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Campus BRASÍLIA, 12 a 25 de outubro de 2009

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Jornal Laboratório da Faculdade de Comunicação da UnB

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WWW.FAC.UNB.BR/CAMPUSONLINE

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ANO 39, EDIÇÃO 340

Maíra Morais

Pacientes do HUB ficam sem exames Falta de reagentes químicos força a diminuição do número de testes em laboratório, interrompe tratamentos e prejudica quem depende do serviço p. 4 e 5

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Exclusão vice-campeã

Com apenas 50 alunos deficientes, a UnB é a segunda pior colocada no ranking do índice de estudantes com necessidades especiais em universidades federais

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Ciência para crianças Projetos da UnB usam brincadeiras para ensinar engenharia, fisica e psicologia ao público infantil

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Sem apoio das fundações

Burocracia e disputa de poder dificultam recredenciamento de instituições como a Finatec (foto)

Funk: bailes perigosos Em dois meses, DF registrou duas mortes e duas tentativas de homicídio

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Perspectiva Expediente

Opinião

A aventura dos CA’s

Campus Darcy Ribeiro, Faculdade de Comunicação, ICC Ala Norte. Contato: (61) 3307-2519 Ramal 207/241 – Caixa Postal 01660 CEP: 70910-900 - campus@unb.br Editor-chefe: Guilherme Oliveira Secretária de Redação: Renata Zago Diretora de Arte: Juliana Reis Diagramação: Fabiana Closs, Heitor Albernaz, Laís Miranda, Marcella Cunha, Mariana de Paula, Mariana Haubert, Mariana Niederauer Fotografia: Maíra Morais (editora), Bárbara Lopes, João Paulo Vicente, Ludmilla Alves, Marcela Ulhoa, Verônica Honório Perspectiva: Luana Richter (editora) Cotidiano: Manuela Marla (editora), Camila Santos, Marina Marquez, Plácida Lopes, Vanessa Vieira Contexto: Tiago Padilha (editor), Ana Clara Martins, Gabriel de Sá, Isabela Horta, Mariana Tokarnia, Priscila Crispi, Rafaela Felicciano Laboratório: Cláudio Vicente (editor), Alessandra Watanabe Bloco C: Marina Rocha (editora), Ana Carolina Seiça ContraCapa: Marcella Cunha (editora), Heitor Albernaz, Laís Miranda Projeto Gráfico: Ana Clara Martins, Heitor Albernaz, Juliana Reis, Laís Miranda, Marcella Cunha, Marcela Ulhoa, Marina Rocha Revisão: Igor Miguel, Lucas Leon, Mel Bleil Gallo, Rafaella Vianna Professor responsável: Solano Nascimento Jornalista: José Luiz Silva Monitor: Leonardo Muniz Suporte Técnico e assistência em Fotografia: Pedro França Ilustrações: Luisa Malheiros, Iuri Lopes e Paulo Leonardo Gráfica Guiapack - 4000 exemplares

LUANA RICHTER

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Iuri Lopes

Acesse o WWW.FAC.UNB.BR/CAMPUSONLINE Carta do editor-chefe

Carta do leitor

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RAFAEL DE JESUS ROCHA

á quem diga que o primogênito sofre mais, por conta da inexperiência de papai e mamãe. Outros sustentam que é o segundo filho que passa pelos piores bocados, pois não recebe a mesma atenção dos progenitores. A equipe do Campus deste semestre, que já “pariu” dois rebentos, pode garantir: quem mais pena, na verdade, são os pais. O motivo é simples: precisam se sujeitar à vontade dos pequenos. Cada filho é diferente, e exige cuidados específicos. Calejados pelos erros e acertos da primeira vez, encontramos uma segunda edição que pedia outro tipo de tratamento. O menor número de reportagens permitiu que algumas delas ganhassem um espaço de manobra maior. Foi assim que, por exemplo, fomos além das fronteiras convencionais de uma editoria cultural e “humanizamos” uma editoria científica, além de explorar com profundidade a carência de químicos fundamentais no HUB. Foi o que o Campus pediu. Esbarramos em algumas experiências malsucedidas e tivemos que nos adaptar às necessidades da “cria”. É parte do processo de produção e, principalmente, de aprendizagem. Fazer um jornal requer um entendimento profundo da publicação por parte dos jornalistas. Nós, pais de primeira viagem, estamos caminhando.

Escrevo para esclarecer à Mariana Tokarnia (Opinião – Campus 339) que seria pertinente um passeio pelos corredores da FA para verificar a incorreção de seus apontamentos, tanto quanto às roupas que usamos como às salas em que estudamos. Das salas da graduação, só uma possui arcondicionado e nenhuma possui assentos acolchoados. Quanto às roupas, os que mais formalmente se apresentam fazem-no por imposição do trabalho ou estágio, não por escolha. Não há deuses na Faculdade de Direito. Veicular

esse tipo de opinião apenas gera animosidade entre os outros estudantes. Por fim, cumpre rechaçar o raciocínio de que, ao serem contratados 10 novos professores, tendo em vista os futuros 60 alunos, ter-se-á a proporção de um professor para cada seis alunos. Os professores não virão exclusivamente para atender aos novos alunos, não bastando sequer para cobrir a defasagem atual do quadro de professores da Faculdade de Direito.

ra uma vez um curso de graduação, no qual vários estudantes sonhavam com um espaço para se reunir, estudar e passar os períodos entre as aulas. Porém, uma rainha muito poderosa impedia a realização desse sonho. A rainha Burocracia. Os estudantes tentavam convencer a rainha de que seu sonho era importante, e anualmente formalizavam seus pedidos. A rainha nunca dizia que não faria. Mas também não dizia quando faria. E os alunos esperavam. Certo dia, todos aqueles estudantes cansaram de esperar e decidiram escolher sozinhos - e sem autorização um espaço adequado para eles. Essa mesma história se repetiu mais de cinco vezes nas últimas semanas no reino Darcy Ribeiro. Estudantes de cursos diferentes, mas com as mesmas reclamações, as mesmas tentativas e cansados de esperar por um espaço, decidiram ocupar. Segundo dados da Secretaria de Assuntos Acadêmicos (SAA), existem hoje 101 cursos de graduação na UnB e 47 Centros Acadêmicos (CAs) inscritos no cadastro da Universidade. Os alunos que ocuparam as salas estão reivindicando um direito assegurado desde 1985 pela lei federal 7.395, que garante a cada curso a criação de seu próprio CA. A lei, entretanto, não menciona o espaço físico para reuniões, mas os estudantes deduzem que isso também é uma prerrogativa. Eles aprenderam que, na UnB, quase tudo se resolve com ocupação. São alunos que derrubaram um reitor ocupando e que conseguiram a paridade ocupando. E que, ao que tudo indica, vão conseguir seus CAs também ocupando. A lógica é simples: chamar a atenção da administração e conseguir mais agilidade nas negociações, deixando de lado as demandas da majestade Burocracia. O plano até hoje se mostrou infalível. Porém, existe um pequeno detalhe que parece ter sido esquecido em Darcy Ribeiro. Para se alcançar o respeito, é preciso saber dialogar. O feitiço da ocupação funciona e tem efeito quase imediato. Mas, assim como tudo que é usado em excesso, pode perder sua magia. Para o conto de fadas dos universitários permanecer como uma história de conquistas, é necessário que seus heróis percebam que é importante ceder, dar um passo para trás e aceitar negociações. A mágica se acaba quando o herói perde a razão. E ele perde a razão quando não quer mais escutar.

Campus 40 anos

Aluno do 8º semestre de Direito da UnB

Mande sua opinião para o Campus: campus@unb.br

Ombudskvinna*

Uma questão de foco CAMILA GUEDES

À

s vezes o jornalista tem uma grande história na mão, mas, na hora de sentar e escrever, as coisas se complicam. Exemplo disso é a matéria que fala do fim do comércio no Minhocão. Lá pelas tantas, a seguinte questão é levantada: será que os antigos comerciantes serão aqueles a ocupar o novo espaço? A dúvida não é respondida, e o leitor atento acaba por con-

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cluir que, se essas pessoas estão prestes a perder o emprego, o foco da matéria deveria ser diferente. Outra reportagem que tem o mesmo escorregão é a que fala dos comércios que dependem da Universidade para sobreviver. A UnB não corre o risco de fechar. Então, por que fazer disso uma possibilidade? Melhor seria escrever uma matéria que falasse dos benefícios que a UnB traz e não dos prejuízos no período de férias. A mesma dica fica para a maté-

ria Diversão sem homofobia. A repórter acabou se dividindo entre dois assuntos: o crescimento das festas GLS e o aumento do número de heterossexuais que as frequentam. Será que o melhor não seria escolher apenas um desses dois tópicos? Outro problema da edição foram os umbigos dos repórteres. A matéria Malabarismos pelo cinema é muito interessante, mas apenas para quem é estudante do curso de Comunicação. O mesmo vale

para a ContraCapa. Afinal, qual a proposta de tal parte do jornal? O leitor chega ao fim do Campus e depara com algo que ele não sabe bem por que está ali. Antes de sugerir uma pauta é importante se perguntar: por que as pessoas gostariam de ler isso?

*Ombudskivinna, feminino de ombudsman. Na imprensa, pessoa que analisa o jornal do ponto de vista do leitor

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m 3 de agosto de 1990, a UnB ganhou o seu hospital. Na época, o HDA, ou Hospital Docente Assistencial, era administrado pela Previdência Social e cedia espaço para o exercício dos alunos da Faculdade de Saúde (FS). De acordo com a matéria, de abril de 1990, “até o 24º aniversário, a FS peregrinava por diversos hospitais públicos do Distrito Federal, ministrando seus cursos de forma improvisada e precária”. Há quase 20 anos, o futuro HUB recebia recursos dos Ministérios da Saúde, Educação e da UnB, o que gerava um orçamento maior que o da própria Universidade. O plano do então diretor, Josimar França, era transformar o HUB em um hospital de ponta. Será que esse plano tem alguma proximidade com a realidade de 2009?


Cotidiano

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evantamento realizado pelo Campus revela que a Universidade de Brasília (UnB) tem o segundo índice mais baixo de estudantes com necessidades especiais na graduação. Há apenas 50 portadores de deficiência, o que representa 0,1% do total de graduandos. O índice mais alto de inclusão (16,43%) está na Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), que tem 2.534 portadores de deficiência entre seus alunos.

Grande

exclusão

UnB está em penúltimo lugar no índice de estudantes com necessidades especiais CAMILA SANTOS MARINA MARQUEZ

Há no país 51 universidades federais. Dessas, 12 informaram não possuir números de inclusão, e outras 23 não responderam à pesquisa. Das 16 universidades que responderam, o menor índice de portadores (0,07%) está na Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), que tem apenas oito estudantes com algum tipo de deficiência visual, auditiva ou física. No extremo oposto, a segunda melhor colocada, que apresenta índice de 4,55%, é a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), com 1.139 estudantes deficientes. Para o reitor da UnB, José Geraldo de Sousa, é difícil achar uma razão que explique os números encontrados. “Nossa Universidade é conhecida pelo excelente auxílio no momento da prova e temos vários projetos que garantem a permanência do aluno depois de entrar”, diz. No primeiro semestre de 2009, 48 deficientes pediram atendimento especial para o vestibular, mas somente quatro foram aprovados. No vestibular do meio do ano, foram 49 portadores candidatos e 13 aprovados. Os problemas começam na educação básica. “A vida escolar do deficiente sensorial não é fácil”, conta Luciano Campos, deficiente visual e aluno de Biblioteco-

nomia da UnB. “Em Exatas, por exemplo, entender os gráficos e tabelas sem ver é trabalhoso e acaba, para a criança, sendo um estímulo a desistir, até porque os professores não estão preparados.” No Distrito Federal, há 13,7 mil alunos com necessidades especiais na rede pública, o que equivale a 4,16% do total de estudantes. Muitos portadores de deficiência dependem do transporte público para chegar à universidade. No DF, dos 1,8 mil ônibus, 555 (19,82%) são adaptados para deficientes. No Espírito Santo, onde houve recorde de alunos especiais na universidade federal, 27,13% dos ônibus da região metropolitana possuem algum tipo de adaptação.

Ludmilla Alves

Desde o vestibular O coordenador do Programa de Apoio às Pessoas com Necessidades Especiais da UnB (PPNE), José Roberto Fonseca, atribui, em parte, o índice baixo de inclusão na Universidade ao fato de os deficientes terem de apresentar atestado médico para ter atendimento especial no vestibular. “Isso acaba desestimulando o aluno a tentar”, explica. Fonseca acrescenta que muitas pessoas com necessidades especiais optam por faculdades privadas devido às cotas reservadas no Programa Universidade para Todos (Prouni). O PPNE existe desde 1999. “Se o aluno necessita da adaptação de um livro, prova especial, transporte no campus, entre outras coisas, ele nos solicita e o atendemos”, explica Fonseca. Entre os principais investimentos está o tutor especial. Colegas de turma recebem dois créditos e uma bolsa auxílio, no mesmo valor das monitorias, para serem um suporte do deficiente. O tutor revisa matérias, lê textos e auxilia na compreensão das aulas. As principais barreiras na UnB, para José Roberto Fonseca, são físicas. Construídos na década de 1960, os prédios da UnB foram criados em uma época em que não se pensava em acessibilidade. Após dez anos de espera, o Instituto Central de Ciências (ICC) ganhou três elevadores do lado B, e há outro projeto para construção de mais dois do lado A. O PPNE não tem orçamento fixo e, por esse motivo, os projetos precisam de uma análise da prefeitura e reitoria. Para o reitor José Geraldo, apesar da demora, o esquema tem funcionado. “Já conseguimos os elevadores, e os novos campi já estão sendo pensados conforme as normas de acessibilidade”, diz. De acordo com o

Alunos desconhecem bônus PLÁCIDA LOPES VANESSA VIEIRA

A

pesar de existir há três anos, o bônus regional é uma incógnita para muitos estudantes da Faculdade UnB Planaltina (FUP), o mais antigo campus da Universidade nas cidades-satélites. Levantamento reali-

zado pelo Campus com 40 universitários do segundo semestre de Gestão do Agronegócio, todos moradores da região de Planaltina, revela que apenas dez (25%) afirmam que conheciam o programa de inserção social quando ingressaram na UnB e somente dois disseram ter pedido o benefício ao se inscreverem no vestibular.

reitor, no próximo ano a Universidade receberá R$ 120 mil de um programa para inclusão de portadores, do Ministério da Educação. Além das barreiras físicas, a aceitação por parte de colegas e professores é problemática. “Na UnB ainda há um certo estranhamento por parte dos professores. Muitos levam um susto quando recebem os alunos e não sabem como avaliá-los”, afirma Fonseca. Luciano Campos concorda com o coordenador: “Passar por escola básica, vestibular e universidade é possível. O maior medo do deficiente é do estranhamento, do preconceito, do receio das pessoas”. •

Outros cinco estudantes não sabem se receberam ou não a bonificação. O bônus regional corresponde a uma pontuação extra de 20% na nota final da prova objetiva do vestibular. Para receber o benefício, não basta ser morador da região. O aluno precisa comprovar que realizou pelo menos dois anos do ensino médio em Marcela Ulhoa

Levantamento mostra que universitários de Planaltina não sabem que benefício garante 20% de pontos no vestibular

escolas, públicas ou particulares, da área de influência do campus. No caso de Planaltina, a área compreende outras nove cidades, como Sobradinho, Brazlândia e Formosa. O mecanismo também é válido para os campi de Ceilândia e Gama. Mesmo entre os conhecedores do bônus, por vezes, a informação é distorcida. “Eu acreditava que tinha passado no vestibular com a bonificação”, afirma Erick Vinícius Lima da Silva, estudante de Gestão do Agronegócio. “Não sabia que era preciso comprovar a escolaridade.” Outra informação pouco conhecida é que alunos de cotas raciais também podem solicitar o bônus regional. Os critérios para obter a bonificação encontram-se nos editais dos vestibulares.

Comunidade

Erick da Silva não sabia que precisava comprovar a escolaridade para ter a bonificação

Para José Fonseca, do PPNE, o maior problema é a acessibilidade

No nível médio e fundamental, há alunos que sequer ouviram falar do

bônus. “Nem sabíamos da existência”, afirmam as amigas Jéssica da Costa e Patrícia Ferreira, estudantes do Centro Educacional 01 de Planaltina. A estudante da UnB Ludmila Gualberto Andrade, que fez estágio supervisionado com alunos do ensino fundamental, confirma que há desinformação. “Alunos e até mesmo professores não fazem idéia do benefício”, relata. Ludmila acrescenta que o desconhecimento é ainda maior em cidades que, apesar de fazerem parte da região beneficiada, são mais distantes. “Em Vila Boa (GO), não conheci nenhum aluno que soubesse do bônus”, conta. Isso se reflete na falta de diversidade regional de alunos do campus. “Quase não encontramos moradores de cidades mais distantes, como Formosa”, afirma Delzimar Prates Alves, estudante de Planaltina. Luís Antônio Pasquete, professor de Economia do campus de Planaltina, diz

que o bônus ajuda parte desfavorecida da população. “Ações afirmativas como essa ampliam as oportunidades de entrar na universidade”, defende. Foi assim com Elieziu Domingos Carmo Santos, estudante de Gestão do Agronegócio na cidade de Planaltina. “Sem a pontuação minha nota no vestibular não seria suficiente para passar”, conta. O levantamento do Campus mostra que o desconhecimento em relação ao bônus é menor entre alunos que ingressaram há mais tempo na FUP. Dez dos 15 alunos da turma do último semestre de Ciências Naturais afirmaram possuir o bônus, o que corresponde a 66%. Entre os cinco não bonificados, apenas um disse que não conhecia o benefício. A diferença pode ser explicada pelo fato de essa turma ter ingressado em 2006, ano da inauguração do campus de Planaltina, quando houve uma grande divulgação do benefício. •

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Contexto

Falta de reagentes reduz em 30% exames MARIANA TOKARNIA PRISCILA CRISPI

À

s seis horas da manhã, uma fila começa a se formar na rampa que dá acesso ao Laboratório de Patologia Clínica do Hospital Universitário de Brasília (HUB). São pessoas que vêm de diversos pontos do Distrito Federal para fazer exames de rotina, como de colesterol, glico-

se e até hepatite e Aids. No entanto, boa parte delas volta para casa de mãos vazias e sem previsão de atendimento. O motivo? Falta de reagentes necessários aos exames. Maria Dalva Noleto ainda carrega a solicitação feita pelo médico no dia 8 de dezembro do ano passado. Primeiro, ela não achava tempo para ir ao HUB. Depois, precisou esperar meses até chegar o dia do exame. E, quando Maíra Morais

Mais de 15 tipos de exames estão suspensos no hospital

chegou, deparou com a falta de reagentes. Thaís da Silva tem 12 anos e faz acompanhamento pediátrico. Esta já é a quarta tentativa de fazer exame, e a mãe, Rosa Jesus da Silva, desabafa: “Ela teve consulta hoje com a pediatra e não pôde apresentar o exame. Está aqui para marcar de novo para daqui a 15 dias”. Os pacientes só ficam sabendo do problema quando chegam à recepção, depois de enfrentar a espera. Junto à atendente, um cartaz informa as faltas. A situação já provocou uma queda no número de atendimentos em relação ao ano passado. Segundo dados fornecidos pelo Departamento de Estatística do hospital, de abril a agosto de 2008 foram realizados pouco mais de 234 mil exames destinados a pacientes internos e atendidos em ambulatórios. No mesmo período de 2009, foram 164,5 mil, uma diminuição de quase 30%. Há cerca de seis meses, o Laboratório de Patologia não rea-

liza exames de dosagem hormonal e para detectar doenças como hepatite, brucelose, toxoplasmose, rubéola e Aids. Os exames parecem simples, mas não realizálos possibilita que problemas de saúde avancem sem que se perceba. “A falta dos reagentes tem atrapalhado a continuidade do tratamento e o diagnóstico daqueles que ainda não sabem do que sofrem”, explica a endocrinologista Adriana Lofrano, do HUB. “Problemas como enfarto e derrame podem ser evitados se descobertos a tempo.” Além disso, doenças graves como câncer necessitam de acompanhamento médico e, mesmo após eliminado o tumor, o paciente deve fazer exames a cada ano. Aray Zordan se consulta no setor de Oncologia desde 1997. “Eu devia ter feito o exame no mês de julho. Já voltei três vezes e nada”, lamenta. “Se não fizer, a doença pode voltar e os médicos não vão saber.” Alguns pacientes en-

frentam horas de filas na tentativa de validar os pedidos de exames em algum outro hospital público, mas para isso precisam de nova solicitação feita em formulário da outra instituição. Outros acabam recorrendo a clínicas particulares que cobram a metade do preço a pacientes de hospitais públicos. “Tive que pagar R$ 105 em outro lugar. Aperta, né? Mas o que eu posso fazer?”, conformase Salatiel de Souza. Aposentado, ele demorou dez meses para conseguir uma consulta na Urologia do HUB. Quando, enfim, viu o médico, recebeu os pedidos e marcou o retorno para seis meses depois. “Eu não posso chegar sem nada”, diz ele.

Suspeita de ilegalidade O problema da falta de reagentes no HUB começou em abril, quando o Laboratório de Patologia Clínica solicitou uma licitação para a aquisição do material. “Fazemos uma média de consumo a cada

Espera para realizar exames no Laboratóri

Centros à margem Pelo menos seis dos que atuam em áreas como ensino e pesquisa na Universidade funcionam em espaços improvisados. Sede de alguns deles estão sendo construídas GABRIEL DE SÁ

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Universidade de Brasília tem mais de 30 centros, que exercem de funções administrativas a pesquisas acadêmicas. Segundo o Regimento Geral da UnB,

eles são órgãos aos quais “competem as atividades de caráter cultural, artístico, científico, tecnológico e de prestação de serviços à comunidade, com finalidades específicas ou multidisciplinares”. Com essa abrangência de atividaJoão Paulo Vicente

Espaço destinado à sede do CDS, com o CET ao fundo

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des, pelo menos seis deles enfrentam problemas de falta de estrutura. O Centro de Desenvolvimento Sustentável (CDS) sofre com o espaço reduzido que ocupa, provisoriamente, em um dos blocos do Centro de Excelência em Turismo (CET). As aulas do CDS são dadas em salas do CET, mas também em vários outros lugares da UnB, como o ICC, a Faculdade de Tecnologia (FT) e os pavilhões. O CDS desenvolve estudos e pesquisas sobre meio ambiente e sustentabilidade e já formou quase 800 doutores, mestres e especialistas. “O CDS está sempre precisando ocupar espaços emprestados”, lamenta o professor João Luiz

Homem de Carvalho, que ministra uma disciplina no centro. “No PJC (Pavilhão João Calmon), onde dou aula, as palmas, risos e discussões vindos das outras salas atrapalham muito o andamento das atividades.” O centro espera por uma sede própria há 14 anos, desde sua criação. Segundo o Decanato de Administração da UnB, a construção do prédio, orçada em R$ 3,25 milhões, deve ser iniciada em 2010. Apesar do problema estrutural, os cursos de mestrado e doutorado do CDS estão entre os que possuem nota cinco, a mais alta obtida entre os programas de pós-graduação interdisciplinares, na avaliação da Coordenação

de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). A nota máxima que um curso pode obter é sete. Sem sede própria, os centros de Investigação em Economia e Finanças (Cief) e de Estudos em Economia e Finanças (Cerme) dividem um espaço de 37 m² no Departamento de Economia. “O trabalho fica prejudicado por não haver espaço físico para reuniões e encontros de docentes e alunos”, reclama o professor Paulo Coutinho, diretor dos dois centros. Eles têm programa de pós-graduação e contam com cinco professores e quatro funcionários. Criado há 22 anos, o Centro de Manutenção

de Equipamentos (CME) sempre ocupou lugares provisórios. Atualmente, está instalado no prédio da Engenharia Elétrica. A falta de locais adequados faz com que, muitas vezes, equipamentos sejam guardados nas salas dos funcionários. A sede própria do CME está em construção e deve ficar pronta em fevereiro de 2010. O Centro de Nanociência e Nanobiotecnologia (CNANO) e o Centro de Referência em Conservação da Natureza e Recuperação de Áreas Degradadas (Crad) enfrentam problemas semelhantes. A sede do Crad está sendo construída com recursos próprios, e o CNANO será instalado nos novos prédios do Instituto de Biologia. •


Contexto

Testes para doenças graves como Aids, hepatite e rubéola estão suspensos. Pacientes precisam esperar meses ou pagar por atendimento em clínicas particulares

do HUB Maíra Morais

io de Patologia Clínica é grande

Verônica Honório

três meses e, então, uma solicitação de compras”, explica o farmacêutico responsável pelo setor de Bioquímica do laboratório, Robério Antônio Araújo. Para ser classificada, além de corresponder às especificações técnicas do edital, a empresa fornecedora precisa apresentar um bom preço. Foi nesse quesito que a selecionada de abril pecou. Apesar de passar pelo aval técnico, a empresa propôs valores acima do limite estabelecido, e o edital foi cancelado. Araújo conta que o estoque do laboratório foi acabando com a demora na licitação. “Tivemos que fazer uma compra emergencial nesse período, mas ela tem um limite de valor, que não foi suficiente”, recorda. No mês de julho, houve mais uma tentativa. Um novo edital foi aberto, e as mesmas empresas, algumas fornecedoras do HUB há quase 25 anos, se candidataram. Dessa vez, após se enquadrar nas exigências, a Produtos Médicos Hos-

pitalares (PMH) ganhou a concorrência e fechou contrato para venda de R$ 150 mil em reagentes. Ainda assim, alguns dos reagentes necessários para o funcionamento do laboratório não foram incluídos no contrato e só seriam contemplados em nova licitação. Para a compra dos produtos já acordados, no dia 3 de setembro foram empenhados R$ 50 mil. Destes, a empresa liberou apenas R$ 25 mil em reagentes, menos de 20% da quantia pedida pelo laboratório. O diretor da PMH, André Almeida, afirma que a verba retida pela empresa serviria para sanar parte da dívida contraída pelo hospital em anos anteriores, que é de cerca de R$ 145 mil. Desde o primeiro contrato assinado entre eles, segundo Araújo, o débito já chegou a R$ 833 mil. “Não liberamos o crédito no valor total do pagamento pelo simples fato de que, se não retermos parte do valor pago, a dívida do hospital somente crescerá”, argu-

Fundações abaladas ANA CLARA MARTINS ISABELA HORTA

A

s últimas três fundações que se mantiveram ligadas à Universidade de Brasília estão temporariamente sem credenciamento, o que impede a assinatura de novos convênios entre a UnB e essas instituições. Por trás do problema há atrasos, disputa de poder e discussão em torno da mudança na legislação que regula o funcionamento dessas fundações. O contrato com a Fundação Universitária de Brasília (Fubra) venceu no dia 7 de outubro. Enquanto isso, a Fundação de Apoio ao Hospital Universitário de Brasília (Fahub) alterou seu estatuto para poder se conveniar e entregou um pedido no último dia 2. Já a solici-

tação da Fundação de Empreendimentos Científicos e Tecnológicos (Finatec) recebeu um parecer negativo da auditoria interna da UnB por supostamente não atender aos requisitos da legislação sobre as fundações. O pedido está suspenso desde julho. Como a renovação dos contratos acontece a cada dois anos, os últimos pedidos de recredenciamento das fundações foram feitos antes da crise de 2008, na qual a Finatec esteve envolvida no escândalo que derrubou o ex-reitor Timothy Mulholland. O atual diretor-presidente da Finatec é Márcio Pimentel, que foi decano de Timothy e disputou, com José Geraldo de Sousa, a eleição para reitor. “Na próxima reunião do Consuni (Conselho Universitário), iremos definir os nossos critérios

Quase 70 mil pedidos de exames médicos deixaram de ser atendidos desde abril no HUB

menta o diretor. Almeida alega, também, que o HUB já estava ciente de que a retenção ocorreria. Procurada, a direção do hospital não quis se manifestar, mas o responsável pelo setor de Orçamento e Finanças do hospital, José Sinval Mascarenhas, defende que a conduta da empresa é irregular. “A PMH sempre dá problema. Estamos dentro do prazo de pagamento, de 90 dias, e eles nos passaram apenas a metade do empenhado.

Vou ter que multá-los”, avisa. Mascarenhas esclarece que a verba que o hospital recebe é insuficiente para todas as demandas. Parte da receita do orçamento integral vem do Ministério da Educação, mas é a parcela do Sistema Único de Saúde (SUS) que é destinada à compra de insumos, neste caso, os reagentes. “O hospital nunca pagou em dia ninguém, porque trabalha sobre uma tabela do SUS que está defasada. Compramos os produtos

pelo preço de mercado, mas recebemos um valor abaixo, estabelecido por essa tabela.” Segundo Marinus Eduardo Marsico, procurador do Tribunal de Contas da União, a retenção é ilegal e o hospital acaba sendo o lado fraco da negociação. “O que começa errado, acaba dando errado. O HUB não honrou suas dívidas, a empresa decidiu continuar licitando e quem acabou pagando a conta foram os pacientes”, afirma. •

Problemas e demora no credenciamento das instituições de apoio da UnB – Finatec, Fubra e Fahub – impedem novos repasses de recursos

para o recredenciamento”, diz o decano de Administração e Finanças, Pedro Murrieta. Depois da manifestação da universidade, o caso é analisado por uma comissão de representantes dos ministérios da Educação e de Ciência e Tecnologia. Está marcada uma reunião dessa comissão para o dia 30 de novembro. A lei nº 8.958, que regulamenta a relação entre as instituições de ensino e as fundações, está sendo rediscutida. A mudança mais polêmica prevê que mais da metade dos integrantes do conselho dirigente da fundação sejam indicados pelo conselho superior da instituição apoiada, o Conselho Universitário, no caso da UnB. A lei em vigor prevê que essa parcela seja de um terço. “Fundação tem que ser de apoio, e há muitas

que não prestam esse serviço”, afirma o secretárioexecutivo da Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Nacionais de Ensino Superior (Andifes), Gustavo Balduíno. “Essas não nos interessam mais.” Para o diretor-presidente da Fubra, Paulo Celso dos Reis, não basta mexer na forma de escolha dos dirigentes. “Não podemos depender dos indivíduos. É necessário criar ferramentas de controle para as instituições”, afirma. Antônio Brasil, conselheiro da Finatec, concorda com essa posição. “Essa alteração poderá confundir as funções das entidades nas parcerias públicoprivadas”, argumenta. Já para o diretor-presidente da Fahub, Eduardo Queirós, “quanto maior a presença da universidade, mais legítima é a atuação

da fundação”. As fundações de apoio existem para dar mais agilidade aos projetos da universidade. Como a UnB é uma instituição pública, todas as compras e contratações devem estar de acordo com a Lei de Licitações, processo que pode levar meses. Já as fundações, instituições privadas e sem fins lucrativos, são

dispensadas desse processo. “Hoje não podemos ficar sem fundação. O problema é que no meio dessa agilidade surgiram desvios”, afirma José Carlos Balthazar, assessor da reitoria. O decano Pedro Murrieta afirma que a Universidade terá uma diretoria de Projetos, que irá controlar a relação com as fundações. • João Paulo Vicente

Pedido da Finatec foi negado porque não atenderia à legislação

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Laboratório Luísa Malheiros

Coisa para gente pequena Quem disse que a UnB é um lugar só para adultos? Projetos da Mecatrônica, Psicologia e Física abrem espaço para crianças, mostrando que é possível aprender brincando

ALESSANDRA WATANABE

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esenhe o que você quiser. Agora enxergue tudo o que construiu brilhando em um pequeno aparelho com luzes. Aprenda engenharia. Deite no chão, embaixo de um imenso céu noturno artificial. Em volta, paredes infláveis. Aprenda astronomia.Agora ouça com atenção, porque um comportamento novo pode vir de um de seus personagens favoritos da Disney. Aprenda psicologia. Se isso lhe pareceu interessante, imagine para uma criança. São projetos e pesquisas da Universidade de Brasília voltados para aprendizagem infantil. Dentre tantos projetos espalhados nas Artes Cênicas, Música, Desenho Industrial, Pedagogia e Matemática, o Campus identificou três propostas que fogem do formato tradicional de ensino. Esses projetos entenderam que brincar é a forma de assimilar da criança. Peça para ela explicar o conceito de software, de constelações ou de alteridade, que a criança ficará calada. Agora peça que brinque no computador, que desenhe o céu ou que escolha outros para seu time de futebol em vez de seus melhores amigos. Ela continua sem saber dar a explicação, mas compreendeu, da forma dela, o sentido do conceito.

Máquina de sonhar A criança bate palma, o aparelho liga. Ela vai para o escuro, as luzes vermelhas acendem. Ela fala, a boca desenhada acompanha o movimento dos seus lábios. Ela tem

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o poder de escolha. Caras felizes, corações, letras e formas predefinidas. Mas também pode desenhar o que estiver na mente. Esse é um projeto feito para que crianças a partir de oito anos possam criar animações e desenhos usando conceitos de engenharia. Uma matriz de 256 LEDs (pequenas lâmpadas econômicas e duráveis) permite isso. A criança cria. E cria o que quiser. “Ela não terá ideia de que está estudando, mas, a cada comando, ela aprende engenharia. Não é porque não temos uma te-la preta cheia de letras e comandos que não

Faz de conta de verdade A Branca de Neve chega à casa dos Sete Anões e depara com uma enorme bagunça. Gepeto está quase finalizando seu boneco de madeira, falta-lhe pintar um sorriso. Peter Pan não quer crescer e só sabe fantasiar. Shrek é um ogro, mas é cheio de bondade. Com trechos retirados de filmes e histórias infantis, pais diante da televisão e professores diante de alunos desmotivados conseguem finalmente o gancho para dialogar e ensinar organização, temperamento, responsabilidades, luta contra o preconceitos, cada um rela-

Querer explorar o mundo será sempre da criança. O que ela precisa é do direcionamento certo. Maria Fátima Guerra, especialista em educação infantil

é programação”, explica Lucas Fonseca, presidente da Empresa Júnior da Mecatrônica da UnB - Mecajun. Toda a criação ocorre em uma interface colorida no computador, segundo o projetista Matheus Ribeiro Castro. A sequência prevista pela criança ganha vida em um aparelhinho pouco maior que um celular, que funciona de forma independente. O engenheiro elétrico e pai de duas crianças Vagner Gulim, que fez a demanda para a empresa júnior, queria algo voltado para a ciência que fosse de fato atrativo para crianças. Sua expectativa é de que, depois de pronto, em julho de 2010, o aparelho seja vendido. “O projeto terá uma versão para uso nas escolas como material didático, e outra para o comércio varejista. O custo de venda final sugerido para este último será inferior a R$ 100”, conta Vagner Gulim.

cionado a uma história. “Não existe cobrança para se divertir ou imaginar. É então que as crianças aprendem”, constata a professora que criou a área de educação infantil na UnB, Maria Fátima Guerra. Foi nesse faz de conta que Raquel Ávila desenvolveu sua dissertação de mestrado. O embasamento foi na proposta da professora do Departamento de Piscologia Laércia Abreu, que traz a ficção para mais perto do cotidiano do que se possa imaginar. A então mestranda desenvolveu a técnica com crianças de cinco anos, em uma escola particular da cidade. Que caçador (criança) nunca recebeu uma repressão (puxão de orelha) da rainha (mãe) por ter descumprido a ordem (a orientação) de caçar o coração da Branca de Neve (brincar com a bola longe da janela de vidro)? Ficção e realidade se mis-

turam. Para a criança, é muito melhor compreender seu dia-a-dia com seus companheiros de sofá, personagens de clássicos lidos e vistos muitas vezes, do que com aqueles que dizem não à sobremesa antes do almoço. Os personagens são amigos. Os pais são pais.

Céu de brinquedo Ela olha para cima. Não enxerga nada. Tem muita luz. Postes e prédios ofuscam as estrelas. Desiste. É assim todos os dias. O interesse se perde. Mas agora, deitada dentro de uma cúpula inflável de 100 m², uma criança passa 45 minutos olhando, a cinco metros de altura, para um céu noturno em plena luz do dia. Esse céu artificial tornou-se mais real do que aquele tão apagado de todas as noites. Mais do que olhar, ela conversa, pergunta e aprende. É um planetário ambulante. Crianças de escocolas públicas do Distrito Federal podem entender astronomia com a projeção do céu em diferentes épocas do ano em apenas um dia. Essa é a proposta do projeto Museu na Escola – Planetário Itinerante. Por meio do único projetor digital do país, estudantes de Física e de outros cursos da UnB tornam-se mediadores e difusores da ciência. “Queremos estabelecer uma ponte entre a cidade e a academia. Como as crianças teriam essa oportunidade com o planetário de Brasília fechado?”, questiona o coordenador do projeto, Cássio Laranjeiras. Ele também acredita que o atual ensino formal de ciências é muito distante daquilo que deveria existir. “Na ciência, o proibido deveria ser não mexer.” •


Bloco C

Violência no funk

Em apenas dois meses, houve duas mortes e duas tentativas de assassinato em bailes irregulares no Distrito Federal

Bárbara Lopes

Dicas MARINA ROCHA

Livro

Almanaque Anos 90 (2008) De Carla Perez como musa do rebolado à febre dos tamagochis. O autor Silvio Essinger reúne em 288 páginas o que foi referência na década: músicas, brinquedos, programas de TV, moda, gírias, comportamento, fatos do esporte, acontecimentos e muito mais. Divertidíssimo e com fotos impagáveis. É para ler e reler na ordem que você preferir.

Site

Kruel, vocalista que se apresenta em bailes funk, diz haver agressões mais graves em outros eventos

P

rimeiro a batida do funk carioca. Depois, o disparo de uma arma. O que deveria ter sido um dia de diversão transformou-se no fim trágico de um jovem de apenas 23 anos. No dia 14 de setembro, Luciano Oliveira de Souza foi atingido por uma bala perdida em um baile funk clandestino na Colônia Agrícola Samabaia. Casos como esse têm se repetido no Distrito Federal. Entre meados de julho e de setembro, a Polícia Militar registrou mais uma morte e outras duas tentativas de homicídio em bailes funk irregulares. Uma semana após o assassinato de Souza, a polícia fechou três estabelecimentos só em Vicente Pires. O problema acontece principalmente quando bailes são divulgados como festas particulares, excluindo assim a necessidade de alvará de funcionamento. Souza foi morto em uma mansão residencial que não possuía o documento, e os contratados para fazer a segurança não eram credenciados junto à polícia. “Eu já estava indo embora quando ele veio correndo e me disse que tinha levado um tiro. Ele

se deitou no chão e começou a se contorcer, até que parou”, conta o estudante Robson de Almeida Sousa, de 24 anos, amigo da vítima. Souza foi baleado nas costas quando tentava se proteger da briga que provocou o tiroteio. A mãe do jovem, Neuracir Oliveira, diz que não sabia da situação irregular do baile: “Só sei que ele perdeu a vida. E eu perdi meu filho”. A responsável pelo local onde foi feito o baile, Marcela Veloso, explica que não sabia da necessidade do alvará de funcionamento e autorizou a realização do evento para ajudar um amigo. “Ele disse que estava com algumas dívidas, então emprestei a mansão para que organizasse a festa”. Marcela conta, ainda, que o amigo só chamaria pessoas conhecidas, e ela ficou surpresa quando foi procurda pela polícia. “Houve uma briga na festa, mas eu não sabia da morte de Luciano. Eu soube que ele estava a uns cem metros da casa quando levou o tiro”, relata. O organizador do baile não foi encontrado pelo Campus.

Documento O delegado Gerardo Carneiro, da 38ª Delega-

cia de Polícia de Vicente Pires, explica que o alvará é indispensável. O documento é emitido pela administração da cidade mediante um estudo do local, que assegura a existência de saídas de emergência, brigadistas, seguranças credenciados e ambulâncias. O delegado alerta que a população pode ajudar a coibir os bailes irregulares fazendo denúncias anônimas pelo

Nem sempre a presença de policiais garante a segurança do público. O delegado da 17ª DP, Mauro Machado, conta que ocorreram incidentes e falha na segurança do Funk Indoor, um baile regular que aconteceu no dia 19 de setembro, em Taguatinga. “Houve muitas brigas, consumo de álcool e drogas. Foi a primeira e última vez (que o evento foi realizado)”, enfatiza. O

Só sei que ele perdeu a vida. E eu perdi meu filho. número 197. “A melhor forma de evitar incidentes é frequentar os bailes somente em locais conhecidos, como clubes.” Um produtor de eventos que preferiu não se identificar revela que os gastos para a regularização de um baile podem chegar a 20% da arrecadação. Ele acredita que muitos promoters partem para a ilegalidade buscando aumentar a margem de lucro. “No último baile que produzi, gastei R$ 2,3 mil só com a taxa de serviço eventual da Polícia Militar”, conta. “Quem está dentro fica protegido. O problema é que as brigas ocorrem do lado de fora, e o baile leva a fama.”

ANA CAROLINA SEIÇA

produtor do Funk Indoor, conhecido na área de eventos como China, diz que não teve conhecimento de nenhum incidente dentro do baile. “Se houve, foi do lado de fora.”

Polêmica A morte de Souza traz uma antiga questão de volta ao debate: bailes funk são violentos? A discussão vem desde a década de 1990, quando os bailes saíram das comunidades carentes do Rio de Janeiro e se espalharam pelo país. Muitos serviam de palco para episódios violentos, como o “corredor da morte”, em que o público se dividia em dois grupos, abrindo um corredor en-

tre eles. Quem caísse nesse espaço era alvo de socos e pontapés – pancadaria que muitas vezes resultava em morte. Ainda que esse tipo de prática não aconteça atualmente, casos como o de Souza reforçam a má reputação dos bailes. Um dos vocalistas do grupo de funk Bonde Tesão, Cristiano Alves de Souza, mais conhecido como Kruel, acha que os bailes ainda são alvo de preconceitos. Ele faz apresentações há 15 anos e diz que já presenciou violência nas festas, mas também viu casos de agressão mais graves em outros eventos. “Todo lugar tem droga, todo lugar tem cerveja”, argumenta. O carioca João Paulo Silva Porto, de 21 anos, estudante de Agronomia da UnB, discorda. Ele frequentava bailes funk, mas deixou de ir por causa das confusões. “Até fiquei com medo em um que fui aqui em Brasília. Mal tinha chegado e vi um cara sair ensanguentado de tanto apanhar”, conta. No Rio de Janeiro, a Assembleia Legislativa revogou, no dia 1º de setembro, a lei 5.265/08, que restringia a realização de bailes funk, e aprovou a lei 1.671/08, que reconhece o ritmo como movimento cultural e musical de caráter popular. •

The Big Picture A sessão The Big Picture, disponível na versão online do jornal americano The Boston Globe, traz uma galeria com 120 fotos que resumem o ano de 2008. Elas estão separadas em três partes e a maioria foi feita por fotógrafos de agências internacionais. As imagens retratam fatos de vários países e cada uma traz uma legenda embaixo, resumindo o acontecimento. Dá para acessar no portal www.boston. com/bigpicture/2008/12/ the_year_2008_in_ photographs_p.html

DVD

Lo que te conté mientras te hacias la dormida (2004) O primeiro trabalho ao vivo do grupo pop La Oreja de Van Gogh traz DVD e CD gravados durante a turnê de 2003 por 60 cidades espanholas. Nas 18 músicas do DVD, o destaque é para a faixa La Playa. Ótimo para conferir o sotaque madrilenho marcante da ex-vocalista da banda, Amaia Montero.

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Os sensacionais Atawallpa e Érika

mais du a a r ra a c n e cebi q s pessoas. “Pe e AZ u a forma d r- te tem a obrigae ss E n LAÍS MIR não pr derso n ANDA A m e d a a e i c s isava ção de ajudar os esm do circ MARCEL vida é a m digo, ró o p LA CUNH , o v in i e n r u e a A do o ci tinha artistas da cidade, ”, m rco.” or”. “Ligeirinho h n e S o d e Já Cl “idad mas ninguém toma sinal fecha mas com a rista, acro32, que áudio Rodrig ía b e o espetá la a m r, ues, atitude. “Por isso que Bras r conqu culo É composito , começa. As G N O e d i com se ade que não luzes deste rante u talen star a fama lia não tem circo. É uma cid ho- bata, mágico, integ lofote são z a F r. ta t n o bolô ( vermelhas. de ca nas alguns ioiô ch para o dia- sabe o que é sorrir.” Ape- mas gosta mesmo é om c segundos p e iv o, 30, i v nês fei d e u s o a s conc ara encanta o público, ano Atawallpa Coelh 18 an ru á pe t h o O s re s a d h r ia b d e la a que do vo s s duas va circo para lante encara ma tado. Algun sar desconfiado retas e de plástico, veio de longe para trazer o e inheiro con . Na falta d p d A o u . “ u patroo m be O sina e picadeiro, refeiçã palco são a l é meu a cordinha). Brasília. E teve sorte. Rece e o faz apenas uma u q s ruas de B o é e ta.” Ab ersos festirasília. Em e, a art de aplausos, riu sho cartão de vis para participar de div io cín , vez de toda a dificuldad o d a i le os artistas w a esar exibiu buscam mo . “Já fui b edas. “Noss Brasil e pelo mundo. Ap sua art do João Bosc lo pe is, va . o - lhe traz esperança d o sonho é la o, en que Ive da afirma que a do, atrope fazer de ca semáforo u te Sang a mesma fes das oportunidades, ain da esfaqueado, apedreja la c m circo e c re t a a a e ic l m n o ú porque o pú. Agora escreve ada sinal fi Sua todo enfeita ua é a melhor escola, “r s r car Mas eu amo a vida.” so ri u n do”, diz Ro to m h o q m a ue ouvi ta. É uma l ndineli da S oio dos va, 21. Artis u no sin ivro com tud está direto com o artis co bli o il- mação é a falta de ap ã n ta de rua há s a segredo m nome o al. Segu seis anos, ele não preciso ssa interação surgiu o têm poder, De d n s ”. a o ca d o tro o ss s e s, p u o e u passar pe d s c l a e, es sorrind com tas: “A dam drog los malaba comuns. De o. “Tem so é estar sem o do Grupo Rebote, no qual trabalha res têm sensibilidade. Aju m é stemido, já u g v esp in is q o n r do e u c s Os ê é arti e super uita. começou co s, ma o de fogo. “ sta.” sua mulher, Érika Mesq ar tudo m vagabundos, bandido Só não pod 8, y, Iac a “Bom , e fazer xixi cama”, diz, tos há dez anos. Sua filh dia!” É . jun ” tão ta na is rt o rindo de si a n “ h o ao k umor q es s n também ajuda mesmo. Poré riso de verd a praticar artes circens u u ranhense Fra ço a e me m c co o L o m, ç m a e ade, ele most a a lh a recepci a Op ra quando fa u uma form ona os ndro Guimar bom três anos, antes mesmo de aprender da nota de R ã la Pedal”, 44, encontro m $ 100 que g s e o p s tid o , e o o nã t l T 2 o a pa . 8, rist awall 506 Su anhou: “O c latéia olhou pra m ler. Quando criança, At l. “Pre as que passa ara de conquistar mais p im e disse ‘v ga, manhã. n ti a u m fi g menina. Queria a da r ocê é bom, d T za o r rte ria estar no Bom d trabalh mesma ce a a nh eve- os dias ele passa po circo’”. i n a n a o forma r s ite.” A Ca A alegria é cabeça oa melhor qu de ser aviador, mas buscou “outra mambaia, a S , ia m d n compartilha v alabare e boa Brazlâ ta. ilândia e colega de p da com seu s duran oa mais alto de voar”. Virou trapezis , Guará, Ce ia rofissão e v d F n q lâ l t o o u e ô g w n n e a é a d show. E nesse erStick a o izinho de se ro Richard Sinal verde. É o fim do (bastõe apresentação s Artista de ru máfo. to Barros, 22, o r il a P c o h a n p a nas s com respeitável Pla começa com rap: “Me porto nem tiras de de da vida, nem sempre o e co m x cir te t um apresento, o r a ã e n b m , r e ir sua p idades) o só as ab mad sou malaba e, com bom . Sonh orconcede os aplausos. Nã r o saiu do M co ó d bli n p pú rista” a u r i d Q a humor, abo . e o nte de l a em e radeir também as jard Se o carro um circo ocador mpresa. Já fo portas se fecham, como m for um Celt a os veículos. ele deixou a , i i , o n ã a h h i t n r s o e o t ra j p nração. inuar, é preciso ae bonito hoje foi deixado Tem um e quer cursar las. Para o artista cont ne u O g ”. Se for um le diz: “Celta s. ó á c tr i o ra A s. “G pa dtino pa a Hilux, “e disse: Hilux que artis n que os outros parem. • ra os n Deus ”. O seu ca ão tem osto de ficar problema é O “ . le s e e le rr E n . o c Opala “mu o sinal próprio é u he vêm e vão ito doido”, porque Paulo C fe”. tas de circo o d que o fez sa m n a curso de Pu d u e m s e a o r ir do d , l n h blicidade p 4 sa e 3, tamb u a vão can ara pagar o serto. Para e ém não o show con ocasi profissão. “A conra a le, a melhor P . a escoid v ã e o n d . e ir faculdade sã c m E e malabares, u s u sidade até pro ue ass q e m o os v “com os qu ti e u e l f r, h az a o cu r tinu ais você ap sempre mais vagavam. o que , mas nenhum rei um empr a e rende u q s e mais”. De re a g ego consegu os lu sde que com çou nessa v zista mé eu ganho. N iu supe ida, Richard elhaço, trape o d a p i s i a i e rar n ir R V a l $ 4 mi tem tido m sorte. Tanta ataz, dire- minha l. Suste dá pra tirar em p uita a c que outro d r, o d a o p v nt ri ia viu uma trela caden ”. Um dia, e não p ncesa.” Apesa o a patroa e te e esa tor artístico r a r de v a apenas penso não fez nenhum pedid ela, Pau lado e viu lhaços o, u “não prec lo acred iver da arte, olhou pro m e iso”. ava com pelo gov recem ser m ita que os pa que só est erno. S egundo ais valorizad os ele, a S ala Fun arHEITOR

ALBERN

O

O magnífico Rondineli da Silva O incrível Richard Barros

O espetacular Leandro Guimarães

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Ilustração: Paulo Leonardo

Picadeiro a céu aberto

Ensaio fotográfico: Marcela Ulhoa

ContraCapa


Segunda edição do Campus 2/2009