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A frota Cubana

Depois de uns 15 minutos a confusão no transito se esclarece: há mais a frente um velho Pontiac quebrado, mas os mecânicos já estão trabalhando. Os condutores das bicicletas ajudam a organizar o pequeno engarrafamento que se desloque de ré, até desobstruir a viela. Ao rodear a quadra vemos o carro cor de rosa que parece ter saído dos filmes da Hollywood dos anos 50. Uma lâmpada portátil no chão e um monte de ferramentas, o mecânico deitado em baixo do carro, já em plena ação. Guincho? Parece que por aqui não tem. A oficina vai até o carro. Aliás, deve ser uma excelente profissão neste país, pois metade da frota é de carros do tempo em que o calendário de Cuba parou e fez uma longa curva na história. Finalmente, após achar o hotel, luxuoso palacete dos antigos importadores, deixamos nossas mochilas e saímos nas ruas escuras. Os porteiros atenciosos da Habaguanex - companhia turística do governo - nos asseguram que não há perigo. Os assaltos são raríssimos ou inexistentes. Não existem armas em poder da população civil. É uma sensação estranha, para os freqüentadores das grandes cidades do mundo, caminhar pelas ruas escuras e musicais desta metrópole[2], sem sentir medo de ladrões ou violência. Um lugar no mundo onde o crack e o tráfico de drogas e armas praticamente inexiste. Andando devagar podemos ver e ou-

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vir músicos a cada, poucos passos. Grupos de salsa, jazz, música clássica ou folclórica de tão boa qualidade, que chega a dar raiva! Como é que pode? Tanta gente boa tocando em um só lugar e num só dia? Depois de alguns dias, vemos que a noite de Cuba é assim mesmo. Cheia de música, dança e gente do mundo todo. Um bom jazz nos convida a entrar num bar e beber a música. Ao nosso lado, observamos um velho turista inglês de roupas floridas, longos cabelos brancos e sapatos ridículos. Ele abre uma maleta, retira seu instrumento musical e ataca Dave Brubeck num saxofone afinadíssimo, de improviso, se enfiando na banda. A surpresa faz a delícia da platéia e diversão condescendente dos músicos – eles não precisam de mais uma estrela – mas tudo faz parte do show – Cuba precisa e gosta dos turistas. E tem uma hora que dá na gente uma pontada de tristeza e inveja, porque não? Ali em Cuba todo mundo sabe o que é música boa. Ha bons conservatórios e escolas de música. Escuta-se música de qualidade nos táxis, nas bicicletas, nas praias e nas moradias pequenas amontoadas das vielas e prédios de Habana Vieja e demais bairros mais modernos com suas casas elegantes. E parece que em nosso país perdemos a capacidade de ouvir música de boa qualidade... O que aconteceu com a educação musical em um país

Valeu Março 2016  
Valeu Março 2016  
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