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que tinha uma das mais belas músicas no mundo? Os músicos cubanos, parece que ainda não sabem o que aconteceu com o repertório brasileiro: ao nos ouvir falar o português já vão atacando a Garota de Ipanema, Aquarela do Brasil e Tom Jobim.

O enfermeiro de família é uma figura conhecida no bairro. A singeleza das instalações não diz que os indicadores de saúde são do primeiro mundo (mortalidade infantil, expectativa de vida)

Numa destas noites de música, um cantor nos pede pra conferir sua pronúncia do Samba de Uma Nota Só do Tom Jobim. Conta que um brasileiro ouviu e não entendeu nada. Naturalmente que o brasileiro não conhecia a música, explicamos para o surpreso cantor. A pronúncia do cubano, embora com sotaque, estava corretíssima. Ele ficou mais tranqüilo. Afinal, tinha ensaiado um bocado e visto o vídeo do velho Tom a cantar montes de vezes. As semanas seguintes nos trazem encontros deliciosos com este povo alegre e acolhedor. Praias incríveis, a cidade palpitante de vida, as marcas da história e da revolução e a ideologia que alguns podem chamar de romântica, outros de ultrapassada, mas que sem dúvida marcou a história da política de nosso tempo. O povo sofre com a escassez de muitas coisas: mas a mortalidade infantil e a expectativa de vida ultrapassam as taxas dos paises ricos. Há educação de qualidade para todos e segurança nas ruas. Cuba sempre será uma polêmica discussão - pra render horas de conversa. Em alguns dias, saímos de nosso luxuoso hotel para ficar na casa de uma familia cubana. Um hostel singelo, mas muito mais acolhedor porque nos servem e se sentam a mesa conosco os donos da casa. Estamos mais perto da Cuba de verdade. Somos recebidos numa unidade de saúde por um simpático enfermeiro de família que nos apresenta pra vizinhança e leva a conhecer o cotidiano de seu trabalho. Ele e o médico são muito queridos nos arredores. A noitinha ele nos recebe em sua casa para um café. Aliás, receber bem é uma rotina por aqui. Em Cuba não precisa muita coisa pra fazer uma festa! O embargo econômico imposto pelo “Irmão do norte” sacrifica a vida dos cubanos. Há falta de tudo, mesmo dos insumos mais elementares. Mas os cubanos continuam se virando como dá e como podem – a prova de que há sim, vida sem consumo. Os velhos carros rodam e na casa onde ficamos um manete de motocicleta substitui com vantagens o cabo da cafeteira. E as plantações de fumo vicejam (não me perguntem como!) sem venenos e sem agrotóxicos.

Prosseguimos nossa caminhada pela escura e musical cidade. Ao dobrar em uma das vielas, nos surpreendemos com a Plaza de la Catedral, uma espécie de praça de alimentação ao ar livre, rodeada de edificações do período colonial espanhol. Há balcões e arcadas, a catedral majestosa, o piso de pedra, mulheres em trajes africanos jogando búzios, pondo cartas de tarô, mesinhas cheias de gente, dança, flores e música. No palco, o Balé da TV Nacional de Cuba e vários cantantes locais fazem o ensaio geral do espetáculo de réveillon, que será muito bem cobrado dos turistas pelo preço dos cabarets mais famosos de Paris. Cuba sabe cobrar muito bem em Euro e Dólar. Afinal, sua maior arrecadação é o turismo.Mas o ensaio geral nos dá a oportunidade de ver o show de graça. Amanha temos um compromisso longe dos turistas. Comemoraremos o Réveillon em um dos velhos casarões, junto com uma família Cubana. Entre os transeuntes que apreciam o show dois lindos turistas observam, cada qual por seu lado. Um chinês, tomando vinho branco e do outro lado um italiano. Fitam ambos o palco com olhos sonhadores. De vez em quando cruzam os olhares. Quando vamos embora, uma hora depois, os dois estão bebendo vinho juntos e conversando animadamente. Em que língua será que falam? Saímos da Plaza com pena de ir embora, mas estamos mortos de canseira. A caminhada de reconhecimento pelos arredores do hotel levou horas ao invés dos 40 minutos que estávamos planejando. Já estamos encantados e nem vimos esta cidade à luz do dia!

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Valeu Março 2016  
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