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Em Busca da Perfeição: um estudo sobre o colégio soteropolitano Santíssimo Sacramento (1928-1945). Roselene de Souza Ferrante1. Profª. Dra. Márcia Maria da Silva Barreiros2.

Resumo. Este estudo buscou analisar as relações pedagógicas femininas no período histórico denominado de Era Vargas (1930-1945) no colégio católico do Santíssimo Sacramento, localizado no bairro soteropolitano do Garcia. Para isso, procurou-se abordar alguns aspectos históricos da cidade e da instituição escolar administrada por religiosas da Congregação do Santíssimo Sacramento, de matriz francesa. Em um contexto de transformações postuladas pelo Estado varguista, percebemos um entusiasmo pela educação, dentro de um projeto de construção de nação pautada pelo progresso. Os quinze anos dirigidos por Getulio Vargas são lembrados normalmente por avanços sociais e industriais, mas também por medidas privativas dos direitos civis, principalmente a partir da instituição do Estado Novo em 1937. No plano internacional a Segunda Guerra Mundial (1938-1945) alterava profundamente o cotidiano dos baianos, na cidade do Salvador relatos sobre hostilidades contra estrangeiros alemães e italianos, demonstram o clima de tensão na capital baiana. Instituições religiosas como o colégio das Sacramentinas organizavam freqüentemente gincanas e eventos, para arrecadar donativos para as comunidades católicas atingidas pela guerra. A pesquisa filia-se a uma perspectiva de análise historiográfica que privilegia novos campos de abordagens como História das Mentalidades e História Cultural, ou seja, para além daqueles definidos pela historiografia tradicional de influência positivista. Primando pelo uso das fontes orais, buscaremos nas vozes dos sujeitos e no espaço das relações cotidianas, as múltiplas vivências, reconstituindo assim, suas experiências e trajetória ao longo do tempo. Estudante 7º Semestre do curso de História com habilitação em Patrimônio Cultural, da Universidade Católica do Salvador, bolsista de iniciação científica com apoio FAPESB.

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Profª Drª em História Social pela PUC-SP. Docente dos cursos de História da Universidade Católica do Salvador e da Universidade Estadual de Feira de Santana. Docente do Mestrado de História da UEFS e orientadora do trabalho.


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Palavras- Chave: educação, sacramentinas e mulher.

O Colégio Santíssimo Sacramento no período de 1928-1945. Em 1903 o Brasil apresentou-se como uma boa opção para as Irmãs Sacramentinas, desejosas por cruzar o Atlântico rumo à propagação da fé3, seu destino inicial era a Bahia, onde o Arcebispo Primaz Dom Jerônimo Tomé da Silva se comprometeu a auxiliá-las. A primeira residência seria na cidade de Feira de Santana. No mesmo ano Dom Geraldo Van Caloen, abade de Olinda, afirmou em correspondência “para início ser-lhes-á entregue um Asilo com casa ajardinada, mantido com auxílios e colaboração da Mesa Administrativa, a administração interna será exclusivamente das Irmãs” 4. No dia 20 de março de 1903 as primeiras Irmãs deixavam sua terra natal para se aventurar em um novo mundo, desconhecido e exuberante. As cinco pioneiras embarcaram no navio Cordilheira, no porto de Bordeaux, o último adeus francês, veio por meio de uma carta de despedida do bispo de Valença D. Cotton, recebida já no navio. A chegada em Salvador aconteceu às 16h do dia 03 de abril de 1903, as únicas informações sobre as primeiras impressões da nova terra, são das cartas que contam alguns momentos da viagem, como não tivemos acesso a estes documentos, acompanharemos através da publicação As Sacramentinas no Brasil autoria de Irmã Verônica Menezes, embora saibamos que as Irmãs missionárias procuravam camuflar sentimentos negativos. Havia, contudo, o desejo de não vacilar, procurando reconfortar as companheiras que ficaram na França e os seus próprios corações, como nos atesta trechos da correspondência de Ir. S. Felix, reproduzidos na obra de Irmã Verônica, uma das religiosas afirmou que “o desejo de evangelizar, de expandir nossa Congregação no Novo Mundo nos faz suportar de boa vontade os incidentes da viagem”. Na Baia de Todos os Santos, o forte de Santo Antonio indicava aproximação com a cidade do Salvador, alguns tripulantes davam detalhes pormenorizados da capital baiana. A presença de zimbórios e torres avistadas do porto atesta por seu número e proporções, que chegaram a um país de fé. Foram acolhidas, pelas Irmãs 3

MENEZES, Verônica. As Sacramentinas no Brasil. Salvador, 1970. p. 26

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Idem 1, p.26


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Ursulinas, religiosas francesas do Convento das Mercês. Durante os dias que passaram com as Ursulinas receberam as visitas de outras religiosas, e retribuíram visitando alguns conventos antigos. Recorrendo a memória desses eventos, a atual Madre Superiora Yolanda Maria, que “no momento da chegada algumas Irmãs ficaram doentes, provavelmente debilitadas pela longa viagem, a Irmã S. Felix, a mais ativa permaneceu dias sem conseguir levantar, contando com o importante auxílio das Irmãs Ursulinas, concluindo pensativa, que sem essa ajuda, as primeiras missionárias, teriam sofrido ainda mais, pois no Convento das Mercês, mesmo que precariamente puderam diminuir a saudade da França e da língua francesa”. Assim, recuperadas as forças e a saúde, as Irmãs Sacramentinas seguiram para Feira de Santana, local prometido para a fundação da Casa Religiosa. A cidade do Salvador no inicio do século XX, apresentava muitas características rurais, pois havia próxima a região central muitas chácaras e roças, o transporte marítimo era o principal meio para chegar ou deixar a cidade, embora a estrada de Pirajá fosse muito utilizada. Em Salvador atendendo a um pedido do Arcebispo Primaz D. Jerônimo Silva, cedeu o Palácio Arquiepiscopal da Penha e as Irmãs Sacramentinas aceitaram a proposta para a fundação de um colégio em 1904 na região na Península de Itapagipe, região distante do centro da cidade utilizada pela sociedade baiana principalmente para veraneio, porém em pouco tempo tornou-se o centro da vida Sacramentina na capital baiana. O colégio foi anexado à Casa Regional do Brasil, localizado na época na Península de Itapagipe, a Madre Geral da época relata em carta as suas companheiras na França “nosso colégio é magnífico. Bem situado, com esplendida vista para o oceano; salas espaçosas, belíssima capela. Estamos deslumbradas com a vegetação, da qual não se pode fazer idéia em França. Para começar, as alunas são numerosas e pertencentes às famílias da sociedade itapagipana” 5. Ao final faz um pedido para que fossem enviadas mais religiosas, pois o Brasil é um país acolhedor e que necessita de Irmãs caridosas. Nos anos seguintes o colégio prosperou, outras Irmãs chegaram para aumentar a seara brasileira. Turmas de alunas sucediam-se, obras e associações religiosas floresceram. No ano de 1926 no bairro do Garcia, na cidade do Salvador, a Congregação adquiriu um terreno, graças ao procurador de uma família francesa

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Idem, 53


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ligada as Irmãs Sacramentinas o Dr. Cornélio Daltro de Azevedo, que deixaria o Brasil rumo à França, oferecendo um ótimo terreno às religiosas. Azevedo posteriormente participaria também da supervisão da obra. Na tarde ensolarada do dia 30 de setembro de 1926, um grupo animado seguia pelo Campo Grande, rumo ao terreno das Sacramentinas, a frente estava o Arcebispo Primaz D. Augusto Álvaro da Silva, o Major Antenor Cossenza representando o governador do Estado, o cônsul da França Dr. Léon Hippeau, o prefeito municipal Eloy Paraíso, representantes da Imprensa, do clero, várias religiosas, ex-alunas dos colégios situados em Itapagipe, familiares e amigos, a animação musical era feita pela Banda da Policia Militar, era a solenidade para a bênção a pedra fundamental do colégio S.S. Sacramentinas, sob o auspicio de Nossa Senhora do Sacramento e do Sagrado Coração de Jesus. O grupo foi recepcionado pelas alunas e por alguns operários, a aluna Odete Valente saudou o Arcebispo, em seguida agradeceu entusiasmada, o responsável pela obra Rossi Batista, conceituado arquiteto com várias obras na capital e no interior do Estado. A cerimônia foi encerrada às 16 horas, com muitas palmas, flores e música. Inicialmente o colégio funcionou apenas como externato, permanecendo por pouco tempo nessa condição, passando posteriormente exclusivamente a atender como internato, tendo como Madre Superiora a francesa Irmã Maria Andréa Soumille, assumindo também a função de diretora. Visando convidar a sociedade soteropolitana a participar da inauguração do colégio S.S. Sacramentinas, programada para o dia seguinte, o Diário de Noticias no dia 02 de março de 1928, em artigo de meia página destaca: Uma grandiosa obra da architectura bahiana: inaugura-se amanhã, solennemente, o collegio S. S. Sacramento, construído pelos engenheiros-architectos Rossi. Do magnífico projeto daquelles engenheiros, apenas terça parte, até agora foi edificada. A inauguração sollene e festiva, se realizará, amanhã, ás 15 horas, perante grande numero de famílias da sociedade bahiana e pessoas gradas, convidadas para aquelle acto. [...] digamos de passagem: aquelle collégio é uma instituição religiosa, destinada, exclusivamente, á educação de moças, e dirigida pelas Irmãs Sacramentinas, á frente das quaes, innegavelmente, está a Irmã visitadora Marie Arséne Pialat.

A matéria destaca ainda a localização privilegiada do colégio, em um ambiente calmo e bucólico, longe dos odores da cidade: O Collegio S. S. Sacramento está situado num dos pontos mais saudáveis da Capital, de clima agradável e ameno. Além, disso, o terreno do Collegio é muito amplo e cercado de frondosas arvores, o que, de facto, é de grande vantagem para institutos de ensino. A


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primeira vista, tem-se logo a impressão de valor da obra, toda ella construída de material de 6 primeira qualidade e em estylo moderno .

O periódico com vistas a não deixar dúvida quanto a excelência do edifício convida o leitor a perceber através das fotografias a agradável arquitetura, com harmonia estética e elegância, semelhante às construções das sociedades modernas que exigem institutos escolares de grande amplitude, onde as crianças e os colegiais possam estudar a vontade, respirando bem, em salas folgadas e recreios agradáveis. O Diário de noticias encerra afirmando “a Bahia possue um instituto de ensino modelar e perfeito, graças a magnificente obra dos engenheiros Rossi”. A fachada foi concluída em 1931, ocorrendo à comemoração da festa em homenagem a São Luiz Gonzaga em 21 de junho. Com isso faltaria apenas um templo dedicado ao Senhor na Eucaristia, para a adoração das freiras e das alunas, obra realizada nos anos posteriores. O novo terreno era uma verdadeira chácara, possibilitando a construção do colégio (nesse momento unindo o colégio da Penha e o de São Raimundo) e da Casa Regional, posteriormente também foram instalados o noviciado e a enfermaria São José, para as Irmãs idosas o enfermas, cuidados esses que sempre foram uma constante preocupação das religiosas, “em todas as casas muitas enfermeiras acompanham as Irmãs, aquelas com saúde fragilizada estão em recuperação na enfermaria, e nós em continua oração por elas7” afirmou Irmã Francisca de Assis, uma das primeiras alunas da nova sede. Indagada sobre sua entrada na instituição a religiosa, cujo nome de batismo é Elizabeth Atta Abid, de forma receosa afirmou “no ano de minha entrada no colégio (1932) havia apenas uma casa pequena cercada de muito verde, as carteiras eram bancos e a farda era uma blusa branca e saia vermelha”. Ainda segunda a Irmã os dormitórios eram divididos conforme a idade, seguindo as denominações de quartos para as pequenas, médias e grandes, em cada dormitório também dormia uma Irmã Sacramentina, separada apenas por um biombo, a vigilância era uma das principais preocupações e motivo de orgulho por parte das religiosas. Para cada grupo de meninas havia uma mestra, como guia e exemplo, mas principalmente para zelar pela disciplina das jovens.

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Diário de Noticias, 02 março de 1928 p. 04. Irmã Francisca de Assis ingressou como aluna do internato em 1932, posteriormente no semiinternato e nos últimos anos escolares no externato, durante muito tempo exerceu a função de mestra do infantil ao jovem, ensinando piano e canto orfeônico. Entrevista em 14. Abril. 2008.

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Ainda nesse mesmo terreno no Garcia, também está à Casa de Repouso São José, estabelecida desde 1926, após 22 anos de permanência no Convento de São Raimundo, tornou-se o local de descanso e recuperação das Irmãs idosas ou que necessitam de cuidados especiais, contando sempre com uma numerosa equipe médica. A pequena capela também abriga um ossuário das religiosas falecidas. Na atual Concha Acústica funcionava um pequeno estábulo, aonde toda manhã era recolhido o leite fresco para a escola. Irmã Francisca de Assis era de família abastada família de negociantes de artigos importados, seu tinha comércio próximo à Misericórdia e no local que abrigou a casa O Adamastor, deixando-se levar pelas memórias a religiosa pensativa relembra do irmão, Alberto, que estudava no colégio Marista, com isso o motorista da família, trazia os dois para os estudos, nos primeiros anos a pequena Elizabeth permanecia a semana toda no colégio, cursando o primário do internato. Embora não tenha verbalizado percebemos em suas expressões a felicidade que sentia quando chegavam às quintas-feiras dia de visita a avó que morava nas proximidades da instituição, uma senhora libanesa, que em 1934 deixou o Brasil para terminar seus dias no Líbano. O depoimento de Irmã Francisca de Assis é permeado de pausas, talvez pela pressa no falar, muitos trechos foram solicitados que fossem apagados, episódios da vida pessoal, não conseguimos contudo, entender o real motivo, já que outras freiras sem o menor problema contaram fatos de suas vidas pessoais. Concordamos com Alistair Thompson, quando afirma que algumas lembranças são enfatizadas enquanto outras descartadas ou ignoradas, ou ainda trabalhadas de forma agradável8, pois durante todo o depoimento a religiosa destacava a benção que foi para ela ter sua vida liga a instituição, talvez para amenizar as memórias familiares, principalmente pelo fato do pai, muito carinhoso segundo Irmã Francisca de Assis, ter resistências a escolha da filha de se tornar uma freira. No período de 1930 a 1945 o colégio foi melhorando e ampliando paulatinamente, já era considerada a melhor instituição para jovens na cidade do Salvador, seu público alvo era preferencialmente jovens da elite soteropolitana9. No final da década de 1930 e início da década 1940 a cidade do Salvador, foram anos 8

Thompson, Alistair p. 293 Entendida aqui como segmento social e econômico que se mantêm a parte da sociedade por representarem a personificação da Ordem.

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de intensos acontecimentos políticos tanto no plano nacional com a instituição do Estado Novo, quanto no âmbito internacional com a Segunda Guerra Mundial. A população soteropolitana acompanhava o desenrolar dos acontecimentos por jornais, rádio e cinemas, veículos de comunicação normatizados por um departamento específico do governo, que procurava enaltecer a figura de Vargas. No princípio do conflito o Brasil declarou sua neutralidade, mesmo assumindo essa postura na Bahia adotou-se medidas de segurança pública principalmente contra estrangeiros, Bartolo Sarnelli10 lembra-se que nos anos da guerra havia um “clima de guerra na cidade”, em suas palavras ele afirma Na época da Segunda Guerra Mundial, a cidade do Salvador parecia viver sob certa tensão, nada muito alarmante, mas havia um clima diferente, talvez por que éramos uma família de estrangeiros, uma família de italianos, ou seja, naquele momento nossa ascendência era inimiga. Meu pai era o que mais sentia esse clima, na época ele investia todo seu dinheiro na compra de casas, pois aos estrangeiros era negado o direito de possuir outros negócios. Todo o verão nós íamos para a Península de Itapagipe em uma de suas casas, era um lugar lindo, muito aprazível. Passeávamos de barco e pescávamos muito, porque a região era de pesca.

Com o desenrolar da guerra os dirigentes nacionais, encabeçados por Getulio Vargas, optaram pelos Aliados, Buscando dar visibilidade a essas jovens conversamos com Yvette Amaral11 que entrou no colégio em 1934 com seis anos para a alfabetização, segundo a exaluna as classes médias e altas da cidade, colocavam suas filhas nas Sacramentinas, na Soledade ou nas Mercês, dando preferência aos colégios religiosos. A mãe de Yvette, a senhora Elza Meireles Lemos, também havia estudo nas sacramentinas, “mamãe citava nomes que não eram da minha época, mamãe era de 1910 a 1920, citava nomes de religiosas e alguns fatos de sua época no colégio que ficava em São Raimundo”. Por isso matriculou a filha sob cuidados das religiosas francesas. Recordando o momento de sua chegada ao colégio, Yvette descreve que a farda era uma blusa branca, com saia grená e gravatinha triangular, semelhante a dos homens, e o escudo bordado CSS (colégio Santíssimo Sacramento), completando com o chapéu. Posteriormente o tom grená foi substituído por azul, também acompanhado com chapéu azul, para uso externo.

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Bartolo Sarnelli, 82 anos, prático de navio aposentado, nasceu em Nápoles na Itália, chegou à Bahia com quatro anos de idade, entrevista em 18 de setembro de 2008. 11 Yvette Amaral, 80 anos, professora aposentada de Latim, entrevista em 03 de outubro de 2008


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Devemos destacar que ex-aluna não explicita maiores sentimentos em relação ao primeiro dia na escola, apenas que encarava como um dia normal. Yvette Amaral também recorda-se que o colégio não eram tão rígido quanto outros administrados por freiras, por haver externato, ou seja, muitas jovens tinham acesso a rua e as notícias da cidade, Amaral classifica como “suave” a disciplina, mesmo sendo colégio de freiras, havia mais “liberalidades”, as sacramentinas eram mais acessíveis, principalmente em relação as Mercês, consideradas mais fechadas, embora não fosse permitido o uso de maquiagem, roupas curtas, enfeites como colares ou argolas, objetos que chamassem a atenção. As disciplinas eram basicamente as mesmas ministradas atualmente, português, latim, aritmética, geografia, história, ciências naturais, arte (música e desenho), para as mais velhas (antigo ginásio, atual ensino médio) havia ainda as disciplinas de francês, inglês e costura. Quanto aos horários até a quinta série se estudava em período integral e de segunda a sábado; depois pela manhã e três tardes. Quanto às sociabilidades, Yvette Amaral relembra com entusiasmo as competições inter-colegiais Naquela época, da guerra (entre 1940-1945) havia uma Parada Cívica de marcha, no dia 2 de setembro, enquanto no dia 7 de setembro era a Parada Militar, todos os colégios, públicos e privados, participavam da Parada Cívica, havendo uma enorme disputa entre dos colégios que se apresentassem em marcha, recebendo um título de melhor colégio daquele ano. Passávamos a semana inteira antes da competição treinando, aqui mesmo pelas ruas do Canela, saímos com o treinador e depois com as alunas que ficavam de monitoras, fazíamos aquilo com um orgulho enorme, por que ia disputar um título para o colégio, usamos a farda de ginástica, branca tipo tecido de chemise com golinha branca de manga curta, já que a farda convencional era de manga comprida, com meia no comprimento que a aluna desejasse.

Entremeando as lembranças do colégio das Sacramentinas nas décadas de 1930-1940 e suas recordações da cidade Yvette Amaral descreve o seguinte cenário

Eu sempre morei aqui no Canela, desde seis anos de idade, foi uma das razões inclusive de estudar nas Sacramentinas, porque a gente ia e voltava andando, a cidade era tranqüila com um número muito reduzido de carros, eram pouquíssimas as alunas que iam de carros, a não ser aquelas muito ricas, 90% ou até mais não tinham carro, a maioria morava próximo ou ia de transporte público, nem tinha ônibus nessa época, era bonde mesmo, tinha-se até passe estudantil, que o aluno comprava como hoje, pagando um valor reduzido. A região do Canela e do Garcia eram de casas coloniais, cada casa bonita, tem uma que hoje em dia está acabada que é a Residência Universitária da UFBA, era uma casa linda, defronte também


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havia uma casa muito bonita. Eu morava quase defronte a atual reitoria da UFBA, minha casa também era grande com um lindo jardim, tinha muita casa bonita aqui no Canela, que terminava praticamente na atual Defensoria Pública, o restante até o vale, era uma roça da família Otávio Machado. O Bonde vinha até ali, no fim do Canela, depois voltava para o terminal, no Centro Histórico. Na Cidade Baixa, os bondes terminavam ali no Elevador, e a comunicação entre a Cidade Baixa e a Cidade Alta era através do Elevador Lacerda mesmo e do Plano Inclinado, atrás da Catedral. Não existia ônibus, era uma vida sem correria.

O colégio das Sacramentinas elaborava muitas comemorações, festas da primavera, missas, novenas, torneios de vôlei, futebol, etc. Uma dessas comemorações corriqueiras ganhou destaque no Diário de Noticias de 1945 “ao calor de maravilhoso sol primaveril realizou-se ontem 12 de outubro, nas Sacramentinas, uma festa movida pelas alunas da 4º série, em beneficio dos índios brasileiros”. Yvette Amaral também recorda-se dessas comemorações

Houve muitas festas, quando eu cheguei à maior festa foi à inauguração da Capela-Mor em 1936, foi muito marcante. Eu queria um bem doido ao colégio, era uma alegria viver lá, e por isso eu participava muito da vida do colégio, naquele tempo, nós tínhamos um movimento da Igreja de missões, nós angariávamos donativos para enviar as missões, em países distantes, dentro do colégio havia um estimulo muito grande para isso. Outro dia eu estava comentando aqui em casa que quando eu estava na segunda série do ginásio, tinha, portanto 14 anos (1944) eu e mais quatro colegas fizemos uma festa, no antigo campo da Graça, que hoje não existe mais. O estádio de futebol, naquele tempo, não era a Fonte Nova, era na Graça, nós conseguimos fazer um torneio de futebol entre o Vieira e o Marista, contando com aquela parte de lanche e salgados feitos por nós. Ao analisarmos de um modo geral o depoimento de Yvette Amaral, percebemos uma nítida preocupação em responder objetivamente as indagações, a impaciência das primeiras respostas foi superada no transcorrer da entrevista, a postura de professora de Latim, saiu de cena quando o assunto girava em torno de amenidades. Assim, compartilhamos com Portelli12 quando afirma “oradores da classe média, aprenderam a imitar no discurso a monotonia da escrita” pois o ritmo e a entonação tende a não variar muito, as palavras são buscadas cuidadosamente em um rico vocabulário. A dedicação das Irmãs Sacramentinas valeu o reconhecimento da sociedade tanto baiana como brasileira, pois são muitos os telegramas de autoridades como do 12

Alessandro Portelli, p. 29


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presidente Getulio Vargas e Juscelino Kubitschek saudando o empenho das religiosas pelos estimados préstimos a população. Nos periódicos analisados são poucas as referências que fazem menção ao colégio, os textos que encontramos procura rapidamente esclarecer a dedicação o que se ensina no colégio, sempre carregado de muitos elogios. Em um folheto interno da década de 1930, porém sem a data exata da publicação percebemos o orgulho pela vigilância e disciplina “as alunas são objeto de uma constante e maternal vigilância por parte das religiosas, não somente nos trabalhos escolares como nas refeições, recreios, dormitórios e outros misteres” deixando claro ainda que “não aceitam alunas excluídas de outros colégios por motivo de falta de moral ou de disciplina, em proveito da dignidade de seu nome respeitável de colégio paradigma” Assim, ao ministrar uma educação pautada em valores cristãos, seguindo as necessidades de acalentar o coração feminino das vaidades profanas, o colégio S.S. Sacramento transformava as jovens em vitrine para a instituição, na medida em que elas difundiam o seu bem sucedido método educacional. Por outro lado o colégio também funcionava como reprodutor das divisões sociais, pois apenas a jovens abastadas que podiam contar com tais benesses pregadas pelas religiosas, as jovens de baixo poder aquisitivo e/ou órfãs eram encaminhadas ao Colégio São José, vizinho ao prédio principal do colégio Santíssimo Sacramento, também contavam com a administração das religiosas, porém com menos recursos. A educação voltada para a formação de mulheres visando transformar a nação pode ser observada na introdução do hino das Sacramentinas “Nesta escola se educam meninas, preparando o Brasil de amanhã, sob as leis imortais e divinas da perfeita doutrina crista”, mais adiante “Na tarefa sublime e divina, de dar filhos à Pátria sem par, as alunas das Sacramentinas, hão de ser o esteio do lar. O porvir deste solo adorado, a pujança de nosso Brasil, só dependem do nosso cuidado juventude cristã feminil” 13. O amor fraternal sempre foi uma das principais premissas da Congregação e incentivado no colégio, principalmente nas relações entre as alunas e as mestras, desenvolvendo muitas vezes amizades duradouras, como afirma em entrevista ao Jornal A Tarde14 a Irmã Elisa Maria, considerada como símbolo das Sacramentinas na Bahia: 13 14

Hino As Sacramentinas, Letra professor Roberto Correia e música do maestro Dr. Aurélio Laborda. A Tarde, 24 de fevereiro de 1980, p. 7.


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Fui educada na Penha, com as irmãs Sacramentinas, em cujo colégio estive até a idade de 14 anos. Guardo, daquele tempo, inesquecíveis lembranças. Especialmente de minha mestra, Irmã Marie Amelina, notável francesa, que me marcou indelevelmente o espírito. Com ela, posso dizer, aprendi tudo, pois era extremamente culta e inteligente, graças a sua dedicação aos 12 anos, fiz um excelente exame em francês, recebendo inclusive do cônsul da França um livro de presente.

Irmã Elisa Maria, realizou seu noviciado no convento de São Raimundo, na Penha, recebendo hábito de D. Jerônimo Thomé da Silva, sendo a última cerimônia do ilustre Cardeal Primaz do Brasil. Com a construção do noviciado e do colégio das Sacramentinas no Garcia, as atividades foram paulatinamente transferidas para a Rua Leovigildo Filgueiras, 211 região mais próxima ao centro de Salvador. Através da educação das jovens, a freira, acredita ter servido a Cristo durante toda sua vida. A disciplina era rígida e isso sempre foi motivo de orgulho para o colégio, considerado como referencia para a sociedade baiana. Conforme avançava no tempo o colégio ganhava mais importância e prestígio, além do reconhecimento de importantes

autoridades

públicas

nacionais,

as

Irmãs

se

destacavam

na

Congregação, em 1968 Irmã Elisa Maria, foi enviada a França para participar da eleição da Madre Geral, sendo a representante do colégio das Sacramentinas de Salvador. As práticas educativas da primeira metade do século XX percebemos a permanência de algumas praticas e modelos, como aqueles destacados no século em fins do século XIX que privilegiava o modelo mariano de mulher em oposição a idéia da mulher semelhante à Eva, como transgressora, ou ainda semelhante à Maria Madalena, como pecadora. A Virgem Maria acenava para a Salvação, a mulher que possibilitaria a redenção, para seguir esse caminho a jovem deveria escolher o casamento ou a vida religiosa, na primeira situação estaria submetida ao marido; na segunda a Igreja. Sabemos que os espaços de sociabilidades femininas ampliaram consideravelmente, principalmente no período estudado, porém muitas restrições permeavam as práticas femininas, principalmente no que se refere a profissionalização, cujo destino normalmente era o magistério, contando com uma imagem forte da professora desprendida dos valores materiais, maternais ou mesmo de mulher.


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Para a Irmã Maria de São Paulo15 o magistério sempre foi seu destino, desde jovem demonstrava suas convicções, desejava ser professora e seguir a vida religiosa. O pai fazia gosto apenas do primeiro desejo, porém com o tempo foi aceitando o sonho da jovem que todos ainda chamavam de Mariana Seixos Cardoso, nascida em 14 de janeiro de 1926 no interior baiano, Morro do Chapéu, as primeiras letras aprendeu em casa com parentes, contudo, pouco tempo depois transferida com família estudou dois anos com as Irmãs Sacramentinas de Senhor do Bonfim, embora tenha ficado um tempo relativamente curto entre as religiosas, o convívio foi fundamental para aproximar da Congregação do S. S. Sacramento. Em 1948, afirma Irmã São Paulo sonhadora, conclui o Curso Normal, realizando assim o primeiro dos seus dois grandes sonhos, no ano seguinte fui efetivada sem concurso para ser professora primária na cidade de Wagner, permanecendo na cidade até iniciar a vida de religiosa. De fala fácil e agradável a religiosa, demonstra o tempo todo seu entusiasmo pela educação, com orgulho anuncia “sempre gostei imensamente de estudar, amava ser professora por isso procurei me aperfeiçoar, fiz curso superior de História e depois Teologia, na Católica da Federação”. A religiosa chegou a Salvador na década de 1980, depois de passar por diversas cidades baianas, e uma estada rápida em São Paulo onde permaneceu por três anos, até que o pai gravemente enfermo, fez com que voltasse para a Bahia. Conclusão. A educação sempre foi vista como o lócus privilegiado de transformação da sociedade, por ter um caráter institucionalizado, desempenha um papel relevante na difusão dos ensinamentos. Os valores postulados pela educação, principalmente feminina com respaldo da Igreja Católica no século XIX, ainda precisam ser mais bem estudados, pois nem todos os estudos sobre instituições católicas femininas conseguiram responder as indagações.

Irmã Maria de São Paulo, 82 anos, formada em História e Teologia, exerceu por mais de 50anos a função de professora nos colégios S.S. Sacramento, atualmente participa de aulas eventuais na unidade em Salvador. Depoimento em 21/07/2008. 15


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