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Campus BRASÍLIA, 27 de outubro a 8 de novembro de 2009

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Jornal Laboratório da Faculdade de Comunicação da UnB

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WWW.FAC.UNB.BR

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ANO 39, EDIÇÃO 341

Marcela Ulhoa

João Paulo Vicente

Menos de um terço dos alunos da UnB vem da rede pública Levantamento inédito do Campus mostra onde os aprovados no último vestibular concluíram o ensino médio

p. 4 e 5

64%

3 6

31%

3

Ciclistas inseguros

Acostamentos pintados pelo GDF no Lago Sul fazem bicicletas e carros disputarem o mesmo espaço em trechos descontínuos e mal sinalizados

PM no campus

Mesmo sem convênio, presença de policiais no Darcy Ribeiro é cada vez mais percebida pela comunidade acadêmica

Prostitutas universitárias

Jovens com título de estudante se diferenciam na hora de conseguir clientes

Fiação mais resistente Laboratório produz tecnologia para aumentar durabilidade de cabos que cortam a Floresta Amazônica

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Perspectiva Opinião

Campus Darcy Ribeiro, Faculdade de Comunicação, ICC Ala Norte. Contato: (61) 3307-2519 Ramal 207/241 – Caixa Postal 01660 CEP: 70910-900 - campus@unb.br Editora-chefe: Ana Clara Martins Secretária de Redação: Rafaella Vianna Diretora de Arte: Marina Rocha Diagramação: Camila Santos, Mariana de Paula, Priscila Crispi, Renata Zago Fotografia: Fabiana Closs (editora), Ana Carolina Seiça, Isabela Horta, João Paulo Vicente, Marcela Ulhoa, Plácida Lopes Perspectiva: Rafaela Felicciano (editora) Cotidiano: Heitor Albernaz (editor), Marcella Cunha, Luana Richter, Mel Bleil Gallo Contexto: Alessandra Watanabe (editora), Cláudio Vicente, Gabriel de Sá, Juliana Reis, Laís Miranda Laboratório: Verônica Honório (editora), Vanessa Vieira Bloco C: Ludmilla Alves (editora), Mariana Haubert, Tiago Padilha ContraCapa: Mariana Tokarnia (editora), Guilherme Oliveira Projeto Gráfico: Ana Clara Martins, Heitor Albernaz, Juliana Reis, Laís Miranda, Marcella Cunha, Marcela Ulhoa, Marina Rocha Revisão: Mariana Niederauer, Marina Marquez, Maíra Morais Professor responsável: Solano Nascimento Jornalista: José Luiz Silva Monitor: Leonardo Muniz Suporte Técnico e assistência em Fotografia: Pedro França Ilustrações: Amanda Gerk, Fernanda Mujica, Henrique Eira, Iuri Lopes Gráfica Guiapack - 4000 exemplares

Acesse o fac.unb.br/campusonline

Campus 40 anos

N

ão é de hoje que a entrada da PM na Universidade assusta. Se não assusta, no mínimo traz discussões. Em maio de 1990, a edição 136 do Campus mostrou a entrada da polícia no Darcy Ribeiro e suas repercussões: algumas positivas, várias negativas. Para os moradores da Colina e proprietários de carros, a sensação de segurança aumentou. Para os estudantes do Centro Olímpico (então alojamento estudantil), o que redobrou foi a repressão e discriminação. A edição revelou a falta de recursos na contratação de vigilantes do Serviço de Proteção ao Patrimônio (SPP). O resultado foi o pedido do então reitor, Antônio Ibanez, de patrulhamento na UnB pela Polícia Militar. O Consuni aprovou. Uma patrulha do Detran e 12 homens da PM passaram a fazer vigilância nos estacionamentos e a organizar o trânsito, mas só até as 19h. A reportagem trouxe como saldo positivo a redução no número de ocorrências registradas pela SPP. Caiu pela metade. Entretanto, o medo da onda de estupros que já durava dois meses persistia. A reportagem Universidade é caso de polícia? mostrou que, com ou sem PM, o que não pode haver é a falta de debate e consulta. O que indignou foi a ausência de conversa com a comunidade acadêmica. Há 19 anos, ninguém foi consultado sobre ter ou não polícia. Nada muito diferente do que está ocorrendo hoje.

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Enem: revivendo fraudes do Cespe RAFAELA FELICCIANO

N

este momento, quatro milhões de estudantes não pensam com confiança, estão meio perdidos. Relembram casos, fatos e polêmicas. Desconfiam de fiscais, distribuidores, elaboradores e contratados para a realização do Enem. Não adianta pedir nada consta, pois não há fichas limpas. Vamos apagar da memória provas vazadas, fraudes e prisões? As provas vazaram da Gráfica Plural, o que não significa o fim das empresas ligadas ao Consórcio Connasel, responsável pela produção do material. Trocam-se diretores, gerentes e empregados envolvidos. Muda a gestão administrativa e pronto. Foi assim com o Cespe/UnB, que agora foi escolhido para cuidar do Enem. Em uma rápida retrospectiva: o Centro de Promoção e Seleção de Eventos esteve envolvido em uma das maiores operações da Polícia Civil do DF. Foram mais de cem prisões. Galileu virou nome de operação especial, e toda uma máfia dos concursos foi desmantelada. A ação da polícia repercutiu em 2005, mas foram reviradas provas desde 2001. Galileu vasculhou dez concursos. Entre eles, sete eram realizados pelo Cespe. Os maiores foram o do Tribunal de Justiça do DF e Territórios, o da Câmera Legislativa e o da Polícia

Civil do DF. A vaga era garantida com valores entre R$ 40 mil e R$ 70 mil. Havia opções pelo tipo de dolo. Você poderia receber as respostas na hora da prova; fazer só a redação, um funcionário do Cespe preencheria o gabarito; ou poderia receber a prova em casa, antes da data do concurso. Tudo era questão de quanto se queria e estava disposto a pagar. As manchas não foram completamente apagadas. Fica o medo pela repetição do erro, do primeiro trago, da primeira taça. Ainda que as medidas de segurança tenham sido quadruplicadas, o Enem significa oportunidades, abre as portas de 40 universidades. O prêmio é alto, sempre tem alguém disposto a pagar, resta-nos saber se não haverá alguém para vender a prova, as respostas.

Carta do editor-chefe

Carta do leitor

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PROFESSOR MARCELO BIZERRIL

izem que os jornalistas querem abraçar o mundo, que muitos deles são donos de egos imensos cultivados há muito. Num jornal como o Campus, com anos de existência e uma história importante na UnB, o risco desses egos aparecerem é grande. Mas aqui, além da produção de reportagens, a convivência intensa com os colegas e a participação em várias etapas do processo, nos faz aprender que o mais importante é o leitor. Engolimos egos e trabalhamos em conjunto por um produto final que tenha relevância. Nesta edição, tratamos um pouco do perfil dos estudantes da UnB. A matéria demonstra preocupação com nosso público, pois damos meios para cada um entender o universo em que está inserido. Nesse sentido, os cursos que demandam gastos altos para serem concluídos e a presença da PM no campus Darcy Ribeiro também mereceram espaço. O crescimento dos coletivos de música e o status de universitária que algumas garotas de programa usam são temas um pouco mais distantes, mas ainda pertencem ao nosso mundo. Esperamos que você, leitor, se reconheça neste jornal que lhe entregamos agora.

Amanda Gerk

Expediente

Escrevo para manifestar minha impressão a respeito da matéria de capa da edição 339 do Campus, publicada em 28 de setembro. Ainda que reflita alguns aspectos reais das dificuldades nos processos de compras e uso de recursos, a matéria apresenta em um tom de denúncia o mal uso do “orçamento” nos novos campi da UnB. O formato da matéria contribui para propagar a ideia equivocaMande sua opinião para o Campus: campus@unb.br

da de fracasso da expansão da UnB, fato ainda mais surpreendente por vir de um órgão de comunicação sediado na Universidade. Seis prédios estão sendo construídos e recursos consideráveis foram e estão sendo aplicados. Os campi começam a apresentar impactos no dia a dia das cidades. Há muita luta e resultados positivos na expansão. Precisamos é de matérias que renovem nossas energias e divulguem o que os novos campi têm de bom.

Diretor da FUP - Faculdade UnB de Planaltina

Ombudskvinna*

Uma baita confusão CAMILA GUEDES

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iferentemente do que muitos pensam, as críticas também podem ser positivas. Então, lá vai: bravo! O jornal está mehor e tudo indica que há luz no fim do túnel. Mas, como são as mazelas que nos fazem crescer, vamos a elas. Tudo bem que a maioria dos leitores do Campus são universitários, mas inferir que todos vão entender o título Alunos des-

conhecem o bônus, é demais. Que alunos? Que bônus? A informação está confusa no sutiã. E mesmo ao começar a ler, quem não sabe que diabos é esse benefício, fica perdidinho por um bom tempo. Outra reportagem que causa confusão é a Centros à margem. Vamos combinar, galera, muitos alunos não sabem que a UnB tem centros, então porque leriam uma matéria com esse título? Além disso, o tanto de siglas que aparecem no texto cansa qualquer um.

Outra que comete pecado parecido é a que fala das fundações da UnB. A matéria começa da seguinte forma: “as últimas três fundações que se mantiveram ligadas à UnB estão...” Últimas desde quando? Quem não sabe fica sem saber. Já a matéria Coisa para gente pequena é apaixonante e mostra um lado da UnB desconhecido, mas no texto o leitor não encontra uma mísera criança para dizer “o planetário até que é legal”. Falha imperdoável.

Depois de ler a última matéria da ContraCapa, quem não tremeria ao chegar ao fim do Campus desta edição? E voilà! Não é que o leitor teve uma boa surpresa? Misturar literatura e reportagem é o sonho de muitos, mas poucos vão se tornar um Capote na vida. Melhor experimentar por aqui mesmo.

*Ombudskivinna, feminino de ombudsman. Na imprensa, pessoa que analisa o jornal do ponto de vista do leitor


Cotidiano

Polícia ‘ocupa’ UnB

Desde agosto, há presença constante da PM no campus Darcy Ribeiro, apesar de o convênio da corporação com a reitoria ter vencido

Mel Bleil Gallo

B

runo Pereira, estudante do segundo semestre de Engenharia Florestal, saiu da prova de química com mais cinco amigos a caminho do Centro Acadêmico (CA) do seu curso. “De repente, passou uma viatura, ligou a sirene, subiu pela grama, e os policiais vieram nos revistar.” Mochilas, estojos, nécessaires

e tubos de pasta de dente foram inspecionados, mas os policiais militares constataram que não havia nada de ilegal. “Não condeno a atitude. Se tivéssemos drogas, eles estariam cumprindo sua função”, diz Pereira. A presença constante de policiais na Universidade de Brasília (UnB) passou a ser percebida em agosto. Se antes eles vinham apenas quando solicitados por seguranças internos, ago-

ra estão diariamente nos estacionamentos, corredores e CAs. Em junho, uma pesquisa com 143 estudantes da Faculdade de Estudos Sociais Aplicados (FA) mostrou 81% de apoio à PM na UnB, mas há opiniões divergentes. Ugo Todde, representante discente no recém-criado Conselho Comunitário de Segurança da UnB, explica que o Diretório Central de Estudantes (DCE) é contra. Ana Carolina Seiça

“A polícia tem um caráter opressor e deixa a comunidade com medo, receosa”, argumenta. Segundo Ugo, a PM não está preparada para atuar em ambientes de ensino, e a solução seria investir na contratação e capacitação de seguranças da própria UnB. “A polícia não deveria estar preocupada em fechar CAs por causa de happy hours, mas sim em proteger a comunidade próxima ao campus de Planaltina, por exemplo, onde a situação é muito mais complicada.”

Convênio

A presença de policiais militares na UnB é cada vez mais percebida pela comunidade acadêmica

O coordenador de Segurança da Universidade, Edmilson Lima, considera saudável a parceria entre a UnB e a PM, mas acredita que os policiais não devem intervir em atividades estudantis, como festas e manifestações.“Não queremos criar um mal estar com a comunidade acadêmica. O ideal é que os

PMs desempenhem um serviço de orientação”, diz. O major Roosevelt, do 3° Batalhão da PM, concorda. “Atuamos nas áreas públicas da UnB e só entramos quando solicitados” afirma. “O policiamento é o mesmo. Às vezes determinadas demandas são acionadas e o número de policiais varia.” Até 2006 havia um convênio entre a UnB e a PM, como em outras universidades. “Em instituições de ensino e órgãos públicos quem tem poder é o dirigente, no caso da UnB, o reitor. Não cabe à PM decidir a política de policiamento do campus”, esclarece o procurador federal Sídio Mesquita, que atua na UnB. “A polícia tem autonomia para intervir em casos de crime, mas não pode adotar uma política de intromissão na gestão pública.” No momento, não existe nenhum convênio entre Universidade e a PM. “Não houve nenhuma ini-

Universitárias de programa

ciativa ou acordo por parte da reitoria para o patrulhamento do campus pela PM”, afirma a decana de Assuntos Comunitários e presidente do Conselho Comunitário de Segurança da UnB, Rachel Nunes. “A administração vai discutir isso com toda a comunidade na próxima reunião do conselho, para encontrar uma solução.” Na FA, apesar do apoio de estudantes à presença de PMs, foi encontrada uma alternativa com os seguranças da Universidade. “Conseguimos reduzir de dois semanais para zero o número de furtos a veículos na FA, apenas com o conserto da iluminação e aumento do efetivo de seguranças”, explica Ronald Barbosa, coordenador do grupo de trabalho formado para solucionar o problema. “Não posso dizer que a PM é desnecessária no resto do campus porque não conheço a realidade das outras faculdades”, ressalta. •

Fernanda Mujica

Status de estudante de curso superior rende ganhos maiores para jovens prostitutas. Clientes procuram mulheres que possam acompanhá-los em ambientes refinados

Luana Richter Marcella Cunha

E

nquanto outros alunos de Educação Física ganham em média R$ 500 no fim do mês com um estágio em academia, Carolina* ganha a mesma quantia em apenas uma noite. É que, além de universitária, Carolina é garota de programa. “Comecei a me prostituir dois meses antes de entrar na faculdade. A minha amiga deu a dica, e eu percebi que ia conseguir pagar a faculdade. Se eu trabalhasse numa loja, ficaria apertada”, diz. Algumas das jovens enxergam a prostituição somente como um meio de financiar os estudos. “Vou largar completamente, com certeza. Eu quero sair disso. Quero ser professora de educação física em um colégio. Dá para viver bem”, acredita Carolina. Justificativa semelhante

é usada por muitas jovens que se anunciam em jornal como garotas de programa universitárias. “Se eu não me prostituir, não termino meu curso”, fala Juliana, estudante de Direito. Para a socióloga e coordenadora do Núcleo de Estudos e Pesquisa sobre a Mulher (Nepem), Lourdes Bandei-

isso elas penetram em outro segmento social, têm acesso a outras esferas de circulação, como hotéis cinco estrelas, restaurantes caros e casas de espetáculo.” A pesquisadora acompanhou o caso de duas ex-alunas da UnB. Uma nem chegou a exercer a nova profissão após concluir a faculdade. Três

Falar que é universitária já seleciona até mesmo os clientes. Não é qualquer um que pode pagar ra, essa explicação é a moralmente mais aceitável, mas nem sempre é a verdadeira. “Uma coisa é certa, o fato de elas se tornarem garotas de programa não é exclusivamente para pagar o curso. Existem demandas muito menos nobres.” Segundo Lourdes Bandeira, o desejo de não abrir mão do status econômico adquirido ao fazer programas de luxo é o que mantém as jovens vendendo seus corpos. “Com

anos depois, ainda era prostituta. A outra ganhou um consultório de um cliente casado para atuar na área da sua graduação. Não foi suficiente para ela conseguir manter o alto padrão de vida. Passou, então, a exercer as duas profissões. “A porta de entrada para o mundo do sexo pago não é só a necessidade econômica. Algumas desejam aumentar seu padrão de consumo”, analisa a psicóloga Cláudia Rinaldi.

Auto-imagem Essa diferenciação influencia no preço do programa. E muito. Uma prostituta de rua cobra em média 10 vezes menos que uma universitária, segundo pesquisa realizada em Brasília por Marlene Teixeira em tese de doutorado em Serviço Social pela UnB. Ser universitária é uma forma que as jovens encontram para amenizar o fato de se prostituírem. “Elas não deixam de ser prostitutas, mas, na cabeça delas, ser universitária as torna mais importantes e mais respeitadas”, afirma Cláudia Rinaldi. “Estão vendendo o corpo da mesma forma.” Quem procura as universitárias são, geralmente, homens de alto poder aquisitivo. Porém, para atrair esse tipo de cliente é preciso preencher alguns pré-requisitos. “Colocar (no anúncio) que é universitária garante que a menina é alto nível, tem instrução. Um deputado, uma pessoa mais fina exi-

ge isso. Não quer uma menina que fale tudo errado”, explica Mariana, que cursa Administração. “Falar que é universitária já seleciona até mesmo os clientes. Não é qualquer um que pode pagar”,sustenta Mariana. Para Cláudia, a seletividade dos cli-

entes é uma ilusão. “Em qualquer relacionamento sexual existem riscos. Ainda mais nessa profissão. O alto preço do programa não garante nenhuma proteção para a garota.” • *Os nomes das garotas de programa foram trocados

3


Contexto

Minoria na UnB vem de escolas públicas

Mais de dois terços dos alunos aprovados no último vestibular estudaram em instituições particulares

Ana Carolina Seiça

Nota de corte Cláudio Vicente Juliana reis

D

epois de quatro cursinhos e 10 vestibulares, Ailton Melo acaba de ingressar no curso de Direito aos 36 anos. Ele concluiu o terceiro ano no Centro de Ensino Médio 3 de Ceilândia e faz parte de uma minoria. Do total de aprovados no último vestibular da UnB, apenas 31% - pouco menos de um terço - saíram da rede pública de ensino. Esse é o resultado de um cruzamento inédito de dados oficiais feito pelo Campus. Ao se matricular, o calouro fornece à Secretaria de Administração Acadêmica (SAA) uma série de informações, inclusive o local onde cursou o último ano do ensino médio. Só há dados referentes ao último vestibular, e mesmo assim não são de todos os 76 cursos presenciais oferecidos pela UnB. O Campus analisou apenas os 38 cursos que tinham informações de mais de 70% dos alunos. Transformados em percentuais e somados, os números absolutos fornecidos pela SAA mostram que 64% dos calouros vieram de escolas privadas. Há ainda um grupo de 5% computado como sem informação. No último processo seletivo da UnB, realizado em junho, foram oferecidas 3.294 vagas para mais de 24 mil inscritos. Essa concorrência desestimula muitos alunos de escolas públicas, que se sentem em desvantagem. “Eu nem pensei em fazer (o vestibular da) UnB porque sabia que não conseguiria passar”, explica Mateus Macedo, estudante de Administração na Unieuro. Ele conta que na sua turma a maioria dos alunos saiu de escolas públicas. Um dos motivos é que em faculdades particulares há incentivos para os alunos do ensino público, além dos programas governamentais de inclusão. Na Unieuro, são oferecidas bolsas de até 50% para quem conclui o ensino médio na rede pública. A Unieuro estima que 55% dos alunos são originários de escolas públicas.

4

A grande disputa nas universidades públicas não está relacionada apenas ao fato de serem gratuitas, mas também por elas ocuparem as primeiras posições no Exame Nacional de Desempenho de Estudantes (Enade), do Ministério da Educação. Esse é o caso da UnB, que abriu 80 pontos de vantagem sobre a instituição particular melhor classificada no DF. No ensino médio essa lógica é invertida. Das 40 instituições do DF melhores colocadas no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), 38 são particulares. As únicas públicas que entram na lista são o Colégio Militar de Brasília e o Colégio Militar Dom Pedro II. Nos cursos de Medicina, Direito e Engenharia Civil, que têm as maiores notas de corte, o número de estudantes saídos de escolas públicas equivale, em média, a 15%. Entre os 20 aprovados em Odontologia no último vestibular, Victor Tavares foi o único aluno que saiu de escola pública. A base que teve não foi suficiente para ele entrar na primeira tentativa na UnB. Foram dois anos de cursinho e duas tentativas para Medicina antes de resolver fazer Odontologia. “Estava ficando inviável, eu não conseguia melhorar a nota. Desisti, mas ainda queria um curso na área de saúde”, conta o estudante. Em cursos com notas de corte mais baixas, os egressos da rede pública superam o número de alunos de particulares. “Não é em qualquer curso que o aluno da rede pública consegue entrar, pois muitos são só para a elite”, afirma Ailton Melo, o estudante que recémingressou em Direito. “Os cursos de licenciatura são aqueles que os alunos da escola pública mais alcançam.” Ele tem razão. Em graduações como as de Filosofia, Física, História e Letras, os alunos saídos da rede pública são, em média, 45%.

Inclusão esquecida Algumas instituições públicas, como a Univer-

O estudante Victor Tavares é o único aprovado no último vestibular da UnB para o curso de Odontologia saído do ensino público

sidade de Campinas e a Universidade Estadual do Rio de Janeiro, têm cotas sociais para incentivar o ingresso de alunos originários de escolas públicas. Na falta de programa semelhante na UnB, estudantes saídos do ensino público acabam se beneficiando de outros projetos de inclusão não destinados a esse fim. É o caso das cotas raciais. Não há dados oficiais sobre o ingresso de alunos de escola pública por meio dessas cotas. “Na UnB, as cotas raciais não têm critérios sociais de seleção”, justifica Déborah Santos, assessora da reitoria responsável pelo apoio aos cotistas. “Um aluno negro de escola particular ainda tem vantagens sobre um aluno negro de escola pública.” Para ela, outros programas devem ser criados para resolver o problema do acesso de alunos da rede pública. O Campus identificou casos nos quais esse sistema serviu como forma de acesso para alunos da rede pública. Victor Tavares, que cursa Odontologia, entrou nas vagas reservadas a afrodescendentes. “As cotas foram um atalho”, reconhece. Procurado, o Decanato de Ensino e Graduação não comentou os dados referentes à presença de alunos originários de escolas públicas e privadas.•

CURSO

% de egressos % de egressos de escolas de escolas privadas públicas

% não informado

Odontologia

95%

5%

0%

Medicina

86%

14%

0%

Nutrição

85%

15%

0%

Educação Física

84%

16%

0%

Engenharia Elétrica

80%

8%

13%

Arquitetura e Urbanismo

78%

12%

10%

Ciências Farmacêuticas

78%

23%

0%

Engenharia de Computação

78%

23%

0%

Geofísica

77%

23%

0%

Geologia

76%

20%

4%

Engenharia de R edes de Comunicação

75%

25%

0%

Engenharia (Gama)

74%

24%

2%

Estatística

73%

20%

7%

Engenharia Civil

73%

7%

20%

Enfermagem

71%

29%

0%

Comunicação Social

70%

18%

12%

Engenharia Florestal

67%

31%

2%

Matemática - diurno

67%

25%

8%

Fisioterapia (Ceilândia)

65%

35%

0%

Geografia

65%

32%

3%

Enfermagem (Ceilândia)

63%

37%

0%

Gestão de Saúde (Ceilândia)

63%

37%

0%

História - diurno

58%

43%

0%

Letras - Tradução

57%

26%

17%

Direito

55%

20%

25%

Farmácia (Ceilândia)

54%

46%

0%

Física

54%

43%

3%

Letras - diurno

54%

42%

5%

Ciências Sociais

53%

40%

8%

Serviço Social

51%

44%

5%

Engenharia Mecatrônica

51%

20%

29%

Ciência da Computação

50%

50%

0%

Gestão Ambiental (Planaltina) - noturno

49%

51%

0%

Terapia Ocupacional (Ceilândia)

48%

52%

0%

Filosofia

45%

55%

0%

Gestão do Agronegócio

32%

68%

0%

Ciências Naturais (Planaltina)

27%

68%

5%

Ciências Naturais (Planaltina) - noturno

16%

84%

0%


Contexto

Planaltina, a exceção Ao contrário de todos os outros três campi da UnB, a cidade-satélite registra maior número de alunos da rede pública do que da privada. Além disso, 22% das vagas do último vestibular não foram preenchidas porque candidatos não atingiram a nota mínima assim, em Ceilândia há mais egressos de públicas que no Plano Piloto. Nos 28 cursos do Darcy Ribeiro analisados pelo Campus, apenas 27% dos alunos aprovados terminaram o ensino médio em instituições públicas.

Divisão nos campi

A alta concorrência é uma das barreiras para o ingresso. Medicina, por exemplo, teve mais de 80 candidatos por vaga. Das 36 vagas preenchidas no curso, apenas cinco foram ocupadas por alunos de escolas públicas.•

Partilha dos alunos que ingressaram na UnB no último vestibular Egressos de escola pública

74%

Egressos de escola privada

67%

66%

59%

Sem informação

41%

2%

32%

27% 7%

Planaltina

24%

Ceilândia

O

campus de Planaltina é o único dos quatro campi da UnB em que a maioria (67%) dos aprovados no último vestibular concluiu o ensino médio na rede pública. O curso noturno de Ciências Naturais registra o recorde, com 84% dos calouros vindos de colégios públicos. Lucas dos Santos Carneiro ficou surpreso por passar no curso de Gestão Ambiental, pois achava que não estava preparado para o vestibular. Questionado sobre a principal dificuldade dos alunos no ensino público, ele é en-

procura pelos cursos oferecidos no campus eleva a nota mínima para aprovação. No caso de Farmácia e Enfermagem, a nota de corte chega a superar a exigida em cursos equivalentes no campus Darcy Ribeiro. Mesmo

Darcy Ribeiro

Juliana reis

zes menor que no Darcy Ribeiro, o Gama atrai alunos de todo o DF. Apenas 20% das vagas do Gama ficaram com alunos da região do campus. A maior parte dos alunos é do Plano Piloto (30%) e Taguatinga (29%). Mateus Oliveira Tristão, mesmo tendo estudado em uma escola pública do Plano Piloto, onde mora, optou por graduarse no Gama. Um dos motivos da escolha, admite, foi a maior facilidade de aprovação. “Ainda assim é difícil”, avalia o estudante. “Tem que ir muito além do que a escola te passa.” No campus de Ceilândia, 41% dos aprovados no último vestibular eram da rede pública. A grande

Gama

Cláudio Vicente

fático. “Lá é bagunçado demais”, queixa-se. “A galera não tá nem aí.” Em Planaltina, 75% dos alunos são da própria região. Mesmo que tenha havido candidatos suficientes para o preenchimento de todas as vagas de Planaltina, muitos inscritos não atingiram a nota mínima para ingresso. Por isso, 35 das 160 vagas ficaram ociosas. No curso diurno de Ciências Naturais, por exemplo, 23 das 40 vagas não foram preenchidas. Em situação oposta, o campus do Gama tem o menor percentual de alunos de escola pública (24%). Por ter apenas cursos na área de engenharia com nota de corte três ve-

1%

Os caros cursos gratuitos Dependência da UnB 80%

80%

Confira o percentual máximo de receita que cada segmento do comércio recebe da comunidade universitária

70%

10%

Outros*

10%

Casa e decoração

Informática

Vestiário

Academias e artigos esportivos

Salão de Beleza

Livrarias e Copiadorras

Alimentação

Graduações como Medicina Veterinária, Farmácia, engenharias e Arquitetura têm feito alunos da Universidade sofrerem para se 40% manter estudando. Em alguns casos, são30%exigidos computadores, calculadoras, livros e materiais de preços elevados 10% Plácida Lopes

* Farmácia, pet shop, escritórios, destribuidora

laís miranda

A

o entrar na universidade pública, o aluno tem a esperança de que suas despesas acabem. Com o tempo, ele percebe que não contava com gastos como cópias e livros. Em alguns cursos, essa surpresa pode ser muito grande. “Já comprei um livro de R$ 400”, lembra Filipe Lima, que está no 4º semestre de Medicina Veterinária. Ele conta que a biblioteca não tem alguns livros e, quando tem, são exemplares desatualizados. Além disso, Lima gasta cerca de R$ 100 por semestre com cópias e gasolina, pois tem aulas na Granja do Torto e no Park Way. Dentre todos esses custos, o maior problema é a compra de instrumentos e equipamentos para uso em classe. Até agora, Lima já gastou R$ 200 em instrumentos como bisturis, tesoura cirúrgica e pinça. Essa despesa excessiva é um obstáculo para todos os cursos de saúde. “Tem que ter jaleco, óculos, luva”, conta Lia Guazzelli, aluna do 4º semestre de Farmácia.

Tecnologia Nas engenharias, a dependência da tecnologia é que traz o maior custo. “Ter um computador é essencial”, afirma André Terez, estudante do 7º semestre de Engenharia Mecânica, que cursou duas disciplinas que exigem esse uso. A UnB disponibiliza computadores na biblioteca, mas esses não permitem a instalação de programas, o que inviabiliza os trabalhos. Martha Farah está no 7º semestre de Engenharia Civil e diz que alguns professores fazem prova no laptop. Disponibilizam também conteúdo de aulas no Moodle, plataforma virtual de apoio à aprendizagem, ou via e-mail. A estudante ainda aponta outra despesa necessária: uma calculadora científica de R$ 500. A solução apresentada para alunos que não têm acesso a um computador pessoal são laboratórios nos departamentos. “Estão sempre lotados, e os computadores são cheios de vírus”, reclama o aluno do 6º semestre de Engenharia de Redes, Vinícius Lima.

O estudante do 3º semestre de Arquitetura, Gabriel Ernesto, já gastou R$ 2.500 em materiais desde que entrou na Universidade

O mais caro Arquitetura e Urbanismo tem três laboratórios disponíveis e uma área de Wi-fi, mas isso não é suficiente. “Desembolso até R$ 500 por semestre com impressão, maquetes e livros”, afirma Gabriel Ernesto, aluno do 3º semestre. Ele destaca que os gastos dependem do aluno. “Fiz um trabalho no 1º semestre (em Geometria Construtiva) em que gastei R$ 120. Conheço gente que usou R$ 800”.

A tendência é que os custos aumentem no decorrer do curso. Mariana Portela, que está no 8º semestre, diz que já gastou mais de R$ 1.000 só em material. “Isso porque nem cheguei ao trabalho final ainda. Tem gente que gasta R$ 3.000”, ressalta a estudante. A aluna do 2º semestre, Marília Tuller, garante que para fazer Arquitetura “é necessário ter quem banque”. Ela explica que, devido à carga horária pesada, os alunos não con-

seguem trabalhar. Marília ainda reforça que muita gente nem tenta entrar no curso, pois já sabe das demandas financeiras. “Se você não tem dinheiro, não se forma nesse curso.” Neusa Cavalcante, professora de Geometria Construtiva, diz que os alunos exageram. Ela esclarece que, na disciplina, eles precisam materializar uma ideia, mas que é possível fazê-lo “sem gastar um tostão”. Segundo a professora, “é preciso correr atrás, pois quanto mais

barato, mais criativo você tem que ser”. Ela diz que até mesmo no trabalho final de graduação é possível gastar pouco, basta fazer tudo à mão. O segredo, segundo André Terez, é que “os alunos acabam se ajudando”. Os que podem comprar materiais, livros ou que têm computadores emprestam para os outros. “Tudo se baseia em uma questão de solidariedade”, diz Lia Guazzelli. E Vinícius Lima completa: “Dando um jeitinho, tudo dá certo.” •

5


Contexto João Paulo Vicente

P

or volta das 18h45 do dia 30 de setembro, o universitário Eduardo Kruel foi atropelado por um carro. O jovem de 20 anos andava de bicicleta a 1 km de casa, na altura da QI 27 do Lago Sul, quando foi jogado no chão. Ele utilizava o novo modelo de ciclovia implementado pelo governo, o chamado ‘acostamento ciclável’.

Ciclismo

improvisado Nova modalidade de ciclovia deixa usuários inseguros e insatisfeitos Gabriel de sá Lucas Leon

Os acostamentos do Lago Sul foram pintados para que ciclistas pudessem trafegar com maior facilidade, mas a demarcação incorreta das divisórias e a descontinuidade das faixas têm dificultado a segurança dos que utilizam o espaço. Houve a pavimentação e a pintura de alguns trechos, mas ainda faltam as sinalizações verticais e horizontais. Para Kruel, obras inacabadas só pioram a situação.“O ciclista acha que está seguro, como eu achava, já que supostamente tem uma via só para ele”, diz o estudante de Direito da Universidade de Brasília. “Grande parte dos motoristas não deve nem saber que aquilo é para ciclistas.” Fábio de Souza, 29, que usa a bicicleta para resolver questões do escritório onde trabalha, no Lago Sul, conta que carros e ônibus invadem a ciclovia. “Tem que mudar a cor da faixa, de branco para vermelho ou amarelo, para chamar atenção, além de colocar tartarugas para dividir a pista”, sugere. O caseiro Ivan Araújo, 38, utiliza a bicicleta para fazer compras, mas se recusa a

Pista do Lago Sul é compartilhada por carros, motos e bicicletas nas novas ciclovias do Governo do Distrito Federal

usar os acostamentos cicláveis. “Não confio nos carros, sempre ando na calçada para não correr risco. O pessoal não respeita os ciclistas”, lamenta. Para o deputado distrital Chico Leite (PT), que tem criticado as ciclovias do Lago Sul, o Governo do Distrito Federal (GDF) não tem alternativas definitivas para solucionar os problemas de trânsito. “Esse tipo de obra é, lamentavelmente, mais uma variável de enganação do governo, que, com o pretexto de incentivar alternativas ao uso de carros, apenas pinta meios-fios”, contesta. A jornalista Lígia Medeiros acredita que essas obras são um desserviço duplo. “É um absurdo. Em vez de construírem ciclovias de verdade, eles tiraram o acostamento dos carros e deixaram os ciclistas inseguros. Se o carro precisar parar (no acostamento) ou entrar nos conjuntos, os ciclistas fazem o quê?”, questiona. Lígia acrescenta que o canteiro central do Lago Sul seria uma boa opção para a construção da ciclovia, por ser mais contínuo que o acostamento. Ronaldo Alves, presidente da ONG Rodas da Paz, concorda com a ideia. “O ciclistas que sai do ponto A tem que chegar ao B numa rota segura e que seja contínua. Falta engenharia”, afirma. Leonardo Firme, gerente do Pedala-DF, projeto ci-

cloviário do GDF, diz que apenas a primeira parte das obras foi concluída e que a sinalização ainda está sendo licitada. Para ele, é necessário um convívio harmonioso entre motoristas e ciclistas. “Os espaços de parada de ônibus e entrada de ruas devem ser de compartilhamento”, argumenta.

Meta Os acostamentos cicláveis não estão incluídos nos 200 km de ciclovias que o GDF pretende fazer até o cinquentenário de Brasília em 2010. No primeiro ano do atual governo, esses 200 km eram 600 km. A crise reduziu a meta, segundo o gerente do Pedala-DF. Até agora, o governo contabiliza 42 km de ciclovias já construídos em cinco trechos. Leonardo Firme diz que outros 125 km já estão em obras. Ronaldo Alves, da Rodas da Paz, diz que grande parte ainda está em processo de licitação. A ONG vai realizar, no dia 8 de novembro, um evento no Parque da Cidade para cobrar do GDF as promessas feitas em relação às ciclovias e os documentos que comprovam quanto e como foi gasto o dinheiro destinado a elas. •

Laboratório

Tecnologia que atravessa a Amazônia Vanessa Vieira

O

setor elétrico brasileiro tem grandes desafios pela frente. As duas maiores linhas de transmissão do mundo, cada uma com 2,375 km, serão implantadas entre Porto Velho

(RO) e Araraquara (SP), chamadas de linha do Madeira. Maior ainda é o desafio na implantação de uma terceira linha, que sai da usina hidrelétrica de Tucuruí (PA) chegarão a até Manaus (AM). Esse percurso exige que os cabos atravessem grandes distâncias de uma margem Plácida Lopes

Pesquisas do Laboratório da Engenharia Mecânica da UnB contribuem com soluções para linhas de transmissão de energia na floresta

à outra do rio Amazonas. Simulações de alta precisão realizadas no Laboratório de Fadiga e Integridade Estrutural de Cabos Condutores de Energia do Departamento de Engenharia Mecânica da UnB têm sido fundamentais para viabilizar os trabalhos de empresas do setor, que antes recorriam a centros de pesquisas de outros países.

Dentro da floresta

Simulação em equipamento prepara cabos para intempéries

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Os cabos das linhas de transmissão têm suas extremidades presas a torres de energia. Os mais utilizados são de alumínio, que ao serem fixados nas torres possuem um esticamento máximo, ou seja, o quanto é possível esticar o fio sem que surjam fendas e seu tempo de vida diminua. Simulação realizada pela empresa Nexans, fornecedora dos cabos da linha Tucuruí-Manaus, concluiu que com o estica-

mento e o material geralmente utilizados seria necessário construir torres de 348 m de altura, para atravessar os 2 km de largura do rio Amazonas. Maiores, por exemplo, que a Torre Eiffel (324 m). Engo Sidnei Ueda, gerente de engenharia da Nexans, explica que existe uma distância de segurança entre o nível das águas do rio e a altura dos cabos, permitindo, por exemplo, o tráfego de grandes embarcações. Segundo ele, o estudo realizado pela empresa e pelo laboratório da UnB resultou na escolha de outro material para a fabricação do cabo. Isso possibilitou aumentar o esticamento do mesmo, reduzindo em 98 m a altura das torres. Economia de milhões de reais, já que se gasta menos aço. “Antes enviávamos os cabos para serem ensaiados no Canadá. Agora, reduzimos os custos e podemos acompanhar melhor todo o proces-

so”, afirma Engo Sidnei. Outra dificuldade em passar o cabeamento pela região amazônica é a altura das árvores, que varia entre 30 m e 50 m, o equivalente a um prédio de 14 andares. Como a altura das torres geralmente é de 50 m, o topo da vegetação é cortada para não interferir na linha de transmissão. Porém, isso não é permitido em áreas de preservação, exigindo maior altura para os cabos. A Eletronorte é uma das responsáveis pela implantação da linha do Madeira. De acordo com Marcos César de Araújo, gerente da área de projetos de linhas de transmissão da empresa, apesar da extensão dos cabos, não há maiores dificuldades, pois em grande parte do território a vegetação já foi devastada e, por isso, eles estão na altura padrão. Para onde isso não acontece, as pesquisas ainda estão sendo finalizadas.

O laboratório Inaugurado em 2006, o centro de pesquisa simula de forma acelerada a ação dos ventos sobre os cabos e investiga os fatores que afetam a durabilidade deles. Segundo José Alexander Araújo, coordenador do laboratório, existem dois outros laboratórios no país, mas as inovações tecnológicas tornam o da UnB destaque no hemisfério sul. Ele menciona a importância das pesquisas ao lembrar que, em 2001, a ruptura de um cabo de energia em São Paulo resultou em um apagão em três estados do Brasil, deixando 67 milhões de pessoas sem energia por algumas horas. “Além de fornecer novas soluções para as demandas do setor, o centro pretende gerar conhecimentos para a manutenção das linhas atualmente existentes”, diz o professor Araújo. •


Bloco C

Cooperativas Tiago Padilha

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les não têm apoio do governo, os patrocínios rareiam e a imprensa lhes dá pouca atenção. Decidem se reunir e, com o próprio dinheiro, tentam divulgar seus trabalhos. Os chamados coletivos de arte agregam pessoas ou grupos com atividades independentes, mas que se juntam para ter mais chances de fazer suas obras e ideias chegarem ao público, como se fossem uma espécie de

cooperativa. No Distrito Federal, pelo menos três coletivos foram criados só neste ano, todos ligados à música e com a internet como poderosa aliada. O mais recente é o coletivo Esquina, formado pelas produtoras Bloco e Mundano e as bandas de rock Tiro Williams, Enema Noise, Cassino Supernova e Brown-HÁ. O show de lançamento aconteceu em setembro. “A gente se reúne semanalmente, discute os pontos que surgem e decide tudo coletivamente, com voto e tal”, expliJoão Paulo Vicente

Alguns dos integrantes das bandas do coletivo Cultcha

Bandas de rock, DJs e produtoras do Distrito Federal juntam esforços para divulgar trabalhos de forma independente ca Jacque Bittencourt, da Bloco. A ideia surgiu em fevereiro, quando o grupo descobriu o Circuito Fora do Eixo, uma rede de trabalho que interliga produtores culturais e coletivos de todo o país. “A gente foi entrando em contato

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m banquinho e um microfone. Nenhum outro recurso cênico. Durante a apresentação, a única arma que o comediante tem para se defender é o texto bem ensaiado e um bom jogo de cintura. Assim funciona o Stand Up Comedy, uma vertente que ganhou os palcos do Brasil recentemente e já começa a interessar artistas na cidade. A comédia feita em pé é uma velha conhecida do cenário norte-americano. Em terras brasileiras, começou a ganhar destaque com a popularização de vídeos na internet e o aparecimento de nomes co-

mo Rafinha Bastos, Danilo Gentili, Oscar Filho e Marcelo Adnet em programas televisivos como o CQC, da Bandeirantes, e o 15 minutos, da MTV. “Estamos vendo o que está sendo feito lá fora e adaptando para a nossa realidade, para que o humor funcione aqui”, afirma o ator Hugo Veiga, que há pouco tempo se arrisca no formato stand up. O primeiro grupo brasiliense, o Comédia Capital, começou com dois atores. Fernando Booyou e Edson Duavy, do grupo Anônimos da Silva, começaram a se apresetar semanalmente em um bar da cidade. Durante a apresentação, os dois davam espaço para que os presen-

“Mas a gente está evoluindo nessa coisa de escrever um bom projeto pra captar os recursos.” O coletivo Cultcha também. “Ainda estamos aprendendo a escrever projeto. No próximo ano, vamos tentar nos

A gente quer resgatar não só uma música, mas uma sociedade mais inquieta com pessoas de coletivos de outros estados, até que conseguiu se organizar”, recorda a produtora. Os integrantes do Esquina se dividem em grupos de trabalho que cuidam de áreas como divulgação, assessoria de imprensa e viabilização de equipamentos de som e iluminação dos shows. Um dos grupos é responsável pelo blog do coletivo e planeja pôr em funcionamento uma rádio web. “Eu represento o GT de sustentabilidade, que fica de olho em editais públicos e privados e busca participar de discussões sobre políticas culturais”, diz Jacque. O coletivo ainda não tem perspectivas de lucrar com as apresentações. “Quando surge um patrocínio, só cobre as despesas do evento. Normalmente trabalhamos pra ficar no zero ou perto do zero”, reconhece a produtora.

No banquinho MarIANA HAUBERT

LUDMILLA ALVES

da música

Dicas

tes pudessem subir ao palco por alguns instantes. Em uma dessas oportunidades, abrir o microfone para a participação da plateia permitiu que outros quatro comediantes se juntassem ao grupo. “O texto é muito importante no stand up. E, ao contrário do que muita gente pensa, o improviso existe, é claro, mas não é o que move a apresentação”, afirma o publicitário Thiago Negreiros, integrante do Comédia Capital, que se apresenta às quintas-feiras em um bar da cidade. Segundo Negreiros, para que uma apresentação desse tipo dê certo, duas coisas são fundamentais: uma percepção aguçada da atualidade,

inscrever no FAC (Fundo de Apoio à Cultura do GDF)”, antecipa Diego Mendes. Ele é vocalista e guitarrista da banda Valdez, que se juntou às bandas Lacuna, Leda, Deluxe Jazz Fuckers, River Phoenix e Vitrine para lançar o coletivo em julho. Para a ocasião, o coletivo de Taguatinga gravou uma coletânea com recursos próprios. Os membros, que incluem as namoradas dos músicos, dão uma contribuição mensal em dinheiro. “Cada um dá o que pode”, diz Mendes. Todos são amigos, alguns tocam em mais de uma das bandas. “A gente sempre tenta se reunir de 15 em 15 dias para direcionar as atividades. O objetivo, por enquanto, é fazer, pelo menos, um show por mês até o fim do ano”, afirma. Mendes conheceu essa forma de trabalho colaborativo em

fevereiro, quando foi com sua banda ao Grito Rock Festival, promovido pelo Fora do Eixo em Cuiabá (MT). “Foi aí que deu um estalo”. Pela internet, ele e os amigos continuaram se comunicando com coletivos de outros lugares. “Cada coletivo tem seu papel. Se as pessoas querem somente se divertir e tocar a música que elas fazem, tudo bem, mas a gente quer uma transformação cultural”, avisa Guilherme Pereira, que se apresenta nas noites de Brasília como DJ Oblongui. Em fevereiro, ele se juntou aos também DJs Sergio Collares e Ezy para lançar o coletivo O Resgate. “A gente quer retomar, aqui em Brasília, uma pista (de dança) mais compromissada com a música, valorizando as pessoas que estão ali, sem tratá-las como uma forma de ganhar dinheiro”, define Pereira. “Nos últimos anos, o talento (dos DJs) passou a ser menos importante que o marketing pessoal, a exposição na mídia.” O coletivo promoveu duas festas este ano. Como no caso dos outros grupos, a internet é o principal meio para divulgar eventos e ideias. “A gente quer resgatar não só uma música mais inquieta, mas uma sociedade mais inquieta.”•

Livro

Crônica da casa assassinada (1959) Reeditado em 2008, o romance de Lucio Cardoso é dessas obras que absorvem o leitor. Relatos permeados de segredo e revolta conduzem à impressionante trama de ruína e deterioração da família Meneses.

Álbum

Dizzy Gillespie Toronto, 1953

Conhecido como o maior concerto de jazz de todos os tempos, o álbum reúne Dizzy Gillespie, Charlie Parker, Bud Powell, Charles Mingus e Max Roach tocando juntos – e ao vivo – na mesma banda.

Filme

Permanent Vacation (1980) No primeiro filme de Jim Jarmusch, desajustados de todo tipo cruzam o caminho de Aloysious Parker enquanto ele, também um exilado de convenções sociais, vagueia por uma decadente atmosfera beatnik.

Internet e TV estimulam o stand up em Brasília. A modalidade teatral exige percepção aguçada e diálogo com a plateia

do cotidiano e do ambiente ao redor, e uma capacidade de dialogar com o público. “Ainda que tenhamos que nos ater ao texto, é importante prestar atenção às reações do público para saber o que funciona ou não”, explica. Mesmo que o stand up tenha alcançado projeção nacional, artistas afirmam que o público de Brasília ainda não está acostumado ao formato. “Como não têm apresentações frequentes, as pessoas não criam o hábito de ir ao teatro ver uma apresentação de stand up. Por isso estamos tão empenhados em formar um público na cidade”, afirma Hugo Veiga, integrante do grupo Comédia Capital.•

Isabela Horta

Negreiros acha importante prestar atenção às reações do público

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As vozes de Pistóia

ContraCapa

Fui eu que fiz a guerra? Foi você? Então vamos tomar uma bebidinha!

GUILHERME OLIVEIRA

É

em Pistóia, na Itália, que descansam os brasileiros caídos, porém não derrotados, na 2ª Guerra Mundial. Dormem sem saber que não entraram para a história nacional com a mesma grandeza que conquistaram na neve dos Apeninos. Os feitos, porém, ecoam dos leitos em solo estrangeiro. Os companheiros que atravessaram o Atlântico de volta para a terra natal são os guardiões dessas memórias ignoradas.

Volta ao mundo Às primeiras horas de 4 de junho de 1944, o navio-auxiliar Vital de Oliveira foi atacado por um cruzador alemão. A embarcação brasileira respondeu e afundou o inimigo, destinando 35 almas para o fundo do oceano. A bordo do Vital estava o marinheiro cearense José Francisco da Cruz, que navegou os sete mares na juventude. Cruz esteve por todas as partes da Grande Guerra. Foi figura fácil na Normandia ou na Itália, no Mediterrâneo ou no Pacífico, em Gibraltar ou nas Ilhas Marianas. Esteve ao lado de americanos, franceses, ingleses e mesmo dos “inimigos” alemães. “A gente falava um para o outro: ‘Fui eu que fiz a guerra? Foi você? Então vamos tomar uma bebidinha’”, lembra, entre gargalhadas sinceras. Feito soldado por convocação, não por escolha, Cruz estava no Amazonas quando recebeu a notícia de que participaria da guerra. “A gente tem que aguentar a picada da cobra e seguir em frente. Eu aguentei”, proclama. Guarda boas experiências, mas não repetiria. “A guerra é boa... para estar bem longe!”

Bom filho

Ilustração: Henrique Eira

Quando Vinícius Vênus Gomes da Silva, auxiliar de enfermagem do 1º Grupo de Caça da Força Aérea Brasileira, foi visitar seu pai septuagenário em Ponte Nova (MG), levava a notícia de que partiria em breve para a Itália. Silva fazia um curso de cabo no Campo dos Afonsos (RJ) quando se voluntariou para servir na guerra. O pai mostrou preocupação. Não achava certo defender a pátria fora dela. Pois Silva defendeu-a no 12º andar de um hospital de Livorno, cuidando de aviadores e combatentes feridos em missão e dandolhes segundas chances para lutar. Além dos companheiros de farda, estendia a mão para outro grupo: os cidadãos italianos. “Eles estavam passando necessidade e nós os ajudávamos. Repassávamos rações e cigarros, que recebíamos semanalmente dos americanos, para a população. Nossa relação era boa.” Com o fim das batalhas em solo europeu, o novo destino da Força Aérea

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Brasileira (FAB) seria o Pacífico – seria, se a guerra não houvesse terminado antes. Pouco depois das forças terrestres, Silva embarcou de volta. Logo estava em casa, trazendo abraços e alentos a seu velho pai.

Modéstia à parte O ano de 1924 foi glorioso para o Vasco da Gama, bicampeão estadual de futebol, e para a família Duarte Ferreira, que batizou um filho com o nome do time. Vasco Duarte Ferreira, filho de comerciante português, alistou-se no exército após ter dois parentes envolvidos em afundamentos de navios da Marinha Mercante por parte de submarinos alemães. Chegou a Nápoles aos 19 anos, como membro do segundo escalão da Força Expedicionária Brasileira. Ferreira esteve em toda a campanha brasileira, foi ferido três vezes, teve a audição comprometida e completou 20 anos de idade no hospital. Tudo que fez está restrito a suas lembranças. “As novas gerações nem sabem que o Brasil esteve lá”. Isso não é de todo ruim. “Somos um povo pacífico, que não cultua feitos de guerra”, avalia, com ressalvas. “Não somos passivos. Sabemos ser valentes quando necessário. Nossa participação na guerra não foi enorme, mas, pelas circunstâncias, fizemos até demais.” Na família, ele é discreto em relação à experiência.“Meu filho guarda algumas fotos e medalhas e meus netos às vezes perguntam algumas coisas, mas eu não faço questão de contar muito. Não sou herói pra ficar contando vantagem.”

O mensageiro Lincoln Moreira da Costa está em missão. Desde que foi incorporado ao Batalhão de Transmissões do Exército, em 5 de outubro de 1942, até hoje, quando dá palestras em escolas e universidades, leva mensagens. Aportou na Itália como sargento, com o 1º Escalão da Força Expedicionária Brasileira (FEB). Sentiu a guerra desde seu primeiro dia, quando foi recebido com um ataque aéreo. Um avião foi abatido. Lembra-se do piloto alemão, que tinha 16 anos. Em outra ocasião, recebeu quatro dias de férias em Florença. Seu posto de operações foi bombardeado enquanto estava fora. Já teve que dar duras em um superior. Era um 2º tenente que, ao receber cartas da família, chorava à vista de todos. A vivência da história persiste em seus olhos claros. Seu caminho, hoje, é repassar cada partícula de sua memória a jovens soldados e estudantes. É bem recebido, e percebe muita curiosidade. Há nobreza no que faz. “O país que não cultiva os feitos heroicos de seus filhos está fadado a desaparecer. Não fui à guerra matar. Fui cumprir uma missão, que estou cumprindo até hoje. Tenho orgulho de ter participado e de ter realizado o meu dever.”


Terceira edição do Campus 2/2009