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AS IGREJAS

de Oscar Niemeyer


Rio de Janeiro, agosto 2011

© 2011 Oscar Niemeyer

Diretoria: Oscar Niemeyer e Vera Lúcia G. Niemeyer Conselho Editorial: Oscar Niemeyer, Vera Lúcia G. Niemeyer, Jair Valera, José Carlos Sussekind, Cecília Scharlach, Renato Guimarães e José Fernando G. Balbi Jornalista Responsável: Renato Guimarães Projeto Gráfico: Christiane Abbade e Rodrigo Almeida de Paula Revisão: Luiz Otávio Barreto Leite e Deborah Prates Traduções: César Rojas Alfonzo e Leonardo da Silva Costa (Espanhol) Luciana Simões de Aquino e Diogo M. Guimarães Cabreira (Inglês) Publicação: Editora Nosso Caminho Produção Editorial: Editora Nosso Caminho

AS IGREJAS

de Oscar Niemeyer

Fotos: Kadu Niemeyer e Acervo da Fundação Oscar Niemeyer Maquetes Eletrônicas: Jair Valera e Ana Elisa Niemeyer

Editora Nosso Caminho Ltda. CNPJ 10.433.542/0001-01 www.revistanossocaminho.com.br Editora Nosso Caminho


MUDANDO DE ASSUNTO Eu nasci e morei, em toda a minha juventude, em Laranjeiras, na casa de meus avós Ribeiro de Almeida. Família católica, vinda de Maricá, que para o Rio se transferiu para sempre. Era uma residência de dois andares, com uma varanda a segui-la até o fim do terreno. No andar térreo era o hall de entrada – de um lado, a sala de visitas; no meio, a escada e o gabinete do meu avô; do outro lado, a sala de jantar e um grande corredor, onde ficavam localizados os quartos de meus tios e de meus avós. Em seguida, eram a copa, a sala de almoço, banheiros, cozinha, quarto de empregada, etc. Em cima, os quartos de meus pais, irmãos e de nossa prima Milota, uma senhora que sempre morou com os meus avós. A sala de visitas tinha cinco janelas – três dando para a rua, duas para os lados. Numa destas, minha avó embutiu um oratório, que, aos domingos, abrindo para a sala, permitia que a missa fosse rezada em casa, tão religiosa era a nossa família. É claro que nada disso veio a influir na minha maneira de pensar: com pouco mais de 20 anos atuava no Socorro Vermelho, onde um grupo de comunistas recolhia roupas e donativos para distribuírem entre os mais pobres da redondeza. E, mais adiante, já formado e arquiteto, lá estava eu, comunista, a participar da luta e das passeatas que o partido de Prestes organizava. A idéia de um Deus todo-poderoso, criador de todas as coisas, havia desaparecido do meu pensamento. Mas a visão de um ser humano tão frágil e desprotegido, diante deste universo fantástico que o cerca, levava-me a acompanhar as conquistas da ciência, empenhada em desvendar os mistérios do cosmo e de nossa própria existência. Contudo, a lembrança daqueles velhos tempos, dos amigos – em sua maioria católicos – que nos frequentavam deixou-me a idéia de que se tratava de gente boa e bem intencionada, que manifestava uma atitude generosa diante da pobreza, sem a revolta que em mim passou a dominar. Ah, como é importante para mim recordar que o meu avô, ministro do Supremo Tribunal Federal por vários anos, morreu pobre, obrigandonos a deixar a casa hipotecada para morar numa casa modesta em Ipanema! Tudo isso explica a minha postura compreensiva e quase indulgente em relação aos que crêem num Deus invisível e onipotente, aceitando, conforme tem acontecido, projetar uma igreja, uma catedral ou uma simples capela como a que acabo de desenhar, a pedido de meu amigo Roberto Irineu Marinho. Por outro lado, ao desenhar uma igreja, o arquiteto sente, surpreso, como esta é generosa como tema arquitetural. Com que prazer desenhei as colunas da Catedral de Brasília, a subirem em círculo, criando a forma desejada! E lembro os contrastes de luz que adotei, tão importantes no interior de uma catedral. Quando projeto uma catedral, reconheço que o prazer que sinto em ver uma obra bem realizada é muito menor do que a importância que lhe dão aqueles que vão freqüentá-la, pois é ali que acreditam estarem perto de Deus. Para eles, o ser supremo que, onipotente, tudo criou. Eis como eu posso justificar essa contradição que alguns levantam entre a minha posição de comunista e o meu interesse em desenhar obras de caráter religioso.


MUDANDO DE ASUNTO

CHANGING THE SUBJECT

Nací y viví, toda mi juventud, en Laranjeiras, en la casa de mis abuelos Ribeiro de Almeida. Familia católica, venida de Maricá, que a Río se mudó para siempre.

I was born and raised, throughout my youth, in my grandparents, the Ribeiro de Almeida’s, house, in Laranjeiras. They were a Catholic family, originally from Maricá, that permanently moved to Rio.

Era una residencia de dos pisos, con un balcón siguiendo hasta el final del terreno. En la planta baja era el vestíbulo de entrada – de un lado, la sala de visitas; en el medio, la escalera y el estudio de mi abuelo; del otro lado, el comedor y un grande corredor, donde estaban ubicados los cuartos de mis tíos y de mis abuelas. En seguida, estaban un pequeño comedor, sala de almuerzo, cuartos de baño, cocina, cuarto de empleada, etc. Arriba, los cuartos de mis padres, hermanos y de nuestra prima Milota, una señora que siempre vivió con mis abuelos. En la sala de visitas había cinco ventanas – tres dando hacia la calle, dos para los lados. En una de estas, mi abuela embutió un oratorio, que, durante los domingos, abriéndolo hacia la sala, permitía que la misa fuese rezada en casa, tan religiosa era nuestra familia.

It was a two-story house, with a porch stretching all the way to the edge of the property line. The entrance hall was on the ground floor – on one side, there was the visiting room; in the middle, the stairs and my grandfather’s office; on the other side, the dinning room and a big hallway, in which my uncles’ and grandparents’ rooms were located. Following that hallway, there was the kitchenette, the lunch room, bathrooms, kitchen, the maid’s chamber, etc. Upstairs, my parents’, siblings’ and our cousin Milota’s rooms, an old lady who always lived with my grandparents. The visiting room had five windows – three overlooking the street, two overlooking the property. In one of the latter, my grandmother built a small altar, which, on Sundays, by opening it to the room, it allowed the mass to be held at home, so religious was our family.

Está claro que nada de eso vino a influir en mi manera de pensar: con poco más de 20 años actuaba en el Socorro Vermelho, donde un grupo de comunistas recogía ropas y donativos para distribuir entre los más pobres de las cercanías. Y, más adelante, ya formado y arquitecto, allá estaba yo, comunista, participando de la lucha y de las marchas que el partido de Prestes organizaba.

Obviously, none of that had any influence over me: shortly after my twentieth birthday, I already helped at the Socorro Vermelho, where a group of communists gathered clothes and donations to distribute amongst the poor. And, later, when I was already an architect, there I was, a communist, engaged in the fighting and the manifestations organized by Prestes’ political party.

La idea de un Dios todopoderoso, creador de todas las cosas, había desaparecido de mi pensamiento. Pero la visión de un ser humano tan frágil y desprotegido, delante de este universo fantástico que lo rodea, me llevaba a observar las conquistas de la ciencia, empeñada en desvendar los misterios del cosmos y de nuestra propia existencia.

The idea of an all-powerful God, creator of all things, had long since disappeared from my thoughts. But the vision of a human being, so frail and helpless, faced with this fantastic universe that surrounds him, led me to follow scientific advances devoted to unraveling the mysteries of the cosmos and of our own existence.

Aún así, el recuerdo de aquellos viejos tiempos, de los amigos – en su mayoría católicos – que nos frecuentaban me dejó la idea de que se trataba de gente buena y bien intencionada, que manifestaba una actitud generosa frente a la pobreza, sin la rabia que en mí pasó a dominar. ¡Ah, cómo es importante para mí recordar que mi abuelo, ministro del Supremo Tribunal Federal por varios años, murió pobre, obligándonos a dejar la casa hipotecada para vivir en una casa modesta en Ipanema! Todo eso explica mi postura comprensiva y casi indulgente en relación a los que creen en un Dios invisible y omnipotente, aceptando, conforme ha sucedido, proyectar una iglesia, una catedral o una simple capilla como la que acabo de diseñar, a pedido de mi amigo Roberto Irineu Marinho.

Nevertheless, the memory of those times, of friends – Catholic, in their vast majority – left me with the idea that they were, in fact, good and well-intentioned people, who showed generosity towards poverty, and who lacked the rage that dominated me. Ah, how important it is, to me, to recall that my grandfather, a Ministro do Supremo Tribunal Federal1 for many years, died poor, forcing us to foreclose our house and move to a modest residence in Ipanema! All these things explain my understandable, borderline indulgent, attitude towards those who believe in an invisible, omnipotent God, and which led me to accept projects for churches, cathedrals or even a simple chapel, like the one I recently concluded at the request of my friend, Robert Irineu Marinho.

Por otro lado, al diseñar una iglesia, el arquitecto siente, sorprendido, como esta es generosa como tema arquitectónico. Con que placer diseñé las columnas de la Catedral de Brasília, subiendo en círculo, ¡creando la forma deseada! Y recuerdo los contrastes de luz que adopté, tan importantes en el interior de una catedral.

On the other hand, while designing a church, the architect realizes, to his surprise, how generous it is as an architectural theme. How pleasurable it was to draw the columns of the Brasília’s Cathedral, which rise in circles, creating the desired shape! And I remember the light contrasts I adopted, which are so important inside a cathedral.

Cuando proyecto una catedral, reconozco que el placer que siento en ver una obra bien realizada es mucho menor que la importancia que le dan aquellos que van a frecuentarla, pues es allí que creen estar cerca de Dios. Para ellos, el ser supremo que, omnipotente, todo creó.

When I design a cathedral, I realize that the pleasure I feel from its successful completion is dwarfed by the importance allocated by those who will frequent it, for there they believe themselves closer to God. For them, the supreme being that, omnipotent, created it all.

Es así como puedo justificar esa contradicción que algunos levantan entre mi posición de comunista y mi interés en diseñar obras de carácter religioso.

That is how I can justify this contradiction, as some people mention, between my position as a communist and my interest in designing projects of religious nature. Notes on the translation: 1 – The Ministro do Supremo Tribunal Federal is the highest ranking office within the judiciary branch of government in Brazil. Currently, the Supremo Tribunal Federal, has eleven Ministros, appointed by the President and approved by the Senate, who cannot be removed from office, save by compulsory retirement at the age of seventy.


SUMÁRIO/SUMARIO/CONTENTS IGREJA DA PAMPULHA

12

CATEDRAL DE BRASÍLIA

16

CATEDRAL MILITAR

20

CAPELA ALVORADA

22

IGREJA ORTODOXA

26

CAPELA NOSSA SENHORA DE FÁTIMA

28

MESQUITA DE ARGEL

30

Capela São José Operário

32

CATEDRAL BATISTA

34

CATEDRAL CATÓLICA CAMINHO NIEMEYER

38

Capela em Postdam Alemanha

40

CAPELA ROBERTO MARINHO

42

CATEDRAL DE BELO HORIZONTE

44

CAPELA CESGRANRIO

48

IGREJA ITAIPAVA

50

IGREJA ADVENTISTA DO SÉTIMO DIA

52


IGREJA DA PAMPULHA

12


14

15


Catedral DE BRASÍLIA

16

17


18


Catedral MILITAR

20


CaPELA ALVORADA

22


24


IGREJA ORTODOXA

26


CaPELA NOSSA SENHORA DE FÁTIMA

28


MESQUITA DE ARGEL

30


Capela São José Operário

32


Catedral BATISTA

34


36


Catedral CATÓLICA CAMINHO NIEMEYER

38


Capela em Postdam Alemanha

40


CaPELA ROBERTO MARINHO

42


Catedral DE BELO HORIZONTE

44


46


Capela CESGRANRIO

48


IGREJA ITAIPAVA

50


IGREJA ADVENTISTA DO SÉTIMO DIA

52

53


Este livro foi composto com as tipografias Myriad Pro e Minion Pro. Impresso na Imprinta Express em papel couche matte 145g/m2.



Oscar Niemeyer - As Igrejas