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A cada revista é uma nova história e cada história constrói uma vida, é assim que vamos traçando dia-a-dia e com muita alegria conseguimos agregar diversas pessoas talentosas para que possamos levar um conteúdo literário saudável, de qualidade e que alcance o maior número possível de pessoas. A revista tem como estratégia algo macro, não só alcance pessoas eruditas, como também um público que não teve acesso a um conteúdo, muitas vezes exclusivo para uma classe elitizada, então, sejam bemvindos a um mundo para todos. O lado bom da literatura é que você consegue conversar com autores de diversas épocas e culturas, não só conversar, mas aprender e crescer com eles, ter as mesmas experiências e o melhor de tudo, fazer parte de seus mundos. Rafael e Ana Zimichut


Quando não se tem aquilo que se gosta, é necessário gostar daquilo que se tem..” Eça de Queiroz

“Deus responde a todas as nossas preces, mas muitas vezes a resposta é não..” Dan Brown

“Quem escreve um livro constrói um castelo, quem o lê, mora nele...” Monteiro Lobato

“Melhor ser rei do teu silêncio do que escravo das suas palavras..” Willian Shakespeare

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Dicas dos mestres Por: Editora Pallace @edpallace


Como você começa o seu dia? Você tem uma rotina matinal?

Manoel de Barros:

Tenho uma rotina quase militar. Acordo às 5 horas, tomo um copinho de guaraná em pó, caminho 25 minutos, tomo café com leite, subo para o meu escritório de ser inútil. Desço meio dia, tomo dois uísques, almoço e sesteio. O resto é pra ouvir música. E ver o dia morrer.


Em que hora do dia você sente que trabalha melhor? Você tem algum ritual de preparação para a escrita? Ernest Hemingway: Quando estou trabalhando em um livro ou um conto, escrevo diariamente de manhã, a partir da hora em que surge a primeira luz. Não tem ninguém para perturbar, é fresco, ou mesmo frio. Leio o que fiz no dia anterior e, como sempre paro num trecho a partir do qual sei o que vai acontecer, prossigo desse ponto. Escrevo até chegar a um momento em que, ainda não tendo perdido o gás, posso antecipar o que vem em seguida; paro e tento sobreviver até o dia seguinte, para voltar à carga. Se começo às seis da manhã, digamos, posso ir até o meio dia, ou interromper o trabalho um pouco antes. A interrupção dá uma sensação de vazio, como quando se faz amor com quem se gosta. E ao mesmo tempo não é um vazio, mas um transbordamento. Não há nada que o atinja, nada acontece, nada tem sentido até o dia seguinte, quando você faz tudo de novo. Difícil é viver a espera até o dia seguinte.


Você escreve um pouco todos os dias ou em períodos concentrados? Você tem uma meta de escrita diária? José Saramago: Tenho uma disciplina que consiste em escrever duas páginas diárias. Formalmente não escrevo mais do que isso. Pode parecer pouco, mas duas páginas diárias, ao fim de um ano, serão um livro com 800 páginas. Mesmo que pudesse continuar depois da segunda página, não continuo. Apenas continuo a oração, o período ou a frase, e o resto fica para amanhã.


Como é o seu processo de escrita? Uma vez que você compilou notas suficientes, é difícil começar? Como você se move da pesquisa para a escrita? Aldous Huxley: Eu nunca preparo uma trama. Não consigo fazer isso. Com frequência, pensava durante horas, segurava a cabeça entre as mãos, fechava os olhos e quase ficava doente por causa disso. Mas de nada adiantava. No final, eu desisti. Quando começo, só sei muito vagamente o que irá acontecer. Tenho apenas uma ideia geral e, então, a coisa se desenvolve, enquanto escrevo. Não raro – e isso já me aconteceu mais de uma vez – escrevo muito e, de repente, vejo que a coisa não vai, e tenho de jogar tudo fora. Gosto de já ter um capítulo terminado antes de começar a escrever o próximo. Mas jamais estou inteiramente certo quanto ao que irá ocorrer no capítulo seguinte, enquanto não o escrevo. As coisas me vêm em gotas e, quando isto acontece, tenho de trabalhar arduamente, para convertê-las em algo coerente.


Como você lida com as travas da escrita, como a procrastinação, o medo de não corresponder às expectativas e a ansiedade de trabalhar em projetos longos? Gabriel García Márquez : Uma das coisas mais difíceis é o primeiro parágrafo. Posso gastar muitos meses em um primeiro parágrafo, mas, quando eu o consigo, o resto vem com muita facilidade. No primeiro parágrafo você resolve a maior parte dos problemas do livro. O tema está definido, o estilo, o tom. Pelo menos no meu caso, o primeiro parágrafo é uma espécie de amostra do que vai ser o resto do livro.


Por: Carlos Alberto Chaves Pessoa Júnior @jrchavespessoa


Da “nova objetividade”, qualificação superior a “neorrealismo”, é alto padrão a poesia de João Cabral de Melo NetoA sua poesia, que se estende no arco de 1942 (Pedra do Sono) a 1966 (Educação pela Pedra) tem dado um exemplo fortemente persuasivo de “volta às próprias coisas” como estrada real para apreender e transformar uma realidade que, opaca e renitente, desafia sem cessar a nossa inteligência. (grifo nosso) Assim começa a analise da obra de Joao Cabral de melo Neto, pelo grande critico Alfredo Bosi. Melo neto foi um engenheiro da palavra, trabalhando a forma e conteúdo de modo singular ao visto anteriormente em nossa terra. O nível de erudição não relega suas obras ao mundo acadêmico somente, ao contrario, encenadas nos palcos do teatro brasileiro e tendo Morte e Vida Severina recebendo uma bela adaptação para a tv, seus versos tocam a alma do povo que tanto amou. As paisagens da terra e o sofrimento e do povo que vive sobre ela foram alvos da atenção deste gigante de nossa literatura.


João Cabral de Melo Neto foi poeta e diplomata, responsável por inaugurar uma nova forma de fazer poesia no Brasil. É considerado o maior poeta de língua portuguesa por escritores como o escritor moçambicano Mia Couto. Com a permissão do poeta, ensaísta e crítico literário brasileiro Antônio Carlos Secchin, Doutor em letras e professor titular de Literatura Brasileira da Universidade Federal do Rio de Janeiro, publicaremos parte das entrevistas dadas pelo jornal Correio Braziliense e para o blog ROGERLERINA.


Correio Braziliense

O que a passagem dos 100 anos de João Cabral propicia para se ler, reler e repensar João Cabral de Melo Neto? Que aspectos merecem a atenção? Eu penso que o grande poeta não precisaria de uma efeméride para ser lido. Estudo a obra de Cabral há 40 anos. Vejo a relevância dele tanto do ponto de vista da forma quanto do conteúdo. Ele enfatiza o conhecimento técnico contra uma tradição do improviso ou da inspiração. Esse lado da forma é que sustenta a permanência do escritor. Aliando a isso, gostaria de ressaltar o tratamento diferenciado que dá à temática social. Desde Castro Alves se fala do social, mas nunca como na poesia de João Cabral. Não é uma poesia paternalista, dona da verdade, que assuma o bem contra o mal, tentação da poesia engajada. A realidade é tão escandalosa que o simples fato de ser retratada é uma denúncia. Não é preciso colocar um trombone.


João Cabral ainda é tido apenas na conta de um poeta construtivo. Mas não é possível afirmar que existe uma dimensão visceral em tensão com a construtiva? Não tenho dúvida. O tempo inteiro, a poesia de Cabral é emoção sob controle. Temos de frisar um aspecto, ele nunca foi contra a emoção. Mas Cabral acha que a emoção é um efeito do poema e não uma causa. A emoção estaria do lado do leitor. Se a emoção tomar conta do poeta, ficará cheio de lágrimas e não fará o poema. Cabral submete a emoção ao imperativo da construção e da forma. Quem não se emociona ante O cão sem plumas ou Morte e vida Severina?


João Cabral disse que, só conseguiu ser poeta depois de ouvir a lírica torta, gaguejada e fragmentada de Carlos Drummond de Andrade. Como João chegou a construir uma voz tão singular? Acho que conseguiu alcançar essa voz quando se desvencilhou da herança dos brasileiros. Se separou de Drummond e Murilo, se abasteceu nos espanhóis. Nos anos 1940, tivemos a explosão da poesia engajada de Pablo Neruda. Depois, a geração de 1945, aquela vertente metafísica de Claro enigma, vai para a abstração ou para o soneto. Isso não ficou sem consequência, é o momento em que Cabral se afasta de Drummond. Analiso essa relação conflituosa em um dos capítulos do livro Uma fala só lâmina, que será relançado com versão ampliada e atualizada.

https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/diversao-earte/2020/01/11/interna_diversao_arte,819712/nos-100-anos-dejoao-cabral-de-melo-neto-livros-do-poeta-serao-lancad.shtml


ROGERLERINA

A popularidade de Morte e Vida Severina eclipsou de alguma maneira o restante da obra do poeta? Para o grande público, certamente. Mas é uma bênção que, ainda assim, o grande público possa ter tido contato com obra tão extraordinária. Penso que, intencionalmente, Cabral desvalorizava Morte e Vida na esperança, algo frustrada, de que os leitores se interessassem pelo restante de sua poesia.


Você conheceu João Cabral pessoalmente. Como ele era no convívio? Ele correspondia de alguma maneira ao personagem idiossincrático atribuído a ele, que não gostava de música e fechava as cortinas para não ver a “feia” paisagem da Baía de Guanabara, por exemplo? Para ele a paisagem bela estava ligada à aridez, à secura, não à exuberância. A beleza e a luminosidade do Rio nunca o interessaram, nunca o levaram ao poema. Convivi com o poeta, com grandes intervalos (pois trabalhava no exterior) a partir do início da década de 1980. Quando o procurava, era invariavelmente bem acolhido. Ele parecia sentir-se bem comigo por eu me interessar tanto pelos aspectos técnicos de sua produção, e inversamente pouco me aprofundar em questões de cunho pessoal, íntimo. Mas é inegável que seus anos finais, mergulhando-o progressivamente na cegueira, o conduziram a um clima depressivo.


Depois de 40 anos estudando João Cabral, o que ainda lhe causa surpresa na obra do autor? Costumo dizer que, após estudá-lo desde 1977, talvez seja um dos poucos brasileiros que podem de solicitar ao INSS uma aposentadoria em João Cabral. Tanto que, ao lançar em 2014 as quase 500 páginas de Uma Fala Só Lâmina, comuniquei aos amigos o lançamento seria minha festa de “despedida de casado” com a obra dele. Mas não teve jeito: agora com o centenário, depois de discutir a relação, houve a retomada. Reelaborei alguns textos, escrevi ensaio inédito, e o resultado dessa (re)leitura será João Cabral de Ponta a Ponta, que a CEPE (Recife) lança no começo de 2020. https://www.rogerlerina.com.br/post/15959/tres-ou-mais-perguntas-paraantonio-carlos-secchin Carlos Alberto Chaves Pessoa Júnior, professor de espanhol e inglês, articulista, palestrante e crítico literário.


Por: Rafael Zimichut @rafaelzimichut


Dan Brown é o autor de suspense mais popular da atualidade, com mais de 150 milhões de livros vendidos. Seu mega-seller O Código Da Vinci já vendeu mais de 80 milhões de exemplares em todo o mundo. Ele também escreveu Anjos e Demônios, O Símbolo Perdido, Inferno, Fortaleza Digital, Ponto de Impacto e Origem. Dan Brown é o criador de um gênero literário novo chamado Smart Thriller. Foi membro da Fraternidade Psi Upsilon, junto com o renomado autor Harlan Coben. Durante seu primeiro ano em Amherst, foi à Europa para estudar História da arte na Universidade de Sevilha, Espanha, onde começou a estudar seriamente os trabalhos de Leonardo Da Vinci, que mais tarde teriam importância crucial em um de seus romances. Dan é casado com a pintora e historiadora da arte Blythe, que colabora nas pesquisas de seus livros. Ele mora na Nova Inglaterra, nos Estados Unidos.


Daniel Gerhard Brown, conhecido por assinar como Dan Brown, é um escritor estadunidense. Seu primeiro livro, Fortaleza Digital, foi publicado em 1998 nos Estados Unidos. A este seguiram-se Ponto de Impacto e Anjos e Demônios, a primeira aventura protagonizada pelo nosso querido e amado simbologista de Harvard, Robert Langdon (profissão esta, acreditem ou não, não existe em Harvard). Seu maior sucesso foi o polêmico best-seller O Código Da Vinci, mas seus outros livros também tiveram uma grande tiragem. Entre seus grandes feitos, está o de conseguir colocar seus quatro primeiros livros simultaneamente na lista de mais vendidos do The New York Times. Dan Brown nasceu em 1965 em New Hampshire, nos Estados Unidos da América, sendo filho de um professor de Matemática e de uma intérprete de música sacra. Brown estudou no liceu local e mais tarde licenciou-se na Universidade de Amherst. É o mais velho de três filhos. Sua mãe Constance (Connie, que morreu recentemente) foi uma musicista profissional, tocando órgão na igreja. Seu pai, Richard G. Brown, ensinava matemática para o Ensino Médio na Phillips Exeter Academy, um colégio interno particular, e escreveu o didático best-seller matemático Advanced Mathematics: Precalculus with Discrete Mathematics and Data Analysis, que foi

muito utilizado no país.


Professores do colégio foram requisitados a viver no campus por diversos anos, então Brown e seus irmãos literalmente foram criados na escola. Na maior parte, o ambiente social foi o cristão. Frequentou a escola dominical, cantando no coral da igreja, e passou seus verões no acampamento da igreja. Seu próprio estudo foi em escolas públicas em Exeter até à 9ª série, até se matricular em Phillips Exeter, assim como seus irmãos mais novos Valerie e Gregory quando chegaram suas vezes. Mudou-se para Los Angeles onde tentou fazer carreira como compositor, pianista e cantor (infelizmente tentei encontrar áudios disso e nunca tive a felicidade de obter êxito). No entanto, este plano de vida fracassou e


Dan Brown acabou por ir estudar história da arte em Sevilha, em Espanha. Entretanto, a meias com a mulher, escreveu o livro 187 Men to Avoid: A Guide for the Romantically Frustrated Woman. Em 1993 regressou a New Hampshire para se tornar professor de inglês na escola onde tinha estudado. Passados dois anos, os serviços secretos norte-americanos foram à sua escola buscar um aluno que consideravam uma ameaça nacional por ter escrito, na Internet, que era capaz de matar o presidente Bil Clinton. Dan Brown ficou tão interessado no assunto que começou a fazer pesquisas sobre a Agência Nacional de Segurança. Acabou por resultar desse interesse a escrita do seu primeiro romance Fortaleza Digital, que foi lançado em 1996 com algum sucesso. Era um romance baseado na violação de privacidade e em conspirações, tendo por sustentação as novas tecnologias. Quatro anos depois do seu romance de estreia, lançou Anjos e Demônios,

seguindo-se em 2001 Ponto de Impacto. Finalmente, em Março de 2003, Dan Brown lançou no mercado O Código Da Vinci, que logo no primeiro dia vendeu mais de seis mil exemplares, tendo-se tornado num dos livros mais vendidos de sempre em todo o mundo, com publicações em 50 línguas.

O Código Da Vinci é um romance policial que tem como protagonista um simbologista norte-americano. Através da obra de Leonardo Da Vinci


onde encontra várias mensagens codificadas, tenta arranjar provas para desvendar um segredo com centenas de anos. No livro surgem instituições como a Opus Dei e o Priorado do Sião.

A obra chegou a Portugal em 2004 e ao fim de poucos meses atingiu as onze edições. O sucesso deste livro levou a que fosse anunciada uma adaptação cinematográfica e uma sequela literária. Dan é casado com a pintora e historiadora da arte Blythe Newlon, que colabora nas pesquisas de seus livros. Ele mora na Nova Inglaterra, nos Estados Unidos.


A questão é séria: ele mesmo poderia perguntar, com razão, que arte não se baseia em “fórmulas”, ou antes em técnicas. Toda ela se baseia. O que é a literatura pós-Joyce senão, em termos significativos, uma vasta sociedade de epígonos de Joyce? Brown poderia ainda ser acusado por concessões ao senso comum, e receio que mesmo essa acusação seja insatisfatória, uma vez que “O Código da Vinci” abunda, em função daquele eruditismo inegável e complexos conhecimentos históricoartístico-culturais. Não é exatamente um livro fácil, à maneira de outro sucesso editorial recente, “Cinquenta Tons de Cinza”, da inglesa E.L. James.


James, sim, condiz com a ideia que fazemos do best-seller, pois escreveu

um livro indiscutivelmente ruim, apesar do apelo sexual (o que na verdade, somente pouquíssimas cenas sejam agradáveis). Já Dan Brown descreve e narra com indiscutível qualidade, além de (também) abordar o sexo, porém sob aspectos conceituais, como o ritualístico Hieros Gamos. Pornográfica é, talvez, a suposta mentira promovida pela Igreja de Pedro, segundo a “lenda” do Santo Graal (pelo menos sob o ponto de vista de Dan Brown). Se o roteiro de “O Código da Vinci” é simples, o enredo é complexo, constituindo a principal qualidade do livro, e provavelmente do autor. É inteiramente baseado no confronto entre os interesses de uma sociedade secreta e os interesses da Igreja Católica. Há mortes, a polícia francesa intervém e requer, de Brown, a criação de dois extraordinários simbologistas, Robert Langdon e Sophie Neuve. Sophie revela-se aos leitores e a si mesma, como a peça-chave da trama, toda ela baseada no polêmico papel da mulher na história do cristianismo, tema de inegável interesse para leitores requintados. Os personagens de Brown existem em função do mistério que os envolve, e não o contrário. Para eles os acontecimentos exteriores são mais importantes do que os dramas pessoais: o que é defeito grave na perspectiva da alta literatura determina o sucesso de um livro feito para o consumo de leitores medianos, aos quais repugna a complexidade íntima.


A conclusão parece óbvia: o mais importante para Brown não é aquela

vida interior dos personagens, e sim suas peripécias no mundo, recuperando, quem sabe, a espécie de aventureirismo que agradava aos leitores de um Walter Scott (outro best-seller). Descobrir o intervalo entre o bom e o ruim não é tão fácil quanto se acredita. Entre a literatura erudita e a literatura popular há muitos meiotons, um dos quais a história policial, que gerou maus escritores e escritores de qualidade. Sabemos que Edgar Allan Poe nunca foi unanimidade no meio dos críticos, mas o respeito de pesos-pesados como Baudelaire, Fernando Pessoa e Machado de Assis bastou para deixar os acadêmicos numa saia-justa. Autores de ficção científica, como H.G.Wells e Aldous Huxley, granjearam prestígio semelhante.


Quem disse que a crítica, enquanto metatexto, não entranha juízos subjetivos sob o verniz de ciência? Ela é que diz, por nós, que um livro como “O Código da Vinci” não tem real valor literário, baseada certamente na autoridade da tradição e dos cânones. Em termos muito seguros ela tem razão. Uma das três coisas que “O Código da Vinci” teria a nos ensinar já foi superado, há muito: o enredo. Mas conciliar qualidade com sucesso é um enorme desafio e requer mais coisas, que podem ser encontradas neste livro. Ao invés de condená-lo, o mais importante é identificar outros elementos primordiais que Brown utiliza, a fim de prender a atenção

dos leitores. Afinal, com ou sem enredo, a surpresa (da qual Ian Mac Ewan é outro exímio manipulador) não tem prazo de validade. Já o divertimento não pode ser o pecado mortal da literatura. Dan Brown foi considerado pela revista Time uma das 100 pessoas mais influentes do mundo, com seus livros publicados em mais de 50 línguas. Seu maior sucesso, vendeu mais de 80 milhões de exemplares em todo o mundo, tornando-se um dos livros mais vendidos de todos os tempos. Aborda temas como prelados, seitas e fraternidades, como o Priorado de Sião, a Opus Dei e a Maçonaria. .


Robert Langdon ganhou este nome por causa de John Langdon, o artista que criou o ambigrama da capa americana de Anjos e Demônios. O nome do editor de Robert Langdon, Jonas Faukman, é uma brincadeira com Jason Kaufman, editor de Brown na editora americana Doubleday. Leigh Teabing é uma homenagem aos autores de O Santo Graal e a Linhagem Sagrada, Richard Leigh e Michael Baigent (Teabing é anagrama

de Baigent). O

livro

é

condenado

por

alguns

membros

da

Igreja

Católica desde a produção da adaptação cinematográfica de mesmo nome.

Basicamente todos os livros que sucederam O código Da Vinci seguem a mesma linha e linguagem, quase que uma fórmula secreta, talvez Inferno tenha fugido um pouquinho em alguns aspectos (o que o deixa como o livro mais brilhante que ele já fez), mas nem por isso os demais livros deixam de ser incríveis Escritor, palestrante, músico e compositor, paulista, 37 anos, autor de mais de 30 livros, incluindo “O Éden Perdido”, “O outro lado da escuridão”, “Uma sombra além da escuridão”, “Um dia um adeus”, “Um novo dia para amar” e “O sorriso de Cintia Donnaville”.


Por: Mirian Marchi @mirianmarchiescritora


Rafael Mendez é o arquiteto contemporâneo mais badalado do momento, dito por muitos como o novo Oscar Niemeyer, porém, após encontrar sua esposa Sherlley assassinada em sua casa junto com sua filha, foi acusado e caçado pela polícia , porém, em busca de vingança a alguém do passado de sua família, encontrará as respostas que tanto procura, além de sua inocência - pelo menos a inocência de um crime que não cometeu, e não daqueles que ninguém sabe.


Por: Viviane Almeida @resenhasdaviviane


LIVROS DE AUTORAS NEGRAS QUE VOCÊ DEVERIA CONHECER

No final de 2019, a bookstagrammer Camilla Dias Domingues lançou em seu Instagram literário chamado @camillaeseuslivros, o desafio "Lendo Escritores Negros Brasileiros", com o objetivo de incentivar os leitores a conhecer mais do nosso país através da literatura. O desafio é composto por doze categorias onde, o participante deverá escolher um livro escrito por um autor (a) negro (a) para preenchê-la.

Pensando nisso, resolvemos apresentar sete escritoras negras, talentosas e contemporâneas que merecem ter seus trabalhos

reconhecidos, suas vozes ouvidas. Existem várias outras escritoras que poderiam estar nessa lista, mas, nos limitamos a autoras pouco conhecidas pela mídia e que possuem um trabalho diferenciado.


Viviane Almeida tem 30 anos, professora em escola pĂşblica, blogueira, freelancer, programadora de softwares e apaixonada por livros. Sonha morar em um paĂ­s onde todos tenham direitos iguais!


Por: Geovane Gomes @geovanedossg


Oi gente, hoje venho falar de Drácula, de Bram Stoker, iria fazer uma comparação entre o livro e o filme de 1992, do diretor Francis Ford Coppola, mas, como recentemente foi lançada a série produzida pela BBC em parceria com a Netflix, resolvi adicioná-la também nesta análise.

Livro A obra prima Drácula foi escrita por Bram Stoker e lançada no ano 1897 e desde então continua sendo um sucesso, foi aclamado pelo próprio mestre do terror Stephen King. O livro traz o gênero romance gótico, aonde temos o advogado Jonathan Harker que sai da Inglaterra para atender o Conde D que vive na Transilvânia em um castelo em ruínas isolado nas montanhas. Ignorando todos os índices de que o sobrenatural em sua mais perversa forma vive ali, ele se hospeda na residência daquele senhor tão exótico e aos poucos vai percebendo que os humanos possuem um predador voraz e ao mesmo tempo romântico, digamos assim.


Drácula de Bram Stoker se tornou uma referência no quesito Vampiro e Rei dos vampiros, um reinado que continua até hoje.

Filme ( 1992 ) O filme se aproxima mais do universo criado por Stoker, além de termos um pouco mais de quem foi o real Conde Drácula. Aqui temos um início bem fiel ao livro, mas logo isso muda. Mina Murray, noiva de Jonathan, que interpreta a reencarnação da esposa do Conde que se suicidou (o que não me agradou muito). Quero elogiar Keanu Reeves, ele atua de forma brilhante, senti realmente o personagem, as expressões faciais, ele incorporou brilhantemente o Jonathan Harker no filme.


Série

Já a série, que estreou no dia 1 de janeiro de 2020 e possui 3 episódios, cada qual com aproximadamente1 hora e 30 minutos, dirigida pelos criadores do seriado Sherlock, está dividindo opiniões. Comprei a ideia e achei bem interessante, é como um jogo de tabuleiro reorganizaram as peças, cada personagem foi repaginado, como a freira, Irmã Agatha, que recebeu o sobrenome Van Helsing. Já identificou, né? Sim aqui o professor Van Helsing é representado por ela, o que foi algo incrível na minha opinião. Um outro ponto alto da série foi trazerem o Conde Drácula para o século 21, que achei outro Plot sensacional, porém, o fim deixou um pouco a desejar e que dar a entender que não terá uma nova temporada.


Meu ranking: 1° Livro 2° Série 3° Filme

Espero que tenham gostado. Amei fazer esta matéria, ao ver que sou um grande fã – *ops: como já dizia Conde Drácula "apreciador“ – da obra de Bram Stoker. Já ia esquecendo, fiquem atentos com morcegos batendo nas suas janelas esta noite, nunca se sabe.

Geovane Gomes tem 22 anos e planeja ser Jornalista. Um autor que lhe inspira é Stephen King. Escreveu alguns contos, entre eles estão: Um Feliz Natal ou travessuras? em parceria com a autora Helena Medeiros e participou da

Antologia O que há nas sombras.


Por: Carlos Alberto Chaves Pessoa Júnior @jrchavespessoa


STAR WARS: A ASCENÇÃO SKYWALKER- OBRA DE ARTE? OU SIMPLES ENTRETENIMENTO? *Agradeço ao professor e jornalista Luiz Gustavo Chrispino por todo o apoio na minha carreira como crítico.

Quando fazemos a análise e crítica de um filme, buscamos compreender como este funciona, tanto como entretenimento e, claro, como obra de arte. Há filmes que trabalham bem ambos os aspectos e no decorrer do tempo continuam a atrair atenção do público, o apreço da crítica, a admiração de uma nova geração de diretores, produtores e atores, etc. Mas, há àqueles que conseguem realizar somente um desses elementos, todavia, estes oferecem entretenimento e costumam ter boa alta lucratividade, pois, conseguem cativar o espectador, contudo, não conseguem vencer a barreira do tempo, estando fadados ao esquecimento e desapego.


Os que surgem como obras de arte nem sempre agradam ao espectador, mas, conseguem perdurar na indústria cinematográfica como referências, já que o modo como trataram a estética (fotografia, som, figurino, etc) e o conteúdo (roteiro) é singular, genial. 2001 Uma Odisseia no Espaço de Stanley Kubrick e Metrópolis de cineasta austríaco Fritz Lang são exemplos de obras de arte. Diante disto, podemos observar StarWars: A Ascenção Skywalker é formidável como entretenimento e medíocre como trabalho artístico. Esperamos que nenhum fã ardoroso saque seu sabre de luz. Ao fim da terceira trilogia de Star Wars, contemplamos um roteiro que tenta fazer jus ao legado da produção, tanto cinematográfica como do universo expandido em quadrinhos e as maravilhosas animações. A quantidade de fan service é impressionante, o que nos permite dizer que este é, de fato, um filme feito para fãs da obra. Não entendam mal, um leigo pode ver esta produção e sentir todo o prazer que ela oferece, mesmo que não tenha visto nenhum dos outros filmes, e se conhecem tal pessoa, por favor, perguntem como está Marte.


Um fã, é claro que entenderá de modo diferenciado este filme, por ter conhecimento do universo de Star Wars, o que permite uma imersão mais profunda e uma compreensão única das referências, porém, uma experiência menos rica não significa menos divertida. Fotografia primorosa e atuações que variam de boas a magníficas marcam este filme. O personagem Kylo Ren cumpre o esperado no fim da sua jornada do herói: recebe a redenção, mostrando o quanto superou as sombras do passado e abraçando o objetivo que sempre esteve ali, palpável diante dele. Adam Driver faz uma performance primorosa mesmo diante de um roteiro que não oferece muito. Daisy Ridley consegue oferecer uma atuação digna do talento que vem demostrando na sétima arte. Todo o corpo dela transmite as emoções desenhadas pelo roteiro e dirigidas pelo diretor. De fato, o filme agrada como diversão, contudo, como o Canal Super 8 cita, o filme perde bastante como obra de arte por uma falta considerável


de ousadia. Vários desenlaces são repetições a partir do que já havíamos visto em outros filmes da franquia. O que de fato permite a uma obra transcender e ser revivida por diferentes gerações, Ben Hur, Dez Mandamentos e Blade Runner são bons exemplos, é a coragem de fugir do óbvio e esperado, para ousar, no modo como aprofunda as relações entre os personagens e oferece um encerramento que foge do simplista. O vilão é alguém que já conhecemos das trilogias anteriores e na verdade se revela como o vilão de toda a saga Star Wars (Por favor Hollywood inventem outro na próxima, cansou, já deu, bola para frente…), isso é ruim? Do modo como foi apresentado? Sim. A relação dele com a jovem Rey é mal explicada, a intenção dele para com ela é muito forçada e o embate final dos dois oferece um diálogo chato, confuso e desnecessário. A explicação dada para a forte atração da Rey e Kylo Ren é interessante e mostra uma faísca de coragem do roteirista contudo é algo trabalhado de modo corrido, sem peso dramático. Nas falas do vilão e do casal, sabemos


que é algo único a conexão que os dois possuem, mas, não sentimos isso. O modo como a trilogia anterior mostra quão único é o jovem Anakin Skywalker é muito mais surpreendente que esta tentativa frustrante. O filme comete a falha que vem se repetindo bastante em muitas continuações de filmes: crer que quanto mais e maior, melhor. Temos muitas cenas de lutas entre Kylo e Rey, mas, elas acabam afetando a última cena de batalha entre os dois, deixando-a menos empolgante, sem novidades. A tentativa de induzir o espectador a ver este confronto como diferenciado por ser realizado no plano real, e não no psíquico, não funciona. O roteiro perde a oportunidade de trabalhar o drama, poupando o espectador de ver outra grande cena de dor e perda como tivemos no primeiro filme ao vermos a morte de Han Solo. Quando pensamos ver mais carga dramática, o diretor realiza junto ao roteiro uma saída que se torna, por ser repetida em vários momentos do filme, algo desinteressante.


Os personagens secundários como Poe Dameron (Oscar Isaac), Finn (John Boyega), citando dois para não tomarmos muito espaço, perdem a relevância e profundidade que nos dois primeiros filmes dessa trilogia lhes proporcionaram, graças a diálogos que divertem, ao mesmo tempo que não agregam nada ao desenvolvimento da trama. Parece que ao acompanharem a jovem Rey em sua jornada, estão lá por mera imposição do roteiro, o que dá um ar de inutilidade aos personagens, antes tão carismáticos. Nem perderemos linhas para descrever e analisar o uso que C-3PO tem nesta produção… No fim da sessão de cinema, tínhamos certeza que o dinheiro gasto no ingresso valeu a pena, mas, que não compraríamos o Blue-Ray do filme ou teríamos interesse de vê-lo novamente. Como o universo expandido e animações estão sendo ilhas de brilhantismo, cremos que tudo que esta produção não conseguiu ser, poderá ser visto em algum momento.


Um lembrete para Hollywood: Ao empregar diretores e produtores para encabeçar algo, tenham certeza que qualquer mudança ocasional de um destes, não prejudicará o trabalho conceitual. Não precisamos ver um J. J. Abrams vs. Rian Johnson … Carlos Alberto Chaves Pessoa Júnior, professor de espanhol e inglês, articulista, palestrante e crítico literário.


Por: Rafael Zimichut @rafaelzimichut


Baiana, graduou-se em Turismo, Ciências Contábeis e Letras, além de um MBA em Comunicação Corporativa. A sua paixão por marketing e escrita é imensa, a ponto de sempre dedicar seu tempo em cursos e treinamentos diversos. Como autora, também vem desenvolvendo seu trabalho com entusiasmo, escrevendo para vários sites e marcando presença em diversas antologias desde 2014. Em 2017, estreou como autora solo com o livro "Decidir, os caminhos da vida", publicado pela Editora Saramandaia. Em 2018, pela Editora PerSe, brindou seus leitores e admiradores com a obra "Cuida bem de mim!", ganhando um lançamento na 25ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo


e uma homenagem da Academia Teixeirense de Letras. Ela também cultiva alguns prêmios literários: o Prêmio Castro Alves de Literatura e a Comenda Benfeitor Cultural da Humanidade. Em 2019, delicia-se com a imensurável conquista de tornar-se Membro Efetiva da Academia Teixeirense de Letras, tomando posse da cadeira 22, no mesmo ano conquistou a cadeira 44 da Academia Capixaba de Letras e Artes de Poetas Trovadores, tonando sua ligação com os capixabas mais próximo. Avançando um pouco mais, tem sido bastante procurada para atuar na carreira de análise literária, sem deixar, é claro, a simplicidade de ser apenas uma escritora que ama estudar livros e literatura em geral.

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W.B.R. 1. COMO FOI PARA VOCÊ SE DESCOBRIR COMO ESCRITORA? P.B.: A verdade é que não houve uma descoberta. Houve consequências de escolhas. Leio e escrevo desde a minha infância, mas tenho uma família totalmente financeira (profissionalmente) então, fiz tudo muito escondido, inclusive na fase adulta, já independente. Não sei ao certo o motivo, mas o fato de pai e irmãos serem dos números, isso me deixava travada, achava que iria desrespeitá-los. Ao completar os 30 anos, fui aos poucos revelando, até que escrevi um livro e a paixão antiga escondida, foi virando uma profissão em dose homeopática.


W.B.R. 2. TODO AUTOR TEM EM MENTE UM OBJETIVO, QUANDO VOCÊ ESCREVE UM LIVRO, QUAL O SEU PRINCIPAL FOCO? P.B.: Passar uma mensagem construtiva. Acredito que a leitura nos ensina de infinitas formas. Por diversão, para memória, para solicitude, para conhecimento de um tema, fato ou história. Nos meus autorais sempre tento resgatar um conflito ou momento histórico. Assim conhecimento e mensagem podem ser transmitidas juntos, mesmo com conclusões individuais do leitor.

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W.B.R. 3. QUAIS SEUS AUTORES FAVORITOS E QUAIS OS QUE MAIS TE INSPIRARAM? P.B.: São poucos autores clássicos no Brasil e fora que conheci como leitora não era certa, acabei conhecendo muito na vida acadêmica ou mesmo depois dos 30 anos de idade, como o José Saramago. São estilos que não consigo ter uma preferência. Mas José de Alencar e Machado de Assis me inspiram. Clarice Lispector que também conheci bem “velha” é outra que me inspira e não pode faltar mais na minha estante e narrativas. Amo Shakespeare.


A exigência de ser membra de duas academias, ser jurada de concursos literários, estão proporcionando-me ler, conhecer escritores premiados no Brasil da Jabuti entre outros. Alguns acabam inspirando, outros enriquecem tanto meus autorais quanto como jurada. Por causa do Instagram e divulgação de livros diversos, por lá, acabo conhecendo escritores contemporâneos, alguns estão no início de carreira, outros nem tanto. Gosto de conhecer e perceber que eu também sou uma entre eles. Isso me ajuda profissionalmente como autora e muito mais com ser humana que tem curiosidade de descobrir algo novo. Não tenho condições de tempo para assumir parcerias com editoras e livrarias, mas fico feliz com a qualidade do materiais autorais que chegam até mim.


W.B.R. 4. TODO AUTOR TEM UM LIVRO QUE MUDA COMPLETAMENTE A SUA VIDA, QUAL FOI ESSE LIVRO PARA VOCÊ? P.B.: Sou autora de apenas duas obras (solo) que optei em não trabalhar com a grande massa. Talvez o primeiro livro tenha um gosto especial (Decidir – os caminhos da vida); mas o conto “Natal sem Luz” foi a grande virada profissional. Foi com ele que aproximei do universo da Academia de Letras, e com outros concursos e participações acabei concorrendo e tornando membra efetiva da Academia Teixeirense de Letras início de 2019 e da ACLAPAT – Espírito Santo, final de 2019.


W.B.R. 5. COMO FUNCIONA O SEU PROCESSO CRIATIVO? TEM ALGUMA MANIA QUE SEMPRE FAZ? P.B.: Manias acredito que não. Mas crio rotinas para amadurecimento profissional. Minha rede social, por exemplo – falar de livros enquanto escrevo meu próprio autoral é uma rotina que escolhi para sempre estar conhecendo novos autores, ler e reler clássicos ou conhecer obras que são bastante comentadas. Assim, mantenho uma rotina de leitura, conheço autores e seus estilos de narrativas, além de propor conteúdo naturalmente. Isso acaba me deixando mais leitora que escritora, porém, não reclamo, ao contrário, amo! Meu processo criativo também acontece por escolhas. De manhã (acordo cedo) é que a disposição para criar está mais ativada, o silêncio do amanhecer me inspira muito. Às vezes é após malhação, às vezes antes, o fato é que de manhã tento aproveitar ou adiantar o máximo. As conversas com amigos e familiares são essenciais. Sempre gostei de filosofar, papear, pai já conta que quando eu era criança, esperava-o chegar, ia para o portão da casa e quando ele posicionava o carro na garagem, eu já começava a narrar todo o meu dia, nos mínimos detalhes (lembro muito disso, bons tempos e coitado do meu pai {risos}). Trocar ideias, escutar e escutar. Tem “pessoinhas” que gosto tanto de escutar que acabo não tagarelando nada (risos), só de ouvir já me faz bem e inspira e quando algum tem uma opinião diferente gosto de tentar compreender a sua posição. Já saíram bons contos só “nessa onda” de filosofar com os queridos mais próximos (todos devidamente autorizados). Portanto, sentir o próximo acaba sendo um dos meus processos criativos favorito e a confiança que eles depositam em mim, de me escolher como “psicóloga” é um prêmio que me encanta, fazendo eu ficar mais apegada e cultivá-los (a amizade) para bem próximo de mim, para o meu meio familiar.


W.B.R. 6. POR SER BAIANA, ONDE A MÚSICA É UMA CULTURA PREDOMINANTE, ENCONTRA DIFICULDADES DE ALCANÇAR SEU PÚBLICO? P.B.: Aqui na Bahia é um lugar difícil para alguns estilos de literatura. Não tenho um bom público. Tenho bom retorno com paulistas, mineiros, sul, Rio de Janeiro até em Fortaleza, mas a Bahia pouco consigo. A cultura é de “noitada”, festas tradicionais ou cheias de exageros, coisas que não é do meu apreço e que não vivencio, talvez, seja sim, um fator prejudicial. Você tocou em um assunto que é minha outra paixão e que sair dessa sem expressá-lo, não sentirei bem. A música. Se existisse uma cultura musical de qualidade – e quando refiro a qualidade, quero mencionar músicas com poesias, ritmada, com bons


posicionamentos de instrumentos, vozes e versos que encantam a audição. Sem classificar um único gênero do MPB ao Rock ou até mesmo os instrumentais, que tem muito mais a falar para alma (escute Ludovico, Chopin e me diz), este estilo musical até ajudaria, os encontros literários sempre estão aliados da boa música. Música é a parceira mais apropriada de um leitor e escritor. Tom Jobim e Vinícius de Moraes já passeou por vários autorais meus. Eles me inspiram o tempo todo. Mas não encontro isso aqui, na Bahia, piorou na minha cidade e se observar bem, nem o axé existe mais. Uma triste realidade. Não se produz música com sonoridade, harmonia como a era dos anos 70/80. Nem como as poesias de Tom Jobim. São poucos compositores e músicos que tem a preocupação ou cuidado, hoje, neste milênio, de construir e poetizar sobre a vida e musicar. Outra triste realidade.


W.B.R. 7. NORMALMENTE A LITERATURA É UMA PORTA QUE SEMPRE LEVA A OUTRAS PORTAS COMO O CINEMA, TV E TEATRO, DESEJA FUTURAMENTE ENTRAR NESSE NICHO? P.B.: É algo que não penso. A minha timidez me limita um pouco. Prefiro trabalhar com nicho de conteúdo e que freia meu ego. Amo bastidores, ter um site, dialogar em encontros, poder escrever, reconhecer e produzir um marketing profissional de outro profissional, isso sim me encanta muito mais. Se, as opções da pergunta forem trabalhar em bastidores, neste caso, a possibilidade do interesse pode surgir, porém, sem grandes pretensões que leve a subir o ego


W.B.R. 8. A CARREIRA DE ESCRITOR NO BRASIL É MUITO INGRATA ÀS VEZES, TEVE ALGUM TIPO DE PRECONCEITO OU BULLYNG LITERÁRIO POR PARTE DE AMIGOS OU FAMILIARES? P.B.: Não! Ao contrário, recebi todos incentivos possíveis (se eu soubesse tinha adiantando a revelação dessa paixão). Porém, o financeiro foi preocupação geral.


W.B.R. 9. COMO FOI A REAÇÃO DE SEUS AMIGOS E FAMILIARES AO DIZER QUE SERIA UMA ESCRITORA? P.B.: “Mas dá dinheiro?” é incrível como as pessoas ainda têm essa mentalidade. Nem tudo que propomos trabalhar, abraçar quer dizer que queremos um retorno financeiro volumoso ou imediato. Se acontecer, Amém! Temos contas a pagar, temos objetivos e sonhos para realizar, dinheiro é sim, importante no orçamento diários e sonhos. É tanto que nenhum escritor tem a carreira autoral como única fonte de renda, ou a fonte de renda principal. Eu sou uma deste time. Tenho outros compromissos profissionais paralelos e sempre moldo com a carreira autoral. Porém, podemos fazer um hobby de trabalho sem ambição. Sem ambição não quer dizer de qualquer maneira, sem foco, sem responsabilidades. Sem ambição – quer dizer – que o financeiro é o que menos influência. Afinal, a vida é para ser divertida, também.


W.B.R. 10. COMO VOCÊ SE DEFINE COMO ESCRITORA? P.B.: Uma escritora que quer narrar algo interessante por meio dos personagens, sejam eles ficcionais ou reais. Atualmente aprofundei meus estudos em biografismo, por motivos profissionais, que pediu, e acabei me encantando e encontrando outra forma e estilo de escrita. Acho possível poder passar uma mensagem ao leitor contando uma história de gente comum ou de alguém que de alguma forma está fazendo ou fez diferença.


W.B.R. 11. TEM PREFERÊNCIA ENTRE AUTORES NACIONAIS OU INTERNACIONAIS? P.B.: Não tenho. Leitor e escritor têm que está aberto para conhecer um pouco de tudo. Dos internacionais, os ingleses dominam minha estante, porém não sei se é uma preferência ou influência da paixão pela cultura do Reino Unido. Ainda sobre internacionais, precisamos nos preocupar com as traduções, a escolha precisa ser fina. Quanto aos nacionais eu oscilo a leitura entre clássicos e escritores “premiados”, como mencionei, é uma forma de estudo para os meus futuros autorais.


W.B.R. 12. QUAL FOI O MELHOR FEEDBACK QUE RECEBEU APÓS ALGUÉM LER UM LIVRO SEU? P.B.: Divulguei muito pouco, investi poucos exemplares e o pouco que chegaram nas mãos de leitores comuns, eles (todos) pedem a continuação do DECIDIR – os caminhos da vida. Eu não consigo mensurar o quanto isso é importante. Por esse motivo, após os próximos autorais a serem lançado, eu e a editora estamos estudando a possibilidade de fazer uma nova edição de Decidir, disponibilizar em ebook e a continuação, que já está pronta, ser lançada, em seguida, em livro físico. Então, leitores é só aguardar!


W.B.R. 13. DEIXE UM RECADO PARA SEUS LEITORES E O QUE PODEM ESPERAR PARA OS PRÓXIMOS LIVROS. P.B.: Respondo esta pergunta após liberar um e-book em PDF no meu site. São trabalhos que foram premiados, saíram em antologias da Academia Teixeirense de Letras, uma antologia interna, que não é disponibilizado para público em massa. No agradecimento deste ebook, explico o motivo de não ter trabalhado com meus autorais de forma mais intensa, optando assim um lançamento mais discreto. Mas o objetivo em 2020 é diferente e este ebook é uma ação a essa mudança. Li isso na entrevista do autor “Martin Puchner” da famosa obra, “O mundo da escrita.” “As histórias têm poder porque consistem no modo de darmos sentido ao mundo. Elas são como produzimos significado, como colocamos os eventos em relação uns aos outros, como construímos um passado e um futuro. Nós, humanos, somos animais que produzem significados, e uma das maneiras de criar significados é através das histórias...”. Ele concedeu uma entrevista ao Jornal Rascunho. Ele discursou a importância da literatura e das transformações que ela propõe, mesmo com mudanças e avanços da tecnologia. A mensagem que deixo para o leitor, que não importe como começar, mas comece a criar o hábito. Não importa os meios, se prefere tecnologia ou livro físico, não importe o gênero. O hábito de ler não é um benefício somente para conhecimento, liberdade, construção de opinião. Este hábito vai além, gera saúde, cura males, depressão. Doenças como “Mal de Alzheimer” uma das prevenções é a leitura. A memória fraca na idade avançada, uma das prevenções é a leitura. Quem ler tem conservação de alguns órgãos Vitais e quase todos os órgãos dos sentidos, ao longo da vida.


Quanto aos meus próximos autorais o que posso revelar é que tem previsão de sair novos trabalhos, sim. Estou escrevendo duas histórias paralelas. Além disso, em 2020 estou investindo em contos e disponibilizando estes, sem custo algum, no meu site autoral. (link: http://www.patriciabritto.com/p/livros.html ). O leitor que achar válido acompanhar meu trabalho, é só seguir o Instagram @patriciabritoescritora lá sempre tem spoiler dos meus novos trabalhos e falo e faço análise de livros enquanto meus autorais não saem. Eu respiro livro o tempo todo. O tempo todo respiro livro. Gratidão a equipe por essa oportunidade, espero poder ter contribuído de alguma forma com o objetivo da revista e ter passado alguma mensagem “bacaninha” . Forte braços a todos.

Contato profissional: E-mail: patriciabritoescritora@businesscomunica.com.br Instagram Autoral: @patriciabritoescritora Escritor, palestrante, músico e compositor, paulista, 37 anos, autor de mais de 30 livros, incluindo “O Éden Perdido”, “O outro lado da escuridão”, “Uma sombra além da escuridão”, “Um dia um adeus”, “Um novo dia para amar” e “O sorriso de Cintia Donnaville”.


Por: Carlos Alberto Chaves Pessoa Júnior @jrchavespessoa


Joaquim Nabuco: Biografia Joaquim Aurélio Barreto Nabuco de Araújo, filho do futuro senador José Tomás Nabuco de Araújo e de Ana Benigna de Sá Barreto, irmã de Francisco Paes Barreto- marquês de Recife nasceu no dia 19 de agosto de 1849, no sobrado da Rua do Aterro da Boa Vista (hoje Rua da Imperatriz Tereza Cristina), em Recife, Pernambuco, sendo o quarto filho do casal. Em sua distinta e brilhante árvore genealógica constam nomes como: senador José Tomás Nabuco de Araújo ( avô paterno) e de José Joaquim Nabuco de Araújo(tio-bisavô) , barão de Itapuã, magistrado e senador do Império entre os anos de 1826 até 1840.O sangue não lhe permitiria fugir da política, nem a mente negaria a inteligência nata que sempre habitou no seio de sua família. Durante sua infância, seus pais seguiram para o Rio de Janeiro e ele foi morar com sua madrinha, dona Ana Rosa Falcão de Carvalho, no engenho Massangana, localizado no município do Cabo, em Pernambuco. O menino Nabuco passou sua infância nesse engenho, onde teve seu primeiro contato com os escravos e onde permaneceu até a


morte de sua madrinha, ocorrida em 1857, quando ele tinha apenas oito anos. Os pais o buscaram anos antes, mas a madrinha teria insistido que jovem rebento continuasse baixo seu cuidado. Essa fase foi importante, pois preparou a mente do menino para o plantio das “sementes” morais que cresceriam no jovem e que lhe dariam lembranças saudosas, já velho. O grande escritor e sociólogo brasileiro Gylberto Freire sobre esta época, escreveu, no prefácio da edição de Minha Formação, distribuída pelo site do senado federal, o seguinte: “Trazia da infância de menino de engenho, criado, pela madrinha pernambucana quase matriarcal, mais como filho do que como afilhado, mais como neto do que como filho, mais como menina do que como menino - tanto que em Maçangana não aprendera a montar a cavalo - "o interesse pelo escravo". Um interesse com alguma coisa de docemente feminino no seu modo humanitário, sentimental, terno, de ser interesse. O que, sendo certo, antes engrandece do que diminui a figura, na verdade, quase apostólica de abolicionista em que se extremou Joaquim Nabuco”. O próprio Nabuco recorda este tempo com um doce saudosismo em Minha Formação: “Os primeiros oito anos da vida foram assim, em certo sentido, os de minha formação, instintiva ou moral, definitiva...” em outro trecho do mesmo capitulo , Massngana³, afirma: As impressões que conservo dessa idade mostram bem em que profundezas os nossos primeiros alicerces são lançados. Ruskin escreveu esta variante do pensamento de Cristo sobre a infância: "A criança sustenta muitas vezes entre os seus fracos dedos uma verdade que a idade madura com toda sua fortaleza não poderia suspender e que só a velhice terá novamente o privilégio de carregar. Continua em outro momento a enfatizar a importância dessa fase para sua formação: “Meus moldes de ideias e de sentimentos datam quase todos dessa época.” Após a morte da madrinha, mudou-se para a residência de seus pais, no Rio de Janeiro, onde realizou os estudos de nível primário e,


posteriormente, na cidade de Nova Friburgo, os de nível secundário, estes feitos em colégio dirigido pelo barão de Tautphœus, este senhor teria sido uma das primeiras influências na construção intelectual do jovem Nabuco. Em 1869, transferiu-se para a Faculdade de Direito, no Recife, dando continuidade ao curso, iniciado na Faculdade de São Paulo em 1866. Na faculdade de direito de São Paulo, conheceu personalidades que teriam grande importância dentro do palco nacional tanto das letras como da política, a saber, os futuros presidentes Rodrigues Alves e Afonso Pena, o poeta Castro Alves e o jurista Ruy Barbosa com quem manteria uma amizade por muitos anos. Em 1870, diplomou-se em Ciências Sociais e Jurídicas. Depois da formatura, regressa ao Rio de Janeiro, onde tentou advogar. Em 1872, tendo vendido o Engenho Serraria, herança de sua madrinha, viajou para a Europa em 1873 onde passou um ano. Nesse período, fez contatos com intelectuais e políticos.


Entre os muitos intelectuais que conheceu, convém escrever de modo mais prolongado sobre a figura do escritor, filósofo, teólogo, filólogo e historiador francês Joseph Ernest Renan. A influência de Renan é evidenciada nas páginas de Minha Formação e, inclusive, em sua viagem a França. Segundo o próprio Nabuco escreveu em sua autobiografia: “Dentro de minutos me aparecia Renan. Na minha vida tenho conversado com muito homem de espírito e muito homem ilustre; ainda não se repetiu, entretanto, para mim, a impressão dessa primeira conversa de Renan. Foi uma impressão de encantamento; imagine-se um espetáculo incomparável de que eu fosse espectador único, eis aí a impressão. Eu me sentia na pequena biblioteca, diante dos deslumbramentos daquele espírito sem rival, prodigalizando-se diante de mim, literalmente como Luís II da Baviera na escuridão do camarote real, no teatro vazio, vendo representar os Niebelungen em uma cena iluminada para ele só.” (grifo nosso) “Dessa entrevista não saí só fascinado, saí reconhecido. Renan deu-me cartas para os homens de letras que eu desejava conhecer: para Taine, Scherer, Littré, Laboulaye, Charles Edmond, que devia apresentar-me a George Sand, Barthélemy Saint-Hilaire, por intermédio de quem eu conheceria monsieur Thiers. As nossas relações tornaram-se desde o primeiro dia afetuosas, e, naturalmente, quando imprimi o meu Amour et Dieu, mandei-lhe um dos primeiros exemplares.”(grifo nosso) No capitulo referente a Ernest Renan, Nabuco coloca o perigo de desejar admiração e elogios de alguém que desperta em nós admiração. Nabuco de fato recebeu muitos elogios por parte de Renan ,através de uma carta, depois deste haver lido Amour et Dieu. As exatas palavras de Renan foram: Oui, vous êtes vraiment poète. Vous avez l’harmonie, le sentiment profond, lá facilité pleine de grâce (Sim, você é realmente um poeta. Você tem harmonia, um profundo sentimento, a naturalidade cheia de graça.) Quem não se sentiria cheio de euforia ao ler tal carta que ainda convidava para uma conversa? Contudo, nem sempre o sorriso e o afago


representam a verdade, às vezes, a educação e o respeito pela dedicação e esmero do outro norteiam, ou maculam, a crítica. No livro SOUVENIRS D’ENFANCE ET DE JEUNESSE (lembranças da infância e juventude), o qual recomendo a leitura, Renan coloca, inspirado certamente nos tantos espíritos novos que lhe pediram leitura e crítica de seus trabalhos, que, segundo a tradução feita por Nabuco em Minha Formação: “Desde 1851 acredito não ter praticado uma só mentira, exceto, naturalmente, as mentiras alegres de pura eutrapelia, as mentiras oficiosas e de polidez. (...) Um poeta, por exemplo, nos apresenta os seus versos. É preciso dizer que são admiráveis, porque sem isso seria dizer que eles não têm valor e fazer uma injúria mortal a um homem que teve a intenção de nos fazer uma civilidade.” Tal fato deve ter propiciado o espirito elevado e cheio de certezas que deu o tom dos embates com José de Alencar nas páginas do jornal o Globo. Há muito perigo em se dizer


uma verdade, claramente, porém há muito mais perigo em se tecer elogios distantes desta. Já o político, teólogo e critico Edmond Henri Adolphe Schérer mostrou através de um silencio e olhar polidos, porém bastante significativos o desejo de não delinear em palavras o que havia lido das mãos do jovem Nabuco. Este último fato, mereceria mais acolhimento e reflexão por parte do jovem poeta, todavia, a juventude prefere os embates e suas explosões a ponderação e análise. Receber elogios é maravilhoso, porém a crítica garante a evolução e crescimento e uma mente inteligente sabe abraçar o que ouve e lê com sabedoria, separando meros ataques frutos de ódio e inveja da ajuda necessária , da critica verdadeira e do conselho amigo. O desejo de manter a ilusão de possuir uma grandiosidade que na realidade está longe de ser alcançada ou somente levemente delineada , pode ser a morte do êxito e sucesso como escritor; A. D. Sertillanges em sua obra A vida Intelectual afirmou: “… venham à vida intelectual com propósitos desinteressados, não por ambição ou tola vaidade…” (grifo nosso) . Nabuco de modo semelhante oferece este conselho: “O escritor juvenil que não se resignar ao sacrifício da sua honra literária não fará progresso em literatura.” Sobre os embates com José de Alencar, há um capitulo próprio sobre isso nesta crítica. Agora, voltemos a traçar a biografia de Nabuco. Em 1876 obteve seu primeiro cargo público, o de adido de legação, por meio do qual passa cerca de um ano nos Estados Unidos. Em março de 1878 morre seu pai que, antes de falecer, assegurou sua vitória na eleição como deputado geral pela província de Pernambuco junto ao Barão de Vila Bela. No ano seguinte, participando do parlamento, Joaquim Nabuco iniciou a campanha contra a escravidão. Nabuco era um pensador que desafiou a mente de muitos abolicionistas, refiro-me àqueles que viam a libertação dos escravos como algo necessário do ponto de vista econômico, somente um passo útil, pois ele via a libertação dos escravos como um dever moral e de extirpar as consequências deste vilipendio para com a humanidade, uma urgência; era ainda a criança de Massangana, pura e doce, que gritava dentro do jovem abolicionista.


Nabuco, contudo, em seus embates com Alencar, (sim, quero deixar você mais curioso.) tinha uma visão bastante restrita sobre o uso do negro nas produções teatrais o que parece ser até irônico visto o modo como entendia a abolição fora da ficção. Talvez isso revele que por mais futurista que seja a alma em seus desejos e sonhos , a mente ainda é filha do presente com suas limitações e conceitos. Em 1882, derrotado nas eleições para a Câmara dos Deputados, vai rumo à Europa. No dia 10 de fevereiro de 1888 conseguiu uma audiência particular com o papa Leão XIII com quem conversou e pediu que se pronunciasse contra a escravidão existente no Brasil e na África. Persuasivo e carismático consegue do papa a promessa de que ele se pronunciaria na encíclica em favor dos escravos, porém, esta somente seria publicada após a assinatura da Lei Áurea. Nabuco tinha, como já dito anteriormente, muito da sua infância em Massangana , o que havia visto e vivido, refletido em sua ação contra a escravidão, tendo deixado claro ainda ao relatar sua infância neste engenho que: “Estive envolvido na campanha da Abolição e durante dez anos procurei extrair de tudo, da


história, da ciência, da religião, da vida, um filtro que seduzisse a dinastia; vi os escravos em todas as condições imagináveis; mil vezes li a Cabana do Pai Tomás, no original da dor vivida e sangrando; no entanto a escravidão para mim cabe toda em um quadro inesquecido da infância, em uma primeira impressão, que decidiu, estou certo, do emprego ulterior de minha vida. Eu estava uma tarde sentado no patamar da escada exterior da casa, quando vejo precipitar-se para mim um jovem negro desconhecido, de cerca de dezoito anos, o qual se abraça aos meus pés suplicando-me pelo amor de Deus que o fizesse comprar por minha madrinha para me servir. Ele vinha das vizinhanças, procurando mudar de senhor, porque o dele, dizia-me, o castigava, e ele tinha fugido com risco de vida... Foi este o traço inesperado que me descobriu a natureza da instituição com a qual eu vivera até então familiarmente, sem suspeitar a dor que ela ocultava.” “Nada mostra melhor do que a própria escravidão o poder das primeiras vibrações do sentimento... Ele é tal, que a vontade e a reflexão não poderiam mais tarde subtrair-se à sua ação e não encontram verdadeiro prazer senão em se conformar... Assim eu Joaquim Nabuco combati a escravidão com todas as minhas forças, repeli-a com toda a minha consciência, como a deformação utilitária da criatura, e na hora em que a vi acabar, pensei poder pedir também minha alforria, dizer o meu nunc dimitis, por ter ouvido a mais bela nova que em meus dias Deus pudesse mandar ao mundo; e, no entanto, hoje que ela está extinta, experimento uma singular nostalgia, que muito espantaria um Garrison ou um John Brown: a saudade do escravo.” (grifo nosso) No dia 28 de abril de 1889, Nabuco contraiu matrimonio com a dona Evelina Torres Soares Ribeiro, filha do barão de Inhoã. No dia 21 de agosto do mesmo ano, logra ser eleito deputado por Pernambuco, para a última legislatura do Império. Em 1892 viajou para a Inglaterra com a família, aí permanecendo por alguns anos. O casamento e as demais experiências na politica e sua proximidade com grandes intelectuais tanto brasileiros, como Machado de Assis, e fora do Brasil, já citados aqui, certamente contribuíram para que a inteligência fora somada a uma sabedoria.


O site da fundação Joaquim Nabuco oferece uma cronologia da vida deste autor, escrita por Manuel Correia de Andrade, e aqui encerramos essa abordagem biográfica, importante para que o leitor compreenda o livro que analisaremos, com esta cronologia: 1893/1899 - Período de intensa atividade intelectual de Nabuco. Não aceitando os cargos nem encargos da República, Nabuco dedicou-se às letras, escrevendo livros e artigos para jornais e revistas. Alguns livros foram escritos inicialmente para publicação de seus capítulos, como artigos, nos jornais e na Revista do Brasil. Estes livros, quase sempre de comentários políticos, foram Balmaceda (publicado em 1895) sobre a guerra civil no Chile e A intervenção estrangeira na Revolta de 1893 (publicado em 1896) onde, além de analisar o desenrolar da luta, faz confronto entre Saldanha da Gama, maior lider da Revolta, e Floriano Peixoto, que encarnava a legalidade. Também deste período é Um estadista do Império (1896), seu principal livro, em que analisa a vida do senador Nabuco de Araújo e a vida política, econômica e social do País durante a atuação do mesmo. Ainda desta época é o seu livro de memórias, intitulado Minha formação, publicado parcialmente na imprensa e reunido em um livro em 1900.


1896 - Participou da fundação da Academia Brasileira de Letras, que teve Machado de Assis como seu primeiro presidente e Nabuco como secretário perpétuo. 1896, janeiro, 25 - Ingressou no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. 1899, março, 9 - Aceitou convite do governo da República para defender o Brasil na questão de limites com a então Guiana Inglesa de que seria árbitro o rei Victor Emanuel da Itália. Iniciou um processo de afastamento do grupo monarquista e a sua conciliação com a República. 1900, março - Morte de Sousa Correia, ministro brasileiro na Inglaterra, provocando o convite do gabinete do governo para que Nabuco aceitasse este lugar, passando a ser funcionário da República. Nabuco inicialmente aceitou ser "plenipotenciário em missão especial" deixando a chefia da legação com o encarregado de negócios. 1900, agosto - Aceitou o cargo de chefe da legação em Londres e tornou-se, finalmente, funcionário da República. 1900, dezembro - Proferiu, no Rio de Janeiro, em banquete que lhe foi oferecido, discurso considerado como a sua declarada adesão à República. 1903 - Publicou-se em Paris o livro O direito do Brasil (primeira parte) em que analisou as razões do Brasil na contenda com a Inglaterra a respeito de uma área territorial fronteiriça com a Guiana Inglesa. 1904, junho, 14 - O rei Victor Emanuel da Itália deu o laudo arbitral na questão da Guiana Inglesa, dividindo o território disputado em duas partes - 3/5 para a Grã-Bretanha e 2/5 para o Brasil - o que foi considerado por todos, inclusive por Nabuco, como uma derrota para o Brasil.

1905 - Criada a Embaixada do Brasil em Washington, Nabuco foi


nomeado embaixador do Brasil, apresentando suas credenciais ao presidente Theodoro Roosevelt, a 25 de maio. Como embaixador em Washington ligou-se muito ao governo norte-americano e defendeu uma política pan-americana, baseada na doutrina de Monroe. Também viajou bastante pelos Estados Unidos e proferiu dezenas de conferências em universidades americanas. 1906, julho - Organizou a III Conferência Pan-americana, realizada no Rio de Janeiro, com a presença do secretário de Estado dos Estados Unidos. 1910, janeiro, 17 - Faleceu em Washington, como embaixador, após um longo período de doença. (Texto atualizado em 12 de março de 2008). A biografia de Joaquim Nabuco faz saltar aos olhos sua grande intelectualidade, espirito indomável, coração e alma nobre. Poucos intelectuais possuíam sua envergadura intelectual e moral e sua sede por conhecimento, também, poucos tiveram a oportunidade de viajar e ter contato com as almas mais ilustres do velho mundo. Ler a biografia deste autor é saborear os percursos de uma alma que sempre buscou o melhor para seu país.


* Montar esta biografia não seria tarefa grata se não fosse pelos trabalhos bem detalhados de : 1. MARTINS, Matheus; TEIXEIRA, Marcos. Engenho, percurso e formação: um estudo das memórias de Joaquim Nabuco. In: Revista de Literatura - 2005. Belo Horizonte: Associação Pré-UFMG, 2004, p. 3362. Disponível em : http://www.geocities.ws/osdeusescomempao/estudodeobraminhaformacao.pdf. Acesso em: 10-01-2019 2. ANDRADE, Manuel Correia de. Cronologia de Joaquim Nabuco. Pesquisa Escolar Online, Fundação Joaquim Nabuco, Recife. Disponível em: http://basilio.fundaj.gov.br/pesquisaescolar/index.php . Acesso em: 10-01-19 3.NABUCO, Joaquim. https://pt.wikipedia.org/wiki/Joaquim_Nabuco#cite_ref-:2_7-0. 4. Os termos Maçangana e Massangana são encontrados a depender da edição colocada ao acesso do público. Aqui ambos serão usados indistintamente. ** Como é um trabalho de critica literária, a biografia foi enriquecida com outras fontes, como o prefácio de Gilberto Freyre para a edição disponível no site do senado : https://www2.senado.leg.br/bdsf/handle/id/1019 , e minhas próprias observações. Tudo foi apropriadamente citado e colocado. Não somente me dispus a escrever dados biográficos mas tive por desejo tratar os dados dentro do que a critica literária me permite fazer e dentro daquilo que deixa a escrita mais fluida e rica. *** Maçangana é a forma encontrada na escrita de Gilberto Freyre e da edição distribuída pelo site do senado. Massangana, provavelmente, é fruto da reforma ortográfica estabelecida pelo acordo de 1943 e


alterações desta lei postas em uso corrente pela lei n° 5.765, de 1971. Sempre que textos antigos forem citados, buscar-se-á colocá-los sem alterações , desde que sejam inteligíveis e não prejudiquem a fluidez da leitura por parte do grande público.

Joaquin Nabuco e José de Alencar: Uma briga com luvas de pelica

Nada como ir ao mais alto céu através do ato de pôr os pés nos ombros de gigantes. E com um grande gigante da critica literária, Alfredo Bosi, começo minha análise: “Não foi espírito original: há, em Minha Formação (1898) não poucos lugares-comuns de cosmopolita e diletante, ainda preso a tipologias feitas como “o espírito inglês”, “a alma francesa”, “a democracia americana”, etc. Mas, sempre que volta à memória da infância, aos primeiros contatos com o negro (“Massangana” em Minha Formação) e, sobretudo, à imagem do pai, cuja vida recompôs nos volumes de Um Estadista do Império (1899), demonstra o pulso do memorialista capaz de dar à História a altura de “ressurreição do passado” que lhe preconizava Michelet. A proclamação da República não o demoveu dos ideais monarquistas, mas também não o impediu de servir ao país, na qualidade de embaixador em Londres e em Washington, onde faleceu em 1910.” (grifo nosso)


Ler Minha Formação foi uma grande dádiva. O livro, embora recaia em uma escrita rasa e pouco atrativa em vários momentos, possui na maior parte de sua escrita uma sensibilidade e atrativo que torna cada hora de leitura um deleite. Nabuco ao falar de sua infância deveria ter dado mais corpo a seu texto, pois, no capitulo sobre Massangana sentimos no relembrar da infância todo o valor, apreço e peso que teve na formação moral e ética do autor. Os capítulos referentes à suas viagens também enchem de prazer o leitor cuja imaginação não jaz contaminada pelas produções escritas, cinematográficas e teatrais boçais e pobres conteudisticamente. A imaginação e a atenção nas leituras nestas passagens dará ao leitor um entendimento de como a mente alcança novos patamares e adquire toda uma nova dimensão ao estar em contato com inteligências reais e sólidas. Agora analisemos alguns trechos, a começar por àquele que faz referencia a polêmica entre Nabuco e Alencar: “(...) Fui colaborador literário do Globo e travei com José de Alencar uma polêmica, em que receio ter tratado com a presunção e a injustiça da mocidade o grande escritor (digo receio, porque não tornei a ler aqueles folhetins e não me recordo até onde foi a minha crítica, se ela ofendeu o que há profundo, nacional, em Alencar: o seu brasileirismo).” (Grifo nosso) José de Alencar foi um dos maiores autores brasileiros, injustiçado por uma crítica que insiste em compará-lo a Machado de Assis, negando-se a analisar suas obras apropriadamente. Claro que a critica séria e bem respaldada verá tanto em suas produções teatrais e romancistas , um homem capaz e letrado, sensível ao desejar fazer do índio o herói, a personificação de qualidades defendidas pelo romantismo, contudo nem


sempre bem sucedido nos seus intentos por falta, talvez, de ousadia e de uma melhor reflexão sobre as obras da literatura francesa, as quais eram tão apreciadas pela intelectualidade brasileira, disponíveis já na época na língua original como também em algumas traduções. O francês estava nos lábios de todo bom escritor e leitura das obras do velho mundo sempre foi o deleite para as horas de ócio e de busca por crescimento intelectual. “O crítico José Guilherme Merquior assim se refere a esse esmero: “Estudante de Direito em São Paulo e Olinda, Alencar lia sem parar românticos franceses(...)” O próprio Alencar ao escrever sua autobiografia, no todo mais fluida que a de Nabuco, Por que e como sou romancista, descreve assim seu esmero no francês : “Tinha eu feito exame de francês à minha chegada em São Paulo e obtivera aprovação plena, traduzindo uns trechos do Telêmaco e da Henriqueida; mas, ou soubesse eu de outiva a versão que repeti, ou o francês de Balzac não se parecesse em nada com o de Fenelon e Voltaire; o caso é que não conseguia compreender um período de qualquer dos romances da coleção. Todavia achava eu um prazer singular em percorrer aquelas páginas, e pôr um ou outro fragmento de ideia que podia colher nas frases indecifráveis, imaginava os tesouros que ali estavam defesos à minha ignorância.”


“Conto-lhe este pormenor para que veja quão descurado foi o meu ensino de francês, falta que se deu em geral com toda a minha instrução secundária, a qual eu tive de refazer na máxima parte, depois de concluído o meu curso de direito, quando senti a necessidade de criar uma individualidade literária.” O crítico Antônio Candido, em formação da literatura brasileira volume II, assim se refere a este autor: “Desses vinte e um romances, nenhum é péssimo, todos merecem leitura e, na maioria, permanecem vivos, apesar da mudança do padrão de gosto a partir do naturalismo. Dentre ele três podem ser relidos à vontade e o seu valor tenderá certamente a crescer ao leitor, à medida que a crítica souber assinalar sua força criadora: Lucíola, Iracema e Senhora.” Merchior assinala que : “José de Alencar foi o patriarca da literatura nacional plenamente, isto é, linguisticamente, constituída.” Muito do que é criticado em Alencar é o mal dos escritores românticos dedicados a não ser meros repetidores daquilo que o velho mundo de melhor havia realizado, ao buscar uma literatura vernácula inspirada, sim, na literatura dos grandes autores franceses e ingleses, mas não subserviente a esta, uma literatura brasileira que mostrasse as cores e o melhor da terra de pindorama; faltou-lhes um trabalho mais cuidadoso na forma(escrita). A influência comercial , obras publicadas em folhetim (jornais), ajudou , também, a que certas incongruências fossem mais suscetíveis de aparecer como, por exemplo, na construção dos cenários. Tendo dito isso, sigamos a boa e velha polêmica, espero que ainda siga o leitor atento, de fato, espero que não esteja cansado e pronto para fechar a revista. Paciência, paciência, pois não só de erudição é feito o mundo das artes, mas também de boas fofocas e divertidos desentendimentos. Em setembro de 1875, alguns eventos levariam a estas duas inteligências


a travarem por certo tempo embates nas páginas do jornal O Globo, Nabuco aos domingos e Alencar, às quintas. Tudo começou quando Ismênia dos Santos, atriz e empresária do Teatro São Luís, pediu a Alencar uma peça para ser representada por um jovem ator português radicado no Brasil chamado José Dias Braga. Conforme Eduardo vieira coloca: “Sem nada de novo para lhes oferecer, Alencar tira da gaveta O jesuíta, drama histórico de feição romântica composto muitos anos antes. As duas apresentações, ocorridas em 18 e 19 de setembro de 1875, foram um fracasso tão grande que a empresária se viu obrigada a tirar a peça de cartaz. Na imprensa da corte, as opiniões se dividiram: enquanto a maior parte dos comentaristas elogiou as qualidades d’O jesuíta, lamentando a ausência do público, alguns artigos, principalmente de pequenos jornais satíricos, aproveitaram a oportunidade para espicaçar o estridente deputado do partido conservador.”


Dado o momento tenso politicamente e socialmente, a questão religiosa, conflito ocorrido no Brasil na década de 1870 que, tendo começado como um enfrentamento entre a Igreja Católica e a Maçonaria, a cada dia se colocava mais forte na mente dos intelectuais, da imprensa e até do público. O titulo da peça pode ter afugentado os espectadores o que ocasionou o seu naufrágio comercial, já que foi lançada no auge desse embate. Alencar usando o jornal O globo, acusou o público de ser apegado demais a estrangeirismos e de rejeitar o teatro nacional, algo que incomodou bastante o jovem Joaquim Nabuco. Este tentou abarcar toda a obra de Alencar em suas criticas, considerando que esta não havia recebido uma crítica imparcial. Eduardo vieira, professor Doutor em Teoria e História Literária, em seu artigo Nabuco e Alencar explica : “O principal ataque de Nabuco às peças de Alencar incidia sobre a exploração da temática escrava em O demônio familiar e em Mãe, escolha que lhe parecia inadequada, pois fazia da escravidão o “característico” do teatro brasileiro: (PAN, p. 48). Quanto a O demônio familiar, considerava a figura de Pedro, o pequeno escravo responsável pela intriga, inverossímil e mal construída. Para Nabuco, o maior defeito da personagem residia na sua linguagem, que não apenas falseava a verdade, como feria as normas do teatro, não devendo, por isso, ser levada aos palcos.” (o termo PAN é a abreviação utilizada para A polêmica Alencar-Nabuco do estudioso Afrânio Coutinho, usado como referencia básica do artigo de Vieira) “Essa linguagem de telegrama não é falada entre nós; mas se o fosse, ainda não teria o direito de passar da boca dos clowns, pintados de preto, dos nossos circos para a dos atores. [...] Já é bastante ouvir nas ruas a


linguagem confusa, incorreta dos escravos; há certas máculas sociais que não se devem trazer ao teatro, como o nosso principal elemento cômico, para fazer rir. O homem do século XIX não pode deixar de sentir um profundo pesar, vendo que o teatro de um grande país, cuja civilização é proclamada pelo próprio dramaturgo escravagista [...] acha-se limitado por uma linha negra, e nacionalizado pela escravidão. Se isso ofende o estrangeiro, como não humilha o brasileiro! (PAN, p. 106)” O tema dos escravos era tido como inconveniente pelo jovem Joaquim Nabuco e isso soa como irônico ou mesmo paradoxal se o leitor se atenta à biografia que foi posta anteriormente. Não seria a primeira vez que vemos isso ocorrer, pois passados 30 dias da morte de Machado de Assis, como demonstra a professora em Teoria Literária pela Faculdade de Ciências e Letras da UNESP Sílvia Maria Azevedo: “José Veríssimo publica longo


artigo no Jornal do Comércio, em que rememora o convívio quase diário com o escritor. A mais forte impressão que lhe ficara da personalidade de Machado era o “horror à banalidade e à ênfase”. E acrescentava: “São tanto mais de admirar e até de maravilhar essas qualidades de medida, de tato, de bom gosto, em suma de elegância, na vida e na arte de Machado de Assis, que elas são justamente as mais alheias ao nosso gênio nacional e, muito particularmente, aos mestiços como ele. [...]. Mulato, foi de fato um grego da melhor época, pelo seu profundo senso de beleza, pela harmonia de sua vida, pela euritmia da sua obra”. “Joaquim Nabuco, em carta enviada de Washington, em 25 de novembro, ficou escandalizado ao ver Machado sendo chamado de “mulato”: Eu não teria chamado o Machado mulato [itálico no original] e penso que nada lhe doeria mais do que essa síntese (...). O Machado para mim era um branco, e creio que por tal se tornava [sic]; quando houvesse sangue estranho, isso em nada afetava a sua perfeita caracterização caucásica. Eu pelo menos só vi nele o grego. O nosso pobre amigo, tão sensível, preferiria o esquecimento à glória com a devassa sobre suas origens.” “Veríssimo jamais incluiu o artigo de 1908 em qualquer dos seus livros. Na verdade, a crítica de Nabuco fazia eco ao processo de branqueamento de Machado de Assis, que, iniciado em vida (basta ver os seus retratos), tinha continuidade depois da morte do escritor, cujo registro de óbito certificava que Joaquim Maria Machado de Assis, de “cor branca”, havia falecido de “arteriosclerose”.” De um lado José Verissimo escritor, educador, jornalista e amante da literatura brasileira, membro e principal idealizador da Academia Brasileira de Letras, amigo de Machado de Assis. Verissimo havia criticado a obra de Machado revelando uma critica bem ponderada, justa e, com toda razão, elogiosa em grande parte. Verissimo era homem de uma inteligência nata e observação racional e substantiva, especialmente no campo da critica. Do outro lado a visão de Nabuco, também homem


de grande envergadura intelectual e não menos admirador de Machado. A divergência sobre o termo revela que muito longe de ser algo ideológico, esquerda/direita, o uso do termo Mulato, a despeito de sua etimologia, já era tido por muitos como pejorativo enquanto outros não o viam de tal modo. O cerne da questão aqui é perceber como Nabuco, um grande abolicionista, entendia ligar Machado de Assis a suas origens negras como um ato de insulto a memória deste. Um abolicionista de alma e não de bolso como Nabuco ainda era um homem preso ao entendimento racial de sua época.


Vieira citando PAN, coloca: “Alencar inicia a defesa de suas peças que desenvolviam o tema da escravidão contestando a assertiva de que o assunto de uma obra fosse responsável pelo caráter da literatura de um país: “É o assunto dos dramas o que define uma literatura e a caracteriza, ou é, ao contrário, a escola desse drama, o que lhe imprime o cunho? Assim o característico do teatro de Sófocles, segundo o Sr. Nabuco, será o incesto” (PAN, p. 59)”

Nabuco mostrou ter criticas rasas e baseadas mais em um puritanismo em relação à obra teatral de Alencar por colocar o negro no palco. Em outros momentos sua critica convergia com o que já havia dito o escritor e jornalista Franklin Távora sobre a obra regionalista de Alencar. No todo, o espirito enérgico do jovem Nabuco opacou por muitos momentos sua inteligência ao construir sua critica, em outros foi bem dirigida embora não bem medida. De 3 de outubro de 1875 até o dia 21 de novembro de 1875, duas grandes inteligências teriam seu debate nas paginas do jornal O globo. Ao tentar ir para a questão politica, Alencar se retira sem maiores explicações. Segundo Vieira: “Quando, no seu sétimo folhetim, Nabuco enveredou pelo terreno da política. A partir daí, sem dar qualquer explicação aos leitores, Alencar retirou-se da arena. Numa nota manuscrita, que não chegou a ser publicada na época, mas integra a edição preparada por Afrânio Coutinho a partir de recortes colecionados pelo romancista, Alencar explica que depois de ter debatido os grandes temas nacionais com os principais políticos da época não poderia perder seu tempo com um “filhote”: “A política estou habituado a discuti-la com seu pai” (PAN, p. 219).” José de Alencar morre sentindo-se injustiçado pela crítica do seu tempo advinda de novas figuras intelectuais e sentindo-se um tanto desgostoso


com a mudança de apreciação que o publico começava a ter por suas obras. Nabuco mais tarde como aqui já foi colocado, perceberia o erro de tom que suas palavras tiveram. Através de duas cartas, uma destinada a Carlos Magalhaes Azevedo, e a segunda a Oliveira Lima, Nabuco transmite o pesar que ainda sentia pela polêmica. “Pago assim a minha dívida, ou antes, expio a minha falta para com o pai” diria a Azeredo e a Oliveira Lima “Votei pela dívida que estava com o pai, José de Alencar, por o ter atacado, quando jovem, com tanta falta de veneração nacional”. Alencar não precisava ser atacado no seu “brasileirismo”, algo que Nabuco reconheceria, tardiamente, como um aspecto positivo. Dúvidas sugestões, criticas e elogios são bem vindos. Encaminhe para carlosduna2019@gmail.com

Carlos Alberto Chaves Pessoa Júnior, professor de espanhol e inglês, articulista, palestrante e crítico literário.


O livro me livrou Por: Rafael Zimichut @rafaelzimichut


Ao contrário do que muitos pensam, não acho que a idade e experiência sejam tão ruins assim, óbvio, você perde um pouco do vigor físico que tinha, afinal, eu, como um aspirante a atleta profissional podia jogar durante horas intermináveis sem me cansar, mas hoje em dia não tenho mais o mesmo pique para jogar, mas consigo fazer a mesma quantidade de gols ou cestas empreendendo menos esforço, a isso chamamos de “experiência”. Quando entramos no mundo literário, podemos dizer que no começo somos uma explosão de ideias e intermináveis livros escritos, porém, por lógica, quando revisitamos nossas obras do início da carreira, meio que sentimos vergonha de algumas coisas e pensamos: “poxa vida, poderia ter feito diferente”, mas a verdade é que você não poderia ter feito diferente porque para chegar onde chegou precisou fazer aquilo daquela forma, pois hoje você não é mais o mesmo que antes. Heráclito, um famoso e importante filósofo grego da era pré-socrática afirmava que: “ninguém pode banhar-se no mesmo rio”, ou seja, quem você é hoje nunca teria sido sem aquela pessoa de ontem, porque aquele primeiro livro transformou no seu primeiro passo, depois veio o segundo que, naturalmente foi melhor que o primeiro, o terceiro e por ai vai. Tive recentemente uma experiência muito ruim em escrever um livro em parceria, pois R. B. Silva convidou uma pessoa para o nosso projeto que ia de vento em polpa e a pessoa só criticava e reclamava de tudo, com isso o projeto não andava, e qualquer autor experiente sabe que um livro é escrito por etapas, primeiro você faz o esboço, sem ligar para erros gramaticais, erros no contexto da história etc., simplesmente escreve e analisa se aquilo tudo tem fundamento, depois você faz a segunda parte


que é complementar a história, então você vai lá e acrescenta elementos que em um primeiro momento não era tão interessante (ou pode retirá-los também, é importante saber que escrever muito não é sinônimo de escrever bem), um exemplo perfeito era Sidney Sheldon, que em todos os livros escrevia em média mil laudas para salvar entre 600 à 700 laudas, mas com isso deixava a história mais dinâmica. Então ele nos disse que tinha um livro que não conseguia terminar e vendo pela forma como tratava a nossa história, não iria terminar nunca, pois ele é daquelas pessoas que atiram pedra em cada cachorro que ladra no meio do caminho, e escrever não segue esta lógica, mas segue em: 1. ESCREVER ATÉ O FIM; 2. ANALISAR – ACRESCENTAR OU TIRAR; 3. REVISAR e; 4. VOLTAR A ESCREVER – até que esteja do jeito que você quer, mas escreva até o fim, não pare toda hora para analisar, não pare toda hora para revisar, pois o livro não flui e o leito percebe quando um autor faz muitas pausas na história. Vamos dar um exemplo: quando você quer chegar em algum lugar, você simplesmente vai e coisas acontecem no meio do caminho, ás vezes você pode ter errado uma entrada, mas nada impede de fazer o retorno e voltar ao caminho traçado, mas se você toda hora parar, você nunca chegará ao final, e se chegar, demorará muito mais tempo. Já ouvi relatos de escritores famosos que demoram anos em um único livro porque escrevem cada página dezenas de vezes até estar do seu agrado, enquanto Stephen King lança em média dois ou três livros por anos, e a receita dele é: escreva até o final, depois reescreva, revise, acerte as pontas até estar do jeito que você quer, é simples...


Uma coisa boa em demorar para eu começar a ser reconhecido como escritor é que pude revisitar minha obra antes de qualquer publicação, deixe-os bem melhores, evitando assim críticas negativas desnecessárias, coisa que pode ser um problema até mesmo para os mais experientes.

Quando descobri que escrever sempre e de forma ininterrupta é a melhor forma de escrever, meus textos melhoraram muito, tudo ficou mais fácil, as coisas começaram a acontecer com mais naturalidade, então, não se estresse se ainda não alcançou o nível que gostaria, saiba que tudo é voltado para te dar mais experiência, quanto mais experiência tiver, mais segurança para escrever você terá e isso fará com que a sua estrada fique significativamente mais rica e prazerosa. Escritor, palestrante, músico e compositor, paulista, 37 anos, autor de mais de 30 livros, incluindo “O Éden Perdido”, “O outro lado da escuridão”, “Uma sombra além da escuridão”, “Um dia um adeus”, “Um novo dia para amar” e “O sorriso de Cintia Donnaville”.


Por: Daniel Tablet @irmaostablet


ARTE NOS GAMES Quando iniciei no mundo dos games era só diversão, tudo era apenas satisfação do momento. Algo para passar o tempo entre amigos (Antes era comum jogar entre amigos na mesma sala). Passados anos e anos, a inserção aos games e o olhar crítico foi mudando, assim como a mente e o corpo. E diante de algumas décadas nos deparamos com games que fogem completamente da esfera comum, e as vezes buscamos algo diferente, um sentimento mais expansivo.


Uma das Grandes experiência foi um game chamado ICO para o Playstation 2, seu personagem principal tinha que escapar de um local que ele não sabia onde era junto com um garota, para isso eles andavam de mãos dadas levando ela para prosseguir a viagem e no meio do caminho as vezes aparecia sombras escuras puxando essa menina para um buraco negro. Logo após outro jogo do mesmo produtor veio, Shadow of Colossus, um personagem que vem de algum lugar a cavalo até um altar para fazer algo (Omiti a informação para não dar Spoiler) e para isso ele tem que derrotar vários gigantes para concluir esse “algo”, já no Plastation 3 teve um game chamado Journey, e literalmente você tinha uma viagem para fazer neste game e aprender algo muito importante no final, depois de muitos anos, chegou um game inocente, mas completamente emocionante Valiant Hearts the Great War, mostrando situações reais (que foram baseadas em cartas de soldados que combateram a Primeira Grande Guerra Mundial e de historiadores) o impacto que a Primeira Guerra Mundial teve em várias famílias. E para encurtar, já que tal artigo não é para abranger todos os games artísticos, temos um lançamento desse ano chamado GRIS, uma menina vê o


mundo ao seu redor ruir e tem que passar por ele para ganhar força e ultrapassar os vários problemas pessoais, tristezas e escuridões que há na vastidão desse mundo. Mas o que todos esses games tem de comum? A ligação nossa extrema com o personagem e o nosso mundo real. Alguns games passaram de diversão para um patamar artístico e emancipador, desde falar ou demostrar, Depressão, Amizade, Perda e Sacrifícios. Porém falar de algo tão amplo de uma forma singular torna esse “algo” extremamente artísticos. Cada vez mais a grande mídia que rege as pessoas tem acabado com a maioria dos projetos de grandes obras que segue esse linha libertadora, o pensar e refletir sobre algo mais profundo gera uma maior capacidade de crítica, e as vezes parece que isso é proibido nos tempos atuais. Por isso convido a todos leitores saírem dessa zona comercial de games e conhecer outros jogos que podem te trazer tanto conhecimento, quanto experiencias inimagináveis.


Certas aventuras vão ser super emocionantes, pois essa é vontade de games que andam fora “bolha” comercial, por isso alguns jogos se tornam clássicos, mesmo com poucas vendas ou falta de marketing, isso é algo louvável e simplesmente demais. Arriscar em games diferentes é conhecer outros mundos nos quais se você não tivesse a coragem de mudar, você jamais conheceria. Assim como em um game de RPG, “evolua” (Pokemon=-) e que a Força Esteja com Você! Quando iniciei no mundo dos games era só diversão... Fui! Link para contato, linktr.ee/irmaostablet. Daniel Tablet joga desde 89, com o Atari até os atuais, acompanha a evolução dos consoles e games, seja com revistas especializadas de games ou jogando os melhores para o seu estilo. Faz análise crítica e técnica às várias partes que engloba o mundo dos games. Em 2019 iniciou o canal Irmãos Tablet em todas as plataformas. .


Por: Emi Yamada @emi.entreoslivros


Olá, hoje trago a resenha do livro que fez parte da LC organizada com o apoio da @editorafeles. Brente Nielson teve uma infância e uma adolescência traumática. Sofreu com o pai alcoólatra, tanto que chegou ao ponto de sua mãe ter que matá-lo para salvar a vida do filho. Todos esses traumas transformam ele em um homem ganancioso, sem escrúpulos e capaz de tudo coisa para conseguir aquilo que deseja. . Do outro lado temos Coleen Burns, uma jovem inteligente, mas que também passou por vários problemas em sua família, onde seu pai rígido chegou a desconsiderar sua irmã mais velha (uma grande e famosa ativista). Com o caminho dos dois entrelaçados vemos um verdadeiro jogo de egos, onde ambição, dinheiro e o poder falam mais alto do que amor. Cada personagem é um retrato do que o ser humano pode ser capaz de fazer consigo mesmo para em troca de ter uma vida confortável, mas temos também o lado de equilíbrio no personagem de James que demonstrou que a bondade, o amor ao próximo é mais precioso do que todas as coisas! Temos de tudo nessa narrativa que é contada pelo ponto de vista dos protagonistas. Temos intrigas, amor, obsessão, mentiras, mas se engana quem pensa que vai ler algo clichê! Muito pelo contrário, somos surpreendidos em todos os momentos... “- Depende, se você tem um propósito na vida, não é o dinheiro que vai te levar ao sucesso, meus sonhos, por exemplo, não podem ser realizados sem dinheiro, porém, se não o tivesse, a vida sempre arranja alguma maneira de conspirar em favor daqueles que sonham.”


Lendo o livro, me senti em um verdadeiro jogo de xadrez, pois temos reviravoltas, personagens inconstantes que te absorvem e fazem com que adquira ódio deles, como se de fato eles fossem reais. Aí está a graça de um livro! Mexer tanto com você que em seu interior acaba criando amor e ódio por aqueles que fazem a história acontecer! Isso foi o que mais me agradou! Leitura que super recomendo e agradeço ao @rafaelzimichut e @editorafeles pelo apoio e oportunidade! Agradeço muito a todos que participaram da leitura! Gostaram? Me contem!


Conto: Presente de casamento Por: Camilo Silva


RAONI TEVE EXATOS SETE DIAS para descansar depois de sua primeira grande aventura na floresta (ler o livro A flauta de Akuanduba), quando o xamã o chamou em sua tenda. Ele entrou e viu Pequena Princesa ajoelhada ao lado do pai. –– Sente-se, Grande Guerreiro. Raoni assentiu. –– Sabe que o casamento é uma celebração sagrada para nós, entendo perfeitamente que ainda não está à par de todas as nossas tradições e costumes, mas você e minha filha já concretizaram alguns pontos, é do desejo dela – ela deu um leve sorriso para ele – então, devemos dar à ela um presente digno da esposa do Grande Guerreiro. –– E o que seria isso? –– Todos os Grandes Guerreiros que vieram antes de você trouxeram algo muito especial. O xamã abriu uma caixa e mostrou alguns pertences de ouro. –– Isso daqui faz parte do acervo especial do Caboclo D’água. –– Caboclo D’água? –– Isso mesmo – disse Pequena Princesa rompendo o silêncio – é o guardião de todo ouro existente nas florestas, porém, para você conseguir, vai precisar fazer duas coisas antes. –– E quais seriam? –– Precisa ir até a caverna da Cuca e pegar uma poção mágica, só assim o Caboclo D’água se acalmará por um tempo, aí então poderá pegar uma peça de ouro de sua coleção. –– E qual a segunda coisa que terei que fazer? –– Para encontrar o Caboclo D’água terá primeiro que encontrar a Mãe ‘Oro. –– Quer dizer que para encontrar um terei que achar ouro?


–– Isso mesmo, Grande Guerreiro... a Mãe D’Oro está sempre onde pode-se encontrar ouro, como a coleção do Caboclo é uma imensidão de ouro, será bem mais fácil se encontrá-la. –– Mas não poderá tocá-la, caso chegue muito perto, ela desaparecerá imediatamente. Raoni assentiu. –– Antes que pergunte – disse o xamã – não poderá ir com Pequena Princesa, isso é algo que terá que fazer sozinho.

RAONI CHEGOU PERTO DELA que estava se aquecendo na fogueira e cantando: “Rudá, Rudá!... Tu que secas as chuvas, Faz com que os ventos do oceano Desembestem por minha terra Pra que as nuvens vão-se embora E a minha marvada brilhe Limpinha e firme no céu!... Faz com que amansem Todas as águas dos rios Pra que eu me banhando neles Possa brincar com a marvada Refletida no espelho das águas!... (...) Rudá! Rudá! Tu que estás no céu E mandas nas chuvas. Rudá! faz com que minha amada Por mais companheiros que arranje Ache que todos são frouxos! Assopra nessa marvada Sodades do seu marvado! Faz com que ela se lembre de mim amanhã Quando a Sol for-se embora no poente !...” Macunaíma – Mário de Andrade.


–– Que música bonita... –– É a canção que todas as noivas cantam para o deus do amor, Rudá. Raoni sorriu satisfeito. –– Pode ficar tranquila, irei voltar. Pequena Princesa tirou o amuleto do pescoço dele e segurou carinhosamente a mão de Raoni e disse: –– Arco e Flecha. Ela pegou a flecha e beijou a ponta. –– Dizem que Rudá aponta sua flecha para as mulheres apaixonadas, agora é a minha vez, quando precisar da ajuda de Rudá, aponte essa flecha para a nuvem que ele aparecerá para você. –– Espero não precisar. –– Todos nós sempre precisamos do amor.

PEQUENA PRINCESA passou a forma mais fácil de chegar até a caverna da Cuca e fazê-lo não foi algo tão difícil assim. A caverna era algo assombrosamente feia, repleta de esqueletos e crânios de crianças. –– Entre, meu jovem – disse a voz mais horripilante que Raoni já tinha ouvido em toda a sua vida – posso sentir a sua juventude há quilômetros de distância. Raoni entrou, e diferente da entrada, a caverna era um dos lugares mais lindos que já havia visto, tinha televisão e tudo o que uma casa da cidade tinha, e completamente diferente da imagem que ele tinha de uma mulher em forma de jacaré, a Cuca era uma mulher jovem muito bonita. –– Desculpe... é que eu esperava outra coisa.


–– Um jacaré com cabelos loiros? –– Tipo isso... –– Bobagem do Monteiro Lobato, a TV muda um pouquinho as pessoas, tenho certeza que se fossem falar do Grande Guerreiro não colocariam um pirralho adolescente. –– Cara, isso machucou, sabia? Cuca sorriu. –– Meu nome vem de um dragão português chamado Coca. Cuca foi até a geladeira e pegou uma garrafa de Coca-Cola. –– Acredita em coincidências, Grande Guerreiro Raoni? Ela colocou um copo para Raoni que o bebeu de um gole só e em poucos minutos matou uma garrafa de dois litros sozinho. –– Faz tempo que não sei o que é beber isso e não me preocupar em engordar. –– Cara, faz tanto tempo que não sei o que é isso... essa bebida é boa demais. Raoni deu um arroto alto. –– Só para seu governo, arrotar aqui na floresta também é falta de educação. Cuca sorriu. –– É sempre um prazer as pessoas se sentirem em casa em minha caverna. –– Mas... –– Como eu consegui tudo isso? Às vezes preciso roubar alguma criança malcriada por aí e acabo levando um ou outro domicílio, seus amigos da tribo o Governo ajuda, eu aqui tenho que me virar sozinha. –– Mas ainda não acredito que tenha centenas de anos. –– Nada que uma poçãozinha aqui e outra ali não resolva... falando nisso, foi para isso que veio aqui, não é mesmo? Raoni assentiu. –– Tenho que entregar essa poção ao Caboclo D’Água. –– Está tão endividado assim para procurar aquele traste?


–– Porque fala assim dele? –– Porque o temperamento dele é extremamente difícil de ser lidado. A Cuca foi até a sua prateleira, pensou alguns minutos e pegou uma garrafa. –– Entregue isso a ele e diga que é das boas.

Raoni cautelosamente pegou, porém, ao ver a imagem refletida no espelho, sentiu imensos calafrios, era a velha mais decrepita que já havia visto. –– Nunca se deixe enganar pelo que seus olhos mostram. Ela sorriu e percebeu que seu plano tinha dado errado. –– Só mais uma dúvida. –– Diga... –– Nada nesse mundo é de graça, certo? Ela sorriu. –– Ainda bem que perguntou... meu preço é um ano de vida sua. Raoni não sabia muito bem o que dizer. –– Para um jovem tão cheio de virilidade e uma vida inteira pela frente, não acredito que seja um preço tão alto assim. A bela Cuca chegou perto de Raoni e aspirou um pouco de ar, ele realmente sentiu um calafrio e a mulher pareceu ainda mais nova do que antes. –– É incrível o sabor da alma de um semideus. O que a gente não faz por amor... –– Mas ainda não sei como encontrar a Mãe D’Oro. –– Ela não é do tipo que se deixa encontrar, à não ser que ela queira, mas, se você quiser, está em uma missão em prol do amor, pode pedir ajuda a... –– Rudá. –– Isso mesmo.


RAONI SAIU DA CAVERNA e olhou a lua cheia, ele sabia que Rudá também era o deus da lua cheia. –– E aí, deus do amor, vai me ajudar nessa? A lua ganhou uma face e disse: –– Mas é claro, pequenino. Raoni esfregou os olhos para ver se era aquilo mesmo, a lua estava falando com ele. –– É sério isso? –– Pede a minha ajuda e depois não acredita que pode ser ajudado? Vocês humanos da cidade grande são tão estranhos. –– Me perdoe, é que... –– A lua nunca tinha falado com você antes. Raoni assentiu. –– Se você tivesse me pedido ajuda antes, teria recebido ajuda. –– Ok... onde encontro a tal Mãe D’Oro? –– Se prestasse atenção ao seu redor, não precisaria pedir ajuda para os outros. A lua deu uma piscadinha e se foi. Raoni olhou para trás e viu uma mulher linda resplandecente dourada. –– Então é você o Grande Guerreiro? –– É o que dizem. –– Se precisam dizer, então você não é. –– Você está aqui para me dar sermão ou me ajudar a encontrar o tesouro do Caboclo D’Água? A mulher dourada sorriu e disse: –– Quando se é um deus, pode fazer os dois... agora me siga.


A CAMINHADA DUROU mais de três horas e foram em silêncio. –– Chegamos. Raoni percebeu que estava em frente a uma cachoeira. –– Mas disseram que eu teria que entrar em uma caverna. –– Sim... não aprendeu ainda que existem coisas que estão além do que os nossos olhos podem enxergar? Raoni ia responder mas a imagem da mulher dourada virou fumaça no mesmo instante que o demônio saiu de trás da cortina de água feita pela cachoeira. –– Quem ousa entrar em meu território? Raoni conseguiu se desviar e estendeu a garrafa. –– A Cuca disse que essa é da boa. As narinas do monstro dilataram e seu semblante assumiu outra feição. –– Porque não disse antes, adoro uma cachaça. –– Cachaça? –– Claro... estava pensando que era o que? –– Sei lá... a Cuca é uma bruxa, poderia ser qualquer poção. –– Entra pela cachoeira, você terá direito a pegar apenas uma peça da minha coleção, se pegar mais de uma voltarei minha fúria contra todos da sua aldeia. Ele mostrou ameaçadoramente suas garras. –– E isso é algo que nenhum de nós dois queremos, não é mesmo? Raoni assentiu, olhou para a cachoeira e a atravessou. Ao passar pela cortina fina de água, vislumbrou uma quantidade absurda de ouro, mas se conteve, ele estava ali apenas para pegar o presente de casamento para a sua esposa, escolheu rapidamente um colar de ouro e quando ia saindo o Caboclo disse: –– Pelo jeeeeeeito está amarrrrrrrrrradão nela. –– Era bom demais chegar até aqui sem ter a presença ilustre de vossa senhoria.


Anhangá sumiu em meio à fumaça e apareceu atrás dele segurando seus ombros e disse ao pé de seu ouvido: –– Veeeeeeeja todas eeeeeeeeeestas riqueeeeeeeezas, meu meniiiiiiiino guerrrrrrreiro, pode ser tuuuuuuudo seu, eu seguuuuuuro o grandalhão lá foooooora. –– E você ganha o que fazendo isso? –– Euuuuuu? Já tenho tuuuuuuuudo o que alguéééééém poderia querer, só estooooou querendo ajudar os amiiiiigos. –– Então vai lá com seus amigos, porque eu não sou. Raoni virou as costas para o deus da trapaça que disse cantando: –– Que caaaaaara mais chaaaaaaaato.

RAONI CHEGOU À SUA ALDEIA e se ajoelhou diante de Pequena Princesa: –– Quer se casar comigo? –– Levante-se, Raoni, os homens em nossa tribo não se ajoelham diante de suas mulheres. –– Mas na tribo que fui criado tinha mais educação... Pequena Princesa então ajoelhou-se, beijou Raoni e o levou para a sua Oca. Escritor, palestrante, músico e compositor, paulista, 37 anos, autor de mais de 30 livros, incluindo “O Éden Perdido”, “O outro lado da escuridão”, “Uma sombra além da escuridão”, “Um dia um adeus”, “Um novo dia para

amar” e “O sorriso de Cintia Donnaville”. Em algumas histórias assina com o pseudônimo de Camilo Silva como parte de um projeto pessoal para ajudar instituições de caridade.


Por: Mirian Marchi


1 de Janeiro Afonso Duarte (1884), J. D. Salinger (1919)

7 de Janeiro Charles Péguy (1873)

2 de Janeiro

8 de Janeiro

Isaac Asimov (1920)

3 de Janeiro

Baltasar Gracián y Morales (1601), Elvis Presley (1935), Stephen Hawking (1942), David Bowie (1947)

Marcus Cícero (-106), John Tolkien (1892), Vasco Graça Moura (1942)

9 de Janeiro

4 de Janeiro

Giovanni Papini (1881), Simone de Beauvoir (1908), João Cabral de Melo Neto (1920)

Walmir Ayala (1933), Gao Xingjian (1940) 10 de Janeiro 5 de Janeiro Gaspar Jovellanos (1744), Konrad Adenauer (1876), Umberto Eco (1932), Ngũgĩ wa Thiong'o (1938)

6 de Janeiro Domingos dos Reis Quita (1728), Khalil Gibran (1883)

Lord Acton (1834), Júlio Pomar (1926)

11 de Janeiro William James (1842), Oswald Andadre (1890), Carlos Nejar (1939), Al Berto (1948)


12 de Janeiro Edmund Burke (1729), Jack London (1876), Haruki Murakami (1949), Jeff Bezos (1964)

17 de Janeiro

13 de Janeiro

18 de Janeiro

Pietro Metastásio (1698), Gilbert Cesbron (1913)

Baron de Montesquieu (1689), Paul Léautaud (1872)

14 de Janeiro

19 de Janeiro

Albert Schweitzer (1875), Victor Segalen (1878), Casimiro Brito (1938)

15 de Janeiro

Bernardin de Saint-Pierre (1737), Auguste Comte (1798), Edgar Poe (1809), Eugénio Andrade (1923), Eugénio Andrade (1923), Julian Barnes (1946)

Jean Molière (1622), Pierre Proudhon (1809), Martin Luther King (1929)

20 de Janeiro

16 de Janeiro Vittorio Alfieri (1749)

Pedro Barca (1600), Benjamim Franklin (1706), Sebastian Junger (1962)

Euclides Cunha (1866), Johannes Jensen (1873), Federico Fellini (1920), Renata Pallottini (1931)


22 de Janeiro Francis Bacon (1561), John Donne (1572), Gotthold Lessing (1729), George [Lord] Byron (1788), August Strindberg (1849), Harold Geneen (1910)

26 de Janeiro Afonso Lopes Vieira (1878) 27 de Janeiro Friedrich Schelling (1775), Mikhail Saltykov-Stcherdrine (1826), Lewis Carroll (1832)

23 de Janeiro Stendhal (1783), Derek Walcott (1930)

24 de Janeiro Pierre Beaumarchais (1732), Delphine Girardin (1804), Augusto Meyer (1902), António Manuel Couto Viana (1923), Eduardo Olímpio (1933)

25 de Janeiro William Maugham (1874), Judith Teixeira (1880), Virginia Woolf (1882), Ramalho Eanes (1935)

28 de Janeiro António Feliciano de Castilho (1800), José Martí (1853), Sidonie Colette (1873), Roy Smith (1887), Vergílio Ferreira (1916), António Arnaut (1936), António Osório (1964) 29 de Janeiro Thomas Paine (1737), Anton Tchekhov (1860), Romain Rolland (1866), Oprah Winfrey (1954) 31 de Janeiro Luís Montalvor (1891), Kenzaburo Oe (1935)


ORGANIZAÇÃO E NÚCLEO EDITORIAL #1 Mirian Marchi Rafael Zimichut Carlos Jr. Daniel da Silva Gomes Geovane Gomes

DIAGRAMAÇÃO E CAPA Rafael e Ana Zimichut

AGRADECIMENTOS ESPECIAIS Gostaríamos de agradecer primeiramente a Deus por nos dar a condição de concluirmos com sucesso a segunda edição de um sonho. Também queremos agradecer a cada um de nossos colaboradores, parceiros e leitores, todo o nosso carinho e afeto será pouco para retribuir cada experiência que temos tido com cada um de vocês, tudo será sempre preparado com carinho para vocês.

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REVISTA LITERÁRIA WORLD BOOK REVIEW Nº 2  

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