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artigo

O mundinho do

Instagram

Pablo Kossa pablokossa@bol.com.br

U

ma rede social de compartilhamento de fotos. Uma ideia boba que é genial (como só poucas bobas ideias conseguem ser). É inegavelmente divertido ficar olhando o que as outras pessoas estão fazendo, comendo, conhecendo, constrangendo... Mas o mundinho do Instagram não é para depressivos. Quando você olha ali, todos são felizes, cheirosos, sorridentes e vão a lugares bacanas. Parece que ninguém pega baú no Terminal das Bandeiras. Esse é o mundinho do Instagram. A verdade é que não há verdade no Instagram. Os temas são os melhores possíveis, os ângulos são bem escolhidos, o filtro ameniza distorções. É o mundo da alegria sem Prozac. Afinal, queremos compartilhar o que temos de melhor. Não a unha encravada do dedão do pé. De mundo real, os telejornais locais já estão cheios e não precisamos mostrar que também temos nosso lado TV aberta. Timbre Multishow é bem mais cool. Dentre as categorias de fotos que encontramos nessa rede social, acho que a que mais me incomoda são as fotos do próprio dono da conta. Tem gente que tira foto de quando coloca uma camisa diferente (nunca quando está com aquela camiseta surrada de ficar em casa), suado, quando saiu do futebol (nunca quando mostra que sua barriga está bem maior que o razoável), indo para a balada (nunca quando está voltando bêbado e vomitando no carro), com os filhos sorridentes (nunca quando eles estão se jogando no chão de birra) ou com aquela amiga gostosa (nunca com a amiga feiosa). É muito ego, muita necessidade de afirmação ou carência de elogios. Se bem que

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o uso de Instagram é mais barato que pagar analista. Nesse sentido, pode até ser mais interessante resolver conflitos de ego com a rede social. Por outro lado, se o problema for excesso de soberba, as fotinhas podem ter consequências desastrosas. Outro lance engraçado do Instagram é o que motiva você a curtir uma foto e não outra. A real é que não há muita reflexão para isso. A gente meio que vai curtindo tudo quanto é foto sem pensar nas razões de estarmos fazendo isso. Como é só dar dois cliques na tela, nós vamos descendo a barra de rolagem e dando dois cliques de forma indiscriminada, sem nos preocuparmos se realmente “curtimos” aquela imagem compartilhada pela pessoa que seguimos. Fazemos isso impulsivamente. Mas esperamos a contrapartida. Curtimos para sermos curtidos. O velho “é dando que se recebe”. E ainda falamos que o Congresso é um balcão de negócios... Por isso que sempre digo que a vida real acontece offline. A verdade não é transmitida pela internet. O olho no olho é que tem peso. Dessa forma que percebemos que o branco é branco e o preto é preto. Negar isso em prol da interação digital é abdicar do gosto real das coisas, do cheiro real das pessoas, da intensidade do contato entre as peles. Não tenho dúvida de que prefiro os dissabores do mundo real às benesses do mundo virtual. Questão de estilo. Questão de visão de mundo.

Pablo Kossa é jornalista , produtor cultural e mestre em Comunicação pela UFG

Zelo 22  

Vigésima segunda edição da Revista Zelo

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