores. Até mesmo os flamenguistas ostentam a camisa da escola, com a cruz de malta bordada no peito. A estreia no Ceilambódromo será em 2010, com parcerias com a Unidos da Tijuca e a Universidade do Carnaval, do Rio de Janeiro. A intenção é usar disciplina oriental e teoria musical para conseguir o título do terceiro grupo. •

In The Aeroplane Over the Sea (1998) A banda Neutral Milk Hotel encontrou Bob Dylan no meio do caminho entre o folk e o rock e por lá ficou. Neste álbum, violões desafinados e instrumentos de sopro velhos dão o tom.

Filme

O Balconista (1994) Um dia na vida de dois empregados de lojas de conveniência. O trunfo do diretor Kevin Smith são os diálogos, recheados de referências, entre eles as imperdíveis discussões sobre os filmes do universo Star Wars.

7


ContraCapa

Mariana de Paula Mariana Niederauer

aula a de P

Marian

João Bosco Bezerra Bonfim

Verônic rio

a Honó

à valaria a c e d is s conto ício da colon o d , o no in mund o mui gam o de Portugal rdeste. Com gou e r r a c Che No rsos eiras las do tados. s rtos ve o das f eus cu sertão. Vind fértil nas vio ou outros es a nas mente n h o o l o n r eé vida n controu so igrou e ga ndo ca e-arara. Hoj o a g e n p m e , , vid us-d zação os, o cordel construção em pa as, lido e ou stá m a n i a d t v s a n a e i j c l d u o r e e ia tos no apital na ép dores que v r novas máq rica. O cord c o tó ha à nova s dos trabal s, impresso p herança his os e a a o t d ã e s i desenh uore as m d a inqu v i o r m a n u g r po ons bstit ão lu escrito ens, novos c uras d lhetos são su cado. v a r g v o l o r o pelos j inventado. nais xi pequenos f paço no me mos o i c i d s a s e r e lti tr sendo pas com as as crianças. O ue ganham mento nos ú míos, q utras As ca para atrair movi lustrad a e rica. “O ação para o 48. i s e s õ o ç r a v i ilustr smut des l é vast osco, r gran dução ordel e tran rdel João B lia foi o local o o p r s p o a c í t íd co as Bras interne ção do e douitor de Até na e revaloriza dioso e escr pelo cordel, m uma tese d ptad a o eu tu anos é ncorda o es nciou a paixã ui, ele escrev aposta na ad gens q e o a c co u A dias”, cearense infl lver sua arte. sotaque. Bos os, os person pou. z s i o r o a c v e r s u n v e a e e s A ara des nto e até perd rdel. Em seu de Chumbo ra para p o d i o co inho eratu escolh obre o assu as para em o Soldad il e levar a lit del, e moss s o o d m a a r f t to or .N as an es de c históri estinos leira”. lico inf ção de toques nord atrair o púb ormar leitor lmente brasi a éf ia m ganha rma, ele busc sso desafio coisa essenc o o a f n a m o s eéu oje, Des las. “H valor porqu o c s e s a m nine ele te ando, m s h o l trar qu s r O . e sv nças mbé da cria , houvesse ta viso s, novo n o i a ã a m i l í ro o Novas a Bras uco tamanh eitos de imp nita. m a g e é bo rsos f do po ses ch iauien ue ali, além repente - ve “A profissão le e o irp s i o D os. E ava q ara o ordel. imagin o cordel e p escrito do c je com 13 an m é u g a osa, ho to par o texto o talen ssemelham a a Silva Barb d a que se , diz Jeferson ” É dom

S

Mariana

Ilustração: Luísa Malheiros

de Paula

8

Jairo da Silva Barbosa

mão, Jairo da Sil Quase tod va Barbosa, 17, já são conhe o doming versos im cidos nas o na Feira provisado feiras e fes d a Guariro s. Depois tiva quisas. Da ba, em Ce da aula se ilândia, ele is da cidade. Bíblia à in m p r e s vão can te motivo pa cantam, e rnet, todo tar seus ra versos. screvem e c o n h e c im J air dedicam-s ento serve estações d e a pese Ceilândia o escreveu, sob enc de inspira ção. Até o omenda, s . “Esc Foi ouvind obre a ina metrô é o os disco revo quando é prec u g u ração de u percebeu s is s o d . a E m le ã s e goiana q ma das me dão o ua facilida ue João Sa tema e eu de para cr brota mes faço”. ntana, 30, iar versos. mo de den c “Ouvi e c tro encomend omecei a c onheceu o repente e a e divulga ”. Santana canta e a n tar. É uma es a arte nas coisa que escolas. “A creve profissionalm ente. Faz produção Nobres his v e d rsos por e cordel está tórias em pleno vapor”. Quem não gosta de o vente, em uvir histór versos que reescrevem ias? Ainda mais se fo grande aco re o mundo. nte No cordel, m contadas de form retoma a n cimento. Para o pro a o que ante fessor João obreza da s era bana envolsn Bosco, é a soas mais l vira um inda mais gostam. O arrativas. “História do que isso s são as co qu del, quand isas mais c , o cordel o repete u e os jornais fazem to o m ma história uns e o qu dos os dia Para João e as pess , v é aloriza, re repetir his Santana, “ umaniza, tórias, ma o cordel e B r a s íl ia c s o corolocando é stá buscan aquilo em do espaço um caldeirão cultu divulgar a versos.” ral”, tem e reconhe arte. Foi is lug cimento, n so que o p Interpreta ada melho ar para tudo. E se araibano F ndo o per r e s do que vir rnando Ro onagem M cordel e n cha, 47, ve p acambira, ão escond io fazer em ara cá e a paixão um norde mento tão s ti B p n r ela arte. “ importante É necessár o de 92 anos, ele d asília. , para que venha a m io que a g ivulga o orrer”. amanhã o ente u depois e Nenhum te ssa literatu leve esse instrum a p a s ra, que é sa desperc a prevençã rica, não ebido. Ma o da gripe c am suína, o am Olimpíada or incondic bira traz para os ve s de 2016 rsos de seu , no Rio d ional por Q levante es e Jan s cordéis sa b uer a esperanç andeira de ser divu eiro. “O que fascina indina, sua esposa, e até as lgador da a de ver u e o que fa literatura m mundo z com que de cordel melhor”. a gente é um amo • r pela arte ,é

Quarta edição do Campus 2/2009  

O Campus é o jornal laboratório da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília, produzido pelos alunos do sexto semestre. O jornal...

Read more
Read more
Similar to
Popular now
Just for you